LEIALDO PULZ
UM MUNDO CHAMADO
RÚSSIA
Explorando o interior e a alma de um país.
SUMÁRIO
SUMÁRIO ..........................................................................................4
INTRODUÇÃO..................................................................................6
ANTES DE TUDO…....................................................................... 11
VENTO DE MUDANÇAS...............................................................15
KRASNODAR 40 GRAUS..............................................................22
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: VIAGEM AO PASSADO ................28
PRIMEIRO INVERNO ....................................................................37
MEDICINA ......................................................................................48
SISTEMA DE EDUCAÇÃO RUSSO ..............................................58
OS CONTRASTES ..........................................................................75
CURIOSIDADES CULTURAIS......................................................84
AALMA RUSSA: DO MISTICISMO AO CRISTIANISMO .........97
O INTERIOR DA RÚSSIA ............................................................ 110
DOLMENS E KURGANS .............................................................132
RUSSOS OU COSSACOS: O SUL DA RÚSSIA..........................148
O CÁUCASO NORTE: DE SOCHI ATÉ NALCHIK....................158
POLO NORTE: SALEKHARD .....................................................197
SALEKHARD, O RETORNO .......................................................222
STALINGRADO ............................................................................248
MOSCOU: CAPITAL DE TODAS AS RÚSSIAS.........................260
EXPERIÊNCIAS FUTEBOLÍSTICAS..........................................273
A VOLTA PARA CASA .................................................................288
CONCLUSÃO ................................................................................295
CONTATOS....................................................................................298
FOTOS............................................................................................299
INTRODUÇÃO
A Rússia é o maior país do mundo em extensão
territorial. Sua fundação remonta ao IX século, mas por
aquelas terras sempre vagaram contingentes humanos deste
uma época já esquecida na escuridão dos tempos. A região foi
palco de revoluções, conquistas, guerras, dramas e paixões
eternizadas pela História.
Mas sempre parece que aquele gigante se mostra aos
olhos do mundo de uma forma enigmática, fria e tenebrosa. A
Rússia é um mistério que muitos tentaram e ainda tentam
desvendar.
Nossa proposta neste livro não é chegarmos a uma
resposta final sobre todas as questões que envolvem este povo.
Gostaríamos de contribuir, mesmo que de forma modesta,
para que nossos leitores descubram um pouco mais das
“terras enevoadas e de trevas nos limites do mundo, às
margens do Oceano”, como descreveu Homero em sua famosa
Odisseia ao falar daquela região...
Ao olharmos a literatura disponível em nossa língua,
podemos perceber uma grande lacuna de livros sobre o tema
se compararmos ao tamanho da influência e representação da
Rússia ao longo da História.
Mas gostaria de citar aqui o caso de alguns livros
escritos por brasileiros que lá estiveram. O livro Os Caminhos
da Eterna Rússia de Tite De Lamare (1997) foi importante pelo
fato de ter sido escrito por uma embaixatriz brasileira, numa
envolvente visão da História russa, com todas as suas nuances
sócio-políticas e religiosas. Ainda poderia citar o livro de
Angelo Segrillo, que morou na URSS por alguns anos e
posteriormente na Rússia, fazendo um trabalho muito
semelhante ao da embaixatriz em seu livro Os Russos. Mais
recentemente foi lançado o livro Com Vista para o Kremlin,
da jornalista Vivian Oswald, que morou em Moscou entre
2007-2009, com um enfoque na Rússia atual, suas questões
políticas e econômicas. Ainda podemos citar Lágrimas na
chuva de Sergio Faraco, que conta sua experiência pessoal na
URSS nos anos de 1960.
Tenho que reconhecer, entretanto, que ao ler estes
livros, senti a falta de um olhar mais descompromissado com
sequências históricas (apesar de eu ser um historiador), ou
mesmo de um desapego à política e a assuntos da aristocracia
e dos altos escalões. Percebi que pouco ou quase nada era dito
do ponto de vista do povo em si, ou mesmo da vida cotidiana
do interior daquele que é o maior país do mundo. Notei que
esta lacuna poderia ser preenchida, de alguma forma pelas
nossas experiências de vida lá.
Moramos numa cidade que ficava longe dos grandes
centros como Moscou e São Petersburgo. Estávamos mais
deslocados para o sul, onde a vida passava num ritmo mais
cadenciado e provinciano. Apesar de Krasnodar ser a capital
do estado com o mesmo nome e ter quase um milhão de
habitantes, muitos que residem ali são oriundos de lugares
isolados, quase perdidos no mapa do Leste Europeu, Cáucaso
ou da Ásia Central. As mais de 70 etnias representadas em
Krasnodar dão o tamanho da multicolorida sociedade local.
O desejo neste livro era buscar um olhar mais objetivo,
da vida cotidiana e das dificuldades, alegrias, orgulhos de um
povo que não se representa pelos empresários ou cúpula
política de Moscou. De certa forma, buscamos trazer para o
leitor um pequeno pedaço da alma russa, vista do enfoque de
brasileiros que lá estiveram.
Tentar reproduzir nestas páginas nossa vida na Rússia
é sim, uma maneira de não deixar com que o tempo apague
essas experiências que fazem agora parte de nossa história
como família e como indivíduos. Queremos reproduzir aqui os
fatos da forma mais vívida possível, transmitindo na medida
do possível as emoções pela qual passamos.
Nossa viagem levará o leitor a fatos históricos que
servirão de base para elucidar algum conceito, uma visão de
mundo, algum aspecto da alma russa. Somos em grande parte
fruto de nossa história e da de outros. Não há como nos
separar do aspecto histórico! E especialmente viver na Rússia é
deparar-se constantemente com a História.
Mas de igual forma passearemos pelo interior russo, de
cidades e vilarejos desconhecidos e esquecidos, cruzaremos o
país de sul ao norte numa viagem de trem, atingiremos a
região polar, brincaremos no frio de trinta graus negativos,
entraremos em regiões muçulmanas, encontraremos cidades
de mais de 2600 anos, quase congelaremos no inverno russo, e
nos queimaremos no verão abrasador. Enfim, uma viagem
pela Rússia como você talvez nunca tenha visto!
Quando fizermos nas páginas seguintes uma análise
cultural, ou contarmos alguma situação vivida por nós, não
estaremos fazendo um julgamento de se isto ou aquilo é certo
ou errado, mas apenas colocaremos fatos e eventualmente
faremos comparações apenas com a intenção de dar ao leitor
uma ideia mais específica do tema abordado. Não existem
culturas melhores ou piores, mas apenas culturas diferentes, e
este é o objetivo neste livro, deixar diante do leitor as
diferenças e semelhanças entre a cultura destes dois países,
Brasil e Rússia, sob o ponto de vista de brasileiros que lá
moraram.
Tentamos deixar o livro com uma leitura leve, sem
compromisso com estilos ou estruturas rígidas. Buscamos
apenas manter os capítulos com tamanhos iguais para não
sobrecarregar um assunto e deixar outros com menos
conteúdo. Os capítulos são independentes e podem até ser
lidos de forma aleatória sem comprometer a compreensão do
leitor.
Assim, convido a todos para embarcar nesta viagem
para o interior da Rússia, e desfrutar de uma leitura clara e
objetiva, mas sem dúvida, totalmente passional!
ANTES DE TUDO…
Quando era ainda adolescente, folheei os primeiros
manuais de língua russa, pronunciei as primeiras palavras em
russo (da, niet, tavarish,...). Foram anos colhendo informações
que chegavam esparsas pelos noticiários da televisão, ou
notícias de rádio e jornal. Quantas horas teriam sido dedicadas
a escutar estações de rádio que transmitiam em russo pelas OC
(Ondas Curtas). Ainda tenho algumas cartas que recebi da
Rádio Central de Moscou, em português “estrangeiro”, ou
russificado, diretamente da própria emissora situada na
capital russa (que naquele tempo ainda era soviética).
Naquela época, nos anos 80, felizmente, manter algum
vínculo com o gigante soviético já não representava um
perigo. A guerra fria estava dando suas últimas respiradas, o
fantasma do holocausto comunista havia passado, as previsões
dos profetas apocalípticos não se cumpriram e a policia tinha
outras coisas a fazer do que rastrear “subversivos políticos”.
Os anos que se seguiram aos eventos que
protagonizaram do fim da União Soviética, como o pouso do
pequeno avião alemão em plena Praça Vermelha (1987) e a
queda do muro de Berlim (1989), foram de euforia e
instabilidade em toda aquela região. Muitos saudavam a
liberdade que estava chegando, mas outros a viam com
desconfiança, típica dos russos. Grande parte da população se
via traída e enganada por longos anos do regime socialista.
Outros, que viveram o auge soviético, choravam o
desmantelamento eminente de seu país, a URSS.
No ocidente, nesta época, começamos a conhecer um
pouco mais daquele país. Mais precisamente, no Brasil, o
produto russo que apareceu (além da vodca, é claro!), foi o
Lada. Naqueles tempos, as instabilidades políticas eram
comuns em ambos os lados do Oceano. Foi precisamente em
1990, que o então presidente Fernando Collor autorizou a
importação desta marca para o Brasil. Os preços baixos das
unidades impulsionaram muitos a comprar aqueles modelos
soviéticos, apesar do design já ser considerado ultrapassado.
Este fator fez com que a empresa perdesse terreno em solo
brasileiro.
E a questão do design pareceu-me ser um dos fatores
que mais chama a atenção nos produtos que eram produzidos
por lá. Não eram somente os carros que tinham a aparência
ultrapassada, mas em geral, tudo que era feito pela indústria
daquele país, tinha sérios problemas nesta área. Disto pude me
convencer in loco.
Foi em 2002 que eu e minha esposa fomos pela
primeira vez à Rússia, numa espécie de reconhecimento de
campo, quando ficamos um mês. Naquela oportunidade,
entramos no país pelo Sheremetovo. O aeroporto era ainda do
tempo soviético, antigo, banheiros sujos, com máquinas velhas
e nem sempre funcionando. Na migração, as cabines não
tinham iluminação direito, pois algumas fluorescentes
estavam queimadas ou ausentes. A fila para estrangeiros era
mais demorada e sempre havia um guarda com um uniforme
verde-oliva passeando entre os passageiros, fumando, e
olhando minuciosamente cada pessoa (acho que era uma
espécie de raio-X que existia por detrás daquele óculos).
Parecia que seríamos todos pegos e levados para um caminhão
ou vagão de trem e enviados para algum lugar na Sibéria!
Mas passado aquele momento de intimidação, fomos
pegar nossas malas, numa esteira que honestamente eu estava
torcendo para que funcionasse, ou que não arrebentasse! Os
carrinhos para levar as malas eram alugados. Caso não
quisesse pagar, a pessoa podia tranquilamente levar todas as
malas na mão.
Aquele mês não foi algo realmente empolgante. Creio
que o mais positivo, neste sentido, foi conhecer a Praça
Vermelha. Esta sim, magnífica e bela. Aliás, como um todo,
Moscou é maravilhosa, com seus parques, metrô e as igrejas
ortodoxas em todos os lugares. Mas sobre isto falaremos mais
adiante.
Neste mês ainda, visitamos o sul do país, onde
provavelmente iríamos morar dali a algum tempo. E o interior
do país, como bem se sabe, é algo absolutamente distinto das
grandes metrópoles.
Aquele primeiro contato passou rápido, e levamos
muitas impressões daquela experiência. Mas os nossos
caminhos anos depois ainda iriam cruzar as estepes russas
mais uma vez…
VENTO DE MUDANÇAS
Lembro-me, ainda com certo grau de detalhes, de estar
olhando pela janela do avião e observando as nuvens lá fora. O avião
descia lentamente, dançando entre elas, numa espécie de balé russo.
Naqueles momentos que antecediam a chegada ao aeroporto
Domodedovo, em Moscou, pensei nos anos de preparo para estar ali,
prestes a encarar anos de vida num dos países mais enigmáticos do
mundo.
Mas lá estávamos nós naquele avião. Sim, eu estava com
minha esposa, porém desta vez estávamos com nossas duas filhas,
que tinham na época 1 e 5 anos. Minha esposa mal sabia algumas
palavras em russo, e nossas filhas, logicamente não tinham nenhum
conhecimento da língua. Toda nossa vida e bens materiais estavam
restringidos em sete malas no compartimento de bagagens, e alguns
dólares que carregávamos.
Lembro-me que ao chegarmos no Domodedovo, tive a
primeira boa impressão da nova Rússia. O aeroporto era mais
moderno do que o Sheremetovo, o outro aeroporto internacional da
capital. Por isto, passei a amar o Domodedovo, mais que o
Sheremetovo e o Vnukovo, os outros aeroportos internacionais da
capital russa! Havia sempre carrinhos de malas à vontade. A esteira
funcionava como em qualquer aeroporto que se preze. Os soldados
de verde-oliva com seus óculos foram dispensados, e já existia uma
iluminação aceitável nas cabines da migração. Naqueles três anos,
parece que muita coisa mudou!
O país como um todo havia entrado numa era de
modernização. A própria capital estava em franca mudança. Moscou
ficara mais colorida, mais alegre e jovial. Nos próximos anos que
viveríamos na Rússia, ouviríamos as histórias de outros estrangeiros,
que chegaram na década de 90, contando todas as mudanças que
desde então vinham ocorrendo a passos largos no país. Eram
histórias de quando a Rússia ainda saia de um regime socialista e se
aventurava num sistema capitalista, um capitalismo à sua moda é
claro!
As particularidades deste sistema capitalista russo se davam
por conta de toda sua história como nação. A Rússia viveu sob a
autoridade dos príncipes (knyaz), num sistema feudal até a chegada
dos mongóis no século XIII. Por dois séculos permaneceu sobre o
“jugo” da “Horda de Ouro”, um modelo de subjugação adotado pelos
mongóis sobre toda a extensão territorial russa por eles controlada,
que mantinha o sistema de servidão especialmente para os
camponeses.
Com a derrota dos mongóis e a chegada da era dos Czares
(séc. XV), o país foi unificado e começou a fase de expansão, que
iria originar toda a imensidão territorial que hoje é a Rússia, com 1/6
das terras emersas do mundo. Em todos estes períodos, aquela região
viveu num sistema econômico que poderíamos classificar como
Feudal.
Porém, uma característica marcante do sistema social russo
era a mir. Certamente influenciada pela severidade do clima, e por
uma compreensão da necessidade de solidariedade com o objetivo de
sobrevivência, este povo eslavo unia-se em comunidades, que viria a
servir de modelo para os revolucionários do século XX. Marx, certa
vez teria dito que a construção do comunismo só seria inicialmente
possível num país como a Rússia. Não é à toa que décadas depois
deste pensamento ser pronunciado, a revolução russa traria ao mundo
uma nova proposta de estruturação econômica e social.
Mas o país vivera um capitalismo antes de chegar aos
caminhos socialistas. Entre 1861 e a revolução russa, o país foi
iniciado no sistema que estava em fase desenvolvida, tanto na
Europa, quanto nos Estados Unidos. O ano de 1861 foi importante,
pois naquela data o país colocou em vigor uma lei que dava aos
camponeses uma liberdade nunca vista até então, a chamada Lei dos
camponeses. Uma luta de décadas para aumentar o direito dos
trabalhadores do campo havia chegado ao seu objetivo. Esta Lei
pode ser comparada, tanto nos pontos positivos quanto nos
negativos, com a importância econômica e social da Lei da libertação
dos escravos no Brasil em 1888.
Foram promulgadas várias reformas com o intuito de colocar
o país entre as grandes nações industrializadas do Ocidente. Por fim,
a Rússia estava pronta para o desafio de entrar no mercado mundial.
Foi a época das grandes expedições, inaugurações de estradas de
ferro, como a Transiberiana, a mais longa linha do mundo, unindo
Moscou à Vladivostok, no mar do Japão. As indústrias começavam a
se instalar, e grandes fluxos de comércio com o mundo iam se
estabelecendo.
Mas a riqueza que estava sendo gerada não chegava ao
trabalhador comum. E esta pressão foi aumentando cada vez mais,
até chegarmos ao início do século XX. Apesar da devoção dos russos
ao seu Czar, sustentada em grande parte pela Igreja Ortodoxa Russa,
o povo foi persuadido pelas promessas de igualdade e prosperidade
comum. Para isto, muito valeu aos revolucionários a base ideológica
contida na concepção da mir.
Depois de conturbadas reviravoltas no cenário político, em
1917, os bolcheviques tomam o poder, sendo liderados por Lênin. O
país novamente estava entrando num processo de isolamento com
relação ao Ocidente, fato nada novo na sua História, pois a Rússia
sempre oscilou entre o caminho da ocidentalização e a
“russificação”.
Os anos que se seguiram à revolução bolchevique, com uma
guerra civil entre o exército bolchevique (Exército Vermelho) e os
contra-revolucionários (Exército Branco, apoiado pelas nações
ocidentais), levaram o país ao caos econômico. Para piorar a
situação, o sul do país, considerado o celeiro da Rússia, passou por
anos de desordens climáticas, que gerou falta de trigo e outros
gêneros alimentícios, além de ser um reduto dos “brancos”, pois ali
estava a população cossaca, tradicionalmente leal ao Czar, pelos
motivos que iremos apresentar mais à frente.
A situação chegou a um limite tão desesperador que o
próprio Lênin lança um programa intitulado Nova Política
Econômica (1921),que seria segundo ele “um passo atrás necessário
para fortalecer os passos rumo ao Comunismo”. Na pratica, a NPE
era uma abertura de certos setores da economia russa para
investimentos capitalistas. Com a morte de Lênin, e a chegada de
Stalin ao poder, tais medidas foram abandonadas (1928) e o período
de centralização total da economia teve seu início.
A guerra civil da década de 20, a fome avassaladora da
década de 30 e a Segunda Guerra Mundial na de 40, deixaram o país
sempre numa situação complicada economicamente. A década de 50
foi o período em que a URSS finalmente teve oportunidade de
crescer, especialmente com os Estados satélites do Leste Europeu
como uma das fontes de recursos. O ápice chegou com a década
seguinte. Ainda hoje, russos que viveram a década de 60 se referem à
ela com um alto grau de nostalgia e apresso. O orgulho russo se
estampava na pessoa de Yuri Gagarin, o primeiro homem a dar a
volta ao mundo no espaço, símbolo daquele período.
Mas o otimismo soviético começou a dar sinais de desgaste
já na década seguinte. E os anos 80 foram marcados pela estagnação
total na economia. Gorbatchov tomou a iniciativa de implementar a
Glasnost (Transparência) e a Perestroyka (Reestruturação) para
forçar uma mudança nas bases do sistema. Visto como grande
estadista, homem corajoso e forte figura política aqui no ocidente,
em seu próprio território ele era e ainda é tido como um traidor e
responsável pela “venda” da URSS para o ocidente.
Todos vimos como o Muro de Berlim caiu. Em 1989 ele veio
abaixo, e com ele todo um sistema econômico e político. A
experiência soviética havia fracassado.
Neste novo contexto, vemos Bóris Yeltsin tomar o poder.
Resistiu a um golpe que tinha como proposta o retrocesso ao sistema
antigo soviético. Para a Rússia, não havia mais espaço para o
socialismo. Neste vácuo político e econômico, o capitalismo se
oferece como única alternativa, mas ele não escaparia de sofrer as
influências do país onde estávamos por entrar. O modelo capitalista
russo tinha suas características distintas, pois foi moldado e ditado
pela crescente máfia local. Os burocratas privilegiados do sistema
soviético davam lugar aos grandes empresários russos que, muita das
vezes, eram operários nas empresas estatais que, da noite para o dia,
haviam se apossado de máquinas, equipamentos e de fábricas
inteiras, pois o antigo dono (o Estado), já não estava mais presente.
Adécada de 90 foi marcada pelo caos em todas as esferas da
sociedade. Poucos são os russos que não se lamentam por aqueles
tempos. Muitas histórias ouvimos dos próprios cidadãos sobre o
período de terror social que se passou naqueles anos conturbados. O
país estava se desmantelando, e antigas rixas étnicas afloravam,
especialmente no sul. O mais conhecido destes movimentos de
libertação se manifestou nas guerras da Chechênia.
Os anos Putin, que começam em 1999, foram caracterizados
pela estabilização do país. As revoltas foram sufocadas (ou
compradas), a inflação galopante controlada, o rublo fortalecido
frente às moedas estrangeiras. A economia começou a reagir,
especialmente pela alta da produção e exportação do petróleo e gás.
Enfim, o país saiu dos anos de estagnação e começou o caminho
rumo ao crescimento. E isto não se deu apenas na área econômica,
mas na própria política internacional.
Tudo que foi declarado acima pode ser lido em qualquer
livro de História do século XX que trate do assunto. Contudo, toda a
política e economia têm reflexos na vida diária do cidadão comum, e
foi isto que sentimos ao chegar à Rússia naquele momento de
transição. Isto vai desde a melhoria nas estruturas dos aeroportos, até
uma avenida na cidade que é rearborizada e sua calçada renovada.
Isto influi na aquisição de carros importados e na abertura de
mercados maiores, com produtos trazidos de todo o mundo, inclusive
brasileiros. E neste sentido, nenhum lugar melhor para ver esta
transformação tão dramática da nova Rússia, do que nas regiões
periféricas. Moscou mudou muito nestes anos, mas é no interior do
país onde estas transformações são mais sentidas. Passear pelo
interior russo é algo que realmente descortina todas as condições de
um país milenar, que está aprendendo novas lições a cada dia.
Aqui começamos nossa aventura pela Rússia!
KRASNODAR 40 GRAUS
Saímos de Moscou na manhã do dia 17 de agosto de 2005,
onde a temperatura estava em torno dos 8 graus positivos. Estávamos
usando casacos e roupas apropriados para o frio daquela manhã.
O vôo até Krasnodar leva cerca de 2 horas. Chegamos ao
aeroporto e o comandante anunciou a temperatura externa. Pensei
que não havia entendido direito aquela voz que falava baixinho e
através de um sistema de som de alto-falantes já desgastados pelo
tempo.
Bem, ao menos naquele momento havia entendido
corretamente, 40°C!!! Tivemos que rapidamente tirar os casacos,
pegar nossas malas de mão e descer do avião. Desta vez não
precisaríamos descer pela cauda do avião, como ocorreu três anos
antes. Mas mesmo assim, tínhamos que caminhar até o transporte
que nos levaria para o prédio principal do aeroporto. E lá tivemos o
primeiro contato com o calor sufocante do sul da Rússia! Nenhuma
brisa, sol do meio-dia, umidade baixa, e ainda mais uma mudança
inteira para pegar. Para nossa alegria, o local de retirar as malas
estava coberto e fechado, bem diferente da última vez que estivemos
lá, quando se pegava as malas a céu aberto! Viva a nova Rússia...
Do lado de fora do prédio, alguns amigos estrangeiros que
havíamos conhecido na primeira viagem vieram nos recepcionar.
Nunca nos esquecemos do fato deles terem levado uma vela
aromática como sinal de boas-vindas, mas haviam deixado no carro.
Ao chegarmos no carro, com aquele calor tropical, a vela havia
amolecido e entortado, mais parecendo uma obra de arte!
Eles nos levaram para nosso novo lar. Bem, a primeira
impressão não foi das melhores. O edifício não tinha condomínio (na
realidade, nenhum tinha), a porta de acesso ficava aberta
permanentemente, sendo segura apenas por um tijolo. As escadas
estavam somente no cimento e o corrimão parecia peça retirada de
alguma escavação arqueológica. Coloquei todas as nossas malas no
pequeno elevador, para só depois descobrir que para o 2° andar, onde
ficava nosso apartamento, ele não ia. Ao subir com as malas pela
escada, minha esposa notou um rastro de sangue. Seus olhos me
fitaram apavorados, e nossa amiga ao perceber seu espanto, explicou
que deveria ser de alguém que havia comprado carne na feira.
Acreditamos, mais por medo de descobrir que fosse mentira, do que
pela veracidade da explicação.
O calor era insuportável, pois ar-condicionado ainda seria
um luxo que teríamos que esperar por mais dois anos. Numa situação
destas, o melhor é sair e conhecer a vizinhança. Descobrimos que na
nossa rua não passava carro, apenas a linha de bonde. Era admirável
como existiam árvores, e parecia às vezes que estávamos numa
floresta. Descobriríamos logo a utilidade daquilo nos dias de muito
calor que estavam pela frente.
Os primeiros dias foram um tempo dedicado para
descobertas. O mais simples ato, quando se está numa cultura
totalmente nova, torna-se um peso que faz esvair todas as forças.
Quando se vai passar apenas alguns dias ou semanas num lugar, não
existe um compromisso em entender o que se passa, nem mesmo
uma preocupação em estabelecer pontes com pessoas. Mas
estávamos ali para ficar por um bom tempo, por isto era vital
mergulharmos logo no nosso novo país. Comprar pão e leite era uma
atividade que gerava ansiedade. Como entender o vendedor? Como
saber se a conta estava certa,e o troco? Como parecer o menos idiota
possível quando uma pessoa falava algo, perguntando ou
exclamando?
Para nossa sorte, na nova Rússia já existia uma rede de
pequenos mercados de bairro que tinham caixas com leitor de barras,
e consequentemente um monitor que mostrava o valor das compras.
Na Rússia de poucos anos antes, que conhecemos em nossa primeira
visita, encontramos lojas onde usavam ábacos para fazerem as
contas, e o resultado era apresentado como se pudéssemos “ler” o
ábaco! Enfim, foi um alívio ver tudo nos “novos’ monitores!!!
Mas isto não impediu de passarmos por pessoas desprovidas
de qualquer inteligência naquele começo. Em certa ocasião, ao
chegar ao caixa, a vendedora passa os produtos e pergunta: “a paketa
nujna?”. Vinte segundos de silêncio e olhares que pareceram mil
anos. A vendedora repete umas três vezes, até que desiste e pucha
uma sacola e balança na nossa frente. Convenhamos, “paketa” parece
com pacote, “nujna” é “precisa”... Hum, entendi, ela estava
perguntando se precisávamos de sacolas plásticas. Aliviado, respondi
confiante “niet!”. No dia seguinte, pegamos a fila maior para ter a
mesma mulher no caixa. Engraçado como o ser humano sempre
busca estabelecer padrões. Ela sorriu (no estilo russo, sem
demonstrar que estava sorrindo!) e disse “Paketa nujna?”. Senti-me
como um nativo respondendo já de primeira, “niet”.
Ela então perguntou se éramos estrangeiros. Parecia sermos
os primeiros que ela tinha visto em toda sua vida. Descobrimos que
realmente muitos russos nunca haviam conversado ou visto alguém
de outro país fora da URSS. Com esta mulher do caixa do
mercadinho tivemos nossa primeira aula de russo. Todos os dias
passávamos lá para comprar algo, e acabamos tendo verdadeiras
conversas de duas três frases, o que, naquele estágio, eram diálogos
profundos, quase filosóficos. Pouco tempo depois, ficamos sabendo
que ela já não trabalhava mais ali. Lamentei solenemente a perda de
uma “amiga” tão fiel! Mas a vida ainda tinha muitas surpresas para
nós naquele lugar.
O sistema de água quente e fria nos domicílios é oferecido
por uma companhia da prefeitura. Pareceu-nos algo muito importante
ter água quente no apartamento, pois a imagem de ter que acordar no
inverno, abrir a torneira e lavar rosto com água fria causava, no
mínimo, calafrios. Isto se agravava pelo fato da água fria ser gelada,
mesmo naquele calor de Krasnodar.
Depois de alguns dias, acordamos sem água quente.
Esperamos horas e ela não voltou. No dia seguinte, fomos falar com
o dono do apartamento. Ele então explicou, sem entender o motivo
de nossa inquirição, que por uma semana a água quente seria
desligada por motivos profiláticos (e vai entender isto em russo,
depois de apenas alguns dias no país!!!). Resumindo, ficamos
tomando banho de caneca por duas semanas! Mais uma lição
aprendida.
Como minha esposa tinha um vocabulário muito reduzido, e
praticamente não podia se comunicar em russo e eu, nitidamente,
precisava aprimorar muito, estávamos matriculados num curso de
russo na faculdade preparatória para estrangeiros da Universidade
Estatal da cidade.
O curso era para começar na primeira semana de setembro,
mas como estávamos para descobrir, algumas datas para início ou
término de algo servem apenas como uma referência, não sendo
necessariamente seguida à risca. As aulas começariam somente duas
semanas depois do previsto.
Quando finalmente começaram as aulas,o calor do sul estava
se despedindo de Krasnodar. Fomos para a aula ansiosos pela nova
etapa.
Entramos num corredor escuro, com paredes mofadas e
seguimos até a porta indicada. Entramos e sentamos. Em pouco
tempo outros entraram, e em seguida a professora de russo. Uma
senhora já de idade, bem vestida e com seus cabelos brancos
impecavelmente arrumados. Ela, que exibia as feições nitidamente
eslavas, deu as boas-vindas, em russo, ao pequeno grupo que ali se
formara. Eram dois quenianos, um sírio, um holandês, um chinês,
três coreanas e dois brasileiros. O único que sabia alguma coisa de
russo era eu. Pensei naquele momento que esta seria uma missão
impossível para aquela senhora eslava. Aprendi com ela que não
existem missões impossíveis! No fim do curso, todos falavam russo
de forma muito satisfatória!
Nas aulas seguintes a este início, a professora Liudmila, que
se tornou o nosso primeiro anjo naquelas terras, me indicou uma
turma mais avançada, pois não havia motivos para ficar com os
principiantes. Minha esposa ficou, e acabou por se aproximar da
professora, pois era a mais experiente do grupo, que era constituído
por jovens solteiros entre 20-25 anos.
Ainda hoje falamos daquela professora que lecionava russo
para estrangeiros há 39 anos, da sua experiência e capacidade de,
sem usar uma palavra em inglês, ensinar uma das línguas mais
complexas e ricas do mundo. Nossos colegas e amigos estrangeiros
de fora da universidade se surpreendiam com o avanço de minha
esposa, mas em grande parte, isto se deu graças à professora
Liudmila. No ano seguinte, ela deixou a sala de aula, o que
lamentamos, pois profissionais de tamanha experiência sempre farão
falta.
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: VIAGEM
AO PASSADO
Krasnodar é a capital de um estado fronteiriço que leva o
mesmo nome. Sua população está por volta de um milhão de
pessoas, apesar de oficialmente ter pouco mais de 700 mil. Foi
fundada em 1793, inicialmente como uma fortificação avançada
russa na conquista do sul do país.
Seu primeiro nome foi Ekaterinodar, que significa “Presente
de Catarina”, a czarina da época e uma das maiores personalidades
da história russa. Após a Revolução Russa do início do século XX,
seu nome foi mudado para Krasnodar, que significa “Presente
bonito”, ou “Presente vermelho” - lembrando que esta cor era o
símbolo do Socialismo. Atualmente, movimentos cossacos tentam
reverter o nome da cidade ao original, mas enfrentam grande
resistência em algumas esferas políticas e práticas. Este processo de
mudança de nome para uma nomenclatura pré-socialista por sinal é
um fenômeno comum dentro da Rússia pós-soviética.
Mas os problemas da cidade (e de todo o país) não estavam
localizados apenas na questão de nomes. Se em Moscou as mudanças
eram visíveis e ocorriam em alta velocidade, no interior do país, que
não era alvo das companhias estrangeiras ou de turistas, as mudanças
vinham em uma lentidão agonizante.
Começamos nossa descrição pelos automóveis em geral. A
frota em 2003 era basicamente constituída de carros do tipo Lada
soviético. Os ônibus pareciam peças de museu, com lataria muito
acabada, sofrida pela ação do tempo e falta de manutenção. As ruas
eram quase sem sinalização, especialmente no asfalto.
Enquanto isto, nós víamos em Moscou uma frota de carros
trazidos do Japão rodando pelas ruas. Eram carros com volante do
lado direito (mão inglesa), mas o sistema de tráfego na Rússia segue
o sistema europeu continental, como é o sistema no Brasil. Em outras
palavras, o motorista sempre estava do “lado errado” do carro.
Em 2005, a frota de carros de Moscou havia se
“europeizada” muito, e era muito mais difícil encontrar carros do
estilo japonês. Para onde foram aqueles carros que vinham do Japão
como segunda mão e rodavam em Moscou? Eles foram
“periferizados”. Krasnodar estava na rota desse fenômeno. Nos
nossos primeiros anos, a taxa de veículos de mão direita chegava a
40% da frota na cidade, outros 50% eram de Ladas,e o restante eram
de carros “europeizados (leia-se aqui, marcas alemãs, suecas e
francesas).
A grande procura dos russos por esses veículos “japoneses”
se dava principalmente pelo preço bem mais em conta, e sem dúvida,
pela qualidade do produto japonês. O aumento de carros
“importados” (de segunda mão) para Krasnodar, fez com que os
antigos Ladas fossem naturalmente empurrados para o interior e
outras pequenas repúblicas da Federação Russa.
O aumento da frota na cidade gerou um fenômeno conhecido
em todas as grandes cidades do mundo: congestionamentos. E esta
era uma das palavras mais usadas nas desculpas que se ouviam dos
russos. Aprendi logo que ela era poderosa em várias situações. Os
congestionamentos se davam, muitas das vezes, por acidentes
envolvendo dois carros, bonde ou mesmo algum ônibus. E esta é
uma característica notada por todo o estrangeiro na Rússia, a grande
falta de preparo dos motoristas para dirigir, sendo que existem
inúmeros fatores para este tipo de problema. Em parte se deve ao
sistema de “compra de carteiras”, que gera um negócio muito bem
estruturado. O russo admite que passar nos exames para se obter a
carta de motorista é algo tecnicamente impossível, pois os
interessados no comércio das carteiras de motorista são os próprios
agentes que regularizam este setor.
Sei bem como o esquema funciona, pois precisei tirar uma
carta de motorista para dirigir o carro que compramos dois anos
depois, em 2007. Pedi a um amigo russo que ligasse para o
departamento responsável pela expedição de cartas. Preferi este
caminho, pois, além de não ter que me enrolar com a língua, aprendi
que o preço para estrangeiro sempre é muito diferente do que para
um russo. Resumindo, o valor cobrado seria de 20.000 rublos (cerca
de US$ 800 na época). Pedi para meu amigo informar que eu já tinha
carta do Brasil, e apenas queria uma correspondente russa. Eu não
queria fazer todo o “processo”.
- Ah, então o seu amigo é estrangeiro? Neste caso o valor é
de 40.000 rublos. - respondeu o “simpático” responsável.
Acabei optando, então, pela tradução da carteira brasileira,
pois como estrangeiros ainda eram novidade, até mesmo para a
poderosa polícia urbana russa, isto dava certa liberdade.
Este é apenas um dos fatores para a fama dos motoristas
russos, a corrupção da polícia de transito. Mas existe outro ponto
muito importante nesta equação. Nos anos da URSS, o carro era um
artigo de luxo. Poucas pessoas possuíam um, e isto gerou uma baixa
cultura automobilística. Com o fim do sistema soviético, a avalanche
de carros oriunda principalmente do Japão, encheu o mercado de um
produto que poucos sabiam manusear. Da noite para o dia, todos
eram motoristas “experientes”, e as ruas foram inundadas de
verdadeiros “profissionais” do volante.
Mas voltando à questão dos congestionamentos, qualquer
encostada era motivo para o trânsito parar. Inúmeras vezes eu vi as
avenidas principais da cidade totalmente travadas, e quando se
chegava à fonte, verificava-se que eram dois carros que haviam
encostado (não batido) e estavam com seus pisca-alertas acionados
esperando a polícia técnica chegar (o que poderia levar horas!).
Poucos acidentes (na cidade) que vi realmente tinham alguma perda
material considerável. Literalmente, cada vez que precisava sair de
casa, nos preparávamos psicologicamente para a aventura. Sair
sempre era um risco, ou de acabar num acidente, ou ficar horas
parado por causa de um arranhão, ou pior, ser parado pela polícia de
trânsito.
Em 2010 foi feita uma pesquisa por um jornal moscovita
entre os estrangeiros, perguntando qual era o maior medo deles na
Rússia. Em primeiro lugar, sem chance para as outras alternativas,
apareceu o medo em relação aos policiais de trânsito. Absolutamente
não estranheieste apontamento. Creio que até mesmo os russos iriam
na mesma direção.A fama é tão grande, que quase metade das piadas
em programas de humor envolve os acima mencionados. Vi e
presenciei muitas situações constrangedoras, e passei por momentos
tensos, como narrarei mais à frente.
Mas vou deixar este assunto um pouco e focar em outro
ponto, que está mesmo assim relacionado. Quando chegamos em
2005, Krasnodar estava se modernizando, mas faltava muito para
deixar os ares soviéticos para trás. As ruas eram muito esburacadas,
quase sem sinalização. Muitas ruas na cidade eram de chão batido.
Em algumas áreas havia pedaços de asfalto ilhados no meio da rua, o
que levava a crer que em tempos passados, ali existira asfalto, mas
que a falta de manutenção nas décadas de 80-90 cobrou o seu preço.
Algumas ruas eram intransitáveis, mesmo a pé. Na zona central da
cidade, certas ruas eram a mistura de tudo isto, chão batido em
partes, logo depois alguns restos de asfalto, e mais para frente,
asfalto muito danificado.
Lembrei-me de minha infância, quando na minha cidade
natal as ruas começaram a ser totalmente asfaltadas. Esta era minha
impressão geral da Rússia, um Brasil há 30 anos. Lembro a todos que
estamos falando da capital do estado, não de regiões de interior, as
quais até hoje estão em situação precárias. Olhando toda esta
situação, ainda tínhamos que ouvir pessoas perguntando se
morávamos em árvores no Brasil, ou criávamos macacos em casa!
As calçadas eram esburacadas e em grande parte quebradas.
Outra característica da região é o solo, que é argiloso, conhecida
como “argila preta”. Isto torna o solo impermeável, gerando poças
em todos os lugares, e quando os carros ou veículos de maior porte
passam por elas, a lama se espalha praticamente por todos os lados.
Especialmente no verão, quando as chuvas ficam mais constantes, as
poças aparecem pela cidade, e o movimento dos carros se encarrega
de levar o barro para todos os lados. Depois vem o sol e seca aquele
lodo, dando uma aparência nada agradável às ruas.
Por isto, nas casas é obrigatória a retirada dos calçados
quando se vem de fora. Nas escolas, as crianças sempre vão com a
smenka, que são os sapatos reserva a serem utilizados na sala para
não embarrar tudo. Aliás, esta não é somente uma característica do
sul, mas em toda a Rússia. Existe até um termo russo para a época
em que as chuvas dissolvem o país, rasputitsa (dissolver).
Locomover-se, especialmente pelo interior, se torna uma tarefa
penosa.
O sistema de atendimento médico e os postos de saúde são
uma categoria à parte, mas apenas menciono aqui para enfatizar a
linha que viemos seguindo neste capítulo. Todo o sistema estava nas
mãos da prefeitura, e em 2005 começaram a aparecer clínicas
especializadas, em número ainda insignificante para uma cidade
como Krasnodar. Os consultórios e centros de saúde eram velhos e
com material que deviam estar em uso ha mais de 40 anos, apenas se
julgando pelo design. As técnicas de atendimento e de consulta
remontavam a esta época, ou quem sabe até mais.
O sistema de transporte público, basicamente ônibus,
trólebus e bondes, também eram originários de muitas décadas atrás.
Muitos quebravam durante o percurso, o que no caso de trólebus e
bondes, provocavam o congestionamento de toda a linha. Alguns
descarrilamentos de bondes e cabos que se rompiam por tempo de
uso eram motivo de irritação constante.
Bem, o leitor agora deve estar se perguntando se apenas
pontos negativos existiam. Deixe-me explicar com as seguintes
palavras: o choque visual e cultural é algo comum entre pessoas que
trocam de ambiente cultural, seja dentro do próprio país ou para fora
dele. Quando se chega num lugar, logo se começa a fazer
comparações. No caso da Rússia, as diferenças, se comparadas com
outros países ocidentais, são muito gritantes. O país praticamente
parou com o investimento maciço na infraestrutura durante a década
de 60.
Neste caso, é evidente que saltavam aos olhos as diferenças
mais marcantes, e com o tempo iríamos ver descortinar diante de nós
os outros aspectos da vida lá. O principal é que vivemos outra
revolução russa bem na nossa frente. O país que havia parado no
tempo por longos anos, a partir do início deste século deu um salto. É
como se a Rússia saísse da década de 60 e entrado no mundo
moderno num espaço de poucos anos. Quando chegamos em 2005,
por exemplo, o comércio era feito basicamente em feiras
permanentes e numa rede local de minimercados nos bairros. Em
2007 abriu em Krasnodar o primeiro supermercado, de uma marca
francesa. Depois vieram os shoppings e em 2009 uma rede de
lanchonetes americana (não que isto eu considere progresso, mas
para muitos estrangeiros, viver sem o produto daquela marca era
como viver na idade da pedra).
No ano seguinte de nossa chegada, as avenidas ganharam
pavimentação nova, arborização, canteiros com flores e parques
foram sendo melhorados. Bondes modernos foram trazidos de fora, e
os antigos ônibus começaram a dar lugar aos seus “netos”.
O nível de vida dos russos melhorou muito nos últimos anos.
Não era raro ver as lixeiras dos edifícios entulhadas de caixas de
modernos utensílios domésticos, e principalmente de estrutura de
janelas em madeira. E isto era algo muito significativo. Um dos
símbolos do progresso e da modernidade na Rússia eram as janelas
de plástico, que levavam o nome de “janelas alemãs”. A grande
vantagem das novas janelas era que impediam a perda de calor do
ambiente, causando um isolamento muito bom que era algo vital,
especialmente no rigoroso inverno. Nosso apartamento tinha “janelas
alemãs” e no inverno precisávamos abri-las um pouco para esfriar
um pouco o ambiente.
Aliado a esta questão das janelas, aprendemos rapidamente
uma palavra usada por todos, remont. Talvez esta palavra defina bem
o estado em que se encontrava todo o país, conserto. Esta era a
palavra de ordem, e que aparecia em qualquer propaganda ou cartas
espalhado pela cidade.
Lembro muito bem do grande remont que foi feito no nosso
prédio. Incomodava muito o fato do prédio estar com uma porta que
absolutamente não podia ser trancada. Qualquer um podia entrar e
fazer tudo o que queria no elevador e escadas. E entenda, caro leitor,
não estou usando a palavra TUDO em vão! Se uma pessoa passasse
mal na rua, ou mesmo por questões de uma bebedeira, o melhor
refúgio era um bom prédio com uma porta destrancada. Vi muita
coisa por aquelas escadas!
Mas finalmente foi convocada uma espécie de reunião dos
moradores do prédio. Nesta reunião, feita ali mesmo do lado de fora
do prédio, literalmente no meio da rua, havia uma única proposta na
pauta. O senhor que comandava a reunião, sintetizou a questão
dizendo:
- Precisamos colocar uma porta nova com interfone e código
de entrada neste bloco! Precisamos trazer a civilização para nosso
prédio!
O argumento daquele senhor convenceu seus compatriotas,
que em uníssono concordaram com a proposta. Lá de nosso
apartamento rimos muito, pois finalmente a civilização chegaria,
literalmente, às nossas portas. Este era o espírito!
Outra marca dos últimos anos foi a luta do governo contra a
corrupção, especialmente na polícia, além do investimento nas
escolas e nos postos de saúde. As ambulâncias foram modernizadas
(aquelas da era soviética pareciam Kombis um pouco mais robustas,
que dava medo só de olhar!!). Os ábacos foram extintos e não vi
mais nenhum sendo usado com objetivos comerciais. Nossa internet,
que inicialmente era de 128 kpbs, pulou para 1 Mega de velocidade,
sendo que já existiam muitas opções neste sentido. Os celulares,
artigo que no início da década era fiscalizado pela polícia na rua,
virou mania nacional.
Como disse, a sensação é que a cada dia avançávamos várias
semanas ou meses na escala evolutiva tecnológica e de infraestrutura
PRIMEIRO INVERNO
Quando falamos em Rússia, a imagem inevitável que vem às
pessoas é a de um campo coberto de neve, muito frio e ursos polares.
E tal associação tem seu motivo. Realmente o país registra as
menores temperaturas do mundo (desconsiderando-se as regiões
polares). Falar de frio é lembrar-se da Sibéria, onde por sinal foi
registrada a menor temperatura em localidade urbana, na remota
região da Yakutia, num vilarejo chamado Oymyakon, quando foi
atingida a temperatura de -71,2° C no ano de 1926.
Mas precisamos lembrar que temperaturas assim não
acontecem em todos os lugares, nem o ano todo! Quanto mais para o
sul nos deslocamos, mais as temperaturas médias vão se elevando.
Como verificamos anteriormente, o verão também sabe mostrar sua
força em terras russas.
As surpresas em relação ao clima que tivemos nos primeiros
dias na Rússia eram apenas o início de uma série que se
prolongariam por cerca de um ano.
Após o escaldante verão, o tempo começou a mudar, e a
entrada do outono parecia trazer um alívio no clima sufocante. Mas
com as temperaturas mais amenas, começaram também as chuvas.
Elas não eram fortes como no Brasil, sendo muito mais amenas e
passageiras. Contudo, as consequências eram enormes. Começava a
temporada da Rasputitsa, que pode ser traduzido como “temporada
de estradas ruins”. Segundo alguns historiadores, este foi um dos
fatores para o atraso no processo de invasão das tropas alemãs na
Segunda Guerra Mundial. O plano inicial era chegar até Moscou
antes das chuvas de outono, que deixavam as estradas impraticáveis
para o deslocamento. Descobri as razões do temor alemão naquele
nosso primeiro ano. Especialmente em Krasnodar, que tem um solo
argiloso, a água tem dificuldades de escoar e o solo quase não
absorve esta água. Como falamos no outro capítulo, nestes casos o
barro que fica nos canteiros e nos “estacionamentos improvisados”
onde não existe asfalto ou cascalhos, acaba por ser levado por estes
mesmos carros para a rua. Em pouco tempo, a rua fica toda cheia de
lama. A água que escoa destes canteiros também entra na rua
provocando mais sujeira. Com a queda das folhas das árvores, o
material orgânico começa a se decompor, e caminhar pelas ruas
começa a ficar um tanto quanto desagradável. Chega-se em casa com
os calçados todos sujos, e as calças respingadas de lama. É uma
estação que desafia o autocontrole emocional!
Com o avanço do outono, a paisagem vai se tornando
acinzentada, pois o verde dá lugar aos troncos que parecem definhar
em relação à vida. As pessoas usam cores escuras (preto, marrom e
cinza). O céu está constantemente nublado ou chovendo. A
arquitetura dos prédios da era soviética tem uma tonalidade
igualmente cinza. Com o tempo, o ar começa a ficar saturado, pois a
poluição e a falta de verde contribuem para isto. O sistema nervoso
começa a ser perturbado, e a falta de cores vivas e dos raios do sol
vão encurralando as pessoas num beco de seriedade e falta de
paciência. Eu dizia que nestes casos, todos ficavam igualmente
cinzas por dentro. Logo aprendemos uma palavra russa que não tem
uma tradução definitiva. Ouvíamos os russos constantemente falando
de Nastroenie e entendíamos o que diziam pelo contexto, mas não
conseguíamos traduzir, ao ponto de, como família, incorporarmos a
palavra em nosso vocabulário. Nastroenie é um “estado de espírito”,
bom ou mau humor, astral, enfim, é como a pessoa está num
determinado momento. E o clima influencia muito na Nastroenie.
Ainda oficialmente no outono tivemos nosso primeiro
contato com a neve. Não foi exatamente o que se esperaria de um dia
de neve. A temperatura estava em 20° C positivos durante o dia,
conforme marcava o termômetro oficial bem no alto de um prédio no
centro da cidade. Lembro-me de ter passado por ele e olhado bem,
pois estava muito “quente” para um dia outonal. Voltamos para casa
com a família e lá pelas nove da noite colocamos as meninas para
dormir. Fiquei olhando pela janela, pois o quadro geral havia
mudado, e soprava agora um vento gelado. Alguns instantes depois,
uma chuva fina começou, dando a entender que existia a
possibilidade daquilo virar neve. A expectativa aumentou. Olhando
contra a luz de um poste em frente ao nosso prédio, pude distinguir
pequenos anjinhos brancos que caiam levemente entre as gotas da
chuva, mas que ao tocarem o chão, desapareciam. Dentro de poucos
minutos aqueles pequenos anjinhos estavam por toda a parte, e cada
vez mais intensa era sua descida. O vento parou e eles começaram a
dançar pelo ar. Corri para minha esposa que estava no quarto, e como
uma criança que ganha um presente inesperadamente, gritei para ela
“neve! neve!”, e a convenci de ir até a janela. Agora os anjinhos
estavam por toda a parte, e caiam no chão sem mais desaparecer. No
friso da janela, alguns anjinhos também apareceram e se
acumularam. Chamamos nossas filhas entusiasmadamente para ver a
neve. Elas acordaram, foram até a janela do quarto delas e uma delas
disse: “Legal pai! Posso voltar pra cama?”. Não disfarço meu
desapontamento, mas como pai entendi o cansaço delas e as coloquei
de volta. Retornei para a janela da sala e lá fiquei sozinho, assistindo
aquele espetáculo.
No dia seguinte, saímos para passear e ver a neve em
Krasnodar, o que todos diziam ser algo relativamente raro. As
crianças se divertiam, rolavam na neve e riam, vivendo seus
momentos de criança. Os russos passavam por elas olhando
assustados como que a pensar “parece que nunca viram neve!!”. O
que era a mais absoluta verdade.
A neve logo derreteu, e em algumas horas restavam apenas
possas de água no chão. Mas ela retornaria algumas semanas depois,
e ficaria ali por muito tempo. Ao todo, a neve ficou no chão por
aproximadamente três meses, com intervalos pequenos em que ela
quase desapareceu. Quando achávamos que não haveria mais neve, o
fenômeno voltava.
Na Rússia é tradição que após o início do ano, o país inteiro
tire uma espécie de férias de inverno, onde tudo fecha por quase duas
semanas. Não havíamos sido informados disto, e tivemos problemas,
pois algumas lojas e mercados ficaram fechados, e especialmente os
bancos não funcionaram. Ficamos com pouco dinheiro em casa, e
aqueles dias foram apertados, pois precisávamos controlar para não
gastar (se conseguíssemos achar algo aberto!).
Janeiro ainda tinha outras surpresas. A temperatura estava
muito baixa, sempre rondando entre -5°C e -12°C. O sistema de
calefação do apartamento (ligado já em outubro) estava funcionando
de forma satisfatória e, ao contrário do que muitos pensam, dentro
dos ambientes geralmente a temperatura fica acima dos +20°C, o que
permite às pessoas usarem roupas leves. Dentro do nosso
apartamento a temperatura era constante +25°C, e podíamos andar de
bermuda e camisa. Em alguns casos, precisávamos até mesmo abrir
um pouco a janela para deixar a umidade e ar mais gelado entrar,
pois o ambiente acabava se tornando quente e seco demais, o que era
prejudicial para a saúde...
Com o fim das “férias de inverno”, tínhamos que voltar a
acordar cedo de manhã e ir para a universidade, minha esposa e eu,
para o curso de russo. As temperaturas na rua não eram convidativas,
e apenas nosso compromisso nos levava a abrir a porta e aventurar-
nos pela gelada Krasnodar.
Na metade de janeiro ouvimos pela primeira vez a expressão
“batismo de frio”, usada pelos russos para designar uma semana que
tradicionalmente é a mais fria do inverno, e na qual os ortodoxos
fazem seus batismos em buracos abertos nos rios congelados de toda
a Rússia. Tivemos a oportunidade de verificar a veracidade desta
tradição em relação ao período mais frio do ano. Exatamente na data
marcada, uma forte onda de frio vinda da Sibéria havia se deslocado
para a nossa região, e as temperaturas atingiram os -29°C, a menor
temperatura em 30 anos em Krasnodar, e a segunda menor registrada
na história da cidade. O sistema de calefação estava no limite, e a
prefeitura já alertava que se a onda continuasse por mais alguns dias,
o sistema poderia entrar em colapso. Neste dia lembro-me de ter
levantado pela manhã, tomado o café e reunido toda a coragem que
tinha para sair pela porta numa caminhada de uns 20 minutos a pé até
a universidade. No meio da tarde, juntamente com nossa filha mais
velha, saímos para tirar algumas fotos num lago congelado perto do
centro da cidade. A temperatura já havia subido e os termômetros
marcavam “agradáveis” -22°C. Chegando ao local, fiquei admirado
com a beleza do branco cobrindo o lago. Percebia no rosto que o ar
estava frio, mas pensei que o frio não era tão intenso assim e decidi
tirar as luvas especiais que tinha. Imediatamente após tirá-las senti
como que mil agulhas sendo fincadas em minha mão, e precisei
recolocar as luvas imediatamente. Percebi naquele momento que
com o frio não se podia brincar!
Havíamos levado nossa máquina fotográfica digital e quando
chegamos ao local adequado para uma foto, liguei-a. Ela iniciou o
processo para abrir e expor a lente, mas no meio do caminho,
simplesmente parou. Pensei que havia quebrado ou algo assim.
Coloquei-a de volta dentro do casaco. Depois a tirei e tentei
novamente. Mesmo resultado. “Será que é a bateria?” - pensei
enquanto guardava-a no casaco. Repetio processo algumas vezes até
perceber que o problema era o frio intenso, que fazia com que ela
parasse de funcionar. Para tirar as fotos, eu deixava a câmera ligada
dentro do casaco,e na hora que ia bater a foto, tirava-a rapidamente e
fotografava, inserindo-a depois rapidamente no casaco para não
congelar outra vez.
Indubitavelmente o inverno é uma estação que tem suas
atrações, ainda mais quando a neve aparece. As crianças, mesmo as
russas, ficam agitadas e querem sair para a rua e se divertir um
pouco. Neste período começa o desfile de pais puxando os trenós
com os filhos e nós compramos um destes trenós para as nossas
meninas. Íamos de nossa casa até o parque ou o lago congelado perto
da Universidade sempre que nevava. A raridade da neve em
Krasnodar era um atrativo a mais, pois nunca sabíamos quanto tempo
ela estaria acumulada e quando voltaria a nevar na cidade.
Atravessávamos distâncias enormes (levando-se em conta que com
neve fica mais cansativo andar) apenas para puxar o trenó com elas
em cima. O frio era intenso, mas a diversão sempre foi proporcional.
Brincar na neve é algo que todos gostam de fazer. Em certo
sentido, todos viramos crianças. Fazer bolinhas de neve e jogar nos
amigos, parentes ou conhecidos é um ato quase involuntário, não se
pode resistir a isto. Nem mesmo os russos, já acostumados com neve,
deixam de aproveitar. E não importa a idade!
Nossa filha, sempre que nevava, demorava muito tempo para
voltar para casa da escola, que ficava a uns 250 metros de casa.
Quando ela entrava pela porta, estava cheia de neve no cabelo, nas
botas, luvas, e na roupa. Suas bochechas rosadas denunciavam que
estivera muito tempo exposta ao ar gelado. Nunca entrávamos nos
detalhes do que ocorria, pois era evidente. Anos depois ela confessou
que sempre saia da escola e ia “brincar” com as colegas no pátio e
pela rua, fazendo com que o caminho até em casa se tornasse mais
cumprido do que o habitual.
Toda esta atividade fora de casa, na neve, seja uma
caminhada ou uma visita na praça perto de casa, exigia que na volta a
mamãe preparasse um gostoso chocolate quente. Às vezes
duvidávamos se saiam para se divertir ou para poderem depois voltar
e se aquecer na calefação tomando um delicioso chocolate quente.
Certo dia, nas minhas caminhadas pela cidade, fui até um
parque que fica ao lado do rio Kuban, que banha a cidade. Andava
solitário pelo meio dos montes de neve, no que seria a calçada da via
principal do local. Estava sozinho, pois apesar dos russos gostarem
de passear pelas ruas nos dias frios (dizem que faz bem para a
saúde!!!), não havia ninguém por perto. As tendas e quiosques que
no verão ficam abertas e cheias de pessoas que buscam diversão,
estavam abandonadas, cobertas de neve. Mas ao chegar perto de um
dos braços do rio que entra em direção ao parque, percebi pequenos
pontos que destoavam do monótono branco. Com dificuldades desci
o barranco em direção ao rio congelado. Andei calmamente sobre as
águas congeladas e enquanto caminhava percebi que aqueles pontos
eram pessoas sentadas em cadeiras de campo. O que estariam
fazendo ali paradas sentadas no meio do nada? Cheguei mais perto e
percebi uma vara de pescar em suas mãos, um pote ao lado e a
inseparável garrafa de vodca Assisti aquela cena por alguns
segundos, sem que fosse notado pelos destemidos pescadores. A
temperatura estava abaixo dos -15° C naquele dia de intensa neve.
Com o passar dos anos, descobri que aquela prática era uma espécie
de terapia para os russos. Eles abriam um buraco no gelo e lançavam
o anzol com a isca ali mesmo. Não é uma questão de quantos peixes,
nem mesmo o tamanho dos mesmos, é apenas uma forma de relaxar
e curtir o frio.
Entretanto, sair para estas caminhadas e aventuras pelas ruas
congeladas era uma tarefa um tanto quanto perigosa. Constantemente
na televisão eram emitidos alertas para as pessoas em relação a um
perigo silencioso, as sosulki (plural). Mas que é isto? Também
demoramos para descobrir. Certo dia apareceu no jornal que uma
pessoa havia ficado gravemente ferida por uma sosulka (singular)
que havia caído de um prédio. Descobrimos então que eram
pingentes de gelo (estalactites de gelo) que se formam nos telhados, e
que por algum motivo podem cair lá de cima, acertando na cabeça de
um transeunte, o que pode provocar até mesmo a morte. Depois
disto, sempre ficávamos longe de qualquer ponto perigoso. Ao passar
por alguns prédios, pude perceber as afiadas e mortais sosulki, e me
lembrava de nunca brincar com a sorte, pois um dia poderia virar
azar…
Ainda existia outro perigo, os escorregões no gelo. Muitas
vezes vi as pessoas patinarem, escorregarem, dançar e cair no chão
devido ao gelo. Não era incomum ver nas ruas este tipo de cena. O
que me chamava a atenção era que ninguém ria ou se encabulava por
estes “imprevistos”. Descobri depois que não havia pessoa imune a
isto, todos, mais cedo ou mais tarde caiam. Um dia eu estava saindo
de um mercadinho perto de casa com duas sacolas com leite. Nevava
de forma arrastada, tranquila e sem maiores pretensões. De repente,
senti o chão indo embora e ocorrendo uma súbita inversão de polos
em minha cabeça. Imediatamente depois, vi a neve caindo em meu
rosto e as sacolas voando pelo ar e caindo logo à frente. Uma senhora
que passava perto olhou para mim e perguntou se eu havia me
machucado. Levantei-me depressa e verifiquei se estava tudo em
ordem, batendo a neve da roupa. O casaco amortizou a queda e tudo
estava bem. Peguei as sacolas e fui para casa. Esta cena se repetiu
pelos anos seguintes, com pequenas variações no enredo.
Apesar de alguns “imprevistos”, sempre gostei de caminhar
na neve. O barulho dos sapatos quando se caminha e a neve sendo
prensada é muito interessante. Uma das caminhadas mais fascinantes
que fiz foi em uma floresta perto de Moscou. Estávamos num evento,
e numa hora livre resolvi explorar a região. Andei até a floresta e
comecei a andar por ela, vendo as árvores cobertas de neve, troncos
caídos, pequenos córregos congelados e os raios de sol que
penetravam por entre as árvores. Mais para dentro da floresta, ouvi
repentinamente um som seco, ritmado. Andei em sua direção. O
silêncio na floresta era ensurdecedor, nada se movia, nada respirava,
nada fazia barulho, só aquele som ecoando por toda a floresta. Em
certo momento, olhei para o alto de uma árvore de onde eu
imaginava vir o som. Bem lá no alto havia um pássaro, que não pude
identificar ao certo, mas parecia um pica-pau. Ele estava procurando
bichos que se escondiam dentro das árvores. Fiquei um tempo ali
observando o trabalho dele, depois resolvi continuar a exploração.
Alguns metros adiante vi pegadas na neve, que tinham sido feitas ha
pouco tempo. Era de um animal grande. Eu estava sozinho numa
floresta congelada, e meu espírito aventureiro deu lugar a um instinto
de auto-preservação. Dei meia-volta e resolvi não arriscar em
descobrir o dono daquelas pegadas...
Muitas foram as aventuras nos invernos que passamos por lá.
O que posso dizer para finalizar é que, em minha opinião, não vi
nada mais lindo na Rússia do que um dia de neve sem vento. Assistir
os flocos caindo calmamente, manhosamente é algo espetacular. Um
dia na universidade fiquei olhando pela janela a dança dos flocos,
que por uma brisa qualquer, formavam um verdadeiro balé diante dos
olhos.
Sim, o inverno tem seus encantos, e posso dizer que são
muitos!
MEDICINA
A mudança para outro país pode ser, para muitos uma
aventura e para outros uma loucura, especialmente para lugares tão
“distantes” do nosso Brasil.
O enriquecimento cultural e de vida é um contrapeso no
meio de tantas perdas. Quem já passou pela experiência de ter
contato com o mundo lá fora, sabe bem o que é isto.
Mas a mudança também afeta outros pontos, que talvez não
fossem tão desejados. E mesmo assim, aprendemos. Existe um
provérbio russo que diz: “Viva por um século e aprenda por um
século”.
Uma das áreas que mais preocupa nestas adaptações é a
saúde. Pode ser que não exista nada tão desesperador quanto estar
doente em um lugar onde você não tem meios de ser atendido ou
entendido, ou ainda, desconhecer por que está naquele estado.
E nossos problemas começaram antes mesmo de sair para a
Rússia. Minha esposa havia feito exames pouco antes da data
marcada para o voo. Na sexta-feira (viagem marcada para
domingo!), o médico nos passa o resultado dos mesmos. Ela
precisava fazer um tratamento e a recomendação médica era de que
não viajássemos. Bem, não era uma viagem de férias ou um passeio,
era uma mudança para o outro lado do mundo! Por fim, resolvemos
comprar os medicamentos e fazer o tratamento lá na Rússia mesmo.
Chegando lá, já depois do período inicial de adaptação,
buscamos informações de como fazer os exames que eram
necessários para ver se o problema havia desaparecido.
Preciso fazer um parêntese aqui. Como estávamos na Rússia
com o visto de estudantes, pois faríamos o curso de russo pela
Universidade de Krasnodar, precisávamos alguns exames de rotina, o
mesmo que os alunos russos precisam fazer anualmente. Como
éramos estrangeiros, nosso plano era pago, mas fazíamos no lugar
indicado pela universidade, que era onde os alunos precisavam fazer.
Era uma única policlínica para todos os estudantes da cidade.
Conseguir chegar ao local foi complicado, pois informações
não são algo que o pessoal gosta de dar, ainda mais quando o
inquiridor é um “esquisito estrangeiro que não entende as coisas”.
Mas, chegando no local, a dificuldade ainda seria a de identificar
qual guichê e qual fila pegar. Isto num mar de estudantes que estão
de muito mau humor, pois gostariam de estar em qualquer outro
lugar, menos ali, naquela confusão. Realmente tudo isto é
simplesmente uma tarefa de tirar qualquer um do sério.
Quando finalmente, depois de muito tempo rodando,
achamos o local exato, disseram que haviam fechado e que só iriam
atender no dia seguinte! E não adianta reclamar, chorar, esmurrar,
eles são a lei!
No dia seguinte chegamos cedo para enfrentar a fila.
Descobri que os russos adoram duas coisas: fazer filas e furar filas,
sendo isto uma espécie de esporte nacional. Enfim…
Conseguimos chegar à enfermeira (de mau humor!) e
mostrar nossos papéis requisitando os testes. Ela explicou o que
deveríamos fazer: teste de sangue, fezes e urina. Mostrou umas
caixinhas de fósforos em uma mesa. Na parte de baixo da mesa,
garrafas de vidro de vários tamanhos e tipos, com um líquido
amarelado… Entendi, nem precisava abrir as caixinhas de fósforo
para entender o que tinha dentro! O sangue seria coletado na outra
sala…
Fomos para a sala e a enfermeira começou com um papo
estranho. Viu que éramos estrangeiros e disse que se “ajudássemos”
nem precisaríamos tirar o sangue. “Ajudar”? Está bem, entendi tudo,
mas resolvi usar minha prerrogativa de estrangeiro. Ela explicou
umas 3 ou 4 vezes o que entendia por “ajudar”. Quando viu que não
“ajudaríamos”, pegou o estilete e cravou no dedo de minha esposa.
Apertou e pingou o sangue numa lâmina de vidro. Humor totalmente
azedado. Fomos embora para casa com vontade de explodir tudo
aquilo.
Fechando este parêntese e voltando ao caso de minha esposa
e sua questão médica, havíamos decidido buscar formas mais
“humanas” de tratamento. Onde encontrar uma Clínica particular?
Não existia internet confiável ainda para nós. Páginas amarelas,
respondiam alguns. E foi o que fizemos, procuramos as páginas
amarelas ou um catálogo. Ninguém com quem conversávamos sabia
dizer se isto existia de verdade por lá.
Por uma coincidência divina, nosso apartamento ficava
exatamente em cima de uma Clínica particular, que naquela época
deveria ser a única da cidade. Não prestamos atenção de imediato
nela, pois a propaganda era voltada para a área de oftalmologia, mas
descobrimos que ali havia várias especialidades! Inclusive a que
estávamos precisando no momento.
Já era outubro e ainda tínhamos muito a aprender em relação
à língua, pois as aulas haviam começado somente na metade de
setembro. Para a primeira consulta, minha esposa havia convidado
uma amiga, também estrangeira e que morava ha mais tempo na
Rússia, para acompanhá-la na ida ao médico.
A médica olhou tudo e tentou entender o que aquelas duas
estrangeiras estavam querendo. Depois de tentarem explicar o que
precisavam, a médica disse que para fazer os exames era necessário
tomar uma injeção que deixaria a paciente com sintomas de gripe
forte. Como essa ideia não foi aceita,ela deu a outra opção: comer na
noite anterior ao exame um peixe defumado, uma salada bem picante
e tomar um litro de cerveja, comparecendo no dia seguinte em jejum
para os exames médicos.
Todos nós achamos aquilo muito estranho, nunca tínhamos
ouvido falar que comer e beber algo antes de um exame pode “baixar
a imunidade” como a médica disse que teria que acontecer para que
os exames fossem feitos com sucesso. Mas, isso seria melhor do que
injetar algo desconhecido no corpo, num país onde não nos
sentíamos seguros.
Minha esposa compareceu na manhã seguinte, fez tudo
certinho e esperou pelos resultados.
Uma semana depois, voltou para saber como estava sua
saúde, e a surpresa foi muito mais do que podíamos esperar. No
resultado dos exames apareceram quatro doenças venéreas, e a
médica começou informando que aquilo podia estar incubado em um
dos cônjuges já antes de casarem, não significando necessariamente
alguma traição. A consulta mais parecia psicológica do que médica.
A doutora perguntou se estávamos dispostos a fazer o tratamento.
Como minha esposa ficou muito desconfiada desse resultado, ela
disse que iria para casa, conversar com o marido e então resolver o
que fazer.
Bom, levamos os exames para casa e fomos procurar na
internet informações sobre as tais doenças. Nenhum sintoma de
nenhuma delas nós tínhamos. Desconfiados de que o exame teria
sido trocado, fomos procurar outro lugar para tirar a “prova” e,
infelizmente, tal lugar havia somente em Moscou. A clínica de
Moscou era particular e com médicos internacionais. Mas o efeito
colateral de sua “idoneidade” era um preço de matar qualquer um.
Esperamos até fevereiro, quando o inverno estava
começando a perder força para então ir à Moscou. Precisamos levar
uma amiga que falava inglês fluente junto, pois na clínica tudo era
feito com médicos estrangeiros e que falavam inglês.
Tudo foi tranquilo. Exame feito, resultado enviado via e-mail
e depois de tanto tempo nessa tensão e expectativa, o resultado foi
que estava tudo normal.
Nunca mais procuramos aquela médica. Guardamos o
cartãozinho com o nome dela para não marcar por engano alguma
consulta com ela. Ainda tivemos que usar os serviços médicos
daquela clínica em Krasnodar até o último mês em que moramos lá,
pois nossa saúde estava sempre sendo afetada.
Um problema muito grave que tivemos que enfrentar foi com
nossa filha mais velha, com seis anos na época. Num passeio num
dia de verão, comemos um pastel à moda russa numa lanchonete de
rua, no centro da cidade, pois nos informaram que lá era muito bom.
Por causa do alimento, nossa filha contraiu uma infecção intestinal e
devido ao fato de sermos estrangeiros, o seguro saúde que minha
esposa e eu tínhamos com a Universidade não atendia à nossa
família, somente a nós. Então fomos tentar no posto de saúde, pois
na Rússia todo sistema de saúde é público. Negaram atendê-la e
ficamos tentando em casa com várias receitas caseiras fazê-la
melhorar, e nada. Depois de uma semana com vômito e diarréia,
pedimos a um amigo que chamasse uma ambulância de algum
hospital infantil. Quando a ambulância chegou, a médica examinou-
a. Nossa filha nem conseguia mais ficar em pé e a médica disse que
ela precisava de internação urgente. Ela iria de ambulância para o
hospital acompanhada pela mãe.
Chegando ao hospital, que ficava do outro lado da cidade, a
enfermeira que nos recebeu, e que provavelmente não sabia ler outro
alfabeto além do russo, assim que pegou o passaporte disse que nossa
filha não poderia ficar internada lá. A médica da ambulância entrou
na sala e tentou explicar que nós residíamos na cidade e que o caso
era grave, mas a resposta foi a mesma. “Aqui não podem ficar!”,
dizia repetidamente. A mãe ficou em estado de choque, já não sabia o
que pensar, o que dizer, o que seria da sua filhinha.
Nessa confusão, uma médica que passava pelo corredor
entrou para ver o que estava acontecendo. Quando soube da situação,
foi examinar a menina e depois foi falar com a mãe em particular:
- Se você quiser que a sua filha seja internada no hospital, eu
consigo que isso aconteça, mas aqui é um lugar terrível para este
caso, e não aconselho que vocês dêem prosseguimento ao caso aqui.
Se quiserem ir para casa com a filha, me comprometo em ir todos os
dias na sua casa para examinar a menina.
E foi essa a decisão tomada. Nossa filha foi pra casa e
ficamos duas semanas com um mini hospital em nosso apartamento.
Precisávamos esterilizar o banheiro a cada uso, e como não existe
álcool na Rússia (o de farmácia, é claro!), por indicação da própria
médica, usamos vodca.
A médica passou duas semanas indo até nosso apartamento
para verificar o quadro. Quando não podia estar presente
pessoalmente, ela ligava e pedia nosso “relatório”. Nossa filha
passou por uma dieta rigorosa, e todos nós tivemos que entrar num
ritmo completamente novo para acompanhá-la.
Ao fim do prazo que a doutora havia estipulado para o
tratamento, nossa filha já estava recuperada. A médica ficou muito
contente de ver o progresso que tivemos, e elogiou muito minha
esposa. “Não achei honestamente que vocês conseguiriam” - disse
ela finalmente. Reconheceu que o quadro era muito grave e que
havia inclusive risco de vida, e este era o motivo do interesse da
médica que foi tão prontamente atenciosa. Ela, doutora Oksana, foi
mais um daqueles anjos que passaram em nossa vida pela Rússia.
Em outra ocasião, nossa filha mais nova estava com
problemas, recorremos à Dra. Oksana. Ela não podia atender o caso,
pois estava de licença gestante, mas disse que ligaria para outra
pessoa no Hospital Infantil. Em alguns minutos ela retorna a ligação
e nos dá todas as orientações de como chegar ao Hospital e como
proceder, com quem falar e o que dizer para quem nos atendesse,
“...a médica já está esperando vocês!” - disse ela por fim.
Assim como apareceu de lugar algum, a doutora Oksana
também desapareceu, como nos contos. Seremos eternamente gratos
a ela!
Neste sentido teríamos que citar ainda outras pessoas que
foram nossos anjos da guarda naqueles tempos. Janna Petrovna, por
exemplo, a médica ginecologista que cuidou de minha esposa. Houve
ainda um médico anônimo que fez uma pequena cirurgia em minha
esposa, com eficiência notável. Ele não cobrou nenhum tipo de
“presente”, algo totalmente incomum na Rússia, pois o caso havia
sido indicado por uma colega dele que atendeu minha esposa na
Clínica.
Aos poucos fomos aprendendo como lidar com a questão de
saúde na Rússia. Descobrimos que era preciso evitar os caminhos
“normais”. Todas as vezes que tentávamos fazer a “coisa certa”,
pelos caminhos oficiais, tudo emperrava na burocracia e mau
atendimento (quando acontecia o atendimento!). O caminho das
indicações se mostrou o mais eficaz.
Lembro-me que quando precisamos colocar nossa filha na
escola russa, uns dos requisitos para matricular uma criança era a
carteira da policlínica onde ela deveria ser atendida. Buscamos
informações de como obter a tal carteirinha. Logo de cara, percebi
que estávamos entrando em mais uma das ruas sem saídas do sistema
burocrático russo. Descobrimos onde seria a policlínica que atenderia
a nossa filha, contudo, lá ninguém sabia informar nada, pois não
tínhamos passaporte russo.
- Como fazer? Como vocês não têm passaporte russo?
Alguém nos disse que precisaríamos entrar com um pedido
numa repartição que regulamentava as tais carteirinhas. “Mas onde
é? Não sei!” Por fim, um amigo russo resolveu nos ajudar. Ele
encontrou o local e foi conosco para resolver o impasse. Lá
chegando, depois de preencher fichas e tudo mais, perdendo um
tempo enorme para conseguir alguma informação. A funcionária
disse que aparentemente as carteirinhas haviam sido suspensas para
os não-russos, mas que era para esperarmos o resultado. Até hoje
estamos esperando!
Sem carteira, nossa filha não podia entrar na escola, mas
como estávamos na Rússia, a diretora vendo nosso caso, resolveu
autorizar o ingresso dela mesmo assim.
O problema era quando os fiscais de saúde passavam pela
escola e viam que a aluna X não tinha documentação. A enfermeira
da escola e a diretora sempre davam um jeitinho de deixar as coisas
na base do “deixa pra lá, vai!”. Anjos...
Ficamos tão familiarizados com o sistema russo e
conhecemos tantos caminhos alternativos, que no fim acabávamos
servindo de referência para outros estrangeiros da cidade. Eles
ligavam para nossa casa e pediam ajuda: “qual médico procurar?”,
“como era o nome do remédio tal?”, “você pode ir comigo na
consulta?”
Certo dia uma amiga estrangeira pediu para minha esposa
acompanhá-la ao médico para ajudar a “traduzir” o que ele diria. As
duas foram até a clínica, e a estrangeira (uma americana) que estava
ha pouco tempo no país, mal falava russo. Minha esposa não fala
inglês, de forma que, quando o médico falava, usando termos
específicos da área médica, minha esposa se virava para a americana
e traduzia do russo para o “russo de estrangeiros”. A americana
assentia positivamente fazendo gestos de positivo e pronunciando
algumas palavras em russo. Assim foi a consulta inteira. Minha
esposa conta que havia momentos em que o médico ficava sem
entender o que aquela brasileira estava fazendo ali, traduzindo do
russo para um “russo estragado”! Às vezes a tradução era literal, ou
seja, palavra por palavra, mas para a americana, talvez por causa do
sotaque do médico, ou medo de algo, sentia mais à vontade com a
presença de uma “tradutora”.
Gosto de pensar que de certa forma, também servimos de
anjos para outros. Mas o que seria da vida sem estes anjos
protetores?
SISTEMA DE EDUCAÇÃO RUSSO
Nossos primeiros dias em Krasnodar foram tempos de
adaptação ao novo ambiente. Precisávamos aprender coisas tão
básicas, que até mesmo uma criança pequena sabia, ou seja, era
necessário aprender em poucos dias o que as pessoas levam anos
para assimilar e descobrir.
Quando se muda de país, a questão da língua é um fator que
contribui muito para o estresse, mas compreender a dinâmica da vida
em todas as suas nuances, é algo que pode acabar com qualquer
pessoa. Pensando que este processo de aprendizagem precisa ser
rápido e com qualidade, nós não poupamos esforços para entrar logo
na cultura local.
Nas poucas semanas que tivemos antes das aulas na
Universidade, conseguimos ter avanços significativos. Mas o começo
das aulas mostrou o quão longe estávamos ainda de entender a
Rússia!
Em primeiro lugar, descobrimos que as datas são apenas uma
aproximação, especialmente quando se fala dos inícios de algum
processo longo. Ao menos deu para entender o que o responsável
pelos estrangeiros tinha em mente quando disse que “as aulas
começam lá pelo início de setembro”. Isto significava que, por
estarem esperando outros alunos atrasados chegarem à Rússia,
efetivamente tudo começou a andar já na segunda quinzena de
setembro.
A universidade não impressionava muito, pelo contrário,
corredores escuros, canos expostos pela parede, banheiros que eram
precários (nenhuma novidade no quesito banheiros!), salas com
carteiras e cadeiras quebradas, entre outros. O que mais “chocou”
neste início foi o hábito dos professores apagarem o que escreviam
no quadro-negro, usando um pano-de-chão encharcado com água.
Ficávamos olhando aquilo e vendo o borrão de giz que ficava
espalhado pela lousa. Depois que me acostumei com a cena, percebi
que aquilo evitava que o pó de giz se espalhasse no ar e pela mão de
quem limpava o quadro (tarefa dos alunos).
Mas estas primeiras impressões se deram nas aulas de russo
para estrangeiros que a universidade oferecia para aqueles que
estavam pretendendo entrar em alguma faculdade. A sala de aula era
algo surreal. Numa sala pequena, que ficava dentro do dormitório
dos alunos, havia algumas carteiras e o quadro. Todos ali eram
estrangeiros, vindos literalmente de todos os continentes, perfazendo
cerca de 10 pessoas. Ninguém falava um “i” de russo, exceto eu e
duas coreanas que ao menos bom-dia sabiam dizer.
O primeiro passo foi aprender o alfabeto. Era muito
engraçado ver todos, já adultos, repetindo o que a professora dizia.
Parecia que estávamos numa sala de crianças de 1° série.
Depois de algumas aulas a professora veio falar comigo e
disse que sugeriria para o responsável pelos estrangeiros de colocar
eu e as coreanas na outra turma, a mais avançada. Assim, deixei
minha esposa com a turma principiante e parti para a “avançada”.
Enquanto eu me adaptava à nova turma e à professora, agora
ao menos numa sala mais clara, minha esposa continuou avançando a
passos largos. Cada dia ela vinha mais afiada no russo. Foi realmente
muito bom para todos aquela separação, pois quem já tinha uma base
pode galgar níveis mais altos, e o pessoal iniciante não tinha que se
preocupar com os mais adiantados, e acabaram, creio, tendo
resultados muito melhores até mesmo que alguns da outra turma.
Aprender língua não é o suficiente, precisa-se entender e
participar da cultura, pois ambas são inseparáveis. E em questões
culturais, os russos são muito bem servidos. Pudemos aproveitar
muito nosso tempo lá, pois sabíamos que para termos acesso ao
mesmo tipo cultural aqui no Brasil custaria muito caro, e lá na
Rússia, tudo era muito acessível.
Acabei passando, algumas semanas depois, para outra turma
de russo, pois nossa professora estava sendo requisitada para dar
aulas para um grupo novo que acabara de chegar. Esta minha nova
turma era bem mais adiantada, e tudo que acontecia, especialmente
as conversas, era unicamente em russo (na turma de minha esposa
ainda não haviam chegado no nível de conversação direta). Este era
um ambiente estimulante, onde a maioria realmente estava ali para
aprender russo, já que tinham necessidade disto, tendo em vista que
aquele era o último estágio antes do ingresso nas faculdades.
Cabe dizer que nem todos estavam lá por causa da faculdade,
ou estudos. Alguns queriam passar um tempo na Rússia e este era um
meio de se conseguir visto e até mesmo certa liberdade. Outros
queriam um certificado para poder mostrar em seus empregos
(Companhias multinacionais, especialmente coreanas). Ainda havia o
pessoal da festa ou do tipo “papai me mandou para cá”.
Porém, quem precisava e tinha planos mais sérios, descobriu
que aqueles meses de preparo seriam a diferença entre a vida e a
morte na faculdade.
Passado o primeiro ano, havia aprendido a lidar com algumas
questões dentro da cultura acadêmica russa. Desconhecer certas
“regras’ era trilhar caminhos nada fáceis dali para frente.
No ano letivo seguinte, minha esposa se inscreveu para o ano
avançado de russo, ou seja, a turma que eu estava no ano anterior.
Ela iria enfrentar mais um ano de russo na universidade, o que achei
corajoso e sábio ao mesmo tempo. Suas aulas continuariam no
período da manhã. Contudo, eu teria que mudar de turno, e teria aula
à tarde, pois a faculdade que eu escolhera somente tinha aulas
naquele período.
Tivemos alguns contratempos por causa das crianças, que no
ano anterior ficavam em casa com uma babá. Entretanto, com as
novas regras do jogo, tivemos que fazer adaptações. Feitas as
adaptações, prosseguimos com nossa rotina.
Lembro com exatidão o primeiro dia na Faculdade de
Filosofia, História, Sociologia e Relações Internacionais. (FISMO,
em russo). O longo corredor tinha algumas luminárias funcionando,
outras nem tanto, e algumas que realmente tinham perdido sua
função há muito tempo. Havia uma multidão no corredor, pois além
dos alunos dos cursos da Faculdade em cada especialidade, o
corredor era uma ligação entre dois prédios da Universidade, e o
trânsito sempre era intenso por ali. Consegui ver no quadro o local da
primeira aula. Cheguei à frente da sala e percebi haver uma multidão
que já se aglomerava ao redor da porta.
Quando ela se abriu, e o pessoal da manhã começou a sair,
lembrei daqueles dias em que você tenta pegar um ônibus lotado
num ponto de ônibus que está mais lotado ainda. O empurra-empurra
generalizado se justificou pouco tempo depois. Eram 55 alunos para
uma sala que tinha menos de 50 cadeiras. Como decidi ser mais
educado na entrada, especialmente com as damas, tive que ir pro
fundo da sala. Havia uma cadeira sem o acento, apenas a parte de
ferro. Era a única coisa que restara.Alguns já estavam em pé contra a
parede. Pensei nas horas que ficaria naquela sala, e decidi sentar ali
mesmo. Resumindo, não era nada confortável, mas era o que tinha.
Outros mais educados dividiam a cadeira com uma amiga, ou amigo.
Eu não tinha conhecidos ali, todos eram alunos russos.
A sala, além da falta de carteiras e cadeiras, visivelmente
carecia de uma manutenção. Tive o trabalho de contar quantas
lâmpadas incandescestes queimadas havia nos lustres. O total foi de
70%! O chão tinha uma lâmina parecida com tacos, mas em alguns
locais ela já havia desaparecido, sobrando apenas o chão de madeira,
e ao longo dos meses tive a nítida impressão que estes buracos na
lâmina iam aumentando em seu diâmetro. As janelas tinham vidros
quebrados e o vento que entrava no outono e inverno eram de
congelar os ossos. Por causa da sensação de segurança que o fundo
da sala sempre trás ao aluno menos preparado para perguntas dos
professores, acabei achando um canto lá nas últimas carteiras. No
fim da primeira semana todos os lugares estavam marcados.
Logo descobri que a presença em sala de aula não é algo
notado ou anotado pelo professor. Isto fez com que começassem a
sobrar cadeiras mais dignas para se sentar ao longo do primeiro
semestre. Mas para mim era imprescindível estar nas aulas. Em
primeiro lugar, o controle sobre os estrangeiros era muito eficaz.
Alguns que apreciavam “passear”, como dizem os russos, acabavam
sendo chamados e inquiridos pelo diretor de assuntos internacionais.
Resolvi não ter problemas com ele. Em segundo lugar, estar nas
aulas era uma forma de aprender russo, familiarizar-se com o
vocabulário mais científico e serviria de argumentação junto ao
professor na hora das provas.
Descobriria posteriormente que a sala de aula que mencionei
acima era a melhor que havia na faculdade. As outras eram muito
mais precárias: quadro-negro no chão, na posição vertical e com a
parte superior encostado na parede As carteiras davam lugar a uma
mesa de madeira com inúmeras camadas de tintas sobrepostas, onde
eu imaginava que seria necessária uma espécie de prática de
escavação arqueológica até se chegar às camadas pré-históricas da
tinta original. As cadeiras eram na verdade bancos de madeira sem
encosto. E as lâmpadas, deixo à imaginação do leitor!
Agora algumas palavras sobre os professores. Era perceptível
que havia uma renovação do quadro, pois alguns professores estavam
se aposentando, ou ao menos deveriam fazê-lo logo! Especialmente
nesta área, História, muitas mudanças ocorreram nos últimos anos,
em especial após a queda da URSS. Não que os fatos históricos
tenham mudado em si, mas a forma ideológica como eram
interpretados havia mudado. Apesar de matérias serem abandonadas
(como História do Partido Comunista da União Soviética, por
exemplo), para muitos professores se desfazer de um passado repleto
da ideologia partidária ainda era um problema.
Outros que eram comunistas enquanto a União existia,
passaram a dizer o que pensavam de verdade, abriam seus arquivos
secretos e desenterravam leituras antes subversivas. Preferi este
segundo grupo.
Sempre existem aqueles professores que aprendemos a
evitar, e aqueles que se pudéssemos daríamos um jeito de escanear
todo o seu conhecimento. Com estes últimos, nunca era demais ter
aula. Eles entram em nossas vidas, e mesmo que depois de alguns
anos de estudo não os vejamos mais, eles jamais sairão dela.
Aquela questão que mencionei no início do capítulo sobre a
necessidade de aprender em pouco tempo o que uma pessoa nativa
daquela cultura levou anos para descobrir, estruturar e decodificar,
fala muito alto em momentos como o tempo das provas e exames na
universidade. Aprender o jeito, a manha de tudo aquilo requer uma
força extra de todo estrangeiro. Cada país tem um sistema, cada povo
tem uma maneira de fazer as coisas, e as diferenças de como tudo é
feito na Rússia neste sentido, é tão grande quanto a imensa distância
geográfica que separa o Brasil de lá.
Resumidamente o sistema funciona assim (claro que
descobri isto depois das primeiras provas!): O professor disponibiliza
para a responsável da turma a lista de perguntas que irão cair na
prova. Elas podem variar de 50 à 150 perguntas. O aluno deve se
orientar por elas para estudar. No dia da prova, os alunos entram em
pequenos grupos na sala da prova (geralmente 5 alunos). Ao entrar,
com sua carteira de notas na mão, ele deve pegar um dos bilhetes que
se encontram sobre a mesa do professor onde estão as perguntas
viradas para baixo. Geralmente existem duas perguntas em cada
bilhete (daquelas que foram dadas pelo professor). O aluno diz o
número do bilhete que pegou entre os que estão na mesa e vai sentar-
se para responder às perguntas. Ali naquele papel (dado pelo
professor) ele deve lançar tudo que sabe sobre o tema em questão.
Ao acabar, o aluno responderá oralmente às questões do bilhete,
podendo usar o rascunho que esboçou naquele tempo em que teve
para se preparar. O tempo de preparo gira em torno de 30 minutos. O
aluno pode pedir para pegar outro bilhete, mas isto já acarreta no
desconto da nota a ser dada.
E isto não é tudo! Quando o aluno termina de dissertar sobra
a pergunta “A”, o professor pode (e certamente faz) perguntas
chamadas de “perguntas complementares” que envolvam o tema.
Aprendi a odiar esta expressão!
A nota final varia entre 2, 3, 4 ou 5. Neste caso, a nota 2
significa reprovado, e o aluno irá precisar fazer outro exame. 3 é algo
igual à “escapei por pouco!”. 4 já é algo considerável; mas 5 é mais
para os super-dotados intelectualmente! Não tive muitos 5 na
Rússia…
Como isto é avaliado? O professor é que decide a nota que o
aluno irá receber. Leva-se em consideração outros fatores, como
participação nas aulas práticas, frequência, comportamento em sala,
e outros fatores que nunca descobri. Sempre achei este método muito
aleatório, vago e injusto. Houve vezes em que pensei “hoje eu levo o
meu primeiro 5”, e o professor me deu 3. Outras vezes achei que
seria esculachado pelas respostas dadas, mas recebia uma nota 4.
Nunca sabia se iria bem ou mal na prova.
Na verdade tudo ali era como um jogo, onde sempre quem
podia perder era só o aluno!
Ao final do exame, o professor pegava a carteira de notas do
aluno e escrevia nela o nome da matéria, a nota e assinava.
Descobri também que existiam tipos diferentes de
professores na época das provas e exames. Os bonzinhos durante o
semestre poderiam ser os devastadores na hora da prova, com
perguntas que jamais poderíamos pensar que pudessem ser feitas.
Outros “monstros” da sala acabavam por relaxar e deixar passar na
boa.
Mas o mais terrível de todos era o tipo “vocês não vão
conseguir passar, por isto para que se matar estudando? É só ajudar
com as compras de Fim de ano, que tudo fica bem”. Houve um caso
em que existia uma tabela de preços. Quem estivesse interessado
numa nota 3, deveria contribuir com X rublos. Se o apetite do aluno
era maior, o número na tabela também era acrescido no seu valor.
Agora se a pretensão era o desejado 5, aí era preciso desembolsar
mais. Já outro professor facilitou as coisas, era só comprar o livro de
sua autoria (e somente ele vendia, é claro!), e dar uma lida que a nota
estava garantida!
Na época da URSS, muita corrupção existia nos
estabelecimentos de ensino (e em toda a parte). Contudo, nos últimos
anos o governo russo começou uma cruzada contra este tipo de
atitude, e os professores universitários não ficaram fora da ação.
Durante o tempo que estive na universidade, tive um professor que
foi demitido por “comportamento inadequado”. Isto fez estancar
muito este processo de “cobranças” de fim de semestre, e a partir do
3 ano não tive mais notícias, pelo menos abertamente, desta prática.
As mudanças também ocorreram nas dependências da
Universidade. O início do popular remont (conserto) chegou em
2007. Os alunos que moravam nos dormitórios tiveram a felicidade
de ver suas janelas dos quartos trocadas pelas famosas “janelas
alemãs”. Além disto, pintaram o corredor e instalaram um sistema
contra incêndio nos prédios.
Algumas faculdades começaram a ter corredores arrumados
e salas refeitas. O estádio da universidade, que até então era um
campo de futebol com uma grama esparsa e trilhos por onde
passavam os alunos, acabou por ser totalmente reformado, ganhando
grama sintética, pista de atletismo e até mesmo arquibancadas, com
direito a iluminação noturna!
As mudanças demoraram um pouco mais a chegar na nossa
faculdade, mas foram bem recebidas quando apareceram por lá. O
corredor, que era uma penumbra por falta de lâmpadas, foi
iluminado. Os gabinetes das Cátedras e sala de professores
totalmente reformadas. Durante semanas passamos pelos corredores
que serviram de depósitos de móveis dessas salas e que iriam para
lugar mais apropriado, o lixo. Mas a mais esperada de todas as
reformas era na sala de aula principal, aquela que foi descrita
anteriormente. No dia da “inauguração”, todos estavam ansiosos para
estrear a nova sala. As luminárias foram trocadas e colocadas novas
lâmpadas fluorescentes, as paredes perderam o tom marrom escuro
(imagine como era antes numa sala marrom escuro e com lâmpadas
queimadas). As janelas também viraram “alemãs” e a calefação foi
trocada. Carteiras e cadeiras substituídas e o chão ganhou
revestimento novo. O quadro negro virou branco e ganhamos um
projetor de imagens.
A reforma no âmbito físico também estava acontecendo na
estrutura do próprio sistema de Ensino Superior. A Rússia mantinha
seu sistema, que basicamente era o seguinte: ensino superior de 5
anos, sendo o quinto ano a Especialização. Depois deste grau, vinha
o nível de “Aspirantura”, que era composto de 3 anos. A inserção do
“novo estilo” (4 anos de superior, depois mestrado e por fim
doutorado) foi uma opção à disposição dos alunos a partir de 2007. A
minha turma foi a última que se formou exclusivamente pelo estilo
antigo. Esta mudança não agradou a todos. Especialmente os
professores não estavam totalmente convencidos que isto traria
alguma melhora significativa. Na verdade, nem eles entendiam como
iria funcionar este novo sistema e qual sua correspondência com o
sistema russo. Resumindo, todos estavam confusos, inclusive eu, e
até hoje esta relação é obscura.
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Preciso fazer agora uma menção ao sistema fundamental de
ensino na Rússia, pois também participamos de mais esta área da
vida naquele país. Isto ocorreu por que nossa filha mais velha estava
entrando em idade escolar.
Desde o momento que decidimos ir morar lá, fomos
unânimes na questão de colocar nossas filhas em escolas locais. Em
geral, todo o sistema de formação fundamental está nas mãos do
Estado. Ficamos sabendo depois que havia uma escola particular em
outro bairro um pouco longe de nossa região, mas que quase
ninguém sabia dar maiores informações. Alguns estrangeiros davam
aula em casa para seus filhos (home school), outros mandavam seus
filhos para escolas na Europa.
