Contos de recife 3015 - O MORTO

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O morto é um conto escrito por Gledson Gomes, que integra a coletânea "Contos de Recife 3015", que aborda histórias de personagens que vivem na cidade no ano de 3015. Conto Publicado originalmente no blog Caranguejo Atômico.

Publicada em: Diversão e humor
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Contos de recife 3015 - O MORTO

  1. 1. CONTOS DE RECIFE 3015 - VOLUME 1 O MORTO AUTOR: GLEDSON GOMES Este conto faz parte da coletânea "Contos de Recife 2015 - Volume 1", publicados quinzenalmente no blog Caranguejo Atômico. Visite o blog para novos contos.
  2. 2. O MORTO Júlio não imaginava que falar o que pensa poderia ser perigoso, ele sabia que o governo federal havia endurecido a postura com relação ao cumprimento das leis e que as punições eram aplicadas sem perdão e não havia tolerância para a corrupção, finalmente o país havia se livrado dela de uma vez. Na verdade havia sido uma troca, eles haviam se rendido à tecnologia, aos sistemas, aos processos digitais onde todos haviam se tornado números. Para Júlio tudo ia bem, novo single nas paradas de sucesso, milhões de visualizações em seus vídeos e seguidores nas redes sociais, o seu álbum "Noites de Inverno" era um dos discos mais vendidos digitalmente (CD´s já não existem a séculos), o que fez com que vários programas de televisão o chamassem para apresentações, os seus shows estavam cada vez mais lotados, enfim ele tinha se tornado um Popstar. Quando um produtor renomado o viu o cantar em uma tarde na Av. Conde da Boa Vista, com seu amplificador e sua guitarra e se encantou com o seu "groove", logo se
  3. 3. aproximou e prometeu contrata-lo para a sua gravadora, filial brasileira um dos maiores selos do mercado da música mundial, que projetaria seu nome em todo território nacional, ele decidiu embarcar afinal de contas: O que Júlio ganhava nas ruas com sua música quase não dava para pagar às contas no fim do mês, ele ainda tinha que trabalhar em um lava-jato nos fins de semana para completar a renda. Ele tinha nas mãos a chance da sua vida, viver de sua arte, ser reconhecido e aplaudido. Ele tinha de fazer dar certo. Na gravadora tudo havia corrido bem, foi muito bem recebido pela equipe de gravação, recebeu dicas de como se vestir, cortar o cabelo, tudo para ser um ícone da moda. Ele nunca tinha se achado dos mais bonitos, no sucesso com a mulherada se considerava 37,2% bom (em suas palavras), sua última namorada Madalena, dizia que ele era um fracasso em relacionamentos, era muito egoísta. Para ele isso era normal, como artista ele tinha que ser confiante e um pouco egoísta, era algo normal para alguém como ele. Gravar voz foi o mais fácil, ter sido agraciado por Deus com uma voz encantadora era muita sorte, já a guitarra tinha de ser trocada o novo Júlio precisava de um instrumento a altura. Em pouco tempo o álbum estava pronto, todas as canções com sua nova banda base estavam bem timbradas e tudo mais. Seria um sucesso!
