À janela do café
manhã estendia-se lenta pelas ruas do bairro, como se o tempo ali tivesse
esquecido o seu passo apressado. Dentro do café, envolto num murmúrio de
porcelanas e de vapores brandos, Raquel olhava, com olhos cansados de tanto ver e de
tão pouco sentir. À sua frente, estendia-se o quotidiano discreto da rua — a florista do
lado, o toldo gasto a ondular com a brisa, e as pessoas que passavam como sombras
ligeiras.
Um pouco mais longe, a cidade fervilhava. O som dos passos apressados, das
notificações que ecoavam como sinos modernos, dos veículos que passavam como se o
A
tempo os empurrasse. Gente colada aos ecrãs, olhos postos em vidas alheias, sorrisos
forçados para selfies com filtros. Luz, movimento, cor — mas tudo um pouco irreal e
inconsistente.
Deixara o portátil fechado e o telemóvel em silêncio, como se, numa atitude de
respeito, tivesse pedido licença à vida para estar ali, simplesmente.
Vinha de dias — talvez de anos — repletos de urgências. Trabalhava numa empresa
de comunicação digital. Passava o tempo a programar campanhas que garantissem
alcance e interação. Observava comportamentos de consumo, tendências visuais e
horários de maior tráfego. Tudo girava em torno de se ser visto, comentado, partilhado.
Era um mundo de aparências, onde o silêncio e a simplicidade pareciam não ter lugar.
Recorria às plataformas digitais, alimentava algoritmos, criava estratégias para captar a
atenção dos outros. Sabia como escrever para manipular emoções, para obter seguidores.
Mas não sabia — ou já não sabia — escrever de uma forma genuína.
Naquela manhã, sem saber porquê, dera por si a caminhar sem destino. Não tinha
reunião marcada, nem objetivo traçado. Apenas um cansaço diferente, mais fundo. Um
vazio que não se preenchia com interações apressadas nas redes sociais. Entrara naquele
café antigo como quem procura abrigo num tempo já quase esquecido.
Sentada ali, frente ao vidro, algo a desconcertava. A luz desenhava formas suaves
sobre a madeira da mesa. O silêncio atento de quem preparava uma chávena de chá
parecia ter mais presença do que muitos discursos apressados. Nada ali era urgente, e
talvez por isso tudo lhe parecesse mais verdadeiro.
Recordou a avó. Tinha o mesmo hábito de parar. De saborear os instantes como
quem saboreia um doce feito em casa, sem pressa de o acabar.
Lembrou-se de uma tarde de outono, quando ainda era criança, em que caminhavam
juntas pela margem de um rio. A avó andava devagar, como se o tempo não tivesse pressa,
e o som das suas botas na terra era como uma canção suave.
Raquel observava como a avó parava a cada passo, com a atenção total no que a
rodeava. Olhava as folhas caídas com uma curiosidade tranquila, como se cada uma
contasse uma história que apenas ela sabia ouvir. E então, sem palavras, baixava-se,
apanhava uma folha dourada e entregava-a à neta, sem pressa de seguir.
Era essa sabedoria de quem conhece o ritmo da natureza que Raquel começava
agora a entender. A avó não tinha pressa, apenas vivia, em cada gesto, em cada pausa,
em cada olhar atento. E isso, aos poucos, ia ficando dentro de Raquel, como algo que se
planta sem ser visto, mas que cresce devagar, sem pressa de ser.
Respirou fundo. Pegou na caneta esquecida no fundo da mala — ainda uma caneta,
sim — e, num gesto tímido, começou a escrever num guardanapo. Palavras soltas: pausa,
respirar, silêncio, memória. Fez depois o esboço de uma flor silvestre, como as que a avó
gostava de apreciar quando passeavam juntas. Sentiu um nó na garganta, mas também
um leve calor no peito, ao aflorar aquela parte de si há muito adormecida.
O empregado do café aproximou-se com um copo de água, e colocou-o sobre a
mesa, com a suavidade de quem compreende o silêncio alheio. Raquel olhou para ele e
sorriu. Não um sorriso apressado ou convencional — mas espontâneo. Pequeno gesto,
breve instante — mas talvez mais real do que os muitos “gostos” colocados nas postagens
recentes que fizera.
Permaneceu ali ainda algum tempo. O chá já frio, o guardanapo com palavras
dispersas e o pequeno desenho da flor repousando sobre a mesa como testemunhas
silenciosas de um instante raro. Não havia pressa. Pela primeira vez em muito tempo, não
sentia aquela ansiedade surda a empurrá-la para o próximo compromisso, para a próxima
publicação, para o próximo objetivo.
