O livro narra a jornada de sobreviventes de um naufrágio ao largo da costa africana,
especificamente na região da Cafraria (atualmente parte da África do Sul). A narrativa começa
com a descrição da destruição de suas embarcações, a Náo e o Galeão, e como os
sobreviventes se organizaram após o desastre.
Após o naufrágio, os sobreviventes enfrentaram inúmeros desafios, incluindo a necessidade de
encontrar comida e água, lidar com o clima adverso e navegar por territórios desconhecidos e
muitas vezes hostis. Eles encontraram várias tribos locais ao longo do caminho, algumas das
quais eram amigáveis e outras hostis. A interação com essas tribos foi essencial para a
sobrevivência do grupo, pois muitas vezes dependiam delas para obter alimentos e
orientações.
A jornada foi marcada por perigos constantes, incluindo ataques de tribos locais, animais
selvagens e as dificuldades inerentes à travessia de rios e regiões pantanosas. Apesar dos
desafios, o grupo foi auxiliado por alguns membros das tribos locais, que os guiaram e
forneceram recursos essenciais.
Eventualmente, o grupo chegou a Moçambique, onde foram recebidos por outros portugueses.
A chegada foi marcada por uma mistura de alívio e tristeza, pois, enquanto estavam gratos por
terem sobrevivido à sua provação, também foram confrontados com notícias de outros
desastres marítimos e perdas na região.
A narrativa conclui refletindo sobre os perigos do mar e a resiliência e determinação dos
portugueses em enfrentar tais adversidades. Há uma ênfase particular na habilidade dos
portugueses em navegar e descobrir os "segredos do mar e da terra"
No ano de 1647, a Nau Nossa Senhora da Atalaia enfrentou um dos momentos mais críticos da
sua existência. No dia 19 de Abril, sob as ordens do Almirante, a tripulação saudou o Galeão
Sacramento com uma salva de sete tiros de canhão. O que deveria ser um gesto de cortesia e
camaradagem rapidamente se transformou em calamidade.
Após a salva, a Nau Nossa Senhora da Atalaia começou a fazer água a um ritmo alarmante.
Escravos e grumetes, em uma tentativa desesperada de manter o navio à tona, esgotavam a
água que invadia o navio duas vezes por dia. A situação era agravada pelo fato de que a
embarcação já mostrava sinais de envelhecimento, tornando-a mais vulnerável a tais
adversidades.
Aqueles a bordo que tinham conhecimento marítimo estavam cientes do perigo iminente. O
Cabo da Boa Esperança, conhecido pelas suas águas traiçoeiras e tempestades violentas, estava
no horizonte da rota da nau. E enfrentar esse desafio durante o rigoroso inverno só aumentava
os riscos. As tempestades nesta região são notoriamente desafiadoras, e mesmo as
embarcações mais robustas e novas enfrentam dificuldades para navegar por estas águas.
Infelizmente, a combinação de um navio antigo, danos estruturais após a saudação e as
condições adversas do Cabo da Boa Esperança culminaram no trágico naufrágio da Nau Nossa
Senhora da Atalaia. Este evento serve como um lembrete sombrio dos perigos do mar e das
decisões que, embora tomadas com boas intenções, podem ter consequências devastadoras.
SENHOR,
Sendo costume e sempre verdadeiro propósito dos perigos logo se contar
depois de passados, outro maior mérito fica dos que me custaram tanto, qual
foi o que Vossa Majestade, que Deus guarde, mostrou quando me fez mercê
escutar o largo discurso dos mesmos, mandando-me lhe oferecer depois de tão
larga jornada. Pois Vossa Majestade tem tanto a sua conta honrar e premiar
seus vassalos, como também a rigorosa certeza de passar os olhos pela relação
dos trabalhos de tantos, porque com esse só fato receberemos todos o maior
prêmio que se pode desejar. À muito alta e poderosa pessoa de Vossa
Majestade guarde nosso Senhor, como estes Reinos hão mister, e deseja seus
vassalos. Lisboa, 3 de janeiro de 1650.
Com o devido respeito e na mais humilde posição, Bento Teixeira Feio.
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Na noite, soltámos as velas com ventos favoráveis até atingir uma latitude de dez graus e um
terço a norte. Numa manhã de sábado, a Capitania içou uma bandeira, que logo avistámos,
assim como uma outra vela. Ao aproximar-se mais, a Capitania disparou duas peças sem bala,
forçando o outro navio a reduzir as velas e a lançar o seu batel ao mar. O Capitão Mor enviou o
seu escudeiro, Manuel Luís, com uma equipa ao batel. Durante quatro dias e noites,
mantivemo-nos na companhia deste navio. Durante este tempo, o Capitão Mor tentou
convencer a tripulação do outro navio, que tinha sido capturado, a juntar-se a nós, apesar de
trazerem cartas do Vice-Rei em nome do Rei para Mucelapatao, um aliado importante da Índia.
No entanto, o capitão, os oficiais e os cavaleiros do navio Asfalaya, ao serem consultados sobre
o assunto, não concordaram com a proposta. Deixámos a área na terça-feira, 5 de março.
Durante os dias em que estivemos parados, os marinheiros experientes acreditavam que
tínhamos perdido tempo valioso, o que mais tarde se confirmou quando enfrentámos
dificuldades para contornar o Cabo da Boa Esperança.
A bordo do navio em que embarquei, os religiosos tomaram a iniciativa de cantar as Ladaínhas
todos os dias, celebrar a Missa e pregar aos domingos e dias santos. João da Cruz, o Guardião
do navio, construiu um sepulcro muito elaborado, onde mantivemos o Senhor exposto durante
vinte e quatro horas, com confissões e comunhões realizadas na Quinta-feira Santa.
A 12 de março, chegámos à foz do rio, com a Capitania a cortar caminho devido ao sinal que
tinha sido dado.
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Com três peças, descobrimos que o Inquisidor Antonio de Faria Machado havia
falecido. Ele tinha estado na Índia durante dezessete anos e era muito
respeitado e admirado por sua conduta e autoridade. Sentimos a sua perda,
assim como a de outras pessoas que tinham saído de Goa doentes. Ainda assim,
havia muitos fidalgos e pessoas nobres que, com a sua coragem, ajudaram na
salvação daqueles de nós que sobreviveram, muitas vezes arriscando as suas
próprias vidas.
Com chuvas intensas e períodos de calmaria, navegámos depois de cruzar a
linha do Equador. De repente, um grito vindo da gávea anunciou: "Uma vela à
vista!" Era o Galeão S. Pedro, que tinha partido de Goa quinze dias depois de
nós e nos acompanhou durante vinte dias antes de seguir o seu próprio
caminho.
No dia 19 de Abril, o Almirante ordenou uma saudação ao Galeão Sacramento
com sete tiros de canhão. No entanto, o nosso navio começou a fazer água
rapidamente, e escravos e grumetes tinham que esgotá-la duas vezes por dia.
Isso preocupava aqueles que entendiam o perigo que enfrentávamos,
especialmente porque o nosso navio era antigo e estávamos prestes a enfrentar
o Cabo da Boa Esperança durante o rigoroso inverno, quando as tempestades
são frequentes e desafiantes, mesmo para embarcações novas.
Em 10 de Junho, já a uma latitude de 33 graus sul e com bom tempo, o nosso
mastro principal quebrou. Informámos a Capitania sobre o incidente e sobre a
água que entrava no navio, pedindo-lhes que nos acompanhassem. Foi-nos
enviado um semi-mastro para reparar o dano, mas devido ao aumento do
vento, não foi possível realizar o conserto. Em 12 de Junho, ao anoitecer,
estávamos ainda na companhia da Capitania quando o vento acalmou pouco
antes do pôr do sol, seguindo na mesma direção.
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Da terra, com o vento vindo do oeste, surgiu um céu muito vermelho com nuvens
negras e carregadas. Houve um relâmpago isolado e avistámos um peixe Orelhão, uma
criatura grande, ambos sinais de uma noite tempestuosa que se aproximava. O vento
começou a soprar com força. Recolhemos as velas e ficámos apenas com os papafigos
ajustados durante uma parte da noite. Com o surgimento da Lua, o mar agitou-se e o
vento intensificou-se de tal forma que o navio inclinou-se violentamente, levando
muita água para o convés e submergindo as antenas e cordas.
Ordenou-se que se recolhessem as velas e cordas para virar a vela principal, mas
devido ao medo do forte temporal e à inexperiência de alguns marinheiros, as velas
foram recolhidas de forma desordenada. Isso fez com que o navio virasse
abruptamente, enfrentando um vendaval tão intenso que destruiu a vela principal e o
traquete. O estrondo foi tão grande que pensámos que o navio iria partir-se. Durante
algum tempo, o navio foi jogado de um lado para o outro pelas ondas, tornando quase
impossível mantermo-nos de pé. Naquele momento, muitos da tripulação já haviam
falecido devido a doenças, restando apenas oito marinheiros, quatro grumetes e alguns
passageiros. Todos se esforçaram para controlar uma vela de emergência que tínhamos
preparado para situações extremas. Com esta vela, conseguimos estabilizar um pouco
o navio, apesar da vela principal estar destruída e o traquete estar danificado, com os
estandartes presos e impossíveis de cortar devido às condições adversas. Neste estado,
passámos o resto da noite com o navio a ser constantemente atingido pelas ondas,
acumulando rapidamente água no convés, enquanto tentávamos manter o curso com o
vento.
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Um tempestuoso amanhecer nos surpreendeu no dia de Santo António, com as velas rasgadas
e sem a companhia da Capitania. Preparámo-nos para a noite seguinte, que se mostrava tão
ameaçadora quanto a anterior, com chuvas de pedras tão grandes quanto as velas,
acompanhadas de muitos trovões e relâmpagos.
Apesar do mau tempo, e com o navio a navegar a favor do vento, fomos ajustando e retirando
o pano que restava na verga, colocando uma vela menor no traquete, para que, caso o vento
diminuísse, o navio pudesse manobrar e evitar as ondas que pareciam querer nos engolir.
Passámos esse dia e, no seguinte, com o tempo um pouco mais calmo, ajustámos outra vela,
mas sem nunca largar as bombas. Após alguns dias de navegação, avistámos terra a 32 graus e
decidimos rumar para ela, com a esperança de que, à sua sombra, poderíamos fazer reparos e
verificar a condição da água no navio. No entanto, a principal preocupação parecia ser a pesca,
e houve quem criticasse essa falta de atenção ao estado do navio.
O Mestre Jacinto António, considerando a situação em que nos encontrávamos e a escassez de
soluções, achou prudente dirigir-se a Moçambique antes que o tempo nos impedisse
completamente. Lá, poderíamos salvaguardar os bens e a artilharia de Sua Majestade e
procurar ajuda para todos. Esta ideia espalhou-se rapidamente. Dom Duarte Lobo pediu ao
Mestre que, ao verificar o estado do navio, do qual havia relatos variados, levasse consigo os
outros oficiais para decidir o melhor a fazer. No entanto, muitos não ficaram satisfeitos com
esta proposta, devido aos compromissos que tinham e à pouca atenção que lhes foi dada em
Goa. Isso fez com que o Mestre e os outros que consideravam a ideia de dirigir-se a
Moçambique fossem intimidados, de modo que a única decisão tomada foi continuar a
navegar.
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A caminho de Portugal, navegamos por várias rotas durante alguns dias, aumentando a nossa
distância em relação ao Cabo. As bombas não paravam de trabalhar, e todos nós ajudávamos,
sem exceção, incluindo os próprios religiosos.
Preparámos alguns barris para bombas, fazendo-lhes arcas e abrindo a boca do porão para
uma cisterna. No entanto, o esforço foi em vão devido à forma como a artilharia tinha sido
arrumada em Goa. Na boca da escotilha, deixaram quatro peças, e havia rumores de que o
navio tinha muitas curvas e pés de carneiro fora do seu lugar. Decidiram que, navegando a uma
altitude menor, encontraríamos condições mais calmas e poderíamos recolher alguma água. O
Mestre, outros oficiais e o Almirante foram verificar a situação abaixo do convés, sem levar D.
Duarte Lobo, apesar de ele ter pedido. Quando regressaram, o Mestre, mostrando três pregos
do forro, disse que o navio não estava em condições de ir a Jerusalém. Assim, decidiram
apenas focar-se na viagem de regresso ao Reino e na pesca, voltando para o mar sem tomar
mais medidas, apesar dos riscos e desafios da viagem que tinham pela frente.
Ao virar para terra no dia de São Pedro e São Paulo, o Piloto Gaspar Rodrigues Coelho decidiu
soltar a vela da gávea de proa. O Sotapiloto Balthazar Rodrigues avisou-o de que estavam perto
da terra, mas Gaspar respondeu que tinha navegado por aquela costa durante muito tempo e
que não havia motivo para preocupações, a menos que vissem as duas empulhetas do
quartinho. Bras da Costa, marinheiro e cunhado do Mestre, que estava a comandar a
navegação, gritou em alta voz e com grande urgência: "Virem para cima, irmãos!" Isso causou
um alvoroço no navio, pois viram um banco de areia à superfície do mar.
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Na Baía da Lagoa, a oito braças de profundidade, lançando o prumo, encontraram essa medida,
causando grande preocupação a todos, como se pode imaginar ao pensar em tal perigo.
Rapidamente ajustámos as velas, içando e ajustando a vela da gávea grande mais de doze
vezes. Os oficiais e os restantes não abandonaram os seus postos. O Sotapiloto Balthazar
Rodrigues, que se manteve firme durante esta provação, gritou da proa, de onde dirigia o navio
com grande precisão, dizendo para não temerem, pois ele levaria o navio pelo mesmo caminho
por onde tinha entrado. As ondas rebentavam por todos os lados, fazendo o navio balançar
intensamente, como se viesse das profundezas. Ao encontrar-se atravessado por três ondas
consecutivas, o impacto foi tão grande que parecia que o mundo estava a acabar.
O Guardião João da Cruz, que ajudava nas bombas com os grumetes, tão aflito, clamou pelo
céu e Deus nosso Senhor enviou um vento que nos empurrou para fora. Como a principal
solução em tal tribulação estava nas mãos de Deus e no nosso esforço, todos trabalharam
arduamente, incluindo os religiosos, que nesta ocasião valiam por muitos. O Padre Fr. António
de São Guilherme da Ordem de Santo Agostinho, que estava a caminho de Portugal como
Procurador Geral da sua Congregação, trabalhou tanto que, quando o Padre Fr. Diogo da
Apresentação da mesma Ordem se aproximou para lhe dar a confissão, ele respondeu que não
era o momento, mas sim de trabalhar. Ao dirigir-se para o convés para nos ajudar, caiu por uma
escada devido a um dos balanços do navio, abrindo uma grande ferida na cabeça. No entanto,
após apertar a ferida com um lenço, não deu mais importância ao assunto até que a situação
se acalmasse.
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Na tarde anterior, tinha-se feito uma súplica ao Santo Cristo do Carmo de Lisboa.
Vendo algumas pessoas o navio em tamanha aflição e desespero, e depositando a sua
esperança apenas em Deus, gritaram em altas vozes: "Alegria, irmãos! Agora vi na
gávea a Nossa Senhora com uma luz, como uma coroa, de grande resplendor." Nesse
momento, o ânimo e a coragem de todos foram tão reforçados que a morte já não era
temida. Assim passámos a noite, com o navio tão danificado por todo este esforço que
não havia parte que não deixasse entrar água. Todos acorreram às bombas e
perceberam que a água entrava ainda mais rapidamente, agravada pelo grande
temporal que se abateu sobre nós no dia seguinte. Navegámos com a vela da proa,
enfrentando o mar agitado e os fortes balanços do navio, esperando a cada momento
que ele se partisse ao meio. O mar lançava tanta água sobre nós que os padres tinham
de se revezar na popa, benzendo os mares. Se alguma vez se distraíam, as ondas
tornavam-se tão fortes que o contramestre, que estava ao leme, sentia-se quase
afogado, gritando por ajuda, já que todos estavam ocupados com as bombas. Os
religiosos e passageiros, que estavam sob nossa responsabilidade devido ao número
reduzido de tripulantes, ajudavam na bomba de estibordo, enquanto os grumetes
trabalhavam de dia e os cafre de noite na bomba de bombordo. D. Duarte Lobo e D.
Sebastião Lobo da Silveira assistiam dia e noite, desde 13 de Junho, quando
começaram os trabalhos, incentivando com doces e mimos aqueles que trabalhavam,
pois como não havia fogo, tudo era necessário e nada faltava.
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A bomba de água dava-nos imenso trabalho e preocupação porque frequentemente
nos faltavam os fusíveis. Decidiu-se que os cafre deveriam assistir à bomba durante os
turnos da noite, mas isso não foi cumprido, ficando apenas os dois calafates. Estes, ao
perceberem o aumento do nível da água, alertaram várias vezes para o perigo em que
nos encontrávamos, mas foi ordenado que não causassem pânico a bordo. Ao
amanhecer, abrimos a escotilha principal e encontrámos água acima do lastro.
Rapidamente, montámos as bombas e tentámos esvaziar a água, mas em menos de
duas horas, o nível da água aumentou tanto que os barris começaram a encher-se por
si mesmos. As pipas do porão romperam-se e os sacos de pimenta espalharam-se,
obstruindo as bombas. Com este cenário, trabalhámos continuamente com dois barris
de quatro almudes e dois de seis, usando o cabrestante e ao redor do mastro principal,
onde abrimos uma grande escotilha para permitir a saída de mais pimenta do que
água. Com todo este esforço e com o navio já inclinado para a proa, não conseguíamos
controlá-lo, com a água já acima do convés e a proa submersa mais de dois palmos.
Neste perigo evidente, passámos dois dias e duas noites sem avistar terra, até que ao
amanhecer vimos uma ponta de recifes com muitas árvores, parecendo ser a foz de um
rio com uma longa praia de areia e uma grande enseada, que julgámos ser possível
alcançar a pé com o batel. Em conselho, considerando a situação do navio, decidiu-se
procurar a terra avistada, lançando ao mar a artilharia, que sempre esteve pronta,
exceto a da Cuina, que...
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Durante a viagem, não conseguimos manter o porão devido à incapacidade dos corpos de
suportar o trabalho, e duas peças foram lançadas ao mar. Com um vento suave, embora o mar
estivesse agitado, içámos a vela da gávea grande. No entanto, ao ajustá-la, rasgou-se, assim
como a vela de proa. A cevadeira estava toda rasgada e o traquete com muitos cortes.
Navegámos com a vela grande, que, ao ajustá-la, também se rasgou.
Nesse momento, o Almirante ordenou ao Condestável Francisco Teixeira que guardasse alguma
pólvora e balas em barris, recolhesse as armas disponíveis e todo o cobre e bronze, que
serviriam como moeda naquela região da Cafraria, para comprar o necessário. A noite foi
passada a trabalhar nos gamotes, enquanto os nativos, já em terra, faziam grandes fogueiras.
Na manhã seguinte, 3 de Julho, começámos a preparar o batel para desembarcar, assim que o
mar permitisse. No entanto, o vento mudou e, com o traquete, ancorámos em sete braças de
profundidade. O Mestre ordenou que cortassem as cordas grandes, deixando a verga
atravessada no meio do convés, para que, se cortada, pudesse transportar algumas pessoas.
Lançámos o batel ao mar com instruções para levar apenas algumas pessoas, armas e
mantimentos para estabelecer um acampamento, enquanto os restantes ficavam a bordo. No
entanto, devido à forte corrente e ao avançar da hora, o batel regressou sem desembarcar
nada, informando que o mar não estava propício e havia um grande banco de areia. Ao
anoitecer e com a maré a baixar, o navio começou a encalhar e a lançar água.
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Durante a meia-noite, perdemos o leme, o que nos levou a cortar a árvore grande e o traquete,
lançando a outra âncora para não sermos arrastados pela corrente. Ao virar com a maré,
ficámos em oito braças de profundidade.
Ao amanhecer, na quarta-feira, 4 de Julho, juntámos todos os cabos finos para fazer uma corda,
que foi fixada dentro do batel. Com as pessoas necessárias, armas e o que puderam levar à
mão, deixando uma ponta da corda no navio, remaram em direção à terra. Ao chegarem à
rebentação, a ondulação era tão forte que o Padre Fr. Diogo da Apresentação, que estava no
batel, absolveu a todos, com cada um confessando-se publicamente devido à situação crítica.
Chegaram à terra sem interferência dos nativos, que não apareceram. Desembarcaram o que
levavam e, regressando ao navio, fizeram uma segunda viagem com D. Bárbara e Joana do
Espírito Santo, duas portuguesas, bem como todas as escravas que levávamos, o Almirante e D.
Sebastião Lobo, entre outros. D. Duarte Lobo e o Padre Fr. António de São Guilherme
permaneceram no navio com os oficiais e eu. Optámos por não deixar este nobre, apesar dos
seus pedidos para que nos embarcássemos. Todos estavam exaustos, pois os que podiam
trabalhar ou estavam no batel ou ficaram em terra para proteger o que estava sendo
desembarcado e ajudar os que estavam no batel. Os restantes a bordo não conseguiram
construir uma jangada nem embarcar quatro fardos de arroz, apesar de haver mais de mil na
embarcação. Não chegaram à terra mais do que trinta fardos, e estes estavam molhados. Nesse
dia, o batel fez quatro viagens à terra, e na última, já quase de noite, D. Duarte embarcou.
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Juntamente com os oficiais, a pedido de todos, e com ele o Padre Fr. António e o Padre
Francisco Pereira, que foi da Companhia de Jesus, não consentiram que se levasse mais gente
no batel do que o necessário. Com a maré a subir e os escravos a bordo, chamámos pelo Padre
Capelão, que não quis sair, dizendo que ficaria com aqueles irmãos para os acompanhar, pois a
noite prometia ser difícil e não havia ninguém a bordo para trabalhar nos cabos. Nessa viagem,
embarcámos setenta pessoas e, ao chegar à terra com dificuldade, o batel estava alagado até à
borda, levando alguns de nós a nadar.
Aquela noite, o batel ficou encalhado, e os da embarcação passaram por grandes dificuldades.
Pela manhã, no dia 5 de Julho, Bras da Costa e Paulo de Barros embarcaram com o restante
grupo que estava no batel. Estes dois marinheiros sempre se mantiveram no batel,
enfrentando riscos e trabalhos, enquanto os outros se revezavam. Muitos, depois de chegar à
praia, voltavam para o navio em busca de comida, que escasseava em terra. A primeira viagem
foi feita com segurança graças à corda, mas na segunda, com o mar agitado e ao regressar do
navio para a terra, apesar dos esforços daqueles que já estavam no batel, muitas pessoas
lançaram-se a ele, sobrecarregando-o. Quando já estavam a alguma distância do navio, um
chinês, pertencente a D. Sebastião Lobo, cortou com um machado a corda que estava presa ao
navio. Com isso, ao ser atingido pela ondulação, o batel virou-se, inundando-se com as setenta
pessoas a bordo. Cinquenta delas morreram afogadas, e nós, que estávamos em terra, não
pudemos ajudar, puxando o batel para a praia, onde chegou completamente danificado.
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E aqueles que escaparam, sem que o mar devolvesse nada do que foi embarcado a bordo.
Na terça-feira, o Almirante ordenou que se reparasse o batel e, oferecendo quinhentos xerafins
a quem se aventurasse nele até ao navio para buscar as pessoas que lá permaneciam, ninguém
se atreveu devido ao mar agitado e ao terror do acontecimento do dia anterior. Os que
estavam a bordo causavam um espetáculo lamentável com os seus gritos e clamores dirigidos
ao céu. Mesmo à distância, os gritos eram tão intensos que percebíamos o desespero daqueles
que estávamos na praia. E como já não havia mais refúgio no navio, exceto o mastro grande à
ré, e o resto estava coberto pelo mar, e perdendo a esperança no batel, muitos se lançaram à
água em pares, dos quais alguns chegaram à terra e os restantes pereceram. Na noite anterior,
tinham disparado um canhão pedindo ajuda.
Na noite seguinte, de sexta-feira para sábado, alguns negros chegaram à nossa terra, dizendo
que ainda havia pessoas brancas no navio, sem mais proteção do que um painel na popa, onde
estava a imagem de Nossa Senhora da Atalaya. No entanto, ao amanhecer, o navio
despedaçou-se completamente, com apenas um pequeno quartel intacto chegando à terra, e o
restante em pedaços. E assim, testemunhámos o fim trágico de um navio tão poderoso, e aqui
vimos muitos nus e pobres, que há pouco tempo eram ricos e bem vestidos.
O Almirante fez uma chamada aos sobreviventes, dividindo-os em três esquadrões. Ele ficou
responsável pelo dos passageiros, e os marinheiros e grumetes foram distribuídos pelos
oficiais. Ordenou que tudo o que fosse encontrado para comer fosse levado ao acampamento
principal.
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Para isso, nomeei alguns homens que percorressem a praia, proibindo aos restantes sair do
acampamento. Mudámos o acampamento para o interior da floresta, pois na praia onde
desembarcámos, estávamos cobertos de areia. Construímos barracas, que são o mesmo que
tendas de panos brancos, onde nos alojávamos, preparando-nos para a jornada que
esperávamos fazer pela Cafraria até ao Cabo das Correntes. Os mantimentos encontrados
foram colocados no acampamento sob vigilância. Durante os onze dias que estivemos ali,
enfrentámos grandes dificuldades de fome e sede, devido à falta de mantimentos. A água tinha
de ser buscada no Rio do Infante, a quase uma légua de distância, e era de tão má qualidade
que muitos adoeceram e morreram, incluindo Vicente Lobo de Sequeira, membro da Ordem de
Cristo e natural de Macau, que já se tinha perdido nesta região no navio S. João, e um artilheiro
chamado Marcos Coelho.
Para os casos que surgissem, foram nomeados como adjuntos ao Almirante, D. Sebastião e D.
Duarte Lobo da Silveira, irmãos, Domingos Borges de Sousa, senhor da Vila e membro do
Conselho de Alva, que veio do Reino no mesmo navio, os Padres Fr. António de S. Guilherme e
Fr. João da Encarnação, e os oficiais do navio e o escrivão João Barbosa, uma vez que Francisco
Cabrita Freyre estava à beira da morte. Neste naufrágio, encontraram-se três marinheiros que,
quatro anos antes, se tinham perdido nesta região no navio, do qual D. Luís de Castelbranco
era capitão. Eles tinham viajado pela Cafraria até ao Cabo das Correntes e chamavam-se
António Carvalho da Costa, Paulo de Barros e Mattheus Martins. Os dois primeiros foram
nomeados como negociadores do acampamento, juntamente com Alexio da Silva, um
passageiro nomeado como feitor. Nesta praia onde desembarcámos, encontrámos, durante a
maré baixa, uma grande quantidade de amêijoas muito saborosas, que ajudaram a aliviar a
fome que enfrentámos.
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O piloto Balthazar Rodrigues, juntamente com Urbano Fialho Ferreira, membro da Ordem de
Cristo e filho de António Fialho Ferreira, e outros, chegaram ao Rio do Infante e encontraram
trinta e três grãos e um terço. Observaram um recife que se estendia para o noroeste, repleto
de árvores, e uma praia com mais de duas léguas de extensão. A costa tinha bancos de areia
branca com árvores espalhadas e o terreno era rochoso. Ao tomar o sol, foi dado o alerta da
presença de Cafres na praia. Tentaram comunicar com eles através de gestos, mas não
conseguiram entender a sua linguagem, pois falavam por sinais. Os Cafres andavam nus e
apenas usavam algumas peles como vestimenta. Não praticavam agricultura e sobreviviam
comendo algumas raízes, caça e mariscos que encontravam na praia. As suas armas eram paus
afiados e algumas lanças de ferro.
Quando D. Duarte Lobo e os outros regressaram ao acampamento, distribuíram as armas, balas
e pólvora, bem como alguns recipientes para guardar o cobre necessário para o resgate, linhas
e arpões para atravessar os rios. Tudo foi registado nos livros do Rei. O arroz que tinham estava
todo estragado e podre, o que acelerou a sua partida, deixando enterrados o cobre e a pólvora
excedentes.
Durante os dias que estiveram ali, o Almirante tratou com o piloto Gaspar Rodrigues Coelho, o
escrivão Francisco Cabrita Freyre e outros que estavam doentes ou incapacitados de marchar.
Propôs-lhes que, se desejassem, prepararia o batel e forneceria tudo o que fosse necessário
para a viagem. No entanto, o piloto não aceitou a oferta, e assim, o assunto não foi mais
discutido. Esta decisão foi tomada principalmente para que estas pessoas, juntamente com as
mulheres e outros doentes, não se tornassem um fardo, como se verá mais tarde.
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D. Sebastião Lobo da Silveira era tão incapaz de marchar devido ao seu excesso de peso e
outros problemas de saúde que o impediam de andar sequer alguns passos por si mesmo.
Assim, pediu aos grumetes e oficiais que o persuadissem, e através do seu irmão, D. Duarte
Lobo, que era bem visto por todos, chegaram a um acordo para o transportar numa rede feita
de linhas de pesca. Cada grumete receberia oitocentos xerafins, e D. Duarte Lobo deu
penhores de ouro como garantia. Este fidalgo também estava doente, e durante a nossa
estadia no acampamento, tememos pela sua vida. Uma vez organizada a rede com os seus
servos e mais dois que comprou, preparou-se para a jornada. Domingos Borges de Sousa fez
um andor de uma alcatifa, e Francisco Cabrita fez outro de um pano, usando remos do batel
como canas, adaptados pelo carpinteiro. O Piloto, apoiando-se em duas muletas, e os outros,
conforme as suas condições de saúde permitiam, seguiram com as suas armas e cada um com
os seus alforjes, onde carregavam o seu resgate em cobre e roupa para a sua higiene pessoal.
Teria sido necessário mais tempo para descansar do esforço anterior e ganhar forças para os
desafios que nos esperavam, mas a falta de alimentos e as condições adversas do local
apressaram a nossa partida na segunda-feira, 15 de julho, pela manhã, depois de todos
rezarem uma ladainha à Nossa Senhora. É difícil expressar a emoção e as lágrimas que
marcaram o início desta trágica e lamentável jornada. Ficaram para trás, devido a ferimentos,
um Cafre do Contramestre Manoel de Sousa e um jovem cabrito meu.
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Uma jovem negra pertencente ao Condestável Francisco Teixeira, que morreu afogado ao vir
para terra no batel.
Começámos a marchar, com o Almirante levando a dianteira, o Mestre Jacinto António a
vanguarda e o Contramestre a retaguarda. Desde o início, sentimos pena e compaixão pelos
doentes e aqueles incapazes de acompanhar o grupo, prevendo o que viria a acontecer mais
tarde. Depois de termos marchado menos de uma légua pela praia, Bertholameu Pereyra
Loreto, um marinheiro, ficou para trás devido ao cansaço. Os Cafres, que já nos seguiam,
rapidamente o mataram, e nada pudemos fazer para ajudá-lo. Mais à frente, os mesmos Cafres
roubaram a D. Barbora os alforjes que continham os seus bens, incluindo o seu resgate em
cobre, mantimentos e uma muda de diamantes que escapou. Se a retaguarda não tivesse
intervindo rapidamente, teriam-na matado, tal como fizeram ao Loreto. Antonio Carvalho da
Costa, um marinheiro, ajudou-a, carregando as suas coisas até ao anoitecer. A portuguesa
Beata Joana do Espírito Santo também nos causou muitos problemas, assim como os outros
doentes. Mesmo assim, conseguimos acampar num recife junto ao mar, onde encontrámos
uma fonte de água muito boa. O Piloto, incapaz de chegar à fonte, ficou um pouco atrás, e ao
pedir confissão, os Padres acorreram com grande caridade. O Escrivão chegou à noite, muito
tarde, e ali passámos a noite.
Na terça-feira, 16 de julho, o Almirante convocou um conselho para decidir o que fazer com as
mulheres e as pessoas incapacitadas que nos impediam de avançar rapidamente em direção à
terra de resgate, pois os grãos de arroz que tínhamos quando nos perdemos...
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Eram tão poucos que não passavam de duas medidas por pessoa. Segundo afirmavam aqueles
que já tinham passado por aquele caminho, não se poderia encontrar resgate em menos de um
mês. Após uma discussão intensa, decidiu-se que, dada a nossa situação e considerando que o
Piloto, o Escrivão, D. Barbora e João do Espírito Santo não podiam nos acompanhar, e esperar
por eles nos exporia a morrer de fome, deveríamos avisar as mulheres para marcharem à
frente. Já não se tratava do Piloto e do Escrivão, pois um deles já estava sem fala e o outro não
estava em condições de ajudar. Ao serem avisadas, as portuguesas responderam que Deus nos
acompanhasse, pois elas não se atreviam nem podiam seguir. Assim, deixámo-las após se
confessarem, juntamente com uma menina negra que quis ficar com elas, sem qualquer
alimento.
Nesta ocasião, D. Sebastião esteve em risco de ficar para trás, pois os grumetes que o
carregavam, incapazes de suportar o trabalho, queriam abandoná-lo. D. Duarte Lobo interveio,
e com bons argumentos e algum incentivo, conseguiu que o levassem aos poucos. Naquele dia,
marchámos ao longo do mar por recifes, de onde surgiam muitos ribeiros de água doce, e
atravessámos alguns rios que, se não estivessem secos, nos causariam problemas. Nas praias,
encontrava-se algum marisco, mas pouco, e viam-se alguns pássaros grandes, semelhantes a
pavões. Aqui, devido ao caminho ser difícil e à escassez de comida, os grumetes decidiram
abandonar D. Sebastião Lobo. A solução foi escolher, entre todos, os doze mais robustos, e os
restantes carregariam as bagagens destes. Continuámos a marchar por um dia por caminhos
ásperos e estreitos junto ao mar.
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Por onde só cabia uma pessoa atrás da outra, devido a um declive e ravinas junto à praia,
chegámos a uma passagem muito arriscada. Depois, atravessámos um rio muito caudaloso e
agitado, com água acima do joelho. Após atravessá-lo, descansámos, mas os grumetes, ao
retomar a marcha, deixaram para trás D. Sebastião Lobo, que não se atreveu a caminhar pelos
seus próprios pés.
No dia seguinte, chegámos a outro rio com uma densa floresta na sua foz, onde encontrámos
um baleato (parte de uma baleia) na praia. Cada um de nós cortou um pedaço para comer.
Naquela tarde, passámos por muitos pântanos e terrenos difíceis, e ao final, montámos o
acampamento junto a um ribeiro de água fresca.
Ao percebermos a ausência de D. Sebastião, porque o Almirante e Dom Duarte, que iam à
frente, não tinham notado que os grumetes o haviam deixado para trás, combinaram com os
marinheiros para o ir buscar. Já de noite, voltaram duas léguas atrás e encontraram-no onde o
tinham deixado, trazendo-o de volta ao acampamento. Ele chegou muito tarde, proclamando
em voz alta que D. Sebastião Lobo da Silveira não temia a morte, mas sim os maus tratos que
recebia. No dia seguinte, discutiu-se com este fidalgo sobre o seu embarque de regresso ao
Reino, chamado por Sua Majestade.
No dia seguinte, marchámos pouco e, quase a uma légua de distância, encontrámos o rio de
São Cristóvão. Para o atravessar, organizámos duas jangadas, pois o rio era caudaloso, muito
profundo, com uma corrente forte e agitada.
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Dedicámos uma [jangada] à Nossa Senhora da Ajuda e outra à do Bom Sucesso. Convencido de
que não nos poderia acompanhar, [D. Sebaastião] mostrou-nos muitas joias e objetos valiosos
dos quais não tínhamos conhecimento, oferecendo-os a quem pudesse levá-lo às costas.
Vendo isso e após persuasões do Mestre Jacinto António, a quem, para este propósito, deu seis
voltas de uma corrente de ouro, negociou-se com dezasseis marinheiros, os mais robustos, a
quem D. Sebastião entregou imediatamente tudo o que possuía.
Depois de atravessar o rio, que devido à sua forte corrente e à impossibilidade de embarcar as
jangadas a não ser na maré baixa, não pudemos fazê-lo naquele dia. No dia seguinte, 19 de
Julho, concluímos a travessia, mas perdemos um Cafre nosso, que foi levado pela corrente, e
um marinheiro, Antonio da Silva, que estava doente e não se atreveu a continuar a marcha. E
no dia 20 de Julho, os marinheiros concluíram o transporte dos dezasseis, incluindo D.
Sebastião Lobo.
Depois de passar o rio, continuámos a marchar pela praia, por caminhos estreitos, e ao chegar
a uma fonte, Filipe Romão, um passageiro que tinha vindo do Reino no mesmo navio e que era
casado em Lisboa e tinha sido escudeiro da Princesa Margarida, ficou para trás, incapaz de nos
seguir devido à doença. Lourenço Rodrigues, escudeiro de Dom Duarte Lobo e casado em
Alfama, também ficou para trás, incapaz de caminhar mais, mesmo tendo feito isso até então
com a ajuda de duas muletas. Quando o seu senhor, passando por ele, lhe disse para se animar,
ele respondeu que Deus o ajudasse e que levasse perante os olhos da senhora Dona Leonor,
sua mulher, pois ele não se sentia com forças nem ânimo para os seguir. O Padre Fr. António de
São Guilherme também tentou animá-lo.
---
No entanto, ele preferiu persistir na sua decisão. Quando o Padre já estava um pouco afastado,
ele chamou-o de volta. O Padre, pensando que seria para alguma reconciliação, voltou para
ouvir o que ele queria. Ele disse: "Padre Fr. António, já que vais embora, faz-me o favor de me
dar um pouco de tabaco. Que Deus esteja contigo." E com uma expressão muito serena, pediu
que lhe fizessem uma pequena cova para se deitar.
Continuando a nossa marcha, atravessámos um rio com água até à cintura. No dia seguinte,
depois de termos caminhado cerca de uma légua, chegámos a outro rio, que atravessámos
durante a maré baixa com água até aos ombros. Depois deste rio, encontrámos um caminho
melhor, mas deserto, vendo apenas alguns Cafres caçadores que não quiseram falar connosco.
Neste percurso, encontrámos boas fontes de água, algumas palmeiras selvagens e pequenas,
cujos palmitos, embora difíceis de extrair, serviam como alimento, dada a fome generalizada.
Nesse dia, avistámos algumas cabanas com Cafres, que ao nos verem, fugiram. Ao entrarmos
nas cabanas, encontrámos dois polvos e alguns grãos de milho. Mais à frente, encontrámos
dois Cafres, a quem demos duas fechaduras de escritório como presente, que são as joias que
os nativos desta região mais valorizam. Ao perguntarmos sobre a possibilidade de troca,
responderam com gestos, indicando que haveria alguma troca nas proximidades.
À vista de um monte chamado "da pressa", devido à nossa urgência causada pela fome e pela
falta de organização na marcha, pois estávamos muito fracos, dois nativos saíram do mato.
Encontrando Felício Gomes, um marinheiro, isolado dos demais, roubaram-lhe a mochila e um
jarro de latão que ele tinha na mão. Tentaram fugir rapidamente, mas sem sucesso, pois ao
atacarem, ninguém conseguia alcançá-los.
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Ao chegarmos a um ponto elevado onde vimos algumas cabanas, não encontrámos nada além
de algumas panelas de barro vazias. Depois disso, montámos o nosso acampamento perto de
um rio, e todos estavam muito tristes pela decisão daqueles que acompanhavam D. Sebastião
de o deixar, pois sentiam-se sem forças. Ele, resignado e decidido a ficar, primeiro tratou de se
confessar novamente e deu a cada um dos que o tinham acompanhado até ali um anel com um
rubi. Depois, despojou-se até da sua cruz de tambaca com relíquias que trazia ao pescoço e de
uma pequena panela de cobre, pois não havia comida. Todos se despediram dele com a devida
tristeza, deixando-o sob uma pequena tenda de pano, robusto e bem-disposto, pois não se
sentia capaz de marchar a pé. Com ele ficou um pequeno Chines e um Cafre, que era servo de
Domingos Borges de Sousa. D. Duarte Lobo, seu irmão, ficou com ele por um longo tempo. D.
Sebastião mostrou, neste momento difícil, tanta paciência e coragem que se pode acreditar
piamente na sua salvação.
Depois de sairmos desse local, atravessámos outro rio com água até ao peito durante a maré
baixa. A partir daí, a terra parecia mais fresca, com algumas boninas, orquídeas e outras
plantas, das quais muitos, impulsionados pela fome, comeram com vontade. Depois de
atravessar dois rios secos, chegámos a um que vadeámos com água pela cintura, seguindo por
terras arenosas e depois por uma floresta onde encontrámos um ribeiro. Acampámos ali
durante a noite e, pela manhã, continuámos pela praia. Atravessámos três rios secos e outro
que, para atravessar, foi necessário construir uma jangada, que dedicámos a Nossa Senhora do
Socorro.
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No local onde passámos, no dia seguinte, vieram até nós alguns com quatro peixes, que
trocámos com eles, dando a entender que perto dali havia mais para trocar. No dia seguinte,
dia de Santiago, enquanto caminhávamos pela praia, desviamo-nos para um bosque devido a
muitos recifes que não conseguíamos ultrapassar. No bosque, encontrámos armadilhas e
buracos para elefantes. Mais à frente, num ponto elevado, encontrámos cinco cabanas
redondas, semelhantes a fornos, mas estavam vazias. Continuando a marcha e depois de
atravessar quatro rios secos, fizemos uma paragem junto a um rio caudaloso e agitado, onde
planeámos construir uma jangada para o atravessar no dia seguinte, dia de Santa Ana. Ali,
encontrámos alguns pequenos montes verdes e alguns de nós tiveram a sorte de encontrar
favas, que ao serem comidas na praia, quase levaram alguns à morte.
No sábado, 1º de julho, depois de atravessar o rio, caminhámos por um bosque e, ao sair para
a praia, vimos sinais de fogo num ponto elevado. Três dos nossos foram investigar e
regressaram com a notícia de que havia vacas nas proximidades. Esta notícia encheu-nos de
alegria e, em agradecimento, rezámos uma ladainha em honra de Nossa Senhora. Logo depois,
apareceram muitos Cafres, incluindo um que falava português chamado João, que tinha ficado
na região desde o naufrágio da Nau Belém. Ele reconheceu-nos imediatamente. Os outros
comunicavam através de gestos. Vestiam-se com peles que usavam para cobrir as coxas, e o
resto do corpo nu, tanto homens como mulheres. As mulheres diferenciavam-se por usarem
chapéus do mesmo couro. Nesse local, trocámos e, no dia seguinte, conseguimos dez vacas,
que foram abatidas e comidas. Foi-nos oferecido um preço fixo para todas as vacas que
quiséssemos comprar, mas os nossos negociadores não concordaram, argumentando que...
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O Almirante pediu ao Cafre João que considerasse juntar-se à nossa companhia, prometendo-
lhe grandes recompensas. No entanto, ele recusou, alegando ter compromissos de caça, e ficou
para trás. Continuámos a nossa marcha pela praia. Na segunda-feira, o Cafre João e os seus
companheiros atacaram-nos com flechas, tentando matar-nos e roubar-nos. Não se atreveram
a atacar diretamente o nosso acampamento, pois estávamos sempre bem vigiados. Nesta
praia, deixámos um marinheiro, que trabalhava como gajeiro e morava perto de Duarte Bello
em Lisboa. Ele confessou-se, pois não se sentia capaz de continuar a marcha. Os Cafres
arrastaram-no pela praia à nossa vista, e ele, de joelhos e com as mãos levantadas, não teve
ajuda de nós. Enquanto continuávamos a marchar pela praia, os Cafres continuaram a atacar-
nos com flechas. No entanto, Urbano Fialho e Salvador Pereira, com os seus arcabuzes,
fizeram-nos recuar, permitindo-nos caminhar com mais liberdade por um caminho difícil e
árduo. Saímos deste caminho e encontrámos um rio grande, onde passámos uma noite muito
fria devido à falta de água. Na manhã seguinte, esperámos pela maré baixa para atravessar o
rio, que tinha água até à cintura. Foi difícil vencer a corrente. Depois, seguimos por recifes tão
agudos que magoavam muito os que usavam calçado e rasgavam os pés dos descalços. Depois
deste desafio, enfrentámos outro: montanhas íngremes que pareciam tocar o céu. Descemos
até um ribeiro onde descansámos e vimos Cafres que se aproximaram para falar connosco. Eles
trocaram cinco peixes connosco, dando a entender...
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Havia rumores de que haveria possibilidade de troca mais à frente. Aqui, encontrámos alguns
figos, que na Índia são chamados de "gralha", mas eram poucos. Ao subir uma colina, fizemos
uma pausa na sua descida para passar a noite junto a um ribeiro de água doce. No dia
seguinte, o Almirante mandou explorar a terra para ver se havia algum povoado ou gado. Os
exploradores regressaram ao acampamento cansados, famintos e sem qualquer informação. A
partir daí, seguimos pela praia, passando por recifes onde colhemos ostras para comer, cruas
tal como as encontrámos, pois já não comíamos nada há cinco dias. Chegámos a um rio muito
largo e com uma corrente forte. Demorámos três dias a atravessá-lo, esperando pela maré
baixa. Depois, fomos descansar numa praia onde foi difícil encontrar água potável.
Conseguimos aliviar a fome com algumas ostras e lapas. Chamámos a este rio de São
Domingos, pois encontrámo-lo na véspera do dia de São Domingos.
A fome tornava a nossa jornada ainda mais difícil. Continuámos até chegarmos a uma
montanha de terra movediça, tão íngreme que tivemos de nos agarrar às raízes das figueiras
bravas que cresciam ali. Para atravessar um barranco grande e íngreme em direção ao mar,
todos nós fizemos o Ato de Contrição, pois se caíssemos, iríamos parar a recifes e lagoas muito
agudas. O Mestre Jacinto António teve ainda mais dificuldade, pois era sua vez de liderar a
expedição. Enquanto nos preparávamos, ele, armado com uma espingarda e uma adaga, ouviu
um grito indicando que ele e alguns dos seus seguidores se estavam a desviar. Havia rumores
no acampamento há dias sobre isso.
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Por causa disso, a maior parte do nosso grupo seguiu em frente, deixando D. Duarte Lobo e
seus companheiros para trás. Não sabíamos deste desvio e, por isso, retomámos o caminho
por dentro de um mato, subindo uma colina com menos dificuldade e chegando ao local onde
os aflitos que seguiam o Mestre estavam mais mortos do que vivos. Ao perguntar-lhes sobre
ele, disseram-nos que ele tinha tomado outro caminho mais perigoso, pois não encontrou
saída pela praia.
Reunimo-nos todos novamente e, após um breve descanso, continuámos a marchar até
montar acampamento junto a um ribeiro. A fome era tão intensa que nem sequer as ervas
verdes eram poupadas, e muitas vezes, ao atravessar o ribeiro, comíamo-las cruas. Na manhã
seguinte, começámos a marchar, instruindo os exploradores para irem sempre à frente,
procurando sinais de possíveis trocas. Paulo de Barros encontrou uma aldeia de Cafres, mas
não conseguimos obter informações claras deles. Estávamos tão exaustos que, sempre que
parávamos para descansar, rastejávamos à procura de ervas e favas, sabendo que ao comê-las
arriscávamos a vida, pois eram venenosas.
Mudámos o nosso caminho da praia, que era muito estéril, sem lapas ou caranguejos, e cheia
de recifes. Ao entrar no interior, fizemos uma paragem junto a um ribeiro de água fresca, onde
encontrámos cabanas de Cafres. Ao ver-nos, esconderam-se no mato, evitando qualquer
comunicação connosco. Continuámos até uma pedra coberta de árvores frescas, com uma
poça de água doce tão clara que nos convidou a descansar. Ali, procurámos algumas ervas e
quem encontrava um caranguejo considerava-se afortunado. Durante dois dias, marchámos
pelo interior, sofrendo as maiores fomes que alguma vez tínhamos suportado.
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Durante uma destas noites, um grumete aproximou-se de uma fogueira que estava acesa perto
da barraca de D. Duarte. Ele descalçou-se para secar um sapato e, com grande avidez, começou
a aquecê-lo, provavelmente para que ninguém mais o fizesse.
No terceiro dia, marchámos sete léguas por terrenos e caminhos ásperos até avistarmos um
rio. Descemos uma encosta íngreme com dificuldade. Devido ao cansaço da marcha e à falta de
ordem na forma como caminhávamos, corremos o risco de o grupo se dividir devido aos
diversos caminhos que encontrávamos. Só percebemos que estávamos no caminho certo
quando avistámos o rio de uma colina, tendo que retroceder bastante para não nos
perdermos. Chegámos ao rio já de noite, onde encontrámos muitas beringelas bravas e
amargas, que foram consumidas. Alguns cozinhavam-nas até que ficassem quase sem sabor,
enquanto outros, que não tinham essa paciência, ferviam-nas com pimenta e bebiam a água.
Aqueles que conseguiam algum amido, misturavam-no, pois perderam o gosto pela comida.
Nessa noite, todos os Cafres que carregavam para D. Duarte fugiram, roubando todo o cobre,
caldeirões e tudo o mais que puderam levar do acampamento. D. Duarte ficou desprotegido
devido à ausência deles e, por estar muito debilitado, não conseguia seguir a marcha conosco.
No dia seguinte, 9 de Agosto, dirigimo-nos para a costa junto ao rio, em busca de um vau.
Encontrámo-lo ao final da tarde e, por sorte, também encontrámos muitas figueiras bravas da
Índia. Os talos destas figueiras, quando cozidos, ajudavam a aliviar a fome. Chegámos a este
local tão fracos que alguns decidiram ficar para trás, incapazes de continuar a marcha. No dia
seguinte, dia de São Lourenço, enquanto marchávamos pelas montanhas altas (já que a praia
não permitia passagem), João Delgado decidiu ficar para trás.
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Que já tinha feito o mesmo no dia anterior, e o Almirante e eu o trouxemos na retaguarda, a
um ritmo lento. Ele fez o seu testamento e, após confessar-se novamente com o Padre
Francisco Pereira, pediu-me para o deixar à vista do mar, onde ficou. Quando o acampamento
já tinha atravessado uns montes e nós já estávamos a alguma distância e nos tínhamos
despedido dele, ele começou a gritar e a correr atrás de nós. Tentando esperar por ele, ele caiu
de bruços e não se levantou mais, deixando-nos seguir o acampamento, que também nos
estava a deixar para trás, acreditando que ele não nos poderia acompanhar. Esse jovem era
casado em Estremoz e estava a caminho como remédio, tendo servido na Índia desde 1635,
quando viajou para lá com Pedro da Silva, a quem serviu. Nesse dia, subindo e descendo
montanhas, marchámos pouco, tanto devido ao terreno áspero como por causa da
incapacidade de D. Duarte Lobo, e não queríamos deixá-lo para trás, nem a outros que estavam
a desmaiar. Diminuímos o ritmo e avançámos lentamente, deitando-nos no chão para
recuperar o fôlego. Ao final da tarde, ao descer uma montanha íngreme, chegámos a uma
pequena praia com um ilhéu que, na maré alta, ficava rodeado de água. Havia muitos seixos
numa enseada pequena com um ribeiro de água. Pensámos que não faltariam mariscos para
aliviar a fome que nos tinha reduzido a um estado em que parecíamos apenas sombras de
homens. No entanto, após vasculhar toda a praia, não encontrámos nada, percebendo por
experiência que em recifes de pedra semelhante não há marisco. Nessa ocasião e local, os
Cafres do Sotapiloto Balthazar Rodrigues, ao vasculhar um barranco, encontraram a cabeça de
um tigre muito podre, cheia de insetos.