Nossa opção de mandar a filha mais velha, e depois a mais
nova, para uma escola local se deu por alguns motivos práticos.
Primeiramente, ficamos sabendo que o Brasil não reconhece
o sistema de “escola em casa”, e exige que as crianças que moram
fora do país com os pais, ao retornar para o Brasil comprovem ter
freqüentado um estabelecimento de ensino reconhecido no país de
origem, mostrando a papelada devidamente documentada e
traduzida. Com a orientação do pessoal da Embaixada do Brasil em
Moscou, conseguimos fazer todo o processo legal para que elas
fossem aceitas no sistema brasileiro quando voltaram. Em geral,
brasileiros mantêm pouco ou mesmo nenhuma preocupação com este
ponto. Mas isto é fundamental na volta para o país.
Em segundo lugar, acreditávamos que, se estávamos num
outro país, o conhecimento da língua seria importantíssimo para um
desenvolvimento natural e social de nossas filhas. Neste ponto
víamos a dificuldade de filhos de outros que tinham seu sistema de
“home school”. Eles estavam isolados do mundo, das pessoas. Não
podiam ir ao teatro, cinema, conversar livremente com pessoas,
enfim, viver a vida normalmente.
Em terceiro lugar, nossas filhas aprenderam outra língua,
outra cultura. Elas foram expostas a situações de vida real, e não
ficaram guardadas num gueto, longe da realidade.
Obviamente esta posição cobrou também um preço, tanto
dos pais, como das meninas. Creio que todos sabem como crianças
podem ser duras umas com as outras. Quem nunca sofreu algum tipo
de pressão na escola? Quem nunca se sentiu agredido verbalmente ou
mesmo discriminado em algum momento da vida escolar? Ser
estrangeiro sempre é um belo motivo para se sofrer este tipo de
pressão. Mas felizmente nunca tivemos casos de agressão física ou
mesmo o chamado bulling, como se observa em muitos países do
mundo. O fato de muitas crianças na escola delas serem também de
origem georgiana e armênia trazia certa compreensão dos colegas.
Certa vez, conversando com um colega de nossa filha, ele
perguntou se éramos estrangeiros mesmo. Falamos que sim. Nisto
ele olha para nós com ar de importância e disse que também era
estrangeiro, georgiano, apesar de ter nascido ali mesmo na Rússia.
A relação interpessoal na Rússia é muito complicada, e as
crianças não são uma exceção. O fato de se ter poucos amigos é algo
absolutamente comum, pois as pessoas são muito desconfiadas,
especialmente com gente de fora. Os pais não permitiam que seus
filhos se aproximassem das nossas crianças ao perceberem que elas
não eram russas.
Mas tivemos boas e não tão boas experiências com este lado
da vida, a escola. O fato de não serem russas teve seus
complicadores. Para matricular uma criança, precisa-se de alguns
documentos que não possuíamos, como uma apólice de saúde
infantil, que é dada pelo governo às crianças russas, como
mencionamos no capítulo anterior. O mais complicado era que não
tínhamos direito a nada, como foi no caso do hospital quando nossa
filha foi rejeitada, mesmo em estado grave.
Mas se por um lado não existia o amparo do Estado, por
outro contamos com a ajuda daqueles anjos divinos. A vice-diretora
da escola onde a nossa filha mais velha iria estudar foi a professora
dela na aula de “preparação para a escola”. Esta era uma aula de
adaptação para a escola e uma pré-alfabetização. As aulas duravam
alguns meses, e ajudava as crianças no processo de integração à vida
escolar, e ainda auxiliava a própria professora a conhecer os alunos
num ambiente ainda pré-escolar. Na Rússia não existe prézinho, as
crianças vão direto para o primeiro ano.
Este fato da vice-diretora naquele ano dar a aulinha ajudou-a
a conhecer nossa situação, e no momento de fazer a matrícula na
escola, apesar da falta de alguns papéis oficiais, ela e a diretora
foram amplamente compreensivas, e aceitaram nossa filha sem
maiores dificuldades. Esta porta aberta com elas nos foi importante
ao longo do processo de ensino das meninas.
Algumas vezes tivemos que bater no gabinete da diretora
para explicar algumas situações, outras precisamos de uma ajuda
para entender os processos educativos, e ainda houve momentos que
precisamos falar sério sobre questões envolvendo atitudes de uma
professora. Apesar de toda a seriedade e frieza com que a diretora
nos tratava (e fazia isto com todas as pessoas!), ela sempre nos ouviu
e foi uma pessoa profissionalmente bem equilibrada em suas
posições.
Aprendemos muito com as experiências na escola. Vivemos
intensamente os momentos, mesmo os de crises. Participávamos da
reunião de pais, mesmo não falando muito! Estávamos sempre nas
festas, tentando colaborar e se adequar ao estilo de vida escolar
russo. Ajudávamos quando podíamos os professores, pois algumas
vezes as turmas iam para alguma atividade como teatro, cinema ou
algo do tipo, e precisavam da ajuda dos pais para levar as crianças (a
pé) até o local, atravessando ruas e avenidas. Lembro até que
participei num remont que foi feito na sala da nossa filha mais nova.
Em outras palavras, participamos como qualquer pai e mãe
preocupados com a educação de suas filhas.
Minha esposa ajudava nossas filhas a fazerem as tarefas de
casa, e com isto manteve o contato com a língua. Ainda em tom de
brincadeira, dizemos que ela foi à escola mais uma vez, fazendo a
escola russa do 1° ao 5° ano. Quanto aprendizado foi feito neste
tempo de escola!
Abrindo um parêntese, as meninas ainda tinham uma “escola
brasileira” em casa, pois o colégio onde estudam aqui no Brasil,
mandava à nosso pedido o material que as séries correspondentes
aqui estavam usando, e minha esposa passava o material com elas no
período da tarde (elas iam de manhã na escola russa). Isto foi feito
para que nossas filhas não perdessem o contato com o português e
para não sentirem a reentrada no Brasil. Estudos nesta área, feitos
com pessoas que foram morar no exterior e que voltaram, apontam
que esta reentrada é até mais difícil do que a partida, pois no tempo
em que se está fora, muita coisa muda. Em especial, para crianças
que saem pequenas, a mudança pode ser muito complicada.
Felizmente, graças ao cuidado que nos foi orientado ter neste
aspecto, elas tiveram uma reentrada no Brasil muito tranqüila, se
comparada com outras crianças que vêem de volta para cá. Alguns
podem achar que ter 2 escolas foi um sacrifício demasiado. Em
alguns momentos até chegamos a suspeitar que isto realmente fosse
demais, contudo, agora vemos que foi absolutamente benéfico para
todos.
Mas voltemos à escola russa. Certamente ela não era a
melhor da região, nem em termos de estrutura e nem mesmo de
popularidade, mas não estávamos atrás disto, pois sabíamos que não
éramos eternos ali. O fato de ela estar a 250 metros de nosso
apartamento e não precisar passar por ruas e avenidas movimentadas
era um fator de segurança para nós. E ainda havia o bom ânimo de
diretoria e professores para conosco.
A escola tinha muitas limitações. Como em toda a Rússia, as
estruturas do prédio eram bastante antigas. Além das questões de
sempre, banheiro, janelas, corredores, etc. O campo da escola para
educação física era um “areão”, cercado de mato e a quadra de
esportes era um asfalto com marcações feitas à mão. Mas, como
sempre, tudo na Rússia naquela época vivia de remont. Não tudo de
uma vez, mas aos poucos a escola foi colocando janelas novas,
trocando carteiras e melhorando a estrutura das salas. Nos últimos
anos, apareceram os projetores e até televisão nas salas. Quando
saímos da Rússia em 2011, estavam construindo uma nova área de
esportes cercada.
Aescola oferecia cursos na parte da tarde, como música, balé
e dança. Inscrevemos as nossas duas no curso de piano. E elas
chegaram a participar de concursos municipais entre escolas de
música, inclusive recebendo premiações. Além destes cursos na
escola, haviam outros que eram oferecidos por estabelecimentos
perto de nossa casa, como pintura, artesanato, e outros instrumentos
musicais. Conseguimos colocá-las em uma aula de natação, graças a
ajuda do dono de nosso apartamento. Sempre havia algo para se
fazer! A atividade cultural é intensa lá. Sempre há algum teatro,
cinema, peças, apresentações, teatro de bonecos, circo, museus, balé,
jogos esportivos para se ir. Tudo isto com preços muito acessíveis, se
comparado com os preços praticados no Brasil.
Apesar de todas as limitações na escola e universidade,
dificuldades de acesso ao sistema de ensino e outras complicações,
pareceu-nos que todo este processo teve resultados muito positivos.
Quando tivemos que preparar nossa saída da Rússia,
passamos na escola e obtivemos a papelada necessária para a entrada
no sistema brasileiro. O material foi encaminhado para ser traduzido
e oficializado.
O mesmo ocorreu com o material que recebi na
Universidade, diploma e histórico. Muitos deixam de fazer este
procedimento, e depois tem dificuldades aqui no Brasil para legalizar
esta documentação.
OS CONTRASTES
A Rússia, como já foi dito, é o maior país do mundo em
extensão territorial. Suas terras ocupam 1/6 das terras emersas com
17 milhões de km². Na época da ex- União Soviética, este valor subia
para 22 milhões de km². Para se ter uma ideia da grandeza da atual
Rússia, podemos colocar exatamente 2 Brasis dentro dela!
Contudo, apesar deste tamanho colossal, o país tem uma
população que não chega aos 150 milhões, ou seja, ¾ da população
do Brasil. Ainda segundo alguns especialistas na área demográfica, o
país na realidade deve estar abaixo dos 140 milhões, e o que mais
preocupava era o fato da população estar diminuindo. Por
coincidência ou não, a Rússia começou a apresentar números
negativos no crescimento exatamente no ano em que houve a
dissolvição da União Soviética. Mas o governo anunciou em 2009,
com grande entusiasmo, que pela primeira vez em 15 anos a taxa foi
positiva.
Entretanto, números são números, e a vida é feita mais do
que estatísticas. As mudanças da Rússia pós-socialista se lançavam
diante de nossos olhos também neste ponto. Algo que nos chamou a
atenção, na nossa visita em 2002, foi o fato de praticamente não
vermos carrinhos de bebês nas ruas. Em 2005, começamos a notar
uma frequencia cada vez maior nas ruas de casais levando crianças
no colo e nos carrinhos.
Com o passar dos anos, o número de carrinhos se multiplicou
pelas ruas. O anuncio em 2010 de Vladimir Putin sobre os números
positivos nas estatísticas demográficas ainda eram modestos, mas
apontavam uma tendência. Parecia que os russos haviam acordado e
começado a fazer bebês! O que aconteceu? Eles começaram a fazer
mais sexo? Aumentou o descuido?
Isto tem fatores que vão além de simples coincidências ou
instintos procriacionais. O governo havia iniciado uma campanha
junto a população para que tivessem mais filhos por volta de 2005.
Um segundo filho traria uma quantia em dinheiro para a conta
bancária dos pais, uma espécie de “auxilio nenê” que contemplava
até garantias de estudo em estabelecimentos de ensino superior, que
vinham premiadas com bolsas. Para famílias com 4 filhos ou mais, o
prêmio incluiria uma casa e uma casa de campo. Haviam muitos
outros benefícios indiretos e estímulos que eram oferecidos pelo
governo. Aí, juntou-se o útil ao agradável, e as cegonhas não tiveram
mais descanso por lá.
Mas por que o governo russo se empenhou tanto em
“persuadir” seus cidadãos a aumentar a prole? Existem muitos
motivos. O país estava (e está) envelhecendo.A migração para outros
países (especialmente Europa Ocidental, Israel e EUA) desequilibrou
o quadro interno. Muitos profissionais altamente qualificados haviam
deixado o país em busca de maiores oportunidades. Quando
chegamos lá, o maior sonho de um russo era deixar o país para
buscar os sonhos do ocidente. Vimos muitos russos ultra-
nacionalistas em sua ideologia, que na primeira oportunidade se
achegavam perto de estrangeiros buscando uma amizade que
provesse possíveis “conexões” com o mundo lá fora.
Porém, alguns estudiosos apontam problemas muito mais
críticos para a Rússia. E isto está relacionado com questões de
seguança nacional. A reativação de certas unidades bélicas que
estavam desativadas desde a desestruturação da URSS é um indício
de que algo está acontecendo. E para a Rússia, o inimigo pode morar
(literalmente) ao lado! Mas, por enquanto, não é nisto que a maioria
das pessoas está pensando!
O fato é que a grande parte dos casais russos têm apenas 1
filho(a). Nós morávamos num bairro fora do centro da cidade, pois a
universidade ficava naquela região. E este bairro tinha uma
população com uma presença mais expressiva de outras etnias
caucasianas, em especial de georgianos e armênios. A escola onde
nossas meninas iam era pública (praticamente não existe escola
particular na Rússia). Percebia-se que famílias russas tinham
basicamente um(a) filho(a), enquanto as de outras etnias chegavam a
ter 3-4 crianças, o que em russo era denominado “famílias de muitos
filhos”. Geralmente, as meninas destas etnias vão até certa série e
param, pois entram em idade para casar. Já os meninos têm mais
perspectivas de avançar nos estudos.
O problema demográfico russo é uma questão muito mais
delicada nas pequenas cidades e aldeias espalhadas pelo país,
especialmente nas regiões siberianas. Como dissemos, o êxodo
destas pequenas localidades para as grandes cidades como Moscou e
São Petersburgo tem limitado o desenvolvimento destes lugares. As
atividades econômicas são muito restritas, e as indústrias da era
soviética, que ainda existem nestes lugarejos, estão sucateadas,
ultrapassadas e geram pouca competição com produtos de fora.
Nos anos 90, e mesmo no início deste século, os índices de
desemprego nas pequenas cidades (e mesmo em Krasnodar, a capital
do estado), chegavam a 40-50% da população economicamente ativa.
Quando estivemos lá em 2002, era muito comum ver pessoas nas
ruas com placas penduradas no pescoço, oferecendo seus serviços
(encanadores, marceneiros, jardineiros, etc.). Havia uma espécie de
“feira” de trabalhadores no centro de Krasnodar, onde pessoas se
colocavam a disposição para uma eventual possibilidade de emprego.
O comércio informal era algo muito difundido. Naquela
época, vimos muitas vezes carros na beira da estrada ou nas ruas da
cidade, com sua carroceria completamente coberta de produtos para
vender, uma espécie de mini-mercado. Caminhões estacionados com
placas grandes (escritas a mão) dizendo CIMENTO é uma imagem
que tenho ainda hoje na mente e ela representa muito bem este
momento econômico do país, que estava em fase de transição
econômica.
Esta falta de estabilidade dos anos 90 e o início da década
seguinte ajudaram a agravar um velho problema russo, o alcoolismo.
O consumo aumentou, especialmente nas regiões menos
privilegiadas. Logicamente que o problema do alcoolismo tem raízes
muito mais antigas e profundas na cultura local. Dizem que o
consumo de vodka teria sido incentivada pelo regime czarista para
manter o povo sob controle. Na Rússia, tudo é possível!
Nos anos 60 o governo soviético, incomodado com a prática
desenfreada da população no consumo de vodka, adotou um plano de
incentivo ao consumo de sucos de frutas. Houve uma maciça
industrialização do setor. Buscou-se aos poucos trocar o uso das
bebidas alcoólicas pelo mais saudável hábito de tomar sucos. A
medida teve algum impacto, mas o consumo de vodka não caiu nos
patamares esperados ou idealizados pelo governo. O resultado mais
duradouro foi que a variedade e disponibilidade de sucos que se
tornou uma característica no mercado russo. Realmente impressiona
o consumo dos russos destes produtos. Impressiona ainda mais a
variedade dos sabores, maior que no Brasil, um país tropical, onde
crescem uma variedade muito maior de frutas do que na Rússia.
Mas como dissemos, o resultado desta troca foi abaixo do
esperado. A população não deixou os velhos hábitos. Numa política
do estilo “dos males o menor’, o governo apostou então no consumo
da cerveja. Esta campanha parece ter sido mais bem sucedida. Mas, o
efeito colateral é perceptível hoje. O consumo de cerveja é realmente
alto no país. Em especial, os jovens são o alvo desta nova mania
russa. O uso indiscriminado de cerveja é tão forte, que não existe
hora ou local para se tomar, muito menos quantidade de litros.
O consumo entre mulheres é algo ainda mais gritante. Nas
ruas é “normal” ver moças andando com uma garrafa na mão. Nos
bares, as mesas sempre estão bem servidas deste produto. Existe
garrafas de 5 litros, que algumas vezes vimos sobre as mesas no
mesmo número de pessoas sentadas ao redor dela!
Devido ao fato de irmos para a universidade de manhã (a
aula começava às 8:00 horas), muitas vezes passávamos por pessoas
na rua que já estavam com sua garrafa na mão.
Apesar de não vivermos no interior, os relatos de nossos
conhecidos russos davam conta de que lá a situação era ainda mais
degradante, pois a falta de perspectiva levava muitos a beberem,
numa fuga da realidade. Nestes mesmos locais o índice de suicídios
era alto, motivado pelos mesmos problemas.
Apesar de toda a bebedeira, em geral, as pessoas não ficavam
agressivas. Outro fato interessante é que as pessoas têm certo
respeito e mesmo cuidado com os alcoolizados. Parece que, por
todos já terem passado por certas situações por causa da bebedeira,
ou por terem alguém próximo na família que tivesse sido ajudado,
elas demonstram uma preocupação em ajudar. As vezes, diziam os
russos, um motorista ao ver alguém ‘naquele” estado, parava o carro
e ajudava o transeunte a achar o caminho para casa, inclusive muitas
vezes levando o indivíduo até sua moradia. Bem, o que acontecia
depois com a alcoolizado em casa é outra história…
Mudando um pouco de foco, mas ainda dentro do tema,
outro problema é o tabagismo. Uma estatística levantada por uma
agência revelou que 70% dos russos e 50% das russas são fumantes.
Não sei até que ponto esta pesquisa esteja correta, mas não há
margem para dúvidas de que se estes números não representam uma
realidade absoluta, estamos muito próximos dela. Os russos fumam
muito!
O fato de “todos” fumarem, sempre serve de justificativa
para que se fume em qualquer lugar. Lembro que pegávamos as
lotações para irmos até o centro da cidade, e os motoristas sempre
estavam fumando (é uma generalização, eu sei, mas não me lembro
de um que não estivesse!). O maior sacrifício era estar numa destas
lotações completamente lotada, com pessoas em pé inclusive, e em
especial no inverno. Todas as janelas estavam religiosamente
fechadas,o ar saturado pela respiração dos passageiros (sem contar o
fato de o banho diário ser um hábito aparentemente muito brasileiro
apenas), e o motorista ainda resolvia fumar. Para ser justo com ele,
ao menos ele abria uma pequena fresta na sua janela, ainda que fosse
só para jogar as cinzas do cigarro. Lembro de sempre tentar ficar
perto daquela janela salvadora, ainda que com um pouco de fumaça
vindo no resto por causa do vento, ao menos havia algum oxigênio
por ali. Tentar abrir alguma janela era um ato que nem passava pela
cabeça, pois vi como as pessoas reagiam quando alguém tentava
fazer isto.
Não existia na Rússia leis contra fumar em ambientes
públicos. Lembro que um dia entramos num restaurante com um
amigo brasileiro que lá morava e pedimos se havia um lugar para não
fumantes. A expressão facial da atendente estampava uma pergunta:
o que é isto? Abandonamos o plano de tentar achar o tal lugar para
não-fumantes.
Enquanto estávamos na Rússia, a situação começou a mudar.
Algumas leis foram aprovadas no sentido de proibir o ato de fumar
em lugares públicos, mas parece que restaurantes não fazem parte
desta lista (e muitos outros que nós consideraríamos públicos
também não!). Na universidade não era permitido fumar nas salas de
aula e no corredor, mas entrar na sala dos professores era entrar em
território de fumantes. No intervalo entre as aulas, era comum ver
uma tropa de alunos sair apressado para o pátio, a fim de ter alguns
minutos com o hábito.
É possível imaginar o índice de incidência de câncer
advindos desta prática. Álcool e tabaco são grandes adversários na
Rússia. Isto aliado a outros fatores sociais, além dos descritos acima,
levaram o governo russo a tomar medidas fortes para prolongar a
expectativa de vida dos seus cidadãos. Um país que perde muitas
pessoas para doenças originadas pelo consumo de álcool e tabaco,
que tem uma taxa de suicídio elevada, cujo as famílias têm em média
uma criança, evidentemente precisa se preocupar com sua existência
como povo e nação.
Apesar desta tentativa de aumentar a expectativa de vida e da
taxa demográfica, o país tem uma outra questão que vai no contra-pé
destas medidas. Segundo estatísticas do próprio governo, uma
mulher russa faz em média 7 abortos ao longo de sua vida. A lei do
aborto foi aprovada em 1920, fazendo da Rússia o primeiro país a
legalizar esta prática. Em 1936 Stalin a revogou, e sua proibição
durou até a morte do ditador. Atualmente o país é o campeão mundial
em abortos, e isto é uma questão delicada agora para o próprio
governo. Nos anos recentes ele tentou reaver esta lei, o que provocou
a reação enfurecida de parte da população, especialmente das
organizações ligadas aos direitos das mulheres.
Deixe-me dizer que sou contra esta prática, por questões
éticas e morais, mas observando na prática o que isto provocou (e
ainda provoca) no psicológico de pessoas envolvidas, a prática não
acaba apenas com a vida do feto, mas destrói internamente (na alma,
se quiserem pensar assim) a pessoa que o fez. Conheci um russo que
disse estar neste mundo por um milagre divino, pois sua mãe antes
de tê-lo, praticou 10 (!!!!) abortos. Ele escapou por pouco! Algumas
mulheres que tive a oportunidade de ouvir falar sobre o assunto, que
é algo velado naturalmente, falavam de suas angústias ao pensar
naquilo que fizeram. Este é um assunto que ainda provoca muita dor
nas pessoas, mas é a realidade da experiência de vida delas. Não
quero ser moralista aqui, mas ver esta realidade coloca-nos diante de
questões, no mínimo, inquietantes.
A Rússia está distante do Brasil, não apenas na questão
histórica, econômica, política, religiosa, étnica, mas também em
questões sociais. Os problemas são distintos, ainda que tenhamos
similaridades. Ver estas diferenças nos fazem pensar na vida, e em
algum sentido acabam por mudar nossa visão de mundo. Perceber os
problemas lá foi mais fácil por não fazer parte daquela cultura.
Acaba-se por ver as questões de outro prisma, notar detalhes que não
estão perceptíveis aos habitantes locais. Mas o mais interessante é
voltar para o seu país e começar a ver os nossos problemas que antes
também estavam ocultos aos olhos. Isto é, creio eu, amadurecer na
vida!
São os contrastes, as diferenças, os outros tons que acabam
abrindo nossos olhos para novas perspectivas...
CURIOSIDADES CULTURAIS
A diferença entre Brasil e Rússia está muito além da posição
geográfica entre ambos como realçamos antes. Gostaria de destacar
aqui algumas pequenas facetas da cultura popular deste país que
aprendemos no nosso tempo por lá.
Quando chega a época de fim de ano, os pinheiros aparecem
em vários lugares pela cidade. São pequenos pontos de venda destas
árvores, que recebem o nome em russo de “yolka”. Elas não são
árvores de Natal, mas sim, árvores de Ano Novo. É que na Rússia o
Natal oficialmente vem depois do Ano Novo, lá no dia 07 de janeiro.
Isto ocorre por causa do calendário que é seguido pela Igreja
Ortodoxa Russa, o Juliano, que tem uma diferença de 13 dias em
relação ao Calendário Gregoriano, utilizado na maior parte do
mundo. Desta forma, o dia de Natal acaba caindo em janeiro pelo
nosso sistema.
Com a Revolução Russa, o novo governo adotou o
Gregoriano, mas a Igreja continua com o sistema antigo para as datas
por ela celebradas. Assim, os russos consideram o Natal
comemorado em 25 de dezembro uma festa “Católica”, e ela
praticamente não é comemorada na Rússia. Mesmo igrejas
Protestantes usam a data tradicional russa como base de
comemorações, pois para os russos não faz sentido um Natal em
dezembro. Mas isto aos poucos tem mudado, e algumas pessoas
começam a comemorar o Natal nas duas datas.
Outro fato interessante relacionado à questão do calendário é
a data de Ano Novo. Os russos, assim como a maioria do mundo
contam o dia 1° de janeiro como início do ano. Mas por causa da
diferença de datas dos calendários, o Ano Novo também é
comemorado duas semanas depois. Os russos se saúdam na festa de
1° de janeiro com a frase “Feliz Ano Novo”, e para a outra data com
“Feliz Ano Novo Antigo”. A primeira vez que ouvi isto, pareceu-me
engraçado e confuso, mas depois acabamos nos acostumando.
Lembro que numa noite de janeiro estava dormindo e de repente
começaram os barulhos de fogos de artifício e pessoas gritando das
janelas dos apartamentos. Pensei que era tiroteio (pensamento de
brasileiro!!!), mas parei para ouvir melhor e ouvi a frase típica “Feliz
Ano Novo Antigo”... Fui dormir mais tranquilo!
Ainda sobre a festa de Ano Novo, os russos a esperam
ansiosamente, é uma data das mais importantes do calendário. Eles
compram muitas garrafas de vinho espumante, chocolate, tangerinas,
bolos e balas. A figura principal é o “DedMoroza” (Vovô do Frio), o
que corresponde ao nosso “Papai Noel”, que juntamente com sua
sobrinha e assistente, a sempre bela “Snegurotchka” (Moça da
Neve), distribui presentes para as crianças. O “Ded Moroza” está
associado exclusivamente com esta festa de Ano Novo, e não com o
Natal como no Ocidente.
A tradição que dura mais de 30 anos no país é a de, na noite
de 31 de dezembro, as famílias se reunirem para assistir um filme
chamado “Ironia do destino”, que passa no canal principal de TV.
Sempre o mesmo filme, todo o ano, com quase 3 horas de duração,
mas, tradição é tradição!
Deixando um pouco as festas de lado (pois ainda poderíamos
falar sobre a Maslenitsa que é um correspondente ao nosso
Carnaval), gostaria de passar para outra característica dos russos, que
é a de sempre citarem alguma fala de um filme famoso. Algumas das
citações viraram verdadeiros provérbios ou chavões, sendo
plenamente compreensíveis para os ouvidos russos, mas que
infelizmente não fazem muito sentido para os estrangeiros. Às vezes
isto dificultava um pouco a comunicação, pois no meio da conversa
alguém recitava a frase de algum filme da Era soviética e todos riam
ou ao menos entendiam, e nós ficávamos ali parados tentando
entender o que estava acontecendo. Quando um dos presentes tinha a
sensibilidade de notar a nossa alienação ao que acontecia, começava
a explicar o contexto, ou ainda a contar todo o filme…
Outro traço da cultura russa é o de nunca rir em público de
forma alta, ou sem um motivo extremamente importante. O riso, ou
mesmo o sorriso, sem um bom “motivo” é considerado pelos russos
como um sinal de demência mental. Certo dia, num mercado público
no centro da cidade, estávamos com uma brasileira que ao passar por
uma banca, parou na frente da vendedora e começou a sorrir,
tentando mostrar simpatia para a outra mulher.
- Do que você está rindo? - perguntou a vendedora com ares
de poucos amigos.
A brasileira não entendeu, e abriu ainda mais o sorriso,
pensando que de alguma forma estava agradando, sem perceber o
tom ameaçador da lojista.
- Você acha que sou palhaça para ficar rindo de mim? -
continuou a vendedora.
Neste momento minha esposa interveio e pediu desculpa
para a vendedora, informando-a de que aquela mulher era
estrangeira.
- E daí, eu também sou estrangeira (armênia) e não fico rindo
como uma doida por aí!!!- exclamou firmemente, acabando com a
conversa.
Mas aos poucos a nova geração vem aprendendo a lidar com
esta “manifestação facial”.
Certo dia, na sala de aula na Faculdade, um dos colegas
estava rindo alto por causa de alguma coisa engraçada que alguém
dissera naquelas conversas de fundo de sala. Os risos se espalharam
pelo fundo, e a professora (já idosa) parou a aula para saber do que
se tratava aquilo. Os alunos obviamente não contaram os detalhes,
apenas informaram que era uma piada qualquer. A professora tomou
então um caminho estranho para mim naquele momento. Ao invés de
mandá-los parar ou expulsá-los da sala (algo muito comum na
Universidade), começou a dizer que aquilo era coisa de pessoa com
problemas mentais. Os alunos perguntaram então se rir era sinal de
demência, ao que a professora respondeu com um categórico “sim!”.
Quase começou uma revolução russa na sala de aula, mas no fim,
todos pararam de rir e a aula simplesmente continuou.
O sorriso é algo tão sério na Rússia, que sorrir demais é
considerado também sinal de falsidade. Em especial, existe um
preconceito forte contra a cultura americana do “keep smiling”, o
que veio a receber o apelido na Rússia de “sorriso americano”. Sorrir
para estranhos é algo indesejado, e muito mal visto pelos outros.
Lojas e redes de “FastFood” tiveram problemas no país justamente
por causa disto. Numa enquete promovida por uma rede de
lanchonetes americana logo no início de suas atividades lá, o
principal ponto de insatisfação dos clientes era o “sorriso americano”
dos vendedores, que eram instruídos para atenderem na forma do
“keep smiling”. Restringida esta gafe cultural, a rede agora está
espalhada por todas as principais cidades da Rússia.
Mas estas gafes culturais podem ser cometidas por qualquer
um. Por menor e sutil que seja a regra não explicita, o estrago ou
mesmo a vergonha pela não observância dela geram
constrangimentos. Tomamos como exemplo o caso de um buquê de
flores. Qual o número de flores que deve ter um buquê? Isto pode
fazer a diferença entre um agrado e um inconveniente. Números
ímpares de flores são sempre usados para homenagens, presentes,
agradecimentos ou em qualquer ocasião social. Agora, dar um buquê
com um número par significa “pêsames”, pois é o número usado em
enterros. O erro de dar para alguém um número par ao invés de
impar, pode ofender sensivelmente uma pessoa. Uma flor somente é
um agrado entre namorados ou interessados num namoro. E
novamente aqui, feito da forma errada, mesmo com toda a
sinceridade, pode ocasionar embaraços e situações constrangedoras.
Olhando por outro lado, costumes culturais podem ser mal
interpretados da mesma forma pelos estrangeiros. Os brasileiros que
nos visitavam constantemente nos perguntavam sobre o hábito muito
comum das moças andarem de mãos dadas nas ruas. Mas isto é
apenas um sinal de amizade, nada mais. Outro questionamento
frequente é a cena de que, em quase todas as esquinas, terem garotas
paradas, vestidas de forma (segundo o ponto de vista dos brasileiros)
um tanto quanto atrevido, com minissaias e todas bem maquiadas.
Tínhamos, então, que dizer que elas estavam ali apenas esperando a
lotação, pois as esquinas são os pontos de parada delas, e que os
trajes eram condizentes com a moda, pois todas russas praticamente
se vestem daquela forma, especialmente as mais novas, sem qualquer
conotação mais , digamos, sensual.
Neste sentido, roupas são um capítulo à parte. A moda
quando chegamos na Rússia era o sapato bico-fino, mas muitos
também usavam o que nós denominávamos de “sapato Aladim”, pois
era afinado e com a ponta levantada. Era muito estranho ver os
homens com traje social e aqueles sapatos que destoavam do resto.
As mulheres, por outro lado sempre estavam de salto, e quanto mais
alto, melhor. No corredor da Universidade o som provocado pelos
saltos era algo estranho, pois na hora dos intervalos, quando as portas
das salas se abriam, os corredores se enchiam de moças que
desfilavam com suas minissaias e com seus saltos. Mas, antes de
saírem para o corredor, sempre repassavam a maquiagem, pesada,
espessa. As mulheres russas adoram maquiagem. O catálogo de uma
empresa de cosméticos que no Brasil apresenta uma quantidade
muito maior de perfumes e outros produtos, na Rússia praticamente é
visto com páginas e mais páginas dedicados à maquiagens. E este
hábito de usar maquiagens não tem idade, nem ocasião.
Não raramente ainda é possível ver pessoas andando de
roupões na rua. Explico. Elas descem dos apartamentos para irem
comprar alguma coisa logo ali na esquina ou mesmo no quiosque.
Por praticidade, elas saem de chinelo e roupão, afinal a banca de
revistas é logo ali, e este ato não gera maiores constrangimentos.
Algumas vezes nos deparamos com as pessoas saindo pela porta do
prédio só de roupão, o que chocava de início, mas depois acabamos
nos acostumando com a cena.
As mulheres trabalham em todos os setores da sociedade.
Raro era ver, por exemplo, homens dirigindo ônibus, trólebus ou
bonde. A limpeza da cidade, muitas vezes, era feita pelas mulheres, e
mesmo no trabalho de recapeamento do asfalto das ruas, as mulheres
estavam presente. Isto é uma herança dos tempos soviéticos, quando
a mulher ganhou muita projeção. Alguns associam este fenômeno
com a Segunda Guerra, pois durante e após a guerra, as mulheres
tiveram que assumir responsabilidades nas fábricas, no campo e na
vida diária das cidades, já que os homens estavam na frente de
batalha, ou tiveram um fim mais trágico.
Não é à toa que um dos dias festivos mais importantes na
Rússia é o 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Esta data é
levada muito à sério por lá, sendo inclusive feriado. Neste dia, os
homens presenteiam as mulheres com flores, fazem discursos e as
homenageiam. Lembro-me da primeira vez que passei esta data na
Rússia. Por desconhecimento da importância, não levei nada para a
professora de russo, nem dei os parabéns e toda a felicitação pela
data tão importante. Gafe! Nos anos seguintes, religiosamente algum
tipo de felicitação foi expresso para as mulheres que eu encontrasse
eventualmente naquele dia.
Mas os homens também têm sua data, menos comemorada,
mas igualmente importante. O dia escolhido foi 28 de fevereiro, que
acabou ganhando o nome de “Dia do soldado”. Todos os homens,
inclusive meninos, são alvos das mesmas felicitações, presentes e
tudo mais. O “dia dos homens” se comemora no “dia do soldado”,
pois se pressupõe que todos os homens foram, são ou serão soldados.
Resquícios da era soviética.
Aqui se percebe que a guerra está presente em todos os
lados. E isto se reflete nas datas comemorativas, especialmente no
dia 9 de maio, comemoração do fim da guerra, o “Dia da Vitória”.
Paradas militares são vistas nas ruas, pessoas desfilando, passeatas,
homenagens aos heróis de guerra, veteranos e aos soldados tombados
em combate. O número de 27 milhões de soviéticos mortos no
conflito justifica plenamente esta importância atribuída ao dia.
Dizem que todas as famílias tiveram ao menos um membro morto na
guerra. No ano que chegamos na Rússia, uma fita, chamada de Fita
de George, começou a ser distribuída à população gratuitamente
como um símbolo, e isto se espalhou pelo país, virando uma mania
nacional. Suas cores com listras preta e laranja intercaladas eram
exibidas nos carros, transportes públicos, penduradas nas camisas,
chapéus, janelas, enfim, por todos os lados.
O que mais me impressionou na Rússia em relação aos
feriados, é que eles são observados rigorosamente. Se um feriado
acaba caindo num sábado ou domingo, ele é automaticamente,
transferido para a segunda-feira, ou sexta-feira. Ou seja, não se perde
o dia de descanso por causa de inconveniências do calendário.
E a guerra também é intensamente retratada nos filmes
russos e nos livros. Estas duas manias nacionais sempre retrataram o
momento mais marcante da história do país no século XX. Ir ao
cinema é uma paixão russa, o que é estimulado pelos preços
extremamente acessíveis. O livro é outro companheiro sempre
presente. E apesar dos celulares terem tirado o lugar do livro
ultimamente, ainda mais entre os jovens, uma opção adaptada de
tecnologia e a antiga paixão é vista cada vez com mais frequência
nas ruas, os leitores de livros eletrônicos, que são dos mais variados
tipos, tamanhos e cores. Eles são encontrados com facilidade até em
supermercados.
Supermercados, aliás, que evoluíram muito em termos de
qualidade. Nos tempos finais da URSS passavam por uma forte crise
de abastecimento. O fim da União acabou por trazer mais problemas,
pois as repúblicas que abasteciam o mercado russo de frutas e
verduras, entre outras mercadorias, acabaram por romper o fluxo que
era forçado pelo governo central. Mas esta crise foi superada, e
atualmente encontra-se de tudo. A demanda por produtos importados
era tão grande, que uma estimativa do próprio setor observava que
50% dos produtos colocados à venda nos mercados eram de origem
externa. Isto se explica basicamente pela falta de produção nacional
ou a péssima qualidade do que era produzido no país. Entretanto a
indústria nacional russa acabou reagindo e iniciando um processo de
maior concorrência com os importados.
Muitos produtos ainda vêm de fora. Quando se chega num
mercado na seção de frutas, podem-se ver as bandeiras dos países de
origem delas. Turquia, Egito, Israel, Colômbia, Equador, e para nossa
surpresa, algumas vezes a bandeira do Brasil, debaixo da qual
estavam mangas e limões verdes. Achamos polpa de frutas
congeladas típicas do Brasil como cupuaçu e cajá. Também
encontramos num mercado durante algum tempo carne brasileira,
tanto de gado quanto de frango e salame, e o sabor era bem mais
agradável para nosso paladar do que a carne russa.
Vale a pena notar que para os brasileiros, a comida russa não
atrai muito. Em geral, para o nosso paladar, ela é sem sal e sem gosto
por causa da falta de temperos. Em alguns casos, especialmente com
as comidas de origem da Ásia Central, elas são picantes, e se o
anfitrião que a está oferecendo diz que não é, duvide, pois paladares
são diferentes. Mas como se diz, gosto não se discute. Certa vez,
estivemos na casa de uma família centro-asiática e o almoço foi
servido ao estilo oriental. Ficamos sentados no chão, ao redor de uma
mesa baixa, entre almofadas e reclinados. A comida foi posta à mesa
e o anfitrião, após explicar que o prato era tradicional de sua cultura,
nos convidou para comermos. Perguntei se a comida era apimentada,
ao que me respondeu negativamente. Aprendi naquele dia que muitos
conceitos culturais e gastronômicos são relativos. Precisei
imediatamente de algo para tomar, ao que me foi servido chá quente,
como de costume. Fui forçado a tomar o chá mesmo, pedindo depois
educadamente um copo de água.
Os choques culturais acontecem a todo instante. Eles podem
ser gastronômicos, auditivos, visuais, etc. Lembro que sempre tive
dificuldade com os taxistas. Eles são sempre os senhores na relação
com o cliente. Uma pessoa que ataca um táxi na rua começa do lado
de fora do carro, pelo lado do passageiro, a negociação. A primeira
questão a ser definida não é o preço da corrida (poucos tinham
taxímetro), mas se o taxista estava disposto a levar o cliente ao local
desejado. Em grande parte, as negociações acabavam naquela
pergunta mesmo, pois o taxista ia embora sem maiores explicações.
Certa vez, ao chegarmos de Moscou no aeroporto de Krasnodar, já
no início da manhã, depois do avião ficar horas preso num outro
aeroporto por causa da nevasca que se abatia sobre Krasnodar,
precisávamos de um táxi. Já era esperado que o preço da corrida
seria abusivo, mas naquela situação já sabíamos como agir, negociar.
Contudo, ninguém estava disposto a nos levar, pelo fato de não irmos
para o lugar onde eles queriam levar os possíveis passageiros.
- Só vou para o centro! Se você quiser vamos lá! Se não,
não! - diziam.
O nosso bairro era no caminho entre o aeroporto e o centro,
mas nenhum dos taxistas se prontificou a nos levar até o nosso
destino. Felizmente as coisas na Rússia já haviam mudado o
suficiente, e minha esposa ligou para uma companhia de táxi e pediu
um. Em poucos minutos o táxi chegou, e nos levou para casa,
cobrando o valor justo da corrida marcado no taxímetro.
Em outra ocasião, minha esposa e eu estávamos no centro da
cidade, precisando chegar até um local onde estava acontecendo um
evento. A temperatura era de -17° C, e precisávamos de um táxi, pois
o local do evento era distante e sem rede de transporte público. Era
noite e estava nevando muito. Quase não haviam carros na rua e os
poucos taxis que circulavam não paravam para nós. Já angustiado
com a situação e o frio, achamos um táxi parado num canto.
Aproximei-me esperançoso de enfim ter encontrado a solução do
nosso dilema. O rapaz no carro estava segurando um prato de isopor
e ficou olhando para mim pela janela com cara de quem não iria se
dignificar em abrir ao menos o vidro.
- Está livre? - perguntei congelando.
- Estou comendo. - respondeu através de uma freta na janela.
- Pode nos levar até à Rua Rossiskaya?
- Estou comendo! - insistiu o motorista.
- Quanto tempo até você terminar de comer? - já começando
a perder a paciência, mas mantendo um polimento.
- Daqui a meia-hora podemos ir.
- Meia hora? Não dá para terminar aí rapidinho?
- Vou descansar um pouco depois de comer…
Olhei para minha esposa que estava do outro lado da rua e
desisti, sabendo que meia-hora significava um “NÃO”!!!
Por fim, conseguimos carona com um conhecido que estaria
passando pelo centro dentro de meia-hora. Ficamos parados (e
esquentando-nos um com o outro) por todo aquele tempo, na rua,
debaixo de neve e muito frio. Mas é assim que as coisas são. O
freguês raramente tem razão na Rússia!
Entretanto, cada vez mais os consumidores russos tem se
oposto a este tipo de tratamento desdenhoso que lhe é oferecido. Isto,
segundo pode-se presumir, é fruto também do contato dos russos
com o mundo externo. O turismo cresceu de forma exponencial no
país nos últimos anos. Os russos têm preferido ir para o estrangeiro a
frequentar as praias do sul do país. A explicação é simples: valores
cobrados por hotéis e alimentação são muitas vezes superiores aos
encontrados fora, e ainda precisamos acrescentar o fator “bom
atendimento” e educação (mimos). Os russos têm partido cada vez
mais em pacotes turísticos para os países relativamente perto, como
Turquia, Egito, República Tcheca, Espanha e Chipre. Outros lugares
como a distante Tailândia e Maldivas também são muito
requisitados.
Os pacotes com preços atrativos, num sistema geralmente de
“tudo incluído”, sol e praias aliado a bons hotéis, fazem com que o
fluxo de pessoas seja muito grande, especialmente no inverno russo,
quando em países como Egito e Turquia, o sol brilha forte.
Tudo tem contribuído para que os russos venham a conhecer
o mundo e importar certas exigências para seu país. E isto tem, aos
poucos, mudado a cara de um sistema que permaneceu fechado por
muito tempo.
E este é seguramente um processo sem volta…
A ALMA RUSSA: DO MISTICISMO
AO CRISTIANISMO
Um dos grandes mistérios da Rússia encontra-se
dentro dos próprios indivíduos que compõem aquele país.
Falar a respeito da alma russa em si é uma das tarefas mais
complicadas.
Em seu livro Os russos, Angelo Segrillo aborda, num
dos capítulos, o tema que leva como subtítulo “Mente ou
Alma?”. Segundo ele, o ocidente tenta interpretar e entender o
comportamento de um país, neste caso a Rússia, segundo a
chamada “mente russa” - russianmind. Entretanto, em russo, a
expressão correspondente é “alma russa” - russkayadushá- o
que pode demonstrar fortemente a atração russa não pelo
racional (mente), mas pelo espiritual. Evidentemente que uma
dicotomização extremada nesta questão seria impraticável e
até injustificável.
Mas o fato é que os russos não podem ser vistos como
racionais e materialistas essencialmente. Eles mesmos se
entendem mais como espirituosos ou espirituais (não apenas
no sentido religioso) do que racionais, pois são extremamente
passionais em suas relações internas. De igual forma, eles
podem ser considerados “espirituais” por suas notáveis
capacidades artísticas, como as áreas musicais, teatrais, de
dança, literatura e religiosa.
Gostaria de abordar neste sentido a questão religiosa,
que é onde mais a alma russa aflora. A ideia de um russo ateu,
materialista, desvencilhado de qualquer sentimento religioso e
sem superstições está muito longe da realidade. Tal declaração
pode surpreender algumas pessoas, pois geralmente se
vincula os russos ao “comunismo ateu”, com uma ideologia
anti-religiosa, expressa inclusive por seus líderes em suas
guerrassantas contra todos os tipos de manifestações religiosas.
Entretanto, a realidade é que a alma russa é totalmente
supersticiosa. Em geral, mesmo pessoas instruídas manifestam
tal superstição em momentos diários. O dono do nosso
apartamento, por exemplo, sempre ia pegar o aluguel conosco
na parte da manhã, e nunca à noite. Certa vez, insistimos que
ele passasse no apartamento à noite (por uma razão que agora
não lembro). Ele procrastinou até onde pode, indo pegar
finalmente o dinheiro numa manhã, depois de vários dias.
Depois descobrimos que os russos não pegam dinheiro de
outra pessoa à noite, senão, como dizem, o dinheiro “vai
embora”! Mas aconteceu certa vez que ele precisou buscar o
aluguel à noite. Ficamos surpresos, mas abrimos a porta
esperando o que iria acontecer. Ele então me cumprimentou,
apertamos as mãos já dentro do apartamento, pois não se pode
apertar as mãos quando ambos estão de lados distintos dos
umbrais da porta. Pediu então para que eu colocasse o
dinheiro no chão. Olhei para ele com uma cara de quem não
estava entendendo a questão. Ele fez gestos para eu colocar o
dinheiro na sua frente. Coloquei-o como havia instruído nosso
“hoziain” (dono) e ele abaixou-se e pegou o bolo de notas.
Tive a impressão que neste meio-tempo algum tipo de
cerimonia fora feito, mas não tenho como afirmar
categoricamente. Ele olhou para mim e minha esposa, agora
com cara de satisfação e explicou que não se pega dinheiro das
mãos de outros à noite. Nós nos entreolhamos e apenas
balançamos a cabeça. Parecia aquelas cenas em que duas
civilizações se encontram pela primeira vez, quando tentam se
comunicar e cada um dos lados fica tentando adivinhar o que
o outro está fazendo, qual o motivo dos rituais e palavras. Ao
sair, ele pediu para abrirmos a porta, mas esta já sabíamos,
pois se a visita abre a porta, ela nunca mais volta!
Outro costume russo é nunca assobiar em ambientes
fechados, como lojas, casas, e etc. Isto é muito mal visto, e deve
ser evitado a qualquer custo (quantos problemas tivemos com
brasileiros que nos visitavam, pois brasileiro adora assobiar,
seja para chamar alguém, seja para cantarolar!). Segundo os
russos, isto faz com que o dinheiro vá embora. Mas isto tem
uma explicação histórica, pois quando a Rússia foi dominada
pelos mongóis (entre séculos XIII-XV), como os opressores não
falavam a língua local, entravam nas casas assobiando para
indicar que estavam confiscando algo ou cobrando impostos.
Algumas vezes apareciam reportagens na TV sobre o
sistema de moradia, que é um problema no país. No meio da
reportagem, às vezes apareciam casais entrando num
apartamento que estavam para alugar ou comprar, carregando
um gato. Antes de entrarem no local, o casal colocava o gato
no chão e seguiam os seus passos. Isto parecia um ritual e
posteriormente descobrimos que dependendo do local que o
gato for ou permanecer, serve de presságio para o casal em
relação ao negócio de compra ou aluguel do local. E isto
parece ser um caso muito sério!
Os russos parecem rir de outra instituição nacional,
mas ao mesmo tempo sempre parecem ter muito cuidado com
a questão da “gadanie” (adivinhação). Fazem-se adivinhações
com tudo, mas a mais popular é a do café. Eles despejam água
quente no copo e depois o pó de café. Quando terminam de
tomar o café, ficam os resíduos (borra) de café no fundo da
xícara, então algum(a) iniciado(a) na “arte” pega-a e inicia o
processo de interpretação dos formatos do pó no fundo. inda
existe o processo de adivinhação pela vela, que consiste em
deixar pingar gotas de cera derretida das velas em uma bacia
ou copo. Ao se passar pelos pontos de ônibus ou bonde, é
possível ver inúmeros anúncios de “Gadanie” pendurados nos
postes. Existem ainda as vovós (especialmente) nas pequenas
cidades e vilas que são as que sabem fazer magias, conhecem
ervas, tem “poderes”.
Em alguns lugares, o xama9nismo (crença nos espíritos
da floresta e de animais) cresceu muito, e um número cada vez
maior de russos segue este tipo de crença, especialmente na
Sibéria. Esta tradição xamã vem perdurando por milênios, pois
já antes da chegada do Cristianismo no século X, a prática era
difundida por todas as regiões. O paganismo ainda encontra
muitos adeptos entre os russos, que ultimamente tem sido
alavancado por uma busca pela identidade étnica, tanto dos
siberianos, quanto dos eslavos no oeste.
Contudo, os russos são em sua maioria cristãos
ortodoxos, e ainda que as estatísticas e estimativas sejam
conflitantes, podemos assumir que algo em torno de 60% se
considerem ao menos adeptos de alguma forma com a
ortodoxia oficial.
Outro bloco religioso significativo é o muçulmano, que
deve estar em torno de 6 a 10%. Contudo o número vem
crescendo devido a dois fatores principais: a alta taxa de
natalidade entre a população muçulmana e a entrada no país
de pessoas vindas das ex-repúblicas socialistas, especialmente
da Ásia Central, que são predominantemente islâmicas.
Algumas regiões administrativas e estados da Federação
Russa são de maioria muçulmana.Apesar de quase todas estas
regiões estarem na porção sul, no Cáucaso, existe neste caso a
República do Tartaristão, à leste de Moscou, que é um dos
principais redutos islâmicos no país.
As regiões budistas se concentram na Sibéria, perto da
China e Mongólia. Existe ainda uma república budista na
parte europeia, que é a única região budista da Europa,
chamada Kalmikya.
Não poderíamos deixar de mencionar a forte presença
judaica. Apesar de sua porcentagem ser relativamente baixa,
os judeus formam uma categoria à parte. Sua influência está
por todas as partes na cultura russa. Ao abrirmos livros de
culinária russa e da judaica, perceberemos uma similaridade
extraordinária. Muito da forma de pensar e agir dos russos
podem ser encontrados na visão de mundo dos judeus.A força
deles é demonstrada pela própria atitude de Stalin durante seu
governo. Para dar uma solução à questão de falta de terras
para os judeus, ele cria a Região Autônoma Judaica em 1934. A
solução oficial do ditador nada mais foi do que uma tentativa
de subjugar e controlar os judeus, isolando-os do resto do país,
colocando-os numa espécie de exílio, pois o local escolhido
fica do outro lado da Rússia, perto de Khabarovsk, em direção
ao Japão.
Mas gostaria de me ater mais na questão da maior
influência religiosa da Rússia, o Cristianismo.
Como dito, oficialmente foi o príncipe Vladimir que
recebeu a nova fé, impondo-a a seus súditos. O ano era 988, e
seu batismo ocorreu no rio Dnieper, na região da atual
Ucrânia. Sua conversão teve, entre outros motivos, a
necessidade de unificação do Estado de Kiev-Rus (que veio a
ser a base da posterior Rússia).
A opção pelo Cristianismo, especialmente o Ortodoxo,
se deu de forma muito inusitada, segundo a Crônica Primária
Russa. Vladimir teria mandado emissários a quatro regiões,
dominadas pelo Islamismo, Budismo, Cristianismo Católico
(Ocidental) e o Cristianismo Ortodoxo (Oriental). Seguindo
uma respaldada tradição histórica, principalmente por
questões geográficas óbvias, a aproximação com Bizâncio foi
efetivada. Ao longo da história, os bizantinos mandaram seus
missionários para o leste da Europa, com o fim de cristianizar
as tribos bárbaras lá existentes. O próprio alfabeto usado
atualmente na Rússia, Ucrânia e outros países do Leste
Europeu, chamado Alfabeto Cirílico, é baseado no alfabeto
grego, por influência de missionários gregos (Metódio e
Cirilo), que na segunda metade do século IX, teriam feito a
adaptação para as línguas eslavas (tronco linguístico mais
importante da Europa Oriental).
O vínculo com o Oriente da cristandade então era um
processo lógico. Além de abrir toda a região do Leste Europeu
para o comércio e deixar a região sob a sua proteção religiosa,
esta aproximação ideológica trouxe também como resultado as
influências culturais e artísticas do Império Bizantino (que era
o Império Romano do Oriente) e elas acabam por tomar parte
na formação posteriormente da “alma russa”.
A ortodoxia é tão forte que os russos a entrelaçam de
com suas vidas, fazendo com que para eles, ser russo é ser
ortodoxo e vice-versa.
Os russos não têm muito apresso pelo Cristianismo da
linha ocidental. O Catolicismo é visto como uma espécie de
deturpação, e sua presença em solo russo é muito mal aceita
dentro dos círculos populares. Isto se explica pelo fato de que
na época da formação do Estado e a adoção do Cristianismo, a
cristandade estava passando por problemas de entendimento
em relação a certos pontos tidos como cruciais em sua
interpretação teológica. Estas diferenças acabaram por
promover o “Grande Cisma” entre o Ocidente o Oriente em
1054. Até hoje, por exemplo, nenhum papa teve permissão
para visitar o país, apesar das tentativas do Vaticano nos
últimos tempos de uma aproximação.
Outro ponto que ainda parece ter influência dentro de
um inconsciente coletivo dos russos é a ideia de que Moscou
estaria destinada por Deus para se tornar a chamada Terceira
Roma.Ao longo dos séculos, esta teoria foi tomando forma e se
fixando dentro de círculos eclesiásticos e posteriormente
sociais.
Mas o que seria isto? Roma foi considerada como uma
espécie de centro da Cristandade desde a conversão de
Constantino (313 d.C.). Contudo, no século V Roma foi
tomada pelos bárbaros, o que ocasionou a queda final do
Império Romano do Ocidente. Mas ainda restava a parte
oriental, Constantinopla, que posteriormente veio a ser
Bizâncio. Assim sendo, esta cidade veio a se tornar a segunda
Roma, pois era um centro importante do cristianismo, e estava
nas mãos de Imperadores cristãos. O Império Romano do
Oriente (ou Império Bizantino) se mantêm por mais mil anos,
até que os turcos-otomanos a tomam em 1453, fazendo com
que a capital do Cristianismo passasse definitivamente para as
mãos dos muçulmanos. A queda da segunda Roma traz um
vácuo de liderança dentro do Cristianismo, e a única grande
capital cristã na Europa se torna Moscou. Nesta linha lógica,
muitos propagaram a ideia de que Moscou seria a herdeira da
tradição cristã, o que a tornava a Terceira Roma.
Toda esta história um tanto quanto truncada e
ideologizada serve para muitos, na ortodoxia, como base para
reclamar para a Ortodoxia Russa um lugar de eminência
dentro do quadro da cristandade mundial. Tal ideologia
encaixou-se de forma excepcional às necessidades de grandeza
dos czares e, posteriormente, isto fica impregnado dentro do
próprio povo, ainda que de maneira muitas vezes
subliminares.
E foi justamente a Ortodoxia Russa que serviu como
um obstáculo forte no avanço do Islã. A Rússia, juntamente
com Estados como Armênia e Geórgia (região do Cáucaso)
foram fundamentais para que a Europa não sofresse a pressão
muçulmana a partir do Leste. Especialmente a Armênia e a
Geórgia (que foram os primeiros Estados que tornaram o
Cristianismo a religião oficial, antes mesmo de Roma)
sofreram os golpes dos muçulmanos que tentavam abrir
caminho pelo Cáucaso. Por sua intensa luta pela fé, estas terras
ficaram sob o domínio cristão.
Contudo, contornando estes dois Estados cristãos, os
muçulmanos ocuparam partes do que é hoje o sul da Rússia
(Cáucaso Norte). Com o interesse russo de anexação das terras
pouco ocupadas pelos turcos ao sul (século XVIII), um
problema a mais estava se desenhando no horizonte. A religião
oficial dos russos era o Cristianismo, mas aquela região estava
no limite do mundo muçulmano. Isto fez com que as pessoas
que para lá fossem enviadas, no processo colonizador,
precisavam ter seu compromisso e sua lealdade ao Império
Russo, significando lealdade ao Cristianismo, e ninguém mais
leal ao czar e ao cristianismo que os cossacos..
Este fato explica (em grande medida) a forte presença
da Ortodoxia no sul da Rússia atualmente. Talvez mais do que
todas as outras regiões russas, a fronteira sul é bem polarizada
entre cristãos e muçulmanos. Apesar da anexação de várias
repúblicas muçulmanas na região ao Império Russo,
elementos religiosos ainda trazem a tona sentimentos de
desacordo e mútua desconfiança. Certo é que, em muitos
casos, a religião serve de desculpa para questões que não
dizem respeito diretamente ao campo da religiosidade.
Ideologias políticas e econômicas estão sempre nos bastidores,
ditando o ritmo no palco principal.
Krasnodar é uma cidade que fica dentro da região
cristã. Para o norte encontramos somente províncias e estados
cristãos. Contudo, basta atravessar o rio que fica ao lado da
cidade para se entrar em “território muçulmano”. AAdygea é
uma república oficialmente muçulmana. Se em Krasnodar
podemos encontrar basicamente apenas igrejas e templos
ortodoxos, na capital da Adygea, Maykop, a grande atração é a
mesquita azulada que se destaca na paisagem. Em Maykop a
Ortodoxia Russa está presente, mas ela divide a cena com o
Islã.
A partir do estado de Krasnodar para o leste, temos o
estado de Stavropolskiy, onde temos influência ortodoxa e
muçulmana, e a partir dali, apenas repúblicas muçulmanas,
com exceção da Ossétia do Norte, um reduto cristão no meio
de regiões predominantemente muçulmanas.
Andar por esta região é algo fascinante. Ver tantas
etnias, costumes, culturas, crenças traz à tona a diversidade
humana. Estive em alguns lugares da região como será
narrado adiante, mas para se sentir cada local é preciso
dedicar mais do que algumas horas. É preciso conversar com
as pessoas, andar nas ruas, perambular sem compromisso
pelos mercados públicos, sentir o cheiro, ouvir as conversas,
ver as nuances, tocar os produtos…
Parece-me que é na Rússia que a alma humana
apresenta-se com maior intensidade, cheia de angústias,
contradições, desejos, força e uma ânsia pela verdade. E a
religião é o catalizador de tudo isto. É assim que é a alma russa!
O INTERIOR DA RÚSSIA
Falamos anteriormente, de forma sucinta, sobre alguns
aspectos socioeconômicos do país e como isto se reflete na
vida cotidiana, especialmente nas pequenas cidades. Neste
capítulo, queremos abordar um pouco sobre o interior da
Rússia em si.
A população russa está distribuída de forma
desproporcional em seu território. Se aproximadamente ⅔ do
território fica na Ásia, o que chamamos vulgarmente no
ocidente de Sibéria, apenas ⅓ das pessoas vivem lá. A região
recebeu muitas levas de pessoas que eram deportadas pelos
regimes, tanto czarista como soviético, com a finalidade de
neutralizar qualquer oposição aos que estavam no poder.
Muitas cidades do norte siberiano foram fundadas exatamente
por este motivo. Alguns Gulags acabaram por se tornar em
centros urbanos, pois muitas das vezes os parentes
(especialmente as esposas e filhos dos prisioneiros), iam atrás
de seu ente querido.
Estive numa cidade no Norte que, apesar de não ter
sido fundada por causa do Gulag, recebeu grande impulso
populacional devido a um campo de trabalhos forçados que
acabou por se localizar por perto. Um amigo russo me contou
a história de sua família que havia passado por este processo
de deportação e uma história de amor. Seu avô foi enviado
para um Gulag soviético naquela região. A sua avó acabou
indo atrás do marido juntamente com os filhos, e se
estabeleceu lá. Quando o prisioneiro foi solto, ele não podia
voltar para casa, devido ao “passado” político, e toda a família
acabou ficando na região. E esta história se repete em muitas
outras famílias da região e por toda a Sibéria.
Mas deixaremos o norte russo por enquanto e vamos
falar um pouco sobre o sul da parte europeia onde
morávamos, e sua constituição cultural e social.
A maior cidade da região é Roston-na-Donu, sendo
seguida por Volgogrado (da qual falaremos depois) e
Krasnodar, que juntas somam 3 milhões de pessoas.
Como dissemos, Krasnodar tem algo em torno de um
milhão, e o Estado de Krasnodar, pouco mais de 5 milhões,
distribuídos por 76.000 km², menor por exemplo do que o
estado de Santa Catarina (aprox. 95.000 km²).
A região é considerada o celeiro da Rússia, devido a
sua produção agrícola e pecuária. Basta sair de Krasnodar e
logo se pode a ver os campos de plantio espalhados até perder
de vista. No verão, por exemplo, é possível andar quilômetros
pela estrada vendo os campos cobertos de amarelo dos
girassóis, os famosos “girassóis da Rússia”. Dependendo da
época que se anda pelo interior, as cores mudam, e assim os
campos se tornam monocromáticos por vastas extensões.
Ao chegar ou partir do aeroporto de Krasnodar é
possível ver os campos cultivados por toda a terra. O
aeroporto fica ao lado de um grande lago artificial construído
na época soviética. Em suas margens são visíveis grandes
extensões de plantação de arroz, facilmente perceptíveis
devido ao fato de formarem grandes quadrados no chão,
parecendo espelhos gigantes.
Outro grande destaque são as plantações de trigo, que
sustentam em grande parte o mercado russo. Toda esta
variedade e força da agricultura acabam por se refletir nas
cores quase que oficiais do estado de Krasnodar, verde e
amarelo. Estas são, a propósito, as cores do mais tradicional
time de futebol do estado, que tem em seu escudo ramos de
trigo, reforçando a vocação do estado para a agricultura.
A produção de trigo era tão forte na época dos soviets,
que o equivalente russo à nossa expressão “a preço de banana”
era “barato como pão!”.
Mesmo hoje ao passar pelas estradas ainda se podem
observar os maquinários do tempo soviético, mas que estão
cada vez mais raros, pois vem dando lugar aos investimentos
na renovação da frota de tratores e afins.
Outra atividade econômica ligada com a terra foi o
desenvolvimento da vinicultura na região. O clima propicia
esta atividade, especialmente na região costeira, que tem
condições ideais para se desenvolver. A maior fábrica russa de
produção de vinhos e vinhos espumantes (champanhes) está
localizada justamente no estado, a Abrau-Dyurso. A presença
destes espumantes era, segundo nossos anfitriões, presença
obrigatória na festa de ano novo.
Devido às condições favoráveis, a qualidade e oferta de
uva no verão eram muito boas. Os cachos surpreendiam pelo
seu tamanho e peso. Certa vez compramos um cacho que tinha
1,2 kg. Apreciávamos o verão pela fartura que proporcionava.
Aprendemos a montar um calendário informal das
épocas das frutas no período do verão! Morangos, cerejas,
framboesa, uva, melancia, e assim por diante. Todas cultivadas
em nosso estado.
Perto destes campos, sempre se pode chegar a uma vila
ou aldeia tipicamente interiorana da Rússia.
Estes lugarejos são uma volta no tempo. Ao passar por
alguns, tivemos a oportunidade de depararmos com uma
Rússia ainda vivendo não apenas na época soviética, mas em
alguns aspectos na era czarista. No interior, ao contrário das
metrópoles como Moscou e São Petersburgo, as pessoas vivem
na sua maioria em casas. As casas em geral são antigas,
algumas com estruturas realmente já bem desgastadas pelo
tempo. Outras em suas fachadas ainda ostentam ornamentos
tipicamente russos com entalhes em madeira.
Entre as casas e o mundo externo geralmente existe um
muro que é composto por placas de ferro (geralmente pintadas
de verde-escuro ou cinza!), sendo que da rua apenas pode-se
ver a parte superior da casa. Outro tipo de “muro” é
constituído de placas de ferro também, mas vazadas, o que
possibilita ver em parte o interior do terreno.
Na frente do terreno vem uma calçada pequena, às
vezes feita com asfalto, outras com tijolos. Entre a calçada e a
rua propriamente dita, em muitos lugares, existe uma faixa de
terra de uns 2 metros de largura, onde não raras vezes
observamos que os donos das casas faziam suas hortas.
Perguntei certa vez para o russo que me acompanhava, se não
existiam problemas por causa de “furtos” nestes canteiros. O
russo me explicou que a molecada fazia suas “artes” de vez
em quando, mas por se tratar de lugarejos onde todos
praticamente se conhecem, estes atos eram mínimos. Parece
que durante a época das crises econômicas da era soviética e
pós-soviética, estas hortas foram fonte de renda ou escambo.
Aliás, esta capacidade de improvisar, dar um jeitinho nas
coisas é algo típico da alma russa. Conheci um senhor que na
época da crise dos anos 90, sustentou sua família com o que
pescava no rio (e a família era grande, pois o casal tinha 9
filhos, o que na Rússia era um verdadeiro fenômeno!). Sempre
que íamos à feira permanente, ao longo do caminho
encontrávamos perfiladas vovozinhas (babushky) vendendo
seus produtos produzidos nas hortinhas de suas casas ou
dachas (casas de campo).
Outra cena típica das cidades interioranas é a de vovós
sentadas diante do portão das casas, com seus lenços na
cabeça, conversando sobre assuntos variados (em geral,
aquelas fofocas sobre o mundo da aldeia), comendo sementes
de girassol e com um copo de compota ao lado. Muitas das
babushky foram e ainda são as responsáveis pelo cuidado da
geração de netos. Os pais vão para o trabalho e as crianças
ficam em casa com as avós. Muitos russos relatam que foram
criados exclusivamente por elas. Vimos muitos casos deste
tipo na Rússia.
Quando andamos pelas ruas destes lugares menores,
vemos muitas coisas curiosas. Como disse anteriormente, a
frota veicular dos tempos soviéticos é mais presente nestes
lugares hoje em dia. Muitos daqueles carros já passaram por
muitos quilômetros de estrada, e visivelmente estão
funcionando graças à habilidade russa de dar um jeitinho em
tudo. Refaz-se uma solda aqui, tira-se uma peça de outro carro
e coloca ali, se cerra dois carros e se faz um. Criatividade para
fazer o novo, o artístico é algo típico do russo. Apenas pecam
pelo acabamento e estética, mas em geral o que fazem é
funcional. Algumas vezes vi triciclos daqueles que se vê em
filmes da Segunda Guerra Mundial, com uma cabine (tipo
anti-chuva) para uma carona ao lado. Creio que é nesta área da
vida que as improvisações na Rússia são mais visíveis. Sempre
se dá um jeito!
Mas gostaria agora de voltar um pouco para as casas
típicas do interior. Os russos tem a tradição de tirar os sapatos
ao entrar na casa. E digamos que esta tradição não pode ser
quebrada! Como explicamos anteriormente, isto se deve ao
fato de as ruas serem muito empoeiradas e/ou enlameadas.
Algumas vezes existem os chinelinhos para as visitas, outras
temos que ficar só de meias mesmo. Em geral o chão tem
algum tipo de carpete. Entrar numa casa russa é entrar num
choque de mundos. A cultura russa na verdade é uma fusão
do ocidente com o oriente. Neste sentido, podemos ver um
samovar (aparelho tradicional russo para fazer chá) e na
parede da sala um tapete pendurado, num estilo centro-
asiático (quase persa). As janelas, ainda de madeira, deixam
passar pouca luminosidade, fazendo com que o ambiente
fique ainda mais escuro. O lugar central de uma casa russa é a
cozinha. Neste ambiente seguro era que se passavam as
conversas mais confidenciais, não apenas do cotidiano do
lugar, mas conversas sobre assuntos, que nos tempos
soviéticos poderiam ser categorizadas como “subversivas”.
Era ali, nas cozinhas das casas e apartamentos, que o governo
sabia nascerem os “inimigos do povo”. Além de muitos
séculos de apresso por aquela parte da casa, era neste
ambiente íntimo que o russo se sentia dono de si, e não parte
de uma sociedade sem rosto. Muitas casas ainda tinham no
início do século XXI, os banheiros do lado de fora, no pátio,
feitos de madeira, com um buraco no chão. Indiscutivelmente,
o item banheiro na Rússia é algo que chama atenção, não
apenas nestes lugares pequenos, mas mesmo em cidades de
porte médio e grande. Para brasileiros, este pode ser um
choque cultural e visual. Para muitos que foram nos visitar, o
aspecto acabava virando tema para muitas fotos… Os
banheiros realmente são um capítulo à parte!
As casas, por serem antigas, tinham suas deficiências
em relação ao sistema de aquecimento. Algumas já eram
conectadas às TETS, que são as usinas geradoras de água
quente e para a calefação. Entretanto, outras tinham que
providenciar seus próprios meios de aquecimento. A grande
vilã neste ponto eram as janelas de madeira, que sempre
deixavam passar o frio da rua.
Indo para o centro destas localidades, impressiona que
nas praças temos a presença constante da estátua do dyadya
Lenin (Tio Lênin). Nas cidades e vilas por onde eu passei, seu
busto ou estátua de corpo inteiro apontando para o futuro
comunista eram marcas vivas de um passado ainda recente.
Lenin, ao contrário de Stalin, permanece como um dos
grandes nomes do passado soviético. As estátuas de Stalin
foram derrubadas, outras de Marx e Engels viraram peças
atiradas em depósitos, mas Lenin continuou nas praças.
Os prédios mais antigos continuam a ostentar em suas
fachadas os símbolos do socialismo soviético, que estão
entalhados na própria parede. Engraçado ver que alguns
prédios “soviéticos” viraram locais onde se instalaram
companhias capitalistas ao estilo russo.
A vida simples do interior russo é proverbial. Sua
beleza e passividade trazem aqueles ares de calma, ausente
nas grandes cidades. A vida passa num outro ritmo. As
pessoas ainda vivem em certo grau a ideologia dos mir, uma
estrutura social baseada na coletividade e interdependência.
Este sentido de vida, esta ideologia arraigada por milênios,
gera no russo um sentimento em que a vida depende do
coletivo e não do indivíduo. Creio que este pensamento ainda
está vivo, mesmo debaixo das atuais camadas egoístas geradas
pelo capitalismo descompromissado com o outro, com o
próximo.
Este tipo de necessidade russa da mir é algo que eles
deixam escapar em conversas mais profundas e filosóficas. Isto
também se aplica a uma “lei” que aprendi ser muito real no
contexto de lá. A “lei” diz: Se você conhece alguém, então você
conhece muitos alguéns. A vida na Rússia é baseada nas inter-
relações. Não importa tanto seu conhecimento, suas
habilidades ou outro fator, estar bem relacionado é que te irá
abrir as portas. Muitas das vezes, nem o dinheiro é o centro da
questão, mas a confiança. É muito difícil de explicar em
poucas palavras esta mentalidade, mas ela é um fato
consagrado. Se a amizade é algo tido em valor quase divino, a
traição é o pecado mais odioso. Quando, na época soviética, o
dinheiro era algo visto como um “mal a ser extirpado” do
mundo, e seu valor era relativo, pois ter muito era algo social e
politicamente repudiado, o que ficava era a base da mir, onde
todos eram interdependentes, e isto não estava relacionado a
valores financeiros.
E esta mentalidade interiorana, chega a cidades com a
industrialização da época stalinista e até hoje faz parte da
cosmovisão, tanto do interior quanto dos centros urbanos.
O campo reserva sempre gratas surpresas, que a vida
urbana acaba por eclipsar. Os russos ainda parecem manter
uma mentalidade interiorana que é verbalizada e acionada em
muitos aspectos da vida, no vocabulário e nas expressões.
Algo tipicamente russo é falar no “ar puro”, seja das
montanhas, seja do campo. Para quem não está acostumado,
ou no caso dos próprios russos, acostumados com esta ideia,
isto pode passar despercebido. Mas o fato é que na medicina
popular, o ar puro é um anseio expresso com frequência. Nada
mais saudável e revigorante do que “ir para a natureza (na
prirodu)! Os russos adoram pegar o seu carro, junto com outros
amigos, e sair para algum lugar fora da cidade, no campo. Lá
eles preparam uma fogueira e colocam a carne de porco
marinada para assar. Em geral, muita vodca e cerveja.
Algumas vezes aparece um violão para alegrar a roda.
Outra diversão é a caça aos cogumelos. No outono,
antes das primeiras neves, os cogumelos estão brotando pelas
florestas russas. E isto, a caça aos cogumelos, é uma arte, uma
ciência e mania nacional. É tão sério que saber diferenciar
cogumelos venenosos de não venenosos é matéria estudada
em livro de ciências na escola primária. Nomes, cores, habitats,
locais e maneiras de coleta deste alimento básico da culinária
russa são estudados por todos.
Certa vez, um grupo de amigos nos convidou para ir
numa destas caças aos cogumelos. Resolvemos participar
deste momento cultural, e nos preparamos. O dia estava
ensolarado, a temperatura amena para o outono. Saímos de
casa com aquele espírito de aventura, nem ao menos tendo
ideia de aonde íamos. Creio termos saído uns 60 quilômetros
de Krasnodar. Pegamos estradas de chão, atravessamos uma
floresta e de repente uma clareira. Marcas de fogueira
demonstravam que este local era bem requisitado pelos
habitantes dali.
Andamos um pouco para pegar lenha para a fogueira.
Enquanto isto, alguns se dividiram em grupos para ir atrás
dos cogumelos. A família brasuca se reuniu para fazer a
atividade junta. O problema é que os olhos afiados dos russos
são muito mais rápidos do que o nosso. Conseguimos achar
vários pelo caminho, mas descobrimos depois que estavam lá
por que os russos sabiam que eram venenosos e nem se
prestavam a apanhá-los. Enchemos uma sacola, mas tivemos
que jogar praticamente toda fora. Alguns cogumelos, nem os
russos sabiam se eram bons ou não, e neste caso, foram
jogados fora também.
Creio que o mais interessante é o próprio tempo que se
tem de andar no meio das árvores, vendo a natureza, e
principalmente, respirando o “ar puro da montanha”.
Voltamos quando já estava fechado o tempo. O vento
frio começou a soprar e a floresta amarelada virou num chover
de folhas que era absolutamente lindo. Chegamos perto da
fogueira e nos aquecemos um pouco, e acabamos por ficar um
tanto “defumados” também. Neste momento começa a outra
parte do cerimonial russo, quando se abrem os potes, as
panelas e se retira do carro as bebidas. Neste caso, não eram
vodca nem cerveja, mas saboreamos o típico chá preto para
aquecer um pouco mais.
Algum tempo depois, quando já estávamos defumados
o suficiente e todos satisfeitos com o lanche, decidimos voltar.
No caminho achamos uma dessas barracas de beira de estrada
que vendia cogumelos. Perguntamos para os especialistas
sobre a qualidade dos nossos cogumelos colhidos na nossa
aventura. Mais decepção, tinha um tanto ainda que não
prestava para consumo humano. Bom, ao menos participamos
de uma típica tarde de caça aos cogumelos!
Ainda podemos esboçar algumas palavras sobre outras
duas paixões russas, como a pesca e a caça.
Todo russo parece ter alguma história relacionada a
estes assuntos. A proximidade com o mar e rios que correm
das montanhas do Cáucaso proporcionam lugares ideais para
a prática da pesca. A paixão é tão grande, que mesmo no
inverno os russos são capazes de ficar horas sentados em um
banquinho em frente a um buraco feito por eles no gelo. Para
quebrar o frio, sempre está presente a companheira garrafa de
vodca.
Ainda há os fascinados pela caça. Os campos, as
florestas e montanhas atraem em todas as estações os
aventureiros, que não medem esforços na busca de animais
tanto de grande porte, quanto de caça menor. Mesmo no
inverno, homens se aventuram neste “esporte”, como dizem.
Certa vez ouvi a história de um homem (que não era caçador
amador) e sua aventura nas montanhas do Cáucaso durante
um inverno. Ele havia escorregado na neve e caído num
buraco entre as rochas. Passou a noite lá, prensado entre as
pedras, pensando que havia quebrado as pernas, e vendo a
morte se aproximando.
Por fim, num daqueles milagres divinos que às vezes
acontecem na vida, conseguiu aos poucos livrar-se das pedras
e arrastando-se com dificuldade saiu do buraco. Muito ferido
caminhou com dificuldade no escuro pelas montanhas e
encostas, tentando achar um ponto conhecido para se orientar,
mas a escuridão impedia-o de se localizar. O medo era de cair
novamente em outra armadilha escondida na neve, perder a
consciência e morrer de hipotermia, ou quem sabe ser achado
por outro animal, quando o caçador viraria a presa. Quando
estava perdendo as esperanças, avistou um pequeno ponto de
luz entre as árvores. Foi ao encontro da claridade e encontrou
outros caçadores que faziam uma fogueira na floresta. Foi
imediatamente socorrido e levado para uma unidade de
saúde. “Nasci de novo” - disse ao fim de sua história. Mas
muitos não têm a mesma sorte, acabando perdidos e por fim
morrendo nas montanhas.
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Cada estação do ano tem suas particularidades.
Descrevemos o inverno e o outono, ainda falta passar pelas
outras duas estações, primavera e verão.
A primavera é algo fascinante. Não é à toa que pelo
antigo calendário, não apenas eslavo, mas dos povos em geral
da antiguidade, o ano começava justamente com o início da
primavera, em geral no equinócio. Na Rússia, oficialmente a
estação começa em 1° de março, e descobrimos logo o motivo.
A natureza que estava toda adormecida, ou pelo menos aos
nossos olhos “morta”, a partir dos primeiros dias de março
começa voltar à vida. Até o fim de março as árvores estão
praticamente todas renovadas.
A explosão de cores se dá num período curto de tempo.
Quando se percebe o verde voltou, as flores se abriram, os
pássaros se desentocaram ou chegaram de outras regiões mais
quentes do planeta e a vida renasceu.
Abril é o mês das tulipas. Lindas! As cidades se
enchem de canteiros com flores. No centro de Krasnodar e de
outras cidades e vilas do estado, as praças centrais se
transformam. Muitas babushky vêm do interior ou mesmo dos
bairros da cidade para vender tulipas e mudas no mercado
informal de rua. Elas geralmente têm nos jardim de suas casas
várias dessas belezas da natureza plantadas.
Mas a festa das tulipas dura poucas semanas. Em maio,
chegam as papoulas. O vermelho forte se destaca,
especialmente nos campos, ou na beira das estradas. Aliás, é
muito comum acharmos pão recheado com semente de
papoulas para vender nesta época.
Mas não somente de flores é feita a primavera. A volta
do canto dos pássaros é algo que igualmente renova a vida,
inclusive faz renascer dentro das pessoas a luz apagada
durante o longo inverno. Algumas vezes lembro-me de ter
ficado parado, na rua ou mesmo na janela do apartamento
escutando o canto.
Quando se está no interior, estas sensações são mais
vivas. É lá que o verde parece mais verde, que o canto parece
mais divino. Passear pela estrada olhando o campo coberto de
flores é algo que mexe até mesmo com a alma do mais
descrente. No Brasil praticamente não temos a noção do que
significa a mudança das estações. Mesmo no sul, de onde
somos, não se percebe tão nitidamente estas mudanças. E cada
dia precisa sempre ser bem aproveitado na Rússia, pois um
dia nunca irá ser igual ao outro. A dinâmica da vida é muito
intensa.
O Verão traz consigo toda a força do sol. Já
descrevemos anteriormente um pouco da estação mais quente
do ano na cidade de Krasnodar, quando falamos de nossa
chegada à Rússia.
Agora gostaria de detalhar, de um modo geral, um
pouco sobre como ela é usufruída no estado. Na Rússia, falar
em verão é sinônimo de Krasnodar, o estado. Esta é a região
mais quente do país e que está banhada pelo Mar Negro e o
Mar de Azov. Um dos motivos para a conquista destas terras
pelo Império Russo era a necessidade de se ter um porto que
estivesse livre do gelo no inverno. Os mares do norte
passavam boa parte do ano sem navegabilidade devido ao
gelo, mas o Mar Negro sempre está aberto, livre. Além disto,
ele se conecta com o Mar Mediterrâneo através do Estreito de
Bósforo e Dardanelos.
Durante a época da URSS, quando a Ucrânia fazia
parte das 15 repúblicas, toda a costa norte e leste do Mar
Negro virou a região balneária dos soviéticos. Para lá afluíam
no verão as massas da população do país. Tanto no lado
ucraniano, quanto no russo foram construídos inúmeros
hotéis, balneários inteiros, quiosques, sanatórios, centros de
saúde, acampamentos, bases de descanso para trabalhadores e
muitas associações.
Com o fim da URSS, a Ucrânia ficou com a Crimeia,
parte que pertencia originalmente à Rússia e doada aos
ucranianos na década de 60 (pois segundo o argumento usado
na época, todos os povos eram um só, soviético). E a Crimeia
sempre foi o território mais visado nos verões.
Para a Rússia, restou a região de Krasnodar. Contudo a
infraestrutura do local, como em todo o país, estava muito
comprometida, e muitos hotéis, sanatórios, acampamentos e
etc., estavam sucateados. Muitos acampamentos e colônias de
férias que pertenciam ao governo trocaram de mãos
rapidamente, nem sempre caindo nas mãos de
administradores habilidosos ou preocupados com a
manutenção de locais de lazer para o público em geral. Os
anos 90 também tiveram sua influência sobre o lazer dos
russos.
Na região existem praias de areia e de pedras. As mais
famosas são: Anapa, que tem uma orla de areia, e Sochi, que é
de pedras. Novorrossisk, cidade portuária, o terceiro maior
porto da Rússia, também tem algumas praias, mas de pedra.
Praia de pedra é algo realmente estranho para brasileiros, sem
mencionar a falta das ondas! Lá quando o vento não sopra, o
mar parece um lago, um espelho d'água. As pedras são
relativamente grandes, mais ou menos do tamanho de uma
batata pequena. Em alguns lugares a “areia” é preta, já que o
mar vem fazendo seu trabalho com as pedras ao longo dos
milênios.
Os complexos de descanso são uma questão à parte.
Certa vez, uma organização formada basicamente de
estrangeiros, nos convidou para participar de uma espécie de
congresso. Ficamos sabendo que, depois de várias tentativas
da liderança desta entidade, acharam apenas um hotel, em
toda a região, que aceitava estrangeiros! As outras não tinham
conhecimento ou interesse em abrir suas portas para não-
russos. Em parte, creio que isto está relacionado ao profundo
sistema burocrático que é o registro de estrangeiros na Rússia,
outra parte pode ser por que eles tinham receio de ter
problemas com polícia ou administração local. Parecia que
todo estrangeiro era um alienígena que devia ser evitado, ou
um terrorista, ou ainda um espião. Heranças dos velhos
tempos…
No verão os russos lotam aviões que voam diariamente
dos mais remotos cantos do país diretamente para a costa do
Mar Negro. Eles chegam sempre em julho, lotando as cidades,
trazendo a estação alta para todos locais. Ao longo da estrada,
chegando-se perto das cidades e aldeias, placas anunciam
casas e quartos para alugar. Nas ruas, os vendedores de
bugigangas se acumulam. Muitos bares ficam abertos a noite
toda e várias festas acontecem pela cidade.
Nestes dias de alta temporada, russos de todas as
regiões do país se expõem ao sol sulista. Desde aposentados
até crianças. As escolas do governo chegam a organizar
acampamentos nestas praias, levando por algumas semanas as
crianças, ficando elas longe dos pais que ficam trabalhando na
cidade. Verdadeiras caravanas de aposentados enchem as
estações férreas, os aeroportos e estradas.
Excursões cruzam as estradas do estado em direção ao
litoral. Muitos acidentes e mortes devidos a questões
envolvendo imprudência, má conservação dos veículos e
ônibus e, especialmente álcool. As linhas de trens sempre estão
lotados, vindo especialmente de Moscou, que acaba sendo a
cidade catalizadora de toda a Rússia.
Quando os turistas vão embora para suas regiões, já no
fim de julho, começa o movimento dos krasnodarienses para a
praia. Agosto é o tempo dos habitantes locais aproveitarem as
praias. Isto coincide com a época mais quente no estado,
quando mesmo à noite temos 30-32° C.
Mas se as pessoas não tiverem a fim de um banho no
mar, sempre existe a possibilidade das montanhas do pré-
Caucaso que “ficam” perto, cerca de uns 100-120 quilômetros
para o sul. A atração nestas montanhas sempre é o famoso “ar
puro”.
Outra opção é uma esticada até a cidade de
GoryatchyKlyutch (Fonte Quente, em português). Uma cidade
pequena, mas muito interessante. Bem arrumada e com o
famoso “ar puro”, pois fica aos pés das montanhas. Seu nome
se deve às fontes de água mineral que jorram de seu solo, que
segundo as muitas recomendações dos russos, é “muito boa
para a saúde”. Aliás, para todo o organismo. Provei a tal água
miraculosa, e realmente é boa.
O interior da Rússia tem muitas belezas escondidas.
Cada região apresenta uma característica muito especial.
Veremos em outros capítulos alguns destes locais.
O que tenho certeza é que o interior certamente ainda
tem muito a colaborar com a alma russa e o desenvolvimento
desta nação.
DOLMENS E KURGANS
Quando falamos de História da humanidade,
especialmente das primeiras grandes civilizações, logo vem à
mente o Egito e a Mesopotâmia.
Se formos para as páginas da Bíblia, veremos que,
segundo os registros do Gênesis, o primeiro casal viveu em
algum lugar da Mesopotâmia, conhecido como Éden. E,
segundo a tradição do Antigo Testamento, Noé, habitante da
Mesopotâmia, junto com sua família, após o dilúvio, teria
aportado com a arca numa das montanhas do Ararate. Estas
montanhas atualmente se localizam na fronteira da Armênia e
Turquia.
Não muito longe dali, em direção ao norte
encontramos a cadeia de montanhas do Cáucaso, que desde a
Antiguidade fazia a divisa entre Europa e Ásia.
O Cáucaso ficava localizado no limiar do mundo
Antigo. Apesar das grandes civilizações terem florescido ao
sul daquela cadeia de montanhas, a existência de humanos ao
norte, desde muitos milênios, é comprovada, especialmente
pela arqueologia. Segundo arqueólogos, em algumas cavernas
no estado de Krasnodar foram encontrados instrumentos da
época da idade da pedra, o que demonstraria a estadia de
homens nesta região desde tempos remotos. Encontram-se
igualmente assentamentos da época do mesolítico e neolítico.
No início da Idade do Bronze, surgiu a denominada
“cultura de Maikop”, nome advindo da região onde a cultura
material foi localizada. Na idade do Bronze I, isto é, no
período de 3300-2700 a.C., no atual território das estepes de
Krasnodar, tribos da cultura Novotitorovskoy se
desenvolveram em comunidades. Mais tarde, apareceram
outras tribos nas estepes, que foram chamadas de “cultura das
Catacumbas”. A partir da Idade do Bronze Médio, as estepes
foram ocupadas por tribos da assim conhecida “cultura norte-
caucasiana”, e nas regiões das montanhas aparecia a “cultura
dólmen”.
As tribos que teriam alcançado o norte do Cáucaso
tiveram um amplo espaço diante de si, pois as planícies se
estendiam por toda a região que conhecemos hoje como
Europa Oriental. Todas estas culturas deixaram um rastro
muito fraco, e hoje ainda temos dificuldades para identificar e
datar os primeiros restos materiais delas.
Uma das dificuldades é, por exemplo, o estudo dos
dolmens. Apesar destas construções não serem unicamente
características do Cáucaso Norte, a concentração aqui
encontrada acaba por surpreender os especialistas. Estima-se
que o número chegue a 3.000 dolmens espalhados pelo
noroeste do Cáucaso, onde fica o estado de Krasnodar.
“O que são dolmens?”, estaria se perguntando nosso
caro leitor. Em primeiro lugar, o nome deriva do Bretão dol =
mesa, e men = pedra, ou seja “mesa de pedra”. Eles são
encontrados por toda a Europa espalhando-se pelo norte da
África, passando pela Pérsia, Índia e chegando até a península
coreana.
Basicamente, o dolmen é uma construção megalítica,
ou seja, feita de enormes pedras. Os dolmens são construídos
com estas pedras colocadas na vertical, as quais sustentam,
por sua vez, uma grande laje horizontal que fica por cima (a
tampa da mesa). No caso específico do Cáucaso, as pedras
verticais são bem encaixadas, não deixando frestas entre si,
dando um aspecto de uma “casa”. Na parte da frente temos
um orifício arredondado que serviria como entrada e uma
“rolha” de pedra ficava ali para “trancar” a porta.
Atualmente não se sabe qual a função primária destas
construções megalíticas. Muitas tentativas já foram feitas para
desvendar o mistério, contudo, uma resposta final ainda não
foi encontrada. As hipóteses variam deste um lugar para
sepultamento até o de portais entre mundos. Nenhuma
inscrição pictográfica ou alfabética relevante foi encontrada
nestes monumentos. Mas alguns desenhos estão entalhados
nas paredes dos dolmens do Cáucaso. Mais especificamente,
nota-se formas em ziguezague que lembram antigas
representações para água.
Não temos como datar com precisão a idade das
estruturas devido ao fato de não podermos cruzar dados com
outras civilizações, e isto faz com que as datações sejam muito
abrangentes. A hipótese mais aceita é que estamos diante de
construções que começaram a ser construídas por volta do III
milênio a.C, mas esta estimativa pode chegar ao V milênio a.C.
Se não sabemos ao certo quando e porque da
construção destas estruturas, menos ainda temos
conhecimento dos seus autores. Neste caso existem os mais
diversos candidatos sugeridos, sem que, no entanto, se possa
chegar a uma conclusão.
A existência destes locais parece estar relacionada a
algum tipo de culto, pois sempre estão perto de fluxos de água
(rio ou mar) e voltados com sua “porta” para esta direção.
Existem dolmens isolados no meio das montanhas e outros
que parecem fazer parte de um complexo maior, que,
entretanto, podem ser construções posteriores. Alguns foram
usados como sepulturas, pois foram encontrados esqueletos
humanos em seu interior, porém de novo, os restos humanos
são de data muito posterior, como por volta da Idade Média.
Existe um número significativo de pessoas que vão até
estes lugares, muitas das vezes escondidos dentro das
florestas, e em lugares de difícil acesso. Estudiosos, curiosos,
exotéricos, depredadores, ou seja, uma gama muito
abrangente de pessoas busca o contato com estas construções
megalíticas.
O fato é que a presença destas construções demonstra a
presença humana organizada numa forma social naquela
região há pelo menos 5-6 mil anos e, segundo a tradicional
datação histórica, foi por esta mesma época que as civilizações
da Mesopotâmia e do Egito estavam surgindo.
Os dolmens na região de Krasnodar estão espalhados
por todo o território, alcançando os estados vizinhos, e mesmo
as regiões do lado sul da fronteira entre Krasnodar (Rússia) e a
Abkhazia (Geórgia). Os mais conhecidos estão na região
litorânea, nas montanhas que ficam perto do Mar Negro.
E não apenas os dolmens dão testemunha do contato
da região do atual estado de Krasnodar com outras regiões na
Europa e mesmo ao sul, em direção ao Crescente Fértil. Outra
formação artificial feita na paisagem feita por mãos humanas
são os kurgans.
Entre a Idade do Bronze tardio e início da Idade do
Ferro, uma nova cultura, aparece na região, conhecida como
proto-meota. Até este estágio, não temos registro escrito dos
habitantes da região, apenas testemunho arqueológico
(material, como sepulturas, machados, cerâmica, objetos de
ouro, prata e bronze, etc.).
A mudança neste quadro veio com a chegada e o
contato com povos que possuíam uma forma de escrita, como
os assírios e posteriormente os gregos.
A partir deste tempo começamos a receber algumas
informações testemunhais sobre a vida nesta vasta extensão
territorial que abrangia o norte do Cáucaso e as estepes russas.
O grande deslocamento de povos pouco conhecido do
público em geral, mas de grande importância nas relações da
época, fazem parte de importantes páginas da História
Universal.
Ficamos sabendo por Strabão, escritor grego, que um
povo conhecido como os cimérios habitavam as estepes da
atual Ucrânia e parte de Krasnodar. Eles são relacionados a
incursões militares em regiões da Ásia Menor (Turquia) e,
pensam alguns estudiosos, que tiveram parte ativa na famosa
Guerra de Tróia (séc. XIII a.C.). O estilo de ornamentos e modo
de vida chegou a levar muitos pesquisadores a ventilar uma
possível ligação entre os cimérios e os celtas na Europa
Ocidental. Ainda se conjectura que o rompimento dos celtas
no horizonte da História teria ocorrido em locais e datas muito
próximas a uma dispersão ciméria, que teria partido
justamente do norte do Mar Negro.
Outro povo que passou pela região de Krasnodar
foram os citas.A cultura cita na verdade é o conjunto de vários
povos que se estendem desde a atual Hungria até lugares tão
remotos como o lago Baikal que fica no meio da Sibéria. A
cultura voltada basicamente para o estilo nômade, o estilo de
ornamentos e a habilidade no manuseio de ouro e prata, são as
principais características desta cultura.
