- Capítulo 2 -


               O BATIZADO DA BORBOLETA


        Naqueles velhos tempos, a religião católica que
pretendia ser a única, era levada muito a sério. Ou se era
católico ou crente e, estes, nunca eram bem aceitos
entre os membros da santa madre igreja. A segregação e
discriminação era explícita e tinha a aprovação geral de
todos. Havia até uns mais radicais que apelidavam os
não seguidores do Vaticano de “bodes”. E é claro que na
hora das compras básicas o bom católico não ia buscar
o pão da tarde na padaria do irmão Joab ou comprar
rendas e bicos na lojinha da irmã Midiã.
       E foi nesse ambiente de Irlanda do Norte sem
arsenal bélico que, novinha ainda, a pequenina mini
Aline foi levada à Pia Batismal, por seus zelosos pais,
guardiães da fé cristã.
        Na época do batizado, a família havia mudado
de residência e estava habitando uma ampla casa, estilo
solar, na Rua 13 de Maio.
         Quebrando uma tradição da época, os pais de
Aline não tiraram o nome da criança da folhinha de
nomes de santos. Seu nome tem a seguinte origem.
Maria, por que a menina havia nascido laçada e, caso
não lhe fosse dado aquele nome, ela poderia vir a morrer
queimada. Quanto à Aline, originou-se de um desejo da
mamãe, quando estava grávida da pequena. Dapaz
sentiu desejos de comer goiabas e juntamente com J. L.
dirigiu-se à casa de seu Né Coelho e dona Toinha, onde
frutificavam as melhores goiabas da região. Na
realidade, não era época da fruta e todos, olhando
ansiosos para os galhos mais altos da goiabeira,
começaram a procurar uma frutinha por pequena que
fosse. De repente, papai João Luiz exclamou eufórico e
entusiasmado:
       - “Ali, Né”, tem uma goiaba madura!
      Foi daquela exclamação que a mamãe Dapaz,
além de obter a fruto do seu desejo de gestante,
conseguiu uma boa inspiração para colocar o segundo
nome do futuro rebento: Aline. Este fato desconhecido
de muitos, foi fruto de longa pesquisa da estudiosa de
genealogia e heráldica, Leda Maria.
       Os padrinhos da garotinha, escolhidos entre
amigos próximos, moravam no vizinho distrito de
Caracituba, futura cidade de Primavera de Santo
Antônio. Seu José Rocha e dona Nina, juntamente com o
jovem Luiz Jacinto e outros convidados, vieram de “carro
de linha”, gentilmente cedido por seu Frederico Dubeux.
Padre Clodoaldo oficiou a liturgia, colocando os sais e os
santos óleos e vertendo a água benta sobre as louras
madeixas da garotinha, que se esganava de tanto gritar,
sem contar que, dona Nina sua madrinha, quase que
deixa a pequena se afogar na pia batismal, não fosse o
rápido auxílio de Cila Rodrigues que ajudou a segurá-la. A
neo batizanda tinha seis meses de idade e já pesava
doze quilos e meio. Todos os presentes elogiavam o timão
branco, decorado de renda francesa e lacinhos cor-de-
rosa, obra-prima de dona Elvira Fontes, a mais famosa
modista da cidade.
      Era dia de festa no solar de J. L. e Dapaz. Um
grande almoço, com aquele cardápio regional:
buchada, cabidela, peru assado, fritada, bolo de milho,
pé-de-moleque, manuê, grude de goma, ponches de
limão e laranja, os “pirulitos” de dona Toinha e as
“chupetas de açúcar” de seu Heleno para a criançada.
        Na cozinha, aquele exército de comadres e
afilhadas: dona Severina Cavalcanti, Maria Calixto,
Santa, Zefinha e outras, ajudando a mexer o pirão,
decorar os pratos, encher a buchada e carregar os
copinhos de bebidas fortes para os homens, e as
garrafinhas de gasosa e guaraná para as damas e os
pimpolhos. Afinal, à época, o uso de bebidas fortes não
havia se tornado moda ainda entre as damas e estas, só
ingeriam bebidas leves, tipo ponches e refrigerantes
como Fratteli Vita e Gasosa.