  4. 4. A estreia foi em um dos programas mais influentes da Webtv, o "MITTO SHOW" que ia ao ar todos os domingos e tinha uma audiência tão grande que fazia com que qualquer um que por ali passasse virar um fenômeno instantâneo, e com ele não foi diferente, se apresentou, cantou suas músicas, fez graça com o apresentador e se divertiu bastante. No dia seguinte tudo tinha mudado ele era uma estrela, conhecido nas ruas, fazendo tumulto por onde passava enlouquecendo a mulherada, viu seus números subindo nas rádios e lojas de todo o país. Os shows não paravam de aparecer em todo o país, era enfim, o reconhecimento com o qual sempre havia sonhado, os ingressos sempre esgotados, a agenda sempre apertada, passou a morar em hotéis e em ônibus, mas estava feliz, era o que sempre quis na vida. Um dia seu empresário lhe trouxe a notícia que Júlio mas aguardava havia pelo menos uns três meses, ele iria se apresentar em um dos maiores festivais de música de todos os tempos o "POP ALL NIGHT", que reunia as maiores estrelas da música mundial em duas noites incríveis, e ele que a pouco tempo atrás não era ninguém estaria entre elas. Era um sonho. Na noite anterior não dormiu, andou pelo quarto do hotel, decidiu que precisava se aliviar. Chamou uma acompanhante para lhe dar prazer mas, mesmo depois do sexo não parou de pensar em tudo o que estava por vir, o
  5. 5. que aquele festival representava para a sua carreira, lembrou de sua mãe que havia morrido a quatro anos, a maneira como falava com ele e o apoiava na escolha que que havia feito, muito diferente do pai, um capitalista linha dura que desejava que o filho o sucedesse na presidência da empresa, uma das maiores do pais a FUENTES ENERGIA NUCLEAR, que fornecia toda a energia de Recife região metropolitana. Júlio se lembrou de como os dois discutiram quando ele falou que sairia de casa para levar a vida como músico pelas ruas, em busca do sucesso. Mas, tudo aquilo pelo qual havia passado tinha desaparecido nos últimos meses, principalmente pelo que ocorreria no dia seguinte que atestaria de uma vez o seu sucesso e mostraria ao seu pai que aquela tinha sido a escolha certa. Por fim, depois de rolar muito na cama dormiu, afinal precisaria estar descansado para as entrevistas da manhã seguinte. Pela manhã foi acordado pela assessora que lhe disse que um batalhão de repórteres e fotógrafos estavam a sua espera no auditório do hotel onde ele e os outros representantes das outras bandas concederiam uma entrevista coletiva falando sobre o evento que começaria na noite daquele mesmo dia. Tudo foi mais ou menos igual ao que Júlio estava acostumado, os repórteres perguntaram se ele traria alguma novidade no show daquela noite, ele havia ensaiado uma música com mais de mil anos de um artista chamado Elvis Presley ao falar
  6. 6. sentiu a comoção geral, ele já tinha se acostumado ao fato de surpreender o público era o seu diferencial em relação aos demais. O vocalista da banda "X" deu chilique como de costume, era a sua maneira de chamar atenção, já que musicalmente não funcionava, Júlio não entendia como ele e sua banda, considerada violenta e sem noção poderiam ter sido alçados ao estrelato, Júlio passou a acreditar mais na propaganda. Estavam lá também a cantora Exída e a vocalista da banda "Noras?!", que ele achava linda e que, de fato, era o nome dela. Quando foi perguntado sobre o que achava do governo e de suas punições severas Júlio não quis se pronunciar, pois as surpresas daquela noite não acabariam com um cover de uma música antiga ele vinha se envolvendo com um movimento político que conheceu através dos fãs, que lutava contra a chamada "Ditadura Digital" que substituía os juízes e advogados, um sistema que utilizava câmeras atreladas a um software de reconhecimento de crimes que julgava e condenava automaticamente os réus a penas de exílio e morte. A entrada no evento foi bastante complicada, embora ele entrasse pelos fundos do da casa de shows, havia um número incontável de pessoas aguardando para ter a oportunidade de ter contato com cada artista que por ali passasse, para conseguir um autógrafo ou uma selfie que fosse com qualquer um. O carro em que Júlio estava
