O documento apresenta uma edição da Revista Personnalité com entrevistas e reportagens sobre diversos artistas e personalidades brasileiras e argentinas, incluindo Gal Costa, Laura Catena, Cacá Diegues e Paulo Vinicius Coelho.
EDITORIAL
Diversidade é umconceito cada vez mais importante no
mundo moderno. Abraçar de forma harmônica diferen-
tes interesses e indivíduos tem se tornado fundamental para
crescer. Não se fala em evolução sem passar pelo respeito
às diversas formas de pensar e fazer. A edição 20 da Revista
Personnalité traz esse conceito embutido em suas páginas. Va-
mos do vinho ao futebol; do Rio de Janeiro a Mendoza; do jazz
à MPB; do presente ao passado, costurando temas ligados à
valorização da experiência de cada um. Só assim conseguimos
dar unidade a personagens tão distintos como, por exemplo,
Gal Costa e Paulo Vinicius Coelho, o PVC. Um ícone da música
brasileira, com uma história pautada pela inovação e espiritu-
alidade, e o mais cartesiano dos comentaristas de futebol que
tem o seu regrado hábito de passar as manhãs de sexta-feira
telefonando para todos os técnicos da série A do Campeonato
Brasileiro. Afinal, no mundo conectado, onde o network é fun-
damental, ninguém mais quer falar só de samba ou futebol.
Estamos firmes no presente, voltados ao futuro, mas tam-
bém atentos ao legado do passado recente, com reportagens
sobre o lançamento de novos LPs de vinil e sobre o saudoso
Canal 100, que deve virar exposição e DVD no ano que vem.
Cenas impressionantes do futebol-arte das décadas de 60, 70
e 80 mudaram o jeito de filmar as partidas.
E não poderíamos falar em diversidade sem trazer nossos
hermanos argentinos com pompa. Você vai conhecer Laura
Catena, dona da mais importante vinícola de Mendoza.
A própria diversidade em pessoa: além de sommelière e
empresária, é médica plantonista de um hospital na Califór-
nia. Ainda na Argentina, temos as melhores casas de jazz de
Buenos Aires, a Nova Orleans latina. Na versão de iPad desta
edição da Revista Personnalité, não perca a videorreportagem
com Pipi Piazolla, neto de Astor Piazolla e um dos principais
músicos argentinos da atualidade.
Completando o quarteto de personagens principais, uma
entrevista com o cineasta Cacá Diegues, seguida de uma repor-
tagem com Renata de Almeida, diretora da Mostra de Cinema
Internacional de São Paulo, que escolheu alguns cartazes dos
36 anos do evento para contar histórias inéditas – assista no
aplicativo para iPad trechos dos filmes favoritos de Renata.
Um abraço e boa leitura,
André Sapoznik
Itaú Personnalité
Mistura de loja de discos e casa de shows, o Notorious,
em Buenos Aires, é tido pela revista DownBeat como um
dos melhores bares de jazz do mundo
4.
fotos:arquivopessoal/arquivopessoal/arquivopessoal/arquivopessoal
Colaboradores
Editor Paulo LimaDiretor Superintendente Carlos Sarli Diretor
Editorial Fernando Luna Diretora de Criação Ciça Pinheiro
Diretora de Criação Adjunta Micheline Alves Diretora de
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de Núcleo Tato Coutinho Diretora de Desenvolvimento de
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Castro Moderador da Fan Page Luiz Henrique Brandão Repórter
do Site Fernanda D’Angelo Departamento Comercial Publicidade
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Tpm) X² Representação RS/SC Ado Henrichs SE Pedro Amarante
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Sardenberg Videomakers Vinicius Nora e Marco Paolielo Editor de
Vídeo Pitzan Oliveira Produtora Camila Nunez Colaboraram nesta
edição Edmundo Clairefont (edição), Ana Manfrinatto, Eduardo
Logullo, Gian Oddi, Gonçalo Junior, Jorge Schwartz, Luciana
Lancellotti, Maria Lucia Rangel, Millos Kaiser, Ricardo Calil, Rosane
Queiroz e Vivian Sotocórno (texto), André Schiliró, Agencia Nalata,
Marcelo Correa, Nelson Mello, Nino Andrés, Paula Perrier, Victor
Affaro (fotos) Zé Otávio (ilustração), Ana Horas e Juliana Carletti
(produção) Comitê Itaú responsável por esta edição Fernando
Chacon, André Sapoznik, Cristiane Portella, Danielle Sardenberg,
Ligia Benavente e Mariana Couto de Arruda Colaboradores Marcello
Barcelos, Maria Pestana e Mariana Salles – DPZ Propaganda
Capa Gal Costa fotografada por André Schiliró
Revista Personnalité é uma publicação trimestral da Trip
Editora e Propaganda em parceria com o Itaú Personnalité.
Endereço para Correspondência: rua Cônego Eugênio Leite,
767, 05414-012, São Paulo, SP.
E-mail: contato@revistapersonnalite.com.br
www.tripeditora.com.br
expediente
Aos 28 anos, o ilustrador Zé Otávio trabalha para
os principais títulos do país e assina uma coluna na
revista americana Car & Driver. Paulista de Olímpia,
já transformou desenhos seus em uma coleção de
camisetas e acaba de expor uma série de pinturas
na galeria Urban Arts, em São Paulo. Nesta edição,
ilustrou a matéria sobre Jorge Luis Borges. “Meu
processo é sempre um tanto caótico. Combinou
com o autor: acredito que ler Borges é como estar
em um labirinto.”
Dupla por trás da agência fotográfica Na Lata,
criada em 2007, o capixaba Bruno Miranda,
30, e o paulistano Renato Stockler, 34,
são experts em contar histórias por meio de
imagens. Atualmente, dedicam-se a uma série
de documentários para a Folha de S.Paulo. Eles
abriram um espaço na agenda para fazer a foto
de PVC nesta edição e resumiram a experiência:
“Enquanto fotografávamos, Paulo ditava a uma
assistente um texto para o seu blog. Ele é bem-
humorado, espirituoso e não para de trabalhar!”.
Diretor do Museu Lasar Segall e professor titular
aposentado pela USP, o argentino Jorge
Schwartz, 68, naturalizou-se brasileiro há cinco
décadas. Autor e organizador de diversas obras,
atualmente prepara o Guia de leitura de Borges para
o Brasil. Nesta edição, Schwartz recontou a visita
que Jorge Luis Borges fez ao país em 1984. “Foi
um susto perceber que já se passaram 30 anos. A
intensidade do evento fez com que ele parecesse
muitíssimo mais recente.”
Nome por trás do site Gourmet Viajante,
Luciana Lancellotti, 40, foi apresentadora
do Jornal Hoje e colaboradora de moda da
Elle antes de eleger a gastronomia como sua
verdadeira vocação no jornalismo. Baseada
em São Paulo, viaja frequentemente para o
exterior para escrever matérias sobre viagem e
enogastronomia. Nesta edição, voou até Mendoza
para conversar com Laura Catena. “A Laura é uma
mulher inteligentíssima e dedicada. Impossível
entrevistá-la sem sair impressionada.”
O jornalista carioca Eduardo Logullo não
revela a idade (“Para que mentir, não é?”), mas
teve tempo suficiente para passar pelos principais
jornais, editoras e emissoras do país. Hoje prefere
viver do que escreve em sua casa: roteiros semanais
para a GNT, matérias para revistas nacionais e livros,
como Minha alma canta, sobre a fotógrafa Thereza
Eugenia. Eduardo topou a missão de perfilar Gal
Costa. “Conheço a Gal faz muito tempo. Ela é a voz
que trouxe o canto moderno ao Brasil.”
Com 15 anos de carreira recém-completados, o
paulista Victor Affaro, 31, costuma ter suas
fotografias publicadas em importantes títulos,
como Vogue, Rolling Stone e Financial Times.
Enquanto planeja uma exposição de retratos
feitos na África Central, viajou para Mendoza para
clicar Laura Catena, a herdeira da vinícola mais
importante da Argentina. “Me encantou o fato de
Laura dizer para o mundo que seus vinhos são
latino-americanos, em vez de argentinos.”
Há três anos, a jornalista Ana Manfrinatto,
30, trocou São Paulo por Buenos Aires, onde
trabalha como editora do site de um canal de TV.
Acostumada a difundir a música brasileira por
lá, Ana vem transformando seu passatempo em
trabalho: foi ela quem cuidou da assessoria de
imprensa da passagem de Criolo e Emicida pela
Argentina. Nesta edição, escreveu sobre os bares de
jazz da capital portenha. “Fui aos clubes, vi shows,
tomei vinho... Escrever essa matéria foi uma delícia!”
Colaboradores
fotos:arquivopessoal/Arquivopessoal/arquivopessoal/arquivopessoal
Aos 38 anos, o paulistano Gian Oddi dedica seu
dia a dia ao futebol: é comentarista e blogueiro
da ESPN Brasil e editor-chefe da revista ESPN.
Ex-jornalista da revista Placar, trabalha lado a lado
com Paulo Vinicius Coelho, sobre quem escreveu
um perfil para esta edição. “Ele é um maluco por
futebol, cujo sucesso não mudou em nada seu
jeitão no dia a dia. Mesmo quem não concorda com
sua visão meio ‘matemática’, tem que dar o braço a
torcer à maneira como o PVC exerce a profissão.”
A Trip Editora, consciente das questões ambientais e sociais,
utiliza papéis Suzano com certificado
FSC (Forest Stewardship Council) para
impressão deste material.
A Certificação FSC garante que uma
matéria-prima florestal provenha de
um manejo considerado social,
ambiental e economicamente
adequado. Impresso na Gráfica
Log&Print – Certificada na Cadeia de
Custódia – FSC
5.
60 76
42
16
10 Cáentre nós
Música, viagem, gastronomia e filmes –
dicas de quem sabe viver bem
15 Prestígio
Causa natural
O fotógrafo Araquém Alcântara conta como a foto que fez de seu
pai para protestar contra usinas nucleares iniciou sua militância na
questão ambiental
16 aos pés da cordilheira
Viajamos pelas estradas de Mendoza, na Argentina, ao lado de
Laura Catena, a herdeira da empresa familiar que produz o melhor
vinho da América do Sul
24 Onde o jazz nunca dorme
Buenos Aires tem dois dos melhores clubes de jazz do mundo e
uma cena pulsante de novos artistas. A Revista Personnalité listou
os endereços essenciais para aproveitar a noite portenha
32 1984 - Borges em São paulo
Em agosto daquele ano, Jorge Luis Borges veio a São Paulo para
uma visita de dois dias. Jorge Schwartz, cicerone da viagem e autor
do livro Borges no Brasil, revela as lembranças da curta – e intensa
– intimidade com o maior escritor argentino
42 CINEMA de novo
Aos 72 anos, Cacá Diegues, o fundador do Cinema Novo e diretor
do clássico Bye bye Brasil, conta por que decidiu voltar a filmar:
“Se isso sair da minha vida, viro um débil mental”
52 Cartazes à mostra
Às vésperas do início da 36a
Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo, Renata de Almeida, diretora do evento, relembra momentos
marcantes do festival a partir de oito pôsteres favoritos
sumário
60 “FAAALA, PVC!”
É assim que técnicos como Mano Menezes e Vanderlei Luxemburgo
atendem aos telefonemas de Paulo Vinicius Coelho, um dos
jornalistas mais influentes do futebol brasileiro
68 futebol (7a
) arte
Os grandes lances do Canal 100, o cinejornal esportivo que
transformou salas de cinema em arquibancada de estádio, entre
1959 e 1986, e agora volta à cena em exposição e livro com DVD
76 “Minha voz vem”
Gal Costa passeia por canções icônicas dos 32 discos da carreira,
detalha a relação com Caetano Veloso e tenta explicar o dom de
(en)cantar em shows como Recanto, considerado o melhor do ano
84 a virada do vinil
A história por trás do retorno dos LPs ao Brasil, com reedições de
álbuns clássicos, trabalhos inéditos, reativamento da única fábrica
da América Latina, além de fãs apaixonados e discos importados
90 Ideias no sótão
O cartunista João Montanaro, 16 anos, ilustra seu autorretrato
e revela o que tem na cabeça
victoraffaro/marcelocorrea/nalata/andréschiliró
6.
10 11
cá entrenóscá entre nós
divulgação
divulgação/PARAMOUNTPICTURES/EVERETTCOLLECTION/EVERETTCOLLECTION/Latinstock/pARAMOUNTPICTURES
viagem, gastronomia e cultura – convidados especiais abrem suas preferências | Por Rosane Queiroz
Humor ou drama?
“Que eu me lembre, assisti
a Crepúsculo dos deuses
[1950] pela primeira vez em
casa. Ainda era adolescente.
O filme é exemplo de
como se pode fazer algo
engraçado e profundo;
leve e denso; divertido e
triste. Me questiono: é uma
comédia dramática ou um
drama cômico? Ou humor
negro? Não sei, mas sei que
gosto bastante.”
termina no começo
“Gosto de algo especialmente. O filme termina pelo co-
meço, com o personagem morto, Joe [William Holden] ,
revelando o motivo da sua morte. No início do longa, ele
aparece boiando na piscina. Um recurso comum hoje em
dia, mas na época era inovador.”
O roteirista de Avenida Brasil e um dos melhores escritores brasileiros pela
revista Granta revela como Crepúsculo dos deuses influenciou seus textos
por Fernanda D’Angelo
_
ANTONIO PRATA, escritor
decadência
“Um dos temas do filme
é a decadência dos
astros com a passagem
do tempo. Há uma cena
bem exemplar, com a
participação especial de
Buster Keaton, um dos
grandes atores de cinema
mudo e que acabou
perdendo o prestígio
depois do surgimento do
cinema falado. Ele aparece
como coadjuvante numa
cena de pôquer.”
A MARCA Do diretor
“Acho que peguei algo dele. De algum jeito,
mesmo que minúsculo, eu espero que os
filmes do Billy Wilder tenham deixado alguma
marca nos meus textos e roteiros.”
CENA
INESQUECÍvEL
“Norma [Gloria
Swanson] é uma
atriz decadente que
enlouquece. Ela acaba
matando Joe, que virara
seu amante. Quando a
polícia vai prendê-la, ela
desce achando que são
os seus fãs.”
o filme da minha vida
Na suíte Fernando & Humberto, recém-inaugurada no hotel Lutetia,
em Paris, os designers brasileiros transformam móveis comuns em arte
_
irmãos Campana, designers
objetos de desejo
Tapete Mágico
“O carpete Sushi 2 injeta modernidade
no quarto”, diz Humberto. “Ele cobre
o chão e sobe pela parede, sugerindo
uma cabeceira. O resultado é elegante
e com um toque brasileiro.”
Boa trama
As almofadas Trousseau pertencem
à coleção Soft Reptile. O destaque
é o trabalho das tramas: as peças
trazem a textura e a sinuosidade que
emulam os répteis.
Luz indireta
Os abajures Amanita, na forma
do cogumelo, são da italiana
Alessi. Feitos de vime, projetam
uma luz difusa com três
combinações de iluminação.
Reciclagem
Os quadros são reproduções de
colagens criadas para o catálogo
da exposição Anticorpos (2009),
realizada pela dupla no Vitra
Museum, na Alemanha.
400 peças de couro
As poltronas Leather Works,
desenhadas pela dupla, foram
fabricadas pela Edra. Cada uma
possui 400 pequenas peças de
couro com tons de marrom.
Verde e marrom
“Nosso objetivo foi criar uma suíte
contemporânea em um ambiente
clássico”, afirma Fernando. “Usamos
tons de marrom e verde para criar
uma atmosfera aconchegante.”
7.
12 13
cá entrenóscá entre nós
divulgação/reprodução
nelsonmello
“Todas as músicas que marcaram minha vida se situam entre a
infância e a adolescência”, diz o diretor de Nina (2004), O cheiro
do ralo (2006), À deriva (2009) e do hollywoodiano 12 horas
(2012). Aqui, o cineasta faz uma seleção dessa memória musical.
O cineasta pernambucano deixa de lado a ficção e assina
a trilha sonora de sua vida real: rock, MPB e eletrônica
_
Heitor Dhalia, diretor de cinema
trilha sonora
1. “João e Maria”,
Chico Buarque
Costumava cantar com minha
mãe e meus irmãos quando
íamos para casa depois da
escola. Era um momento
mágico da família reunida no
carro, e a letra da música me
inspirava com seus personagens
líricos e imaginários.
2. “Vaca Profana”,
Caetano Veloso
Música também bastante
ouvida na adolescência, começo
da rebeldia e dos anos de
influência hippie.
3. “Another Brick in the
Wall”, Pink Floyd
Muitas aulas perdidas na escola
para ouvir este protesto contra o
sistema. Um hino da adolêscência
de todas as épocas!
4. “Cabeça Dinossauro”,
Titãs
Esta música sintetiza todo o
rock brasileiro que ouvi nos
anos 80.
5. “Thriller”,
Michael Jackson
Ícone pop máximo do século 20.
Ouvi muito e amava cada novo
videoclipe.
6. “Bizarre Love Triangle”,
New Order
Eu adorava música eletrônica. A
banda é o símbolo da geração
que ouviu esse tipo de som nos
anos 1990 e 2000.
7. “Anarchy in the U.K.”,
Sex Pistols
Clássico do punk rock. Amo o
Sex Pistols e uso as botas da Dr.