        Maria Andrade e dona Quinquina cortavam os
doces de batata e as goiabadas em lata, verdadeiras
delícias da culinária de seu Laurindo Doceiro.
       Na sala o papai J. L. recepcionava os convidados
do sexo masculino, oferecendo bebidas quentes; doses
de vinho Quinado Imperial e conhaque Palhinha e
Castelo, além de cerveja Pielsen esfriada. Os canapés
eram torresmo, bode assado, e sarapatél. Para os
fumantes, caixas de cigarilhas, cigarros Petisco, Caruso,
Bom Marché, Cara Preta e charutos Suerdick Bahia. Havia
até uns maços de Gesira e Pour la Noblesse, importados
raros da época. Presentes o prefeito da cidade, Dr. Plínio
Araújo e a esposa, seu José de Assunção e dona Nely
Gomes de Sá, seu Erasmo e dona Levina, seu Alcides
Rodrigues e Saló, além de alguns amigos da prefeitura,
comerciantes, senhores de engenhos e, naturalmente, os
primos e parentes do engenho e de Recife.
       Em meio à festança, enquanto os convivas se
deleitavam bebendo e dançando a polca, a porta se
abriu e adentrou o recinto, bastante irritada, “Sinhá
Sinfronina”, uma antiga lavadeira da família, que tinha
fama de ser catimbozeira e fazer uns despachos.
       - Dando uma festa e nem mim convidam, né? Inté
eu que ajudei a engomar os lençó de linhe do enxová da
criança!, berrou a velha. Qui ingratidão. Cadê a minina?
Cadê cumade Santa. To a pui de dá um bale nela.
       - Sente-se, Sinhá Fronina, convidou dona Elvira.
Aceita um pedacinho de peru assado ou uma fatia de
bolo?
       - Inhora não, já cumi meu prato de pirão de ovo,
respondeu ela, fumaçando de raiva. Só vim dá uma
ispiada e rezar a minima pru meu Padim Ciço e Mãe
Dasdore portregê a bruguela. Adonde ela tá?
         - Venha comigo, Sinhá Fronina, convidou dona
Elvira. E as duas se dirigiram para o quarto onde estava o
berço da neném.
        - Oxente, mai qui tanta caxa é essa dento do
beço?
       “São as lembrancinhas que ela recebeu, Sinhá
Fronina!
       - Mai num pode não, essa tuia de brebote vai
terminá sofocando a minina”, e a velha foi logo retirando
as caixas e os presentes e jogando tudo na cama ao
lado. Agora sim, nói pode vê ela. Meu Padim Ciço, cuma
ele gorda. Benza Deus!”
       A benzedeira concentrou-se e olhou a recém-
nascida demoradamente. Então puxou um galhinho de
arruda preso pelo turbante junto da orelha e começou a
aspergir a garotinha, enquanto rezava sua prece. Depois
persignou-se e exclamou solenemente:
- Ela vai sê muito intiligente, vai estudá e se formá,
vai sê muito populá, vai vencê na vida, vai viajar muito
por esse mundo de meu Deus, vai inté se casar, mai num
vai passá de um metro e meio de artura. Mai aiguente os
povo vai impelidá-la de Baxinha e Nina Bolinha.” Tem mai
ainda, ela vai sê muito braba; quando ela apontar o
dedo fura bolo, der três piscadinha cum as pestana e um
piqueno supapo no peito, corram de perto, que vai sobrá
pra arguém. É o castigo pru tere se isquecido de mim.
      E a velha Fronina retirou-se como um pé-de-vento,
deixando os convidados pasmos.
       Será que os augúrios da velha iriam se tornar
realidade? Os convidados entre assustados e pasmos
não paravam de cochichar entre si, mas o papai J. L.
logo pediu que o sanfoneiro tocasse um baião e a festa
voltou à animação inicial.