  7. 7. passou sem abrir as janelas, seu empresário dizia que algum ativista político se manifestasse e acabasse por sujar a imagem de Júlio, que andava sendo contratado com frequência para eventos do governo, o que fornecia um bom marketing para sua carreira perante a população e sempre dava um bum nas vendas do single nas lojas digitais, ele até tinha sido convidado pelo governador, que era velho conhecido de seu pai, em pessoa para cantar o hino nacional em um dos eventos do governo que ocorrera a pouco mais de três meses. Por fim depois de muito aperto o carro pode entrar no estacionamento do local do evento, Júlio saiu e viu os fãs apertados na grade para conseguir o que quer que fosse de resposta de seu ídolo, ele sorriu e acenou o quanto pode, ele gostava do carinho e não via como seu empresário, que via aquelas pessoas como uma fonte de renda apenas, dinheiro era preciso mas para ele ser amado era o maior pagamento. Se vestir era o mais fácil, tinha preparado uma roupa especial para a noite, com um casaco azul marinho com detalhes em cristais, uma calça preta de couro bem justa, uma camiseta branca para dar uma clareada no look e uma bota de couro de cobra para dar um ar de "rockstar", os óculos escuros chegavam para completar o visual matador da noite. Bebeu um pouco para relaxar, se soltar no palco, aqueceu a voz, reclamou do camarim como de costume, se concentrou para não esquecer nada, afinou
  8. 8. a guitarra, bebeu mais um pouco e enfim estava pronto. A banda "X" tinha feito o show de abertura, com sua violenta apresentação era comum eles saírem machucados do palco, em seguida no lineup veio a banda "Noras?!" e por fim, antes de Júlio vinha a cantora "Exídia", que cantou uma música composta por Júlio e que tinha se tornado um sucesso na voz dela. Era a vez dele entrar no palco com o show mais aguardado da noite. A plateia estava empolgada e Júlio não queria decepcionar as milhares de pessoas que pagaram o ingresso, por isso não poupou despesas para causar uma boa impressão, o palco ficou escuro, uma música de suspense começou a tocar, de repente fogos anunciaram a entrada triunfal de Júlio no palco, os músicos começaram a introdução de um de seus singles "Meu Amor", que tinha alcançado o topo das paradas de todo o país e permaneceu no topo por quinze semanas, o que era um recorde na história da música POP e tornou Júlio um fenômeno. O público gritava, cantava cada uma das letras, pulava, levantava os braços ao comando de Júlio que detinha a atenção da massa presa à sua apresentação, era a tal "magia" que seu empresário sempre dizia que exalava de seus poros. O setlist foi sendo executado como planejado e o público cada vez mais encantado com ele, até que chegou a hora das surpresas que havia prometido na entrevista da manhã, o
  9. 9. primeiro, o cover da música "Love me Tender" de Elvis Presley, que fez o público entrar num clima romântico junto com a canção do início ao fim. Terminada a canção estava na hora da outra surpresa, que marcaria a noite na história. Júlio pediu a atenção de todos, disse que tinha uma coisa importante para falar, uma mensagem que tinha que compartilhar com todos os que, assim como ele, também não admitia viver sob o medo dos olhos eletrônicos, que oprimiam e controlavam todos os habitantes da cidade, disse que aquilo não era viver, não era ser livre como a constituição pregava, falou das penas que vinham sendo aplicadas pela justiça eletrônica, o quanto era injusto ser condenado sem poder se defender, pois, se eles tem todas as provas e o software indica que um sujeito é culpado, assim ele será tratado, tirado de sua família, morto de forma fria, por máquinas que nem ao menos simulam ter algum sentimento por quem estão tirando a vida. O governo em si também foi alvo de suas críticas que ele taxou como passivo e omisso, que não se importava com o povo, tanto que havia acabado com o contato com as pessoas que eram obrigadas a falar com máquinas e tratadas como gado. Júlio falou tudo o que pensava sobre o assunto e notou que os fãs também partilhavam da mesma opinião a respeito do governo que o encorajou a levantar um grito de guerra contra a ditadura digital que ecoou por toda a dependência do festival e por todo o
  10. 10. país através das transmissões ao vivo. Depois da mensagem o show continuou normalmente e teve um encerramento apoteótico como Júlio tinha planejado, com fogos, luzes, lasers, confetes, fumaça e tudo o que podia fazer com que todos lembrassem daquela noite para sempre. Ele estava orgulhoso. A festa começou já na saída do palco, driblou os repórteres pegou uma garrafa de cerveja e foi direto para a limusine onde nove das mais belas mulheres o aguardavam para cair na gandaia sem limites, era o paraíso, que por sinal era o nome da boate que seu empresário havia fechado, numa festa só para convidados onde tudo estava liberado. Naquela noite rolou de tudo, sexo, drogas e muita música POP, pois o Rock era coisa rara devido a sua natureza revoltada havia sido deixado de lado no mundo da música, mas tudo de forma discreta. Júlio tratou de curtir a noite toda com as acompanhantes e com os amigos. Mais tarde, naquela noite, as meninas da banda "Noras?!" chegaram o que chamou a atenção do Júlio, que não conseguia tirar o olhar da vocalista, da qual ele nem sabia o nome mas sentia uma forte atração, ele decidiu chegar e perguntar de uma vez, pois a noite prometia. A manhã seguinte começou com uma dor de cabeça incomodando, ele procurou o smartphone para olhar as notificações e viu que ele não estava por perto, moveu o