Mas a força destes povos, que estão sob este guarda-
chuva de nome cita, será mostrada nos séculos VIII-VI a.C.
com o avanço de tribos que começa lá na região do lago Baikal
e que, num efeito dominó, aparecerá numa espécie de
tsunami, arrojando-se sobre os cimérios e gerando um
verdadeiro esparramar de povos pelo leste europeu atingindo
o mundo civilizado da época nas regiões do Oriente Próximo
(Turquia), Oriente Médio e chegando no Egito.
Os citas ainda irão desempenhar papel fundamental no
equilíbrio de forças no palco central das atividades bélicas do
Oriente Médio por volta do séc. VIII-VII a.C.. A inserção de
novas técnicas de guerra, aliado a uma eficaz e insuperável
cavalaria, trariam fama aos citas por todo o Mundo Antigo.
O contato dos citas com regiões tão afastadas como
China, Egito e Assíria, resultou em ricas sepulturas descoberta
por arqueólogos na região do estado de Krasnodar. As
campanhas militares (ou pilhagens, dependendo do ponto de
vista), deste povo trouxeram belíssimos objetos das regiões
conquistadas. Encontramos, por exemplo, espadas com
ornamentos no estilo assírio, o que mostra a penetração dos
citas de Krasnodar até regiões do atual Iraque e Irã.
As sepulturas que se encontram por toda a região de
Krasnodar (que são também encontradas na vizinha Ucrânia e
se estendem por todo o sul da Rússia), levam o nome de
kurgan, palavra turca que significa fortaleza. Nelas estão
contidas culturas de várias épocas, pois são uma forma bem
difundida de sepultamento da região das estepes (não
somente ali, mas não entraremos em muitos detalhes que irão
confundir o leitor).
Andando pelas estradas do interior de Krasnodar, os
kurgans são facilmente identificados na paisagem. Eles são na
verdade uma elevação feita de terra ou pedras que se
destacam no meio da planície. Alguns kurgans foram
escavados, mas a grande maioria fica mesmo despercebida na
vastidão. Algumas destas sepulturas se revelaram verdadeiras
tumbas faraônicas, contendo um verdadeiro tesouro em peças
de ouro, prata e outros metais.
Muitas das vezes, o morto era enterrado junto com seus
pertences, e por causa disto temos uma noção de quem
poderia ter sido esta pessoa dentro da estrutura social da
época. Em um determinado kurgan, foram achados 70 cavalos
juntamente com seus cavaleiros, que serviriam para guardar o
príncipe (vojd, em russo) na vida após a morte.
Um belo exemplo destas descobertas foi um kurgan
achado em Elizavetinskaya, aldeia vizinha de Krasnodar. O
lugar era um povoado fortificado dos meotas, povo local. Lá
foram achados os restos de uma antiga fortificação. Sua
datação está fixada nos séculos IV - I a.C. A área total do
povoado ultrapassa os 100 mil m². Ele foi constituído em um
terraço elevado acima da margem direita da várzea do rio
Kuban, cerca de 18quilômetros a oeste de Krasnodar. Os restos
de fossos e muralhas que protegiam a fortificação foram
escavados pelos arqueólogos, o que demonstrava a
importância do local, pois poucas cidades tinham um sistema
de defesa.
Na cidadela foram desenterrados fornos abertos,
cerâmica, restos de habitações, edifícios de tijolos de barro,
além de grãos carbonizados de trigo e milho, foices de ferro,
ossos de animais domésticos e peixes. Estes são indícios de
que a agricultura, pecuária e pesca foram parte substancial das
ocupações diárias dos habitantes da localidade. Um grande
número de achados de objetos antigos, como por exemplo,
azulejos, fragmentos de ânforas e pratos, assim como moedas,
produtos importados, demonstram que havia laços estreitos
com lugares muito mais distantes.
Esta riqueza acaba se traduzindo num riquíssimo
tesouro descoberto nas sepulturas (kurgans). Perto da
fortificação foram encontrados alguns kurgans feitos de terra,
e neles havia uma considerável quantidade de material,
especialmente de ouro. O que chama a atenção neste lugar
ainda é o sepultamento de cavalos na mesma câmara funerária
de um homem,que se pensa tratar de um chefe ou mesmo de
alguém ligado à aristocracia do povoado. Ainda temos
esqueletos que levam junto de si suas espadas, indicando que
soldados da guarda pessoal foram com seu senhor para o
mundo dos mortos a fim de servi-lo também no mundo do
além.
O vínculo com os cavalos, por sinal, é historicamente
muito forte nas estepes do sul da Rússia e na Ucrânia.
Pesquisadores acreditam que foi exatamente nesta região que
o homem teria domesticado pela primeira vez o animal, por
volta do IV milênio a.C. Foi desta região que o cavalo teria se
espalhado pelo mundo antigo como uma arma de guerra. Os
cavaleiros mais famosos do mundo antigo, os citas, são
herdeiros desta tradição local, e no rastro desses, vieram os
alanos, hunos, mongóis e outros.
Por isto, explicam os especialistas, temos uma relação
tão forte entre homens e seus cavalos, ao ponto do animal ter
que acompanhar seu dono até mesmo na morte. Dizia-se que
um cita tinha em seu cavalo a sua casa! E esta relação existe até
hoje no interior da região
Mas tantos tesouros nos kurgans não passaram
despercebidos dos olhos gananciosos de assaltantes de
túmulos. Muitos foram profanados ao longo dos tempos.
Quando o governo czarista tomou conhecimento das riquezas
que poderia haver nestes lugares, mobilizou-se para proteger
os principais locais de sepultamento. Resumindo, muito do
material retirado está hoje em exposição nos museus de
Moscou e São Petersburgo. Tive a felicidade de ver alguns
destes artefatos no Museu Histórico de Moscou, que fica na
Praça Vermelha. Impressiona a perfeição, delicadeza e a
maestria com que foram confeccionados. Os citas, em especial,
eram famosos ourives, sendo requisitados para produzirem
ornamentos para a elite de Atenas e outras cidades gregas.
E de fato quem mais se impressionava com esta arte
dos habitantes das estepes da Ucrânia e da Rússia eram os
gregos. Já na primeira metade do I milênio a.C., na costa do
Mar Negro, foram fundadas várias colônias gregas.
A principal atividade destas colônias helênicas era
fortalecer o comércio com as tribos do desconhecido mundo
das estepes. O comércio se intensificou de tal maneira que a
região entra para as páginas da História. Guardada as devidas
proporções históricas, a chegada dos gregos pode ser
comparada com a importância da descoberta das Américas por
espanhóis e portugueses. O fascínio grego pela arte é que
acaba levando-os a “exportar” citas para Atenas e outras
cidades. Além de artistas, os citas se mostravam ótimos
soldados e guardas. A polícia de Atenas e a guarda do rei eram
formadas em certa época justamente pelos bárbaros citas.
Muitos exércitos da Antiguidade, como o egípcio, assírio,
babilônio, persa, grego e romano contavam com mercenários
citas em suas fileiras. Em alguns casos, como no séc. VII a.C.,
uma aliança cita com os assírios salvou o todo poderoso
Império Assírio da destruição. Nínive, a capital estava por cair
nas mãos de outra aliança anti-assíria, quando um exército de
citas repentinamente se lança na batalha, vindos das
montanhas do Cáucaso. A força e o número das hordas
surpreenderam a todos. Parte deste contingente foi
arrebanhada nas estepes do norte do Cáucaso, ou seja,
Krasnodar. A partir daquele episódio, os citas irão dominar
toda a Média (atual norte do Irã), todo o sul do Cáucaso
(Armênia, Geórgia e Azerbaidjão), e estender suas pilhagens,
domínios e zona de influência até a costa do Mar Ageu (oeste
da Turquia). Heródoto, por sua vez, registra a chegada dos
citas até as portas do Egito, quando o faraó sai ao encontro das
hordas invasoras, comprando-os com altas quantias de ouro e
materiais preciosos. É possível até que estas tropas tenham
exercido algum tipo de influência no imaginário de alguns
profetas bíblicos como Sofonias, Jeremias e Ezequiel,
contemporâneos dos fatos acima relatados.
Mas da região do atual estado de Krasnodar os gregos
também importavam vários produtos, e dizia-se que o pão que
se comia em Atenas tinha origem no trigo trazido da região do
atual estado de Krasnodar e Crimeia (Ucrânia).
A fertilidade do solo negro do sul da Rússia e o clima
apropriado para a agricultura e pecuária sempre atraíram
inúmeros povos. Além dos gregos e dos habitantes locais, lá
estiveram presentes também vikings, italianos (genoveses),
turcos e ainda comerciantes de vários lugares, especialmente
da bacia do Mar Mediterrâneo.
Em 2008, na cidade de Anapa, pude visitar o museu à
céu aberto da cidade. No local havia uma aldeia do povo
Sinda, que com a chegada dos gregos veio a se tornar uma
cidade e importante local de comércio fazendo a ponte entre as
estepes russas e o mundo helênico. Neste local, atualmente, se
podem observar as ruínas e os fundamentos da cidade grega,
conhecida na época como a colônia de Gorgippia, que já no
século VI a.C. contava com um porto muito movimentado.
O museu conta com um pequeno prédio onde estão
expostas várias peças do tempo grego, como ânforas, vasos,
moedas e armas. No lado de fora do prédio, num canto do
terreno, se pode ver enormes lajes de pedra e mármore. São
estátuas no estilo grego, túmulos e altares. Algumas destas
peças trazem inscrições gregas, danificadas pelo tempo e em
alguns casos faltando parte da inscrição original.
Aliás, estar nesta região, Krasnodar, é voltar no tempo.
Parar na beira do Mar Negro e imaginar o comércio intenso
naquelas praias, navios chegando de Grécia, Roma, e quem
sabe mais de onde; ver os locais por onde passaram
conquistadores e guerreiros foram sepultados com seus
tesouros e preciosidades (mulheres, soldados, cavalos); ver
construções megalíticas de pedras que foram contemporâneas
das pirâmides do Egito e de Stonehenge; saber que por ali
passaram povos que formaram a história da humanidade;
tudo isto acaba enriquecendo uma pessoa. E ainda que esta
região ficasse na “periferia” dos acontecimentos da História
oficial, fatos que ocorreram por lá tiveram impacto direto
sobre o cenário e o palco principal. Isto é uma experiência que
não pode ser descrita.
Enquanto os gregos se ocupavam com o litoral, pouco
se aventurando para as terras selvagens do interior de
Krasnodar, a ida e vinda de povos não parava. Além de toda
uma constelação de etnias, ainda haveria espaço para povos
como os alanos, que espalhariam o pânico por uma extensão
tão ampla que iam do Cáucaso até a Palestina no século I d.C.
Alguns pais da cristandade chegaram a confundir a chegada
destes bárbaros do norte como um presságio do fim dos
tempos, no cumprimento de profecias bíblicas.
Mas nenhum outro povo provocaria tanta inquietação
no mundo, e em especial aos romanos, quanto os hunos. Em
sua aventura em direção ao oeste, esses acabam cruzando as
estepes russas e chegando ao território de Krasnodar. Ali
fizeram saques e espalharam destruição. Os povos em fuga
acabam entrando no território dos vizinhos godos (Ucrânia),
que ao perceberem o que estava por vir, começam a se
deslocar para oeste. Resumindo, a Europa é invadida por
ondas de povos em fuga, aumentando a pressão nas fronteiras
do Império Romano. Com o tempo, os hunos chegam à cidade
de Roma, e chefiados por Átila, são responsáveis pela
desestabilização do Império. Os godos, deslocados pelos
hunos, posteriormente serão conhecidos como um dos povos
bárbaros responsáveis pela queda final do Império Romano.
A região de Krasnodar, e todo o norte do Cáucaso,
sempre foi lugar de passagem destas tribos que vinham do
leste, das profundezas da Sibéria. Por lá passavam, deixavam
suas influências em todas as áreas da vida humana, e assim
como apareciam no horizonte, também desapareciam após
algum tempo. Mas sua influência acabava por permanecer,
ainda que dissolvida em meio às camadas culturais e étnicas já
ali depositadas ao longo dos milênios. E isto também irá
contribuir na formação da alma russa.
RUSSOS OU COSSACOS: O SUL DA
RÚSSIA
As estepes do sul da Rússia sempre foram habitadas
por inúmeras tribos e povos. O clima favorável e o solo fértil
fizeram deste lugar um local de cobiça para muitos ao longo
dos milênios. A Crimeia, península hoje situada no lado
ucraniano e que faz ”fronteira” com o estado de Krasnodar
através do istmo de Kertch, chegou a ser colônia grega e
posteriormente romana (já na era cristã).
Entre estes povos, citamos no capítulo anterior os
cimérios, citas, alanos, hunos, godos. Mas a esta lista pode ser
acrescentados ainda os khazares, búlgaros, mongóis entre
tantos outros, na Idade Média. Cada um destes povos formou
um Estado independente ao longo do I milênio e início do II
milênio d.C. Como vimos, todas estas mudanças colaboraram
com a formação da cultura da região. A chegada de novas
ondas migratórias do leste acarreta em interferências e muitas
vezes mudança substancial na economia, na política, nas
relações internacionais, e especialmente na cultura e
composição étnica do povo.
O Cáucaso e as estepes adjacentes são uma explosão de
povos e culturas. Apenas no lado russo do Cáucaso, são
contabilizadas mais de 70 etnias completamente distintas
umas das outras. Andar pelas regiões do Cáucaso norte é
atravessar fronteiras de nacionalidades. Não é à toa que esta
região é tão conturbada ainda nos dias atuais. Ao olharmos
um mapa mais detalhadamente perceberemos recortes nas
terras, pequenas repúblicas que fazem parte da Federação
Russa, e que demonstram o caldeirão que é a região.
Em tempos passados, quando ainda não estava sob o
domínio russo, a localidade viu nascer na Idade Média alguns
reinos, como o reino dos khazares, búlgaros, mongóis, turcos e
por fim, russos.
A Idade Média trouxe estas unificações territoriais em
forma de Estados organizados, que tentavam lidar com o
maior fator de complicação da região, a diversidade étnica,
cultural e religiosa.
O reino Khazar (séc. VII -X) foi a reunião de vários
povos locais debaixo de um único Estado. As extensões
territoriais passavam por todo o sul da atual Rússia, incluindo
a região onde morávamos. Muitas tribos eslavas em sua
periferia eram tributárias dos khazares, e a localização em uma
rota de comércio entre oriente e ocidente, fez com que este
Estado tivesse grande projeção no mundo que o cercava. A
mais importante diferença deste reino foi o fato de sua
aristocracia adotar o judaísmo como religião oficial, fazendo
deste local o primeiro Estado (fora Israel, obviamente) a adotar
esta religião oficialmente.
A presença de elementos judeus e de sua religião não
parecem ter começado por estes tempos da Khazaria, mas já
eram elementos bem difundidos entre a população de uma
forma ampla. Temos, por exemplo, a presença de ruínas de
sinagogas encontradas na costa do Mar Negro, datando de,
possivelmente, antes da Era Cristã. Hábitos característicos,
como a proibição do consumo de carne porco, eram
observados de longa data nestas regiões perto do Cáucaso
Norte. Existe uma etnia no Daguestão, uma república que faz
parte da Federação Russa, que são conhecidos como tats, os
judeus das montanhas. Elementos judeus se mesclaram de tal
forma em várias regiões da Rússia, que muito da cultura russa
pode ser explicada ou entendida tendo os judeus como base.
Os núcleos judeus foram difundidos por muitas localidades no
Leste Europeu (Bielo-Rússia, Ucrânia, Polônia), atingindo
posteriormente Europa Central (República Tcheca,Alemanha).
A ligação do sul do Cáucaso com os elementos da cultura dos
judeus é ainda mais forte. Possivelmente esta influência foi a
causa do rápido aceitamento do cristianismo na Geórgia e
Armênia. Aliás, a Armênia foi o primeiro Estado a tornar o
cristianismo a religião oficial, uma década antes do famoso ato
de Constantino, em Roma.
Após lutas por território no século X, os russos-
kievanos, cuja capital era Kiev, atual Ucrânia, dissolvem a
Khazaria e tomam todo o território do Norte do Cáucaso.
Elementos eslavos são introduzidos na cultura local, somando-
se às várias camadas ali já existentes.
Mas, um século depois, são os bizantinos que
introduzem seu domínio, agora trazendo consigo um
elemento novo, o cristianismo. Apesar de estar em uma região
fronteiriça com o cristianismo ao sul (Armênia e Geórgia), o
norte do Cáucaso não o conheceu oficialmente até esta época.
O islamismo havia sido barrado por estes países e por isto
uma religião não conseguiu se fixar até esta época bizantina.
Mesmo o judaísmo khazar havia conquistado apenas as classes
mais altas aristocratas, mas o povo em geral vivia práticas
puramente animistas.
Mas a História local ainda assistiria em pouco tempo
uma reviravolta. No século XIII, as hordas de Gengis-khan
chegam ao Cáucaso. Mais uma vez elementos asiáticos dos
novos donos se fundem com a cultura local. Na verdade, toda
a Rússia é a fusão do oriente com o ocidente, e a região de
Krasnodar é talvez a que mais sentiu estes choques de
culturas.
Bem, ainda não era o fim. Os próximos a chegarem
foram os turcos, no século XV. Estes incorporarão elementos
da cultura e língua na região
Mas ao norte, o Império Russo dava sinais que
pretendia anexar a região, foi o início dos conflitos que ficaram
conhecidos como as Guerras russo-turcas. Foi neste ensejo que
Catarina II manda construir uma fortaleza na fronteira dos
territórios pretendidos pelos russos, que viria a se tornar a
cidade de Krasnodar.
Para estas guerras e estabelecimento de fortes russos, a
czarina valeu-se dos cossacos. Mas quem eram eles? Qual a
importância deste elemento na constituição do povo sulista da
Rússia?
A origem dos cossacos está envolta em grande
discussão. Pelo que se percebe, eles não são uma etnia, mas
podem ser classificados como um grupo etno-social.
Originalmente, teriam habitado as estepes e florestas da
Europa Oriental, em particular no território da atual Ucrânia e
Rússia, bem como posteriormente se estabeleceriam na região
do baixo e médio Volga, Urais, Cazaquistão moderno, na
Sibéria e no Extremo Oriente.
Ao que tudo indica, originalmente, os grupos cossacos
eram constituídos por camponeses fugitivos, que escapavam
do controle dos senhores dos feudos que ficavam na Polônia e
na região da atual Moscou, rumando assim às estepes do
sudeste europeu, onde se estabeleceram.
Eles ganharam fama no Leste Europeu pela sua
coragem, bravura, força e capacidades militares. Neste
sentido, a principal característica dos cossacos era a destreza
na cavalaria, o que não era novidade para povos que já
habitavam as estepes russas. Podemos ver que os cossacos
foram os herdeiros de uma longa tradição no uso exímio da
cavalaria. Ainda podemos agregar a estas características a
capacidade de auto-suficiência. Todas estas notoriedades
fizeram com que fosse criada uma unidade militar de
Cossacos, no tempo das conquistas das estepes do sul.
Andar pelo interior, especialmente nas vilas cossacas
(stanitsy), é como voltar no tempo. As tradições dos cossacos
estão sendo redescobertas e incentivada pelo governo local. O
orgulho cossaco tem sido incentivado, especialmente pela
pessoa do Governador do Estado de Krasnodar. Durante os
anos do poder soviético, os cossacos foram perseguidos e sua
manifestação cultural proibida. Isto pode ser explicado pelo
fato dos cossacos terem, em sua maioria, apoiado o governo
czarista, que foi derrubado pelos revolucionários bolcheviques
(socialistas). A longa guerra civil que se seguiu à queda do
czarismo, levou as estepes do sul a presenciarem grandes
conflitos, com os cossacos lutando, em grande parte, nas
fileiras dos contra-revolucionários. Posteriormente, Stalin iria
se lembrar deste fato.
Esta volta às origens cossacas (pois foram os cossacos
os primeiros enviados pelo governo russo para a região numa
colonização eslava no tempo da conquista das terras do sul),
passou a ser mais uma forma de demonstrar a todos que o fim
da URSS era definitivo.
Não faz muitos anos, todos os domingos a avenida
principal de Krasnodar é fechada para um desfile dos cossacos
vestidos com seus uniformes vermelhos típicos. Eles desfilam
a pé, e uma parte avança posteriormente montados nos seus
cavalos, que como dissemos, é parte muito importante da
cultura cossaca.
Regularmente podemos ver o governador em alguma
festa cossaca pelo interior do estado, ou fazendo algum
discurso evocando a bravura e o espírito cossaco. Reviver esta
ideologia é parte do programa de governo. Ser sulista é ser
cossaco e fiel à Igreja Ortodoxa Russa.
Este tipo de situação dos cossacos e do sul da Rússia
guarda certas similaridades, no meu ponto de vista, com algo
muito próximo de nós. Refiro-me aos gaúchos no sul do Brasil.
Por ter nascido e vivido grande parte da vida no Rio Grande
do Sul, percebo estas semelhanças no modo como ambos os
povos vivem.
Logo salta aos olhos a semelhança na questão bélica, e
mesmo o próprio apego com a cavalaria. O ar rude e agressivo
dos sulistas aos olhos do resto do país se explica pelas
situações sócio-políticas e o contexto de fronteira. Os governos
sempre ideologizam povos fronteiriços com o fim de garantir a
lealdade deles ao Estado. As guerras do Brasil foram
grandemente travadas por estas pessoas que lutavam em
nome do país. Ao olhar a ideologia transmitida na cultura
gaúcha, percebem-se claramente os traços de interferência do
Estado. E não poderia ser diferente. O sul está numa região de
encontro de povos. Lembremos que aquelas regiões pampeiras
(parecidas alias com as estepes do sul russo) eram a região que
ficava entre os domínios de Espanha e Portugal. Visitei um
forte no lado do atual Uruguai, e na placa de entrada havia
uma lista de anos apontando a quem pertencia o forte naquela
data específica. O local trocou inúmeras vezes de mãos, até
que finalmente acabou parando sob domínio uruguaio após a
independência da Cisplatina, atual Uruguai.
Ainda temos que lembrar que o próprio governo
brasileiro foi quem levou a efeito os planos de colonização do
sul, a fim de evitar uma retomada por parte de nossos
vizinhos dos territórios “desocupados”.
As similaridades entre o sul russo e o nosso sul são
muitas, mas evidentemente existem diferenças que deixam
estes mundos muito distantes. A longa História das estepes do
sudeste europeu deixou marcas profundas na população local.
Estas constantes mudanças de ventos, ora trazendo alguns e
levando outros, fez com que este acúmulo por décadas, e
mesmo por séculos, de culturas tão distantes uma das outras,
fossem responsáveis pela cultura multiforme do Cáucaso.
Estar num lugar como aquele, onde o oriente encontrou o
ocidente; onde as circunstâncias adversas formaram o caráter
indomável do povo do sul russo, tudo isto é um privilégio que
tivemos de viver. Ainda hoje os cimérios, citas, hunos, alanos,
cossacos e tantos outros estão vivos na cultura local.
O CÁUCASO NORTE: DE SOCHI ATÉ
NALCHIK
Quero deixar agora este pano de fundo histórico da
região e sua análise sociológica e partir com os leitores para
experiências reais vividas por nós no interior, cruzando de
oeste ao leste a região norte do Cáucaso.
Viajar até Sochi foi uma daquelas aventuras que se
decide realizar, sem pensar muito nas questões envolvidas.
Mas também são aqueles momentos que depois se levará para
o resto da vida.
Tínhamos um casal de amigos brasileiros morando em
Sochi, e que nos convidaram para passar uns dias com eles. A
cidade é um balneário que fica praticamente na fronteira com
a Geórgia. Deixar de ir até um dos cartões postais da Rússia
seria uma grande perda, especialmente por estarmos tão perto.
Decisão tomada, precisávamos agora traçar a rota.
Pegamos o mapa do estado e vimos o caminho que nos
levaria até a famosa cidade. Eram cerca de 300 quilômetros até
Sochi. Preparamos as coisas todas. Já tínhamos experiência em
viagens aqui pelo Brasil, pois quando morávamos no Distrito
Federal, viajamos algumas vezes até o Rio Grande do Sul, e
300 quilômetros não são comparados com os 2100 quilômetros
de Brasília à Porto Alegre. Logo perceberíamos que estes 300
quilômetros não seriam nada fáceis.
Algum tempo antes desta aventura havíamos
comprado nosso carro, um Nissan japonês, com direção do
lado direito (daqueles que os japoneses não queriam mais, mas
que para o mercado russo ainda tinha serventia). Andar nas
estradas russas sempre é um risco, especialmente quando se
está com um carro cujo volante está do outro lado. Existe uma
dificuldade natural a mais para se fazer ultrapassagens, já que
o campo de visão fica, digamos, limitado. Para ultrapassar, ou
se conta com a ajuda de um co-piloto, que dará a dica se pode
ou não, ou é preciso colocar o carro quase que todo no outro
lado para se ter visão. Bem, existia nestes casos ainda um
jeitinho, ir o máximo possível para a direita e ver à frente do
outro veículo se a ultrapassagem era segura. De qualquer
forma, sempre havia risco. Mas com minha co-piloto já
experiente, não havia muito com o que se preocupar.
Sempre era uma incógnita também a questão de
acidentes nas estradas. Muitos aconteciam por motivos de
imprudência e especialmente por que os motoristas ingeriam
álcool em excesso. Sempre havia alguém para contar um caso
de acidente, ou relatar como se salvou de catástrofes nas
estradas. Ainda, um número muito elevado de pessoas tinha
alguém na família que havia se envolvido em acidentes e
perecido. Conheci pessoas que acabaram por falecer em
batidas. Basta dar uma olhada na internet sobre acidentes
automobilísticos e “milagres” neste contexto, e verão que a
grande parte destes acontecimentos ocorre na Rússia.
Contudo, o grande ponto de tensão sempre era na
verdade os policiais pela estrada. A fama (negativa) deles é
muito forte, e creia-me, justificável. Ser parado nas estradas é
algo não apenas possível, mas praticamente certo, pois existem
várias viaturas ao longo do percurso, conforme narrarei mais à
frente. O problema não era a questão de estarmos infringindo
alguma lei, mas o fato de que sempre se acha algo de errado
para poder levar uma “pro chá”, como dizem os russos, o que
traduziríamos como “uma pro cafezinho”.
Mas a vontade de explorar era maior que o medo de
tudo isto. Assim, partimos de manhã cedo, para evitarmos a
polícia e na expectativa de chegarmos antes do meio-dia.
Nossa viagem começou por volta das cinco e meia da
manhã, e o tempo em Krasnodar estava entre nublado e
chuvoso. Pegamos a rodovia M4, que vem desde Moscou e vai
até o Novorrossisk, o porto no Mar Negro. Esta estrada passa
ao lado da Krasnodar e é a principal ligação com o centro do
país.
Logo na saída de Krasnodar está o posto policial que
demarca a divisa entre o Kray de Krasnodar (estado) e a
República da Adyguea, uma república muçulmana constituída
em 1991 com o propósito de dar um território ao povo
adyguei, naturais da região. Os postos policiais de fronteira
sempre foram os lugares mais tensos, pois neles o carro é
parado e “revistado” pelos policiais armados de metralhadora.
Neste dia, tudo estava tranquilo. O intenso tráfego por causa
do verão e o horário favoreceram-nos
Passamos então ao lado do reservatório de água da
cidade, escavado e construído nos tempos soviéticos com
trabalho literalmente braçal dos cidadãos da cidade. Alguns
quilômetros depois voltávamos a entrar no estado de
Krasnodar, pois a parte que estávamos é apenas um braço do
território da Adyguea.
Seguimos o caminho pela estrada e chegamos a
Goriatch Klyutch, uma cidade de fontes termais muito famosa
da Rússia. Mas não paramos, pois nosso objetivo ainda estava
longe.
Quando já havíamos passado a cidade, após uma
neblina e uma pequena garoa, as nuvens começaram a abrir e
os raios de sol apareceram. A partir dali desceríamos uma
região serrana. Ao chegarmos às partes mais planas daquele
trecho, descobrimos que éramos os únicos a ter a ideia de sair
cedo num dia de verão. O tráfego de caminhões era intenso,
algo que não esperávamos, pois o transportes de carga na
Rússia geralmente é eito por trens. Não demorou em
pegarmos um congestionamento. No começo parecia que era
algum acidente. Mas logo se tornou claro que tudo aquilo se
devia ao grande número de veículos na estrada.
Conforme avançávamos lentamente, entendia que a
esperança de chegar antes do meio-dia ia se tornando numa
certeza de que os planos teriam que ser revistos. Às vezes
tinha impressão que andaríamos finalmente mais livres, mas
logo parávamos novamente. Lembro de ver alguns carros
tentando ultrapassagem pela direita, pelo acostamento. Mas
por estar no volante neste lado, percebia os caminhões se
jogando no acostamento e impedindo a passagem dos
apressados. Mesmo ali o velho hábito de furar fila estava
presente. Ficamos nesta situação de congestionamento por
quilômetros.
Por fim depois de horas ali naquela situação, após uma
curva, percebi o motivo daquela encrenca. Havia um semáforo
na estrada, e a multidão de carros se dividia entre a estrada à
frente e uma conversão à esquerda. Quem fosse em frente iria
em direção à cidade-balneário de Gelendzhik e para a cidade
porto de Novorrossisk. Os caminhões todos iam naquela
direção, em frente. Os carros se dividiam, pois quem tomasse à
esquerda iria pegar a M-27 que leva para a cidade-balneário
Dzhugba e depois, seguindo a estrada, chegaria em Sochi.
Fiquei feliz ao ver que a placa que indicava nosso caminho
estava livre!
Fim dos problemas? De forma alguma! Ainda tinha
muita emoção pela frente. A M-27 é a única estrada que liga
todo o litoral sul de Krasnodar com o resto do estado. Ela
passa por todos os vilarejos, balneários, cidades, vilas e
agrupamentos de casas da região costeira. Às vezes
passávamos a poucos metros do mar, uma visão muito bonita,
mas isto trazia também um problema.
Quando chegamos nestas regiões de praias, e
passávamos por um balneário ou cidadezinha que nesta época
de verão vive quase que exclusivamente do fluxo de turistas, já
era por volta das 10 horas da manhã. Na cidadezinha de
Lazarevskaya, o trânsito parou completamente, pois os
pedestres atravessavam a estrada. Muitas das vezes eram
famílias inteiras, com sacolas, cadeiras e todo o aparato para
passar o dia na praia. Sempre havia alguém atravessando a
estrada, que ao passar na cidadezinha virava uma rua comum.
Tudo bem, todos tem direito e se leva numa boa, até que a
paciência vai acabando e a irritação vem tomando conta. Mas
fazer o que, todos estavam ali para descansar, e se estressar
não valia a pena. E foram muitas aldeias e cidades que
passamos!
Nestes lugares a linha férrea passava a poucos metros
da estrada. Quando um trem passava “livre” ao nosso lado,
batia uma inveja daqueles felizes que não ficariam horas
esperando dentro do carro no já ensolarado e caloroso dia de
verão russo.
Mas não era somente nas cidades que o trânsito ficava
lento. Na região onde se concentravam os acampamentos,
hotéis e bases de descanso, o vai-e-vem de pessoas era
constante, pois geralmente estes estabelecimentos estavam
estrategicamente localizados em frente às praias, para
desespero dos motoristas. E, logicamente, os pedestres todos
sempre estavam em ritmo de férias, sem pressa para
atravessar.
Ao menos a paisagem era muito bonita. Ao longo de
todo o caminho, muitas árvores por toda a parte,
especialmente a estrada é ladeada por álamos, característicos
de toda a região sul. O verde é uma cor predominante no sul,
vários tons, mas o mais bonito é o verde claro, que
pessoalmente sempre será símbolo da primavera.
Em alguns momentos víamos carros parados ao longo
da estrada, com portas e capô abertos, cadeiras improvisadas e
os russos fazendo seu piquenique ali mesmo. O sanduíche
(que os russos chamam de buterbrod, palavra adaptada do
alemão), que consiste de um pão com uma rodela de
mortadela e às vezes uma de queijo. Sempre tem pepino e
tomate para comer assim mesmos, ao natural. Não
precisávamos parar para ver, simplesmente sabíamos pelos
anos de convivência que eles, os russos, eram práticos e
simples nestes momentos. Além disto, ao longo da estrada
sempre tem um quiosque, uma tenda vendendo comida e
artesanato feito com temas marítimos
A estrada M-27 tem outra característica, as curvas.
Hora se está a poucos metros do mar, dali a poucos
quilômetros se está no alto de uma montanha, pois a estrada
toma um desvio devido ao terreno. Creio que nos pontos mais
rápidos chegávamos a 60 km/h, mas logo vinha uma curva, era
preciso então reduzir a marcha, pisar no freio, reduzir de novo
para dar potência para subir, caminhão na frente. Resultado de
tanta curva, nossa filha mais nova acabou por não agüentar e
vomitou duas vezes. Coisas de criança pequena.
Este tipo de relevo é algo interessante. No Brasil
estamos acostumados com morros, montanhas, serras
planaltos e etc. Eu cresci no sul do Brasil, sempre viajando pela
Serra Gaúcha, de forma que este tipo de relevo não é algo
novo. Mas depois de se viver alguns anos em uma região onde
tudo é tão plano, como são as planícies russas, acaba-se por
perder a referência neste tipo de topografia. Em Krasnodar,
por exemplo, nunca era necessário usar o freio de mão do
carro. Tudo é absolutamente plano, com pequenas variações
no terreno, o que logicamente é natural.
O mais interessante é o pequeno desconforto que se
sente ao andar pela M-27, pois a mente acaba associando a
imagem de uma Rússia plana, e que aquele cenário acidentado
não pode fazer parte do país. Parece estranho isto, mas a
mente faz este tipo de afirmação inconscientemente. É quase
uma contradição ver ruas que são verdadeiras ladeiras, e casas
sendo construídas para acompanhar o desnível da rua.
Estivemos algumas vezes em Novorrossisk, a cidade
portuária, e ela é cercada por morros e montanhas, sendo que
a cidade se espalha não apenas nas encostas, mas acaba se
expandido em direção ao topo destes morros. Nesta viagem
ficou claro que o fenômeno habitacional de Novorrossisk não é
único. Todas as cidades de pequeno e médio porte ao longo da
costa ficam em um reduto entre montanhas e a urbanização
seguiu os contornos do local.
De certa forma, parecia que estávamos de volta ao
Brasil, pois tínhamos calor, muito verde, praias e relevo
acidentado. As pessoas ao longo da via estavam com roupas
de verão, leves e soltas, mesmo andando nas ruas do centro
das cidades por onde passamos.
Esta característica de montanhas perto ao mar faz com
que a M-27 tenha um número considerável de pontes,
especialmente para que se cruze os rios que se formam devido
à água que vem das encostas destas montanhas. Aliás, estes
rios acabam por se tornar um perigo sempre presente na
região. Uma chuva forte pode provocar não apenas
deslizamentos de terra, mas inundações e destruição. Pouco
depois desta nossa viagem, a região de Tuapse, por onde
havíamos passado, sofreu com uma grande precipitação de
chuvas em um espaço curto de tempo. A onda de lama e água
chegou à cidade e numa espécie de tsunami varreu a cidade
inteira. Muitas pessoas ficaram feridas, desaparecidas e
mortas. O sistema de defesa civil da Rússia foi acionado e o
país ficou perplexo com a destruição. Anos antes, na cidade de
Novorrossisk, um tornado se formou no Mar Negro e atingiu a
cidade, provocando muitos estragos e mortes. Pessoas foram
arrastadas das regiões de encosta para o mar. Este tipo de
fenômeno é algo bem conhecido dos moradores locais, mas
geralmente são de pequena escala e não chegam a afetar
drasticamente os locais. Mas às vezes a natureza prepara
surpresas como estas, especialmente no verão.
Esta região também é local onde se concentram um
número considerável de dolmens, que ficam geralmente nas
encostas das montanhas voltados para o mar, ou nas
imediações dos rios que correm do alto em direção ao mar.
Infelizmente não havia nenhum à vista ao longo da rodovia.
Apenas indicação em placas que faziam a orientação para o
local do dolmen. Como estávamos muito atrasados no nosso
horário, pensamos em passar na volta. Logicamente que na
volta não encontramos mais o lugar. Sempre é assim!
A rodovia M-27 pode ser considerada boa em sua
pavimentação ao longo do percurso. Algumas vezes existem
irregularidades no asfalto, mas nós brasileiros estamos
acostumados com estes imprevistos. O transito é complicado
na chegada e nas próprias cidades. Nestes locais, como
dissemos, a estrada acaba virando uma rua, estreita, às vezes,
mas o asfalto acaba não sendo comprometido. Chegando à
região de Sochi, o congestionamento era monstruoso, pois
muitos veículos de passeio e caminhões congestionavam todo
o trânsito, no ziguezague da descida da montanha. Lá em
baixo a estrada se dividia em duas, uma indo direto para o
centro de Sochi e outra que seria uma espécie de Rodoanel.
Quase que sem querer, muito instintivamente pegamos o
rodoanel. Aí a rodovia virou estrada quase sem trânsito. Mas a
alegria durou pouco, pois o Rodoanel ainda estava em
construção, e após uma sequência de túneis tivemos que pegar
um desvio e voltar para a M-27 antiga. Percebemos que já
havíamos ao menos passado a parte urbana de Sochi, e
tomamos a direção de Adler, uma cidade vizinha de Sochi,
onde moravam nossos amigos brasileiros.
Quase chegando ao centro de Adler, do lado direito da
M-27, fica a estação ferroviária de Adler, o ponto final de uma
ferrovia que vem de Moscou, e que diariamente recebe vários
trens vindo da parte central da Rússia. No verão, aqui são
“despejados” um número muito grande de turistas, que vêm
de toda a Rússia, usando Moscou como conexão.
Adler é uma cidade que vive aparentemente à sombra
de Sochi, a irmã mais famosa. A última cidade antes da
fronteira com a Geórgia, ou Abkhazia, que é uma região que
mantém relações conturbadas com o governo georgiano e está
sob uma espécie de “proteção” do governo de Moscou. Nos
confrontos em 2008 entre o governo georgiano e a Ossétia do
Sul (região que fica na fronteira com a Rússia), a Abkhazia
também entrou em linha de confronto com o governo central.
A Abkhazia parece uma extensão do que é encontrado do lado
russo, com praias e clima subtropical. Apesar de estarmos
alocados a algumas centenas de metros da fronteira, não
ousamos, nem pela curiosidade, sequer chegar perto da divisa.
Na época dos confrontos, um jornalista brasileiro foi abordado
e preso pela polícia por fazer entrevistas numa rua de Sochi a
respeito da opinião dos russos sobre o envolvimento do seu
governo na questão. Resolvemos não brincar com a sorte,
mesmo que fossemos instigados pela curiosidade de ver o que
existe lá do outro lado.
Adler tem algumas praias, de pedras é verdade, mas
que não podem rivalizar com uma espécie de mística que
envolve Sochi. O aeroporto de Sochi na realidade está em
Adler. A ferroviária, ponto final fica igualmente em Adler.
Sobre a cidade não há muito que dizer.
Já Sochi é um capítulo à parte. A cidade tem cerca de
370 mil habitantes, e vem sofrendo maciços investimentos de
vários setores, especialmente do governo russo. Isto tem
mudado a cara da cidade ao longo dos últimos anos. Quando
ela foi escolhida para receber as Olimpíadas de Inverno de
2014, muitas obras começaram a aparecer pela cidade. O
trânsito ficou mais caótico, o policiamento mais extensivo.
Sochi praticamente não saía dos noticiários da televisão, pois o
sempre bem visível Putin, na época primeiro ministro,
frequentemente estava na região. A cidade acabou por virar
um balneário bem caseiro para a elite russa. O preço dos
imóveis disparou e viver lá acabou sendo um privilégio para
poucos de fora. Isto acabou afetando Adler, que virou de certa
forma uma opção de moradia.
Se formos falar sobre as praias em si, pouco se pode
dizer em termos de beleza, especialmente para quem vem de
um país como o Brasil, que tem praias paradisíacas ao longo
de toda a costa. As de Sochi são de pedra. Muitas regiões
acabaram se tornando lugares particulares dos bares e
restaurantes de beira-mar. a faixa de “praia” se estende a
poucos metros entre a calçada (ou da linha de restaurantes) e
as águas do Mar Negro. Ao se entrar na água, nada quentes
por sinal, logo se percebe que em poucos metros não “dá mais
pé”. Resumindo, ir para lá por causa das praias não é uma
opção muito atrativa. Mas Sochi tem uma vantagem que é a
infra-estrutura para turistas, com bares, orla, muito verde,
palmeiras pela cidade toda, topografia variada, muito verde,
parques e um ar diferente do resto das cidades russas. Sochi
parece mais viva e dinâmica, sem a frieza e o cinza do resto do
país.
Existem várias atrações pela cidade. A principal que
está relacionada ao mar é o Delfinário, um lugar grande e que
está sempre lotado nesta época de verão. Fomos até lá com
nossas crianças para conferir. Não nos arrependemos! O show
realmente e digno de nota 5 (na escala russa). Todos se
maravilharam com a habilidade dos animais marinhos, as
piruetas, os truques e a destreza de todos os participantes do
espetáculo.
Outro local de interesse é o Dendraniy de Sochi, que é
uma coleção única de exemplares da flora e fauna subtropical.
É um parque e jardim botânico ao mesmo tempo, misturado
com zoológico. O Dendraniy fica localizado numa colina (ou
seria um monte?) que fica de frente para o mar. O parque todo
atualmente ocupa uma área de 49 hectares, onde se encontram
mais de 1500 espécies, formas e variedades de árvores e
arbustos. Tem uma grande coleção de pinheiros com 76
espécies, num total de 1.890 exemplares. É a maior coleção
russa de carvalhos, palmeiras e muitas espécies de ciprestes,
além das plantas subtropicais raras. Pode ser que para nós
brasileiros isto não seja algo muito digno de notoriedade, mas
os russos da região se orgulham de sua exuberância, tendo em
vista que este tipo de situação não se encontra pelo país.
O parque é composto de duas partes: a superior e a
inferior. Na parte baixa está localizado um aquário, que
contém vários exemplares das espécies que são habitantes do
Mar Negro.
Em algumas outras áreas do parque foram criados
cantos separados que contêm densas coleções de plantas
originárias do Cáucaso, Japão, China, Austrália, Mediterrâneo,
das Américas do Norte e do Sul.
Dá para falar bastante sobre a importância deste lugar
que é um laboratório a céu aberto, mas nossos leitores ficariam
muito enfadados com números e outras questões mais
técnicas. O que fica mesmo na mente do visitante é a beleza do
lugar. Existe a possibilidade de subir até o alto do monte por
um teleférico, o que realmente é muito legal, especialmente
para a criançada.
Chegando lá em cima se tem uma excelente vista de
todo o parque e ainda o Mar Negro ao fundo. Passear por lá, é
como voltar ao Brasil tropical, um pequeno descanso para a
mente, acostumada ao clima e vegetação das regiões mais
frias. Isto nós aprendemos na Rússia, como o verde faz bem
para a mente, o sol raiando e seu calor, o céu azul,...
Aprendemos a dar mais valor ao que temos por aqui também.
Sochi ainda reserva outras surpresas, mas a mais
conhecida de todas é a região conhecida como Krasnaya
Poliana.Esta é uma aldeia urbana no distrito de Adler que está
localizada no curso médio do rio Mzimta, a 39 km do Mar
Negro. A região está conectada com Adler e Sochi, através de
uma estrada moderna que passa pelo aeroporto local.
Krasnaya Polyana é um centro popular de esqui e
snowboard, com a reputação de ser a mais "respeitável" na
Rússia, para aonde se dirigem muitos russos no inverno. As
pistas de esqui que ficam perto da aldeia são muito
procuradas pelo fato da boa cobertura de neve úmida. Aliado
a esta questão, o terreno oferece boas oportunidades para
esquiar, inclusive fora dos circuitos das pistas oficiais. Tudo
isto elevou as possibilidades na candidatura de Sochi para as
Olimpíadas de Inverno de 2014.
Mas estávamos em Sochi no verão e neve, nas estações,
não havia. Contudo, o passeio foi feito, pois quantas vezes
mais na vida teríamos esta oportunidade? A estrada que leva
até a aldeia no meio das montanhas era pista simples, mas ao
lado se viam as obras de construção de um trem que liga Sochi
(aeroporto) e a aldeia.
Chegando lá, pegamos um teleférico e subimos até o
topo da montanha que fica em torno dos 2000 metros acima do
nível do mar, que fica “logo” ali em baixo. Os russos dizem
que em Sochi se pode esquiar nas montanhas de manhã e à
tarde tomar banho de mar. Estão certos!
Para se alcançar o topo, a última estação, precisa-se
fazer uma baldeação para o segundo teleférico. Chegando lá
em cima, apesar de estarmos no verão, o clima era outro.
Ventava bastante e a sensação de frio era bem maior.Andamos
um pouco, tiramos várias fotos, e depois voltamos para o nível
mais baixo.
Voltamos de Sochi para Krasnodar contentes por ter
vivido esta outra face da Rússia. A viagem foi marcante em
todos os sentidos. Felizmente tudo ocorreu sem maiores
dificuldades. Sempre fica aquele desejo de um dia voltar para
lugares como estes, mas o que importa é que estivemos lá,
vivemos o momento. Creio que tais experiências enriquecem a
vida de cada um. Levaremos conosco estas imagens, e quem
sabe, um dia realmente voltaremos lá!
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Nalchik
Abril de 2008
Certo dia nosso amigo brasileiro veio nos visitar. Ele
era jogador de futebol, e havia sido contratado pelo time da
cidade de Nalchik, que naquela época estava na primeira
divisão do campeonato russo.
Ele estava em Krasnodar para resolver algumas
questões e precisava voltar no dia seguinte para se
reapresentar no clube.A questão era que, de nossa cidade para
Nalchik, não havia vôo direto, só por Moscou. O trem,
segunda opção viável ia apenas até metade do caminho. Ele
estava sem muitas alternativas, e então propôs algo que, num
primeiro momento, parecia atraente.
- Que tal você me levar até lá de carro? - perguntou ele
num tom de brincadeira, mas que escondia um ar de
seriedade.
Achei que seria interessante uma aventura, só para
variar. Logo me veio a mente então o velho medo eterno dos
estrangeiros na Rússia. Creio que o leitor já esteja adivinhando
neste momento. Sim, a polícia!
Conversamos sobre o assunto, possibilidades de outros
meios de se chegar lá, mas nada era tão “certo” quando uma
ida de carro. O percurso era de aproximadamente 500
quilômetros, e uma estimativa de tempo de viagem de 6 horas
e meia. Deveríamos sair por volta das 22h00min e viajar toda a
noite. Em parte para evitar a polícia na estrada, e em parte por
causa do intenso tráfego da M-29, conhecida como estrada
“Сaucasiana”. Ela faz a interligação de todo o norte do
Cáucaso, desde o estado de Krasnodar no Mar Negro, até a
região de Derbent, Daguestão, no Mar Cáspio, fronteira com o
Azerbaijão.
Participariam desta viagem o nosso amigo futebolista,
eu, um membro da comissão técnica do clube que também
estava na cidade e um angolano naturalizado russo, que era
taxista em Krasnodar e conhecia a estrada e outros “detalhes”
do percurso. No horário marcado estávamos todos em nosso
endereço residencial para começar a façanha.
Lembro que a noite estava clara, sem nuvens e a lua já
havia aparecido por detrás dos prédios. Não estava frio, mas
usávamos casacos leves para garantir que não seríamos
surpreendidos no trajeto.
A estratégia de sair no meio da noite mostrou-se
funcional. Poucos carros na estrada e praticamente não havia
polícia pela estrada. Aquela viagem serviu para me ensinar
como se deve dirigir na Rússia, as “regras” das estradas e
especialmente o que NÃO fazer. Havíamos comprado o carro
ha não muito tempo, e esta era a primeira viagem realmente
longa, cruzando estados. A regra mais sagrada me ensinou o
motorista angolano, era nunca, em hipótese alguma, “pisar na
linha” - como dizem os russos. Esta expressão dizia respeito a
não passar com o pneu em cima das linhas entre a “faixa de
rolagem” (pista) e o acostamento, e tocar a linha divisória
entre as duas pistas. Nunca entendi muito bem este “pecado
capital”. O simples fato de se tocar nestas linhas, em quaisquer
circunstâncias, seria motivo suficiente para ser parado por
uma patrulha policial e momentos de estresse à frente.
O primeiro momento tenso para mim foi quando
atravessamos a divisa do estado de Krasnodar e Stavropol. Já
passava da 1 hora da madrugada. Estrada vazia, apenas nós
no sentido Krasnodar-Nalchik. O posto policial apareceu de
repente depois de uma pequena colina. No sentido contrário
apareceu um carro também. Havia uma placa de PARE numa
cancela ao lado da estrada. O angolano virou-se e disse para
mim, o novato:
- Sempre que estiver por passar por um posto policial,
deve-se reduzir a velocidade até o ponto do carro quase parar.
Se o policial fizer menção de querer parar você, pare!
Felizmente parecia que o policial estava mais ocupado
com seus afazeres e não tivemos que parar, apenas reduzir a
velocidade. Aprendi a não ficar encarando o policial, usando a
“visão periférica”, pois parecia que um olhar direto atraía a
curiosidade deles. Sei lá, podia ser psicológico apenas, mas em
geral funcionava.
Dentro do carro íamos conversando e rindo, falando
em português e russo, por causa do russo que nos
acompanhava. Aliás, nem russo ele era, mas pertencia a
alguma daquelas etnias do Cáucaso. E isto, o fato de pertencer
à outra etnia, todos os não-russos deixam bem claro. Algo que
para nós passa sem maiores merecimentos de atenção, para
eles é vital. Existem duas palavras no idioma russo para o
nosso vocábulo “russo”, russkiy e rossiskiy. O primeiro
vocábulo (russkiy) denota a etnia eslava russa. O segundo
(rossiskiy), denota todos aqueles que nasceram e tem a
cidadania russa. Assim, nosso amigo no carro era rossiskiy, mas
não russkiy. Lembro que na universidade havia na minha
turma uma moça. Num dia, conversando, chamei-a de russa
(russkaya). Rapidamente ela me corrigiu, com certo tom de
brabeza, que ela era Tatar, e não russa. Minha esposa passou
pelo mesmo constrangimento com uma vizinha, que logo no
início da conversa disse:
- Ola, meu nome é Alsu, e sou tatar muçulmana.
A necessidade de auto-afirmação étnica e religiosa na
Rússia é algo muito importante, logo descobrimos isto!
Mas voltando para nossa viagem, tudo foi tranquilo.
Uma conversa animada e muitas risadas foram necessárias
para manter o motorista alerta e acordado.
Depois de 5 horas e meia, mais ou menos, estávamos
chegando à divisa do estado de Stavropol e a república de
Kabardino-Balkharia, cuja capital era Nalchik. Devido ao fato
de ainda estar escuro, não me recordo muito bem da geografia
do local, mas repentinamente depois de uma curva apareceu o
posto policial. Havia muitos carros e caminhões parados.
Estranhei, pois geralmente nos postos não existe toda esta fila.
E a parada era obrigatória. Policiais com metralhadoras em
mão estavam postados na estrada e no posto. Percebi que a
situação não era de tranquilidade.
- Estão procurando alguém? - perguntei.
- Não, é assim mesmo, bem-vindo ao Cáucaso! -
alguém no carro respondeu.
- Passaportes de todo mundo, disse o angolano.
Recolhemos os passaportes e entregamos pro nosso
motorista, que desceu do carro e foi até o posto. Aquela cena
não era totalmente nova para mim, pois na televisão russa
sempre mostram este tipo de situação, e geralmente
mostrando que o posto policial foi atacado ou explodido por
grupos rebeldes chechenos, ou algo assim. Estávamos
entrando em zona potencialmente perigosa e bélica. Eram as
nossas boas-vindas!
A expectativa foi grande, pois um grupo de brasileiros
e angolano tentando entrar numa república de uma região
instável, é algo muito estranho.As perguntas de sempre: quem
são, por que estão aqui, qual o objetivo, o que querem??? O
fato é que perdemos ali uns 10 minutos, além de uma tensão.
Estar numa barreira policial daquelas invocou em mim as
imagens da televisão, e aquilo era desagradável. Fico
pensando no policial lá dentro do posto no balcão de controle
vendo aquilo tudo: um carro, com documentação no nome de
um russo, mas que na verdade pertencia a um brasileiro, só
que estava sendo dirigido por um angolano, que por sinal era
naturalizado, que estavam viajando de madrugada para uma
das regiões mais perigosas do mundo.
Creio que foi durante a devida verificação, dos
documentos, que outros policiais fortemente armados
“pediram” (não é bem esta a palavra, mas vamos deixar
assim!) para inspecionar o carro, porta-malas, interior, etc.
Pareceu-me ter visto uma metralhadora numa espécie de
barricada logo ali na frente, mas nem pensei em dar uma
olhada melhor, pois era muito aconselhável nesta hora deixar
a curiosidade de lado e tentar sair o mais rápido daquele lugar.
Percebi que se não fosse por um fator, ficaríamos lá por
muito tempo, dando explicações. O fato de estarmos com uma
“estrela” do único time da república de Kabardino-Balkharia
na elite do futebol russo, onde estávamos entrando, foi um
abrir de portas.
Quando finalmente o angolano voltou, sorrindo,
percebi que sairíamos logo dali. Entramos no carro e passamos
pelo posto que estava à nossa direita. Depois que o posto ficou
fora do alcance do retrovisor, o angolano disse que o fato do
nosso amigo ser jogador “facilitou” as coisas, pois ninguém
iria querer levar a culpa por um incidente, logo no posto de
fronteira. Esta ajuda seria muito bem vinda novamente depois,
na volta.
Ainda na escuridão da noite chegamos à Nalchik. As
ruas estavam vazias, nenhum carro, nenhum movimento.
Fizemos várias conversões e depois de alguns minutos
estávamos já perto do estádio. Naquele momento apenas
queríamos chegar a algum lugar onde pudéssemos dormir um
pouco, e relaxar.
Ficamos do lado de fora do carro esperando o nosso
amigo “russo” resolver onde poderíamos ficar naquelas horas
que restavam da noite. Eram umas 4 da madrugada, e alguém
não deve ter ficado contente de ser acordado nesta hora. Mas
depois de algumas ligações e conversas num prédio aonde
havia entrado o russo, saiu a decisão de onde eu e o angolano
ficaríamos. Realmente gostaria de um bom banho quente e
uma cama confortável para recuperar as energias, mas
conhecendo a Rússia, este luxo teria que ficar para a minha
volta para casa.
Ali mesmo havia uma espécie de alojamentos do clube,
e fomos levados para lá. A senhora que cuidava do local não
estava com muito bom humor, mas isto não era novidade.
Entramos no prédio e seguimos pelo corredor. À medida que
avançávamos, o meu sonho de um bom banho e uma cama
agradável, ia se esvaindo. Entramos num quarto que devia ser
reservado para o pessoal dos jogadores das categorias de base.
Tinha as camas e um banheiro. A visão inicial não
impressionou positivamente, mas naquela altura, todos os
sonhos já haviam se diluído e tudo que eu queria era um
descanso. Entrei no banheiro, e honestamente nem lembro se
tomei banho, apenas me lembro que a descarga ficava
correndo e a torneira da pia também. A senhora nem deu bola
para a água que se ia sem ser utilizada. Tentei desligar o
cérebro daquilo, pois isto realmente é uma situação que me
deixa nervoso, água sendo desperdiçada.
De alguma forma cheguei até a cama, já eram quase 5
da manhã. Depois que a luz amarelada fraca se apagou, eu
também apaguei.
Eram pouco mais das 9 da manhã quando vi o
angolano de pé no quarto. Sabia que não adiantava enrolar na
cama. Levantei e fui dar uma espiada pela janela, conhecer a
famosa Nalchik. Não vi muita coisa, senão as árvores.
Um tempo depois o nosso brasileiro liga para o
angolano, dizendo que iria passar para nos pegar para darmos
uma volta de “leve” pela cidade. Entendi logo o que estava
querendo dizer. Nalchik é uma cidade relativamente pequena,
mas uma das maiores do Cáucaso norte, com uma população
de 240 mil habitantes. Apesar do território onde se localiza a
atual cidade ter sido habitado pelos povos nativos balcários e
Kabardinos (daí o nome da república Kabardino-Balkharia)
desde o século XVIII, a cidade de Nalchik como a conhecemos
foi fundada somente no século XIX, quando o Império Russo
estendeu seus domínios pela região. Foi durante a Segunda
Guerra Mundial ocupada pelos nazistas, e aqui se travaram
batalhas que acabaram por deixar Nalchik muito destruída.
Mas como toda cidade do sul da Rússia, Nalchik é
muito arborizada. Estávamos perto do parque da cidade, e
pudemos passar algumas vezes na frente. Muito verde, flores e
pessoas caminhando na rua. Não nos atrevemos a sair das
proximidades do estádio. Não sei se era por causa da recepção
no posto da fronteira, mas parecia que estávamos num clima
bastante hostil, não das pessoas em si, mas a atmosfera do
local leva a pessoa a ter este tipo de pressentimento. A cidade
parecia muito calma, uma verdadeira cidade de interior da
Rússia, mas a aparência era enganosa.
Poucas semanas antes, nosso amigo nos informou que
haviam metralhado o carro de polícia em pleno centro da
cidade. Os ataques haviam iniciado com maior intensidade
desde que o governo russo “resolveu” a questão na Chechênia.
A última guerra da Chechenia, em 1998, trouxe alguns
resultados para a região e para todo o país. A liderança de
Vladimir Putin no conflito rendeu-lhe o cargo de presidente da
Federação Russa em 1999. A paz forçada pelos russos na
Chechênia após a vitória no confronto, fez com que os rebeldes
da região abandonassem a república caucasiana e fugissem
para outras partes da federação. Muitos haviam atravessado a
fronteira interna e ido para o Daguestão, outros teriam saído
para a Ingushétia, e alguns para a república de Kabardino-
Balkharia. Desde então, começaram os ataques nestas regiões.
Todos devem lembrar-se do caso da escola em Beslan, onde
terroristas prenderam pais, alunos e professores numa escola,
no dia 1° de setembro de 2004. Foram três dias de suspense, e
ao final mais de 300 pessoas morreram, a maioria crianças.
Atentados a bomba ocorreram em várias cidades ao norte do
Cáucaso, especialmente nos mercados públicos, sempre
repletos de pessoas. Na época da primeira guerra da
Chechênia, nos anos 90, até mesmo Krasnodar sofreu um
atentado a bomba no mercado.
Quando chegamos à Rússia em 2005, a caçada aos
grupos separatistas era alvo constante dos noticiários. A
televisão russa fazia questão de mostrar o ataque do exército
contra células destes grupos, mostrando o resultado, corpos
espalhados pelo chão e alguns até carbonizados. Era uma
mensagem clara para os rebeldes.
Semanalmente apareciam notícias sobre o Daguestão,
onde sempre havia atentados, bombas, tanques, exército,
polícia, sangue e morte. Quando o time da capital
Makhachkala (Anji) subiu para a primeira divisão do futebol
russo, passaram a se preocupar com a integridade física dos
jogadores. O próprio time, que nesta época foi reforçado pelo
ex-jogador da seleção brasileira Roberto Carlos, tinha sua sede
em Moscou. Treinava na capital russa, e quando tinha um
“jogo em casa”, pegavam o avião, iam até Makhachkala,
jogavam, e voltavam rápido para Moscou.
Groznyi, a capital da Chechênia era uma cidade
pacificada quando chegamos à Rússia. Contudo, a tensão do
norte do Cáucaso sempre se faz presente. Outro brasileiro
amigo nosso, jogava pelo time de Krasnodar, e naquele ano a
equipe de Groznyi, Terek, subiu para primeira divisão. Numa
conversa informal com ele, eu dizia que não havia com o que
se preocupar, pois as coisas lá já estavam bem mais tranquilas,
depois que os russos ganharam a guerra. Na semana seguinte
o time dele foi jogar em Groznyi.Ao voltarem, perguntei como
tinha sido a experiência. Ele me relatou que desde a chegada
no aeroporto até a saída de volta para Krasnodar, sempre
havia um esquema de segurança. Na ida para o estádio, além
dos batedores da polícia, em todas as esquinas havia policiais
armados com metralhadoras. Ele disse que se sentiu em
pânico, pensando no que poderia acontecer com eles naquele
local. Este é o clima nas cidades do Cáucaso.
Mas voltando a nossa história, a permanência na
cidade foi rápida. Não nos aconselharam ficar por lá
(empolgante, não é?) e voltar logo era o mais sensato. Posto
desta maneira, no meio da tarde partimos da cidade, após um
tour rápido pelo local. Não sei, depois de tantos conselhos,
perde-se o interesse de ficar andando pelas ruas!
A volta teve suas complicações. Sem a proteção do
escuro da noite e com um trânsito intenso, pegamos
congestionamentos na estrada que passava perto de
Pyatgorsk, região famosa pelas suas águas termais. O dia
estava muito quente e o sol realmente não dava trégua. O ar-
condicionado do carro não funcionava, e parecia que aquela
fila não tinha fim. Apesar de a estrada estar em excelentes
condições, a quantidade de carros era tão grande que ficava
difícil desenvolver alguma velocidade. Mas o pior ainda estava
por vir.
Tempos mais tarde fiquei sabendo que a polícia mais
corrupta do país, segundo fontes do próprio governo russo
estava localizada justamente nesta estrada M-29! Infelizmente,
logo descobri o porquê da fama…
O trecho entre Pyatgorsk e Mineralnye Vody, cerca de
40 quilômetros, durante o dia está repleto de patrulhas
policiais. Creio que elas estavam a menos de cinco quilômetros
uma da outra, parando os carros, verificando documentos,
querendo achar algo para poder tirar proveito.
Nós éramos alvos fáceis para eles, pois em primeiro
lugar, a placa do carro era de outro estado (estávamos no
estado de Stavropol), e isto atraia os olhares bem treinados.
Em segundo, o motorista, apesar de ser naturalizado russo, era
angolano, o que, obviamente, facilitava aos guardas
perceberem rapidamente tratar-se de estrangeiros.
Uma destas patrulhas nos parou perto de Mineralnye
Vody (que em russo significa águas minerais).
- Documentos - disse o policial.
Ele olhou tudo enquanto o outro fazia uma inspeção
externa, provavelmente procurando algo para nos pegar.
- O carro é seu? - perguntou o guarda para o angolano.
- Não, o carro é do moço aqui, mas eu estou dirigindo
por que ele não conhece a estrada e não tem prática ainda aqui
na Rússia.
- Fala russo? - me indagou.
- Sim, senhor! Um pouco - respondi com ar de quem
estava perdido no assunto.
- Documentos, cadê?
- Aqui estão. - respondi reticente.
Após olhar o passaporte e a habilitação, disse:
- Ah, você é brasileiro?
Pensei que iríamos nos livrar, pois quando o assunto ia
pro futebol, Pelé e café, geralmente os policiais davam uma
relaxada. Mas não desta vez!
Ele me chamou para o lado do carro, fora do alcance
dos ouvidos do angolano e me disse:
- Sabe ler russo?
- Sim, senhor!
- Então me diga: o que está escrito aqui neste
documento do carro?
Li para ele, pois isto qualquer um sabia fazer. Lá estava
o nome do verdadeiro proprietário do carro
Ele balançou a cabeça e como que enfiando a faca,
sorriu e disse:
- Agora leia para mim o nome desta autorização de uso
do carro.
A ficha caiu. Nos documentos, o nome do proprietário
e o nome de quem me autorizava a dirigir o carro (o dono)
estavam com uma letra trocada. UMA LETRA!!! Todos os
outros dados eram iguais, número de passaporte,
identificação, nome, patronímio, mas sobrenome estava com
uma letra digitada errada (num sobrenome enorme!).
- Está vendo, não são as mesmas pessoas! Assim, você
não tem autorização legal de dirigir este carro, nem de estar
com ele!
Não preciso dizer que o mundo caiu.
O angolano chegou perto e se inteirou do assunto. Sua
cara de apavoramento não me ajudou em nada. Ele sabia o que
estava por vir, era taxista…
- Vocês vão ter o carro apreendido. Vão ter que voltar
para casa de ônibus. Vai ser aberto um processo contra você e
daqui à mais ou menos um mês precisará vir aqui em
Mineralnye Vody com seu advogado para ir a julgamento.
Ainda precisarão pagar pelo guincho agora, e pelo tempo em
que o carro ficará apreendido no pátio. A multa é de XXX
rublos, paga agora, já que vocês são de outro estado.
Persuadir os policiais parecia impossível. Eles sabiam
que estávamos em grande desvantagem, e iriam se aproveitar
o máximo disto. Poderiam tirar o dia com aquela situação. O
angolano foi para a viatura tentar conversar com o chefe do
grupo. Eu fiquei ali desolado, com um policial (que fazia a
revista antes no carro), conversando comigo, no que mais
parecia um interrogatório no estilo KGB dos filmes.
Antes disto, havíamos explicado que estávamos
fazendo uma boa ação para um colega que precisou de uma
ajuda para ir até Nalchik. Não funcionou apelar para o instinto
de ajuda e camaradagem russa.
Neste meio-tempo, entre viatura e nosso carro, o
angolano me pediu o celular, dizendo que ia ligar pro nosso
amigo de Nalchik. Logo percebi a tática, valer-se de uma velha
tradição russa, os contatos. Creio que a chegada do celular e
sua popularização impulsionaram este hábito. Está numa
situação complicada, aconteceu algum problema? Pegue o seu
celular e chame os contatos! Por isto é sempre bom ter uma
boa lista de contatos.
No nosso caso, estávamos limitados ao nosso amigo,
jogador do time do estado vizinho. Pensei que não era muito
promissor isto, mas naquele momento era o que tínhamos.
O angolano pegou o celular e muito visivelmente aos
policiais fez a ligação. Para dar um tom ainda mais sério, falou
em russo para deixar claro a intenção daquela chamada
(depois continuou o resto da conversa em português). Percebi
que os policiais se entreolharam.
- Opa, está dando certo! - pensei naquele momento.
O angolano explicou a situação para o brasileiro e
perguntou se seria possível alguma “saída” deste caso.
Obviamente, sempre existe uma solução!
Os policiais chamaram o angolano para dentro da
viatura. Assisti-os conversando lá do outro lado da estrada. O
angolano com o telefone na mão, à meia altura e o policial
gesticulando, aparentemente mais amistosamente. O policial
que estava anteriormente inspecionando o carro aproximou-se
e começou a perguntar sobre o Brasil, futebol e carnaval. Os
ares estavam mudando e o vento começou a soprar em nosso
favor.
Após alguns minutos de conversa, o angolano sai
sorridente do carro da patrulha. O policial russo também com
ar mais amigável veio em minha direção.
- Viva o Brasil! Não queremos ter um escândalo
internacional por coisas tão pequenas, não é mesmo? -
sorrindo disse o policial.
- De maneira nenhuma! - sorri de volta.
- Veja bem meu jovem, o documento está errado, mas
deu para entender que foi um problema de digitação. Vou
liberar vocês por entender isto, mas não posso garantir que
outro será tão compreensível. Aconselho a trocar logo este
documento aqui.
- Sim, senhor, eu farei isto imediatamente quando
chegar em Krasnodar.
Logo fomos liberados e pudemos sair com o carro. Eu
não via a hora de estar longe daquele lugar. As pernas
pararam de tremer somente depois de alguns minutos.
Alguns quilômetros depois, outra patrulha nos parou.
Pensei que iríamos começar tudo de novo. Ao parar o carro, o
policial chegou perto da janela do lado do angolano para pedir
os documentos. Antes mesmo do policial se apresentar, o
angolano já saiu disparando:
- Vocês não têm jeito mesmo, os caras lá de trás já
andaram passando o rádio para vocês aqui não é!!! - com um
tom de desabafo.
O policial reagiu imediatamente:
- Vocês motoristas sempre pensam que estamos
combinados não é? Não tem nada disto aqui não cidadão! -
respondeu asperamente.
Começou uma pequena discussão sobre a ética policial
ali mesmo. Eu pensei que desta vez tudo estava perdido.
Iríamos ser presos por desacato à autoridade, ou qualquer
coisa do tipo.
O angolano passou os documentos para o policial
enquanto discutiam. O policial nem prestou atenção no
documento e continuou a discutir com o angolano sobre o
assunto em pauta. Após alguns instantes, que para mim
duraram minutos, o policial nos liberou, dando a última
palavra:
- Está bem, podem ir!
O angolano pegou os documentos, engatou a marcha e
saímos dali rapidinho. Enquanto saíamos, o angolano deu
uma olhada para mim e sorriu, com ar de moleque maroto. A
tática havia dado certo!
Perguntei então, agora já aliviado por saber que
estávamos fora do raio de ação da polícia, pois já havíamos
cruzado a região onde eles costumavam ficar, o que acontecera
lá atrás, na primeira patrulha.
- Simples! Liguei pro nosso amigo na frente dos
guardas. Eles perceberam que tínhamos algum contato.
Perguntaram quem era, e disse que era fulano, que estava no
time tal. Ele tem acesso ao chefe da polícia da república que
estávamos. Ainda por “coincidência”, ele conhece o chefe da
polícia aqui da região… Assim sendo, o caso iria se arrastar até
algumas instâncias e por muito tempo, até todo mundo ligar
para todo mundo. O que eles não querem é “alguém” lá de
cima tendo que passar um rádio para uma patrulha de estrada
liberar alguém (nós).Além disto, eles estavam ha mais de meia
hora nesta questão conosco, e se ficássemos mais tempo lá
esperando, sabendo que a possibilidade deles terem que nos
liberar sem questionamentos, estariam perdendo de atacar
outros carros na estrada. E isto era muito ruim para eles.
Resultado, “não queremos ter um escândalo internacional por
coisas tão pequenas, não é mesmo? - sorriu o angolano!
Depois de algumas horas, já na escuridão da noite que
caia sobre Krasnodar, chegamos exaustos da aventura, mas
com muitas histórias para contar.
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Estas aventuras pelo interior do sul da Rússia foram
espetaculares, pois foi importante para conhecer as pessoas,
paisagens, conhecer a realidade em que vivem os povos
minoritários dentro da Federação.
Vimos de perto algumas das problemáticas de região,
ao vivo, ali em nossa frente. Realmente é uma pena que o
Cáucaso seja um local de instabilidade política, pois há muitas
coisas belas que poderiam ser apreciadas pelos turistas. A
cultura local é muito forte e rica. Como dissemos
anteriormente, aquela região tem milênios de história, guerras,
conquistas, culturas, contradições e amores. As lendas, o
folclore, as cosmo visões, ideologias, costumes, tudo isto faz
do Cáucaso um lugar absolutamente único no mundo.
POLO NORTE: SALEKHARD
Era uma tarde muito quente de verão. Estávamos na
estrada para a praia, no carro de uma família de russos,
amigos nossos. A conversa era despretensiosa, daquelas que
vão fluindo, para passar o tempo.
Não lembro ao certo por que chegamos num
determinado assunto, mas de repente o amigo russo virou-se
para mim e perguntou:
- Você não gostaria de lecionar uma matéria na nossa
instituição, lá em Salekhard?
Fiquei surpreso com a frase, mas mostrando
serenidade e tentando não perder o controle da conversa,
disse:
- Claro, seria um prazer poder ajudar!
- Ótimo, pois estamos precisando de alguém para ir lá
neste semestre. Seria uma matéria no estilo “Intensivo”. - disse
o russo, expressando certa alegria.
“Muito bem”, pensei, “agora só falta saber onde fica
este lugar!”.
- Mas Vladimir, onde fica exatamente Salekhard?
- Ora, fica lá no norte, na região polar! - respondeu
friamente.
Confesso que uma mistura de sensação de aventura e
pavor tomou conta de mim. O que ele queria dizer exatamente
com “região polar”? Quão distante isto poderia ser? Quanto
dinheiro eu precisaria levantar para ir até lá? Quanto tempo
isto levaria? E mais importante, de que temperaturas
estávamos falando?
Os próximos quilômetros de estrada serviram para
uma conversa que deveria lançar alguma luz sobre estes
pontos obscuros. Eu estava ansioso para ver um mapa, saber
mais detalhes da viagem. Mas quando se vai para a praia, não
se leva um mapa das regiões polares! Tive que me contentar
com as explicações do amigo e esperar voltar para casa e
finalmente achar Salekhard num mapa.
Ficou acertado que iríamos juntos para lá. Esta seria
uma viagem de mais de 3300 km desde Krasnodar até
Salekhard, e fui informado que o meio mais barato de ir até lá
seria de trem, e que esta experiência era única. O trem saía de
Moscou e levava 47 horas até chegar à Labytnangui, o ponto
final da ferrovia. De lá, precisaríamos ainda atravessar o rio
Ob’ e andar mais alguns quilômetros até chegar ao destino
final.
Por causa das aulas na universidade em Krasnodar,
resolvi ir de avião até Moscou, de lá pegar o trem até
Labytnangui. Depois, voltaria tudo de avião.
Para isto, consegui levantar o valor total das passagens
junto com amigos do Brasil e fui comprar as passagens aéreas.
No aeroporto de Krasnodar havia o guichê da única
companhia que fazia vôos para Salekhard.
- Quero uma passagem de Krasnodar para Salekhard! -
disse para a senhora que estava atendendo.
- Passaporte. - secamente falou a mulher.
Tirei o passaporte do bolso e entreguei para ela. Ela
pegou e deu algumas folheadas e disse:
- Estrangeiro? Você quer ir para Salekhard? Não tenho
certeza se pode, pois acho que esta é uma zona fechada (para
estrangeiros)!
Pensei que havia entrado num túnel do tempo, e caído
na União Soviética novamente. Olhei para a senhora e pedi se
poderia verificar isto. Ela pegou o telefone e começou a fazer
algumas chamadas. Liga, desliga, liga de novo, conversa
daqui, conversa dali. De repente, ela desaparece atrás de uma
porta com o meu passaporte, visto e registro de residência na
cidade. Pensei, “pronto, acabou a aventura sem ao menos
começar!”.
Depois de uns minutos, ela volta com os documentos e
diz:
- Está tudo bem, Salekhard não é mais zona fechada!
Logo fiquei imaginando os motivos para que um dia
ela o fosse! Posteriormente isto ficaria claro.
Chegando o dia da viagem, a maior aventura de todas,
liguei para meu amigo russo que iria junto. Ele precisou ir
para Salekhard uns dias antes da nossa viagem marcada e
teria que voltar quando eu chegasse lá.
- Ótimo! Como vou, sozinho? - perguntei ainda
desnorteado.
- Não tem erro, é só entrar no trem e ir até lá.
Chegando na ferroviária, alguém irá te pegar.
“Fantástico”, pensei. Mas voltar atrás já não seria
possível, pois tudo estava comprado, e conseguir reembolso,
naquele valor todo, na Rússia, estava fora de qualquer sonho.
No dia marcado, peguei o avião até Moscou e de lá fui
para a ferroviária. Tudo certo. Passei a tarde toda na
plataforma de embarque, vendo as horas passarem
lentamente. Já no escuro da noite o trem parou na plataforma e
pude finalmente embarcar. Estava ansioso em pensar quem
seriam os colegas de cupê (4 camas). Havia ouvido muitas
histórias de como os russos bebem, vomitam, roubam, etc.
Mas felizmente o pessoal era calmo, um senhor de idade, bem
humorado (para os russos) e, depois, uma senhora com uma
criança, que subiu ao trem no caminho.
A parte boa é que a viagem inicia quando já é noite, e
não há muito que fazer, a não ser arrumar as malas no
compartimento e preparar-se para dormir. Posso dizer que o
balanço suave do trem sobre os trilhos é realmente algo muito
atrativo para o sono.
Na manhã seguinte, já em algum lugar da vasta
planície russa, acordo pensando num café da manhã. Ir até o
vagão restaurante? Nem pensar! Caro demais. A solução é
viver à moda russa. Abrir a mesinha, tirar das sacolas os
produtos alimentícios e colocar tudo de forma que caiba na
pequena tabuleta. Por outras experiências, já sabia que as
refeições na cabine acabam por ser comunitárias. Cada um
coloca o que tem e dizem: “Ugashaytes’!!!” (sirva-se!). Sem
cerimônias, cada um pega um pedaço de pão, prepara um chá
quente com a água que pegou no samovar no corredor do
vagão. Neste ambiente informal rolam as conversas sobre
quem somos, de onde e para onde vamos, família, enfim, sobre
a vida. Isto serve para passar o tempo e conhecer um pouco
uns dos outros. Para mim isto era fantástico, pois podia ter
contato com pessoas simples, com vidas que passam
despercebidas dos jornais e TVs. É a vida como ela realmente
é.
As infinitas paradas do trem em cada estação ao longo
do caminho são uma atração à parte. Em cada uma delas
sempre existe um batalhão de vendedores, especialmente
senhoras idosas, que parecem ficar o dia à espera da chegada
do trem. Elas vendem de tudo, desde alimentos até roupas.
Quando o trem para, os passageiros saltam para dar uma
caminhada e fumar e, quem sabe, encontrar algo de
interessante que esteja sendo vendido pelas babushkas.
Por incrível que pareça, as 47 horas de viagem passam
desapercebidamente. Uma conversa aqui, outra dormida ali,
aproveitando o embalo gostoso do trem, um livro aqui, outra
caminhada pelo vagão ali.
O que mais me distraia era ficar olhando para a
paisagem. No primeiro dia, o trem cruzou florestas, pois as
árvores sempre estavam ao lado da ferrovia, era a taiga russa,
que é maior em extensão que a nossa Amazônia. Como
estávamos no final de setembro, já no outono russo, a cor era
uma mistura de verde, amarelo e marrom, pois logo o frio e o
inverno chegariam, quando tudo muda de cor, perdendo-se
completamente o verde. No segundo dia, as árvores foram
ficando cada vez mais escassas, e se podiam ver agrupamentos
delas em pontos um pouco distantes dos trilhos da ferrovia.
Na maior parte já se via apenas as planícies. Antes mesmo do
início da tarde, chegamos numa região que praticamente só
havia vegetação rasteira. Poucas horas depois, estávamos na
Tundra. Para olhos acostumados com árvores, verde, animais,
pássaros, parecia que a tundra era um lugar morto, destituído
de formas de vida. Logicamente que um olhar mais atento
revela que a vida está presente, mas em formas diferentes,
mais contextualizadas com o clima da região.
Já no meio da tarde cruzamos a linha do Círculo Polar
Ártico. Chegamos à estação chamada “Polar”. Uma parada e
uma descansada antes de prosseguir. Impressiona o silêncio
deste fim de mundo. Olhar ao redor e não ver nada a não ser o
horizonte e as planícies a perder de vista. Devido ao fato de
ainda estarmos no outono, apesar do frio que fazia no
momento, a paisagem estava amarronzada, devido à lama que
se estendia por todos os lados. Parecia que a neve do inverno
passado acabara de derreter, e formava verdadeiros lamaçais
por todos os lados.
Pouco depois de sairmos da estação, apareceram os
montes Urais, que separam a Europa da Ásia. Esta cadeia de
montanhas se estende de norte a sul, por mais de 2500
quilômetros, desde o Oceano Ártico até as estepes desérticas
do Cazaquistão.
De repente o tempo mudou. O sol desapareceu e uma
nuvem vinda dos Urais cobriu o céu ao nosso redor. Em
alguns segundos percebi que, “do nada”, estava nevando. Era
uma neve fraca e molhada, como dizem os russos. Ela não
ficava acumulada, mas mostrava que a temperatura estava
caindo rapidamente. Olhei pela janela da nossa cabine e
percebi que algumas montanhas dos Urais estavam ficando
esbranquiçadas. Depois de algum tempo, as montanhas
estavam mudando de cor, e cada vez mais parecia que a neve
veio para ficar. Parecia que alguém estava espalhando açúcar
confeiteiro sobre os montes, e podia-se ver todo o processo
dali do trem.
Para atravessar da Europa para a Ásia, precisávamos
passar por um vale entre as montanhas. Ali do lado direito do
trem corria um rio, aparentemente raso, mas com águas
turbulentas. O trem ia calmamente ziguezagueando pelo vale.
Por alguns momentos ficamos com as montanhas quase que a
tocar o lado esquerdo do trem. Depois de algum tempo, que já
não me recordo mais, saímos do extenso vale. Estávamos na
Ásia!
A chegada em Labytnangui se deu já à noite, por volta
das 19h00min. Eu peguei as malas e desci na estação. Apesar
de já não haver tantas pessoas no trem, a plataforma se
encheu, especialmente devido ao número de pessoas que
vinham recepcionar os parentes, amigos e conhecidos que
chegavam de tão longe.
Eu estava sozinho, sem nenhum conhecido naquele
lugar. Comecei a andar pela plataforma, esperando ver ao
menos o rosto conhecido de meu amigo Vladimir. Nada! Fui
de um lado para o outro algumas vezes, enquanto a
plataforma se esvaziava. Comecei a ficar angustiado. As
perguntas começaram a surgir: Será que vai vir alguém me
buscar? Será que o pessoal sabe que estou chegando hoje? Para
onde eu vou?
Em alguns instantes a plataforma estava praticamente
vazia, e eu comecei a pensar num plano de emergência
enquanto andava em direção ao prédio da ferroviária para me
abrigar do frio que já fazia. Nisto, um homem que passava por
mim perguntou meio sem jeito:
- Desculpe, sei que parece estranho, mas
eventualmente você não seria brasileiro? - percebendo como
poderia parecer estranho uma pergunta como estas num lugar
como aquele.
- Sim, sou eu! - respondi aliviado sabendo que não
deveria haver outro brasileiro naquela estação.
- Que bom, achei que teria ocorrido algum imprevisto!
- continuou o russo, com uma feição de alívio.
Alguns metros adiante ele disse que estava lá na
estação já havia um bom tempo. Ficou assustado com a
possibilidade de eu ter me perdido ou “extraviado” pelo
caminho até ali. Ambos sorrimos, felizes por tudo estar em
ordem.
- Na verdade eu estava procurando pela plataforma
uma pessoa mais “morena” - confessou finalmente o russo.
Quando percebi que todos haviam ido embora e vi você lá,
pensei que tudo estava perdido, mas resolvi arriscar, mesmo
imaginando como eu iria parecer um idiota ao perguntar para
um estranho, aqui no Pólo Norte, se ela era um brasileiro!
Encontramos um amigo do russo lá no prédio da
ferroviária e fomos para o carro. Depois de algumas viradas
para a esquerda e para a direita, chegamos num lugar que
havia uma cancela. O carro parou e todos descemos.
- Daqui o caminho é a pé até a balsa. - apontava o russo
para um caminho por onde pessoas desciam até um barco que
mal se conseguia ver na escuridão.
Andamos uns 300 metros até chegar perto da balsa. Os
russos que estavam comigo apertaram minha mão e disseram,
que do outro lado do rio estariam me esperando. Olhei para os
dois esperando que aquilo fosse um trote, uma brincadeira.
Mas não, era exatamente isto que iria acontecer, iam me deixar
ir sozinho na balsa e continuar a aventura do outro lado.
O vento era muito forte e gelado. Deveria estar perto de
zero grau naquele momento. Eles me disseram para ficar
posicionado entre os carros, se possível abaixado para escapar
do vento. Após alguns minutos, uns 10 pareceram-me,
chegamos do outro lado. Um farol foi ligado lá na parte de
cima da balsa. Pareciam aqueles usados nas baterias antiaéreas
da Segunda Guerra Mundial. Ele apontava para a margem,
como que se estivesse buscando algo. Logo percebi que
buscava um local apropriado para encostar em terra.
O vento estava muito forte, e a balsa não conseguia
“atracar”. Balançava muito e o capitão tentou três vezes se
aproximar do barranco. Na última, tive a sensação que ele já
estava cansado de tentar achar um ponto ideal e simplesmente
ousou uma manobra, forçando a barca contra o barranco.
Felizmente deu tudo certo, creio que a experiência tenha
falado mais alto do que as regras.
Desci da barca pensando que estava novamente
sozinho no fim do mundo. Esperava ainda ver o rosto de
Vladimir, mas nada. Percebi dois homens acenando em minha
direção. Identificaram-me graças à descrição que os outros do
outro lado do rio passaram. O que eu mais queria naquele
momento era entrar num carro quentinho, e sair daquele
vento. Fomos até o estacionamento onde estava o carro e
entramos num Lada Niva. Ainda havia alguns quilômetros
para seguir até Salekhard.
Chegamos ao lugar onde eu deveria ficar. O russo,
responsável por mim naquele local, me perguntou se eu
desejava algo.
- Eu gostaria de tomar um banho, pois já fazem três
dias que saí de casa! - respondi com ar de quem realmente
estava de viagem há tanto tempo e desesperado por um alívio
que um banho quente poderia dar.
- Banho? - perguntou o russo sorrindo - Aqui banho é
só na sexta-feira, e hoje é domingo. Na sexta-feira nos
reunimos com os amigos e vamos para a sauna.
Não percebi em seu rosto sinal de uma brincadeira de
mau gosto. Suas palavras eram estritamente sérias. Meu
desalento deve ter comovido o meu novo amigo e ele disse
que daria um jeito qualquer para providenciar um “banho”.
Arrumei-me no quarto improvisado (que na realidade era o
escritório do meu anfitrião). Ao menos ali estava quentinho.
Alguns minutos depois o russo entra no quarto e me
diz que conseguiu conversar com um amigo que tinha um
chuveiro em casa. Comecei a acreditar na história da sauna e
da sexta-feira! Chegamos à casa de pessoa, que amigavelmente
me mostrou o banheiro onde havia uma ducha. Vi na parede
do banheiro dois filtros de água, que já estavam absolutamente
marrons. Percebi que o cano que saia do último filtro ia até o
chuveiro. Ao abrir a torneira da pia, percebi por que dos
filtros. A água saia marrom, com um odor absolutamente
insuportável. Ao abrir o registro (que era o chuveiro), reparei
que os filtros precisavam ser trocados logo. Mas “cavalo dado
não se olha os dentes”- diz o ditado popular.
Voltei para o meu reduto, se não totalmente limpo, ao
menos com sensação de alívio e dever cumprido. Dormi um
sono pesado. No meio da noite, por volta de umas 4 da
madrugada, a porta se abriu e uma luz chata entra no quarto,
despertando-me. Percebi que havia duas pessoas entrando,
uma era meu anfitrião, o outro era Vladimir, que deveria ter
ido comigo no trem.
- Acorda - disse Vladimir. Foi bem de viagem? Está
tudo bem? Estou passando aqui para te dizer que estou
voltando para Krasnodar agora, pois tenho alguns
compromissos lá. Não se preocupe, as aulas estão de pé. Deixo
você com o seu anfitrião. Você está em boas mãos. Agora
dorme e descanse.
Lembro que pensei muitas coisas, mas nada que possa
escrever aqui. Voltei a dormir, esperando que as coisas
ficassem realmente bem dali para frente.
Salekhard é uma cidade relativamente pequena com
pouco mais de 40 mil habitantes. Ela se localiza a 2400
quilômetros da capital, Moscou. No local da atual cidade foi
fundada, em 1595, pelos cossacos, uma fortaleza. Ela servia
como ponto de contato entre os povos nativos e o
expansionista Império Russo. Esta fase acontece num período
em que a Rússia abriu seus olhos para as terras “sem donos”
ao leste de Moscou. As tribos destas regiões foram sendo
dominadas e subjugadas pelos czares. Nesta região específica
da futura Salekhard, habitavam majoritariamente as tribos
nenets e khanty. A atual população local ainda continua sendo
constituída em sua maioria de descendentes destas tribos.
Visitei o local onde foi fundada a fortaleza, que
atualmente virou um museu. Ela ficava numa barranca
localizada num dos afluentes do rio Ob’. Sua posição
estratégica facilitava a ligação com os nativos, que logo
buscaram estabelecer um comércio com os cossacos.
Salekhard é a capital da região autônoma de Yamalo-
Nenets, nome advindo da maior tribo, os nenets. Ainda existe
o fato curioso da região ser conhecida como Yamalo, que na
língua nenets significa literalmente “Confins da Terra”. Não é
preciso muito para se adivinhar o porquê deste nome.
Para compreender um pouco da cultura local e
entender a história da região, resolvi visitar um museu que
ficava fora da cidade, numa aldeia perto de Salekhard. O local
foi criado com o objetivo de preservar uma coleção etnológica
dos povos da região. Lá estão expostos ao ar livre os modos de
vida dos povos locais khanty e nenets. As tendas destes se
assemelham muito com as que vemos nos filmes dos índios
americanos, em formato de cone. É possível ver uma aldeia
inteira montada, com os trenós, as tendas feitas de peles de
rena, roupas típicas feitas de pele de animais, capazes de
suportar frio de até 50-60° C negativos, enfim, tudo o que estes
povos usavam e ainda usam no interior da região.
Em outro museu, no centro da cidade, é possível ver
peças iguais, mas a atração principal fica por conta dos
mamutes. Foi nesta região, em maio de 2007 que foi
encontrado um filhote de mamute. O fato de serem
encontrados restos de mamutes na região não era novidade
alguma, mas o que tornou Lyuba tão famosa foi que nunca
havia caído na mão de estudiosos um exemplar de mamute
tão bem preservado. Segundo os especialistas, Lyuba, um
filhote de cerca de um ano, havia caído num buraco, numa
região pantanosa, sendo logo congelada pelo frio e neve da
região. Infelizmente, quando cheguei à Salekhard, Lyuba havia
sido levada ha pouco tempo para Tóquio, onde seria estudada
com o auxílio de uma alta tecnologia desenvolvida pelos
japoneses, que auxiliariam num estudo completo da anatomia
do filhote ilustre de Salekhard. Os mamutes são tão
importantes para a região, que na entrada da cidade existe um
grande monumento (em tamanho real) de um mamute, na
colina pela qual passa a estrada que vem da beira do rio Ob’,
onde a barca faz a travessia.
Encontrar mamutes, segundo Pyotr, um nenets ex-
caçador profissional do interior da região, é algo relativamente
comum. Contou-me que mesmo ele já provara da carne de
mamute. Segundo Pyotr, os nativos encontram partes de
mamutes em suas andanças pela região, pois são povos
nômades, vivendo da criação de rebanhos de renas.
- Quando o degelo é mais intenso, às vezes parte de
carcaças escondidas lá por milhares de anos acabam
aparecendo no solo. Os nativos não têm muita preocupação
histórica e científica, mas têm fome. Isto fala mais alto num
lugar onde comida é algo extremamente escasso - afirmou.
Não posso culpar os nativos, mas fica claro que muito
do que poderia ser aproveitado pela ciência, acabou virando
iguaria para os povos locais.
- No tempo da URSS, lembra Pyotr, a carne de mamute
era consumida como algo muito especial. Com o tempo, e
como cada vez com menos frequência se encontrava esta
carne, a prática foi sendo deixada de lado.
Durante muitos anos não foi somente a carne que
despertou a cobiça das pessoas pelos mamutes. O Marfim de
suas presas alcançava preços exorbitantes, e o comércio ilegal
deste produto fez com que uma verdadeira caçada aos
mamutes congelados se desse em toda a Sibéria, incluindo
Yamalo-Nenets. Alguns dizem que a prática ainda continua
nos dias atuais, apesar de estar muito abaixo dos índices do
século XX. Esta queda se deve à ação dos historiadores,
governo local, mas principalmente pela escassez cada vez
maior do produto natural.
Sem Lyuba, tive que me contentar em ver ossos de
mamutes expostos no museu, e uma placa mostrando o local
onde havia ocorrido a exposição do mamute famoso. Pude
tirar algumas fotos, andar por ali, ouvir histórias sobre os
mamutes. Foi um dia muito interessante, especialmente para
um historiador como eu.
Não comi carne de mamute, mas tive a oportunidade
de comer a de rena. Fui convidado para ir à festa de
aniversário de Pyotr, e ele me ofereceu uns pedaços de carne.
- É carne de rena, coma… deliciosa! Atualmente em
Salekhard ela é muito rara, uma verdadeira iguaria!
Senti-me honrado. Pela textura e sabor, lembrou-me
muita da conhecida “carne de sol”, que havia comido nos
tempos que morei em Brasília. Mas, para mim, gaúcho, faltou
um sal e uma gordurinha. Tudo bem, aquilo não era uma
churrascaria, mas um aniversário nos “confins da Terra”.
Antes do começo das aulas, ainda tive tempo para dar
uma passeada pelo centro de Salekhard. A cidade surpreende
por seu colorido. Os prédios no centro são pintados com cores
vibrantes, quentes, amarelo, vermelho, azul, laranja, verde, etc.
E isto eu ainda não tinha visto na Rússia. Esta impressão deve
ter transparecido para meu anfitrião, Evgueny. Ele me contou
então que aqueles prédios pintados faziam parte de uma ação
do governo local.