Martens, clássicas no visual punk,
até hoje. Atualmente, escuto
muita coisa diferente. O cantor
Thiago Pethit, por exemplo, está
no toca-CDs do meu carro e não
sai de lá.
2
3
4
1
5
No comando do Clos de Tapas, eleito o melhor espanhol pela revista
Veja São Paulo, o casal Ligia Karazawa e Raúl Jiménez falam de suas preferências
por Fernanda D’Angelo
_
LIGIA KARAZAWA E RAÚL JIMÉNEZ, chefs
Água na Boca
1. ALGUM INGREDIENTE PREDILETO?
Ligia: Azeite de oliva. Temos cinco tipos em casa. Também sou apaixonada
por tomates. E adoro trabalhar com peixes.
Raúl: Sal é a base da cozinha. Realça sabores, é indispensável, mas tem
que ter equilíbrio.
2. O QUE INSPIRA?
Ligia: Estar feliz. Mas tem algo que me inspira muito. Sou muito de feira, de
ir ao supermercado. Comprei uns tomatinhos na feira de sábado de manhã
e já pensei em um prato.
3. ALGUM RITUAL NA HORA DE COZINHAR?
Ligia: Uma tacinha de vinho ajuda na criação. Dá uma relaxada.
Raúl: Preciso estar tranquilo e em um bom estado de humor. Uma semana
de estresse não é compatível com criação.
4. EM CASA, QUEM COZINHA?
Ligia: Ninguém [risos]. Normalmente, temos só o domingo de folga, então
saímos para comer.
Raúl: Mas às vezes cozinhamos coisas como ovo mexido e um sanduíche.
5. INGREDIENTES BRASILEIROS DO MOMENTO.
Ligia: A semente amburana do Pará. Com ela, preparamos uma manteiga.
Raúl: Em Minas tem a pimenta-de-macaco, também bem especial.
Experimente
Clos de Tapas
R. Domingos Fernandes, 548.
Tel.: (11) 3045-2154
Guarnições
Pérolas de mostarda
Lâmina de salmão
Pão baguete
Folhas de ruqueta
4 gemas de ovos de codorna
Montagem
Dispor a carne numa forma para
steak no fundo de um prato liso
e decorar com as guarnições.
O Clos de Tapas faz parte
do Menu Personnalité:
www.itaupersonnalite.com.br/
Experiência > Menu Personnalité
STEAK TARTAR
DE PATO CEBADO
Ingredientes
1 magret de pato de 400 g
2,5 g de cebola roxa
0,5 g de alho
2 g de picles
1,5 g de pimenta dedo-de-moça
2 g de alcaparras
Pimenta-do-reino preta moída
Quanto basta de sal fino
5 g de mostarda de Dijon
4 gotas de tabasco
10 gotas de molho Perrins
Quanto basta de grãos de mostarda
Modo de preparo
Limpar o magret de gordura,
tendões e pele e cortar em
brunoise. Cortar os legumes em
brunoise muito fina. Juntar a carne
com os temperos numa tigela de
aço inox e misturar bem.
A brasileira Ligia Karazawa e o espanhol Raúl Jiménez têm mais em comum
do que a idade (os dois têm 33 anos). Os chefs dividem a mesma casa
e o mesmo trabalho: o comando da cozinha do Clos de Tapas, endereço
incontornável dentro da alta gastronomia paulistana.
O casamento de ingredientes brasileiros com técnicas da culinária
vanguardista espanhola, além da receita de sucesso, é também uma espécie
de biografia do casal. A brasileira Ligia conheceu o espanhol Raúl enquanto
trabalhavam no celebrado Mugaritz (restaurante do País Basco – Espanha –
considerado o terceiro melhor do mundo pela revista britânica Restaurant).
Os dois já atuaram juntos em outro endereço festejado, o El Celler de
Can Roca (pontuação máxima no Guia Michelin e quarto lugar na lista da
Restaurant), na Espanha. Para completar, Ligia ainda trouxe na bagagem
uma experiência no conceituado elBulli, de Ferran Adrià.
6
7
8.
14 15
cá entrenós
O titã, que morou no Chile na infância, conta como suas viagens por
locais históricos definiram a escolha do próximo destino: a Grécia
por Luiz henrique brandão
_
Sérgio Britto, músico
sonhos
Grécia
PRÓXIMA PARADA
“Assim como a Riviera Maia, a Grécia
reúne arquitetura e belezas naturais. Um
lugar com tanta história... Vai ser a minha
próxima viagem. Quero conhecer o berço
da civilização ocidental.”
divulgação/arquivopessoal/ISTOCKPHOTO
Península de Yucatán, 2012
jornada inesquecível
“Meu pai foi exilado durante a ditadura brasileira.
Por isso, vivi por dez anos no Chile quando era
criança. Lá, pude fazer viagens bacanas pela
América Latina. Conheci, dentre outros destinos,
as catacumbas de Lima e Machu Picchu, ambas
no Peru. A partir daí, comecei a me interessar
por ir a lugares que envolvam não só as belezas
naturais, mas também ricos em história. No
início do ano, fui com minha esposa e meus
dois filhos para a Riviera Maia, na Península de
Yucatán (México). Não conhecia as ruínas maias,
como a cidade de Chichén Itzá (foto). Era uma
vontade antiga. A região oferece opções de
lazer, incluindo parques temáticos para crianças.
Curiosamente, o que meus filhos mais gostaram
foram as ruínas e suas histórias.”
O senhor na imagem ao lado parece um
ermitão. Na verdade, ele é seu Manuel, ou
velho Queco, pai de Araquém Alcântara,
um dos principais fotógrafos de natureza
no mundo. Dificilmente algum brasileiro
ou estrangeiro percorreu tantos cantos
do país quanto o catarinense ao longo dos
44 anos de carreira. A incessante busca
por registros da fauna e flora brasileiras
e a militância ambiental são sua marca.
Araquém soma mais de 40 livros publica-
dos e mais de cem prêmios conquistados
(entre eles, um Jabuti inédito para um
livro de fotografia). Até o próximo ano,
mais dois livros devem ser lançados, e o
filme Amazônia – Planeta verde, dirigido
pelo francês Thierry Ragobert, em que
assume a função de consultor artístico.
Ao clicar seu pai na Jureia (SP), em
1980, Araquém definia o engajamento
ambiental como alicerce de sua carreira.
O retrato é uma imagem de protesto. O
morro da Grajaúna, ao fundo, corria o ris-
co de ter sua imponente beleza destruída
pela construção de duas usinas nucleares.
O mórbido quadro que o velho Queco
segura é a foto de um autor desconhecido
até hoje pelo próprio Araquém. “Foi uma
coisa totalmente mística. Folheava um
livro sobre Hiroshima e, quando achei
essa foto dos esqueletos, tive um insight.
Decidi reproduzir a foto sem meios-tons,
emoldurei, e escolhi meu pai para repre-
sentar os pescadores dali. Eles sabiam
que as usinas eram sinônimo de morte”,
conta. “Com essa foto, eu pude mostrar
ao mundo o primeiro ‘souvenir do apo-
calipse’ por meio das exposições e das
reproduções que essa imagem gerou. É
preciso estar presente no momento cer-
to.” No fim, as usinas não foram erguidas.
Prestígio | Araquém Alcântara
Por Luiz Henrique Brandão
O fotógrafo Araquém Alcântara conta como a foto que fez de seu pai para
protestar contra usinas nucleares iniciou sua militância na questão ambiental
arquivopessoal
_
Causa natural
9.
16
Viajamos pelas estradasde Mendoza, na Argentina, ao lado de Laura
Catena, a herdeira da empresa familiar que produz o melhor vinho
da América do Sul. Médica de formação, ela conseguiu abrir espaço em
um mundo predominantemente masculino e tornou internacional o sonho
do pai: cultivar uvas malbec na Cordilheira dos Andes
telma sobolh observa a comunidade de paraisópolis,
onde trabalha desde 1985
aospésda cordilheira
Por Luciana Lancellotti, de Mendoza Fotos Victor Affaro
estrada no distrito de agrelo, em mendoza, no oeste da
argentina, que leva para a propriedade da família catena,
a principal produtora de vinhos do país
10.
18 19
Personnalité lauracatena
19
Ocaminho para o distrito de Agrelo, no oeste da
Argentina, percorre a típica paisagem árida da região
de Mendoza. Por esses lados, o índice pluviométrico é
baixíssimo, inferior a 200 milímetros anuais, patamar
próximo ao do deserto do Saara. O destino é a Bodega
Catena Zapata, vinícola mais importante do país e uma das
principais da América do Sul. Ao meu lado, no carro, Laura
Catena, representante da quarta geração da família que
revolucionou a viniviticultura argentina.
O inverno pálido confere uma incrível elegância ao
lugar, que se evidencia em discretas camadas cromáticas,
do amarelo-palha ao âmbar. Esses tons também colorem
os vastos parreirais do vinhedo La Pirámide, em Luján de
Cuyo, onde fica a bela vinícola dos Catenas. A construção,
do final dos anos 1990, reproduz uma pirâmide maia,
contrariando o estilo comum a boa parte das vinícolas do
mundo, que emulam modelos arquitetônicos italianos ou
franceses. A referência à cultura mais avançada da América
pré-colombiana homenageia o caráter não europeu e único
do terroir mendocino.
Nós descemos do carro para caminhar pelo solo fofo
onde estão plantadas as videiras. “Olha só, experimente”,
diz Laura ao encontrar um cacho de uvas desidratadas
pelo sol. “Não é bom? É um de meus sabores favoritos”,
prossegue, sorrindo diante de um dos cenários mais
incríveis do planeta: a Cordilheira dos Andes. De
fato, foram as melhores uvas-passas que provei. Não
exatamente pela textura, nesse caso um tanto rígida
e rústica, mas pelo gosto doce que se espalhou na
boca conforme as sementes estalavam ao mastigá-las.
Ainda assim, é provável que o conjunto de recordações
acumuladas desde a infância em um sem-número de
vinhedos deva tornar aquele sabor ainda mais especial
para Laura. Uma espécie de madeleine proustiana, capaz
de despertar as memórias de sua vida e de sua família.
A origem de uma revolução
A tradição vitivinícola da família teve início com a chegada
do italiano Nicolás Catena à Argentina, no fim do século
19. O bisavô de Laura era, então, um jovem imigrante
“quando meu pai
plantou malbec
a 1.500 metros
de altitude
acharam que
estava louco.
mas ele tinha
que tentar”
acima, vista do vinhedo a partir da fachada da La Pirámide,
vinícola que imita a arquitetura maia. na página ao lado,
laura checa os barris da família
Em seu recém-publicado Vinho argentino (208 págs.,
VMF Martins Fontes), Laura Catena faz um mergulho nas
principais regiões viniviticultoras de seu país – Mendoza,
Salta e Patagônia. A autora reuniu informações ao longo
de 15 anos e o resultado, mais do que um documento
com belas fotos, paisagens, personagens, pratos típicos
e vinhedos, é um verdadeiro guia de viagem para quem
pretende desbravar as vinícolas portenhas. Lançado
na 22ª edição da Bienal Internacional do Livro, em São
Paulo, o livro traz ainda um capítulo dedicado à capital,
Buenos Aires, com dicas de restaurantes, cafés e shows
de tango, além de um glossário com termos de enologia.
A edição em inglês, lançada em 2010, recebeu indicações
de veículos como os jornais The New York Times e Wa-
shington Post e as revistas Decanter e Wine Spectator.
_
Livro mapeia
o vinho
argentino
11.
20 21
Personnalité lauracatena
20
Durante o período que passou com a família na
Califórnia, Laura começou a planejar a vida acadêmica.
Quando seu pai decidiu retornar a Mendoza, a filha
ficou. Acabou aceita em Harvard, aos 17 anos, onde se
formaria em biologia. “Foi a parte mais difícil da minha
vida – tanto quis ir para longe de casa que quando me
vi sozinha, em um lugar tão frio e distante, tive medo.”
Estar ali, com profissionais mais experientes, trouxe um
sentimento de desafio. “Percebi como seria difícil me
tornar realmente boa em algo.”
A formação em medicina aconteceu no curso
universitário seguinte, em Stanford, onde se especializou
em emergência. Ainda que a rotina exigisse dedicação
intensa, sobrava tempo para degustar vinhos com o pai,
que a visitava regularmente nos Estados Unidos. “Laura
me surpreendeu quando começou a degustar vinhos de
qualidade internacional”, conta Nicolás. “Sua análise
sobre sabor, aromas e qualidade eram opiniões dignas de
um expert. Fora isso, seu interesse em descobrir a melhor
qualidade entre diversas regiões vitivinícolas do mundo
me pareceu realmente fora do comum.”
Essa busca por um vinho sofisticado e a maneira pela
qual se dedicou às degustações e pesquisas da bebida, ainda
que a medicina lhe tomasse muito tempo, deixavam claro
um traço dos Catena facilmente detectável: a obsessão. “Tem
gente que julga essa obsessão como uma doença”, explica
Laura. “Mas penso diferente. Acho que para triunfar em
algo, seja como médico ou artista, insistir nos detalhes é
fundamental.” A filha de Nicolás despontava como candidata
natural a herdar o comando dos negócios da família.
cheio de sonhos. O primeiro deles se concretizou em 1902,
quando plantou, em Mendoza, a primeira vinha de malbec,
até então utilizada nos vinhos de corte de Bordeaux, na
França. Em 1934, seu filho, Domingo Catena, casou-se com
Angelica Zapata, assumindo a empresa familiar e dando
forte impulso à Bodega Catena Zapata, que atravessou
décadas de êxitos mesclados a fracassos por conta dos
períodos turbulentos da economia do país.
Em 1960, foi a vez do neto, também batizado de Nicolás,
se incorporar à empresa. E foi ele, o pai de Laura, quem deu
origem, na década de 1980, a uma verdadeira revolução na
indústria vitivinícola local, colocando os rótulos e a bebida
argentina no mapa e nas taças de enólogos de todo o mundo.
Para contar essa trajetória, Laura me conduz até a
vinícola, onde o ambiente silencioso recepciona quem chega
com o sutil e inconfundível perfume de carvalho que evolui
a partir das barricas. É ali que começa nossa conversa.
“Meu pai conta que minha avó, Angelica Zapata, não sabia
preparar um café”, diz. “Em compensação, na década de
1930, ela já era diretora de colégio e uma das coisas que
disse a ele, um mês antes de falecer, foi que deveria se tornar
físico e conquistar o Prêmio Nobel.”
O tempo passou e o filho não estudou física nem
conquistou o Nobel. Mas se tornou PhD em economia, foi
cofundador do Centro de Estudos Macroeconômicos da
Argentina e implantou, com uma mistura de teimosia e
conhecimento, a técnica e o estilo que moldaram a indústria
vitivinícola de seu país. Na era pré-Nicolás, o vinho
argentino oferecia baixa qualidade, e a marca mais famosa
até então, produzida pela Bodegas Esmeralda, destinava sua
produção para o mercado interno.
Quando tinha 14 anos, Laura foi morar com a família
em Berkeley, onde o pai ministraria um curso de economia
como professor visitante na Universidade da Califórnia.
Na época, a região na costa oeste americana turbinava
sua indústria vitivinícola, numa tentativa de produzir
rótulos capazes de rivalizar com o olimpo dos enólogos: as
garrafas francesas.
Nicolás passou a estudar os vinhos do Napa e Sonoma
Valley, convencendo-se de que o clima e as terras da região de
Mendoza também podiam gerar uma boa bebida. Ao retornar
à Argentina, em 1983, estava decidido a implantar vinhedos em
grandes altitudes, algo inédito na região. Passou a temporada
seguinte descobrindo e explorando o terroir mendocino.
“Vinhos não são como a medicina”
Por conta das novas ideias, acabou sendo conhecido no
meio como um visionário... ou um doido. “Quando meu
pai plantou malbec pela primeira vez em Tupungato, a
1.500 metros de altitude, todos os cientistas disseram que
não ia funcionar”, diz Laura. “E ele sempre respondeu
que tinha que saber no que ia dar.” Assim, o que no início
parecia loucura, resultou no vinhedo Adrianna, que produz
hoje um vinho com excepcional concentração e estrutura,
permitindo guarda de 20 a 30 anos. “Vinhos não são como a
medicina, que utiliza a ciência precisa”, afirma Laura. “Na
viticultura, a investigação mescla ciência, arte e instinto.”
a partir da esquerda: Nicolás Catena e Laura; o casamento com
daniel mcdermott; ao lado dos filhos; e no hospital onde trabalha
arquivopessoal
divulgação
_
As melhores safras
Uma lista com os cinco principais rótulos produzidos
pelos Catenas e dicas de como harmonizá-los
• Catena Alta Malbec 2008 (Catena Zapata)
Eleito um dos cem melhores vinhos do mundo por três
anos consecutivos pela conceituada revista norte-america-
na Wine Spectator, este vinho, intenso e elegante, é consi-
derado o melhor malbec produzido por Catena Zapata. A
ótima complexidade é raramente encontrada na América
do Sul. Harmoniza muito bem com carnes grelhadas.
• Angelica Zapata Chardonnay 2009
(Catena Zapata)
Elaborado para o mercado interno argentino a partir das
uvas do vinhedo Adrianna, a 1.500 metros de altitude.