       Já quase uma hora da tarde, os homens iam se
animando com os repetidos tragos e com grandes
baforadas de charuto e cigarros. As senhoras,
acomodadas na sala, conversavam discretamente
enquanto enxugavam o suor do colo e do pescoço com
toalhinhas de feltro. As crianças, já “adocicadas” de
tanto pirulito e chupeta de açúcar, corriam enquanto
esbarravam nos mais velhos e promoviam a aquela
baguncinha organizada.
       Num recanto da sala, sentado numa poltrona, o
padre Clodoaldo de batina preta com dezenas de
botões que iam do colarinho até o abanhado, barrete
preto na cabeça, enxugava o rosto com um lenço e se
abanava com o breviário. De vez em quando dava uma
olhada no relógio de algibeira. Salomé de seu Alcides
notou aflição do reverendo e correu esbaforida para a
cozinha:
- Dapaz, minha santa, já está passando muito da
hora do padre Clodoaldo comer. Ele tem gastrite e
terminar passando mal se não forrar logo o estômago.
       Maria Andrade logo tomou a frente e começou a
preparar um prato para o vigário. Colocou numa
bandeja e levou até a mesa da sala. O reverendo foi
convidado para sentar e recebeu o prato sorrindo, já
estava passando o lenço na testa e na iminência de ter
uma oria. Maria Andrade, apressada, gritou para dona
Zefinha:
       - Prepara uma sangria para o padre.
       E dona Zefinha, espantada, respondeu:
      - Mas dona Maria, o sangue todo foi colocado na
cabidela.
       - Santa ignorância, Zefinha, sangria é um ponche
de vinho com água e açúcar. Não bote gelo, o padre
tem problemas de garganta.
        Afinal, toda a comunidade religiosa tinha um
histórico completo da saúde do pároco. Padre
Clodoaldo começou a se servir e, quando, preparava o
copo para tomar o primeiro gole de sangria, passa um
menino correndo e bate no braço do reverendo. A
toalha de linho da mesa ficou lilás. Dapaz apareceu na
sala e lamentou o estado se sua toalha de linho
engomada. O padre, pálido, quase perde o apetite,
ficou sem ação. Mais uma vez Maria Andrade contornou
a situação.
       - Não se preocupe, padre, aqui está outra sangria.
Vou ficar por aqui pra domar estes meninos.
- Ô minha gente, esses filhos de vocês não tem
estilo não, é? Ficam todas de beleza aí na sala enquanto
os meninos parecem que estão correndo no prado.
        O padre almoçou, fez uma rápida leitura no
breviário e começou a se despediu dos convidados e dos
anfitriões. Ao sair ainda benzeu os que estavam por perto.
        Quase catorze horas, estava na hora de servir o
almoço. Mas como iria caber tanta gente à mesa? Foi
quando apareceu dona Frederica Faneca, esposa do
prefeito, e apresentou a solução.
      - Por    que   vocês    não   fazem   um     almoço
americano?
      Os nativos entreolharam-se e ficaram            sem
entender nada. De novo Maria Andrade em cena.
       - Que história é essa de almoço americano, dona
Frederica?
      - Muito simples, colocam-se os pratos e talheres na
mesa, em seguida, vão trazendo os pratos das iguarias e
cada um se serve e vai comer em algum lugar da casa
que não seja na mesa.
      - Que idéia       maravilhosa,    dona     Frederica,
exclamou Dapaz.
       Os pratos, talheres, guardanapos e as iguarias do
almoço foram colocados na mesa da sala de jantar
sobre a toalha de linho branco engomada e com uma
enorme mancha de sangria. Os convidados famintos
como estavam, nem perceberam.
      - O Clodomiro, cadê as grades de coca-cola?
Perguntou dona Lita.
- É verdade, estão na mala do carro, Alguém me
ajude aqui, por favor!
        E os convidados que já se preparavam pra fazer
os pratos, pararam e ficaram admirados com as
garrafinhas de coca.
      - Eu vou tomar uma coca em lugar da gasosa,
fala dona Minervina, enquanto enchia o copo,
espantada com a espuma.
     - Ave Maria, fica fervendo no copo e na boca.