- Até uns 10 anos atrás, disse ele, o centro de Salekhard
era feio e velho. Os edifícios da era soviética estavam em
estado precário. Mas a vinda das companhias e petróleo e gás
natural impulsionaram a economia local. Isto auxiliou na
reforma de todo o centro e alguns bairros da cidade. Se você
viesse há alguns anos atrás, não reconheceria Salekhard.
Ainda perguntei sobre as cores vibrantes, intensas dos
prédios.
- Sabe, a maior parte do ano, vivemos com neve, longas
noites. Esta é uma época em que muitas pessoas acabam se
deprimindo, ou mesmo se matando. Quando era o tempo
soviético, tudo era monocromático, tudo era cinza. O governo
então resolveu dar uma alterada nas cores, para melhorar o
clima da cidade, numa política anti-depressão.
Não sei exatamente o resultado deste empreendimento,
mas ficou claro que a medida acabou por tornar a cidade mais
colorida, e até mesmo alegre eu diria.
Neste momento, Evgueny apontou para a região
central.
- Está vendo aquele prédio na esquina? É a cede do
governo. Do outro lado da esquina, está o prédio da
companhia de gás, e na outra esquina o prédio da companhia
de petróleo, exatamente no cruzamento das duas principais
ruas de Salekhard. - explicou
Aquela configuração demonstrava efetivamente a
importância destas companhias para o local. A Região
Autônoma de Yamalo-Nenets é a maior produtora de gás
natural da Rússia, que por sua vez é a maior produtora do
mundo. O gaz aqui extraído é levado para a Europa para
abastecer as indústrias de lá. Assim como o gás, o petróleo
explorado nas regiões mais próximas do Ártico, na península
ao norte de Salekhard, gera muitos recursos. Muitas pessoas
vieram do interior da região e até mesmo de outras localidades
da Rússia para a cidade em busca de melhores condições de
vida, e dos salários altos oferecidos pelas companhias.
Comecei a entender por que aquela senhora no aeroporto de
Krasnodar estava na dúvida sobre a abertura da zona de
Salekhard para visitação estrangeira!
Mas apesar de todo o desenvolvimento da cidade,
Salekhard guarda uma ferida, que não está totalmente
cicatrizada. O nome desta ferida é “Linha Transpolar”, a
ferrovia que Stalin mandou construir secretamente em 1947.
Este projeto foi concebido em 1928, e depois recebeu o
nome de “a Grande linha férrea do Norte”. No processo de
construção da estrada, que durou de 1947-1953, ela foi
oficialmente chamada de Projeto №501 e №503. Esta
nomenclatura escondia atrás de si, o nome secreto "Ferrovia
Chum - Salekhard - Igarka", assim chamada pelo trajeto que a
estrada deveria ter. Stalin queira interligar todo o norte da
Rússia, indo dos portos de Murmansk e Archangelsk no mar
do Norte até o outro lado do país, ficando a estrada sempre
dentro do Círculo Polar Ártico.
Este era um plano audacioso e muito arriscado. As
condições do clima e do terreno não favoreciam em nada a
construção. O solo eternamente congelado de algumas regiões
era um desafio para os técnicos. Além disto, havia os
pântanos, rios, lagos e montanhas pelo caminho. Algumas
estimativas dão conta que mais de 80 mil pessoas foram
utilizadas na construção deste mega-projeto. Em geral, foram
presos políticos, religiosos e dissidentes do stalinismo que
tiveram parte nesta empreitada. O número de mortos na
construção, devido às mais diferentes adversidades rendeu à
ferrovia o apelido de "estrada da morte", que aparece em
fontes escritas nos anos de 1960.
Estes presos eram alojados precariamente nos famosos
Gulags soviéticos (abreviatura em russo para Direcção-Geral dos
camposde trabalho corretivos) ou em outras palavras, campos de
prisioneiros. Estes presos eram tirados de suas cidades e
familiares e enviados para trabalhar nos lugares mais remotos
do país, especialmente na Sibéria. Muitos dos prisioneiros
eram pensadores, ativistas políticos, elite intelectual do país,
sacerdotes, que tinham pouca ou nenhuma habilidade em
trabalhos pesados como os que tinham que fazer nestes
campos. Isto fazia com que rapidamente adoecessem e
morressem. O intenso frio do inverno siberiano acabava por
fazer o resto do trabalho.
Em Salekhard, perto do centro, Evgueny mostrou
alguns galpões de madeira onde disse haver funcionado um
Gulag nos tempos de Stalin.
- E este não é o único. Existem muitos outros
espalhados pelo interior, pois conforme a ferrovia ia sendo
construída, os Gulags acompanhavam este progresso. -
afirmou.
Então Evgueny me contou que ele era descendente de
um destes prisioneiros. Seu avô havia sido condenado pelo
regime e enviado para a região a fim de trabalhar na ferrovia.
A esposa tinha as crianças ainda pequenas, e não tinha como
se sustentar.
- Minha avó pegou as crianças e veio atrás de meu avô.
Ela enfrentou fome e frio para chegar aqui. Houve muito
sofrimento naquela época para todos! Ela veio atrás de meu
avô por amor.Ao chegar aqui viu que muitas outras mulheres
largaram suas vilas e aldeias para estarem mais perto, de
alguma forma, de seus maridos.
Fiquei ouvindo aquela história, que poderia virar um
romance, um filme. Lembrei do filme “Doutor Givago”, que
conta história de amor e sofrimento na Rússia revolucionaria.
Muitos que hoje moram em Salekhard são descendentes
daqueles homens e mulheres vítimas dos tempos loucos do
século XX.
Com a morte de Stalin em 1953, a ferrovia foi
abandonada, e o projeto todo arquivado. Algumas famílias
acabaram por se estabelecer ali, outras foram embora para
suas regiões, mas milhares não tiveram a mesma sorte, ficando
sepultadas embaixo da própria ferrovia que ajudaram a
construir.
Ainda se podem ver alguns trilhos soltos e retorcidos
nas planícies, alguns montículos que serviam para elevar a
ferrovia em regiões propensas a alagamentos. Na entrada de
Salekhard está exposta em forma de monumento a locomotiva
que seria usada na estrada. Ela fez uma única viagem por uma
parte do trajeto. Nesta ocasião, ela atravessou sobre o rio Ob’,
em trilhos lançados no chão, no inverno, quando o rio tinha
uma camada de gelo espesso o suficiente para suportar o peso
colossal da máquina e dos vagões. A locomotiva está lá, como
um memorial à estupidez e a megalomania de homens no
poder.
Mas Salekhard também é conhecida como a única
cidade no mundo que é cruzada pela linha do Círculo Polar
Ártico. O monumento à esta excentricidade local fica a poucos
metros da locomotiva. O meu amigo Evgueny me explicou que
após uma lei nacional que concede alguns privilégios e
salários maiores à trabalhadores que moram na região polar,
os setores da cidade que ficavam depois da linha tiveram uma
procura muito grande para moradia. Na prática, eles apenas
trocaram de bairro!
Apesar do frio e do tempo sempre nublado daqueles
dias que estive na cidade, não houve ocorrência de neve.
Disseram-me que alguns dias antes havia ocorrido o fenômeno
da Aurora Boreal, e que isto poderia acontecer a qualquer hora
de novo. Durante a noite, algumas vezes pude sair para a rua e
ficar olhando o céu estrelado, à espera deste fenômeno impar.
Não tive sorte. A única coisa que pude ver eram satélites
cruzando a imensidão. “Vai ficar para uma próxima vez”,
pensei. Mas haveria uma próxima?
Depois de terminada as aulas que estava lecionando,
era hora de partir. Lamentei muito o fato de deixar pessoas tão
especiais. Conheci gente realmente fantástica, como Bóris, o
meu anjo-da-guarda, que sempre me ajudou em tudo. Pyotr,
que me deu aulas sobre a sabedoria de seu povo nenets,
cultura e modo de vida. O jovem Oleg, que também me
ensinou muitas coisas sobre a região, além de conversar muito
sobre coisas da vida.
Evgueny me levou até o moderno aeroporto de
Salekhard, construído com o forte impulso da economia local.
Tudo naquela cidade mostrava uma tentativa de olhar para o
futuro, tentando provavelmente fechar as feridas de um
passado recente tão trágico quanto a era stalinista.
Despedi-me pensando em voltar, ao menos mais uma
vez.
Após minha partida do aeroporto de Salekhard,
naquele mesmo dia, cairia a primeira neve do outono na
cidade.
SALEKHARD, O RETORNO
No final de novembro, após ter ido até Salekhard,
estava numa conversa com um colega professor brasileiro que
havia morado na Sibéria por um ano em 1994. Ele tinha
vontade de voltar para a Rússia e sentir todas as mudanças
pelas quais o país passara, pois quando esteve lá, a Rússia
apenas estava saindo de uma forma de economia baseada no
controle estatal total (socialismo) e dando os primeiros passos
em direção ao capitalismo que, como dissemos anteriormente,
tomou contornos com feições próprias.
Contei a experiência que tivera em Salekhard, e que o
instituto lá poderia necessitar de um professor na área que ele
lecionava, História. Ele ficou muito empolgado e incendiou
ainda mais a minha vontade de voltar. Ele daria a aula e eu
seria o auxiliar técnico e tradutor. Agora era ver com o
Vladimir, meu amigo responsável pela extensão do instituto lá
em Salekhard, se seria possível um retorno nestas condições,
pois o professor brasileiro teria que vender o carro para pagar
as despesas todas de seu próprio bolso..
Vladimir disse que não teria problemas e ele poderia
agendar uma viagem para fim de fevereiro e início de março,
já que o brasileiro precisava voltar para o Brasil antes do início
do ano letivo na escola onde dava aula. E assim começamos os
planos para uma nova aventura para o Ártico.
No final de fevereiro nosso amigo brasileiro chegou à
Krasnodar. Sim, a Rússia tinha mudado muito desde que ele
estivera por lá. Segundo ele, muitas coisas estavam melhores,
mas igualmente se queixou dos ares saturados com a voraz
fome do capitalismo russo. Era a Rússia tentando
experimentar novas possibilidades em sua economia, diriam
alguns
Fizemos os planos e ajustes finais. Compramos as
passagens e mantivemos o mesmo roteiro da minha primeira
viagem. De Moscou até nosso destino final iríamos de trem, o
resto do caminho faríamos de avião. Desta vez não ocorreram
surpresas ao comprarmos os bilhetes.
Embarcamos no primeiro dia de março. Na mesma
manhã que saímos de Krasnodar, uma forte neve caiu sobre a
cidade, prenuncio de que os dias seriam muito frios,
especialmente nas regiões polares. Apesar de o inverno
oficialmente na Rússia acabar no último dia de fevereiro, as
temperaturas custam a subir por pelo menos mais algumas
semanas. Não é raro nevar em março, ou mesmo em abril. Em
Moscou, até em maio existe a possibilidade de uma neve.
Apesar do horário ser igual, o trem no qual estávamos
para embarcar era outro. Se na primeira vez ele foi um
“comum”, agora era o famoso “Flecha polar”, um pouco mais
moderno e confortável, segundo a pessoa que vendeu os
bilhetes. Não notei muita diferença, mas com certeza elas
existiam. Em Moscou caia uma neve fraca na hora da partida.
Eu estava na expectativa de quem seriam os outros dois
companheiros de viagem no cupê, pois isto sempre era um
fator a ser levado em conta. Tivemos sorte, um deles era um
senhor de idade, tranqüilo. Meu amigo brasileiro, na casa dos
50 anos, ficou mais com o velhinho. O outro companheiro era
um jovem, que ia visitar a família no interior. Ele trabalhava
como dublador em desenhos infantis. Isto me ajudou a
desenvolver uma conversa que se estendeu por toda a viagem.
Devido ao fato de ter duas crianças, eu e minha esposa
tínhamos o privilégio de rever os desenhos que assistíramos
na nossa infância, além de colocar em dia todos aqueles
atrasados dos anos seguintes à infância. Fazíamos isto, pois
esta era a melhor forma de aprendermos russo.
No dia seguinte, após uma noite bem dormida (graças
ao balançar do trem), acordei com alguém levantando e
abrindo a porta da cabine. Olhei pela janela e a paisagem era
muito diferente daquela da primeira viagem. A região da taiga
estava com suas árvores completamente cobertas de branco.
Somente a cor dos troncos quebrava o alvo da neve. E esta
seria a paisagem que iria passar pela nossa janela o dia inteiro.
Saindo da cabine (cupê), via-se o movimento ainda
tímido das pessoas pelo corredor. Alguns estavam debruçados
sobre um corrimão que ficava abaixo da janela do corredor,
numa preguiça que não tinha hora para ir embora. Outros
seguiam até o lugar onde tinha água quente para fazer o chá,
que é algo sagrado para os russos.
Durante a noite ouvi alguns barulhos e parecia que
alguma discussão estava ocorrendo num dos cupês do vagão.
No dia seguinte o nosso colega de cabine confirmou o caso.
Parece que as funcionárias da companhia “Ferrovias da
Rússia” tiveram que lidar com ânimos mais exaltados de
alguns passageiros. O motivo do barulho não ficou bem claro,
mas o humor pouco amistoso das funcionárias naquela manhã
delatava o grau da seriedade do ocorrido. Agradeci por não
estar naquele número de cabine.
O dia passava numa lentidão proporcional ao
deslocamento do trem pela gelada paisagem. De vez em
quando eu abria a porta do vagão e ficava no espaço entre os
vagões apreciando com mais calma a paisagem. Ali não tinha
calefação como no vagão e por isto a temperatura era muito
próxima ao do lado externo do trem, o que dava para dar uma
ideia de como estava lá fora. Muitos russos apareciam por lá
para fumar, já que no vagão é proibido. Nestes momentos
acabavam minha silenciosa contemplação da paisagem, e eu
voltava para dentro.
A paisagem é totalmente impar. Para os olhos
desacostumados, ela parece monótona e sem vida. Mas as
belezas estão ali ocultas em certos momentos e gritantes em
outros. Ao longo dos trilhos da ferrovia, paralelamente corre
uma linha de postes de energia elétrica. Devido ao acúmulo da
neve nos pontos mais altos, pareciam cotonetes. Em alguns
pontos a neve acumulava ao redor dos fios, formando bolas,
como as que vemos nos fios de alta tensão nas estradas aqui no
Brasil (aquelas “bolas de basquete”).
De vez em quando passávamos por alguma aldeia
isolada perto da linha férrea. As casas cobertas pela neve se
denunciavam no meio do campo branco pela fumaça de suas
chaminés. Havia pequenos pontos distantes na paisagem, e
que após alguns segundos, podia se perceber serem pessoas
andando pelas estreitas ruas abertas entre a neve.
Em algumas destas vilas havia uma estação. O trem
diminua a sua velocidade e logo entrávamos na região da
plataforma, que nada mais era que um elevado de concreto e
cimento por onde as pessoas transitavam. Logo se percebia o
movimento das babushkas andando pelo local.
- Chegou o Strelka! (“Flecha”, nome do trem).
Este era o grande acontecimento do dia para o local, a
chegada dos trens. Ali, além das bebidas e comidas, sempre
presentes nestas plataformas, percebi objetos que não havia
visto na primeira viagem. Eram coisas próprias da estação fria,
como roupas, suéteres, cachecóis, etc.
Os poucos minutos que ficávamos em cada estação era
o sinal verde para os fumantes.Alguns nem mesmo se vestiam
adequadamente e desciam para poder ter mais tempo com o
tabaco. Em outras estações a parada prevista era um pouco
maior, o que dava tempo para descer e caminhar um pouco
pela plataforma, olhar os produtos que vendiam, respirar o
famoso “ar puro”. Era o tempo de viver a vida de viajantes por
uma das regiões mais frias do mundo. Quando tínhamos, pelo
horário marcado, este tempo (horário que era seguido
rigorosamente!), eu colocava o casaco que havia comprado
especialmente para aquela viagem e vestia uma segunda calça
e pulava do trem, para andar um pouco e se esticar. Cada
estação era uma atração à parte. Viajar e ficar trancado dentro
do trem o tempo todo por causa do medo do frio, isto não era
comigo. Eu precisava aproveitar para tirar fotos, caminhar
entre as pessoas e sentir o interior da Rússia.
Quanto mais ao norte, mas a paisagem ia se tornando
uma ditadura do branco. As árvores deram lugar à tundra.
Olhar para a paisagem era muito difícil, às vezes, pois o
branco acabava cegando depois de certo tempo de
contemplação.
Já no segundo dia de viagem, ao olhar pela janela,
pouca diferença havia entre o céu e a terra. A terra era um mar
de gelo, com uma cor branco-azulada. O céu estava nublado,
mas as nuvens eram tão parelhas e brancas como a neve, e em
alguns pontos quase azuis por serem menos espessas.
O trem me pareceu andar mais lentamente. Não tive
acesso à parte da frente do trem, a locomotiva, mas podia
imaginar que depois de um tempo de neve, os trilhos ficavam
cobertos e ocultos na paisagem, o que justificava o cuidado
maior do maquinista.
A estação mais esperada era a “Polar”, pois além de
indicar que estávamos relativamente perto do destino, ela era
a primeira dentro do Círculo Polar. Chegamos lá e o sol
lançava seus tímidos raios sobre a terra. Peguei meu casaco
apropriado para o frio e a máquina fotográfica, torcendo para
que não desse problema por causa do frio. Ao descer do trem,
pude sentir imediatamente o gelo no ar. Estava muito frio, e
apesar de não ter um termômetro em mãos na hora, a
temperatura devia estar abaixo dos 20 °C negativos. Neste
local a parada era mais prolongada, uns 40 minutos, o que
dava tempo para caminhar e tirar muitas fotos.
A paisagem era absolutamente surreal. A estação ficava
numa pequena elevação natural no terreno. Do lado esquerdo
da estação percebia-se o relevo alterado devido aos Montes
Urais. No lado direito, havia uma planície num nível mais
baixo de onde estava a estação. No lado esquerdo desta
planície era possível ver os montes Urais, totalmente cobertos
de gelo. A planície estava revestida com uma neve intocada,
nem as pequenas árvores apareciam direito, mostrando que a
camada era muito espessa. Justificável, num lugar onde a
temperatura sempre está muito abaixo de zero no inverno, e a
neve não derrete, ali estavam acumulados alguns meses de
gelo. E tudo estaria derretido apenas por volta do meio do
verão, para retornar a neve no início do outono.
Mas um fato me chamou a atenção. Havia um
contêiner ao lado da estação, em meio aos montes de neve
acumulado. Vi que um trilhozinho levava até lá. Vi pessoas
entrando e saindo daquele lugar e resolvi investigar. Descobri,
para meu espanto, que se tratava de um bar, ali mesmo, dentro
do contêiner. Depois reparei que as pessoas saiam de lá com
sacolas. Aquilo sim já era familiar, pois nas sacolas dava para
notar vodca, cerveja e cigarro. Não entrei lá, pois tinha outras
coisas para ver. Depois mostrei para meu amigo brasileiro que
deu risada.
- Isto sim é a minha Rússia!
Sempre atentos para o sinal de “vamos embarcar” que
o maquinista lá na locomotiva dava. Ficamos por perto, sem
dispersar muito.
Partimos então em direção aos Urais. Tudo aquilo era
como se fosse outra viagem para mim. É impressionante como
a paisagem toma outra forma característica. Os montes ficam
muito mais imponentes com o branco. Sempre se pensa numa
avalanche, num fechamento da linha por causa da neve. Olhar
pela janela e ver parede de rocha e neve, enquanto aquele
pequeno risco azul no qual estávamos sentados cruzava o
reino dos gigantes. O que antes era um rio que serpenteava
pelo vale, agora poderia ser identificado como uma pista de
patinação.
Nesta altura da viagem estávamos somente nós dois na
cabine, enquanto o anoitecer caia sobre a terra, indicando que
o fim da viagem se aproximava. Perguntei para meu colega
como ele estava e se havia valido a pena tudo aquilo até ali.
- Não me arrependo de nada, isto aqui é fantástico,
maravilhoso! Fico imaginando os meus colegas lá no Brasil
quando mostrar todas as fotos. Eles nunca viram algo assim.
Não dá para descrever. Tudo o que estamos passando vamos
levar para o resto da vida, é uma experiência impar! - afirmou,
cheio de emoção.
Concordei. Nada se compara a uma viagem como esta!
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Depois de 47 horas naquele trem, finalmente estávamos
chegando à Labytnangui. Já havia escurecido e a temperatura
estava mais baixa. E isto pode ser constado ao descer do
“Flecha”. Para quem não está acostumado, os -30° C são um
desafio à parte. Um vento ainda ajudava a deixar as coisas
mais complicadas. A neve estava recolhida em pequenos
montes ao lado da plataforma, que era coberta, mas que o
vento encarregava de levar para todas as partes.
- E agora? - perguntou meu amigo ansioso.
- Vamos esperar o pessoal nos achar, disse de forma
solene.
A situação não era nova. Plataforma ia esvaziando
rapidamente, pois as pessoas não estavam a fim de longas
conversas naquele frio polar. Achavam quem precisavam,
davam uma breve saudação, pegavam as malas e saiam
apressadamente em direção ao prédio da ferroviária, lugar
onde havia ao menos calefação.
Teoricamente seria mais fácil desta vez, pois o pessoal
de Salekhard já me conhecia, não iriam procurar dois morenos
abrasileirados pela estação. Depois de passar em revista toda a
plataforma, comecei a me preocupar. Meu amigo veio e
perguntou de novo sobre a situação. Respondi que estava tudo
sobre controle, que logo iam chegar. Eu mesmo estava já
duvidando de minha resposta convicta.
Quando a plataforma ficou vazia, percebi que tínhamos
que ao menos nos dirigir para o prédio, pois o frio de -30° C
estava fazendo um efeito sobre o corpo. O local já estava vazio,
apenas um guichê aberto, com uma pessoa que não iria ter
obviamente qualquer trabalho pelas próximas horas. Olhei
para o painel com os horários de chegada/saída dos trens. O
próximo para Moscou seria no dia seguinte. Minha mente
começou a fazer planos de escape instintivamente. Cerca de
20-30 minutos haviam se passado, e percebi que não chegaria
ninguém.
Peguei meu celular e parti para uns dos planos de
emergência que minha mente elaborou. Liguei para minha
esposa em Krasnodar.
- Oi, a viagem foi tranquila e muito boa… O nosso
amigo está gostando muito… Só tem um pequeno detalhe, não
veio ninguém nos buscar na ferroviária! Será que dá para ligar
para o Vladimir e perguntar o que pode estar acontecendo, por
favor?
Claro que este tipo de telefonema não deve ter deixado
minha esposa muito calma. Tentei não dar um tom de
desespero que vinha assumindo minha mente.
Depois de alguns minutos ela me liga de volta. As
notícias não eram nada boas…
- O Vladimir estava dormindo, pois chegou hoje de
viagem dos EUA. Falei com a esposa dele e expliquei a
situação. Ela vai acordá-lo e ele ficou de ligar para mim.
Bom, o jeito era esperar agora. Sentados naquela
ferroviária, no fim do mundo, e meu amigo perguntando
quando chegariam as pessoas para nos levar dali. Que
situação!
Toca o telefone. Era minha esposa.
- Olha, falei com ele agora. Ele disse que com a viagem
para os EUA, havia se esquecido de avisar o pessoal que vocês
estavam indo para Salekhard neste fim-de-semana! Mas ele vai
ligar pros contatos aí e resolver o mais rápido possível.
Ótimo! Estávamos no fim do mundo (Yamalo) e sem
sermos esperados!
Em minutos recebo a ligação de Bóris, meu anjo-da-
guarda de Salekhard.
- Olá, aqui é Bóris. Você está na estação de
Labytnangui? Não fomos avisados de sua chegada, mas vou
ver o que se pode fazer. Não tenho como ir te buscar, mas vou
ver se alguém pode ir até aí, pois a nevasca tem fechado as
estradas e está perigoso. Agüenta mais um pouco.
Logo depois me liga Vladimir, lá de Krasnodar, com
uma voz de quem acabara de acordar.
- Oi, você está em Labytnangui? Puxa…
Não vou descrever o que pensei naquele momento,
deixo por conta da imaginação do leitor…
O meu amigo brasileiro felizmente falava apenas
algumas palavras em russo, por isto não entendia o que estava
acontecendo. Tentei não transparecer descontrole, e por isto
quando o Vladimir me ligou, resolvi enfrentar o frio da
plataforma.
- E aí, vamos ou não vamos sair daqui? - perguntou o
brasileiro - estou com frio e ficando com fome…
“Naquele momento, a fome era o menor dos nossos
problemas”, pensei.
Quase 3 horas depois de chegarmos, entrou um
homem pela porta e subiu as escadas. Eu estava nas escadas
tentando controlar a situação e o nervosismo.
- Desculpe-me - disse o russo - mas vocês são
brasileiros?
A chance dele acertar era muito grande, pois éramos os
únicos naquele prédio, até o guichê havia fechado.
- Sim, somos nós! - respondi aliviado.
Estávamos salvos!
Cheguei com um ar de alívio, mas transparecendo
domínio sobre a situação. Meu amigo olhou-me como que
dizendo “finalmente, já não aguentava mais, estou com
fome…”. Se ele soubesse do que estávamos nos livrando!
Creio que até hoje não contei o que se passou naquelas horas
ali na ferroviária.
Entramos no carro e fomos em direção ao rio Ob’. Na
primeira viagem, os russos lá haviam me contado e depois
mostrado em vídeo como a barca faz para atravessar na época
em que o gelo cobre o rio. Existe dois barcos quebra-gelos que
vão na frente da barca para abrir caminho. Isto leva cerca de 10
minutos. Quando a barca precisa voltar, os mesmos quebra-
gelos precisam refazer o trabalho, pois a água recongelou.
Pensei no frio que passei quando atravessei o rio naquele
barco alguns meses antes, e torci para que as coisas tivessem
melhorado, afinal estava muito frio.
De fato as coisas desta vez foram diferentes. Passamos
pela cancela livremente e o carro acelerou em direção da beira
do rio. De repente um forte solavanco chacoalhou tudo dentro
do carro. Não consegui assimilar logo, mas estávamos
andando sobre o rio. Havia sinalização em alguns pontos da
travessia. No geral, o motorista se guiava pelos montes de
neve formados pelos tratores de neve que abriam o caminho
constantemente. Quando meu amigo percebeu o que estava
acontecendo, começou a gritar de empolgação (ou seria
medo?). Do outro lado do rio, outro solavanco e estávamos em
“terra firme” novamente.
Chegando à Salekhard, fomos direto para o local onde
eu havia ficado a outra vez. Reencontrei Bóris, novamente o
meu anjo-da-guarda. Neste tempo que estávamos presos em
Labytnangui, ele arrumou uma recepção com chá e algo para
comermos. A sua fisionomia de surpresa por nossa presença
denunciava a falta de comunicação de Vladimir com o pessoal
de Salekhard.
Dali a alguns minutos chegou Evgueny, dando as boas-
vindas, mas expressando seu total desconhecimento de nossa
chegada. Desculpou-se por Vladimir, e disse que agilizaria
tudo para que tivéssemos os alunos para a aula, apesar de as
condições climáticas serem adversas. Devido ao fato de não
sermos esperados, não foram arrumadas acomodações
adequadas. Ficamos improvisados num quarto localizado no
sótão do prédio onde ocorreriam as aulas, ali mesmo. Ao
menos a calefação estava funcionando, o que não era uma
realidade em todo o prédio. Dormi feliz por ao menos ter um
lugar para descansar, afinal não iria passar ali dentro do
quarto muito tempo, tínhamos planos para aquela semana.
Passamos o dia seguinte passeando pela cidade gelada,
enquanto Evgueny buscava arrebanhar os alunos. Visitamos o
forte onde teve início o povoado. Estivemos no porto
congelado que fica logo abaixo do forte. Os navios estavam
todos presos pelo gelo, e nenhuma movimentação havia por
ali.
Fomos ao centro, onde caminharíamos um pouco nas
ruas. Apesar do sol, a temperatura estava em torno dos -20°C.
A luz era meio tênue e os raios absolutamente não
esquentavam. Passamos perto da feira livre que atraía um
pequeno número de corajosos naquele momento. Olhei, e eis
que vi pedaços de carne espalhados pelo chão, atirados em
cima da neve fofa. Outros pedaços estavam expostos sobre as
motos da neve. Perguntei para Oleg, um nenets que estava
conosco, o que era aquilo.
- Acho que é de rena - disse olhando rapidamente para
a carne ao longe.
Acreditei, pois os nativos trazem de suas aldeias e
acampamentos nômades a carne para vender no mercado
agora que o inverno está indo para seu final. As renas foram
tratadas durante o período quente nas pastagens bem ao norte.
Com a chegada do frio, as tribos se deslocam mais para o sul
fugindo das temperaturas mais extremas, que podem chegar
aos -50°C.
No dia seguinte as aulas começaram, e percebi a
dificuldade de traduzir do português para o russo. O grande
problema é que, além de a língua para o qual se estava
traduzindo não ser a língua materna (quem traduz sabe o que
isto é), não tinha como saber a direção que o outro estaria
tomando. Engraçado, quando se está falando em outra língua,
nós escolhemos as palavras de acordo com o nosso
vocabulário, mas quando é outra pessoa falando, isto muda
completamente.Ao menos para mim foi assim. Os alunos que
haviam comparecido na primeira matéria que lecionei
chegaram a comentar que o meu russo havia piorado nesta
segunda vinda. Creio que não piorei, apenas a situação era
completamente diferente. Bom, mas os momentos de conversa
entre as aulas davam para acertar os pontos que ficavam
enevoados na mente dos alunos.
Em uma noite daquela semana resolvemos sair para
passear no centro. Bóris, sempre ele, nos levou junto com Oleg
e mais uma moça nenets. Fomos até a rua principal, onde
estava acontecendo uma exposição. Mas não era qualquer
exposição. Lá estavam estátuas gigantes de gelo, ao ar livre.
Eram cerca de 20 daquelas esculturas ali bem na nossa frente,
lindas, coloridas pelos holofotes, com um ar de graciosidade
que o gelo dava a cada uma delas. Havia uma em forma de
anjo, com longas asas elevadas aos céus. Ficamos ali
admirando toda aquela genialidade dos artistas, feitas em
detalhes e com precisão impressionantes. O bom de estar com
vários graus abaixo de zero é que a exposição não sofria com o
derretimento, na realidade éramos nós que já estávamos
começando a congelar. Voltamos para o carro, loucos por um
chá bem quente.
Voltamos para nosso dormitório e lá estavam
esperando para a janta. E que janta. O irmão do Oleg estava
preparando alguns peixes para comermos. Ele pegava o peixe
inteiro, cortava a cabeça e o rabo. Abria a parte de baixo e
tirava tudo de dentro. Cortava então o peixe em pequenas
fatias, quase num estilo sushi, e distribuía para as pessoas ali
presentes. a agilidade com que ele fazia tudo aquilo
demonstrava grande experiência, apesar dele ser um rapaz
ainda novo. Mas a agilidade com que todos ali conseguiam
comer aquele peixe cru com espinhos era ainda mais
impressionante. Levei minutos para conseguir engolir um
pedaço, enquanto os russos (nenets) acabavam com um peixe
em questão de segundos. Sempre fui muito cuidadoso com
peixes, ainda mais neste caso!
Para se ter uma ideia de como o povo lá adora um
peixe cru, no início da semana havia um tonel cheio de peixes.
Na sexta-feira estava pela metade!
Na sexta-feira, o dia amanheceu muito fechado. Olhei
pela janela do refeitório e tudo estava cinzento. Percebi que a
situação estava ficando cada vez mais difícil, a neve engrossou
e o vento estava forte. Em alguns minutos, Evgueny entrou
pela porta e olhando pela janela disse que o aeroporto, as
estradas e a ferrovia estavam fechados. Estávamos isolados do
mundo.
- Como? Domingo eu tenho que estar numa
conferência em Moscou… - olhei para Evgueny.
- Até domingo o aeroporto vai estar aberto, com certeza
- afirmou com a mesma convicção que expressei para meu
amigo há quase uma semana na ferroviária.
Tive que arrumar forças interiores para crer naquilo.
Olhei para fora e resolvi andar um pouco.
Em algum momento depois, Pyotr aproximou-se e
convidou-nos a ir com ele até uma garagem ali ao lado. Saímos
na rua, e a temperatura estava em torno dos -30°C.
Caminhamos com dificuldade até o local e entramos. Ele
mostrou uma moto de neve antiga, mas que funcionava. Logo
ao lado havia um plástico encobrindo algo que não pude
identificar de início. Quando Pyotr levantou, percebi um
pedaço de carne que havia sido cortada, ali mesmo, no chão e
congelado. Dali a pouco alguém trouxe uma moto-serra, e em
pouco tempo ela foi ligada e partiram o pedaço em dois.
Fiquei assistindo aquilo tentando assimilar a ideia de se cortar
carne com uma moto-serra.
Depois, pediram para ajudar a colocar a moto para
fora. Percebi que o empenho era muito grande. Mas o que viria
ainda surpreenderia.
Oleg me disse para voltar para o prédio e colocar uma
roupa pesada, caso eu quisesse dar uma volta na moto. Corri,
para aproveitar mais esta aventura. Fiquei do tamanho de um
mamute, com toda aquela roupa. Oleg entrou na sala e me
disse:
- Você não vai assim, não é? - repreendeu-me.
- Por que não? - indaguei honestamente pensando em
não haver uma resposta convincente.
- Olha, deve estar uns -30°C lá fora. Vamos andar de
moto, o vento vai fazer você chorar de dor se não cobrir este
rosto!
Muito bem, precisava ainda de um cachecol.
Terminado o processo, virei motivo de piada entre todos ali
presentes. Parecia um papai Noel desajeitado e encapuzado.
Entrei na brincadeira e tirei fotos para eternizar o momento.
Meu amigo brasileiro já estava lá fora com seus trajes
de astronauta e partindo primeiro para a aventura. Mal pude
acreditar quando o vi voltando dirigindo a moto. Eu também
estava a fim de uma volta.
Oleg subiu na frente e dirigiu, e eu fui na carona. Ele
acelerou e tocava contra os bancos de neve, levantando uma
“poeira” de neve e fazendo a moto solavancar. Parecíamos
crianças brincando com aquela moto da neve. De repente, logo
após ter tirado a luva para fotografar a aventura, Oleg foi forte
contra um barranco de neve, e a moto virou em cima de nós.
Ao sentir que estávamos virando, instintivamente estiquei o
braço com a mão desprotegida da luva para tentar amortecer o
impacto. Conclusão, eu enterrei meu braço todo na neve fofa.
Oleg tentava desvirar a moto. Passaram-se alguns segundo até
que conseguíssemos nos livrar do peso e voltar para a posição
normal. Perdi os sentidos na mão, estava congelada, como que
morta. Uma agonia bateu em mim. Tentei aquecê-la de todas
as maneiras, colocando a luva e abrindo o casaco. Depois de
alguns minutos, finalmente ela começou a dar sinais que
estava voltando.
Quando o susto passou, Oleg me convidou para dirigir
a moto, numa tentativa de desviar a atenção para o ocorrido.
Assumi a direção e tive dificuldades no começo, mas a
experiência foi muito impressionante, o “brinquedinho” era
muito interessante!
Ao voltarmos para o prédio, relatei aos que estavam lá
o ocorrido com a mão. Disseram-me dos perigos da
hipotermia, e como pessoas morrem congeladas. Falaram que
quando se está numa situação de frio intenso, o primeiro
sintoma, logicamente é sentir frio. Enquanto isto acontece,
ainda se está relativamente seguro, pois o corpo está tentando
compensar a diferença de temperatura. Mas se a pessoa fica
por tempo prolongado assim, apesar de não fazer nada que
justifique de imediato, ela começa a sentir como que se
estivesse se aquecendo. Isto significa que o corpo está
perdendo a batalha pelo aquecimento, e começou a render-se
ao frio. O perigo é realmente grande, pois o próximo passo é a
pessoa ficar com sono, e o fator de se sentir “aquecida” lhe dá
a impressão que tudo está bem, quando na realidade não está.
Caso ela caia no sono, praticamente está se sentenciando à
morte, pois o corpo não consegue mais lutar contra o frio e o
fato de ficar parado contribui negativamente no quadro. Em
pouco tempo a pessoa morre por causa do frio, hipotermia.
Esta foi a lição que me deram aqueles que são os mais
entendidos no assunto, pessoas que vivem suas vidas num
ambiente de frio constante, nas planícies mais geladas do
mundo habitado, a Sibéria.
A nevasca que caíra naquela manhã havia coberto até
mesmo os automóveis que estavam estacionados. Abrir
caminho para se transitar pelas ruas ficou algo complicado. A
prefeitura colocou suas maquinas para abrir as ruas principais
da cidade. Quem estivesse em ruas secundárias ou laterais
precisava pegar as pás e abrir seu próprio caminho. Foi isto
que Bóris, Oleg e outros precisaram fazer para que o carro de
Evgueny pudesse sair. Aquilo virou uma operação coordenada
e exigiu o esforço de vários voluntários. Quando o carro
conseguiu ser “desatolado” da neve e chegar até a esquina,
enfrentou-se outra barreira. O trator patrola da prefeitura
havia aberto o caminho na rua principal, jogando a neve toda
para os cantos da rua. Isto formou uma verdadeira cadeia de
montanhas entre as duas ruas, intransponível para um carro,
até mesmo para o Lada Niva 4X4. Começamos uma obra de
engenharia para abrir caminho pelo monte. Quando se havia
quase aplanado, depois de muito suor escorrer pelo rosto,
trouxeram a moto da neve. Ela foi amarrada por uma corda ao
Niva e serviu como força adicional no esforço de fazer o carro
passar. Pareciam aquelas cenas que vemos em regiões onde
carros atolam na lama aqui no Brasil, e um trator é necessário
para retirar o veículo. A diferença é que ali lutávamos contra a
neve. Com muita luta conseguimos liberar o Niva, que foi
saldado com gritos de alegria e vibração de um gol no fim de
campeonato. Havia outro carro, mais leve, que não teve a
mesma sorte. Não havia como passar para o outro lado, por
isto, resolvemos “estacioná-lo” ali no canto da rua. Alguns
homens se posicionaram e levantaram o veículo,
posicionando-o num lugar adequado até que a neve abaixasse.
Nisto tudo percebi como pode ser dura a vida naquela
região. O simples ato de querer sair de casa era algo que exigia
todo um preparo. Além de todas as roupas, eram necessárias,
quem sabe, horas até livrar o carro da neve. Outro carro ali na
frente do prédio tinha um cabo que vinha de dentro do prédio
e ia até o capô. Perguntei para Bóris o que era aquilo.
- Este é o meu carro, - exclamou - e aquilo é um cabo
que está ligado à rede elétrica. Dentro do capo tem um
aquecedor para o motor. Se não fizer isto, terei problemas
quando for usar o carro.
- E ele fica ligado quanto tempo?
- O tempo todo, não dá para desligar. Algumas pessoas
deixam o carro ligado às 24 horas do dia.
E eu achava que tinha problemas quando no inverno
do Rio Grande do Sul tinha um carro à álcool !!!
A vida não é fácil ali. Mesmo eles, os nativos, sofrem e
se irritam com as adversidades do clima. Pude perceber
também que o ser humano é um ser adaptável. Temos a
capacidade de lidar com as mais adversas situações,
superando dificuldades e barreiras, colocando nossa
sobrevivência acima de tudo.
No domingo, o dia em que partiríamos, o sol apareceu,
majestoso. Lembrei das palavras de Evgueny, o aeroporto
estava liberado para pousos e decolagens. A temperatura
ainda estava muito baixa, mas ao menos o sol prevalecia. A
despedida foi dolorosa para mim. Sabia que outra
oportunidade de voltar para lá era uma possibilidade remota.
Mas o importante é ter vivido tudo aquilo, apesar das
dificuldades e dos perigos. Não existe crescimento sem perdas.
Saí de Salekhard um pouco mais crescido, mais gente.Aprendi
lições valiosas com aquelas pessoas.
O avião saiu no horário.
STALINGRADO
Era cerca de meia-noite. Tudo estava escuro naquela
noite de um verão que mal havia começado. Minha esposa e
eu estávamos parados naquela plataforma da ferroviária, na
cidade de Kropotkin, interior do estado de Krasnodar.
Não recordo quantos minutos ficamos lá parados com
nossos amigos, esperando o trem que vinha de Krasnodar. De
qualquer forma, ficamos ali, só esperando pela nossa primeira
viagem de trem pela Rússia.
Subitamente começou-se a ouvir um som, a princípio
raquítico, quase imperceptível. Este foi ficando cada vez mais
alto, e começou a movimentação de pessoas pela plataforma.
Em alguns instantes uma luz forte apareceu por detrás de algo
que não conseguíamos discernir devido à escuridão.
A possante locomotiva que trazia os vagões foi
chegando lentamente à estação. Seu ruído foi enchendo o
ambiente e quando ela apontou pela plataforma, se
agigantando, parecia que a terra tremia. Ela passou ao nosso
lado, como um nobre passa sem notar os vassalos na rua. O
poder daquela máquina trazia um espanto e fazia-nos tremer
por dentro.
Embarcamos em nosso vagão, carregando pesadas
malas. Achamos o cupê e abrimos a porta. Havia gente lá
dentro que já estava dormindo. Tentamos não fazer muito
barulho e nos acomodar o mais rápido possível para não
provocar o mau humor daqueles que provavelmente seriam
nossos companheiros de viagem por um bom tempo. Nosso
destino era Stalingrado, a famosa cidade que mudou o curso
da Segunda Guerra Mundial.
Depois de uma boa noite de sono, acordamos e fomos
ver quem eram nossos companheiros de viagem. Eram uma
vovó (babushka) e seu neto, que não deveria ter mais de 12
anos de idade. Ficamos felizes, pois as histórias de trens com
passageiros bêbados e coisas do tipo eram correntes entre os
viajantes.
Logo no café da manhã, o garoto pegou uma garrafa de
cerveja e esvaziou-a com destreza de quem já é perito no
assunto. A avó puxou alguns pepinos e tomates, pegou um
pedaço de pão e serviu-se de chá. Estava pronto o café.
A viagem teve uma duração de 18 horas, passando
pelas estepes do sul da Rússia. Ao longo do caminho
avistamos pela janela alguns lugares retirados na paisagem.
Eram vilarejos que, como que por magia, pareciam suspensos
no tempo. Algumas vezes, passávamos perto o suficiente para
ver os triciclos (motos antigas), ou mesmo as ruas irregulares
de chão batido.As casas de madeira tinham aspectos de muito
antigas, e sem manutenção por muito tempo. As pessoas
caminhavam tranquilamente pela rua, ou pela calçada,
também já desgastada pelos muitos invernos que por ali
passaram.
Anos depois ao estudar na faculdade a história da
região, desde os tempos imemoráveis dos milênios anteriores
ao nosso, recordei daquelas horas no trem, apreciando a
paisagem. Gosto particularmente desta faceta da História,
poder ver o passado e presente se fundindo na vida real de
pessoas reais. Eles são os herdeiros de milhares de anos da
habitação humana por aquelas terras planas das estepes
russas. A viagem de trem pelos campos russos parece que nos
coloca em contato direto com a alma da região, do povo,
mesmo estando dentro do trem.
A chegada em Volgogrado aconteceu no fim da tarde.
Um casal colega nosso que residia na cidade nos esperava na
ferroviária. Um ambiente tipicamente soviético e o prédio
central com a clássica arquitetura dos tempos stalinistas.
Fomos para o carro, enquanto o nosso anfitrião contava
sobre o jogo inaugural da Copa do Mundo daquele ano que
havia acabado há alguns minutos... A conversa então foi
direcionada para este assunto, enquanto passávamos pelas
ruas da cidade até chegarmos ao apartamento deles.
No dia seguinte, pudemos finalmente dar um passeio
pela cidade histórica. Teríamos quer aproveitar bem aquele
fim-de-semana, pois na segunda-feira partiríamos de avião
para Moscou.
Volgogrado tem este nome como uma homenagem ao
rio Volga, o maior da Europa. Literalmente o nome da cidade
significa “cidade do Volga”. Mas nem sempre ela foi
conhecida por este nome. Quando de sua fundação em 1598
recebeu o nome de Tsaritsin por ser uma fortaleza fundada nas
margens do rio Tsaritsa. O nome daquela fortaleza significava
“(fortaleza) da Rainha”. Com a chegada ao poder dos
soviéticos, após a deposição do sistema Imperial, a cidade foi
renomeada em 1925 para seu nome mais famoso, Stalingrado,
ou seja, “Cidade de Stalin”. Contudo a história e a ciranda de
nomes não para aí. Com a morte do ditador soviético em 1953,
a situação aos poucos vai mudando, e o endeusado Stalin
acaba por ser desmascarado por Nikita Khrushchov, em 1956.
Numa campanha anti-stalin, o novo comandante da URSS
resolve mudar o nome da cidade que homenageava Stalin para
algo mais impessoal, e em 1961 a cidade vira Volgogrado.
Mas foi sob o nome do ditador que a cidade ganhou
fama internacional. Existem bons livros que tratam a questão
da Batalha de Stalingrado, por isto não vou me estender neste
assunto, apenas dar dados gerais. Ela teve uma duração de 199
dias entre os anos 1942-1943 e foi uma das maiores batalhas da
história humana. O número de baixas é difícil de ser calculado
com exatidão, mas estimativas giram em trono de 2 milhões de
mortos. Esta batalha é considerada um ponto de virada da
Segunda Guerra Mundial, a primeira grande derrota dos
exércitos de Hitler, que culminaria com a tomada de Berlim
em 1945 pelos exércitos soviéticos.
A cidade foi totalmente arruinada. Os intensos
bombardeios aéreos e de artilharia puseram abaixo
praticamente todos os edifícios da cidade. A batalha teve
vários estágios, mas o mais impressionante foi a etapa das
lutas entre os destroços de edifícios e casas. Cada metro
literalmente era conquistado e reconquistado várias vezes,
existindo confrontos dentro dos próprios cômodos das casas e
entre escombros. E esta marca ficou impressa na alma da
cidade.
Andar pelas ruas de Volgogrado é andar num lugar
estranho, quase tenebroso e assustador. Conhecendo-se a
história local, podem-se sentir ainda os ecos da guerra. É
quase uma experiência espiritual.
A cidade é conhecida como uma “cidade banana”, pois
seu formato se assemelha muito a esta fruta. Ela se estende ao
longo da margem oeste do Volga, por uma extensão de quase
100 quilômetros! Mas a sua largura não chega a ultrapassar os
16 quilômetros, sendo que maior parte da cidade está entre 4 e
6 quilômetros da margem do rio.
O clima é absolutamente rigoroso. Dizem os moradores
locais que esta é a cidade dos 40. No inverno a temperatura
chega aos 40 negativos, e no verão aos 40 positivos! Estivemos
lá no fim da primavera, e apesar de pegarmos este extremo,
podemos imaginar o que acontece lá por agosto, quando o
calor realmente chega. Neste tempo, as margens do rio acabam
por encher de volgogradenses que buscam no rio um
refrigério para o calor sufocante.
Enquanto passeávamos pelo local com nossos
anfitriões, chegamos num canal, conhecido como Canal Volga-
Don, que passa pela cidade e que liga os grandes rios da
Rússia Europeia. Construído para abrir caminho entre o Mar
Cáspio e o Mar Negro (e consequentemente para o Mar
Mediterrâneo), os 101 quilômetros de extensão foram
concluídos em 1952, após 4 anos de trabalhos forçados.
Comportas ajudam os navios de até 5.000 toneladas a transitar,
vencendo os 88 metros de desnível que existem pelo percurso.
É uma obra absolutamente impressionante!
Nas margens do Volga, perto do Canal, existe uma
estátua de Lênin, que são muito comuns ainda em toda a
Rússia. Mas esta tem uma história distinta. Ela está lá, numa
plataforma, em lugar de outra estátua. Naquele local, até a
desmistificação promovida por Nikita Khrushchov em relação
ao seu antecessor, figurava imponente a maior estátua de
Stalin em toda a URSS. Como resultado de uma política anti-
stalin, a monumental peça foi retirada literalmente da noite
para o dia e acabou sendo substituída pelo pai da Revolução
Russa. Hoje, recém-casados depositam suas flores aos pés do
monumento,típica cerimônia russa, inclusive presenciada por
nós no dia que lá estávamos.
Devido à extensão da cidade, não tivemos a
oportunidade de ver seus extremos, concentrando-nos mais na
Região Central, como é assim chamada. É lá que estão os
principais monumentos da cidade. Neste ponto é que foram
mais intensas as lutas durante a Batalha de Stalingrado.
Exatamente no centro desta região está o “Panorama da
Batalha de Stalingrado”, um complexo que mostra alguns
momentos da luta aqui travada. Logo é possível ver a
estrutura branca do museu, onde entre outros objetos
expostos, está a arma de Vassily Zaytsev, herói soviético
notabilizado como franco-atirador durante a Batalha. Apesar
de não ser o atirador com o maior número de mortos, a
propaganda soviética utilizou muito bem seu herói, que ao
todo, segundo alguns, teria matado 242 oficiais nazistas. A
história deste soldado, particularmente, foi alvo de muitos
livros e até mesmo filmes.
Infelizmente, no dia de nossa visita, o museu estava
fechado!
Um pouco mais abaixo, já na margem do rio, está o
barco “Gassitel”, símbolo de uma luta ferrenha e desesperada
dos soviéticos de não entregar Stalingrado para os nazistas.
Durante toda a Batalha, a artilharia e a famosa Força Aérea
alemã (Luftwaffe) impuseram ao rio um ataque ininterrupto,
pois era o rio o único meio de contato da margem oriental sob
domínio soviético, e a resistência no lado ocidental. Mesmo
durante a noite o fogo não cessava. Os barcos cruzavam o rio
sob ataques intensos, e o fundo do Volga guarda muitas
embarcações juntamente com as suas vítimas.
Contudo nada se assemelha à Colina Mamayev, com
sua estátua da Mãe-Pátria. A colina foi durante a batalha uma
verdadeira “terra de ninguém”. Este ponto estratégico que
abria a vista para toda a cidade do seu alto, não foi totalmente
tomada pelos alemães durante este período. Contudo, lá se
formou um local quase isolado, pois tanto a artilharia alemã,
quanto a soviética bombardeavam o local para evitar que
qualquer um a tomasse. Ao fim da Batalha, alguns afirmam
que ao longo de toda a colina ficou uma camada de 10
centímetros de estilhaços de bombas! No local, apenas uma
árvore permaneceu de pé, já na encosta. Ela virou um
monumento vivo à resistência da cidade, até hoje preservada!
Com o fim da guerra, em uma cidade totalmente
destruída e traumatizada pelos milhares de mortos,
Stalingrado recebeu o título de ‘Cidade Herói” e no alto da
Colina Mamayev, entre 1959e 1967, foi construído o conjunto
de Monumentos conhecido como "Heróis da Batalha de
Stalingrado”. Ao subir pelas escadarias, aos poucos se começa
a ver surgir uma estátua colossal. Passa-se então pela
“Alameda” onde, dos dois lados do caminho, estão perfilados
os álamos, árvore típica na região. Parecem soldados em
formação. Os monumentos aos heróis se espalham ao longo do
caminho de subida. Cenas de soldados em combate,
carregando feridos, impondo armas, mas a estátua mais
impressionante está no fim da subida, e é a intitulada “A Mãe
Aflita”, retratando uma mãe que debruçada, tem no colo seu
filho morto em batalha. Esta cena realmente mexe com
qualquer um que passa por ali!
Ainda no caminho de acesso ao topo da colina,
subitamente se nos percebemos cercados dos dois lados por
paredes, onde existem figuras de tanques, imagens de guerra,
canhões que foram feitos como relevos na própria parede. E
das mesmas paredes saem sons através de alto-falantes
embutidos nelas, que contam momentos da guerra. Uma voz
marcial, arrastada, mórbida, anuncia o número de mortos, a
situação da cidade em escombros, os ataques e contra-ataques,
e tudo ao som de fundo de explosões, incursões aéreas, gritos,
etc.A pessoa que sobe já está sendo preparada para o que vem
logo ali em cima, na Colina.
No salão do “Fogo Eterno”, ou também chamado
“Panteão da Glória”, bem ao centro tem uma tocha, segurada
por uma mão gigante, simbolizando o lema máximo do pós-
guerra “nada será esquecido, ninguém será esquecido!”. Ao
redor do perímetro das paredes do salão, que se assemelha a
um estádio coberto, há 34 mastros com bandeiras de luto feitas
de uma cor vermelha-esmaltada e franjas com fitas pretas.
Nestas bandeiras estão inscritos os nomes dos mortos na
Batalha de Stalingrado, soldados soviéticos - todos os 7.200
nomes conhecidos. Alguns dizem que este número na
realidade seria bem maior, por causa dos que não foram
registrados. Estimativas calculam que as cifras de soldados
soviéticos sepultados nesta colina chegam a 34 mil! Num lugar
de júbilo e celebração pela vitória, vem também o clima de
tristeza, um sentimento de perda.
Mas o monumento mais impressionante está no ponto
mais alto da colina. A estátua da Mãe-pátria é absolutamente
incomparável! E os números realmente impressionam! São
cerca de 5.000 toneladas de cimento, 2.400 toneladas de
construções metálicas. Só a estátua em si, da mulher, tem uma
altura de 52 metros, e se adicionarmos a espada que ela segura
empunhada, a altura chega aos 85 metros. Somente a espada
metálica tem um peso de 14 toneladas. Para se ter uma ideia
desta gigante, a estátua da Liberdade de Nova Iorque mede 46
metros, o Cristo redentor no Rio de Janeiro, 38 metros.
Quando chegamos perto do colosso, tiramos uma foto
para mostrar o tamanho dela. Uma pessoa tem o tamanho de
um dos dedos do pé da estátua… Existem sismógrafos por
toda a estátua para avisar sobre qualquer problema na
estrutura.
As feições da Mãe-Pátria são expressivas. Ela é
chamada também de “A Mãe-Pátria conclama!”. É um
chamado para o ataque, para a vitória. é o próprio espírito de
Stalingrado!
Tsaritsin, Stalingrado, Volgogrado, não importa o
nome, esta cidade carregará para sempre o orgulho e a tristeza
em suas ruas e parques.
Ter o privilégio de estar num lugar tão importante para
a história moderna da humanidade foi algo que levaremos
pelo resto de nossas vidas.
Nossa saída de Volgogrado se deu pelo aeroporto da
cidade. Naquele momento o Brasil estava estreando na Copa
do Mundo. O resultado só fui saber no dia seguinte, num
jornal que estava sendo lido por um passageiro do famoso
metrô de Moscou. Ganhamos! E em casa assistiríamos o Brasil
ser campeão!
Mas isto é, como já disse antes, outra história…
MOSCOU: CAPITAL DE TODAS AS
RÚSSIAS
A capital deste país continental é uma das maiores
cidades do mundo. Sua população é, segundo dados oficiais,
de 12 milhões de habitantes, mas fontes extra-oficiais
garantem que os números podem chegar aos 15 milhões. A
realidade é que como nos grandes aglomerados urbanos pelo
mundo, qualquer que seja o número exato, eles apenas
expressam detalhes que passam batidos frente a tudo que
Moscou realmente é.
Falar sobre esta metrópole em poucas palavras neste
capítulo é uma tarefa muito complicada, pois há muito que se
pode explorar sobre o tema.
Contudo, porei em destaque o que mais chama a
atenção de quem não nasceu ou mora lá.
Comecemos pelas igrejas. Devido ao sistema Socialista
que dominou o país na maior parte do século XX, e mais
especificamente ao tom anti-religioso que se impôs ao longo
deste período, a imagem que se tem dos russos é de um povo
desprovido de ligações religiosas. Mas nada mais longe da
verdade do que esta impressão!
A alma russa é extremamente religiosa, supersticiosa e
cheia de mística (como veremos adiante). O país abriga uma
grande quantidade de fiéis das grandes religiões mundiais, e
isto se reflete nas suas expressões artísticas, mas em especial
na arquitetura. Moscou em particular é crivada de igrejas,
monastérios, capelas, e outros lugares sagrados de outras
religiões como budismo e islamismo.
Mas a história de Moscou com estes “santuários” teve
muitas convulsões durante o regime socialista, especialmente
com Stalin. E este desafeto do ditador com a religiosidade não
poupou nem ao menos a Catedral de Cristo Salvador, que é
comparada à Basílica de São Pedro, no Vaticano, por sua
importância para a Igreja Ortodoxa Russa.
Esta catedral, onde se destacam as cinco cúpulas
douradas em formato de “cebola”, típicas da Rússia, foi
originalmente idealizada no início do século XIX como uma
celebração após a vitória contra Napoleão. E foi em 26 de maio
de 1883, que como cerimônia de inauguração da Catedral,
Alexandre III foi coroado o novo czar da Rússia.
Mas a história não se prolongou por muitos anos. Com
a chegada do governo revolucionário, as perseguições
religiosas da década de 1920, e chegada ao poder de Stalin, o
futuro do local estava sendo redesenhado. Por ser considerado
um dos símbolos do período czarista, sob as ordens de Stalin
em 1933, a Catedral foi dinamitada. Stalin havia planejado
algo mais “secular” para o local, onde pretendia construir o
chamado "Palácio dos Sovietes". Esse novo palácio seria
levantado ali e teria uma torre de 400 metros de altura. No
topo dessa torre, seria posta uma estátua de 98 metros do
Lênin. Mas, por causa de dificuldades técnicas, o projeto
nunca pode ser realizado. O problema é que o terreno não
aguentaria aquela estrutura faraônica idealizada pelos
comunistas. Sem alternativa, decidiram então pela construção
de uma piscina pública. A glória de uma ideologia ia quase
que literalmente por água abaixo!
Quando o regime acabou por cair, no início da década
de 1990, rapidamente a Igreja Ortodoxa Russa solicitou o local
que outrora lhe pertencia.
Com a autorização do governo, as piscinas deram lugar
a um canteiro de obras para reerguer a Catedral. No subsolo
dela atualmente existe um museu mostrando todo o processo
de revitalização daquela estrutura. Usando fotos da época
anterior à destruição, os arquitetos puderam colocar de pé a
Catedral respeitando os mínimos detalhes da construção
anterior.
Se o exterior já impressiona, entrar num local como a
Catedral de “Cristo Redentor” evoca um grau de religiosidade
na alma de cada um. As paredes estão cobertas de pinturas
meticulosamente ali desenhadas. Existe uma santidade no
ambiente, algo realmente que impregna a alma do visitante.
Não se deseja falar, nem rir ou pensar em algo desassociado à
majestade divina. É uma experiência religiosa, mesmo para o
mais ateu!
Alguns sugerem que Stalin travou uma luta contra
Deus, expurgando seus templos e santuários, mas que no fim
Ele, Deus, deu a última palavra. Seus templos foram reabertos,
suas igrejas restauradas, seus sacerdotes reintegrados, e para o
velho ditador ficou a amarga desonra que seu nome tem que
carregar por sua blasfêmia e desumanidade com o seu próprio
povo.
A beleza e a imponência da Catedral de Cristo Salvador
não rivalizam com outra Catedral famosa da capital. A
Catedral de São Basílio é indubitavelmente a mais famosa de
todas as suas inúmeras irmãs que estão espalhadas por
Moscou. Na realidade, parece muito mais um par perfeito,
com a majestade do Cristo Salvador e a graciosa São Basílio.
Aliás, neste sentido temos uma história interessante
que se conta sobre esta catedral. Para os olhos desatentos do
turista passa desatento o fato da São Basílio estar logo ali do
lado de fora dos muros do Kremlin, na Praça Vermelha. Para
entendermos o significado disto, precisamos explicar algo da
cultura russa. O Kremlin não é exclusividade de Moscou,
havendo outros em determinadas cidades russas. Mas o que
seria um kremlin? Na realidade, ele nada mais era do que uma
fortaleza, com um diferencial peculiar. Dentro dos muros de
um Kremlin sempre há uma ou mais igrejas ortodoxas,
mostrando o poder da religião para os russos.
Segundo a versão mais conhecida, o czar Ivan IV
mandou-a construir na metade do século XVI como uma
comemoração ao seu triunfo na conquista das cidades de
Kazan e Astrakhan. Mas isto não explicaria o fato dela estar do
lado de fora dos muros. Contudo, conta outra história que ele
teria mandado construir a igreja em homenagem à sua nova
esposa, uma princesa armênia. Pelo fato da princesa não ser
ortodoxa russa, e sim ligada ao ramo da Igreja Cristã Armênia,
a Catedral não poderia ser construída dentro dos muros. Para
compensar este desjeito, o czar teria ordenado trazer
estrangeiros para construir a mais bela igreja. O arquiteto
italiano que a projetou teria pagado caro por tamanha beleza,
pois segundo uma tradição, o czar teria mandado cegar o
arquiteto para que jamais fizesse algo tão glorioso!
Por dentro a Catedral está dividida em pequenas
capelas que tradicionalmente eram lugares dedicados à
oração. “Eram” por que atualmente a Catedral é um museu,
sem finalidades cúlticas e religiosas. Ao se entrar nela (depois
de pagar pelo ingresso num caixa ao lado), pode-se como que
entrar na alma russa, cheios de caminhos apertados, mas que
de repente abrem-se e nos agraciam com uma pequeníssima
capela, que com pequenas aberturas deixam o mundo e a luz
entrar. Não há nada suntuoso lá, nada que inspire nossos
olhos pelo que é material.
Olhando agora para trás e recordando tudo isto, parece
que é possível ver como é o povo russo por dentro. As
catedrais têm mais que simplesmente o poder de nos levar
para um lugar sagrado nos céus, mas há nelas a capacidade de
igualmente nos transportar para esta alma, chamada Rússia.
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Moscou é uma cidade que vive uma relação muito
íntima com uma de suas maravilhas, o metrô. Enganam-se
quem pensa que o metrô lá é apenas um meio de transporte.
Não, o metrô de Moscou é muito mais que isto, é um show à
parte. Ir a Moscou e não andar pelas suas estações; é não ter
verdadeiramente conhecido a cidade. Conhecidas como os
“Palácios subterrâneos de Moscou”, as 190 estações estão
dispostas pelas 12 linhas que cortam a capital.
A abertura da primeira linha em 1935 foi o início de um
projeto ousado, que culmina atualmente com 305 quilômetros,
colocando o metrô moscovita entre um dos maiores do
mundo. Mas os números não impressionam tanto quanto a
beleza das estações. Dizem os moscovitas que cada estação foi
construída com um tipo de mármore diferente. A arquitetura
de cada estação é única. A mais profunda é a “Parque da
Vitória”, que fica a 76 metros abaixo do nível da rua. Nesta
mesma estação, existe a maior escada rolante, que tem uma
extensão de 127 metros, penetrando 63 metros abaixo do nível
da rua! Ao se colocar numa das pontas desta escada rolante, o
outro lado fica perdido da vista.
Existem estações de todos os tipos. As mais “simples”,
com mármores mais comuns, outras com estátuas, outras que
parecem verdadeiras galerias de artes, com quadros
maravilhosos pendurados nas paredes, em outras são os
vários níveis interligando várias linhas. Absolutamente nada é
repetido nas estações, cores, desenhos, esquemas, peças,
tamanhos, tudo dá um ar de novidade a cada estação para o
turista. Viver Moscou é também viver seus subterrâneos. E isto
foi o que fez parte da população durante a Segunda Guerra
Mundial, pois devido à sua profundidade, o metrô
possibilitava aos civis buscarem abrigo durante os
bombardeios alemães.
A maior praticidade do metrô pessoalmente percebi na
linha 5 Marrom, também conhecida como “Circular”. Criada
com o objetivo de interligar todas as outras 11 linhas, ela serve
para agilizar o trânsito entre todas as estações. O sistema é
extremamente funcional e é de fácil utilização. Mesmo minha
esposa e eu não tivemos dificuldade alguma de se locomover
por toda a Moscou usando o sistema, já na segunda viagem,
pois ele é muito bem construído e lógico. Apenas precisa-se
estar um pouco atento quando se acumulam várias linhas
numa mesma estação, mas o hábito supera isto logo.
Resumindo, o metrô é algo imperdível!
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De tantos lugares, parques, monumentos, igrejas, e
tudo mais que aquela cidade fantástica reserva para os
turistas, nada é mais famoso que a emblemática “Praça
Vermelha”.
Ao contrário do que muitos possam pensar, o local não
recebeu seu nome devido à cor. Apesar dos muros do Kremlin
serem da cor avermelhada, eles assim o são ha relativamente
pouco tempo, pois anteriormente, quando a praça já tinha este
nome, os muros eram brancos.
Mas por que então “Praça Vermelha”? O nome vem de
palavra russa “Krasniy’ que significa literalmente vermelho,
mas que no russo antigo também significava “bonito, belo”.
Assim, a praça na realidade seria a “Praça Bonita”, mas que
acabou virando “vermelha” mesmo. Isto inclusive ocorre em
outros nomes de locais na Rússia. O próprio nome Krasnodar
(nossa cidade) significaria literalmente “Presente Bonito”, ou
“Presente Vermelho”, por causa da Revolução Russa.
E a praça faz jus ao seu nome. Entrar na praça
atravessando o arco ao lado do Museu Histórico, ao fundo
pode-se perceber as cúpulas da Catedral de São Basílio como
que se levantando do chão de pedras do qual é formada a
praça. À esquerda uma pequena igreja ortodoxa, mais alguns
passos e a Praça Vermelha se apresenta com seu esplendor.
Caminhando para o centro da área aberta, logo fica evidente o
enorme prédio conhecido como GUM (sigla para “Principal
Loja Universal”, o que seria uma espécie de shopping center nos
tempos soviéticos). Ele ocupa toda a extensão à esquerda de
quem entra pelo lado do Museu.
Exatamente do outro lado da praça, já quase encostado
nos muros do próprio Kremlin se encontra o Mausoléu de
Lênin, onde está exposto o corpo do líder soviético, em uma
espécie de caixão, com luzes apontadas para suas mãos e
rosto. As filas para entrar no mausoléu e ver o líder da
revolução, em geral ultrapassam as centenas de metros, o que
desanima mesmo o mais curioso historiador como eu.
Na parte de trás do mausoléu, já quase colados aos
muros do Kremlin estão sepultadas personalidades
importantes da história da URSS. Lá estão Joseph Stalin, Yuri
Gagarin (o primeiro homem a ir ao espaço), e muitos outros
líderes da União Soviética.
Olhar para aquela praça evoca em nossas mentes os
famosos desfiles da época do regime, quando a URSS exibia
para o mundo o seu aparato militar, incluindo o poderio
atômico. Eram desfiles de horas, milhares de soldados,
tanques, armas pesadas e aviões, um show montado para todo
o país ver e o Ocidente preocupar-se. Mas com o fim da URSS,
tudo foi abolido, e a praça que outrora via por ela desfilar o
orgulho de uma nação acostumada com a guerra, viu apenas
turistas (muitos, de todo o mundo) a passear calmamente por
toda a sua extensão, capturando aquele momento único com
suas máquinas fotográficas.
Contudo, os anos se passaram, e como tudo no país, o
clima muda rapidamente. A chegada de Putin acabou por
ressuscitar certos hábitos que já não estavam em voga. Nos
últimos anos os desfiles voltaram. Foi em 2008 que pela
primeira vez se utilizou o aparato técnico militar pesado nos
desfiles na Praça Vermelha após a queda da URSS.O principal
dia de apresentações é o dia da comemoração do fim da
Segunda Guerra Mundial, chamado de “Dia da Vitória”, em 9
de maio.
Numa das vezes que estive em Moscou, mostrando a
cidade para um casal de amigos brasileiros, ao andar pelas
ruas, nos deparamos de frente com o ensaio de inúmeras
fileiras de soldados do Exército Vermelho em marcha. Apesar
de ser apenas um ensaio, a ordem e disciplina, a força e a
batida impressionam, especialmente quando se leva em conta
que diante de nós está um dos exércitos mais conhecidos do
mundo.
Igualmente atrativa e muito concorrida por turistas e
transeuntes, é a troca da guarda ao lado dos muros do
Kremlin, no memorial ao soldado desconhecido, vítimas da
Segunda Guerra. A força, destreza, o litúrgico e solene
momento sempre está sendo filmado e fotografado por todos.
É algo que marca quem presencia o ato.
Outro lugar de interesse geral para os turistas é o
próprio interior do Kremlin, suas igrejas, o Palácio do Governo
e tudo mais. Mas, às filas enormes pelo ingresso, e o valor
absurdo cobrado para turistas é um desestímulo para esta
visita. Contentei-me sempre de tirar fotos da Praça, das torres,
das cúpulas douradas que se pode ver do lado de fora, e do
muro do Kremlin.
Enfim, Moscou é uma cidade magnífica. Poderia falar
dos parques que existem por todos os lados, dos museus que
têm em seus acervos peças das Antigas civilizações como
múmias egípcias, tabletes mesopotâmicos, obras de arte greco-
romanas, etc. A Galeria de Artes Tretyakov, com seus
belíssimos quadros. Seria impossível falar ainda sobre tudo
que há de encantador na Rua Nova Arbat, com suas lojas,
bares e etc.
Moscou se revela diferente em cada estação do ano. No
verão, os parques espalhados pela cidade ficam cheios e
vibrantes, com o sol se pondo lá pelas 22 horas, e levantando
antes das 5 da manhã. Neste ínterim, praticamente não
escurece, mas fica uma sensação de eminente aurora no céu.
No outono, o verde se vai, dando lugar ao vento gelado, pré-
anúncio do inverno que se aproxima. Neste período é o tempo
de preparação para o frio que chega. O inverno é rigoroso, mas
os moscovitas sabem tirar proveito da estação. Em especial, as
crianças se divertem nos parques, fazendo tobogãs e
brincadeiras com ela, a principal personagem, a neve. Mesmo
os mais adultos se vêem um pouco “infantis” nesta estação. A
primavera é a renovação, a vida, o verde. Tudo se transforma,
e Moscou volta a encher os parques com pessoas aproveitando
o sol que volta a esquentar a cidade.
Viver Moscou, ao menos por alguns dias é uma
experiência fascinante.
EXPERIÊNCIAS FUTEBOLÍSTICAS
Quando falamos de Brasil, logo vem a associação com
café e futebol. Mas o café brasileiro já é assediado pela
concorrência de outros países, como Etiópia, Colômbia, entre
tantos outros.
Neste caso então sobra a imagem do país do futebol. E
este esporte é o mais popular do mundo. Em todos os cantos
existem pessoas que correm atrás de uma bola.
A admiração na Rússia pelos nossos desportistas é
constatável pelo número destes atletas nos times do país.
Praticamente todas as equipes da primeira divisão têm no seu
elenco nossos compatriotas. Mesmo na segunda divisão,
percebe-se o empenho dos times em reforçar seu elenco com
algum jogador daqui, ou mesmo da Argentina. Mas a busca
por sul-americanos atualmente tem se diversificado e a busca
por uruguaios, paraguaios e outros tem crescido.
Por isto não seria de admirar que em nossa Krasnodar
houvesse ao menos um brasileiro jogando no time local.
Quando chegamos em 2005, o Clube de Futebol Kuban era
daqueles times que, ora está na Segundona, ora sobe para a
Primeirona.
Na Universidade, ficamos sabendo que o time tinha
um brasileiro jogando lá. Ficamos felizes, pois até então
éramos os únicos brasileiros conhecidos por aquelas estepes.
Mas ele era a estrela do time, e conseguir o contato assim
direto era algo que precisava ser batalhado. Certo dia, o
celular toca e ao atender ouvi um sotaque baiano falando do
outro lado. Demorou uns micro-segundos até reorientar a
mente para o português e conversar com o conterrâneo.
Dali em diante, desenvolvemos uma amizade muito
profunda com este jogador. Ele havia saído ainda novo em sua
carreira para jogar na Bósnia. Passou um tempo lá e o clube de
Krasnodar o contratou. Sem família (esposa e filhos), sem
maiores impedimentos aceitou o desafio de vir para
Krasnodar. Digo isto, pois muitos jogadores que vão para fora
do Brasil, em busca de realização profissional e estabilidade
financeira, se deparam lá fora com falta de estrutura, solidão,
choques culturais e etc. Isto acaba levando a uma volta
prematura ou desestímulo, que afeta a carreira.
Acompanhamos (como família) todas as alegrias e
dificuldades destes profissionais. Muitas são as lutas, desde o
assédio, a cobrança, o despreparo para situações da vida lá
fora, as saudades de casa e entre outros aspectos dos
brasileiros no estrangeiro.
O futebol russo sempre foi marcado por, digamos,
suspeitas em relação a sua integridade. Muitos analistas
afirmam que as fracas atuações dos times da URSS e Rússia
eram resultado de uma máquina de corrupção que não
deixavam com que as equipes conseguissem atingir um nível
técnico para conseguir competir com os outros times
europeus. Num país onde tudo era resolvido fora do campo,
era de se esperar que os resultados em competições
internacionais fossem frustrantes. E este “jeitinho russo”
incomodava muitos jogadores. Não que em outros lugares este
tipo de “jeitinho” não existisse, mas era sempre tão evidente
na Rússia, que os próprios torcedores diziam: o time campeão
sempre é o time do Premier (na época soviética).
Coincidentemente, o que acontecia!
Mas a chegada cada vez maior da “legião estrangeira”,
investimentos privados e a seriedade dos campeonatos vêm
elevando o nível do futebol russo. Hoje eles já brigam nos
campeonatos europeus de forma mais digna, passando das
primeiras fases, e até mesmo se tornando campeões, como
CSKA e o Zenit.
Todo russo com quem conversei sobre o assunto de
futebol torcia por um time russo (óbvio!) e para um time
europeu da Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha, ou outro. A
pergunta que me faziam era sempre para que time russo eu
torcia, o que era normal, mas em seguida a questão era para
que time europeu. Quando dizia que não tinha nenhuma
equipe pela qual eu tinha simpatia imediata, suas caras
sempre expressavam assombro. Como um brasileiro pode não
ter um time de futebol? Isto se explica pelo fato de os russos
não terem ideia de que futebol possa existir em outros
continentes. Nenhum deles conhecia clubes brasileiros, ou
mesmo sul-americanos. Taça Libertadores? Que é isto? -
perguntavam. Mundial de Clubes? Enfim, eu acabava por
desistir da conversa, pois explicar que, se um brasileiro estava
jogando num time europeu, necessariamente ele teve que jogar
em algum time por aqui no Brasil. Para um russo, ir ao estádio
é como ir a um balé, um espetáculo, assistir um filme. É parte
de uma herança cultural da URSS, onde atividades “culturais”
eram de acesso das massas. O crescente padrão da técnica,
jogadas de efeito (de brasileiros na maioria, é claro!)
estimularam o público a se aproximar dos clubes de futebol. O
esporte virou um grande negócio, e isto tem profissionalizado
o espetáculo.
Mas nem só dos profissionais tem vivido a paixão dos
russos pelo futebol. Ao longo do tempo que vivemos lá,
pudemos ver se multiplicar as quadras e campos de futebol,
especialmente do tipo “grama sintética”. O interesse de pais
em buscar uma atividade física para os filhos também
impulsionou o mercado de escolinhas de futebol. O governo
tem buscado no esporte uma forma de ideologia perdida com
o fim da URSS. O consumo de drogas e álcool tem alarmado as
autoridades, e em especial a de Krasnodar, e a solução mais
rápida é a prática de esporte.
Através de alguns contatos na cidade nós, com um
grupo de amigos, propusemos a vinda de uma equipe de
futsal do Brasil para trabalharmos um pouco esta questão. O
alvo principal era atingir as crianças, que são o ponto mais
fraco e desprotegido destes terríveis males que atacam todas
as sociedades. Tínhamos a experiência de um amigo nosso no
Brasil que vem trabalhando com uma ONG em São Paulo em
comunidades carentes da capital. Agregamos a isto a
necessidade dos russos e o interesse pelo futebol. O resultado
foi que em 2010, um grupo de 8 jogadores foram até
Krasnodar para este projeto. A equipe contava com jogadores
profissionais de futsal que já haviam jogado na Liga Italiana,
outros que foram para Portugal e EUA. Mas a grande estrela
do time era um ex-jogador da seleção brasileira de futsal, bi-
campeão mundial. A presença dele foi fundamental para que
conseguíssemos chamar a atenção da imprensa local e de
algumas autoridades.
O projeto durou ao todo duas semanas, e estivemos em
muitos lugares do estado e na capital. Participamos de um
torneio de futsal de rua, numa quadra onde ocorriam os jogos
da liga de Krasnodar de futsal de rua. Os atletas foram em
escolas, ginásios e estádios. As emissoras locais de TV (5 canais
ao todo) fizeram reportagens, entrevistas e uma “coletiva de
imprensa”. Foi muito importante para a região, especialmente
para as pequenas cidades do interior. A chegada do time
causou um verdadeiro alvoroço em cidades do interior, e
mesmo na cidade de Maykop, capital da República da Adygea,
tivemos uma partida com o time local, onde o estádio
municipal ficou completamente lotado.
A mensagem que queríamos transmitir para aquela
sociedade era de que existem valores aos quais devemos nos
apegar, o que ia ao encontro do discurso do próprio governo,
ou seja, um chamado para valorização da família, uma atitude
contra as drogas, e a necessidade da fé.
Sempre fomos bem recepcionados nos lugares por
onde passamos. As pessoas eram atenciosas e sempre
procuravam o contato, o que era muito estranho para mim,
pois geralmente os russos são frios, distantes e muito
desconfiados. Isto até causou uma impressão equivocada com
o pessoal da equipe, que acabou levando aquele clima cordial
e amistoso como sendo a constante da vida dos russos.
Em uma cidade no interior de Krasnodar tivemos uma
experiência um tanto negativa. Num dos jogos que os
brasileiros participaram, um deles se chocou com um russo e
caiu. Ele sentiu uma forte dor no ombro, mas teimosamente
continuou em campo. Ao acabar a partida, sentindo muitas
dores, ele me procurou e pediu para ver se poderíamos ver o
que havia ocorrido. Felizmente no local havia uma ambulância
de plantão, e recorremos ao pessoal ali. Fizeram uma faixa e
deram algum remédio, mas a situação não parecia nada boa.
Uma das organizadoras do evento veio ao meu encontro e
recomendou que fôssemos para o hospital municipal para
falar com os médicos.
Não tive como conter em minha mente as cenas das
experiências anteriores nos hospitais de Krasnodar, mas
pensando na situação de nosso atleta, resolvemos prosseguir.
Ao grupo se somou outro jogador que estava sentindo fortes
dores nas costas. Ao chegarmos ao hospital, a moça que
cuidava da organização do evento tomou a dianteira e foi falar
com alguém lá dentro. Parece que cidades pequenas têm a
vantagem de que algumas pessoas carregam consigo alguma
influência e logo são recebidas. Em pouco tempo ela volta com
o médico que vem perguntando o que havia acontecido.
Ele examinou os jogadores com muita paciência (!!!) e
pediu que fôssemos até uma sala onde seria tirada uma
radiografia. Comecei a imaginar para aonde tudo aquilo nos
levaria, especialmente em termos financeiros. Neste meio
tempo fiquei conversando com algumas pessoas ali mesmo,
pois parecia que todos os funcionários que estavam naquele
dia no hospital, num fim de sábado, num hospital de cidade
interiorana vieram ver o movimento que estava acontecendo.
Achei muito engraçado tudo aquilo, e a tensão foi baixando.
Após alguns minutos, que não tenho bem certeza
devido a toda a situação, os médicos chamaram para sua sala.
Eles haviam constatado que um osso havia quebrado na região
do ombro. Eles achavam melhor operar para verificar os
pequenos estilhaços que estavam alojados e fazer o
procedimento padrão. Devo confessar que não entendi muito
do que estavam falando, mas apontavam com insistência para
um local na radiografia, e era nítido o rompimento e alguns
pedaços pequenos pela região. Assustado com a possibilidade
de uma cirurgia naquele local, liguei para um amigo médico
brasileiro em Moscou. Não tive resposta, por isto convenci os
médicos que iríamos esperar até termos uma posição do nosso
amigo lá de Moscou.
Os médicos não ficaram muito contentes com aquilo,
pois achavam que uma intervenção era necessária. Contudo, o
humor deles não se desfaleceu com isto, e acabaram por
“tietar” nossos jogadores, tirando várias fotos com eles,
exclamando “quando teremos a oportunidade de tirar fotos
com celebridades assim de novo?” e riam como crianças diante
de um ídolo. Sorrimos apertamos as mãos e fomos embora.
Á noite, conversei com nosso amigo médico, que após
vários minutos de conversa, deixou em nossas mãos a decisão,
ou esperar até a data da viagem para o jogador ser atendido
no Brasil dali uma semana, ou antecipar a viagem (e pagar por
isto) para que fosse atendido de pronto. O próprio atleta
resolveu permanecer com o grupo.
Depois de uma semana o grupo foi embora, e entre
tantas dificuldades, especialmente com contusões e outros
problemas físicos, eles partiram animados, felizes por
participar de um projeto tão inusitado.
A pergunta que nos fazíamos, como família, era se
aqueles dias mágicos seriam apenas como sonhos de verão,
que não voltariam a se repetir. Tivemos um tempo de grande
alegria com a presença daqueles jogadores por lá, apesar de
todas as dificuldades que tivemos com burocracias, choques
culturais dos atletas, falta de preparo por parte dos russos na
logística, entre outros.
Mas nos ano seguinte aconteceria outro projeto nos
moldes do anterior. Contudo, desta vez, ao invés de oito
atletas, seriam quatorze, sendo que alguns destes haviam
participado do primeiro time. O grupo, no entanto, era bem
mais experiente em relação à vida. Alguns já tinham famílias e
vieram com o intuito de focar no trabalho de mini-clínicas de
futebol voltado mais para o público infanto-juvenil. Se o
primeiro time foi uma espécie de cartão de visitas, um “abra
alas”, este segundo veio colher os resultados do anterior, pois
já haviam sido estabelecidos alguns contatos, e isto na Rússia é
primordial para um bom desempenho. Apesar de não
contarmos com nenhuma “estrela” no time, fomos bem
recebidos por todos como se tivéssemos ali uma equipe de
renome internacional. Principalmente nas cidades do interior,
a festa sempre era muito calorosa. E na realidade aquele
momento de uma equipe de brasileiros chegando à cidade ou
vila, seria possivelmente a única oportunidade de muitos
estarem perto de jogadores, e até mesmo de estrangeiros de
uma forma geral.
Nossa intenção naquele momento não era entrar na
mídia mais expressamente, ainda que canais estivessem
presentes em determinadas ocasiões. Este segundo projeto
esteve muito mais perto das pessoas, e de forma mais especial,
das crianças. Brincar e divertir-se com elas era muito bom,
além de abrir o coração dos pais. Numa das ocasiões, quando
estávamos numa escolinha de futebol nos arredores de
Krasnodar, enquanto nossos brasileiros brincavam com as
crianças no campo, eu passeava pelo gramado que estava
cheio de pais atentos ao que acontecia. De repente, alguém se
aproximou e disse: “Que interessante, como o pessoal brinca e
se diverte com nossos filhos!!!”. A alegria era contagiante, e os
pais ali presentes se maravilhavam com tudo aquilo.
O dia que mais marcou para mim foi quando tivemos a
oportunidade de visitarmos o Hospital de Câncer Infantil de
Krasnodar. A diretora autorizou a vinda do grupo, com uma
condição: as crianças desceriam para a quadra, mas ficariam
no máximo 30 minutos e ficariam sentadas fora da quadra
assistindo o show dos jogadores. Pensando na situação, não
discordamos da diretora e nos submeteríamos a todas suas
ordens.
Aquele provavelmente foi o dia mais quente do ano. O
termômetro da praça estava marcando 40° C. Nossos atletas se
perguntavam o que poderia ser feito em tais condições, e senti
que alguns estavam desanimados, até mesmo pelo cansaço da
maratona a qual estavam sendo submetidos nos últimos dias.
Quando chegamos à quadra, vi um batalhão de
crianças sentadas, comportadas, algumas com os pais. No
canto estavam as enfermeiras com seus jalecos brancos. Muitas
das crianças estavam com véu ou boné em suas cabeças, pois a
quimioterapia tinha cobrado um preço alto daquelas pobres
crianças. Pensei comigo: “o que podemos fazer por elas, que
será possível fazer aqui?”. Gosto de crer que esta pequena
oração foi escutada nos céus.
A enfermeira chefe veio repassar as condições da
diretora, e nos comprometemos em não desobedecermos a
suas normas. O interessante foi ver o nosso pessoal renovando
as forças ao verem as crianças. O capitão da delegação chamou
os jogadores no centro e passou as instruções rígidas da
diretora e concluiu: “Pessoal, vamos dar ao menos algum
tempo de alegria para estas crianças, sei que está calor, vocês
estão cansados, mas façam isto por elas!!!”. Foi de arrepiar…
Os jogadores foram para o centro da quadra com as
bolas e começaram a fazer a apresentação padrão com firulas,
embaixadinhas, toques de bola, ou seja, o espetáculo que eles
muito bem sabiam fazer. As crianças ficavam ali paradas,
imóveis em seus corpos, numa disciplina militar russa, mas foi
só uma bola escapar, uma brincadeira com a criança, um
sorriso e um convite para chutar a bola, que tudo foi por água
a baixo. Em instantes as crianças estavam em pé sorrindo,
querendo chutar a bola também. As enfermeiras se olharam e
simplesmente “deixaram o clima rolar”. Em pouco tempo
estava organizada uma fila para chutar a bola, outra para
abraçar jogadores. Lá no canto outros tiravam fotos, e aí
ninguém mais ficou sentado. Até um mini-jogo foi organizado
num outro canto. E parecia que ninguém estava querendo sair
dali. Depois de bastante tempo, onde toda a programação já
tinha furado, o pessoal se aquietou um pouco e as bolas foram
deixadas de lado. Já não importava mais nada, todos foram
tirar fotos, as crianças com os jogadores, e os jogadores com as
crianças.
Alguém da equipe havia trazido um violão e um
tambor. Pronto, aí virou festa mesmo. Os jogadores tocaram e
cantaram para as crianças, num ritmo bem brasileiro. Quando
olho para meio do grupo animado, vi uma enfermeira
rebolando com uma ginga típica de brasileiro (uma imitação,
mas era o que ela podia fazer e sabia). Depois descobri que ela
era a chefe das enfermeiras. Era surreal ver tantas pessoas
empolgadas e sorrindo. Depois de algumas músicas, as
enfermeiras pediram para as crianças se despedirem dos
jogadores, pois dos 30 minutos que deveriam ficar fora,
haviam se passado quase duas horas! A despedida foi muito
calorosa, com abraços e mais fotos.
Depois disto, chegou-se a mim a enfermeira chefe e me
apresentou a diretora do hospital. Preparei-me
psicologicamente para a bronca, aquela típica dos russos. Mas
vi no seu rosto algo surpreendente, ela me cumprimentou
sorrindo e agradecendo por nossa estadia ali. Ela se mostrou
muito empolgada e resolveu fazer um tour com nossos atletas
pelo hospital. O convite não foi muito bem recebido pelo
nosso pessoal, que já estavam exaustos e ansiosos por um
banho depois daquela tarde quente. Mas eu sabia que aquele
momento era algo raro. O convite era uma honra que a
diretora estava estendendo para o grupo, pois este tipo de
oportunidade só é estendida quando um russo, especialmente
no caso de uma diretora de instituição pública, está
plenamente satisfeito e contente com algo.
Este foi um momento impar para nós, pois se
confirmava diante de nossos olhos uma característica especial
do povo russo. Em geral, eles se apresentam fechados, sérios,
frios e desconfiados. Contudo tudo isto é muito mais uma
fachada cultural que eles seguem à risca, mas quando se
rompe esta primeira barreira, eles se mostram absolutamente
passionais, emotivos, e em certos aspectos, quase latinos. Pena
que para nós brasileiros, o romper destas barreiras externas
seja um processo tão demorado e penoso!
Muitos outros momentos interessantes ocorreram nesta
segunda viagem, mas gostaria de me restringir ao que já foi
narrado, pois poderíamos nos delongar e acabar diluindo este
encontro que foi o mais marcante para todos.
Na despedida, no aeroporto houve muita emoção.
Alguns nitidamente emocionados falaram do que aqueles
poucos dias na Rússia haviam representado para eles. Outros
nos abraçaram comovidos e não falaram nada. Vê-los partir foi
um forte golpe nos nossos corações.
Mas para nós, sem que soubéssemos, o tempo de
Rússia também estava chegando ao fim…
A VOLTA PARA CASA
Depois de muita luta na universidade, vimos um ciclo
que estava se encerrando. E finalmente chegou o dia da
formatura na faculdade. Mas não foi nada especial, apenas
uma cerimônia simples.
Ficava a expectativa do que viria. Eu já havia
conversado com meus professores e aberto junto a eles um
canal no sentido de uma possível “Aspirantura”, um grau
aproximadamente equivalente ao doutorado pelo nosso
sistema. Consegui com que dois professores aceitassem o
projeto. Fui direcionado pelo Departamento dos Estrangeiros
aos exames de ingresso neste novo nível. Exames feitos e
entrevista já passada, tudo estava se aproximando da fase
final, que era justamente a matrícula e o pagamento do Curso.
Inesperadamente fui chamado pelo secretário do
Departamento de estrangeiros. Ele me comunicou que para
dar prosseguimento à “Aspirantura”, era necessário que toda a
família saísse do país para que fosse aberto um novo tipo de
visto, especial para este novo nível acadêmico.
Dentro do nosso orçamento, tal viagem estava fora de
alcance. Perguntei se haveria outra maneira de abrir o visto, ou
algo que pudesse evitar este pequeno “transtorno”. A resposta
negativa veio como um golpe direto nas minhas expectativas.
Saí daquela sala sem saber o que fazer, pois o nosso visto tinha
menos de um mês para expirar. As opções eram bem restritas e
claras: ou embarcar nesta curta viagem para fora do país e
abrir um visto novo em algum país Europeu (o que requereria
de nós uma soma considerável de recursos financeiros), ou
deixar o país em um mês, o que significaria que teríamos que
vender todas as nossas coisas num período tão curto de
tempo.A decisão teria que ser tomada num prazo muito curto
de tempo!
Tivemos que conversar muito em família, consultar
parentes e amigos mantenedores. Todos foram pegos de
surpresa, assim como nós.
Os dias iam passando e era necessário definir o nosso
futuro, e rápido. O ponto mais incógnito na possibilidade da
volta era para onde iríamos, e arranjar um emprego. No fim de
pouco mais de uma semana a decisão foi tomada, teríamos
que voltar. Contudo, não nos era possível parar para
absorvermos aquele momento. Não estávamos alegres ou
tristes. Apenas precisávamos nos concentrar em se desfazer de
tudo que levamos anos para adquirir na Rússia. De forma
igualmente penosa era a necessidade de nos despedirmos de
alguns amigos. Existiam planos para desenvolver o projeto do
futebol e ampliá-lo. Mas tal projeto teria que esperar mais
algum tempo para ser retomado.
A prioridade então era de se desfazer das coisas de
maior valor, e neste item o carro estava no topo. Tínhamos o
tempo que não estava a nosso favor, pois restava-nos apenas
três semanas para entrarmos no avião. Mesmo com tudo
apontando para um infortúnio, para nossa surpresa, naquela
mesma semana o carro foi vendido, por um bom preço.
Faltava agora o resto de nossos móveis. E ao longo de
duas semanas vimos nosso lar ser desmontado, literalmente,
peça por peça. Perdemos a mesa, depois se foram os utensílios
de cozinha, a sala, os quartos,...
Conforme o apartamento ia ficando cada vez mais
vazio, uma sensação de vazio em nossos corações também ia
aumentando.
Mas além de ter que se desfazer de nossa vida ali,
tínhamos que decidir o que traríamos para o Brasil. A
prioridade eram roupas (menos os casacos e peças pesadas de
inverno), alguns brinquedos das crianças, e especialmente os
livros, que foram colecionados com muito carinho nestes seis
anos. Alguns utensílios domésticos ainda entrariam nas malas.
Nos últimos dias, esgotados com toda a correria, vimos
o lar desmontado, mas com muitas coisas ainda dentro do
apartamento. Já sem esperanças de conseguirmos vender tudo,
especialmente as roupas, acabamos doando para algumas
pessoas. Havia uma família de amigos que tinha poucos
recursos financeiros, e que estavam precisando de calçados e
roupas. Eles saíram de nosso apartamento lotando o carro de
outro amigo com sacolas e mais sacolas de doação. Brotou um
sentimento em nós de alegria por nossos amigos, mas
sabíamos o valor correspondente que estavam levando, e
sabíamos de igual forma que não poderíamos reaver o
material em qualidade igual ou o valor correspondente.
Estávamos conscientes que os preços no Brasil eram bem mais
altos, e aquele valor faria falta na nossa reentrada.
Quando fomos comprar as passagens, descobrimos que
dois meses antes as regras para as malas e bagagens haviam
mudado. A partir de então, tínhamos direito a apenas uma
mala de no máximo 22 quilos. Até a mudança, as companhias
aéreas davam duas malas de 32 quilos. Uma troca
considerável, pensando que estávamos fazendo a mudança de
nossas vidas. A reentrada no país é tão problemática e
potencialmente traumatizante, segundo estudos
especializados na área, quanto o processo de saída do país.