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E com um mau cheiro, começaram imediatamente a comer a língua e o resto. Muitos, felizes
com a descoberta, trouxeram-na ao seu senhor, que começou a cozê-la com os seus camaradas
e com Dom Duarte Lobo. Beberam primeiro o caldo, com tanta avidez que, para proteger esta
sua descoberta dos outros, enquanto cozinhava, ele ficou com uma espingarda preparada para
se defender caso tentassem roubá-lo. Um religioso pediu um pequeno pedaço, mas ele não lhe
deu.
No dia seguinte, enquanto marchavam, alguns encontraram no mato dois ratos mortos e
malcheirosos, o que causou discussões sobre como dividir a descoberta. Paulo de Barros,
avançando, encontrou na praia um Cafre, o que indicava que estavam perto do rio da Nau
Belem. Este Cafre sugeriu que não faltaria milho e vacas para trocar. Deram-lhe uma joia de
cobre, que ele retribuiu com um pequeno montante de milho. Ao dividir o milho por todos,
cada pessoa recebeu doze grãos. Esta notícia renovou as nossas energias e, prostrados no
chão, agradecemos a Deus. Rezámos uma ladainha em honra de Nossa Senhora com grande
devoção. Depois de subir uma colina íngreme, voltámos à praia e marchámos até um rio que
não desaguava no mar. Montámos acampamento à beira do rio, perto de duas cabanas onde o
Cafre e os seus companheiros se refugiaram. Ele indicou que a sua aldeia estava distante, mas
que nos acompanharia no dia seguinte. Deu ao Almirante um lenço feito de mexilhões, que ele
partilhou com D. Duarte.
Ao montar o acampamento, cada um saiu para o mato para colher figos e comer os talos.
Seguindo a indicação de que algumas flores vermelhas eram comestíveis quando cozidas,
fizeram delas uma sopa. No entanto, eram ervas viscosas e venenosas, e aqueles que as
comeram sofreram agonia. Se não tivessem aliviado os sintomas vomitando, teriam morrido
devido ao veneno.
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A 12 de Agosto, seguimos viagem na companhia do Cafre chamado Benamufa. Subimos um
pequeno outeiro, fazendo várias pausas pelo caminho. Depois de superar essa dificuldade,
descansámos no topo, perto de algumas cabanas. O Almirante deu uma manilha de cobre ao
Cafre como pagamento pela sua orientação. O Cafre indicou que queria avançar e sugeriu
enviar algumas pessoas com ele para trazer mercadorias da sua aldeia. Inicialmente, houve
hesitação, mas o comportamento amigável e animado do Cafre, juntamente com a nossa
extrema fome, superou as dúvidas. Decidiu-se que Paulo de Barros, acompanhado por seis
marinheiros, e Aleyxo da Silva, com dois passageiros, avançassem com o Cafre. Ao dar-lhe
algumas joias de cobre, ele ficou muito satisfeito. Outros três Cafres juntaram-se a ele no mato
e seguimos por cerca de uma légua. Ao chegarmos ao topo de uma colina, gritaram de alegria
ao avistar o Rio da Nau Belem, o nosso destino tão esperado. Descansámos a uma légua de
distância. O Cafre e os seus companheiros seguiram o seu caminho, enquanto nós nos
dirigimos ao rio. Chegando à sua praia já tarde, montámos acampamento e encontrámos
alguns vestígios da Nau Belem e alguns corpos.
Durante esta viagem, o Padre Fr. Antonio de S. Guilherme esteve à beira da morte várias vezes
devido ao veneno de algumas favas que comeu. Foi induzido a comê-las por Domingos Borges
de Soufa, que lhe garantiu que eram seguras para consumo. No entanto, ele recuperou graças a
alguns antídotos, incluindo pedra-pomes moída.
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E à noite, na tenda de Dom Duarte Lobo, jantou-se um pedaço de couro de um fardo de canela
que tinha sido cozido, e noutro grupo, uma alparca de couro, que alguém tinha usado nos pés
por mais de vinte dias. Na tenda de Jacinto António, o Mestre comeu um cão dos Cafres, que
foi abatido com uma espingarda. Ele não partilhou nem com D. Duarte, o que deixou este
último chateado.
Como não encontrámos água deste lado, cavámos um poço na areia e encontrámos água de
boa qualidade. Passámos três dias confiando em Deus e nas pessoas que tinham ido com o
Benamusa. Durante esse tempo, construímos uma jangada para atravessar o rio. Negociámos
com alguns Cafres que trouxeram tão pouco milho que cada pessoa só recebeu uma pequena
porção. Na quarta-feira, véspera de Nossa Senhora da Assunção, os que esperávamos da aldeia
do Cafre chegaram do outro lado do rio, livres da fome, com as mochilas cheias e Cafres na sua
companhia com seis vacas vivas para negociação. Depois de terminar a jangada, que
dedicámos a S. Domingos Soriano, Vicente da Silva, criado de D. Duarte, foi o primeiro a
atravessar o rio para informar sobre o que tinha encontrado, a localização das aldeias e os
costumes das pessoas. Este jovem trouxe consigo um pouco de milho, dois "mocates" e um
pedaço de carne de vaca cozida, que o fidalgo partilhou com o Almirante e outras pessoas,
usando o resto como um mimo para ele e os seus amigos.
No dia seguinte, Dia de Nossa Senhora, houve grande esforço para atravessar a rede de pesca,
de modo a poder usar a jangada para atravessar o rio, que era largo e com uma corrente forte.
Não sendo possível que todos atravessassem nesse dia, o Almirante e os restantes ficaram para
o dia seguinte. Um grumete tentou atravessar à tarde, mas a corrente da maré baixa arrastou-
o. Todos pensaram que ele não iria sobreviver. O Padre Fr. João da Encarnação deu-lhe a
extrema-unção à distância e, ao invocar S. Domingos Soriano, o grumete conseguiu salvar-se.
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Ele apanhou uma refeição e levou-a para terra sem causar dano a ninguém. Os Cafres, que
vinham com as seis vacas para negociação, ao verem-nos ainda do outro lado, voltaram à noite
para as suas aldeias, prometendo regressar com elas. Isso contrariava a crença daqueles que
tinham atravessado o rio primeiro, que não acreditavam nas histórias dos que tinham vindo
com eles sobre a abundância encontrada e a boa hospitalidade que o Cafre lhes proporcionara.
Pediram a Dom Duarte, um dos primeiros a atravessar, que enviasse pessoas às aldeias para
acelerar a negociação. Assim, foram enviados Urbano Fialho Ferreyra, o Contramestre António
Carvalho da Costa e outros, armados e com cobre para negociar.
No dia seguinte, 16 de Agosto, todo o acampamento terminou de atravessar, estabelecendo-se
entre duas colinas com vista para o mar. Os Cafres chegaram com vacas, que foram negociadas
e distribuídas entre os grupos. Algumas foram abatidas, outras preparadas e cozinhadas, e
todos comeram com tanto apetite que só sobraram as pontas e as unhas das vacas; tudo o
resto foi consumido. Mais Cafres chegaram rapidamente com mais gado, milho e "mocates".
No entanto, houve desordem da nossa parte, com os negociadores aproveitando-se da
situação, espalhando-se pela floresta e esperando pelos Cafres, negociando milho e "mocates"
a preços inflacionados, prejudicando todos. Por um "mocate", davam cobre que poderia
negociar três ou quatro no acampamento. Como resultado, foi estabelecida uma regra, sob
pena de morte, de que ninguém deveria sair do acampamento para negociar, mas a fome era
tão grande que, mesmo com tanta carne disponível, não era suficiente. Foi ordenado ao
Mestre Jacinto António e a outros que patrulhassem a floresta e os caminhos.
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Não permitindo que se negociasse e determinando que se prendessem os que fossem
encontrados, encontraram três portugueses e três negros nossos, que foram detidos e trazidos
para o acampamento. Após uma reunião, os representantes decidiram que dois dos três
portugueses seriam chicoteados e exibidos pelo acampamento, com as mãos atadas. Para o
terceiro, não havia provas suficientes. Dos negros, foi decidido que um deveria ser executado, e
a sorte recaiu sobre um mestiço de Urbano Fialho, que foi imediatamente executado. Os outros
dois foram severamente chicoteados pelo acampamento, com tanto os portugueses como os
negros a supervisionar a punição.
Numa dessas noites, tendo faltado negociações por dois dias, foi feito um curral onde as vacas
eram guardadas e domesticadas. Decidiu-se trazer as vacas vivas, pois não era sempre possível
ir à fonte, que ficava a dois tiros de mosquete, atrás de uma colina. Quando já estávamos
recolhidos, um dos nossos negros foi surpreendido por um caldeirão na fonte. Ao regressar ao
acampamento, gritou por ajuda. Respondemos, armados, e ao ouvir a fala, disparámos uma
espingarda, atingindo um Cafre na perna. Ele foi imediatamente capturado e mantido sob
vigilância para ser julgado no dia seguinte. Ao recolhermo-nos, ouvimos outro grito. Ao
investigar, descobrimos que eram os companheiros do Cafre ferido, que tinham vindo roubar.
Como a noite estava escura, sem que o vigia percebesse, levaram o Cafre ferido para a floresta.
No final deste confronto, percebemos que faltavam dois dos nossos cabritos, que tinham
fugido, levando aos seus mestres um caldeirão e uma frigideira de cobre, entre outros itens
escondidos.
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Suspeitando da presença de mais ladrões, emboscámos alguns dos nossos homens. Pouco
depois, encontrámos um Cafre. Tentámos capturá-lo, mas ele resistiu. José Gonçalves Velloso,
um marinheiro residente em Belém, atingiu-o com uma espingarda, quebrando-lhe um braço.
Ao aproximarmo-nos para o identificar, percebemos que era um Cafre chamado João, um dos
que tinha fugido de D. Duarte Lobo da Silveira e roubado o nosso acampamento. O Almirante
interrogou-o, e ele confessou que ele e os seus companheiros estavam na área para roubar. Por
isso, decidimos enforcá-lo no dia seguinte, após ele se ter confessado. Logo depois, o comércio
de troca recomeçou, com muitos grãos, moedas e alguns recipientes de leite e vacas. Estes
bárbaros pareciam agora mais domesticados, talvez devido ao contacto anterior com os nossos
da Nau Belém, que naufragou em 1634, o período em que estes bárbaros fizeram os seus
paraísos.
Durante os quatorze ou quinze dias que passámos ali, para descansar as pessoas exaustas pela
fome e pela dura jornada, surgiram algumas discórdias. Alguns queriam separar-se e formar
um acampamento à parte devido à má liderança do Almirante, causada pela sua indecisão e
excessiva bondade. No entanto, isso não aconteceu devido a circunstâncias imprevistas.
Aqueles que tinham ido às aldeias nos dias anteriores para avaliar o comércio de vacas, pois
havia melhores pastagens lá, regressaram ao acampamento. Ao verem-nos já barbeados,
ficaram surpreendidos.
---
Devido ao nosso estado debilitado, mal nos reconhecíamos uns aos outros. Havia quem
confessasse que, devido à fome, sentia como se algo lhe estivesse a sair pelo corpo, algo que
nunca imaginou ser possível.
Os Cafres que tinham fugido com o indivíduo que foi enforcado, ao perceberem que estavam
sem ele, pediram proteção e desejaram regressar ao nosso grupo. Isso foi concedido,
principalmente devido à falta que faziam a D. Duarte Lobo e à dificuldade que este fidalgo
tinha em se movimentar, devido a novos problemas de saúde que se somavam aos que já trazia
do mar. Para aliviar um pouco a sua situação, ele tentou domesticar dois bois e fez um acordo
com dezasseis grumetes para que o transportassem até Moçambique em troca de três mil e
quinhentos xerafins. No entanto, numa segunda-feira à noite, entre os dias 25 e 26 de Agosto,
sofreu um episódio de ventosidades que o deixou muito debilitado. Usou algalia, um remédio
que costumava tomar, e melhorou temporariamente. Mas, de repente, o mesmo mal atacou-
lhe a garganta, impedindo-o de falar. Na sua mão, segurava uma imagem de Cristo na Cruz. O
Padre Fr. António de São Guilherme, ao vê-lo naquele estado, pediu-lhe que apertasse a mão
se desejasse confessar-se. Ele assim o fez, e o padre absolveu-o imediatamente. Pouco depois,
D. Duarte Lobo faleceu.
A sua morte foi profundamente sentida por todos, pois era um fidalgo muito querido. Não
houve quem não lamentasse a sua partida, por inúmeras razões que, por respeito e dever, opto
por não detalhar. D. Duarte Lobo era o segundo filho de D. Rodrigo Lobo, General...
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Ele fez parte da Armada deste Reino que navegou para a Índia no ano de 1629 sob o comando
do Conde de Linhares. Foi designado para a fortaleza de Baçaim por três anos e também para
as terras de Bardés durante a sua vida. Anteriormente, ele tinha embarcado na Armada da
costa, que naufragou em França, no Galeão Santiago, que conseguiu escapar após um combate
corajoso contra quatro navios turcos. No Estado da Índia, serviu em várias posições de
destaque, incluindo Capitão, Capitão-mor das Armadas e, por último, Governador dos Estreitos
de Ormuz e Mar Vermelho, onde proclamou Sua Majestade. Esteve presente em várias
situações importantes ao serviço do rei, incluindo o socorro à Ilha de Ceilão como soldado do
seu irmão, D. António Lobo. Em todas estas situações, demonstrou grande competência, o que
sempre foi reconhecido pelos Vice-Reis. Estava a regressar ao Reino neste navio, mais para ver
Sua Majestade do que para ser recompensado pelos seus muitos serviços.
A 28 de Agosto, dia de Santo Agostinho, começámos a nossa marcha e, seguindo o caminho,
chegámos a um ribeiro perto da praia. Esperámos por João Lopes, o tanoeiro do navio, a quem
o Almirante tinha enviado para buscar uma vaca que pertencia a D. Duarte Lobo, que não pôde
acompanhar-nos devido a uma ferida na perna. Mais para o interior, montámos acampamento
para passar a noite numa planície junto a um ribeiro de água salobra. Aqui, mandou-se
enforcar, com base em poucas evidências, um Cafre que tinha vindo connosco e que pertencia
a D. Duarte Lobo, alegando que ele tinha negociado e outro seu companheiro, que tinha
servido o mesmo fidalgo e era do Sotapiloto, fugiu com medo por ser um dos que tinha vindo
com garantia de segurança. Neste local, ficámos mais um dia.
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Devido a um levantamento no acampamento, surgiu a ideia de nos separarmos, argumentando
que, se continuássemos juntos, não haveria suficiente para negociar para todos. Por causa
disso, o Almirante convocou um conselho. Como todos estavam insatisfeitos com a sua
liderança, decidiu-se que haveria uma divisão. Esta decisão foi tomada devido a desacordos na
eleição de um novo capitão e na distribuição do cobre.
No dia seguinte, 30 de Agosto, retomámos a marcha com algumas vacas à frente até uma
floresta fresca, perto de três povoações. Muitos Cafres e Cafras saíram destas povoações,
trazendo consigo vacas, milho, leite e outros bens para negociar. Acampámos ali, desfrutando
dessa abundância no dia seguinte. No entanto, os marinheiros e grumetes voltaram a levantar
a voz, querendo separar-se com o seu Mestre. Pediram a divisão das pessoas, gado, cobre,
armas e outros recursos. O Almirante, sentindo-se isolado e sem conselheiros, concordou.
Primeiro, registou-se nos livros do Rei as razões e a forma como essa separação ocorreria, que
era para o bem de todos. A ideia era que, se estivessem separados, todos teriam melhores
condições, pois o que estava disponível para negociar não seria suficiente para todos.
A divisão foi feita: pessoas, armas, gado e outros recursos foram distribuídos. O Almirante deu
a liderança ao Mestre, que marchou com os melhores marinheiros e o grupo de camaradas de
D. Duarte Lobo. Após a morte de D. Duarte, este grupo manteve-se unido, sem divisões, e com
as melhores armas do acampamento. O líder deste grupo era o Padre Fr. António de São
Guilherme, conhecido pelo seu grande talento e coragem, tendo demonstrado a sua valentia
em várias ocasiões de guerra na Índia antes de entrar na religião. Neste grupo estavam
também o Padre Fr. Diogo da Apresentação, Fr. Bento Arrábida, Fr. João da Encarnação e, como
negociadores, Aleixo da Silva e António Carvalho da Costa.
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Com o Almirante ficaram sem camaradas e os Padres Fr. Afonso de Beja, Francisco Pereyra, o
Capelão da Nau, Frey Ambrosio de Magalhães de Menezes, Domingos Borges de Sousa, Veyga,
Faro e os restantes oficiais da Nau. Paulo de Barros atuava como negociador. Neste local, um
Cafre fugiu a Roque Martins de Miranda, compadre e camarada do Almirante, levando tudo o
que trouxera da China, onde estava casado, e escapou da Nau. Despedimo-nos uns dos outros
com grande tristeza, pedindo perdão mútuo. Passadas duas ou três horas, quando o Mestre
começou a marchar, o Almirante levou o seu grupo com o gado à frente, passando por várias
povoações de onde recebia muitas ofertas. Como eram poucos, todos se beneficiavam, e os
Cafres eram mais dóceis. Ao passar pelas suas aldeias, por vezes o seu gado misturava-se com
o nosso, e eles separavam-nos com muita calma.
Desta forma, por volta das quatro da tarde, o Almirante avistou o grupo do Mestre, que estava
a negociar, depois de ter contornado e atravessado muitos caminhos, tentando adiantar-se.
Cada negociador tentava ser o primeiro, no entanto, voltámos a encontrar-nos. O Almirante
marchava à frente com o seu gado e grupo, e nós seguíamo-lo até um rio onde fizemos uma
paragem. Ele de um lado e o Mestre do outro. O rio tinha água muito boa, chegava até à altura
da cintura e estava rodeado por uma fresca floresta. Montaram-se tendas e o gado foi colocado
no meio com boas sentinelas. Durante a noite, disparou-se um tiro de espingarda do grupo do
Almirante porque os nossos jovens gritaram, pensando que os Cafres estavam emboscados,
prontos para atacar os caldeirões que usávamos para buscar água às fontes.
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No entanto, nesta ocasião, não tiveram sucesso. Para evitar este risco, os nossos homens
recorreram a cabaços que tinham trocado por leite, distribuídos pelos grupos. O Mestre ficou
dois dias sem marchar, pois chegou muita mercadoria de todos os tipos, incluindo algumas
galinhas e espetadas de gafanhotos, que os Cafres ofereciam, esperando receber cobre em
troca. A 5 de Setembro, pela manhã, após rezarmos uma Ladainha a Nossa Senhora,
marchámos por uma serra muito íngreme, descendo-a logo de seguida. Não avançámos nesse
dia devido à grande quantidade de mercadorias que chegavam ao longo de um rio cristalino e
de boa água, onde trocámos por vacas, leite e outros bens, no meio de muitas povoações. No
dia seguinte, marchámos por uma montanha alta com dois bárbaros que nos serviam de guias,
deixando enforcado um Cafre que nos tinha traído e roubado.
Como estes bárbaros valorizam muito o cobre, todos os que tinham trocado mercadorias no
dia anterior conspiraram para nos roubar. Os dois bárbaros que se ofereceram como guias
serviram de espiões. Fugiram por uma floresta com uma vaca, mas foram apanhados pelos que
iam à frente. Quando Joseph Gonçalves Veloso tentou amarrar um deles, o outro atacou-o.
Vicente da Silva interveio, mas um Cafre do mato roubou a sua espingarda e fugiu
rapidamente. Ao sairmos daí, encontrámo-nos num campo cercado por tantos Cafres quanto
estrelas no céu, todos em formação de guerra.
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Brandindo as suas lanças, os Cafres eram inúmeros em comparação com os portugueses. No
entanto, ao dispararmos as nossas armas, mesmo que com pouco efeito devido à distância,
conseguimos fazê-los recuar. Continuaram a seguir-nos até uma floresta onde entramos,
pensando que seria uma forma de nos desviarmos deles. Organizámo-nos para marchar com
precaução, com armas à frente e atrás, o gado no meio e vigias pelos lados, pois o caminho era
difícil e longo. Os Cafres não perdiam oportunidade de nos atacar. Atacaram-nos no meio da
floresta com grandes gritos, mas graças a Deus conseguimos matar três deles rapidamente e,
sem sofrer danos, saímos da floresta. Perto de uma fonte de água fresca, alguns trouxeram-nos
mercadorias para trocar. É surpreendente como estes povos, ao verem cobre, não hesitam em
trocar, mesmo que isso signifique trair a sua família ou amigos.
A 7 de Setembro, marchámos por vastas planícies sob uma espessa névoa, sem poder ver
devido às nuvens de gafanhotos. No dia 8, dia do Nascimento de Nossa Senhora, muitos Cafres
aproximaram-se com mercadorias, como vacas e milho. A terra era fértil e alegre, com vista
para muitas aves grandes, semelhantes a garças, mas tão altas que à distância pareciam
carneiros. Nesse dia, vimos um grupo de leões num vale, brincando sem nos notar, enquanto
passávamos por um monte de onde se via o mar. Dirigimo-nos para lá com 42 vacas vivas na
nossa companhia, sem intenção de nos aprofundarmos mais no interior devido ao risco dos
Cafres. No dia de São Nicolau de Tolentino, enquanto marchávamos pela praia, encontrámos
um farol e muita madeira, que parecia ser de algum navio naufragado. Antes do meio-dia,
chegámos a um rio caudaloso.
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Não atravessámos aquele dia devido à forte corrente e à maré cheia. Vimos alguns Cafres
pescadores do outro lado, que não trouxeram nada para trocar. Mais tarde, percebemos que
estavam a espiar-nos, atravessando o rio com água até à cintura. Deixámos marcas no que
chamámos de Rio da Cruz, erguendo uma cruz de madeira e esculpindo outra numa pedra,
para que, caso a companhia do Almirante viesse atrás de nós, soubesse que já tínhamos
passado.
Subimos a um planalto rochoso onde mais de duzentos Cafres nos esperavam em formação de
guerra, protegidos por escudos de couro. Confrontámo-los e castigámos a sua audácia,
matando o líder deles. António Carvalho da Costa acertou-o com duas balas nas pernas,
fazendo-o cair ferido, e acabámos por matá-lo com uma espada. Os restantes fugiram ao ver
isto, pois não são um povo que resista muito. Notámos que quando estes bárbaros se
aproximam em grande número sem trazer nada para trocar, é porque vêm com intenções de
roubar. Assim, é sempre melhor não os poupar. O caminho pela praia é o mais seguro, onde
voltaram a confrontar-nos. No entanto, depois de Alexio da Silva matar outro com uma
espingarda, pararam de nos seguir. Nessa noite, acampámos perto de uma lagoa, atrás de um
rio que nos bloqueava a vista do mar.
No dia seguinte, 12 de Setembro, não nos movemos devido a uma forte tempestade com
relâmpagos. Ao olhar para uma montanha, vimos muitas pessoas a marchar com vacas à
frente, procurando rapidamente um lugar para se abrigarem da chuva.
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Reconhecemos que era a companhia do Almirante. Ao avistar o nosso acampamento,
dispararam duas espingardas, às quais respondemos com outras. Eles acamparam do outro
lado da lagoa, protegidos por uma mata. Paulo de Barros e outros vieram até nós e contaram
sobre a infeliz jornada que tiveram e o confronto com os Cafres.
O Mestre Jacinto António enviou o Er. João da Encarnação para visitar o Almirante. Este
respondeu por escrito, pedindo e solicitando que se juntassem à sua companhia para, juntos,
se defenderem melhor dos Cafres. Avisou que, caso contrário, seria responsabilizado por
qualquer dano que ocorresse. Com esta carta, o Mestre convocou um conselho. Após várias
opiniões, onde os marinheiros votaram para não se juntarem, temendo ser governados pelos
passageiros, a quem o Almirante só deveria obedecer, o Mestre, influenciado por Frei João e
temendo os Cafres, decidiu unir-se ao grupo. Acordaram que ambos teriam igualdade de
jurisdição e comando, o que parecia ser a melhor decisão para a segurança de todos. Os
acampamentos unidos descansaram enquanto explicavam a António da Câmara de Noronha os
eventos dos nove dias em que estiveram separados.
Assim que amanheceu, o dia em que o Almirante se separou de nós, ele começou a marchar
montanha acima. Ao descer, encontrou muitos alimentos. Atravessou uma mata densa e, ao
sair, encontrou terras planas com abundância de vacas, milho, mochilas e leite. Encontrou
alguns nativos amigáveis que o ajudaram a conduzir as vacas, embora estivessem sempre
atentos ao que poderiam roubar. Fez duas jornadas com essa abundância e, na terceira...
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Ao passar por um pequeno bosque, surpreenderam o irmão do Sota-piloto e roubaram a sua
mochila. O Cafre, ao ser descoberto, fugiu rapidamente, mostrando uma agilidade
impressionante. Outro Cafre atacou um mulato, membro da tripulação do Contramestre,
tentando roubar-lhe os alforges. Enquanto lutavam, outros se aproximaram, fazendo com que
o Cafre fugisse. Mais adiante, chegaram a um rio rodeado de muitas árvores e, ao cruzá-lo,
encontraram uma aldeia. Os habitantes saíram ao seu encontro, oferecendo-lhes cabaças
cheias de leite.
Ao tentarem subir uma colina, foram abordados por um Cafre de aparência distinta, adornado
com várias pulseiras de cobre. Ele estava acompanhado por cerca de trezentos outros Cafres,
mas nenhum deles estava armado. Ao tentarem negociar e mostrar-lhes cobre, o Cafre
respondeu em português que não estava interessado em trocar as suas vacas por cobre, mas
sim por prata, "brilhante como a Lua", e ouro, "radiante como o Sol". Deduziram que esse
Cafre poderia ter tido algum contacto anterior com portugueses, talvez de uma expedição
anterior que terminou em desastre.
Paulo de Barros, familiarizado com os costumes dos Cafres devido a viagens anteriores,
percebeu que o Cafre estava de olho no gado que o Almirante tinha domesticado e carregado.
Temendo um ataque, começou a mover-se rapidamente com as vacas à frente, sendo seguido
por um grumete e alguns Cafres locais que os guiavam. Quando os outros viram Paulo a
avançar, seguiram-no. Ao chegarem ao topo da colina e perceberem que os que os seguiam
não conseguiriam alcançá-los rapidamente devido ao terreno íngreme, os Cafres atacaram
Paulo de Barros e o grumete. Apesar de estarem armados com uma espingarda e uma espada,
foram superados e feridos pelos Cafres, que usavam longos paus como armas. Roubaram-lhes
os alforges e três vacas. O grumete conseguiu defender-se um pouco melhor com o seu
bacamarte, perdendo apenas o chapéu no confronto.
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Ao chegarem, Paulo de Barros reuniu-se com os demais e, juntando as vacas, trataram da sua
ferida. Este incidente ocorreu perto de uma aldeia, onde os nativos do nosso acampamento
entraram e roubaram o que encontraram para comer. O Almirante não permitiu que
incendiassem a aldeia. Salvador Pereyra, aproximando-se com o seu arcabuz, encontrou-se
com mais de cem Cafres e atingiu um deles, fazendo-o cair. Os restantes recuaram, deixando
para trás os alforges que tinham roubado a Barros. Celebraram a sua pequena vitória com
grande festa.
A partir daí, sempre que o acampamento se estabelecia, os Cafres continuavam a segui-los,
embora não ousassem atacar diretamente. No entanto, ao se aproximarem de dois montes e
sendo forçados a passar pela encosta mais íngreme, mais de trezentos Cafres posicionaram-se
em ambos os montes, armados. Domingos Borges, com alguns companheiros, avançou
montanha acima e conseguiu tomar o ponto mais alto, fazendo com que os Cafres recuassem.
Assim, o restante do grupo pôde continuar a sua marcha sem incidentes, embora os bárbaros
os seguissem de perto.
Numa certa área arborizada, Domingos Borges emboscou-se e conseguiu abater um dos Cafres.
Isso enfureceu-os de tal forma que, mesmo mantendo-se fora do alcance dos tiros de arcabuz,
continuaram a atacar com pedras. Sempre que desciam uma colina, era necessário que três
homens, armados, protegessem o grupo até que todos passassem. Este padrão repetiu-se até
chegarem a outras aldeias. Sem causar mais danos, continuaram a sua marcha, com as vacas à
frente e sempre em alerta. Ao chegarem a um caminho estreito, ladeado por montanhas altas
de um lado e uma floresta densa do outro, perceberam que seria difícil avançar.
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Os Cafres atacaram-nos com uma chuva de pedras, das quais não conseguiram se proteger,
ferindo o Almirante e Salvador Pereyra, que estavam na retaguarda. Não conseguiram reagir
adequadamente, exceto pelo primeiro disparo, que não teve efeito. Muitos bravos guerreiros
correram para se proteger da intensa saraivada de pedras. Após o ataque, reuniram-se todos
num campo que parecia ter sido cultivado, próximo a um rio. Os Cafres, percebendo que o
grupo se estabeleceria ali, atearam fogo à erva seca. O Almirante, em resposta, atravessou para
o outro lado do rio e dirigiu-se para as colinas, estabelecendo-se no ponto mais alto para
passar a noite, mantendo vigias até o amanhecer, sem montar acampamento ou preparar
comida, pois os Cafres estavam por perto, fazendo barulhos e dando a entender que poderiam
atacar durante a noite.
Ao amanhecer, o Almirante continuou sua jornada pela colina com o gado. No entanto,
descobriu que os bárbaros já haviam ocupado o topo e estavam prontos com pedras. Sem
outra opção, Domingos Borges de Souza, Salvador Pereyra e outros avançaram, com as
espingardas apontadas e atentos às pedras que os Cafres começaram a lançar. Mas, ao verem
os nossos a avançar, os Cafres recuaram, permitindo que todos passassem em segurança.
Depois deste confronto, continuaram a marchar e decidiram passar a noite junto a um rio,
exaustos da jornada e dos confrontos com os Cafres. No dia seguinte, enquanto subiam e
desciam terrenos acidentados, encontraram cinco Cafres que os seguiam. Ao tentar chamá-los,
estes não esperaram. No entanto, ao meio-dia, dois deles regressaram, dando-lhes pequenos
objetos como guias para mostrar o caminho.
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Eles foram conduzidos por uma floresta densa, onde rapidamente perceberam que estavam
sendo levados de volta pelo mesmo caminho. Ao notar que tinham sido descobertos, os guias
tentaram fugir, e alguns sugeriram que deveriam ser mortos. Continuando a marcha, o
Almirante chegou a um rio rodeado por uma vegetação exuberante. Depois de um breve
descanso, ele ordenou que continuassem a marchar, o que foi recebido com desagrado, pois
estavam cansados e o local parecia seguro. Ao subir uma colina, os cinco guias que se
adiantaram retornaram e ocuparam o topo sem serem notados. Assim que tiveram vantagem,
começaram a lançar pedras e a bloquear o caminho. Se não fosse pela intervenção dos Cafres,
teriam tido dificuldades em escapar. No entanto, conseguiram avançar até o ponto mais alto da
colina, onde recuperaram o fôlego e sentiram algum alívio.
Retomaram a marcha por terras planas e caminhos estreitos, avistando muitos Cafres e seus
rebanhos, o que lhes deu esperança de conseguir fazer trocas. Encontraram-se com Benamufa,
um líder local que parecia ter autoridade, vestido com uma capa de couro cortada em tiras,
assim como os seus acompanhantes, que era considerado um sinal de status entre esses povos.
O Almirante pediu-lhe que os guiasse até um rio próximo, prometendo trocar bens por cobre.
Satisfeito com a oferta, Benamufa enviou dois dos seus Cafres como guias. Assim, continuaram
a marchar, com armas em punho, o gado à frente e sempre atentos à retaguarda, lembrando-
se dos perigos que já haviam enfrentado.
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Entraram por um caminho estreito, ladeado de um lado por uma floresta densa e do outro por
altas rochas que pareciam edifícios antigos e cavernas naturais, que serviam de abrigo. Os
cinco Cafres, mencionados anteriormente, juntaram-se a outros e avisaram-nos da morte dos
três. Unidos, posicionaram-se no topo das cavernas e começaram a lançar pedras. Quando o
gado, que ia à frente, se aproximou, eles tiveram que se expor para atirar, acertando primeiro
nas bordas das cavernas e depois no caminho, permitindo que as pessoas se desviassem. Os
que iam à frente alertavam sobre a emboscada. Vendo isso, os Cafres guias tentaram fugir.
Domingos Borges de Souza, com sua espingarda pronta, derrubou o primeiro, enquanto o
outro escapou, apesar de ser alvo de seis espingardas, devido à sua rapidez. Os atacantes não
pararam de lançar pedras, mas o grupo conseguiu refugiar-se atrás das cavernas. Ao chegarem
ao rio, atravessaram-no com água até os joelhos e montaram acampamento, agradecendo a
Deus por terem escapado de tão grandes perigos. Os Cafres vieram chorar o morto,
lamentando-se durante toda a noite. O Almirante manteve uma vigilância apertada até a
manhã, quando retomaram a marcha. Alguns Cafres aproximaram-se com ofertas de troca, e o
grupo parou, pensando em acampar ali por dois dias. No entanto, dado o estado debilitado e
ferido do Almirante e o receio de uma emboscada dos Cafres, decidiram continuar a marchar.
Atravessaram uma montanha cheia de espinhos e uma praga de gafanhotos nas árvores. Uma
densa névoa, acompanhada de uma chuva fina, dificultou a visão do caminho, levando-os em
direção ao mar para escapar dos Cafres que os perseguiam incessantemente.
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Os feridos estavam tão exaustos que decidiram descansar por um dia e meio junto a um rio
com lagoas e árvores, onde havia muita lenha. Mataram algumas vacas para se refrescarem e
aliviar o cansaço do trabalho anterior. Trataram os feridos com óleo de coco, pois não tinham
outra medicação disponível.
Deste local, dirigiram-se para o mar, do qual sentiam saudades. Marcharam seis a sete léguas
todos os dias, atravessando áreas queimadas e caminhos difíceis. Estavam tão cansados que,
ao chegarem à noite, mal conseguiam se sustentar. Numa ocasião, encontraram-se no topo de
uma montanha rochosa e assustadora. A descida era tão íngreme e aterrorizante quanto a
subida do outro lado, que levava a um rio caudaloso com grandes pedras no meio. Ao guiarem
as vacas montanha abaixo, estas começaram a deslizar, levando rochas consigo. Se houvesse
pessoas à frente, teriam sido esmagadas. Algumas vacas ficaram presas entre as árvores,
incapazes de se mover. As pessoas desciam, arrastando-se pelo chão, exaustas. Ao chegarem
ao fundo, encontraram a vaca em que o Almirante montava, morta. Ela tinha caído montanha
abaixo, levando muitas pedras consigo. Essa vaca serviu de alimento para o acampamento
naquela noite. Acamparam num local com capim alto, que servia de sombra para os elefantes.
Dormiram com mais conforto do que nas noites anteriores, sem medo dos bárbaros, em camas
de palha alta e macia. No dia seguinte, continuaram a sua jornada pela montanha, enfrentando
dificuldades. Ao atravessarem o rio, que tinha uma travessia difícil, só pensavam em seguir em
frente, desejando libertar-se daquela terrível terra e de sua pior gente. Por volta das três da
tarde, encontravam-se na encosta da montanha, avançando e segurando-se nas caudas das
vacas para não caírem.
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Com o que se diz, o que se pôde encarar e, descansando desse trabalho, voltaram a ele,
marchando adiante. Deram conta de cerca de cinquenta Cafres armados com rodellas e
azagaias. Ao se aproximarem, não tiveram coragem para atacar o acampamento.
Os nossos sentiram a falta de um marinheiro, sabendo-se que ele tinha ficado a dormir duas
léguas atrás, quando descansaram, sem que os camaradas o acordassem. Após passarem com
grande esforço por algumas poças de água, escolheram um melhor local para passar a noite,
com cada um procurando água e lenha para cozinhar o que havia para comer. O marinheiro,
que tinha ficado a dormir, ao perceber-se sozinho, seguiu o acampamento e, ao anoitecer, foi
seguido até cerca das onze horas da noite. Encontrou-se no meio de muitas fogueiras, algumas
perto da praia e outras mais para o interior. Dirigiu-se até elas até descobrir as barracas,
chegando muito contente. No acampamento, foi recebido com festa, como algo que já se
considerava perdido. Na manhã seguinte, levantaram-se cedo, pensando que as fogueiras que
o marinheiro tinha visto na praia poderiam ser de um grupo de Cafres que os esperava. Foram
com alguma chuva em direção à praia, onde descobriram a companhia do Mestre Jacinto
António, que tinham salvo, como já mencionado. Acamparam em frente, muito cansados e
cortados pelo trabalho e medo dos Cafres. Como vimos, juntaram-se aos acampamentos, com
cada companhia estabelecendo o seu acampamento separadamente, porque no do Mestre
havia mais vacas. Nesse dia, os Cafres trouxeram muitas mercadorias, que foram distribuídas
entre todos. Juntando os acampamentos, marcharam para um rio, que atravessaram em três
braças, com água até aos joelhos. Se não o tivessem encontrado seco na foz, seria maior do
que o da Nau Belém. Ali, alguns Cafres trouxeram mercadorias como milho e frangos, que
foram distribuídos pelos doentes e feridos. O Almirante tratou das feridas que os Cafres lhe
tinham feito.
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Chegaram a nós alguns com mercadorias, sendo os primeiros que vimos a usar barretes feitos
do seu próprio cabelo na cabeça, semelhantes às toucas dos Banianos da Índia, e contas
vermelhas ao pescoço. Por volta das três da tarde, fizemos uma pausa para alimentar o gado e
abater algumas vacas para comer. No Dia de São Mateus, após termos marchado duas léguas
pela praia, avistámos mais vacas e decidimos acampar, tanto para alimentar o nosso gado
como para descansar. Cinco pessoas do nosso grupo foram enviadas com armas às aldeias
próximas para ver se havia mercadorias para trocar. Voltaram com boas notícias, trazendo uma
cabra e um cabrito, pois não podiam carregar mais. Logo depois, os nativos apareceram e
negociámos com eles o que trouxeram. No dia seguinte, não faltaram mercadorias, incluindo
muitas galinhas, que chegaram em boa hora para os doentes. Sempre que encontrávamos
vacas, negociávamos as que estavam disponíveis para venda, considerando a escassez que
poderíamos enfrentar, pois abatíamos três vacas a cada dois dias para alimentar o grupo.
Partindo desse lugar, no vigésimo terceiro dia de setembro, chegámos a outro rio. Fomos
forçados a fazer uma pausa devido à quantidade de mercadorias que os nativos trouxeram, e
estas foram distribuídas igualmente entre nós. Procurámos um local raso para atravessar o rio,
que se encontrava a uma latitude de nove graus e meio. Embora aqueles que se tinham
perdido no naufrágio dissessem que tinham atravessado o rio com uma jangada, fomos
afortunados em encontrar um caminho mais fácil, dado o trabalho que as jangadas exigiam.
Atravessámos o rio com água até ao pescoço e montámos o acampamento do outro lado, onde
muitos nativos nos receberam com grande festa.
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Foi dada ordem aos negociadores para que negociassem, mas eles aproveitaram-se sempre da
situação em detrimento do bem comum. Vendo a familiaridade e abundância com que os
nativos vinham negociar, parecendo que seria sempre assim, a maioria dos marinheiros pensou
em ficar como o Mestre e separar-se do restante grupo, tendo em seu poder a maior parte do
cobre. Esta discórdia surgiu devido às desavenças entre eles e ao descontentamento com a
liderança do Almirante. Este, sem considerar os outros ou dar-lhes satisfações, decidiu agir por
conta própria. Montou no seu cavalo, apesar de estar doente e ferido, e começou a marchar
sozinho. O Padre Frei António de São Guilherme e seus camaradas intervieram, bloqueando-
lhe o caminho. O Padre perguntou-lhe o que pretendia fazer e por que estava a agir sozinho.
Pediu-lhe que chamasse Paulo de Barros, que era o líder da facção do Mestre e que tinha
recebido muitos favores do Almirante. No entanto, ele respondeu que não queria vir, o que
desagradou a todos. Quando António Carvalho da Costa, aliado do Mestre, se aproximou do
Almirante, aconselhou-o a não permitir a divisão que estava a ser planeada, pois não seria
benéfica para todos. Argumentou que a maior parte do cobre ficaria com o grupo do Mestre,
deixando o seu grupo sem recursos para negociar. Propôs que o cobre e as vacas fossem
divididos igualmente e ofereceu-se para ser o negociador. Vendo a situação e a audácia com
que alguns agiam, sem temor de Deus, o Padre Frei António exclamou que, se não fosse pelo
seu hábito e votos, enfrentaria todos e puniria tal ousadia. Isso motivou os seus camaradas e
outros a pegar nas armas e dirigirem-se à barraca do Mestre. Os aliados do Mestre, que eram a
maioria, defenderam-no. Se esta disputa tivesse continuado, muitos poderiam ter morrido, e
os sobreviventes ficariam à mercê dos nativos.
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Se o Mestre não tivesse saído apressadamente para o mato por detrás da barraca, e o Padre
Frei João da Encarnação, seu camarada, não tivesse aparecido à porta, de joelhos, implorando
com uma imagem de Nossa Senhora do Rosário nas mãos, pedindo em nome desta Senhora e
pelas chagas de Cristo que todos se acalmassem, a situação poderia ter escalado. O Almirante,
com a sua habitual serenidade, não permitiu que se usasse o rigor merecido, e assim, a
situação foi resolvida sem qualquer ofensa. O Mestre e Paulo de Barros apresentaram razões
que não foram aceites, mas no final, prevaleceu a amizade e a união. Todos concordaram com
o que o Almirante propôs, pois era do interesse de todos manter a coesão do grupo. Assim, o
acampamento foi reestabelecido, e aquele dia foi dedicado a um conselho onde se propuseram
leis e medidas para um bom governo. O resultado foi um acordo que beneficiava a todos,
ratificado pelo voto do Padre Frei António de São Guilherme, sem cuja aprovação nada de bom
seria feito. Este acordo foi registado nos livros reais e todos assinaram. Foram nomeados
capitães e companhias, como anteriormente, e ao cair da noite, todos estavam em paz e
contentes, agradecendo a Deus por nos ter livrado de um perigo tão evidente.
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No dia seguinte, dia de São Jerónimo, marchámos duas léguas. Ao avistarmos alguns Cafres,
decidimos descansar. O acampamento foi reabastecido com uma grande quantidade de milho,
mantos e sésamo, sendo este o primeiro que vimos. Tudo chegou em abundância, como nunca
tínhamos visto até então. Avançando mais para o interior, a meia légua da praia, fizemos uma
pausa de dois dias. Durante esse tempo, até nos trouxeram peixe, que foi distribuído, assim
como os outros bens, de forma igualitária e sem queixas, graças às novas leis estabelecidas. Em
cumprimento destas leis, um grumete foi punido neste local por trocar bens sem permissão.
João Barbosa, que servia como escrivão do acampamento, foi acusado do mesmo crime, mas
como não se conseguiu provar a sua culpa, foi destituído do cargo. Em resposta, enviou-se uma
equipa para procurar vacas nas aldeias vizinhas, mas só conseguiram trazer três. Decidimos
então voltar à praia, deixando para trás três Cafres que tinham fugido: dois pertenciam a Dom
Duarte Lobo e tinham roubado uma pequena caldeira de cobre, e o outro pertencia ao Padre
Frei António de São Guilherme.
Ao anoitecer, aventurámo-nos pelo mato à procura de água potável. Chegámos a um local que
parecia ter sido uma aldeia, onde encontrámos muitas beldroegas, canas-de-açúcar jovens e
figueiras carregadas de frutos, o que nos alegrou bastante. Ao enviar exploradores para
investigar a área, souberam da existência de aldeias próximas. O Almirante enviou quatro
homens para trocar bens por vacas, mas o Padre Frei António desaprovou a decisão, pois
experiências anteriores mostraram que aqueles que iam às aldeias pensavam apenas em si
mesmos e não no bem-estar do acampamento. Assim, decidimos seguir os quatro homens,
levantando o acampamento e sendo guiados por dois Cafres. Durante esta jornada, um jovem
escravo do Padre Francisco Pereira desapareceu e, apesar das buscas, não foi encontrado.
Finalmente, chegámos a um local.
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Chegámos a um local onde encontrámos os exploradores que o Almirante tinha enviado à
frente. Estavam rodeados por mais de trezentos Cafres, incluindo mulheres e crianças. Já
tinham trocado dois feixes de canas-de-açúcar e alguns mantos com eles. Outros Cafres tinham
ido buscar gado. Pareciam ser pessoas amigáveis, pois quando o nosso grupo passou por eles,
fomos recebidos com festa, cantigas e danças tradicionais. Acampámos perto deles, e de
muitas outras aldeias, junto a um rio. Recebemos muitos bens em troca, incluindo mais de mil
mantos de milho, que era o melhor pão de toda a região, muitas galinhas, milho, vacas, cabras
e canas-de-açúcar. No entanto, devido à nossa escassez de comida, alguns dos nossos homens
foram secretamente ao mato trocar, contrariando o que tinha sido acordado, que era a pena de
morte para quem o fizesse. O Almirante tentou punir os culpados, mas muitos se declararam
inocentes, por isso decidiu não castigar ninguém.
Ficámos neste local durante nove dias, descansando e aproveitando as trocas. Durante este
tempo, uma mulher negra livre, com o seu filho, fugiu. Ela pertencia a Joana do Espírito Santo,
a Beata, e levou consigo outra mulher negra, escrava de Domingos Borges de Sousa. Depois
destes dias, continuámos a nossa marcha, passando por várias aldeias. Deixámos para trás um
jovem marinheiro de Almada, chamado Francisco Gonçalves, que estava demasiado doente
para continuar, quer a pé quer a cavalo. Tínhamos cuidado dele até então, mas agora
entregámo-lo aos cuidados dos Cafres, dando-lhes um pequeno pedaço de cobre para que
cuidassem dele. Despedimo-nos dele com grande tristeza.
Continuámos a marchar até 13 de outubro, sempre com muitas trocas. Nesse dia, um Cafre,
acompanhado por outros e trazendo galinhas, falou-nos em português. Quando perguntámos
como tinha aprendido a língua, ele contou que tinha ficado na região após o naufrágio do navio
São João. Os portugueses tinham tido conflitos com os Cafres, e ele tinha decidido ficar ali
quando era jovem. Mostrou sinais de ser cristão, beijou um crucifixo com devoção e mostrou
grande respeito pelos sacerdotes. Disse que vivia ali, casado e com cinco filhos, e pediu-nos
para ficarmos mais um dia, prometendo voltar no dia seguinte, apesar de o seu rei viver a uma
grande distância dali.
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No dia seguinte, quando estávamos prestes a partir, muitos Cafres aproximaram-se com bens
para trocar. Assim, decidimos montar novamente as barracas no mesmo local. Estes Cafres
pareciam mais leais e amigáveis do que os que tínhamos encontrado anteriormente. Eram bem
apresentados, afáveis e confiáveis nas trocas. Um dos Cafres, que disse chamar-se Alexandre,
veio com seu filho, Francisco, e trouxe alguns bens para trocar. Mostrando-se afetuoso à fé
cristã, o Padre Francisco Pereyra, membro da Companhia de Jesus, expressou o desejo de ficar
com eles, com o objetivo de cuidar da salvação daquelas almas.
Ele discutiu esta intenção com o Almirante e outros amigos, que tentaram dissuadi-lo. No
entanto, o Padre estava determinado, argumentando que não hesitaria em dar a sua vida pela
salvação daquelas almas, especialmente depois de Deus o ter protegido em tantos perigos e
adversidades. Com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, despediu-se de todos no
acampamento. Levou consigo a imagem de Cristo e uma relíquia do Nascimento. No entanto,
enquanto caminhava para a aldeia do Cafre, encontrou-se sozinho no meio da floresta,
abandonado pelo guia. Sentindo-se desolado, regressou ao acampamento, trazendo consigo a
imagem e a relíquia. Acreditava que, por milagre, o Cafre apenas lhe tinha roubado o cobre e
poupado a vida.
A 15 de outubro, caminhámos pela praia, enfrentando areias soltas que tornavam a marcha
difícil. Cafres aproximaram-se com muitos bens para trocar. Depois de adquirirmos vários itens,
estes foram colocados num monte na praia para serem distribuídos. Durante este processo, o
Almirante, segurando uma azagaia, tentou pegar num manto amarelo que parecia pertencer a
um líder Cafre. Apesar de haver comida suficiente no acampamento, aqueles com menos bens
tentaram pegar o que queriam sem pedir. Vendo isto, e sem qualquer intervenção dos
religiosos presentes, alguns Cafres, irritados, levaram todos os mantos. O Almirante, tentando
manter a calma, usou a sua própria azagaia para afastar alguns deles, mas evitou confrontos
maiores para prevenir mais tumultos e proteger o acampamento de possíveis desastres.
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Daqui partimos e tínhamos marchado cerca de duas léguas quando fomos surpreendidos por
uma tempestade com relâmpagos, trovões e chuvas intensas. Acampámos junto a um rio de
água doce, rodeados por um mato. Durante o caminho, muitos Cafres seguiram-nos, cantando
e dançando com grande alegria à sua maneira. Continuaram connosco até anoitecer, trazendo
consigo muitos bens para troca, incluindo cabras, cabritos e ramos de figos da Índia, que nos
serviram de alívio.
No dia seguinte, esperámos que a maré baixasse e atravessámos o rio com água até ao peito.
Este rio foi nomeado "dos figos", pois foram os primeiros figos que encontrámos nesta região
dos Cafres. Continuando a nossa jornada, chegámos a outro rio que atravessámos durante a
maré baixa, com água até à cintura, por três canais distintos. Nos dias seguintes, fomos
abordados por Cafres que nos ofereceram vacas e galinhas em abundância para troca. Cada um
de nós recebeu cerca de cinco galinhas e algumas cabras. As peles destas cabras foram usadas
para trocar por leite e milho. Durante estas trocas, houve alguma desordem, pois não havia
respeito pelo Almirante nem pelos religiosos.
A 22 desse mês, partimos com o acampamento montado e na nossa companhia estava um
Cafre chamado Thomé, que nos acompanhou durante quatro dias. Ele era extremamente útil e
seguia todas as nossas ordens sem hesitação, sendo recompensado com algumas joias de
cobre. Ao subir uma duna de areia, coberta de mato, e depois descendo para o interior,
encontrámos uma das mais belas planícies que já tínhamos visto, repleta de aldeias e irrigada
por rios de água doce, com muitos animais. Muitos Cafres vieram ao nosso encontro, trazendo
tantos bens para troca que decidimos descansar um pouco à sua vista.
No dia seguinte, antes da chegada dos Cafres com os bens para troca, o Almirante chamou os
religiosos, oficiais e passageiros da Nau para uma reunião à parte, junto ao rio. Ele expôs as
dificuldades que enfrentava e disse que não podia continuar a liderar o acampamento. Propôs
renunciar ao seu cargo e à sua jurisdição, sugerindo que se elegesse alguém capaz de nos levar
em paz até ao Cabo das Correntes, e que ele obedeceria a essa pessoa.
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Foi-lhe respondido que, supondo a confissão que fazia sobre a falta de forças, mesmo que na
companhia não houvesse quem pudesse aceitar a sua deficiência, esta seria aceite por todos.
Procedendo-se à eleição, foram eleitos para tomar os votos o Padre Fr. António de S.
Guilherme e Urbano Fialho Ferreyra. Eles dirigiram-se à barraca de António Carvalho, onde
todos se reuniram. Durante a votação, houve algum desacordo por parte de alguns
marinheiros, mas a situação foi apaziguada. Paulo de Barros foi escolhido como terceiro e, após
uma nova votação, o Padre Frey António convocou todos os presentes e propôs que, uma vez
que os votos estavam contabilizados, se estariam de acordo em aceitar como Capitão aquele
que tivesse a maioria dos votos. Todos concordaram e, ao verificar os votos, foi revelado que
António Carvalho era o Capitão, tendo recebido oito votos a mais do que Jacinto António.