O mundo lá fora continuava no seu frenesi habitual. Mas ali, naquela mesa junto à
janela, algo dentro de si murmurava “basta”. Não era um grito, nem uma rutura. Era
apenas um sussurro. Um convite. Uma possibilidade.
uando saiu do café, levava o guardanapo entre as páginas do caderno, como a
selar um pacto silencioso com o tempo reencontrado. Nos dias seguintes,
regressaram as reuniões, os prazos, os emails. O algoritmo que nunca se detém. Mas ela
começou, quase impercetivelmente, a desacelerar. A resistir. Não com grandes gestos,
mas com pequenas escolhas.
Passou a sair dez minutos mais cedo para caminhar até ao trabalho. Desligava as
notificações durante uma hora por dia. Começou a levar no saco um livro — e nele
encontrava um tempo diferente, feito de pausas e de páginas ricas de vivência humana.
E voltara, sem saber muito bem porquê, àquele café.
Não todos os dias — mas quando o ruído se tornava demasiado, procurava “a sua”
janela. Não precisava de conversar, nem de escrever. Às vezes, bastava-lhe olhar. Para o
Q
movimento lá fora, para os reflexos da luz na chávena de chá, para a tranquilidade
aconchegante dos gestos em redor.
A avó dizia que há lições que só a vida sabe dar — e nunca de uma vez, mas aos
poucos, como a água que molda a pedra.
Raquel começava, enfim, a compreender. Não era preciso mudar tudo de imediato.
Bastava escutar os pequenos sinais, acolher os gestos simples, permitir-se habitar o
instante. Era nesse ritmo mais lento que algo dentro de si começava a ganhar forma —
sem pressa, mas com a firmeza discreta de quem regressa, devagar, a si mesma.
erto dia, ao sair do café, parou um instante à porta. O sol filtrava-se por entre
os ramos, traçando sombras leves no chão. O ruído da cidade continuava ao
fundo, mas ali, naquele recanto esquecido pelo tempo, tudo era mais nítido — e mais
sereno.
Sorriu. Não porque tudo estivesse resolvido, mas porque começava a saber estar
onde estava. Sem fingimentos, sem distrações. Apenas ali. Presente.
E, por vezes, isso bastava.
Como algo que começa de forma discreta.
Como uma flor que desabrocha sem se fazer notar.
Como o silêncio que se aprende a ouvir — quando se habita verdadeiramente o
instante.
f
Ivone Roriz
Rumos – Um Outro Olhar
C

À janela do café

  • 1.
    À janela docafé manhã estendia-se lenta pelas ruas do bairro, como se o tempo ali tivesse esquecido o seu passo apressado. Dentro do café, envolto num murmúrio de porcelanas e de vapores brandos, Raquel olhava, com olhos cansados de tanto ver e de tão pouco sentir. À sua frente, estendia-se o quotidiano discreto da rua — a florista do lado, o toldo gasto a ondular com a brisa, e as pessoas que passavam como sombras ligeiras. Um pouco mais longe, a cidade fervilhava. O som dos passos apressados, das notificações que ecoavam como sinos modernos, dos veículos que passavam como se o A
  • 2.
    tempo os empurrasse.Gente colada aos ecrãs, olhos postos em vidas alheias, sorrisos forçados para selfies com filtros. Luz, movimento, cor — mas tudo um pouco irreal e inconsistente. Deixara o portátil fechado e o telemóvel em silêncio, como se, numa atitude de respeito, tivesse pedido licença à vida para estar ali, simplesmente. Vinha de dias — talvez de anos — repletos de urgências. Trabalhava numa empresa de comunicação digital. Passava o tempo a programar campanhas que garantissem alcance e interação. Observava comportamentos de consumo, tendências visuais e horários de maior tráfego. Tudo girava em torno de se ser visto, comentado, partilhado. Era um mundo de aparências, onde o silêncio e a simplicidade pareciam não ter lugar. Recorria às plataformas digitais, alimentava algoritmos, criava estratégias para captar a atenção dos outros. Sabia como escrever para manipular emoções, para obter seguidores. Mas não sabia — ou já não sabia — escrever de uma forma genuína. Naquela manhã, sem saber porquê, dera por si a caminhar sem destino. Não tinha reunião marcada, nem objetivo traçado. Apenas um cansaço diferente, mais fundo. Um vazio que não se preenchia com interações apressadas nas redes sociais. Entrara naquele café antigo como quem procura abrigo num tempo já quase esquecido. Sentada ali, frente ao vidro, algo a desconcertava. A luz desenhava formas suaves sobre a madeira da mesa. O silêncio atento de quem preparava uma chávena de chá parecia ter mais presença do que muitos discursos apressados. Nada ali era urgente, e talvez por isso tudo lhe parecesse mais verdadeiro. Recordou a avó. Tinha o mesmo hábito de parar. De saborear os instantes como quem saboreia um doce feito em casa, sem pressa de o acabar. Lembrou-se de uma tarde de outono, quando ainda era criança, em que caminhavam juntas pela margem de um rio. A avó andava devagar, como se o tempo não tivesse pressa, e o som das suas botas na terra era como uma canção suave. Raquel observava como a avó parava a cada passo, com a atenção total no que a rodeava. Olhava as folhas caídas com uma curiosidade tranquila, como se cada uma contasse uma história que apenas ela sabia ouvir. E então, sem palavras, baixava-se, apanhava uma folha dourada e entregava-a à neta, sem pressa de seguir. Era essa sabedoria de quem conhece o ritmo da natureza que Raquel começava agora a entender. A avó não tinha pressa, apenas vivia, em cada gesto, em cada pausa,
  • 3.