Tido como o melhor branco do país, é potente e concen-
trado, com textura macia e leve toque amanteigado. Uma
ótima companhia para peixes, frutos do mar e bacalhau.
• Beso de Dante 2009 (Luca, Laura Catena)
Grande tinto argentino, recebeu 94 pontos da Wine Advo-
cate. Resultado de um corte de malbec (50%), cabernet
sauvignon (40%) e cabernet franc (10%), é um vinho
elegante, com buquê de ervas, frutas pretas e especiarias.
Acompanha bem carnes elaboradas e cordeiro.
• Catena Alta Cabernet Sauvignon 2007
(Catena Zapata)
Encorpado e potente, é provavelmente o melhor cabernet
sauvignon argentino. Um vinho elegante e equilibrado,
produzido apenas em anos excepcionais, com sugestão
de guarda superior a dez anos. Para acompanhar carnes
grelhadas e cordeiro.
• Luca Chardonnay 2009 (Luca, Laura Catena)
Com grande complexidade, vem recebendo consecutiva-
mente 92 pontos da Wine Advocate. Passa por 12 meses
de maturação em barricas de carvalho francês novo e
apresenta notas aromáticas de maçãs, peras e especiarias.
Proporciona ótima harmonização com frutos do mar e
peixes grelhados.
12.
22 23
Personnalité lauracatena
22 na página ao lado, laura caminha pelo solo fofo onde
estão plantadas as videiras da propriedade dos catenas.
A produção rende uma uva-passa doce e de textura rústica
Já como médica residente, Laura, na época com 26
anos, se apaixonou pelo colega norte-americano Daniel
McDermott, com quem se casaria. Os dois se mudariam
de Los Angeles para San Francisco pouco depois. Então,
a argentina passou a conciliar a carreira na medicina com
o comando das exportações dos vinhos Catena para os
Estados Unidos. “Ver o meu pai sair pelo mundo, com um
vinho no qual ninguém acreditava, provocou em mim o
desejo de ajudá-lo”, afirma.
Naquela altura, os nomes Mendoza, malbec e Catena
pouco diziam ao universo do vinho. Foi quando Laura
passou a se dividir entre seu terroir e a Califórnia.
Estudou o desenvolvimento das diferentes cepas nos
vinhedos cultivados em regiões montanhosas – foi ela
quem constatou que a mesma variedade de uva, plantada
em altitudes diferentes, apresenta perfis aromáticos e
parâmetros de qualidade distintos. “Os vinhos argentinos já
foram muito mais rústicos e concentrados”, afirma Manoel
Beato, sommelier do grupo Fasano. “Se hoje eles estão mais
elegantes, sem dúvida é por influência da Laura, que vem
dando continuidade a um trabalho árduo com confiança e
tranquilidade, duas de suas características mais marcantes.”
Nicolás Catena é definitivo: “Laura é a responsável por levar
nossa empresa a uma dimensão internacional”.
ponte aérea
A paixão pela profissão é a mola mestra da rotina intensa
de Laura. Uma rotina dividida entre dois países. Durante a
colheita, que acontece nos meses de fevereiro e março, ela
permanece em Mendoza. O mesmo acontece em agosto,
quando é feito o assemblage – processo que associa vinhos
elaborados a partir de diferentes variedades de uvas de uma
mesma região. No restante do ano, Laura visita a vinícola
em meses alternados e viaja pelo mundo para participar de
eventos e degustações.
A vida com o marido e os três filhos é sediada em San
Francisco, onde Laura dedica ao menos cinco dias por
mês à ala de emergência do setor pediátrico do California
Pacific Medical Center, instituição filiada à Escola de
Medicina da Universidade da Califórnia. “No mundo do
vinho as coisas são um tanto incertas e tudo se desenvolve
a longo prazo”, afirma. “Mas é no hospital, salvando vidas,
que vejo o resultado imediato do meu trabalho e aprendo
mais, principalmente com as crianças, que, por incrível que
pareça, são mais fortes do que os pais.”
Ainda que a influência direta do pai seja decisiva no
trabalho de Laura, a primogênita de Nicolás Catena vem
se destacando com uma filosofia muito particular, fato que
começou a se evidenciar quando decidiu produzir seus
próprios vinhos, utilizando uvas de pequenos produtores
dos vinhedos mais antigos de Mendoza. “Na Bodega Catena
Zapata, sempre usamos uvas dos nossos próprios vinhedos”,
explica. “Mas eu queria experimentar, conhecer o trabalho e
as histórias das famílias produtoras mais antigas da região.”
O resultado dessa investigação deu origem ao rótulo Luca
Wines. O nome homenageia o filho mais velho de Laura.
Além disso, lançou vinhos com as castas malbec, syrah,
chardonnay, pinot noir e Beso de Dante.
A tacada foi certeira. Alguns dos varietais (vinhos
produzidos com um só tipo de uva) vêm conquistando
pontuações superiores a 90 pontos (numa escala que vai até
cem) em veículos de referência internacional como o Wine
Advocate, um relatório bimestral publicado por Robert
Parker, o crítico de vinhos mais influente do mundo. A
revista Wine Spectator chegou a listar o Luca Malbec 2007
entre os top 100 do mundo. “Já faz tempo que o universo do
vinho não é mais tão masculino”, explica o jornalista Jorge
Lucky, colunista do jornal Valor Econômico. “Laura vem se
mostrando muito competente, e a forma como ela comanda
e distribui o trabalho é de tirar o chapéu.”
Por mais recorrente que venha se tornando o feito de
conquistar altas pontuações e aplausos no mundo do vinho,
o sentimento de desafio permanece. “Queremos tanto
nos superar que, às vezes, lamentamos não aproveitar os
triunfos que conseguimos como manda aquela expressão:
smell the roses, cheirar as rosas, desfrutar do momento.”
Hoje, à frente de 700 funcionários, Laura é convicta
quanto ao que chama de Catena Dream. Para ela, trabalhar
com um grupo jovem e apaixonado, instigando-o
diariamente a elevar a qualidade do vinho argentino, é algo
emocionante. “Quero fazer com que trabalhar aqui seja
como estudar em Harvard”, diz. “Algo movido por um fogo
interno. O mesmo fogo que me arrepia sempre que volto de
fora do país para cá.” O sonho de Catena.
“laura fez o
vinhoargentino
deixar de ser
rústico para
se tornar
sofisticado”, diz
manoel beato
13.
24 25
Buenos Airesoferece muito mais do que tango:
com dois dos melhores clubes de jazz do mundo,
bares de música ao vivo com cardápios deliciosos
e uma cena pulsante de novos artistas, a cidade
tem opções para os sete dias da semana
Por Ana Manfrinatto, de Buenos Aires fotos Paula Perrier
25
Jazzy [adjetivo, do inglês]: pertence ao jazz,
“jazzístico”, extravagante, chamativo.
Chamar Buenos Aires de jazzy é vestir a capital
argentina com uma luva sob medida. É defini-la à
perfeição. Importante, histórico, um clichê turístico:
esqueça o tango por um momento. Para respirar a au-
tenticidade cultural e viver noites fervilhantes, visitar
os clubes de jazz é uma opção quase obrigatória. Não
é exagero. A DownBeat Magazine, publicação norte-
americana fundada em 1934, referência internacional
no assunto, listou dois clubes portenhos, Thelonious
e Notorious, entre os melhores do mundo.
Na cidade, sobretudo no bairro de Palermo, é pos-
sível assistir a shows nos sete dias da semana. Buenos
Aires é um tesouro escondido, uma Nova Orleans sul-
americana, um templo, uma igreja em que é possível
se ajoelhar diante do som de mestres como Miles
Davis, John Coltrane, Dizzy Gillespie e Billie Holiday.
Além de uma fartura de novos artistas.
Adrián Iaies, pianista e diretor do Festival In-
ternacional de Jazz de Buenos Aires, explica que a
motivação de um jazzista não é comercial. É religio-
sa. Para ele, o músico escolhe o clube onde toca por
convicção. O público faz o mesmo. São fiéis. A Revista
Personnalité visitou os cinco clubes de maior desta-
que na capital. São locais que oferecem um cardápio
de comidas, bebidas, ragtimes, bebops, hardbops, big
bands e standards. Tudo absolutamente imperdível.
Onde o jazz
nunca dorme
14.
26 27
Virasoro Bar
Oque importa no Virasoro não é a co-
zinha básica, de onde saem pizzas e
sanduíches. Nem a carta de vinhos, com
etiquetas comuns. “O Virasoro é um lugar
para escutar boa música. E ponto”, diz o
contador Alejandro Bassi, 50 anos. Ele
mora na Patagônia, mas costuma visitar o
clube com a mulher, a agente de viagens
Susana Perez, 43. “As outras casas são
um pouco escandalosas, com barulho
de pratos e talheres. Aqui, o ambiente é
intimista, silencioso, menos comercial”,
explica. Susana concorda. “Esse deveria
ser o conceito de um clube de jazz.”
Construído em uma casa art déco
desenhada, nos anos 20, por Alejandro
Virasoro, o principal arquiteto argentino
do estilo, o bar foi aberto em 2001. Exis-
tem apenas 12 mesas em um ambiente
que remete aos bailinhos de garagem.
Marcelo Gutfraind refere-se ao local
como sua segunda casa. Compositor e
guitarrista desde os 17 anos, ele estudou
música na conceituada Berklee College
of Music, em Boston, nos Estados Uni-
dos. Para ele, a cena do jazz na Argentina
não pode ser comparada com a europeia
ou a norte-americana. “Em Buenos Aires
há muitos músicos para poucas casas. As
que existem são boas, mas as condições
para que toquemos, não.” Sua crítica é
dirigida à administração municipal, que
oferece fartura de burocracia para a aber-
tura de espaços culturais. “O governo não
quer que a cultura se expanda”, diz.
Já a razão pela qual ele escolheu ser
residente com o seu Marcelo Gutfraind
Cuarteto – ao lado de Alan Zimmerman,
no piano, Maximilano Kirsner, no contra-
baixo, e Carto Brandan, na bateria – é o
tratamento. “Sou recebido como um mili-
tante da música e não como um reles mú-
sico que vem tocar e receber sua porcen-
tagem da venda de ingressos”, explica.
Thelonious
Por mais habitué que o visitante seja, é
impossível não subir os dois lances de
escada da casa centenária que está na
esquina das ruas Salguero e Güemes,
em Palermo, e não se maravilhar. Ali, no
primeiro andar, está o Thelonious Club,
fundado no ano 2000 pelos irmãos e
músicos Lucas e Ezequiel Cutaia.
Inspirado nos clubes de Nova York,
o Thelonious conserva uma atmosfera
que beira o mágico. Um corredor de
mesas e sofás conduz ao palco. À es-
querda, um bar comprido e, do outro
lado, janelas de 2 metros de altura com
vista para a varanda, com árvores que
tocam o vidro e são tomadas pela ilumi-
nação da rua, cor âmbar.
Teto de tijolo à vista, uma lumi-
nária feita com muitas lâmpadas que
caem sobre os músicos, o tradicional
abajur em cada mesa, cardápio com
bons coquetéis, uma tábua de queijos
gostosinha. Além de ser o cenário ideal
para um primeiro (segundo, terceiro...)
encontro, a casa funciona de quarta a
domingo com uma programação exclu-
sivamente dedicada ao jazz.
Não foi à toa que a revista norte-
americana DownBeat, em março deste
ano, escolheu o Thelonious como um
dos melhores lugares para ouvir jazz
em todo o mundo. “Venho sem consul-
tar a programação. Aqui eu encontro
jazz de excelente qualidade”, afirma o
sociólogo Miguel Murua, 42 anos.
Mais interessado nas condições de
trabalho, o baterista Martín Lambert,
34, comemora o fato de tocar em uma
casa que é reconhecida pelo público e
pela crítica. “O sistema de som é impe-
cável”, conta. O mesmo acontece com
o guitarrista Marcelo Gutfraind, que
admira o tratamento dado aos músicos.
Para ele, tocar no Thelonious significa
se sentir em casa. Músicos no palco,
clientes nos sofás, um manhattan na
mão: a receita de noites inesquecíveis.
“Ao ver
a imagem
de elizeth
cardoso
desejei ser
aquela
mulher”
Virasoro Bar
Guatemala 4.328, Palermo. Funciona de
terça a domingo, a partir das 21 horas.
www.virasorobar.com.ar
Dica: escolha a primeira mesa à esquerda
do palco
Thelonious Club
Salguero 1.884, 1º andar, Palermo. Funciona
de quarta a domingo, a partir das 21 horas.
www.thelonious.com.ar
Dica: sozinho, vale sentar no balcão.
Peça a tábua de queijos
15.
28 29
Café Vinilo
Ascasas do tipo “chorizo” (linguiça,
em castelhano) existem aos montes em
Buenos Aires. São construções do fim do
século 19 onde há um pátio interno com-
prido. Na lateral, cômodo atrás de cômo-
do interligados por uma porta. E é numa
dessas casas, no bairro de Palermo, que
funciona o Café Vinilo. À primeira vista
parece um restaurante charmoso com
pé-direito alto, tijolo à vista, uma vitrola
no canto e um telefone antigo.
A entrada é pelo pátio lateral, com
plantinhas e bancos de mosaico, como
na casa da avó. Os poucos e bons pratos
– saladas, crepes, tortas e sanduíches –,
com gosto caseirinho, são ideais para
quem quer sair de casa, mas continuar se
sentindo nela. “Clube musical e gastronô-
mico” é o slogan do Vinilo.
A sala de espetáculos tem capacidade
para cem pessoas. Verónica Epelman
trabalha no mercado imobiliário, tem 38
anos e frequenta o Café Vinilo desde a
inauguração, em 2009. “Meu marido e eu
vamos pelo menos uma vez por mês. O
ambiente é alegre, nos sentimos em casa.
Da mocinha da bilheteria ao dono, todos
nos conhecem”, diz. Mas não é só o aten-
dimento que faz com que Verónica seja
habitué. Além de jazz, ela é fã de tango e
folclore, ritmos que também fazem parte
da agenda do lugar. “Confio na progra-
mação e venho de olhos fechados”, conta.
Quem também escolheu o Vinilo para
chamar de seu foi Adrián Iaies, pianista
e diretor do Festival Internacional de
Jazz de Buenos Aires. “Aqui na Argen-
tina o músico não vive com o dinheiro
que ganha tocando, mas, sim, gravando
e produzindo. Logo, acaba escolhendo o
clube onde toca por convicção”, diz. “É
uma relação quase religiosa. Você termi-
na elegendo um lugar porque gosta do
camarim, da iluminação, da garçonete, do
dono. O músico deve se sentir em casa.”
Café Vinilo
Gorriti 3.780, Palermo. Funciona segunda,
das 12 às 16 horas, terça a sexta, das 12 as
2 horas, sábado e domingo das 20 horas à
meia-noite.
www.cafevinilo.com.ar
Dica: após o show vá ao restaurante na
parte da frente da casa
16.
30 31
Notorious
Quem atravessaa pracinha que está
na esquina da rua Marcelo T. de Alve-
ar com a avenida Callao, no bairro da
Recoleta, dá de cara com uma pequena
joia: uma vitrine grande e muitos dis-
cos. Música africana, raridades france-
sas, brasileiros notáveis, jazz argentino
e internacional. É aí que se começa a
viver a experiência Notorious.
Como se estar em uma boa loja de
discos não fosse suficiente, um corredor
com mesinhas, que, para quem vê de
fora, parece um ingênuo café, conduz ao
que seria o coração do lugar: uma sala
com capacidade para 90 pessoas e, atrás
dela, “um bem-vindo jardim para jazz ao
ar livre”, como definiu a DownBeat, que
também elegeu o Notorious como um
dos melhores lugares do mundo para se
ouvir o gênero.
É a casa que mais recebe artistas do
exterior. Não à toa, é sede do Festival In-
ternacional de Jazz de Buenos Aires. “No
Notorious o jazz nunca dorme”, afirma
Boris Reith, responsável pela programa-
ção. “Temos shows de domingo a domin-
go e jam sessions gratuitas todas as sextas
e sábados à meia-noite.”
Os números também são generosos
na carta de vinhos: há mais de 40 rótulos
nacionais para acompanhar pratos típi-
cos da cozinha argentina servidos.
Quem é de fora adora. Caetano Velo-
so já foi visto algumas vezes e João Bosco
costuma almoçar por lá. “Vi o Nando Reis
tocando sozinho, banquinho e violão, na
minha frente”, conta a tradutora María
Eugenia Gómez Barbosa, 30 anos.
Nando Reis? Ele mesmo! A casa é
do mesmo grupo da gravadora Random
Records, o maior distribuidor de música
brasileira fora do Brasil, e do programa
Club Brasil, transmitido pela FM Mile-
nium. Tá explicado por que o banheiro
masculino é identificado por um quadri-
nho de Chico Buarque e o feminino, por
um de Bebel Gilberto.
Boris Club
Ele chama a atenção de quem passa
pela altura do número 5.500 da rua
Gorriti, em Palermo. Imponente, ilumi-
nado, moderno. Inaugurado em 2010,
leva o nome do escritor, dramaturgo,
poeta, jornalista, engenheiro e músico
de jazz, o francês multitasking Boris
Vian. Multitasking também é a progra-
mação, que inclui nomes do pop rock
argentino, como David Lebón e Diego
Frenkel, passando pelo trovador David
Blanco. O que não impede que o Boris
Club seja um dos endereços procurados
pelos amantes de jazz na cidade e palco
para grandes bandas, como a Ensamble
Real Book Argentina, uma espécie de
dream team do gênero.