  11. 11. braço de Alice de cima do seu corpo para levantar, Júlio sentia os efeitos da ressaca, com a mente ainda turva pelo sono, se levantou, foi ao banheiro, com sede buscou água na geladeira do quarto, a cabeça ainda doendo, olhou ao redor e viu o smartphone em uma mesa, o chão estava cheio de suas roupas espalhadas, pegou o aparelho e percebeu que não havia conexão com a internet, tentou entrar nas redes sociais e percebeu que os seus perfis tinham sido apagados o que fez Júlio pensar em hackers, mas ao olhar na Webtv do quarto percebeu que nela existia conexão o que o deixou bastante intrigado e curioso, decidiu que era um erro no aparelho e que compraria um novo na loja do hotel, optou por ver as notícias enquanto esperava pelo café da manhã que pediu ao serviço de quarto. Não demorou até que o pedido chegasse, pediu queijo coalho, pão francês, frutas, iogurte natural, suco de laranja, presunto light, café preto, torradas, mel, leite e bolo de chocolate. Enquanto recebia o rapaz do serviço de quarto uma matéria na Webtv chamou sua atenção, tinha por título: "Acidente trágico mata o cantor e fenômeno da música Júlio Fuentes", as circunstâncias descritas na matéria descreviam que ele havia morrido poucas horas antes em um acidente de avião no trajeto que ai para São Paulo para um show no dia seguinte, mas esse voo nunca havia acontecido, e o show em São Paulo só ocorreria no dia seguinte, ele tinha certeza, havia
  12. 12. marcado com o empresário. Alice já havia acordado e Júlio a chamou para assistir a matéria, ela o tranquilizou dizendo que era uma matéria fake para algum site de humor, Júlio pegou seu smartphone emprestado para ligar para o empresário que não tinha sinal, ligou para varias pessoas de sua equipe, mas nenhum deles atendeu, de repente o telefone tocou, era a moça da recepção que avisou a ele que alguns policiais o esperavam no saguão do hotel. Ele imaginou que o eles vinham por causa da matéria falsa e que alguém da equipe os havia informado que o que fora veiculado na reportagem era uma farsa de algum programa na Webtv. No momento que Júlio abriu a porta uma entrevista ao vivo com um sobrevivente do acidente fez com que ele ficasse atordoado, era Marlon, seu empresário com quem tinha falado ontem na festa e que, ate onde ele sabia estava hospedado no quarto na frente do seu, atordoado com tudo o que estava vendo ele correu até o quarto da frente para falar com Marlon, ele não estava lá, nem os membros de sua equipe de produção, todos haviam partido. Decidiu que iria até os policiais, eles deviam ter respostas. No caminho até o saguão ele foi imaginando tudo o que poderia estar acontecendo, uma pegadinha muito bem elaborada, ou aquilo era um sonho louco do qual logo iria acordar. Ao chegar no saguão avistou os policiais, eles lhe
  13. 13. pediram que ele os acompanhasse mas não disseram para onde, Júlio disse para eles que não cairia na pegadinha de alguma emissora decadente em busca de audiência, os policiais enfatizaram que não era uma pegadinha, o seguraram pelos braços e começaram a puxá-lo para fora do hotel, ele argumentou que precisava pegar os documentos no quarto mas não lhe deram ouvidos, ele começou a espernear e tentar escapar das mãos dos policiais que eram mais fortes que ele, quando finalmente conseguiu se livrar dos dois homens correu para o hotel mas não foi muito longe, tudo ficou preto de repente. Júlio desmaiou. Acordou em uma sala de chão branco, liso e bastante limpo, apenas uma mesa e uma cadeira mobiliavam o ambiente, luzes de led no teto, paredes brancas e uma porta que parecia quase indestrutível, Júlio se sentou na cadeira á sua frente, não sem notar que tinha molhado as calças, tinha sido abatido por uma arma de choque. Ao sentar na cadeira ele notou que a parede em sua frente tinha uma grande tela e pensou que algo seria exibido para ele dali a algum tempo, pensou em um reality show de sobrevivência, como aqueles em que colocavam pessoas famosas em situações de sobrevivência por alguns dias, mas nesse caso elas não eram capturadas com tanta grosseria, ele esperou pelo que pareceram horas até que algo além daquele branco absolutamente perturbador acontecesse. Quando finalmente o silêncio