Queima e arde.
      - Dona Minervina, fala seu Clodomiro, é pra tomar
gelada. Quente ninguém, agüenta. Quando nada, bote
uma pedra de gelo no copo.
        - E a coca-cola roubou a cena do almoço. Afinal
ela só tinha chegado ao Brasil há dois anos e, na
província, pouca gente tinha experimentado o novo
refrigerante.
      E assim foi servido o primeiro almoço no “estilo
americano” em Amaraji.
       - De repente, um grito estridente e um choro de
criança. Dapaz e outras mães correram para o quarto e,
espantadas, viram a mini “nina” muito vermelha, se
debatendo no berço, engasgada e quase sufocada com
uma chupeta de açúcar.
       - Quem foi que fez uma barbaridade dessas?
Perguntou a mamãe. Deve ser cria de alguma daquelas
indolentes que estão na sala e não se levantam para
nada.
Difícil descobrir, afinal tinha criança demais na
festa. Ela trocou o timão da menina e foi falar com J. L.
sobre o ocorrido.
         - Tá bom de tanta festa e de dança, João Luiz,
esses meninos já bagunçaram demais e a casa está um
lixo, além do que a bebida já acabou. Tá na hora de
todo mundo voltar pra suas casas.
       João Luiz pediu que o sanfoneiro parasse que a
festa já ia acabar. Aos poucos os convidados iam
agradecendo e se retirando.
       Lá pelas quatro da tarde não restava mais
ninguém, a não ser os familiares e as comadres que
começavam a fazer a faxina. Dapaz, bastante cansada,
repetia:
        - Outra festa dessas aqui em casa, nunca mais.
Teve gente que pareciam não ter se alimentado há um
mês. Parece que vieram tirar a barriga da miséria mesmo.
O filho de dona Regina estava lavando as mãos na jarra.
Tem jeito? E a sobrinha de dona Davina, usou metade do
meu vidro de Madeira do Oriente. Quem era aquele de
bigode que fumava e cuspia lá no canto da sala? João
Luiz convidou cada um...
       E os comentários foram se amenizando, enquanto
a faxina estava quase concluída.
       O tempo passou e muitos esqueceram aquela
cena insólita e curiosa da velha Fronina, histérica,
saracoteando pela sala, mas algumas pessoas ainda se
perguntavam: será que algo daquilo iria acontecer?

Capítulo 2

  • 1.
    - Capítulo 2- O BATIZADO DA BORBOLETA Naqueles velhos tempos, a religião católica que pretendia ser a única, era levada muito a sério. Ou se era católico ou crente e, estes, nunca eram bem aceitos entre os membros da santa madre igreja. A segregação e discriminação era explícita e tinha a aprovação geral de todos. Havia até uns mais radicais que apelidavam os não seguidores do Vaticano de “bodes”. E é claro que na hora das compras básicas o bom católico não ia buscar o pão da tarde na padaria do irmão Joab ou comprar rendas e bicos na lojinha da irmã Midiã. E foi nesse ambiente de Irlanda do Norte sem arsenal bélico que, novinha ainda, a pequenina mini Aline foi levada à Pia Batismal, por seus zelosos pais, guardiães da fé cristã. Na época do batizado, a família havia mudado de residência e estava habitando uma ampla casa, estilo solar, na Rua 13 de Maio. Quebrando uma tradição da época, os pais de Aline não tiraram o nome da criança da folhinha de nomes de santos. Seu nome tem a seguinte origem. Maria, por que a menina havia nascido laçada e, caso não lhe fosse dado aquele nome, ela poderia vir a morrer queimada. Quanto à Aline, originou-se de um desejo da mamãe, quando estava grávida da pequena. Dapaz sentiu desejos de comer goiabas e juntamente com J. L. dirigiu-se à casa de seu Né Coelho e dona Toinha, onde
  • 2.