António Carvalho era um marinheiro da Nau, que tinha naufragado em Belém. Era um jovem
respeitado por todos, especialmente pelos marinheiros, e, como mencionado anteriormente,
foi eleito para negociar resgates devido ao seu envolvimento no naufrágio da naveta e à sua
experiência anterior com os Cafres. No entanto, alguns murmuraram sobre a sua eleição. Ele
aceitou o cargo e imediatamente emitiu um decreto proibindo qualquer pessoa de negociar
resgates sob pena de punição. Um marinheiro da Nau foi apanhado a desobedecer a esta
ordem e António Carvalho ordenou que ele fosse expulso do acampamento com um anúncio
público, carregando duas galinhas ao pescoço, que era o resgate que tinha sido encontrado
com ele. Este castigo, juntamente com as dificuldades da jornada, afetou tanto o marinheiro
que ele faleceu quinze dias depois.
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No dia vinte e quatro de Outubro, prosseguimos pela planície, enfrentando alguns atoleiros
difíceis. Depois de os ultrapassar, encontrámos inúmeros Cafres alinhados em formação,
trazendo consigo panelas de leite e galinhas para trocar. Isso fez com que marchássemos
menos nesse dia, estabelecendo o acampamento num bosque baixo, mantendo uma vigilância
apertada sobre o nosso gado.
Na manhã seguinte, atravessámos um rio de água doce duas vezes, com a água pela cintura.
Conseguimos avistar o mar pela foz do rio, que parecia ser profundo devido à grande extensão
de mar e pântanos que se formavam com a maré alta. Os Cafres tinham armadilhas para peixes
nessa área. Passámos por um promontório a sudoeste, alto e grosso, coberto de vegetação,
que parecia um bom local para ancorar embarcações.
Nesse dia, marchámos sob um grande orvalho e frio, enfrentando muitos atoleiros. Os Cafres
seguiram-nos, oferecendo itens para troca, o que nos fez parar por um momento. Mais tarde, à
tarde, avistámos um rio caudaloso que, com a subida da maré, rapidamente começou a cobrir
o caminho. Atravessámo-lo com grande dificuldade, caindo em várias depressões feitas por
elefantes e cavalos-marinhos, que estavam cheias e alagadas com água até ao pescoço. Apesar
desses desafios e da chuva, conseguimos acampar junto à praia. Os Cafres aproximaram-se,
fornecendo-nos lenha e água em troca de pequenos pedaços de cobre, um grande alívio dada
a nossa exaustão.
Na manhã seguinte, com a maré baixa, marchámos pela praia por duas léguas. Atravessámos
outro rio em dois trechos, onde vimos Cafres em posição de combate com lanças e escudos. Ao
perceberem a nossa aproximação, largaram as armas e ofereceram-nos várias galinhas em
troca. Houve alguns desentendimentos durante a negociação e na divisão entre todos. Quando
se tentou repreender um religioso por trocar por uma galinha e outro homem mais velho, um
marinheiro interveio de forma agressiva, derrubando-o no chão. Esse ato causou grande
desconforto e indignação entre todos, mostrando uma falta de respeito para com as pessoas
mais velhas e respeitadas.
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Seguindo as nossas jornadas, chegámos no dia dois de Novembro à foz de um rio largo e de
forte corrente. Vimos a necessidade de construir uma jangada para atravessá-lo durante a
maré baixa, por isso decidimos esperar até ao dia seguinte. Durante esse tempo, negociámos
muitas "bolanjas", uma fruta semelhante a laranjas amarelas, de casca grossa e dura, mas de
sabor agradável. Nessa noite, fomos surpreendidos por um grande alvoroço causado por dois
cavalos-marinhos que emergiram do rio, passando pelo nosso acampamento e causando
grande agitação, inicialmente pensámos que eram Cafres a atacar o acampamento.
No dia seguinte, o Capitão Antonio Carvalho da Colla enviou quatro pessoas armadas para
reconhecer a área e encontrar Cafres que pudessem indicar um local mais raso para atravessar
o rio. Ao regressarem com alguns Cafres, informaram que existia um local adequado a cerca de
uma légua de distância. Dirigimo-nos para lá, embora o caminho fosse difícil e, em partes,
perigoso devido às armadilhas colocadas por elefantes. Perdemos dois bois nessas armadilhas,
conseguindo resgatar apenas um com grande esforço. Ao chegarmos ao local de travessia,
enfrentámos um rio largo e lamacento. A travessia foi árdua, com a água a chegar-nos ao
pescoço. Durante a travessia, fomos abordados por muitos Cafres. Foi necessário que o Capitão
disparasse e abatesse um deles para que os restantes recuassem, permitindo-nos alcançar a
outra margem, que era uma ilha. De seguida, atravessámos outro braço do rio, com água até
ao peito, deixando-nos bastante exaustos.
Na ilha, um dos nossos homens, um Chinês ao serviço de Antonio da Camara de Noronha,
adormeceu. Quando acordou e encontrou a maré alta, não conseguiu atravessar o rio. Reuniu-
se connosco dois dias depois, tendo conseguido escapar dos Cafres graças à espingarda que
trazia consigo. Depois de atravessarmos esse rio, que é conhecido como "das Pescarias",
continuámos a nossa marcha. No entanto, notámos que éramos seguidos por Cafres armados,
o que nos levou a crer que poderiam querer atacar-nos. Acampámos para passar a noite e
descansar dos esforços anteriores junto a um pequeno riacho, onde negociámos dois carneiros
que foram distribuídos entre os grupos.
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No dia seguinte, após marcharmos mais sete léguas, acampámos junto a um ribeiro de água
doce, rodeado por uma paisagem arborizada e próxima de uma grande aldeia. Os guias locais
referiam-se a este local como "o lugar do Socorro", devido a ter sido um refúgio para eles após
o naufrágio de uma pequena embarcação. Rapidamente, os Cafres aproximaram-se trazendo
dois carneiros e algumas abóboras, que negociámos. No dia seguinte, regressaram com mais
itens para troca. Deixámos o nosso gado a pastar nas proximidades, sob a vigilância dos
grumetes. No entanto, estes adormeceram, permitindo que os Cafres se apropriassem de
quinze das nossas melhores cabeças de gado, incluindo algumas que usávamos para carga. Ao
perceber o roubo, um dos grumetes gritou, alertando o Capitão Antonio Carvalho, que
prontamente perseguiu os ladrões. Conseguimos recuperar nove vacas, mas os Cafres ficaram
com seis. Como retaliação, apreendemos nove vitelas, nove carneiros, nove cabras e igual
número de cabritos deles.
Ao entardecer, os habitantes da aldeia aproximaram-se tocando os seus tambores de guerra.
Alguns dos nossos homens saíram do acampamento com espingardas, mas sem uma estratégia
clara. Ao avançarem para a aldeia, dispararam a primeira salva sem causar baixas, o que
encorajou os Cafres a contra-atacar. Os nossos homens recuaram em pânico, só se sentindo
seguros quando regressaram às barracas do acampamento. Alguns ficaram feridos no
confronto, enquanto outros foram severamente espancados. Salvador Pereyra, um passageiro
que sempre se comportou como um bom soldado nas situações de combate, foi gravemente
ferido com duas lanças. O mestre Jacinto António, apesar de gravemente ferido, conseguiu
regressar ao acampamento. A desordem e a covardia foram tão evidentes que aqueles que se
consideravam mais valentes foram os primeiros a fugir, sem sequer disparar contra o inimigo.
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A noite caiu e os feridos foram tratados com azeite de coco. No acampamento, reforçaram-se
as vigias, antecipando possíveis ataques. Prepararam-se vinte pessoas para atacar as aldeias no
dia seguinte. Com o amanhecer, os Cafres começaram a gritar e a avançar para o
acampamento, brandindo as suas azagaias. Chegaram tão perto que tivemos de enfrentá-los
para evitar que invadissem as tendas, o que seria a nossa ruína. As primeiras disparadas
atingiram um Cafre, que, ao ser visto ferido pelos seus, fez com que todos fugissem. Os nossos,
liderados por Antonio Carvalho da Costa, perseguiram-nos em formação, enquanto o
acampamento ficou sob a responsabilidade de Antonio da Camara de Noronha, que estava
doente. Chegámos à aldeia dos Cafres, incendiámo-la e saqueámos o que lá encontrámos.
Regressámos ao acampamento sem baixas e dividimos o saque entre todos, já que há vinte
dias só tínhamos comido carne de vaca.
A 8 de Novembro, deixámos o local e marchámos pela praia, mantendo uma boa ordem e
vigiando o gado. Depois de algum tempo, vários Cafres armados saíram de um bosque,
trazendo consigo vacas que pretendiam juntar às nossas. Eles têm um controlo tão grande
sobre as suas vacas que conseguem fazê-las correr ou parar à sua vontade. Domingos Borges
de Sousa avançou e escondeu-se atrás de um arbusto, disparando contra um dos Cafres que
vinha à frente, matando-o. Os restantes fugiram com o seu gado, sem tentar causar-nos mais
danos. Continuámos a nossa marcha rapidamente, pois a jornada era longa e começou a
chover intensamente com trovoadas. Ao chegarmos a um rio onde os Cafres estavam a pescar,
eles fugiram à nossa vista, deixando para trás muito peixe, que foi suficiente para alimentar
todo o acampamento durante dois dias. Neste local, enterrámos Bartholomeu Rodrigues,
enteado do piloto Gaspar Rodrigues Coelho.
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Depois de atravessar o rio com água até ao pescoço, num vão bastante complicado e com um
vento frio intenso, continuámos a nossa marcha pela praia até chegarmos a um ribeiro de água
fresca, a cinco léguas do rio de Santa Luzia. Como se dizia que não haveria mais água até lá,
decidimos descansar nesse local, abatendo algumas vacas para prosseguir no dia seguinte.
Marchámos pela praia, cada um carregando o seu recipiente de água. Rapidamente esgotámos
as nossas reservas, ao encontrar inúmeras fontes de água que desciam das montanhas para a
praia.
Depois de caminhar quatro léguas, atravessando dunas de areia sem vegetação, chegámos ao
rio de Santa Luzia. Acampámos na sua margem, rodeados por muitos pinheiros verdes. O rio
parecia impossível de atravessar devido à sua largura e correnteza, e não dava tréguas com as
suas marés, lembrando o mar de Espanha. Cavámos poços para nós e para o gado, e como não
encontrámos madeira para construir uma jangada e as vacas não tinham comida, decidimos
voltar e procurar um vau mais para o interior.
Neste rio, alguns dos nossos homens que estavam a negociar para o acampamento, e os que os
serviam nesta função, começaram a vender milho e grãos a preços exorbitantes, aproveitando-
se da situação. O preço aumentava à medida que a escassez crescia, chegando a quatro
cruzados. Esta situação desagradou profundamente ao novo Capitão Antonio Carvalho, que
parecia também estar envolvido neste esquema, colocando muitos em risco de vida. No
entanto, até ao Reino de Unhaca, ele cumpriu o seu dever, protegendo-nos a nós e ao gado.
Mais tarde, entregou o comando novamente a Antonio da Camara de Noronha. Não é
surpreendente que, sendo ele um marinheiro, tenha falhado em algumas coisas, quando
muitos outros, movidos por interesses pessoais, agiram de forma indecorosa.
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Guiados por dois dos nossos companheiros, que no dia anterior tinham saído para explorar,
regressámos a este rio. Depois de termos caminhado por muitas dunas de areia, procurando
um caminho através de uma mata, não encontrámos nenhum e decidimos acampar um pouco
afastados, numa zona com capim alto. Choveu durante a noite e a água potável estava a mais
de meia légua de distância. Encontrámos uma fruta chamada "leiteira", que nos saciou por
estar madura. Salvador Pereyra recuperou algumas peças de valor que lhe tinham
desaparecido.
Ao amanhecer, Deus colocou no nosso caminho dois Cafres. Pagámos-lhes em cobre para nos
guiarem na busca de água. Levaram-nos por dunas e matos altos até encontrarmos uma
plantação de abóboras e melancias verdes, que comemos. Descendo para um vale perto das
suas aldeias, mostraram-nos um caminho bem sombreado com muitas plantações, e chegámos
a um braço do rio de Santa Luzia. Acampámos ali para passar a noite, com pouca lenha e
poucas estacas para montar as barracas. Nesse local, enterrámos um dos nossos, um
marinheiro da Nau.
No sábado, 17 do mês, caminhámos pelo interior, vendo campos alegres, povoados de
elefantes. Atravessámos outro braço do rio de Santa Luzia, com muitos pântanos. Agradecemos
a Deus por nos permitir atravessar um rio tão caudaloso. Acampámos numa campina e
matámos uma vaca para alimentar todos. No dia seguinte, caminhámos mais de sete léguas,
procurando água para acampar. Encontrámos um rio agradável, onde passámos a noite. No dia
seguinte, vimos bandos incontáveis de elefantes.
Regressámos porque não conseguíamos atravessar o rio. O caminho que escolhemos pelo
interior foi muito cansativo, devido aos pântanos e lamaçais. Procurámos um local para
descansar e escolhemos um perto de algumas cabanas abandonadas. Dois Cafres vieram
vender-nos lenha e água. Matámos gado para todos e passámos a noite. Na manhã seguinte,
chamámos um dos Cafres, pagando-lhe com um pedaço de carne e cobre, pedindo-lhe que nos
guiasse. Ele levou-nos por montes e vales, uma légua e meia, e depois deixou-nos. Alguns de
nós seguiram um caminho e outros outro, mas voltámos a reunir-nos à vista do rio do dia
anterior. Seguimos ao longo dele, pois não encontrámos um local raso para atravessá-lo, e
acabámos por cruzá-lo mais de três léguas adiante, com água até ao pescoço.
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À vista de muitas povoações e Cafres, que saíram delas para nos esperar com muitas vacas.
Assentando num campo bonito, logo vieram com leite e galinhas, que foram distribuídas pelos
doentes. Neste local não havia milho, embora houvesse sementes dele, mas ainda estavam
verdes. No dia da Apresentação de Nossa Senhora, a 21 de Novembro, negociámos todas as
vacas que quisemos. Embora fossem mais caras do que as outras, adquirimos 140 cabeças
vivas e partimos após três dias de descanso.
Levando-nos daí, com poucas forças devido à contínua alimentação à base de carne de vaca
cozida, alguns adoeceram. Passando aquele rio, que se dizia ser um dos braços do rio das
Medãos de Ouro, os nativos continuaram a seguir-nos com vacas. Os negociadores do
acampamento sugeriram que até ao Reino de Unhaca não haveria gado, e que seria melhor
negociar mais e levar as vacas necessárias, já que o cobre não tinha valor adiante. Por estas e
outras razões, o Capitão Antonio Carvalho estava insatisfeito, permitindo que tais práticas
ocorressem num acampamento com tantas pessoas de qualidade.
Os nativos, sendo de boa índole, acompanharam-nos até um rio que atravessámos com água
até ao joelho. No dia seguinte, trouxeram-nos leite e abóboras, e não concordámos em
comprar algumas vacas ou dentes de marfim que queriam negociar. Partimos após o almoço e,
ao chegarmos a uma ribeira de água doce, alguns Cafres trouxeram-nos peixe para negociar.
Mas, ao receberem o cobre, fugiram sem entregar o peixe. Durante a noite, vieram em grupos
para nos provocar.
Na manhã seguinte, enquanto limpávamos as espingardas e preparávamos a comida, eles
tentaram bloquear o nosso caminho, ameaçando-nos com as suas azagaias e exigindo o gado.
Paulo de Barros, que estava na vanguarda, respondeu, matando um deles com a sua
espingarda. Os restantes fugiram, e nós continuámos a nossa marcha.
Ao sairmos da mata para o campo, ouvimos vozes e vimos algumas pessoas com chapéus. O
Capitão Antonio Carvalho e outros foram ao seu encontro, pensando serem estrangeiros de
uma embarcação que vimos quebrada na praia. Mas eram sobreviventes do naufrágio do
Galeão Sacramento, nossa capitania. Abraçámo-los com lágrimas nos olhos, como quem se
encontra em terra de bárbaros.
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Tão distante do que é natural e devido a uma causa tão lamentável, como a perda de tais
embarcações, com tantas pessoas e riquezas.
Vendo nove pessoas sem armas atravessar um caminho tão longo com tantos bárbaros, que
constantemente nos armavam emboscadas, Deus nos protegeu, deixando os restantes
companheiros que escaparam do naufrágio. Alguns foram mortos pelos Cafres, outros pela
fome e exaustão, e outros ainda ficaram para trás por falta de forças para continuar. Estes nove
eram Manoel Luis, o calafate, dois grumetes portugueses, um mestiço, um canarim e dois
escravos. Todos marcharam connosco até montarmos acampamento sob algumas árvores,
perto de um rio de água doce.
No dia seguinte, guiados por dois Cafres locais, chegámos a um rio com uma travessia difícil.
Atravessámos com água até ao peito, e ao chegarmos à outra margem, encontrámos uma
figueira carregada de figos maduros. Comemos até nos saciarmos e continuámos a nossa
marcha.
Os novos companheiros do galeão contaram-nos sobre o seu naufrágio. Uma tempestade
atingiu o galeão e a nau Atalaya. O galeão perdeu a sua vela principal e, ao tentar voltar para
terra, foi atingido por uma onda gigante que destruiu a parte traseira do navio. Muitos caíram
ao mar, incluindo o capitão e um padre jesuíta. Apenas um sobreviveu.
Continuámos a nossa marcha e encontrámos vestígios do naufrágio. Também encontrámos
uma mulher chamada D. Barbora, que estava viva, mas outros, incluindo o piloto e o escrivão,
estavam mortos. Decidimos continuar a nossa marcha até chegarmos ao rio da Nau Belem.
Muitos dos nossos companheiros morreram de fome ou foram mortos pelos Cafres. A situação
era tão desesperada que até uma carta de navegação foi comida, o que resultou na morte
daqueles que dela se alimentaram, provavelmente devido ao veneno da tinta. A fome era tão
intensa que chegámos a lutar por um simples gafanhoto.
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A partir do rio da Nau Belem, embora em número reduzido e com constantes sobressaltos
causados por estes bárbaros, seguimos sempre o rasto do acampamento. De tempos a tempos,
encontrávamos sinais dele e recebíamos notícias dos mesmos Cafres, que nos informavam que
Deus nos tinha protegido até ao momento, permitindo que todos nos encontrássemos.
Após o rigoroso temporal, amanheceu o dia vinte e oito de Novembro. Levávamos na nossa
companhia dois Cafres locais para nos mostrar o caminho, em troca de um pedaço de vaca e
um pedaço de cobre que lhes foi dado. Guiados por eles, marchámos em direção ao rio das
mãos de ouro, chegando lá por volta das oito horas. Admirámo-nos com a travessia e a largura
do rio, pois mal se via a terra do outro lado, com mais de três léguas de água a atravessar.
Lançámo-nos à água, com os Cafres à frente, enfrentando uma entrada difícil e água até ao
peito. Num dia frio, com vento e maré, atravessámos com os chapéus na cabeça e o gado a
meio caminho. Quando chegámos à terra do outro lado, encontrámos outro canal que nos
chegava ao pescoço. Saímos da água por volta das três da tarde, exaustos e encharcados.
Agradecemos a Deus por termos encontrado estes Cafres, pois sem eles seria impossível
atravessar este vau, tão largo quanto o mar de Lisboa até ao Barreiro. Perdemos dois jovens de
Salvador Pereira, um chinês e outro de Bornéu, que se afogaram. Acampámos nessa tarde e
noite e, no dia seguinte, marchámos terra adentro em direção à praia. Era uma zona muito
povoada, onde os habitantes nos ofereciam abóboras, melancias, bolachas e tabaco. Não
encontrámos milho nem ameixoeira, pois ainda não eram comuns na região. Nesta área, e
quase em toda a Cafraria, não chovia há cinco anos, causando grandes fomes e uma praga de
gafanhotos que, por onde passavam, não deixavam qualquer erva verde. O caminho da praia
até ao Reino de Unhaca não é o mais adequado, pois é seco, sem água e com grandes serras de
areia. Por vezes, desviávamo-nos deste caminho devido a estas condições, especialmente
quando alguns de nós eram forçados a chegar à praia.
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Em dois de Dezembro, tendo nessa manhã rodeado, por entre matos, trabalhosamente uma
lagoa, chegámos a uma campina rasa, onde descansámos. Deixando o acampamento ali,
continuámos a marchar para o norte, pela mesma campina, fazendo uma pausa junto a uns
charcos de água. Encontrámos um marinheiro de nome Pedro Gaspar, casado em Lisboa,
mestre sapateiro, que morava na calçada de Pé de Naves. Tendo caído em pobreza com filhos,
veio na mesma nau à Índia, à procura de um parente que o ajudasse, e regressava a casa com
ajuda. Nessa noite, acendemos fogos para que este homem pudesse encontrar o
acampamento, pois seria impossível não o ver se o procurasse. No dia seguinte, enviaram-se
seus camaradas atrás de onde havíamos descansado para almoçar, regressando sem ele nem
notícias suas. Discutiu-se variadamente sobre este assunto, sem conclusão, e desenganados, já
que ele não aparecia, marchámos em frente, trocando cada um por si, como queriam
ameixoeira, galinhas, abóboras e melancias, até chegarmos a um rio caudaloso. A maior parte
do acampamento, que se adiantou, atravessou com água pelos pés e, com a maré a encher e
não sendo possível atravessar a vau, o grupo do Padre Fr. António e outros dormiu entre a
mata junto ao rio, onde encontrámos muito peixe e galinhas, com os quais nos alimentámos
até que a maré permitisse, no dia seguinte, juntarmo-nos aos outros. Aí vimos o primeiro
Cafre, que falando português nos chamou matalotes, dizendo que na Ilha de Quifine estavam
dois Pangaios, alegrando-nos com a notícia, pelo receio que tínhamos de não encontrar pataxo
de Moçambique.
Juntos com os outros da outra margem, passámos entre uma bela floresta com boa água dois
dias, onde encontrámos muito peixe e sal, sendo o primeiro que vimos, ameixoeira, milho, mel,
manteiga, ovos, galinhas, cabras e carneiros, tudo em tanta abundância que nos parecia estar
numa ribeira bem provida, trocando todos livremente por panos e trapos velhos e pobres, de
qualquer forma que fossem, desde que não tivessem buracos.
Daqui, levámo-nos a treze de Dezembro, marchando com muitos Cafres na nossa companhia,
passando nesse dia por duas tempestades com muita chuva, chegando a passar a noite junto a
uma lagoa, depois de uma mata densa, que deixámos pela manhã de catorze de Dezembro
pela praia. Tendo marchado por ela uma légua, encontrámos muitos Cafres para nos guiar, com
muita festa pela terra adentro, pois marcharíamos outra légua até chegar à Corte do Rei
Unhaca, por outro Sangoan onde o encontrámos sentado numa esteira à sua porta debaixo de
uma árvore, onde, segundo o costume dos Cafres, tinha suas insígnias reais, que eram uma
cabeça de vaca com sua armação, e na mesma árvore uma azagaia muito comprida amarrada
no alto, e na porta um arco e flecha embebida. O velho Rei estava com um lençol de algodão
avermelhado coberto, com o seu intérprete de pé, pelo qual nos saudou, cumprimentando-nos
calorosamente, dando notícias do pataxo de Moçambique, ter chegado à Ilha de Quifine, doze
léguas do seu Reino, supondo não ter ainda estabelecido feitoria nesta Unhaca como é
costume. Depois disso, mandou-nos alojar nas cabanas que havia, providenciando muito peixe,
galinhas, batatas, manteiga e peixe, que cada um comprava a gosto por pedaços de camisas,
calções, toalhas e todo o tipo de roupa, de tal forma que, nos quinze dias que aqui passámos,
sempre houve abundância.
O Rei mandou ao Almirante António da Câmara, a quem António Carvalho tinha, à vista de
Unhaca, entregue o governo do acampamento, uma pequena quantidade de ameixoeira e dois
pedaços de cavalo marinho, respondendo-lhe com dois borrifadores de prata, um pano com
bordas de seda e uma peça de corte de Baroche. Estes Cafres, pelo trato e conhecimento dos
portugueses, são grandes mercadores, interessados e desconfiados, que primeiro querem
receber o pano antes de largarem o que vendem por ele.
Como aqui não se davam notícias do pataxo com a certeza que desejávamos,
pareceu mandar pela nossa que trouxe do que havia, avisando ao Capitão dele
da nossa chegada e perdição. Assim, despediu-se dois dias depois António
Carvalho com seis portugueses e dois Cafres da terra para guiar até à Ilha do
Quifine, onde chegaram os nossos com muito trabalho. Lá encontraram uma
galeota, sendo a sua tripulação bem hospedada pelo Capitão Diogo Velho da
Fonseca, natural de Vila Franca de Xira, casado e morador em Moçambique. Ele
tinha ido estabelecer as feitorias do Manhifa Manoel Bombo e Locondone. Ao
ser avisado da nossa perdição e chegada a Unhaca, como bom vassalo de Sua
Majestade, mandou logo com os seus um Mouro Piloto com roupa para guiar
os caminhos, a barquinha e o lusio para atravessar os rios de Libumbo e
Machavane. Chegados António Carvalho e os que o acompanharam, dando tão
boas notícias, festejámos com admiração e alegria que cada um sentiu,
principalmente sabendo que há quatro anos não tinha vindo outro pataxo, mas
apenas este, que atribuímos a um benefício e mercê de Deus, que seja sempre
louvado, pela sua Divina Providência.
A vinte e oito de Dezembro, com alguns Cafres que nos quinze dias que aqui
passámos travaram amizade connosco, deixámos este Reino de Unhaca
atravessando a terra junto a uma grande lagoa e algumas povoações até um rio
que atravessámos com água pela cintura. Marchámos esse dia atrás com muita
calma, chegando tarde ao Reino de Machavane, mais rico e poderoso que o
Sangoan. Este nos saiu ao caminho com uma capa de couro aos ombros, onde
passámos a noite. No dia seguinte, ofereceu ao Almirante uma vaca,
respondendo-lhe com uma foice branca. Deixando este lugar no trigésimo dia
do mês, o Rei acompanhou o arraial à frente por uma légua, despedindo-se de
todos com grandes cortesias, enviando na nossa companhia para nos guiar um
seu parente até ao rio Machavane. Chegámos ao meio-dia e, por ser muito
revolto e caudaloso, era necessário atravessar em canoas. Começámos a
atravessar, ficando metade do arraial para o dia seguinte. Nessa tarde, ao
atravessar três grumetes numa dessas canoas, abriu-se um buraco que estava
tapado com lodo, e ao afundar-se, não deu mais oportunidade senão a de
nadar, afogando-se um de nome António Jorge, e os outros com dificuldade
chegaram à terra. Depois de todos terem atravessado para o outro lado com o
gado, que ainda eram mais de quarenta vacas de carga, marchámos para o
Reino de Tembe Velho, onde passámos a noite. Ele saudou o Almirante com um
capado, porque lhe deu uma peça de corte pintada. Deixando este lugar no dia
seguinte, com a jornada sendo longa, chegámos ao Reino de Tembe Moço,
poderoso Rei em gente e gado, onde enfrentámos uma tempestade tão
assustadora, com tanta chuva e raios, que não ficou barraca em pé, sendo
forçado a passar ali outro dia, dividindo-se uma vaca que o Rei deu para comer
e as nossas, que tirando-as da carga, saiu a cada dezoito pessoas uma. Aqui,
negociou-se muito leite e melancias, chegando uma carta do Capitão da
Galeota Diogo Velho da Fonseca, para nos apressar, pois estava à nossa espera
com grande entusiasmo, enviando o lusio para embarcar todo o fato com os
doentes e o Almirante com os Religiosos na barquinha, e os restantes por terra.
"Em dois de Dezembro, após termos contornado uma lagoa nessa manhã, atravessando matos
densos, chegámos a uma campina rasa onde descansámos. Depois de o grupo ter partido dali,
continuámos a marchar em direção ao norte pela mesma campina, parando junto a alguns
poços de água. Durante a noite, perdemos um marinheiro chamado Pedro Gaspar, mestre
sapateiro de Lisboa. Ele tinha vindo à Índia para procurar um parente que o pudesse ajudar e
estava a regressar a casa com alguma ajuda. Passámos a noite inteira com fogueiras acesas,
esperando que ele encontrasse o caminho de volta ao grupo, mas sem sucesso.
No dia seguinte, os seus companheiros foram procurá-lo ao local onde tínhamos almoçado no
dia anterior, mas regressaram sem ele e sem notícias suas. Continuámos a nossa marcha,
negociando pelo caminho com os Cafres, adquirindo ameixoeira, galinhas, abóboras e
melancias. Negociávamos com qualquer pedaço de tecido ou roupa velha que tivéssemos.
Chegámos, a 13 de Dezembro, a uma aldeia onde o Rei Unhaca nos recebeu. Ele estava
sentado sob uma árvore, com as suas insígnias reais: uma cabeça de vaca e uma lança muito
longa. O rei, coberto por um lençol de algodão tingido, cumprimentou-nos através do seu
intérprete e deu-nos notícias do pataxo de Moçambique, que tinha chegado à Ilha de Quiufine.
Ele também nos informou que ainda não tinha estabelecido uma feitoria em Unhaca, como era
costume.
O rei ofereceu-nos alojamento nas palhotas e tivemos a oportunidade de negociar e adquirir
alimentos e outros bens. Durante os quinze dias que passámos ali, nunca nos faltou nada. O
Almirante Antonio da Camara, a quem Antonio Carvalho tinha entregue o comando do grupo à
vista de Unhaca, ofereceu ao rei dois borrifadores de prata, um pano com bordas de seda e
uma peça de corte de Baroche em troca de ameixoeira e pedaços de carne de cavalo-marinho.
Estes Cafres, familiarizados com os Portugueses, são grandes comerciantes, interessados e
desconfiados. Eles exigem sempre receber primeiro o pano antes de entregarem os bens que
vendem em troca."
"O Capitão Diogo Velho da Fonseca, juntamente com os seus companheiros da galeota,
desembarcou na praia e fomos recebidos com grande carinho e alegria. No dia seguinte,
distribuiu a todos arroz e ameixoeira para três dias, ajudando muitos com roupa branca e
sapatos, e aos que precisavam, ofereceu doces e todos os mimos que tinha para os doentes,
sem negar a ninguém. Por tal generosidade e bom trato, mereceu muitos agradecimentos.
Alguns dos seus companheiros venderam-nos um fardo de arroz redondo por catorze cruzados
de ouro, uma mão de carambolas por seis e meio, uma garrafa de azeite e vinagre por dez,
sapatos por três a quatro cruzados, e uma caneca de vinho de Portugal por doze cruzados, e
outra de nipa por quatro, com uma margem de lucro bastante elevada.
Ao terceiro dia após a nossa chegada, a tripulação do Navio e do Galeão, que totalizavam cento
e vinte e quatro portugueses e trinta negros cativos, foram distribuídos pelas cinco feitorias já
estabelecidas, vinte léguas rio acima. Não faltou comida, sendo fornecidos três panos por mês
a cada pessoa por conta de Sua Majestade. O Almirante ficou na ilha como hóspede do Capitão
Diogo Velho, e os religiosos, oficiais e passageiros do Navio foram acomodados em palhotas
novas e outras que foram desocupadas pelos Lascars da galeota, que foram pagos. Passámos
seis meses nesta ilha deserta, sem outra saída além das feitorias, onde alguns iam buscar
alimentos e refresco. Nesta ilha, tínhamos a consolação de cinco a seis missas todos os dias,
um grande alívio para a peste que se sofreu nas feitorias e na ilha, onde morreu metade das
pessoas, lá devido à abundância de comida e à falta de sangrador, e aqui de febres agudas que
não davam espaço para medicamentos. Muitos morreram, incluindo o Padre Francisco Pereira
da Companhia de Jesus, Salvador Pereira, o Mestre Jacinto António, Amador Monteiro,
camarada do Almirante e filho do glorioso mártir Embaixador ao Japão. Do Galeão, apenas
sobreviveram Manuel Luís Estriqueiro, Marcos Peres Sota piloto, Francisco Gomes Canarim e
um Cafre.
Quando chegou a hora de partir, os que sobreviveram nas feitorias juntaram-se e, depois de
embarcados, levantámos âncora a 22 de Junho à tarde, com marés vivas, passando entre
balizas devido à baixa profundidade. Ao ancorarmos na Ilha de Unhaca, comprámos muitas
galinhas e batatas. No dia de São João, começámos a navegar para Moçambique com trezentas
pessoas, brancos e pretos, na galeota, a maioria doentes e mal acomodados devido ao
pequeno tamanho do barco. Ancorámos em nove de Julho em frente à fortaleza, onde morreu
Amaro Jorge, marinheiro do Navio, natural de Ueyras. Ao chegar a terra, o Capitão Diogo Velho
desembarcou, mas logo regressou ao barco, escandalizado com a ordem do Governador Álvaro
de Souza de Tavora de não permitir que ninguém desembarcasse nem que qualquer
embarcação se aproximasse, exceto a do Governador. Fomos todos levados à fortaleza, onde o
Ouvidor, o Feitor e os seus escrivães fizeram um inventário, tanto da perda dos Navios como
dos diamantes que sobreviveram. Cada um encontrou um lugar para ficar até ser hora de
embarcar para a Índia. O Governador providenciou ajuda apenas aos homens do mar com uma
porção de arroz e um cruzado por mês, recrutando alguns que não eram casados como
soldados da fortaleza devido à falta de pessoal, e os restantes foram distribuídos por três
embarcações que partiriam para Goa."
"A onze de Setembro zarpámos com terral, cinco embarcações de Moçambique, três para Goa,
o pataxo de Dio e outro para as Ilhas de Comoro, tendo avistado o pataxo dos rios de Cuama,
porque até então o Governador nos fez esperar, navegando de um lado para o outro à espera
da viragem para entrar. Seguindo a nossa rota, rapidamente se separaram o pataxo de Dio e o
das Ilhas, navegando os de Goa juntos até dez graus, em que o Urcado do Governador pela rota
marítima, e o pataxo de Francisco Dias Soares pela rota terrestre, nos deixaram na galeota de
Thomé Gonçalves de Pangim, onde estava como Capitão e Piloto Manoel Soares, natural de
Lisboa. Comprei cabine para viajar com os Padres Fr. António de S. Guilherme e Fr. Diogo da
Presentação, meus camaradas. Sendo esta galeota pequena e má a velejar, o Capitão dela
navegou de tal forma, entre calmarias, tempestades e ventos contrários, que só ela nessa
monção chegou a Goa, avistando terra em quarenta e sete dias entre Angediva e o Cabo da
Rama. Devido à falta de conhecimento sobre o estado da barra de Goa e outros contratempos,
decidimos, por consenso, regressar, entrando na barra de Onor no primeiro de Novembro,
cinquenta e dois dias após termos saído de Moçambique. No dia seguinte, dois de Novembro,
parti para Goa com os Padres numa manchua de catorze remos, chegando a oito de Novembro
pela manhã. Todos estavam admirados com as notícias do nosso naufrágio e ainda mais com os
desastres que esta Cidade sofreu esse ano, perdendo na sua barra um pataxo e uma Caravela
carregados para a China com grande riqueza. Não se salvou ninguém, incluindo o próprio Geral
de Macau, António Vaz Pinto. Também se perderam sete navios de socorro carregados para
Ceilão e doze navios de armada do Canará. Houve ainda um terramoto que devastou a região,
estimando-se a perda de palmeiras nas ilhas e terras de Salcete e Bardés em mais de duzentas
mil, além de muitas igrejas e mangueiras. Não chegaram notícias nem embarcações do Reino,
nem da Urca do Governador de Moçambique, onde estava o sustento e riqueza daquela Cidade
e os diamantes que sobreviveram ao naufrágio das Naus. Também se sentiu a perda do Galeão
Santo Milagre, embora alguma gente tenha sobrevivido no abrolho onde encalhou, a seis graus
a sul. Fizeram um batel e quarenta homens conseguiram chegar às Ilhas de Querimba,
deixando os restantes no abrolho, sustentando-se de pássaros e tartarugas. Outra embarcação,
a Nao Pata, que vinha do Reino, encalhou nos rios de Cuama. A maioria das pessoas
sobreviveu, mas morreu a caminho de Moçambique com o Governador Álvaro de Souza de
Tavora no seu pataxo dos rios, que encalhou devido a uma tempestade. Todos morreram de
fome e sede, exceto o próprio Governador e alguns criados. Não sei o que me surpreende
mais, se a certeza de que os perigos no mar são sempre uma realidade, ou a confiança que
aqueles que navegam têm em si mesmos. Autores estrangeiros dizem que os segredos do mar
e da terra só a nação portuguesa nasceu no mundo para os descobrir."
https://www.arquipelagos.pt/imagem/peca-de-manuel-tavares-bocarro-1640-recolhida-no-
galeao-sacramento-naufragado-a-30-jun-1647-memorial-do-galeao-sacramento-1993-port-
elizabeth-africa-do-sul-8/
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atalaia-do-pinheiro-1647/
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Santíssimo Sacramento (1647)
Chase Oswald, Filipe Castro e Paulo Jorge Rodrigues
País: África do Sul
Local:
Coordenadas: Lat. ; Longo.
Tipo: Nau
Identificado: Sim
Datado: 1552 (Contas históricas)
Introdução
A construção naval portuguesa entrou em crise na segunda metade do
século XVII. A escassez de fundos públicos impediu o Estado de construir
pelo menos dois navios por ano, número mínimo necessário para manter a
Rota da Índia.
Foi neste contexto que o galeão Santíssimo Sacramento foi encomendado a
Rui Dias da Cunha pelo Governador de Baçaim, D. Telles de
Menezes. Segundo o Regimento de 23 de Fevereiro de 1615, o contrato
exigia uma forma e dimensões particulares, com quatro mastros e um
castelo alto na popa, tal como definido em Lisboa.
A quilha foi baixada em Bassein, em 1638, e o casco ficou pronto no início
de 1640. O navio foi lançado em abril e rebocado para sul, para Goa, onde
seriam concluídas as obras de topo e o cordame. A guerra com os Países
Baixos atrasou vários anos a conclusão do navio, mas este ficou pronto em
1646 e dizia-se que era um navio grande e bonito, embora alguns se
queixassem de que era difícil de manobrar devido ao seu tamanho.
A artilharia de Sacramento foi escolhida entre os melhores e mais poderosos
canhões disponíveis. Algumas armas foram lançadas
propositalmente. Quando ficou pronto armou duas baterias de cada lado,
perfazendo um total de 60 canhões. Espiões holandeses, provavelmente
mal informados por contrainformações cuidadosamente colocadas,
acreditavam que Sacramentocarregava 80 armas.
Finalmente, nos últimos dias de janeiro de 1647 o Sacramento foi fundeado
ao lado do antigo navio Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro , pronto para
partir assim que o Sacramento fosse carregado. Como carga foram
carregados vários canhões de bronze, fundidos pelo famoso armeiro
Manuel Tavares Bocarro, enviados para o reino.
A pequena frota de dois navios partiu de Goa no dia 20 de Fevereiro de
1647, já no final da temporada, e para isso expondo-se aos rigores do
Inverno meridional na passagem do Cabo da Boa Esperança. O capitão de
Sacramento era Luís de Miranda Henriques, também capitão da frota,
enquanto Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro era comandada pelo
almirante António da Câmara de Noronha, que chegara à Índia como
capitão do galeão São Lourenço . A frota transportava uma grande carga de
cerâmicas e porcelanas chinesas, 60 a 80 canhões fundidos por Tavares
Bocarro, e uma vasta gama de sedas, algodões, madeiras preciosas,
especiarias, drogas, ouro – principalmente em correntes e anéis – e pedras
preciosas.
Poucos dias depois de deixar o porto, a frota avistou um navio com
peregrinos para Meca, que Luís de Miranda Henriques resolveu abordar e
saquear, contra o conselho dos restantes oficiais. O navio tinha uma carta
de salvo-conduto das autoridades portuguesas e os oficiais da Atalaia
convenceram Henriques a poupar a vida dos peregrinos. Além da perda de
três dias, este incidente cruel desmoralizou as tripulações de ambos os
navios.
Três meses e meio, perto do equador, um terceiro navio São Pedro o
Grande , que havia partido de Goa no dia 6 de março, alcançou a pequena
frota e navegaram juntos durante 20 dias. Dada a data tardia da
temporada, porém, o capitão do São Pedro , Luis Botelho Fróis, decidiu
voltar atrás e navegar para Moçambique, para passar o inverno. No ano
seguinte, navegando para Lisboa, Fróis quase naufragou ao passar pelo
Cabo, e teve que rumar ao Brasil, para reparar o seu navio, após o que
finalmente regressou a Lisboa, naufragando nos Açores, em 1651.
Enquanto isso, Sacramento e Atalaia foram separados por uma tempestade
em 12 de junho e ambos foram atirados contra a costa. É difícil saber o que
realmente aconteceu porque o único relato escrito que sobreviveu foi
escrito por Bento Teixeira Feio, a partir de histórias que mais tarde ouviu do
pequeno grupo de sobreviventes que se juntou aos sobreviventes da
Atalaia, durante a dura caminhada até Moçambique.
Segundo estes sobreviventes, na noite de 12 para 13 de junho, após
perder Atalaia de vista , a tempestade destruiu a vela grande e atingiu o
galeão com tanta força que este começou a absorver água. os vazamentos
e o navio continuaram sua viagem para o sul, em direção ao Cabo da Boa
Esperança.
Na noite de 15 de junho, outra tempestade atingiu o navio e ele avançou
para o sul, à vista da terra, às vezes perto demais para ser confortável. O
navio manteve o rumo, mas na noite de 29 para 30 de junho o vento
empurrou-o para a costa e jogou-o contra as rochas a 43 graus de latitude
sul, na Baía de Algoa, perto da atual Port Elizabeth, perto do Cabo da Boa
Esperança.
Apenas 72 pessoas sobreviveram. Depois de descansar 11 dias na praia, os
sobreviventes decidiram caminhar até Moçambique e iniciaram uma
marcha mortal para norte. Quase cinco meses depois, no dia 27 de
novembro, apenas nove pessoas ainda estavam vivas quando encontraram
os sobreviventes de Nossa Senhora da Atalaia na Zululândia.
Em 1778, o capitão de uma guarnição holandesa estacionada nas
proximidades visitou a Baía de Algoa e marcou o local do naufrágio num
mapa, referenciando a localização das cabanas construídas pelos
sobreviventes.
Em 1949, um artigo referia-se à existência de um canhão e duas âncoras na
área das marés, e três anos depois um pesquisador chamado Harraway
levantou um canhão de ferro no local.
Harraway tirando uma arma da água.
Em 1977, David Allen e Gerry van Niekerk localizaram 21
armas de bronze debaixo d'água em frente ao local da
arma de Harraway. Logo depois, esse número subiu para
61 quando David Allen encontrou outras 40 armas – 21 de
ferro e 19 de bronze.
Conta
Após a partida de Goa para Portugal em 1647, a nau capitânia do
galeão, Santissimo Sacramento (sob o comando do Comodoro Luís de
Miranda Henriques) e seu navio consorte, Nossa Senhora da
Atalaia(capitaneado por Antonio da Câmara de Noronha) naufragaram ao
tentar contornar o Cabo do Bom Esperança (Theal, 1902: 297). O relato aqui
apresentado foi originalmente escrito por Bento Teyxerya Feyo, funcionário
do tesouro na Índia que sobreviveu ao naufrágio do Nossa Senhora da
Atalaia e detalhou a sua história ao rei D. João IV, que prontamente solicitou
um relatório escrito (Duffy, 1955: 42-43).
No dia 20 de fevereiro de 1647, Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora da
Atalaia partiram para Portugal, transportando de Goa o vice-rei da Índia
portuguesa, Dom Filippe Mascarenhas (Theal, 1902: 297). O navio navegou
ao longo da costa indiana em direção ao noroeste e manteve esse rumo
com ventos favoráveis até uma latitude de 10 e 1/3°, norte (Theal, 1902:
297). Na madrugada de 2 de março, Santíssimo Sacramentoavistou um navio
estrangeiro e o comodoro levantou uma bandeira e zarpou antes de
disparar dois tiros de festim, forçando o navio estrangeiro a enrolar as velas
e enviar um barco para negociar. Os navios portugueses ficaram à deriva ao
lado deste navio durante quatro dias e noites enquanto o comodoro
considerava capturá-lo, embora ele tivesse uma licença do vice-rei e
pertencesse ao rei de Masulipatam, do qual o Estado da Índia recebeu
recursos substanciais através da aquisição do Ceilão ( Theal, 1902: 297-
298). Contudo, os oficiais de Nossa Senhora da Atalaiadiscordou das
intenções do comodoro e argumentou que o navio estrangeiro deveria ter
permissão para continuar sua viagem. Assim, no dia 5 de Março, os
portugueses partiram deste navio estrangeiro a pedido de marinheiros
mais experientes que desejavam evitar contornar o cabo no inverno,
quando as tempestades são mais numerosas e violentas. Depois de
cruzarem o equador, os portugueses seguiram em frente com fortes chuvas
e calmarias, durante as quais o galeão São Pedro os ultrapassou, mesmo
depois de terem saído de Goa quinze dias após a partida. São
Pedropermaneceu ao lado do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora da
Atalaia durante 20 dias antes de se separarem (Theal, 1902: 298).
No dia 19 de abril, domingo de Páscoa, o capitão do Nossa Senhora da
Atalaia ordenou que fizessem uma saudação de sete tiros ao Santíssimo
Sacramento . Imediatamente após este acto, o Nossa Senhora da Atalaia teve
uma fuga, acumulando quatro palmos de água (cerca de 4 m), que era
bombeada duas vezes por dia pelos rapazes e escravos do navio (Theal,
1902: 298). No dia 10 de junho, com ventos ideais, os portugueses
atingiram a latitude de 33° Sul; porém, o mastro principal do Nossa Senhora
da Atalaia quebrou e devido a isso e ao vazamento do casco, o Nossa
Senhora da Atalaia solicitou que o Santíssimo Sacramentopermanecer com
eles por uma semana enquanto tentavam consertar o mastro principal. No
entanto, devido às condições meteorológicas adversas, não conseguiram
reparar o mastro (Theal, 1902: 299). Em 12 de junho, oito marinheiros, cinco
artilheiros, quatro marinheiros e vários passageiros já haviam morrido de
doenças. Ao cair da noite do dia 12, soprou uma brisa pouco antes do pôr
do sol enquanto os portugueses navegavam para terra com vento oeste-
noroeste; o céu ficou vermelho quando espessas nuvens negras surgiram e
um relâmpago iluminou um peixe orelhão (peixe-lua), um presságio que
indicava aos portugueses que uma grave tempestade se aproximava
deles. Logo o vento começou a rugir e em resposta a Nossa Senhora da
Atalaiaenrolou as velas superiores e a vela spritsail. O mar começou a subir
e o vento aumentou, inclinando tanto o navio que ele absorveu grandes
quantidades de água. Foram dados comandos para derrubar o pátio
principal, um furioso furacão de vento levou violentamente a vela grande e
a vela de proa e os despedaçou. O navio permaneceu à mercê das ondas
até que a tripulação finalmente ergueu uma vela de tempestade no mastro
de proa e posicionou a verga principal a meio mastro de altura, com a vela
esticada de cima para baixo (Theal, 1902: 299).
O navio permaneceu neste estado de golpe durante o resto da noite,
forçando o casco e levando pelo menos 10 palmos de água (cerca de 10 m)
(Theal, 1902: 299-300). Na manhã seguinte, Nossa Senhora da Atalaia viu-se
sozinha, sem a companhia do Santíssimo Sacramento . À medida que a
tempestade prosseguia durante a noite seguinte, Nossa Senhora da
Atalaia foi castigada pelos ventos e pelas ondas, castigada pelo granizo e à
mercê dos trovões e dos relâmpagos. O navio continuou a navegar com o
vento de popa enquanto a tripulação conseguia retirar a lona restante do
pátio da vela spritsail e substituí-la por uma nova. Nos dois dias seguintes,
eles trabalharam vigilantemente as bombas enquanto o tempo acalmava
e Nossa Senhora da Atalaianavegou à vista de terra a uma latitude de
32°. Nos dias seguintes, a tripulação navegou em direção a terra com a
esperança de consertar o navio, bombear sua água e se sustentar com a
pesca. Nesta altura o comandante do navio Jacinto António achou que seria
melhor regressar a Moçambique antes que o tempo piorasse novamente,
assegurar a propriedade do rei, salvar o navio e obter ajuda para os
doentes e feridos. No entanto, a vontade do comandante desagradou aos
que estavam a bordo do navio, muitos dos quais tinham negócios em
Portugal e canela na carga que pretendiam evitar que estragasse, pelo que
coagiram o comandante e os que com ele concordaram a manter o rumo
para Portugal. Navegando para sul nos próximos dias Nossa Senhora da
Atlaiaaumentou sua latitude para dobrar o Cabo. Todos a bordo do navio se
revezavam no trabalho das bombas para que nunca parassem de esvaziar
o porão. A tripulação tentou tirar água do porão convertendo barris em
baldes e abrindo escotilhas de artilharia para usar como poços, mas estes
esforços foram de pouca ajuda, devido a quatro canhões armazenados que
bloqueavam as escotilhas (Theal, 1902: 300-301) .
Nessa época, espalharam-se rumores entre a tripulação e os passageiros
de que muitos joelhos do convés do navio estavam quebrados. Ficou
acordado que Nossa Senhora da Atalaia deveria procurar uma latitude
diferente e com tempo melhor para que a tripulação pudesse livrar o navio
da água (Theal, 1902: 301). Pouco depois, o comandante, os oficiais e o
capitão desceram ao convés para inspecionar o casco, regressando com
três pregos nas mãos e exclamando que “o navio estava em condições de ir
para Jerusalém” (Theal, 1902: 301). Nada mais foi discutido sobre a viagem,
além da necessidade de chegar a Portugal o mais rápido possível. A vela de
traquete foi lançada na noite de 29 de junho
para dirigir o navio de volta à
terra. O segundo piloto avisou ao piloto que terra estava próxima, e este
respondeu que não tinha nada a temer, pois já navegava nesta costa há
muito tempo. Em pouco tempo, um marinheiro de vigia gritou “desviem-se,
irmãos”, quando o navio se viu em um banco de areia, a oito braças (cerca
de 15 m) de água, no mar próximo à Baía de Algoa. A tripulação desenrolou
apressadamente a vela principal. Guiados pelo segundo piloto estacionado
nas travessas, conseguiram levar Nossa Senhora da Atalaia de volta ao mar
com o auxílio de uma brisa terrestre e o esforço de todos a bordo (Theal,
1902: 301).