Esteban Sehinkman, 39 anos, encar-
regado dos sintetizadores e arranjos, é
também o líder da big band. Para ele,
que morou em Chicago e pôde conhe-
cer a cena norte-americana, as casas de
jazz de Buenos Aires estão à altura dos
clubes internacionais. O problema é o
número, que não atende à demanda do
público nem dos músicos.
À altura dos clientes exigentes tam-
bém estão a decoração, o sistema de som
e o cardápio. Na casa com capacidade
para 150 pessoas, os músicos, em frente
ao telão, ficam em um palco cercado de
mesas. Essa disposição permite escu-
tar o ruído das teclas do saxofone e do
piano. Do bar, repleto de garrafas em
estantes de vidro de luz, saem tragos
– coquetéis, em castelhano – recomen-
dadíssimos pelo casal Federico Romag-
noli, 32, e Romina García, 33. Enquanto
o funcionário público vai de Suffering
Bastard (bourbon, gin, hortelã e ginger
ale), a designer indica o Bubble Love
(champanhe rosé, morango, laranja e
pimenta-negra) como acompanhamento
ideal para uma noite fria de inverno.
Notorious
Callao 966, Recoleta. Funciona de domingo
a domingo.
www.notorious.com.ar
Dica: a combinação do vinho Saint Felicien
Malbec (Catena Zapata) com “ojo de bife”
é uma ótima pedida
Boris Club
Gorriti 5.568, Palermo. Funciona de terça a
domingo na hora do almoço e jantar.
www.borisclub.com.ar
Dica: o melhor drink é o Suffering Bastard
17.
32 33
Em agostodaquele ano, dois anos antes de morrer,
Jorge Luis Borges veio a São Paulo para uma visita
de dois dias. Deu palestra e entrevista, cantou
milongas e calou Drummond. Aos 84 anos e cego
havia três décadas, viu o Brasil pelos olhos de seu
cicerone, o professor Jorge Schwartz. O autor do
livro Borges no Brasil relembra a curta – e intensa –
intimidade com o maior escritor argentino
Por Jorge Schwartz ilustrações Zé Otávio
1984Borges em São paulo
18.
34 35
Jorge LuisBorges nasceu em Buenos Aires
em 1899. Morreu em Genebra, na Suíça, em
1986, derrotado por um câncer no fígado.
“O mestre da fábula e da fantasia está
morto”, deu no New York Times. Filho de
um advogado com aspirações literárias,
Borges acumulou leituras ainda menino,
garimpando desde os 3 anos a biblioteca
do pai. Adolescente, viveu com a família na
Suíça. Na volta ao país natal, aos 22 anos,
desovou a experiência europeia em contos.
Publicou peças fundamentais da literatura
mundial, como as coletâneas O Aleph e
Ficções, recebendo a chancela de “o maior
escritor argentino” (provavelmente, o maior
latino-americano, numa disputa pena a
pena com Machado de Assis).
Nunca recebeu um Nobel. Sobre isso,
primeiro disse: “Minha obra não precisa
de prêmios. O tempo é curto, e eu sou um
poeta velho e cego, como Homero, que não
ganhou prêmios em sua vida”. Mas depois:
“Um Nobel me deixaria morrer satisfeito”.
Por fim: “Eu não mereço esse prêmio. Os
suecos [que concedem a premiação] são
muito sensatos. O Nobel foi recebido por
Gide, Kipling, Faulkner, Juan Ramón Jimé-
nez... Quem sou eu? Agora, que passei dos
80 anos e sei que não vou mais recebê-lo,
finalmente posso ficar tranquilo”.
Foi ensaísta, diretor de biblioteca, crítico
e tradutor. Na maior parte da vida, residiu
no sexto andar do edifício 994 da rua Mai-
pú. Ali, recebeu fãs, deu entrevistas e ficou
cego. Isso em 1955, num processo gradual
de perda da visão que tomou uma década.
Com essa condição, tornou-se dependente
da mãe, de empregados e das companhei-
ras (entre elas, a última, María Kodama)
para ouvir os textos que gostaria de ler,
para escrever os contos que inventava.
O convite
A vinda de Borges a São Paulo não estava prevista.
Havia, sim, uma palestra agendada, na Universidade Federal de Santa Catarina,
que foi suspensa por uma greve. Ao me inteirar da interrupção das atividades, con-
sultei o anfitrião, o professor Raúl Antelo, para saber se haveria possibilidade de
transferi-la para São Paulo. Dado o sinal verde, telefonei para Borges (quem me deu
o número do apartamento da calle Maipú, em Buenos Aires, a mítica residência
do escritor, foi Emir Rodríguez Monegal, seu melhor biógrafo).
Borges é literatura por excelência. Difícil imaginar que ele pudesse responder a
viva voce a um telefonema. Para minha enorme surpresa, quem atendeu foi o pró-
prio. Apresentei-me, disse que era um estudioso de sua obra, e perguntei se estaria
disposto a vir a São Paulo, visto que o evento em Florianópolis fora cancelado. A
esposa de Borges, María Kodama, que estava naquele momento ao seu lado, confir-
mou de imediato a agenda. Borges pediu apenas que, no hotel em que ficaria hos-
pedado, tivesse “um banheiro previsto para uma pessoa cega”.
Foi o que ele disse, e dessa forma, no único telefonema que lhe fiz.
1
à esquerda, borges e maría kodama se despedem do brasil na
pista do aeroporto internacional de guarulhos. acima, Jorge
Schwartz e borges numa suíte do hotel maksoud plaza
RenatodosAnjos/Folhapress
divulgação
19.
36 37
“Ao pisarno apartamento do escritor o
desapontamento foi imediato”, relembra
Augusto Massi. “Sentado à mesa, um
guardanapo branco pendurado no pes-
coço protegia o paletó cinza, ele tomava
leite com Sucrilhos... Diante de tudo que
a imaginação havia me prometido, aque-
la cena revelava um aspecto extrema-
mente prosaico. Depois, o mundo voltou
a adquirir um contorno fantástico.”
“Em 1970, eu era coordenador de um
instituto de ensino conhecido como su-
pletivo, na época, madureza”, conta Ban-
tim. “Um dos professores de espanhol
tornou-se amigo do secretário de Borges
e veio nos perguntar se gostaríamos que
o escritor fizesse uma palestra na escola.
Tratamos de organizar a palestra. Audi-
tório cheio, Borges falou generalidades
sobre literatura. Então, se propôs a res-
ponder a perguntas. Quando um aluno
não muito brilhante levantou a mão, nós
ficamos em pânico. ‘Aí vem bobagem’,
pensei. Eis que o aluno perguntou para
Borges o seguinte: o que ele que achava
da coragem! Borges sorriu e falou pelo
resto da noite.”
Nos anos 1940, Borges viera ao Brasil
e aqui permaneceu por dez dias. Em
Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande
do Sul, testemunhou uma cena que ja-
mais esqueceu, relembrada ao repórter
Alessandro Porro: “Vi um homem matar
outro. Assim: o reluzir de uma faca diante
dos meus olhos, e um corpo cair sem
gritos. Era a morte, em toda a sua essên-
cia, como um documento. No momento,
aceitei a cena sem turbamento, como um
fato natural. Lembro que foi uma briga
entre um negro e um branco, e o branco
morreu. Mais tarde, sempre que pensei
na morte, vi aquele episódio que teria
preferido não ter visto. Tão real, tão frio,
tirava da morte todo o seu indescritível
mistério. Fosse cego àquela época, teria
escutado o tombo do corpo e teria ima-
ginado a morte. Mas assim, vendo, eu
possuía apenas o registro insípido de um
momento extraordinário. E nada mais”.
JORGES
Comecei a pensar em qual seria a melhor estratégia para fazer de sua vinda um
evento digno de sua importância. Convidei Augusto Massi, que se formara na gra-
duação na área de espanhol e que, na época, era editor de livros na Folha de S.Paulo.
Massi não apenas aceitou como teve a delicadeza de ir a Buenos Aires para
acompanhá-lo na viagem ao Brasil.
Assim chegaram os três, Massi, María Kodama e Borges, ao aeroporto de Congonhas.
Eram 22h30 de 12 de agosto de 1984, uns dias antes do 85º aniversário de Borges. Ao
entrarmos no carro, me apresentei. Borges deteve-se na etimologia do meu nome,
uma vez que coincidia com o dele. Buscou na memória a origem de nossos Jorges,
chegando então às Geórgicas, a imensa obra em que o poeta romano Virgílio se de-
bruçava sobre a vida rural. Era perceptível que Borges habitava um cotidiano dentro
de um universo mental literário. Um universo presente a todo momento. Mais tarde
naquela viagem, durante uma palestra, o escritor diria ter sido iniciado nesse mundo
de leituras, sentidos e palavras aos 3 anos: “Tenho a impressão de não haver saído
nunca da biblioteca de meu pai, à qual devo tanto, talvez tudo...”.
BORGES NA MADUREZA
Agosto de 1984 foi a última vinda de Borges ao Brasil, a segunda a São Paulo; a ante-
rior ocorrera em 1970, para receber o Prêmio Interamericano de Literatura, criado
por Francisco Matarazzo Sobrinho. Aceitou assim um cheque de US$ 25 mil, das
mãos do próprio Ciccillo (o apelido de Matarazzo). Naquela viagem, hoje esquecida
um pouco pelo tempo, Borges curiosamente visitara o Curso de Madureza Santa Inês
(!), em São Paulo. Não fosse o registro fotográfico, diríamos que não passou de uma
ficção borgiana. Ele veio acompanhado nessa ocasião pelo tradutor Norman Thomas
Di Giovanni e, na mesa da palestra no Curso Santa Inês, encontravam-se, entre ou-
tros, o editor José Bantim Duarte e o ensaísta Antônio Medina Rodrigues.
BORGES COM ESCRÚPULOS
A viagem a São Paulo em 1984 foi programada exatamente para dois dias, uma vez
que, logo após o retorno a Buenos Aires, Borges tinha agendada com seu médico
uma consulta que não podia ser protelada. Um ano mais tarde seria diagnosticado o
câncer de fígado, que o levaria à morte, em Genebra, em 14 de junho de 1986.
Foi montada uma estratégia. A Universidade de São Paulo não mostrou interes-
se especial pela presença de Borges – e essa foi uma das razões de não ter sido dada
nenhuma palestra na Cidade Universitária da USP. O empresário Henry Maksoud
ofereceu três quartos em seu elegante hotel na região da avenida Paulista: para
Borges, para María Kodama e para mim, já que seriam dois dias intensos, dedicados
integralmente à sua presença. Era comovedor ver María, com a delicadeza com que
sempre o tratou, descrevendo-lhe os espaços pelos quais circulavam. Até mesmo
ajudando Borges a “enxergar” a vista panorâmica do elevador do hall interno
do Maksoud Plaza.
Os três cafés da manhã foram um verdadeiro acontecimento. Curiosamente,
Borges preferia descer até o restaurante do Maksoud a tomar o café no quarto. Lá,
já estavam amigos e colegas, convidados de antemão, muito atentos, muito excita-
dos, para de alguma maneira participar de sua conversa. Houve um episódio mais
do que interessante. Borges pediu chá “com um escrúpulo de leite”. Pensamos não
ter ouvido direito. O estupor causado pela frase fez com que Borges explicasse,
com enorme simplicidade, que essa palavra, “escrúpulo”, era usada pelos alqui-
mistas medievais para medir os elementos, mas que, na atualidade, não ficara mais
nada além do seu sentido metafórico. (Pesquisando, mais tarde, de fato confirmei
que se tratava, na Idade Média, de uma medida de peso.) Foi assim que se tornou
possível compartilhar de forma mais íntima, e sempre surpreendente, da presença
do maior escritor argentino.
divulgação
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4
“Borges era simpático, polido e gostava
de declamar”, recorda Augusto Massi,
na época com 25 anos. “No Maksoud,
estávamos descendo um daqueles eleva-
dores panorâmicos do hotel. De repente,
ele começa a cantarolar uma de suas
milongas: ‘Me acuerdo. Fue em Balva-
nera/ En una noche lejana/ Que alguien
dejó caer el nombre/ De um tal Jacinto
Chiclana’. Em outra ocasião, fui buscá-lo
para que concedesse a sua primeira en-
trevista coletiva. A porta do quarto esta-
va levemente aberta. Parecia não haver
ninguém. Mas, assim que entrei, o quarto
quase completamente escuro, pude ver
Borges sentado, segurando sua bengala,
recitando: ‘Na mão de Deus, na sua mão
direita,/ descansou afinal meu coração...’,
versos do português Antero de Quental
[1842-1891].”
acima, borges conversa, durante uma coletiva de imprensa no
maksoud plaza, com o editor augusto massi, destacado por
jorge schwartz para buscar o escritor em buenos aires
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20.
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DRUMMOND SEMPALAVRAS
A primeira apresentação pública ocorreu no auditório da Folha de S. Paulo, que de
alguma maneira patrocinou a vinda de Borges e de María Kodama e encampou o
evento do ponto de vista jornalístico. Borges, que sempre foi avesso ao surrealismo,
estava no centro de um happening que poderia ser chamado surrealista.
O estacionamento interno da Folha foi utilizado como auditório, lotadíssimo
de pessoas. Os entrevistadores éramos Caio Túlio Costa, Davi Arrigucci Jr., Raúl
Antelo, Augusto Massi e eu. Literalmente, o que era para ser um diálogo com um
escritor cego virou, por questões acústicas, um diálogo de surdos. A ressonância, os
caminhões estacionando e as impressoras rotativas impediram quase totalmente a
audição. Mesmo assim, a presença mágica de Borges transformou o evento em algo
memorável. Vê-lo era uma felicidade quase maior do que ouvi-lo. Assistir a Moisés
descendo do Monte Sinai com as Tábuas da Lei não poderia ter tido maior efeito!
A segunda apresentação (que deveria ter acontecido na USP) foi realizada no
Masp. Pietro Maria Bardi, diretor do museu, aceitou de imediato sediar o evento. O
grande auditório lotou, muitas pessoas que não conseguiram entrar ficaram iradas,
até o professor Bardi mandar cerrar a cortina metálica da escadaria do museu, para
poder dar início à palestra. As perguntas foram todas solicitadas antecipadamente.
Lembro, ainda hoje, o que Carlos Drummond de Andrade me disse ao telefone: “Fico
desvanecido com o convite, mas não tenho nada a perguntar ao Borges”.
O evento foi pouco menos que extraordinário. Borges respondeu a todas as
questões com a maior paciência. Em momento algum mostrou estar cansado ou in-
quieto. No final da apresentação, o professor Rui Coelho, então diretor da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ofereceu-lhe um exemplar da pri-
meira edição de Os sertões, de Euclides da Cunha, da coleção de José Mindlin. Borges
abraçou o volume e abriu um sorriso. O mais largo de toda a sua estada.
“Borges foi recebido como um músico
pop”, afirma Massi. “Na chegada a Con-
gonhas, não havia nenhum esquema
de escolta. Ele desembarcou de cadeira
de rodas, tinha problemas de circula-
ção após ficar muito tempo sentado.
No caminho até o taxi, uma multidão
avançou sobre ele. María Kodama e eu
ficamos assustados. Outra situação de
risco aconteceu no auditório do Masp.
Deveríamos ter entrado pelos fundos do
museu e saído diretamente no palco. Mas
o esquema também não funcionou. Tive-
mos que ingressar como qualquer pessoa
da plateia. Dá até vergonha de lembrar.
Descemos todos aqueles degraus até
chegarmos ao palco. As pessoas queriam
tocá-lo, o puxavam pelo terno, gritavam
coisas no seu ouvido. Hoje me dou conta
de como éramos amadores. Mas, no fim,
tudo deu certo. Ele, por sua vez, nunca
perdeu a fleuma.”
Massi conta que Borges era espirituoso:
“Durante o almoço na Folha, ele pergun-
tou como Getúlio Vargas havia se mata-
do. Na sequência, fez o seguinte comen-
tário: ‘Um balaço no peito? Bom, penso
que um balaço na boca é muito mais
seguro’. E depois de gravar uma longa
entrevista para a televisão, na boate do
Maksoud, a 150 Night Club, comentou:
‘O Brasil foi o único país que conseguiu
me levar a um night club’. Hoje, passados
quase 30 anos, a ideia de que eu trouxe
Jorge Luis Borges ao Brasil me parece
um pouco borgiana. Ele continua sendo
Borges, eu pareço um intruso”.
5
na página ao lado, caio túlio costa, maría kodama, raúl antelo,
borges, schwartz e davi arrigucci jr. no debate da folha. acima,
o escritor em companhia de maria kodama é cercado pelo público
JorgeAraújo/Folhapress
REGINALDOMANENTE/AGENCIAESTADO
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21.
40 41
LAURA CATENApergunta:
CACÁ DIEGUES responde:
Não há razão para isso não acontecer. Os filmes brasileiros, argentinos,
cubanos, chilenos e mexicanos já se impuseram mundialmente por suas
qualidades tématicas e técnicas. Alguns têm sido premiados nos festivais
internacionais. Nem todos chegam ao mercado comercial, mas esse
é um fenômeno mundial que não acontece só com nossos filmes: cada vez
mais filmes são feitos e as salas não se multiplicam.