    frutificavam as melhoresgoiabas da região. Na realidade, não era época da fruta e todos, olhando ansiosos para os galhos mais altos da goiabeira, começaram a procurar uma frutinha por pequena que fosse. De repente, papai João Luiz exclamou eufórico e entusiasmado: - “Ali, Né”, tem uma goiaba madura! Foi daquela exclamação que a mamãe Dapaz, além de obter a fruto do seu desejo de gestante, conseguiu uma boa inspiração para colocar o segundo nome do futuro rebento: Aline. Este fato desconhecido de muitos, foi fruto de longa pesquisa da estudiosa de genealogia e heráldica, Leda Maria. Os padrinhos da garotinha, escolhidos entre amigos próximos, moravam no vizinho distrito de Caracituba, futura cidade de Primavera de Santo Antônio. Seu José Rocha e dona Nina, juntamente com o jovem Luiz Jacinto e outros convidados, vieram de “carro de linha”, gentilmente cedido por seu Frederico Dubeux. Padre Clodoaldo oficiou a liturgia, colocando os sais e os santos óleos e vertendo a água benta sobre as louras madeixas da garotinha, que se esganava de tanto gritar, sem contar que, dona Nina sua madrinha, quase que deixa a pequena se afogar na pia batismal, não fosse o rápido auxílio de Cila Rodrigues que ajudou a segurá-la. A neo batizanda tinha seis meses de idade e já pesava doze quilos e meio. Todos os presentes elogiavam o timão branco, decorado de renda francesa e lacinhos cor-de- rosa, obra-prima de dona Elvira Fontes, a mais famosa modista da cidade. Era dia de festa no solar de J. L. e Dapaz. Um grande almoço, com aquele cardápio regional: buchada, cabidela, peru assado, fritada, bolo de milho,
  • 3.
    pé-de-moleque, manuê, grudede goma, ponches de limão e laranja, os “pirulitos” de dona Toinha e as “chupetas de açúcar” de seu Heleno para a criançada. Na cozinha, aquele exército de comadres e afilhadas: dona Severina Cavalcanti, Maria Calixto, Santa, Zefinha e outras, ajudando a mexer o pirão, decorar os pratos, encher a buchada e carregar os copinhos de bebidas fortes para os homens, e as garrafinhas de gasosa e guaraná para as damas e os pimpolhos. Afinal, à época, o uso de bebidas fortes não havia se tornado moda ainda entre as damas e estas, só ingeriam bebidas leves, tipo ponches e refrigerantes como Fratteli Vita e Gasosa. Maria Andrade e dona Quinquina cortavam os doces de batata e as goiabadas em lata, verdadeiras delícias da culinária de seu Laurindo Doceiro. Na sala o papai J. L. recepcionava os convidados do sexo masculino, oferecendo bebidas quentes; doses de vinho Quinado Imperial e conhaque Palhinha e Castelo, além de cerveja Pielsen esfriada. Os canapés eram torresmo, bode assado, e sarapatél. Para os fumantes, caixas de cigarilhas, cigarros Petisco, Caruso, Bom Marché, Cara Preta e charutos Suerdick Bahia. Havia até uns maços de Gesira e Pour la Noblesse, importados raros da época. Presentes o prefeito da cidade, Dr. Plínio Araújo e a esposa, seu José de Assunção e dona Nely Gomes de Sá, seu Erasmo e dona Levina, seu Alcides Rodrigues e Saló, além de alguns amigos da prefeitura, comerciantes, senhores de engenhos e, naturalmente, os primos e parentes do engenho e de Recife. Em meio à festança, enquanto os convivas se deleitavam bebendo e dançando a polca, a porta se abriu e adentrou o recinto, bastante irritada, “Sinhá
  • 4.