Infelizmente, devido a este acontecimento, o navio vazou mais do que
antes, com água entrando por todas as costuras (Theal, 1902: 302). Este
problema foi ampliado à medida que uma tempestade se aproximava no
dia seguinte, forçando todas as bombas a funcionarem
indefinidamente. Enquanto a tempestade avançava, Nossa Senhora da
Atalaianavegou usando suas velas de tempestade dianteiras, mas lançou-se
com tanta força que a tripulação temeu que ela quebrasse no meio do
navio a cada hora. A tempestade foi tão violenta que levou as ondas por
cima da lanterna e dos mastros da popa. No comando, o segundo piloto
viu-se sozinho e quase se afogou pelas ondas enquanto o restante da
tripulação atendia às bombas. Embora os que estavam a bordo do navio
fossem poucos, eles nunca pararam de operar as bombas neste
momento. Os oficiais faziam a manutenção da bomba de estibordo, os
rapazes do navio trabalhavam a bomba de bombordo e os escravos
africanos administravam a bomba de roda, cuja corrente quebrava a cada
hora (Theal, 1902: 302). À medida que a vigília noturna se aproximava, os
escravos foram ordenados a manter as bombas durante a noite; porém,
devido à exaustão, apenas dois homens operaram as bombas. À medida
que a água aumentava durante a noite, os homens nas bombas tentaram
avisar os demais, mas receberam ordens de não causar distúrbios no
navio. Ao amanhecer, a tripulação abriu a grande escotilha e encontrou a
água agora elevada acima do lastro. Mais barris foram então convertidos
em baldes para remover a água que subia, mas novamente esses esforços
foram infrutíferos nas duas horas seguintes, à medida que o navio recebia
mais água a cada arremesso. Eventualmente,Nossa Senhora da
Atalaia absorveu tanta água que os pimenteiros estouraram, sufocando as
bombas e inutilizando-as. A tripulação continuou tentando remover a água
usando barris trabalhados com o cabrestante, mas isso teve pouco efeito
na redução dos volumes de água que sempre entravam. Enquanto isso, à ré
do mastro principal, a tripulação abriu uma escotilha e tentou retirar a água
usando duas tinas, mas acabou recuperando mais pimenta do que água
(Theal, 1902: 303).
Nessas condições, a proa do navio afundou e passou a recusar-se a acatar
os comandos do leme. Abaixo, a água cobria as braçolas da proa e as
escotilhas inferiores em pelo menos duas mãos acima do convés
inferior. Nossa Senhora da Atalaiapassou dois dias e noites nesta condição
antes de avistar terra. Ao amanhecer do terceiro dia, a tripulação avistou
uma crista densamente arborizada na foz de um rio com uma longa praia
de areia e uma grande baía, onde presumiram que poderiam desembarcar
usando o barco do navio. No entanto, devido ao estado de degradação do
navio, foi decidido que os portugueses o desembarcariam atirando ao mar
a artilharia, que estava toda apontada pelas vigias. Este esforço foi além das
capacidades da tripulação e apenas duas peças foram atiradas para fora do
navio. Com ventos favoráveis, mas ondas fortes, a tripulação desenrolou a
vela principal, que se despedaçou à medida que a içaram, assim como a
vela superior, a vela espirra, a vela principal e, finalmente, a vela grande
(Theal, 1902: 303). Enquanto isso, o capitão ordenou ao artilheiro que
colocasse pólvora e balas nos barris, e recolher todas as armas, cobre e
bronze para a segurança de um acampamento, caso sobrevivam ao
desembarque e precisem negociar com os povos indígenas (Theal, 1902:
303-304). A noite seguinte foi passada retirando o máximo de água possível
com baldes, para ganhar tempo para o pouso, enquanto fogueiras nativas
já podiam ser vistas acesas na orla próxima. Na manhã seguinte, 2 de julho,
os portugueses prepararam o barco para desembarcar alguns dos
seus. Levantando a âncora à medida que o vento aumentava, eles
dirigiram-se para terra com o traquete erguido e lançaram âncora na baía a
sete braças (cerca de 13 m) de profundidade. Sob o comando do mestre, as
adriças principais foram cortadas e o pátio foi cortado em pedaços para
ajudar quem desembarcava. O barco foi lançado com aqueles armados
com armas e provisões para que pudessem garantir um local em
terra. Enquanto isso, os que permaneceram a bordo continuaram a operar
as bombas, ganhando o máximo de tempo possível. Quando o barco
chegou à arrebentação, já era tarde e a corrente revelou-se incrivelmente
forte, obrigando-os a regressar ao mar.Nossa Senhora da Atalaia. À medida
que a maré recuava após o anoitecer, o navio atingiu o solo, danificando o
leme. Em resposta, a tripulação cortou os mastros principais e de proa,
enquanto lançava outra âncora para evitar ser arrastada para o
mar. Quando a maré voltou, o navio começou a flutuar novamente em oito
braças de água. Após o amanhecer do dia 3 de julho, os portugueses
reuniram todas as cordas finas e configuraram-nas numa linha de surf, ao
mesmo tempo que recolheram pessoas, armas e objetos de valor
portáteis. Com uma das pontas da linha de surf amarrada a bordo do navio,
o pequeno barco foi remado em direção à costa com muito cuidado, pois a
rebentação em torno das ondas era forte. Os que estavam no barco
chegaram à costa com segurança e sem interferência, já que nenhum
nativo estava presente. Ao desembarcar eles armazenaram tudo o que
puderam carregar na costa antes de retornar ao navio para resgatar o
capitão
Aqueles com boa saúde passaram o dia indo e voltando do barco, enquanto
outros permaneceram em terra para vigiar a carga que estava sendo
desembarcada e auxiliar os que trabalhavam no barco. Muitos que ainda
estavam em Nossa Senhora da Atalaia estavam fracos demais para ajudar no
transporte da carga, o que fez com que muitas das provisões fossem
deixadas a bordo. Dos mais de 1.000 sacos de arroz, apenas 30 foram
trazidos para terra. O barco fez quatro viagens para terra neste dia, a última
transportando aproximadamente 70 homens, incluindo oficiais do navio,
membros da igreja e numerosos escravos. Esta última viagem à costa
encontrou grande dificuldade, pois o barco estava carregado até a
amurada. Naquela noite o novo tempo tempestuoso significou extremo
perigo para o capelão e vários outros homens que permaneciam a
bordo Nossa Senhora da Atalia .
Na manhã do dia 5 de julho, muitos que haviam pernoitado na praia
embarcaram no barco para retornar a Nossa Senhora da Atalaia para
carregar mantimentos. Usando a linha de surf o barco chegou em
segurança ao navio; no entanto, durante a viagem de regresso, um escravo
chinês a bordo do Nossa Senhora da Atalaia cortou a linha de rebentação da
cabeça do gato. Sem esta corda para estabilizar o barco, o navio
superlotado rompeu nas ondas, espalhando muitos dos que estavam a
bordo, dos quais 50 se afogaram (Theal, 1902: 305). Os sobreviventes
arrastaram o barco destruído até à costa, mas não conseguiram salvar
nenhuma da sua carga (Theal, 1902: 305-306).
O capitão mandou consertar o barco no dia seguinte e ofereceu uma
recompensa de 500 xerafins a quem quisesse voltar para Nossa Senhora da
Atalaia. Ninguém em terra aceitou o desafio, pois o mar ainda estava
revolto e eles ainda estavam dominados pelo medo dos acontecimentos do
dia anterior. Aqueles que ainda estavam a bordo do navio dispararam uma
arma indicando o perigo e os seus gritos de socorro podiam ser ouvidos em
terra (Theal, 1902: 306). A essa altura, apenas o castelo de popa do navio
permanecia acima da água. Neste momento, as pessoas encalhadas
atiraram-se ao mar e agarraram-se a pedaços flutuantes do casco. Alguns
chegaram em segurança à costa, enquanto outros se afogaram. Na noite
seguinte, alguns dos escravos africanos dirigiram-se para a costa e
alertaram os oficiais de que algumas pessoas permaneciam no navio,
agarradas a uma amurada do convés de popa. Ao amanhecer de 6 de julho,
o navio se despedaçou, espalhando madeiras pela baía e jogando os restos
de alguns baús na costa.Nossa Senhora da Atalaia now found themselves
poverty-stricken and naked (Theal, 1902: 306).
O capitão reuniu então os sobreviventes, dividindo-os em três unidades
distintas, encarregando-se dos passageiros e colocando a tripulação e os
rapazes do navio sob os oficiais. Ele designou alguns homens de confiança
para coletar provisões e fez com que os sobreviventes se mudassem da
praia para o interior. Aqui fizeram abrigo com tendas de lona, vigiaram as
provisões e planejaram a futura viagem em direção ao Cabo
Correntes. Aqui permaneceram onze dias, sofrendo de fome e
desidratação, pois as provisões eram minúsculas e a água que colhiam no
rio Infante ficava a quase uma légua de distância (Theal, 1902: 306). Estas
condições causaram doenças em massa e várias mortes entre os
sobreviventes (Theal, 1902: 306-307). O acampamento foi salvo da fome
total pelos mexilhões expostos na praia durante a maré baixa.
O capitão confiou a vários homens capazes a autoridade para comandar os
sobreviventes, ao mesmo tempo que designou três homens que já haviam
naufragado nesta costa como embaixadores caso aparecessem nativos. No
dia 8 de Julho o piloto e outros deslocaram-se até ao rio Infante, de onde
avistaram uma crista densamente arborizada que se estendia a noroeste e
a costa se prolongava por mais de duas léguas, rodeada por colinas de
areia branca. Aqui o grupo mediu sua latitude como 33 e 1/3°. Os nativos
foram avistados na costa e posteriormente abordaram os portugueses, mas
os dois grupos não tinham uma língua comum entre eles.
De volta ao acampamento, as provisões e suprimentos resgatados pelos
sobreviventes foram divididos e registrados no livro do rei. Estes incluíam
armas pequenas, balas, pólvora, cocos, cobre para troca e linhas e anzóis
para atravessar o rio (Theal, 1902: 307). Sobras de cobre e pólvora foram
enterradas no acampamento para garantir que os nativos não os
recuperassem e possivelmente inflacionassem os seus preços quando os
portugueses precisassem negociar com eles. Enquanto examinavam as
provisões, os portugueses também descobriram que o arroz estava
apodrecido devido à água do mar, o que significa que teriam de agilizar a
partida. Nos dias que antecederam a partida, o capitão tentou persuadir o
piloto a construir um barco e levar os gravemente feridos de volta para um
local seguro, mas o piloto recusou. Um nobre, que estava muito ferido e
doente para andar, prometeu a cada navio 800xerafins (moeda) se eles o
carregassem com uma rede durante a próxima viagem; vários outros
nobres tentaram façanhas semelhantes, confeccionando redes com redes,
tapetes, tecidos e varas de remos para que seus escravos pudessem
carregá-las. Outros usavam pedaços de madeira como muletas e bengalas
improvisadas, enquanto os saudáveis carregavam os braços e bolsas cheias
de cobre e linho (Theal, 1902: 308).
Os sobreviventes preferiram adiar a partida para sararem dos traumas
sofridos, mas a falta de provisões obrigou-os a partir para Moçambique no
dia 15 de julho (Theal, 1902: 308). Eles logo perceberam que muitos
estavam fracos demais para suportar a viagem; na verdade, alguns ficaram
para trás no primeiro dia da jornada e morreram de exaustão e ferimentos
ou foram mortos por nativos que seguiram o grupo e saqueados de
qualquer retardatário. Após este trágico primeiro dia de viagem, foi
realizado um conselho sobre o que deveria ser feito em relação às
mulheres e aos feridos. Eles já estavam com pouca comida, tinham muito
poucos bens para oferecer em troca e estavam a um mês de distância de
qualquer terra onde pudessem negociar. O conselho concluiu deixar para
trás aqueles que não estavam em condições de acompanhar o ritmo e que
as mulheres deveriam marchar na frente, mas serem abandonadas se
ficassem para trás (Theal, 1902: 309).
Meses depois, no final de novembro, os poucos que restaram da
companhia de Nossa Senhora da Atalaia encontraram homens do Santíssimo
Sacramento , sua nau capitânia. Esta embarcação naufragou após a sua
separação e agora só restavam dos seus passageiros nove homens
desarmados, cinco dos quais portugueses, que agora se juntavam
à companhia dos sobreviventes de Nossa Senhora da Atalaia (Theal, 1902:
349). Na noite seguinte os nove sobreviventes do Santíssimo
Sacramento deram o seguinte relato do ocorrido com o Santíssimo
Sacramento :
Durante a tempestade que separou o Santíssimo Sacramento e Nossa
Senhora da Atalaia , a primeira viu-se sem vela grande, mas felizmente por
ter enrolado a vela de gávea antes da tempestade. Usando as velas de
tempestade, eles dirigiram o navio para leste-nordeste, enquanto a
tempestade causava vazamentos no navio. Quando a tempestade passou
na manhã seguinte, eles conseguiram estancar os vazamentos, mas agora
estavam sem a companhia de Nossa Senhora da Atalaia. Neste momento a
tripulação decidiu seguir em direção à terra. Eles logo foram surpreendidos
por outra tempestade. Depois de resistir a esta segunda tempestade, os
portugueses decidiram continuar o seu percurso em direcção ao Cabo da
Boa Esperança, certificando-se de manter a vista de terra ao fazê-lo. Na
noite de 29 de Junho ocorreu o desastre, pois os portugueses navegavam
muito perto de terra utilizando o traquete, após o que o piloto-chefe foi
instruído a virar a embarcação em direcção ao mar, o que ele fez (Theal,
1902: 350). No entanto, após o anoitecer, o piloto-chefe mudou o curso de
volta para terra, ao ouvir gritos da tripulação de que estavam muito perto
da costa, ele tentou voltar para o mar (Theal, 1902: 350-351).
Era tarde demais. O galeão errou os estais e recusou-se a virar
completamente, apesar dos esforços para desenrolar a vela de proa e a
vela espirra. A proa do navio então virou bruscamente em direção à costa e,
mesmo com a tripulação controlando as velas e o leme, ele derivou em
direção à terra pelas duas horas seguintes. Eventualmente, a 34° de
latitude, Santissimo Sacramentoatingiu uma onda substancial que
despedaçou o navio. Anteriormente, muitos a bordo, incluindo o capitão e
os religiosos, iam às galerias para rezar. Este ato seria desastroso, pois as
galerias eram levadas para as profundezas junto com a popa do navio após
o impacto com a onda. Alguns dos sobreviventes que se encontravam na
proa do navio conseguiram desembarcar agarrando-se aos estaleiros e aos
pedaços de madeira flutuantes. Um total de 72 pessoas sobreviveram ao
naufrágio do Santíssimo Sacramento e chegaram à costa, muitos dos quais
sofreram ferimentos graves. Os sobreviventes permaneceram neste local
por onze dias antes de seguirem em frente. Depois de caminhar por
aproximadamente um mês, se depararam com os restos mortais de Nossa
Senhora da Atalaia, e alguns retardatários abandonados, mal conseguindo
sobreviver, que revelaram ter sido deixados para trás pelos sobreviventes
de Nossa Senhora da Atalaia há 28 dias. Depois de recuperar neste local
alguma pólvora e munições, e reabastecer-se com pedaços de couro, o
elogio do Santíssimo Sacramentoseguiu em frente, seguindo uma trilha de
abandonados e ou mortos do naufrágio de Nossa Senhora da Atalaia . O
grupo do Santíssimo Sacramento continuou até chegar ao rio onde Nossa
Senhora de Belém naufragou. Por esta altura apenas 10 dos 72 Santissimo
Sacramento originaisrestaram sobreviventes, os outros foram deixados para
trás, ou morreram nas mãos dos habitantes locais, ou morreram de
fome. Muitos foram deixados para trás quando ficaram exaustos demais
para continuar a viagem (Theal, 1902: 351).
A situação deteriorou-se a ponto de os sobreviventes do Santissimo
Sacramento devorarem qualquer coisa que considerassem ser comestível,
desde gafanhotos a couro de sapato e cartas de marinheiros. Aqueles que
consumiram o mapa morreram envenenados por mercúrio de seus
pigmentos. Eventualmente, recorrendo a informações fornecidas por
nativos amigos, os sobreviventes do Santíssimo Sacramento contactaram os
seus colegas de Nossa Senhora da Atalaia (Theal, 1902: 352).
O grupo recém-constituído retomou a viagem costa acima. Em 14 de
dezembro, os sobreviventes chegaram ao território de um rei amigo,
Unyaca, que os abrigou e lhes contou sobre um navio vindo de
Moçambique que estava ancorado na vizinha Ilha Shefina, a doze léguas
(cerca de 66 km) de distância. Vários dos sobreviventes portugueses,
escoltados por nativos, dirigiram-se a Shefina, para contactar este navio
(Theal, 1902: 354). Eles encontraram uma galiota e foram recebidos com
alegria por sua tripulação. Ao ouvir as histórias dos sobreviventes, o capitão
enviou seu piloto e um grupo de volta a Unyaca, com suprimentos para
troca. No dia 28 de Dezembro, os restantes sobreviventes partiram de
Unyaca para o navio português em Shefina, embora nem todos tenham
sobrevivido a esta última etapa da viagem (Theal, 1902: 355). No dia 5 de
Janeiro os sobreviventes chegaram à ilha onde o galiota estava fundeado
(Theal, 1902: 357). Permaneceram na ilha durante seis meses enquanto o
navio completava a sua actividade, abrigado em cabanas de palha
construídas e compradas aos locais (Theal, 1902: 358). Embora os
sobreviventes possam ter sido mais bem protegidos e abastecidos do que
anteriormente, uma maior parte dosSantíssimo Sacramento e Nossa Senhora
da Atalaiamorreram. Por fim, o galeota levantou âncora e rumou para
Moçambique no dia 22 de junho, onde chegou no dia 9 de julho. De
Moçambique, um punhado de sobreviventes portugueses partiu então para
Goa em 11 de Setembro, onde foi alcançada em 8 de Novembro (Theal,
1902: 359).
Descoberta e Recuperação
Segundo informações prestadas ao Museu de Port Elizabeth por CR
Boxer, o Santissimo Sacramento foi construído em teca nos estaleiros de
Bassein, a norte de Goa. Foi classificado como um galeão de 80
canhões. Relatórios dos serviços secretos holandeses dizem que foi levado
de Bassein para o rio Peneum, a sul de Goa, em Abril de 1640, poucos dias
antes de um bloqueio da frota holandesa aos portos portugueses ao longo
da costa do Malabar. Esses relatórios holandeses também mencionavam
que o Santissimo Sacramento sofria de vazamento, tinha uma lista, estava
inadequadamente mobiliado e eles não tinham certeza de sua
navegabilidade. Foi na sua viagem inaugural a Portugal que o Santíssimo
Sacramento navegou com Nossa Senhora da Atalaia e posteriormente
naufragou (Bell-Cross, 1988: 78).O Santissimo Sacramento naufragou a
sudoeste da moderna Port Elizabeth, na África do Sul, nove milhas (14 km) a
leste do farol do Cabo Recife (Allen e Allen, 1978: 39). A área é descrita
como tendo:
correntes violentas entrando e saindo entre os recifes que ficam perto da
costa, e uma sucessão de pequenas baías rasas que se estendem do Cabo
Recife até Shoenmakerskop (outra cidade próxima) em penhascos que
caem talvez a trinta metros das rochas irregulares abaixo… O litoral
consiste em rochas altas costeiras com muitas ravinas correndo entre elas,
com longos recifes que se estendem em alguns lugares a poucos metros do
mar. Em alguns pontos há mais recifes ainda mais distantes. (Allen e Allen,
1978: 39)
Em 1976, David Allen, que cresceu na área de Port Elizabeth, estava
determinado a encontrar os destroços do Santissimo
Sacramento . Estudando textos históricos para a possível localização do
naufrágio, Allen logo percebeu que quase todos os autores sobre o assunto
haviam colocado a perda do Santíssimo Sacramento em um local diferente. A
única constante nestas discussões, notada por Allen, foi a conclusão de que
o Santíssimo Sacramento acabou perto de Nossa Senhora da Atalaia . Allen,
porém, discordou dessa ideia, pois não fazia sentido os sobreviventes
do Santíssimo Sacramento marcharem por um mês antes de se encontrarem
com os sobreviventes de Nossa Senhora da Atalaia., conforme registrado no
relato do naufrágio. Além disso, no relato de Feyo, o maior Santíssimo
Sacramento foi arrastado para o mar, longe de Nossa Senhora da
Atalaia . Allen deduziu que isso significava que o Santíssimo
Sacramento entrou na famosa Baía de Algoa, perto do Cabo Recife, mas não
muito perto, pois o relato de Feyo não incluía uma representação das
rochas intrínsecas à paisagem do Cabo Recife. Assim, a teoria de Allen
favoreceu aquela proposta por Eric Axelson na qual ele afirmava que
o Santíssimo Sacramentonaufragou no Cabo Recife (Allen e Allen, 1978: 45-
46). A atenção de Allen foi atraída para um mapa do Cabo Recife de 1778,
desenhado pelo coronel Robert Jacob Gordon, da Companhia Holandesa
das Índias Orientais (Allen e Allen, 1978: 45; Bell-Cross, 1988: 79). Neste
mapa, Gordon ilustrou com precisão a localização do Cabo Recife e ao
sudeste, onde se localizava o atual Schoenmakerskop, ele acrescentou um
'X'. Em suas notas marginais ele anotou o 'X' com a seguinte descrição:
Perto dos destroços, nas dunas, os restantes miseráveis náufragos
construíram algumas barracas de abrigo na areia, agora sem… habitantes
porque todos pensam que morreram de fome. Encontrei alguns esqueletos
que com a ajuda do meu [escravo?] enterrei. Ali estavam os restos de uma
pequena caixa de marfim lindamente esculpida, que poderia ter sido um
santuário para um cálice católico romano; também duas âncoras
enferrujadas e um canhão, que como as ondas eram fortes, a praia
rochosa, não consegui reconhecer, também alguns pedaços de
ébano. (Forbes, 1949: 12, conforme citado em Bell-Cross, 1988: 79; Allen e
Allen, 1978: 45)
Não muito depois, Allen encontrou documentos do Sr. HG “Hal” Harraway,
observando a descoberta de um canhão preso nas rochas perto de
Schoenmakerskop em 1951. Usando trabalhadores locais e uma equipe de
20 bois, Harraway conseguiu recuperar o canhão, que foi posteriormente
exposto no Museu de Port Elizabeth (Allen e Allen, 1978: 46; Bell-Cross,
1988: 79). Harraway detalhou o canhão como sendo feito de bronze,
pesando até 6.000 libras (2.722 kg), medindo doze pés (4 m) de
comprimento e contendo uma inscrição no cano que se presumia estar em
holandês. De acordo com Allen, Harraway contatou o diretor do Museu
Histórico Marítimo da Holanda em setembro de 1960, em parte para
identificar o canhão. Na correspondência descoberta por Allen, escrita ao
museu por Harraway, ele mencionou: “De acordo com os especialistas que
tentaram decifrá-lo, a inscrição (canhão) deveria ser: 'Contraet Wegt Woert
me Fecit Hagae.'” Assim, Harraway acreditava que os destroços eram
holandeses. Allen, não convencido de que o canhão pertencia a um navio
holandês, investigou mais profundamente as anotações de Harraway, onde
encontrou uma resposta datada de quatro anos depois do Museu Histórico
Marítimo da Holanda que dizia: “A inscrição no canhão de bronze deveria
ser 'Conraet Wegewaert me Fecit Hagae'. É o nome de um fundador de
armas que trabalhou em Haia em meados do século XVII. onde encontrou
uma resposta datada de quatro anos depois do Museu Histórico Marítimo
da Holanda que dizia: “A inscrição na arma de bronze deveria ser 'Conraet
Wegewaert me Fecit Hagae'. É o nome de um fundador de armas que
trabalhou em Haia em meados do século XVII. onde encontrou uma
resposta datada de quatro anos depois do Museu Histórico Marítimo da
Holanda que dizia: “A inscrição na arma de bronze deveria ser 'Conraet
Wegewaert me Fecit Hagae'. É o nome de um fundador de armas que
trabalhou em Haia em meados do século XVII.século XIX
até 1664” (Allen e Allen,
1978: 46).
Allen percebeu que isso significava que a arma de Harraway poderia ter
sido um canhão holandês capturado montado no Santissimo
Sacramento (Allen e Allen, 1978: 46). Harraway contactou o geógrafo sul-
africano Vernon S. Forbes, numa tentativa de identificar a arma, e foi-lhe
dito que provavelmente pertencia a um navio francês ou português na sua
viagem de regresso (Bell-Cross, 1988: 79). No dia 29 de janeiro, 1977 Allen e seu
parceiro de mergulho Gerry Van Niekerk mergulharam no local do
naufrágio de Gordon. Pouco depois do mergulho, a dupla encontrou um
grupo de canhões de bronze a cerca de 15 pés (cerca de 5 m) de
profundidade (fig. 31). Relembrando a descoberta inicial, Allen afirma que o
canhão mais próximo estava a cerca de 2,5 metros de profundidade e,
seguindo uma linha reta mar adentro, o canhão mais distante estava a
aproximadamente 400 metros de distância. No primeiro dia, a dupla
registou até 21 canhões (Allen e Allen, 1978: 48). Depois de fotografar os
canhões no dia seguinte, a dupla estava navegando em águas na altura dos
joelhos quando tropeçaram na âncora registrada por Jacob Gordon e logo
depois encontraram pedaços de ébano nas proximidades. Mais tarde, a
dupla soube através dos habitantes locais que ocasionalmente estavam
presentes vestígios de um parque de campismo na área com um trilho de
pedras brancas que conduzia à praia (Allen e Allen, 1978: 49). Em 22 de
Março, o primeiro dos canhões foi levantado por uma traineira de pesca,
auxiliada por uma equipa de trabalhadores que jurou segredo e financiada
por dois financiadores (Allen e Allen, 1978: 57-58). O terceiro canhão a ser
levantado do fundo do oceano estava em excelentes condições e forneceu
mais evidências de que os canhões eram provavelmente deSantíssimo
Sacramento . Visível no cano estava o brasão português e a marca do
fundador do canhão português AG Feyo. A arma tinha um fusível em seu
touchhole e mais tarde descobriu-se que estava carregada. Ao todo, cinco
canhões foram levantados nesta primeira operação de recuperação (Allen e
Allen, 1978: 59). Em 28 de março ,
a traineira conseguiu levantar mais sete
canhões. Foi neste lote que foi erguido o maior dos canhões, medindo
dezassete pés (5 m) de comprimento (Allen e Allen, 1978: 63).
Em 18 de abril, enquanto tentava recuperar um canhão adicional perto da
costa, Allen tropeçou em outros 30 canhões a meia milha (0,8 km) da
costa. As armas foram organizadas de cano para arrombar, pois estavam
guardadas no porão do Santissimo Sacramento. Logo depois, mais perto da
costa, a aproximadamente 15 m de profundidade, Allen descobriu seis
canhões adicionais. Após uma inspeção mais aprofundada, Allen encontrou
restos de tábuas de teca do navio sob um canhão, bem como porções de
ébano e grãos de pimenta bem preservados ao redor e dentro dos canhões
(Allen e Allen, 1978: 64-65). À medida que a tripulação começou a levantar
alguns desses canhões recém-descobertos, tornou-se evidente que
dezesseis deles eram de ferro, e foram deixados no fundo do mar para
evitar a rápida corrosão no ar. Até 24 de abril, mais seis canhões foram
recuperados. No dia seguinte a equipe recuperou o canhão mais bem
preservado até então, contendo uma intrincada marca de rolagem e relevos
decorativos de botões de lótus na cascabel, este canhão seria mais tarde
identificado como um canhão Bocarro. Debaixo da arma foram descobertos
pedaços adicionais de madeira, mais tarde identificada como teca indiana
pelos laboratórios governamentais em Pretória (Allen, 1978:67). No final do
dia, a equipe recuperou um total de 21 armas no local (Allen e Allen, 1978:
68). No final de abril, Allen descobriu a cascata destacada de um canhão na
forma de um punho cerrado com um polegar pontiagudo saindo por baixo
do dedo indicador, mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade
encontrado nos canhões de Bocarro. Perto havia um canhão totalmente
intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde
referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978:
68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total
de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seus a equipe
recuperou um total de 21 armas no local (Allen e Allen, 1978: 68). No final
de abril, Allen descobriu a cascata destacada de um canhão na forma de
um punho cerrado com um polegar pontiagudo saindo por baixo do dedo
indicador, mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade
encontrado nos canhões de Bocarro. Perto havia um canhão totalmente
intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde
referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978:
68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total
de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seus a equipe
recuperou um total de 21 armas no local (Allen e Allen, 1978: 68). No final
de abril, Allen descobriu a cascata destacada de um canhão na forma de
um punho cerrado com um polegar pontiagudo saindo por baixo do dedo
indicador, mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade
encontrado nos canhões de Bocarro. Perto havia um canhão totalmente
intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde
referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978:
68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total
de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seus mais tarde
confirmado como um símbolo de fertilidade encontrado nos canhões
Bocarro. Perto havia um canhão totalmente intacto com uma cascata
correspondente. Este canhão seria mais tarde referido como o “canhão
milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978: 68, 72). Com a adição
deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total de 41 canhões no local
do naufrágio. Autenticação de seus mais tarde confirmado como um
símbolo de fertilidade encontrado nos canhões Bocarro. Perto havia um
canhão totalmente intacto com uma cascata correspondente. Este canhão
seria mais tarde referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32)
(Allen e Allen, 1978: 68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen
descobriu um total de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de
seusA proveniência do Santíssimo Sacramento foi confirmada por uma
inscrição no canhão mais bem conservado que dizia: “António Teles
Menezes, Governador da Índia, ordenou isto no ano de 1640 por Manuel
Taveres Bocarro” (Allen e Allen, 1978: 69).
Além desta inscrição, relatórios holandeses contemporâneos foram
disponibilizados por CR Boxer que afirmava que o Santíssimo
Sacramentopartiu de Goa em 1647, “Totalmente carregado com as mais
belas mercadorias… e no seu porão veio uma quantidade de canhões que a
Cidade de Deus (Macau) na China enviou como presente a sua majestade”
(Allen e Allen, 1978: 69 ). Em 29 de abril, um pequeno canhão de bronze
adicional foi levantado do local e em 2 de maio, a tripulação recuperou o
chamado canhão milagroso. Posteriormente, a tripulação levantou os
canhões restantes da área do suposto porão, cinco no total naquele dia, e
registrou a localização dos canhões de ferro ainda pousados no fundo do
mar. No dia 11 de maio, mais sete canhões de bronze foram erguidos do
fundo do mar (Allen e Allen, 1978: 70). A tripulação retornou ao local do
naufrágio no dia 20 de maio, recuperando seis canhões de bronze, metade
de uma arma e um rolo de chumbo que se acredita ter sido usado para
reparos de navios a bordo do Santissimo Sacramento .. Esta última viagem
finalizou o salvamento do local do naufrágio (Allen e Allen, 1978: 76). Ao
final do projeto, um total de 40 canhões foram recuperados dos destroços
do Santissimo Sacramento , 21 dos quais se acredita terem sido
originalmente guardados no porão do navio (Tabela 5). Infelizmente, em 8
de Julho, 17 dos canhões de bronze mais degradados foram vendidos como
sucata a 75 cêntimos por quilograma (Allen e Allen, 1978: 76).
Além do ébano e da teca anteriormente mencionados por Allen, outros
artefactos recuperados incluíam porcelana azul e branca e pedras de
pórfiro granítico que poderiam ter pertencido ao lastro do navio (Bell-Cross,
1988: 79).
Devido ao inventário arqueológico do Santissimo Sacramento consistir quase
exclusivamente de canhões de bronze, é vital saber como tais armas foram
feitas e usadas para compreender completamente o seu contexto a bordo
do Santissimo Sacramento e o significado mais amplo para a artilharia naval
do século XVII . Recorri a uma publicação de John F. Guilmartin, Jr. intitulada
“The Guns of the Santissimo Sacramento ”, não deve ser confundida com a
publicação de Geoffrey Allen e David Allen intitulada “The guns
of Sacramento”, O estudo de Guilmartin avalia os canhões do galeão
português de 60 canhões que naufragou no Brasil em maio de 1668,
enquanto o trabalho de Allen detalha o galeão português de 80 canhões
que naufragou na costa sudeste da África em 1647 (Navegantes, 1979: 215 ,
conforme citado em Guilmartin, 1983: 559, 570; Allen e Allen, 1978).
O primeiro ponto a ser discutido sobre o tema dos dias
16 a 17
canhões de
pólvora preta carregados pela boca do século XX, é que a velocidade
máxima potencial é alcançada em cerca de dezoito calibres no cano ou
dezoito vezes o diâmetro do cano. A taxa de queima da pólvora negra não
muda devido à pressão ou temperatura, o que significa que o comprimento
efetivo do cano é essencialmente estático e qualquer comprimento
adicional do cano acima de dezoito calibres não afeta o alcance do canhão
(Guilmartin, 1974: 277-283, conforme citado em Guilmartin, 1983 :
563). Guilmartin afirma que os canhões de cano liso que usam projéteis
esféricos eram essencialmente imprecisos; o tiro salta aleatoriamente ao
longo do comprimento do furo, adquirindo rotação, tornando infrutífera
qualquer tentativa de atingir um alvo a mais de 500 jardas (472 m). Além
disso, uma bala de canhão de ferro tem poder destrutivo finito no final do
seu alcance,
Guilmartin prossegue apontando que o comprimento do cano dos canhões
de bronze era essencial para a resistência da arma. Na tradição da Europa
Ocidental, os canhões eram fundidos num poço com a culatra para baixo,
sendo o bronze fundido despejado no molde na boca do cano através de
um sino de fundição (Guilmartin, 1974: 284-291, conforme citado em
Guilmartin, 1983: 564). Como a pressão do metal fundido era proporcional
à altura da coluna líquida, o sino de fundição alongou a altura da coluna,
aumentando a pressão sob a qual o bronze na culatra solidificou. O sino foi
removido após o lançamento. Esta técnica aumentou a pressão de
fundição, ajudou a reduzir os efeitos negativos causados pelas impurezas
do metal e, dada a porosidade inerente ao bronze, tornou-o mais resistente
em direcção à culatra onde ocorreu a ignição da pólvora (Guilmartin, 1983:
564). Além disso, quanto mais grosso o cano, mais fortes tendiam a ser os
canhões. À medida que os fundadores se tornaram mais hábeis,
nomeadamente capazes de manter uma melhor qualidade de metal, os
canhões encolheram e tornaram-se mais finos (Guilmartin, 1974: 170-173,
conforme citado em Guilmartin, 1983: 564-565).
Segundo Guilmartin, o conhecimento dos princípios da fundação de armas
estava representado em obras de fundadores superiores que também
eram consistentes em peso, dimensões e composição metálica. Essa
habilidade e conhecimento ajudaram a reduzir a quantidade de bronze
utilizada no processo de fundição, resultando em armas mais leves, mais
econômicas e em peças de qualidade superior. Lançar um canhão com
força inadequada pode ter consequências desastrosas, fazendo com que
ele exploda ao disparar. Guilmartin observou que o comprimento do cano e
a espessura da parede do cano em função do diâmetro do cano dão uma
boa indicação da qualidade do canhão (Guilmartin, 1983: 566).
Quanto à relação entre os canhões de ferro fundido e de bronze, os
primeiros eram mais pesados e maiores, embora fossem projetados para
disparar projéteis idênticos. Os canhões de ferro fundido também estavam
sujeitos a maiores níveis de corrosão e eram geralmente menos seguros
quando explodiam, pois tendiam a não permanecer intactos como os
canhões de bronze. Enquanto o último tipo se rompia “como uma esponja
rasgada ao longo de uma linha longitudinal perto da culatra”, os canhões de
ferro “explodiam em fragmentos irregulares como uma bomba”
(Guilmartin, 1983: 567). Apesar de suas qualidades perigosas, os canhões
de ferro eram amplamente utilizados porque o ferro custava cerca de um
terço do preço do bronze. As armas de ferro não foram consideradas a
arma de eleição durante este período (Cipolla, 1965: 45, conforme citado
em Guilmartin, 1983: 567). Após a restauração da independência de
Portugal da Espanha, em 1640,
Guilmartin sugere que a mudança dos canhões de lançamento de pedras e
daqueles projetados para lançar projéteis de ferro durante esta época pode
ser explicada como uma questão de eficiência de custos. A passagem das
balas de canhão de pedra para as de ferro fundido foi um sintoma do
aumento dos custos laborais na Europa, especialmente no Norte da
Europa. Embora os canhões de pedra exigissem um terço menos de bronze
do que os canhões de ferro fundido, o custo da mão-de-obra para os
lapidadores era imenso (Guilmartin, 1983: 590). À medida que as taxas
salariais aumentaram no início do século XVI até
ao século XVII
No século XIX, a
utilização de canhões de lançamento de pedras caiu em desuso,
especialmente no norte da Europa (Slicher Van Bath, 1963: 113-115,
conforme citado em Guilmartin, 1983: 590). No entanto, onde o custo da
mão-de-obra era mais baixo, os canhões de lançamento de pedras
continuaram a ser lançados, e os portugueses continuaram a lançá-los na
Índia até meados do século XVII ,
muito depois de os fundadores de armas
baseados na Europa terem parado de o fazer (Guilmartin, 1983). : 591).
Em sua análise dos canhões do naufrágio de 1668 no Brasil, Guilmartin
observa que a coleção de canhões de bronze recuperados do convés
inferior incluía um canhão de 28 libras fundido por AG Feyo, o mesmo
fundador que lançou pelo menos um dos canhões do naufrágio de 1647.
naufrágio (Guilmartin, 1983: 575; Allen e Allen 1978: 59). Outro canhão no
naufrágio de 1668, um canhão de 11 libras do convés superior, também
contém a marca do fundador da AG Feyo (Guilmartin, 1983: 584). Por
último, um canhão holandês de 20 libras encontrado no local de 1668,
fundido em 1649, contém a marca do fundador de Conrad Wagwaert, o
mesmo fundador holandês que lançou o canhão holandês recuperado por
Harraway (Tabela 6) (Guilmartin, 1983: 592; Allen e Allen 1978: 46).
Lastro
EU
Âncoras
N
Armas
N
Concreções de Ferro
N
Casco permanece
T
Calafetagem
Não reportado.
Fixadores
A
Tamanho e escantilhões
T
Madeira
Nenhuma madeira foi relatada
Reconstrução
Feixe: m estimado
Comprimento da quilha: m estimado
Comprimento total: m estimado
Número de mastros: desconhecido
Referências
Allen, Geoffrey e Allen, David - As Armas de Sacramento , Ed. Robin Garton,
Londres, 1978.
Axelson, Eric, “Recent Identifications of Portuguese Wrecks in the South
African Coast, especially of the São Gonçalo (1630), and the Sacramento and
Atalaia (1647),” typed manuscript in Estudos de História e Cartografia Antiga,
Memórias, nº. 25. Lisboa: Instituto de Investigação Científica e Tropical, 1985.
Boxer, C.R., A Índia Portuguesa em Meados do Séc. XVII. Lisbon: Edições 70,
1982.
Paez, Simão Ferreira, As famosas Armadas Portuguesas 1496-1650. Rio de
Janeiro: Ministério da Marinha, 1937.
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Nossa Senhoa da Atalaia do
Pinheiro (1647)
Chase Oswald, Zachary Mead e Filipe Castro
País: África do Sul
Local:
Coordenadas: Lat. ; Longo.
Tipo W : Nau
Identificado: Sim
Datado: 1552 (Contas históricas)
Introdução
A seguinte descrição dos achados do naufrágio do Atalaia provém de
comunicações pessoais entre o Professor CR Boxer e Graham Bell-Cross que
foram publicadas originalmente no capítulo Bell-Cross “Naufrágios portugueses
e identificação dos seus locais”. Mencionada já em 1640, o nome completo
desta embarcação era Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro, referindo-se à
imagem sagrada da Virgem Maria numa igreja do “Pinhal de Santa Maria da
Castelo de Torres Vedras”. Embora alguns textos se refiram à embarcação
como galeão, a publicação da Bell-cross garante aos leitores que Nossa
Senhora da Atalaia do Pinheiroera uma nau de quatro andares, com
aproximadamente 1.000 toneladas e muito provavelmente equipada com
cerca de 30 canhões, uma vez que a maioria dos indianos na Rota da Índia
portuguesa estavam tipicamente minimamente equipados (Bell-Cross,
1988: 74).
Pesquisa e descoberta
After the discovery of the Atalaia’s consort Santissimo Sacramentoem 1977,
os pesquisadores decidiram iniciar uma pesquisa em 1978 para descobrir a
localização dos destroços contemporâneos. Bell-Cross observa que os
dados disponíveis na altura indicavam que os navios do Leste com destino
a Portugal transportavam cargas de porcelana azul e branca. Ao localizar
depósitos da referida porcelana foi possível estabelecer a localização dos
naufrágios portugueses ao longo da costa oriental sul-africana. Os
investigadores iniciaram um extenso levantamento de praias na costa
sudeste de África, desde a fronteira com Moçambique até à Baía de Algoa,
no cabo oriental da África do Sul. Isso incluiu entrevistas com moradores
locais em busca de evidências arqueológicas, como depósitos de porcelana,
e levantamento de locais de porcelana já conhecidos. A pesquisa também
promoveu um foco intensivo na fiscalização da costa entre o Cabo Padrone
e o Rio Kei, com identificação do Rio Atalaialocal do naufrágio como
objectivo principal (Bell-Cross, 1988: 74-75). No momento da concepção da
pesquisa, sabia-se que um único local contendo porcelana azul e branca
ficava em Ivy Bay, Port Edward, na costa de Natal. Além disso, um sítio de
porcelana também era conhecido na costa de Transkei, na foz do rio
Misakaba. Os pesquisadores também tinham conhecimento de cinco locais
na costa leste do Cabo em Cannon Rocks, Mtana River, Bonza Bay, Sunrise-
on-Sea e Double Mouth. Supunha-se que a maior parte da porcelana
poderia ser datada dentro de 20 anos após sua fabricação e com a ajuda de
artefatos recuperados de pesquisas e de descrições geográficas
encontradas nos relatos históricos dos naufrágios, a identificação dos locais
seria possível (Bell-Cross, 1988: 75).
A pesquisa centrou-se originalmente na costa em torno da latitude 33 1/3°
Sul, que incluía o conhecido local de porcelana junto ao Rio Mtana e
localizado aproximadamente entre os Rios Keiskamma e Fish; isso foi
baseado no relato do sobrevivente sobre a área. No entanto, nada foi
encontrado e os pesquisadores logo se concentraram em toda a costa,
desde a Baía de Algoa até o rio Kei. Em 1979, Bell-Cross encontrou um
grande fragmento (12 por 12 cm) de “martevan” localizado entre a foz dos
rios Cinsta e Cefane (Bell-Cross, 1988: 75). Martevan ou “martaban”, como é
mais comumente chamado, refere-se a grandes potes de cerâmica usados
no sudeste da Ásia e originários de Martaban (Mottama), na Baixa
Birmânia. O Martaban foi comumente usado durante os séculos XVI e XVII e
exportado principalmente da Birmânia para o Sri Lanka e a Índia (Borell,
2014: 257; Castro, 2001: 16). Investigações posteriores neste local
forneceram peças adicionais de martaban e achados de porcelana azul e
branca. A inclusão deste sítio significou que havia seis sítios de porcelana
conhecidos entre a Baía de Algoa e o Rio Kei (Bell-Cross, 1988: 75).
A chave para determinar qual destes sítios de porcelana era o de Atalaia foi
encontrada na descrição de Feyo da costa vista pouco antes do naufrágio
do navio. Especificamente, Feyo observou que o navio ancorou a sete
braças (27 m) de uma longa praia arenosa. Esta descrição significava que
apenas dois sítios de porcelana conhecidos poderiam ser potencialmente o
de Atalaia: os sítios de Mtana e do Rio Cefane. Em Janeiro de 1980, os
mergulhadores envolvidos no projecto de pesquisa, Peter Sachs e Sean
Mitchely, mergulharam no local do Rio Cefane. Procurando em um padrão
de grade, a dupla encontrou primeiro um canhão de carregamento pela
boca, seguido por um conjunto de 10 canhões de bronze e oito canhões de
ferro (fig. 33). Os canhões de bronze possuíam cascabels moldados no
mesmo estilo de punho-com-o-polegar-projetando-a-sob-os-dedos-
indicador e médio encontrado nos canhões Bocarro do
Santissimo Sacramento . Os canhões estavam dispostos de forma a sugerir
que estavam guardados no casco no momento do naufrágio, como foi o
caso dos canhões recuperados do Santissimo Sacramento. O exame
posterior de uma inscrição num dos canos do canhão permitiu concluir que
se tratava de um canhão Bocarrro, do qual se sabe que alguns foram
transportados a bordo do Atalaia(Bell-Cross, 1988: 76).
Após descobrirem os canhões, os mergulhadores obtiveram licença de
salvamento e tomaram providências para içá-los. Para as operações de
salvamento a equipe anexou bóias aos canhões do Bocarro e traçou suas
posições, depois contratou a mesma traineira que serviu para içar os
canhões do Santissimo Sacramento. A equipe prendeu tiras ao redor dos
canhões, que foram então conectadas ao guincho de cinco toneladas da
traineira. No final da primeira semana, 10 canhões Bocarro foram
levantados e enviados para o East London Museum. A recuperação dos
treze canhões mais próximos da costa demorou mais de dezoito meses,
embora pesassem significativamente menos que os canhões Bocarro (Bell-
Cross, 1988: 76). Levantar os canhões mais perto da costa era mais
perigoso. Neles foram inicialmente fixados sacos de içamento e estes foram
reposicionados em águas mais profundas e posteriormente levantados pela
traineira. Além dos 10 canhões Bocarro, a equipe recuperou também folhas
de chumbo, cacos de porcelana azul e branca, cacos de martaban
esmaltados e não esmaltados, balas de chumbo para mosquetes e pistolas,
duas âncoras, uma jarra de estanho amassada, um peso de sondagem de
chumbo , treze outros canhões,Santíssimo Sacramento . Um grande canhão
de ferro também foi levantado. Notavelmente, um dos canhões de bronze
tinha a data de 1638 gravada em relevo na sua superfície superior perto do
touchhole (Bell-Cross, 1988: 77-78). A madeira provavelmente pertencente
ao casco foi recuperada debaixo de um dos canhões Bocarro e
posteriormente identificada como carvalho perene, confirmando que o
navio foi construído em Portugal (Bell-Cross, 1988: 74).
Além disso, também foram recuperados no local dois brasões de bronze
pesando aproximadamente 18 quilos cada (fig. 34). Normalmente
encontrados em naufrágios do século 16, os coaks são definidos
no Seaman's Dictio nary de Sir Henry Manwayring como “Pequenas coisas
quadradas de latão com um furo, colocadas no meio de alguns dos maiores
feixes de madeira, para evitar que se partam e enganem pelo pino do bloco
sobre o qual giram” (Manwayring, 1644: 27). Pensa-se que os coaks eram
maioritariamente utilizados nas roldanas de adriça maiores colocadas nos
topos dos mastros, uma vez que são recuperados muito raramente em
locais de naufrágios (Keith, 1987: 117). No texto de Bell-Cross sugere-se que
os coques foram colocados dentro dos feixes que teriam carregado os
canhões do Bocarro para Atalaia(Bell-Cross, 1988: 78). Os feixes e blocos
nos quais os coaks eram colocados eram normalmente construídos com
lignum vitae, freixo ou olmo. Eventualmente, as roldanas de madeira
multipartes seriam substituídas por roldanas feitas de bronze sólido
(Marquardt, 1992: 248; Horsley, 1978: 219-220). Conforme aludido por
Manwayring, os coaks forneciam suporte estrutural às roldanas de madeira
e protegiam a roldana de rachar. Isto foi feito inserindo o revestimento ao
longo da fibra da madeira, deixando o lado exposto do revestimento
nivelado com a face da roldana (Marquardt, 1992: 148). Os pinos sobre os
quais as roldanas corriam eram geralmente cortados de lignum vitae,
madeira de engrenagem, coração verde ou, quando usados em roldanas
metálicas maiores, de ferro (Marquardt, 1992: 248; Marsden, 2009: 267;
Rule, 1984: 144).
De acordo com uma imagem fornecida no livro de Gillian Vernon, Even the
Cows were Amazed: Shipwreck Survivors in South-East Africa, pelo menos um
dos coaks do naufrágio da Atalaia era uma variante rara do subtipo
contendo um par de projeções trapezoidais gêmeas, comumente referidas
como 'chaves'. As chaves sobressaem de maneira paralela em dois dos
lados externos da capa e ficam niveladas com uma de suas faces. (Vernon,
2013: 63). Esta variação incomum de coque foi encontrada no Espírito
Santo , um dos naufrágios espanhóis de 1554 na Ilha do Padre, e no Bom
Jesus , outro navio português da Carreira da Índia, perdido ao largo do Cabo
da Boa Esperança em 1533 (Olds, 1976: 43-45; Vernon, 2013: 63; Alves,
2011: 26; Werz, 2010: 434). O aparecimento desta forma de casaco
na Atalaia é interessante porque os seus paralelos são quase um século
mais antigos.
Dez dos canhões Bocarro mediam entre 350 e 355 centímetros de
comprimento com média de 349 centímetros, semelhantes aos
encontrados no Santissimo Sacramento. A maior cascata dos canhões
Bocarro de Atalaia media 14 centímetros, e como mencionado
anteriormente continha o mesmo desenho de punho cerrado dos canhões
Bocarro recuperados do Santíssimo Sacramento . AtalaiaOs canhões de
Bocarro continham as mesmas inscrições, como o brasão de Macau, um
leão e uma coroa desenfreados, as insígnias do Governador da Índia,
António Telles de Menezes (1639-1640), e do Vice-Rei João da Silva Tello de
Menezes , Conde de Aveiras (1640-1646); embora as inscrições na maioria
dos canhões fossem, na melhor das hipóteses, parciais, uma vez que os
canhões estavam fortemente erodidos (Bell-Cross, 1988: 78).
Acampamento
Pouco depois da descoberta de Atalaia , também foram localizados os
restos do acampamento dos sobreviventes. A menos de um quilômetro do
local do naufrágio, os pesquisadores encontraram uma duna de areia plana
com aproximadamente 50 metros de comprimento e coberta por
arbustos. Rastejando pela duna, a equipe localizou inicialmente um pedaço
de porcelana azul e branca medindo 7,5 por 6 centímetros, sem sinais de
danos causados pela água. Uma escavação do local foi realizada por Simon
Hall do Albany Museum em 1980 (Bell-Cross, 1988: 77). De acordo com
comunicação pessoal entre Hall e Bell-Cross, os seguintes artefatos foram
recuperados do local:
Cerâmica
Foram descobertos oito fragmentos de porcelana azul e branca do período
de transição Ming. Essas peças tinham um estilo homogêneo tanto com as
coleções do acampamento quanto com os naufrágios (Bell-Cross, 1988:
77). Esta forma de porcelana foi fabricada durante o século XVII
século
(Valenstein, 1989: 195). Foram também recuperados oito fragmentos de
Blanc de Chine provenientes da mesma forma ornamental (Bell-Cross,
1988: 77). Blanc de Chine, também conhecida como porcelana Dehua, é
uma forma de porcelana branca originária de Dehua, na província de
Fujian, na China. Originada durante a Dinastia Song, a porcelana Dehua
tornou-se altamente cobiçada no século XVI (Yap e Hua, 1994: 65). Por
último, foram descobertos três cacos de grés, provenientes de três
recipientes diferentes, estas peças apresentavam vidrado castanho e
pensa-se que procediam de potes de martaban (Bell-Cross, 1988: 77).
Armas de fogo
Onze itens de pederneira foram encontrados, nove dessas peças foram
cortadas em retângulos nivelados com maior probabilidade de serem
usados para o disparo de armas de fogo de pederneira. Citando
comunicação pessoal com Peterson Hall, Bell-Cross aponta que as peças de
pederneira variavam em tamanho e esta variação provavelmente indica
que elas deveriam ser usadas com armas diferentes. As peças mais
pequenas seriam provavelmente utilizadas com pistolas, as peças médias
seriam utilizadas com um arcabuz (carabina), como mencionado no relato
de Feyo, e as maiores com mosquetes (Bell-Cross, 1988: 77).