Emocionalmente se está no limite, e qualquer dificuldade tem
uma amplitude ainda maior do que em situações normais.
Por causa das novas regras em relação às bagagens,
precisamos buscar uma opção mais compensadora
financeiramente do que colocar tudo nas malas e pagar um
valor estratosférico no excesso de peso. A solução mais
compensadora foi mandar o que pudéssemos por cargo aéreo.
Dias antes colocamos nossas malas “extras” num caminhão de
um conhecido que estava indo para Moscou. Eu parti dois dias
antes do resto da família para passar por um complexo
sistema alfandegário a fim de liberar tudo. Com a ajuda de um
amigo russo, passamos um dia inteiro indo de repartição em
repartição, buscando as dezenas de carimbos necessários para
a liberação do cargo, e passando por vistorias.
Faltando poucos minutos para o final do check in, eu
estava ainda pegando os últimos carimbos. Minha esposa
ligava monitorando o andamento do processo. Do local do
cargo até o aeroporto, eram dois quilômetros, cortando pelo
estacionamento.Atemperatura em Moscou naquele dia estava
em -8° C. Deixei os últimos papéis que precisavam ser
carimbados com meu amigo russo e saí correndo pelo
estacionamento. O ar gelado entrava pela boca e nariz de tal
forma, que a sensação era de que tudo por dentro estava
queimando por causa do ar gélido. Cheguei ao aeroporto no
último momento, tempo suficiente para fazer o check in e
despedir de outros amigos que haviam levado minha família
para lá.
Corremos pelo aeroporto até chegarmos à migração.
Dizem que entrar na Rússia é um desafio, só superado pelo
processo de saída. Ficamos alguns minutos que pareceram
horas na fila. Após passar por aquela cabine, corremos para o
portão de embarque internacional, para então descobrir que o
vôo estava atrasado. Suados, cansados e tensos, nos atiramos
nas cadeiras livres que ainda existiam frente ao embarque.
Depois de muito tempo as portas se abriram e pudemos enfim
embarcar no avião.
Achamos nossos assentos; olhei para fora e lembrei-me
do dia em que chegamos à Rússia, do balé do avião entre as
nuvens, e tudo que se passara até ali.
Ao olhar pela janela e avistar a Rússia pela última vez,
não sabia se dizia em meu coração “Prochay!!!” (adeus!) ou se
seria melhor dizer “Do Svidania!!” (Até Logo!!).
Durante aqueles últimos anos, sabíamos que muito
mais do que ter vivido na Rússia, intensamente nós havíamos
vivido a Rússia!
Foi então que o avião partiu…
CONCLUSÃO
Desvendar totalmente os mistérios de um país colossal
como a Rússia é uma tarefa que na sua totalidade sempre será
malograda. Suas dimensões territoriais são apenas um dos
fatores nesta equação. O país tem uma variedade enorme de
etnias, culturas, costumes e religiões. Sua paisagem vai do
deserto ártico ao deserto escaldante perto do Cazaquistão.
Um país que tem, em suas páginas, mais de 1000 anos
como Estado organizado, estruturado e independente,
excetuando-se o interregno mongol, conta com uma tradição e
história que poucos países no mundo podem exibir. Mas
mesmo antes desta unificação no século IX, sabemos de
estados organizados que existiram em seu território atual
séculos e até milênios antes, como o caso da Khazaria e
Bósforo. E esta sobreposição de culturas ao longo do tempo
acabam por forjar a cultura ou, melhor dizendo, a alma russa.
Na Rússia atual existe uma busca pela identidade
cultural. Mesmo os cidadãos do país, representantes de uma
gama grande de etnias, querem redescobrir suas raízes, pois
sentem que sem passado não se constrói o futuro. E esta foi a
ênfase que percebemos pelos lugares onde passamos. Cada
pessoa queria contar algo sobre suas vidas, sobre as vidas dos
antepassados e do seu povo. Neste sentido, as histórias se
multiplicam rapidamente na boca das pessoas, pois este país já
teve muitas tragédias, guerras, ditadores, deslocamentos
coletivos e muito mais.
Mas não apenas de histórias vive este país. Sua
geografia peculiar atrai os olhares externos, que vêm lá uma
atração pelo desconhecido, inóspito, selvagem. De clima
subtropical no sul ao gelo eterno das regiões árticas, da mais
extensa depressão geográfica (média de 28 metros abaixo do
nível do mar) na fronteira com o Cazaquistão, até os picos do
Altai e o Elbrus (com 5642 metros de altitude, é o mais alto
ponto da Europa). A Rússia ainda tem a Taiga, que é a maior
floresta do mundo em extensão. Ao norte se localiza a Tundra,
com sua vegetação rasteira, um deserto na fronteira do gelo; e
ainda existem as imensas extensões da Planície russa, que só é
quebrada pelos Montes Urais, que separam a Europa da Ásia.
Por grande parte destas áreas nós estivemos. Vimos
paisagens que poucos brasileiros tiveram a oportunidade de
contemplar. Conversamos com pessoas de várias etnias,
ouvindo suas histórias. Estivemos em lugares de culturas tão
distantes da nossa, comendo seus pratos e interagindo de
alguma forma com este caldeirão que é a diversidade cultural
e geográfica da Rússia.
Sentimos as mudanças dos tempos. Se a Rússia que
encontramos ainda era um país que se sentia preso ao passado
e de herança soviética, em pouco tempo já experimentava
ventos de mudanças soprando de fora. Esta Rússia sempre
passou por estágios de forma muito abrupta. Se em outros
países os passos eram dados de forma cadenciada e em etapas
bem definidas, a Rússia sempre se deteve por algum tempo
em um determinado patamar e, após um impulso violento em
sua história, ela saltava rapidamente para níveis semelhantes
aos de outros países europeus, estagnando-se por mais um
tempo e repetindo o processo posteriormente.
Tudo isto (e muito mais) é parte de uma equação
complexa que resultará no que os russos chamam de “alma
russa”. Viver na Rússia é um grande desafio, mas viver a
Rússia é um desafio ainda maior. O resultado disto tudo é o
enriquecimento como um todo na vida daqueles que se
aventuram pelos caminhos da eterna Rússia.
CONTATOS
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Leialdo Pulz
Banco Bradesco
Ag. 0528-2
CC 80741-9
FOTOS
Tubulação aérea
Ônibus russo
Campo de papoulas
Mãe-Pátria em
Volgogrado
Dolmen - "mesa de pedra"
Fiéis da Igreja Ortodoxa Russa
Projeto de Futebol em Krasnodar
Praça Vermelha - Moscou
Tempestade de Neve -
Salekhard
Centro de Salekhard
Kurgan perto da estrada
Feira em Salekhard
Medalhas
Parada Militar em Krasnodar
Cossaco do Kuban

Um mundo chamado Rússia

  • 3.
    LEIALDO PULZ UM MUNDOCHAMADO RÚSSIA Explorando o interior e a alma de um país.
  • 4.
    SUMÁRIO SUMÁRIO ..........................................................................................4 INTRODUÇÃO..................................................................................6 ANTES DETUDO…....................................................................... 11 VENTO DE MUDANÇAS...............................................................15 KRASNODAR 40 GRAUS..............................................................22 PRIMEIRAS IMPRESSÕES: VIAGEM AO PASSADO ................28 PRIMEIRO INVERNO ....................................................................37 MEDICINA ......................................................................................48 SISTEMA DE EDUCAÇÃO RUSSO ..............................................58 OS CONTRASTES ..........................................................................75 CURIOSIDADES CULTURAIS......................................................84 AALMA RUSSA: DO MISTICISMO AO CRISTIANISMO .........97
  • 5.
    O INTERIOR DARÚSSIA ............................................................ 110 DOLMENS E KURGANS .............................................................132 RUSSOS OU COSSACOS: O SUL DA RÚSSIA..........................148 O CÁUCASO NORTE: DE SOCHI ATÉ NALCHIK....................158 POLO NORTE: SALEKHARD .....................................................197 SALEKHARD, O RETORNO .......................................................222 STALINGRADO ............................................................................248 MOSCOU: CAPITAL DE TODAS AS RÚSSIAS.........................260 EXPERIÊNCIAS FUTEBOLÍSTICAS..........................................273 A VOLTA PARA CASA .................................................................288 CONCLUSÃO ................................................................................295 CONTATOS....................................................................................298 FOTOS............................................................................................299
  • 6.
    INTRODUÇÃO A Rússia éo maior país do mundo em extensão territorial. Sua fundação remonta ao IX século, mas por aquelas terras sempre vagaram contingentes humanos deste uma época já esquecida na escuridão dos tempos. A região foi palco de revoluções, conquistas, guerras, dramas e paixões eternizadas pela História. Mas sempre parece que aquele gigante se mostra aos olhos do mundo de uma forma enigmática, fria e tenebrosa. A Rússia é um mistério que muitos tentaram e ainda tentam desvendar. Nossa proposta neste livro não é chegarmos a uma resposta final sobre todas as questões que envolvem este povo. Gostaríamos de contribuir, mesmo que de forma modesta, para que nossos leitores descubram um pouco mais das
  • 7.
    “terras enevoadas ede trevas nos limites do mundo, às margens do Oceano”, como descreveu Homero em sua famosa Odisseia ao falar daquela região... Ao olharmos a literatura disponível em nossa língua, podemos perceber uma grande lacuna de livros sobre o tema se compararmos ao tamanho da influência e representação da Rússia ao longo da História. Mas gostaria de citar aqui o caso de alguns livros escritos por brasileiros que lá estiveram. O livro Os Caminhos da Eterna Rússia de Tite De Lamare (1997) foi importante pelo fato de ter sido escrito por uma embaixatriz brasileira, numa envolvente visão da História russa, com todas as suas nuances sócio-políticas e religiosas. Ainda poderia citar o livro de Angelo Segrillo, que morou na URSS por alguns anos e posteriormente na Rússia, fazendo um trabalho muito semelhante ao da embaixatriz em seu livro Os Russos. Mais recentemente foi lançado o livro Com Vista para o Kremlin, da jornalista Vivian Oswald, que morou em Moscou entre 2007-2009, com um enfoque na Rússia atual, suas questões políticas e econômicas. Ainda podemos citar Lágrimas na chuva de Sergio Faraco, que conta sua experiência pessoal na URSS nos anos de 1960. Tenho que reconhecer, entretanto, que ao ler estes
  • 8.
    livros, senti afalta de um olhar mais descompromissado com sequências históricas (apesar de eu ser um historiador), ou mesmo de um desapego à política e a assuntos da aristocracia e dos altos escalões. Percebi que pouco ou quase nada era dito do ponto de vista do povo em si, ou mesmo da vida cotidiana do interior daquele que é o maior país do mundo. Notei que esta lacuna poderia ser preenchida, de alguma forma pelas nossas experiências de vida lá. Moramos numa cidade que ficava longe dos grandes centros como Moscou e São Petersburgo. Estávamos mais deslocados para o sul, onde a vida passava num ritmo mais cadenciado e provinciano. Apesar de Krasnodar ser a capital do estado com o mesmo nome e ter quase um milhão de habitantes, muitos que residem ali são oriundos de lugares isolados, quase perdidos no mapa do Leste Europeu, Cáucaso ou da Ásia Central. As mais de 70 etnias representadas em Krasnodar dão o tamanho da multicolorida sociedade local. O desejo neste livro era buscar um olhar mais objetivo, da vida cotidiana e das dificuldades, alegrias, orgulhos de um povo que não se representa pelos empresários ou cúpula política de Moscou. De certa forma, buscamos trazer para o leitor um pequeno pedaço da alma russa, vista do enfoque de brasileiros que lá estiveram.
  • 9.
    Tentar reproduzir nestaspáginas nossa vida na Rússia é sim, uma maneira de não deixar com que o tempo apague essas experiências que fazem agora parte de nossa história como família e como indivíduos. Queremos reproduzir aqui os fatos da forma mais vívida possível, transmitindo na medida do possível as emoções pela qual passamos. Nossa viagem levará o leitor a fatos históricos que servirão de base para elucidar algum conceito, uma visão de mundo, algum aspecto da alma russa. Somos em grande parte fruto de nossa história e da de outros. Não há como nos separar do aspecto histórico! E especialmente viver na Rússia é deparar-se constantemente com a História. Mas de igual forma passearemos pelo interior russo, de cidades e vilarejos desconhecidos e esquecidos, cruzaremos o país de sul ao norte numa viagem de trem, atingiremos a região polar, brincaremos no frio de trinta graus negativos, entraremos em regiões muçulmanas, encontraremos cidades de mais de 2600 anos, quase congelaremos no inverno russo, e nos queimaremos no verão abrasador. Enfim, uma viagem pela Rússia como você talvez nunca tenha visto! Quando fizermos nas páginas seguintes uma análise cultural, ou contarmos alguma situação vivida por nós, não estaremos fazendo um julgamento de se isto ou aquilo é certo
  • 10.
    ou errado, masapenas colocaremos fatos e eventualmente faremos comparações apenas com a intenção de dar ao leitor uma ideia mais específica do tema abordado. Não existem culturas melhores ou piores, mas apenas culturas diferentes, e este é o objetivo neste livro, deixar diante do leitor as diferenças e semelhanças entre a cultura destes dois países, Brasil e Rússia, sob o ponto de vista de brasileiros que lá moraram. Tentamos deixar o livro com uma leitura leve, sem compromisso com estilos ou estruturas rígidas. Buscamos apenas manter os capítulos com tamanhos iguais para não sobrecarregar um assunto e deixar outros com menos conteúdo. Os capítulos são independentes e podem até ser lidos de forma aleatória sem comprometer a compreensão do leitor. Assim, convido a todos para embarcar nesta viagem para o interior da Rússia, e desfrutar de uma leitura clara e objetiva, mas sem dúvida, totalmente passional!
  • 11.
    ANTES DE TUDO… Quandoera ainda adolescente, folheei os primeiros manuais de língua russa, pronunciei as primeiras palavras em russo (da, niet, tavarish,...). Foram anos colhendo informações que chegavam esparsas pelos noticiários da televisão, ou notícias de rádio e jornal. Quantas horas teriam sido dedicadas a escutar estações de rádio que transmitiam em russo pelas OC (Ondas Curtas). Ainda tenho algumas cartas que recebi da Rádio Central de Moscou, em português “estrangeiro”, ou russificado, diretamente da própria emissora situada na capital russa (que naquele tempo ainda era soviética). Naquela época, nos anos 80, felizmente, manter algum vínculo com o gigante soviético já não representava um perigo. A guerra fria estava dando suas últimas respiradas, o
  • 12.
    fantasma do holocaustocomunista havia passado, as previsões dos profetas apocalípticos não se cumpriram e a policia tinha outras coisas a fazer do que rastrear “subversivos políticos”. Os anos que se seguiram aos eventos que protagonizaram do fim da União Soviética, como o pouso do pequeno avião alemão em plena Praça Vermelha (1987) e a queda do muro de Berlim (1989), foram de euforia e instabilidade em toda aquela região. Muitos saudavam a liberdade que estava chegando, mas outros a viam com desconfiança, típica dos russos. Grande parte da população se via traída e enganada por longos anos do regime socialista. Outros, que viveram o auge soviético, choravam o desmantelamento eminente de seu país, a URSS. No ocidente, nesta época, começamos a conhecer um pouco mais daquele país. Mais precisamente, no Brasil, o produto russo que apareceu (além da vodca, é claro!), foi o Lada. Naqueles tempos, as instabilidades políticas eram comuns em ambos os lados do Oceano. Foi precisamente em 1990, que o então presidente Fernando Collor autorizou a importação desta marca para o Brasil. Os preços baixos das unidades impulsionaram muitos a comprar aqueles modelos soviéticos, apesar do design já ser considerado ultrapassado. Este fator fez com que a empresa perdesse terreno em solo
  • 13.
    brasileiro. E a questãodo design pareceu-me ser um dos fatores que mais chama a atenção nos produtos que eram produzidos por lá. Não eram somente os carros que tinham a aparência ultrapassada, mas em geral, tudo que era feito pela indústria daquele país, tinha sérios problemas nesta área. Disto pude me convencer in loco. Foi em 2002 que eu e minha esposa fomos pela primeira vez à Rússia, numa espécie de reconhecimento de campo, quando ficamos um mês. Naquela oportunidade, entramos no país pelo Sheremetovo. O aeroporto era ainda do tempo soviético, antigo, banheiros sujos, com máquinas velhas e nem sempre funcionando. Na migração, as cabines não tinham iluminação direito, pois algumas fluorescentes estavam queimadas ou ausentes. A fila para estrangeiros era mais demorada e sempre havia um guarda com um uniforme verde-oliva passeando entre os passageiros, fumando, e olhando minuciosamente cada pessoa (acho que era uma espécie de raio-X que existia por detrás daquele óculos). Parecia que seríamos todos pegos e levados para um caminhão ou vagão de trem e enviados para algum lugar na Sibéria! Mas passado aquele momento de intimidação, fomos pegar nossas malas, numa esteira que honestamente eu estava
  • 14.
    torcendo para quefuncionasse, ou que não arrebentasse! Os carrinhos para levar as malas eram alugados. Caso não quisesse pagar, a pessoa podia tranquilamente levar todas as malas na mão. Aquele mês não foi algo realmente empolgante. Creio que o mais positivo, neste sentido, foi conhecer a Praça Vermelha. Esta sim, magnífica e bela. Aliás, como um todo, Moscou é maravilhosa, com seus parques, metrô e as igrejas ortodoxas em todos os lugares. Mas sobre isto falaremos mais adiante. Neste mês ainda, visitamos o sul do país, onde provavelmente iríamos morar dali a algum tempo. E o interior do país, como bem se sabe, é algo absolutamente distinto das grandes metrópoles. Aquele primeiro contato passou rápido, e levamos muitas impressões daquela experiência. Mas os nossos caminhos anos depois ainda iriam cruzar as estepes russas mais uma vez…
  • 15.
    VENTO DE MUDANÇAS Lembro-me,ainda com certo grau de detalhes, de estar olhando pela janela do avião e observando as nuvens lá fora. O avião descia lentamente, dançando entre elas, numa espécie de balé russo. Naqueles momentos que antecediam a chegada ao aeroporto Domodedovo, em Moscou, pensei nos anos de preparo para estar ali, prestes a encarar anos de vida num dos países mais enigmáticos do mundo. Mas lá estávamos nós naquele avião. Sim, eu estava com minha esposa, porém desta vez estávamos com nossas duas filhas, que tinham na época 1 e 5 anos. Minha esposa mal sabia algumas palavras em russo, e nossas filhas, logicamente não tinham nenhum conhecimento da língua. Toda nossa vida e bens materiais estavam restringidos em sete malas no compartimento de bagagens, e alguns dólares que carregávamos. Lembro-me que ao chegarmos no Domodedovo, tive a primeira boa impressão da nova Rússia. O aeroporto era mais
  • 16.
    moderno do queo Sheremetovo, o outro aeroporto internacional da capital. Por isto, passei a amar o Domodedovo, mais que o Sheremetovo e o Vnukovo, os outros aeroportos internacionais da capital russa! Havia sempre carrinhos de malas à vontade. A esteira funcionava como em qualquer aeroporto que se preze. Os soldados de verde-oliva com seus óculos foram dispensados, e já existia uma iluminação aceitável nas cabines da migração. Naqueles três anos, parece que muita coisa mudou! O país como um todo havia entrado numa era de modernização. A própria capital estava em franca mudança. Moscou ficara mais colorida, mais alegre e jovial. Nos próximos anos que viveríamos na Rússia, ouviríamos as histórias de outros estrangeiros, que chegaram na década de 90, contando todas as mudanças que desde então vinham ocorrendo a passos largos no país. Eram histórias de quando a Rússia ainda saia de um regime socialista e se aventurava num sistema capitalista, um capitalismo à sua moda é claro! As particularidades deste sistema capitalista russo se davam por conta de toda sua história como nação. A Rússia viveu sob a autoridade dos príncipes (knyaz), num sistema feudal até a chegada dos mongóis no século XIII. Por dois séculos permaneceu sobre o “jugo” da “Horda de Ouro”, um modelo de subjugação adotado pelos mongóis sobre toda a extensão territorial russa por eles controlada, que mantinha o sistema de servidão especialmente para os camponeses. Com a derrota dos mongóis e a chegada da era dos Czares (séc. XV), o país foi unificado e começou a fase de expansão, que
  • 17.
    iria originar todaa imensidão territorial que hoje é a Rússia, com 1/6 das terras emersas do mundo. Em todos estes períodos, aquela região viveu num sistema econômico que poderíamos classificar como Feudal. Porém, uma característica marcante do sistema social russo era a mir. Certamente influenciada pela severidade do clima, e por uma compreensão da necessidade de solidariedade com o objetivo de sobrevivência, este povo eslavo unia-se em comunidades, que viria a servir de modelo para os revolucionários do século XX. Marx, certa vez teria dito que a construção do comunismo só seria inicialmente possível num país como a Rússia. Não é à toa que décadas depois deste pensamento ser pronunciado, a revolução russa traria ao mundo uma nova proposta de estruturação econômica e social. Mas o país vivera um capitalismo antes de chegar aos caminhos socialistas. Entre 1861 e a revolução russa, o país foi iniciado no sistema que estava em fase desenvolvida, tanto na Europa, quanto nos Estados Unidos. O ano de 1861 foi importante, pois naquela data o país colocou em vigor uma lei que dava aos camponeses uma liberdade nunca vista até então, a chamada Lei dos camponeses. Uma luta de décadas para aumentar o direito dos trabalhadores do campo havia chegado ao seu objetivo. Esta Lei pode ser comparada, tanto nos pontos positivos quanto nos negativos, com a importância econômica e social da Lei da libertação dos escravos no Brasil em 1888. Foram promulgadas várias reformas com o intuito de colocar o país entre as grandes nações industrializadas do Ocidente. Por fim, a Rússia estava pronta para o desafio de entrar no mercado mundial.
  • 18.
    Foi a épocadas grandes expedições, inaugurações de estradas de ferro, como a Transiberiana, a mais longa linha do mundo, unindo Moscou à Vladivostok, no mar do Japão. As indústrias começavam a se instalar, e grandes fluxos de comércio com o mundo iam se estabelecendo. Mas a riqueza que estava sendo gerada não chegava ao trabalhador comum. E esta pressão foi aumentando cada vez mais, até chegarmos ao início do século XX. Apesar da devoção dos russos ao seu Czar, sustentada em grande parte pela Igreja Ortodoxa Russa, o povo foi persuadido pelas promessas de igualdade e prosperidade comum. Para isto, muito valeu aos revolucionários a base ideológica contida na concepção da mir. Depois de conturbadas reviravoltas no cenário político, em 1917, os bolcheviques tomam o poder, sendo liderados por Lênin. O país novamente estava entrando num processo de isolamento com relação ao Ocidente, fato nada novo na sua História, pois a Rússia sempre oscilou entre o caminho da ocidentalização e a “russificação”. Os anos que se seguiram à revolução bolchevique, com uma guerra civil entre o exército bolchevique (Exército Vermelho) e os contra-revolucionários (Exército Branco, apoiado pelas nações ocidentais), levaram o país ao caos econômico. Para piorar a situação, o sul do país, considerado o celeiro da Rússia, passou por anos de desordens climáticas, que gerou falta de trigo e outros gêneros alimentícios, além de ser um reduto dos “brancos”, pois ali estava a população cossaca, tradicionalmente leal ao Czar, pelos motivos que iremos apresentar mais à frente.
  • 19.
    A situação chegoua um limite tão desesperador que o próprio Lênin lança um programa intitulado Nova Política Econômica (1921),que seria segundo ele “um passo atrás necessário para fortalecer os passos rumo ao Comunismo”. Na pratica, a NPE era uma abertura de certos setores da economia russa para investimentos capitalistas. Com a morte de Lênin, e a chegada de Stalin ao poder, tais medidas foram abandonadas (1928) e o período de centralização total da economia teve seu início. A guerra civil da década de 20, a fome avassaladora da década de 30 e a Segunda Guerra Mundial na de 40, deixaram o país sempre numa situação complicada economicamente. A década de 50 foi o período em que a URSS finalmente teve oportunidade de crescer, especialmente com os Estados satélites do Leste Europeu como uma das fontes de recursos. O ápice chegou com a década seguinte. Ainda hoje, russos que viveram a década de 60 se referem à ela com um alto grau de nostalgia e apresso. O orgulho russo se estampava na pessoa de Yuri Gagarin, o primeiro homem a dar a volta ao mundo no espaço, símbolo daquele período. Mas o otimismo soviético começou a dar sinais de desgaste já na década seguinte. E os anos 80 foram marcados pela estagnação total na economia. Gorbatchov tomou a iniciativa de implementar a Glasnost (Transparência) e a Perestroyka (Reestruturação) para forçar uma mudança nas bases do sistema. Visto como grande estadista, homem corajoso e forte figura política aqui no ocidente, em seu próprio território ele era e ainda é tido como um traidor e responsável pela “venda” da URSS para o ocidente. Todos vimos como o Muro de Berlim caiu. Em 1989 ele veio
  • 20.
    abaixo, e comele todo um sistema econômico e político. A experiência soviética havia fracassado. Neste novo contexto, vemos Bóris Yeltsin tomar o poder. Resistiu a um golpe que tinha como proposta o retrocesso ao sistema antigo soviético. Para a Rússia, não havia mais espaço para o socialismo. Neste vácuo político e econômico, o capitalismo se oferece como única alternativa, mas ele não escaparia de sofrer as influências do país onde estávamos por entrar. O modelo capitalista russo tinha suas características distintas, pois foi moldado e ditado pela crescente máfia local. Os burocratas privilegiados do sistema soviético davam lugar aos grandes empresários russos que, muita das vezes, eram operários nas empresas estatais que, da noite para o dia, haviam se apossado de máquinas, equipamentos e de fábricas inteiras, pois o antigo dono (o Estado), já não estava mais presente. Adécada de 90 foi marcada pelo caos em todas as esferas da sociedade. Poucos são os russos que não se lamentam por aqueles tempos. Muitas histórias ouvimos dos próprios cidadãos sobre o período de terror social que se passou naqueles anos conturbados. O país estava se desmantelando, e antigas rixas étnicas afloravam, especialmente no sul. O mais conhecido destes movimentos de libertação se manifestou nas guerras da Chechênia. Os anos Putin, que começam em 1999, foram caracterizados pela estabilização do país. As revoltas foram sufocadas (ou compradas), a inflação galopante controlada, o rublo fortalecido frente às moedas estrangeiras. A economia começou a reagir, especialmente pela alta da produção e exportação do petróleo e gás. Enfim, o país saiu dos anos de estagnação e começou o caminho
  • 21.
    rumo ao crescimento.E isto não se deu apenas na área econômica, mas na própria política internacional. Tudo que foi declarado acima pode ser lido em qualquer livro de História do século XX que trate do assunto. Contudo, toda a política e economia têm reflexos na vida diária do cidadão comum, e foi isto que sentimos ao chegar à Rússia naquele momento de transição. Isto vai desde a melhoria nas estruturas dos aeroportos, até uma avenida na cidade que é rearborizada e sua calçada renovada. Isto influi na aquisição de carros importados e na abertura de mercados maiores, com produtos trazidos de todo o mundo, inclusive brasileiros. E neste sentido, nenhum lugar melhor para ver esta transformação tão dramática da nova Rússia, do que nas regiões periféricas. Moscou mudou muito nestes anos, mas é no interior do país onde estas transformações são mais sentidas. Passear pelo interior russo é algo que realmente descortina todas as condições de um país milenar, que está aprendendo novas lições a cada dia. Aqui começamos nossa aventura pela Rússia!
  • 22.
    KRASNODAR 40 GRAUS Saímosde Moscou na manhã do dia 17 de agosto de 2005, onde a temperatura estava em torno dos 8 graus positivos. Estávamos usando casacos e roupas apropriados para o frio daquela manhã. O vôo até Krasnodar leva cerca de 2 horas. Chegamos ao aeroporto e o comandante anunciou a temperatura externa. Pensei que não havia entendido direito aquela voz que falava baixinho e através de um sistema de som de alto-falantes já desgastados pelo tempo. Bem, ao menos naquele momento havia entendido corretamente, 40°C!!! Tivemos que rapidamente tirar os casacos, pegar nossas malas de mão e descer do avião. Desta vez não precisaríamos descer pela cauda do avião, como ocorreu três anos antes. Mas mesmo assim, tínhamos que caminhar até o transporte que nos levaria para o prédio principal do aeroporto. E lá tivemos o primeiro contato com o calor sufocante do sul da Rússia! Nenhuma brisa, sol do meio-dia, umidade baixa, e ainda mais uma mudança
  • 23.
    inteira para pegar.Para nossa alegria, o local de retirar as malas estava coberto e fechado, bem diferente da última vez que estivemos lá, quando se pegava as malas a céu aberto! Viva a nova Rússia... Do lado de fora do prédio, alguns amigos estrangeiros que havíamos conhecido na primeira viagem vieram nos recepcionar. Nunca nos esquecemos do fato deles terem levado uma vela aromática como sinal de boas-vindas, mas haviam deixado no carro. Ao chegarmos no carro, com aquele calor tropical, a vela havia amolecido e entortado, mais parecendo uma obra de arte! Eles nos levaram para nosso novo lar. Bem, a primeira impressão não foi das melhores. O edifício não tinha condomínio (na realidade, nenhum tinha), a porta de acesso ficava aberta permanentemente, sendo segura apenas por um tijolo. As escadas estavam somente no cimento e o corrimão parecia peça retirada de alguma escavação arqueológica. Coloquei todas as nossas malas no pequeno elevador, para só depois descobrir que para o 2° andar, onde ficava nosso apartamento, ele não ia. Ao subir com as malas pela escada, minha esposa notou um rastro de sangue. Seus olhos me fitaram apavorados, e nossa amiga ao perceber seu espanto, explicou que deveria ser de alguém que havia comprado carne na feira. Acreditamos, mais por medo de descobrir que fosse mentira, do que pela veracidade da explicação. O calor era insuportável, pois ar-condicionado ainda seria um luxo que teríamos que esperar por mais dois anos. Numa situação destas, o melhor é sair e conhecer a vizinhança. Descobrimos que na nossa rua não passava carro, apenas a linha de bonde. Era admirável como existiam árvores, e parecia às vezes que estávamos numa
  • 24.
    floresta. Descobriríamos logoa utilidade daquilo nos dias de muito calor que estavam pela frente. Os primeiros dias foram um tempo dedicado para descobertas. O mais simples ato, quando se está numa cultura totalmente nova, torna-se um peso que faz esvair todas as forças. Quando se vai passar apenas alguns dias ou semanas num lugar, não existe um compromisso em entender o que se passa, nem mesmo uma preocupação em estabelecer pontes com pessoas. Mas estávamos ali para ficar por um bom tempo, por isto era vital mergulharmos logo no nosso novo país. Comprar pão e leite era uma atividade que gerava ansiedade. Como entender o vendedor? Como saber se a conta estava certa,e o troco? Como parecer o menos idiota possível quando uma pessoa falava algo, perguntando ou exclamando? Para nossa sorte, na nova Rússia já existia uma rede de pequenos mercados de bairro que tinham caixas com leitor de barras, e consequentemente um monitor que mostrava o valor das compras. Na Rússia de poucos anos antes, que conhecemos em nossa primeira visita, encontramos lojas onde usavam ábacos para fazerem as contas, e o resultado era apresentado como se pudéssemos “ler” o ábaco! Enfim, foi um alívio ver tudo nos “novos’ monitores!!! Mas isto não impediu de passarmos por pessoas desprovidas de qualquer inteligência naquele começo. Em certa ocasião, ao chegar ao caixa, a vendedora passa os produtos e pergunta: “a paketa nujna?”. Vinte segundos de silêncio e olhares que pareceram mil anos. A vendedora repete umas três vezes, até que desiste e pucha uma sacola e balança na nossa frente. Convenhamos, “paketa” parece
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    com pacote, “nujna”é “precisa”... Hum, entendi, ela estava perguntando se precisávamos de sacolas plásticas. Aliviado, respondi confiante “niet!”. No dia seguinte, pegamos a fila maior para ter a mesma mulher no caixa. Engraçado como o ser humano sempre busca estabelecer padrões. Ela sorriu (no estilo russo, sem demonstrar que estava sorrindo!) e disse “Paketa nujna?”. Senti-me como um nativo respondendo já de primeira, “niet”. Ela então perguntou se éramos estrangeiros. Parecia sermos os primeiros que ela tinha visto em toda sua vida. Descobrimos que realmente muitos russos nunca haviam conversado ou visto alguém de outro país fora da URSS. Com esta mulher do caixa do mercadinho tivemos nossa primeira aula de russo. Todos os dias passávamos lá para comprar algo, e acabamos tendo verdadeiras conversas de duas três frases, o que, naquele estágio, eram diálogos profundos, quase filosóficos. Pouco tempo depois, ficamos sabendo que ela já não trabalhava mais ali. Lamentei solenemente a perda de uma “amiga” tão fiel! Mas a vida ainda tinha muitas surpresas para nós naquele lugar. O sistema de água quente e fria nos domicílios é oferecido por uma companhia da prefeitura. Pareceu-nos algo muito importante ter água quente no apartamento, pois a imagem de ter que acordar no inverno, abrir a torneira e lavar rosto com água fria causava, no mínimo, calafrios. Isto se agravava pelo fato da água fria ser gelada, mesmo naquele calor de Krasnodar. Depois de alguns dias, acordamos sem água quente. Esperamos horas e ela não voltou. No dia seguinte, fomos falar com o dono do apartamento. Ele então explicou, sem entender o motivo
  • 26.
    de nossa inquirição,que por uma semana a água quente seria desligada por motivos profiláticos (e vai entender isto em russo, depois de apenas alguns dias no país!!!). Resumindo, ficamos tomando banho de caneca por duas semanas! Mais uma lição aprendida. Como minha esposa tinha um vocabulário muito reduzido, e praticamente não podia se comunicar em russo e eu, nitidamente, precisava aprimorar muito, estávamos matriculados num curso de russo na faculdade preparatória para estrangeiros da Universidade Estatal da cidade. O curso era para começar na primeira semana de setembro, mas como estávamos para descobrir, algumas datas para início ou término de algo servem apenas como uma referência, não sendo necessariamente seguida à risca. As aulas começariam somente duas semanas depois do previsto. Quando finalmente começaram as aulas,o calor do sul estava se despedindo de Krasnodar. Fomos para a aula ansiosos pela nova etapa. Entramos num corredor escuro, com paredes mofadas e seguimos até a porta indicada. Entramos e sentamos. Em pouco tempo outros entraram, e em seguida a professora de russo. Uma senhora já de idade, bem vestida e com seus cabelos brancos impecavelmente arrumados. Ela, que exibia as feições nitidamente eslavas, deu as boas-vindas, em russo, ao pequeno grupo que ali se formara. Eram dois quenianos, um sírio, um holandês, um chinês, três coreanas e dois brasileiros. O único que sabia alguma coisa de russo era eu. Pensei naquele momento que esta seria uma missão
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    impossível para aquelasenhora eslava. Aprendi com ela que não existem missões impossíveis! No fim do curso, todos falavam russo de forma muito satisfatória! Nas aulas seguintes a este início, a professora Liudmila, que se tornou o nosso primeiro anjo naquelas terras, me indicou uma turma mais avançada, pois não havia motivos para ficar com os principiantes. Minha esposa ficou, e acabou por se aproximar da professora, pois era a mais experiente do grupo, que era constituído por jovens solteiros entre 20-25 anos. Ainda hoje falamos daquela professora que lecionava russo para estrangeiros há 39 anos, da sua experiência e capacidade de, sem usar uma palavra em inglês, ensinar uma das línguas mais complexas e ricas do mundo. Nossos colegas e amigos estrangeiros de fora da universidade se surpreendiam com o avanço de minha esposa, mas em grande parte, isto se deu graças à professora Liudmila. No ano seguinte, ela deixou a sala de aula, o que lamentamos, pois profissionais de tamanha experiência sempre farão falta.
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    PRIMEIRAS IMPRESSÕES: VIAGEM AOPASSADO Krasnodar é a capital de um estado fronteiriço que leva o mesmo nome. Sua população está por volta de um milhão de pessoas, apesar de oficialmente ter pouco mais de 700 mil. Foi fundada em 1793, inicialmente como uma fortificação avançada russa na conquista do sul do país. Seu primeiro nome foi Ekaterinodar, que significa “Presente de Catarina”, a czarina da época e uma das maiores personalidades da história russa. Após a Revolução Russa do início do século XX, seu nome foi mudado para Krasnodar, que significa “Presente bonito”, ou “Presente vermelho” - lembrando que esta cor era o símbolo do Socialismo. Atualmente, movimentos cossacos tentam reverter o nome da cidade ao original, mas enfrentam grande resistência em algumas esferas políticas e práticas. Este processo de mudança de nome para uma nomenclatura pré-socialista por sinal é
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    um fenômeno comumdentro da Rússia pós-soviética. Mas os problemas da cidade (e de todo o país) não estavam localizados apenas na questão de nomes. Se em Moscou as mudanças eram visíveis e ocorriam em alta velocidade, no interior do país, que não era alvo das companhias estrangeiras ou de turistas, as mudanças vinham em uma lentidão agonizante. Começamos nossa descrição pelos automóveis em geral. A frota em 2003 era basicamente constituída de carros do tipo Lada soviético. Os ônibus pareciam peças de museu, com lataria muito acabada, sofrida pela ação do tempo e falta de manutenção. As ruas eram quase sem sinalização, especialmente no asfalto. Enquanto isto, nós víamos em Moscou uma frota de carros trazidos do Japão rodando pelas ruas. Eram carros com volante do lado direito (mão inglesa), mas o sistema de tráfego na Rússia segue o sistema europeu continental, como é o sistema no Brasil. Em outras palavras, o motorista sempre estava do “lado errado” do carro. Em 2005, a frota de carros de Moscou havia se “europeizada” muito, e era muito mais difícil encontrar carros do estilo japonês. Para onde foram aqueles carros que vinham do Japão como segunda mão e rodavam em Moscou? Eles foram “periferizados”. Krasnodar estava na rota desse fenômeno. Nos nossos primeiros anos, a taxa de veículos de mão direita chegava a 40% da frota na cidade, outros 50% eram de Ladas,e o restante eram de carros “europeizados (leia-se aqui, marcas alemãs, suecas e francesas). A grande procura dos russos por esses veículos “japoneses” se dava principalmente pelo preço bem mais em conta, e sem dúvida,
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    pela qualidade doproduto japonês. O aumento de carros “importados” (de segunda mão) para Krasnodar, fez com que os antigos Ladas fossem naturalmente empurrados para o interior e outras pequenas repúblicas da Federação Russa. O aumento da frota na cidade gerou um fenômeno conhecido em todas as grandes cidades do mundo: congestionamentos. E esta era uma das palavras mais usadas nas desculpas que se ouviam dos russos. Aprendi logo que ela era poderosa em várias situações. Os congestionamentos se davam, muitas das vezes, por acidentes envolvendo dois carros, bonde ou mesmo algum ônibus. E esta é uma característica notada por todo o estrangeiro na Rússia, a grande falta de preparo dos motoristas para dirigir, sendo que existem inúmeros fatores para este tipo de problema. Em parte se deve ao sistema de “compra de carteiras”, que gera um negócio muito bem estruturado. O russo admite que passar nos exames para se obter a carta de motorista é algo tecnicamente impossível, pois os interessados no comércio das carteiras de motorista são os próprios agentes que regularizam este setor. Sei bem como o esquema funciona, pois precisei tirar uma carta de motorista para dirigir o carro que compramos dois anos depois, em 2007. Pedi a um amigo russo que ligasse para o departamento responsável pela expedição de cartas. Preferi este caminho, pois, além de não ter que me enrolar com a língua, aprendi que o preço para estrangeiro sempre é muito diferente do que para um russo. Resumindo, o valor cobrado seria de 20.000 rublos (cerca de US$ 800 na época). Pedi para meu amigo informar que eu já tinha carta do Brasil, e apenas queria uma correspondente russa. Eu não
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    queria fazer todoo “processo”. - Ah, então o seu amigo é estrangeiro? Neste caso o valor é de 40.000 rublos. - respondeu o “simpático” responsável. Acabei optando, então, pela tradução da carteira brasileira, pois como estrangeiros ainda eram novidade, até mesmo para a poderosa polícia urbana russa, isto dava certa liberdade. Este é apenas um dos fatores para a fama dos motoristas russos, a corrupção da polícia de transito. Mas existe outro ponto muito importante nesta equação. Nos anos da URSS, o carro era um artigo de luxo. Poucas pessoas possuíam um, e isto gerou uma baixa cultura automobilística. Com o fim do sistema soviético, a avalanche de carros oriunda principalmente do Japão, encheu o mercado de um produto que poucos sabiam manusear. Da noite para o dia, todos eram motoristas “experientes”, e as ruas foram inundadas de verdadeiros “profissionais” do volante. Mas voltando à questão dos congestionamentos, qualquer encostada era motivo para o trânsito parar. Inúmeras vezes eu vi as avenidas principais da cidade totalmente travadas, e quando se chegava à fonte, verificava-se que eram dois carros que haviam encostado (não batido) e estavam com seus pisca-alertas acionados esperando a polícia técnica chegar (o que poderia levar horas!). Poucos acidentes (na cidade) que vi realmente tinham alguma perda material considerável. Literalmente, cada vez que precisava sair de casa, nos preparávamos psicologicamente para a aventura. Sair sempre era um risco, ou de acabar num acidente, ou ficar horas parado por causa de um arranhão, ou pior, ser parado pela polícia de trânsito.
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    Em 2010 foifeita uma pesquisa por um jornal moscovita entre os estrangeiros, perguntando qual era o maior medo deles na Rússia. Em primeiro lugar, sem chance para as outras alternativas, apareceu o medo em relação aos policiais de trânsito. Absolutamente não estranheieste apontamento. Creio que até mesmo os russos iriam na mesma direção.A fama é tão grande, que quase metade das piadas em programas de humor envolve os acima mencionados. Vi e presenciei muitas situações constrangedoras, e passei por momentos tensos, como narrarei mais à frente. Mas vou deixar este assunto um pouco e focar em outro ponto, que está mesmo assim relacionado. Quando chegamos em 2005, Krasnodar estava se modernizando, mas faltava muito para deixar os ares soviéticos para trás. As ruas eram muito esburacadas, quase sem sinalização. Muitas ruas na cidade eram de chão batido. Em algumas áreas havia pedaços de asfalto ilhados no meio da rua, o que levava a crer que em tempos passados, ali existira asfalto, mas que a falta de manutenção nas décadas de 80-90 cobrou o seu preço. Algumas ruas eram intransitáveis, mesmo a pé. Na zona central da cidade, certas ruas eram a mistura de tudo isto, chão batido em partes, logo depois alguns restos de asfalto, e mais para frente, asfalto muito danificado. Lembrei-me de minha infância, quando na minha cidade natal as ruas começaram a ser totalmente asfaltadas. Esta era minha impressão geral da Rússia, um Brasil há 30 anos. Lembro a todos que estamos falando da capital do estado, não de regiões de interior, as quais até hoje estão em situação precárias. Olhando toda esta situação, ainda tínhamos que ouvir pessoas perguntando se
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    morávamos em árvoresno Brasil, ou criávamos macacos em casa! As calçadas eram esburacadas e em grande parte quebradas. Outra característica da região é o solo, que é argiloso, conhecida como “argila preta”. Isto torna o solo impermeável, gerando poças em todos os lugares, e quando os carros ou veículos de maior porte passam por elas, a lama se espalha praticamente por todos os lados. Especialmente no verão, quando as chuvas ficam mais constantes, as poças aparecem pela cidade, e o movimento dos carros se encarrega de levar o barro para todos os lados. Depois vem o sol e seca aquele lodo, dando uma aparência nada agradável às ruas. Por isto, nas casas é obrigatória a retirada dos calçados quando se vem de fora. Nas escolas, as crianças sempre vão com a smenka, que são os sapatos reserva a serem utilizados na sala para não embarrar tudo. Aliás, esta não é somente uma característica do sul, mas em toda a Rússia. Existe até um termo russo para a época em que as chuvas dissolvem o país, rasputitsa (dissolver). Locomover-se, especialmente pelo interior, se torna uma tarefa penosa. O sistema de atendimento médico e os postos de saúde são uma categoria à parte, mas apenas menciono aqui para enfatizar a linha que viemos seguindo neste capítulo. Todo o sistema estava nas mãos da prefeitura, e em 2005 começaram a aparecer clínicas especializadas, em número ainda insignificante para uma cidade como Krasnodar. Os consultórios e centros de saúde eram velhos e com material que deviam estar em uso ha mais de 40 anos, apenas se julgando pelo design. As técnicas de atendimento e de consulta remontavam a esta época, ou quem sabe até mais.
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    O sistema detransporte público, basicamente ônibus, trólebus e bondes, também eram originários de muitas décadas atrás. Muitos quebravam durante o percurso, o que no caso de trólebus e bondes, provocavam o congestionamento de toda a linha. Alguns descarrilamentos de bondes e cabos que se rompiam por tempo de uso eram motivo de irritação constante. Bem, o leitor agora deve estar se perguntando se apenas pontos negativos existiam. Deixe-me explicar com as seguintes palavras: o choque visual e cultural é algo comum entre pessoas que trocam de ambiente cultural, seja dentro do próprio país ou para fora dele. Quando se chega num lugar, logo se começa a fazer comparações. No caso da Rússia, as diferenças, se comparadas com outros países ocidentais, são muito gritantes. O país praticamente parou com o investimento maciço na infraestrutura durante a década de 60. Neste caso, é evidente que saltavam aos olhos as diferenças mais marcantes, e com o tempo iríamos ver descortinar diante de nós os outros aspectos da vida lá. O principal é que vivemos outra revolução russa bem na nossa frente. O país que havia parado no tempo por longos anos, a partir do início deste século deu um salto. É como se a Rússia saísse da década de 60 e entrado no mundo moderno num espaço de poucos anos. Quando chegamos em 2005, por exemplo, o comércio era feito basicamente em feiras permanentes e numa rede local de minimercados nos bairros. Em 2007 abriu em Krasnodar o primeiro supermercado, de uma marca francesa. Depois vieram os shoppings e em 2009 uma rede de lanchonetes americana (não que isto eu considere progresso, mas
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    para muitos estrangeiros,viver sem o produto daquela marca era como viver na idade da pedra). No ano seguinte de nossa chegada, as avenidas ganharam pavimentação nova, arborização, canteiros com flores e parques foram sendo melhorados. Bondes modernos foram trazidos de fora, e os antigos ônibus começaram a dar lugar aos seus “netos”. O nível de vida dos russos melhorou muito nos últimos anos. Não era raro ver as lixeiras dos edifícios entulhadas de caixas de modernos utensílios domésticos, e principalmente de estrutura de janelas em madeira. E isto era algo muito significativo. Um dos símbolos do progresso e da modernidade na Rússia eram as janelas de plástico, que levavam o nome de “janelas alemãs”. A grande vantagem das novas janelas era que impediam a perda de calor do ambiente, causando um isolamento muito bom que era algo vital, especialmente no rigoroso inverno. Nosso apartamento tinha “janelas alemãs” e no inverno precisávamos abri-las um pouco para esfriar um pouco o ambiente. Aliado a esta questão das janelas, aprendemos rapidamente uma palavra usada por todos, remont. Talvez esta palavra defina bem o estado em que se encontrava todo o país, conserto. Esta era a palavra de ordem, e que aparecia em qualquer propaganda ou cartas espalhado pela cidade. Lembro muito bem do grande remont que foi feito no nosso prédio. Incomodava muito o fato do prédio estar com uma porta que absolutamente não podia ser trancada. Qualquer um podia entrar e fazer tudo o que queria no elevador e escadas. E entenda, caro leitor, não estou usando a palavra TUDO em vão! Se uma pessoa passasse
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    mal na rua,ou mesmo por questões de uma bebedeira, o melhor refúgio era um bom prédio com uma porta destrancada. Vi muita coisa por aquelas escadas! Mas finalmente foi convocada uma espécie de reunião dos moradores do prédio. Nesta reunião, feita ali mesmo do lado de fora do prédio, literalmente no meio da rua, havia uma única proposta na pauta. O senhor que comandava a reunião, sintetizou a questão dizendo: - Precisamos colocar uma porta nova com interfone e código de entrada neste bloco! Precisamos trazer a civilização para nosso prédio! O argumento daquele senhor convenceu seus compatriotas, que em uníssono concordaram com a proposta. Lá de nosso apartamento rimos muito, pois finalmente a civilização chegaria, literalmente, às nossas portas. Este era o espírito! Outra marca dos últimos anos foi a luta do governo contra a corrupção, especialmente na polícia, além do investimento nas escolas e nos postos de saúde. As ambulâncias foram modernizadas (aquelas da era soviética pareciam Kombis um pouco mais robustas, que dava medo só de olhar!!). Os ábacos foram extintos e não vi mais nenhum sendo usado com objetivos comerciais. Nossa internet, que inicialmente era de 128 kpbs, pulou para 1 Mega de velocidade, sendo que já existiam muitas opções neste sentido. Os celulares, artigo que no início da década era fiscalizado pela polícia na rua, virou mania nacional. Como disse, a sensação é que a cada dia avançávamos várias semanas ou meses na escala evolutiva tecnológica e de infraestrutura
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    PRIMEIRO INVERNO Quando falamosem Rússia, a imagem inevitável que vem às pessoas é a de um campo coberto de neve, muito frio e ursos polares. E tal associação tem seu motivo. Realmente o país registra as menores temperaturas do mundo (desconsiderando-se as regiões polares). Falar de frio é lembrar-se da Sibéria, onde por sinal foi registrada a menor temperatura em localidade urbana, na remota região da Yakutia, num vilarejo chamado Oymyakon, quando foi atingida a temperatura de -71,2° C no ano de 1926. Mas precisamos lembrar que temperaturas assim não acontecem em todos os lugares, nem o ano todo! Quanto mais para o sul nos deslocamos, mais as temperaturas médias vão se elevando. Como verificamos anteriormente, o verão também sabe mostrar sua força em terras russas. As surpresas em relação ao clima que tivemos nos primeiros dias na Rússia eram apenas o início de uma série que se prolongariam por cerca de um ano.
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    Após o escaldanteverão, o tempo começou a mudar, e a entrada do outono parecia trazer um alívio no clima sufocante. Mas com as temperaturas mais amenas, começaram também as chuvas. Elas não eram fortes como no Brasil, sendo muito mais amenas e passageiras. Contudo, as consequências eram enormes. Começava a temporada da Rasputitsa, que pode ser traduzido como “temporada de estradas ruins”. Segundo alguns historiadores, este foi um dos fatores para o atraso no processo de invasão das tropas alemãs na Segunda Guerra Mundial. O plano inicial era chegar até Moscou antes das chuvas de outono, que deixavam as estradas impraticáveis para o deslocamento. Descobri as razões do temor alemão naquele nosso primeiro ano. Especialmente em Krasnodar, que tem um solo argiloso, a água tem dificuldades de escoar e o solo quase não absorve esta água. Como falamos no outro capítulo, nestes casos o barro que fica nos canteiros e nos “estacionamentos improvisados” onde não existe asfalto ou cascalhos, acaba por ser levado por estes mesmos carros para a rua. Em pouco tempo, a rua fica toda cheia de lama. A água que escoa destes canteiros também entra na rua provocando mais sujeira. Com a queda das folhas das árvores, o material orgânico começa a se decompor, e caminhar pelas ruas começa a ficar um tanto quanto desagradável. Chega-se em casa com os calçados todos sujos, e as calças respingadas de lama. É uma estação que desafia o autocontrole emocional! Com o avanço do outono, a paisagem vai se tornando acinzentada, pois o verde dá lugar aos troncos que parecem definhar em relação à vida. As pessoas usam cores escuras (preto, marrom e cinza). O céu está constantemente nublado ou chovendo. A
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    arquitetura dos prédiosda era soviética tem uma tonalidade igualmente cinza. Com o tempo, o ar começa a ficar saturado, pois a poluição e a falta de verde contribuem para isto. O sistema nervoso começa a ser perturbado, e a falta de cores vivas e dos raios do sol vão encurralando as pessoas num beco de seriedade e falta de paciência. Eu dizia que nestes casos, todos ficavam igualmente cinzas por dentro. Logo aprendemos uma palavra russa que não tem uma tradução definitiva. Ouvíamos os russos constantemente falando de Nastroenie e entendíamos o que diziam pelo contexto, mas não conseguíamos traduzir, ao ponto de, como família, incorporarmos a palavra em nosso vocabulário. Nastroenie é um “estado de espírito”, bom ou mau humor, astral, enfim, é como a pessoa está num determinado momento. E o clima influencia muito na Nastroenie. Ainda oficialmente no outono tivemos nosso primeiro contato com a neve. Não foi exatamente o que se esperaria de um dia de neve. A temperatura estava em 20° C positivos durante o dia, conforme marcava o termômetro oficial bem no alto de um prédio no centro da cidade. Lembro-me de ter passado por ele e olhado bem, pois estava muito “quente” para um dia outonal. Voltamos para casa com a família e lá pelas nove da noite colocamos as meninas para dormir. Fiquei olhando pela janela, pois o quadro geral havia mudado, e soprava agora um vento gelado. Alguns instantes depois, uma chuva fina começou, dando a entender que existia a possibilidade daquilo virar neve. A expectativa aumentou. Olhando contra a luz de um poste em frente ao nosso prédio, pude distinguir pequenos anjinhos brancos que caiam levemente entre as gotas da chuva, mas que ao tocarem o chão, desapareciam. Dentro de poucos
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    minutos aqueles pequenosanjinhos estavam por toda a parte, e cada vez mais intensa era sua descida. O vento parou e eles começaram a dançar pelo ar. Corri para minha esposa que estava no quarto, e como uma criança que ganha um presente inesperadamente, gritei para ela “neve! neve!”, e a convenci de ir até a janela. Agora os anjinhos estavam por toda a parte, e caiam no chão sem mais desaparecer. No friso da janela, alguns anjinhos também apareceram e se acumularam. Chamamos nossas filhas entusiasmadamente para ver a neve. Elas acordaram, foram até a janela do quarto delas e uma delas disse: “Legal pai! Posso voltar pra cama?”. Não disfarço meu desapontamento, mas como pai entendi o cansaço delas e as coloquei de volta. Retornei para a janela da sala e lá fiquei sozinho, assistindo aquele espetáculo. No dia seguinte, saímos para passear e ver a neve em Krasnodar, o que todos diziam ser algo relativamente raro. As crianças se divertiam, rolavam na neve e riam, vivendo seus momentos de criança. Os russos passavam por elas olhando assustados como que a pensar “parece que nunca viram neve!!”. O que era a mais absoluta verdade. A neve logo derreteu, e em algumas horas restavam apenas possas de água no chão. Mas ela retornaria algumas semanas depois, e ficaria ali por muito tempo. Ao todo, a neve ficou no chão por aproximadamente três meses, com intervalos pequenos em que ela quase desapareceu. Quando achávamos que não haveria mais neve, o fenômeno voltava. Na Rússia é tradição que após o início do ano, o país inteiro tire uma espécie de férias de inverno, onde tudo fecha por quase duas
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    semanas. Não havíamossido informados disto, e tivemos problemas, pois algumas lojas e mercados ficaram fechados, e especialmente os bancos não funcionaram. Ficamos com pouco dinheiro em casa, e aqueles dias foram apertados, pois precisávamos controlar para não gastar (se conseguíssemos achar algo aberto!). Janeiro ainda tinha outras surpresas. A temperatura estava muito baixa, sempre rondando entre -5°C e -12°C. O sistema de calefação do apartamento (ligado já em outubro) estava funcionando de forma satisfatória e, ao contrário do que muitos pensam, dentro dos ambientes geralmente a temperatura fica acima dos +20°C, o que permite às pessoas usarem roupas leves. Dentro do nosso apartamento a temperatura era constante +25°C, e podíamos andar de bermuda e camisa. Em alguns casos, precisávamos até mesmo abrir um pouco a janela para deixar a umidade e ar mais gelado entrar, pois o ambiente acabava se tornando quente e seco demais, o que era prejudicial para a saúde... Com o fim das “férias de inverno”, tínhamos que voltar a acordar cedo de manhã e ir para a universidade, minha esposa e eu, para o curso de russo. As temperaturas na rua não eram convidativas, e apenas nosso compromisso nos levava a abrir a porta e aventurar- nos pela gelada Krasnodar. Na metade de janeiro ouvimos pela primeira vez a expressão “batismo de frio”, usada pelos russos para designar uma semana que tradicionalmente é a mais fria do inverno, e na qual os ortodoxos fazem seus batismos em buracos abertos nos rios congelados de toda a Rússia. Tivemos a oportunidade de verificar a veracidade desta tradição em relação ao período mais frio do ano. Exatamente na data
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    marcada, uma forteonda de frio vinda da Sibéria havia se deslocado para a nossa região, e as temperaturas atingiram os -29°C, a menor temperatura em 30 anos em Krasnodar, e a segunda menor registrada na história da cidade. O sistema de calefação estava no limite, e a prefeitura já alertava que se a onda continuasse por mais alguns dias, o sistema poderia entrar em colapso. Neste dia lembro-me de ter levantado pela manhã, tomado o café e reunido toda a coragem que tinha para sair pela porta numa caminhada de uns 20 minutos a pé até a universidade. No meio da tarde, juntamente com nossa filha mais velha, saímos para tirar algumas fotos num lago congelado perto do centro da cidade. A temperatura já havia subido e os termômetros marcavam “agradáveis” -22°C. Chegando ao local, fiquei admirado com a beleza do branco cobrindo o lago. Percebia no rosto que o ar estava frio, mas pensei que o frio não era tão intenso assim e decidi tirar as luvas especiais que tinha. Imediatamente após tirá-las senti como que mil agulhas sendo fincadas em minha mão, e precisei recolocar as luvas imediatamente. Percebi naquele momento que com o frio não se podia brincar! Havíamos levado nossa máquina fotográfica digital e quando chegamos ao local adequado para uma foto, liguei-a. Ela iniciou o processo para abrir e expor a lente, mas no meio do caminho, simplesmente parou. Pensei que havia quebrado ou algo assim. Coloquei-a de volta dentro do casaco. Depois a tirei e tentei novamente. Mesmo resultado. “Será que é a bateria?” - pensei enquanto guardava-a no casaco. Repetio processo algumas vezes até perceber que o problema era o frio intenso, que fazia com que ela parasse de funcionar. Para tirar as fotos, eu deixava a câmera ligada
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    dentro do casaco,ena hora que ia bater a foto, tirava-a rapidamente e fotografava, inserindo-a depois rapidamente no casaco para não congelar outra vez. Indubitavelmente o inverno é uma estação que tem suas atrações, ainda mais quando a neve aparece. As crianças, mesmo as russas, ficam agitadas e querem sair para a rua e se divertir um pouco. Neste período começa o desfile de pais puxando os trenós com os filhos e nós compramos um destes trenós para as nossas meninas. Íamos de nossa casa até o parque ou o lago congelado perto da Universidade sempre que nevava. A raridade da neve em Krasnodar era um atrativo a mais, pois nunca sabíamos quanto tempo ela estaria acumulada e quando voltaria a nevar na cidade. Atravessávamos distâncias enormes (levando-se em conta que com neve fica mais cansativo andar) apenas para puxar o trenó com elas em cima. O frio era intenso, mas a diversão sempre foi proporcional. Brincar na neve é algo que todos gostam de fazer. Em certo sentido, todos viramos crianças. Fazer bolinhas de neve e jogar nos amigos, parentes ou conhecidos é um ato quase involuntário, não se pode resistir a isto. Nem mesmo os russos, já acostumados com neve, deixam de aproveitar. E não importa a idade! Nossa filha, sempre que nevava, demorava muito tempo para voltar para casa da escola, que ficava a uns 250 metros de casa. Quando ela entrava pela porta, estava cheia de neve no cabelo, nas botas, luvas, e na roupa. Suas bochechas rosadas denunciavam que estivera muito tempo exposta ao ar gelado. Nunca entrávamos nos detalhes do que ocorria, pois era evidente. Anos depois ela confessou que sempre saia da escola e ia “brincar” com as colegas no pátio e
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    pela rua, fazendocom que o caminho até em casa se tornasse mais cumprido do que o habitual. Toda esta atividade fora de casa, na neve, seja uma caminhada ou uma visita na praça perto de casa, exigia que na volta a mamãe preparasse um gostoso chocolate quente. Às vezes duvidávamos se saiam para se divertir ou para poderem depois voltar e se aquecer na calefação tomando um delicioso chocolate quente. Certo dia, nas minhas caminhadas pela cidade, fui até um parque que fica ao lado do rio Kuban, que banha a cidade. Andava solitário pelo meio dos montes de neve, no que seria a calçada da via principal do local. Estava sozinho, pois apesar dos russos gostarem de passear pelas ruas nos dias frios (dizem que faz bem para a saúde!!!), não havia ninguém por perto. As tendas e quiosques que no verão ficam abertas e cheias de pessoas que buscam diversão, estavam abandonadas, cobertas de neve. Mas ao chegar perto de um dos braços do rio que entra em direção ao parque, percebi pequenos pontos que destoavam do monótono branco. Com dificuldades desci o barranco em direção ao rio congelado. Andei calmamente sobre as águas congeladas e enquanto caminhava percebi que aqueles pontos eram pessoas sentadas em cadeiras de campo. O que estariam fazendo ali paradas sentadas no meio do nada? Cheguei mais perto e percebi uma vara de pescar em suas mãos, um pote ao lado e a inseparável garrafa de vodca Assisti aquela cena por alguns segundos, sem que fosse notado pelos destemidos pescadores. A temperatura estava abaixo dos -15° C naquele dia de intensa neve. Com o passar dos anos, descobri que aquela prática era uma espécie de terapia para os russos. Eles abriam um buraco no gelo e lançavam
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    o anzol coma isca ali mesmo. Não é uma questão de quantos peixes, nem mesmo o tamanho dos mesmos, é apenas uma forma de relaxar e curtir o frio. Entretanto, sair para estas caminhadas e aventuras pelas ruas congeladas era uma tarefa um tanto quanto perigosa. Constantemente na televisão eram emitidos alertas para as pessoas em relação a um perigo silencioso, as sosulki (plural). Mas que é isto? Também demoramos para descobrir. Certo dia apareceu no jornal que uma pessoa havia ficado gravemente ferida por uma sosulka (singular) que havia caído de um prédio. Descobrimos então que eram pingentes de gelo (estalactites de gelo) que se formam nos telhados, e que por algum motivo podem cair lá de cima, acertando na cabeça de um transeunte, o que pode provocar até mesmo a morte. Depois disto, sempre ficávamos longe de qualquer ponto perigoso. Ao passar por alguns prédios, pude perceber as afiadas e mortais sosulki, e me lembrava de nunca brincar com a sorte, pois um dia poderia virar azar… Ainda existia outro perigo, os escorregões no gelo. Muitas vezes vi as pessoas patinarem, escorregarem, dançar e cair no chão devido ao gelo. Não era incomum ver nas ruas este tipo de cena. O que me chamava a atenção era que ninguém ria ou se encabulava por estes “imprevistos”. Descobri depois que não havia pessoa imune a isto, todos, mais cedo ou mais tarde caiam. Um dia eu estava saindo de um mercadinho perto de casa com duas sacolas com leite. Nevava de forma arrastada, tranquila e sem maiores pretensões. De repente, senti o chão indo embora e ocorrendo uma súbita inversão de polos em minha cabeça. Imediatamente depois, vi a neve caindo em meu
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    rosto e assacolas voando pelo ar e caindo logo à frente. Uma senhora que passava perto olhou para mim e perguntou se eu havia me machucado. Levantei-me depressa e verifiquei se estava tudo em ordem, batendo a neve da roupa. O casaco amortizou a queda e tudo estava bem. Peguei as sacolas e fui para casa. Esta cena se repetiu pelos anos seguintes, com pequenas variações no enredo. Apesar de alguns “imprevistos”, sempre gostei de caminhar na neve. O barulho dos sapatos quando se caminha e a neve sendo prensada é muito interessante. Uma das caminhadas mais fascinantes que fiz foi em uma floresta perto de Moscou. Estávamos num evento, e numa hora livre resolvi explorar a região. Andei até a floresta e comecei a andar por ela, vendo as árvores cobertas de neve, troncos caídos, pequenos córregos congelados e os raios de sol que penetravam por entre as árvores. Mais para dentro da floresta, ouvi repentinamente um som seco, ritmado. Andei em sua direção. O silêncio na floresta era ensurdecedor, nada se movia, nada respirava, nada fazia barulho, só aquele som ecoando por toda a floresta. Em certo momento, olhei para o alto de uma árvore de onde eu imaginava vir o som. Bem lá no alto havia um pássaro, que não pude identificar ao certo, mas parecia um pica-pau. Ele estava procurando bichos que se escondiam dentro das árvores. Fiquei um tempo ali observando o trabalho dele, depois resolvi continuar a exploração. Alguns metros adiante vi pegadas na neve, que tinham sido feitas ha pouco tempo. Era de um animal grande. Eu estava sozinho numa floresta congelada, e meu espírito aventureiro deu lugar a um instinto de auto-preservação. Dei meia-volta e resolvi não arriscar em descobrir o dono daquelas pegadas...
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    Muitas foram asaventuras nos invernos que passamos por lá. O que posso dizer para finalizar é que, em minha opinião, não vi nada mais lindo na Rússia do que um dia de neve sem vento. Assistir os flocos caindo calmamente, manhosamente é algo espetacular. Um dia na universidade fiquei olhando pela janela a dança dos flocos, que por uma brisa qualquer, formavam um verdadeiro balé diante dos olhos. Sim, o inverno tem seus encantos, e posso dizer que são muitos!
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    MEDICINA A mudança paraoutro país pode ser, para muitos uma aventura e para outros uma loucura, especialmente para lugares tão “distantes” do nosso Brasil. O enriquecimento cultural e de vida é um contrapeso no meio de tantas perdas. Quem já passou pela experiência de ter contato com o mundo lá fora, sabe bem o que é isto. Mas a mudança também afeta outros pontos, que talvez não fossem tão desejados. E mesmo assim, aprendemos. Existe um provérbio russo que diz: “Viva por um século e aprenda por um século”. Uma das áreas que mais preocupa nestas adaptações é a saúde. Pode ser que não exista nada tão desesperador quanto estar doente em um lugar onde você não tem meios de ser atendido ou entendido, ou ainda, desconhecer por que está naquele estado.
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    E nossos problemascomeçaram antes mesmo de sair para a Rússia. Minha esposa havia feito exames pouco antes da data marcada para o voo. Na sexta-feira (viagem marcada para domingo!), o médico nos passa o resultado dos mesmos. Ela precisava fazer um tratamento e a recomendação médica era de que não viajássemos. Bem, não era uma viagem de férias ou um passeio, era uma mudança para o outro lado do mundo! Por fim, resolvemos comprar os medicamentos e fazer o tratamento lá na Rússia mesmo. Chegando lá, já depois do período inicial de adaptação, buscamos informações de como fazer os exames que eram necessários para ver se o problema havia desaparecido. Preciso fazer um parêntese aqui. Como estávamos na Rússia com o visto de estudantes, pois faríamos o curso de russo pela Universidade de Krasnodar, precisávamos alguns exames de rotina, o mesmo que os alunos russos precisam fazer anualmente. Como éramos estrangeiros, nosso plano era pago, mas fazíamos no lugar indicado pela universidade, que era onde os alunos precisavam fazer. Era uma única policlínica para todos os estudantes da cidade. Conseguir chegar ao local foi complicado, pois informações não são algo que o pessoal gosta de dar, ainda mais quando o inquiridor é um “esquisito estrangeiro que não entende as coisas”. Mas, chegando no local, a dificuldade ainda seria a de identificar qual guichê e qual fila pegar. Isto num mar de estudantes que estão de muito mau humor, pois gostariam de estar em qualquer outro lugar, menos ali, naquela confusão. Realmente tudo isto é simplesmente uma tarefa de tirar qualquer um do sério. Quando finalmente, depois de muito tempo rodando,
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    achamos o localexato, disseram que haviam fechado e que só iriam atender no dia seguinte! E não adianta reclamar, chorar, esmurrar, eles são a lei! No dia seguinte chegamos cedo para enfrentar a fila. Descobri que os russos adoram duas coisas: fazer filas e furar filas, sendo isto uma espécie de esporte nacional. Enfim… Conseguimos chegar à enfermeira (de mau humor!) e mostrar nossos papéis requisitando os testes. Ela explicou o que deveríamos fazer: teste de sangue, fezes e urina. Mostrou umas caixinhas de fósforos em uma mesa. Na parte de baixo da mesa, garrafas de vidro de vários tamanhos e tipos, com um líquido amarelado… Entendi, nem precisava abrir as caixinhas de fósforo para entender o que tinha dentro! O sangue seria coletado na outra sala… Fomos para a sala e a enfermeira começou com um papo estranho. Viu que éramos estrangeiros e disse que se “ajudássemos” nem precisaríamos tirar o sangue. “Ajudar”? Está bem, entendi tudo, mas resolvi usar minha prerrogativa de estrangeiro. Ela explicou umas 3 ou 4 vezes o que entendia por “ajudar”. Quando viu que não “ajudaríamos”, pegou o estilete e cravou no dedo de minha esposa. Apertou e pingou o sangue numa lâmina de vidro. Humor totalmente azedado. Fomos embora para casa com vontade de explodir tudo aquilo. Fechando este parêntese e voltando ao caso de minha esposa e sua questão médica, havíamos decidido buscar formas mais “humanas” de tratamento. Onde encontrar uma Clínica particular? Não existia internet confiável ainda para nós. Páginas amarelas,
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    respondiam alguns. Efoi o que fizemos, procuramos as páginas amarelas ou um catálogo. Ninguém com quem conversávamos sabia dizer se isto existia de verdade por lá. Por uma coincidência divina, nosso apartamento ficava exatamente em cima de uma Clínica particular, que naquela época deveria ser a única da cidade. Não prestamos atenção de imediato nela, pois a propaganda era voltada para a área de oftalmologia, mas descobrimos que ali havia várias especialidades! Inclusive a que estávamos precisando no momento. Já era outubro e ainda tínhamos muito a aprender em relação à língua, pois as aulas haviam começado somente na metade de setembro. Para a primeira consulta, minha esposa havia convidado uma amiga, também estrangeira e que morava ha mais tempo na Rússia, para acompanhá-la na ida ao médico. A médica olhou tudo e tentou entender o que aquelas duas estrangeiras estavam querendo. Depois de tentarem explicar o que precisavam, a médica disse que para fazer os exames era necessário tomar uma injeção que deixaria a paciente com sintomas de gripe forte. Como essa ideia não foi aceita,ela deu a outra opção: comer na noite anterior ao exame um peixe defumado, uma salada bem picante e tomar um litro de cerveja, comparecendo no dia seguinte em jejum para os exames médicos. Todos nós achamos aquilo muito estranho, nunca tínhamos ouvido falar que comer e beber algo antes de um exame pode “baixar a imunidade” como a médica disse que teria que acontecer para que os exames fossem feitos com sucesso. Mas, isso seria melhor do que injetar algo desconhecido no corpo, num país onde não nos
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    sentíamos seguros. Minha esposacompareceu na manhã seguinte, fez tudo certinho e esperou pelos resultados. Uma semana depois, voltou para saber como estava sua saúde, e a surpresa foi muito mais do que podíamos esperar. No resultado dos exames apareceram quatro doenças venéreas, e a médica começou informando que aquilo podia estar incubado em um dos cônjuges já antes de casarem, não significando necessariamente alguma traição. A consulta mais parecia psicológica do que médica. A doutora perguntou se estávamos dispostos a fazer o tratamento. Como minha esposa ficou muito desconfiada desse resultado, ela disse que iria para casa, conversar com o marido e então resolver o que fazer. Bom, levamos os exames para casa e fomos procurar na internet informações sobre as tais doenças. Nenhum sintoma de nenhuma delas nós tínhamos. Desconfiados de que o exame teria sido trocado, fomos procurar outro lugar para tirar a “prova” e, infelizmente, tal lugar havia somente em Moscou. A clínica de Moscou era particular e com médicos internacionais. Mas o efeito colateral de sua “idoneidade” era um preço de matar qualquer um. Esperamos até fevereiro, quando o inverno estava começando a perder força para então ir à Moscou. Precisamos levar uma amiga que falava inglês fluente junto, pois na clínica tudo era feito com médicos estrangeiros e que falavam inglês. Tudo foi tranquilo. Exame feito, resultado enviado via e-mail e depois de tanto tempo nessa tensão e expectativa, o resultado foi que estava tudo normal.
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    Nunca mais procuramosaquela médica. Guardamos o cartãozinho com o nome dela para não marcar por engano alguma consulta com ela. Ainda tivemos que usar os serviços médicos daquela clínica em Krasnodar até o último mês em que moramos lá, pois nossa saúde estava sempre sendo afetada. Um problema muito grave que tivemos que enfrentar foi com nossa filha mais velha, com seis anos na época. Num passeio num dia de verão, comemos um pastel à moda russa numa lanchonete de rua, no centro da cidade, pois nos informaram que lá era muito bom. Por causa do alimento, nossa filha contraiu uma infecção intestinal e devido ao fato de sermos estrangeiros, o seguro saúde que minha esposa e eu tínhamos com a Universidade não atendia à nossa família, somente a nós. Então fomos tentar no posto de saúde, pois na Rússia todo sistema de saúde é público. Negaram atendê-la e ficamos tentando em casa com várias receitas caseiras fazê-la melhorar, e nada. Depois de uma semana com vômito e diarréia, pedimos a um amigo que chamasse uma ambulância de algum hospital infantil. Quando a ambulância chegou, a médica examinou- a. Nossa filha nem conseguia mais ficar em pé e a médica disse que ela precisava de internação urgente. Ela iria de ambulância para o hospital acompanhada pela mãe. Chegando ao hospital, que ficava do outro lado da cidade, a enfermeira que nos recebeu, e que provavelmente não sabia ler outro alfabeto além do russo, assim que pegou o passaporte disse que nossa filha não poderia ficar internada lá. A médica da ambulância entrou na sala e tentou explicar que nós residíamos na cidade e que o caso era grave, mas a resposta foi a mesma. “Aqui não podem ficar!”,
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    dizia repetidamente. Amãe ficou em estado de choque, já não sabia o que pensar, o que dizer, o que seria da sua filhinha. Nessa confusão, uma médica que passava pelo corredor entrou para ver o que estava acontecendo. Quando soube da situação, foi examinar a menina e depois foi falar com a mãe em particular: - Se você quiser que a sua filha seja internada no hospital, eu consigo que isso aconteça, mas aqui é um lugar terrível para este caso, e não aconselho que vocês dêem prosseguimento ao caso aqui. Se quiserem ir para casa com a filha, me comprometo em ir todos os dias na sua casa para examinar a menina. E foi essa a decisão tomada. Nossa filha foi pra casa e ficamos duas semanas com um mini hospital em nosso apartamento. Precisávamos esterilizar o banheiro a cada uso, e como não existe álcool na Rússia (o de farmácia, é claro!), por indicação da própria médica, usamos vodca. A médica passou duas semanas indo até nosso apartamento para verificar o quadro. Quando não podia estar presente pessoalmente, ela ligava e pedia nosso “relatório”. Nossa filha passou por uma dieta rigorosa, e todos nós tivemos que entrar num ritmo completamente novo para acompanhá-la. Ao fim do prazo que a doutora havia estipulado para o tratamento, nossa filha já estava recuperada. A médica ficou muito contente de ver o progresso que tivemos, e elogiou muito minha esposa. “Não achei honestamente que vocês conseguiriam” - disse ela finalmente. Reconheceu que o quadro era muito grave e que havia inclusive risco de vida, e este era o motivo do interesse da médica que foi tão prontamente atenciosa. Ela, doutora Oksana, foi
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    mais um daquelesanjos que passaram em nossa vida pela Rússia. Em outra ocasião, nossa filha mais nova estava com problemas, recorremos à Dra. Oksana. Ela não podia atender o caso, pois estava de licença gestante, mas disse que ligaria para outra pessoa no Hospital Infantil. Em alguns minutos ela retorna a ligação e nos dá todas as orientações de como chegar ao Hospital e como proceder, com quem falar e o que dizer para quem nos atendesse, “...a médica já está esperando vocês!” - disse ela por fim. Assim como apareceu de lugar algum, a doutora Oksana também desapareceu, como nos contos. Seremos eternamente gratos a ela! Neste sentido teríamos que citar ainda outras pessoas que foram nossos anjos da guarda naqueles tempos. Janna Petrovna, por exemplo, a médica ginecologista que cuidou de minha esposa. Houve ainda um médico anônimo que fez uma pequena cirurgia em minha esposa, com eficiência notável. Ele não cobrou nenhum tipo de “presente”, algo totalmente incomum na Rússia, pois o caso havia sido indicado por uma colega dele que atendeu minha esposa na Clínica. Aos poucos fomos aprendendo como lidar com a questão de saúde na Rússia. Descobrimos que era preciso evitar os caminhos “normais”. Todas as vezes que tentávamos fazer a “coisa certa”, pelos caminhos oficiais, tudo emperrava na burocracia e mau atendimento (quando acontecia o atendimento!). O caminho das indicações se mostrou o mais eficaz. Lembro-me que quando precisamos colocar nossa filha na escola russa, uns dos requisitos para matricular uma criança era a
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    carteira da policlínicaonde ela deveria ser atendida. Buscamos informações de como obter a tal carteirinha. Logo de cara, percebi que estávamos entrando em mais uma das ruas sem saídas do sistema burocrático russo. Descobrimos onde seria a policlínica que atenderia a nossa filha, contudo, lá ninguém sabia informar nada, pois não tínhamos passaporte russo. - Como fazer? Como vocês não têm passaporte russo? Alguém nos disse que precisaríamos entrar com um pedido numa repartição que regulamentava as tais carteirinhas. “Mas onde é? Não sei!” Por fim, um amigo russo resolveu nos ajudar. Ele encontrou o local e foi conosco para resolver o impasse. Lá chegando, depois de preencher fichas e tudo mais, perdendo um tempo enorme para conseguir alguma informação. A funcionária disse que aparentemente as carteirinhas haviam sido suspensas para os não-russos, mas que era para esperarmos o resultado. Até hoje estamos esperando! Sem carteira, nossa filha não podia entrar na escola, mas como estávamos na Rússia, a diretora vendo nosso caso, resolveu autorizar o ingresso dela mesmo assim. O problema era quando os fiscais de saúde passavam pela escola e viam que a aluna X não tinha documentação. A enfermeira da escola e a diretora sempre davam um jeitinho de deixar as coisas na base do “deixa pra lá, vai!”. Anjos... Ficamos tão familiarizados com o sistema russo e conhecemos tantos caminhos alternativos, que no fim acabávamos servindo de referência para outros estrangeiros da cidade. Eles ligavam para nossa casa e pediam ajuda: “qual médico procurar?”,
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    “como era onome do remédio tal?”, “você pode ir comigo na consulta?” Certo dia uma amiga estrangeira pediu para minha esposa acompanhá-la ao médico para ajudar a “traduzir” o que ele diria. As duas foram até a clínica, e a estrangeira (uma americana) que estava ha pouco tempo no país, mal falava russo. Minha esposa não fala inglês, de forma que, quando o médico falava, usando termos específicos da área médica, minha esposa se virava para a americana e traduzia do russo para o “russo de estrangeiros”. A americana assentia positivamente fazendo gestos de positivo e pronunciando algumas palavras em russo. Assim foi a consulta inteira. Minha esposa conta que havia momentos em que o médico ficava sem entender o que aquela brasileira estava fazendo ali, traduzindo do russo para um “russo estragado”! Às vezes a tradução era literal, ou seja, palavra por palavra, mas para a americana, talvez por causa do sotaque do médico, ou medo de algo, sentia mais à vontade com a presença de uma “tradutora”. Gosto de pensar que de certa forma, também servimos de anjos para outros. Mas o que seria da vida sem estes anjos protetores?
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    SISTEMA DE EDUCAÇÃORUSSO Nossos primeiros dias em Krasnodar foram tempos de adaptação ao novo ambiente. Precisávamos aprender coisas tão básicas, que até mesmo uma criança pequena sabia, ou seja, era necessário aprender em poucos dias o que as pessoas levam anos para assimilar e descobrir. Quando se muda de país, a questão da língua é um fator que contribui muito para o estresse, mas compreender a dinâmica da vida em todas as suas nuances, é algo que pode acabar com qualquer pessoa. Pensando que este processo de aprendizagem precisa ser rápido e com qualidade, nós não poupamos esforços para entrar logo na cultura local. Nas poucas semanas que tivemos antes das aulas na Universidade, conseguimos ter avanços significativos. Mas o começo das aulas mostrou o quão longe estávamos ainda de entender a Rússia! Em primeiro lugar, descobrimos que as datas são apenas uma
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    aproximação, especialmente quandose fala dos inícios de algum processo longo. Ao menos deu para entender o que o responsável pelos estrangeiros tinha em mente quando disse que “as aulas começam lá pelo início de setembro”. Isto significava que, por estarem esperando outros alunos atrasados chegarem à Rússia, efetivamente tudo começou a andar já na segunda quinzena de setembro. A universidade não impressionava muito, pelo contrário, corredores escuros, canos expostos pela parede, banheiros que eram precários (nenhuma novidade no quesito banheiros!), salas com carteiras e cadeiras quebradas, entre outros. O que mais “chocou” neste início foi o hábito dos professores apagarem o que escreviam no quadro-negro, usando um pano-de-chão encharcado com água. Ficávamos olhando aquilo e vendo o borrão de giz que ficava espalhado pela lousa. Depois que me acostumei com a cena, percebi que aquilo evitava que o pó de giz se espalhasse no ar e pela mão de quem limpava o quadro (tarefa dos alunos). Mas estas primeiras impressões se deram nas aulas de russo para estrangeiros que a universidade oferecia para aqueles que estavam pretendendo entrar em alguma faculdade. A sala de aula era algo surreal. Numa sala pequena, que ficava dentro do dormitório dos alunos, havia algumas carteiras e o quadro. Todos ali eram estrangeiros, vindos literalmente de todos os continentes, perfazendo cerca de 10 pessoas. Ninguém falava um “i” de russo, exceto eu e duas coreanas que ao menos bom-dia sabiam dizer. O primeiro passo foi aprender o alfabeto. Era muito engraçado ver todos, já adultos, repetindo o que a professora dizia.
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    Parecia que estávamosnuma sala de crianças de 1° série. Depois de algumas aulas a professora veio falar comigo e disse que sugeriria para o responsável pelos estrangeiros de colocar eu e as coreanas na outra turma, a mais avançada. Assim, deixei minha esposa com a turma principiante e parti para a “avançada”. Enquanto eu me adaptava à nova turma e à professora, agora ao menos numa sala mais clara, minha esposa continuou avançando a passos largos. Cada dia ela vinha mais afiada no russo. Foi realmente muito bom para todos aquela separação, pois quem já tinha uma base pode galgar níveis mais altos, e o pessoal iniciante não tinha que se preocupar com os mais adiantados, e acabaram, creio, tendo resultados muito melhores até mesmo que alguns da outra turma. Aprender língua não é o suficiente, precisa-se entender e participar da cultura, pois ambas são inseparáveis. E em questões culturais, os russos são muito bem servidos. Pudemos aproveitar muito nosso tempo lá, pois sabíamos que para termos acesso ao mesmo tipo cultural aqui no Brasil custaria muito caro, e lá na Rússia, tudo era muito acessível. Acabei passando, algumas semanas depois, para outra turma de russo, pois nossa professora estava sendo requisitada para dar aulas para um grupo novo que acabara de chegar. Esta minha nova turma era bem mais adiantada, e tudo que acontecia, especialmente as conversas, era unicamente em russo (na turma de minha esposa ainda não haviam chegado no nível de conversação direta). Este era um ambiente estimulante, onde a maioria realmente estava ali para aprender russo, já que tinham necessidade disto, tendo em vista que aquele era o último estágio antes do ingresso nas faculdades.