    Sinfronina”, uma antigalavadeira da família, que tinha fama de ser catimbozeira e fazer uns despachos. - Dando uma festa e nem mim convidam, né? Inté eu que ajudei a engomar os lençó de linhe do enxová da criança!, berrou a velha. Qui ingratidão. Cadê a minina? Cadê cumade Santa. To a pui de dá um bale nela. - Sente-se, Sinhá Fronina, convidou dona Elvira. Aceita um pedacinho de peru assado ou uma fatia de bolo? - Inhora não, já cumi meu prato de pirão de ovo, respondeu ela, fumaçando de raiva. Só vim dá uma ispiada e rezar a minima pru meu Padim Ciço e Mãe Dasdore portregê a bruguela. Adonde ela tá? - Venha comigo, Sinhá Fronina, convidou dona Elvira. E as duas se dirigiram para o quarto onde estava o berço da neném. - Oxente, mai qui tanta caxa é essa dento do beço? “São as lembrancinhas que ela recebeu, Sinhá Fronina! - Mai num pode não, essa tuia de brebote vai terminá sofocando a minina”, e a velha foi logo retirando as caixas e os presentes e jogando tudo na cama ao lado. Agora sim, nói pode vê ela. Meu Padim Ciço, cuma ele gorda. Benza Deus!” A benzedeira concentrou-se e olhou a recém- nascida demoradamente. Então puxou um galhinho de arruda preso pelo turbante junto da orelha e começou a aspergir a garotinha, enquanto rezava sua prece. Depois persignou-se e exclamou solenemente:
  • 5.
    - Ela vaisê muito intiligente, vai estudá e se formá, vai sê muito populá, vai vencê na vida, vai viajar muito por esse mundo de meu Deus, vai inté se casar, mai num vai passá de um metro e meio de artura. Mai aiguente os povo vai impelidá-la de Baxinha e Nina Bolinha.” Tem mai ainda, ela vai sê muito braba; quando ela apontar o dedo fura bolo, der três piscadinha cum as pestana e um piqueno supapo no peito, corram de perto, que vai sobrá pra arguém. É o castigo pru tere se isquecido de mim. E a velha Fronina retirou-se como um pé-de-vento, deixando os convidados pasmos. Será que os augúrios da velha iriam se tornar realidade? Os convidados entre assustados e pasmos não paravam de cochichar entre si, mas o papai J. L. logo pediu que o sanfoneiro tocasse um baião e a festa voltou à animação inicial. Já quase uma hora da tarde, os homens iam se animando com os repetidos tragos e com grandes baforadas de charuto e cigarros. As senhoras, acomodadas na sala, conversavam discretamente enquanto enxugavam o suor do colo e do pescoço com toalhinhas de feltro. As crianças, já “adocicadas” de tanto pirulito e chupeta de açúcar, corriam enquanto esbarravam nos mais velhos e promoviam a aquela baguncinha organizada. Num recanto da sala, sentado numa poltrona, o padre Clodoaldo de batina preta com dezenas de botões que iam do colarinho até o abanhado, barrete preto na cabeça, enxugava o rosto com um lenço e se abanava com o breviário. De vez em quando dava uma olhada no relógio de algibeira. Salomé de seu Alcides notou aflição do reverendo e correu esbaforida para a cozinha:
  • 6.
    - Dapaz, minhasanta, já está passando muito da hora do padre Clodoaldo comer. Ele tem gastrite e terminar passando mal se não forrar logo o estômago. Maria Andrade logo tomou a frente e começou a preparar um prato para o vigário. Colocou numa bandeja e levou até a mesa da sala. O reverendo foi convidado para sentar e recebeu o prato sorrindo, já estava passando o lenço na testa e na iminência de ter uma oria. Maria Andrade, apressada, gritou para dona Zefinha: - Prepara uma sangria para o padre. E dona Zefinha, espantada, respondeu: - Mas dona Maria, o sangue todo foi colocado na cabidela. - Santa ignorância, Zefinha, sangria é um ponche de vinho com água e açúcar. Não bote gelo, o padre tem problemas de garganta. Afinal, toda a comunidade religiosa tinha um histórico completo da saúde do pároco. Padre Clodoaldo começou a se servir e, quando, preparava o copo para tomar o primeiro gole de sangria, passa um menino correndo e bate no braço do reverendo. A toalha de linho da mesa ficou lilás. Dapaz apareceu na sala e lamentou o estado se sua toalha de linho engomada. O padre, pálido, quase perde o apetite, ficou sem ação. Mais uma vez Maria Andrade contornou a situação. - Não se preocupe, padre, aqui está outra sangria. Vou ficar por aqui pra domar estes meninos.