Ornamental
Uma série de outros artefatos também foram recuperados, a maioria dos
quais eram principalmente itens de luxo, incluindo um pedaço de mármore,
uma “pequena peça ornamental de bronze em forma de engrenagem”, uma
parte de uma folha de bronze banhada a ouro, uma pequena porção
semicircular de prata , um pequeno fragmento de prata e duas peças de
madrepérola que se acredita terem origem no pente de uma
mulher. Embora não sejam considerados artigos de luxo, foram também
recuperados 25 fragmentos de pregos de ferro corroídos e dois pedaços de
chumbo (Bell-Cross, 1988: 77).
Biológico
Algumas evidências biológicas também foram encontradas no
acampamento, possivelmente indicando o que os sobreviventes comeram
enquanto estavam na praia. Esses itens incluíam 498 fragmentos de ossos e
conchas pertencentes ao mexilhão de areia branca Donax Serra. Conforme
apontado por Bell-Cross, o relato de Feyo menciona os sobreviventes
consumindo mexilhões na praia para seu sustento; em comparação com os
mexilhões Donax da Idade do Ferro encontrados perto da foz do rio Cefane,
todos intactos, esta forte fragmentação dos mexilhões no acampamento
indica que eles foram quebrados para alimentação por pessoas que eram
estranhas aos mexilhões e não acostumadas a seu consumo (Bell-Cross,
1988: 77)
Casco permanece
T
Quilha
N.
Stern heel (couce)
A .
Joelho severo ( coral )
A.
Molduras
T.
Tábuas
T.
Tabela 1. Escaneamento dos restos de madeira do Naufrágio do Corpo
Santo
Madeira
Lado
[cm]
Moldado
[cm]
Quilha
Poste de popa
Madeiras de piso
Quarto e espaço
Tábuas
Calafetagem
Não reportado.
Fixadores
A
Tamanho e escantilhões
T
Madeira
Nenhuma madeira foi relatada
Reconstrução
Feixe: m estimado
Comprimento da quilha: m estimado
Comprimento total: m estimado
Número de mastros: desconhecido
Referências
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Centro de Arqueologia Marítima da Universidade de Coimbra
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Documento (7).pdf

  • 1.
    O livro narraa jornada de sobreviventes de um naufrágio ao largo da costa africana, especificamente na região da Cafraria (atualmente parte da África do Sul). A narrativa começa com a descrição da destruição de suas embarcações, a Náo e o Galeão, e como os sobreviventes se organizaram após o desastre. Após o naufrágio, os sobreviventes enfrentaram inúmeros desafios, incluindo a necessidade de encontrar comida e água, lidar com o clima adverso e navegar por territórios desconhecidos e muitas vezes hostis. Eles encontraram várias tribos locais ao longo do caminho, algumas das quais eram amigáveis e outras hostis. A interação com essas tribos foi essencial para a sobrevivência do grupo, pois muitas vezes dependiam delas para obter alimentos e orientações. A jornada foi marcada por perigos constantes, incluindo ataques de tribos locais, animais selvagens e as dificuldades inerentes à travessia de rios e regiões pantanosas. Apesar dos desafios, o grupo foi auxiliado por alguns membros das tribos locais, que os guiaram e forneceram recursos essenciais. Eventualmente, o grupo chegou a Moçambique, onde foram recebidos por outros portugueses. A chegada foi marcada por uma mistura de alívio e tristeza, pois, enquanto estavam gratos por terem sobrevivido à sua provação, também foram confrontados com notícias de outros desastres marítimos e perdas na região. A narrativa conclui refletindo sobre os perigos do mar e a resiliência e determinação dos portugueses em enfrentar tais adversidades. Há uma ênfase particular na habilidade dos portugueses em navegar e descobrir os "segredos do mar e da terra" No ano de 1647, a Nau Nossa Senhora da Atalaia enfrentou um dos momentos mais críticos da sua existência. No dia 19 de Abril, sob as ordens do Almirante, a tripulação saudou o Galeão Sacramento com uma salva de sete tiros de canhão. O que deveria ser um gesto de cortesia e camaradagem rapidamente se transformou em calamidade. Após a salva, a Nau Nossa Senhora da Atalaia começou a fazer água a um ritmo alarmante. Escravos e grumetes, em uma tentativa desesperada de manter o navio à tona, esgotavam a água que invadia o navio duas vezes por dia. A situação era agravada pelo fato de que a embarcação já mostrava sinais de envelhecimento, tornando-a mais vulnerável a tais adversidades. Aqueles a bordo que tinham conhecimento marítimo estavam cientes do perigo iminente. O Cabo da Boa Esperança, conhecido pelas suas águas traiçoeiras e tempestades violentas, estava no horizonte da rota da nau. E enfrentar esse desafio durante o rigoroso inverno só aumentava os riscos. As tempestades nesta região são notoriamente desafiadoras, e mesmo as embarcações mais robustas e novas enfrentam dificuldades para navegar por estas águas. Infelizmente, a combinação de um navio antigo, danos estruturais após a saudação e as condições adversas do Cabo da Boa Esperança culminaram no trágico naufrágio da Nau Nossa Senhora da Atalaia. Este evento serve como um lembrete sombrio dos perigos do mar e das decisões que, embora tomadas com boas intenções, podem ter consequências devastadoras. SENHOR,
  • 2.
    Sendo costume esempre verdadeiro propósito dos perigos logo se contar depois de passados, outro maior mérito fica dos que me custaram tanto, qual foi o que Vossa Majestade, que Deus guarde, mostrou quando me fez mercê escutar o largo discurso dos mesmos, mandando-me lhe oferecer depois de tão larga jornada. Pois Vossa Majestade tem tanto a sua conta honrar e premiar seus vassalos, como também a rigorosa certeza de passar os olhos pela relação dos trabalhos de tantos, porque com esse só fato receberemos todos o maior prêmio que se pode desejar. À muito alta e poderosa pessoa de Vossa Majestade guarde nosso Senhor, como estes Reinos hão mister, e deseja seus vassalos. Lisboa, 3 de janeiro de 1650. Com o devido respeito e na mais humilde posição, Bento Teixeira Feio. --- Na noite, soltámos as velas com ventos favoráveis até atingir uma latitude de dez graus e um terço a norte. Numa manhã de sábado, a Capitania içou uma bandeira, que logo avistámos, assim como uma outra vela. Ao aproximar-se mais, a Capitania disparou duas peças sem bala, forçando o outro navio a reduzir as velas e a lançar o seu batel ao mar. O Capitão Mor enviou o seu escudeiro, Manuel Luís, com uma equipa ao batel. Durante quatro dias e noites, mantivemo-nos na companhia deste navio. Durante este tempo, o Capitão Mor tentou convencer a tripulação do outro navio, que tinha sido capturado, a juntar-se a nós, apesar de trazerem cartas do Vice-Rei em nome do Rei para Mucelapatao, um aliado importante da Índia. No entanto, o capitão, os oficiais e os cavaleiros do navio Asfalaya, ao serem consultados sobre o assunto, não concordaram com a proposta. Deixámos a área na terça-feira, 5 de março. Durante os dias em que estivemos parados, os marinheiros experientes acreditavam que tínhamos perdido tempo valioso, o que mais tarde se confirmou quando enfrentámos dificuldades para contornar o Cabo da Boa Esperança. A bordo do navio em que embarquei, os religiosos tomaram a iniciativa de cantar as Ladaínhas todos os dias, celebrar a Missa e pregar aos domingos e dias santos. João da Cruz, o Guardião do navio, construiu um sepulcro muito elaborado, onde mantivemos o Senhor exposto durante vinte e quatro horas, com confissões e comunhões realizadas na Quinta-feira Santa. A 12 de março, chegámos à foz do rio, com a Capitania a cortar caminho devido ao sinal que tinha sido dado. --- Com três peças, descobrimos que o Inquisidor Antonio de Faria Machado havia falecido. Ele tinha estado na Índia durante dezessete anos e era muito respeitado e admirado por sua conduta e autoridade. Sentimos a sua perda, assim como a de outras pessoas que tinham saído de Goa doentes. Ainda assim, havia muitos fidalgos e pessoas nobres que, com a sua coragem, ajudaram na
  • 3.
    salvação daqueles denós que sobreviveram, muitas vezes arriscando as suas próprias vidas. Com chuvas intensas e períodos de calmaria, navegámos depois de cruzar a linha do Equador. De repente, um grito vindo da gávea anunciou: "Uma vela à vista!" Era o Galeão S. Pedro, que tinha partido de Goa quinze dias depois de nós e nos acompanhou durante vinte dias antes de seguir o seu próprio caminho. No dia 19 de Abril, o Almirante ordenou uma saudação ao Galeão Sacramento com sete tiros de canhão. No entanto, o nosso navio começou a fazer água rapidamente, e escravos e grumetes tinham que esgotá-la duas vezes por dia. Isso preocupava aqueles que entendiam o perigo que enfrentávamos, especialmente porque o nosso navio era antigo e estávamos prestes a enfrentar o Cabo da Boa Esperança durante o rigoroso inverno, quando as tempestades são frequentes e desafiantes, mesmo para embarcações novas. Em 10 de Junho, já a uma latitude de 33 graus sul e com bom tempo, o nosso mastro principal quebrou. Informámos a Capitania sobre o incidente e sobre a água que entrava no navio, pedindo-lhes que nos acompanhassem. Foi-nos enviado um semi-mastro para reparar o dano, mas devido ao aumento do vento, não foi possível realizar o conserto. Em 12 de Junho, ao anoitecer, estávamos ainda na companhia da Capitania quando o vento acalmou pouco antes do pôr do sol, seguindo na mesma direção. --- Da terra, com o vento vindo do oeste, surgiu um céu muito vermelho com nuvens negras e carregadas. Houve um relâmpago isolado e avistámos um peixe Orelhão, uma criatura grande, ambos sinais de uma noite tempestuosa que se aproximava. O vento começou a soprar com força. Recolhemos as velas e ficámos apenas com os papafigos ajustados durante uma parte da noite. Com o surgimento da Lua, o mar agitou-se e o vento intensificou-se de tal forma que o navio inclinou-se violentamente, levando muita água para o convés e submergindo as antenas e cordas. Ordenou-se que se recolhessem as velas e cordas para virar a vela principal, mas devido ao medo do forte temporal e à inexperiência de alguns marinheiros, as velas foram recolhidas de forma desordenada. Isso fez com que o navio virasse abruptamente, enfrentando um vendaval tão intenso que destruiu a vela principal e o traquete. O estrondo foi tão grande que pensámos que o navio iria partir-se. Durante algum tempo, o navio foi jogado de um lado para o outro pelas ondas, tornando quase impossível mantermo-nos de pé. Naquele momento, muitos da tripulação já haviam falecido devido a doenças, restando apenas oito marinheiros, quatro grumetes e alguns passageiros. Todos se esforçaram para controlar uma vela de emergência que tínhamos
  • 4.
    preparado para situaçõesextremas. Com esta vela, conseguimos estabilizar um pouco o navio, apesar da vela principal estar destruída e o traquete estar danificado, com os estandartes presos e impossíveis de cortar devido às condições adversas. Neste estado, passámos o resto da noite com o navio a ser constantemente atingido pelas ondas, acumulando rapidamente água no convés, enquanto tentávamos manter o curso com o vento. --- Um tempestuoso amanhecer nos surpreendeu no dia de Santo António, com as velas rasgadas e sem a companhia da Capitania. Preparámo-nos para a noite seguinte, que se mostrava tão ameaçadora quanto a anterior, com chuvas de pedras tão grandes quanto as velas, acompanhadas de muitos trovões e relâmpagos. Apesar do mau tempo, e com o navio a navegar a favor do vento, fomos ajustando e retirando o pano que restava na verga, colocando uma vela menor no traquete, para que, caso o vento diminuísse, o navio pudesse manobrar e evitar as ondas que pareciam querer nos engolir. Passámos esse dia e, no seguinte, com o tempo um pouco mais calmo, ajustámos outra vela, mas sem nunca largar as bombas. Após alguns dias de navegação, avistámos terra a 32 graus e decidimos rumar para ela, com a esperança de que, à sua sombra, poderíamos fazer reparos e verificar a condição da água no navio. No entanto, a principal preocupação parecia ser a pesca, e houve quem criticasse essa falta de atenção ao estado do navio. O Mestre Jacinto António, considerando a situação em que nos encontrávamos e a escassez de soluções, achou prudente dirigir-se a Moçambique antes que o tempo nos impedisse completamente. Lá, poderíamos salvaguardar os bens e a artilharia de Sua Majestade e procurar ajuda para todos. Esta ideia espalhou-se rapidamente. Dom Duarte Lobo pediu ao Mestre que, ao verificar o estado do navio, do qual havia relatos variados, levasse consigo os outros oficiais para decidir o melhor a fazer. No entanto, muitos não ficaram satisfeitos com esta proposta, devido aos compromissos que tinham e à pouca atenção que lhes foi dada em Goa. Isso fez com que o Mestre e os outros que consideravam a ideia de dirigir-se a Moçambique fossem intimidados, de modo que a única decisão tomada foi continuar a navegar. --- A caminho de Portugal, navegamos por várias rotas durante alguns dias, aumentando a nossa distância em relação ao Cabo. As bombas não paravam de trabalhar, e todos nós ajudávamos, sem exceção, incluindo os próprios religiosos. Preparámos alguns barris para bombas, fazendo-lhes arcas e abrindo a boca do porão para uma cisterna. No entanto, o esforço foi em vão devido à forma como a artilharia tinha sido arrumada em Goa. Na boca da escotilha, deixaram quatro peças, e havia rumores de que o navio tinha muitas curvas e pés de carneiro fora do seu lugar. Decidiram que, navegando a uma altitude menor, encontraríamos condições mais calmas e poderíamos recolher alguma água. O Mestre, outros oficiais e o Almirante foram verificar a situação abaixo do convés, sem levar D. Duarte Lobo, apesar de ele ter pedido. Quando regressaram, o Mestre, mostrando três pregos do forro, disse que o navio não estava em condições de ir a Jerusalém. Assim, decidiram apenas focar-se na viagem de regresso ao Reino e na pesca, voltando para o mar sem tomar mais medidas, apesar dos riscos e desafios da viagem que tinham pela frente.
  • 5.
    Ao virar paraterra no dia de São Pedro e São Paulo, o Piloto Gaspar Rodrigues Coelho decidiu soltar a vela da gávea de proa. O Sotapiloto Balthazar Rodrigues avisou-o de que estavam perto da terra, mas Gaspar respondeu que tinha navegado por aquela costa durante muito tempo e que não havia motivo para preocupações, a menos que vissem as duas empulhetas do quartinho. Bras da Costa, marinheiro e cunhado do Mestre, que estava a comandar a navegação, gritou em alta voz e com grande urgência: "Virem para cima, irmãos!" Isso causou um alvoroço no navio, pois viram um banco de areia à superfície do mar. --- Na Baía da Lagoa, a oito braças de profundidade, lançando o prumo, encontraram essa medida, causando grande preocupação a todos, como se pode imaginar ao pensar em tal perigo. Rapidamente ajustámos as velas, içando e ajustando a vela da gávea grande mais de doze vezes. Os oficiais e os restantes não abandonaram os seus postos. O Sotapiloto Balthazar Rodrigues, que se manteve firme durante esta provação, gritou da proa, de onde dirigia o navio com grande precisão, dizendo para não temerem, pois ele levaria o navio pelo mesmo caminho por onde tinha entrado. As ondas rebentavam por todos os lados, fazendo o navio balançar intensamente, como se viesse das profundezas. Ao encontrar-se atravessado por três ondas consecutivas, o impacto foi tão grande que parecia que o mundo estava a acabar. O Guardião João da Cruz, que ajudava nas bombas com os grumetes, tão aflito, clamou pelo céu e Deus nosso Senhor enviou um vento que nos empurrou para fora. Como a principal solução em tal tribulação estava nas mãos de Deus e no nosso esforço, todos trabalharam arduamente, incluindo os religiosos, que nesta ocasião valiam por muitos. O Padre Fr. António de São Guilherme da Ordem de Santo Agostinho, que estava a caminho de Portugal como Procurador Geral da sua Congregação, trabalhou tanto que, quando o Padre Fr. Diogo da Apresentação da mesma Ordem se aproximou para lhe dar a confissão, ele respondeu que não era o momento, mas sim de trabalhar. Ao dirigir-se para o convés para nos ajudar, caiu por uma escada devido a um dos balanços do navio, abrindo uma grande ferida na cabeça. No entanto, após apertar a ferida com um lenço, não deu mais importância ao assunto até que a situação se acalmasse. --- Na tarde anterior, tinha-se feito uma súplica ao Santo Cristo do Carmo de Lisboa. Vendo algumas pessoas o navio em tamanha aflição e desespero, e depositando a sua esperança apenas em Deus, gritaram em altas vozes: "Alegria, irmãos! Agora vi na gávea a Nossa Senhora com uma luz, como uma coroa, de grande resplendor." Nesse momento, o ânimo e a coragem de todos foram tão reforçados que a morte já não era temida. Assim passámos a noite, com o navio tão danificado por todo este esforço que não havia parte que não deixasse entrar água. Todos acorreram às bombas e perceberam que a água entrava ainda mais rapidamente, agravada pelo grande temporal que se abateu sobre nós no dia seguinte. Navegámos com a vela da proa, enfrentando o mar agitado e os fortes balanços do navio, esperando a cada momento que ele se partisse ao meio. O mar lançava tanta água sobre nós que os padres tinham de se revezar na popa, benzendo os mares. Se alguma vez se distraíam, as ondas tornavam-se tão fortes que o contramestre, que estava ao leme, sentia-se quase afogado, gritando por ajuda, já que todos estavam ocupados com as bombas. Os
  • 6.
    religiosos e passageiros,que estavam sob nossa responsabilidade devido ao número reduzido de tripulantes, ajudavam na bomba de estibordo, enquanto os grumetes trabalhavam de dia e os cafre de noite na bomba de bombordo. D. Duarte Lobo e D. Sebastião Lobo da Silveira assistiam dia e noite, desde 13 de Junho, quando começaram os trabalhos, incentivando com doces e mimos aqueles que trabalhavam, pois como não havia fogo, tudo era necessário e nada faltava. --- A bomba de água dava-nos imenso trabalho e preocupação porque frequentemente nos faltavam os fusíveis. Decidiu-se que os cafre deveriam assistir à bomba durante os turnos da noite, mas isso não foi cumprido, ficando apenas os dois calafates. Estes, ao perceberem o aumento do nível da água, alertaram várias vezes para o perigo em que nos encontrávamos, mas foi ordenado que não causassem pânico a bordo. Ao amanhecer, abrimos a escotilha principal e encontrámos água acima do lastro. Rapidamente, montámos as bombas e tentámos esvaziar a água, mas em menos de duas horas, o nível da água aumentou tanto que os barris começaram a encher-se por si mesmos. As pipas do porão romperam-se e os sacos de pimenta espalharam-se, obstruindo as bombas. Com este cenário, trabalhámos continuamente com dois barris de quatro almudes e dois de seis, usando o cabrestante e ao redor do mastro principal, onde abrimos uma grande escotilha para permitir a saída de mais pimenta do que água. Com todo este esforço e com o navio já inclinado para a proa, não conseguíamos controlá-lo, com a água já acima do convés e a proa submersa mais de dois palmos. Neste perigo evidente, passámos dois dias e duas noites sem avistar terra, até que ao amanhecer vimos uma ponta de recifes com muitas árvores, parecendo ser a foz de um rio com uma longa praia de areia e uma grande enseada, que julgámos ser possível alcançar a pé com o batel. Em conselho, considerando a situação do navio, decidiu-se procurar a terra avistada, lançando ao mar a artilharia, que sempre esteve pronta, exceto a da Cuina, que... --- Durante a viagem, não conseguimos manter o porão devido à incapacidade dos corpos de suportar o trabalho, e duas peças foram lançadas ao mar. Com um vento suave, embora o mar estivesse agitado, içámos a vela da gávea grande. No entanto, ao ajustá-la, rasgou-se, assim como a vela de proa. A cevadeira estava toda rasgada e o traquete com muitos cortes. Navegámos com a vela grande, que, ao ajustá-la, também se rasgou. Nesse momento, o Almirante ordenou ao Condestável Francisco Teixeira que guardasse alguma pólvora e balas em barris, recolhesse as armas disponíveis e todo o cobre e bronze, que serviriam como moeda naquela região da Cafraria, para comprar o necessário. A noite foi passada a trabalhar nos gamotes, enquanto os nativos, já em terra, faziam grandes fogueiras. Na manhã seguinte, 3 de Julho, começámos a preparar o batel para desembarcar, assim que o mar permitisse. No entanto, o vento mudou e, com o traquete, ancorámos em sete braças de profundidade. O Mestre ordenou que cortassem as cordas grandes, deixando a verga atravessada no meio do convés, para que, se cortada, pudesse transportar algumas pessoas. Lançámos o batel ao mar com instruções para levar apenas algumas pessoas, armas e mantimentos para estabelecer um acampamento, enquanto os restantes ficavam a bordo. No
  • 7.
    entanto, devido àforte corrente e ao avançar da hora, o batel regressou sem desembarcar nada, informando que o mar não estava propício e havia um grande banco de areia. Ao anoitecer e com a maré a baixar, o navio começou a encalhar e a lançar água. --- Durante a meia-noite, perdemos o leme, o que nos levou a cortar a árvore grande e o traquete, lançando a outra âncora para não sermos arrastados pela corrente. Ao virar com a maré, ficámos em oito braças de profundidade. Ao amanhecer, na quarta-feira, 4 de Julho, juntámos todos os cabos finos para fazer uma corda, que foi fixada dentro do batel. Com as pessoas necessárias, armas e o que puderam levar à mão, deixando uma ponta da corda no navio, remaram em direção à terra. Ao chegarem à rebentação, a ondulação era tão forte que o Padre Fr. Diogo da Apresentação, que estava no batel, absolveu a todos, com cada um confessando-se publicamente devido à situação crítica. Chegaram à terra sem interferência dos nativos, que não apareceram. Desembarcaram o que levavam e, regressando ao navio, fizeram uma segunda viagem com D. Bárbara e Joana do Espírito Santo, duas portuguesas, bem como todas as escravas que levávamos, o Almirante e D. Sebastião Lobo, entre outros. D. Duarte Lobo e o Padre Fr. António de São Guilherme permaneceram no navio com os oficiais e eu. Optámos por não deixar este nobre, apesar dos seus pedidos para que nos embarcássemos. Todos estavam exaustos, pois os que podiam trabalhar ou estavam no batel ou ficaram em terra para proteger o que estava sendo desembarcado e ajudar os que estavam no batel. Os restantes a bordo não conseguiram construir uma jangada nem embarcar quatro fardos de arroz, apesar de haver mais de mil na embarcação. Não chegaram à terra mais do que trinta fardos, e estes estavam molhados. Nesse dia, o batel fez quatro viagens à terra, e na última, já quase de noite, D. Duarte embarcou. --- Juntamente com os oficiais, a pedido de todos, e com ele o Padre Fr. António e o Padre Francisco Pereira, que foi da Companhia de Jesus, não consentiram que se levasse mais gente no batel do que o necessário. Com a maré a subir e os escravos a bordo, chamámos pelo Padre Capelão, que não quis sair, dizendo que ficaria com aqueles irmãos para os acompanhar, pois a noite prometia ser difícil e não havia ninguém a bordo para trabalhar nos cabos. Nessa viagem, embarcámos setenta pessoas e, ao chegar à terra com dificuldade, o batel estava alagado até à borda, levando alguns de nós a nadar. Aquela noite, o batel ficou encalhado, e os da embarcação passaram por grandes dificuldades. Pela manhã, no dia 5 de Julho, Bras da Costa e Paulo de Barros embarcaram com o restante grupo que estava no batel. Estes dois marinheiros sempre se mantiveram no batel, enfrentando riscos e trabalhos, enquanto os outros se revezavam. Muitos, depois de chegar à praia, voltavam para o navio em busca de comida, que escasseava em terra. A primeira viagem foi feita com segurança graças à corda, mas na segunda, com o mar agitado e ao regressar do navio para a terra, apesar dos esforços daqueles que já estavam no batel, muitas pessoas lançaram-se a ele, sobrecarregando-o. Quando já estavam a alguma distância do navio, um chinês, pertencente a D. Sebastião Lobo, cortou com um machado a corda que estava presa ao navio. Com isso, ao ser atingido pela ondulação, o batel virou-se, inundando-se com as setenta pessoas a bordo. Cinquenta delas morreram afogadas, e nós, que estávamos em terra, não pudemos ajudar, puxando o batel para a praia, onde chegou completamente danificado.
  • 8.
    --- E aqueles queescaparam, sem que o mar devolvesse nada do que foi embarcado a bordo. Na terça-feira, o Almirante ordenou que se reparasse o batel e, oferecendo quinhentos xerafins a quem se aventurasse nele até ao navio para buscar as pessoas que lá permaneciam, ninguém se atreveu devido ao mar agitado e ao terror do acontecimento do dia anterior. Os que estavam a bordo causavam um espetáculo lamentável com os seus gritos e clamores dirigidos ao céu. Mesmo à distância, os gritos eram tão intensos que percebíamos o desespero daqueles que estávamos na praia. E como já não havia mais refúgio no navio, exceto o mastro grande à ré, e o resto estava coberto pelo mar, e perdendo a esperança no batel, muitos se lançaram à água em pares, dos quais alguns chegaram à terra e os restantes pereceram. Na noite anterior, tinham disparado um canhão pedindo ajuda. Na noite seguinte, de sexta-feira para sábado, alguns negros chegaram à nossa terra, dizendo que ainda havia pessoas brancas no navio, sem mais proteção do que um painel na popa, onde estava a imagem de Nossa Senhora da Atalaya. No entanto, ao amanhecer, o navio despedaçou-se completamente, com apenas um pequeno quartel intacto chegando à terra, e o restante em pedaços. E assim, testemunhámos o fim trágico de um navio tão poderoso, e aqui vimos muitos nus e pobres, que há pouco tempo eram ricos e bem vestidos. O Almirante fez uma chamada aos sobreviventes, dividindo-os em três esquadrões. Ele ficou responsável pelo dos passageiros, e os marinheiros e grumetes foram distribuídos pelos oficiais. Ordenou que tudo o que fosse encontrado para comer fosse levado ao acampamento principal. --- Para isso, nomeei alguns homens que percorressem a praia, proibindo aos restantes sair do acampamento. Mudámos o acampamento para o interior da floresta, pois na praia onde desembarcámos, estávamos cobertos de areia. Construímos barracas, que são o mesmo que tendas de panos brancos, onde nos alojávamos, preparando-nos para a jornada que esperávamos fazer pela Cafraria até ao Cabo das Correntes. Os mantimentos encontrados foram colocados no acampamento sob vigilância. Durante os onze dias que estivemos ali, enfrentámos grandes dificuldades de fome e sede, devido à falta de mantimentos. A água tinha de ser buscada no Rio do Infante, a quase uma légua de distância, e era de tão má qualidade que muitos adoeceram e morreram, incluindo Vicente Lobo de Sequeira, membro da Ordem de Cristo e natural de Macau, que já se tinha perdido nesta região no navio S. João, e um artilheiro chamado Marcos Coelho. Para os casos que surgissem, foram nomeados como adjuntos ao Almirante, D. Sebastião e D. Duarte Lobo da Silveira, irmãos, Domingos Borges de Sousa, senhor da Vila e membro do Conselho de Alva, que veio do Reino no mesmo navio, os Padres Fr. António de S. Guilherme e Fr. João da Encarnação, e os oficiais do navio e o escrivão João Barbosa, uma vez que Francisco Cabrita Freyre estava à beira da morte. Neste naufrágio, encontraram-se três marinheiros que, quatro anos antes, se tinham perdido nesta região no navio, do qual D. Luís de Castelbranco era capitão. Eles tinham viajado pela Cafraria até ao Cabo das Correntes e chamavam-se António Carvalho da Costa, Paulo de Barros e Mattheus Martins. Os dois primeiros foram nomeados como negociadores do acampamento, juntamente com Alexio da Silva, um
  • 9.
    passageiro nomeado comofeitor. Nesta praia onde desembarcámos, encontrámos, durante a maré baixa, uma grande quantidade de amêijoas muito saborosas, que ajudaram a aliviar a fome que enfrentámos. --- O piloto Balthazar Rodrigues, juntamente com Urbano Fialho Ferreira, membro da Ordem de Cristo e filho de António Fialho Ferreira, e outros, chegaram ao Rio do Infante e encontraram trinta e três grãos e um terço. Observaram um recife que se estendia para o noroeste, repleto de árvores, e uma praia com mais de duas léguas de extensão. A costa tinha bancos de areia branca com árvores espalhadas e o terreno era rochoso. Ao tomar o sol, foi dado o alerta da presença de Cafres na praia. Tentaram comunicar com eles através de gestos, mas não conseguiram entender a sua linguagem, pois falavam por sinais. Os Cafres andavam nus e apenas usavam algumas peles como vestimenta. Não praticavam agricultura e sobreviviam comendo algumas raízes, caça e mariscos que encontravam na praia. As suas armas eram paus afiados e algumas lanças de ferro. Quando D. Duarte Lobo e os outros regressaram ao acampamento, distribuíram as armas, balas e pólvora, bem como alguns recipientes para guardar o cobre necessário para o resgate, linhas e arpões para atravessar os rios. Tudo foi registado nos livros do Rei. O arroz que tinham estava todo estragado e podre, o que acelerou a sua partida, deixando enterrados o cobre e a pólvora excedentes. Durante os dias que estiveram ali, o Almirante tratou com o piloto Gaspar Rodrigues Coelho, o escrivão Francisco Cabrita Freyre e outros que estavam doentes ou incapacitados de marchar. Propôs-lhes que, se desejassem, prepararia o batel e forneceria tudo o que fosse necessário para a viagem. No entanto, o piloto não aceitou a oferta, e assim, o assunto não foi mais discutido. Esta decisão foi tomada principalmente para que estas pessoas, juntamente com as mulheres e outros doentes, não se tornassem um fardo, como se verá mais tarde. --- D. Sebastião Lobo da Silveira era tão incapaz de marchar devido ao seu excesso de peso e outros problemas de saúde que o impediam de andar sequer alguns passos por si mesmo. Assim, pediu aos grumetes e oficiais que o persuadissem, e através do seu irmão, D. Duarte Lobo, que era bem visto por todos, chegaram a um acordo para o transportar numa rede feita de linhas de pesca. Cada grumete receberia oitocentos xerafins, e D. Duarte Lobo deu penhores de ouro como garantia. Este fidalgo também estava doente, e durante a nossa estadia no acampamento, tememos pela sua vida. Uma vez organizada a rede com os seus servos e mais dois que comprou, preparou-se para a jornada. Domingos Borges de Sousa fez um andor de uma alcatifa, e Francisco Cabrita fez outro de um pano, usando remos do batel como canas, adaptados pelo carpinteiro. O Piloto, apoiando-se em duas muletas, e os outros, conforme as suas condições de saúde permitiam, seguiram com as suas armas e cada um com os seus alforjes, onde carregavam o seu resgate em cobre e roupa para a sua higiene pessoal. Teria sido necessário mais tempo para descansar do esforço anterior e ganhar forças para os desafios que nos esperavam, mas a falta de alimentos e as condições adversas do local apressaram a nossa partida na segunda-feira, 15 de julho, pela manhã, depois de todos rezarem uma ladainha à Nossa Senhora. É difícil expressar a emoção e as lágrimas que
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    marcaram o iníciodesta trágica e lamentável jornada. Ficaram para trás, devido a ferimentos, um Cafre do Contramestre Manoel de Sousa e um jovem cabrito meu. --- Uma jovem negra pertencente ao Condestável Francisco Teixeira, que morreu afogado ao vir para terra no batel. Começámos a marchar, com o Almirante levando a dianteira, o Mestre Jacinto António a vanguarda e o Contramestre a retaguarda. Desde o início, sentimos pena e compaixão pelos doentes e aqueles incapazes de acompanhar o grupo, prevendo o que viria a acontecer mais tarde. Depois de termos marchado menos de uma légua pela praia, Bertholameu Pereyra Loreto, um marinheiro, ficou para trás devido ao cansaço. Os Cafres, que já nos seguiam, rapidamente o mataram, e nada pudemos fazer para ajudá-lo. Mais à frente, os mesmos Cafres roubaram a D. Barbora os alforjes que continham os seus bens, incluindo o seu resgate em cobre, mantimentos e uma muda de diamantes que escapou. Se a retaguarda não tivesse intervindo rapidamente, teriam-na matado, tal como fizeram ao Loreto. Antonio Carvalho da Costa, um marinheiro, ajudou-a, carregando as suas coisas até ao anoitecer. A portuguesa Beata Joana do Espírito Santo também nos causou muitos problemas, assim como os outros doentes. Mesmo assim, conseguimos acampar num recife junto ao mar, onde encontrámos uma fonte de água muito boa. O Piloto, incapaz de chegar à fonte, ficou um pouco atrás, e ao pedir confissão, os Padres acorreram com grande caridade. O Escrivão chegou à noite, muito tarde, e ali passámos a noite. Na terça-feira, 16 de julho, o Almirante convocou um conselho para decidir o que fazer com as mulheres e as pessoas incapacitadas que nos impediam de avançar rapidamente em direção à terra de resgate, pois os grãos de arroz que tínhamos quando nos perdemos... --- Eram tão poucos que não passavam de duas medidas por pessoa. Segundo afirmavam aqueles que já tinham passado por aquele caminho, não se poderia encontrar resgate em menos de um mês. Após uma discussão intensa, decidiu-se que, dada a nossa situação e considerando que o Piloto, o Escrivão, D. Barbora e João do Espírito Santo não podiam nos acompanhar, e esperar por eles nos exporia a morrer de fome, deveríamos avisar as mulheres para marcharem à frente. Já não se tratava do Piloto e do Escrivão, pois um deles já estava sem fala e o outro não estava em condições de ajudar. Ao serem avisadas, as portuguesas responderam que Deus nos acompanhasse, pois elas não se atreviam nem podiam seguir. Assim, deixámo-las após se confessarem, juntamente com uma menina negra que quis ficar com elas, sem qualquer alimento. Nesta ocasião, D. Sebastião esteve em risco de ficar para trás, pois os grumetes que o carregavam, incapazes de suportar o trabalho, queriam abandoná-lo. D. Duarte Lobo interveio, e com bons argumentos e algum incentivo, conseguiu que o levassem aos poucos. Naquele dia, marchámos ao longo do mar por recifes, de onde surgiam muitos ribeiros de água doce, e atravessámos alguns rios que, se não estivessem secos, nos causariam problemas. Nas praias, encontrava-se algum marisco, mas pouco, e viam-se alguns pássaros grandes, semelhantes a pavões. Aqui, devido ao caminho ser difícil e à escassez de comida, os grumetes decidiram abandonar D. Sebastião Lobo. A solução foi escolher, entre todos, os doze mais robustos, e os
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    restantes carregariam asbagagens destes. Continuámos a marchar por um dia por caminhos ásperos e estreitos junto ao mar. --- Por onde só cabia uma pessoa atrás da outra, devido a um declive e ravinas junto à praia, chegámos a uma passagem muito arriscada. Depois, atravessámos um rio muito caudaloso e agitado, com água acima do joelho. Após atravessá-lo, descansámos, mas os grumetes, ao retomar a marcha, deixaram para trás D. Sebastião Lobo, que não se atreveu a caminhar pelos seus próprios pés. No dia seguinte, chegámos a outro rio com uma densa floresta na sua foz, onde encontrámos um baleato (parte de uma baleia) na praia. Cada um de nós cortou um pedaço para comer. Naquela tarde, passámos por muitos pântanos e terrenos difíceis, e ao final, montámos o acampamento junto a um ribeiro de água fresca. Ao percebermos a ausência de D. Sebastião, porque o Almirante e Dom Duarte, que iam à frente, não tinham notado que os grumetes o haviam deixado para trás, combinaram com os marinheiros para o ir buscar. Já de noite, voltaram duas léguas atrás e encontraram-no onde o tinham deixado, trazendo-o de volta ao acampamento. Ele chegou muito tarde, proclamando em voz alta que D. Sebastião Lobo da Silveira não temia a morte, mas sim os maus tratos que recebia. No dia seguinte, discutiu-se com este fidalgo sobre o seu embarque de regresso ao Reino, chamado por Sua Majestade. No dia seguinte, marchámos pouco e, quase a uma légua de distância, encontrámos o rio de São Cristóvão. Para o atravessar, organizámos duas jangadas, pois o rio era caudaloso, muito profundo, com uma corrente forte e agitada. --- Dedicámos uma [jangada] à Nossa Senhora da Ajuda e outra à do Bom Sucesso. Convencido de que não nos poderia acompanhar, [D. Sebaastião] mostrou-nos muitas joias e objetos valiosos dos quais não tínhamos conhecimento, oferecendo-os a quem pudesse levá-lo às costas. Vendo isso e após persuasões do Mestre Jacinto António, a quem, para este propósito, deu seis voltas de uma corrente de ouro, negociou-se com dezasseis marinheiros, os mais robustos, a quem D. Sebastião entregou imediatamente tudo o que possuía. Depois de atravessar o rio, que devido à sua forte corrente e à impossibilidade de embarcar as jangadas a não ser na maré baixa, não pudemos fazê-lo naquele dia. No dia seguinte, 19 de Julho, concluímos a travessia, mas perdemos um Cafre nosso, que foi levado pela corrente, e um marinheiro, Antonio da Silva, que estava doente e não se atreveu a continuar a marcha. E no dia 20 de Julho, os marinheiros concluíram o transporte dos dezasseis, incluindo D. Sebastião Lobo. Depois de passar o rio, continuámos a marchar pela praia, por caminhos estreitos, e ao chegar a uma fonte, Filipe Romão, um passageiro que tinha vindo do Reino no mesmo navio e que era casado em Lisboa e tinha sido escudeiro da Princesa Margarida, ficou para trás, incapaz de nos seguir devido à doença. Lourenço Rodrigues, escudeiro de Dom Duarte Lobo e casado em Alfama, também ficou para trás, incapaz de caminhar mais, mesmo tendo feito isso até então com a ajuda de duas muletas. Quando o seu senhor, passando por ele, lhe disse para se animar, ele respondeu que Deus o ajudasse e que levasse perante os olhos da senhora Dona Leonor,
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    sua mulher, poisele não se sentia com forças nem ânimo para os seguir. O Padre Fr. António de São Guilherme também tentou animá-lo. --- No entanto, ele preferiu persistir na sua decisão. Quando o Padre já estava um pouco afastado, ele chamou-o de volta. O Padre, pensando que seria para alguma reconciliação, voltou para ouvir o que ele queria. Ele disse: "Padre Fr. António, já que vais embora, faz-me o favor de me dar um pouco de tabaco. Que Deus esteja contigo." E com uma expressão muito serena, pediu que lhe fizessem uma pequena cova para se deitar. Continuando a nossa marcha, atravessámos um rio com água até à cintura. No dia seguinte, depois de termos caminhado cerca de uma légua, chegámos a outro rio, que atravessámos durante a maré baixa com água até aos ombros. Depois deste rio, encontrámos um caminho melhor, mas deserto, vendo apenas alguns Cafres caçadores que não quiseram falar connosco. Neste percurso, encontrámos boas fontes de água, algumas palmeiras selvagens e pequenas, cujos palmitos, embora difíceis de extrair, serviam como alimento, dada a fome generalizada. Nesse dia, avistámos algumas cabanas com Cafres, que ao nos verem, fugiram. Ao entrarmos nas cabanas, encontrámos dois polvos e alguns grãos de milho. Mais à frente, encontrámos dois Cafres, a quem demos duas fechaduras de escritório como presente, que são as joias que os nativos desta região mais valorizam. Ao perguntarmos sobre a possibilidade de troca, responderam com gestos, indicando que haveria alguma troca nas proximidades. À vista de um monte chamado "da pressa", devido à nossa urgência causada pela fome e pela falta de organização na marcha, pois estávamos muito fracos, dois nativos saíram do mato. Encontrando Felício Gomes, um marinheiro, isolado dos demais, roubaram-lhe a mochila e um jarro de latão que ele tinha na mão. Tentaram fugir rapidamente, mas sem sucesso, pois ao atacarem, ninguém conseguia alcançá-los. --- Ao chegarmos a um ponto elevado onde vimos algumas cabanas, não encontrámos nada além de algumas panelas de barro vazias. Depois disso, montámos o nosso acampamento perto de um rio, e todos estavam muito tristes pela decisão daqueles que acompanhavam D. Sebastião de o deixar, pois sentiam-se sem forças. Ele, resignado e decidido a ficar, primeiro tratou de se confessar novamente e deu a cada um dos que o tinham acompanhado até ali um anel com um rubi. Depois, despojou-se até da sua cruz de tambaca com relíquias que trazia ao pescoço e de uma pequena panela de cobre, pois não havia comida. Todos se despediram dele com a devida tristeza, deixando-o sob uma pequena tenda de pano, robusto e bem-disposto, pois não se sentia capaz de marchar a pé. Com ele ficou um pequeno Chines e um Cafre, que era servo de Domingos Borges de Sousa. D. Duarte Lobo, seu irmão, ficou com ele por um longo tempo. D. Sebastião mostrou, neste momento difícil, tanta paciência e coragem que se pode acreditar piamente na sua salvação. Depois de sairmos desse local, atravessámos outro rio com água até ao peito durante a maré baixa. A partir daí, a terra parecia mais fresca, com algumas boninas, orquídeas e outras plantas, das quais muitos, impulsionados pela fome, comeram com vontade. Depois de atravessar dois rios secos, chegámos a um que vadeámos com água pela cintura, seguindo por terras arenosas e depois por uma floresta onde encontrámos um ribeiro. Acampámos ali durante a noite e, pela manhã, continuámos pela praia. Atravessámos três rios secos e outro
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    que, para atravessar,foi necessário construir uma jangada, que dedicámos a Nossa Senhora do Socorro. --- No local onde passámos, no dia seguinte, vieram até nós alguns com quatro peixes, que trocámos com eles, dando a entender que perto dali havia mais para trocar. No dia seguinte, dia de Santiago, enquanto caminhávamos pela praia, desviamo-nos para um bosque devido a muitos recifes que não conseguíamos ultrapassar. No bosque, encontrámos armadilhas e buracos para elefantes. Mais à frente, num ponto elevado, encontrámos cinco cabanas redondas, semelhantes a fornos, mas estavam vazias. Continuando a marcha e depois de atravessar quatro rios secos, fizemos uma paragem junto a um rio caudaloso e agitado, onde planeámos construir uma jangada para o atravessar no dia seguinte, dia de Santa Ana. Ali, encontrámos alguns pequenos montes verdes e alguns de nós tiveram a sorte de encontrar favas, que ao serem comidas na praia, quase levaram alguns à morte. No sábado, 1º de julho, depois de atravessar o rio, caminhámos por um bosque e, ao sair para a praia, vimos sinais de fogo num ponto elevado. Três dos nossos foram investigar e regressaram com a notícia de que havia vacas nas proximidades. Esta notícia encheu-nos de alegria e, em agradecimento, rezámos uma ladainha em honra de Nossa Senhora. Logo depois, apareceram muitos Cafres, incluindo um que falava português chamado João, que tinha ficado na região desde o naufrágio da Nau Belém. Ele reconheceu-nos imediatamente. Os outros comunicavam através de gestos. Vestiam-se com peles que usavam para cobrir as coxas, e o resto do corpo nu, tanto homens como mulheres. As mulheres diferenciavam-se por usarem chapéus do mesmo couro. Nesse local, trocámos e, no dia seguinte, conseguimos dez vacas, que foram abatidas e comidas. Foi-nos oferecido um preço fixo para todas as vacas que quiséssemos comprar, mas os nossos negociadores não concordaram, argumentando que... --- O Almirante pediu ao Cafre João que considerasse juntar-se à nossa companhia, prometendo- lhe grandes recompensas. No entanto, ele recusou, alegando ter compromissos de caça, e ficou para trás. Continuámos a nossa marcha pela praia. Na segunda-feira, o Cafre João e os seus companheiros atacaram-nos com flechas, tentando matar-nos e roubar-nos. Não se atreveram a atacar diretamente o nosso acampamento, pois estávamos sempre bem vigiados. Nesta praia, deixámos um marinheiro, que trabalhava como gajeiro e morava perto de Duarte Bello em Lisboa. Ele confessou-se, pois não se sentia capaz de continuar a marcha. Os Cafres arrastaram-no pela praia à nossa vista, e ele, de joelhos e com as mãos levantadas, não teve ajuda de nós. Enquanto continuávamos a marchar pela praia, os Cafres continuaram a atacar- nos com flechas. No entanto, Urbano Fialho e Salvador Pereira, com os seus arcabuzes, fizeram-nos recuar, permitindo-nos caminhar com mais liberdade por um caminho difícil e árduo. Saímos deste caminho e encontrámos um rio grande, onde passámos uma noite muito fria devido à falta de água. Na manhã seguinte, esperámos pela maré baixa para atravessar o rio, que tinha água até à cintura. Foi difícil vencer a corrente. Depois, seguimos por recifes tão agudos que magoavam muito os que usavam calçado e rasgavam os pés dos descalços. Depois deste desafio, enfrentámos outro: montanhas íngremes que pareciam tocar o céu. Descemos até um ribeiro onde descansámos e vimos Cafres que se aproximaram para falar connosco. Eles trocaram cinco peixes connosco, dando a entender...
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    --- Havia rumores deque haveria possibilidade de troca mais à frente. Aqui, encontrámos alguns figos, que na Índia são chamados de "gralha", mas eram poucos. Ao subir uma colina, fizemos uma pausa na sua descida para passar a noite junto a um ribeiro de água doce. No dia seguinte, o Almirante mandou explorar a terra para ver se havia algum povoado ou gado. Os exploradores regressaram ao acampamento cansados, famintos e sem qualquer informação. A partir daí, seguimos pela praia, passando por recifes onde colhemos ostras para comer, cruas tal como as encontrámos, pois já não comíamos nada há cinco dias. Chegámos a um rio muito largo e com uma corrente forte. Demorámos três dias a atravessá-lo, esperando pela maré baixa. Depois, fomos descansar numa praia onde foi difícil encontrar água potável. Conseguimos aliviar a fome com algumas ostras e lapas. Chamámos a este rio de São Domingos, pois encontrámo-lo na véspera do dia de São Domingos. A fome tornava a nossa jornada ainda mais difícil. Continuámos até chegarmos a uma montanha de terra movediça, tão íngreme que tivemos de nos agarrar às raízes das figueiras bravas que cresciam ali. Para atravessar um barranco grande e íngreme em direção ao mar, todos nós fizemos o Ato de Contrição, pois se caíssemos, iríamos parar a recifes e lagoas muito agudas. O Mestre Jacinto António teve ainda mais dificuldade, pois era sua vez de liderar a expedição. Enquanto nos preparávamos, ele, armado com uma espingarda e uma adaga, ouviu um grito indicando que ele e alguns dos seus seguidores se estavam a desviar. Havia rumores no acampamento há dias sobre isso. --- Por causa disso, a maior parte do nosso grupo seguiu em frente, deixando D. Duarte Lobo e seus companheiros para trás. Não sabíamos deste desvio e, por isso, retomámos o caminho por dentro de um mato, subindo uma colina com menos dificuldade e chegando ao local onde os aflitos que seguiam o Mestre estavam mais mortos do que vivos. Ao perguntar-lhes sobre ele, disseram-nos que ele tinha tomado outro caminho mais perigoso, pois não encontrou saída pela praia. Reunimo-nos todos novamente e, após um breve descanso, continuámos a marchar até montar acampamento junto a um ribeiro. A fome era tão intensa que nem sequer as ervas verdes eram poupadas, e muitas vezes, ao atravessar o ribeiro, comíamo-las cruas. Na manhã seguinte, começámos a marchar, instruindo os exploradores para irem sempre à frente, procurando sinais de possíveis trocas. Paulo de Barros encontrou uma aldeia de Cafres, mas não conseguimos obter informações claras deles. Estávamos tão exaustos que, sempre que parávamos para descansar, rastejávamos à procura de ervas e favas, sabendo que ao comê-las arriscávamos a vida, pois eram venenosas. Mudámos o nosso caminho da praia, que era muito estéril, sem lapas ou caranguejos, e cheia de recifes. Ao entrar no interior, fizemos uma paragem junto a um ribeiro de água fresca, onde encontrámos cabanas de Cafres. Ao ver-nos, esconderam-se no mato, evitando qualquer comunicação connosco. Continuámos até uma pedra coberta de árvores frescas, com uma poça de água doce tão clara que nos convidou a descansar. Ali, procurámos algumas ervas e quem encontrava um caranguejo considerava-se afortunado. Durante dois dias, marchámos pelo interior, sofrendo as maiores fomes que alguma vez tínhamos suportado.