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    Cabe dizer quenem todos estavam lá por causa da faculdade, ou estudos. Alguns queriam passar um tempo na Rússia e este era um meio de se conseguir visto e até mesmo certa liberdade. Outros queriam um certificado para poder mostrar em seus empregos (Companhias multinacionais, especialmente coreanas). Ainda havia o pessoal da festa ou do tipo “papai me mandou para cá”. Porém, quem precisava e tinha planos mais sérios, descobriu que aqueles meses de preparo seriam a diferença entre a vida e a morte na faculdade. Passado o primeiro ano, havia aprendido a lidar com algumas questões dentro da cultura acadêmica russa. Desconhecer certas “regras’ era trilhar caminhos nada fáceis dali para frente. No ano letivo seguinte, minha esposa se inscreveu para o ano avançado de russo, ou seja, a turma que eu estava no ano anterior. Ela iria enfrentar mais um ano de russo na universidade, o que achei corajoso e sábio ao mesmo tempo. Suas aulas continuariam no período da manhã. Contudo, eu teria que mudar de turno, e teria aula à tarde, pois a faculdade que eu escolhera somente tinha aulas naquele período. Tivemos alguns contratempos por causa das crianças, que no ano anterior ficavam em casa com uma babá. Entretanto, com as novas regras do jogo, tivemos que fazer adaptações. Feitas as adaptações, prosseguimos com nossa rotina. Lembro com exatidão o primeiro dia na Faculdade de Filosofia, História, Sociologia e Relações Internacionais. (FISMO, em russo). O longo corredor tinha algumas luminárias funcionando, outras nem tanto, e algumas que realmente tinham perdido sua
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    função há muitotempo. Havia uma multidão no corredor, pois além dos alunos dos cursos da Faculdade em cada especialidade, o corredor era uma ligação entre dois prédios da Universidade, e o trânsito sempre era intenso por ali. Consegui ver no quadro o local da primeira aula. Cheguei à frente da sala e percebi haver uma multidão que já se aglomerava ao redor da porta. Quando ela se abriu, e o pessoal da manhã começou a sair, lembrei daqueles dias em que você tenta pegar um ônibus lotado num ponto de ônibus que está mais lotado ainda. O empurra-empurra generalizado se justificou pouco tempo depois. Eram 55 alunos para uma sala que tinha menos de 50 cadeiras. Como decidi ser mais educado na entrada, especialmente com as damas, tive que ir pro fundo da sala. Havia uma cadeira sem o acento, apenas a parte de ferro. Era a única coisa que restara.Alguns já estavam em pé contra a parede. Pensei nas horas que ficaria naquela sala, e decidi sentar ali mesmo. Resumindo, não era nada confortável, mas era o que tinha. Outros mais educados dividiam a cadeira com uma amiga, ou amigo. Eu não tinha conhecidos ali, todos eram alunos russos. A sala, além da falta de carteiras e cadeiras, visivelmente carecia de uma manutenção. Tive o trabalho de contar quantas lâmpadas incandescestes queimadas havia nos lustres. O total foi de 70%! O chão tinha uma lâmina parecida com tacos, mas em alguns locais ela já havia desaparecido, sobrando apenas o chão de madeira, e ao longo dos meses tive a nítida impressão que estes buracos na lâmina iam aumentando em seu diâmetro. As janelas tinham vidros quebrados e o vento que entrava no outono e inverno eram de congelar os ossos. Por causa da sensação de segurança que o fundo
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    da sala sempretrás ao aluno menos preparado para perguntas dos professores, acabei achando um canto lá nas últimas carteiras. No fim da primeira semana todos os lugares estavam marcados. Logo descobri que a presença em sala de aula não é algo notado ou anotado pelo professor. Isto fez com que começassem a sobrar cadeiras mais dignas para se sentar ao longo do primeiro semestre. Mas para mim era imprescindível estar nas aulas. Em primeiro lugar, o controle sobre os estrangeiros era muito eficaz. Alguns que apreciavam “passear”, como dizem os russos, acabavam sendo chamados e inquiridos pelo diretor de assuntos internacionais. Resolvi não ter problemas com ele. Em segundo lugar, estar nas aulas era uma forma de aprender russo, familiarizar-se com o vocabulário mais científico e serviria de argumentação junto ao professor na hora das provas. Descobriria posteriormente que a sala de aula que mencionei acima era a melhor que havia na faculdade. As outras eram muito mais precárias: quadro-negro no chão, na posição vertical e com a parte superior encostado na parede As carteiras davam lugar a uma mesa de madeira com inúmeras camadas de tintas sobrepostas, onde eu imaginava que seria necessária uma espécie de prática de escavação arqueológica até se chegar às camadas pré-históricas da tinta original. As cadeiras eram na verdade bancos de madeira sem encosto. E as lâmpadas, deixo à imaginação do leitor! Agora algumas palavras sobre os professores. Era perceptível que havia uma renovação do quadro, pois alguns professores estavam se aposentando, ou ao menos deveriam fazê-lo logo! Especialmente nesta área, História, muitas mudanças ocorreram nos últimos anos,
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    em especial apósa queda da URSS. Não que os fatos históricos tenham mudado em si, mas a forma ideológica como eram interpretados havia mudado. Apesar de matérias serem abandonadas (como História do Partido Comunista da União Soviética, por exemplo), para muitos professores se desfazer de um passado repleto da ideologia partidária ainda era um problema. Outros que eram comunistas enquanto a União existia, passaram a dizer o que pensavam de verdade, abriam seus arquivos secretos e desenterravam leituras antes subversivas. Preferi este segundo grupo. Sempre existem aqueles professores que aprendemos a evitar, e aqueles que se pudéssemos daríamos um jeito de escanear todo o seu conhecimento. Com estes últimos, nunca era demais ter aula. Eles entram em nossas vidas, e mesmo que depois de alguns anos de estudo não os vejamos mais, eles jamais sairão dela. Aquela questão que mencionei no início do capítulo sobre a necessidade de aprender em pouco tempo o que uma pessoa nativa daquela cultura levou anos para descobrir, estruturar e decodificar, fala muito alto em momentos como o tempo das provas e exames na universidade. Aprender o jeito, a manha de tudo aquilo requer uma força extra de todo estrangeiro. Cada país tem um sistema, cada povo tem uma maneira de fazer as coisas, e as diferenças de como tudo é feito na Rússia neste sentido, é tão grande quanto a imensa distância geográfica que separa o Brasil de lá. Resumidamente o sistema funciona assim (claro que descobri isto depois das primeiras provas!): O professor disponibiliza para a responsável da turma a lista de perguntas que irão cair na
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    prova. Elas podemvariar de 50 à 150 perguntas. O aluno deve se orientar por elas para estudar. No dia da prova, os alunos entram em pequenos grupos na sala da prova (geralmente 5 alunos). Ao entrar, com sua carteira de notas na mão, ele deve pegar um dos bilhetes que se encontram sobre a mesa do professor onde estão as perguntas viradas para baixo. Geralmente existem duas perguntas em cada bilhete (daquelas que foram dadas pelo professor). O aluno diz o número do bilhete que pegou entre os que estão na mesa e vai sentar- se para responder às perguntas. Ali naquele papel (dado pelo professor) ele deve lançar tudo que sabe sobre o tema em questão. Ao acabar, o aluno responderá oralmente às questões do bilhete, podendo usar o rascunho que esboçou naquele tempo em que teve para se preparar. O tempo de preparo gira em torno de 30 minutos. O aluno pode pedir para pegar outro bilhete, mas isto já acarreta no desconto da nota a ser dada. E isto não é tudo! Quando o aluno termina de dissertar sobra a pergunta “A”, o professor pode (e certamente faz) perguntas chamadas de “perguntas complementares” que envolvam o tema. Aprendi a odiar esta expressão! A nota final varia entre 2, 3, 4 ou 5. Neste caso, a nota 2 significa reprovado, e o aluno irá precisar fazer outro exame. 3 é algo igual à “escapei por pouco!”. 4 já é algo considerável; mas 5 é mais para os super-dotados intelectualmente! Não tive muitos 5 na Rússia… Como isto é avaliado? O professor é que decide a nota que o aluno irá receber. Leva-se em consideração outros fatores, como participação nas aulas práticas, frequência, comportamento em sala,
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    e outros fatoresque nunca descobri. Sempre achei este método muito aleatório, vago e injusto. Houve vezes em que pensei “hoje eu levo o meu primeiro 5”, e o professor me deu 3. Outras vezes achei que seria esculachado pelas respostas dadas, mas recebia uma nota 4. Nunca sabia se iria bem ou mal na prova. Na verdade tudo ali era como um jogo, onde sempre quem podia perder era só o aluno! Ao final do exame, o professor pegava a carteira de notas do aluno e escrevia nela o nome da matéria, a nota e assinava. Descobri também que existiam tipos diferentes de professores na época das provas e exames. Os bonzinhos durante o semestre poderiam ser os devastadores na hora da prova, com perguntas que jamais poderíamos pensar que pudessem ser feitas. Outros “monstros” da sala acabavam por relaxar e deixar passar na boa. Mas o mais terrível de todos era o tipo “vocês não vão conseguir passar, por isto para que se matar estudando? É só ajudar com as compras de Fim de ano, que tudo fica bem”. Houve um caso em que existia uma tabela de preços. Quem estivesse interessado numa nota 3, deveria contribuir com X rublos. Se o apetite do aluno era maior, o número na tabela também era acrescido no seu valor. Agora se a pretensão era o desejado 5, aí era preciso desembolsar mais. Já outro professor facilitou as coisas, era só comprar o livro de sua autoria (e somente ele vendia, é claro!), e dar uma lida que a nota estava garantida! Na época da URSS, muita corrupção existia nos estabelecimentos de ensino (e em toda a parte). Contudo, nos últimos
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    anos o governorusso começou uma cruzada contra este tipo de atitude, e os professores universitários não ficaram fora da ação. Durante o tempo que estive na universidade, tive um professor que foi demitido por “comportamento inadequado”. Isto fez estancar muito este processo de “cobranças” de fim de semestre, e a partir do 3 ano não tive mais notícias, pelo menos abertamente, desta prática. As mudanças também ocorreram nas dependências da Universidade. O início do popular remont (conserto) chegou em 2007. Os alunos que moravam nos dormitórios tiveram a felicidade de ver suas janelas dos quartos trocadas pelas famosas “janelas alemãs”. Além disto, pintaram o corredor e instalaram um sistema contra incêndio nos prédios. Algumas faculdades começaram a ter corredores arrumados e salas refeitas. O estádio da universidade, que até então era um campo de futebol com uma grama esparsa e trilhos por onde passavam os alunos, acabou por ser totalmente reformado, ganhando grama sintética, pista de atletismo e até mesmo arquibancadas, com direito a iluminação noturna! As mudanças demoraram um pouco mais a chegar na nossa faculdade, mas foram bem recebidas quando apareceram por lá. O corredor, que era uma penumbra por falta de lâmpadas, foi iluminado. Os gabinetes das Cátedras e sala de professores totalmente reformadas. Durante semanas passamos pelos corredores que serviram de depósitos de móveis dessas salas e que iriam para lugar mais apropriado, o lixo. Mas a mais esperada de todas as reformas era na sala de aula principal, aquela que foi descrita anteriormente. No dia da “inauguração”, todos estavam ansiosos para
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    estrear a novasala. As luminárias foram trocadas e colocadas novas lâmpadas fluorescentes, as paredes perderam o tom marrom escuro (imagine como era antes numa sala marrom escuro e com lâmpadas queimadas). As janelas também viraram “alemãs” e a calefação foi trocada. Carteiras e cadeiras substituídas e o chão ganhou revestimento novo. O quadro negro virou branco e ganhamos um projetor de imagens. A reforma no âmbito físico também estava acontecendo na estrutura do próprio sistema de Ensino Superior. A Rússia mantinha seu sistema, que basicamente era o seguinte: ensino superior de 5 anos, sendo o quinto ano a Especialização. Depois deste grau, vinha o nível de “Aspirantura”, que era composto de 3 anos. A inserção do “novo estilo” (4 anos de superior, depois mestrado e por fim doutorado) foi uma opção à disposição dos alunos a partir de 2007. A minha turma foi a última que se formou exclusivamente pelo estilo antigo. Esta mudança não agradou a todos. Especialmente os professores não estavam totalmente convencidos que isto traria alguma melhora significativa. Na verdade, nem eles entendiam como iria funcionar este novo sistema e qual sua correspondência com o sistema russo. Resumindo, todos estavam confusos, inclusive eu, e até hoje esta relação é obscura. --------------------------------------------------- Preciso fazer agora uma menção ao sistema fundamental de ensino na Rússia, pois também participamos de mais esta área da vida naquele país. Isto ocorreu por que nossa filha mais velha estava entrando em idade escolar. Desde o momento que decidimos ir morar lá, fomos
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    unânimes na questãode colocar nossas filhas em escolas locais. Em geral, todo o sistema de formação fundamental está nas mãos do Estado. Ficamos sabendo depois que havia uma escola particular em outro bairro um pouco longe de nossa região, mas que quase ninguém sabia dar maiores informações. Alguns estrangeiros davam aula em casa para seus filhos (home school), outros mandavam seus filhos para escolas na Europa. Nossa opção de mandar a filha mais velha, e depois a mais nova, para uma escola local se deu por alguns motivos práticos. Primeiramente, ficamos sabendo que o Brasil não reconhece o sistema de “escola em casa”, e exige que as crianças que moram fora do país com os pais, ao retornar para o Brasil comprovem ter freqüentado um estabelecimento de ensino reconhecido no país de origem, mostrando a papelada devidamente documentada e traduzida. Com a orientação do pessoal da Embaixada do Brasil em Moscou, conseguimos fazer todo o processo legal para que elas fossem aceitas no sistema brasileiro quando voltaram. Em geral, brasileiros mantêm pouco ou mesmo nenhuma preocupação com este ponto. Mas isto é fundamental na volta para o país. Em segundo lugar, acreditávamos que, se estávamos num outro país, o conhecimento da língua seria importantíssimo para um desenvolvimento natural e social de nossas filhas. Neste ponto víamos a dificuldade de filhos de outros que tinham seu sistema de “home school”. Eles estavam isolados do mundo, das pessoas. Não podiam ir ao teatro, cinema, conversar livremente com pessoas, enfim, viver a vida normalmente. Em terceiro lugar, nossas filhas aprenderam outra língua,
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    outra cultura. Elasforam expostas a situações de vida real, e não ficaram guardadas num gueto, longe da realidade. Obviamente esta posição cobrou também um preço, tanto dos pais, como das meninas. Creio que todos sabem como crianças podem ser duras umas com as outras. Quem nunca sofreu algum tipo de pressão na escola? Quem nunca se sentiu agredido verbalmente ou mesmo discriminado em algum momento da vida escolar? Ser estrangeiro sempre é um belo motivo para se sofrer este tipo de pressão. Mas felizmente nunca tivemos casos de agressão física ou mesmo o chamado bulling, como se observa em muitos países do mundo. O fato de muitas crianças na escola delas serem também de origem georgiana e armênia trazia certa compreensão dos colegas. Certa vez, conversando com um colega de nossa filha, ele perguntou se éramos estrangeiros mesmo. Falamos que sim. Nisto ele olha para nós com ar de importância e disse que também era estrangeiro, georgiano, apesar de ter nascido ali mesmo na Rússia. A relação interpessoal na Rússia é muito complicada, e as crianças não são uma exceção. O fato de se ter poucos amigos é algo absolutamente comum, pois as pessoas são muito desconfiadas, especialmente com gente de fora. Os pais não permitiam que seus filhos se aproximassem das nossas crianças ao perceberem que elas não eram russas. Mas tivemos boas e não tão boas experiências com este lado da vida, a escola. O fato de não serem russas teve seus complicadores. Para matricular uma criança, precisa-se de alguns documentos que não possuíamos, como uma apólice de saúde infantil, que é dada pelo governo às crianças russas, como
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    mencionamos no capítuloanterior. O mais complicado era que não tínhamos direito a nada, como foi no caso do hospital quando nossa filha foi rejeitada, mesmo em estado grave. Mas se por um lado não existia o amparo do Estado, por outro contamos com a ajuda daqueles anjos divinos. A vice-diretora da escola onde a nossa filha mais velha iria estudar foi a professora dela na aula de “preparação para a escola”. Esta era uma aula de adaptação para a escola e uma pré-alfabetização. As aulas duravam alguns meses, e ajudava as crianças no processo de integração à vida escolar, e ainda auxiliava a própria professora a conhecer os alunos num ambiente ainda pré-escolar. Na Rússia não existe prézinho, as crianças vão direto para o primeiro ano. Este fato da vice-diretora naquele ano dar a aulinha ajudou-a a conhecer nossa situação, e no momento de fazer a matrícula na escola, apesar da falta de alguns papéis oficiais, ela e a diretora foram amplamente compreensivas, e aceitaram nossa filha sem maiores dificuldades. Esta porta aberta com elas nos foi importante ao longo do processo de ensino das meninas. Algumas vezes tivemos que bater no gabinete da diretora para explicar algumas situações, outras precisamos de uma ajuda para entender os processos educativos, e ainda houve momentos que precisamos falar sério sobre questões envolvendo atitudes de uma professora. Apesar de toda a seriedade e frieza com que a diretora nos tratava (e fazia isto com todas as pessoas!), ela sempre nos ouviu e foi uma pessoa profissionalmente bem equilibrada em suas posições. Aprendemos muito com as experiências na escola. Vivemos
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    intensamente os momentos,mesmo os de crises. Participávamos da reunião de pais, mesmo não falando muito! Estávamos sempre nas festas, tentando colaborar e se adequar ao estilo de vida escolar russo. Ajudávamos quando podíamos os professores, pois algumas vezes as turmas iam para alguma atividade como teatro, cinema ou algo do tipo, e precisavam da ajuda dos pais para levar as crianças (a pé) até o local, atravessando ruas e avenidas. Lembro até que participei num remont que foi feito na sala da nossa filha mais nova. Em outras palavras, participamos como qualquer pai e mãe preocupados com a educação de suas filhas. Minha esposa ajudava nossas filhas a fazerem as tarefas de casa, e com isto manteve o contato com a língua. Ainda em tom de brincadeira, dizemos que ela foi à escola mais uma vez, fazendo a escola russa do 1° ao 5° ano. Quanto aprendizado foi feito neste tempo de escola! Abrindo um parêntese, as meninas ainda tinham uma “escola brasileira” em casa, pois o colégio onde estudam aqui no Brasil, mandava à nosso pedido o material que as séries correspondentes aqui estavam usando, e minha esposa passava o material com elas no período da tarde (elas iam de manhã na escola russa). Isto foi feito para que nossas filhas não perdessem o contato com o português e para não sentirem a reentrada no Brasil. Estudos nesta área, feitos com pessoas que foram morar no exterior e que voltaram, apontam que esta reentrada é até mais difícil do que a partida, pois no tempo em que se está fora, muita coisa muda. Em especial, para crianças que saem pequenas, a mudança pode ser muito complicada. Felizmente, graças ao cuidado que nos foi orientado ter neste
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    aspecto, elas tiveramuma reentrada no Brasil muito tranqüila, se comparada com outras crianças que vêem de volta para cá. Alguns podem achar que ter 2 escolas foi um sacrifício demasiado. Em alguns momentos até chegamos a suspeitar que isto realmente fosse demais, contudo, agora vemos que foi absolutamente benéfico para todos. Mas voltemos à escola russa. Certamente ela não era a melhor da região, nem em termos de estrutura e nem mesmo de popularidade, mas não estávamos atrás disto, pois sabíamos que não éramos eternos ali. O fato de ela estar a 250 metros de nosso apartamento e não precisar passar por ruas e avenidas movimentadas era um fator de segurança para nós. E ainda havia o bom ânimo de diretoria e professores para conosco. A escola tinha muitas limitações. Como em toda a Rússia, as estruturas do prédio eram bastante antigas. Além das questões de sempre, banheiro, janelas, corredores, etc. O campo da escola para educação física era um “areão”, cercado de mato e a quadra de esportes era um asfalto com marcações feitas à mão. Mas, como sempre, tudo na Rússia naquela época vivia de remont. Não tudo de uma vez, mas aos poucos a escola foi colocando janelas novas, trocando carteiras e melhorando a estrutura das salas. Nos últimos anos, apareceram os projetores e até televisão nas salas. Quando saímos da Rússia em 2011, estavam construindo uma nova área de esportes cercada. Aescola oferecia cursos na parte da tarde, como música, balé e dança. Inscrevemos as nossas duas no curso de piano. E elas chegaram a participar de concursos municipais entre escolas de
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    música, inclusive recebendopremiações. Além destes cursos na escola, haviam outros que eram oferecidos por estabelecimentos perto de nossa casa, como pintura, artesanato, e outros instrumentos musicais. Conseguimos colocá-las em uma aula de natação, graças a ajuda do dono de nosso apartamento. Sempre havia algo para se fazer! A atividade cultural é intensa lá. Sempre há algum teatro, cinema, peças, apresentações, teatro de bonecos, circo, museus, balé, jogos esportivos para se ir. Tudo isto com preços muito acessíveis, se comparado com os preços praticados no Brasil. Apesar de todas as limitações na escola e universidade, dificuldades de acesso ao sistema de ensino e outras complicações, pareceu-nos que todo este processo teve resultados muito positivos. Quando tivemos que preparar nossa saída da Rússia, passamos na escola e obtivemos a papelada necessária para a entrada no sistema brasileiro. O material foi encaminhado para ser traduzido e oficializado. O mesmo ocorreu com o material que recebi na Universidade, diploma e histórico. Muitos deixam de fazer este procedimento, e depois tem dificuldades aqui no Brasil para legalizar esta documentação.
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    OS CONTRASTES A Rússia,como já foi dito, é o maior país do mundo em extensão territorial. Suas terras ocupam 1/6 das terras emersas com 17 milhões de km². Na época da ex- União Soviética, este valor subia para 22 milhões de km². Para se ter uma ideia da grandeza da atual Rússia, podemos colocar exatamente 2 Brasis dentro dela! Contudo, apesar deste tamanho colossal, o país tem uma população que não chega aos 150 milhões, ou seja, ¾ da população do Brasil. Ainda segundo alguns especialistas na área demográfica, o país na realidade deve estar abaixo dos 140 milhões, e o que mais preocupava era o fato da população estar diminuindo. Por coincidência ou não, a Rússia começou a apresentar números negativos no crescimento exatamente no ano em que houve a dissolvição da União Soviética. Mas o governo anunciou em 2009, com grande entusiasmo, que pela primeira vez em 15 anos a taxa foi positiva.
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    Entretanto, números sãonúmeros, e a vida é feita mais do que estatísticas. As mudanças da Rússia pós-socialista se lançavam diante de nossos olhos também neste ponto. Algo que nos chamou a atenção, na nossa visita em 2002, foi o fato de praticamente não vermos carrinhos de bebês nas ruas. Em 2005, começamos a notar uma frequencia cada vez maior nas ruas de casais levando crianças no colo e nos carrinhos. Com o passar dos anos, o número de carrinhos se multiplicou pelas ruas. O anuncio em 2010 de Vladimir Putin sobre os números positivos nas estatísticas demográficas ainda eram modestos, mas apontavam uma tendência. Parecia que os russos haviam acordado e começado a fazer bebês! O que aconteceu? Eles começaram a fazer mais sexo? Aumentou o descuido? Isto tem fatores que vão além de simples coincidências ou instintos procriacionais. O governo havia iniciado uma campanha junto a população para que tivessem mais filhos por volta de 2005. Um segundo filho traria uma quantia em dinheiro para a conta bancária dos pais, uma espécie de “auxilio nenê” que contemplava até garantias de estudo em estabelecimentos de ensino superior, que vinham premiadas com bolsas. Para famílias com 4 filhos ou mais, o prêmio incluiria uma casa e uma casa de campo. Haviam muitos outros benefícios indiretos e estímulos que eram oferecidos pelo governo. Aí, juntou-se o útil ao agradável, e as cegonhas não tiveram mais descanso por lá. Mas por que o governo russo se empenhou tanto em “persuadir” seus cidadãos a aumentar a prole? Existem muitos motivos. O país estava (e está) envelhecendo.A migração para outros
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    países (especialmente EuropaOcidental, Israel e EUA) desequilibrou o quadro interno. Muitos profissionais altamente qualificados haviam deixado o país em busca de maiores oportunidades. Quando chegamos lá, o maior sonho de um russo era deixar o país para buscar os sonhos do ocidente. Vimos muitos russos ultra- nacionalistas em sua ideologia, que na primeira oportunidade se achegavam perto de estrangeiros buscando uma amizade que provesse possíveis “conexões” com o mundo lá fora. Porém, alguns estudiosos apontam problemas muito mais críticos para a Rússia. E isto está relacionado com questões de seguança nacional. A reativação de certas unidades bélicas que estavam desativadas desde a desestruturação da URSS é um indício de que algo está acontecendo. E para a Rússia, o inimigo pode morar (literalmente) ao lado! Mas, por enquanto, não é nisto que a maioria das pessoas está pensando! O fato é que a grande parte dos casais russos têm apenas 1 filho(a). Nós morávamos num bairro fora do centro da cidade, pois a universidade ficava naquela região. E este bairro tinha uma população com uma presença mais expressiva de outras etnias caucasianas, em especial de georgianos e armênios. A escola onde nossas meninas iam era pública (praticamente não existe escola particular na Rússia). Percebia-se que famílias russas tinham basicamente um(a) filho(a), enquanto as de outras etnias chegavam a ter 3-4 crianças, o que em russo era denominado “famílias de muitos filhos”. Geralmente, as meninas destas etnias vão até certa série e param, pois entram em idade para casar. Já os meninos têm mais perspectivas de avançar nos estudos.
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    O problema demográficorusso é uma questão muito mais delicada nas pequenas cidades e aldeias espalhadas pelo país, especialmente nas regiões siberianas. Como dissemos, o êxodo destas pequenas localidades para as grandes cidades como Moscou e São Petersburgo tem limitado o desenvolvimento destes lugares. As atividades econômicas são muito restritas, e as indústrias da era soviética, que ainda existem nestes lugarejos, estão sucateadas, ultrapassadas e geram pouca competição com produtos de fora. Nos anos 90, e mesmo no início deste século, os índices de desemprego nas pequenas cidades (e mesmo em Krasnodar, a capital do estado), chegavam a 40-50% da população economicamente ativa. Quando estivemos lá em 2002, era muito comum ver pessoas nas ruas com placas penduradas no pescoço, oferecendo seus serviços (encanadores, marceneiros, jardineiros, etc.). Havia uma espécie de “feira” de trabalhadores no centro de Krasnodar, onde pessoas se colocavam a disposição para uma eventual possibilidade de emprego. O comércio informal era algo muito difundido. Naquela época, vimos muitas vezes carros na beira da estrada ou nas ruas da cidade, com sua carroceria completamente coberta de produtos para vender, uma espécie de mini-mercado. Caminhões estacionados com placas grandes (escritas a mão) dizendo CIMENTO é uma imagem que tenho ainda hoje na mente e ela representa muito bem este momento econômico do país, que estava em fase de transição econômica. Esta falta de estabilidade dos anos 90 e o início da década seguinte ajudaram a agravar um velho problema russo, o alcoolismo. O consumo aumentou, especialmente nas regiões menos
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    privilegiadas. Logicamente queo problema do alcoolismo tem raízes muito mais antigas e profundas na cultura local. Dizem que o consumo de vodka teria sido incentivada pelo regime czarista para manter o povo sob controle. Na Rússia, tudo é possível! Nos anos 60 o governo soviético, incomodado com a prática desenfreada da população no consumo de vodka, adotou um plano de incentivo ao consumo de sucos de frutas. Houve uma maciça industrialização do setor. Buscou-se aos poucos trocar o uso das bebidas alcoólicas pelo mais saudável hábito de tomar sucos. A medida teve algum impacto, mas o consumo de vodka não caiu nos patamares esperados ou idealizados pelo governo. O resultado mais duradouro foi que a variedade e disponibilidade de sucos que se tornou uma característica no mercado russo. Realmente impressiona o consumo dos russos destes produtos. Impressiona ainda mais a variedade dos sabores, maior que no Brasil, um país tropical, onde crescem uma variedade muito maior de frutas do que na Rússia. Mas como dissemos, o resultado desta troca foi abaixo do esperado. A população não deixou os velhos hábitos. Numa política do estilo “dos males o menor’, o governo apostou então no consumo da cerveja. Esta campanha parece ter sido mais bem sucedida. Mas, o efeito colateral é perceptível hoje. O consumo de cerveja é realmente alto no país. Em especial, os jovens são o alvo desta nova mania russa. O uso indiscriminado de cerveja é tão forte, que não existe hora ou local para se tomar, muito menos quantidade de litros. O consumo entre mulheres é algo ainda mais gritante. Nas ruas é “normal” ver moças andando com uma garrafa na mão. Nos bares, as mesas sempre estão bem servidas deste produto. Existe
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    garrafas de 5litros, que algumas vezes vimos sobre as mesas no mesmo número de pessoas sentadas ao redor dela! Devido ao fato de irmos para a universidade de manhã (a aula começava às 8:00 horas), muitas vezes passávamos por pessoas na rua que já estavam com sua garrafa na mão. Apesar de não vivermos no interior, os relatos de nossos conhecidos russos davam conta de que lá a situação era ainda mais degradante, pois a falta de perspectiva levava muitos a beberem, numa fuga da realidade. Nestes mesmos locais o índice de suicídios era alto, motivado pelos mesmos problemas. Apesar de toda a bebedeira, em geral, as pessoas não ficavam agressivas. Outro fato interessante é que as pessoas têm certo respeito e mesmo cuidado com os alcoolizados. Parece que, por todos já terem passado por certas situações por causa da bebedeira, ou por terem alguém próximo na família que tivesse sido ajudado, elas demonstram uma preocupação em ajudar. As vezes, diziam os russos, um motorista ao ver alguém ‘naquele” estado, parava o carro e ajudava o transeunte a achar o caminho para casa, inclusive muitas vezes levando o indivíduo até sua moradia. Bem, o que acontecia depois com a alcoolizado em casa é outra história… Mudando um pouco de foco, mas ainda dentro do tema, outro problema é o tabagismo. Uma estatística levantada por uma agência revelou que 70% dos russos e 50% das russas são fumantes. Não sei até que ponto esta pesquisa esteja correta, mas não há margem para dúvidas de que se estes números não representam uma realidade absoluta, estamos muito próximos dela. Os russos fumam muito!
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    O fato de“todos” fumarem, sempre serve de justificativa para que se fume em qualquer lugar. Lembro que pegávamos as lotações para irmos até o centro da cidade, e os motoristas sempre estavam fumando (é uma generalização, eu sei, mas não me lembro de um que não estivesse!). O maior sacrifício era estar numa destas lotações completamente lotada, com pessoas em pé inclusive, e em especial no inverno. Todas as janelas estavam religiosamente fechadas,o ar saturado pela respiração dos passageiros (sem contar o fato de o banho diário ser um hábito aparentemente muito brasileiro apenas), e o motorista ainda resolvia fumar. Para ser justo com ele, ao menos ele abria uma pequena fresta na sua janela, ainda que fosse só para jogar as cinzas do cigarro. Lembro de sempre tentar ficar perto daquela janela salvadora, ainda que com um pouco de fumaça vindo no resto por causa do vento, ao menos havia algum oxigênio por ali. Tentar abrir alguma janela era um ato que nem passava pela cabeça, pois vi como as pessoas reagiam quando alguém tentava fazer isto. Não existia na Rússia leis contra fumar em ambientes públicos. Lembro que um dia entramos num restaurante com um amigo brasileiro que lá morava e pedimos se havia um lugar para não fumantes. A expressão facial da atendente estampava uma pergunta: o que é isto? Abandonamos o plano de tentar achar o tal lugar para não-fumantes. Enquanto estávamos na Rússia, a situação começou a mudar. Algumas leis foram aprovadas no sentido de proibir o ato de fumar em lugares públicos, mas parece que restaurantes não fazem parte desta lista (e muitos outros que nós consideraríamos públicos
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    também não!). Nauniversidade não era permitido fumar nas salas de aula e no corredor, mas entrar na sala dos professores era entrar em território de fumantes. No intervalo entre as aulas, era comum ver uma tropa de alunos sair apressado para o pátio, a fim de ter alguns minutos com o hábito. É possível imaginar o índice de incidência de câncer advindos desta prática. Álcool e tabaco são grandes adversários na Rússia. Isto aliado a outros fatores sociais, além dos descritos acima, levaram o governo russo a tomar medidas fortes para prolongar a expectativa de vida dos seus cidadãos. Um país que perde muitas pessoas para doenças originadas pelo consumo de álcool e tabaco, que tem uma taxa de suicídio elevada, cujo as famílias têm em média uma criança, evidentemente precisa se preocupar com sua existência como povo e nação. Apesar desta tentativa de aumentar a expectativa de vida e da taxa demográfica, o país tem uma outra questão que vai no contra-pé destas medidas. Segundo estatísticas do próprio governo, uma mulher russa faz em média 7 abortos ao longo de sua vida. A lei do aborto foi aprovada em 1920, fazendo da Rússia o primeiro país a legalizar esta prática. Em 1936 Stalin a revogou, e sua proibição durou até a morte do ditador. Atualmente o país é o campeão mundial em abortos, e isto é uma questão delicada agora para o próprio governo. Nos anos recentes ele tentou reaver esta lei, o que provocou a reação enfurecida de parte da população, especialmente das organizações ligadas aos direitos das mulheres. Deixe-me dizer que sou contra esta prática, por questões éticas e morais, mas observando na prática o que isto provocou (e
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    ainda provoca) nopsicológico de pessoas envolvidas, a prática não acaba apenas com a vida do feto, mas destrói internamente (na alma, se quiserem pensar assim) a pessoa que o fez. Conheci um russo que disse estar neste mundo por um milagre divino, pois sua mãe antes de tê-lo, praticou 10 (!!!!) abortos. Ele escapou por pouco! Algumas mulheres que tive a oportunidade de ouvir falar sobre o assunto, que é algo velado naturalmente, falavam de suas angústias ao pensar naquilo que fizeram. Este é um assunto que ainda provoca muita dor nas pessoas, mas é a realidade da experiência de vida delas. Não quero ser moralista aqui, mas ver esta realidade coloca-nos diante de questões, no mínimo, inquietantes. A Rússia está distante do Brasil, não apenas na questão histórica, econômica, política, religiosa, étnica, mas também em questões sociais. Os problemas são distintos, ainda que tenhamos similaridades. Ver estas diferenças nos fazem pensar na vida, e em algum sentido acabam por mudar nossa visão de mundo. Perceber os problemas lá foi mais fácil por não fazer parte daquela cultura. Acaba-se por ver as questões de outro prisma, notar detalhes que não estão perceptíveis aos habitantes locais. Mas o mais interessante é voltar para o seu país e começar a ver os nossos problemas que antes também estavam ocultos aos olhos. Isto é, creio eu, amadurecer na vida! São os contrastes, as diferenças, os outros tons que acabam abrindo nossos olhos para novas perspectivas...
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    CURIOSIDADES CULTURAIS A diferençaentre Brasil e Rússia está muito além da posição geográfica entre ambos como realçamos antes. Gostaria de destacar aqui algumas pequenas facetas da cultura popular deste país que aprendemos no nosso tempo por lá. Quando chega a época de fim de ano, os pinheiros aparecem em vários lugares pela cidade. São pequenos pontos de venda destas árvores, que recebem o nome em russo de “yolka”. Elas não são árvores de Natal, mas sim, árvores de Ano Novo. É que na Rússia o Natal oficialmente vem depois do Ano Novo, lá no dia 07 de janeiro. Isto ocorre por causa do calendário que é seguido pela Igreja Ortodoxa Russa, o Juliano, que tem uma diferença de 13 dias em relação ao Calendário Gregoriano, utilizado na maior parte do mundo. Desta forma, o dia de Natal acaba caindo em janeiro pelo nosso sistema. Com a Revolução Russa, o novo governo adotou o Gregoriano, mas a Igreja continua com o sistema antigo para as datas por ela celebradas. Assim, os russos consideram o Natal comemorado em 25 de dezembro uma festa “Católica”, e ela praticamente não é comemorada na Rússia. Mesmo igrejas Protestantes usam a data tradicional russa como base de
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    comemorações, pois paraos russos não faz sentido um Natal em dezembro. Mas isto aos poucos tem mudado, e algumas pessoas começam a comemorar o Natal nas duas datas. Outro fato interessante relacionado à questão do calendário é a data de Ano Novo. Os russos, assim como a maioria do mundo contam o dia 1° de janeiro como início do ano. Mas por causa da diferença de datas dos calendários, o Ano Novo também é comemorado duas semanas depois. Os russos se saúdam na festa de 1° de janeiro com a frase “Feliz Ano Novo”, e para a outra data com “Feliz Ano Novo Antigo”. A primeira vez que ouvi isto, pareceu-me engraçado e confuso, mas depois acabamos nos acostumando. Lembro que numa noite de janeiro estava dormindo e de repente começaram os barulhos de fogos de artifício e pessoas gritando das janelas dos apartamentos. Pensei que era tiroteio (pensamento de brasileiro!!!), mas parei para ouvir melhor e ouvi a frase típica “Feliz Ano Novo Antigo”... Fui dormir mais tranquilo! Ainda sobre a festa de Ano Novo, os russos a esperam ansiosamente, é uma data das mais importantes do calendário. Eles compram muitas garrafas de vinho espumante, chocolate, tangerinas, bolos e balas. A figura principal é o “DedMoroza” (Vovô do Frio), o que corresponde ao nosso “Papai Noel”, que juntamente com sua sobrinha e assistente, a sempre bela “Snegurotchka” (Moça da Neve), distribui presentes para as crianças. O “Ded Moroza” está associado exclusivamente com esta festa de Ano Novo, e não com o Natal como no Ocidente. A tradição que dura mais de 30 anos no país é a de, na noite de 31 de dezembro, as famílias se reunirem para assistir um filme
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    chamado “Ironia dodestino”, que passa no canal principal de TV. Sempre o mesmo filme, todo o ano, com quase 3 horas de duração, mas, tradição é tradição! Deixando um pouco as festas de lado (pois ainda poderíamos falar sobre a Maslenitsa que é um correspondente ao nosso Carnaval), gostaria de passar para outra característica dos russos, que é a de sempre citarem alguma fala de um filme famoso. Algumas das citações viraram verdadeiros provérbios ou chavões, sendo plenamente compreensíveis para os ouvidos russos, mas que infelizmente não fazem muito sentido para os estrangeiros. Às vezes isto dificultava um pouco a comunicação, pois no meio da conversa alguém recitava a frase de algum filme da Era soviética e todos riam ou ao menos entendiam, e nós ficávamos ali parados tentando entender o que estava acontecendo. Quando um dos presentes tinha a sensibilidade de notar a nossa alienação ao que acontecia, começava a explicar o contexto, ou ainda a contar todo o filme… Outro traço da cultura russa é o de nunca rir em público de forma alta, ou sem um motivo extremamente importante. O riso, ou mesmo o sorriso, sem um bom “motivo” é considerado pelos russos como um sinal de demência mental. Certo dia, num mercado público no centro da cidade, estávamos com uma brasileira que ao passar por uma banca, parou na frente da vendedora e começou a sorrir, tentando mostrar simpatia para a outra mulher. - Do que você está rindo? - perguntou a vendedora com ares de poucos amigos. A brasileira não entendeu, e abriu ainda mais o sorriso, pensando que de alguma forma estava agradando, sem perceber o
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    tom ameaçador dalojista. - Você acha que sou palhaça para ficar rindo de mim? - continuou a vendedora. Neste momento minha esposa interveio e pediu desculpa para a vendedora, informando-a de que aquela mulher era estrangeira. - E daí, eu também sou estrangeira (armênia) e não fico rindo como uma doida por aí!!!- exclamou firmemente, acabando com a conversa. Mas aos poucos a nova geração vem aprendendo a lidar com esta “manifestação facial”. Certo dia, na sala de aula na Faculdade, um dos colegas estava rindo alto por causa de alguma coisa engraçada que alguém dissera naquelas conversas de fundo de sala. Os risos se espalharam pelo fundo, e a professora (já idosa) parou a aula para saber do que se tratava aquilo. Os alunos obviamente não contaram os detalhes, apenas informaram que era uma piada qualquer. A professora tomou então um caminho estranho para mim naquele momento. Ao invés de mandá-los parar ou expulsá-los da sala (algo muito comum na Universidade), começou a dizer que aquilo era coisa de pessoa com problemas mentais. Os alunos perguntaram então se rir era sinal de demência, ao que a professora respondeu com um categórico “sim!”. Quase começou uma revolução russa na sala de aula, mas no fim, todos pararam de rir e a aula simplesmente continuou. O sorriso é algo tão sério na Rússia, que sorrir demais é considerado também sinal de falsidade. Em especial, existe um preconceito forte contra a cultura americana do “keep smiling”, o
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    que veio areceber o apelido na Rússia de “sorriso americano”. Sorrir para estranhos é algo indesejado, e muito mal visto pelos outros. Lojas e redes de “FastFood” tiveram problemas no país justamente por causa disto. Numa enquete promovida por uma rede de lanchonetes americana logo no início de suas atividades lá, o principal ponto de insatisfação dos clientes era o “sorriso americano” dos vendedores, que eram instruídos para atenderem na forma do “keep smiling”. Restringida esta gafe cultural, a rede agora está espalhada por todas as principais cidades da Rússia. Mas estas gafes culturais podem ser cometidas por qualquer um. Por menor e sutil que seja a regra não explicita, o estrago ou mesmo a vergonha pela não observância dela geram constrangimentos. Tomamos como exemplo o caso de um buquê de flores. Qual o número de flores que deve ter um buquê? Isto pode fazer a diferença entre um agrado e um inconveniente. Números ímpares de flores são sempre usados para homenagens, presentes, agradecimentos ou em qualquer ocasião social. Agora, dar um buquê com um número par significa “pêsames”, pois é o número usado em enterros. O erro de dar para alguém um número par ao invés de impar, pode ofender sensivelmente uma pessoa. Uma flor somente é um agrado entre namorados ou interessados num namoro. E novamente aqui, feito da forma errada, mesmo com toda a sinceridade, pode ocasionar embaraços e situações constrangedoras. Olhando por outro lado, costumes culturais podem ser mal interpretados da mesma forma pelos estrangeiros. Os brasileiros que nos visitavam constantemente nos perguntavam sobre o hábito muito comum das moças andarem de mãos dadas nas ruas. Mas isto é
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    apenas um sinalde amizade, nada mais. Outro questionamento frequente é a cena de que, em quase todas as esquinas, terem garotas paradas, vestidas de forma (segundo o ponto de vista dos brasileiros) um tanto quanto atrevido, com minissaias e todas bem maquiadas. Tínhamos, então, que dizer que elas estavam ali apenas esperando a lotação, pois as esquinas são os pontos de parada delas, e que os trajes eram condizentes com a moda, pois todas russas praticamente se vestem daquela forma, especialmente as mais novas, sem qualquer conotação mais , digamos, sensual. Neste sentido, roupas são um capítulo à parte. A moda quando chegamos na Rússia era o sapato bico-fino, mas muitos também usavam o que nós denominávamos de “sapato Aladim”, pois era afinado e com a ponta levantada. Era muito estranho ver os homens com traje social e aqueles sapatos que destoavam do resto. As mulheres, por outro lado sempre estavam de salto, e quanto mais alto, melhor. No corredor da Universidade o som provocado pelos saltos era algo estranho, pois na hora dos intervalos, quando as portas das salas se abriam, os corredores se enchiam de moças que desfilavam com suas minissaias e com seus saltos. Mas, antes de saírem para o corredor, sempre repassavam a maquiagem, pesada, espessa. As mulheres russas adoram maquiagem. O catálogo de uma empresa de cosméticos que no Brasil apresenta uma quantidade muito maior de perfumes e outros produtos, na Rússia praticamente é visto com páginas e mais páginas dedicados à maquiagens. E este hábito de usar maquiagens não tem idade, nem ocasião. Não raramente ainda é possível ver pessoas andando de roupões na rua. Explico. Elas descem dos apartamentos para irem
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    comprar alguma coisalogo ali na esquina ou mesmo no quiosque. Por praticidade, elas saem de chinelo e roupão, afinal a banca de revistas é logo ali, e este ato não gera maiores constrangimentos. Algumas vezes nos deparamos com as pessoas saindo pela porta do prédio só de roupão, o que chocava de início, mas depois acabamos nos acostumando com a cena. As mulheres trabalham em todos os setores da sociedade. Raro era ver, por exemplo, homens dirigindo ônibus, trólebus ou bonde. A limpeza da cidade, muitas vezes, era feita pelas mulheres, e mesmo no trabalho de recapeamento do asfalto das ruas, as mulheres estavam presente. Isto é uma herança dos tempos soviéticos, quando a mulher ganhou muita projeção. Alguns associam este fenômeno com a Segunda Guerra, pois durante e após a guerra, as mulheres tiveram que assumir responsabilidades nas fábricas, no campo e na vida diária das cidades, já que os homens estavam na frente de batalha, ou tiveram um fim mais trágico. Não é à toa que um dos dias festivos mais importantes na Rússia é o 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Esta data é levada muito à sério por lá, sendo inclusive feriado. Neste dia, os homens presenteiam as mulheres com flores, fazem discursos e as homenageiam. Lembro-me da primeira vez que passei esta data na Rússia. Por desconhecimento da importância, não levei nada para a professora de russo, nem dei os parabéns e toda a felicitação pela data tão importante. Gafe! Nos anos seguintes, religiosamente algum tipo de felicitação foi expresso para as mulheres que eu encontrasse eventualmente naquele dia. Mas os homens também têm sua data, menos comemorada,
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    mas igualmente importante.O dia escolhido foi 28 de fevereiro, que acabou ganhando o nome de “Dia do soldado”. Todos os homens, inclusive meninos, são alvos das mesmas felicitações, presentes e tudo mais. O “dia dos homens” se comemora no “dia do soldado”, pois se pressupõe que todos os homens foram, são ou serão soldados. Resquícios da era soviética. Aqui se percebe que a guerra está presente em todos os lados. E isto se reflete nas datas comemorativas, especialmente no dia 9 de maio, comemoração do fim da guerra, o “Dia da Vitória”. Paradas militares são vistas nas ruas, pessoas desfilando, passeatas, homenagens aos heróis de guerra, veteranos e aos soldados tombados em combate. O número de 27 milhões de soviéticos mortos no conflito justifica plenamente esta importância atribuída ao dia. Dizem que todas as famílias tiveram ao menos um membro morto na guerra. No ano que chegamos na Rússia, uma fita, chamada de Fita de George, começou a ser distribuída à população gratuitamente como um símbolo, e isto se espalhou pelo país, virando uma mania nacional. Suas cores com listras preta e laranja intercaladas eram exibidas nos carros, transportes públicos, penduradas nas camisas, chapéus, janelas, enfim, por todos os lados. O que mais me impressionou na Rússia em relação aos feriados, é que eles são observados rigorosamente. Se um feriado acaba caindo num sábado ou domingo, ele é automaticamente, transferido para a segunda-feira, ou sexta-feira. Ou seja, não se perde o dia de descanso por causa de inconveniências do calendário. E a guerra também é intensamente retratada nos filmes russos e nos livros. Estas duas manias nacionais sempre retrataram o
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    momento mais marcanteda história do país no século XX. Ir ao cinema é uma paixão russa, o que é estimulado pelos preços extremamente acessíveis. O livro é outro companheiro sempre presente. E apesar dos celulares terem tirado o lugar do livro ultimamente, ainda mais entre os jovens, uma opção adaptada de tecnologia e a antiga paixão é vista cada vez com mais frequência nas ruas, os leitores de livros eletrônicos, que são dos mais variados tipos, tamanhos e cores. Eles são encontrados com facilidade até em supermercados. Supermercados, aliás, que evoluíram muito em termos de qualidade. Nos tempos finais da URSS passavam por uma forte crise de abastecimento. O fim da União acabou por trazer mais problemas, pois as repúblicas que abasteciam o mercado russo de frutas e verduras, entre outras mercadorias, acabaram por romper o fluxo que era forçado pelo governo central. Mas esta crise foi superada, e atualmente encontra-se de tudo. A demanda por produtos importados era tão grande, que uma estimativa do próprio setor observava que 50% dos produtos colocados à venda nos mercados eram de origem externa. Isto se explica basicamente pela falta de produção nacional ou a péssima qualidade do que era produzido no país. Entretanto a indústria nacional russa acabou reagindo e iniciando um processo de maior concorrência com os importados. Muitos produtos ainda vêm de fora. Quando se chega num mercado na seção de frutas, podem-se ver as bandeiras dos países de origem delas. Turquia, Egito, Israel, Colômbia, Equador, e para nossa surpresa, algumas vezes a bandeira do Brasil, debaixo da qual estavam mangas e limões verdes. Achamos polpa de frutas
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    congeladas típicas doBrasil como cupuaçu e cajá. Também encontramos num mercado durante algum tempo carne brasileira, tanto de gado quanto de frango e salame, e o sabor era bem mais agradável para nosso paladar do que a carne russa. Vale a pena notar que para os brasileiros, a comida russa não atrai muito. Em geral, para o nosso paladar, ela é sem sal e sem gosto por causa da falta de temperos. Em alguns casos, especialmente com as comidas de origem da Ásia Central, elas são picantes, e se o anfitrião que a está oferecendo diz que não é, duvide, pois paladares são diferentes. Mas como se diz, gosto não se discute. Certa vez, estivemos na casa de uma família centro-asiática e o almoço foi servido ao estilo oriental. Ficamos sentados no chão, ao redor de uma mesa baixa, entre almofadas e reclinados. A comida foi posta à mesa e o anfitrião, após explicar que o prato era tradicional de sua cultura, nos convidou para comermos. Perguntei se a comida era apimentada, ao que me respondeu negativamente. Aprendi naquele dia que muitos conceitos culturais e gastronômicos são relativos. Precisei imediatamente de algo para tomar, ao que me foi servido chá quente, como de costume. Fui forçado a tomar o chá mesmo, pedindo depois educadamente um copo de água. Os choques culturais acontecem a todo instante. Eles podem ser gastronômicos, auditivos, visuais, etc. Lembro que sempre tive dificuldade com os taxistas. Eles são sempre os senhores na relação com o cliente. Uma pessoa que ataca um táxi na rua começa do lado de fora do carro, pelo lado do passageiro, a negociação. A primeira questão a ser definida não é o preço da corrida (poucos tinham taxímetro), mas se o taxista estava disposto a levar o cliente ao local
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    desejado. Em grandeparte, as negociações acabavam naquela pergunta mesmo, pois o taxista ia embora sem maiores explicações. Certa vez, ao chegarmos de Moscou no aeroporto de Krasnodar, já no início da manhã, depois do avião ficar horas preso num outro aeroporto por causa da nevasca que se abatia sobre Krasnodar, precisávamos de um táxi. Já era esperado que o preço da corrida seria abusivo, mas naquela situação já sabíamos como agir, negociar. Contudo, ninguém estava disposto a nos levar, pelo fato de não irmos para o lugar onde eles queriam levar os possíveis passageiros. - Só vou para o centro! Se você quiser vamos lá! Se não, não! - diziam. O nosso bairro era no caminho entre o aeroporto e o centro, mas nenhum dos taxistas se prontificou a nos levar até o nosso destino. Felizmente as coisas na Rússia já haviam mudado o suficiente, e minha esposa ligou para uma companhia de táxi e pediu um. Em poucos minutos o táxi chegou, e nos levou para casa, cobrando o valor justo da corrida marcado no taxímetro. Em outra ocasião, minha esposa e eu estávamos no centro da cidade, precisando chegar até um local onde estava acontecendo um evento. A temperatura era de -17° C, e precisávamos de um táxi, pois o local do evento era distante e sem rede de transporte público. Era noite e estava nevando muito. Quase não haviam carros na rua e os poucos taxis que circulavam não paravam para nós. Já angustiado com a situação e o frio, achamos um táxi parado num canto. Aproximei-me esperançoso de enfim ter encontrado a solução do nosso dilema. O rapaz no carro estava segurando um prato de isopor e ficou olhando para mim pela janela com cara de quem não iria se
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    dignificar em abrirao menos o vidro. - Está livre? - perguntei congelando. - Estou comendo. - respondeu através de uma freta na janela. - Pode nos levar até à Rua Rossiskaya? - Estou comendo! - insistiu o motorista. - Quanto tempo até você terminar de comer? - já começando a perder a paciência, mas mantendo um polimento. - Daqui a meia-hora podemos ir. - Meia hora? Não dá para terminar aí rapidinho? - Vou descansar um pouco depois de comer… Olhei para minha esposa que estava do outro lado da rua e desisti, sabendo que meia-hora significava um “NÃO”!!! Por fim, conseguimos carona com um conhecido que estaria passando pelo centro dentro de meia-hora. Ficamos parados (e esquentando-nos um com o outro) por todo aquele tempo, na rua, debaixo de neve e muito frio. Mas é assim que as coisas são. O freguês raramente tem razão na Rússia! Entretanto, cada vez mais os consumidores russos tem se oposto a este tipo de tratamento desdenhoso que lhe é oferecido. Isto, segundo pode-se presumir, é fruto também do contato dos russos com o mundo externo. O turismo cresceu de forma exponencial no país nos últimos anos. Os russos têm preferido ir para o estrangeiro a frequentar as praias do sul do país. A explicação é simples: valores cobrados por hotéis e alimentação são muitas vezes superiores aos encontrados fora, e ainda precisamos acrescentar o fator “bom atendimento” e educação (mimos). Os russos têm partido cada vez mais em pacotes turísticos para os países relativamente perto, como
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    Turquia, Egito, RepúblicaTcheca, Espanha e Chipre. Outros lugares como a distante Tailândia e Maldivas também são muito requisitados. Os pacotes com preços atrativos, num sistema geralmente de “tudo incluído”, sol e praias aliado a bons hotéis, fazem com que o fluxo de pessoas seja muito grande, especialmente no inverno russo, quando em países como Egito e Turquia, o sol brilha forte. Tudo tem contribuído para que os russos venham a conhecer o mundo e importar certas exigências para seu país. E isto tem, aos poucos, mudado a cara de um sistema que permaneceu fechado por muito tempo. E este é seguramente um processo sem volta…
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    A ALMA RUSSA:DO MISTICISMO AO CRISTIANISMO Um dos grandes mistérios da Rússia encontra-se dentro dos próprios indivíduos que compõem aquele país. Falar a respeito da alma russa em si é uma das tarefas mais complicadas. Em seu livro Os russos, Angelo Segrillo aborda, num dos capítulos, o tema que leva como subtítulo “Mente ou Alma?”. Segundo ele, o ocidente tenta interpretar e entender o comportamento de um país, neste caso a Rússia, segundo a chamada “mente russa” - russianmind. Entretanto, em russo, a expressão correspondente é “alma russa” - russkayadushá- o que pode demonstrar fortemente a atração russa não pelo racional (mente), mas pelo espiritual. Evidentemente que uma
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    dicotomização extremada nestaquestão seria impraticável e até injustificável. Mas o fato é que os russos não podem ser vistos como racionais e materialistas essencialmente. Eles mesmos se entendem mais como espirituosos ou espirituais (não apenas no sentido religioso) do que racionais, pois são extremamente passionais em suas relações internas. De igual forma, eles podem ser considerados “espirituais” por suas notáveis capacidades artísticas, como as áreas musicais, teatrais, de dança, literatura e religiosa. Gostaria de abordar neste sentido a questão religiosa, que é onde mais a alma russa aflora. A ideia de um russo ateu, materialista, desvencilhado de qualquer sentimento religioso e sem superstições está muito longe da realidade. Tal declaração pode surpreender algumas pessoas, pois geralmente se vincula os russos ao “comunismo ateu”, com uma ideologia anti-religiosa, expressa inclusive por seus líderes em suas guerrassantas contra todos os tipos de manifestações religiosas. Entretanto, a realidade é que a alma russa é totalmente supersticiosa. Em geral, mesmo pessoas instruídas manifestam tal superstição em momentos diários. O dono do nosso apartamento, por exemplo, sempre ia pegar o aluguel conosco na parte da manhã, e nunca à noite. Certa vez, insistimos que
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    ele passasse noapartamento à noite (por uma razão que agora não lembro). Ele procrastinou até onde pode, indo pegar finalmente o dinheiro numa manhã, depois de vários dias. Depois descobrimos que os russos não pegam dinheiro de outra pessoa à noite, senão, como dizem, o dinheiro “vai embora”! Mas aconteceu certa vez que ele precisou buscar o aluguel à noite. Ficamos surpresos, mas abrimos a porta esperando o que iria acontecer. Ele então me cumprimentou, apertamos as mãos já dentro do apartamento, pois não se pode apertar as mãos quando ambos estão de lados distintos dos umbrais da porta. Pediu então para que eu colocasse o dinheiro no chão. Olhei para ele com uma cara de quem não estava entendendo a questão. Ele fez gestos para eu colocar o dinheiro na sua frente. Coloquei-o como havia instruído nosso “hoziain” (dono) e ele abaixou-se e pegou o bolo de notas. Tive a impressão que neste meio-tempo algum tipo de cerimonia fora feito, mas não tenho como afirmar categoricamente. Ele olhou para mim e minha esposa, agora com cara de satisfação e explicou que não se pega dinheiro das mãos de outros à noite. Nós nos entreolhamos e apenas balançamos a cabeça. Parecia aquelas cenas em que duas civilizações se encontram pela primeira vez, quando tentam se comunicar e cada um dos lados fica tentando adivinhar o que
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    o outro estáfazendo, qual o motivo dos rituais e palavras. Ao sair, ele pediu para abrirmos a porta, mas esta já sabíamos, pois se a visita abre a porta, ela nunca mais volta! Outro costume russo é nunca assobiar em ambientes fechados, como lojas, casas, e etc. Isto é muito mal visto, e deve ser evitado a qualquer custo (quantos problemas tivemos com brasileiros que nos visitavam, pois brasileiro adora assobiar, seja para chamar alguém, seja para cantarolar!). Segundo os russos, isto faz com que o dinheiro vá embora. Mas isto tem uma explicação histórica, pois quando a Rússia foi dominada pelos mongóis (entre séculos XIII-XV), como os opressores não falavam a língua local, entravam nas casas assobiando para indicar que estavam confiscando algo ou cobrando impostos. Algumas vezes apareciam reportagens na TV sobre o sistema de moradia, que é um problema no país. No meio da reportagem, às vezes apareciam casais entrando num apartamento que estavam para alugar ou comprar, carregando um gato. Antes de entrarem no local, o casal colocava o gato no chão e seguiam os seus passos. Isto parecia um ritual e posteriormente descobrimos que dependendo do local que o gato for ou permanecer, serve de presságio para o casal em relação ao negócio de compra ou aluguel do local. E isto parece ser um caso muito sério!
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    Os russos parecemrir de outra instituição nacional, mas ao mesmo tempo sempre parecem ter muito cuidado com a questão da “gadanie” (adivinhação). Fazem-se adivinhações com tudo, mas a mais popular é a do café. Eles despejam água quente no copo e depois o pó de café. Quando terminam de tomar o café, ficam os resíduos (borra) de café no fundo da xícara, então algum(a) iniciado(a) na “arte” pega-a e inicia o processo de interpretação dos formatos do pó no fundo. inda existe o processo de adivinhação pela vela, que consiste em deixar pingar gotas de cera derretida das velas em uma bacia ou copo. Ao se passar pelos pontos de ônibus ou bonde, é possível ver inúmeros anúncios de “Gadanie” pendurados nos postes. Existem ainda as vovós (especialmente) nas pequenas cidades e vilas que são as que sabem fazer magias, conhecem ervas, tem “poderes”. Em alguns lugares, o xama9nismo (crença nos espíritos da floresta e de animais) cresceu muito, e um número cada vez maior de russos segue este tipo de crença, especialmente na Sibéria. Esta tradição xamã vem perdurando por milênios, pois já antes da chegada do Cristianismo no século X, a prática era difundida por todas as regiões. O paganismo ainda encontra muitos adeptos entre os russos, que ultimamente tem sido alavancado por uma busca pela identidade étnica, tanto dos
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    siberianos, quanto doseslavos no oeste. Contudo, os russos são em sua maioria cristãos ortodoxos, e ainda que as estatísticas e estimativas sejam conflitantes, podemos assumir que algo em torno de 60% se considerem ao menos adeptos de alguma forma com a ortodoxia oficial. Outro bloco religioso significativo é o muçulmano, que deve estar em torno de 6 a 10%. Contudo o número vem crescendo devido a dois fatores principais: a alta taxa de natalidade entre a população muçulmana e a entrada no país de pessoas vindas das ex-repúblicas socialistas, especialmente da Ásia Central, que são predominantemente islâmicas. Algumas regiões administrativas e estados da Federação Russa são de maioria muçulmana.Apesar de quase todas estas regiões estarem na porção sul, no Cáucaso, existe neste caso a República do Tartaristão, à leste de Moscou, que é um dos principais redutos islâmicos no país. As regiões budistas se concentram na Sibéria, perto da China e Mongólia. Existe ainda uma república budista na parte europeia, que é a única região budista da Europa, chamada Kalmikya. Não poderíamos deixar de mencionar a forte presença judaica. Apesar de sua porcentagem ser relativamente baixa,
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    os judeus formamuma categoria à parte. Sua influência está por todas as partes na cultura russa. Ao abrirmos livros de culinária russa e da judaica, perceberemos uma similaridade extraordinária. Muito da forma de pensar e agir dos russos podem ser encontrados na visão de mundo dos judeus.A força deles é demonstrada pela própria atitude de Stalin durante seu governo. Para dar uma solução à questão de falta de terras para os judeus, ele cria a Região Autônoma Judaica em 1934. A solução oficial do ditador nada mais foi do que uma tentativa de subjugar e controlar os judeus, isolando-os do resto do país, colocando-os numa espécie de exílio, pois o local escolhido fica do outro lado da Rússia, perto de Khabarovsk, em direção ao Japão. Mas gostaria de me ater mais na questão da maior influência religiosa da Rússia, o Cristianismo. Como dito, oficialmente foi o príncipe Vladimir que recebeu a nova fé, impondo-a a seus súditos. O ano era 988, e seu batismo ocorreu no rio Dnieper, na região da atual Ucrânia. Sua conversão teve, entre outros motivos, a necessidade de unificação do Estado de Kiev-Rus (que veio a ser a base da posterior Rússia). A opção pelo Cristianismo, especialmente o Ortodoxo, se deu de forma muito inusitada, segundo a Crônica Primária
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    Russa. Vladimir teriamandado emissários a quatro regiões, dominadas pelo Islamismo, Budismo, Cristianismo Católico (Ocidental) e o Cristianismo Ortodoxo (Oriental). Seguindo uma respaldada tradição histórica, principalmente por questões geográficas óbvias, a aproximação com Bizâncio foi efetivada. Ao longo da história, os bizantinos mandaram seus missionários para o leste da Europa, com o fim de cristianizar as tribos bárbaras lá existentes. O próprio alfabeto usado atualmente na Rússia, Ucrânia e outros países do Leste Europeu, chamado Alfabeto Cirílico, é baseado no alfabeto grego, por influência de missionários gregos (Metódio e Cirilo), que na segunda metade do século IX, teriam feito a adaptação para as línguas eslavas (tronco linguístico mais importante da Europa Oriental). O vínculo com o Oriente da cristandade então era um processo lógico. Além de abrir toda a região do Leste Europeu para o comércio e deixar a região sob a sua proteção religiosa, esta aproximação ideológica trouxe também como resultado as influências culturais e artísticas do Império Bizantino (que era o Império Romano do Oriente) e elas acabam por tomar parte na formação posteriormente da “alma russa”. A ortodoxia é tão forte que os russos a entrelaçam de com suas vidas, fazendo com que para eles, ser russo é ser
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    ortodoxo e vice-versa. Osrussos não têm muito apresso pelo Cristianismo da linha ocidental. O Catolicismo é visto como uma espécie de deturpação, e sua presença em solo russo é muito mal aceita dentro dos círculos populares. Isto se explica pelo fato de que na época da formação do Estado e a adoção do Cristianismo, a cristandade estava passando por problemas de entendimento em relação a certos pontos tidos como cruciais em sua interpretação teológica. Estas diferenças acabaram por promover o “Grande Cisma” entre o Ocidente o Oriente em 1054. Até hoje, por exemplo, nenhum papa teve permissão para visitar o país, apesar das tentativas do Vaticano nos últimos tempos de uma aproximação. Outro ponto que ainda parece ter influência dentro de um inconsciente coletivo dos russos é a ideia de que Moscou estaria destinada por Deus para se tornar a chamada Terceira Roma.Ao longo dos séculos, esta teoria foi tomando forma e se fixando dentro de círculos eclesiásticos e posteriormente sociais. Mas o que seria isto? Roma foi considerada como uma espécie de centro da Cristandade desde a conversão de Constantino (313 d.C.). Contudo, no século V Roma foi tomada pelos bárbaros, o que ocasionou a queda final do
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    Império Romano doOcidente. Mas ainda restava a parte oriental, Constantinopla, que posteriormente veio a ser Bizâncio. Assim sendo, esta cidade veio a se tornar a segunda Roma, pois era um centro importante do cristianismo, e estava nas mãos de Imperadores cristãos. O Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino) se mantêm por mais mil anos, até que os turcos-otomanos a tomam em 1453, fazendo com que a capital do Cristianismo passasse definitivamente para as mãos dos muçulmanos. A queda da segunda Roma traz um vácuo de liderança dentro do Cristianismo, e a única grande capital cristã na Europa se torna Moscou. Nesta linha lógica, muitos propagaram a ideia de que Moscou seria a herdeira da tradição cristã, o que a tornava a Terceira Roma. Toda esta história um tanto quanto truncada e ideologizada serve para muitos, na ortodoxia, como base para reclamar para a Ortodoxia Russa um lugar de eminência dentro do quadro da cristandade mundial. Tal ideologia encaixou-se de forma excepcional às necessidades de grandeza dos czares e, posteriormente, isto fica impregnado dentro do próprio povo, ainda que de maneira muitas vezes subliminares. E foi justamente a Ortodoxia Russa que serviu como um obstáculo forte no avanço do Islã. A Rússia, juntamente
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    com Estados comoArmênia e Geórgia (região do Cáucaso) foram fundamentais para que a Europa não sofresse a pressão muçulmana a partir do Leste. Especialmente a Armênia e a Geórgia (que foram os primeiros Estados que tornaram o Cristianismo a religião oficial, antes mesmo de Roma) sofreram os golpes dos muçulmanos que tentavam abrir caminho pelo Cáucaso. Por sua intensa luta pela fé, estas terras ficaram sob o domínio cristão. Contudo, contornando estes dois Estados cristãos, os muçulmanos ocuparam partes do que é hoje o sul da Rússia (Cáucaso Norte). Com o interesse russo de anexação das terras pouco ocupadas pelos turcos ao sul (século XVIII), um problema a mais estava se desenhando no horizonte. A religião oficial dos russos era o Cristianismo, mas aquela região estava no limite do mundo muçulmano. Isto fez com que as pessoas que para lá fossem enviadas, no processo colonizador, precisavam ter seu compromisso e sua lealdade ao Império Russo, significando lealdade ao Cristianismo, e ninguém mais leal ao czar e ao cristianismo que os cossacos.. Este fato explica (em grande medida) a forte presença da Ortodoxia no sul da Rússia atualmente. Talvez mais do que todas as outras regiões russas, a fronteira sul é bem polarizada entre cristãos e muçulmanos. Apesar da anexação de várias
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    repúblicas muçulmanas naregião ao Império Russo, elementos religiosos ainda trazem a tona sentimentos de desacordo e mútua desconfiança. Certo é que, em muitos casos, a religião serve de desculpa para questões que não dizem respeito diretamente ao campo da religiosidade. Ideologias políticas e econômicas estão sempre nos bastidores, ditando o ritmo no palco principal. Krasnodar é uma cidade que fica dentro da região cristã. Para o norte encontramos somente províncias e estados cristãos. Contudo, basta atravessar o rio que fica ao lado da cidade para se entrar em “território muçulmano”. AAdygea é uma república oficialmente muçulmana. Se em Krasnodar podemos encontrar basicamente apenas igrejas e templos ortodoxos, na capital da Adygea, Maykop, a grande atração é a mesquita azulada que se destaca na paisagem. Em Maykop a Ortodoxia Russa está presente, mas ela divide a cena com o Islã. A partir do estado de Krasnodar para o leste, temos o estado de Stavropolskiy, onde temos influência ortodoxa e muçulmana, e a partir dali, apenas repúblicas muçulmanas, com exceção da Ossétia do Norte, um reduto cristão no meio de regiões predominantemente muçulmanas. Andar por esta região é algo fascinante. Ver tantas
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    etnias, costumes, culturas,crenças traz à tona a diversidade humana. Estive em alguns lugares da região como será narrado adiante, mas para se sentir cada local é preciso dedicar mais do que algumas horas. É preciso conversar com as pessoas, andar nas ruas, perambular sem compromisso pelos mercados públicos, sentir o cheiro, ouvir as conversas, ver as nuances, tocar os produtos… Parece-me que é na Rússia que a alma humana apresenta-se com maior intensidade, cheia de angústias, contradições, desejos, força e uma ânsia pela verdade. E a religião é o catalizador de tudo isto. É assim que é a alma russa!
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    O INTERIOR DARÚSSIA Falamos anteriormente, de forma sucinta, sobre alguns aspectos socioeconômicos do país e como isto se reflete na vida cotidiana, especialmente nas pequenas cidades. Neste capítulo, queremos abordar um pouco sobre o interior da Rússia em si. A população russa está distribuída de forma desproporcional em seu território. Se aproximadamente ⅔ do território fica na Ásia, o que chamamos vulgarmente no ocidente de Sibéria, apenas ⅓ das pessoas vivem lá. A região recebeu muitas levas de pessoas que eram deportadas pelos regimes, tanto czarista como soviético, com a finalidade de neutralizar qualquer oposição aos que estavam no poder. Muitas cidades do norte siberiano foram fundadas exatamente
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    por este motivo.Alguns Gulags acabaram por se tornar em centros urbanos, pois muitas das vezes os parentes (especialmente as esposas e filhos dos prisioneiros), iam atrás de seu ente querido. Estive numa cidade no Norte que, apesar de não ter sido fundada por causa do Gulag, recebeu grande impulso populacional devido a um campo de trabalhos forçados que acabou por se localizar por perto. Um amigo russo me contou a história de sua família que havia passado por este processo de deportação e uma história de amor. Seu avô foi enviado para um Gulag soviético naquela região. A sua avó acabou indo atrás do marido juntamente com os filhos, e se estabeleceu lá. Quando o prisioneiro foi solto, ele não podia voltar para casa, devido ao “passado” político, e toda a família acabou ficando na região. E esta história se repete em muitas outras famílias da região e por toda a Sibéria. Mas deixaremos o norte russo por enquanto e vamos falar um pouco sobre o sul da parte europeia onde morávamos, e sua constituição cultural e social. A maior cidade da região é Roston-na-Donu, sendo seguida por Volgogrado (da qual falaremos depois) e Krasnodar, que juntas somam 3 milhões de pessoas. Como dissemos, Krasnodar tem algo em torno de um
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    milhão, e oEstado de Krasnodar, pouco mais de 5 milhões, distribuídos por 76.000 km², menor por exemplo do que o estado de Santa Catarina (aprox. 95.000 km²). A região é considerada o celeiro da Rússia, devido a sua produção agrícola e pecuária. Basta sair de Krasnodar e logo se pode a ver os campos de plantio espalhados até perder de vista. No verão, por exemplo, é possível andar quilômetros pela estrada vendo os campos cobertos de amarelo dos girassóis, os famosos “girassóis da Rússia”. Dependendo da época que se anda pelo interior, as cores mudam, e assim os campos se tornam monocromáticos por vastas extensões. Ao chegar ou partir do aeroporto de Krasnodar é possível ver os campos cultivados por toda a terra. O aeroporto fica ao lado de um grande lago artificial construído na época soviética. Em suas margens são visíveis grandes extensões de plantação de arroz, facilmente perceptíveis devido ao fato de formarem grandes quadrados no chão, parecendo espelhos gigantes. Outro grande destaque são as plantações de trigo, que sustentam em grande parte o mercado russo. Toda esta variedade e força da agricultura acabam por se refletir nas cores quase que oficiais do estado de Krasnodar, verde e amarelo. Estas são, a propósito, as cores do mais tradicional
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    time de futeboldo estado, que tem em seu escudo ramos de trigo, reforçando a vocação do estado para a agricultura. A produção de trigo era tão forte na época dos soviets, que o equivalente russo à nossa expressão “a preço de banana” era “barato como pão!”. Mesmo hoje ao passar pelas estradas ainda se podem observar os maquinários do tempo soviético, mas que estão cada vez mais raros, pois vem dando lugar aos investimentos na renovação da frota de tratores e afins. Outra atividade econômica ligada com a terra foi o desenvolvimento da vinicultura na região. O clima propicia esta atividade, especialmente na região costeira, que tem condições ideais para se desenvolver. A maior fábrica russa de produção de vinhos e vinhos espumantes (champanhes) está localizada justamente no estado, a Abrau-Dyurso. A presença destes espumantes era, segundo nossos anfitriões, presença obrigatória na festa de ano novo. Devido às condições favoráveis, a qualidade e oferta de uva no verão eram muito boas. Os cachos surpreendiam pelo seu tamanho e peso. Certa vez compramos um cacho que tinha 1,2 kg. Apreciávamos o verão pela fartura que proporcionava. Aprendemos a montar um calendário informal das épocas das frutas no período do verão! Morangos, cerejas,
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    framboesa, uva, melancia,e assim por diante. Todas cultivadas em nosso estado. Perto destes campos, sempre se pode chegar a uma vila ou aldeia tipicamente interiorana da Rússia. Estes lugarejos são uma volta no tempo. Ao passar por alguns, tivemos a oportunidade de depararmos com uma Rússia ainda vivendo não apenas na época soviética, mas em alguns aspectos na era czarista. No interior, ao contrário das metrópoles como Moscou e São Petersburgo, as pessoas vivem na sua maioria em casas. As casas em geral são antigas, algumas com estruturas realmente já bem desgastadas pelo tempo. Outras em suas fachadas ainda ostentam ornamentos tipicamente russos com entalhes em madeira. Entre as casas e o mundo externo geralmente existe um muro que é composto por placas de ferro (geralmente pintadas de verde-escuro ou cinza!), sendo que da rua apenas pode-se ver a parte superior da casa. Outro tipo de “muro” é constituído de placas de ferro também, mas vazadas, o que possibilita ver em parte o interior do terreno. Na frente do terreno vem uma calçada pequena, às vezes feita com asfalto, outras com tijolos. Entre a calçada e a rua propriamente dita, em muitos lugares, existe uma faixa de terra de uns 2 metros de largura, onde não raras vezes
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    observamos que osdonos das casas faziam suas hortas. Perguntei certa vez para o russo que me acompanhava, se não existiam problemas por causa de “furtos” nestes canteiros. O russo me explicou que a molecada fazia suas “artes” de vez em quando, mas por se tratar de lugarejos onde todos praticamente se conhecem, estes atos eram mínimos. Parece que durante a época das crises econômicas da era soviética e pós-soviética, estas hortas foram fonte de renda ou escambo. Aliás, esta capacidade de improvisar, dar um jeitinho nas coisas é algo típico da alma russa. Conheci um senhor que na época da crise dos anos 90, sustentou sua família com o que pescava no rio (e a família era grande, pois o casal tinha 9 filhos, o que na Rússia era um verdadeiro fenômeno!). Sempre que íamos à feira permanente, ao longo do caminho encontrávamos perfiladas vovozinhas (babushky) vendendo seus produtos produzidos nas hortinhas de suas casas ou dachas (casas de campo). Outra cena típica das cidades interioranas é a de vovós sentadas diante do portão das casas, com seus lenços na cabeça, conversando sobre assuntos variados (em geral, aquelas fofocas sobre o mundo da aldeia), comendo sementes de girassol e com um copo de compota ao lado. Muitas das babushky foram e ainda são as responsáveis pelo cuidado da
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    geração de netos.Os pais vão para o trabalho e as crianças ficam em casa com as avós. Muitos russos relatam que foram criados exclusivamente por elas. Vimos muitos casos deste tipo na Rússia. Quando andamos pelas ruas destes lugares menores, vemos muitas coisas curiosas. Como disse anteriormente, a frota veicular dos tempos soviéticos é mais presente nestes lugares hoje em dia. Muitos daqueles carros já passaram por muitos quilômetros de estrada, e visivelmente estão funcionando graças à habilidade russa de dar um jeitinho em tudo. Refaz-se uma solda aqui, tira-se uma peça de outro carro e coloca ali, se cerra dois carros e se faz um. Criatividade para fazer o novo, o artístico é algo típico do russo. Apenas pecam pelo acabamento e estética, mas em geral o que fazem é funcional. Algumas vezes vi triciclos daqueles que se vê em filmes da Segunda Guerra Mundial, com uma cabine (tipo anti-chuva) para uma carona ao lado. Creio que é nesta área da vida que as improvisações na Rússia são mais visíveis. Sempre se dá um jeito! Mas gostaria agora de voltar um pouco para as casas típicas do interior. Os russos tem a tradição de tirar os sapatos ao entrar na casa. E digamos que esta tradição não pode ser quebrada! Como explicamos anteriormente, isto se deve ao
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    fato de asruas serem muito empoeiradas e/ou enlameadas. Algumas vezes existem os chinelinhos para as visitas, outras temos que ficar só de meias mesmo. Em geral o chão tem algum tipo de carpete. Entrar numa casa russa é entrar num choque de mundos. A cultura russa na verdade é uma fusão do ocidente com o oriente. Neste sentido, podemos ver um samovar (aparelho tradicional russo para fazer chá) e na parede da sala um tapete pendurado, num estilo centro- asiático (quase persa). As janelas, ainda de madeira, deixam passar pouca luminosidade, fazendo com que o ambiente fique ainda mais escuro. O lugar central de uma casa russa é a cozinha. Neste ambiente seguro era que se passavam as conversas mais confidenciais, não apenas do cotidiano do lugar, mas conversas sobre assuntos, que nos tempos soviéticos poderiam ser categorizadas como “subversivas”. Era ali, nas cozinhas das casas e apartamentos, que o governo sabia nascerem os “inimigos do povo”. Além de muitos séculos de apresso por aquela parte da casa, era neste ambiente íntimo que o russo se sentia dono de si, e não parte de uma sociedade sem rosto. Muitas casas ainda tinham no início do século XXI, os banheiros do lado de fora, no pátio, feitos de madeira, com um buraco no chão. Indiscutivelmente, o item banheiro na Rússia é algo que chama atenção, não
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    apenas nestes lugarespequenos, mas mesmo em cidades de porte médio e grande. Para brasileiros, este pode ser um choque cultural e visual. Para muitos que foram nos visitar, o aspecto acabava virando tema para muitas fotos… Os banheiros realmente são um capítulo à parte! As casas, por serem antigas, tinham suas deficiências em relação ao sistema de aquecimento. Algumas já eram conectadas às TETS, que são as usinas geradoras de água quente e para a calefação. Entretanto, outras tinham que providenciar seus próprios meios de aquecimento. A grande vilã neste ponto eram as janelas de madeira, que sempre deixavam passar o frio da rua. Indo para o centro destas localidades, impressiona que nas praças temos a presença constante da estátua do dyadya Lenin (Tio Lênin). Nas cidades e vilas por onde eu passei, seu busto ou estátua de corpo inteiro apontando para o futuro comunista eram marcas vivas de um passado ainda recente. Lenin, ao contrário de Stalin, permanece como um dos grandes nomes do passado soviético. As estátuas de Stalin foram derrubadas, outras de Marx e Engels viraram peças atiradas em depósitos, mas Lenin continuou nas praças. Os prédios mais antigos continuam a ostentar em suas fachadas os símbolos do socialismo soviético, que estão
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    entalhados na própriaparede. Engraçado ver que alguns prédios “soviéticos” viraram locais onde se instalaram companhias capitalistas ao estilo russo. A vida simples do interior russo é proverbial. Sua beleza e passividade trazem aqueles ares de calma, ausente nas grandes cidades. A vida passa num outro ritmo. As pessoas ainda vivem em certo grau a ideologia dos mir, uma estrutura social baseada na coletividade e interdependência. Este sentido de vida, esta ideologia arraigada por milênios, gera no russo um sentimento em que a vida depende do coletivo e não do indivíduo. Creio que este pensamento ainda está vivo, mesmo debaixo das atuais camadas egoístas geradas pelo capitalismo descompromissado com o outro, com o próximo. Este tipo de necessidade russa da mir é algo que eles deixam escapar em conversas mais profundas e filosóficas. Isto também se aplica a uma “lei” que aprendi ser muito real no contexto de lá. A “lei” diz: Se você conhece alguém, então você conhece muitos alguéns. A vida na Rússia é baseada nas inter- relações. Não importa tanto seu conhecimento, suas habilidades ou outro fator, estar bem relacionado é que te irá abrir as portas. Muitas das vezes, nem o dinheiro é o centro da questão, mas a confiança. É muito difícil de explicar em
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    poucas palavras estamentalidade, mas ela é um fato consagrado. Se a amizade é algo tido em valor quase divino, a traição é o pecado mais odioso. Quando, na época soviética, o dinheiro era algo visto como um “mal a ser extirpado” do mundo, e seu valor era relativo, pois ter muito era algo social e politicamente repudiado, o que ficava era a base da mir, onde todos eram interdependentes, e isto não estava relacionado a valores financeiros. E esta mentalidade interiorana, chega a cidades com a industrialização da época stalinista e até hoje faz parte da cosmovisão, tanto do interior quanto dos centros urbanos. O campo reserva sempre gratas surpresas, que a vida urbana acaba por eclipsar. Os russos ainda parecem manter uma mentalidade interiorana que é verbalizada e acionada em muitos aspectos da vida, no vocabulário e nas expressões. Algo tipicamente russo é falar no “ar puro”, seja das montanhas, seja do campo. Para quem não está acostumado, ou no caso dos próprios russos, acostumados com esta ideia, isto pode passar despercebido. Mas o fato é que na medicina popular, o ar puro é um anseio expresso com frequência. Nada mais saudável e revigorante do que “ir para a natureza (na prirodu)! Os russos adoram pegar o seu carro, junto com outros amigos, e sair para algum lugar fora da cidade, no campo. Lá
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    eles preparam umafogueira e colocam a carne de porco marinada para assar. Em geral, muita vodca e cerveja. Algumas vezes aparece um violão para alegrar a roda. Outra diversão é a caça aos cogumelos. No outono, antes das primeiras neves, os cogumelos estão brotando pelas florestas russas. E isto, a caça aos cogumelos, é uma arte, uma ciência e mania nacional. É tão sério que saber diferenciar cogumelos venenosos de não venenosos é matéria estudada em livro de ciências na escola primária. Nomes, cores, habitats, locais e maneiras de coleta deste alimento básico da culinária russa são estudados por todos. Certa vez, um grupo de amigos nos convidou para ir numa destas caças aos cogumelos. Resolvemos participar deste momento cultural, e nos preparamos. O dia estava ensolarado, a temperatura amena para o outono. Saímos de casa com aquele espírito de aventura, nem ao menos tendo ideia de aonde íamos. Creio termos saído uns 60 quilômetros de Krasnodar. Pegamos estradas de chão, atravessamos uma floresta e de repente uma clareira. Marcas de fogueira demonstravam que este local era bem requisitado pelos habitantes dali. Andamos um pouco para pegar lenha para a fogueira. Enquanto isto, alguns se dividiram em grupos para ir atrás
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    dos cogumelos. Afamília brasuca se reuniu para fazer a atividade junta. O problema é que os olhos afiados dos russos são muito mais rápidos do que o nosso. Conseguimos achar vários pelo caminho, mas descobrimos depois que estavam lá por que os russos sabiam que eram venenosos e nem se prestavam a apanhá-los. Enchemos uma sacola, mas tivemos que jogar praticamente toda fora. Alguns cogumelos, nem os russos sabiam se eram bons ou não, e neste caso, foram jogados fora também. Creio que o mais interessante é o próprio tempo que se tem de andar no meio das árvores, vendo a natureza, e principalmente, respirando o “ar puro da montanha”. Voltamos quando já estava fechado o tempo. O vento frio começou a soprar e a floresta amarelada virou num chover de folhas que era absolutamente lindo. Chegamos perto da fogueira e nos aquecemos um pouco, e acabamos por ficar um tanto “defumados” também. Neste momento começa a outra parte do cerimonial russo, quando se abrem os potes, as panelas e se retira do carro as bebidas. Neste caso, não eram vodca nem cerveja, mas saboreamos o típico chá preto para aquecer um pouco mais. Algum tempo depois, quando já estávamos defumados o suficiente e todos satisfeitos com o lanche, decidimos voltar.
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    No caminho achamosuma dessas barracas de beira de estrada que vendia cogumelos. Perguntamos para os especialistas sobre a qualidade dos nossos cogumelos colhidos na nossa aventura. Mais decepção, tinha um tanto ainda que não prestava para consumo humano. Bom, ao menos participamos de uma típica tarde de caça aos cogumelos! Ainda podemos esboçar algumas palavras sobre outras duas paixões russas, como a pesca e a caça. Todo russo parece ter alguma história relacionada a estes assuntos. A proximidade com o mar e rios que correm das montanhas do Cáucaso proporcionam lugares ideais para a prática da pesca. A paixão é tão grande, que mesmo no inverno os russos são capazes de ficar horas sentados em um banquinho em frente a um buraco feito por eles no gelo. Para quebrar o frio, sempre está presente a companheira garrafa de vodca. Ainda há os fascinados pela caça. Os campos, as florestas e montanhas atraem em todas as estações os aventureiros, que não medem esforços na busca de animais tanto de grande porte, quanto de caça menor. Mesmo no inverno, homens se aventuram neste “esporte”, como dizem. Certa vez ouvi a história de um homem (que não era caçador amador) e sua aventura nas montanhas do Cáucaso durante
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    um inverno. Elehavia escorregado na neve e caído num buraco entre as rochas. Passou a noite lá, prensado entre as pedras, pensando que havia quebrado as pernas, e vendo a morte se aproximando. Por fim, num daqueles milagres divinos que às vezes acontecem na vida, conseguiu aos poucos livrar-se das pedras e arrastando-se com dificuldade saiu do buraco. Muito ferido caminhou com dificuldade no escuro pelas montanhas e encostas, tentando achar um ponto conhecido para se orientar, mas a escuridão impedia-o de se localizar. O medo era de cair novamente em outra armadilha escondida na neve, perder a consciência e morrer de hipotermia, ou quem sabe ser achado por outro animal, quando o caçador viraria a presa. Quando estava perdendo as esperanças, avistou um pequeno ponto de luz entre as árvores. Foi ao encontro da claridade e encontrou outros caçadores que faziam uma fogueira na floresta. Foi imediatamente socorrido e levado para uma unidade de saúde. “Nasci de novo” - disse ao fim de sua história. Mas muitos não têm a mesma sorte, acabando perdidos e por fim morrendo nas montanhas. -------------------------------- Cada estação do ano tem suas particularidades. Descrevemos o inverno e o outono, ainda falta passar pelas
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    outras duas estações,primavera e verão. A primavera é algo fascinante. Não é à toa que pelo antigo calendário, não apenas eslavo, mas dos povos em geral da antiguidade, o ano começava justamente com o início da primavera, em geral no equinócio. Na Rússia, oficialmente a estação começa em 1° de março, e descobrimos logo o motivo. A natureza que estava toda adormecida, ou pelo menos aos nossos olhos “morta”, a partir dos primeiros dias de março começa voltar à vida. Até o fim de março as árvores estão praticamente todas renovadas. A explosão de cores se dá num período curto de tempo. Quando se percebe o verde voltou, as flores se abriram, os pássaros se desentocaram ou chegaram de outras regiões mais quentes do planeta e a vida renasceu. Abril é o mês das tulipas. Lindas! As cidades se enchem de canteiros com flores. No centro de Krasnodar e de outras cidades e vilas do estado, as praças centrais se transformam. Muitas babushky vêm do interior ou mesmo dos bairros da cidade para vender tulipas e mudas no mercado informal de rua. Elas geralmente têm nos jardim de suas casas várias dessas belezas da natureza plantadas. Mas a festa das tulipas dura poucas semanas. Em maio, chegam as papoulas. O vermelho forte se destaca,
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    especialmente nos campos,ou na beira das estradas. Aliás, é muito comum acharmos pão recheado com semente de papoulas para vender nesta época. Mas não somente de flores é feita a primavera. A volta do canto dos pássaros é algo que igualmente renova a vida, inclusive faz renascer dentro das pessoas a luz apagada durante o longo inverno. Algumas vezes lembro-me de ter ficado parado, na rua ou mesmo na janela do apartamento escutando o canto. Quando se está no interior, estas sensações são mais vivas. É lá que o verde parece mais verde, que o canto parece mais divino. Passear pela estrada olhando o campo coberto de flores é algo que mexe até mesmo com a alma do mais descrente. No Brasil praticamente não temos a noção do que significa a mudança das estações. Mesmo no sul, de onde somos, não se percebe tão nitidamente estas mudanças. E cada dia precisa sempre ser bem aproveitado na Rússia, pois um dia nunca irá ser igual ao outro. A dinâmica da vida é muito intensa. O Verão traz consigo toda a força do sol. Já descrevemos anteriormente um pouco da estação mais quente do ano na cidade de Krasnodar, quando falamos de nossa chegada à Rússia.
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    Agora gostaria dedetalhar, de um modo geral, um pouco sobre como ela é usufruída no estado. Na Rússia, falar em verão é sinônimo de Krasnodar, o estado. Esta é a região mais quente do país e que está banhada pelo Mar Negro e o Mar de Azov. Um dos motivos para a conquista destas terras pelo Império Russo era a necessidade de se ter um porto que estivesse livre do gelo no inverno. Os mares do norte passavam boa parte do ano sem navegabilidade devido ao gelo, mas o Mar Negro sempre está aberto, livre. Além disto, ele se conecta com o Mar Mediterrâneo através do Estreito de Bósforo e Dardanelos. Durante a época da URSS, quando a Ucrânia fazia parte das 15 repúblicas, toda a costa norte e leste do Mar Negro virou a região balneária dos soviéticos. Para lá afluíam no verão as massas da população do país. Tanto no lado ucraniano, quanto no russo foram construídos inúmeros hotéis, balneários inteiros, quiosques, sanatórios, centros de saúde, acampamentos, bases de descanso para trabalhadores e muitas associações. Com o fim da URSS, a Ucrânia ficou com a Crimeia, parte que pertencia originalmente à Rússia e doada aos ucranianos na década de 60 (pois segundo o argumento usado na época, todos os povos eram um só, soviético). E a Crimeia
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    sempre foi oterritório mais visado nos verões. Para a Rússia, restou a região de Krasnodar. Contudo a infraestrutura do local, como em todo o país, estava muito comprometida, e muitos hotéis, sanatórios, acampamentos e etc., estavam sucateados. Muitos acampamentos e colônias de férias que pertenciam ao governo trocaram de mãos rapidamente, nem sempre caindo nas mãos de administradores habilidosos ou preocupados com a manutenção de locais de lazer para o público em geral. Os anos 90 também tiveram sua influência sobre o lazer dos russos. Na região existem praias de areia e de pedras. As mais famosas são: Anapa, que tem uma orla de areia, e Sochi, que é de pedras. Novorrossisk, cidade portuária, o terceiro maior porto da Rússia, também tem algumas praias, mas de pedra. Praia de pedra é algo realmente estranho para brasileiros, sem mencionar a falta das ondas! Lá quando o vento não sopra, o mar parece um lago, um espelho d'água. As pedras são relativamente grandes, mais ou menos do tamanho de uma batata pequena. Em alguns lugares a “areia” é preta, já que o mar vem fazendo seu trabalho com as pedras ao longo dos milênios. Os complexos de descanso são uma questão à parte.
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    Certa vez, umaorganização formada basicamente de estrangeiros, nos convidou para participar de uma espécie de congresso. Ficamos sabendo que, depois de várias tentativas da liderança desta entidade, acharam apenas um hotel, em toda a região, que aceitava estrangeiros! As outras não tinham conhecimento ou interesse em abrir suas portas para não- russos. Em parte, creio que isto está relacionado ao profundo sistema burocrático que é o registro de estrangeiros na Rússia, outra parte pode ser por que eles tinham receio de ter problemas com polícia ou administração local. Parecia que todo estrangeiro era um alienígena que devia ser evitado, ou um terrorista, ou ainda um espião. Heranças dos velhos tempos… No verão os russos lotam aviões que voam diariamente dos mais remotos cantos do país diretamente para a costa do Mar Negro. Eles chegam sempre em julho, lotando as cidades, trazendo a estação alta para todos locais. Ao longo da estrada, chegando-se perto das cidades e aldeias, placas anunciam casas e quartos para alugar. Nas ruas, os vendedores de bugigangas se acumulam. Muitos bares ficam abertos a noite toda e várias festas acontecem pela cidade. Nestes dias de alta temporada, russos de todas as regiões do país se expõem ao sol sulista. Desde aposentados
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    até crianças. Asescolas do governo chegam a organizar acampamentos nestas praias, levando por algumas semanas as crianças, ficando elas longe dos pais que ficam trabalhando na cidade. Verdadeiras caravanas de aposentados enchem as estações férreas, os aeroportos e estradas. Excursões cruzam as estradas do estado em direção ao litoral. Muitos acidentes e mortes devidos a questões envolvendo imprudência, má conservação dos veículos e ônibus e, especialmente álcool. As linhas de trens sempre estão lotados, vindo especialmente de Moscou, que acaba sendo a cidade catalizadora de toda a Rússia. Quando os turistas vão embora para suas regiões, já no fim de julho, começa o movimento dos krasnodarienses para a praia. Agosto é o tempo dos habitantes locais aproveitarem as praias. Isto coincide com a época mais quente no estado, quando mesmo à noite temos 30-32° C. Mas se as pessoas não tiverem a fim de um banho no mar, sempre existe a possibilidade das montanhas do pré- Caucaso que “ficam” perto, cerca de uns 100-120 quilômetros para o sul. A atração nestas montanhas sempre é o famoso “ar puro”. Outra opção é uma esticada até a cidade de GoryatchyKlyutch (Fonte Quente, em português). Uma cidade
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    pequena, mas muitointeressante. Bem arrumada e com o famoso “ar puro”, pois fica aos pés das montanhas. Seu nome se deve às fontes de água mineral que jorram de seu solo, que segundo as muitas recomendações dos russos, é “muito boa para a saúde”. Aliás, para todo o organismo. Provei a tal água miraculosa, e realmente é boa. O interior da Rússia tem muitas belezas escondidas. Cada região apresenta uma característica muito especial. Veremos em outros capítulos alguns destes locais. O que tenho certeza é que o interior certamente ainda tem muito a colaborar com a alma russa e o desenvolvimento desta nação.
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    DOLMENS E KURGANS Quandofalamos de História da humanidade, especialmente das primeiras grandes civilizações, logo vem à mente o Egito e a Mesopotâmia. Se formos para as páginas da Bíblia, veremos que, segundo os registros do Gênesis, o primeiro casal viveu em algum lugar da Mesopotâmia, conhecido como Éden. E, segundo a tradição do Antigo Testamento, Noé, habitante da Mesopotâmia, junto com sua família, após o dilúvio, teria aportado com a arca numa das montanhas do Ararate. Estas montanhas atualmente se localizam na fronteira da Armênia e Turquia. Não muito longe dali, em direção ao norte encontramos a cadeia de montanhas do Cáucaso, que desde a
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    Antiguidade fazia adivisa entre Europa e Ásia. O Cáucaso ficava localizado no limiar do mundo Antigo. Apesar das grandes civilizações terem florescido ao sul daquela cadeia de montanhas, a existência de humanos ao norte, desde muitos milênios, é comprovada, especialmente pela arqueologia. Segundo arqueólogos, em algumas cavernas no estado de Krasnodar foram encontrados instrumentos da época da idade da pedra, o que demonstraria a estadia de homens nesta região desde tempos remotos. Encontram-se igualmente assentamentos da época do mesolítico e neolítico. No início da Idade do Bronze, surgiu a denominada “cultura de Maikop”, nome advindo da região onde a cultura material foi localizada. Na idade do Bronze I, isto é, no período de 3300-2700 a.C., no atual território das estepes de Krasnodar, tribos da cultura Novotitorovskoy se desenvolveram em comunidades. Mais tarde, apareceram outras tribos nas estepes, que foram chamadas de “cultura das Catacumbas”. A partir da Idade do Bronze Médio, as estepes foram ocupadas por tribos da assim conhecida “cultura norte- caucasiana”, e nas regiões das montanhas aparecia a “cultura dólmen”. As tribos que teriam alcançado o norte do Cáucaso tiveram um amplo espaço diante de si, pois as planícies se
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    estendiam por todaa região que conhecemos hoje como Europa Oriental. Todas estas culturas deixaram um rastro muito fraco, e hoje ainda temos dificuldades para identificar e datar os primeiros restos materiais delas. Uma das dificuldades é, por exemplo, o estudo dos dolmens. Apesar destas construções não serem unicamente características do Cáucaso Norte, a concentração aqui encontrada acaba por surpreender os especialistas. Estima-se que o número chegue a 3.000 dolmens espalhados pelo noroeste do Cáucaso, onde fica o estado de Krasnodar. “O que são dolmens?”, estaria se perguntando nosso caro leitor. Em primeiro lugar, o nome deriva do Bretão dol = mesa, e men = pedra, ou seja “mesa de pedra”. Eles são encontrados por toda a Europa espalhando-se pelo norte da África, passando pela Pérsia, Índia e chegando até a península coreana. Basicamente, o dolmen é uma construção megalítica, ou seja, feita de enormes pedras. Os dolmens são construídos com estas pedras colocadas na vertical, as quais sustentam, por sua vez, uma grande laje horizontal que fica por cima (a tampa da mesa). No caso específico do Cáucaso, as pedras verticais são bem encaixadas, não deixando frestas entre si, dando um aspecto de uma “casa”. Na parte da frente temos
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    um orifício arredondadoque serviria como entrada e uma “rolha” de pedra ficava ali para “trancar” a porta. Atualmente não se sabe qual a função primária destas construções megalíticas. Muitas tentativas já foram feitas para desvendar o mistério, contudo, uma resposta final ainda não foi encontrada. As hipóteses variam deste um lugar para sepultamento até o de portais entre mundos. Nenhuma inscrição pictográfica ou alfabética relevante foi encontrada nestes monumentos. Mas alguns desenhos estão entalhados nas paredes dos dolmens do Cáucaso. Mais especificamente, nota-se formas em ziguezague que lembram antigas representações para água. Não temos como datar com precisão a idade das estruturas devido ao fato de não podermos cruzar dados com outras civilizações, e isto faz com que as datações sejam muito abrangentes. A hipótese mais aceita é que estamos diante de construções que começaram a ser construídas por volta do III milênio a.C, mas esta estimativa pode chegar ao V milênio a.C. Se não sabemos ao certo quando e porque da construção destas estruturas, menos ainda temos conhecimento dos seus autores. Neste caso existem os mais diversos candidatos sugeridos, sem que, no entanto, se possa chegar a uma conclusão.
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    A existência desteslocais parece estar relacionada a algum tipo de culto, pois sempre estão perto de fluxos de água (rio ou mar) e voltados com sua “porta” para esta direção. Existem dolmens isolados no meio das montanhas e outros que parecem fazer parte de um complexo maior, que, entretanto, podem ser construções posteriores. Alguns foram usados como sepulturas, pois foram encontrados esqueletos humanos em seu interior, porém de novo, os restos humanos são de data muito posterior, como por volta da Idade Média. Existe um número significativo de pessoas que vão até estes lugares, muitas das vezes escondidos dentro das florestas, e em lugares de difícil acesso. Estudiosos, curiosos, exotéricos, depredadores, ou seja, uma gama muito abrangente de pessoas busca o contato com estas construções megalíticas. O fato é que a presença destas construções demonstra a presença humana organizada numa forma social naquela região há pelo menos 5-6 mil anos e, segundo a tradicional datação histórica, foi por esta mesma época que as civilizações da Mesopotâmia e do Egito estavam surgindo. Os dolmens na região de Krasnodar estão espalhados por todo o território, alcançando os estados vizinhos, e mesmo as regiões do lado sul da fronteira entre Krasnodar (Rússia) e a
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    Abkhazia (Geórgia). Osmais conhecidos estão na região litorânea, nas montanhas que ficam perto do Mar Negro. E não apenas os dolmens dão testemunha do contato da região do atual estado de Krasnodar com outras regiões na Europa e mesmo ao sul, em direção ao Crescente Fértil. Outra formação artificial feita na paisagem feita por mãos humanas são os kurgans. Entre a Idade do Bronze tardio e início da Idade do Ferro, uma nova cultura, aparece na região, conhecida como proto-meota. Até este estágio, não temos registro escrito dos habitantes da região, apenas testemunho arqueológico (material, como sepulturas, machados, cerâmica, objetos de ouro, prata e bronze, etc.). A mudança neste quadro veio com a chegada e o contato com povos que possuíam uma forma de escrita, como os assírios e posteriormente os gregos. A partir deste tempo começamos a receber algumas informações testemunhais sobre a vida nesta vasta extensão territorial que abrangia o norte do Cáucaso e as estepes russas. O grande deslocamento de povos pouco conhecido do público em geral, mas de grande importância nas relações da época, fazem parte de importantes páginas da História Universal.