O cinema sul-
americano compete
com o que
há de
melhor
no
mundo?
22.
Por Maria LuciaRangel, do Rio de Janeiro Fotos Marcelo Correa
Aos 72 anos,
Cacá Diegues, o
fundador do Cinema
Novo e diretor do
clássico Bye bye Brasil,
conta por que decidiu
voltar a filmar: “Se isso
sair da minha vida, viro
um débil mental”
43
CINEMA
DE
NOVO
23.
44 45
Personnalité cacádiegues
45
Em 1979, entrevistei Cacá Diegues para o Caderno B do
Jornal do Brasil. O diretor tinha 40 anos e acabara de
filmar o clássico Bye bye Brasil quando disse: “Recuso-me a
perenizar a minha adolescência. Acho, aliás, que o grande
problema do cinema brasileiro hoje é de jovens cineastas.
Está na hora, de uma vez por todas, de criar condições para
que esses jovens cineastas comecem a fazer filmes”.
Trinta e três anos depois, reencontro um dos fundadores
do Cinema Novo (com o filme 5x Favela, de 1962) para uma
conversa em seu apartamento no Rio de Janeiro. Nesse in-
tervalo, Cacá dirigiu títulos como Dias melhores virão (1989),
Veja esta canção (1994), Tieta do agreste (1996), Deus é bra-
sileiro (2003) e O maior amor do mundo (2006). Mais recen-
temente, escreveu um livro de memórias que lhe consumiu
cinco anos e deve ser lançado em 2013 (o cineasta selecio-
nou trechos, apresentados ao longo da entrevista).
Nesta conversa, Cacá Diegues fez um balanço de sua
trajetória. Ele afirmou, por exemplo, que deve ao cinema
tudo o que sabe. “Se sair da minha vida viro um débil men-
tal”, diz. Até por isso, agora, aos 72 anos, o diretor planeja
um retorno à tela grande. Está prestes a realizar o sonho
antigo de filmar O grande circo místico, baseado no poema
de Jorge de Lima (1893-1953), para ele o maior poeta da
língua portuguesa. Será seu 17º longa-metragem.
Cacá não esconde que vive uma fase feliz. Mudou de
casa – voltou a morar de frente para o mar –, está casado
desde 1981 com Renata de Almeida Magalhães, que conhe-
ceu num set de filmagem e hoje é sua produtora, os filhos
vão bem e, entre os netos, a mais nova, Flora, o surpreen-
deu ao anunciar que deseja fazer cinema.
O diretor também vive dias de bem com o país. Para ele,
as patrulhas ideológicas ficaram no passado. O termo foi
uma brincadeira inventada por Diegues quando o Brasil co-
meçou a se democratizar: “As pessoas, em vez de usar essa
liberdade, ficavam se castrando, se policiando, se patru-
lhando”, conta rindo. “Não sou cientista político, mas esses
últimos 20 anos foram os 20 anos de ouro na história da
república brasileira. Nunca tivemos um período tão liberal
e tão democrático tão longo. As coisas, mesmo não dando
certo na velocidade que gostaríamos, estão dando certo.”
O que o levou a escrever um livro de memórias?
Cinco anos atrás a editora Objetiva fez o contato comigo.
Queriam que eu escrevesse umas memórias não muito pes-
soais – não gosto de falar de mim – mas sobre minha relação
com o cinema brasileiro, o que vi acontecer como partici-
1. com a equipe de ganga zumba (1963). 2. cacá em 1969, quando
filmou os herdeiros. 3. dirigindo chuvas de verão (1978). 4. com o
elenco de 5x favela (1962). 5. ao lado da atriz parisiense jeanne
moreau, na locação de joanna francesa (1973)
pante, como protagonista, como coadjuvante e como ciné-
filo. Comecei a trabalhar e cheguei a mais de 800 páginas...
E aí não dá, né? Ninguém compra um livro de 800 páginas.
No momento estou reduzindo. Deve ser lançado em mea-
dos do ano que vem. Está com o título provisório de Meu
almanaque íntimo do cinema brasileiro.
Você começa o livro em Maceió?
Tem uma parte lá, sim. Explico quem é minha família e o
ambiente cultural de onde vim. Falo muito do meu pai – o
antropólogo e sociólogo Manuel Diegues Junior. O cen-
tenário dele é comemorado este ano. Toda minha família
está lá. Como minha mãe odiava o Rio, achava a cidade
muito violenta, agitada, com muita gente na rua – imagi-
ne, naquela época! – voltávamos a Maceió nas férias. Mi-
nha infância, até os 14, 15 anos, foi passada lá. Enquanto o
Rio era o lugar da prisão, do Colégio Santo Inácio, de não
poder sair porque minha mãe não deixava, Maceió era
outra coisa: era a liberdade.
As famílias de meu pai e de minha mãe são
de Alagoas. Meus pais e os quatro filhos – sou o
segundo – morávamos em Maceió, até que meu
pai foi convidado a trocar a cidade pelo Rio de
Janeiro, então a capital do país. Cheguei muito
jovem, tinha apenas seis anos. Durante toda a
“entre fazer
e ver filmes,
prefiro ver.
tudo o que sei
aprendi com o
cinema”
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3
arquivopessoal
24.
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cacá dieguesPersonnalité
minhainfância e adolescência, retornávamos
até Maceió para as férias de verão. Depois disso,
já casado e com filhos, voltei em várias outras
ocasiões relacionadas a compromissos familia-
res ou algum lazer. E, mais tarde, para filmar Bye
bye Brasil e Deus é brasileiro. Mesmo morando
definitivamente no Rio, a casa de meus pais vivia
impregnada do espírito de Alagoas, seus perso-
nagens, histórias, fofocas, costumes e cultura,
como se ainda estivéssemos em Maceió. (Trecho
de Meu almanaque íntimo do cinema brasileiro.)
O livro se fixa nas lembranças mais marcantes?
O melhor período da minha vida foi o do Cinema Novo.
Digo isso sentimentalmente, e não em termos de amores,
mas de vida, como cidadão. Tinha 17, 18 anos, quando en-
contrei aquelas pessoas que tinham o mesmo sonho que
eu. Conheci Glauber [Rocha] com 18 anos. [Luiz Carlos]
Barreto e David [Neves] logo depois. Eu adorava cinema,
fazia caderno com ficha técnica, crítica do que tinha achado
do filme, tinha uma grande obsessão por aquele mundo,
mas, confesso, nunca me acorreu que podia ser cineasta. Só
quando conheci essas pessoas com o mesmo sonho.
Você cursou direito na PUC, foi presidente do Diretório
Estudantil, fundou um cineclube e começou a fazer ci-
nema amador na época de faculdade. Mas era jornalista
também, diretor do jornal de estudantes O Metropolita-
no. Por que jornalismo?
Adoro jornalismo. De certo modo, pratico até hoje. O Metro-
politano foi em 1959 e o jornalismo para mim era uma coisa
paralela. Naquela época a universidade era o centro cultural
do país. Os acontecimentos se passavam nela, como a bossa
nova e o cineclube da PUC, que eu fundei. Começamos a
nos encontrar na cinemateca do Museu de Arte Moderna,
dirigido pelo crítico de cinema Moniz Vianna. Sentávamos
Paulo Perdigão, José Carlos Avellar, Sérgio Augusto, David
Neves, Arnaldo Jabor. Acho que foi o período mais solar
da minha vida. A gente passava o dia inteiro falando sobre
cinema, pelo menos umas dez pessoas, andando pra cima e
pra baixo, achando que iríamos mudar o mundo com nosso
cinema. Isso durou até 1968, quando a barra política militar
pesou e a gente começou a se distanciar e a viajar. Saí do
Brasil, o Glauber e o Ruy Guerra também. Mas até 1968 – eu
tinha 28 anos – foram dez anos muito solares.
Vocês podem não ter mudado o mundo, mas não acha
que mudaram o Brasil?
Tenho certeza disso. Descobrimos que o cinema não mudava
o mundo, mas mudava a maneira de ver o mundo. Depois do
Cinema Novo o Brasil não poderia mais ser o mesmo. É um
marco cultural que está aí, como o Modernismo, a música
de Villa-Lobos, a bossa nova, o time brasileiro de 1970, Pelé,
coisas que marcaram a alma brasileira. Não quero reproduzir
isso, nem é o caso, pois é uma coisa de 50 anos atrás. Mas me
lembro que escrevi um artigo muito triste naquela época, em
que dizia que a metralhadora é mais poderosa do que a câme-
ra, mas a câmera é que iria mudar o jeito de ver o mundo.
Um dos maiores equívocos, entre tantos
outros criados a propósito do Cinema Novo, é o
de pensar que não tínhamos nenhum interesse
pela técnica cinematográfica, que não nos in-
comodávamos com ela. Muito pelo contrário,
foi o Cinema Novo brasileiro que introduziu a
moderna tecnologia audiovisual no Brasil e na
América Latina, a partir do início dos anos 1960.
Assim como sem os modernos microfones mais
sensíveis não haveria bossa nova, sem o negativo
Tri-X e as câmeras europeias não haveria Cine-
ma Novo. (Trecho de Meu almanaque íntimo do
cinema brasileiro.)
Reproduzir aquela época é impossível, mas houve algu-
ma coisa dessa vontade de mudar o mundo quando você
criou e produziu em 2010 o 5x Favela – Agora por nós
mesmos, um projeto que se originou de um filme seu de
1962 e que é considerado fundador do Cinema Novo?
Esse projeto é um grande sucesso, felizmente. Eu sabia que
estava assistindo – e estou ainda – ao nascimento da primei-
ra geração de cineastas moradores de favela. O filme não só
foi um prazer pessoal grande, porque estava lidando com
jovens cineastas, com ideias novas, e você sabe como isso
me rejuvenesceu. Ao mesmo tempo ele fechou um ciclo,
mostrando que o cinema brasileiro existiu durante todo
esse tempo – e está aqui o que liga uma coisa a outra.
Os cineastas o procuraram? Em antigas entrevistas
você diz que conhecia bem a cidade, zona sul e zona
norte, até porque começou filmando na zona norte.
E agora descobriu o morro.
“descobri
que o cinema
não muda
o mundo, mas
muda, sim,
a maneira de
vê-lo”
25.
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Personnalité cacádiegues
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Não, fui eu que decidi fazer. No final dos anos 80, início
dos 90, quando começaram a se formar esses coletivos de
favela, AfroReggae, Cufa [Central Única das Favelas], Nós do
Morro, me chamaram para dar aula de cinema. Pensava que
encontraria um bando de ignorantes. Mas na primeira aula,
na Cufa, deparei com 120 meninos inscritos, o que já foi
uma emoção, e 15% deles já tinham feito um filme com ce-
lular ou smartphone. A primeira aula foi sobre o filme deles.
Conversando com Renata [Magalhães, mulher e produtora de
Cacá], pensamos no projeto 5x Favela. Montamos um esque-
ma, criamos oficinas, mas foi um filme concebido, escrito e
realizado por eles. Estou felicíssimo porque eles entraram
no mercado de trabalho: televisão, publicidade e cinema. Eu
conto isso nas memórias.
E agora, com O grande circo místico, você volta ao cine-
ma depois de seis anos. Seu último longa de ficção foi O
maior amor do mundo, de 2006.
É. Vou voltar a fazer cinema [risos]. Fiz documentários nes-
se período, como Nenhum motivo explica a guerra [2006],
a história do grupo cultural AfroReggae, formado na favela
carioca de Vigário Geral depois da chacina de 1993. E termi-
nei agora [o curta] A cidade em trânsito, sobre a passagem
do Rio de Janeiro violento para o pacificado. O circo místico,
baseado no poema de Jorge de Lima [1893-1953], é um velho
sonho. Sou doido pelo Jorge de Lima, é meu poeta preferido.
Usarei a trilha de Chico Buarque e Edu Lobo, mas não farei
um musical. Já tenho dois atores confirmados, Lázaro Ramos
e João Miguel. Vou precisar de intérpretes estrangeiros para
encarnar o mágico francês e a imperatriz austríaca. O filme
será uma coprodução com Portugal e França.
Do que você gosta no que tem sido feito no cinema no
Brasil e no exterior ultimamente?
Fiquei muito emocionado quando abri o jornal e vi a relação
dos filmes brasileiros escolhidos para o Festival do Rio. Tiran-
do o Domingos de Oliveira e o José Eduardo Belmonte, são
todos estreantes. Isso é uma prova da permanência do cinema
brasileiro. São gerações que se revezam, vindas de várias re-
giões. O Cinema Novo não passava de uma dúzia de pessoas.
Que diretores e filmes mais recentes você destacaria?
Transeunte, de Eryk Rocha, filho do Glauber, belíssimo.
Eryk é totalmente diferente do pai, mas tem o talento de um
cineasta. Ele faz um cinema delicado.
em sentido horário, a partir do alto: durante divulgação de
xica da silva em 1976; gravação de um trem para as estrelas, de
1987; no caminhão caravana rolidei de bye bye brasil, em 1979
_
“O dia em que Cacá me
apresentou Glauber Rocha”
Por Maria Lucia Rangel
Aquela noite no Antonio’s foi especial. Eu ia muito ao
restaurante do Leblon frequentado por Vinicius de Moraes,
Tom Jobim, Tônia Carrero, Rubem Braga, Fernando Sabino e
toda a fauna ipanemense. Mas naquela data, era 1976, logo
que pisei na varanda vi o casal Nara Leão e Cacá Diegues
sentado com Glauber Rocha, recém-chegado de um exílio
de cinco anos. Só conhecia o diretor de Terra em transe de
nome e fotografia. Fui falar com Nara e Cacá e ouvi Glauber
pedindo a ele: “Me apresenta”.
No ano seguinte, quando fiz minha primeira entrevis-
ta com Glauber para o Caderno B, do Jornal do Brasil, já
éramos grandes amigos. Ainda transtornado com a morte
trágica da irmã, Anecy, não conseguira vibrar nem com
o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes por seu
curta-metragem Di Cavalcanti, filmado durante o velório do
pintor. Em pé de guerra com a esquerda, a direita e o cen-
tro, ele mandou ver: “As pessoas que combatem o regime
militar não merecem o meu respeito”. Os únicos amigos
que entenderam e respeitaram sua surpreendente posição
foram Cacá e o jornalista Zuenir Ventura.
Com Zuenir, passei uma madrugada acompanhando
Glauber em interrogatórios ao porteiro e vizinhos do prédio
onde Anecy caíra no poço do elevador. O próprio Glauber
conta essa história no livro Riverão Sussuarana, nos tratan-
do pelas iniciais Z.V. e M.L.R. Sentados na beira da calçada
da rua em Botafogo, lá pelas três da manhã, Zuenir pediu
arrego: “Vamos embora porque o Glauber está quase nos
convencendo que a Anecy foi assassinada”.
No dia do enterro de Di Cavalcanti, Glauber me ligou
cedo para contar que tinha conseguido alguns filmes com
Mário Carneiro e iria fazer um documentário. À primeira
exibição na TVE ele assistiu comigo, já que não tinha tele-
visão em casa. E não se conformou quando a filha adotiva
de Di, Elizabeth, proibiu na Justiça a exibição do filme por
considerá-lo ofensivo.
Nem sei mais quantas entrevistas depois, ele me convidou
para atuar em seu último filme, Idade da Terra (1980). “Eu
escrevo um papel pra você”, insistiu. Não aceitei. Era apenas
uma repórter. Me arrependi.
arquivopessoal
26.
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Personnalité cacádiegues
Nas memórias, você fala de sua experiência de morar
na Europa?
Conto várias coisas, como meu encontro com Truffaut.
Foi muito importante. Eu o adorava. Almoçamos naquele
restaurante, Val d´Isère, na Rue de Berri, em Paris, onde ele
filmou a cena final de La Peau Douce [Um só pecado, 1964].
Falo também da última vez em que vi Glauber. Em junho de
1981, dois meses antes de ele morrer, fui a Sintra, em Portu-
gal, tentar trazê-lo de volta ao Brasil. Glauber já estava mui-
to doente. Passamos quatro dias juntos. Foi uma coisa ina-
creditável. Glauber era um homem extraordinário, com um
amor imenso pelo Brasil, pelo Cinema Novo e pelos amigos.
Falávamos sempre por telefone. Glauber era muito amigo
do Raphael de Almeida Magalhães, pai da Renata, minha
mulher. Chegou a convidá-lo para o papel de Paulo Martins
em Terra em transe; Raphael até aceitou, mas Mitzi, mãe
da Renata, não deixou. Pouca gente sabe, mas o jornalista
Jânio de Freitas e Tom Jobim também foram sondados para
esse papel, que acabou entregue a Jardel Filho.
No dia 20 de agosto, eu estava em Maceió, par-
ticipando de um seminário sobre Palmares, orga-
nizado pelo [historiador e jornalista] Décio Freitas,
quando recebi um telefonema do [diplomata] Cel-
so Amorim. Glauber estava com septicemia gene-
ralizada [causada por uma broncopneumonia] e ia
embarcar imediatamente para o Brasil, em estado
semiconsciente. Era melhor eu voltar para o Rio,
o mais depressa possível. Ainda cheguei a tempo
de vê-lo pela última vez, num momento em que o
doutor Pedro Henrique Paiva julgou conveniente
deixar-nos entrar no quarto do hospital, para nos
despedirmos dele. Glauber me olhou com os olhos
semiabertos, certamente sem plena consciência
do que estava acontecendo. Ele tentou sorrir e me
chamou de “mestre”, como costumava fazer quan-
do queria agradar alguém, com uma voz lenta e
baixinha, de cansaço infinito. Tinha 42 anos e era
o melhor de todos nós. (Trecho de Meu almana-
que íntimo do cinema brasileiro.)