    em cada olharatento. E isso, aos poucos, ia ficando dentro de Raquel, como algo que se planta sem ser visto, mas que cresce devagar, sem pressa de ser. Respirou fundo. Pegou na caneta esquecida no fundo da mala — ainda uma caneta, sim — e, num gesto tímido, começou a escrever num guardanapo. Palavras soltas: pausa, respirar, silêncio, memória. Fez depois o esboço de uma flor silvestre, como as que a avó gostava de apreciar quando passeavam juntas. Sentiu um nó na garganta, mas também um leve calor no peito, ao aflorar aquela parte de si há muito adormecida. O empregado do café aproximou-se com um copo de água, e colocou-o sobre a mesa, com a suavidade de quem compreende o silêncio alheio. Raquel olhou para ele e sorriu. Não um sorriso apressado ou convencional — mas espontâneo. Pequeno gesto, breve instante — mas talvez mais real do que os muitos “gostos” colocados nas postagens recentes que fizera. Permaneceu ali ainda algum tempo. O chá já frio, o guardanapo com palavras dispersas e o pequeno desenho da flor repousando sobre a mesa como testemunhas silenciosas de um instante raro. Não havia pressa. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia aquela ansiedade surda a empurrá-la para o próximo compromisso, para a próxima publicação, para o próximo objetivo. O mundo lá fora continuava no seu frenesi habitual. Mas ali, naquela mesa junto à janela, algo dentro de si murmurava “basta”. Não era um grito, nem uma rutura. Era apenas um sussurro. Um convite. Uma possibilidade. uando saiu do café, levava o guardanapo entre as páginas do caderno, como a selar um pacto silencioso com o tempo reencontrado. Nos dias seguintes, regressaram as reuniões, os prazos, os emails. O algoritmo que nunca se detém. Mas ela começou, quase impercetivelmente, a desacelerar. A resistir. Não com grandes gestos, mas com pequenas escolhas. Passou a sair dez minutos mais cedo para caminhar até ao trabalho. Desligava as notificações durante uma hora por dia. Começou a levar no saco um livro — e nele encontrava um tempo diferente, feito de pausas e de páginas ricas de vivência humana. E voltara, sem saber muito bem porquê, àquele café. Não todos os dias — mas quando o ruído se tornava demasiado, procurava “a sua” janela. Não precisava de conversar, nem de escrever. Às vezes, bastava-lhe olhar. Para o Q
  • 4.
    movimento lá fora,para os reflexos da luz na chávena de chá, para a tranquilidade aconchegante dos gestos em redor. A avó dizia que há lições que só a vida sabe dar — e nunca de uma vez, mas aos poucos, como a água que molda a pedra. Raquel começava, enfim, a compreender. Não era preciso mudar tudo de imediato. Bastava escutar os pequenos sinais, acolher os gestos simples, permitir-se habitar o instante. Era nesse ritmo mais lento que algo dentro de si começava a ganhar forma — sem pressa, mas com a firmeza discreta de quem regressa, devagar, a si mesma. erto dia, ao sair do café, parou um instante à porta. O sol filtrava-se por entre os ramos, traçando sombras leves no chão. O ruído da cidade continuava ao fundo, mas ali, naquele recanto esquecido pelo tempo, tudo era mais nítido — e mais sereno. Sorriu. Não porque tudo estivesse resolvido, mas porque começava a saber estar onde estava. Sem fingimentos, sem distrações. Apenas ali. Presente. E, por vezes, isso bastava. Como algo que começa de forma discreta. Como uma flor que desabrocha sem se fazer notar. Como o silêncio que se aprende a ouvir — quando se habita verdadeiramente o instante. f Ivone Roriz Rumos – Um Outro Olhar C