  • 7.
    - Ô minhagente, esses filhos de vocês não tem estilo não, é? Ficam todas de beleza aí na sala enquanto os meninos parecem que estão correndo no prado. O padre almoçou, fez uma rápida leitura no breviário e começou a se despediu dos convidados e dos anfitriões. Ao sair ainda benzeu os que estavam por perto. Quase catorze horas, estava na hora de servir o almoço. Mas como iria caber tanta gente à mesa? Foi quando apareceu dona Frederica Faneca, esposa do prefeito, e apresentou a solução. - Por que vocês não fazem um almoço americano? Os nativos entreolharam-se e ficaram sem entender nada. De novo Maria Andrade em cena. - Que história é essa de almoço americano, dona Frederica? - Muito simples, colocam-se os pratos e talheres na mesa, em seguida, vão trazendo os pratos das iguarias e cada um se serve e vai comer em algum lugar da casa que não seja na mesa. - Que idéia maravilhosa, dona Frederica, exclamou Dapaz. Os pratos, talheres, guardanapos e as iguarias do almoço foram colocados na mesa da sala de jantar sobre a toalha de linho branco engomada e com uma enorme mancha de sangria. Os convidados famintos como estavam, nem perceberam. - O Clodomiro, cadê as grades de coca-cola? Perguntou dona Lita.
  • 8.
    - É verdade,estão na mala do carro, Alguém me ajude aqui, por favor! E os convidados que já se preparavam pra fazer os pratos, pararam e ficaram admirados com as garrafinhas de coca. - Eu vou tomar uma coca em lugar da gasosa, fala dona Minervina, enquanto enchia o copo, espantada com a espuma. - Ave Maria, fica fervendo no copo e na boca. Queima e arde. - Dona Minervina, fala seu Clodomiro, é pra tomar gelada. Quente ninguém, agüenta. Quando nada, bote uma pedra de gelo no copo. - E a coca-cola roubou a cena do almoço. Afinal ela só tinha chegado ao Brasil há dois anos e, na província, pouca gente tinha experimentado o novo refrigerante. E assim foi servido o primeiro almoço no “estilo americano” em Amaraji. - De repente, um grito estridente e um choro de criança. Dapaz e outras mães correram para o quarto e, espantadas, viram a mini “nina” muito vermelha, se debatendo no berço, engasgada e quase sufocada com uma chupeta de açúcar. - Quem foi que fez uma barbaridade dessas? Perguntou a mamãe. Deve ser cria de alguma daquelas indolentes que estão na sala e não se levantam para nada.
  • 9.
    Difícil descobrir, afinaltinha criança demais na festa. Ela trocou o timão da menina e foi falar com J. L. sobre o ocorrido. - Tá bom de tanta festa e de dança, João Luiz, esses meninos já bagunçaram demais e a casa está um lixo, além do que a bebida já acabou. Tá na hora de todo mundo voltar pra suas casas. João Luiz pediu que o sanfoneiro parasse que a festa já ia acabar. Aos poucos os convidados iam agradecendo e se retirando. Lá pelas quatro da tarde não restava mais ninguém, a não ser os familiares e as comadres que começavam a fazer a faxina. Dapaz, bastante cansada, repetia: - Outra festa dessas aqui em casa, nunca mais. Teve gente que pareciam não ter se alimentado há um mês. Parece que vieram tirar a barriga da miséria mesmo. O filho de dona Regina estava lavando as mãos na jarra. Tem jeito? E a sobrinha de dona Davina, usou metade do meu vidro de Madeira do Oriente. Quem era aquele de bigode que fumava e cuspia lá no canto da sala? João Luiz convidou cada um... E os comentários foram se amenizando, enquanto a faxina estava quase concluída. O tempo passou e muitos esqueceram aquela cena insólita e curiosa da velha Fronina, histérica, saracoteando pela sala, mas algumas pessoas ainda se perguntavam: será que algo daquilo iria acontecer?