Você prefere repetir parcerias quando filma, trabalhar
com os mesmos profissionais, como o Woody Allen?
Eu diria que gosto de trabalhar com meus amigos. Dá mais
certo. Você tem não só a dedicação profissional mas tam-
bém os laços sentimentais. Agora, também gosto de traba-
lhar com gente mais jovem do que eu. Isso me rejuvenesce.
Afonso Beato, por exemplo, foi produtor, com David Neves,
do meu primeiro curta-metragem, chamado Domingo
[1961], mas depois foi trabalhar como diretor de fotogra-
fia nos Estados Unidos e na Europa. Quando ele voltou,
peguei-o para fotografar Orfeu, em 1999. Em O circo místico
vou trabalhar com Gustavo Hadba, que foi câmera do Afon-
so, inclusive nos filmes que fizemos juntos.
Os filmes de estrada são uma constante em sua filmo-
grafia. É pelo tamanho do Brasil? O que você gosta ne-
les? O grande circo místico também será assim?
Será um pouco de estrada, sim. Gosto de filmes de estrada,
não só pelo tamanho do Brasil, mas porque eles permitem
falar de várias coisas. O importante não é o leito da estrada,
mas o que está ao lado. Não sou um romancista, mas um
contista. Então, meus filmes têm sempre uma espécie de
estrutura coral, com várias vozes. E o filme de estrada é
muito próximo disso. Nele você pode perfeitamente falar
de um personagem que aparece só cinco minutos e depois
vai embora. Mesmo um filme que dirigi sem sair do Rio, Um
trem para as estrelas [1987], é, no fundo, um filme de estra-
da, mostrando um menino viajando pela cidade, à procura
da namorada que sumiu. Dá mais trabalho, porém é mais
divertido. Permite a improvisação.
E você continua se divertindo enquanto filma?
Muito. Só gosto de filmar porque é muito divertido. Detesto
filmagens tensas, com as pessoas gritando e brigando. Fil-
mar é o momento mais feliz da vida de um homem, então
tem que ser feito com alegria e diversão. Não consigo enten-
der os cineastas que se dizem aliviados e dão graças a Deus
quando terminam de rodar um filme.
Você vai muito ao cinema?
Sempre fui. Mas este ano fui muito pouco. Talvez tenha
ficado mais preguiçoso e com esse negócio de Apple TV,
Netflix [serviços de exibição de vídeo via internet] fica mais
fácil você ver filme em casa. Mas, se Deus me obrigasse a
escolher entre fazer e ver cinema, eu escolheria ver. Tudo
que sei aprendi com ele. Se o cinema sair da minha vida,
viro um débil mental.
Cinco vezes Cacá
Entre os 19 filmes do cineasta, o crítico José
Geraldo Couto escolhe os fundamentais
A grande cidade (1965) – Tragédia social e amo-
rosa em torno de uma moça nordestina recém-
chegada ao Rio de Janeiro. O filme mais forte de
Diegues na fase heroica do Cinema Novo.
Xica da Silva (1976) – Versão carnavalizada da
história da ex-escrava que virou madame em
Diamantina na época da mineração. A carac-
terização de Zezé Motta como a protagonista
marcou época.
Chuvas de verão (1978) – A história de amor en-
tre um viúvo e uma solteirona traz atuações me-
moráveis de Jofre Soares e Miriam Pires e uma
aguda observação da vida no subúrbio carioca.
Bye bye Brasil (1980) – A Caravana Rolidei
percorre o interior do país e se defronta com a
padronização causada pela TV. Road movie pre-
cursor de Central do Brasil e À beira do caminho.
Deus é brasileiro (2002) – Nesta comédia pica-
resca inspirada em conto de João Ubaldo, Deus
(Antonio Fagundes) vem tirar férias na Terra
e toma como guia um borracheiro e pescador
(Wagner Moura).
no alto, com marília pera durante as gravações de dias
melhores virão (1989). acima, ao lado do escritor jorge amado,
conferindo um trecho de tieta do agreste, filmado em 1996
arquivopessoal
27.
Personnalité
52
Por Ricardo Calil
Àsvésperas do início da 36a
Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo, Renata de Almeida, diretora do evento, relembra momentos
marcantes do festival a partir de oito pôsteres favoritos
Os cartazes da Mostra sempre foram
uma atração à parte dentro do maior
evento cinematográfico de São Paulo.
Sobrenomes como Tarantino, Angeli,
Antonioni, Fellini e Babenco já assinaram
a concepção dos pôsteres. Organizadora
da festa há 24 anos, Renata de Almeida
escolheu para a Revista Personnalité seus
oito cartazes favoritos. Ao revirar esse
arquivo, relembrou as histórias que leva-
ram o evento modesto – criado há 36 anos
pelo seu ex-companheiro, o crítico Leon
Cakoff, morto no ano passado – à consa-
gração como uma das mais importantes
datas do calendário cinematográfico mun-
dial. Amos Gitai, Wim Wenders, Pedro
Almodóvar, Manoel de Oliveira, Quentin
Tarantino e Abbas Kiarostami são alguns
dos diretores que vieram lançar filmes
durante as duas semanas anuais de even-
to. A nova edição – a primeira depois da
morte de Cakoff – acontecerá entre 19 de
outubro e 1o
de novembro e trará mais de
200 filmes inéditos no Brasil.
Cartazesà
mostra
O Irã no Brasil
A 14a
edição da Mostra foi marcada pelo Plano
Collor – ou “golpe Collor”, como preferia Leon
Cakoff. Com menos recursos, o evento foi feito
no sufoco. “Não tem jeito. O patrocínio ou a falta
dele sempre se reflete na programação”, afirma
Renata de Almeida, que começou a trabalhar no
festival um ano antes. “O cartaz do Angeli é um
clássico, uma linda homenagem ao público da
Mostra. Mas o catálogo desmanchava na mão, o
papel era ruim. Faltou até o dinheiro que a gente
achava que tinha”, conta. “Essa edição também
ficou na história pelas primeiras sessões de filmes
iranianos no Brasil”, afirma Renata, referindo-se
a Close up, de Abbas Kiarostami, e O ciclista, de
Mohsen Makhmalbaf, dois cineastas que passa-
riam a ser cultuados por aqui. “A gente descobriu
os iranianos antes do Festival de Cannes.”
1990
divulgação
28.
5554
Cinema e jornalismo
“Sevocê olhar para o passado da Mostra, tem
muito da história do que acontecia no país e
no mundo naquela época. A gente está sempre
conversando com o nosso tempo. É um trabalho
quase jornalístico”, afirma Renata. E o pôster
da 16a
edição deixava essa vocação ainda mais
evidente, com uma foto tirada por Eder Chio-
detto de uma manifestação pelo impeachment
de Fernando Collor diante do Masp. “Era nossa
homenagem ao poder dos caras-pintadas.” Por
falar em jovens poderosos e anônimos, Quentin
Tarantino veio apresentar seu longa de estreia,
Cães de aluguel, e passou praticamente desper-
cebido pela cidade. “Ele era um cinéfilo invete-
rado mesmo. Ficou uma noite sem dormir lendo
os catálogos das Mostras anteriores. Viu todos os
filmes que conseguiu. Lembro de assistir a Dias
selvagens [de Wong Kar-wai] ao lado do Quentin,
e ele pulando da cadeira numa cena: ‘Vou copiar
isso num filme meu!’.” A viagem renderia frutos
a Tarantino: foi em São Paulo que ele conheceu
a atriz portuguesa Maria de Medeiros, que viria a
estrelar seu longa seguinte, Pulp Fiction.
1992
A batalha alfandegária
Quem frequentou o começo da Mostra se lembra
que muitas sessões eram uma incógnita: não se
sabia se o filme programado seria liberado pela al-
fândega a tempo. “O Leon Cakoff ia para os jornais
reclamar, eu tinha até medo que fizessem alguma
coisa com ele”, conta Renata. Mas, na edição de 20
anos da Mostra, Cakoff ganhou a parada: ele aju-
dou a criar uma instrução normativa facilitando o
trânsito de obras de arte no Brasil – o que se torna-
ria um marco para o evento e para o país. A edição
de aniversário foi feita sob o signo do Japão. O
cartaz foi assinado por Akira Kurosawa e a retros-
pectiva foi dedicada a Eizo Sugawa. “A gente deve
essa ao Carlão [o cineasta Carlos Reichenbach,
que morreu neste ano]. Foi ele que nos convenceu
a trazer a obra do Sugawa, que havia conhecido
nos cinemas da Liberdade nos anos 60”, diz. “O
Sugawa já estava esquecido no Japão, mas aqui foi
tratado como um Tarantino. Ele morreu dois anos
depois, ainda muito grato a nós.” Como homena-
gem a Carlão e a Sugawa, a Mostra fará em 2012
uma sessão dupla com um filme de cada cineasta.
1996
Melancolia e alegria
de Sokúrov
Um caso de pôster “adulterado” pela Mostra: o
cineasta russo Aleksandr Sokúrov (Arca russa)
enviou o desenho de uma árvore. “Nós achamos
meio triste, meio sombrio. E o Sokúrov é mesmo
uma figura meio melancólica”, conta Renata.
Então o designer Ebert Willian multiplicou o
número de árvores e emprestou cor ao pôster.
Já em São Paulo, Sokúrov ficaria surpreso com a
recepção calorosa. Houve fila de dobrar o quar-
teirão para assinar um livro sobre sua obra e sala
lotada até a madrugada para um debate. “O pú-
blico é bem formado. Ele quer ver o que passou
por Cannes, mas também quer fazer descober-
tas.” Ao final da Mostra, Sokúrov comentou com
Renata: “Agora eu entendi por que não podia ser
só uma árvore. Ela ficaria muito solitária para um
brasileiro”. O público premiaria ainda dois filmes
que se tornariam sucessos: a ficção argentina o
Filho da noiva, com Ricardo Darín, e o documen-
tário Tiros em Columbine, de Michael Moore.
2002
Encontros e
desencontros
Na 27a
edição, Leon Cakoff aproveitou a presença
de vários convidados estrangeiros e realizou um
filme produzido pela Mostra. Bem-vindo a São Pau-
lo reuniria 17 episódios filmados na capital por dire-
tores como o australiano Phillip Noyce, o americano
Jim McBride, o israelense Amos Gitai, o finlandês
Mika Kaurismäki e o malaio Tsai Ming-
liang. “O Leon era insistente, batalhou muito para
que eles rodassem no meio do evento. Eles acaba-
ram entrando na brincadeira.” Foi uma edição com
forte presença do passado, com retrospectivas dos
japoneses Yasujiro Ozu e Kiju Yoshida e exibições
especiais de clássicos como A casa do mistério
(1923) e Chicago (1927). Mas o futuro do cinema
também deu as caras em filmes como Encontros
e desencontros, de Sofia Coppola, filha de Francis
Ford Coppola, que ganhou o prêmio da crítica. O
cartaz é assinado por Atom Egoyan, cineasta cana-
dense que, como Cakoff, tem origem armênia.
2003
divulgação
29.
O ano deTarkovski
Neste ano, o grande homenageado da Mostra será o cineasta russo Andrei Tarkovski, de Solaris
(1972) e O sacrifício (1986), que completaria 80 anos em 2012. Além de uma retrospectiva com
dez filmes de ou sobre Tarkovski, haverá uma exposição no Masp com polaroids tiradas pelo
artista em seu país natal e em seu exílio na Itália – três delas foram selecionadas para o cartaz
da edição. “É uma ocasião muito especial, porque talvez essas fotos não sejam mais expostas,
segundo o filho do Tarkovski. Polaroids são muito frágeis.” Renata também adianta que um
dos pontos altos do ano deverá ser a exibição do filme mudo Nosferatu (1922) ao ar livre, no
parque do Ibirapuera, com acompanhamento de orquestra. A produtora conta que manteve
a decisão tomada no ano passado de só exibir filmes inéditos no Brasil. “Foi uma decisão do
Cakoff, uma das últimas vontades dele para a Mostra. É uma herança que vamos honrar.”
56
2012
A paixão
de Leon Cakoff
Foi a primeira vez que a Mostra teve dois carta-
zes. Um deles era uma foto de um drive-in feita
por Wim Wenders. Na assinatura, o cineasta
alemão desenhou uma asa de anjo, referên-
cia a Asas do desejo, seu grande sucesso. Por
conta desse detalhe, a Mostra escolheu como
segundo pôster um desenho do japonês Akira
Kurosawa que mostrava um homem carregado
por um anjo. “Foi uma coincidência trágica”, diz
Renata, emocionada. No final daquele ano, Leon
Cakoff recebeu a notícia de que a metástase de
um antigo câncer de pele havia chegado a seu
cérebro. Ele morreria menos de um ano depois,
deixando Renata, quatro filhos e várias gerações
de espectadores paulistanos. Mas o sucesso dos
monumentais Mistérios de Lisboa, do chileno
Raúl Ruiz, e Carlos, do francês Olivier Assayas,
mostrou que a cinefilia alimentada por Cakoff
continuava vivíssima.
2010
A invasão brasileira
Por quase 30 anos, a Mostra foi vista como um
evento de cinema estrangeiro. A presença brasi-
leira sempre foi mais relevante pela qualidade do
que pela quantidade de filmes selecionados. “Os
diretores brasileiros não gostavam muito de com-
petir com os estrangeiros”, afirma Renata. Mas na
29a
edição ficou evidente que as coisas haviam
mudado. Mais de 70 filmes brasileiros foram exibi-
dos. “O cinema nacional ficou mais seguro depois
de anos de retomada da produção. Está certo
mesmo: quem está na chuva é pra se molhar.” O
resultado veio na premiação: Cinema, Aspirinas
e urubus, de Marcelo Gomes, ganhou o prêmio
de melhor ficção do júri, e Pro dia nascer feliz, de
João Jardim, o de melhor documentário. Outro
destaque da edição foi a homenagem ao cineasta
italiano Roberto Rossellini, com a exibição do
curta Meu pai tem 100 anos, escrito e interpretado
por sua filha Isabella Rossellini. A atriz também
fez o desenho que ilustrou o pôster daquela edi-
ção – “um dos mais simples, mas nem por isso
menos especial”, diz.
2005
36a
Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
De 19/10 a 2/11 (ingressos à venda a partir de 13/10)
Informações: www.mostra.org | info@mostra.org |Central da Mostra (Cj. Nacional, das 12h às 18h)
divulgação
30.
58 59
Quais timescariocas
têm chance
no
Brasileirão?
CACÁ DIEGUES pergunta:
(torcedor do botafogo)
Paulo vinicius coelho responde:
O Fluminense é a equipe que mais tem conseguido se organizar.
Parceria com Unimed + revelações como Wellington Nem =
chance de título importante.
31.
60
Por Gian OddiFotos Na Lata
“FAAALA,
PVC!”
É assim que técnicos como Mano Menezes e Vanderlei
Luxemburgo atendem aos telefonemas do jornalista
Paulo Vinicius Coelho. Por meio de prosaicos arquivos
de computador, uma tosca agenda de papel e uma
rotina de ligações matinais e diárias, PVC oferece uma
visão muito particular sobre o futebol
32.
62 63
Personnalité paulovinicius coelho
63autografando seu livro bola fora, lançado em 2009; na
cobertura da copa do mundo da áfrica do sul ao lado de josé
trajano e paulo soares; em entrevista para Jô Soares
no alto, a mesa de trabalho; no estádio, durante o clássico
MIlan e Inter em 2010; no soccer city, em johanesburgo, com joão
palomino e mauro cezar; e no estúdio da rádio estadão espn
Sede da ESPN Brasil, bairro do Sumaré, São Paulo. Na
recepção, três garotos perguntam: “O PVC tá aí? Você
sabe se ele já saiu? Ele está no Bate-Bola, né?”. Bate-Bola
é o programa do qual Paulo Vinicius Coelho, 43 anos,
jornalista desde os 18, participa diariamente na emissora
esportiva. Se na vizinha MTV a fila de adolescentes à
espera de ídolos juvenis é algo corriqueiro, na ESPN,
quando a postura de estudantes de jornalismo fica com
jeito de tietagem, ela tem, em geral,
relação com PVC.
Surpreende. Porque PVC
está longe do perfil jornalista-
esportivo-engraçadinho consagrado
recentemente pela televisão aberta.
Também não faz o tipo amigão de
boleiro, aquele que incorpora as
gírias do meio e ostenta intimidade
com jogadores. PVC tampouco é um
modelo de comunicador. A dicção é
atrapalhada. A postura, um pouco corcunda. Parece aquele
tipo de sujeito que já fez tudo na vida, menos chutar uma bola.
Mas, para muitos, ele se tornou modelo de jornalista esportivo.
Alguém que entende o futebol como poucos. Exemplo de
dedicação em uma profissão que até pouco tempo atrás era
estigmatizada por “achismos” e pela falta de critérios técnicos
para embasar análises. O afinco, a memória prodigiosa,
os conceitos táticos e a busca obsessiva pela informação
acabaram por lhe dar notoriedade não só entre seus fãs,
mas também entre os objetos de seu trabalho. Técnicos e
dirigentes, especialmente.