  14. 14. foi quebrado por algo que começou a ser reproduzido na tela à sua frente, parecia um vídeo, mas ele logo percebeu que aquilo se tratava de um reality show ele estava na frente do software que agia como delegado coordenando os policiais, ele também agia como juiz, júri e promotor de acusação e segundo ele tinha ouvido nas reuniões com os ativistas não havia argumento contra o programa, pois ele sempre vasculhava o sistema de câmeras da cidade e tinha acesso irrestrito a todo o acervo digital dos smartphones, computadores e tudo o que fosse ligado à internet, fazendo com que o réu não tivesse como se defender. Isso tinha funcionado nos casos de corrupção, e tinha acabado com o "jeitinho brasileiro" de uma só vez. Júlio se lembrava das aulas de história que no o sistema começou a funcionar no ano de 2897, 80% dos políticos do congresso nacional foram condenados à morte ou ao exílio por corrupção, o que trouxe uma esperança ao coração de todos os brasileiros, que a séculos sonhava com aquele momento. Mas o preço a ser pago pelo fim da corrupção foi a ausência do fator humano na execução do código penal, não mais juízes julgariam, os advogados até tentaram, mas defender alguém de um sistema que possui todas as informações disponíveis era impossível. Finalmente algo foi pronunciado. O software, uma inteligência artificial programada por mais de 280 anos, conseguia imitar com maestria os sentimentos humanos, de modo a deixar o réu
  15. 15. confortável, sua interface humanoide assustava Júlio pois, conseguia imitar todos os traços humanos. Ele cumprimentou-o de modo cortês e em seguida começou a pronunciar as acusações, Júlio havia sido acusado de subversão, comportamento antipatriótico, incitação ao crime de subversão. Em seguida mostrou todos os momentos onde os crimes foram cometidos em vídeo, o que fez Júlio se sentir sem defesa, pois todas as reuniões e até as conversas com os amigos tinham sido gravadas, as conversas telefônicas e até o que ele tinha falado com Alice no quarto, na noite anterior e por fim o que tinha falado, no dia anterior, no palco do POP ALL NIGHT, a comoção que aquela declaração havia causado nas redes sociais e nas ruas no dia seguinte, que segundo o software tinha causado uma revolta contra o governo e quebrado a "harmonia" da sociedade, o que não era aceitável. Júlio se viu desesperado e sem ter a quem recorrer, pensou em ligar para o pai, pediu ao software para ligar. Mas em seguida veio a sentença. Mike, como era chamado o software internamente, Júlio tinha ouvido um dos policiais dizer quando acordou no carro que o trouxe, antes de desmaiar novamente, começou a pronunciar a sentença de Júlio calmamente. Ele disse que a pena para subversão não era tão grave quanto a de um assassinato, crime pelo qual se pagava com a morte, porém ele não poderia ficar no meio da população comum, ele seria apagado da sociedade
  16. 16. comum e direcionado à uma sociedade controlada onde viveria até o fim de seus, de modo que não poderia manter contato com família, amigos ou fãs, pois para todos seria considerado morto, seus registros seriam apagados seus discos e produtos em geral não seriam mais fabricados, seria como se Júlio tivesse morrido em um acidente aéreo que viu naquela manhã. O nome dele também seria mudado para a numeração 4824 e que ele partiria imediatamente conduzido a ilha dos exilados. Júlio ficou ali sentado sem poder acreditar no que ouvia, era como se a ficha não houvesse caído, seu cérebro ainda não conseguia processar o que havia ouvido, se sentiu tonto ficou aéreo, nem percebeu que os policiais entraram, o tiraram da sala e o levaram por um corredor longo e o colocaram em uma van, algemado nos pés e mãos, Júlio apagou. Quando acordou no chão do avião, viu que não era o único exilado naquela noite, o pequeno jato continha mais dois passageiros, uma guarda o viu se levantar e o prendeu à cadeira, Júlio olhou pela janela, lá fora a noite escura, viu a lua cheia e percebeu que jamais esqueceria aquela noite. Quando o avião pousou em uma precária pista de pouso de terra, ele notou que a ilha era toda cercada por cercas de arame, foi conduzido a descer pela escadinha uma carro o levou para uma pequena recepção onde um grupo de guardas os aguardava para fazer o registro. Foi quando
  17. 17. Júlio estremeceu, ao olhar para a fachada do pequeno prédio que era a entrada da cidade que um dia tinha sido um dos mais conhecidos pontos turísticos do pais e que com a implantação do sistema de justiça digital e as penas de exílio se tornado frequentes o governo precisava de um lugar para alocar os prisioneiros, a então ilha de Fernando de Noronha se tornou um lugar para aqueles esquecidos pelo governo. A fachada do prédio era bem clara no que dizia. "BEM-VINDO AO CEMITÉRIO DOS EXILADOS"

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