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    Ficamos sabendo porStrabão, escritor grego, que um povo conhecido como os cimérios habitavam as estepes da atual Ucrânia e parte de Krasnodar. Eles são relacionados a incursões militares em regiões da Ásia Menor (Turquia) e, pensam alguns estudiosos, que tiveram parte ativa na famosa Guerra de Tróia (séc. XIII a.C.). O estilo de ornamentos e modo de vida chegou a levar muitos pesquisadores a ventilar uma possível ligação entre os cimérios e os celtas na Europa Ocidental. Ainda se conjectura que o rompimento dos celtas no horizonte da História teria ocorrido em locais e datas muito próximas a uma dispersão ciméria, que teria partido justamente do norte do Mar Negro. Outro povo que passou pela região de Krasnodar foram os citas.A cultura cita na verdade é o conjunto de vários povos que se estendem desde a atual Hungria até lugares tão remotos como o lago Baikal que fica no meio da Sibéria. A cultura voltada basicamente para o estilo nômade, o estilo de ornamentos e a habilidade no manuseio de ouro e prata, são as principais características desta cultura. Mas a força destes povos, que estão sob este guarda- chuva de nome cita, será mostrada nos séculos VIII-VI a.C. com o avanço de tribos que começa lá na região do lago Baikal e que, num efeito dominó, aparecerá numa espécie de
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    tsunami, arrojando-se sobreos cimérios e gerando um verdadeiro esparramar de povos pelo leste europeu atingindo o mundo civilizado da época nas regiões do Oriente Próximo (Turquia), Oriente Médio e chegando no Egito. Os citas ainda irão desempenhar papel fundamental no equilíbrio de forças no palco central das atividades bélicas do Oriente Médio por volta do séc. VIII-VII a.C.. A inserção de novas técnicas de guerra, aliado a uma eficaz e insuperável cavalaria, trariam fama aos citas por todo o Mundo Antigo. O contato dos citas com regiões tão afastadas como China, Egito e Assíria, resultou em ricas sepulturas descoberta por arqueólogos na região do estado de Krasnodar. As campanhas militares (ou pilhagens, dependendo do ponto de vista), deste povo trouxeram belíssimos objetos das regiões conquistadas. Encontramos, por exemplo, espadas com ornamentos no estilo assírio, o que mostra a penetração dos citas de Krasnodar até regiões do atual Iraque e Irã. As sepulturas que se encontram por toda a região de Krasnodar (que são também encontradas na vizinha Ucrânia e se estendem por todo o sul da Rússia), levam o nome de kurgan, palavra turca que significa fortaleza. Nelas estão contidas culturas de várias épocas, pois são uma forma bem difundida de sepultamento da região das estepes (não
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    somente ali, masnão entraremos em muitos detalhes que irão confundir o leitor). Andando pelas estradas do interior de Krasnodar, os kurgans são facilmente identificados na paisagem. Eles são na verdade uma elevação feita de terra ou pedras que se destacam no meio da planície. Alguns kurgans foram escavados, mas a grande maioria fica mesmo despercebida na vastidão. Algumas destas sepulturas se revelaram verdadeiras tumbas faraônicas, contendo um verdadeiro tesouro em peças de ouro, prata e outros metais. Muitas das vezes, o morto era enterrado junto com seus pertences, e por causa disto temos uma noção de quem poderia ter sido esta pessoa dentro da estrutura social da época. Em um determinado kurgan, foram achados 70 cavalos juntamente com seus cavaleiros, que serviriam para guardar o príncipe (vojd, em russo) na vida após a morte. Um belo exemplo destas descobertas foi um kurgan achado em Elizavetinskaya, aldeia vizinha de Krasnodar. O lugar era um povoado fortificado dos meotas, povo local. Lá foram achados os restos de uma antiga fortificação. Sua datação está fixada nos séculos IV - I a.C. A área total do povoado ultrapassa os 100 mil m². Ele foi constituído em um terraço elevado acima da margem direita da várzea do rio
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    Kuban, cerca de18quilômetros a oeste de Krasnodar. Os restos de fossos e muralhas que protegiam a fortificação foram escavados pelos arqueólogos, o que demonstrava a importância do local, pois poucas cidades tinham um sistema de defesa. Na cidadela foram desenterrados fornos abertos, cerâmica, restos de habitações, edifícios de tijolos de barro, além de grãos carbonizados de trigo e milho, foices de ferro, ossos de animais domésticos e peixes. Estes são indícios de que a agricultura, pecuária e pesca foram parte substancial das ocupações diárias dos habitantes da localidade. Um grande número de achados de objetos antigos, como por exemplo, azulejos, fragmentos de ânforas e pratos, assim como moedas, produtos importados, demonstram que havia laços estreitos com lugares muito mais distantes. Esta riqueza acaba se traduzindo num riquíssimo tesouro descoberto nas sepulturas (kurgans). Perto da fortificação foram encontrados alguns kurgans feitos de terra, e neles havia uma considerável quantidade de material, especialmente de ouro. O que chama a atenção neste lugar ainda é o sepultamento de cavalos na mesma câmara funerária de um homem,que se pensa tratar de um chefe ou mesmo de alguém ligado à aristocracia do povoado. Ainda temos
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    esqueletos que levamjunto de si suas espadas, indicando que soldados da guarda pessoal foram com seu senhor para o mundo dos mortos a fim de servi-lo também no mundo do além. O vínculo com os cavalos, por sinal, é historicamente muito forte nas estepes do sul da Rússia e na Ucrânia. Pesquisadores acreditam que foi exatamente nesta região que o homem teria domesticado pela primeira vez o animal, por volta do IV milênio a.C. Foi desta região que o cavalo teria se espalhado pelo mundo antigo como uma arma de guerra. Os cavaleiros mais famosos do mundo antigo, os citas, são herdeiros desta tradição local, e no rastro desses, vieram os alanos, hunos, mongóis e outros. Por isto, explicam os especialistas, temos uma relação tão forte entre homens e seus cavalos, ao ponto do animal ter que acompanhar seu dono até mesmo na morte. Dizia-se que um cita tinha em seu cavalo a sua casa! E esta relação existe até hoje no interior da região Mas tantos tesouros nos kurgans não passaram despercebidos dos olhos gananciosos de assaltantes de túmulos. Muitos foram profanados ao longo dos tempos. Quando o governo czarista tomou conhecimento das riquezas que poderia haver nestes lugares, mobilizou-se para proteger
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    os principais locaisde sepultamento. Resumindo, muito do material retirado está hoje em exposição nos museus de Moscou e São Petersburgo. Tive a felicidade de ver alguns destes artefatos no Museu Histórico de Moscou, que fica na Praça Vermelha. Impressiona a perfeição, delicadeza e a maestria com que foram confeccionados. Os citas, em especial, eram famosos ourives, sendo requisitados para produzirem ornamentos para a elite de Atenas e outras cidades gregas. E de fato quem mais se impressionava com esta arte dos habitantes das estepes da Ucrânia e da Rússia eram os gregos. Já na primeira metade do I milênio a.C., na costa do Mar Negro, foram fundadas várias colônias gregas. A principal atividade destas colônias helênicas era fortalecer o comércio com as tribos do desconhecido mundo das estepes. O comércio se intensificou de tal maneira que a região entra para as páginas da História. Guardada as devidas proporções históricas, a chegada dos gregos pode ser comparada com a importância da descoberta das Américas por espanhóis e portugueses. O fascínio grego pela arte é que acaba levando-os a “exportar” citas para Atenas e outras cidades. Além de artistas, os citas se mostravam ótimos soldados e guardas. A polícia de Atenas e a guarda do rei eram formadas em certa época justamente pelos bárbaros citas.
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    Muitos exércitos daAntiguidade, como o egípcio, assírio, babilônio, persa, grego e romano contavam com mercenários citas em suas fileiras. Em alguns casos, como no séc. VII a.C., uma aliança cita com os assírios salvou o todo poderoso Império Assírio da destruição. Nínive, a capital estava por cair nas mãos de outra aliança anti-assíria, quando um exército de citas repentinamente se lança na batalha, vindos das montanhas do Cáucaso. A força e o número das hordas surpreenderam a todos. Parte deste contingente foi arrebanhada nas estepes do norte do Cáucaso, ou seja, Krasnodar. A partir daquele episódio, os citas irão dominar toda a Média (atual norte do Irã), todo o sul do Cáucaso (Armênia, Geórgia e Azerbaidjão), e estender suas pilhagens, domínios e zona de influência até a costa do Mar Ageu (oeste da Turquia). Heródoto, por sua vez, registra a chegada dos citas até as portas do Egito, quando o faraó sai ao encontro das hordas invasoras, comprando-os com altas quantias de ouro e materiais preciosos. É possível até que estas tropas tenham exercido algum tipo de influência no imaginário de alguns profetas bíblicos como Sofonias, Jeremias e Ezequiel, contemporâneos dos fatos acima relatados. Mas da região do atual estado de Krasnodar os gregos também importavam vários produtos, e dizia-se que o pão que
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    se comia emAtenas tinha origem no trigo trazido da região do atual estado de Krasnodar e Crimeia (Ucrânia). A fertilidade do solo negro do sul da Rússia e o clima apropriado para a agricultura e pecuária sempre atraíram inúmeros povos. Além dos gregos e dos habitantes locais, lá estiveram presentes também vikings, italianos (genoveses), turcos e ainda comerciantes de vários lugares, especialmente da bacia do Mar Mediterrâneo. Em 2008, na cidade de Anapa, pude visitar o museu à céu aberto da cidade. No local havia uma aldeia do povo Sinda, que com a chegada dos gregos veio a se tornar uma cidade e importante local de comércio fazendo a ponte entre as estepes russas e o mundo helênico. Neste local, atualmente, se podem observar as ruínas e os fundamentos da cidade grega, conhecida na época como a colônia de Gorgippia, que já no século VI a.C. contava com um porto muito movimentado. O museu conta com um pequeno prédio onde estão expostas várias peças do tempo grego, como ânforas, vasos, moedas e armas. No lado de fora do prédio, num canto do terreno, se pode ver enormes lajes de pedra e mármore. São estátuas no estilo grego, túmulos e altares. Algumas destas peças trazem inscrições gregas, danificadas pelo tempo e em alguns casos faltando parte da inscrição original.
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    Aliás, estar nestaregião, Krasnodar, é voltar no tempo. Parar na beira do Mar Negro e imaginar o comércio intenso naquelas praias, navios chegando de Grécia, Roma, e quem sabe mais de onde; ver os locais por onde passaram conquistadores e guerreiros foram sepultados com seus tesouros e preciosidades (mulheres, soldados, cavalos); ver construções megalíticas de pedras que foram contemporâneas das pirâmides do Egito e de Stonehenge; saber que por ali passaram povos que formaram a história da humanidade; tudo isto acaba enriquecendo uma pessoa. E ainda que esta região ficasse na “periferia” dos acontecimentos da História oficial, fatos que ocorreram por lá tiveram impacto direto sobre o cenário e o palco principal. Isto é uma experiência que não pode ser descrita. Enquanto os gregos se ocupavam com o litoral, pouco se aventurando para as terras selvagens do interior de Krasnodar, a ida e vinda de povos não parava. Além de toda uma constelação de etnias, ainda haveria espaço para povos como os alanos, que espalhariam o pânico por uma extensão tão ampla que iam do Cáucaso até a Palestina no século I d.C. Alguns pais da cristandade chegaram a confundir a chegada destes bárbaros do norte como um presságio do fim dos tempos, no cumprimento de profecias bíblicas.
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    Mas nenhum outropovo provocaria tanta inquietação no mundo, e em especial aos romanos, quanto os hunos. Em sua aventura em direção ao oeste, esses acabam cruzando as estepes russas e chegando ao território de Krasnodar. Ali fizeram saques e espalharam destruição. Os povos em fuga acabam entrando no território dos vizinhos godos (Ucrânia), que ao perceberem o que estava por vir, começam a se deslocar para oeste. Resumindo, a Europa é invadida por ondas de povos em fuga, aumentando a pressão nas fronteiras do Império Romano. Com o tempo, os hunos chegam à cidade de Roma, e chefiados por Átila, são responsáveis pela desestabilização do Império. Os godos, deslocados pelos hunos, posteriormente serão conhecidos como um dos povos bárbaros responsáveis pela queda final do Império Romano. A região de Krasnodar, e todo o norte do Cáucaso, sempre foi lugar de passagem destas tribos que vinham do leste, das profundezas da Sibéria. Por lá passavam, deixavam suas influências em todas as áreas da vida humana, e assim como apareciam no horizonte, também desapareciam após algum tempo. Mas sua influência acabava por permanecer, ainda que dissolvida em meio às camadas culturais e étnicas já ali depositadas ao longo dos milênios. E isto também irá contribuir na formação da alma russa.
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    RUSSOS OU COSSACOS:O SUL DA RÚSSIA As estepes do sul da Rússia sempre foram habitadas por inúmeras tribos e povos. O clima favorável e o solo fértil fizeram deste lugar um local de cobiça para muitos ao longo dos milênios. A Crimeia, península hoje situada no lado ucraniano e que faz ”fronteira” com o estado de Krasnodar através do istmo de Kertch, chegou a ser colônia grega e posteriormente romana (já na era cristã). Entre estes povos, citamos no capítulo anterior os cimérios, citas, alanos, hunos, godos. Mas a esta lista pode ser acrescentados ainda os khazares, búlgaros, mongóis entre tantos outros, na Idade Média. Cada um destes povos formou um Estado independente ao longo do I milênio e início do II
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    milênio d.C. Comovimos, todas estas mudanças colaboraram com a formação da cultura da região. A chegada de novas ondas migratórias do leste acarreta em interferências e muitas vezes mudança substancial na economia, na política, nas relações internacionais, e especialmente na cultura e composição étnica do povo. O Cáucaso e as estepes adjacentes são uma explosão de povos e culturas. Apenas no lado russo do Cáucaso, são contabilizadas mais de 70 etnias completamente distintas umas das outras. Andar pelas regiões do Cáucaso norte é atravessar fronteiras de nacionalidades. Não é à toa que esta região é tão conturbada ainda nos dias atuais. Ao olharmos um mapa mais detalhadamente perceberemos recortes nas terras, pequenas repúblicas que fazem parte da Federação Russa, e que demonstram o caldeirão que é a região. Em tempos passados, quando ainda não estava sob o domínio russo, a localidade viu nascer na Idade Média alguns reinos, como o reino dos khazares, búlgaros, mongóis, turcos e por fim, russos. A Idade Média trouxe estas unificações territoriais em forma de Estados organizados, que tentavam lidar com o maior fator de complicação da região, a diversidade étnica, cultural e religiosa.
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    O reino Khazar(séc. VII -X) foi a reunião de vários povos locais debaixo de um único Estado. As extensões territoriais passavam por todo o sul da atual Rússia, incluindo a região onde morávamos. Muitas tribos eslavas em sua periferia eram tributárias dos khazares, e a localização em uma rota de comércio entre oriente e ocidente, fez com que este Estado tivesse grande projeção no mundo que o cercava. A mais importante diferença deste reino foi o fato de sua aristocracia adotar o judaísmo como religião oficial, fazendo deste local o primeiro Estado (fora Israel, obviamente) a adotar esta religião oficialmente. A presença de elementos judeus e de sua religião não parecem ter começado por estes tempos da Khazaria, mas já eram elementos bem difundidos entre a população de uma forma ampla. Temos, por exemplo, a presença de ruínas de sinagogas encontradas na costa do Mar Negro, datando de, possivelmente, antes da Era Cristã. Hábitos característicos, como a proibição do consumo de carne porco, eram observados de longa data nestas regiões perto do Cáucaso Norte. Existe uma etnia no Daguestão, uma república que faz parte da Federação Russa, que são conhecidos como tats, os judeus das montanhas. Elementos judeus se mesclaram de tal forma em várias regiões da Rússia, que muito da cultura russa
  • 151.
    pode ser explicadaou entendida tendo os judeus como base. Os núcleos judeus foram difundidos por muitas localidades no Leste Europeu (Bielo-Rússia, Ucrânia, Polônia), atingindo posteriormente Europa Central (República Tcheca,Alemanha). A ligação do sul do Cáucaso com os elementos da cultura dos judeus é ainda mais forte. Possivelmente esta influência foi a causa do rápido aceitamento do cristianismo na Geórgia e Armênia. Aliás, a Armênia foi o primeiro Estado a tornar o cristianismo a religião oficial, uma década antes do famoso ato de Constantino, em Roma. Após lutas por território no século X, os russos- kievanos, cuja capital era Kiev, atual Ucrânia, dissolvem a Khazaria e tomam todo o território do Norte do Cáucaso. Elementos eslavos são introduzidos na cultura local, somando- se às várias camadas ali já existentes. Mas, um século depois, são os bizantinos que introduzem seu domínio, agora trazendo consigo um elemento novo, o cristianismo. Apesar de estar em uma região fronteiriça com o cristianismo ao sul (Armênia e Geórgia), o norte do Cáucaso não o conheceu oficialmente até esta época. O islamismo havia sido barrado por estes países e por isto uma religião não conseguiu se fixar até esta época bizantina. Mesmo o judaísmo khazar havia conquistado apenas as classes
  • 152.
    mais altas aristocratas,mas o povo em geral vivia práticas puramente animistas. Mas a História local ainda assistiria em pouco tempo uma reviravolta. No século XIII, as hordas de Gengis-khan chegam ao Cáucaso. Mais uma vez elementos asiáticos dos novos donos se fundem com a cultura local. Na verdade, toda a Rússia é a fusão do oriente com o ocidente, e a região de Krasnodar é talvez a que mais sentiu estes choques de culturas. Bem, ainda não era o fim. Os próximos a chegarem foram os turcos, no século XV. Estes incorporarão elementos da cultura e língua na região Mas ao norte, o Império Russo dava sinais que pretendia anexar a região, foi o início dos conflitos que ficaram conhecidos como as Guerras russo-turcas. Foi neste ensejo que Catarina II manda construir uma fortaleza na fronteira dos territórios pretendidos pelos russos, que viria a se tornar a cidade de Krasnodar. Para estas guerras e estabelecimento de fortes russos, a czarina valeu-se dos cossacos. Mas quem eram eles? Qual a importância deste elemento na constituição do povo sulista da Rússia? A origem dos cossacos está envolta em grande
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    discussão. Pelo quese percebe, eles não são uma etnia, mas podem ser classificados como um grupo etno-social. Originalmente, teriam habitado as estepes e florestas da Europa Oriental, em particular no território da atual Ucrânia e Rússia, bem como posteriormente se estabeleceriam na região do baixo e médio Volga, Urais, Cazaquistão moderno, na Sibéria e no Extremo Oriente. Ao que tudo indica, originalmente, os grupos cossacos eram constituídos por camponeses fugitivos, que escapavam do controle dos senhores dos feudos que ficavam na Polônia e na região da atual Moscou, rumando assim às estepes do sudeste europeu, onde se estabeleceram. Eles ganharam fama no Leste Europeu pela sua coragem, bravura, força e capacidades militares. Neste sentido, a principal característica dos cossacos era a destreza na cavalaria, o que não era novidade para povos que já habitavam as estepes russas. Podemos ver que os cossacos foram os herdeiros de uma longa tradição no uso exímio da cavalaria. Ainda podemos agregar a estas características a capacidade de auto-suficiência. Todas estas notoriedades fizeram com que fosse criada uma unidade militar de Cossacos, no tempo das conquistas das estepes do sul. Andar pelo interior, especialmente nas vilas cossacas
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    (stanitsy), é comovoltar no tempo. As tradições dos cossacos estão sendo redescobertas e incentivada pelo governo local. O orgulho cossaco tem sido incentivado, especialmente pela pessoa do Governador do Estado de Krasnodar. Durante os anos do poder soviético, os cossacos foram perseguidos e sua manifestação cultural proibida. Isto pode ser explicado pelo fato dos cossacos terem, em sua maioria, apoiado o governo czarista, que foi derrubado pelos revolucionários bolcheviques (socialistas). A longa guerra civil que se seguiu à queda do czarismo, levou as estepes do sul a presenciarem grandes conflitos, com os cossacos lutando, em grande parte, nas fileiras dos contra-revolucionários. Posteriormente, Stalin iria se lembrar deste fato. Esta volta às origens cossacas (pois foram os cossacos os primeiros enviados pelo governo russo para a região numa colonização eslava no tempo da conquista das terras do sul), passou a ser mais uma forma de demonstrar a todos que o fim da URSS era definitivo. Não faz muitos anos, todos os domingos a avenida principal de Krasnodar é fechada para um desfile dos cossacos vestidos com seus uniformes vermelhos típicos. Eles desfilam a pé, e uma parte avança posteriormente montados nos seus cavalos, que como dissemos, é parte muito importante da
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    cultura cossaca. Regularmente podemosver o governador em alguma festa cossaca pelo interior do estado, ou fazendo algum discurso evocando a bravura e o espírito cossaco. Reviver esta ideologia é parte do programa de governo. Ser sulista é ser cossaco e fiel à Igreja Ortodoxa Russa. Este tipo de situação dos cossacos e do sul da Rússia guarda certas similaridades, no meu ponto de vista, com algo muito próximo de nós. Refiro-me aos gaúchos no sul do Brasil. Por ter nascido e vivido grande parte da vida no Rio Grande do Sul, percebo estas semelhanças no modo como ambos os povos vivem. Logo salta aos olhos a semelhança na questão bélica, e mesmo o próprio apego com a cavalaria. O ar rude e agressivo dos sulistas aos olhos do resto do país se explica pelas situações sócio-políticas e o contexto de fronteira. Os governos sempre ideologizam povos fronteiriços com o fim de garantir a lealdade deles ao Estado. As guerras do Brasil foram grandemente travadas por estas pessoas que lutavam em nome do país. Ao olhar a ideologia transmitida na cultura gaúcha, percebem-se claramente os traços de interferência do Estado. E não poderia ser diferente. O sul está numa região de encontro de povos. Lembremos que aquelas regiões pampeiras
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    (parecidas alias comas estepes do sul russo) eram a região que ficava entre os domínios de Espanha e Portugal. Visitei um forte no lado do atual Uruguai, e na placa de entrada havia uma lista de anos apontando a quem pertencia o forte naquela data específica. O local trocou inúmeras vezes de mãos, até que finalmente acabou parando sob domínio uruguaio após a independência da Cisplatina, atual Uruguai. Ainda temos que lembrar que o próprio governo brasileiro foi quem levou a efeito os planos de colonização do sul, a fim de evitar uma retomada por parte de nossos vizinhos dos territórios “desocupados”. As similaridades entre o sul russo e o nosso sul são muitas, mas evidentemente existem diferenças que deixam estes mundos muito distantes. A longa História das estepes do sudeste europeu deixou marcas profundas na população local. Estas constantes mudanças de ventos, ora trazendo alguns e levando outros, fez com que este acúmulo por décadas, e mesmo por séculos, de culturas tão distantes uma das outras, fossem responsáveis pela cultura multiforme do Cáucaso. Estar num lugar como aquele, onde o oriente encontrou o ocidente; onde as circunstâncias adversas formaram o caráter indomável do povo do sul russo, tudo isto é um privilégio que tivemos de viver. Ainda hoje os cimérios, citas, hunos, alanos,
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    cossacos e tantosoutros estão vivos na cultura local.
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    O CÁUCASO NORTE:DE SOCHI ATÉ NALCHIK Quero deixar agora este pano de fundo histórico da região e sua análise sociológica e partir com os leitores para experiências reais vividas por nós no interior, cruzando de oeste ao leste a região norte do Cáucaso. Viajar até Sochi foi uma daquelas aventuras que se decide realizar, sem pensar muito nas questões envolvidas. Mas também são aqueles momentos que depois se levará para o resto da vida. Tínhamos um casal de amigos brasileiros morando em Sochi, e que nos convidaram para passar uns dias com eles. A cidade é um balneário que fica praticamente na fronteira com
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    a Geórgia. Deixarde ir até um dos cartões postais da Rússia seria uma grande perda, especialmente por estarmos tão perto. Decisão tomada, precisávamos agora traçar a rota. Pegamos o mapa do estado e vimos o caminho que nos levaria até a famosa cidade. Eram cerca de 300 quilômetros até Sochi. Preparamos as coisas todas. Já tínhamos experiência em viagens aqui pelo Brasil, pois quando morávamos no Distrito Federal, viajamos algumas vezes até o Rio Grande do Sul, e 300 quilômetros não são comparados com os 2100 quilômetros de Brasília à Porto Alegre. Logo perceberíamos que estes 300 quilômetros não seriam nada fáceis. Algum tempo antes desta aventura havíamos comprado nosso carro, um Nissan japonês, com direção do lado direito (daqueles que os japoneses não queriam mais, mas que para o mercado russo ainda tinha serventia). Andar nas estradas russas sempre é um risco, especialmente quando se está com um carro cujo volante está do outro lado. Existe uma dificuldade natural a mais para se fazer ultrapassagens, já que o campo de visão fica, digamos, limitado. Para ultrapassar, ou se conta com a ajuda de um co-piloto, que dará a dica se pode ou não, ou é preciso colocar o carro quase que todo no outro lado para se ter visão. Bem, existia nestes casos ainda um jeitinho, ir o máximo possível para a direita e ver à frente do
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    outro veículo sea ultrapassagem era segura. De qualquer forma, sempre havia risco. Mas com minha co-piloto já experiente, não havia muito com o que se preocupar. Sempre era uma incógnita também a questão de acidentes nas estradas. Muitos aconteciam por motivos de imprudência e especialmente por que os motoristas ingeriam álcool em excesso. Sempre havia alguém para contar um caso de acidente, ou relatar como se salvou de catástrofes nas estradas. Ainda, um número muito elevado de pessoas tinha alguém na família que havia se envolvido em acidentes e perecido. Conheci pessoas que acabaram por falecer em batidas. Basta dar uma olhada na internet sobre acidentes automobilísticos e “milagres” neste contexto, e verão que a grande parte destes acontecimentos ocorre na Rússia. Contudo, o grande ponto de tensão sempre era na verdade os policiais pela estrada. A fama (negativa) deles é muito forte, e creia-me, justificável. Ser parado nas estradas é algo não apenas possível, mas praticamente certo, pois existem várias viaturas ao longo do percurso, conforme narrarei mais à frente. O problema não era a questão de estarmos infringindo alguma lei, mas o fato de que sempre se acha algo de errado para poder levar uma “pro chá”, como dizem os russos, o que traduziríamos como “uma pro cafezinho”.
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    Mas a vontadede explorar era maior que o medo de tudo isto. Assim, partimos de manhã cedo, para evitarmos a polícia e na expectativa de chegarmos antes do meio-dia. Nossa viagem começou por volta das cinco e meia da manhã, e o tempo em Krasnodar estava entre nublado e chuvoso. Pegamos a rodovia M4, que vem desde Moscou e vai até o Novorrossisk, o porto no Mar Negro. Esta estrada passa ao lado da Krasnodar e é a principal ligação com o centro do país. Logo na saída de Krasnodar está o posto policial que demarca a divisa entre o Kray de Krasnodar (estado) e a República da Adyguea, uma república muçulmana constituída em 1991 com o propósito de dar um território ao povo adyguei, naturais da região. Os postos policiais de fronteira sempre foram os lugares mais tensos, pois neles o carro é parado e “revistado” pelos policiais armados de metralhadora. Neste dia, tudo estava tranquilo. O intenso tráfego por causa do verão e o horário favoreceram-nos Passamos então ao lado do reservatório de água da cidade, escavado e construído nos tempos soviéticos com trabalho literalmente braçal dos cidadãos da cidade. Alguns quilômetros depois voltávamos a entrar no estado de Krasnodar, pois a parte que estávamos é apenas um braço do
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    território da Adyguea. Seguimoso caminho pela estrada e chegamos a Goriatch Klyutch, uma cidade de fontes termais muito famosa da Rússia. Mas não paramos, pois nosso objetivo ainda estava longe. Quando já havíamos passado a cidade, após uma neblina e uma pequena garoa, as nuvens começaram a abrir e os raios de sol apareceram. A partir dali desceríamos uma região serrana. Ao chegarmos às partes mais planas daquele trecho, descobrimos que éramos os únicos a ter a ideia de sair cedo num dia de verão. O tráfego de caminhões era intenso, algo que não esperávamos, pois o transportes de carga na Rússia geralmente é eito por trens. Não demorou em pegarmos um congestionamento. No começo parecia que era algum acidente. Mas logo se tornou claro que tudo aquilo se devia ao grande número de veículos na estrada. Conforme avançávamos lentamente, entendia que a esperança de chegar antes do meio-dia ia se tornando numa certeza de que os planos teriam que ser revistos. Às vezes tinha impressão que andaríamos finalmente mais livres, mas logo parávamos novamente. Lembro de ver alguns carros tentando ultrapassagem pela direita, pelo acostamento. Mas por estar no volante neste lado, percebia os caminhões se
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    jogando no acostamentoe impedindo a passagem dos apressados. Mesmo ali o velho hábito de furar fila estava presente. Ficamos nesta situação de congestionamento por quilômetros. Por fim depois de horas ali naquela situação, após uma curva, percebi o motivo daquela encrenca. Havia um semáforo na estrada, e a multidão de carros se dividia entre a estrada à frente e uma conversão à esquerda. Quem fosse em frente iria em direção à cidade-balneário de Gelendzhik e para a cidade porto de Novorrossisk. Os caminhões todos iam naquela direção, em frente. Os carros se dividiam, pois quem tomasse à esquerda iria pegar a M-27 que leva para a cidade-balneário Dzhugba e depois, seguindo a estrada, chegaria em Sochi. Fiquei feliz ao ver que a placa que indicava nosso caminho estava livre! Fim dos problemas? De forma alguma! Ainda tinha muita emoção pela frente. A M-27 é a única estrada que liga todo o litoral sul de Krasnodar com o resto do estado. Ela passa por todos os vilarejos, balneários, cidades, vilas e agrupamentos de casas da região costeira. Às vezes passávamos a poucos metros do mar, uma visão muito bonita, mas isto trazia também um problema. Quando chegamos nestas regiões de praias, e
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    passávamos por umbalneário ou cidadezinha que nesta época de verão vive quase que exclusivamente do fluxo de turistas, já era por volta das 10 horas da manhã. Na cidadezinha de Lazarevskaya, o trânsito parou completamente, pois os pedestres atravessavam a estrada. Muitas das vezes eram famílias inteiras, com sacolas, cadeiras e todo o aparato para passar o dia na praia. Sempre havia alguém atravessando a estrada, que ao passar na cidadezinha virava uma rua comum. Tudo bem, todos tem direito e se leva numa boa, até que a paciência vai acabando e a irritação vem tomando conta. Mas fazer o que, todos estavam ali para descansar, e se estressar não valia a pena. E foram muitas aldeias e cidades que passamos! Nestes lugares a linha férrea passava a poucos metros da estrada. Quando um trem passava “livre” ao nosso lado, batia uma inveja daqueles felizes que não ficariam horas esperando dentro do carro no já ensolarado e caloroso dia de verão russo. Mas não era somente nas cidades que o trânsito ficava lento. Na região onde se concentravam os acampamentos, hotéis e bases de descanso, o vai-e-vem de pessoas era constante, pois geralmente estes estabelecimentos estavam estrategicamente localizados em frente às praias, para
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    desespero dos motoristas.E, logicamente, os pedestres todos sempre estavam em ritmo de férias, sem pressa para atravessar. Ao menos a paisagem era muito bonita. Ao longo de todo o caminho, muitas árvores por toda a parte, especialmente a estrada é ladeada por álamos, característicos de toda a região sul. O verde é uma cor predominante no sul, vários tons, mas o mais bonito é o verde claro, que pessoalmente sempre será símbolo da primavera. Em alguns momentos víamos carros parados ao longo da estrada, com portas e capô abertos, cadeiras improvisadas e os russos fazendo seu piquenique ali mesmo. O sanduíche (que os russos chamam de buterbrod, palavra adaptada do alemão), que consiste de um pão com uma rodela de mortadela e às vezes uma de queijo. Sempre tem pepino e tomate para comer assim mesmos, ao natural. Não precisávamos parar para ver, simplesmente sabíamos pelos anos de convivência que eles, os russos, eram práticos e simples nestes momentos. Além disto, ao longo da estrada sempre tem um quiosque, uma tenda vendendo comida e artesanato feito com temas marítimos A estrada M-27 tem outra característica, as curvas. Hora se está a poucos metros do mar, dali a poucos
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    quilômetros se estáno alto de uma montanha, pois a estrada toma um desvio devido ao terreno. Creio que nos pontos mais rápidos chegávamos a 60 km/h, mas logo vinha uma curva, era preciso então reduzir a marcha, pisar no freio, reduzir de novo para dar potência para subir, caminhão na frente. Resultado de tanta curva, nossa filha mais nova acabou por não agüentar e vomitou duas vezes. Coisas de criança pequena. Este tipo de relevo é algo interessante. No Brasil estamos acostumados com morros, montanhas, serras planaltos e etc. Eu cresci no sul do Brasil, sempre viajando pela Serra Gaúcha, de forma que este tipo de relevo não é algo novo. Mas depois de se viver alguns anos em uma região onde tudo é tão plano, como são as planícies russas, acaba-se por perder a referência neste tipo de topografia. Em Krasnodar, por exemplo, nunca era necessário usar o freio de mão do carro. Tudo é absolutamente plano, com pequenas variações no terreno, o que logicamente é natural. O mais interessante é o pequeno desconforto que se sente ao andar pela M-27, pois a mente acaba associando a imagem de uma Rússia plana, e que aquele cenário acidentado não pode fazer parte do país. Parece estranho isto, mas a mente faz este tipo de afirmação inconscientemente. É quase uma contradição ver ruas que são verdadeiras ladeiras, e casas
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    sendo construídas paraacompanhar o desnível da rua. Estivemos algumas vezes em Novorrossisk, a cidade portuária, e ela é cercada por morros e montanhas, sendo que a cidade se espalha não apenas nas encostas, mas acaba se expandido em direção ao topo destes morros. Nesta viagem ficou claro que o fenômeno habitacional de Novorrossisk não é único. Todas as cidades de pequeno e médio porte ao longo da costa ficam em um reduto entre montanhas e a urbanização seguiu os contornos do local. De certa forma, parecia que estávamos de volta ao Brasil, pois tínhamos calor, muito verde, praias e relevo acidentado. As pessoas ao longo da via estavam com roupas de verão, leves e soltas, mesmo andando nas ruas do centro das cidades por onde passamos. Esta característica de montanhas perto ao mar faz com que a M-27 tenha um número considerável de pontes, especialmente para que se cruze os rios que se formam devido à água que vem das encostas destas montanhas. Aliás, estes rios acabam por se tornar um perigo sempre presente na região. Uma chuva forte pode provocar não apenas deslizamentos de terra, mas inundações e destruição. Pouco depois desta nossa viagem, a região de Tuapse, por onde havíamos passado, sofreu com uma grande precipitação de
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    chuvas em umespaço curto de tempo. A onda de lama e água chegou à cidade e numa espécie de tsunami varreu a cidade inteira. Muitas pessoas ficaram feridas, desaparecidas e mortas. O sistema de defesa civil da Rússia foi acionado e o país ficou perplexo com a destruição. Anos antes, na cidade de Novorrossisk, um tornado se formou no Mar Negro e atingiu a cidade, provocando muitos estragos e mortes. Pessoas foram arrastadas das regiões de encosta para o mar. Este tipo de fenômeno é algo bem conhecido dos moradores locais, mas geralmente são de pequena escala e não chegam a afetar drasticamente os locais. Mas às vezes a natureza prepara surpresas como estas, especialmente no verão. Esta região também é local onde se concentram um número considerável de dolmens, que ficam geralmente nas encostas das montanhas voltados para o mar, ou nas imediações dos rios que correm do alto em direção ao mar. Infelizmente não havia nenhum à vista ao longo da rodovia. Apenas indicação em placas que faziam a orientação para o local do dolmen. Como estávamos muito atrasados no nosso horário, pensamos em passar na volta. Logicamente que na volta não encontramos mais o lugar. Sempre é assim! A rodovia M-27 pode ser considerada boa em sua pavimentação ao longo do percurso. Algumas vezes existem
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    irregularidades no asfalto,mas nós brasileiros estamos acostumados com estes imprevistos. O transito é complicado na chegada e nas próprias cidades. Nestes locais, como dissemos, a estrada acaba virando uma rua, estreita, às vezes, mas o asfalto acaba não sendo comprometido. Chegando à região de Sochi, o congestionamento era monstruoso, pois muitos veículos de passeio e caminhões congestionavam todo o trânsito, no ziguezague da descida da montanha. Lá em baixo a estrada se dividia em duas, uma indo direto para o centro de Sochi e outra que seria uma espécie de Rodoanel. Quase que sem querer, muito instintivamente pegamos o rodoanel. Aí a rodovia virou estrada quase sem trânsito. Mas a alegria durou pouco, pois o Rodoanel ainda estava em construção, e após uma sequência de túneis tivemos que pegar um desvio e voltar para a M-27 antiga. Percebemos que já havíamos ao menos passado a parte urbana de Sochi, e tomamos a direção de Adler, uma cidade vizinha de Sochi, onde moravam nossos amigos brasileiros. Quase chegando ao centro de Adler, do lado direito da M-27, fica a estação ferroviária de Adler, o ponto final de uma ferrovia que vem de Moscou, e que diariamente recebe vários trens vindo da parte central da Rússia. No verão, aqui são “despejados” um número muito grande de turistas, que vêm
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    de toda aRússia, usando Moscou como conexão. Adler é uma cidade que vive aparentemente à sombra de Sochi, a irmã mais famosa. A última cidade antes da fronteira com a Geórgia, ou Abkhazia, que é uma região que mantém relações conturbadas com o governo georgiano e está sob uma espécie de “proteção” do governo de Moscou. Nos confrontos em 2008 entre o governo georgiano e a Ossétia do Sul (região que fica na fronteira com a Rússia), a Abkhazia também entrou em linha de confronto com o governo central. A Abkhazia parece uma extensão do que é encontrado do lado russo, com praias e clima subtropical. Apesar de estarmos alocados a algumas centenas de metros da fronteira, não ousamos, nem pela curiosidade, sequer chegar perto da divisa. Na época dos confrontos, um jornalista brasileiro foi abordado e preso pela polícia por fazer entrevistas numa rua de Sochi a respeito da opinião dos russos sobre o envolvimento do seu governo na questão. Resolvemos não brincar com a sorte, mesmo que fossemos instigados pela curiosidade de ver o que existe lá do outro lado. Adler tem algumas praias, de pedras é verdade, mas que não podem rivalizar com uma espécie de mística que envolve Sochi. O aeroporto de Sochi na realidade está em Adler. A ferroviária, ponto final fica igualmente em Adler.
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    Sobre a cidadenão há muito que dizer. Já Sochi é um capítulo à parte. A cidade tem cerca de 370 mil habitantes, e vem sofrendo maciços investimentos de vários setores, especialmente do governo russo. Isto tem mudado a cara da cidade ao longo dos últimos anos. Quando ela foi escolhida para receber as Olimpíadas de Inverno de 2014, muitas obras começaram a aparecer pela cidade. O trânsito ficou mais caótico, o policiamento mais extensivo. Sochi praticamente não saía dos noticiários da televisão, pois o sempre bem visível Putin, na época primeiro ministro, frequentemente estava na região. A cidade acabou por virar um balneário bem caseiro para a elite russa. O preço dos imóveis disparou e viver lá acabou sendo um privilégio para poucos de fora. Isto acabou afetando Adler, que virou de certa forma uma opção de moradia. Se formos falar sobre as praias em si, pouco se pode dizer em termos de beleza, especialmente para quem vem de um país como o Brasil, que tem praias paradisíacas ao longo de toda a costa. As de Sochi são de pedra. Muitas regiões acabaram se tornando lugares particulares dos bares e restaurantes de beira-mar. a faixa de “praia” se estende a poucos metros entre a calçada (ou da linha de restaurantes) e as águas do Mar Negro. Ao se entrar na água, nada quentes
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    por sinal, logose percebe que em poucos metros não “dá mais pé”. Resumindo, ir para lá por causa das praias não é uma opção muito atrativa. Mas Sochi tem uma vantagem que é a infra-estrutura para turistas, com bares, orla, muito verde, palmeiras pela cidade toda, topografia variada, muito verde, parques e um ar diferente do resto das cidades russas. Sochi parece mais viva e dinâmica, sem a frieza e o cinza do resto do país. Existem várias atrações pela cidade. A principal que está relacionada ao mar é o Delfinário, um lugar grande e que está sempre lotado nesta época de verão. Fomos até lá com nossas crianças para conferir. Não nos arrependemos! O show realmente e digno de nota 5 (na escala russa). Todos se maravilharam com a habilidade dos animais marinhos, as piruetas, os truques e a destreza de todos os participantes do espetáculo. Outro local de interesse é o Dendraniy de Sochi, que é uma coleção única de exemplares da flora e fauna subtropical. É um parque e jardim botânico ao mesmo tempo, misturado com zoológico. O Dendraniy fica localizado numa colina (ou seria um monte?) que fica de frente para o mar. O parque todo atualmente ocupa uma área de 49 hectares, onde se encontram mais de 1500 espécies, formas e variedades de árvores e
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    arbustos. Tem umagrande coleção de pinheiros com 76 espécies, num total de 1.890 exemplares. É a maior coleção russa de carvalhos, palmeiras e muitas espécies de ciprestes, além das plantas subtropicais raras. Pode ser que para nós brasileiros isto não seja algo muito digno de notoriedade, mas os russos da região se orgulham de sua exuberância, tendo em vista que este tipo de situação não se encontra pelo país. O parque é composto de duas partes: a superior e a inferior. Na parte baixa está localizado um aquário, que contém vários exemplares das espécies que são habitantes do Mar Negro. Em algumas outras áreas do parque foram criados cantos separados que contêm densas coleções de plantas originárias do Cáucaso, Japão, China, Austrália, Mediterrâneo, das Américas do Norte e do Sul. Dá para falar bastante sobre a importância deste lugar que é um laboratório a céu aberto, mas nossos leitores ficariam muito enfadados com números e outras questões mais técnicas. O que fica mesmo na mente do visitante é a beleza do lugar. Existe a possibilidade de subir até o alto do monte por um teleférico, o que realmente é muito legal, especialmente para a criançada. Chegando lá em cima se tem uma excelente vista de
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    todo o parquee ainda o Mar Negro ao fundo. Passear por lá, é como voltar ao Brasil tropical, um pequeno descanso para a mente, acostumada ao clima e vegetação das regiões mais frias. Isto nós aprendemos na Rússia, como o verde faz bem para a mente, o sol raiando e seu calor, o céu azul,... Aprendemos a dar mais valor ao que temos por aqui também. Sochi ainda reserva outras surpresas, mas a mais conhecida de todas é a região conhecida como Krasnaya Poliana.Esta é uma aldeia urbana no distrito de Adler que está localizada no curso médio do rio Mzimta, a 39 km do Mar Negro. A região está conectada com Adler e Sochi, através de uma estrada moderna que passa pelo aeroporto local. Krasnaya Polyana é um centro popular de esqui e snowboard, com a reputação de ser a mais "respeitável" na Rússia, para aonde se dirigem muitos russos no inverno. As pistas de esqui que ficam perto da aldeia são muito procuradas pelo fato da boa cobertura de neve úmida. Aliado a esta questão, o terreno oferece boas oportunidades para esquiar, inclusive fora dos circuitos das pistas oficiais. Tudo isto elevou as possibilidades na candidatura de Sochi para as Olimpíadas de Inverno de 2014. Mas estávamos em Sochi no verão e neve, nas estações, não havia. Contudo, o passeio foi feito, pois quantas vezes
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    mais na vidateríamos esta oportunidade? A estrada que leva até a aldeia no meio das montanhas era pista simples, mas ao lado se viam as obras de construção de um trem que liga Sochi (aeroporto) e a aldeia. Chegando lá, pegamos um teleférico e subimos até o topo da montanha que fica em torno dos 2000 metros acima do nível do mar, que fica “logo” ali em baixo. Os russos dizem que em Sochi se pode esquiar nas montanhas de manhã e à tarde tomar banho de mar. Estão certos! Para se alcançar o topo, a última estação, precisa-se fazer uma baldeação para o segundo teleférico. Chegando lá em cima, apesar de estarmos no verão, o clima era outro. Ventava bastante e a sensação de frio era bem maior.Andamos um pouco, tiramos várias fotos, e depois voltamos para o nível mais baixo. Voltamos de Sochi para Krasnodar contentes por ter vivido esta outra face da Rússia. A viagem foi marcante em todos os sentidos. Felizmente tudo ocorreu sem maiores dificuldades. Sempre fica aquele desejo de um dia voltar para lugares como estes, mas o que importa é que estivemos lá, vivemos o momento. Creio que tais experiências enriquecem a vida de cada um. Levaremos conosco estas imagens, e quem sabe, um dia realmente voltaremos lá!
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    -------------------------------------- Nalchik Abril de 2008 Certodia nosso amigo brasileiro veio nos visitar. Ele era jogador de futebol, e havia sido contratado pelo time da cidade de Nalchik, que naquela época estava na primeira divisão do campeonato russo. Ele estava em Krasnodar para resolver algumas questões e precisava voltar no dia seguinte para se reapresentar no clube.A questão era que, de nossa cidade para Nalchik, não havia vôo direto, só por Moscou. O trem, segunda opção viável ia apenas até metade do caminho. Ele estava sem muitas alternativas, e então propôs algo que, num primeiro momento, parecia atraente. - Que tal você me levar até lá de carro? - perguntou ele num tom de brincadeira, mas que escondia um ar de seriedade. Achei que seria interessante uma aventura, só para variar. Logo me veio a mente então o velho medo eterno dos estrangeiros na Rússia. Creio que o leitor já esteja adivinhando neste momento. Sim, a polícia! Conversamos sobre o assunto, possibilidades de outros
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    meios de sechegar lá, mas nada era tão “certo” quando uma ida de carro. O percurso era de aproximadamente 500 quilômetros, e uma estimativa de tempo de viagem de 6 horas e meia. Deveríamos sair por volta das 22h00min e viajar toda a noite. Em parte para evitar a polícia na estrada, e em parte por causa do intenso tráfego da M-29, conhecida como estrada “Сaucasiana”. Ela faz a interligação de todo o norte do Cáucaso, desde o estado de Krasnodar no Mar Negro, até a região de Derbent, Daguestão, no Mar Cáspio, fronteira com o Azerbaijão. Participariam desta viagem o nosso amigo futebolista, eu, um membro da comissão técnica do clube que também estava na cidade e um angolano naturalizado russo, que era taxista em Krasnodar e conhecia a estrada e outros “detalhes” do percurso. No horário marcado estávamos todos em nosso endereço residencial para começar a façanha. Lembro que a noite estava clara, sem nuvens e a lua já havia aparecido por detrás dos prédios. Não estava frio, mas usávamos casacos leves para garantir que não seríamos surpreendidos no trajeto. A estratégia de sair no meio da noite mostrou-se funcional. Poucos carros na estrada e praticamente não havia polícia pela estrada. Aquela viagem serviu para me ensinar
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    como se devedirigir na Rússia, as “regras” das estradas e especialmente o que NÃO fazer. Havíamos comprado o carro ha não muito tempo, e esta era a primeira viagem realmente longa, cruzando estados. A regra mais sagrada me ensinou o motorista angolano, era nunca, em hipótese alguma, “pisar na linha” - como dizem os russos. Esta expressão dizia respeito a não passar com o pneu em cima das linhas entre a “faixa de rolagem” (pista) e o acostamento, e tocar a linha divisória entre as duas pistas. Nunca entendi muito bem este “pecado capital”. O simples fato de se tocar nestas linhas, em quaisquer circunstâncias, seria motivo suficiente para ser parado por uma patrulha policial e momentos de estresse à frente. O primeiro momento tenso para mim foi quando atravessamos a divisa do estado de Krasnodar e Stavropol. Já passava da 1 hora da madrugada. Estrada vazia, apenas nós no sentido Krasnodar-Nalchik. O posto policial apareceu de repente depois de uma pequena colina. No sentido contrário apareceu um carro também. Havia uma placa de PARE numa cancela ao lado da estrada. O angolano virou-se e disse para mim, o novato: - Sempre que estiver por passar por um posto policial, deve-se reduzir a velocidade até o ponto do carro quase parar. Se o policial fizer menção de querer parar você, pare!
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    Felizmente parecia queo policial estava mais ocupado com seus afazeres e não tivemos que parar, apenas reduzir a velocidade. Aprendi a não ficar encarando o policial, usando a “visão periférica”, pois parecia que um olhar direto atraía a curiosidade deles. Sei lá, podia ser psicológico apenas, mas em geral funcionava. Dentro do carro íamos conversando e rindo, falando em português e russo, por causa do russo que nos acompanhava. Aliás, nem russo ele era, mas pertencia a alguma daquelas etnias do Cáucaso. E isto, o fato de pertencer à outra etnia, todos os não-russos deixam bem claro. Algo que para nós passa sem maiores merecimentos de atenção, para eles é vital. Existem duas palavras no idioma russo para o nosso vocábulo “russo”, russkiy e rossiskiy. O primeiro vocábulo (russkiy) denota a etnia eslava russa. O segundo (rossiskiy), denota todos aqueles que nasceram e tem a cidadania russa. Assim, nosso amigo no carro era rossiskiy, mas não russkiy. Lembro que na universidade havia na minha turma uma moça. Num dia, conversando, chamei-a de russa (russkaya). Rapidamente ela me corrigiu, com certo tom de brabeza, que ela era Tatar, e não russa. Minha esposa passou pelo mesmo constrangimento com uma vizinha, que logo no início da conversa disse:
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    - Ola, meunome é Alsu, e sou tatar muçulmana. A necessidade de auto-afirmação étnica e religiosa na Rússia é algo muito importante, logo descobrimos isto! Mas voltando para nossa viagem, tudo foi tranquilo. Uma conversa animada e muitas risadas foram necessárias para manter o motorista alerta e acordado. Depois de 5 horas e meia, mais ou menos, estávamos chegando à divisa do estado de Stavropol e a república de Kabardino-Balkharia, cuja capital era Nalchik. Devido ao fato de ainda estar escuro, não me recordo muito bem da geografia do local, mas repentinamente depois de uma curva apareceu o posto policial. Havia muitos carros e caminhões parados. Estranhei, pois geralmente nos postos não existe toda esta fila. E a parada era obrigatória. Policiais com metralhadoras em mão estavam postados na estrada e no posto. Percebi que a situação não era de tranquilidade. - Estão procurando alguém? - perguntei. - Não, é assim mesmo, bem-vindo ao Cáucaso! - alguém no carro respondeu. - Passaportes de todo mundo, disse o angolano. Recolhemos os passaportes e entregamos pro nosso motorista, que desceu do carro e foi até o posto. Aquela cena não era totalmente nova para mim, pois na televisão russa
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    sempre mostram estetipo de situação, e geralmente mostrando que o posto policial foi atacado ou explodido por grupos rebeldes chechenos, ou algo assim. Estávamos entrando em zona potencialmente perigosa e bélica. Eram as nossas boas-vindas! A expectativa foi grande, pois um grupo de brasileiros e angolano tentando entrar numa república de uma região instável, é algo muito estranho.As perguntas de sempre: quem são, por que estão aqui, qual o objetivo, o que querem??? O fato é que perdemos ali uns 10 minutos, além de uma tensão. Estar numa barreira policial daquelas invocou em mim as imagens da televisão, e aquilo era desagradável. Fico pensando no policial lá dentro do posto no balcão de controle vendo aquilo tudo: um carro, com documentação no nome de um russo, mas que na verdade pertencia a um brasileiro, só que estava sendo dirigido por um angolano, que por sinal era naturalizado, que estavam viajando de madrugada para uma das regiões mais perigosas do mundo. Creio que foi durante a devida verificação, dos documentos, que outros policiais fortemente armados “pediram” (não é bem esta a palavra, mas vamos deixar assim!) para inspecionar o carro, porta-malas, interior, etc. Pareceu-me ter visto uma metralhadora numa espécie de
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    barricada logo alina frente, mas nem pensei em dar uma olhada melhor, pois era muito aconselhável nesta hora deixar a curiosidade de lado e tentar sair o mais rápido daquele lugar. Percebi que se não fosse por um fator, ficaríamos lá por muito tempo, dando explicações. O fato de estarmos com uma “estrela” do único time da república de Kabardino-Balkharia na elite do futebol russo, onde estávamos entrando, foi um abrir de portas. Quando finalmente o angolano voltou, sorrindo, percebi que sairíamos logo dali. Entramos no carro e passamos pelo posto que estava à nossa direita. Depois que o posto ficou fora do alcance do retrovisor, o angolano disse que o fato do nosso amigo ser jogador “facilitou” as coisas, pois ninguém iria querer levar a culpa por um incidente, logo no posto de fronteira. Esta ajuda seria muito bem vinda novamente depois, na volta. Ainda na escuridão da noite chegamos à Nalchik. As ruas estavam vazias, nenhum carro, nenhum movimento. Fizemos várias conversões e depois de alguns minutos estávamos já perto do estádio. Naquele momento apenas queríamos chegar a algum lugar onde pudéssemos dormir um pouco, e relaxar. Ficamos do lado de fora do carro esperando o nosso
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    amigo “russo” resolveronde poderíamos ficar naquelas horas que restavam da noite. Eram umas 4 da madrugada, e alguém não deve ter ficado contente de ser acordado nesta hora. Mas depois de algumas ligações e conversas num prédio aonde havia entrado o russo, saiu a decisão de onde eu e o angolano ficaríamos. Realmente gostaria de um bom banho quente e uma cama confortável para recuperar as energias, mas conhecendo a Rússia, este luxo teria que ficar para a minha volta para casa. Ali mesmo havia uma espécie de alojamentos do clube, e fomos levados para lá. A senhora que cuidava do local não estava com muito bom humor, mas isto não era novidade. Entramos no prédio e seguimos pelo corredor. À medida que avançávamos, o meu sonho de um bom banho e uma cama agradável, ia se esvaindo. Entramos num quarto que devia ser reservado para o pessoal dos jogadores das categorias de base. Tinha as camas e um banheiro. A visão inicial não impressionou positivamente, mas naquela altura, todos os sonhos já haviam se diluído e tudo que eu queria era um descanso. Entrei no banheiro, e honestamente nem lembro se tomei banho, apenas me lembro que a descarga ficava correndo e a torneira da pia também. A senhora nem deu bola para a água que se ia sem ser utilizada. Tentei desligar o
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    cérebro daquilo, poisisto realmente é uma situação que me deixa nervoso, água sendo desperdiçada. De alguma forma cheguei até a cama, já eram quase 5 da manhã. Depois que a luz amarelada fraca se apagou, eu também apaguei. Eram pouco mais das 9 da manhã quando vi o angolano de pé no quarto. Sabia que não adiantava enrolar na cama. Levantei e fui dar uma espiada pela janela, conhecer a famosa Nalchik. Não vi muita coisa, senão as árvores. Um tempo depois o nosso brasileiro liga para o angolano, dizendo que iria passar para nos pegar para darmos uma volta de “leve” pela cidade. Entendi logo o que estava querendo dizer. Nalchik é uma cidade relativamente pequena, mas uma das maiores do Cáucaso norte, com uma população de 240 mil habitantes. Apesar do território onde se localiza a atual cidade ter sido habitado pelos povos nativos balcários e Kabardinos (daí o nome da república Kabardino-Balkharia) desde o século XVIII, a cidade de Nalchik como a conhecemos foi fundada somente no século XIX, quando o Império Russo estendeu seus domínios pela região. Foi durante a Segunda Guerra Mundial ocupada pelos nazistas, e aqui se travaram batalhas que acabaram por deixar Nalchik muito destruída. Mas como toda cidade do sul da Rússia, Nalchik é
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    muito arborizada. Estávamosperto do parque da cidade, e pudemos passar algumas vezes na frente. Muito verde, flores e pessoas caminhando na rua. Não nos atrevemos a sair das proximidades do estádio. Não sei se era por causa da recepção no posto da fronteira, mas parecia que estávamos num clima bastante hostil, não das pessoas em si, mas a atmosfera do local leva a pessoa a ter este tipo de pressentimento. A cidade parecia muito calma, uma verdadeira cidade de interior da Rússia, mas a aparência era enganosa. Poucas semanas antes, nosso amigo nos informou que haviam metralhado o carro de polícia em pleno centro da cidade. Os ataques haviam iniciado com maior intensidade desde que o governo russo “resolveu” a questão na Chechênia. A última guerra da Chechenia, em 1998, trouxe alguns resultados para a região e para todo o país. A liderança de Vladimir Putin no conflito rendeu-lhe o cargo de presidente da Federação Russa em 1999. A paz forçada pelos russos na Chechênia após a vitória no confronto, fez com que os rebeldes da região abandonassem a república caucasiana e fugissem para outras partes da federação. Muitos haviam atravessado a fronteira interna e ido para o Daguestão, outros teriam saído para a Ingushétia, e alguns para a república de Kabardino- Balkharia. Desde então, começaram os ataques nestas regiões.
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    Todos devem lembrar-sedo caso da escola em Beslan, onde terroristas prenderam pais, alunos e professores numa escola, no dia 1° de setembro de 2004. Foram três dias de suspense, e ao final mais de 300 pessoas morreram, a maioria crianças. Atentados a bomba ocorreram em várias cidades ao norte do Cáucaso, especialmente nos mercados públicos, sempre repletos de pessoas. Na época da primeira guerra da Chechênia, nos anos 90, até mesmo Krasnodar sofreu um atentado a bomba no mercado. Quando chegamos à Rússia em 2005, a caçada aos grupos separatistas era alvo constante dos noticiários. A televisão russa fazia questão de mostrar o ataque do exército contra células destes grupos, mostrando o resultado, corpos espalhados pelo chão e alguns até carbonizados. Era uma mensagem clara para os rebeldes. Semanalmente apareciam notícias sobre o Daguestão, onde sempre havia atentados, bombas, tanques, exército, polícia, sangue e morte. Quando o time da capital Makhachkala (Anji) subiu para a primeira divisão do futebol russo, passaram a se preocupar com a integridade física dos jogadores. O próprio time, que nesta época foi reforçado pelo ex-jogador da seleção brasileira Roberto Carlos, tinha sua sede em Moscou. Treinava na capital russa, e quando tinha um
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    “jogo em casa”,pegavam o avião, iam até Makhachkala, jogavam, e voltavam rápido para Moscou. Groznyi, a capital da Chechênia era uma cidade pacificada quando chegamos à Rússia. Contudo, a tensão do norte do Cáucaso sempre se faz presente. Outro brasileiro amigo nosso, jogava pelo time de Krasnodar, e naquele ano a equipe de Groznyi, Terek, subiu para primeira divisão. Numa conversa informal com ele, eu dizia que não havia com o que se preocupar, pois as coisas lá já estavam bem mais tranquilas, depois que os russos ganharam a guerra. Na semana seguinte o time dele foi jogar em Groznyi.Ao voltarem, perguntei como tinha sido a experiência. Ele me relatou que desde a chegada no aeroporto até a saída de volta para Krasnodar, sempre havia um esquema de segurança. Na ida para o estádio, além dos batedores da polícia, em todas as esquinas havia policiais armados com metralhadoras. Ele disse que se sentiu em pânico, pensando no que poderia acontecer com eles naquele local. Este é o clima nas cidades do Cáucaso. Mas voltando a nossa história, a permanência na cidade foi rápida. Não nos aconselharam ficar por lá (empolgante, não é?) e voltar logo era o mais sensato. Posto desta maneira, no meio da tarde partimos da cidade, após um tour rápido pelo local. Não sei, depois de tantos conselhos,
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    perde-se o interessede ficar andando pelas ruas! A volta teve suas complicações. Sem a proteção do escuro da noite e com um trânsito intenso, pegamos congestionamentos na estrada que passava perto de Pyatgorsk, região famosa pelas suas águas termais. O dia estava muito quente e o sol realmente não dava trégua. O ar- condicionado do carro não funcionava, e parecia que aquela fila não tinha fim. Apesar de a estrada estar em excelentes condições, a quantidade de carros era tão grande que ficava difícil desenvolver alguma velocidade. Mas o pior ainda estava por vir. Tempos mais tarde fiquei sabendo que a polícia mais corrupta do país, segundo fontes do próprio governo russo estava localizada justamente nesta estrada M-29! Infelizmente, logo descobri o porquê da fama… O trecho entre Pyatgorsk e Mineralnye Vody, cerca de 40 quilômetros, durante o dia está repleto de patrulhas policiais. Creio que elas estavam a menos de cinco quilômetros uma da outra, parando os carros, verificando documentos, querendo achar algo para poder tirar proveito. Nós éramos alvos fáceis para eles, pois em primeiro lugar, a placa do carro era de outro estado (estávamos no estado de Stavropol), e isto atraia os olhares bem treinados.
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    Em segundo, omotorista, apesar de ser naturalizado russo, era angolano, o que, obviamente, facilitava aos guardas perceberem rapidamente tratar-se de estrangeiros. Uma destas patrulhas nos parou perto de Mineralnye Vody (que em russo significa águas minerais). - Documentos - disse o policial. Ele olhou tudo enquanto o outro fazia uma inspeção externa, provavelmente procurando algo para nos pegar. - O carro é seu? - perguntou o guarda para o angolano. - Não, o carro é do moço aqui, mas eu estou dirigindo por que ele não conhece a estrada e não tem prática ainda aqui na Rússia. - Fala russo? - me indagou. - Sim, senhor! Um pouco - respondi com ar de quem estava perdido no assunto. - Documentos, cadê? - Aqui estão. - respondi reticente. Após olhar o passaporte e a habilitação, disse: - Ah, você é brasileiro? Pensei que iríamos nos livrar, pois quando o assunto ia pro futebol, Pelé e café, geralmente os policiais davam uma relaxada. Mas não desta vez! Ele me chamou para o lado do carro, fora do alcance
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    dos ouvidos doangolano e me disse: - Sabe ler russo? - Sim, senhor! - Então me diga: o que está escrito aqui neste documento do carro? Li para ele, pois isto qualquer um sabia fazer. Lá estava o nome do verdadeiro proprietário do carro Ele balançou a cabeça e como que enfiando a faca, sorriu e disse: - Agora leia para mim o nome desta autorização de uso do carro. A ficha caiu. Nos documentos, o nome do proprietário e o nome de quem me autorizava a dirigir o carro (o dono) estavam com uma letra trocada. UMA LETRA!!! Todos os outros dados eram iguais, número de passaporte, identificação, nome, patronímio, mas sobrenome estava com uma letra digitada errada (num sobrenome enorme!). - Está vendo, não são as mesmas pessoas! Assim, você não tem autorização legal de dirigir este carro, nem de estar com ele! Não preciso dizer que o mundo caiu. O angolano chegou perto e se inteirou do assunto. Sua cara de apavoramento não me ajudou em nada. Ele sabia o que
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    estava por vir,era taxista… - Vocês vão ter o carro apreendido. Vão ter que voltar para casa de ônibus. Vai ser aberto um processo contra você e daqui à mais ou menos um mês precisará vir aqui em Mineralnye Vody com seu advogado para ir a julgamento. Ainda precisarão pagar pelo guincho agora, e pelo tempo em que o carro ficará apreendido no pátio. A multa é de XXX rublos, paga agora, já que vocês são de outro estado. Persuadir os policiais parecia impossível. Eles sabiam que estávamos em grande desvantagem, e iriam se aproveitar o máximo disto. Poderiam tirar o dia com aquela situação. O angolano foi para a viatura tentar conversar com o chefe do grupo. Eu fiquei ali desolado, com um policial (que fazia a revista antes no carro), conversando comigo, no que mais parecia um interrogatório no estilo KGB dos filmes. Antes disto, havíamos explicado que estávamos fazendo uma boa ação para um colega que precisou de uma ajuda para ir até Nalchik. Não funcionou apelar para o instinto de ajuda e camaradagem russa. Neste meio-tempo, entre viatura e nosso carro, o angolano me pediu o celular, dizendo que ia ligar pro nosso amigo de Nalchik. Logo percebi a tática, valer-se de uma velha tradição russa, os contatos. Creio que a chegada do celular e
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    sua popularização impulsionarameste hábito. Está numa situação complicada, aconteceu algum problema? Pegue o seu celular e chame os contatos! Por isto é sempre bom ter uma boa lista de contatos. No nosso caso, estávamos limitados ao nosso amigo, jogador do time do estado vizinho. Pensei que não era muito promissor isto, mas naquele momento era o que tínhamos. O angolano pegou o celular e muito visivelmente aos policiais fez a ligação. Para dar um tom ainda mais sério, falou em russo para deixar claro a intenção daquela chamada (depois continuou o resto da conversa em português). Percebi que os policiais se entreolharam. - Opa, está dando certo! - pensei naquele momento. O angolano explicou a situação para o brasileiro e perguntou se seria possível alguma “saída” deste caso. Obviamente, sempre existe uma solução! Os policiais chamaram o angolano para dentro da viatura. Assisti-os conversando lá do outro lado da estrada. O angolano com o telefone na mão, à meia altura e o policial gesticulando, aparentemente mais amistosamente. O policial que estava anteriormente inspecionando o carro aproximou-se e começou a perguntar sobre o Brasil, futebol e carnaval. Os ares estavam mudando e o vento começou a soprar em nosso
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    favor. Após alguns minutosde conversa, o angolano sai sorridente do carro da patrulha. O policial russo também com ar mais amigável veio em minha direção. - Viva o Brasil! Não queremos ter um escândalo internacional por coisas tão pequenas, não é mesmo? - sorrindo disse o policial. - De maneira nenhuma! - sorri de volta. - Veja bem meu jovem, o documento está errado, mas deu para entender que foi um problema de digitação. Vou liberar vocês por entender isto, mas não posso garantir que outro será tão compreensível. Aconselho a trocar logo este documento aqui. - Sim, senhor, eu farei isto imediatamente quando chegar em Krasnodar. Logo fomos liberados e pudemos sair com o carro. Eu não via a hora de estar longe daquele lugar. As pernas pararam de tremer somente depois de alguns minutos. Alguns quilômetros depois, outra patrulha nos parou. Pensei que iríamos começar tudo de novo. Ao parar o carro, o policial chegou perto da janela do lado do angolano para pedir os documentos. Antes mesmo do policial se apresentar, o angolano já saiu disparando:
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    - Vocês nãotêm jeito mesmo, os caras lá de trás já andaram passando o rádio para vocês aqui não é!!! - com um tom de desabafo. O policial reagiu imediatamente: - Vocês motoristas sempre pensam que estamos combinados não é? Não tem nada disto aqui não cidadão! - respondeu asperamente. Começou uma pequena discussão sobre a ética policial ali mesmo. Eu pensei que desta vez tudo estava perdido. Iríamos ser presos por desacato à autoridade, ou qualquer coisa do tipo. O angolano passou os documentos para o policial enquanto discutiam. O policial nem prestou atenção no documento e continuou a discutir com o angolano sobre o assunto em pauta. Após alguns instantes, que para mim duraram minutos, o policial nos liberou, dando a última palavra: - Está bem, podem ir! O angolano pegou os documentos, engatou a marcha e saímos dali rapidinho. Enquanto saíamos, o angolano deu uma olhada para mim e sorriu, com ar de moleque maroto. A tática havia dado certo! Perguntei então, agora já aliviado por saber que
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    estávamos fora doraio de ação da polícia, pois já havíamos cruzado a região onde eles costumavam ficar, o que acontecera lá atrás, na primeira patrulha. - Simples! Liguei pro nosso amigo na frente dos guardas. Eles perceberam que tínhamos algum contato. Perguntaram quem era, e disse que era fulano, que estava no time tal. Ele tem acesso ao chefe da polícia da república que estávamos. Ainda por “coincidência”, ele conhece o chefe da polícia aqui da região… Assim sendo, o caso iria se arrastar até algumas instâncias e por muito tempo, até todo mundo ligar para todo mundo. O que eles não querem é “alguém” lá de cima tendo que passar um rádio para uma patrulha de estrada liberar alguém (nós).Além disto, eles estavam ha mais de meia hora nesta questão conosco, e se ficássemos mais tempo lá esperando, sabendo que a possibilidade deles terem que nos liberar sem questionamentos, estariam perdendo de atacar outros carros na estrada. E isto era muito ruim para eles. Resultado, “não queremos ter um escândalo internacional por coisas tão pequenas, não é mesmo? - sorriu o angolano! Depois de algumas horas, já na escuridão da noite que caia sobre Krasnodar, chegamos exaustos da aventura, mas com muitas histórias para contar. --------------------------------------
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    Estas aventuras pelointerior do sul da Rússia foram espetaculares, pois foi importante para conhecer as pessoas, paisagens, conhecer a realidade em que vivem os povos minoritários dentro da Federação. Vimos de perto algumas das problemáticas de região, ao vivo, ali em nossa frente. Realmente é uma pena que o Cáucaso seja um local de instabilidade política, pois há muitas coisas belas que poderiam ser apreciadas pelos turistas. A cultura local é muito forte e rica. Como dissemos anteriormente, aquela região tem milênios de história, guerras, conquistas, culturas, contradições e amores. As lendas, o folclore, as cosmo visões, ideologias, costumes, tudo isto faz do Cáucaso um lugar absolutamente único no mundo.
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    POLO NORTE: SALEKHARD Erauma tarde muito quente de verão. Estávamos na estrada para a praia, no carro de uma família de russos, amigos nossos. A conversa era despretensiosa, daquelas que vão fluindo, para passar o tempo. Não lembro ao certo por que chegamos num determinado assunto, mas de repente o amigo russo virou-se para mim e perguntou: - Você não gostaria de lecionar uma matéria na nossa instituição, lá em Salekhard? Fiquei surpreso com a frase, mas mostrando serenidade e tentando não perder o controle da conversa, disse: - Claro, seria um prazer poder ajudar!
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    - Ótimo, poisestamos precisando de alguém para ir lá neste semestre. Seria uma matéria no estilo “Intensivo”. - disse o russo, expressando certa alegria. “Muito bem”, pensei, “agora só falta saber onde fica este lugar!”. - Mas Vladimir, onde fica exatamente Salekhard? - Ora, fica lá no norte, na região polar! - respondeu friamente. Confesso que uma mistura de sensação de aventura e pavor tomou conta de mim. O que ele queria dizer exatamente com “região polar”? Quão distante isto poderia ser? Quanto dinheiro eu precisaria levantar para ir até lá? Quanto tempo isto levaria? E mais importante, de que temperaturas estávamos falando? Os próximos quilômetros de estrada serviram para uma conversa que deveria lançar alguma luz sobre estes pontos obscuros. Eu estava ansioso para ver um mapa, saber mais detalhes da viagem. Mas quando se vai para a praia, não se leva um mapa das regiões polares! Tive que me contentar com as explicações do amigo e esperar voltar para casa e finalmente achar Salekhard num mapa. Ficou acertado que iríamos juntos para lá. Esta seria uma viagem de mais de 3300 km desde Krasnodar até
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    Salekhard, e fuiinformado que o meio mais barato de ir até lá seria de trem, e que esta experiência era única. O trem saía de Moscou e levava 47 horas até chegar à Labytnangui, o ponto final da ferrovia. De lá, precisaríamos ainda atravessar o rio Ob’ e andar mais alguns quilômetros até chegar ao destino final. Por causa das aulas na universidade em Krasnodar, resolvi ir de avião até Moscou, de lá pegar o trem até Labytnangui. Depois, voltaria tudo de avião. Para isto, consegui levantar o valor total das passagens junto com amigos do Brasil e fui comprar as passagens aéreas. No aeroporto de Krasnodar havia o guichê da única companhia que fazia vôos para Salekhard. - Quero uma passagem de Krasnodar para Salekhard! - disse para a senhora que estava atendendo. - Passaporte. - secamente falou a mulher. Tirei o passaporte do bolso e entreguei para ela. Ela pegou e deu algumas folheadas e disse: - Estrangeiro? Você quer ir para Salekhard? Não tenho certeza se pode, pois acho que esta é uma zona fechada (para estrangeiros)! Pensei que havia entrado num túnel do tempo, e caído na União Soviética novamente. Olhei para a senhora e pedi se
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    poderia verificar isto.Ela pegou o telefone e começou a fazer algumas chamadas. Liga, desliga, liga de novo, conversa daqui, conversa dali. De repente, ela desaparece atrás de uma porta com o meu passaporte, visto e registro de residência na cidade. Pensei, “pronto, acabou a aventura sem ao menos começar!”. Depois de uns minutos, ela volta com os documentos e diz: - Está tudo bem, Salekhard não é mais zona fechada! Logo fiquei imaginando os motivos para que um dia ela o fosse! Posteriormente isto ficaria claro. Chegando o dia da viagem, a maior aventura de todas, liguei para meu amigo russo que iria junto. Ele precisou ir para Salekhard uns dias antes da nossa viagem marcada e teria que voltar quando eu chegasse lá. - Ótimo! Como vou, sozinho? - perguntei ainda desnorteado. - Não tem erro, é só entrar no trem e ir até lá. Chegando na ferroviária, alguém irá te pegar. “Fantástico”, pensei. Mas voltar atrás já não seria possível, pois tudo estava comprado, e conseguir reembolso, naquele valor todo, na Rússia, estava fora de qualquer sonho. No dia marcado, peguei o avião até Moscou e de lá fui
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    para a ferroviária.Tudo certo. Passei a tarde toda na plataforma de embarque, vendo as horas passarem lentamente. Já no escuro da noite o trem parou na plataforma e pude finalmente embarcar. Estava ansioso em pensar quem seriam os colegas de cupê (4 camas). Havia ouvido muitas histórias de como os russos bebem, vomitam, roubam, etc. Mas felizmente o pessoal era calmo, um senhor de idade, bem humorado (para os russos) e, depois, uma senhora com uma criança, que subiu ao trem no caminho. A parte boa é que a viagem inicia quando já é noite, e não há muito que fazer, a não ser arrumar as malas no compartimento e preparar-se para dormir. Posso dizer que o balanço suave do trem sobre os trilhos é realmente algo muito atrativo para o sono. Na manhã seguinte, já em algum lugar da vasta planície russa, acordo pensando num café da manhã. Ir até o vagão restaurante? Nem pensar! Caro demais. A solução é viver à moda russa. Abrir a mesinha, tirar das sacolas os produtos alimentícios e colocar tudo de forma que caiba na pequena tabuleta. Por outras experiências, já sabia que as refeições na cabine acabam por ser comunitárias. Cada um coloca o que tem e dizem: “Ugashaytes’!!!” (sirva-se!). Sem cerimônias, cada um pega um pedaço de pão, prepara um chá
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    quente com aágua que pegou no samovar no corredor do vagão. Neste ambiente informal rolam as conversas sobre quem somos, de onde e para onde vamos, família, enfim, sobre a vida. Isto serve para passar o tempo e conhecer um pouco uns dos outros. Para mim isto era fantástico, pois podia ter contato com pessoas simples, com vidas que passam despercebidas dos jornais e TVs. É a vida como ela realmente é. As infinitas paradas do trem em cada estação ao longo do caminho são uma atração à parte. Em cada uma delas sempre existe um batalhão de vendedores, especialmente senhoras idosas, que parecem ficar o dia à espera da chegada do trem. Elas vendem de tudo, desde alimentos até roupas. Quando o trem para, os passageiros saltam para dar uma caminhada e fumar e, quem sabe, encontrar algo de interessante que esteja sendo vendido pelas babushkas. Por incrível que pareça, as 47 horas de viagem passam desapercebidamente. Uma conversa aqui, outra dormida ali, aproveitando o embalo gostoso do trem, um livro aqui, outra caminhada pelo vagão ali. O que mais me distraia era ficar olhando para a paisagem. No primeiro dia, o trem cruzou florestas, pois as árvores sempre estavam ao lado da ferrovia, era a taiga russa,
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    que é maiorem extensão que a nossa Amazônia. Como estávamos no final de setembro, já no outono russo, a cor era uma mistura de verde, amarelo e marrom, pois logo o frio e o inverno chegariam, quando tudo muda de cor, perdendo-se completamente o verde. No segundo dia, as árvores foram ficando cada vez mais escassas, e se podiam ver agrupamentos delas em pontos um pouco distantes dos trilhos da ferrovia. Na maior parte já se via apenas as planícies. Antes mesmo do início da tarde, chegamos numa região que praticamente só havia vegetação rasteira. Poucas horas depois, estávamos na Tundra. Para olhos acostumados com árvores, verde, animais, pássaros, parecia que a tundra era um lugar morto, destituído de formas de vida. Logicamente que um olhar mais atento revela que a vida está presente, mas em formas diferentes, mais contextualizadas com o clima da região. Já no meio da tarde cruzamos a linha do Círculo Polar Ártico. Chegamos à estação chamada “Polar”. Uma parada e uma descansada antes de prosseguir. Impressiona o silêncio deste fim de mundo. Olhar ao redor e não ver nada a não ser o horizonte e as planícies a perder de vista. Devido ao fato de ainda estarmos no outono, apesar do frio que fazia no momento, a paisagem estava amarronzada, devido à lama que se estendia por todos os lados. Parecia que a neve do inverno
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    passado acabara dederreter, e formava verdadeiros lamaçais por todos os lados. Pouco depois de sairmos da estação, apareceram os montes Urais, que separam a Europa da Ásia. Esta cadeia de montanhas se estende de norte a sul, por mais de 2500 quilômetros, desde o Oceano Ártico até as estepes desérticas do Cazaquistão. De repente o tempo mudou. O sol desapareceu e uma nuvem vinda dos Urais cobriu o céu ao nosso redor. Em alguns segundos percebi que, “do nada”, estava nevando. Era uma neve fraca e molhada, como dizem os russos. Ela não ficava acumulada, mas mostrava que a temperatura estava caindo rapidamente. Olhei pela janela da nossa cabine e percebi que algumas montanhas dos Urais estavam ficando esbranquiçadas. Depois de algum tempo, as montanhas estavam mudando de cor, e cada vez mais parecia que a neve veio para ficar. Parecia que alguém estava espalhando açúcar confeiteiro sobre os montes, e podia-se ver todo o processo dali do trem. Para atravessar da Europa para a Ásia, precisávamos passar por um vale entre as montanhas. Ali do lado direito do trem corria um rio, aparentemente raso, mas com águas turbulentas. O trem ia calmamente ziguezagueando pelo vale.
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    Por alguns momentosficamos com as montanhas quase que a tocar o lado esquerdo do trem. Depois de algum tempo, que já não me recordo mais, saímos do extenso vale. Estávamos na Ásia! A chegada em Labytnangui se deu já à noite, por volta das 19h00min. Eu peguei as malas e desci na estação. Apesar de já não haver tantas pessoas no trem, a plataforma se encheu, especialmente devido ao número de pessoas que vinham recepcionar os parentes, amigos e conhecidos que chegavam de tão longe. Eu estava sozinho, sem nenhum conhecido naquele lugar. Comecei a andar pela plataforma, esperando ver ao menos o rosto conhecido de meu amigo Vladimir. Nada! Fui de um lado para o outro algumas vezes, enquanto a plataforma se esvaziava. Comecei a ficar angustiado. As perguntas começaram a surgir: Será que vai vir alguém me buscar? Será que o pessoal sabe que estou chegando hoje? Para onde eu vou? Em alguns instantes a plataforma estava praticamente vazia, e eu comecei a pensar num plano de emergência enquanto andava em direção ao prédio da ferroviária para me abrigar do frio que já fazia. Nisto, um homem que passava por mim perguntou meio sem jeito:
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    - Desculpe, seique parece estranho, mas eventualmente você não seria brasileiro? - percebendo como poderia parecer estranho uma pergunta como estas num lugar como aquele. - Sim, sou eu! - respondi aliviado sabendo que não deveria haver outro brasileiro naquela estação. - Que bom, achei que teria ocorrido algum imprevisto! - continuou o russo, com uma feição de alívio. Alguns metros adiante ele disse que estava lá na estação já havia um bom tempo. Ficou assustado com a possibilidade de eu ter me perdido ou “extraviado” pelo caminho até ali. Ambos sorrimos, felizes por tudo estar em ordem. - Na verdade eu estava procurando pela plataforma uma pessoa mais “morena” - confessou finalmente o russo. Quando percebi que todos haviam ido embora e vi você lá, pensei que tudo estava perdido, mas resolvi arriscar, mesmo imaginando como eu iria parecer um idiota ao perguntar para um estranho, aqui no Pólo Norte, se ela era um brasileiro! Encontramos um amigo do russo lá no prédio da ferroviária e fomos para o carro. Depois de algumas viradas para a esquerda e para a direita, chegamos num lugar que havia uma cancela. O carro parou e todos descemos.
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    - Daqui ocaminho é a pé até a balsa. - apontava o russo para um caminho por onde pessoas desciam até um barco que mal se conseguia ver na escuridão. Andamos uns 300 metros até chegar perto da balsa. Os russos que estavam comigo apertaram minha mão e disseram, que do outro lado do rio estariam me esperando. Olhei para os dois esperando que aquilo fosse um trote, uma brincadeira. Mas não, era exatamente isto que iria acontecer, iam me deixar ir sozinho na balsa e continuar a aventura do outro lado. O vento era muito forte e gelado. Deveria estar perto de zero grau naquele momento. Eles me disseram para ficar posicionado entre os carros, se possível abaixado para escapar do vento. Após alguns minutos, uns 10 pareceram-me, chegamos do outro lado. Um farol foi ligado lá na parte de cima da balsa. Pareciam aqueles usados nas baterias antiaéreas da Segunda Guerra Mundial. Ele apontava para a margem, como que se estivesse buscando algo. Logo percebi que buscava um local apropriado para encostar em terra. O vento estava muito forte, e a balsa não conseguia “atracar”. Balançava muito e o capitão tentou três vezes se aproximar do barranco. Na última, tive a sensação que ele já estava cansado de tentar achar um ponto ideal e simplesmente ousou uma manobra, forçando a barca contra o barranco.
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    Felizmente deu tudocerto, creio que a experiência tenha falado mais alto do que as regras. Desci da barca pensando que estava novamente sozinho no fim do mundo. Esperava ainda ver o rosto de Vladimir, mas nada. Percebi dois homens acenando em minha direção. Identificaram-me graças à descrição que os outros do outro lado do rio passaram. O que eu mais queria naquele momento era entrar num carro quentinho, e sair daquele vento. Fomos até o estacionamento onde estava o carro e entramos num Lada Niva. Ainda havia alguns quilômetros para seguir até Salekhard. Chegamos ao lugar onde eu deveria ficar. O russo, responsável por mim naquele local, me perguntou se eu desejava algo. - Eu gostaria de tomar um banho, pois já fazem três dias que saí de casa! - respondi com ar de quem realmente estava de viagem há tanto tempo e desesperado por um alívio que um banho quente poderia dar. - Banho? - perguntou o russo sorrindo - Aqui banho é só na sexta-feira, e hoje é domingo. Na sexta-feira nos reunimos com os amigos e vamos para a sauna. Não percebi em seu rosto sinal de uma brincadeira de mau gosto. Suas palavras eram estritamente sérias. Meu
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    desalento deve tercomovido o meu novo amigo e ele disse que daria um jeito qualquer para providenciar um “banho”. Arrumei-me no quarto improvisado (que na realidade era o escritório do meu anfitrião). Ao menos ali estava quentinho. Alguns minutos depois o russo entra no quarto e me diz que conseguiu conversar com um amigo que tinha um chuveiro em casa. Comecei a acreditar na história da sauna e da sexta-feira! Chegamos à casa de pessoa, que amigavelmente me mostrou o banheiro onde havia uma ducha. Vi na parede do banheiro dois filtros de água, que já estavam absolutamente marrons. Percebi que o cano que saia do último filtro ia até o chuveiro. Ao abrir a torneira da pia, percebi por que dos filtros. A água saia marrom, com um odor absolutamente insuportável. Ao abrir o registro (que era o chuveiro), reparei que os filtros precisavam ser trocados logo. Mas “cavalo dado não se olha os dentes”- diz o ditado popular. Voltei para o meu reduto, se não totalmente limpo, ao menos com sensação de alívio e dever cumprido. Dormi um sono pesado. No meio da noite, por volta de umas 4 da madrugada, a porta se abriu e uma luz chata entra no quarto, despertando-me. Percebi que havia duas pessoas entrando, uma era meu anfitrião, o outro era Vladimir, que deveria ter ido comigo no trem.
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    - Acorda -disse Vladimir. Foi bem de viagem? Está tudo bem? Estou passando aqui para te dizer que estou voltando para Krasnodar agora, pois tenho alguns compromissos lá. Não se preocupe, as aulas estão de pé. Deixo você com o seu anfitrião. Você está em boas mãos. Agora dorme e descanse. Lembro que pensei muitas coisas, mas nada que possa escrever aqui. Voltei a dormir, esperando que as coisas ficassem realmente bem dali para frente. Salekhard é uma cidade relativamente pequena com pouco mais de 40 mil habitantes. Ela se localiza a 2400 quilômetros da capital, Moscou. No local da atual cidade foi fundada, em 1595, pelos cossacos, uma fortaleza. Ela servia como ponto de contato entre os povos nativos e o expansionista Império Russo. Esta fase acontece num período em que a Rússia abriu seus olhos para as terras “sem donos” ao leste de Moscou. As tribos destas regiões foram sendo dominadas e subjugadas pelos czares. Nesta região específica da futura Salekhard, habitavam majoritariamente as tribos nenets e khanty. A atual população local ainda continua sendo constituída em sua maioria de descendentes destas tribos. Visitei o local onde foi fundada a fortaleza, que atualmente virou um museu. Ela ficava numa barranca
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    localizada num dosafluentes do rio Ob’. Sua posição estratégica facilitava a ligação com os nativos, que logo buscaram estabelecer um comércio com os cossacos. Salekhard é a capital da região autônoma de Yamalo- Nenets, nome advindo da maior tribo, os nenets. Ainda existe o fato curioso da região ser conhecida como Yamalo, que na língua nenets significa literalmente “Confins da Terra”. Não é preciso muito para se adivinhar o porquê deste nome. Para compreender um pouco da cultura local e entender a história da região, resolvi visitar um museu que ficava fora da cidade, numa aldeia perto de Salekhard. O local foi criado com o objetivo de preservar uma coleção etnológica dos povos da região. Lá estão expostos ao ar livre os modos de vida dos povos locais khanty e nenets. As tendas destes se assemelham muito com as que vemos nos filmes dos índios americanos, em formato de cone. É possível ver uma aldeia inteira montada, com os trenós, as tendas feitas de peles de rena, roupas típicas feitas de pele de animais, capazes de suportar frio de até 50-60° C negativos, enfim, tudo o que estes povos usavam e ainda usam no interior da região. Em outro museu, no centro da cidade, é possível ver peças iguais, mas a atração principal fica por conta dos mamutes. Foi nesta região, em maio de 2007 que foi
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    encontrado um filhotede mamute. O fato de serem encontrados restos de mamutes na região não era novidade alguma, mas o que tornou Lyuba tão famosa foi que nunca havia caído na mão de estudiosos um exemplar de mamute tão bem preservado. Segundo os especialistas, Lyuba, um filhote de cerca de um ano, havia caído num buraco, numa região pantanosa, sendo logo congelada pelo frio e neve da região. Infelizmente, quando cheguei à Salekhard, Lyuba havia sido levada ha pouco tempo para Tóquio, onde seria estudada com o auxílio de uma alta tecnologia desenvolvida pelos japoneses, que auxiliariam num estudo completo da anatomia do filhote ilustre de Salekhard. Os mamutes são tão importantes para a região, que na entrada da cidade existe um grande monumento (em tamanho real) de um mamute, na colina pela qual passa a estrada que vem da beira do rio Ob’, onde a barca faz a travessia. Encontrar mamutes, segundo Pyotr, um nenets ex- caçador profissional do interior da região, é algo relativamente comum. Contou-me que mesmo ele já provara da carne de mamute. Segundo Pyotr, os nativos encontram partes de mamutes em suas andanças pela região, pois são povos nômades, vivendo da criação de rebanhos de renas. - Quando o degelo é mais intenso, às vezes parte de
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    carcaças escondidas lápor milhares de anos acabam aparecendo no solo. Os nativos não têm muita preocupação histórica e científica, mas têm fome. Isto fala mais alto num lugar onde comida é algo extremamente escasso - afirmou. Não posso culpar os nativos, mas fica claro que muito do que poderia ser aproveitado pela ciência, acabou virando iguaria para os povos locais. - No tempo da URSS, lembra Pyotr, a carne de mamute era consumida como algo muito especial. Com o tempo, e como cada vez com menos frequência se encontrava esta carne, a prática foi sendo deixada de lado. Durante muitos anos não foi somente a carne que despertou a cobiça das pessoas pelos mamutes. O Marfim de suas presas alcançava preços exorbitantes, e o comércio ilegal deste produto fez com que uma verdadeira caçada aos mamutes congelados se desse em toda a Sibéria, incluindo Yamalo-Nenets. Alguns dizem que a prática ainda continua nos dias atuais, apesar de estar muito abaixo dos índices do século XX. Esta queda se deve à ação dos historiadores, governo local, mas principalmente pela escassez cada vez maior do produto natural. Sem Lyuba, tive que me contentar em ver ossos de mamutes expostos no museu, e uma placa mostrando o local
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    onde havia ocorridoa exposição do mamute famoso. Pude tirar algumas fotos, andar por ali, ouvir histórias sobre os mamutes. Foi um dia muito interessante, especialmente para um historiador como eu. Não comi carne de mamute, mas tive a oportunidade de comer a de rena. Fui convidado para ir à festa de aniversário de Pyotr, e ele me ofereceu uns pedaços de carne. - É carne de rena, coma… deliciosa! Atualmente em Salekhard ela é muito rara, uma verdadeira iguaria! Senti-me honrado. Pela textura e sabor, lembrou-me muita da conhecida “carne de sol”, que havia comido nos tempos que morei em Brasília. Mas, para mim, gaúcho, faltou um sal e uma gordurinha. Tudo bem, aquilo não era uma churrascaria, mas um aniversário nos “confins da Terra”. Antes do começo das aulas, ainda tive tempo para dar uma passeada pelo centro de Salekhard. A cidade surpreende por seu colorido. Os prédios no centro são pintados com cores vibrantes, quentes, amarelo, vermelho, azul, laranja, verde, etc. E isto eu ainda não tinha visto na Rússia. Esta impressão deve ter transparecido para meu anfitrião, Evgueny. Ele me contou então que aqueles prédios pintados faziam parte de uma ação do governo local. - Até uns 10 anos atrás, disse ele, o centro de Salekhard
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    era feio evelho. Os edifícios da era soviética estavam em estado precário. Mas a vinda das companhias e petróleo e gás natural impulsionaram a economia local. Isto auxiliou na reforma de todo o centro e alguns bairros da cidade. Se você viesse há alguns anos atrás, não reconheceria Salekhard. Ainda perguntei sobre as cores vibrantes, intensas dos prédios. - Sabe, a maior parte do ano, vivemos com neve, longas noites. Esta é uma época em que muitas pessoas acabam se deprimindo, ou mesmo se matando. Quando era o tempo soviético, tudo era monocromático, tudo era cinza. O governo então resolveu dar uma alterada nas cores, para melhorar o clima da cidade, numa política anti-depressão. Não sei exatamente o resultado deste empreendimento, mas ficou claro que a medida acabou por tornar a cidade mais colorida, e até mesmo alegre eu diria. Neste momento, Evgueny apontou para a região central. - Está vendo aquele prédio na esquina? É a cede do governo. Do outro lado da esquina, está o prédio da companhia de gás, e na outra esquina o prédio da companhia de petróleo, exatamente no cruzamento das duas principais ruas de Salekhard. - explicou
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    Aquela configuração demonstravaefetivamente a importância destas companhias para o local. A Região Autônoma de Yamalo-Nenets é a maior produtora de gás natural da Rússia, que por sua vez é a maior produtora do mundo. O gaz aqui extraído é levado para a Europa para abastecer as indústrias de lá. Assim como o gás, o petróleo explorado nas regiões mais próximas do Ártico, na península ao norte de Salekhard, gera muitos recursos. Muitas pessoas vieram do interior da região e até mesmo de outras localidades da Rússia para a cidade em busca de melhores condições de vida, e dos salários altos oferecidos pelas companhias. Comecei a entender por que aquela senhora no aeroporto de Krasnodar estava na dúvida sobre a abertura da zona de Salekhard para visitação estrangeira! Mas apesar de todo o desenvolvimento da cidade, Salekhard guarda uma ferida, que não está totalmente cicatrizada. O nome desta ferida é “Linha Transpolar”, a ferrovia que Stalin mandou construir secretamente em 1947. Este projeto foi concebido em 1928, e depois recebeu o nome de “a Grande linha férrea do Norte”. No processo de construção da estrada, que durou de 1947-1953, ela foi oficialmente chamada de Projeto №501 e №503. Esta nomenclatura escondia atrás de si, o nome secreto "Ferrovia
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    Chum - Salekhard- Igarka", assim chamada pelo trajeto que a estrada deveria ter. Stalin queira interligar todo o norte da Rússia, indo dos portos de Murmansk e Archangelsk no mar do Norte até o outro lado do país, ficando a estrada sempre dentro do Círculo Polar Ártico. Este era um plano audacioso e muito arriscado. As condições do clima e do terreno não favoreciam em nada a construção. O solo eternamente congelado de algumas regiões era um desafio para os técnicos. Além disto, havia os pântanos, rios, lagos e montanhas pelo caminho. Algumas estimativas dão conta que mais de 80 mil pessoas foram utilizadas na construção deste mega-projeto. Em geral, foram presos políticos, religiosos e dissidentes do stalinismo que tiveram parte nesta empreitada. O número de mortos na construção, devido às mais diferentes adversidades rendeu à ferrovia o apelido de "estrada da morte", que aparece em fontes escritas nos anos de 1960. Estes presos eram alojados precariamente nos famosos Gulags soviéticos (abreviatura em russo para Direcção-Geral dos camposde trabalho corretivos) ou em outras palavras, campos de prisioneiros. Estes presos eram tirados de suas cidades e familiares e enviados para trabalhar nos lugares mais remotos do país, especialmente na Sibéria. Muitos dos prisioneiros
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    eram pensadores, ativistaspolíticos, elite intelectual do país, sacerdotes, que tinham pouca ou nenhuma habilidade em trabalhos pesados como os que tinham que fazer nestes campos. Isto fazia com que rapidamente adoecessem e morressem. O intenso frio do inverno siberiano acabava por fazer o resto do trabalho. Em Salekhard, perto do centro, Evgueny mostrou alguns galpões de madeira onde disse haver funcionado um Gulag nos tempos de Stalin. - E este não é o único. Existem muitos outros espalhados pelo interior, pois conforme a ferrovia ia sendo construída, os Gulags acompanhavam este progresso. - afirmou. Então Evgueny me contou que ele era descendente de um destes prisioneiros. Seu avô havia sido condenado pelo regime e enviado para a região a fim de trabalhar na ferrovia. A esposa tinha as crianças ainda pequenas, e não tinha como se sustentar. - Minha avó pegou as crianças e veio atrás de meu avô. Ela enfrentou fome e frio para chegar aqui. Houve muito sofrimento naquela época para todos! Ela veio atrás de meu avô por amor.Ao chegar aqui viu que muitas outras mulheres largaram suas vilas e aldeias para estarem mais perto, de
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    alguma forma, deseus maridos. Fiquei ouvindo aquela história, que poderia virar um romance, um filme. Lembrei do filme “Doutor Givago”, que conta história de amor e sofrimento na Rússia revolucionaria. Muitos que hoje moram em Salekhard são descendentes daqueles homens e mulheres vítimas dos tempos loucos do século XX. Com a morte de Stalin em 1953, a ferrovia foi abandonada, e o projeto todo arquivado. Algumas famílias acabaram por se estabelecer ali, outras foram embora para suas regiões, mas milhares não tiveram a mesma sorte, ficando sepultadas embaixo da própria ferrovia que ajudaram a construir. Ainda se podem ver alguns trilhos soltos e retorcidos nas planícies, alguns montículos que serviam para elevar a ferrovia em regiões propensas a alagamentos. Na entrada de Salekhard está exposta em forma de monumento a locomotiva que seria usada na estrada. Ela fez uma única viagem por uma parte do trajeto. Nesta ocasião, ela atravessou sobre o rio Ob’, em trilhos lançados no chão, no inverno, quando o rio tinha uma camada de gelo espesso o suficiente para suportar o peso colossal da máquina e dos vagões. A locomotiva está lá, como um memorial à estupidez e a megalomania de homens no
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    poder. Mas Salekhard tambémé conhecida como a única cidade no mundo que é cruzada pela linha do Círculo Polar Ártico. O monumento à esta excentricidade local fica a poucos metros da locomotiva. O meu amigo Evgueny me explicou que após uma lei nacional que concede alguns privilégios e salários maiores à trabalhadores que moram na região polar, os setores da cidade que ficavam depois da linha tiveram uma procura muito grande para moradia. Na prática, eles apenas trocaram de bairro! Apesar do frio e do tempo sempre nublado daqueles dias que estive na cidade, não houve ocorrência de neve. Disseram-me que alguns dias antes havia ocorrido o fenômeno da Aurora Boreal, e que isto poderia acontecer a qualquer hora de novo. Durante a noite, algumas vezes pude sair para a rua e ficar olhando o céu estrelado, à espera deste fenômeno impar. Não tive sorte. A única coisa que pude ver eram satélites cruzando a imensidão. “Vai ficar para uma próxima vez”, pensei. Mas haveria uma próxima? Depois de terminada as aulas que estava lecionando, era hora de partir. Lamentei muito o fato de deixar pessoas tão especiais. Conheci gente realmente fantástica, como Bóris, o meu anjo-da-guarda, que sempre me ajudou em tudo. Pyotr,
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    que me deuaulas sobre a sabedoria de seu povo nenets, cultura e modo de vida. O jovem Oleg, que também me ensinou muitas coisas sobre a região, além de conversar muito sobre coisas da vida. Evgueny me levou até o moderno aeroporto de Salekhard, construído com o forte impulso da economia local. Tudo naquela cidade mostrava uma tentativa de olhar para o futuro, tentando provavelmente fechar as feridas de um passado recente tão trágico quanto a era stalinista. Despedi-me pensando em voltar, ao menos mais uma vez. Após minha partida do aeroporto de Salekhard, naquele mesmo dia, cairia a primeira neve do outono na cidade.