Felipão, Mano Menezes, Muricy Ramalho, Tite,
Vanderlei Luxemburgo, Ney Franco, Abel Braga, Celso
Roth e Geninho estão entre os treinadores do primeiro
escalão do Campeonato Brasileiro para os quais PVC
pode ligar quando bem entender. “Com o Vanderlei eu
estou mais tímido porque a gente teve um arranca-rabo,
mas agora está tudo certo e posso ligar para ele”, diz.
Com Mano Menezes, técnico da seleção brasileira, a
comunicação costuma ser também por torpedos: “Ontem
mandei um SMS para o Mano me desculpando porque não
fui ao treino da seleção. E, se a seleção está em São Paulo,
tenho obrigação de ir”.
No mundo do futebol, um meio em que os protagonistas
são tratados como celebridades, a facilidade de acesso
que PVC tem às fontes é algo raro, como explica Fernando
Victorino, editor chefe do Bate-Bola: “É um facilitador tê-lo
no programa. Você fala essas três letrinhas mágicas e tudo
se abre. Às vezes, quando queremos colocar no ar alguém de
acesso mais difícil, ele fala: ‘Liga do meu celular’. Aí eu ligo
e o cara atende com um: ‘Faaala, PVC!’”. A reação, segundo
Victorino, é fruto do trabalho diário do jornalista: “Ele
chega na redação e já dispara vários telefonemas, todos os
dias. Qualquer coisa nova que apareça nos sites ou jornais,
ele passa a mão no telefone e já sai ligando”.
O FIO DA NAVALHA
As ligações, feitas ou recebidas, ocupam boa parte do
atribulado dia de PVC. No segundo minuto da conversa
com a Revista Personnalité, um de seus dois celulares toca.
“me desculpei com
o mano porque
não fui ao treino
da seleção em
são paulo”
_
A rotina de PVC
Acorda diariamente às 5h55. Prepara o café e o lanche do filho,
João Pedro, 12 anos, e o leva à escola. Volta com o pão fresquinho
para a mulher, Adriana, 42, e a filha, Bruna, 9. Faz ginástica até as
8h09, quando atende ao telefone para sua primeira participação
na rádio. No fim da tarde, se os jogos permitirem, busca a filha na
escola. É quase tudo que PVC costuma fazer quando não está tra-
balhando. Porque, em uma semana padrão, ele...
DE SEGUNDA A SEXTA
• Às 8h09, por telefone, ainda de casa, faz uma inserção no pro-
grama Estadão no ar, da rádio Estadão ESPN.
• De manhã, na redação, lê jornais e sites, aplica “o bom exercício
de duvidar [do que lê]” e, claro, faz ligações. “Pode ser para um
técnico, um dirigente ou um empresário.”
• Das 11h30 às 12h25, participa do programa Esporte.com, na rádio.
• Das 12h30 às 14h, participa ao vivo do Bate-Bola, na ESPN Brasil.
SEGUNDA-FEIRA
• Às 21h, participa do programa Linha de passe, na TV.
TERÇA-FEIRA
• À tarde é dia de Linha de passe na rádio.
QUARTA-FEIRA
• Comenta jogos para a rádio em algum estádio das 20h até 1h.
• Sempre no dia seguinte aos jogos, digita as fichas da Liga dos
Campeões da Europa.
(Continua na página 65)
arquivopessoal/gianoddi
33.
64 65
paulo ViniciuscoelhoPersonnalité
Ele atende. Mais alguns segundos e é a vez do outro celular
tocar, insistentemente. Assim como o ramal de sua mesa.
Três telefones, ao mesmo tempo, com gente atrás de PVC. Ele
encerra a primeira ligação, não atende as demais e emenda:
“Vamos para o café, é onde eu recebo os estudantes que vêm
falar comigo. Aqui não dá”. No café, os celulares seguem
tocando, mas PVC não atende.
Entre tantos telefonemas, um que ele classifica
como “dos mais estranhos” que já recebeu foi do atual
treinador da seleção, Mano Menezes: “Foi uma ligação
esquisita, quando o Brasil ganhou do Egito na Copa das
Confederações de 2009. O Mano era técnico do Corinthians
e me ligou para dizer que os laterais estavam jogando
muito avançados. Foi estranho, não sei se ele queria que
eu repercutisse ou só queria bater papo. Mas ele estava
cornetando o Dunga [então técnico da seleção], né?”.
Ao falar da proximidade com Mano, PVC admite que “a
relação pessoal chegou a ficar um pouco além da conta”.
Sua preocupação com o tema é grande: “Relação com
64
para falar
com tanta
gente, pvc usa
uma agenda
de papel,
rasgada,cheia
de rabiscos e
páginas soltas
fonte é o fio da navalha. Quando a gente começa a carreira
tem uma relação distante. Aí você começa a ter contato e
chega no fio da navalha. Se você passar dali... Porque você
não usa a informação por ser amigo do cara”. O contrário
também poderia ocorrer, mas PVC rebate: “Defendi o
Dunga diversas vezes depois de ter brigado com ele”.
A facilidade de acesso às fontes resulta em episódios
curiosos. PVC cita um exemplo: Juvenal Juvêncio,
presidente do São Paulo. Ele relembra uma história do
fim do ano passado, quando o presidente tricolor, para sua
surpresa, não lhe respondia: “Foi estranho, porque toca o
telefone 8h45 da manhã e ele sabe que sou eu. Mas ele não
atendia”. Dias depois, 23 de dezembro, foi o telefone de PVC
que tocou. Era Juvenal: “Sei que você andou atrás de mim.
Estou ligando para te desejar feliz Natal e pedir desculpas
por não te atender. É que, se eu atendesse, ia ter que mentir
pra você”. Daquele episódio, PVC conclui: “O Juvenal nunca
mentiu para mim. Logo, acredito no que ele diz, até que se
prove o contrário. Mas tem casos
opostos, como o do [empresário de
Neymar] Wagner Ribeiro. O que
não quer dizer que eu não vá mais
ligar para o Wagner”.
O dia mais intenso para
PVC, pelo menos em relação aos
telefonemas, é sexta-feira, quando
ele chega à redação um pouco
mais cedo que o habitual, por
volta das 8 horas, para produzir,
até meio-dia, o post semanal
no qual indica as prováveis
escalações, os jogadores suspensos e os machucados de
todos os times do Brasileirão na rodada do fim de semana.
São pelo menos 20 ligações, para os assessores dos 20
clubes da Série A. Se não consegue falar com um assessor,
liga direto para o técnico. “Mas é claro que se eu falo com
o Geninho, por exemplo, não vou perguntar só quem está
machucado ou suspenso. Tento buscar mais informações,
que vão servir para todo o dia.”
Para falar com tanta gente, PVC conta com o auxílio
de uma vasta agenda telefônica... de papel. Rasgada, cheia
de rabiscos e páginas soltas. Assim como sua mesa, na
qual repousa uma cordilheira de livros, revistas e jornais.
É um reflexo da desorganização que ele admite ser sua
característica. Mas na qual consegue se encontrar. “Aquela
agenda é o elo perdido. Tem combinações que só ele é capaz
_
QUINTA-FEIRA
• Além de comentar eventuais jogos, define o tema das colunas
de domingo no Estado e no Hoje em dia e telefona. “Não escrevo,
mas já começo as colunas.”
• Às segundas, quintas e sextas, digita as fichas dos jogos
do Brasileirão.
SEXTA-FEIRA
• Pela manhã, liga para assessores ou técnicos dos 20 clubes
da Série A para, em seguida, escrever o post sobre a rodada.
• À tarde, escreve, de fato, a coluna do jornal O Estado de S. Paulo.
• Também à tarde grava o programa Futebol no mundo, para a TV.
A CADA 15 DIAS
• Em casa, às quartas-feiras, prepara material para a gravação do
programa Loucos por futebol, que gra-
va às quintas.
SÁBADOS
• De manhã, sempre que houver jogos
à tarde, faz uma hora de pesquisa para
comentar os campeonatos europeus.
• Faz uma participação por telefone na
rádio. Além disso, comenta um jogo ou,
pasme, folga (o que não quer dizer que
não assista às partidas em casa).
DOMINGOS
• Se ficar na sede da TV, comenta jogos de campeonatos europeus
e faz o Bate-Bola noturno. Caso contrário, vai a estádios comentar
partidas in loco para a rádio.
• No próprio estádio, ou se estiver na redação, nos 40 minutos de
intervalo entre os jogos das 16h e das 18h30, escreve as colunas
de segunda nos jornais.
TODOS OS DIAS
• A qualquer hora, sempre que houver novidades, telefona e abas-
tece seu blog.
• Eventualmente, pega jogos na fitoteca da ESPN ou assiste às
partidas pelo sistema da TV, no computador.
acima, no pacaembu: paulo Vinicius coelho iniciou a carreira aos
18 anos e hoje assiste a 60 jogos por mês. ao lado, no detalhe, a
agenda onde guarda os telefones dos principais técnicos do país
gianoddi
34.
66 67
Personnalité paulovinicius coelho
de decifrar. Uma vez ele ligou e me disse: ‘Vai lá na letra
C’, embaixo do nome tal, marcado a lápis, no canto, vai ter
um telefone escrito assim ou assado. Ele sabe onde estão
as coisas. E, olha, eu já trabalhei com produtores top, mas
agenda como a dele eu ainda estou para ver”, diz o editor
Fernando Victorino. “Às vezes eu demoro para achar as
coisas, mas rezo para São Longuinho, dou três pulinhos [algo
que ele de fato faz no meio da redação] e acho”, diz PVC.
A importância da indefectível agenda talvez se
justifique porque a relação do jornalista com a tecnologia
não é das mais íntimas. Ao falar sobre seus contatos, PVC
mostra a agenda de um de seus celulares com números de
Luis Alvaro de Oliveira, presidente do Santos. Eles estão
nomeados como Luis Alvaro 1, Luis Alvaro 2 e assim por
diante. “Mas o bom é o Luis Alvaro 5, que não aparece
aqui. É que eu não sei usar esse aparelho.”
ESQUEMAS TÁTICOS
Já o computador ele usa para, acredite, digitar em um
arquivo de Word as fichas técnicas de todos os jogos do
Brasileirão e da Liga dos Campeões. Rodada a rodada,
insere à mão a classificação dos dois torneios com saldo de
gols, número de vitórias etc. A história das convocações
de Brasil, Itália, Alemanha, França, Argentina, Espanha,
Inglaterra e Holanda, assim como as fichas de todos seus
jogos, merecem registro. “Olha que bonitinho isso aqui”,
diz, ao mostrar um documento com as classificações.
Questionado sobre se não seria mais fácil buscar os
dados em sites, responde: “Assim é mais fácil de pesquisar,
e eu posso ver qual era a classificação a cada rodada.
Fora que, se digito a ficha, guardo na cabeça os times que
jogaram. Pode ser estranho, ultrapassado ou o que for,
mas é o meu método”. Um método que, a julgar pelos
resultados, funciona. “Apesar de seduzir a geração atual
por sua inquietude, por essa coisa insaciável de estar
atrás de muita informação o tempo todo, os métodos
dele são dos tempos da máquina de escrever, com seu
bloquinho, a caneta Bic e os esquemas táticos desenhados
em guardanapos”, diz Arnaldo Ribeiro, comentarista
e gerente de programação da ESPN. “No ramo do
jornalismo esportivo existe um exagero nessa coisa de
transformar o futebol em algo decifrável com dados”,
afirma Milton Leite, locutor da TV Globo. “Mas o PVC é
um cara que sabe usar isso.”
Arnaldo Ribeiro concorda. “Mas faria bem a ele se
distanciar um pouco do mundo estatístico e tático. Para
sentir o jogo, se deixar levar. Seria bom até para a saúde.”
Quem conhece o jornalista, porém, não se surpreende
que ele não se incomode por passar horas digitando
fichas de jogos. Na redação, é raro ouvi-lo qualificando
um jogo como ruim ou chato – afinal, haverá sempre um
esquema tático para ser analisado. Sua paixão por futebol
é escancarada na quantidade de trabalho que ele tem.
E que pede para ter, como conta Ana Cristina Freitas,
responsável pelas escalas de narradores e comentaristas
na ESPN: “Quando começou a temporada do futebol
europeu, ele chegou e me disse: ‘Cris, não me poupe no
fim de semana, hein?’”. “O Paulo é maluco a ponto de
fazer um jogo à noite em Teresina, dormir apenas algumas
horas no aeroporto ou no avião e pedir para ser escalado
no Bate-Bola do dia seguinte”, diz Arnaldo Ribeiro.
Além dos programas na TV, PVC trabalha diariamente
na rádio Estadão ESPN, escreve em seu blog, assina colunas
nos jornais O Estado de S. Paulo e Hoje em dia e na Revista
ESPN. Além das notícias em primeira mão e da facilidade
para falar com os principais personagens do futebol nacional,
essa produção em larga escala o ajudou a ter a visibilidade e o
respeito conquistados após quase 20 anos de carreira.
Visibilidade que ele afirma ter dificuldade de perceber.
“Qual é meu tamanho hoje? Não sei, porque não sei
lidar bem com isso”, diz. PVC até admite ver indícios
mensuráveis de seu sucesso, como o número de estudantes
que o procuram, a grande quantidade de seguidores no
Twitter (quase 190 mil), ou mesmo a execução de matérias
(como esta) em outros veículos de imprensa: “OK, tem
alguma coisa. Mas por isso vou avisar a ESPN que não
vou renovar meu contrato e aí vai ter uma legião de gente
atrás de mim? Não. Só sei qual é o meu tamanho daqui para
baixo: tudo que posso fazer, que é o que eu já fiz. Agora, se
posso sair daqui para... a Globo vai ter um comentarista-
jornalista? Não parece. Preciso é manter meu tamanho no
cenário que tenho. Porque uma coisa é você ter isso com
dois anos de trajetória. A outra coisa é ter com 15”.
Perguntado se sabe o porquê de ter atingido esse patamar
como jornalista esportivo mesmo atuando numa TV fechada,
PVC responde assim: “Porque se criou um mito”. Pode
ser. Mas um mito que ele mesmo forjou, à base de muitos
telefonemas e prosaicos arquivos de Word.
_
Data PVC
As estatísticas que resumem um mês médio
do comentarista (e que o próprio PVC
não chegou a calcular)
• 52 participações na rádio, entre inserções
por telefone e programas no estúdio
• 32 programas de televisão, sem contar
as transmissões de jogos
• 14 jogos comentados, pela televisão
ou pelo rádio
• 17 colunas escritas, entre jornais e revista
• 31 posts no blog
• 60 jogos vistos, incluindo os 14 comentados
ao lado, pvc no pacaembu, um dos estádios em que o jornalista
trabalha comentando jogos às quartas, quintas e fins de
semana; acima, detalhe de seus resumos táticos das partidas
35.
69
Por Gonçalo Junior
Osgrandes lances do Canal 100, o cinejornal
esportivo que transformou salas de cinema em
arquibancadas de estádio, entre 1959 e 1986,
e agora volta à cena em exposição multimídia
itinerante e livro com DVD
Otricampeão mundial Dario José dos
Santos, o Dadá Maravilha, jogava
no Flamengo em 1973 quando foi com
amigos a um cinema no centro do Rio de
Janeiro. Com as luzes da sala ainda ace-
sas, a plateia acompanhou inquieta sua
chegada, entre apertos de mãos e tapas
no ombro do artilheiro. Pouco antes do
filme principal, apareceu na tela a reprise
de uma edição do cinejornal Canal 100.
O capítulo era sobre o maior jogo de sua
vida: a decisão do Campeonato Brasi-
leiro de 1971, entre Botafogo e Atlético
Mineiro, no Maracanã. Um a zero para
o visitante. Gol de Dadá. Enquanto ele
vibrava na tela grande, os espectadores
se levantaram. Começaram a aplaudir e a
gritar em coro: “Dadá, Dadá”. “Quando vi
aquilo, foi emoção demais, quase chorei”,
diz o ex-jogador. “Foi um dos momentos
mais tocantes de minha vida.”
Quem tem mais de 40 anos há de
lembrar. Em tempos sem YouTube,
sem a fartura de canais a cabo dedi-
cados ao esporte, rever os melhores
momentos de uma partida de futebol
exigia um esforço quase parecido ao de
ir ao estádio ver a própria partida. Os
gols, os lances, os craques, a reação da
torcida e as comemorações eram cenas
para ser observadas ao vivo, escutadas
no rádio e recriadas, depois, por meio
da memória de quem esteve no local.
Até que, em 1959, o produtor Carlos
Niemeyer (1920-1999) e mais alguns
sócios bolaram o Canal 100.
FUTEBOL
1. Amistoso contra
a Tchecoslováquia
em 82. Em outra
partida, Zico joga
contra a Irlanda
do Norte em 86
2. na copa de 74,
jairzinho chuta
e celebra gol na
vitória de 3 a 0
sobre o zaire
3. Dadá Maravilha
na partida entre
Atlético e Botafogo
no Maracanã, em 1971
4. fluminense festeja
os 5 a 0 contra o
botafogo em 1976 pelo
campeonato carioca.
no detalhe, Rivelino
dribla um adversário
1.