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    --- Durante uma destasnoites, um grumete aproximou-se de uma fogueira que estava acesa perto da barraca de D. Duarte. Ele descalçou-se para secar um sapato e, com grande avidez, começou a aquecê-lo, provavelmente para que ninguém mais o fizesse. No terceiro dia, marchámos sete léguas por terrenos e caminhos ásperos até avistarmos um rio. Descemos uma encosta íngreme com dificuldade. Devido ao cansaço da marcha e à falta de ordem na forma como caminhávamos, corremos o risco de o grupo se dividir devido aos diversos caminhos que encontrávamos. Só percebemos que estávamos no caminho certo quando avistámos o rio de uma colina, tendo que retroceder bastante para não nos perdermos. Chegámos ao rio já de noite, onde encontrámos muitas beringelas bravas e amargas, que foram consumidas. Alguns cozinhavam-nas até que ficassem quase sem sabor, enquanto outros, que não tinham essa paciência, ferviam-nas com pimenta e bebiam a água. Aqueles que conseguiam algum amido, misturavam-no, pois perderam o gosto pela comida. Nessa noite, todos os Cafres que carregavam para D. Duarte fugiram, roubando todo o cobre, caldeirões e tudo o mais que puderam levar do acampamento. D. Duarte ficou desprotegido devido à ausência deles e, por estar muito debilitado, não conseguia seguir a marcha conosco. No dia seguinte, 9 de Agosto, dirigimo-nos para a costa junto ao rio, em busca de um vau. Encontrámo-lo ao final da tarde e, por sorte, também encontrámos muitas figueiras bravas da Índia. Os talos destas figueiras, quando cozidos, ajudavam a aliviar a fome. Chegámos a este local tão fracos que alguns decidiram ficar para trás, incapazes de continuar a marcha. No dia seguinte, dia de São Lourenço, enquanto marchávamos pelas montanhas altas (já que a praia não permitia passagem), João Delgado decidiu ficar para trás. --- Que já tinha feito o mesmo no dia anterior, e o Almirante e eu o trouxemos na retaguarda, a um ritmo lento. Ele fez o seu testamento e, após confessar-se novamente com o Padre Francisco Pereira, pediu-me para o deixar à vista do mar, onde ficou. Quando o acampamento já tinha atravessado uns montes e nós já estávamos a alguma distância e nos tínhamos despedido dele, ele começou a gritar e a correr atrás de nós. Tentando esperar por ele, ele caiu de bruços e não se levantou mais, deixando-nos seguir o acampamento, que também nos estava a deixar para trás, acreditando que ele não nos poderia acompanhar. Esse jovem era casado em Estremoz e estava a caminho como remédio, tendo servido na Índia desde 1635, quando viajou para lá com Pedro da Silva, a quem serviu. Nesse dia, subindo e descendo montanhas, marchámos pouco, tanto devido ao terreno áspero como por causa da incapacidade de D. Duarte Lobo, e não queríamos deixá-lo para trás, nem a outros que estavam a desmaiar. Diminuímos o ritmo e avançámos lentamente, deitando-nos no chão para recuperar o fôlego. Ao final da tarde, ao descer uma montanha íngreme, chegámos a uma pequena praia com um ilhéu que, na maré alta, ficava rodeado de água. Havia muitos seixos numa enseada pequena com um ribeiro de água. Pensámos que não faltariam mariscos para aliviar a fome que nos tinha reduzido a um estado em que parecíamos apenas sombras de homens. No entanto, após vasculhar toda a praia, não encontrámos nada, percebendo por experiência que em recifes de pedra semelhante não há marisco. Nessa ocasião e local, os Cafres do Sotapiloto Balthazar Rodrigues, ao vasculhar um barranco, encontraram a cabeça de um tigre muito podre, cheia de insetos. ---
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    E com ummau cheiro, começaram imediatamente a comer a língua e o resto. Muitos, felizes com a descoberta, trouxeram-na ao seu senhor, que começou a cozê-la com os seus camaradas e com Dom Duarte Lobo. Beberam primeiro o caldo, com tanta avidez que, para proteger esta sua descoberta dos outros, enquanto cozinhava, ele ficou com uma espingarda preparada para se defender caso tentassem roubá-lo. Um religioso pediu um pequeno pedaço, mas ele não lhe deu. No dia seguinte, enquanto marchavam, alguns encontraram no mato dois ratos mortos e malcheirosos, o que causou discussões sobre como dividir a descoberta. Paulo de Barros, avançando, encontrou na praia um Cafre, o que indicava que estavam perto do rio da Nau Belem. Este Cafre sugeriu que não faltaria milho e vacas para trocar. Deram-lhe uma joia de cobre, que ele retribuiu com um pequeno montante de milho. Ao dividir o milho por todos, cada pessoa recebeu doze grãos. Esta notícia renovou as nossas energias e, prostrados no chão, agradecemos a Deus. Rezámos uma ladainha em honra de Nossa Senhora com grande devoção. Depois de subir uma colina íngreme, voltámos à praia e marchámos até um rio que não desaguava no mar. Montámos acampamento à beira do rio, perto de duas cabanas onde o Cafre e os seus companheiros se refugiaram. Ele indicou que a sua aldeia estava distante, mas que nos acompanharia no dia seguinte. Deu ao Almirante um lenço feito de mexilhões, que ele partilhou com D. Duarte. Ao montar o acampamento, cada um saiu para o mato para colher figos e comer os talos. Seguindo a indicação de que algumas flores vermelhas eram comestíveis quando cozidas, fizeram delas uma sopa. No entanto, eram ervas viscosas e venenosas, e aqueles que as comeram sofreram agonia. Se não tivessem aliviado os sintomas vomitando, teriam morrido devido ao veneno. --- A 12 de Agosto, seguimos viagem na companhia do Cafre chamado Benamufa. Subimos um pequeno outeiro, fazendo várias pausas pelo caminho. Depois de superar essa dificuldade, descansámos no topo, perto de algumas cabanas. O Almirante deu uma manilha de cobre ao Cafre como pagamento pela sua orientação. O Cafre indicou que queria avançar e sugeriu enviar algumas pessoas com ele para trazer mercadorias da sua aldeia. Inicialmente, houve hesitação, mas o comportamento amigável e animado do Cafre, juntamente com a nossa extrema fome, superou as dúvidas. Decidiu-se que Paulo de Barros, acompanhado por seis marinheiros, e Aleyxo da Silva, com dois passageiros, avançassem com o Cafre. Ao dar-lhe algumas joias de cobre, ele ficou muito satisfeito. Outros três Cafres juntaram-se a ele no mato e seguimos por cerca de uma légua. Ao chegarmos ao topo de uma colina, gritaram de alegria ao avistar o Rio da Nau Belem, o nosso destino tão esperado. Descansámos a uma légua de distância. O Cafre e os seus companheiros seguiram o seu caminho, enquanto nós nos dirigimos ao rio. Chegando à sua praia já tarde, montámos acampamento e encontrámos alguns vestígios da Nau Belem e alguns corpos. Durante esta viagem, o Padre Fr. Antonio de S. Guilherme esteve à beira da morte várias vezes devido ao veneno de algumas favas que comeu. Foi induzido a comê-las por Domingos Borges de Soufa, que lhe garantiu que eram seguras para consumo. No entanto, ele recuperou graças a alguns antídotos, incluindo pedra-pomes moída. ---
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    E à noite,na tenda de Dom Duarte Lobo, jantou-se um pedaço de couro de um fardo de canela que tinha sido cozido, e noutro grupo, uma alparca de couro, que alguém tinha usado nos pés por mais de vinte dias. Na tenda de Jacinto António, o Mestre comeu um cão dos Cafres, que foi abatido com uma espingarda. Ele não partilhou nem com D. Duarte, o que deixou este último chateado. Como não encontrámos água deste lado, cavámos um poço na areia e encontrámos água de boa qualidade. Passámos três dias confiando em Deus e nas pessoas que tinham ido com o Benamusa. Durante esse tempo, construímos uma jangada para atravessar o rio. Negociámos com alguns Cafres que trouxeram tão pouco milho que cada pessoa só recebeu uma pequena porção. Na quarta-feira, véspera de Nossa Senhora da Assunção, os que esperávamos da aldeia do Cafre chegaram do outro lado do rio, livres da fome, com as mochilas cheias e Cafres na sua companhia com seis vacas vivas para negociação. Depois de terminar a jangada, que dedicámos a S. Domingos Soriano, Vicente da Silva, criado de D. Duarte, foi o primeiro a atravessar o rio para informar sobre o que tinha encontrado, a localização das aldeias e os costumes das pessoas. Este jovem trouxe consigo um pouco de milho, dois "mocates" e um pedaço de carne de vaca cozida, que o fidalgo partilhou com o Almirante e outras pessoas, usando o resto como um mimo para ele e os seus amigos. No dia seguinte, Dia de Nossa Senhora, houve grande esforço para atravessar a rede de pesca, de modo a poder usar a jangada para atravessar o rio, que era largo e com uma corrente forte. Não sendo possível que todos atravessassem nesse dia, o Almirante e os restantes ficaram para o dia seguinte. Um grumete tentou atravessar à tarde, mas a corrente da maré baixa arrastou- o. Todos pensaram que ele não iria sobreviver. O Padre Fr. João da Encarnação deu-lhe a extrema-unção à distância e, ao invocar S. Domingos Soriano, o grumete conseguiu salvar-se. --- Ele apanhou uma refeição e levou-a para terra sem causar dano a ninguém. Os Cafres, que vinham com as seis vacas para negociação, ao verem-nos ainda do outro lado, voltaram à noite para as suas aldeias, prometendo regressar com elas. Isso contrariava a crença daqueles que tinham atravessado o rio primeiro, que não acreditavam nas histórias dos que tinham vindo com eles sobre a abundância encontrada e a boa hospitalidade que o Cafre lhes proporcionara. Pediram a Dom Duarte, um dos primeiros a atravessar, que enviasse pessoas às aldeias para acelerar a negociação. Assim, foram enviados Urbano Fialho Ferreyra, o Contramestre António Carvalho da Costa e outros, armados e com cobre para negociar. No dia seguinte, 16 de Agosto, todo o acampamento terminou de atravessar, estabelecendo-se entre duas colinas com vista para o mar. Os Cafres chegaram com vacas, que foram negociadas e distribuídas entre os grupos. Algumas foram abatidas, outras preparadas e cozinhadas, e todos comeram com tanto apetite que só sobraram as pontas e as unhas das vacas; tudo o resto foi consumido. Mais Cafres chegaram rapidamente com mais gado, milho e "mocates". No entanto, houve desordem da nossa parte, com os negociadores aproveitando-se da situação, espalhando-se pela floresta e esperando pelos Cafres, negociando milho e "mocates" a preços inflacionados, prejudicando todos. Por um "mocate", davam cobre que poderia negociar três ou quatro no acampamento. Como resultado, foi estabelecida uma regra, sob pena de morte, de que ninguém deveria sair do acampamento para negociar, mas a fome era tão grande que, mesmo com tanta carne disponível, não era suficiente. Foi ordenado ao Mestre Jacinto António e a outros que patrulhassem a floresta e os caminhos. ---
  • 18.
    Não permitindo quese negociasse e determinando que se prendessem os que fossem encontrados, encontraram três portugueses e três negros nossos, que foram detidos e trazidos para o acampamento. Após uma reunião, os representantes decidiram que dois dos três portugueses seriam chicoteados e exibidos pelo acampamento, com as mãos atadas. Para o terceiro, não havia provas suficientes. Dos negros, foi decidido que um deveria ser executado, e a sorte recaiu sobre um mestiço de Urbano Fialho, que foi imediatamente executado. Os outros dois foram severamente chicoteados pelo acampamento, com tanto os portugueses como os negros a supervisionar a punição. Numa dessas noites, tendo faltado negociações por dois dias, foi feito um curral onde as vacas eram guardadas e domesticadas. Decidiu-se trazer as vacas vivas, pois não era sempre possível ir à fonte, que ficava a dois tiros de mosquete, atrás de uma colina. Quando já estávamos recolhidos, um dos nossos negros foi surpreendido por um caldeirão na fonte. Ao regressar ao acampamento, gritou por ajuda. Respondemos, armados, e ao ouvir a fala, disparámos uma espingarda, atingindo um Cafre na perna. Ele foi imediatamente capturado e mantido sob vigilância para ser julgado no dia seguinte. Ao recolhermo-nos, ouvimos outro grito. Ao investigar, descobrimos que eram os companheiros do Cafre ferido, que tinham vindo roubar. Como a noite estava escura, sem que o vigia percebesse, levaram o Cafre ferido para a floresta. No final deste confronto, percebemos que faltavam dois dos nossos cabritos, que tinham fugido, levando aos seus mestres um caldeirão e uma frigideira de cobre, entre outros itens escondidos. --- Suspeitando da presença de mais ladrões, emboscámos alguns dos nossos homens. Pouco depois, encontrámos um Cafre. Tentámos capturá-lo, mas ele resistiu. José Gonçalves Velloso, um marinheiro residente em Belém, atingiu-o com uma espingarda, quebrando-lhe um braço. Ao aproximarmo-nos para o identificar, percebemos que era um Cafre chamado João, um dos que tinha fugido de D. Duarte Lobo da Silveira e roubado o nosso acampamento. O Almirante interrogou-o, e ele confessou que ele e os seus companheiros estavam na área para roubar. Por isso, decidimos enforcá-lo no dia seguinte, após ele se ter confessado. Logo depois, o comércio de troca recomeçou, com muitos grãos, moedas e alguns recipientes de leite e vacas. Estes bárbaros pareciam agora mais domesticados, talvez devido ao contacto anterior com os nossos da Nau Belém, que naufragou em 1634, o período em que estes bárbaros fizeram os seus paraísos. Durante os quatorze ou quinze dias que passámos ali, para descansar as pessoas exaustas pela fome e pela dura jornada, surgiram algumas discórdias. Alguns queriam separar-se e formar um acampamento à parte devido à má liderança do Almirante, causada pela sua indecisão e excessiva bondade. No entanto, isso não aconteceu devido a circunstâncias imprevistas. Aqueles que tinham ido às aldeias nos dias anteriores para avaliar o comércio de vacas, pois havia melhores pastagens lá, regressaram ao acampamento. Ao verem-nos já barbeados, ficaram surpreendidos. --- Devido ao nosso estado debilitado, mal nos reconhecíamos uns aos outros. Havia quem confessasse que, devido à fome, sentia como se algo lhe estivesse a sair pelo corpo, algo que nunca imaginou ser possível.
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    Os Cafres quetinham fugido com o indivíduo que foi enforcado, ao perceberem que estavam sem ele, pediram proteção e desejaram regressar ao nosso grupo. Isso foi concedido, principalmente devido à falta que faziam a D. Duarte Lobo e à dificuldade que este fidalgo tinha em se movimentar, devido a novos problemas de saúde que se somavam aos que já trazia do mar. Para aliviar um pouco a sua situação, ele tentou domesticar dois bois e fez um acordo com dezasseis grumetes para que o transportassem até Moçambique em troca de três mil e quinhentos xerafins. No entanto, numa segunda-feira à noite, entre os dias 25 e 26 de Agosto, sofreu um episódio de ventosidades que o deixou muito debilitado. Usou algalia, um remédio que costumava tomar, e melhorou temporariamente. Mas, de repente, o mesmo mal atacou- lhe a garganta, impedindo-o de falar. Na sua mão, segurava uma imagem de Cristo na Cruz. O Padre Fr. António de São Guilherme, ao vê-lo naquele estado, pediu-lhe que apertasse a mão se desejasse confessar-se. Ele assim o fez, e o padre absolveu-o imediatamente. Pouco depois, D. Duarte Lobo faleceu. A sua morte foi profundamente sentida por todos, pois era um fidalgo muito querido. Não houve quem não lamentasse a sua partida, por inúmeras razões que, por respeito e dever, opto por não detalhar. D. Duarte Lobo era o segundo filho de D. Rodrigo Lobo, General... --- Ele fez parte da Armada deste Reino que navegou para a Índia no ano de 1629 sob o comando do Conde de Linhares. Foi designado para a fortaleza de Baçaim por três anos e também para as terras de Bardés durante a sua vida. Anteriormente, ele tinha embarcado na Armada da costa, que naufragou em França, no Galeão Santiago, que conseguiu escapar após um combate corajoso contra quatro navios turcos. No Estado da Índia, serviu em várias posições de destaque, incluindo Capitão, Capitão-mor das Armadas e, por último, Governador dos Estreitos de Ormuz e Mar Vermelho, onde proclamou Sua Majestade. Esteve presente em várias situações importantes ao serviço do rei, incluindo o socorro à Ilha de Ceilão como soldado do seu irmão, D. António Lobo. Em todas estas situações, demonstrou grande competência, o que sempre foi reconhecido pelos Vice-Reis. Estava a regressar ao Reino neste navio, mais para ver Sua Majestade do que para ser recompensado pelos seus muitos serviços. A 28 de Agosto, dia de Santo Agostinho, começámos a nossa marcha e, seguindo o caminho, chegámos a um ribeiro perto da praia. Esperámos por João Lopes, o tanoeiro do navio, a quem o Almirante tinha enviado para buscar uma vaca que pertencia a D. Duarte Lobo, que não pôde acompanhar-nos devido a uma ferida na perna. Mais para o interior, montámos acampamento para passar a noite numa planície junto a um ribeiro de água salobra. Aqui, mandou-se enforcar, com base em poucas evidências, um Cafre que tinha vindo connosco e que pertencia a D. Duarte Lobo, alegando que ele tinha negociado e outro seu companheiro, que tinha servido o mesmo fidalgo e era do Sotapiloto, fugiu com medo por ser um dos que tinha vindo com garantia de segurança. Neste local, ficámos mais um dia. --- Devido a um levantamento no acampamento, surgiu a ideia de nos separarmos, argumentando que, se continuássemos juntos, não haveria suficiente para negociar para todos. Por causa disso, o Almirante convocou um conselho. Como todos estavam insatisfeitos com a sua liderança, decidiu-se que haveria uma divisão. Esta decisão foi tomada devido a desacordos na eleição de um novo capitão e na distribuição do cobre.
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    No dia seguinte,30 de Agosto, retomámos a marcha com algumas vacas à frente até uma floresta fresca, perto de três povoações. Muitos Cafres e Cafras saíram destas povoações, trazendo consigo vacas, milho, leite e outros bens para negociar. Acampámos ali, desfrutando dessa abundância no dia seguinte. No entanto, os marinheiros e grumetes voltaram a levantar a voz, querendo separar-se com o seu Mestre. Pediram a divisão das pessoas, gado, cobre, armas e outros recursos. O Almirante, sentindo-se isolado e sem conselheiros, concordou. Primeiro, registou-se nos livros do Rei as razões e a forma como essa separação ocorreria, que era para o bem de todos. A ideia era que, se estivessem separados, todos teriam melhores condições, pois o que estava disponível para negociar não seria suficiente para todos. A divisão foi feita: pessoas, armas, gado e outros recursos foram distribuídos. O Almirante deu a liderança ao Mestre, que marchou com os melhores marinheiros e o grupo de camaradas de D. Duarte Lobo. Após a morte de D. Duarte, este grupo manteve-se unido, sem divisões, e com as melhores armas do acampamento. O líder deste grupo era o Padre Fr. António de São Guilherme, conhecido pelo seu grande talento e coragem, tendo demonstrado a sua valentia em várias ocasiões de guerra na Índia antes de entrar na religião. Neste grupo estavam também o Padre Fr. Diogo da Apresentação, Fr. Bento Arrábida, Fr. João da Encarnação e, como negociadores, Aleixo da Silva e António Carvalho da Costa. --- Com o Almirante ficaram sem camaradas e os Padres Fr. Afonso de Beja, Francisco Pereyra, o Capelão da Nau, Frey Ambrosio de Magalhães de Menezes, Domingos Borges de Sousa, Veyga, Faro e os restantes oficiais da Nau. Paulo de Barros atuava como negociador. Neste local, um Cafre fugiu a Roque Martins de Miranda, compadre e camarada do Almirante, levando tudo o que trouxera da China, onde estava casado, e escapou da Nau. Despedimo-nos uns dos outros com grande tristeza, pedindo perdão mútuo. Passadas duas ou três horas, quando o Mestre começou a marchar, o Almirante levou o seu grupo com o gado à frente, passando por várias povoações de onde recebia muitas ofertas. Como eram poucos, todos se beneficiavam, e os Cafres eram mais dóceis. Ao passar pelas suas aldeias, por vezes o seu gado misturava-se com o nosso, e eles separavam-nos com muita calma. Desta forma, por volta das quatro da tarde, o Almirante avistou o grupo do Mestre, que estava a negociar, depois de ter contornado e atravessado muitos caminhos, tentando adiantar-se. Cada negociador tentava ser o primeiro, no entanto, voltámos a encontrar-nos. O Almirante marchava à frente com o seu gado e grupo, e nós seguíamo-lo até um rio onde fizemos uma paragem. Ele de um lado e o Mestre do outro. O rio tinha água muito boa, chegava até à altura da cintura e estava rodeado por uma fresca floresta. Montaram-se tendas e o gado foi colocado no meio com boas sentinelas. Durante a noite, disparou-se um tiro de espingarda do grupo do Almirante porque os nossos jovens gritaram, pensando que os Cafres estavam emboscados, prontos para atacar os caldeirões que usávamos para buscar água às fontes. --- No entanto, nesta ocasião, não tiveram sucesso. Para evitar este risco, os nossos homens recorreram a cabaços que tinham trocado por leite, distribuídos pelos grupos. O Mestre ficou dois dias sem marchar, pois chegou muita mercadoria de todos os tipos, incluindo algumas galinhas e espetadas de gafanhotos, que os Cafres ofereciam, esperando receber cobre em troca. A 5 de Setembro, pela manhã, após rezarmos uma Ladainha a Nossa Senhora,
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    marchámos por umaserra muito íngreme, descendo-a logo de seguida. Não avançámos nesse dia devido à grande quantidade de mercadorias que chegavam ao longo de um rio cristalino e de boa água, onde trocámos por vacas, leite e outros bens, no meio de muitas povoações. No dia seguinte, marchámos por uma montanha alta com dois bárbaros que nos serviam de guias, deixando enforcado um Cafre que nos tinha traído e roubado. Como estes bárbaros valorizam muito o cobre, todos os que tinham trocado mercadorias no dia anterior conspiraram para nos roubar. Os dois bárbaros que se ofereceram como guias serviram de espiões. Fugiram por uma floresta com uma vaca, mas foram apanhados pelos que iam à frente. Quando Joseph Gonçalves Veloso tentou amarrar um deles, o outro atacou-o. Vicente da Silva interveio, mas um Cafre do mato roubou a sua espingarda e fugiu rapidamente. Ao sairmos daí, encontrámo-nos num campo cercado por tantos Cafres quanto estrelas no céu, todos em formação de guerra. --- Brandindo as suas lanças, os Cafres eram inúmeros em comparação com os portugueses. No entanto, ao dispararmos as nossas armas, mesmo que com pouco efeito devido à distância, conseguimos fazê-los recuar. Continuaram a seguir-nos até uma floresta onde entramos, pensando que seria uma forma de nos desviarmos deles. Organizámo-nos para marchar com precaução, com armas à frente e atrás, o gado no meio e vigias pelos lados, pois o caminho era difícil e longo. Os Cafres não perdiam oportunidade de nos atacar. Atacaram-nos no meio da floresta com grandes gritos, mas graças a Deus conseguimos matar três deles rapidamente e, sem sofrer danos, saímos da floresta. Perto de uma fonte de água fresca, alguns trouxeram-nos mercadorias para trocar. É surpreendente como estes povos, ao verem cobre, não hesitam em trocar, mesmo que isso signifique trair a sua família ou amigos. A 7 de Setembro, marchámos por vastas planícies sob uma espessa névoa, sem poder ver devido às nuvens de gafanhotos. No dia 8, dia do Nascimento de Nossa Senhora, muitos Cafres aproximaram-se com mercadorias, como vacas e milho. A terra era fértil e alegre, com vista para muitas aves grandes, semelhantes a garças, mas tão altas que à distância pareciam carneiros. Nesse dia, vimos um grupo de leões num vale, brincando sem nos notar, enquanto passávamos por um monte de onde se via o mar. Dirigimo-nos para lá com 42 vacas vivas na nossa companhia, sem intenção de nos aprofundarmos mais no interior devido ao risco dos Cafres. No dia de São Nicolau de Tolentino, enquanto marchávamos pela praia, encontrámos um farol e muita madeira, que parecia ser de algum navio naufragado. Antes do meio-dia, chegámos a um rio caudaloso. --- Não atravessámos aquele dia devido à forte corrente e à maré cheia. Vimos alguns Cafres pescadores do outro lado, que não trouxeram nada para trocar. Mais tarde, percebemos que estavam a espiar-nos, atravessando o rio com água até à cintura. Deixámos marcas no que chamámos de Rio da Cruz, erguendo uma cruz de madeira e esculpindo outra numa pedra, para que, caso a companhia do Almirante viesse atrás de nós, soubesse que já tínhamos passado. Subimos a um planalto rochoso onde mais de duzentos Cafres nos esperavam em formação de guerra, protegidos por escudos de couro. Confrontámo-los e castigámos a sua audácia, matando o líder deles. António Carvalho da Costa acertou-o com duas balas nas pernas, fazendo-o cair ferido, e acabámos por matá-lo com uma espada. Os restantes fugiram ao ver
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    isto, pois nãosão um povo que resista muito. Notámos que quando estes bárbaros se aproximam em grande número sem trazer nada para trocar, é porque vêm com intenções de roubar. Assim, é sempre melhor não os poupar. O caminho pela praia é o mais seguro, onde voltaram a confrontar-nos. No entanto, depois de Alexio da Silva matar outro com uma espingarda, pararam de nos seguir. Nessa noite, acampámos perto de uma lagoa, atrás de um rio que nos bloqueava a vista do mar. No dia seguinte, 12 de Setembro, não nos movemos devido a uma forte tempestade com relâmpagos. Ao olhar para uma montanha, vimos muitas pessoas a marchar com vacas à frente, procurando rapidamente um lugar para se abrigarem da chuva. --- Reconhecemos que era a companhia do Almirante. Ao avistar o nosso acampamento, dispararam duas espingardas, às quais respondemos com outras. Eles acamparam do outro lado da lagoa, protegidos por uma mata. Paulo de Barros e outros vieram até nós e contaram sobre a infeliz jornada que tiveram e o confronto com os Cafres. O Mestre Jacinto António enviou o Er. João da Encarnação para visitar o Almirante. Este respondeu por escrito, pedindo e solicitando que se juntassem à sua companhia para, juntos, se defenderem melhor dos Cafres. Avisou que, caso contrário, seria responsabilizado por qualquer dano que ocorresse. Com esta carta, o Mestre convocou um conselho. Após várias opiniões, onde os marinheiros votaram para não se juntarem, temendo ser governados pelos passageiros, a quem o Almirante só deveria obedecer, o Mestre, influenciado por Frei João e temendo os Cafres, decidiu unir-se ao grupo. Acordaram que ambos teriam igualdade de jurisdição e comando, o que parecia ser a melhor decisão para a segurança de todos. Os acampamentos unidos descansaram enquanto explicavam a António da Câmara de Noronha os eventos dos nove dias em que estiveram separados. Assim que amanheceu, o dia em que o Almirante se separou de nós, ele começou a marchar montanha acima. Ao descer, encontrou muitos alimentos. Atravessou uma mata densa e, ao sair, encontrou terras planas com abundância de vacas, milho, mochilas e leite. Encontrou alguns nativos amigáveis que o ajudaram a conduzir as vacas, embora estivessem sempre atentos ao que poderiam roubar. Fez duas jornadas com essa abundância e, na terceira... --- Ao passar por um pequeno bosque, surpreenderam o irmão do Sota-piloto e roubaram a sua mochila. O Cafre, ao ser descoberto, fugiu rapidamente, mostrando uma agilidade impressionante. Outro Cafre atacou um mulato, membro da tripulação do Contramestre, tentando roubar-lhe os alforges. Enquanto lutavam, outros se aproximaram, fazendo com que o Cafre fugisse. Mais adiante, chegaram a um rio rodeado de muitas árvores e, ao cruzá-lo, encontraram uma aldeia. Os habitantes saíram ao seu encontro, oferecendo-lhes cabaças cheias de leite. Ao tentarem subir uma colina, foram abordados por um Cafre de aparência distinta, adornado com várias pulseiras de cobre. Ele estava acompanhado por cerca de trezentos outros Cafres, mas nenhum deles estava armado. Ao tentarem negociar e mostrar-lhes cobre, o Cafre respondeu em português que não estava interessado em trocar as suas vacas por cobre, mas sim por prata, "brilhante como a Lua", e ouro, "radiante como o Sol". Deduziram que esse
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    Cafre poderia tertido algum contacto anterior com portugueses, talvez de uma expedição anterior que terminou em desastre. Paulo de Barros, familiarizado com os costumes dos Cafres devido a viagens anteriores, percebeu que o Cafre estava de olho no gado que o Almirante tinha domesticado e carregado. Temendo um ataque, começou a mover-se rapidamente com as vacas à frente, sendo seguido por um grumete e alguns Cafres locais que os guiavam. Quando os outros viram Paulo a avançar, seguiram-no. Ao chegarem ao topo da colina e perceberem que os que os seguiam não conseguiriam alcançá-los rapidamente devido ao terreno íngreme, os Cafres atacaram Paulo de Barros e o grumete. Apesar de estarem armados com uma espingarda e uma espada, foram superados e feridos pelos Cafres, que usavam longos paus como armas. Roubaram-lhes os alforges e três vacas. O grumete conseguiu defender-se um pouco melhor com o seu bacamarte, perdendo apenas o chapéu no confronto. --- Ao chegarem, Paulo de Barros reuniu-se com os demais e, juntando as vacas, trataram da sua ferida. Este incidente ocorreu perto de uma aldeia, onde os nativos do nosso acampamento entraram e roubaram o que encontraram para comer. O Almirante não permitiu que incendiassem a aldeia. Salvador Pereyra, aproximando-se com o seu arcabuz, encontrou-se com mais de cem Cafres e atingiu um deles, fazendo-o cair. Os restantes recuaram, deixando para trás os alforges que tinham roubado a Barros. Celebraram a sua pequena vitória com grande festa. A partir daí, sempre que o acampamento se estabelecia, os Cafres continuavam a segui-los, embora não ousassem atacar diretamente. No entanto, ao se aproximarem de dois montes e sendo forçados a passar pela encosta mais íngreme, mais de trezentos Cafres posicionaram-se em ambos os montes, armados. Domingos Borges, com alguns companheiros, avançou montanha acima e conseguiu tomar o ponto mais alto, fazendo com que os Cafres recuassem. Assim, o restante do grupo pôde continuar a sua marcha sem incidentes, embora os bárbaros os seguissem de perto. Numa certa área arborizada, Domingos Borges emboscou-se e conseguiu abater um dos Cafres. Isso enfureceu-os de tal forma que, mesmo mantendo-se fora do alcance dos tiros de arcabuz, continuaram a atacar com pedras. Sempre que desciam uma colina, era necessário que três homens, armados, protegessem o grupo até que todos passassem. Este padrão repetiu-se até chegarem a outras aldeias. Sem causar mais danos, continuaram a sua marcha, com as vacas à frente e sempre em alerta. Ao chegarem a um caminho estreito, ladeado por montanhas altas de um lado e uma floresta densa do outro, perceberam que seria difícil avançar. --- Os Cafres atacaram-nos com uma chuva de pedras, das quais não conseguiram se proteger, ferindo o Almirante e Salvador Pereyra, que estavam na retaguarda. Não conseguiram reagir adequadamente, exceto pelo primeiro disparo, que não teve efeito. Muitos bravos guerreiros correram para se proteger da intensa saraivada de pedras. Após o ataque, reuniram-se todos num campo que parecia ter sido cultivado, próximo a um rio. Os Cafres, percebendo que o grupo se estabeleceria ali, atearam fogo à erva seca. O Almirante, em resposta, atravessou para o outro lado do rio e dirigiu-se para as colinas, estabelecendo-se no ponto mais alto para passar a noite, mantendo vigias até o amanhecer, sem montar acampamento ou preparar
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    comida, pois osCafres estavam por perto, fazendo barulhos e dando a entender que poderiam atacar durante a noite. Ao amanhecer, o Almirante continuou sua jornada pela colina com o gado. No entanto, descobriu que os bárbaros já haviam ocupado o topo e estavam prontos com pedras. Sem outra opção, Domingos Borges de Souza, Salvador Pereyra e outros avançaram, com as espingardas apontadas e atentos às pedras que os Cafres começaram a lançar. Mas, ao verem os nossos a avançar, os Cafres recuaram, permitindo que todos passassem em segurança. Depois deste confronto, continuaram a marchar e decidiram passar a noite junto a um rio, exaustos da jornada e dos confrontos com os Cafres. No dia seguinte, enquanto subiam e desciam terrenos acidentados, encontraram cinco Cafres que os seguiam. Ao tentar chamá-los, estes não esperaram. No entanto, ao meio-dia, dois deles regressaram, dando-lhes pequenos objetos como guias para mostrar o caminho. --- Eles foram conduzidos por uma floresta densa, onde rapidamente perceberam que estavam sendo levados de volta pelo mesmo caminho. Ao notar que tinham sido descobertos, os guias tentaram fugir, e alguns sugeriram que deveriam ser mortos. Continuando a marcha, o Almirante chegou a um rio rodeado por uma vegetação exuberante. Depois de um breve descanso, ele ordenou que continuassem a marchar, o que foi recebido com desagrado, pois estavam cansados e o local parecia seguro. Ao subir uma colina, os cinco guias que se adiantaram retornaram e ocuparam o topo sem serem notados. Assim que tiveram vantagem, começaram a lançar pedras e a bloquear o caminho. Se não fosse pela intervenção dos Cafres, teriam tido dificuldades em escapar. No entanto, conseguiram avançar até o ponto mais alto da colina, onde recuperaram o fôlego e sentiram algum alívio. Retomaram a marcha por terras planas e caminhos estreitos, avistando muitos Cafres e seus rebanhos, o que lhes deu esperança de conseguir fazer trocas. Encontraram-se com Benamufa, um líder local que parecia ter autoridade, vestido com uma capa de couro cortada em tiras, assim como os seus acompanhantes, que era considerado um sinal de status entre esses povos. O Almirante pediu-lhe que os guiasse até um rio próximo, prometendo trocar bens por cobre. Satisfeito com a oferta, Benamufa enviou dois dos seus Cafres como guias. Assim, continuaram a marchar, com armas em punho, o gado à frente e sempre atentos à retaguarda, lembrando- se dos perigos que já haviam enfrentado. --- Entraram por um caminho estreito, ladeado de um lado por uma floresta densa e do outro por altas rochas que pareciam edifícios antigos e cavernas naturais, que serviam de abrigo. Os cinco Cafres, mencionados anteriormente, juntaram-se a outros e avisaram-nos da morte dos três. Unidos, posicionaram-se no topo das cavernas e começaram a lançar pedras. Quando o gado, que ia à frente, se aproximou, eles tiveram que se expor para atirar, acertando primeiro nas bordas das cavernas e depois no caminho, permitindo que as pessoas se desviassem. Os que iam à frente alertavam sobre a emboscada. Vendo isso, os Cafres guias tentaram fugir. Domingos Borges de Souza, com sua espingarda pronta, derrubou o primeiro, enquanto o outro escapou, apesar de ser alvo de seis espingardas, devido à sua rapidez. Os atacantes não pararam de lançar pedras, mas o grupo conseguiu refugiar-se atrás das cavernas. Ao chegarem ao rio, atravessaram-no com água até os joelhos e montaram acampamento, agradecendo a Deus por terem escapado de tão grandes perigos. Os Cafres vieram chorar o morto, lamentando-se durante toda a noite. O Almirante manteve uma vigilância apertada até a manhã, quando retomaram a marcha. Alguns Cafres aproximaram-se com ofertas de troca, e o grupo parou, pensando em acampar ali por dois dias. No entanto, dado o estado debilitado e
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    ferido do Almirantee o receio de uma emboscada dos Cafres, decidiram continuar a marchar. Atravessaram uma montanha cheia de espinhos e uma praga de gafanhotos nas árvores. Uma densa névoa, acompanhada de uma chuva fina, dificultou a visão do caminho, levando-os em direção ao mar para escapar dos Cafres que os perseguiam incessantemente. --- Os feridos estavam tão exaustos que decidiram descansar por um dia e meio junto a um rio com lagoas e árvores, onde havia muita lenha. Mataram algumas vacas para se refrescarem e aliviar o cansaço do trabalho anterior. Trataram os feridos com óleo de coco, pois não tinham outra medicação disponível. Deste local, dirigiram-se para o mar, do qual sentiam saudades. Marcharam seis a sete léguas todos os dias, atravessando áreas queimadas e caminhos difíceis. Estavam tão cansados que, ao chegarem à noite, mal conseguiam se sustentar. Numa ocasião, encontraram-se no topo de uma montanha rochosa e assustadora. A descida era tão íngreme e aterrorizante quanto a subida do outro lado, que levava a um rio caudaloso com grandes pedras no meio. Ao guiarem as vacas montanha abaixo, estas começaram a deslizar, levando rochas consigo. Se houvesse pessoas à frente, teriam sido esmagadas. Algumas vacas ficaram presas entre as árvores, incapazes de se mover. As pessoas desciam, arrastando-se pelo chão, exaustas. Ao chegarem ao fundo, encontraram a vaca em que o Almirante montava, morta. Ela tinha caído montanha abaixo, levando muitas pedras consigo. Essa vaca serviu de alimento para o acampamento naquela noite. Acamparam num local com capim alto, que servia de sombra para os elefantes. Dormiram com mais conforto do que nas noites anteriores, sem medo dos bárbaros, em camas de palha alta e macia. No dia seguinte, continuaram a sua jornada pela montanha, enfrentando dificuldades. Ao atravessarem o rio, que tinha uma travessia difícil, só pensavam em seguir em frente, desejando libertar-se daquela terrível terra e de sua pior gente. Por volta das três da tarde, encontravam-se na encosta da montanha, avançando e segurando-se nas caudas das vacas para não caírem. --- Com o que se diz, o que se pôde encarar e, descansando desse trabalho, voltaram a ele, marchando adiante. Deram conta de cerca de cinquenta Cafres armados com rodellas e azagaias. Ao se aproximarem, não tiveram coragem para atacar o acampamento. Os nossos sentiram a falta de um marinheiro, sabendo-se que ele tinha ficado a dormir duas léguas atrás, quando descansaram, sem que os camaradas o acordassem. Após passarem com grande esforço por algumas poças de água, escolheram um melhor local para passar a noite, com cada um procurando água e lenha para cozinhar o que havia para comer. O marinheiro, que tinha ficado a dormir, ao perceber-se sozinho, seguiu o acampamento e, ao anoitecer, foi seguido até cerca das onze horas da noite. Encontrou-se no meio de muitas fogueiras, algumas perto da praia e outras mais para o interior. Dirigiu-se até elas até descobrir as barracas, chegando muito contente. No acampamento, foi recebido com festa, como algo que já se considerava perdido. Na manhã seguinte, levantaram-se cedo, pensando que as fogueiras que o marinheiro tinha visto na praia poderiam ser de um grupo de Cafres que os esperava. Foram com alguma chuva em direção à praia, onde descobriram a companhia do Mestre Jacinto António, que tinham salvo, como já mencionado. Acamparam em frente, muito cansados e cortados pelo trabalho e medo dos Cafres. Como vimos, juntaram-se aos acampamentos, com cada companhia estabelecendo o seu acampamento separadamente, porque no do Mestre havia mais vacas. Nesse dia, os Cafres trouxeram muitas mercadorias, que foram distribuídas
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    entre todos. Juntandoos acampamentos, marcharam para um rio, que atravessaram em três braças, com água até aos joelhos. Se não o tivessem encontrado seco na foz, seria maior do que o da Nau Belém. Ali, alguns Cafres trouxeram mercadorias como milho e frangos, que foram distribuídos pelos doentes e feridos. O Almirante tratou das feridas que os Cafres lhe tinham feito. --- Chegaram a nós alguns com mercadorias, sendo os primeiros que vimos a usar barretes feitos do seu próprio cabelo na cabeça, semelhantes às toucas dos Banianos da Índia, e contas vermelhas ao pescoço. Por volta das três da tarde, fizemos uma pausa para alimentar o gado e abater algumas vacas para comer. No Dia de São Mateus, após termos marchado duas léguas pela praia, avistámos mais vacas e decidimos acampar, tanto para alimentar o nosso gado como para descansar. Cinco pessoas do nosso grupo foram enviadas com armas às aldeias próximas para ver se havia mercadorias para trocar. Voltaram com boas notícias, trazendo uma cabra e um cabrito, pois não podiam carregar mais. Logo depois, os nativos apareceram e negociámos com eles o que trouxeram. No dia seguinte, não faltaram mercadorias, incluindo muitas galinhas, que chegaram em boa hora para os doentes. Sempre que encontrávamos vacas, negociávamos as que estavam disponíveis para venda, considerando a escassez que poderíamos enfrentar, pois abatíamos três vacas a cada dois dias para alimentar o grupo. Partindo desse lugar, no vigésimo terceiro dia de setembro, chegámos a outro rio. Fomos forçados a fazer uma pausa devido à quantidade de mercadorias que os nativos trouxeram, e estas foram distribuídas igualmente entre nós. Procurámos um local raso para atravessar o rio, que se encontrava a uma latitude de nove graus e meio. Embora aqueles que se tinham perdido no naufrágio dissessem que tinham atravessado o rio com uma jangada, fomos afortunados em encontrar um caminho mais fácil, dado o trabalho que as jangadas exigiam. Atravessámos o rio com água até ao pescoço e montámos o acampamento do outro lado, onde muitos nativos nos receberam com grande festa. --- Foi dada ordem aos negociadores para que negociassem, mas eles aproveitaram-se sempre da situação em detrimento do bem comum. Vendo a familiaridade e abundância com que os nativos vinham negociar, parecendo que seria sempre assim, a maioria dos marinheiros pensou em ficar como o Mestre e separar-se do restante grupo, tendo em seu poder a maior parte do cobre. Esta discórdia surgiu devido às desavenças entre eles e ao descontentamento com a liderança do Almirante. Este, sem considerar os outros ou dar-lhes satisfações, decidiu agir por conta própria. Montou no seu cavalo, apesar de estar doente e ferido, e começou a marchar sozinho. O Padre Frei António de São Guilherme e seus camaradas intervieram, bloqueando- lhe o caminho. O Padre perguntou-lhe o que pretendia fazer e por que estava a agir sozinho. Pediu-lhe que chamasse Paulo de Barros, que era o líder da facção do Mestre e que tinha recebido muitos favores do Almirante. No entanto, ele respondeu que não queria vir, o que desagradou a todos. Quando António Carvalho da Costa, aliado do Mestre, se aproximou do Almirante, aconselhou-o a não permitir a divisão que estava a ser planeada, pois não seria benéfica para todos. Argumentou que a maior parte do cobre ficaria com o grupo do Mestre, deixando o seu grupo sem recursos para negociar. Propôs que o cobre e as vacas fossem divididos igualmente e ofereceu-se para ser o negociador. Vendo a situação e a audácia com que alguns agiam, sem temor de Deus, o Padre Frei António exclamou que, se não fosse pelo seu hábito e votos, enfrentaria todos e puniria tal ousadia. Isso motivou os seus camaradas e outros a pegar nas armas e dirigirem-se à barraca do Mestre. Os aliados do Mestre, que eram a
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    maioria, defenderam-no. Seesta disputa tivesse continuado, muitos poderiam ter morrido, e os sobreviventes ficariam à mercê dos nativos. --- Se o Mestre não tivesse saído apressadamente para o mato por detrás da barraca, e o Padre Frei João da Encarnação, seu camarada, não tivesse aparecido à porta, de joelhos, implorando com uma imagem de Nossa Senhora do Rosário nas mãos, pedindo em nome desta Senhora e pelas chagas de Cristo que todos se acalmassem, a situação poderia ter escalado. O Almirante, com a sua habitual serenidade, não permitiu que se usasse o rigor merecido, e assim, a situação foi resolvida sem qualquer ofensa. O Mestre e Paulo de Barros apresentaram razões que não foram aceites, mas no final, prevaleceu a amizade e a união. Todos concordaram com o que o Almirante propôs, pois era do interesse de todos manter a coesão do grupo. Assim, o acampamento foi reestabelecido, e aquele dia foi dedicado a um conselho onde se propuseram leis e medidas para um bom governo. O resultado foi um acordo que beneficiava a todos, ratificado pelo voto do Padre Frei António de São Guilherme, sem cuja aprovação nada de bom seria feito. Este acordo foi registado nos livros reais e todos assinaram. Foram nomeados capitães e companhias, como anteriormente, e ao cair da noite, todos estavam em paz e contentes, agradecendo a Deus por nos ter livrado de um perigo tão evidente. --- No dia seguinte, dia de São Jerónimo, marchámos duas léguas. Ao avistarmos alguns Cafres, decidimos descansar. O acampamento foi reabastecido com uma grande quantidade de milho, mantos e sésamo, sendo este o primeiro que vimos. Tudo chegou em abundância, como nunca tínhamos visto até então. Avançando mais para o interior, a meia légua da praia, fizemos uma pausa de dois dias. Durante esse tempo, até nos trouxeram peixe, que foi distribuído, assim como os outros bens, de forma igualitária e sem queixas, graças às novas leis estabelecidas. Em cumprimento destas leis, um grumete foi punido neste local por trocar bens sem permissão. João Barbosa, que servia como escrivão do acampamento, foi acusado do mesmo crime, mas como não se conseguiu provar a sua culpa, foi destituído do cargo. Em resposta, enviou-se uma equipa para procurar vacas nas aldeias vizinhas, mas só conseguiram trazer três. Decidimos então voltar à praia, deixando para trás três Cafres que tinham fugido: dois pertenciam a Dom Duarte Lobo e tinham roubado uma pequena caldeira de cobre, e o outro pertencia ao Padre Frei António de São Guilherme. Ao anoitecer, aventurámo-nos pelo mato à procura de água potável. Chegámos a um local que parecia ter sido uma aldeia, onde encontrámos muitas beldroegas, canas-de-açúcar jovens e figueiras carregadas de frutos, o que nos alegrou bastante. Ao enviar exploradores para investigar a área, souberam da existência de aldeias próximas. O Almirante enviou quatro homens para trocar bens por vacas, mas o Padre Frei António desaprovou a decisão, pois experiências anteriores mostraram que aqueles que iam às aldeias pensavam apenas em si mesmos e não no bem-estar do acampamento. Assim, decidimos seguir os quatro homens, levantando o acampamento e sendo guiados por dois Cafres. Durante esta jornada, um jovem escravo do Padre Francisco Pereira desapareceu e, apesar das buscas, não foi encontrado. Finalmente, chegámos a um local. ---
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    Chegámos a umlocal onde encontrámos os exploradores que o Almirante tinha enviado à frente. Estavam rodeados por mais de trezentos Cafres, incluindo mulheres e crianças. Já tinham trocado dois feixes de canas-de-açúcar e alguns mantos com eles. Outros Cafres tinham ido buscar gado. Pareciam ser pessoas amigáveis, pois quando o nosso grupo passou por eles, fomos recebidos com festa, cantigas e danças tradicionais. Acampámos perto deles, e de muitas outras aldeias, junto a um rio. Recebemos muitos bens em troca, incluindo mais de mil mantos de milho, que era o melhor pão de toda a região, muitas galinhas, milho, vacas, cabras e canas-de-açúcar. No entanto, devido à nossa escassez de comida, alguns dos nossos homens foram secretamente ao mato trocar, contrariando o que tinha sido acordado, que era a pena de morte para quem o fizesse. O Almirante tentou punir os culpados, mas muitos se declararam inocentes, por isso decidiu não castigar ninguém. Ficámos neste local durante nove dias, descansando e aproveitando as trocas. Durante este tempo, uma mulher negra livre, com o seu filho, fugiu. Ela pertencia a Joana do Espírito Santo, a Beata, e levou consigo outra mulher negra, escrava de Domingos Borges de Sousa. Depois destes dias, continuámos a nossa marcha, passando por várias aldeias. Deixámos para trás um jovem marinheiro de Almada, chamado Francisco Gonçalves, que estava demasiado doente para continuar, quer a pé quer a cavalo. Tínhamos cuidado dele até então, mas agora entregámo-lo aos cuidados dos Cafres, dando-lhes um pequeno pedaço de cobre para que cuidassem dele. Despedimo-nos dele com grande tristeza. Continuámos a marchar até 13 de outubro, sempre com muitas trocas. Nesse dia, um Cafre, acompanhado por outros e trazendo galinhas, falou-nos em português. Quando perguntámos como tinha aprendido a língua, ele contou que tinha ficado na região após o naufrágio do navio São João. Os portugueses tinham tido conflitos com os Cafres, e ele tinha decidido ficar ali quando era jovem. Mostrou sinais de ser cristão, beijou um crucifixo com devoção e mostrou grande respeito pelos sacerdotes. Disse que vivia ali, casado e com cinco filhos, e pediu-nos para ficarmos mais um dia, prometendo voltar no dia seguinte, apesar de o seu rei viver a uma grande distância dali. --- No dia seguinte, quando estávamos prestes a partir, muitos Cafres aproximaram-se com bens para trocar. Assim, decidimos montar novamente as barracas no mesmo local. Estes Cafres pareciam mais leais e amigáveis do que os que tínhamos encontrado anteriormente. Eram bem apresentados, afáveis e confiáveis nas trocas. Um dos Cafres, que disse chamar-se Alexandre, veio com seu filho, Francisco, e trouxe alguns bens para trocar. Mostrando-se afetuoso à fé cristã, o Padre Francisco Pereyra, membro da Companhia de Jesus, expressou o desejo de ficar com eles, com o objetivo de cuidar da salvação daquelas almas. Ele discutiu esta intenção com o Almirante e outros amigos, que tentaram dissuadi-lo. No entanto, o Padre estava determinado, argumentando que não hesitaria em dar a sua vida pela salvação daquelas almas, especialmente depois de Deus o ter protegido em tantos perigos e adversidades. Com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, despediu-se de todos no acampamento. Levou consigo a imagem de Cristo e uma relíquia do Nascimento. No entanto, enquanto caminhava para a aldeia do Cafre, encontrou-se sozinho no meio da floresta, abandonado pelo guia. Sentindo-se desolado, regressou ao acampamento, trazendo consigo a imagem e a relíquia. Acreditava que, por milagre, o Cafre apenas lhe tinha roubado o cobre e poupado a vida.