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    SALEKHARD, O RETORNO Nofinal de novembro, após ter ido até Salekhard, estava numa conversa com um colega professor brasileiro que havia morado na Sibéria por um ano em 1994. Ele tinha vontade de voltar para a Rússia e sentir todas as mudanças pelas quais o país passara, pois quando esteve lá, a Rússia apenas estava saindo de uma forma de economia baseada no controle estatal total (socialismo) e dando os primeiros passos em direção ao capitalismo que, como dissemos anteriormente, tomou contornos com feições próprias. Contei a experiência que tivera em Salekhard, e que o instituto lá poderia necessitar de um professor na área que ele lecionava, História. Ele ficou muito empolgado e incendiou ainda mais a minha vontade de voltar. Ele daria a aula e eu
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    seria o auxiliartécnico e tradutor. Agora era ver com o Vladimir, meu amigo responsável pela extensão do instituto lá em Salekhard, se seria possível um retorno nestas condições, pois o professor brasileiro teria que vender o carro para pagar as despesas todas de seu próprio bolso.. Vladimir disse que não teria problemas e ele poderia agendar uma viagem para fim de fevereiro e início de março, já que o brasileiro precisava voltar para o Brasil antes do início do ano letivo na escola onde dava aula. E assim começamos os planos para uma nova aventura para o Ártico. No final de fevereiro nosso amigo brasileiro chegou à Krasnodar. Sim, a Rússia tinha mudado muito desde que ele estivera por lá. Segundo ele, muitas coisas estavam melhores, mas igualmente se queixou dos ares saturados com a voraz fome do capitalismo russo. Era a Rússia tentando experimentar novas possibilidades em sua economia, diriam alguns Fizemos os planos e ajustes finais. Compramos as passagens e mantivemos o mesmo roteiro da minha primeira viagem. De Moscou até nosso destino final iríamos de trem, o resto do caminho faríamos de avião. Desta vez não ocorreram surpresas ao comprarmos os bilhetes. Embarcamos no primeiro dia de março. Na mesma
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    manhã que saímosde Krasnodar, uma forte neve caiu sobre a cidade, prenuncio de que os dias seriam muito frios, especialmente nas regiões polares. Apesar de o inverno oficialmente na Rússia acabar no último dia de fevereiro, as temperaturas custam a subir por pelo menos mais algumas semanas. Não é raro nevar em março, ou mesmo em abril. Em Moscou, até em maio existe a possibilidade de uma neve. Apesar do horário ser igual, o trem no qual estávamos para embarcar era outro. Se na primeira vez ele foi um “comum”, agora era o famoso “Flecha polar”, um pouco mais moderno e confortável, segundo a pessoa que vendeu os bilhetes. Não notei muita diferença, mas com certeza elas existiam. Em Moscou caia uma neve fraca na hora da partida. Eu estava na expectativa de quem seriam os outros dois companheiros de viagem no cupê, pois isto sempre era um fator a ser levado em conta. Tivemos sorte, um deles era um senhor de idade, tranqüilo. Meu amigo brasileiro, na casa dos 50 anos, ficou mais com o velhinho. O outro companheiro era um jovem, que ia visitar a família no interior. Ele trabalhava como dublador em desenhos infantis. Isto me ajudou a desenvolver uma conversa que se estendeu por toda a viagem. Devido ao fato de ter duas crianças, eu e minha esposa tínhamos o privilégio de rever os desenhos que assistíramos
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    na nossa infância,além de colocar em dia todos aqueles atrasados dos anos seguintes à infância. Fazíamos isto, pois esta era a melhor forma de aprendermos russo. No dia seguinte, após uma noite bem dormida (graças ao balançar do trem), acordei com alguém levantando e abrindo a porta da cabine. Olhei pela janela e a paisagem era muito diferente daquela da primeira viagem. A região da taiga estava com suas árvores completamente cobertas de branco. Somente a cor dos troncos quebrava o alvo da neve. E esta seria a paisagem que iria passar pela nossa janela o dia inteiro. Saindo da cabine (cupê), via-se o movimento ainda tímido das pessoas pelo corredor. Alguns estavam debruçados sobre um corrimão que ficava abaixo da janela do corredor, numa preguiça que não tinha hora para ir embora. Outros seguiam até o lugar onde tinha água quente para fazer o chá, que é algo sagrado para os russos. Durante a noite ouvi alguns barulhos e parecia que alguma discussão estava ocorrendo num dos cupês do vagão. No dia seguinte o nosso colega de cabine confirmou o caso. Parece que as funcionárias da companhia “Ferrovias da Rússia” tiveram que lidar com ânimos mais exaltados de alguns passageiros. O motivo do barulho não ficou bem claro, mas o humor pouco amistoso das funcionárias naquela manhã
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    delatava o grauda seriedade do ocorrido. Agradeci por não estar naquele número de cabine. O dia passava numa lentidão proporcional ao deslocamento do trem pela gelada paisagem. De vez em quando eu abria a porta do vagão e ficava no espaço entre os vagões apreciando com mais calma a paisagem. Ali não tinha calefação como no vagão e por isto a temperatura era muito próxima ao do lado externo do trem, o que dava para dar uma ideia de como estava lá fora. Muitos russos apareciam por lá para fumar, já que no vagão é proibido. Nestes momentos acabavam minha silenciosa contemplação da paisagem, e eu voltava para dentro. A paisagem é totalmente impar. Para os olhos desacostumados, ela parece monótona e sem vida. Mas as belezas estão ali ocultas em certos momentos e gritantes em outros. Ao longo dos trilhos da ferrovia, paralelamente corre uma linha de postes de energia elétrica. Devido ao acúmulo da neve nos pontos mais altos, pareciam cotonetes. Em alguns pontos a neve acumulava ao redor dos fios, formando bolas, como as que vemos nos fios de alta tensão nas estradas aqui no Brasil (aquelas “bolas de basquete”). De vez em quando passávamos por alguma aldeia isolada perto da linha férrea. As casas cobertas pela neve se
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    denunciavam no meiodo campo branco pela fumaça de suas chaminés. Havia pequenos pontos distantes na paisagem, e que após alguns segundos, podia se perceber serem pessoas andando pelas estreitas ruas abertas entre a neve. Em algumas destas vilas havia uma estação. O trem diminua a sua velocidade e logo entrávamos na região da plataforma, que nada mais era que um elevado de concreto e cimento por onde as pessoas transitavam. Logo se percebia o movimento das babushkas andando pelo local. - Chegou o Strelka! (“Flecha”, nome do trem). Este era o grande acontecimento do dia para o local, a chegada dos trens. Ali, além das bebidas e comidas, sempre presentes nestas plataformas, percebi objetos que não havia visto na primeira viagem. Eram coisas próprias da estação fria, como roupas, suéteres, cachecóis, etc. Os poucos minutos que ficávamos em cada estação era o sinal verde para os fumantes.Alguns nem mesmo se vestiam adequadamente e desciam para poder ter mais tempo com o tabaco. Em outras estações a parada prevista era um pouco maior, o que dava tempo para descer e caminhar um pouco pela plataforma, olhar os produtos que vendiam, respirar o famoso “ar puro”. Era o tempo de viver a vida de viajantes por uma das regiões mais frias do mundo. Quando tínhamos, pelo
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    horário marcado, estetempo (horário que era seguido rigorosamente!), eu colocava o casaco que havia comprado especialmente para aquela viagem e vestia uma segunda calça e pulava do trem, para andar um pouco e se esticar. Cada estação era uma atração à parte. Viajar e ficar trancado dentro do trem o tempo todo por causa do medo do frio, isto não era comigo. Eu precisava aproveitar para tirar fotos, caminhar entre as pessoas e sentir o interior da Rússia. Quanto mais ao norte, mas a paisagem ia se tornando uma ditadura do branco. As árvores deram lugar à tundra. Olhar para a paisagem era muito difícil, às vezes, pois o branco acabava cegando depois de certo tempo de contemplação. Já no segundo dia de viagem, ao olhar pela janela, pouca diferença havia entre o céu e a terra. A terra era um mar de gelo, com uma cor branco-azulada. O céu estava nublado, mas as nuvens eram tão parelhas e brancas como a neve, e em alguns pontos quase azuis por serem menos espessas. O trem me pareceu andar mais lentamente. Não tive acesso à parte da frente do trem, a locomotiva, mas podia imaginar que depois de um tempo de neve, os trilhos ficavam cobertos e ocultos na paisagem, o que justificava o cuidado maior do maquinista.
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    A estação maisesperada era a “Polar”, pois além de indicar que estávamos relativamente perto do destino, ela era a primeira dentro do Círculo Polar. Chegamos lá e o sol lançava seus tímidos raios sobre a terra. Peguei meu casaco apropriado para o frio e a máquina fotográfica, torcendo para que não desse problema por causa do frio. Ao descer do trem, pude sentir imediatamente o gelo no ar. Estava muito frio, e apesar de não ter um termômetro em mãos na hora, a temperatura devia estar abaixo dos 20 °C negativos. Neste local a parada era mais prolongada, uns 40 minutos, o que dava tempo para caminhar e tirar muitas fotos. A paisagem era absolutamente surreal. A estação ficava numa pequena elevação natural no terreno. Do lado esquerdo da estação percebia-se o relevo alterado devido aos Montes Urais. No lado direito, havia uma planície num nível mais baixo de onde estava a estação. No lado esquerdo desta planície era possível ver os montes Urais, totalmente cobertos de gelo. A planície estava revestida com uma neve intocada, nem as pequenas árvores apareciam direito, mostrando que a camada era muito espessa. Justificável, num lugar onde a temperatura sempre está muito abaixo de zero no inverno, e a neve não derrete, ali estavam acumulados alguns meses de gelo. E tudo estaria derretido apenas por volta do meio do
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    verão, para retornara neve no início do outono. Mas um fato me chamou a atenção. Havia um contêiner ao lado da estação, em meio aos montes de neve acumulado. Vi que um trilhozinho levava até lá. Vi pessoas entrando e saindo daquele lugar e resolvi investigar. Descobri, para meu espanto, que se tratava de um bar, ali mesmo, dentro do contêiner. Depois reparei que as pessoas saiam de lá com sacolas. Aquilo sim já era familiar, pois nas sacolas dava para notar vodca, cerveja e cigarro. Não entrei lá, pois tinha outras coisas para ver. Depois mostrei para meu amigo brasileiro que deu risada. - Isto sim é a minha Rússia! Sempre atentos para o sinal de “vamos embarcar” que o maquinista lá na locomotiva dava. Ficamos por perto, sem dispersar muito. Partimos então em direção aos Urais. Tudo aquilo era como se fosse outra viagem para mim. É impressionante como a paisagem toma outra forma característica. Os montes ficam muito mais imponentes com o branco. Sempre se pensa numa avalanche, num fechamento da linha por causa da neve. Olhar pela janela e ver parede de rocha e neve, enquanto aquele pequeno risco azul no qual estávamos sentados cruzava o reino dos gigantes. O que antes era um rio que serpenteava
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    pelo vale, agorapoderia ser identificado como uma pista de patinação. Nesta altura da viagem estávamos somente nós dois na cabine, enquanto o anoitecer caia sobre a terra, indicando que o fim da viagem se aproximava. Perguntei para meu colega como ele estava e se havia valido a pena tudo aquilo até ali. - Não me arrependo de nada, isto aqui é fantástico, maravilhoso! Fico imaginando os meus colegas lá no Brasil quando mostrar todas as fotos. Eles nunca viram algo assim. Não dá para descrever. Tudo o que estamos passando vamos levar para o resto da vida, é uma experiência impar! - afirmou, cheio de emoção. Concordei. Nada se compara a uma viagem como esta! ------ Depois de 47 horas naquele trem, finalmente estávamos chegando à Labytnangui. Já havia escurecido e a temperatura estava mais baixa. E isto pode ser constado ao descer do “Flecha”. Para quem não está acostumado, os -30° C são um desafio à parte. Um vento ainda ajudava a deixar as coisas mais complicadas. A neve estava recolhida em pequenos montes ao lado da plataforma, que era coberta, mas que o vento encarregava de levar para todas as partes. - E agora? - perguntou meu amigo ansioso.
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    - Vamos esperaro pessoal nos achar, disse de forma solene. A situação não era nova. Plataforma ia esvaziando rapidamente, pois as pessoas não estavam a fim de longas conversas naquele frio polar. Achavam quem precisavam, davam uma breve saudação, pegavam as malas e saiam apressadamente em direção ao prédio da ferroviária, lugar onde havia ao menos calefação. Teoricamente seria mais fácil desta vez, pois o pessoal de Salekhard já me conhecia, não iriam procurar dois morenos abrasileirados pela estação. Depois de passar em revista toda a plataforma, comecei a me preocupar. Meu amigo veio e perguntou de novo sobre a situação. Respondi que estava tudo sobre controle, que logo iam chegar. Eu mesmo estava já duvidando de minha resposta convicta. Quando a plataforma ficou vazia, percebi que tínhamos que ao menos nos dirigir para o prédio, pois o frio de -30° C estava fazendo um efeito sobre o corpo. O local já estava vazio, apenas um guichê aberto, com uma pessoa que não iria ter obviamente qualquer trabalho pelas próximas horas. Olhei para o painel com os horários de chegada/saída dos trens. O próximo para Moscou seria no dia seguinte. Minha mente começou a fazer planos de escape instintivamente. Cerca de
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    20-30 minutos haviamse passado, e percebi que não chegaria ninguém. Peguei meu celular e parti para uns dos planos de emergência que minha mente elaborou. Liguei para minha esposa em Krasnodar. - Oi, a viagem foi tranquila e muito boa… O nosso amigo está gostando muito… Só tem um pequeno detalhe, não veio ninguém nos buscar na ferroviária! Será que dá para ligar para o Vladimir e perguntar o que pode estar acontecendo, por favor? Claro que este tipo de telefonema não deve ter deixado minha esposa muito calma. Tentei não dar um tom de desespero que vinha assumindo minha mente. Depois de alguns minutos ela me liga de volta. As notícias não eram nada boas… - O Vladimir estava dormindo, pois chegou hoje de viagem dos EUA. Falei com a esposa dele e expliquei a situação. Ela vai acordá-lo e ele ficou de ligar para mim. Bom, o jeito era esperar agora. Sentados naquela ferroviária, no fim do mundo, e meu amigo perguntando quando chegariam as pessoas para nos levar dali. Que situação! Toca o telefone. Era minha esposa.
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    - Olha, faleicom ele agora. Ele disse que com a viagem para os EUA, havia se esquecido de avisar o pessoal que vocês estavam indo para Salekhard neste fim-de-semana! Mas ele vai ligar pros contatos aí e resolver o mais rápido possível. Ótimo! Estávamos no fim do mundo (Yamalo) e sem sermos esperados! Em minutos recebo a ligação de Bóris, meu anjo-da- guarda de Salekhard. - Olá, aqui é Bóris. Você está na estação de Labytnangui? Não fomos avisados de sua chegada, mas vou ver o que se pode fazer. Não tenho como ir te buscar, mas vou ver se alguém pode ir até aí, pois a nevasca tem fechado as estradas e está perigoso. Agüenta mais um pouco. Logo depois me liga Vladimir, lá de Krasnodar, com uma voz de quem acabara de acordar. - Oi, você está em Labytnangui? Puxa… Não vou descrever o que pensei naquele momento, deixo por conta da imaginação do leitor… O meu amigo brasileiro felizmente falava apenas algumas palavras em russo, por isto não entendia o que estava acontecendo. Tentei não transparecer descontrole, e por isto quando o Vladimir me ligou, resolvi enfrentar o frio da plataforma.
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    - E aí,vamos ou não vamos sair daqui? - perguntou o brasileiro - estou com frio e ficando com fome… “Naquele momento, a fome era o menor dos nossos problemas”, pensei. Quase 3 horas depois de chegarmos, entrou um homem pela porta e subiu as escadas. Eu estava nas escadas tentando controlar a situação e o nervosismo. - Desculpe-me - disse o russo - mas vocês são brasileiros? A chance dele acertar era muito grande, pois éramos os únicos naquele prédio, até o guichê havia fechado. - Sim, somos nós! - respondi aliviado. Estávamos salvos! Cheguei com um ar de alívio, mas transparecendo domínio sobre a situação. Meu amigo olhou-me como que dizendo “finalmente, já não aguentava mais, estou com fome…”. Se ele soubesse do que estávamos nos livrando! Creio que até hoje não contei o que se passou naquelas horas ali na ferroviária. Entramos no carro e fomos em direção ao rio Ob’. Na primeira viagem, os russos lá haviam me contado e depois mostrado em vídeo como a barca faz para atravessar na época em que o gelo cobre o rio. Existe dois barcos quebra-gelos que
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    vão na frenteda barca para abrir caminho. Isto leva cerca de 10 minutos. Quando a barca precisa voltar, os mesmos quebra- gelos precisam refazer o trabalho, pois a água recongelou. Pensei no frio que passei quando atravessei o rio naquele barco alguns meses antes, e torci para que as coisas tivessem melhorado, afinal estava muito frio. De fato as coisas desta vez foram diferentes. Passamos pela cancela livremente e o carro acelerou em direção da beira do rio. De repente um forte solavanco chacoalhou tudo dentro do carro. Não consegui assimilar logo, mas estávamos andando sobre o rio. Havia sinalização em alguns pontos da travessia. No geral, o motorista se guiava pelos montes de neve formados pelos tratores de neve que abriam o caminho constantemente. Quando meu amigo percebeu o que estava acontecendo, começou a gritar de empolgação (ou seria medo?). Do outro lado do rio, outro solavanco e estávamos em “terra firme” novamente. Chegando à Salekhard, fomos direto para o local onde eu havia ficado a outra vez. Reencontrei Bóris, novamente o meu anjo-da-guarda. Neste tempo que estávamos presos em Labytnangui, ele arrumou uma recepção com chá e algo para comermos. A sua fisionomia de surpresa por nossa presença denunciava a falta de comunicação de Vladimir com o pessoal
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    de Salekhard. Dali aalguns minutos chegou Evgueny, dando as boas- vindas, mas expressando seu total desconhecimento de nossa chegada. Desculpou-se por Vladimir, e disse que agilizaria tudo para que tivéssemos os alunos para a aula, apesar de as condições climáticas serem adversas. Devido ao fato de não sermos esperados, não foram arrumadas acomodações adequadas. Ficamos improvisados num quarto localizado no sótão do prédio onde ocorreriam as aulas, ali mesmo. Ao menos a calefação estava funcionando, o que não era uma realidade em todo o prédio. Dormi feliz por ao menos ter um lugar para descansar, afinal não iria passar ali dentro do quarto muito tempo, tínhamos planos para aquela semana. Passamos o dia seguinte passeando pela cidade gelada, enquanto Evgueny buscava arrebanhar os alunos. Visitamos o forte onde teve início o povoado. Estivemos no porto congelado que fica logo abaixo do forte. Os navios estavam todos presos pelo gelo, e nenhuma movimentação havia por ali. Fomos ao centro, onde caminharíamos um pouco nas ruas. Apesar do sol, a temperatura estava em torno dos -20°C. A luz era meio tênue e os raios absolutamente não esquentavam. Passamos perto da feira livre que atraía um
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    pequeno número decorajosos naquele momento. Olhei, e eis que vi pedaços de carne espalhados pelo chão, atirados em cima da neve fofa. Outros pedaços estavam expostos sobre as motos da neve. Perguntei para Oleg, um nenets que estava conosco, o que era aquilo. - Acho que é de rena - disse olhando rapidamente para a carne ao longe. Acreditei, pois os nativos trazem de suas aldeias e acampamentos nômades a carne para vender no mercado agora que o inverno está indo para seu final. As renas foram tratadas durante o período quente nas pastagens bem ao norte. Com a chegada do frio, as tribos se deslocam mais para o sul fugindo das temperaturas mais extremas, que podem chegar aos -50°C. No dia seguinte as aulas começaram, e percebi a dificuldade de traduzir do português para o russo. O grande problema é que, além de a língua para o qual se estava traduzindo não ser a língua materna (quem traduz sabe o que isto é), não tinha como saber a direção que o outro estaria tomando. Engraçado, quando se está falando em outra língua, nós escolhemos as palavras de acordo com o nosso vocabulário, mas quando é outra pessoa falando, isto muda completamente.Ao menos para mim foi assim. Os alunos que
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    haviam comparecido naprimeira matéria que lecionei chegaram a comentar que o meu russo havia piorado nesta segunda vinda. Creio que não piorei, apenas a situação era completamente diferente. Bom, mas os momentos de conversa entre as aulas davam para acertar os pontos que ficavam enevoados na mente dos alunos. Em uma noite daquela semana resolvemos sair para passear no centro. Bóris, sempre ele, nos levou junto com Oleg e mais uma moça nenets. Fomos até a rua principal, onde estava acontecendo uma exposição. Mas não era qualquer exposição. Lá estavam estátuas gigantes de gelo, ao ar livre. Eram cerca de 20 daquelas esculturas ali bem na nossa frente, lindas, coloridas pelos holofotes, com um ar de graciosidade que o gelo dava a cada uma delas. Havia uma em forma de anjo, com longas asas elevadas aos céus. Ficamos ali admirando toda aquela genialidade dos artistas, feitas em detalhes e com precisão impressionantes. O bom de estar com vários graus abaixo de zero é que a exposição não sofria com o derretimento, na realidade éramos nós que já estávamos começando a congelar. Voltamos para o carro, loucos por um chá bem quente. Voltamos para nosso dormitório e lá estavam esperando para a janta. E que janta. O irmão do Oleg estava
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    preparando alguns peixespara comermos. Ele pegava o peixe inteiro, cortava a cabeça e o rabo. Abria a parte de baixo e tirava tudo de dentro. Cortava então o peixe em pequenas fatias, quase num estilo sushi, e distribuía para as pessoas ali presentes. a agilidade com que ele fazia tudo aquilo demonstrava grande experiência, apesar dele ser um rapaz ainda novo. Mas a agilidade com que todos ali conseguiam comer aquele peixe cru com espinhos era ainda mais impressionante. Levei minutos para conseguir engolir um pedaço, enquanto os russos (nenets) acabavam com um peixe em questão de segundos. Sempre fui muito cuidadoso com peixes, ainda mais neste caso! Para se ter uma ideia de como o povo lá adora um peixe cru, no início da semana havia um tonel cheio de peixes. Na sexta-feira estava pela metade! Na sexta-feira, o dia amanheceu muito fechado. Olhei pela janela do refeitório e tudo estava cinzento. Percebi que a situação estava ficando cada vez mais difícil, a neve engrossou e o vento estava forte. Em alguns minutos, Evgueny entrou pela porta e olhando pela janela disse que o aeroporto, as estradas e a ferrovia estavam fechados. Estávamos isolados do mundo. - Como? Domingo eu tenho que estar numa
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    conferência em Moscou…- olhei para Evgueny. - Até domingo o aeroporto vai estar aberto, com certeza - afirmou com a mesma convicção que expressei para meu amigo há quase uma semana na ferroviária. Tive que arrumar forças interiores para crer naquilo. Olhei para fora e resolvi andar um pouco. Em algum momento depois, Pyotr aproximou-se e convidou-nos a ir com ele até uma garagem ali ao lado. Saímos na rua, e a temperatura estava em torno dos -30°C. Caminhamos com dificuldade até o local e entramos. Ele mostrou uma moto de neve antiga, mas que funcionava. Logo ao lado havia um plástico encobrindo algo que não pude identificar de início. Quando Pyotr levantou, percebi um pedaço de carne que havia sido cortada, ali mesmo, no chão e congelado. Dali a pouco alguém trouxe uma moto-serra, e em pouco tempo ela foi ligada e partiram o pedaço em dois. Fiquei assistindo aquilo tentando assimilar a ideia de se cortar carne com uma moto-serra. Depois, pediram para ajudar a colocar a moto para fora. Percebi que o empenho era muito grande. Mas o que viria ainda surpreenderia. Oleg me disse para voltar para o prédio e colocar uma roupa pesada, caso eu quisesse dar uma volta na moto. Corri,
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    para aproveitar maisesta aventura. Fiquei do tamanho de um mamute, com toda aquela roupa. Oleg entrou na sala e me disse: - Você não vai assim, não é? - repreendeu-me. - Por que não? - indaguei honestamente pensando em não haver uma resposta convincente. - Olha, deve estar uns -30°C lá fora. Vamos andar de moto, o vento vai fazer você chorar de dor se não cobrir este rosto! Muito bem, precisava ainda de um cachecol. Terminado o processo, virei motivo de piada entre todos ali presentes. Parecia um papai Noel desajeitado e encapuzado. Entrei na brincadeira e tirei fotos para eternizar o momento. Meu amigo brasileiro já estava lá fora com seus trajes de astronauta e partindo primeiro para a aventura. Mal pude acreditar quando o vi voltando dirigindo a moto. Eu também estava a fim de uma volta. Oleg subiu na frente e dirigiu, e eu fui na carona. Ele acelerou e tocava contra os bancos de neve, levantando uma “poeira” de neve e fazendo a moto solavancar. Parecíamos crianças brincando com aquela moto da neve. De repente, logo após ter tirado a luva para fotografar a aventura, Oleg foi forte contra um barranco de neve, e a moto virou em cima de nós.
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    Ao sentir queestávamos virando, instintivamente estiquei o braço com a mão desprotegida da luva para tentar amortecer o impacto. Conclusão, eu enterrei meu braço todo na neve fofa. Oleg tentava desvirar a moto. Passaram-se alguns segundo até que conseguíssemos nos livrar do peso e voltar para a posição normal. Perdi os sentidos na mão, estava congelada, como que morta. Uma agonia bateu em mim. Tentei aquecê-la de todas as maneiras, colocando a luva e abrindo o casaco. Depois de alguns minutos, finalmente ela começou a dar sinais que estava voltando. Quando o susto passou, Oleg me convidou para dirigir a moto, numa tentativa de desviar a atenção para o ocorrido. Assumi a direção e tive dificuldades no começo, mas a experiência foi muito impressionante, o “brinquedinho” era muito interessante! Ao voltarmos para o prédio, relatei aos que estavam lá o ocorrido com a mão. Disseram-me dos perigos da hipotermia, e como pessoas morrem congeladas. Falaram que quando se está numa situação de frio intenso, o primeiro sintoma, logicamente é sentir frio. Enquanto isto acontece, ainda se está relativamente seguro, pois o corpo está tentando compensar a diferença de temperatura. Mas se a pessoa fica por tempo prolongado assim, apesar de não fazer nada que
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    justifique de imediato,ela começa a sentir como que se estivesse se aquecendo. Isto significa que o corpo está perdendo a batalha pelo aquecimento, e começou a render-se ao frio. O perigo é realmente grande, pois o próximo passo é a pessoa ficar com sono, e o fator de se sentir “aquecida” lhe dá a impressão que tudo está bem, quando na realidade não está. Caso ela caia no sono, praticamente está se sentenciando à morte, pois o corpo não consegue mais lutar contra o frio e o fato de ficar parado contribui negativamente no quadro. Em pouco tempo a pessoa morre por causa do frio, hipotermia. Esta foi a lição que me deram aqueles que são os mais entendidos no assunto, pessoas que vivem suas vidas num ambiente de frio constante, nas planícies mais geladas do mundo habitado, a Sibéria. A nevasca que caíra naquela manhã havia coberto até mesmo os automóveis que estavam estacionados. Abrir caminho para se transitar pelas ruas ficou algo complicado. A prefeitura colocou suas maquinas para abrir as ruas principais da cidade. Quem estivesse em ruas secundárias ou laterais precisava pegar as pás e abrir seu próprio caminho. Foi isto que Bóris, Oleg e outros precisaram fazer para que o carro de Evgueny pudesse sair. Aquilo virou uma operação coordenada e exigiu o esforço de vários voluntários. Quando o carro
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    conseguiu ser “desatolado”da neve e chegar até a esquina, enfrentou-se outra barreira. O trator patrola da prefeitura havia aberto o caminho na rua principal, jogando a neve toda para os cantos da rua. Isto formou uma verdadeira cadeia de montanhas entre as duas ruas, intransponível para um carro, até mesmo para o Lada Niva 4X4. Começamos uma obra de engenharia para abrir caminho pelo monte. Quando se havia quase aplanado, depois de muito suor escorrer pelo rosto, trouxeram a moto da neve. Ela foi amarrada por uma corda ao Niva e serviu como força adicional no esforço de fazer o carro passar. Pareciam aquelas cenas que vemos em regiões onde carros atolam na lama aqui no Brasil, e um trator é necessário para retirar o veículo. A diferença é que ali lutávamos contra a neve. Com muita luta conseguimos liberar o Niva, que foi saldado com gritos de alegria e vibração de um gol no fim de campeonato. Havia outro carro, mais leve, que não teve a mesma sorte. Não havia como passar para o outro lado, por isto, resolvemos “estacioná-lo” ali no canto da rua. Alguns homens se posicionaram e levantaram o veículo, posicionando-o num lugar adequado até que a neve abaixasse. Nisto tudo percebi como pode ser dura a vida naquela região. O simples ato de querer sair de casa era algo que exigia todo um preparo. Além de todas as roupas, eram necessárias,
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    quem sabe, horasaté livrar o carro da neve. Outro carro ali na frente do prédio tinha um cabo que vinha de dentro do prédio e ia até o capô. Perguntei para Bóris o que era aquilo. - Este é o meu carro, - exclamou - e aquilo é um cabo que está ligado à rede elétrica. Dentro do capo tem um aquecedor para o motor. Se não fizer isto, terei problemas quando for usar o carro. - E ele fica ligado quanto tempo? - O tempo todo, não dá para desligar. Algumas pessoas deixam o carro ligado às 24 horas do dia. E eu achava que tinha problemas quando no inverno do Rio Grande do Sul tinha um carro à álcool !!! A vida não é fácil ali. Mesmo eles, os nativos, sofrem e se irritam com as adversidades do clima. Pude perceber também que o ser humano é um ser adaptável. Temos a capacidade de lidar com as mais adversas situações, superando dificuldades e barreiras, colocando nossa sobrevivência acima de tudo. No domingo, o dia em que partiríamos, o sol apareceu, majestoso. Lembrei das palavras de Evgueny, o aeroporto estava liberado para pousos e decolagens. A temperatura ainda estava muito baixa, mas ao menos o sol prevalecia. A despedida foi dolorosa para mim. Sabia que outra
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    oportunidade de voltarpara lá era uma possibilidade remota. Mas o importante é ter vivido tudo aquilo, apesar das dificuldades e dos perigos. Não existe crescimento sem perdas. Saí de Salekhard um pouco mais crescido, mais gente.Aprendi lições valiosas com aquelas pessoas. O avião saiu no horário.
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    STALINGRADO Era cerca demeia-noite. Tudo estava escuro naquela noite de um verão que mal havia começado. Minha esposa e eu estávamos parados naquela plataforma da ferroviária, na cidade de Kropotkin, interior do estado de Krasnodar. Não recordo quantos minutos ficamos lá parados com nossos amigos, esperando o trem que vinha de Krasnodar. De qualquer forma, ficamos ali, só esperando pela nossa primeira viagem de trem pela Rússia. Subitamente começou-se a ouvir um som, a princípio raquítico, quase imperceptível. Este foi ficando cada vez mais alto, e começou a movimentação de pessoas pela plataforma. Em alguns instantes uma luz forte apareceu por detrás de algo que não conseguíamos discernir devido à escuridão.
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    A possante locomotivaque trazia os vagões foi chegando lentamente à estação. Seu ruído foi enchendo o ambiente e quando ela apontou pela plataforma, se agigantando, parecia que a terra tremia. Ela passou ao nosso lado, como um nobre passa sem notar os vassalos na rua. O poder daquela máquina trazia um espanto e fazia-nos tremer por dentro. Embarcamos em nosso vagão, carregando pesadas malas. Achamos o cupê e abrimos a porta. Havia gente lá dentro que já estava dormindo. Tentamos não fazer muito barulho e nos acomodar o mais rápido possível para não provocar o mau humor daqueles que provavelmente seriam nossos companheiros de viagem por um bom tempo. Nosso destino era Stalingrado, a famosa cidade que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial. Depois de uma boa noite de sono, acordamos e fomos ver quem eram nossos companheiros de viagem. Eram uma vovó (babushka) e seu neto, que não deveria ter mais de 12 anos de idade. Ficamos felizes, pois as histórias de trens com passageiros bêbados e coisas do tipo eram correntes entre os viajantes. Logo no café da manhã, o garoto pegou uma garrafa de cerveja e esvaziou-a com destreza de quem já é perito no
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    assunto. A avópuxou alguns pepinos e tomates, pegou um pedaço de pão e serviu-se de chá. Estava pronto o café. A viagem teve uma duração de 18 horas, passando pelas estepes do sul da Rússia. Ao longo do caminho avistamos pela janela alguns lugares retirados na paisagem. Eram vilarejos que, como que por magia, pareciam suspensos no tempo. Algumas vezes, passávamos perto o suficiente para ver os triciclos (motos antigas), ou mesmo as ruas irregulares de chão batido.As casas de madeira tinham aspectos de muito antigas, e sem manutenção por muito tempo. As pessoas caminhavam tranquilamente pela rua, ou pela calçada, também já desgastada pelos muitos invernos que por ali passaram. Anos depois ao estudar na faculdade a história da região, desde os tempos imemoráveis dos milênios anteriores ao nosso, recordei daquelas horas no trem, apreciando a paisagem. Gosto particularmente desta faceta da História, poder ver o passado e presente se fundindo na vida real de pessoas reais. Eles são os herdeiros de milhares de anos da habitação humana por aquelas terras planas das estepes russas. A viagem de trem pelos campos russos parece que nos coloca em contato direto com a alma da região, do povo, mesmo estando dentro do trem.
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    A chegada emVolgogrado aconteceu no fim da tarde. Um casal colega nosso que residia na cidade nos esperava na ferroviária. Um ambiente tipicamente soviético e o prédio central com a clássica arquitetura dos tempos stalinistas. Fomos para o carro, enquanto o nosso anfitrião contava sobre o jogo inaugural da Copa do Mundo daquele ano que havia acabado há alguns minutos... A conversa então foi direcionada para este assunto, enquanto passávamos pelas ruas da cidade até chegarmos ao apartamento deles. No dia seguinte, pudemos finalmente dar um passeio pela cidade histórica. Teríamos quer aproveitar bem aquele fim-de-semana, pois na segunda-feira partiríamos de avião para Moscou. Volgogrado tem este nome como uma homenagem ao rio Volga, o maior da Europa. Literalmente o nome da cidade significa “cidade do Volga”. Mas nem sempre ela foi conhecida por este nome. Quando de sua fundação em 1598 recebeu o nome de Tsaritsin por ser uma fortaleza fundada nas margens do rio Tsaritsa. O nome daquela fortaleza significava “(fortaleza) da Rainha”. Com a chegada ao poder dos soviéticos, após a deposição do sistema Imperial, a cidade foi renomeada em 1925 para seu nome mais famoso, Stalingrado, ou seja, “Cidade de Stalin”. Contudo a história e a ciranda de
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    nomes não paraaí. Com a morte do ditador soviético em 1953, a situação aos poucos vai mudando, e o endeusado Stalin acaba por ser desmascarado por Nikita Khrushchov, em 1956. Numa campanha anti-stalin, o novo comandante da URSS resolve mudar o nome da cidade que homenageava Stalin para algo mais impessoal, e em 1961 a cidade vira Volgogrado. Mas foi sob o nome do ditador que a cidade ganhou fama internacional. Existem bons livros que tratam a questão da Batalha de Stalingrado, por isto não vou me estender neste assunto, apenas dar dados gerais. Ela teve uma duração de 199 dias entre os anos 1942-1943 e foi uma das maiores batalhas da história humana. O número de baixas é difícil de ser calculado com exatidão, mas estimativas giram em trono de 2 milhões de mortos. Esta batalha é considerada um ponto de virada da Segunda Guerra Mundial, a primeira grande derrota dos exércitos de Hitler, que culminaria com a tomada de Berlim em 1945 pelos exércitos soviéticos. A cidade foi totalmente arruinada. Os intensos bombardeios aéreos e de artilharia puseram abaixo praticamente todos os edifícios da cidade. A batalha teve vários estágios, mas o mais impressionante foi a etapa das lutas entre os destroços de edifícios e casas. Cada metro literalmente era conquistado e reconquistado várias vezes,
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    existindo confrontos dentrodos próprios cômodos das casas e entre escombros. E esta marca ficou impressa na alma da cidade. Andar pelas ruas de Volgogrado é andar num lugar estranho, quase tenebroso e assustador. Conhecendo-se a história local, podem-se sentir ainda os ecos da guerra. É quase uma experiência espiritual. A cidade é conhecida como uma “cidade banana”, pois seu formato se assemelha muito a esta fruta. Ela se estende ao longo da margem oeste do Volga, por uma extensão de quase 100 quilômetros! Mas a sua largura não chega a ultrapassar os 16 quilômetros, sendo que maior parte da cidade está entre 4 e 6 quilômetros da margem do rio. O clima é absolutamente rigoroso. Dizem os moradores locais que esta é a cidade dos 40. No inverno a temperatura chega aos 40 negativos, e no verão aos 40 positivos! Estivemos lá no fim da primavera, e apesar de pegarmos este extremo, podemos imaginar o que acontece lá por agosto, quando o calor realmente chega. Neste tempo, as margens do rio acabam por encher de volgogradenses que buscam no rio um refrigério para o calor sufocante. Enquanto passeávamos pelo local com nossos anfitriões, chegamos num canal, conhecido como Canal Volga-
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    Don, que passapela cidade e que liga os grandes rios da Rússia Europeia. Construído para abrir caminho entre o Mar Cáspio e o Mar Negro (e consequentemente para o Mar Mediterrâneo), os 101 quilômetros de extensão foram concluídos em 1952, após 4 anos de trabalhos forçados. Comportas ajudam os navios de até 5.000 toneladas a transitar, vencendo os 88 metros de desnível que existem pelo percurso. É uma obra absolutamente impressionante! Nas margens do Volga, perto do Canal, existe uma estátua de Lênin, que são muito comuns ainda em toda a Rússia. Mas esta tem uma história distinta. Ela está lá, numa plataforma, em lugar de outra estátua. Naquele local, até a desmistificação promovida por Nikita Khrushchov em relação ao seu antecessor, figurava imponente a maior estátua de Stalin em toda a URSS. Como resultado de uma política anti- stalin, a monumental peça foi retirada literalmente da noite para o dia e acabou sendo substituída pelo pai da Revolução Russa. Hoje, recém-casados depositam suas flores aos pés do monumento,típica cerimônia russa, inclusive presenciada por nós no dia que lá estávamos. Devido à extensão da cidade, não tivemos a oportunidade de ver seus extremos, concentrando-nos mais na Região Central, como é assim chamada. É lá que estão os
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    principais monumentos dacidade. Neste ponto é que foram mais intensas as lutas durante a Batalha de Stalingrado. Exatamente no centro desta região está o “Panorama da Batalha de Stalingrado”, um complexo que mostra alguns momentos da luta aqui travada. Logo é possível ver a estrutura branca do museu, onde entre outros objetos expostos, está a arma de Vassily Zaytsev, herói soviético notabilizado como franco-atirador durante a Batalha. Apesar de não ser o atirador com o maior número de mortos, a propaganda soviética utilizou muito bem seu herói, que ao todo, segundo alguns, teria matado 242 oficiais nazistas. A história deste soldado, particularmente, foi alvo de muitos livros e até mesmo filmes. Infelizmente, no dia de nossa visita, o museu estava fechado! Um pouco mais abaixo, já na margem do rio, está o barco “Gassitel”, símbolo de uma luta ferrenha e desesperada dos soviéticos de não entregar Stalingrado para os nazistas. Durante toda a Batalha, a artilharia e a famosa Força Aérea alemã (Luftwaffe) impuseram ao rio um ataque ininterrupto, pois era o rio o único meio de contato da margem oriental sob domínio soviético, e a resistência no lado ocidental. Mesmo durante a noite o fogo não cessava. Os barcos cruzavam o rio
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    sob ataques intensos,e o fundo do Volga guarda muitas embarcações juntamente com as suas vítimas. Contudo nada se assemelha à Colina Mamayev, com sua estátua da Mãe-Pátria. A colina foi durante a batalha uma verdadeira “terra de ninguém”. Este ponto estratégico que abria a vista para toda a cidade do seu alto, não foi totalmente tomada pelos alemães durante este período. Contudo, lá se formou um local quase isolado, pois tanto a artilharia alemã, quanto a soviética bombardeavam o local para evitar que qualquer um a tomasse. Ao fim da Batalha, alguns afirmam que ao longo de toda a colina ficou uma camada de 10 centímetros de estilhaços de bombas! No local, apenas uma árvore permaneceu de pé, já na encosta. Ela virou um monumento vivo à resistência da cidade, até hoje preservada! Com o fim da guerra, em uma cidade totalmente destruída e traumatizada pelos milhares de mortos, Stalingrado recebeu o título de ‘Cidade Herói” e no alto da Colina Mamayev, entre 1959e 1967, foi construído o conjunto de Monumentos conhecido como "Heróis da Batalha de Stalingrado”. Ao subir pelas escadarias, aos poucos se começa a ver surgir uma estátua colossal. Passa-se então pela “Alameda” onde, dos dois lados do caminho, estão perfilados os álamos, árvore típica na região. Parecem soldados em
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    formação. Os monumentosaos heróis se espalham ao longo do caminho de subida. Cenas de soldados em combate, carregando feridos, impondo armas, mas a estátua mais impressionante está no fim da subida, e é a intitulada “A Mãe Aflita”, retratando uma mãe que debruçada, tem no colo seu filho morto em batalha. Esta cena realmente mexe com qualquer um que passa por ali! Ainda no caminho de acesso ao topo da colina, subitamente se nos percebemos cercados dos dois lados por paredes, onde existem figuras de tanques, imagens de guerra, canhões que foram feitos como relevos na própria parede. E das mesmas paredes saem sons através de alto-falantes embutidos nelas, que contam momentos da guerra. Uma voz marcial, arrastada, mórbida, anuncia o número de mortos, a situação da cidade em escombros, os ataques e contra-ataques, e tudo ao som de fundo de explosões, incursões aéreas, gritos, etc.A pessoa que sobe já está sendo preparada para o que vem logo ali em cima, na Colina. No salão do “Fogo Eterno”, ou também chamado “Panteão da Glória”, bem ao centro tem uma tocha, segurada por uma mão gigante, simbolizando o lema máximo do pós- guerra “nada será esquecido, ninguém será esquecido!”. Ao redor do perímetro das paredes do salão, que se assemelha a
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    um estádio coberto,há 34 mastros com bandeiras de luto feitas de uma cor vermelha-esmaltada e franjas com fitas pretas. Nestas bandeiras estão inscritos os nomes dos mortos na Batalha de Stalingrado, soldados soviéticos - todos os 7.200 nomes conhecidos. Alguns dizem que este número na realidade seria bem maior, por causa dos que não foram registrados. Estimativas calculam que as cifras de soldados soviéticos sepultados nesta colina chegam a 34 mil! Num lugar de júbilo e celebração pela vitória, vem também o clima de tristeza, um sentimento de perda. Mas o monumento mais impressionante está no ponto mais alto da colina. A estátua da Mãe-pátria é absolutamente incomparável! E os números realmente impressionam! São cerca de 5.000 toneladas de cimento, 2.400 toneladas de construções metálicas. Só a estátua em si, da mulher, tem uma altura de 52 metros, e se adicionarmos a espada que ela segura empunhada, a altura chega aos 85 metros. Somente a espada metálica tem um peso de 14 toneladas. Para se ter uma ideia desta gigante, a estátua da Liberdade de Nova Iorque mede 46 metros, o Cristo redentor no Rio de Janeiro, 38 metros. Quando chegamos perto do colosso, tiramos uma foto para mostrar o tamanho dela. Uma pessoa tem o tamanho de um dos dedos do pé da estátua… Existem sismógrafos por
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    toda a estátuapara avisar sobre qualquer problema na estrutura. As feições da Mãe-Pátria são expressivas. Ela é chamada também de “A Mãe-Pátria conclama!”. É um chamado para o ataque, para a vitória. é o próprio espírito de Stalingrado! Tsaritsin, Stalingrado, Volgogrado, não importa o nome, esta cidade carregará para sempre o orgulho e a tristeza em suas ruas e parques. Ter o privilégio de estar num lugar tão importante para a história moderna da humanidade foi algo que levaremos pelo resto de nossas vidas. Nossa saída de Volgogrado se deu pelo aeroporto da cidade. Naquele momento o Brasil estava estreando na Copa do Mundo. O resultado só fui saber no dia seguinte, num jornal que estava sendo lido por um passageiro do famoso metrô de Moscou. Ganhamos! E em casa assistiríamos o Brasil ser campeão! Mas isto é, como já disse antes, outra história…
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    MOSCOU: CAPITAL DETODAS AS RÚSSIAS A capital deste país continental é uma das maiores cidades do mundo. Sua população é, segundo dados oficiais, de 12 milhões de habitantes, mas fontes extra-oficiais garantem que os números podem chegar aos 15 milhões. A realidade é que como nos grandes aglomerados urbanos pelo mundo, qualquer que seja o número exato, eles apenas expressam detalhes que passam batidos frente a tudo que Moscou realmente é. Falar sobre esta metrópole em poucas palavras neste capítulo é uma tarefa muito complicada, pois há muito que se pode explorar sobre o tema. Contudo, porei em destaque o que mais chama a
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    atenção de quemnão nasceu ou mora lá. Comecemos pelas igrejas. Devido ao sistema Socialista que dominou o país na maior parte do século XX, e mais especificamente ao tom anti-religioso que se impôs ao longo deste período, a imagem que se tem dos russos é de um povo desprovido de ligações religiosas. Mas nada mais longe da verdade do que esta impressão! A alma russa é extremamente religiosa, supersticiosa e cheia de mística (como veremos adiante). O país abriga uma grande quantidade de fiéis das grandes religiões mundiais, e isto se reflete nas suas expressões artísticas, mas em especial na arquitetura. Moscou em particular é crivada de igrejas, monastérios, capelas, e outros lugares sagrados de outras religiões como budismo e islamismo. Mas a história de Moscou com estes “santuários” teve muitas convulsões durante o regime socialista, especialmente com Stalin. E este desafeto do ditador com a religiosidade não poupou nem ao menos a Catedral de Cristo Salvador, que é comparada à Basílica de São Pedro, no Vaticano, por sua importância para a Igreja Ortodoxa Russa. Esta catedral, onde se destacam as cinco cúpulas douradas em formato de “cebola”, típicas da Rússia, foi originalmente idealizada no início do século XIX como uma
  • 262.
    celebração após avitória contra Napoleão. E foi em 26 de maio de 1883, que como cerimônia de inauguração da Catedral, Alexandre III foi coroado o novo czar da Rússia. Mas a história não se prolongou por muitos anos. Com a chegada do governo revolucionário, as perseguições religiosas da década de 1920, e chegada ao poder de Stalin, o futuro do local estava sendo redesenhado. Por ser considerado um dos símbolos do período czarista, sob as ordens de Stalin em 1933, a Catedral foi dinamitada. Stalin havia planejado algo mais “secular” para o local, onde pretendia construir o chamado "Palácio dos Sovietes". Esse novo palácio seria levantado ali e teria uma torre de 400 metros de altura. No topo dessa torre, seria posta uma estátua de 98 metros do Lênin. Mas, por causa de dificuldades técnicas, o projeto nunca pode ser realizado. O problema é que o terreno não aguentaria aquela estrutura faraônica idealizada pelos comunistas. Sem alternativa, decidiram então pela construção de uma piscina pública. A glória de uma ideologia ia quase que literalmente por água abaixo! Quando o regime acabou por cair, no início da década de 1990, rapidamente a Igreja Ortodoxa Russa solicitou o local que outrora lhe pertencia. Com a autorização do governo, as piscinas deram lugar
  • 263.
    a um canteirode obras para reerguer a Catedral. No subsolo dela atualmente existe um museu mostrando todo o processo de revitalização daquela estrutura. Usando fotos da época anterior à destruição, os arquitetos puderam colocar de pé a Catedral respeitando os mínimos detalhes da construção anterior. Se o exterior já impressiona, entrar num local como a Catedral de “Cristo Redentor” evoca um grau de religiosidade na alma de cada um. As paredes estão cobertas de pinturas meticulosamente ali desenhadas. Existe uma santidade no ambiente, algo realmente que impregna a alma do visitante. Não se deseja falar, nem rir ou pensar em algo desassociado à majestade divina. É uma experiência religiosa, mesmo para o mais ateu! Alguns sugerem que Stalin travou uma luta contra Deus, expurgando seus templos e santuários, mas que no fim Ele, Deus, deu a última palavra. Seus templos foram reabertos, suas igrejas restauradas, seus sacerdotes reintegrados, e para o velho ditador ficou a amarga desonra que seu nome tem que carregar por sua blasfêmia e desumanidade com o seu próprio povo. A beleza e a imponência da Catedral de Cristo Salvador não rivalizam com outra Catedral famosa da capital. A
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    Catedral de SãoBasílio é indubitavelmente a mais famosa de todas as suas inúmeras irmãs que estão espalhadas por Moscou. Na realidade, parece muito mais um par perfeito, com a majestade do Cristo Salvador e a graciosa São Basílio. Aliás, neste sentido temos uma história interessante que se conta sobre esta catedral. Para os olhos desatentos do turista passa desatento o fato da São Basílio estar logo ali do lado de fora dos muros do Kremlin, na Praça Vermelha. Para entendermos o significado disto, precisamos explicar algo da cultura russa. O Kremlin não é exclusividade de Moscou, havendo outros em determinadas cidades russas. Mas o que seria um kremlin? Na realidade, ele nada mais era do que uma fortaleza, com um diferencial peculiar. Dentro dos muros de um Kremlin sempre há uma ou mais igrejas ortodoxas, mostrando o poder da religião para os russos. Segundo a versão mais conhecida, o czar Ivan IV mandou-a construir na metade do século XVI como uma comemoração ao seu triunfo na conquista das cidades de Kazan e Astrakhan. Mas isto não explicaria o fato dela estar do lado de fora dos muros. Contudo, conta outra história que ele teria mandado construir a igreja em homenagem à sua nova esposa, uma princesa armênia. Pelo fato da princesa não ser ortodoxa russa, e sim ligada ao ramo da Igreja Cristã Armênia,
  • 265.
    a Catedral nãopoderia ser construída dentro dos muros. Para compensar este desjeito, o czar teria ordenado trazer estrangeiros para construir a mais bela igreja. O arquiteto italiano que a projetou teria pagado caro por tamanha beleza, pois segundo uma tradição, o czar teria mandado cegar o arquiteto para que jamais fizesse algo tão glorioso! Por dentro a Catedral está dividida em pequenas capelas que tradicionalmente eram lugares dedicados à oração. “Eram” por que atualmente a Catedral é um museu, sem finalidades cúlticas e religiosas. Ao se entrar nela (depois de pagar pelo ingresso num caixa ao lado), pode-se como que entrar na alma russa, cheios de caminhos apertados, mas que de repente abrem-se e nos agraciam com uma pequeníssima capela, que com pequenas aberturas deixam o mundo e a luz entrar. Não há nada suntuoso lá, nada que inspire nossos olhos pelo que é material. Olhando agora para trás e recordando tudo isto, parece que é possível ver como é o povo russo por dentro. As catedrais têm mais que simplesmente o poder de nos levar para um lugar sagrado nos céus, mas há nelas a capacidade de igualmente nos transportar para esta alma, chamada Rússia. ------------------------------------------------
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    Moscou é umacidade que vive uma relação muito íntima com uma de suas maravilhas, o metrô. Enganam-se quem pensa que o metrô lá é apenas um meio de transporte. Não, o metrô de Moscou é muito mais que isto, é um show à parte. Ir a Moscou e não andar pelas suas estações; é não ter verdadeiramente conhecido a cidade. Conhecidas como os “Palácios subterrâneos de Moscou”, as 190 estações estão dispostas pelas 12 linhas que cortam a capital. A abertura da primeira linha em 1935 foi o início de um projeto ousado, que culmina atualmente com 305 quilômetros, colocando o metrô moscovita entre um dos maiores do mundo. Mas os números não impressionam tanto quanto a beleza das estações. Dizem os moscovitas que cada estação foi construída com um tipo de mármore diferente. A arquitetura de cada estação é única. A mais profunda é a “Parque da Vitória”, que fica a 76 metros abaixo do nível da rua. Nesta mesma estação, existe a maior escada rolante, que tem uma extensão de 127 metros, penetrando 63 metros abaixo do nível da rua! Ao se colocar numa das pontas desta escada rolante, o outro lado fica perdido da vista. Existem estações de todos os tipos. As mais “simples”, com mármores mais comuns, outras com estátuas, outras que
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    parecem verdadeiras galeriasde artes, com quadros maravilhosos pendurados nas paredes, em outras são os vários níveis interligando várias linhas. Absolutamente nada é repetido nas estações, cores, desenhos, esquemas, peças, tamanhos, tudo dá um ar de novidade a cada estação para o turista. Viver Moscou é também viver seus subterrâneos. E isto foi o que fez parte da população durante a Segunda Guerra Mundial, pois devido à sua profundidade, o metrô possibilitava aos civis buscarem abrigo durante os bombardeios alemães. A maior praticidade do metrô pessoalmente percebi na linha 5 Marrom, também conhecida como “Circular”. Criada com o objetivo de interligar todas as outras 11 linhas, ela serve para agilizar o trânsito entre todas as estações. O sistema é extremamente funcional e é de fácil utilização. Mesmo minha esposa e eu não tivemos dificuldade alguma de se locomover por toda a Moscou usando o sistema, já na segunda viagem, pois ele é muito bem construído e lógico. Apenas precisa-se estar um pouco atento quando se acumulam várias linhas numa mesma estação, mas o hábito supera isto logo. Resumindo, o metrô é algo imperdível! --------------------------------------------
  • 268.
    De tantos lugares,parques, monumentos, igrejas, e tudo mais que aquela cidade fantástica reserva para os turistas, nada é mais famoso que a emblemática “Praça Vermelha”. Ao contrário do que muitos possam pensar, o local não recebeu seu nome devido à cor. Apesar dos muros do Kremlin serem da cor avermelhada, eles assim o são ha relativamente pouco tempo, pois anteriormente, quando a praça já tinha este nome, os muros eram brancos. Mas por que então “Praça Vermelha”? O nome vem de palavra russa “Krasniy’ que significa literalmente vermelho, mas que no russo antigo também significava “bonito, belo”. Assim, a praça na realidade seria a “Praça Bonita”, mas que acabou virando “vermelha” mesmo. Isto inclusive ocorre em outros nomes de locais na Rússia. O próprio nome Krasnodar (nossa cidade) significaria literalmente “Presente Bonito”, ou “Presente Vermelho”, por causa da Revolução Russa. E a praça faz jus ao seu nome. Entrar na praça atravessando o arco ao lado do Museu Histórico, ao fundo pode-se perceber as cúpulas da Catedral de São Basílio como que se levantando do chão de pedras do qual é formada a praça. À esquerda uma pequena igreja ortodoxa, mais alguns
  • 269.
    passos e aPraça Vermelha se apresenta com seu esplendor. Caminhando para o centro da área aberta, logo fica evidente o enorme prédio conhecido como GUM (sigla para “Principal Loja Universal”, o que seria uma espécie de shopping center nos tempos soviéticos). Ele ocupa toda a extensão à esquerda de quem entra pelo lado do Museu. Exatamente do outro lado da praça, já quase encostado nos muros do próprio Kremlin se encontra o Mausoléu de Lênin, onde está exposto o corpo do líder soviético, em uma espécie de caixão, com luzes apontadas para suas mãos e rosto. As filas para entrar no mausoléu e ver o líder da revolução, em geral ultrapassam as centenas de metros, o que desanima mesmo o mais curioso historiador como eu. Na parte de trás do mausoléu, já quase colados aos muros do Kremlin estão sepultadas personalidades importantes da história da URSS. Lá estão Joseph Stalin, Yuri Gagarin (o primeiro homem a ir ao espaço), e muitos outros líderes da União Soviética. Olhar para aquela praça evoca em nossas mentes os famosos desfiles da época do regime, quando a URSS exibia para o mundo o seu aparato militar, incluindo o poderio atômico. Eram desfiles de horas, milhares de soldados, tanques, armas pesadas e aviões, um show montado para todo
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    o país vere o Ocidente preocupar-se. Mas com o fim da URSS, tudo foi abolido, e a praça que outrora via por ela desfilar o orgulho de uma nação acostumada com a guerra, viu apenas turistas (muitos, de todo o mundo) a passear calmamente por toda a sua extensão, capturando aquele momento único com suas máquinas fotográficas. Contudo, os anos se passaram, e como tudo no país, o clima muda rapidamente. A chegada de Putin acabou por ressuscitar certos hábitos que já não estavam em voga. Nos últimos anos os desfiles voltaram. Foi em 2008 que pela primeira vez se utilizou o aparato técnico militar pesado nos desfiles na Praça Vermelha após a queda da URSS.O principal dia de apresentações é o dia da comemoração do fim da Segunda Guerra Mundial, chamado de “Dia da Vitória”, em 9 de maio. Numa das vezes que estive em Moscou, mostrando a cidade para um casal de amigos brasileiros, ao andar pelas ruas, nos deparamos de frente com o ensaio de inúmeras fileiras de soldados do Exército Vermelho em marcha. Apesar de ser apenas um ensaio, a ordem e disciplina, a força e a batida impressionam, especialmente quando se leva em conta que diante de nós está um dos exércitos mais conhecidos do mundo.
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    Igualmente atrativa emuito concorrida por turistas e transeuntes, é a troca da guarda ao lado dos muros do Kremlin, no memorial ao soldado desconhecido, vítimas da Segunda Guerra. A força, destreza, o litúrgico e solene momento sempre está sendo filmado e fotografado por todos. É algo que marca quem presencia o ato. Outro lugar de interesse geral para os turistas é o próprio interior do Kremlin, suas igrejas, o Palácio do Governo e tudo mais. Mas, às filas enormes pelo ingresso, e o valor absurdo cobrado para turistas é um desestímulo para esta visita. Contentei-me sempre de tirar fotos da Praça, das torres, das cúpulas douradas que se pode ver do lado de fora, e do muro do Kremlin. Enfim, Moscou é uma cidade magnífica. Poderia falar dos parques que existem por todos os lados, dos museus que têm em seus acervos peças das Antigas civilizações como múmias egípcias, tabletes mesopotâmicos, obras de arte greco- romanas, etc. A Galeria de Artes Tretyakov, com seus belíssimos quadros. Seria impossível falar ainda sobre tudo que há de encantador na Rua Nova Arbat, com suas lojas, bares e etc. Moscou se revela diferente em cada estação do ano. No verão, os parques espalhados pela cidade ficam cheios e
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    vibrantes, com osol se pondo lá pelas 22 horas, e levantando antes das 5 da manhã. Neste ínterim, praticamente não escurece, mas fica uma sensação de eminente aurora no céu. No outono, o verde se vai, dando lugar ao vento gelado, pré- anúncio do inverno que se aproxima. Neste período é o tempo de preparação para o frio que chega. O inverno é rigoroso, mas os moscovitas sabem tirar proveito da estação. Em especial, as crianças se divertem nos parques, fazendo tobogãs e brincadeiras com ela, a principal personagem, a neve. Mesmo os mais adultos se vêem um pouco “infantis” nesta estação. A primavera é a renovação, a vida, o verde. Tudo se transforma, e Moscou volta a encher os parques com pessoas aproveitando o sol que volta a esquentar a cidade. Viver Moscou, ao menos por alguns dias é uma experiência fascinante.
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    EXPERIÊNCIAS FUTEBOLÍSTICAS Quando falamosde Brasil, logo vem a associação com café e futebol. Mas o café brasileiro já é assediado pela concorrência de outros países, como Etiópia, Colômbia, entre tantos outros. Neste caso então sobra a imagem do país do futebol. E este esporte é o mais popular do mundo. Em todos os cantos existem pessoas que correm atrás de uma bola. A admiração na Rússia pelos nossos desportistas é constatável pelo número destes atletas nos times do país. Praticamente todas as equipes da primeira divisão têm no seu elenco nossos compatriotas. Mesmo na segunda divisão, percebe-se o empenho dos times em reforçar seu elenco com algum jogador daqui, ou mesmo da Argentina. Mas a busca
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    por sul-americanos atualmentetem se diversificado e a busca por uruguaios, paraguaios e outros tem crescido. Por isto não seria de admirar que em nossa Krasnodar houvesse ao menos um brasileiro jogando no time local. Quando chegamos em 2005, o Clube de Futebol Kuban era daqueles times que, ora está na Segundona, ora sobe para a Primeirona. Na Universidade, ficamos sabendo que o time tinha um brasileiro jogando lá. Ficamos felizes, pois até então éramos os únicos brasileiros conhecidos por aquelas estepes. Mas ele era a estrela do time, e conseguir o contato assim direto era algo que precisava ser batalhado. Certo dia, o celular toca e ao atender ouvi um sotaque baiano falando do outro lado. Demorou uns micro-segundos até reorientar a mente para o português e conversar com o conterrâneo. Dali em diante, desenvolvemos uma amizade muito profunda com este jogador. Ele havia saído ainda novo em sua carreira para jogar na Bósnia. Passou um tempo lá e o clube de Krasnodar o contratou. Sem família (esposa e filhos), sem maiores impedimentos aceitou o desafio de vir para Krasnodar. Digo isto, pois muitos jogadores que vão para fora do Brasil, em busca de realização profissional e estabilidade financeira, se deparam lá fora com falta de estrutura, solidão,
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    choques culturais eetc. Isto acaba levando a uma volta prematura ou desestímulo, que afeta a carreira. Acompanhamos (como família) todas as alegrias e dificuldades destes profissionais. Muitas são as lutas, desde o assédio, a cobrança, o despreparo para situações da vida lá fora, as saudades de casa e entre outros aspectos dos brasileiros no estrangeiro. O futebol russo sempre foi marcado por, digamos, suspeitas em relação a sua integridade. Muitos analistas afirmam que as fracas atuações dos times da URSS e Rússia eram resultado de uma máquina de corrupção que não deixavam com que as equipes conseguissem atingir um nível técnico para conseguir competir com os outros times europeus. Num país onde tudo era resolvido fora do campo, era de se esperar que os resultados em competições internacionais fossem frustrantes. E este “jeitinho russo” incomodava muitos jogadores. Não que em outros lugares este tipo de “jeitinho” não existisse, mas era sempre tão evidente na Rússia, que os próprios torcedores diziam: o time campeão sempre é o time do Premier (na época soviética). Coincidentemente, o que acontecia! Mas a chegada cada vez maior da “legião estrangeira”, investimentos privados e a seriedade dos campeonatos vêm
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    elevando o níveldo futebol russo. Hoje eles já brigam nos campeonatos europeus de forma mais digna, passando das primeiras fases, e até mesmo se tornando campeões, como CSKA e o Zenit. Todo russo com quem conversei sobre o assunto de futebol torcia por um time russo (óbvio!) e para um time europeu da Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha, ou outro. A pergunta que me faziam era sempre para que time russo eu torcia, o que era normal, mas em seguida a questão era para que time europeu. Quando dizia que não tinha nenhuma equipe pela qual eu tinha simpatia imediata, suas caras sempre expressavam assombro. Como um brasileiro pode não ter um time de futebol? Isto se explica pelo fato de os russos não terem ideia de que futebol possa existir em outros continentes. Nenhum deles conhecia clubes brasileiros, ou mesmo sul-americanos. Taça Libertadores? Que é isto? - perguntavam. Mundial de Clubes? Enfim, eu acabava por desistir da conversa, pois explicar que, se um brasileiro estava jogando num time europeu, necessariamente ele teve que jogar em algum time por aqui no Brasil. Para um russo, ir ao estádio é como ir a um balé, um espetáculo, assistir um filme. É parte de uma herança cultural da URSS, onde atividades “culturais” eram de acesso das massas. O crescente padrão da técnica,
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    jogadas de efeito(de brasileiros na maioria, é claro!) estimularam o público a se aproximar dos clubes de futebol. O esporte virou um grande negócio, e isto tem profissionalizado o espetáculo. Mas nem só dos profissionais tem vivido a paixão dos russos pelo futebol. Ao longo do tempo que vivemos lá, pudemos ver se multiplicar as quadras e campos de futebol, especialmente do tipo “grama sintética”. O interesse de pais em buscar uma atividade física para os filhos também impulsionou o mercado de escolinhas de futebol. O governo tem buscado no esporte uma forma de ideologia perdida com o fim da URSS. O consumo de drogas e álcool tem alarmado as autoridades, e em especial a de Krasnodar, e a solução mais rápida é a prática de esporte. Através de alguns contatos na cidade nós, com um grupo de amigos, propusemos a vinda de uma equipe de futsal do Brasil para trabalharmos um pouco esta questão. O alvo principal era atingir as crianças, que são o ponto mais fraco e desprotegido destes terríveis males que atacam todas as sociedades. Tínhamos a experiência de um amigo nosso no Brasil que vem trabalhando com uma ONG em São Paulo em comunidades carentes da capital. Agregamos a isto a necessidade dos russos e o interesse pelo futebol. O resultado
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    foi que em2010, um grupo de 8 jogadores foram até Krasnodar para este projeto. A equipe contava com jogadores profissionais de futsal que já haviam jogado na Liga Italiana, outros que foram para Portugal e EUA. Mas a grande estrela do time era um ex-jogador da seleção brasileira de futsal, bi- campeão mundial. A presença dele foi fundamental para que conseguíssemos chamar a atenção da imprensa local e de algumas autoridades. O projeto durou ao todo duas semanas, e estivemos em muitos lugares do estado e na capital. Participamos de um torneio de futsal de rua, numa quadra onde ocorriam os jogos da liga de Krasnodar de futsal de rua. Os atletas foram em escolas, ginásios e estádios. As emissoras locais de TV (5 canais ao todo) fizeram reportagens, entrevistas e uma “coletiva de imprensa”. Foi muito importante para a região, especialmente para as pequenas cidades do interior. A chegada do time causou um verdadeiro alvoroço em cidades do interior, e mesmo na cidade de Maykop, capital da República da Adygea, tivemos uma partida com o time local, onde o estádio municipal ficou completamente lotado. A mensagem que queríamos transmitir para aquela sociedade era de que existem valores aos quais devemos nos apegar, o que ia ao encontro do discurso do próprio governo,
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    ou seja, umchamado para valorização da família, uma atitude contra as drogas, e a necessidade da fé. Sempre fomos bem recepcionados nos lugares por onde passamos. As pessoas eram atenciosas e sempre procuravam o contato, o que era muito estranho para mim, pois geralmente os russos são frios, distantes e muito desconfiados. Isto até causou uma impressão equivocada com o pessoal da equipe, que acabou levando aquele clima cordial e amistoso como sendo a constante da vida dos russos. Em uma cidade no interior de Krasnodar tivemos uma experiência um tanto negativa. Num dos jogos que os brasileiros participaram, um deles se chocou com um russo e caiu. Ele sentiu uma forte dor no ombro, mas teimosamente continuou em campo. Ao acabar a partida, sentindo muitas dores, ele me procurou e pediu para ver se poderíamos ver o que havia ocorrido. Felizmente no local havia uma ambulância de plantão, e recorremos ao pessoal ali. Fizeram uma faixa e deram algum remédio, mas a situação não parecia nada boa. Uma das organizadoras do evento veio ao meu encontro e recomendou que fôssemos para o hospital municipal para falar com os médicos. Não tive como conter em minha mente as cenas das experiências anteriores nos hospitais de Krasnodar, mas
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    pensando na situaçãode nosso atleta, resolvemos prosseguir. Ao grupo se somou outro jogador que estava sentindo fortes dores nas costas. Ao chegarmos ao hospital, a moça que cuidava da organização do evento tomou a dianteira e foi falar com alguém lá dentro. Parece que cidades pequenas têm a vantagem de que algumas pessoas carregam consigo alguma influência e logo são recebidas. Em pouco tempo ela volta com o médico que vem perguntando o que havia acontecido. Ele examinou os jogadores com muita paciência (!!!) e pediu que fôssemos até uma sala onde seria tirada uma radiografia. Comecei a imaginar para aonde tudo aquilo nos levaria, especialmente em termos financeiros. Neste meio tempo fiquei conversando com algumas pessoas ali mesmo, pois parecia que todos os funcionários que estavam naquele dia no hospital, num fim de sábado, num hospital de cidade interiorana vieram ver o movimento que estava acontecendo. Achei muito engraçado tudo aquilo, e a tensão foi baixando. Após alguns minutos, que não tenho bem certeza devido a toda a situação, os médicos chamaram para sua sala. Eles haviam constatado que um osso havia quebrado na região do ombro. Eles achavam melhor operar para verificar os pequenos estilhaços que estavam alojados e fazer o procedimento padrão. Devo confessar que não entendi muito
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    do que estavamfalando, mas apontavam com insistência para um local na radiografia, e era nítido o rompimento e alguns pedaços pequenos pela região. Assustado com a possibilidade de uma cirurgia naquele local, liguei para um amigo médico brasileiro em Moscou. Não tive resposta, por isto convenci os médicos que iríamos esperar até termos uma posição do nosso amigo lá de Moscou. Os médicos não ficaram muito contentes com aquilo, pois achavam que uma intervenção era necessária. Contudo, o humor deles não se desfaleceu com isto, e acabaram por “tietar” nossos jogadores, tirando várias fotos com eles, exclamando “quando teremos a oportunidade de tirar fotos com celebridades assim de novo?” e riam como crianças diante de um ídolo. Sorrimos apertamos as mãos e fomos embora. Á noite, conversei com nosso amigo médico, que após vários minutos de conversa, deixou em nossas mãos a decisão, ou esperar até a data da viagem para o jogador ser atendido no Brasil dali uma semana, ou antecipar a viagem (e pagar por isto) para que fosse atendido de pronto. O próprio atleta resolveu permanecer com o grupo. Depois de uma semana o grupo foi embora, e entre tantas dificuldades, especialmente com contusões e outros problemas físicos, eles partiram animados, felizes por
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    participar de umprojeto tão inusitado. A pergunta que nos fazíamos, como família, era se aqueles dias mágicos seriam apenas como sonhos de verão, que não voltariam a se repetir. Tivemos um tempo de grande alegria com a presença daqueles jogadores por lá, apesar de todas as dificuldades que tivemos com burocracias, choques culturais dos atletas, falta de preparo por parte dos russos na logística, entre outros. Mas nos ano seguinte aconteceria outro projeto nos moldes do anterior. Contudo, desta vez, ao invés de oito atletas, seriam quatorze, sendo que alguns destes haviam participado do primeiro time. O grupo, no entanto, era bem mais experiente em relação à vida. Alguns já tinham famílias e vieram com o intuito de focar no trabalho de mini-clínicas de futebol voltado mais para o público infanto-juvenil. Se o primeiro time foi uma espécie de cartão de visitas, um “abra alas”, este segundo veio colher os resultados do anterior, pois já haviam sido estabelecidos alguns contatos, e isto na Rússia é primordial para um bom desempenho. Apesar de não contarmos com nenhuma “estrela” no time, fomos bem recebidos por todos como se tivéssemos ali uma equipe de renome internacional. Principalmente nas cidades do interior, a festa sempre era muito calorosa. E na realidade aquele
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    momento de umaequipe de brasileiros chegando à cidade ou vila, seria possivelmente a única oportunidade de muitos estarem perto de jogadores, e até mesmo de estrangeiros de uma forma geral. Nossa intenção naquele momento não era entrar na mídia mais expressamente, ainda que canais estivessem presentes em determinadas ocasiões. Este segundo projeto esteve muito mais perto das pessoas, e de forma mais especial, das crianças. Brincar e divertir-se com elas era muito bom, além de abrir o coração dos pais. Numa das ocasiões, quando estávamos numa escolinha de futebol nos arredores de Krasnodar, enquanto nossos brasileiros brincavam com as crianças no campo, eu passeava pelo gramado que estava cheio de pais atentos ao que acontecia. De repente, alguém se aproximou e disse: “Que interessante, como o pessoal brinca e se diverte com nossos filhos!!!”. A alegria era contagiante, e os pais ali presentes se maravilhavam com tudo aquilo. O dia que mais marcou para mim foi quando tivemos a oportunidade de visitarmos o Hospital de Câncer Infantil de Krasnodar. A diretora autorizou a vinda do grupo, com uma condição: as crianças desceriam para a quadra, mas ficariam no máximo 30 minutos e ficariam sentadas fora da quadra assistindo o show dos jogadores. Pensando na situação, não
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    discordamos da diretorae nos submeteríamos a todas suas ordens. Aquele provavelmente foi o dia mais quente do ano. O termômetro da praça estava marcando 40° C. Nossos atletas se perguntavam o que poderia ser feito em tais condições, e senti que alguns estavam desanimados, até mesmo pelo cansaço da maratona a qual estavam sendo submetidos nos últimos dias. Quando chegamos à quadra, vi um batalhão de crianças sentadas, comportadas, algumas com os pais. No canto estavam as enfermeiras com seus jalecos brancos. Muitas das crianças estavam com véu ou boné em suas cabeças, pois a quimioterapia tinha cobrado um preço alto daquelas pobres crianças. Pensei comigo: “o que podemos fazer por elas, que será possível fazer aqui?”. Gosto de crer que esta pequena oração foi escutada nos céus. A enfermeira chefe veio repassar as condições da diretora, e nos comprometemos em não desobedecermos a suas normas. O interessante foi ver o nosso pessoal renovando as forças ao verem as crianças. O capitão da delegação chamou os jogadores no centro e passou as instruções rígidas da diretora e concluiu: “Pessoal, vamos dar ao menos algum tempo de alegria para estas crianças, sei que está calor, vocês estão cansados, mas façam isto por elas!!!”. Foi de arrepiar…
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    Os jogadores forampara o centro da quadra com as bolas e começaram a fazer a apresentação padrão com firulas, embaixadinhas, toques de bola, ou seja, o espetáculo que eles muito bem sabiam fazer. As crianças ficavam ali paradas, imóveis em seus corpos, numa disciplina militar russa, mas foi só uma bola escapar, uma brincadeira com a criança, um sorriso e um convite para chutar a bola, que tudo foi por água a baixo. Em instantes as crianças estavam em pé sorrindo, querendo chutar a bola também. As enfermeiras se olharam e simplesmente “deixaram o clima rolar”. Em pouco tempo estava organizada uma fila para chutar a bola, outra para abraçar jogadores. Lá no canto outros tiravam fotos, e aí ninguém mais ficou sentado. Até um mini-jogo foi organizado num outro canto. E parecia que ninguém estava querendo sair dali. Depois de bastante tempo, onde toda a programação já tinha furado, o pessoal se aquietou um pouco e as bolas foram deixadas de lado. Já não importava mais nada, todos foram tirar fotos, as crianças com os jogadores, e os jogadores com as crianças. Alguém da equipe havia trazido um violão e um tambor. Pronto, aí virou festa mesmo. Os jogadores tocaram e cantaram para as crianças, num ritmo bem brasileiro. Quando olho para meio do grupo animado, vi uma enfermeira
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    rebolando com umaginga típica de brasileiro (uma imitação, mas era o que ela podia fazer e sabia). Depois descobri que ela era a chefe das enfermeiras. Era surreal ver tantas pessoas empolgadas e sorrindo. Depois de algumas músicas, as enfermeiras pediram para as crianças se despedirem dos jogadores, pois dos 30 minutos que deveriam ficar fora, haviam se passado quase duas horas! A despedida foi muito calorosa, com abraços e mais fotos. Depois disto, chegou-se a mim a enfermeira chefe e me apresentou a diretora do hospital. Preparei-me psicologicamente para a bronca, aquela típica dos russos. Mas vi no seu rosto algo surpreendente, ela me cumprimentou sorrindo e agradecendo por nossa estadia ali. Ela se mostrou muito empolgada e resolveu fazer um tour com nossos atletas pelo hospital. O convite não foi muito bem recebido pelo nosso pessoal, que já estavam exaustos e ansiosos por um banho depois daquela tarde quente. Mas eu sabia que aquele momento era algo raro. O convite era uma honra que a diretora estava estendendo para o grupo, pois este tipo de oportunidade só é estendida quando um russo, especialmente no caso de uma diretora de instituição pública, está plenamente satisfeito e contente com algo. Este foi um momento impar para nós, pois se
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    confirmava diante denossos olhos uma característica especial do povo russo. Em geral, eles se apresentam fechados, sérios, frios e desconfiados. Contudo tudo isto é muito mais uma fachada cultural que eles seguem à risca, mas quando se rompe esta primeira barreira, eles se mostram absolutamente passionais, emotivos, e em certos aspectos, quase latinos. Pena que para nós brasileiros, o romper destas barreiras externas seja um processo tão demorado e penoso! Muitos outros momentos interessantes ocorreram nesta segunda viagem, mas gostaria de me restringir ao que já foi narrado, pois poderíamos nos delongar e acabar diluindo este encontro que foi o mais marcante para todos. Na despedida, no aeroporto houve muita emoção. Alguns nitidamente emocionados falaram do que aqueles poucos dias na Rússia haviam representado para eles. Outros nos abraçaram comovidos e não falaram nada. Vê-los partir foi um forte golpe nos nossos corações. Mas para nós, sem que soubéssemos, o tempo de Rússia também estava chegando ao fim…
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    A VOLTA PARACASA Depois de muita luta na universidade, vimos um ciclo que estava se encerrando. E finalmente chegou o dia da formatura na faculdade. Mas não foi nada especial, apenas uma cerimônia simples. Ficava a expectativa do que viria. Eu já havia conversado com meus professores e aberto junto a eles um canal no sentido de uma possível “Aspirantura”, um grau aproximadamente equivalente ao doutorado pelo nosso sistema. Consegui com que dois professores aceitassem o projeto. Fui direcionado pelo Departamento dos Estrangeiros aos exames de ingresso neste novo nível. Exames feitos e entrevista já passada, tudo estava se aproximando da fase final, que era justamente a matrícula e o pagamento do Curso. Inesperadamente fui chamado pelo secretário do
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    Departamento de estrangeiros.Ele me comunicou que para dar prosseguimento à “Aspirantura”, era necessário que toda a família saísse do país para que fosse aberto um novo tipo de visto, especial para este novo nível acadêmico. Dentro do nosso orçamento, tal viagem estava fora de alcance. Perguntei se haveria outra maneira de abrir o visto, ou algo que pudesse evitar este pequeno “transtorno”. A resposta negativa veio como um golpe direto nas minhas expectativas. Saí daquela sala sem saber o que fazer, pois o nosso visto tinha menos de um mês para expirar. As opções eram bem restritas e claras: ou embarcar nesta curta viagem para fora do país e abrir um visto novo em algum país Europeu (o que requereria de nós uma soma considerável de recursos financeiros), ou deixar o país em um mês, o que significaria que teríamos que vender todas as nossas coisas num período tão curto de tempo.A decisão teria que ser tomada num prazo muito curto de tempo! Tivemos que conversar muito em família, consultar parentes e amigos mantenedores. Todos foram pegos de surpresa, assim como nós. Os dias iam passando e era necessário definir o nosso futuro, e rápido. O ponto mais incógnito na possibilidade da volta era para onde iríamos, e arranjar um emprego. No fim de
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    pouco mais deuma semana a decisão foi tomada, teríamos que voltar. Contudo, não nos era possível parar para absorvermos aquele momento. Não estávamos alegres ou tristes. Apenas precisávamos nos concentrar em se desfazer de tudo que levamos anos para adquirir na Rússia. De forma igualmente penosa era a necessidade de nos despedirmos de alguns amigos. Existiam planos para desenvolver o projeto do futebol e ampliá-lo. Mas tal projeto teria que esperar mais algum tempo para ser retomado. A prioridade então era de se desfazer das coisas de maior valor, e neste item o carro estava no topo. Tínhamos o tempo que não estava a nosso favor, pois restava-nos apenas três semanas para entrarmos no avião. Mesmo com tudo apontando para um infortúnio, para nossa surpresa, naquela mesma semana o carro foi vendido, por um bom preço. Faltava agora o resto de nossos móveis. E ao longo de duas semanas vimos nosso lar ser desmontado, literalmente, peça por peça. Perdemos a mesa, depois se foram os utensílios de cozinha, a sala, os quartos,... Conforme o apartamento ia ficando cada vez mais vazio, uma sensação de vazio em nossos corações também ia aumentando. Mas além de ter que se desfazer de nossa vida ali,
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    tínhamos que decidiro que traríamos para o Brasil. A prioridade eram roupas (menos os casacos e peças pesadas de inverno), alguns brinquedos das crianças, e especialmente os livros, que foram colecionados com muito carinho nestes seis anos. Alguns utensílios domésticos ainda entrariam nas malas. Nos últimos dias, esgotados com toda a correria, vimos o lar desmontado, mas com muitas coisas ainda dentro do apartamento. Já sem esperanças de conseguirmos vender tudo, especialmente as roupas, acabamos doando para algumas pessoas. Havia uma família de amigos que tinha poucos recursos financeiros, e que estavam precisando de calçados e roupas. Eles saíram de nosso apartamento lotando o carro de outro amigo com sacolas e mais sacolas de doação. Brotou um sentimento em nós de alegria por nossos amigos, mas sabíamos o valor correspondente que estavam levando, e sabíamos de igual forma que não poderíamos reaver o material em qualidade igual ou o valor correspondente. Estávamos conscientes que os preços no Brasil eram bem mais altos, e aquele valor faria falta na nossa reentrada. Quando fomos comprar as passagens, descobrimos que dois meses antes as regras para as malas e bagagens haviam mudado. A partir de então, tínhamos direito a apenas uma mala de no máximo 22 quilos. Até a mudança, as companhias
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    aéreas davam duasmalas de 32 quilos. Uma troca considerável, pensando que estávamos fazendo a mudança de nossas vidas. A reentrada no país é tão problemática e potencialmente traumatizante, segundo estudos especializados na área, quanto o processo de saída do país. Emocionalmente se está no limite, e qualquer dificuldade tem uma amplitude ainda maior do que em situações normais. Por causa das novas regras em relação às bagagens, precisamos buscar uma opção mais compensadora financeiramente do que colocar tudo nas malas e pagar um valor estratosférico no excesso de peso. A solução mais compensadora foi mandar o que pudéssemos por cargo aéreo. Dias antes colocamos nossas malas “extras” num caminhão de um conhecido que estava indo para Moscou. Eu parti dois dias antes do resto da família para passar por um complexo sistema alfandegário a fim de liberar tudo. Com a ajuda de um amigo russo, passamos um dia inteiro indo de repartição em repartição, buscando as dezenas de carimbos necessários para a liberação do cargo, e passando por vistorias. Faltando poucos minutos para o final do check in, eu estava ainda pegando os últimos carimbos. Minha esposa ligava monitorando o andamento do processo. Do local do cargo até o aeroporto, eram dois quilômetros, cortando pelo
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    estacionamento.Atemperatura em Moscounaquele dia estava em -8° C. Deixei os últimos papéis que precisavam ser carimbados com meu amigo russo e saí correndo pelo estacionamento. O ar gelado entrava pela boca e nariz de tal forma, que a sensação era de que tudo por dentro estava queimando por causa do ar gélido. Cheguei ao aeroporto no último momento, tempo suficiente para fazer o check in e despedir de outros amigos que haviam levado minha família para lá. Corremos pelo aeroporto até chegarmos à migração. Dizem que entrar na Rússia é um desafio, só superado pelo processo de saída. Ficamos alguns minutos que pareceram horas na fila. Após passar por aquela cabine, corremos para o portão de embarque internacional, para então descobrir que o vôo estava atrasado. Suados, cansados e tensos, nos atiramos nas cadeiras livres que ainda existiam frente ao embarque. Depois de muito tempo as portas se abriram e pudemos enfim embarcar no avião. Achamos nossos assentos; olhei para fora e lembrei-me do dia em que chegamos à Rússia, do balé do avião entre as nuvens, e tudo que se passara até ali. Ao olhar pela janela e avistar a Rússia pela última vez, não sabia se dizia em meu coração “Prochay!!!” (adeus!) ou se
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    seria melhor dizer“Do Svidania!!” (Até Logo!!). Durante aqueles últimos anos, sabíamos que muito mais do que ter vivido na Rússia, intensamente nós havíamos vivido a Rússia! Foi então que o avião partiu…
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    CONCLUSÃO Desvendar totalmente osmistérios de um país colossal como a Rússia é uma tarefa que na sua totalidade sempre será malograda. Suas dimensões territoriais são apenas um dos fatores nesta equação. O país tem uma variedade enorme de etnias, culturas, costumes e religiões. Sua paisagem vai do deserto ártico ao deserto escaldante perto do Cazaquistão. Um país que tem, em suas páginas, mais de 1000 anos como Estado organizado, estruturado e independente, excetuando-se o interregno mongol, conta com uma tradição e história que poucos países no mundo podem exibir. Mas mesmo antes desta unificação no século IX, sabemos de estados organizados que existiram em seu território atual séculos e até milênios antes, como o caso da Khazaria e Bósforo. E esta sobreposição de culturas ao longo do tempo acabam por forjar a cultura ou, melhor dizendo, a alma russa.
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    Na Rússia atualexiste uma busca pela identidade cultural. Mesmo os cidadãos do país, representantes de uma gama grande de etnias, querem redescobrir suas raízes, pois sentem que sem passado não se constrói o futuro. E esta foi a ênfase que percebemos pelos lugares onde passamos. Cada pessoa queria contar algo sobre suas vidas, sobre as vidas dos antepassados e do seu povo. Neste sentido, as histórias se multiplicam rapidamente na boca das pessoas, pois este país já teve muitas tragédias, guerras, ditadores, deslocamentos coletivos e muito mais. Mas não apenas de histórias vive este país. Sua geografia peculiar atrai os olhares externos, que vêm lá uma atração pelo desconhecido, inóspito, selvagem. De clima subtropical no sul ao gelo eterno das regiões árticas, da mais extensa depressão geográfica (média de 28 metros abaixo do nível do mar) na fronteira com o Cazaquistão, até os picos do Altai e o Elbrus (com 5642 metros de altitude, é o mais alto ponto da Europa). A Rússia ainda tem a Taiga, que é a maior floresta do mundo em extensão. Ao norte se localiza a Tundra, com sua vegetação rasteira, um deserto na fronteira do gelo; e ainda existem as imensas extensões da Planície russa, que só é quebrada pelos Montes Urais, que separam a Europa da Ásia. Por grande parte destas áreas nós estivemos. Vimos
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    paisagens que poucosbrasileiros tiveram a oportunidade de contemplar. Conversamos com pessoas de várias etnias, ouvindo suas histórias. Estivemos em lugares de culturas tão distantes da nossa, comendo seus pratos e interagindo de alguma forma com este caldeirão que é a diversidade cultural e geográfica da Rússia. Sentimos as mudanças dos tempos. Se a Rússia que encontramos ainda era um país que se sentia preso ao passado e de herança soviética, em pouco tempo já experimentava ventos de mudanças soprando de fora. Esta Rússia sempre passou por estágios de forma muito abrupta. Se em outros países os passos eram dados de forma cadenciada e em etapas bem definidas, a Rússia sempre se deteve por algum tempo em um determinado patamar e, após um impulso violento em sua história, ela saltava rapidamente para níveis semelhantes aos de outros países europeus, estagnando-se por mais um tempo e repetindo o processo posteriormente. Tudo isto (e muito mais) é parte de uma equação complexa que resultará no que os russos chamam de “alma russa”. Viver na Rússia é um grande desafio, mas viver a Rússia é um desafio ainda maior. O resultado disto tudo é o enriquecimento como um todo na vida daqueles que se aventuram pelos caminhos da eterna Rússia.
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    CONTATOS Gostou da obra?Encontre mais informações no Facebook: Procure por Projeto Rússia Entre em contato com o autor: leialdopulz@gmail.com Oferta pela leitura do livro ou para o Projeto Rússia? Leialdo Pulz Banco Bradesco Ag. 0528-2 CC 80741-9
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  • 300.
    Mãe-Pátria em Volgogrado Dolmen -"mesa de pedra" Fiéis da Igreja Ortodoxa Russa
  • 301.
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