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    A 15 deoutubro, caminhámos pela praia, enfrentando areias soltas que tornavam a marcha difícil. Cafres aproximaram-se com muitos bens para trocar. Depois de adquirirmos vários itens, estes foram colocados num monte na praia para serem distribuídos. Durante este processo, o Almirante, segurando uma azagaia, tentou pegar num manto amarelo que parecia pertencer a um líder Cafre. Apesar de haver comida suficiente no acampamento, aqueles com menos bens tentaram pegar o que queriam sem pedir. Vendo isto, e sem qualquer intervenção dos religiosos presentes, alguns Cafres, irritados, levaram todos os mantos. O Almirante, tentando manter a calma, usou a sua própria azagaia para afastar alguns deles, mas evitou confrontos maiores para prevenir mais tumultos e proteger o acampamento de possíveis desastres. --- Daqui partimos e tínhamos marchado cerca de duas léguas quando fomos surpreendidos por uma tempestade com relâmpagos, trovões e chuvas intensas. Acampámos junto a um rio de água doce, rodeados por um mato. Durante o caminho, muitos Cafres seguiram-nos, cantando e dançando com grande alegria à sua maneira. Continuaram connosco até anoitecer, trazendo consigo muitos bens para troca, incluindo cabras, cabritos e ramos de figos da Índia, que nos serviram de alívio. No dia seguinte, esperámos que a maré baixasse e atravessámos o rio com água até ao peito. Este rio foi nomeado "dos figos", pois foram os primeiros figos que encontrámos nesta região dos Cafres. Continuando a nossa jornada, chegámos a outro rio que atravessámos durante a maré baixa, com água até à cintura, por três canais distintos. Nos dias seguintes, fomos abordados por Cafres que nos ofereceram vacas e galinhas em abundância para troca. Cada um de nós recebeu cerca de cinco galinhas e algumas cabras. As peles destas cabras foram usadas para trocar por leite e milho. Durante estas trocas, houve alguma desordem, pois não havia respeito pelo Almirante nem pelos religiosos. A 22 desse mês, partimos com o acampamento montado e na nossa companhia estava um Cafre chamado Thomé, que nos acompanhou durante quatro dias. Ele era extremamente útil e seguia todas as nossas ordens sem hesitação, sendo recompensado com algumas joias de cobre. Ao subir uma duna de areia, coberta de mato, e depois descendo para o interior, encontrámos uma das mais belas planícies que já tínhamos visto, repleta de aldeias e irrigada por rios de água doce, com muitos animais. Muitos Cafres vieram ao nosso encontro, trazendo tantos bens para troca que decidimos descansar um pouco à sua vista. No dia seguinte, antes da chegada dos Cafres com os bens para troca, o Almirante chamou os religiosos, oficiais e passageiros da Nau para uma reunião à parte, junto ao rio. Ele expôs as dificuldades que enfrentava e disse que não podia continuar a liderar o acampamento. Propôs renunciar ao seu cargo e à sua jurisdição, sugerindo que se elegesse alguém capaz de nos levar em paz até ao Cabo das Correntes, e que ele obedeceria a essa pessoa. --- Foi-lhe respondido que, supondo a confissão que fazia sobre a falta de forças, mesmo que na companhia não houvesse quem pudesse aceitar a sua deficiência, esta seria aceite por todos. Procedendo-se à eleição, foram eleitos para tomar os votos o Padre Fr. António de S. Guilherme e Urbano Fialho Ferreyra. Eles dirigiram-se à barraca de António Carvalho, onde todos se reuniram. Durante a votação, houve algum desacordo por parte de alguns marinheiros, mas a situação foi apaziguada. Paulo de Barros foi escolhido como terceiro e, após
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    uma nova votação,o Padre Frey António convocou todos os presentes e propôs que, uma vez que os votos estavam contabilizados, se estariam de acordo em aceitar como Capitão aquele que tivesse a maioria dos votos. Todos concordaram e, ao verificar os votos, foi revelado que António Carvalho era o Capitão, tendo recebido oito votos a mais do que Jacinto António. António Carvalho era um marinheiro da Nau, que tinha naufragado em Belém. Era um jovem respeitado por todos, especialmente pelos marinheiros, e, como mencionado anteriormente, foi eleito para negociar resgates devido ao seu envolvimento no naufrágio da naveta e à sua experiência anterior com os Cafres. No entanto, alguns murmuraram sobre a sua eleição. Ele aceitou o cargo e imediatamente emitiu um decreto proibindo qualquer pessoa de negociar resgates sob pena de punição. Um marinheiro da Nau foi apanhado a desobedecer a esta ordem e António Carvalho ordenou que ele fosse expulso do acampamento com um anúncio público, carregando duas galinhas ao pescoço, que era o resgate que tinha sido encontrado com ele. Este castigo, juntamente com as dificuldades da jornada, afetou tanto o marinheiro que ele faleceu quinze dias depois. --- No dia vinte e quatro de Outubro, prosseguimos pela planície, enfrentando alguns atoleiros difíceis. Depois de os ultrapassar, encontrámos inúmeros Cafres alinhados em formação, trazendo consigo panelas de leite e galinhas para trocar. Isso fez com que marchássemos menos nesse dia, estabelecendo o acampamento num bosque baixo, mantendo uma vigilância apertada sobre o nosso gado. Na manhã seguinte, atravessámos um rio de água doce duas vezes, com a água pela cintura. Conseguimos avistar o mar pela foz do rio, que parecia ser profundo devido à grande extensão de mar e pântanos que se formavam com a maré alta. Os Cafres tinham armadilhas para peixes nessa área. Passámos por um promontório a sudoeste, alto e grosso, coberto de vegetação, que parecia um bom local para ancorar embarcações. Nesse dia, marchámos sob um grande orvalho e frio, enfrentando muitos atoleiros. Os Cafres seguiram-nos, oferecendo itens para troca, o que nos fez parar por um momento. Mais tarde, à tarde, avistámos um rio caudaloso que, com a subida da maré, rapidamente começou a cobrir o caminho. Atravessámo-lo com grande dificuldade, caindo em várias depressões feitas por elefantes e cavalos-marinhos, que estavam cheias e alagadas com água até ao pescoço. Apesar desses desafios e da chuva, conseguimos acampar junto à praia. Os Cafres aproximaram-se, fornecendo-nos lenha e água em troca de pequenos pedaços de cobre, um grande alívio dada a nossa exaustão. Na manhã seguinte, com a maré baixa, marchámos pela praia por duas léguas. Atravessámos outro rio em dois trechos, onde vimos Cafres em posição de combate com lanças e escudos. Ao perceberem a nossa aproximação, largaram as armas e ofereceram-nos várias galinhas em troca. Houve alguns desentendimentos durante a negociação e na divisão entre todos. Quando se tentou repreender um religioso por trocar por uma galinha e outro homem mais velho, um marinheiro interveio de forma agressiva, derrubando-o no chão. Esse ato causou grande desconforto e indignação entre todos, mostrando uma falta de respeito para com as pessoas mais velhas e respeitadas. ---
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    Seguindo as nossasjornadas, chegámos no dia dois de Novembro à foz de um rio largo e de forte corrente. Vimos a necessidade de construir uma jangada para atravessá-lo durante a maré baixa, por isso decidimos esperar até ao dia seguinte. Durante esse tempo, negociámos muitas "bolanjas", uma fruta semelhante a laranjas amarelas, de casca grossa e dura, mas de sabor agradável. Nessa noite, fomos surpreendidos por um grande alvoroço causado por dois cavalos-marinhos que emergiram do rio, passando pelo nosso acampamento e causando grande agitação, inicialmente pensámos que eram Cafres a atacar o acampamento. No dia seguinte, o Capitão Antonio Carvalho da Colla enviou quatro pessoas armadas para reconhecer a área e encontrar Cafres que pudessem indicar um local mais raso para atravessar o rio. Ao regressarem com alguns Cafres, informaram que existia um local adequado a cerca de uma légua de distância. Dirigimo-nos para lá, embora o caminho fosse difícil e, em partes, perigoso devido às armadilhas colocadas por elefantes. Perdemos dois bois nessas armadilhas, conseguindo resgatar apenas um com grande esforço. Ao chegarmos ao local de travessia, enfrentámos um rio largo e lamacento. A travessia foi árdua, com a água a chegar-nos ao pescoço. Durante a travessia, fomos abordados por muitos Cafres. Foi necessário que o Capitão disparasse e abatesse um deles para que os restantes recuassem, permitindo-nos alcançar a outra margem, que era uma ilha. De seguida, atravessámos outro braço do rio, com água até ao peito, deixando-nos bastante exaustos. Na ilha, um dos nossos homens, um Chinês ao serviço de Antonio da Camara de Noronha, adormeceu. Quando acordou e encontrou a maré alta, não conseguiu atravessar o rio. Reuniu- se connosco dois dias depois, tendo conseguido escapar dos Cafres graças à espingarda que trazia consigo. Depois de atravessarmos esse rio, que é conhecido como "das Pescarias", continuámos a nossa marcha. No entanto, notámos que éramos seguidos por Cafres armados, o que nos levou a crer que poderiam querer atacar-nos. Acampámos para passar a noite e descansar dos esforços anteriores junto a um pequeno riacho, onde negociámos dois carneiros que foram distribuídos entre os grupos. --- No dia seguinte, após marcharmos mais sete léguas, acampámos junto a um ribeiro de água doce, rodeado por uma paisagem arborizada e próxima de uma grande aldeia. Os guias locais referiam-se a este local como "o lugar do Socorro", devido a ter sido um refúgio para eles após o naufrágio de uma pequena embarcação. Rapidamente, os Cafres aproximaram-se trazendo dois carneiros e algumas abóboras, que negociámos. No dia seguinte, regressaram com mais itens para troca. Deixámos o nosso gado a pastar nas proximidades, sob a vigilância dos grumetes. No entanto, estes adormeceram, permitindo que os Cafres se apropriassem de quinze das nossas melhores cabeças de gado, incluindo algumas que usávamos para carga. Ao perceber o roubo, um dos grumetes gritou, alertando o Capitão Antonio Carvalho, que prontamente perseguiu os ladrões. Conseguimos recuperar nove vacas, mas os Cafres ficaram com seis. Como retaliação, apreendemos nove vitelas, nove carneiros, nove cabras e igual número de cabritos deles. Ao entardecer, os habitantes da aldeia aproximaram-se tocando os seus tambores de guerra. Alguns dos nossos homens saíram do acampamento com espingardas, mas sem uma estratégia clara. Ao avançarem para a aldeia, dispararam a primeira salva sem causar baixas, o que encorajou os Cafres a contra-atacar. Os nossos homens recuaram em pânico, só se sentindo seguros quando regressaram às barracas do acampamento. Alguns ficaram feridos no confronto, enquanto outros foram severamente espancados. Salvador Pereyra, um passageiro que sempre se comportou como um bom soldado nas situações de combate, foi gravemente
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    ferido com duaslanças. O mestre Jacinto António, apesar de gravemente ferido, conseguiu regressar ao acampamento. A desordem e a covardia foram tão evidentes que aqueles que se consideravam mais valentes foram os primeiros a fugir, sem sequer disparar contra o inimigo. --- A noite caiu e os feridos foram tratados com azeite de coco. No acampamento, reforçaram-se as vigias, antecipando possíveis ataques. Prepararam-se vinte pessoas para atacar as aldeias no dia seguinte. Com o amanhecer, os Cafres começaram a gritar e a avançar para o acampamento, brandindo as suas azagaias. Chegaram tão perto que tivemos de enfrentá-los para evitar que invadissem as tendas, o que seria a nossa ruína. As primeiras disparadas atingiram um Cafre, que, ao ser visto ferido pelos seus, fez com que todos fugissem. Os nossos, liderados por Antonio Carvalho da Costa, perseguiram-nos em formação, enquanto o acampamento ficou sob a responsabilidade de Antonio da Camara de Noronha, que estava doente. Chegámos à aldeia dos Cafres, incendiámo-la e saqueámos o que lá encontrámos. Regressámos ao acampamento sem baixas e dividimos o saque entre todos, já que há vinte dias só tínhamos comido carne de vaca. A 8 de Novembro, deixámos o local e marchámos pela praia, mantendo uma boa ordem e vigiando o gado. Depois de algum tempo, vários Cafres armados saíram de um bosque, trazendo consigo vacas que pretendiam juntar às nossas. Eles têm um controlo tão grande sobre as suas vacas que conseguem fazê-las correr ou parar à sua vontade. Domingos Borges de Sousa avançou e escondeu-se atrás de um arbusto, disparando contra um dos Cafres que vinha à frente, matando-o. Os restantes fugiram com o seu gado, sem tentar causar-nos mais danos. Continuámos a nossa marcha rapidamente, pois a jornada era longa e começou a chover intensamente com trovoadas. Ao chegarmos a um rio onde os Cafres estavam a pescar, eles fugiram à nossa vista, deixando para trás muito peixe, que foi suficiente para alimentar todo o acampamento durante dois dias. Neste local, enterrámos Bartholomeu Rodrigues, enteado do piloto Gaspar Rodrigues Coelho. --- Depois de atravessar o rio com água até ao pescoço, num vão bastante complicado e com um vento frio intenso, continuámos a nossa marcha pela praia até chegarmos a um ribeiro de água fresca, a cinco léguas do rio de Santa Luzia. Como se dizia que não haveria mais água até lá, decidimos descansar nesse local, abatendo algumas vacas para prosseguir no dia seguinte. Marchámos pela praia, cada um carregando o seu recipiente de água. Rapidamente esgotámos as nossas reservas, ao encontrar inúmeras fontes de água que desciam das montanhas para a praia. Depois de caminhar quatro léguas, atravessando dunas de areia sem vegetação, chegámos ao rio de Santa Luzia. Acampámos na sua margem, rodeados por muitos pinheiros verdes. O rio parecia impossível de atravessar devido à sua largura e correnteza, e não dava tréguas com as suas marés, lembrando o mar de Espanha. Cavámos poços para nós e para o gado, e como não encontrámos madeira para construir uma jangada e as vacas não tinham comida, decidimos voltar e procurar um vau mais para o interior. Neste rio, alguns dos nossos homens que estavam a negociar para o acampamento, e os que os serviam nesta função, começaram a vender milho e grãos a preços exorbitantes, aproveitando- se da situação. O preço aumentava à medida que a escassez crescia, chegando a quatro
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    cruzados. Esta situaçãodesagradou profundamente ao novo Capitão Antonio Carvalho, que parecia também estar envolvido neste esquema, colocando muitos em risco de vida. No entanto, até ao Reino de Unhaca, ele cumpriu o seu dever, protegendo-nos a nós e ao gado. Mais tarde, entregou o comando novamente a Antonio da Camara de Noronha. Não é surpreendente que, sendo ele um marinheiro, tenha falhado em algumas coisas, quando muitos outros, movidos por interesses pessoais, agiram de forma indecorosa. --- Guiados por dois dos nossos companheiros, que no dia anterior tinham saído para explorar, regressámos a este rio. Depois de termos caminhado por muitas dunas de areia, procurando um caminho através de uma mata, não encontrámos nenhum e decidimos acampar um pouco afastados, numa zona com capim alto. Choveu durante a noite e a água potável estava a mais de meia légua de distância. Encontrámos uma fruta chamada "leiteira", que nos saciou por estar madura. Salvador Pereyra recuperou algumas peças de valor que lhe tinham desaparecido. Ao amanhecer, Deus colocou no nosso caminho dois Cafres. Pagámos-lhes em cobre para nos guiarem na busca de água. Levaram-nos por dunas e matos altos até encontrarmos uma plantação de abóboras e melancias verdes, que comemos. Descendo para um vale perto das suas aldeias, mostraram-nos um caminho bem sombreado com muitas plantações, e chegámos a um braço do rio de Santa Luzia. Acampámos ali para passar a noite, com pouca lenha e poucas estacas para montar as barracas. Nesse local, enterrámos um dos nossos, um marinheiro da Nau. No sábado, 17 do mês, caminhámos pelo interior, vendo campos alegres, povoados de elefantes. Atravessámos outro braço do rio de Santa Luzia, com muitos pântanos. Agradecemos a Deus por nos permitir atravessar um rio tão caudaloso. Acampámos numa campina e matámos uma vaca para alimentar todos. No dia seguinte, caminhámos mais de sete léguas, procurando água para acampar. Encontrámos um rio agradável, onde passámos a noite. No dia seguinte, vimos bandos incontáveis de elefantes. Regressámos porque não conseguíamos atravessar o rio. O caminho que escolhemos pelo interior foi muito cansativo, devido aos pântanos e lamaçais. Procurámos um local para descansar e escolhemos um perto de algumas cabanas abandonadas. Dois Cafres vieram vender-nos lenha e água. Matámos gado para todos e passámos a noite. Na manhã seguinte, chamámos um dos Cafres, pagando-lhe com um pedaço de carne e cobre, pedindo-lhe que nos guiasse. Ele levou-nos por montes e vales, uma légua e meia, e depois deixou-nos. Alguns de nós seguiram um caminho e outros outro, mas voltámos a reunir-nos à vista do rio do dia anterior. Seguimos ao longo dele, pois não encontrámos um local raso para atravessá-lo, e acabámos por cruzá-lo mais de três léguas adiante, com água até ao pescoço. --- À vista de muitas povoações e Cafres, que saíram delas para nos esperar com muitas vacas. Assentando num campo bonito, logo vieram com leite e galinhas, que foram distribuídas pelos doentes. Neste local não havia milho, embora houvesse sementes dele, mas ainda estavam verdes. No dia da Apresentação de Nossa Senhora, a 21 de Novembro, negociámos todas as vacas que quisemos. Embora fossem mais caras do que as outras, adquirimos 140 cabeças vivas e partimos após três dias de descanso.
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    Levando-nos daí, compoucas forças devido à contínua alimentação à base de carne de vaca cozida, alguns adoeceram. Passando aquele rio, que se dizia ser um dos braços do rio das Medãos de Ouro, os nativos continuaram a seguir-nos com vacas. Os negociadores do acampamento sugeriram que até ao Reino de Unhaca não haveria gado, e que seria melhor negociar mais e levar as vacas necessárias, já que o cobre não tinha valor adiante. Por estas e outras razões, o Capitão Antonio Carvalho estava insatisfeito, permitindo que tais práticas ocorressem num acampamento com tantas pessoas de qualidade. Os nativos, sendo de boa índole, acompanharam-nos até um rio que atravessámos com água até ao joelho. No dia seguinte, trouxeram-nos leite e abóboras, e não concordámos em comprar algumas vacas ou dentes de marfim que queriam negociar. Partimos após o almoço e, ao chegarmos a uma ribeira de água doce, alguns Cafres trouxeram-nos peixe para negociar. Mas, ao receberem o cobre, fugiram sem entregar o peixe. Durante a noite, vieram em grupos para nos provocar. Na manhã seguinte, enquanto limpávamos as espingardas e preparávamos a comida, eles tentaram bloquear o nosso caminho, ameaçando-nos com as suas azagaias e exigindo o gado. Paulo de Barros, que estava na vanguarda, respondeu, matando um deles com a sua espingarda. Os restantes fugiram, e nós continuámos a nossa marcha. Ao sairmos da mata para o campo, ouvimos vozes e vimos algumas pessoas com chapéus. O Capitão Antonio Carvalho e outros foram ao seu encontro, pensando serem estrangeiros de uma embarcação que vimos quebrada na praia. Mas eram sobreviventes do naufrágio do Galeão Sacramento, nossa capitania. Abraçámo-los com lágrimas nos olhos, como quem se encontra em terra de bárbaros. --- Tão distante do que é natural e devido a uma causa tão lamentável, como a perda de tais embarcações, com tantas pessoas e riquezas. Vendo nove pessoas sem armas atravessar um caminho tão longo com tantos bárbaros, que constantemente nos armavam emboscadas, Deus nos protegeu, deixando os restantes companheiros que escaparam do naufrágio. Alguns foram mortos pelos Cafres, outros pela fome e exaustão, e outros ainda ficaram para trás por falta de forças para continuar. Estes nove eram Manoel Luis, o calafate, dois grumetes portugueses, um mestiço, um canarim e dois escravos. Todos marcharam connosco até montarmos acampamento sob algumas árvores, perto de um rio de água doce. No dia seguinte, guiados por dois Cafres locais, chegámos a um rio com uma travessia difícil. Atravessámos com água até ao peito, e ao chegarmos à outra margem, encontrámos uma figueira carregada de figos maduros. Comemos até nos saciarmos e continuámos a nossa marcha. Os novos companheiros do galeão contaram-nos sobre o seu naufrágio. Uma tempestade atingiu o galeão e a nau Atalaya. O galeão perdeu a sua vela principal e, ao tentar voltar para terra, foi atingido por uma onda gigante que destruiu a parte traseira do navio. Muitos caíram ao mar, incluindo o capitão e um padre jesuíta. Apenas um sobreviveu. Continuámos a nossa marcha e encontrámos vestígios do naufrágio. Também encontrámos uma mulher chamada D. Barbora, que estava viva, mas outros, incluindo o piloto e o escrivão, estavam mortos. Decidimos continuar a nossa marcha até chegarmos ao rio da Nau Belem.
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    Muitos dos nossoscompanheiros morreram de fome ou foram mortos pelos Cafres. A situação era tão desesperada que até uma carta de navegação foi comida, o que resultou na morte daqueles que dela se alimentaram, provavelmente devido ao veneno da tinta. A fome era tão intensa que chegámos a lutar por um simples gafanhoto. --- A partir do rio da Nau Belem, embora em número reduzido e com constantes sobressaltos causados por estes bárbaros, seguimos sempre o rasto do acampamento. De tempos a tempos, encontrávamos sinais dele e recebíamos notícias dos mesmos Cafres, que nos informavam que Deus nos tinha protegido até ao momento, permitindo que todos nos encontrássemos. Após o rigoroso temporal, amanheceu o dia vinte e oito de Novembro. Levávamos na nossa companhia dois Cafres locais para nos mostrar o caminho, em troca de um pedaço de vaca e um pedaço de cobre que lhes foi dado. Guiados por eles, marchámos em direção ao rio das mãos de ouro, chegando lá por volta das oito horas. Admirámo-nos com a travessia e a largura do rio, pois mal se via a terra do outro lado, com mais de três léguas de água a atravessar. Lançámo-nos à água, com os Cafres à frente, enfrentando uma entrada difícil e água até ao peito. Num dia frio, com vento e maré, atravessámos com os chapéus na cabeça e o gado a meio caminho. Quando chegámos à terra do outro lado, encontrámos outro canal que nos chegava ao pescoço. Saímos da água por volta das três da tarde, exaustos e encharcados. Agradecemos a Deus por termos encontrado estes Cafres, pois sem eles seria impossível atravessar este vau, tão largo quanto o mar de Lisboa até ao Barreiro. Perdemos dois jovens de Salvador Pereira, um chinês e outro de Bornéu, que se afogaram. Acampámos nessa tarde e noite e, no dia seguinte, marchámos terra adentro em direção à praia. Era uma zona muito povoada, onde os habitantes nos ofereciam abóboras, melancias, bolachas e tabaco. Não encontrámos milho nem ameixoeira, pois ainda não eram comuns na região. Nesta área, e quase em toda a Cafraria, não chovia há cinco anos, causando grandes fomes e uma praga de gafanhotos que, por onde passavam, não deixavam qualquer erva verde. O caminho da praia até ao Reino de Unhaca não é o mais adequado, pois é seco, sem água e com grandes serras de areia. Por vezes, desviávamo-nos deste caminho devido a estas condições, especialmente quando alguns de nós eram forçados a chegar à praia. --- Em dois de Dezembro, tendo nessa manhã rodeado, por entre matos, trabalhosamente uma lagoa, chegámos a uma campina rasa, onde descansámos. Deixando o acampamento ali, continuámos a marchar para o norte, pela mesma campina, fazendo uma pausa junto a uns charcos de água. Encontrámos um marinheiro de nome Pedro Gaspar, casado em Lisboa, mestre sapateiro, que morava na calçada de Pé de Naves. Tendo caído em pobreza com filhos, veio na mesma nau à Índia, à procura de um parente que o ajudasse, e regressava a casa com ajuda. Nessa noite, acendemos fogos para que este homem pudesse encontrar o acampamento, pois seria impossível não o ver se o procurasse. No dia seguinte, enviaram-se seus camaradas atrás de onde havíamos descansado para almoçar, regressando sem ele nem notícias suas. Discutiu-se variadamente sobre este assunto, sem conclusão, e desenganados, já que ele não aparecia, marchámos em frente, trocando cada um por si, como queriam ameixoeira, galinhas, abóboras e melancias, até chegarmos a um rio caudaloso. A maior parte do acampamento, que se adiantou, atravessou com água pelos pés e, com a maré a encher e não sendo possível atravessar a vau, o grupo do Padre Fr. António e outros dormiu entre a mata junto ao rio, onde encontrámos muito peixe e galinhas, com os quais nos alimentámos
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    até que amaré permitisse, no dia seguinte, juntarmo-nos aos outros. Aí vimos o primeiro Cafre, que falando português nos chamou matalotes, dizendo que na Ilha de Quifine estavam dois Pangaios, alegrando-nos com a notícia, pelo receio que tínhamos de não encontrar pataxo de Moçambique. Juntos com os outros da outra margem, passámos entre uma bela floresta com boa água dois dias, onde encontrámos muito peixe e sal, sendo o primeiro que vimos, ameixoeira, milho, mel, manteiga, ovos, galinhas, cabras e carneiros, tudo em tanta abundância que nos parecia estar numa ribeira bem provida, trocando todos livremente por panos e trapos velhos e pobres, de qualquer forma que fossem, desde que não tivessem buracos. Daqui, levámo-nos a treze de Dezembro, marchando com muitos Cafres na nossa companhia, passando nesse dia por duas tempestades com muita chuva, chegando a passar a noite junto a uma lagoa, depois de uma mata densa, que deixámos pela manhã de catorze de Dezembro pela praia. Tendo marchado por ela uma légua, encontrámos muitos Cafres para nos guiar, com muita festa pela terra adentro, pois marcharíamos outra légua até chegar à Corte do Rei Unhaca, por outro Sangoan onde o encontrámos sentado numa esteira à sua porta debaixo de uma árvore, onde, segundo o costume dos Cafres, tinha suas insígnias reais, que eram uma cabeça de vaca com sua armação, e na mesma árvore uma azagaia muito comprida amarrada no alto, e na porta um arco e flecha embebida. O velho Rei estava com um lençol de algodão avermelhado coberto, com o seu intérprete de pé, pelo qual nos saudou, cumprimentando-nos calorosamente, dando notícias do pataxo de Moçambique, ter chegado à Ilha de Quifine, doze léguas do seu Reino, supondo não ter ainda estabelecido feitoria nesta Unhaca como é costume. Depois disso, mandou-nos alojar nas cabanas que havia, providenciando muito peixe, galinhas, batatas, manteiga e peixe, que cada um comprava a gosto por pedaços de camisas, calções, toalhas e todo o tipo de roupa, de tal forma que, nos quinze dias que aqui passámos, sempre houve abundância. O Rei mandou ao Almirante António da Câmara, a quem António Carvalho tinha, à vista de Unhaca, entregue o governo do acampamento, uma pequena quantidade de ameixoeira e dois pedaços de cavalo marinho, respondendo-lhe com dois borrifadores de prata, um pano com bordas de seda e uma peça de corte de Baroche. Estes Cafres, pelo trato e conhecimento dos portugueses, são grandes mercadores, interessados e desconfiados, que primeiro querem receber o pano antes de largarem o que vendem por ele. Como aqui não se davam notícias do pataxo com a certeza que desejávamos, pareceu mandar pela nossa que trouxe do que havia, avisando ao Capitão dele da nossa chegada e perdição. Assim, despediu-se dois dias depois António Carvalho com seis portugueses e dois Cafres da terra para guiar até à Ilha do Quifine, onde chegaram os nossos com muito trabalho. Lá encontraram uma galeota, sendo a sua tripulação bem hospedada pelo Capitão Diogo Velho da Fonseca, natural de Vila Franca de Xira, casado e morador em Moçambique. Ele tinha ido estabelecer as feitorias do Manhifa Manoel Bombo e Locondone. Ao
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    ser avisado danossa perdição e chegada a Unhaca, como bom vassalo de Sua Majestade, mandou logo com os seus um Mouro Piloto com roupa para guiar os caminhos, a barquinha e o lusio para atravessar os rios de Libumbo e Machavane. Chegados António Carvalho e os que o acompanharam, dando tão boas notícias, festejámos com admiração e alegria que cada um sentiu, principalmente sabendo que há quatro anos não tinha vindo outro pataxo, mas apenas este, que atribuímos a um benefício e mercê de Deus, que seja sempre louvado, pela sua Divina Providência. A vinte e oito de Dezembro, com alguns Cafres que nos quinze dias que aqui passámos travaram amizade connosco, deixámos este Reino de Unhaca atravessando a terra junto a uma grande lagoa e algumas povoações até um rio que atravessámos com água pela cintura. Marchámos esse dia atrás com muita calma, chegando tarde ao Reino de Machavane, mais rico e poderoso que o Sangoan. Este nos saiu ao caminho com uma capa de couro aos ombros, onde passámos a noite. No dia seguinte, ofereceu ao Almirante uma vaca, respondendo-lhe com uma foice branca. Deixando este lugar no trigésimo dia do mês, o Rei acompanhou o arraial à frente por uma légua, despedindo-se de todos com grandes cortesias, enviando na nossa companhia para nos guiar um seu parente até ao rio Machavane. Chegámos ao meio-dia e, por ser muito revolto e caudaloso, era necessário atravessar em canoas. Começámos a atravessar, ficando metade do arraial para o dia seguinte. Nessa tarde, ao atravessar três grumetes numa dessas canoas, abriu-se um buraco que estava tapado com lodo, e ao afundar-se, não deu mais oportunidade senão a de nadar, afogando-se um de nome António Jorge, e os outros com dificuldade chegaram à terra. Depois de todos terem atravessado para o outro lado com o gado, que ainda eram mais de quarenta vacas de carga, marchámos para o Reino de Tembe Velho, onde passámos a noite. Ele saudou o Almirante com um capado, porque lhe deu uma peça de corte pintada. Deixando este lugar no dia seguinte, com a jornada sendo longa, chegámos ao Reino de Tembe Moço, poderoso Rei em gente e gado, onde enfrentámos uma tempestade tão assustadora, com tanta chuva e raios, que não ficou barraca em pé, sendo forçado a passar ali outro dia, dividindo-se uma vaca que o Rei deu para comer e as nossas, que tirando-as da carga, saiu a cada dezoito pessoas uma. Aqui, negociou-se muito leite e melancias, chegando uma carta do Capitão da Galeota Diogo Velho da Fonseca, para nos apressar, pois estava à nossa espera com grande entusiasmo, enviando o lusio para embarcar todo o fato com os doentes e o Almirante com os Religiosos na barquinha, e os restantes por terra. "Em dois de Dezembro, após termos contornado uma lagoa nessa manhã, atravessando matos densos, chegámos a uma campina rasa onde descansámos. Depois de o grupo ter partido dali,
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    continuámos a marcharem direção ao norte pela mesma campina, parando junto a alguns poços de água. Durante a noite, perdemos um marinheiro chamado Pedro Gaspar, mestre sapateiro de Lisboa. Ele tinha vindo à Índia para procurar um parente que o pudesse ajudar e estava a regressar a casa com alguma ajuda. Passámos a noite inteira com fogueiras acesas, esperando que ele encontrasse o caminho de volta ao grupo, mas sem sucesso. No dia seguinte, os seus companheiros foram procurá-lo ao local onde tínhamos almoçado no dia anterior, mas regressaram sem ele e sem notícias suas. Continuámos a nossa marcha, negociando pelo caminho com os Cafres, adquirindo ameixoeira, galinhas, abóboras e melancias. Negociávamos com qualquer pedaço de tecido ou roupa velha que tivéssemos. Chegámos, a 13 de Dezembro, a uma aldeia onde o Rei Unhaca nos recebeu. Ele estava sentado sob uma árvore, com as suas insígnias reais: uma cabeça de vaca e uma lança muito longa. O rei, coberto por um lençol de algodão tingido, cumprimentou-nos através do seu intérprete e deu-nos notícias do pataxo de Moçambique, que tinha chegado à Ilha de Quiufine. Ele também nos informou que ainda não tinha estabelecido uma feitoria em Unhaca, como era costume. O rei ofereceu-nos alojamento nas palhotas e tivemos a oportunidade de negociar e adquirir alimentos e outros bens. Durante os quinze dias que passámos ali, nunca nos faltou nada. O Almirante Antonio da Camara, a quem Antonio Carvalho tinha entregue o comando do grupo à vista de Unhaca, ofereceu ao rei dois borrifadores de prata, um pano com bordas de seda e uma peça de corte de Baroche em troca de ameixoeira e pedaços de carne de cavalo-marinho. Estes Cafres, familiarizados com os Portugueses, são grandes comerciantes, interessados e desconfiados. Eles exigem sempre receber primeiro o pano antes de entregarem os bens que vendem em troca." "O Capitão Diogo Velho da Fonseca, juntamente com os seus companheiros da galeota, desembarcou na praia e fomos recebidos com grande carinho e alegria. No dia seguinte, distribuiu a todos arroz e ameixoeira para três dias, ajudando muitos com roupa branca e sapatos, e aos que precisavam, ofereceu doces e todos os mimos que tinha para os doentes, sem negar a ninguém. Por tal generosidade e bom trato, mereceu muitos agradecimentos. Alguns dos seus companheiros venderam-nos um fardo de arroz redondo por catorze cruzados de ouro, uma mão de carambolas por seis e meio, uma garrafa de azeite e vinagre por dez, sapatos por três a quatro cruzados, e uma caneca de vinho de Portugal por doze cruzados, e outra de nipa por quatro, com uma margem de lucro bastante elevada. Ao terceiro dia após a nossa chegada, a tripulação do Navio e do Galeão, que totalizavam cento e vinte e quatro portugueses e trinta negros cativos, foram distribuídos pelas cinco feitorias já estabelecidas, vinte léguas rio acima. Não faltou comida, sendo fornecidos três panos por mês a cada pessoa por conta de Sua Majestade. O Almirante ficou na ilha como hóspede do Capitão Diogo Velho, e os religiosos, oficiais e passageiros do Navio foram acomodados em palhotas novas e outras que foram desocupadas pelos Lascars da galeota, que foram pagos. Passámos seis meses nesta ilha deserta, sem outra saída além das feitorias, onde alguns iam buscar alimentos e refresco. Nesta ilha, tínhamos a consolação de cinco a seis missas todos os dias, um grande alívio para a peste que se sofreu nas feitorias e na ilha, onde morreu metade das pessoas, lá devido à abundância de comida e à falta de sangrador, e aqui de febres agudas que
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    não davam espaçopara medicamentos. Muitos morreram, incluindo o Padre Francisco Pereira da Companhia de Jesus, Salvador Pereira, o Mestre Jacinto António, Amador Monteiro, camarada do Almirante e filho do glorioso mártir Embaixador ao Japão. Do Galeão, apenas sobreviveram Manuel Luís Estriqueiro, Marcos Peres Sota piloto, Francisco Gomes Canarim e um Cafre. Quando chegou a hora de partir, os que sobreviveram nas feitorias juntaram-se e, depois de embarcados, levantámos âncora a 22 de Junho à tarde, com marés vivas, passando entre balizas devido à baixa profundidade. Ao ancorarmos na Ilha de Unhaca, comprámos muitas galinhas e batatas. No dia de São João, começámos a navegar para Moçambique com trezentas pessoas, brancos e pretos, na galeota, a maioria doentes e mal acomodados devido ao pequeno tamanho do barco. Ancorámos em nove de Julho em frente à fortaleza, onde morreu Amaro Jorge, marinheiro do Navio, natural de Ueyras. Ao chegar a terra, o Capitão Diogo Velho desembarcou, mas logo regressou ao barco, escandalizado com a ordem do Governador Álvaro de Souza de Tavora de não permitir que ninguém desembarcasse nem que qualquer embarcação se aproximasse, exceto a do Governador. Fomos todos levados à fortaleza, onde o Ouvidor, o Feitor e os seus escrivães fizeram um inventário, tanto da perda dos Navios como dos diamantes que sobreviveram. Cada um encontrou um lugar para ficar até ser hora de embarcar para a Índia. O Governador providenciou ajuda apenas aos homens do mar com uma porção de arroz e um cruzado por mês, recrutando alguns que não eram casados como soldados da fortaleza devido à falta de pessoal, e os restantes foram distribuídos por três embarcações que partiriam para Goa." "A onze de Setembro zarpámos com terral, cinco embarcações de Moçambique, três para Goa, o pataxo de Dio e outro para as Ilhas de Comoro, tendo avistado o pataxo dos rios de Cuama, porque até então o Governador nos fez esperar, navegando de um lado para o outro à espera da viragem para entrar. Seguindo a nossa rota, rapidamente se separaram o pataxo de Dio e o das Ilhas, navegando os de Goa juntos até dez graus, em que o Urcado do Governador pela rota marítima, e o pataxo de Francisco Dias Soares pela rota terrestre, nos deixaram na galeota de Thomé Gonçalves de Pangim, onde estava como Capitão e Piloto Manoel Soares, natural de Lisboa. Comprei cabine para viajar com os Padres Fr. António de S. Guilherme e Fr. Diogo da Presentação, meus camaradas. Sendo esta galeota pequena e má a velejar, o Capitão dela navegou de tal forma, entre calmarias, tempestades e ventos contrários, que só ela nessa monção chegou a Goa, avistando terra em quarenta e sete dias entre Angediva e o Cabo da Rama. Devido à falta de conhecimento sobre o estado da barra de Goa e outros contratempos, decidimos, por consenso, regressar, entrando na barra de Onor no primeiro de Novembro, cinquenta e dois dias após termos saído de Moçambique. No dia seguinte, dois de Novembro, parti para Goa com os Padres numa manchua de catorze remos, chegando a oito de Novembro pela manhã. Todos estavam admirados com as notícias do nosso naufrágio e ainda mais com os desastres que esta Cidade sofreu esse ano, perdendo na sua barra um pataxo e uma Caravela carregados para a China com grande riqueza. Não se salvou ninguém, incluindo o próprio Geral de Macau, António Vaz Pinto. Também se perderam sete navios de socorro carregados para Ceilão e doze navios de armada do Canará. Houve ainda um terramoto que devastou a região, estimando-se a perda de palmeiras nas ilhas e terras de Salcete e Bardés em mais de duzentas mil, além de muitas igrejas e mangueiras. Não chegaram notícias nem embarcações do Reino, nem da Urca do Governador de Moçambique, onde estava o sustento e riqueza daquela Cidade e os diamantes que sobreviveram ao naufrágio das Naus. Também se sentiu a perda do Galeão Santo Milagre, embora alguma gente tenha sobrevivido no abrolho onde encalhou, a seis graus a sul. Fizeram um batel e quarenta homens conseguiram chegar às Ilhas de Querimba, deixando os restantes no abrolho, sustentando-se de pássaros e tartarugas. Outra embarcação,
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    a Nao Pata,que vinha do Reino, encalhou nos rios de Cuama. A maioria das pessoas sobreviveu, mas morreu a caminho de Moçambique com o Governador Álvaro de Souza de Tavora no seu pataxo dos rios, que encalhou devido a uma tempestade. Todos morreram de fome e sede, exceto o próprio Governador e alguns criados. Não sei o que me surpreende mais, se a certeza de que os perigos no mar são sempre uma realidade, ou a confiança que aqueles que navegam têm em si mesmos. Autores estrangeiros dizem que os segredos do mar e da terra só a nação portuguesa nasceu no mundo para os descobrir." https://www.arquipelagos.pt/imagem/peca-de-manuel-tavares-bocarro-1640-recolhida-no- galeao-sacramento-naufragado-a-30-jun-1647-memorial-do-galeao-sacramento-1993-port- elizabeth-africa-do-sul-8/ https://shiplib.org/index.php/shipwrecks/iberian-shipwrecks/portuguese-india-route/n-s-da- atalaia-do-pinheiro-1647/ https://shiplib.org/index.php/shipwrecks/iberian-shipwrecks/portuguese-india- route/santissimo-sacramento-1647/ Ir para o conteúdo
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    A Biblioteca Digitalde Arqueologia Náutica • Lar o ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ • Coleções o ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪
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    País: África doSul Local: Coordenadas: Lat. ; Longo. Tipo: Nau Identificado: Sim Datado: 1552 (Contas históricas) Introdução A construção naval portuguesa entrou em crise na segunda metade do século XVII. A escassez de fundos públicos impediu o Estado de construir pelo menos dois navios por ano, número mínimo necessário para manter a Rota da Índia. Foi neste contexto que o galeão Santíssimo Sacramento foi encomendado a Rui Dias da Cunha pelo Governador de Baçaim, D. Telles de Menezes. Segundo o Regimento de 23 de Fevereiro de 1615, o contrato exigia uma forma e dimensões particulares, com quatro mastros e um castelo alto na popa, tal como definido em Lisboa. A quilha foi baixada em Bassein, em 1638, e o casco ficou pronto no início de 1640. O navio foi lançado em abril e rebocado para sul, para Goa, onde seriam concluídas as obras de topo e o cordame. A guerra com os Países Baixos atrasou vários anos a conclusão do navio, mas este ficou pronto em 1646 e dizia-se que era um navio grande e bonito, embora alguns se queixassem de que era difícil de manobrar devido ao seu tamanho. A artilharia de Sacramento foi escolhida entre os melhores e mais poderosos canhões disponíveis. Algumas armas foram lançadas propositalmente. Quando ficou pronto armou duas baterias de cada lado, perfazendo um total de 60 canhões. Espiões holandeses, provavelmente mal informados por contrainformações cuidadosamente colocadas, acreditavam que Sacramentocarregava 80 armas. Finalmente, nos últimos dias de janeiro de 1647 o Sacramento foi fundeado ao lado do antigo navio Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro , pronto para partir assim que o Sacramento fosse carregado. Como carga foram carregados vários canhões de bronze, fundidos pelo famoso armeiro Manuel Tavares Bocarro, enviados para o reino. A pequena frota de dois navios partiu de Goa no dia 20 de Fevereiro de 1647, já no final da temporada, e para isso expondo-se aos rigores do Inverno meridional na passagem do Cabo da Boa Esperança. O capitão de Sacramento era Luís de Miranda Henriques, também capitão da frota, enquanto Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro era comandada pelo almirante António da Câmara de Noronha, que chegara à Índia como capitão do galeão São Lourenço . A frota transportava uma grande carga de
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    cerâmicas e porcelanaschinesas, 60 a 80 canhões fundidos por Tavares Bocarro, e uma vasta gama de sedas, algodões, madeiras preciosas, especiarias, drogas, ouro – principalmente em correntes e anéis – e pedras preciosas. Poucos dias depois de deixar o porto, a frota avistou um navio com peregrinos para Meca, que Luís de Miranda Henriques resolveu abordar e saquear, contra o conselho dos restantes oficiais. O navio tinha uma carta de salvo-conduto das autoridades portuguesas e os oficiais da Atalaia convenceram Henriques a poupar a vida dos peregrinos. Além da perda de três dias, este incidente cruel desmoralizou as tripulações de ambos os navios. Três meses e meio, perto do equador, um terceiro navio São Pedro o Grande , que havia partido de Goa no dia 6 de março, alcançou a pequena frota e navegaram juntos durante 20 dias. Dada a data tardia da temporada, porém, o capitão do São Pedro , Luis Botelho Fróis, decidiu voltar atrás e navegar para Moçambique, para passar o inverno. No ano seguinte, navegando para Lisboa, Fróis quase naufragou ao passar pelo Cabo, e teve que rumar ao Brasil, para reparar o seu navio, após o que finalmente regressou a Lisboa, naufragando nos Açores, em 1651. Enquanto isso, Sacramento e Atalaia foram separados por uma tempestade em 12 de junho e ambos foram atirados contra a costa. É difícil saber o que realmente aconteceu porque o único relato escrito que sobreviveu foi escrito por Bento Teixeira Feio, a partir de histórias que mais tarde ouviu do pequeno grupo de sobreviventes que se juntou aos sobreviventes da Atalaia, durante a dura caminhada até Moçambique. Segundo estes sobreviventes, na noite de 12 para 13 de junho, após perder Atalaia de vista , a tempestade destruiu a vela grande e atingiu o galeão com tanta força que este começou a absorver água. os vazamentos e o navio continuaram sua viagem para o sul, em direção ao Cabo da Boa Esperança. Na noite de 15 de junho, outra tempestade atingiu o navio e ele avançou para o sul, à vista da terra, às vezes perto demais para ser confortável. O navio manteve o rumo, mas na noite de 29 para 30 de junho o vento empurrou-o para a costa e jogou-o contra as rochas a 43 graus de latitude sul, na Baía de Algoa, perto da atual Port Elizabeth, perto do Cabo da Boa Esperança. Apenas 72 pessoas sobreviveram. Depois de descansar 11 dias na praia, os sobreviventes decidiram caminhar até Moçambique e iniciaram uma marcha mortal para norte. Quase cinco meses depois, no dia 27 de novembro, apenas nove pessoas ainda estavam vivas quando encontraram os sobreviventes de Nossa Senhora da Atalaia na Zululândia.
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    Em 1778, ocapitão de uma guarnição holandesa estacionada nas proximidades visitou a Baía de Algoa e marcou o local do naufrágio num mapa, referenciando a localização das cabanas construídas pelos sobreviventes. Em 1949, um artigo referia-se à existência de um canhão e duas âncoras na área das marés, e três anos depois um pesquisador chamado Harraway levantou um canhão de ferro no local. Harraway tirando uma arma da água. Em 1977, David Allen e Gerry van Niekerk localizaram 21 armas de bronze debaixo d'água em frente ao local da arma de Harraway. Logo depois, esse número subiu para
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    61 quando DavidAllen encontrou outras 40 armas – 21 de ferro e 19 de bronze. Conta Após a partida de Goa para Portugal em 1647, a nau capitânia do galeão, Santissimo Sacramento (sob o comando do Comodoro Luís de Miranda Henriques) e seu navio consorte, Nossa Senhora da Atalaia(capitaneado por Antonio da Câmara de Noronha) naufragaram ao tentar contornar o Cabo do Bom Esperança (Theal, 1902: 297). O relato aqui apresentado foi originalmente escrito por Bento Teyxerya Feyo, funcionário do tesouro na Índia que sobreviveu ao naufrágio do Nossa Senhora da Atalaia e detalhou a sua história ao rei D. João IV, que prontamente solicitou um relatório escrito (Duffy, 1955: 42-43). No dia 20 de fevereiro de 1647, Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora da Atalaia partiram para Portugal, transportando de Goa o vice-rei da Índia portuguesa, Dom Filippe Mascarenhas (Theal, 1902: 297). O navio navegou ao longo da costa indiana em direção ao noroeste e manteve esse rumo com ventos favoráveis até uma latitude de 10 e 1/3°, norte (Theal, 1902: 297). Na madrugada de 2 de março, Santíssimo Sacramentoavistou um navio estrangeiro e o comodoro levantou uma bandeira e zarpou antes de disparar dois tiros de festim, forçando o navio estrangeiro a enrolar as velas e enviar um barco para negociar. Os navios portugueses ficaram à deriva ao lado deste navio durante quatro dias e noites enquanto o comodoro considerava capturá-lo, embora ele tivesse uma licença do vice-rei e pertencesse ao rei de Masulipatam, do qual o Estado da Índia recebeu recursos substanciais através da aquisição do Ceilão ( Theal, 1902: 297- 298). Contudo, os oficiais de Nossa Senhora da Atalaiadiscordou das intenções do comodoro e argumentou que o navio estrangeiro deveria ter permissão para continuar sua viagem. Assim, no dia 5 de Março, os portugueses partiram deste navio estrangeiro a pedido de marinheiros mais experientes que desejavam evitar contornar o cabo no inverno, quando as tempestades são mais numerosas e violentas. Depois de cruzarem o equador, os portugueses seguiram em frente com fortes chuvas e calmarias, durante as quais o galeão São Pedro os ultrapassou, mesmo depois de terem saído de Goa quinze dias após a partida. São Pedropermaneceu ao lado do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora da Atalaia durante 20 dias antes de se separarem (Theal, 1902: 298). No dia 19 de abril, domingo de Páscoa, o capitão do Nossa Senhora da Atalaia ordenou que fizessem uma saudação de sete tiros ao Santíssimo Sacramento . Imediatamente após este acto, o Nossa Senhora da Atalaia teve uma fuga, acumulando quatro palmos de água (cerca de 4 m), que era bombeada duas vezes por dia pelos rapazes e escravos do navio (Theal, 1902: 298). No dia 10 de junho, com ventos ideais, os portugueses
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    atingiram a latitudede 33° Sul; porém, o mastro principal do Nossa Senhora da Atalaia quebrou e devido a isso e ao vazamento do casco, o Nossa Senhora da Atalaia solicitou que o Santíssimo Sacramentopermanecer com eles por uma semana enquanto tentavam consertar o mastro principal. No entanto, devido às condições meteorológicas adversas, não conseguiram reparar o mastro (Theal, 1902: 299). Em 12 de junho, oito marinheiros, cinco artilheiros, quatro marinheiros e vários passageiros já haviam morrido de doenças. Ao cair da noite do dia 12, soprou uma brisa pouco antes do pôr do sol enquanto os portugueses navegavam para terra com vento oeste- noroeste; o céu ficou vermelho quando espessas nuvens negras surgiram e um relâmpago iluminou um peixe orelhão (peixe-lua), um presságio que indicava aos portugueses que uma grave tempestade se aproximava deles. Logo o vento começou a rugir e em resposta a Nossa Senhora da Atalaiaenrolou as velas superiores e a vela spritsail. O mar começou a subir e o vento aumentou, inclinando tanto o navio que ele absorveu grandes quantidades de água. Foram dados comandos para derrubar o pátio principal, um furioso furacão de vento levou violentamente a vela grande e a vela de proa e os despedaçou. O navio permaneceu à mercê das ondas até que a tripulação finalmente ergueu uma vela de tempestade no mastro de proa e posicionou a verga principal a meio mastro de altura, com a vela esticada de cima para baixo (Theal, 1902: 299). O navio permaneceu neste estado de golpe durante o resto da noite, forçando o casco e levando pelo menos 10 palmos de água (cerca de 10 m) (Theal, 1902: 299-300). Na manhã seguinte, Nossa Senhora da Atalaia viu-se sozinha, sem a companhia do Santíssimo Sacramento . À medida que a tempestade prosseguia durante a noite seguinte, Nossa Senhora da Atalaia foi castigada pelos ventos e pelas ondas, castigada pelo granizo e à mercê dos trovões e dos relâmpagos. O navio continuou a navegar com o vento de popa enquanto a tripulação conseguia retirar a lona restante do pátio da vela spritsail e substituí-la por uma nova. Nos dois dias seguintes, eles trabalharam vigilantemente as bombas enquanto o tempo acalmava e Nossa Senhora da Atalaianavegou à vista de terra a uma latitude de 32°. Nos dias seguintes, a tripulação navegou em direção a terra com a esperança de consertar o navio, bombear sua água e se sustentar com a pesca. Nesta altura o comandante do navio Jacinto António achou que seria melhor regressar a Moçambique antes que o tempo piorasse novamente, assegurar a propriedade do rei, salvar o navio e obter ajuda para os doentes e feridos. No entanto, a vontade do comandante desagradou aos que estavam a bordo do navio, muitos dos quais tinham negócios em Portugal e canela na carga que pretendiam evitar que estragasse, pelo que coagiram o comandante e os que com ele concordaram a manter o rumo para Portugal. Navegando para sul nos próximos dias Nossa Senhora da
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    Atlaiaaumentou sua latitudepara dobrar o Cabo. Todos a bordo do navio se revezavam no trabalho das bombas para que nunca parassem de esvaziar o porão. A tripulação tentou tirar água do porão convertendo barris em baldes e abrindo escotilhas de artilharia para usar como poços, mas estes esforços foram de pouca ajuda, devido a quatro canhões armazenados que bloqueavam as escotilhas (Theal, 1902: 300-301) . Nessa época, espalharam-se rumores entre a tripulação e os passageiros de que muitos joelhos do convés do navio estavam quebrados. Ficou acordado que Nossa Senhora da Atalaia deveria procurar uma latitude diferente e com tempo melhor para que a tripulação pudesse livrar o navio da água (Theal, 1902: 301). Pouco depois, o comandante, os oficiais e o capitão desceram ao convés para inspecionar o casco, regressando com três pregos nas mãos e exclamando que “o navio estava em condições de ir para Jerusalém” (Theal, 1902: 301). Nada mais foi discutido sobre a viagem, além da necessidade de chegar a Portugal o mais rápido possível. A vela de traquete foi lançada na noite de 29 de junho para dirigir o navio de volta à terra. O segundo piloto avisou ao piloto que terra estava próxima, e este respondeu que não tinha nada a temer, pois já navegava nesta costa há muito tempo. Em pouco tempo, um marinheiro de vigia gritou “desviem-se, irmãos”, quando o navio se viu em um banco de areia, a oito braças (cerca de 15 m) de água, no mar próximo à Baía de Algoa. A tripulação desenrolou apressadamente a vela principal. Guiados pelo segundo piloto estacionado nas travessas, conseguiram levar Nossa Senhora da Atalaia de volta ao mar com o auxílio de uma brisa terrestre e o esforço de todos a bordo (Theal, 1902: 301). Infelizmente, devido a este acontecimento, o navio vazou mais do que antes, com água entrando por todas as costuras (Theal, 1902: 302). Este problema foi ampliado à medida que uma tempestade se aproximava no dia seguinte, forçando todas as bombas a funcionarem indefinidamente. Enquanto a tempestade avançava, Nossa Senhora da Atalaianavegou usando suas velas de tempestade dianteiras, mas lançou-se com tanta força que a tripulação temeu que ela quebrasse no meio do navio a cada hora. A tempestade foi tão violenta que levou as ondas por cima da lanterna e dos mastros da popa. No comando, o segundo piloto viu-se sozinho e quase se afogou pelas ondas enquanto o restante da tripulação atendia às bombas. Embora os que estavam a bordo do navio fossem poucos, eles nunca pararam de operar as bombas neste momento. Os oficiais faziam a manutenção da bomba de estibordo, os rapazes do navio trabalhavam a bomba de bombordo e os escravos africanos administravam a bomba de roda, cuja corrente quebrava a cada hora (Theal, 1902: 302). À medida que a vigília noturna se aproximava, os escravos foram ordenados a manter as bombas durante a noite; porém,
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    devido à exaustão,apenas dois homens operaram as bombas. À medida que a água aumentava durante a noite, os homens nas bombas tentaram avisar os demais, mas receberam ordens de não causar distúrbios no navio. Ao amanhecer, a tripulação abriu a grande escotilha e encontrou a água agora elevada acima do lastro. Mais barris foram então convertidos em baldes para remover a água que subia, mas novamente esses esforços foram infrutíferos nas duas horas seguintes, à medida que o navio recebia mais água a cada arremesso. Eventualmente,Nossa Senhora da Atalaia absorveu tanta água que os pimenteiros estouraram, sufocando as bombas e inutilizando-as. A tripulação continuou tentando remover a água usando barris trabalhados com o cabrestante, mas isso teve pouco efeito na redução dos volumes de água que sempre entravam. Enquanto isso, à ré do mastro principal, a tripulação abriu uma escotilha e tentou retirar a água usando duas tinas, mas acabou recuperando mais pimenta do que água (Theal, 1902: 303). Nessas condições, a proa do navio afundou e passou a recusar-se a acatar os comandos do leme. Abaixo, a água cobria as braçolas da proa e as escotilhas inferiores em pelo menos duas mãos acima do convés inferior. Nossa Senhora da Atalaiapassou dois dias e noites nesta condição antes de avistar terra. Ao amanhecer do terceiro dia, a tripulação avistou uma crista densamente arborizada na foz de um rio com uma longa praia de areia e uma grande baía, onde presumiram que poderiam desembarcar usando o barco do navio. No entanto, devido ao estado de degradação do navio, foi decidido que os portugueses o desembarcariam atirando ao mar a artilharia, que estava toda apontada pelas vigias. Este esforço foi além das capacidades da tripulação e apenas duas peças foram atiradas para fora do navio. Com ventos favoráveis, mas ondas fortes, a tripulação desenrolou a vela principal, que se despedaçou à medida que a içaram, assim como a vela superior, a vela espirra, a vela principal e, finalmente, a vela grande (Theal, 1902: 303). Enquanto isso, o capitão ordenou ao artilheiro que colocasse pólvora e balas nos barris, e recolher todas as armas, cobre e bronze para a segurança de um acampamento, caso sobrevivam ao desembarque e precisem negociar com os povos indígenas (Theal, 1902: 303-304). A noite seguinte foi passada retirando o máximo de água possível com baldes, para ganhar tempo para o pouso, enquanto fogueiras nativas já podiam ser vistas acesas na orla próxima. Na manhã seguinte, 2 de julho, os portugueses prepararam o barco para desembarcar alguns dos seus. Levantando a âncora à medida que o vento aumentava, eles dirigiram-se para terra com o traquete erguido e lançaram âncora na baía a sete braças (cerca de 13 m) de profundidade. Sob o comando do mestre, as adriças principais foram cortadas e o pátio foi cortado em pedaços para ajudar quem desembarcava. O barco foi lançado com aqueles armados
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    com armas eprovisões para que pudessem garantir um local em terra. Enquanto isso, os que permaneceram a bordo continuaram a operar as bombas, ganhando o máximo de tempo possível. Quando o barco chegou à arrebentação, já era tarde e a corrente revelou-se incrivelmente forte, obrigando-os a regressar ao mar.Nossa Senhora da Atalaia. À medida que a maré recuava após o anoitecer, o navio atingiu o solo, danificando o leme. Em resposta, a tripulação cortou os mastros principais e de proa, enquanto lançava outra âncora para evitar ser arrastada para o mar. Quando a maré voltou, o navio começou a flutuar novamente em oito braças de água. Após o amanhecer do dia 3 de julho, os portugueses reuniram todas as cordas finas e configuraram-nas numa linha de surf, ao mesmo tempo que recolheram pessoas, armas e objetos de valor portáteis. Com uma das pontas da linha de surf amarrada a bordo do navio, o pequeno barco foi remado em direção à costa com muito cuidado, pois a rebentação em torno das ondas era forte. Os que estavam no barco chegaram à costa com segurança e sem interferência, já que nenhum nativo estava presente. Ao desembarcar eles armazenaram tudo o que puderam carregar na costa antes de retornar ao navio para resgatar o capitão Aqueles com boa saúde passaram o dia indo e voltando do barco, enquanto outros permaneceram em terra para vigiar a carga que estava sendo desembarcada e auxiliar os que trabalhavam no barco. Muitos que ainda estavam em Nossa Senhora da Atalaia estavam fracos demais para ajudar no transporte da carga, o que fez com que muitas das provisões fossem deixadas a bordo. Dos mais de 1.000 sacos de arroz, apenas 30 foram trazidos para terra. O barco fez quatro viagens para terra neste dia, a última transportando aproximadamente 70 homens, incluindo oficiais do navio, membros da igreja e numerosos escravos. Esta última viagem à costa encontrou grande dificuldade, pois o barco estava carregado até a amurada. Naquela noite o novo tempo tempestuoso significou extremo perigo para o capelão e vários outros homens que permaneciam a bordo Nossa Senhora da Atalia . Na manhã do dia 5 de julho, muitos que haviam pernoitado na praia embarcaram no barco para retornar a Nossa Senhora da Atalaia para carregar mantimentos. Usando a linha de surf o barco chegou em segurança ao navio; no entanto, durante a viagem de regresso, um escravo chinês a bordo do Nossa Senhora da Atalaia cortou a linha de rebentação da cabeça do gato. Sem esta corda para estabilizar o barco, o navio superlotado rompeu nas ondas, espalhando muitos dos que estavam a bordo, dos quais 50 se afogaram (Theal, 1902: 305). Os sobreviventes arrastaram o barco destruído até à costa, mas não conseguiram salvar nenhuma da sua carga (Theal, 1902: 305-306).
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    O capitão mandouconsertar o barco no dia seguinte e ofereceu uma recompensa de 500 xerafins a quem quisesse voltar para Nossa Senhora da Atalaia. Ninguém em terra aceitou o desafio, pois o mar ainda estava revolto e eles ainda estavam dominados pelo medo dos acontecimentos do dia anterior. Aqueles que ainda estavam a bordo do navio dispararam uma arma indicando o perigo e os seus gritos de socorro podiam ser ouvidos em terra (Theal, 1902: 306). A essa altura, apenas o castelo de popa do navio permanecia acima da água. Neste momento, as pessoas encalhadas atiraram-se ao mar e agarraram-se a pedaços flutuantes do casco. Alguns chegaram em segurança à costa, enquanto outros se afogaram. Na noite seguinte, alguns dos escravos africanos dirigiram-se para a costa e alertaram os oficiais de que algumas pessoas permaneciam no navio, agarradas a uma amurada do convés de popa. Ao amanhecer de 6 de julho, o navio se despedaçou, espalhando madeiras pela baía e jogando os restos de alguns baús na costa.Nossa Senhora da Atalaia now found themselves poverty-stricken and naked (Theal, 1902: 306). O capitão reuniu então os sobreviventes, dividindo-os em três unidades distintas, encarregando-se dos passageiros e colocando a tripulação e os rapazes do navio sob os oficiais. Ele designou alguns homens de confiança para coletar provisões e fez com que os sobreviventes se mudassem da praia para o interior. Aqui fizeram abrigo com tendas de lona, vigiaram as provisões e planejaram a futura viagem em direção ao Cabo Correntes. Aqui permaneceram onze dias, sofrendo de fome e desidratação, pois as provisões eram minúsculas e a água que colhiam no rio Infante ficava a quase uma légua de distância (Theal, 1902: 306). Estas condições causaram doenças em massa e várias mortes entre os sobreviventes (Theal, 1902: 306-307). O acampamento foi salvo da fome total pelos mexilhões expostos na praia durante a maré baixa. O capitão confiou a vários homens capazes a autoridade para comandar os sobreviventes, ao mesmo tempo que designou três homens que já haviam naufragado nesta costa como embaixadores caso aparecessem nativos. No dia 8 de Julho o piloto e outros deslocaram-se até ao rio Infante, de onde avistaram uma crista densamente arborizada que se estendia a noroeste e a costa se prolongava por mais de duas léguas, rodeada por colinas de areia branca. Aqui o grupo mediu sua latitude como 33 e 1/3°. Os nativos foram avistados na costa e posteriormente abordaram os portugueses, mas os dois grupos não tinham uma língua comum entre eles. De volta ao acampamento, as provisões e suprimentos resgatados pelos sobreviventes foram divididos e registrados no livro do rei. Estes incluíam armas pequenas, balas, pólvora, cocos, cobre para troca e linhas e anzóis para atravessar o rio (Theal, 1902: 307). Sobras de cobre e pólvora foram enterradas no acampamento para garantir que os nativos não os
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    recuperassem e possivelmenteinflacionassem os seus preços quando os portugueses precisassem negociar com eles. Enquanto examinavam as provisões, os portugueses também descobriram que o arroz estava apodrecido devido à água do mar, o que significa que teriam de agilizar a partida. Nos dias que antecederam a partida, o capitão tentou persuadir o piloto a construir um barco e levar os gravemente feridos de volta para um local seguro, mas o piloto recusou. Um nobre, que estava muito ferido e doente para andar, prometeu a cada navio 800xerafins (moeda) se eles o carregassem com uma rede durante a próxima viagem; vários outros nobres tentaram façanhas semelhantes, confeccionando redes com redes, tapetes, tecidos e varas de remos para que seus escravos pudessem carregá-las. Outros usavam pedaços de madeira como muletas e bengalas improvisadas, enquanto os saudáveis carregavam os braços e bolsas cheias de cobre e linho (Theal, 1902: 308). Os sobreviventes preferiram adiar a partida para sararem dos traumas sofridos, mas a falta de provisões obrigou-os a partir para Moçambique no dia 15 de julho (Theal, 1902: 308). Eles logo perceberam que muitos estavam fracos demais para suportar a viagem; na verdade, alguns ficaram para trás no primeiro dia da jornada e morreram de exaustão e ferimentos ou foram mortos por nativos que seguiram o grupo e saqueados de qualquer retardatário. Após este trágico primeiro dia de viagem, foi realizado um conselho sobre o que deveria ser feito em relação às mulheres e aos feridos. Eles já estavam com pouca comida, tinham muito poucos bens para oferecer em troca e estavam a um mês de distância de qualquer terra onde pudessem negociar. O conselho concluiu deixar para trás aqueles que não estavam em condições de acompanhar o ritmo e que as mulheres deveriam marchar na frente, mas serem abandonadas se ficassem para trás (Theal, 1902: 309). Meses depois, no final de novembro, os poucos que restaram da companhia de Nossa Senhora da Atalaia encontraram homens do Santíssimo Sacramento , sua nau capitânia. Esta embarcação naufragou após a sua separação e agora só restavam dos seus passageiros nove homens desarmados, cinco dos quais portugueses, que agora se juntavam à companhia dos sobreviventes de Nossa Senhora da Atalaia (Theal, 1902: 349). Na noite seguinte os nove sobreviventes do Santíssimo Sacramento deram o seguinte relato do ocorrido com o Santíssimo Sacramento : Durante a tempestade que separou o Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora da Atalaia , a primeira viu-se sem vela grande, mas felizmente por ter enrolado a vela de gávea antes da tempestade. Usando as velas de tempestade, eles dirigiram o navio para leste-nordeste, enquanto a tempestade causava vazamentos no navio. Quando a tempestade passou
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    na manhã seguinte,eles conseguiram estancar os vazamentos, mas agora estavam sem a companhia de Nossa Senhora da Atalaia. Neste momento a tripulação decidiu seguir em direção à terra. Eles logo foram surpreendidos por outra tempestade. Depois de resistir a esta segunda tempestade, os portugueses decidiram continuar o seu percurso em direcção ao Cabo da Boa Esperança, certificando-se de manter a vista de terra ao fazê-lo. Na noite de 29 de Junho ocorreu o desastre, pois os portugueses navegavam muito perto de terra utilizando o traquete, após o que o piloto-chefe foi instruído a virar a embarcação em direcção ao mar, o que ele fez (Theal, 1902: 350). No entanto, após o anoitecer, o piloto-chefe mudou o curso de volta para terra, ao ouvir gritos da tripulação de que estavam muito perto da costa, ele tentou voltar para o mar (Theal, 1902: 350-351). Era tarde demais. O galeão errou os estais e recusou-se a virar completamente, apesar dos esforços para desenrolar a vela de proa e a vela espirra. A proa do navio então virou bruscamente em direção à costa e, mesmo com a tripulação controlando as velas e o leme, ele derivou em direção à terra pelas duas horas seguintes. Eventualmente, a 34° de latitude, Santissimo Sacramentoatingiu uma onda substancial que despedaçou o navio. Anteriormente, muitos a bordo, incluindo o capitão e os religiosos, iam às galerias para rezar. Este ato seria desastroso, pois as galerias eram levadas para as profundezas junto com a popa do navio após o impacto com a onda. Alguns dos sobreviventes que se encontravam na proa do navio conseguiram desembarcar agarrando-se aos estaleiros e aos pedaços de madeira flutuantes. Um total de 72 pessoas sobreviveram ao naufrágio do Santíssimo Sacramento e chegaram à costa, muitos dos quais sofreram ferimentos graves. Os sobreviventes permaneceram neste local por onze dias antes de seguirem em frente. Depois de caminhar por aproximadamente um mês, se depararam com os restos mortais de Nossa Senhora da Atalaia, e alguns retardatários abandonados, mal conseguindo sobreviver, que revelaram ter sido deixados para trás pelos sobreviventes de Nossa Senhora da Atalaia há 28 dias. Depois de recuperar neste local alguma pólvora e munições, e reabastecer-se com pedaços de couro, o elogio do Santíssimo Sacramentoseguiu em frente, seguindo uma trilha de abandonados e ou mortos do naufrágio de Nossa Senhora da Atalaia . O grupo do Santíssimo Sacramento continuou até chegar ao rio onde Nossa Senhora de Belém naufragou. Por esta altura apenas 10 dos 72 Santissimo Sacramento originaisrestaram sobreviventes, os outros foram deixados para trás, ou morreram nas mãos dos habitantes locais, ou morreram de fome. Muitos foram deixados para trás quando ficaram exaustos demais para continuar a viagem (Theal, 1902: 351). A situação deteriorou-se a ponto de os sobreviventes do Santissimo Sacramento devorarem qualquer coisa que considerassem ser comestível,
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    desde gafanhotos acouro de sapato e cartas de marinheiros. Aqueles que consumiram o mapa morreram envenenados por mercúrio de seus pigmentos. Eventualmente, recorrendo a informações fornecidas por nativos amigos, os sobreviventes do Santíssimo Sacramento contactaram os seus colegas de Nossa Senhora da Atalaia (Theal, 1902: 352). O grupo recém-constituído retomou a viagem costa acima. Em 14 de dezembro, os sobreviventes chegaram ao território de um rei amigo, Unyaca, que os abrigou e lhes contou sobre um navio vindo de Moçambique que estava ancorado na vizinha Ilha Shefina, a doze léguas (cerca de 66 km) de distância. Vários dos sobreviventes portugueses, escoltados por nativos, dirigiram-se a Shefina, para contactar este navio (Theal, 1902: 354). Eles encontraram uma galiota e foram recebidos com alegria por sua tripulação. Ao ouvir as histórias dos sobreviventes, o capitão enviou seu piloto e um grupo de volta a Unyaca, com suprimentos para troca. No dia 28 de Dezembro, os restantes sobreviventes partiram de Unyaca para o navio português em Shefina, embora nem todos tenham sobrevivido a esta última etapa da viagem (Theal, 1902: 355). No dia 5 de Janeiro os sobreviventes chegaram à ilha onde o galiota estava fundeado (Theal, 1902: 357). Permaneceram na ilha durante seis meses enquanto o navio completava a sua actividade, abrigado em cabanas de palha construídas e compradas aos locais (Theal, 1902: 358). Embora os sobreviventes possam ter sido mais bem protegidos e abastecidos do que anteriormente, uma maior parte dosSantíssimo Sacramento e Nossa Senhora da Atalaiamorreram. Por fim, o galeota levantou âncora e rumou para Moçambique no dia 22 de junho, onde chegou no dia 9 de julho. De Moçambique, um punhado de sobreviventes portugueses partiu então para Goa em 11 de Setembro, onde foi alcançada em 8 de Novembro (Theal, 1902: 359). Descoberta e Recuperação Segundo informações prestadas ao Museu de Port Elizabeth por CR Boxer, o Santissimo Sacramento foi construído em teca nos estaleiros de Bassein, a norte de Goa. Foi classificado como um galeão de 80 canhões. Relatórios dos serviços secretos holandeses dizem que foi levado de Bassein para o rio Peneum, a sul de Goa, em Abril de 1640, poucos dias antes de um bloqueio da frota holandesa aos portos portugueses ao longo da costa do Malabar. Esses relatórios holandeses também mencionavam que o Santissimo Sacramento sofria de vazamento, tinha uma lista, estava inadequadamente mobiliado e eles não tinham certeza de sua navegabilidade. Foi na sua viagem inaugural a Portugal que o Santíssimo Sacramento navegou com Nossa Senhora da Atalaia e posteriormente naufragou (Bell-Cross, 1988: 78).O Santissimo Sacramento naufragou a sudoeste da moderna Port Elizabeth, na África do Sul, nove milhas (14 km) a
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    leste do faroldo Cabo Recife (Allen e Allen, 1978: 39). A área é descrita como tendo: correntes violentas entrando e saindo entre os recifes que ficam perto da costa, e uma sucessão de pequenas baías rasas que se estendem do Cabo Recife até Shoenmakerskop (outra cidade próxima) em penhascos que caem talvez a trinta metros das rochas irregulares abaixo… O litoral consiste em rochas altas costeiras com muitas ravinas correndo entre elas, com longos recifes que se estendem em alguns lugares a poucos metros do mar. Em alguns pontos há mais recifes ainda mais distantes. (Allen e Allen, 1978: 39) Em 1976, David Allen, que cresceu na área de Port Elizabeth, estava determinado a encontrar os destroços do Santissimo Sacramento . Estudando textos históricos para a possível localização do naufrágio, Allen logo percebeu que quase todos os autores sobre o assunto haviam colocado a perda do Santíssimo Sacramento em um local diferente. A única constante nestas discussões, notada por Allen, foi a conclusão de que o Santíssimo Sacramento acabou perto de Nossa Senhora da Atalaia . Allen, porém, discordou dessa ideia, pois não fazia sentido os sobreviventes do Santíssimo Sacramento marcharem por um mês antes de se encontrarem com os sobreviventes de Nossa Senhora da Atalaia., conforme registrado no relato do naufrágio. Além disso, no relato de Feyo, o maior Santíssimo Sacramento foi arrastado para o mar, longe de Nossa Senhora da Atalaia . Allen deduziu que isso significava que o Santíssimo Sacramento entrou na famosa Baía de Algoa, perto do Cabo Recife, mas não muito perto, pois o relato de Feyo não incluía uma representação das rochas intrínsecas à paisagem do Cabo Recife. Assim, a teoria de Allen favoreceu aquela proposta por Eric Axelson na qual ele afirmava que o Santíssimo Sacramentonaufragou no Cabo Recife (Allen e Allen, 1978: 45- 46). A atenção de Allen foi atraída para um mapa do Cabo Recife de 1778, desenhado pelo coronel Robert Jacob Gordon, da Companhia Holandesa das Índias Orientais (Allen e Allen, 1978: 45; Bell-Cross, 1988: 79). Neste mapa, Gordon ilustrou com precisão a localização do Cabo Recife e ao sudeste, onde se localizava o atual Schoenmakerskop, ele acrescentou um 'X'. Em suas notas marginais ele anotou o 'X' com a seguinte descrição: Perto dos destroços, nas dunas, os restantes miseráveis náufragos construíram algumas barracas de abrigo na areia, agora sem… habitantes porque todos pensam que morreram de fome. Encontrei alguns esqueletos que com a ajuda do meu [escravo?] enterrei. Ali estavam os restos de uma pequena caixa de marfim lindamente esculpida, que poderia ter sido um santuário para um cálice católico romano; também duas âncoras
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    enferrujadas e umcanhão, que como as ondas eram fortes, a praia rochosa, não consegui reconhecer, também alguns pedaços de ébano. (Forbes, 1949: 12, conforme citado em Bell-Cross, 1988: 79; Allen e Allen, 1978: 45) Não muito depois, Allen encontrou documentos do Sr. HG “Hal” Harraway, observando a descoberta de um canhão preso nas rochas perto de Schoenmakerskop em 1951. Usando trabalhadores locais e uma equipe de 20 bois, Harraway conseguiu recuperar o canhão, que foi posteriormente exposto no Museu de Port Elizabeth (Allen e Allen, 1978: 46; Bell-Cross, 1988: 79). Harraway detalhou o canhão como sendo feito de bronze, pesando até 6.000 libras (2.722 kg), medindo doze pés (4 m) de comprimento e contendo uma inscrição no cano que se presumia estar em holandês. De acordo com Allen, Harraway contatou o diretor do Museu Histórico Marítimo da Holanda em setembro de 1960, em parte para identificar o canhão. Na correspondência descoberta por Allen, escrita ao museu por Harraway, ele mencionou: “De acordo com os especialistas que tentaram decifrá-lo, a inscrição (canhão) deveria ser: 'Contraet Wegt Woert me Fecit Hagae.'” Assim, Harraway acreditava que os destroços eram holandeses. Allen, não convencido de que o canhão pertencia a um navio holandês, investigou mais profundamente as anotações de Harraway, onde encontrou uma resposta datada de quatro anos depois do Museu Histórico Marítimo da Holanda que dizia: “A inscrição no canhão de bronze deveria ser 'Conraet Wegewaert me Fecit Hagae'. É o nome de um fundador de armas que trabalhou em Haia em meados do século XVII. onde encontrou uma resposta datada de quatro anos depois do Museu Histórico Marítimo da Holanda que dizia: “A inscrição na arma de bronze deveria ser 'Conraet Wegewaert me Fecit Hagae'. É o nome de um fundador de armas que trabalhou em Haia em meados do século XVII. onde encontrou uma resposta datada de quatro anos depois do Museu Histórico Marítimo da Holanda que dizia: “A inscrição na arma de bronze deveria ser 'Conraet Wegewaert me Fecit Hagae'. É o nome de um fundador de armas que trabalhou em Haia em meados do século XVII.século XIX até 1664” (Allen e Allen, 1978: 46). Allen percebeu que isso significava que a arma de Harraway poderia ter sido um canhão holandês capturado montado no Santissimo Sacramento (Allen e Allen, 1978: 46). Harraway contactou o geógrafo sul- africano Vernon S. Forbes, numa tentativa de identificar a arma, e foi-lhe dito que provavelmente pertencia a um navio francês ou português na sua viagem de regresso (Bell-Cross, 1988: 79). No dia 29 de janeiro, 1977 Allen e seu parceiro de mergulho Gerry Van Niekerk mergulharam no local do
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    naufrágio de Gordon.Pouco depois do mergulho, a dupla encontrou um grupo de canhões de bronze a cerca de 15 pés (cerca de 5 m) de profundidade (fig. 31). Relembrando a descoberta inicial, Allen afirma que o canhão mais próximo estava a cerca de 2,5 metros de profundidade e, seguindo uma linha reta mar adentro, o canhão mais distante estava a aproximadamente 400 metros de distância. No primeiro dia, a dupla registou até 21 canhões (Allen e Allen, 1978: 48). Depois de fotografar os canhões no dia seguinte, a dupla estava navegando em águas na altura dos joelhos quando tropeçaram na âncora registrada por Jacob Gordon e logo depois encontraram pedaços de ébano nas proximidades. Mais tarde, a dupla soube através dos habitantes locais que ocasionalmente estavam presentes vestígios de um parque de campismo na área com um trilho de pedras brancas que conduzia à praia (Allen e Allen, 1978: 49). Em 22 de Março, o primeiro dos canhões foi levantado por uma traineira de pesca, auxiliada por uma equipa de trabalhadores que jurou segredo e financiada por dois financiadores (Allen e Allen, 1978: 57-58). O terceiro canhão a ser levantado do fundo do oceano estava em excelentes condições e forneceu mais evidências de que os canhões eram provavelmente deSantíssimo Sacramento . Visível no cano estava o brasão português e a marca do fundador do canhão português AG Feyo. A arma tinha um fusível em seu touchhole e mais tarde descobriu-se que estava carregada. Ao todo, cinco canhões foram levantados nesta primeira operação de recuperação (Allen e Allen, 1978: 59). Em 28 de março , a traineira conseguiu levantar mais sete canhões. Foi neste lote que foi erguido o maior dos canhões, medindo dezassete pés (5 m) de comprimento (Allen e Allen, 1978: 63). Em 18 de abril, enquanto tentava recuperar um canhão adicional perto da costa, Allen tropeçou em outros 30 canhões a meia milha (0,8 km) da costa. As armas foram organizadas de cano para arrombar, pois estavam guardadas no porão do Santissimo Sacramento. Logo depois, mais perto da costa, a aproximadamente 15 m de profundidade, Allen descobriu seis canhões adicionais. Após uma inspeção mais aprofundada, Allen encontrou restos de tábuas de teca do navio sob um canhão, bem como porções de ébano e grãos de pimenta bem preservados ao redor e dentro dos canhões (Allen e Allen, 1978: 64-65). À medida que a tripulação começou a levantar alguns desses canhões recém-descobertos, tornou-se evidente que dezesseis deles eram de ferro, e foram deixados no fundo do mar para evitar a rápida corrosão no ar. Até 24 de abril, mais seis canhões foram recuperados. No dia seguinte a equipe recuperou o canhão mais bem preservado até então, contendo uma intrincada marca de rolagem e relevos decorativos de botões de lótus na cascabel, este canhão seria mais tarde identificado como um canhão Bocarro. Debaixo da arma foram descobertos pedaços adicionais de madeira, mais tarde identificada como teca indiana
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    pelos laboratórios governamentaisem Pretória (Allen, 1978:67). No final do dia, a equipe recuperou um total de 21 armas no local (Allen e Allen, 1978: 68). No final de abril, Allen descobriu a cascata destacada de um canhão na forma de um punho cerrado com um polegar pontiagudo saindo por baixo do dedo indicador, mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade encontrado nos canhões de Bocarro. Perto havia um canhão totalmente intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978: 68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seus a equipe recuperou um total de 21 armas no local (Allen e Allen, 1978: 68). No final de abril, Allen descobriu a cascata destacada de um canhão na forma de um punho cerrado com um polegar pontiagudo saindo por baixo do dedo indicador, mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade encontrado nos canhões de Bocarro. Perto havia um canhão totalmente intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978: 68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seus a equipe recuperou um total de 21 armas no local (Allen e Allen, 1978: 68). No final de abril, Allen descobriu a cascata destacada de um canhão na forma de um punho cerrado com um polegar pontiagudo saindo por baixo do dedo indicador, mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade encontrado nos canhões de Bocarro. Perto havia um canhão totalmente intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978: 68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seus mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade encontrado nos canhões Bocarro. Perto havia um canhão totalmente intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978: 68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seus mais tarde confirmado como um símbolo de fertilidade encontrado nos canhões Bocarro. Perto havia um canhão totalmente intacto com uma cascata correspondente. Este canhão seria mais tarde referido como o “canhão milagroso” de Bocarro (fig. 32) (Allen e Allen, 1978: 68, 72). Com a adição deste canhão, a equipe de Allen descobriu um total de 41 canhões no local do naufrágio. Autenticação de seusA proveniência do Santíssimo Sacramento foi confirmada por uma inscrição no canhão mais bem conservado que dizia: “António Teles
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    Menezes, Governador daÍndia, ordenou isto no ano de 1640 por Manuel Taveres Bocarro” (Allen e Allen, 1978: 69). Além desta inscrição, relatórios holandeses contemporâneos foram disponibilizados por CR Boxer que afirmava que o Santíssimo Sacramentopartiu de Goa em 1647, “Totalmente carregado com as mais belas mercadorias… e no seu porão veio uma quantidade de canhões que a Cidade de Deus (Macau) na China enviou como presente a sua majestade” (Allen e Allen, 1978: 69 ). Em 29 de abril, um pequeno canhão de bronze adicional foi levantado do local e em 2 de maio, a tripulação recuperou o chamado canhão milagroso. Posteriormente, a tripulação levantou os canhões restantes da área do suposto porão, cinco no total naquele dia, e registrou a localização dos canhões de ferro ainda pousados no fundo do mar. No dia 11 de maio, mais sete canhões de bronze foram erguidos do fundo do mar (Allen e Allen, 1978: 70). A tripulação retornou ao local do naufrágio no dia 20 de maio, recuperando seis canhões de bronze, metade de uma arma e um rolo de chumbo que se acredita ter sido usado para reparos de navios a bordo do Santissimo Sacramento .. Esta última viagem finalizou o salvamento do local do naufrágio (Allen e Allen, 1978: 76). Ao final do projeto, um total de 40 canhões foram recuperados dos destroços do Santissimo Sacramento , 21 dos quais se acredita terem sido originalmente guardados no porão do navio (Tabela 5). Infelizmente, em 8 de Julho, 17 dos canhões de bronze mais degradados foram vendidos como sucata a 75 cêntimos por quilograma (Allen e Allen, 1978: 76). Além do ébano e da teca anteriormente mencionados por Allen, outros artefactos recuperados incluíam porcelana azul e branca e pedras de pórfiro granítico que poderiam ter pertencido ao lastro do navio (Bell-Cross, 1988: 79). Devido ao inventário arqueológico do Santissimo Sacramento consistir quase exclusivamente de canhões de bronze, é vital saber como tais armas foram feitas e usadas para compreender completamente o seu contexto a bordo do Santissimo Sacramento e o significado mais amplo para a artilharia naval do século XVII . Recorri a uma publicação de John F. Guilmartin, Jr. intitulada “The Guns of the Santissimo Sacramento ”, não deve ser confundida com a publicação de Geoffrey Allen e David Allen intitulada “The guns of Sacramento”, O estudo de Guilmartin avalia os canhões do galeão português de 60 canhões que naufragou no Brasil em maio de 1668, enquanto o trabalho de Allen detalha o galeão português de 80 canhões que naufragou na costa sudeste da África em 1647 (Navegantes, 1979: 215 , conforme citado em Guilmartin, 1983: 559, 570; Allen e Allen, 1978). O primeiro ponto a ser discutido sobre o tema dos dias 16 a 17 canhões de pólvora preta carregados pela boca do século XX, é que a velocidade máxima potencial é alcançada em cerca de dezoito calibres no cano ou
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    dezoito vezes odiâmetro do cano. A taxa de queima da pólvora negra não muda devido à pressão ou temperatura, o que significa que o comprimento efetivo do cano é essencialmente estático e qualquer comprimento adicional do cano acima de dezoito calibres não afeta o alcance do canhão (Guilmartin, 1974: 277-283, conforme citado em Guilmartin, 1983 : 563). Guilmartin afirma que os canhões de cano liso que usam projéteis esféricos eram essencialmente imprecisos; o tiro salta aleatoriamente ao longo do comprimento do furo, adquirindo rotação, tornando infrutífera qualquer tentativa de atingir um alvo a mais de 500 jardas (472 m). Além disso, uma bala de canhão de ferro tem poder destrutivo finito no final do seu alcance, Guilmartin prossegue apontando que o comprimento do cano dos canhões de bronze era essencial para a resistência da arma. Na tradição da Europa Ocidental, os canhões eram fundidos num poço com a culatra para baixo, sendo o bronze fundido despejado no molde na boca do cano através de um sino de fundição (Guilmartin, 1974: 284-291, conforme citado em Guilmartin, 1983: 564). Como a pressão do metal fundido era proporcional à altura da coluna líquida, o sino de fundição alongou a altura da coluna, aumentando a pressão sob a qual o bronze na culatra solidificou. O sino foi removido após o lançamento. Esta técnica aumentou a pressão de fundição, ajudou a reduzir os efeitos negativos causados pelas impurezas do metal e, dada a porosidade inerente ao bronze, tornou-o mais resistente em direcção à culatra onde ocorreu a ignição da pólvora (Guilmartin, 1983: 564). Além disso, quanto mais grosso o cano, mais fortes tendiam a ser os canhões. À medida que os fundadores se tornaram mais hábeis, nomeadamente capazes de manter uma melhor qualidade de metal, os canhões encolheram e tornaram-se mais finos (Guilmartin, 1974: 170-173, conforme citado em Guilmartin, 1983: 564-565). Segundo Guilmartin, o conhecimento dos princípios da fundação de armas estava representado em obras de fundadores superiores que também eram consistentes em peso, dimensões e composição metálica. Essa habilidade e conhecimento ajudaram a reduzir a quantidade de bronze utilizada no processo de fundição, resultando em armas mais leves, mais econômicas e em peças de qualidade superior. Lançar um canhão com força inadequada pode ter consequências desastrosas, fazendo com que ele exploda ao disparar. Guilmartin observou que o comprimento do cano e a espessura da parede do cano em função do diâmetro do cano dão uma boa indicação da qualidade do canhão (Guilmartin, 1983: 566). Quanto à relação entre os canhões de ferro fundido e de bronze, os primeiros eram mais pesados e maiores, embora fossem projetados para disparar projéteis idênticos. Os canhões de ferro fundido também estavam sujeitos a maiores níveis de corrosão e eram geralmente menos seguros
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    quando explodiam, poistendiam a não permanecer intactos como os canhões de bronze. Enquanto o último tipo se rompia “como uma esponja rasgada ao longo de uma linha longitudinal perto da culatra”, os canhões de ferro “explodiam em fragmentos irregulares como uma bomba” (Guilmartin, 1983: 567). Apesar de suas qualidades perigosas, os canhões de ferro eram amplamente utilizados porque o ferro custava cerca de um terço do preço do bronze. As armas de ferro não foram consideradas a arma de eleição durante este período (Cipolla, 1965: 45, conforme citado em Guilmartin, 1983: 567). Após a restauração da independência de Portugal da Espanha, em 1640, Guilmartin sugere que a mudança dos canhões de lançamento de pedras e daqueles projetados para lançar projéteis de ferro durante esta época pode ser explicada como uma questão de eficiência de custos. A passagem das balas de canhão de pedra para as de ferro fundido foi um sintoma do aumento dos custos laborais na Europa, especialmente no Norte da Europa. Embora os canhões de pedra exigissem um terço menos de bronze do que os canhões de ferro fundido, o custo da mão-de-obra para os lapidadores era imenso (Guilmartin, 1983: 590). À medida que as taxas salariais aumentaram no início do século XVI até ao século XVII No século XIX, a utilização de canhões de lançamento de pedras caiu em desuso, especialmente no norte da Europa (Slicher Van Bath, 1963: 113-115, conforme citado em Guilmartin, 1983: 590). No entanto, onde o custo da mão-de-obra era mais baixo, os canhões de lançamento de pedras continuaram a ser lançados, e os portugueses continuaram a lançá-los na Índia até meados do século XVII , muito depois de os fundadores de armas baseados na Europa terem parado de o fazer (Guilmartin, 1983). : 591). Em sua análise dos canhões do naufrágio de 1668 no Brasil, Guilmartin observa que a coleção de canhões de bronze recuperados do convés inferior incluía um canhão de 28 libras fundido por AG Feyo, o mesmo fundador que lançou pelo menos um dos canhões do naufrágio de 1647. naufrágio (Guilmartin, 1983: 575; Allen e Allen 1978: 59). Outro canhão no naufrágio de 1668, um canhão de 11 libras do convés superior, também contém a marca do fundador da AG Feyo (Guilmartin, 1983: 584). Por último, um canhão holandês de 20 libras encontrado no local de 1668, fundido em 1649, contém a marca do fundador de Conrad Wagwaert, o mesmo fundador holandês que lançou o canhão holandês recuperado por Harraway (Tabela 6) (Guilmartin, 1983: 592; Allen e Allen 1978: 46). Lastro EU Âncoras
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    N Armas N Concreções de Ferro N Cascopermanece T Calafetagem Não reportado. Fixadores A Tamanho e escantilhões T Madeira Nenhuma madeira foi relatada Reconstrução Feixe: m estimado Comprimento da quilha: m estimado Comprimento total: m estimado Número de mastros: desconhecido Referências Allen, Geoffrey e Allen, David - As Armas de Sacramento , Ed. Robin Garton, Londres, 1978. Axelson, Eric, “Recent Identifications of Portuguese Wrecks in the South African Coast, especially of the São Gonçalo (1630), and the Sacramento and Atalaia (1647),” typed manuscript in Estudos de História e Cartografia Antiga, Memórias, nº. 25. Lisboa: Instituto de Investigação Científica e Tropical, 1985. Boxer, C.R., A Índia Portuguesa em Meados do Séc. XVII. Lisbon: Edições 70, 1982. Paez, Simão Ferreira, As famosas Armadas Portuguesas 1496-1650. Rio de Janeiro: Ministério da Marinha, 1937. Procure este site Procurar Ache-nos
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    Sobre nós • Nossotime Centro de Arqueologia Marítima da Universidade de Coimbra • Centre for Maritime Archaeology Universidade de Coimbra Figueira da Foz Campus R. Graça 9, 3080-014 Figueira da Foz Portugal Centro de Estudo de Bibliotecas Digitais • Texas A&M University 3112 TAMU College Station, TX, 77843, EUA • E-mail: csdl@tamu.edu • Telefone: +1 (979) 845-3839 • Fax: +1 (979) 847-8578 Procure este site Procurar Acessibilidade • Alternar alto contraste • Alternar tamanho da fonte Ir para o conteúdo
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    A Biblioteca Digitalde Arqueologia Náutica • Lar o ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪
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    ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ • Conservação o ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ • Construçãonaval o ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ • Recursos o ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪
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    ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ • Colaboradores o ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ Nossa Senhoada Atalaia do Pinheiro (1647) Chase Oswald, Zachary Mead e Filipe Castro País: África do Sul Local: Coordenadas: Lat. ; Longo. Tipo W : Nau Identificado: Sim Datado: 1552 (Contas históricas)
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    Introdução A seguinte descriçãodos achados do naufrágio do Atalaia provém de comunicações pessoais entre o Professor CR Boxer e Graham Bell-Cross que foram publicadas originalmente no capítulo Bell-Cross “Naufrágios portugueses e identificação dos seus locais”. Mencionada já em 1640, o nome completo desta embarcação era Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiro, referindo-se à imagem sagrada da Virgem Maria numa igreja do “Pinhal de Santa Maria da Castelo de Torres Vedras”. Embora alguns textos se refiram à embarcação como galeão, a publicação da Bell-cross garante aos leitores que Nossa Senhora da Atalaia do Pinheiroera uma nau de quatro andares, com aproximadamente 1.000 toneladas e muito provavelmente equipada com cerca de 30 canhões, uma vez que a maioria dos indianos na Rota da Índia portuguesa estavam tipicamente minimamente equipados (Bell-Cross, 1988: 74). Pesquisa e descoberta After the discovery of the Atalaia’s consort Santissimo Sacramentoem 1977, os pesquisadores decidiram iniciar uma pesquisa em 1978 para descobrir a localização dos destroços contemporâneos. Bell-Cross observa que os dados disponíveis na altura indicavam que os navios do Leste com destino a Portugal transportavam cargas de porcelana azul e branca. Ao localizar depósitos da referida porcelana foi possível estabelecer a localização dos naufrágios portugueses ao longo da costa oriental sul-africana. Os investigadores iniciaram um extenso levantamento de praias na costa sudeste de África, desde a fronteira com Moçambique até à Baía de Algoa, no cabo oriental da África do Sul. Isso incluiu entrevistas com moradores locais em busca de evidências arqueológicas, como depósitos de porcelana, e levantamento de locais de porcelana já conhecidos. A pesquisa também promoveu um foco intensivo na fiscalização da costa entre o Cabo Padrone e o Rio Kei, com identificação do Rio Atalaialocal do naufrágio como objectivo principal (Bell-Cross, 1988: 74-75). No momento da concepção da pesquisa, sabia-se que um único local contendo porcelana azul e branca ficava em Ivy Bay, Port Edward, na costa de Natal. Além disso, um sítio de porcelana também era conhecido na costa de Transkei, na foz do rio Misakaba. Os pesquisadores também tinham conhecimento de cinco locais na costa leste do Cabo em Cannon Rocks, Mtana River, Bonza Bay, Sunrise- on-Sea e Double Mouth. Supunha-se que a maior parte da porcelana poderia ser datada dentro de 20 anos após sua fabricação e com a ajuda de artefatos recuperados de pesquisas e de descrições geográficas encontradas nos relatos históricos dos naufrágios, a identificação dos locais seria possível (Bell-Cross, 1988: 75). A pesquisa centrou-se originalmente na costa em torno da latitude 33 1/3° Sul, que incluía o conhecido local de porcelana junto ao Rio Mtana e
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    localizado aproximadamente entreos Rios Keiskamma e Fish; isso foi baseado no relato do sobrevivente sobre a área. No entanto, nada foi encontrado e os pesquisadores logo se concentraram em toda a costa, desde a Baía de Algoa até o rio Kei. Em 1979, Bell-Cross encontrou um grande fragmento (12 por 12 cm) de “martevan” localizado entre a foz dos rios Cinsta e Cefane (Bell-Cross, 1988: 75). Martevan ou “martaban”, como é mais comumente chamado, refere-se a grandes potes de cerâmica usados no sudeste da Ásia e originários de Martaban (Mottama), na Baixa Birmânia. O Martaban foi comumente usado durante os séculos XVI e XVII e exportado principalmente da Birmânia para o Sri Lanka e a Índia (Borell, 2014: 257; Castro, 2001: 16). Investigações posteriores neste local forneceram peças adicionais de martaban e achados de porcelana azul e branca. A inclusão deste sítio significou que havia seis sítios de porcelana conhecidos entre a Baía de Algoa e o Rio Kei (Bell-Cross, 1988: 75). A chave para determinar qual destes sítios de porcelana era o de Atalaia foi encontrada na descrição de Feyo da costa vista pouco antes do naufrágio do navio. Especificamente, Feyo observou que o navio ancorou a sete braças (27 m) de uma longa praia arenosa. Esta descrição significava que apenas dois sítios de porcelana conhecidos poderiam ser potencialmente o de Atalaia: os sítios de Mtana e do Rio Cefane. Em Janeiro de 1980, os mergulhadores envolvidos no projecto de pesquisa, Peter Sachs e Sean Mitchely, mergulharam no local do Rio Cefane. Procurando em um padrão de grade, a dupla encontrou primeiro um canhão de carregamento pela boca, seguido por um conjunto de 10 canhões de bronze e oito canhões de ferro (fig. 33). Os canhões de bronze possuíam cascabels moldados no mesmo estilo de punho-com-o-polegar-projetando-a-sob-os-dedos- indicador e médio encontrado nos canhões Bocarro do Santissimo Sacramento . Os canhões estavam dispostos de forma a sugerir que estavam guardados no casco no momento do naufrágio, como foi o caso dos canhões recuperados do Santissimo Sacramento. O exame posterior de uma inscrição num dos canos do canhão permitiu concluir que se tratava de um canhão Bocarrro, do qual se sabe que alguns foram transportados a bordo do Atalaia(Bell-Cross, 1988: 76). Após descobrirem os canhões, os mergulhadores obtiveram licença de salvamento e tomaram providências para içá-los. Para as operações de salvamento a equipe anexou bóias aos canhões do Bocarro e traçou suas posições, depois contratou a mesma traineira que serviu para içar os canhões do Santissimo Sacramento. A equipe prendeu tiras ao redor dos canhões, que foram então conectadas ao guincho de cinco toneladas da traineira. No final da primeira semana, 10 canhões Bocarro foram levantados e enviados para o East London Museum. A recuperação dos treze canhões mais próximos da costa demorou mais de dezoito meses,
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    embora pesassem significativamentemenos que os canhões Bocarro (Bell- Cross, 1988: 76). Levantar os canhões mais perto da costa era mais perigoso. Neles foram inicialmente fixados sacos de içamento e estes foram reposicionados em águas mais profundas e posteriormente levantados pela traineira. Além dos 10 canhões Bocarro, a equipe recuperou também folhas de chumbo, cacos de porcelana azul e branca, cacos de martaban esmaltados e não esmaltados, balas de chumbo para mosquetes e pistolas, duas âncoras, uma jarra de estanho amassada, um peso de sondagem de chumbo , treze outros canhões,Santíssimo Sacramento . Um grande canhão de ferro também foi levantado. Notavelmente, um dos canhões de bronze tinha a data de 1638 gravada em relevo na sua superfície superior perto do touchhole (Bell-Cross, 1988: 77-78). A madeira provavelmente pertencente ao casco foi recuperada debaixo de um dos canhões Bocarro e posteriormente identificada como carvalho perene, confirmando que o navio foi construído em Portugal (Bell-Cross, 1988: 74). Além disso, também foram recuperados no local dois brasões de bronze pesando aproximadamente 18 quilos cada (fig. 34). Normalmente encontrados em naufrágios do século 16, os coaks são definidos no Seaman's Dictio nary de Sir Henry Manwayring como “Pequenas coisas quadradas de latão com um furo, colocadas no meio de alguns dos maiores feixes de madeira, para evitar que se partam e enganem pelo pino do bloco sobre o qual giram” (Manwayring, 1644: 27). Pensa-se que os coaks eram maioritariamente utilizados nas roldanas de adriça maiores colocadas nos topos dos mastros, uma vez que são recuperados muito raramente em locais de naufrágios (Keith, 1987: 117). No texto de Bell-Cross sugere-se que os coques foram colocados dentro dos feixes que teriam carregado os canhões do Bocarro para Atalaia(Bell-Cross, 1988: 78). Os feixes e blocos nos quais os coaks eram colocados eram normalmente construídos com lignum vitae, freixo ou olmo. Eventualmente, as roldanas de madeira multipartes seriam substituídas por roldanas feitas de bronze sólido (Marquardt, 1992: 248; Horsley, 1978: 219-220). Conforme aludido por Manwayring, os coaks forneciam suporte estrutural às roldanas de madeira e protegiam a roldana de rachar. Isto foi feito inserindo o revestimento ao longo da fibra da madeira, deixando o lado exposto do revestimento nivelado com a face da roldana (Marquardt, 1992: 148). Os pinos sobre os quais as roldanas corriam eram geralmente cortados de lignum vitae, madeira de engrenagem, coração verde ou, quando usados em roldanas metálicas maiores, de ferro (Marquardt, 1992: 248; Marsden, 2009: 267; Rule, 1984: 144). De acordo com uma imagem fornecida no livro de Gillian Vernon, Even the Cows were Amazed: Shipwreck Survivors in South-East Africa, pelo menos um dos coaks do naufrágio da Atalaia era uma variante rara do subtipo
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    contendo um parde projeções trapezoidais gêmeas, comumente referidas como 'chaves'. As chaves sobressaem de maneira paralela em dois dos lados externos da capa e ficam niveladas com uma de suas faces. (Vernon, 2013: 63). Esta variação incomum de coque foi encontrada no Espírito Santo , um dos naufrágios espanhóis de 1554 na Ilha do Padre, e no Bom Jesus , outro navio português da Carreira da Índia, perdido ao largo do Cabo da Boa Esperança em 1533 (Olds, 1976: 43-45; Vernon, 2013: 63; Alves, 2011: 26; Werz, 2010: 434). O aparecimento desta forma de casaco na Atalaia é interessante porque os seus paralelos são quase um século mais antigos. Dez dos canhões Bocarro mediam entre 350 e 355 centímetros de comprimento com média de 349 centímetros, semelhantes aos encontrados no Santissimo Sacramento. A maior cascata dos canhões Bocarro de Atalaia media 14 centímetros, e como mencionado anteriormente continha o mesmo desenho de punho cerrado dos canhões Bocarro recuperados do Santíssimo Sacramento . AtalaiaOs canhões de Bocarro continham as mesmas inscrições, como o brasão de Macau, um leão e uma coroa desenfreados, as insígnias do Governador da Índia, António Telles de Menezes (1639-1640), e do Vice-Rei João da Silva Tello de Menezes , Conde de Aveiras (1640-1646); embora as inscrições na maioria dos canhões fossem, na melhor das hipóteses, parciais, uma vez que os canhões estavam fortemente erodidos (Bell-Cross, 1988: 78). Acampamento Pouco depois da descoberta de Atalaia , também foram localizados os restos do acampamento dos sobreviventes. A menos de um quilômetro do local do naufrágio, os pesquisadores encontraram uma duna de areia plana com aproximadamente 50 metros de comprimento e coberta por arbustos. Rastejando pela duna, a equipe localizou inicialmente um pedaço de porcelana azul e branca medindo 7,5 por 6 centímetros, sem sinais de danos causados pela água. Uma escavação do local foi realizada por Simon Hall do Albany Museum em 1980 (Bell-Cross, 1988: 77). De acordo com comunicação pessoal entre Hall e Bell-Cross, os seguintes artefatos foram recuperados do local: Cerâmica Foram descobertos oito fragmentos de porcelana azul e branca do período de transição Ming. Essas peças tinham um estilo homogêneo tanto com as coleções do acampamento quanto com os naufrágios (Bell-Cross, 1988: 77). Esta forma de porcelana foi fabricada durante o século XVII século (Valenstein, 1989: 195). Foram também recuperados oito fragmentos de Blanc de Chine provenientes da mesma forma ornamental (Bell-Cross, 1988: 77). Blanc de Chine, também conhecida como porcelana Dehua, é uma forma de porcelana branca originária de Dehua, na província de
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    Fujian, na China.Originada durante a Dinastia Song, a porcelana Dehua tornou-se altamente cobiçada no século XVI (Yap e Hua, 1994: 65). Por último, foram descobertos três cacos de grés, provenientes de três recipientes diferentes, estas peças apresentavam vidrado castanho e pensa-se que procediam de potes de martaban (Bell-Cross, 1988: 77). Armas de fogo Onze itens de pederneira foram encontrados, nove dessas peças foram cortadas em retângulos nivelados com maior probabilidade de serem usados para o disparo de armas de fogo de pederneira. Citando comunicação pessoal com Peterson Hall, Bell-Cross aponta que as peças de pederneira variavam em tamanho e esta variação provavelmente indica que elas deveriam ser usadas com armas diferentes. As peças mais pequenas seriam provavelmente utilizadas com pistolas, as peças médias seriam utilizadas com um arcabuz (carabina), como mencionado no relato de Feyo, e as maiores com mosquetes (Bell-Cross, 1988: 77). Ornamental Uma série de outros artefatos também foram recuperados, a maioria dos quais eram principalmente itens de luxo, incluindo um pedaço de mármore, uma “pequena peça ornamental de bronze em forma de engrenagem”, uma parte de uma folha de bronze banhada a ouro, uma pequena porção semicircular de prata , um pequeno fragmento de prata e duas peças de madrepérola que se acredita terem origem no pente de uma mulher. Embora não sejam considerados artigos de luxo, foram também recuperados 25 fragmentos de pregos de ferro corroídos e dois pedaços de chumbo (Bell-Cross, 1988: 77). Biológico Algumas evidências biológicas também foram encontradas no acampamento, possivelmente indicando o que os sobreviventes comeram enquanto estavam na praia. Esses itens incluíam 498 fragmentos de ossos e conchas pertencentes ao mexilhão de areia branca Donax Serra. Conforme apontado por Bell-Cross, o relato de Feyo menciona os sobreviventes consumindo mexilhões na praia para seu sustento; em comparação com os mexilhões Donax da Idade do Ferro encontrados perto da foz do rio Cefane, todos intactos, esta forte fragmentação dos mexilhões no acampamento indica que eles foram quebrados para alimentação por pessoas que eram estranhas aos mexilhões e não acostumadas a seu consumo (Bell-Cross, 1988: 77) Casco permanece T Quilha N. Stern heel (couce)
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    A . Joelho severo( coral ) A. Molduras T. Tábuas T. Tabela 1. Escaneamento dos restos de madeira do Naufrágio do Corpo Santo Madeira Lado [cm] Moldado [cm] Quilha Poste de popa Madeiras de piso Quarto e espaço Tábuas Calafetagem Não reportado. Fixadores A Tamanho e escantilhões T Madeira Nenhuma madeira foi relatada Reconstrução Feixe: m estimado Comprimento da quilha: m estimado Comprimento total: m estimado Número de mastros: desconhecido Referências
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    Procure este site Procurar Ache-nos Sobrenós • Nosso time Centro de Arqueologia Marítima da Universidade de Coimbra • Centre for Maritime Archaeology Universidade de Coimbra Figueira da Foz Campus R. Graça 9, 3080-014 Figueira da Foz Portugal Centro de Estudo de Bibliotecas Digitais • Texas A&M University 3112 TAMU College Station, TX, 77843, EUA • E-mail: csdl@tamu.edu • Telefone: +1 (979) 845-3839 • Fax: +1 (979) 847-8578 Procure este site Procurar Acessibilidade • Alternar alto contraste • Alternar tamanho da fonte