2.
3.
4.
(7a
)ARTE
U.Dettmar/Folhapress/ARQUIVOAGENCIAESTADO/arquivoAgênciaOGlobo/ArquivoAgênciaOGlobo/Folhapress/Folhapress/ArquivoAgênciaOGlobo/ArquivoAgênciaOGlobo
36.
70 71Zico chutapara marcar um dos três gols na vitória da
seleção contra o Chile pelas eliminatórias da Copa de 1986
no alto, carlos em seu escritório e, acima, apoiado na câmera:
à sua direita, o montador Walter roenick. à sua esquerda,
sentados, o editor jorge niemeyer e o câmera francisco torturra
Quatro anos antes do nascimento do
programa, uma lei fora escrita obrigando
todas as salas de cinema a exibir um cine-
jornal de pelo menos cinco minutos antes
de começar cada sessão. “Papai e os ami-
gos deram esse nome porque a numera-
ção da TV na época ia até o canal 13 e eles
concluíram que 100 passaria uma ideia de
infinito, de algo inatingível”, conta a pro-
dutora Carla Niemeyer, guardiã do acervo
de filmes. É ela também quem prepara o
Projeto Canal 100, uma exposição multi-
mídia itinerante com o apoio da Cinema-
teca Brasileira, nas cidades de Brasília,
São Paulo e Rio de Janeiro, para novem-
bro do próximo ano. O evento inclui a pu-
blicação de um livro com DVD encartado
sobre a história e os principais momentos
da atração. Ainda em 2013, será lançado
Brasil bom de bola, de Carlos Niemeyer,
que cobre a Copa de 70. O documentário
teria levado a Fifa a exigir que todos os
seus eventos fossem registrados com o
mesmo padrão de qualidade.
“O que pouca gente sabe é que a ínte-
gra de boa parte das partidas clássicas do
Canal 100 está preservada”, afirma Ale-
xandre Niemeyer, filho de Carlos e tam-
bém responsável pelo acervo. Em 2010,
Alexandre fez um acordo com o Minis-
tério da Cultura para que a coleção de 10
mil latas fosse depositada na Cinemateca
de São Paulo para restauro, dentro das
atividades para a Copa de 2014.
CRAQUES EM CAMPO
Tostão, ex-craque do Cruzeiro, da seleção
brasileira e hoje colunista esportivo, di-
vide suas lembranças sobre o programa.
“Os jogos geralmente eram filmados no
Maracanã”, diz. “Naquela tela enorme,
embalado pela música inesquecível – ‘Na
cadência do samba (Que bonito é)’, de
Luiz Bandeira –, isso fazia todos se ajeita-
rem na cadeira e prestar atenção.” Tostão
se viu várias vezes no cinejornal. “No
jeito de filmar, sempre tinha um detalhe
a mais. Eu via uma coisa na TV e no cine-
ma parecia outra, sobre o mesmo jogo, a
alegria, a tristeza, o suor escorrendo pelo
rosto.” O texto, em especial, chamava a
atenção. “Havia uma descrição mais bo-
nita, não era apenas narrativo, como nas
transmissões normais, tinha uma histo-
rinha ali, num tom poético”, conta. Dadá
Maravilha segue a mesma linha e reforça
o impacto que a tela grande imprimia ao
esporte: “No Canal 100, parecia que o gol
ficava mais bonito. O pessoal reagia como
se estivesse num estádio”.
o nome
canal 100
passaria
uma ideia
de infinito,
de algo
inatingível
_
Carlinhos Niemeyer
priorizava o time do
coração: Flamengo
Antes de criar o Canal 100, havia outro
Carlinhos Niemeyer pelas ruas da capital
fluminense. Ele era membro do Clube dos
Cafajestes, turma de playboys que marcou
o Rio de Janeiro na década de 1950. Aos
poucos, Carlinhos começou a levar a vida a
sério. Depois de fazer carreira na Força Aé-
rea Brasileira, aproximou-se do cinema ao
fazer documentários com o francês Jean
Manzon (1915-1990), fotógrafo da revista O
Cruzeiro. Com o Canal 100, tornou-se inter-
nacionalmente conhecido pela qualidade
de suas filmagens sobre futebol. Flamen-
guista doente, admitia priorizar seu time
na hora de definir que jogo seria filmado.
Também produziu longas-metragens,
como Brasil bom de bola (1970) e Futebol
total (1974). “Em qualquer cidade brasilei-
ra, não houve plateia que, ao ir ao cinema,
não exclamasse ‘ah!’ – quase um orgasmo
– ao ver surgir na tela o símbolo do Canal
100. Era o futebol brasileiro no seu apogeu
e filmado como ninguém”, afirma Ruy Cas-
tro em seu livro Ela é carioca. Para ele, uma
cena marcante “era a do goleiro desolado
indo buscar a bola no fundo da rede”.
“A equipe do meu pai tinha umas 15 pes-
soas”, conta Carla Niemeyer. “Os equipa-
mentos eram de ponta, o de câmera era
quase todo Arri 35 mm.” O produtor tinha
também câmera de 16 mm para ter agili-
dade. Carlinhos chegou a afirmar: “A gente
fazia aquele jornal com um amor danado.
Certa vez, disse para o câmera fixar na
bola na hora do escanteio. Ele a seguiu
até, por sorte, surgir a cabeça de Roberto
Dinamite, do Vasco da Gama, para fazer
o gol. Roberto, aliás, merecia o prêmio de
melhor ator coadjuvante do Canal 100”.
Zé Maria, ex-lateral direito do Co-
rinthians, também campeão mundial no
México em 1970, não se esquece de que,
ainda garoto, chegava antes no Cine Vi-
tória, em sua cidade, Botucatu, interior
paulista, só para ver o Canal 100. “Aquilo
era literalmente o futebol em grandes
dimensões”, diz. Mesmo depois de se tor-
nar jogador famoso, ele manteve o hábito
de chegar bem antes do filme para ouvir
“a musiquinha” e os gols. “Quem fazia
aquilo sacava a postura do jogador no
campo e do torcedor na arquibancada”,
diz. “Eu era um entusiasta.”
O apito final do Canal 100 aconteceu
em 1986, quando a lei do cinejornal foi
substituída por outra, que obrigava agora
a exibição de curtas-metragens. Produzi-
da e projetada semanalmente, a atração
acabou por compor um dos maiores
FERNANDOBUENO/AE/arquivopessoal
folhapress
37.
72 73ao lado,garrincha jogando pela seleção sob as lentes do canal
100. acima, cartaz de um dos documentários de carlos niemeyer
_
A influência de
Nelson Rodrigues
Quem conhece as crônicas de futebol de
Nelson Rodrigues (1912-1980) percebe uma
indiscutível semelhança entre seus textos
e o modo como o Canal 100 desnudava
as glórias e tragédias que marcavam uma
simples partida de futebol. Dentro e fora
dos gramados. O próprio Nelson escreveu:
“Foi a equipe do Canal 100 que inventou
uma nova distância entre o torcedor e o
craque, entre o torcedor e o jogo, grandes
mitos do nosso futebol, em dimensão mi-
guelangesca, em plena cólera do gol. Suas
coxas plásticas, elásticas enchendo a tela.
Tudo o que o futebol brasileiro possa ter de
lírico, dramático, patético, delirante…”. Era
o futebol-espetáculo que Carlos Niemeyer
conseguia arrancar das jogadas, até dos
maiores pernas de pau.
acervos cinematográficos do país, com 52
edições anuais, 10 mil latas de filmes ro-
dados e 1,5 mil horas de imagens. Foram
filmados aproximadamente 1,5 mil jogos,
200 deles da seleção brasileira. Embora
todos se lembrem mais do futebol, cada
edição tinha antes duas notícias de políti-
ca, sociedade ou cultura.
O tempo maior era dedicado à bola –
três dos cinco minutos. O Maracanã era
seu cenário eterno, mas houve exceções.
Não eram transmitidos só jogos cariocas
– a programação incluía o Brasileirão,
decisões de competições europeias, jogos
da seleção portuguesa e importantes par-
tidas do Santos de Pelé.
A PRODUÇÃO
Fazer o cinejornal era mais simples do
que se pensava. Carla Niemeyer revela
que os jogos tinham cobertura de apenas
três câmeras. Uma convencional, para
mostrar todo o campo, e duas que acom-
panhavam as jogadas a partir do fosso,
o ângulo preferido de Carlinhos, com
lentes de 400 milímetros. Daí o close nas
pernas dos jogadores, captados como
puros-sangues nas pistas de corrida.
O mais surpreendente estava no ta-
manho reduzido da “Equipe Cinejornal
Canal 100”, formada pelos cinegrafistas
Jorge Aguiar, Francisco Torturra, Kle-
ber Gorini, João Rocha, Lyera de Oli-
veira e Pompilho Tostes. A montagem
cabia a Walter Roenick e a edição a Jor-
ge Niemeyer (primo de Carlos e o ho-
mem que insistiu em “Na cadência do
samba” como música tema) e Alberto
Shatovsky. Heloisa Niemeyer (mulher
de Carlos) operou câmera, enquanto
os textos eram escritos por Carlos Leo-
nam e Luiz Otavio Coimbra. Cid Morei-
ra foi narrador, depois substituído por
Correia de Araújo.
“a filmagem
era muito
moderna”,
diz André
Midani
O perfeccionismo era tamanho que
Carlinhos gravava em câmera lenta,
o que implicava no consumo de mais
rolos de filme por jogo. “Notava-se o
uso de lentes diferentes, os planos pró-
ximos do campo e o slow motion, tudo
causava no público uma reação em-
polgante”, afirma o crítico de cinema e
ex-diretor de TV Álvaro de Moya.
O documentarista e publicitário An-
tônio de Barros Freire, o Barrinhos, que
na Copa do Mundo de 1986 ficou famo-
so como o personagem Araken, astro
das vinhetas da Rede Globo, completa:
“O cinejornal tinha aquela linguagem de
deslumbre porque os diretores e câmeras
tinham cultura cinematográfica e procu-
ravam fazer algo à altura”.
GRANDES LANCES
Graças ao Canal 100, momentos memo-
ráveis de jogos ficaram na lembrança do
produtor musical sírio André Midani, que
chegou ao Brasil na década de 1960 e foi
um dos principais produtores da bossa
nova. “Eu achava a qualidade de filma-
gem extremamente moderna”, diz. “Era
superior ao que se fazia na época tecnica-
mente.” O jornalista Mário Mendes, autor
da obra de referência Enciclopédia dos
craques (Panda Books), em parceria com
Marcelo Duarte, afirma que o que mais o
impressionava era a câmera captar aquele
“balé de pernas” e as reações do público.
“Tinha o poder de transportar o especta-
dor para dentro do gramado.” Para ele, a
atração se eternizou principalmente pela
vinheta. “Apesar do tempo, você consegue
identificar o Canal 100 pela música.”
Hoje com 40 anos de idade, o jornalis-
ta e publicitário Emerson Rezende pegou
os últimos momentos do cinejornal. Em
2004, transformou o tema em um livro-
reportagem de conclusão do curso de
jornalismo. Ele defende que o programa
foi fundamental para o desenvolvimento
audiovisual do futebol no mundo todo.
“Se hoje o padrão é ter 8, 9, 10 câmeras
espalhadas ao redor do campo, foi graças
à visão de Carlos Niemeyer e à competên-
cia de sua equipe.”
Alexandre Niemeyer relembra uma
história de seu pai e a paixão pelo time do
coração, o Flamengo. “Em 1972, no ani-
versário do clube, ele deslocou 5 câmeras
para filmar o clássico contra o Botafogo.
Só que o Botafogo aplicou uma goleada
histórica: 6 a 0. Meu pai achou aquilo de-
mais. Ele sumiu com os rolos. Não queria
dar esse gostinho aos botafoguenses.
Esse filme, o Canal 100 jamais exibiu.”
arquivopessoal
ARQUIVOAGENCIAESTADO
38.
74 75
Paulo viniciuscoelho pergunta:
Quando um
time pequeno luta por
título, as
reportagens tocam
“Festa do
Interior”.
O que acha
disso?
gal costa responde:
Que curioso... Eu nem sabia disso. Talvez seja porque essa música de
Moraes Moreira é animada, pulsante, vigorosa... Lembra movimentos,
alegrias. E animar as pessoas para vitórias sempre é bom, não?
Aliás, Moraes me enviou naquela época cinco composições. Por acaso,
escolhi essa para gravar. “Festa no interior” acabou se tornando um
megassucesso, graças também ao maravilhoso arranjo da gravação.
39.
Por Eduardo LogulloFotos André Schiliró
Coordenação Kika Pereira de Sousa
Gal Costa passeia por canções icônicas dos 32 discos
da carreira, detalha a relação com Caetano Veloso
e tenta explicar o dom de (en)cantar em shows como
Recanto, considerado o melhor do ano
“Minha
voz vem”
40.
78 79
Personnalité galcosta
79
Em 1969, plena ditadura militar, Danuza Leão, entrevistada
pelo semanário carioca O Pasquim, provocava o regime:
“Gal Costa é a mulher mais elegante do Brasil, porque não
combina sapato com bolsa”. No mesmo período, o compositor
baiano Tom Zé, um dos mentores da Tropicália, declarava na
TV outra sentença curiosa sobre aquela cantora descabelada
que se tornara o emblema da oposição musical do país. “Sabe
uma faca me rasgando, um mundo se acabando? Gal Costa
cantora, a mulher, a mulher terrível, a mulher linda, a noiva,
a morta, a viúva, a maravilha: é muito difícil falar, Gal Costa
sempre me trata com choques elétricos. Chego pra vê-la e me
arrebento e me desarrumo, é sempre surpreendente.”
Quatro décadas se passaram. E que mulher foi essa,
que artista é essa, que importância ela continua a ter? No
mínimo, Gal Costa é a matriz do canto moderno no Brasil.
Seu estilo, seu jeito, as escolhas
que fez exploraram limites. Ela já
reinventou canções de Gil (“Barato
total”), Roberto e Erasmo (“Meu nome
é Gal”), Adoniran Barbosa (“Trem das
onze”), Jorge Ben Jor (“Que pena”),
Jards Macalé e Waly Salomão (“Vapor
barato”) e, claro, composições de
seu grande parceiro, Caetano Veloso.
Essas, aos magotes. “London, London”,
“Baby”, “Coração vagabundo”…
No ano passado, ela reassumiu
o cume da vanguarda da MPB. Seu
último CD, Recanto, foi produzido
por Caetano Veloso a partir de
composições inéditas do baiano.
Calcado em bases eletrônicas, foi
destacado pela imprensa como um dos
melhores de 2011. O novo show de Gal,
com canções icônicas dos 32 discos de sua carreira, acaba de
ser eleito pelo canal Multishow como o melhor de 2012.
Pois é. Agora mãe coruja de Gabriel, 7, ela ainda mantém
certo jeito de garota rebelde – mesmo aos 67 anos. E tem
mais: Gal conseguiu a proeza de conquistar em pouco tempo
públicos novos e, de quebra, manter contentes os seus fiéis
seguidores. A MTV, que a indicou para três premiações no
VMB realizado em setembro, encontrou uma definição para
o atual momento da cantora: “Tropicalista, baiana e – por que
não? – rock’n’roll”. Esse novo tempero pode ter algo a ver com
sua mudança este ano para São Paulo, depois de décadas entre
Salvador e Rio de Janeiro, cidade em que recebeu a Revista
Personnalité para uma tarde de conversa.
Gal, seu público é formado por muitos jovens. Uma façanha
entre os artistas da sua geração. O que você pensa disso?
Olha, eu já sabia que a garotada andava ouvindo músicas dos
meus primeiros discos, como Meu nome é Gal, Gal 68, Fa-Tal,
LeGal, Índia, Cantar... Sabia que adoravam minha coragem, os
gritos, as guitarras, os cabelos, os arranjos radicais... Até me
ocorria fazer algo voltado às novas gerações, na intenção de
rever partes da minha história. Mas precisaria ser algo bem
pensado. Então, veio esse disco atual com Caetano, e o público
jovem adorou e se identificou. Percebo que tem tudo a ver com
a minha história, com a minha carreira de rupturas. Hoje, digo
até que me sinto roqueira no show, principalmente em “Cara
do mundo”. Caetano, ao me ver no palco cantando essa música,
disse: “Está maravilhoso! É rock! Está rock!”.
O seu momento profissional – e de
vida – continua totalmente voltado aos
desdobramentos de Recanto. Como
surgiu a estrutura do show?
Sugeri coisas. Mas Caetano amarrou o
roteiro e pensou nas canções. Ele indicou
algumas que não quis cantar. Ele fez o CD
e o show.
Foi um desafio redescobrir autores
como Jorge Ben Jor? Aliás, você é a
cantora que mais gravou Ben Jor, com
14 registros.
“Deus é o amor” gravei em 1968. Cantei
para Caetano, que a achou linda. Era uma
canção feita para aqueles dias pesados
da ditadura. A minha ligação com Jorge
Ben Jor começou no início dos anos
1960, quando morava em Salvador. Eu
não tinha vitrola ou eletrola, os nomes que diziam na época.
Custava caro. Então ouvia rádio. Um dia minha mãe comprou
um toca-discos e o meu primeiro vinil foi Samba esquema
novo, de Jorge Ben Jor! Senti algo de bossa nova na atmosfera
musical dele. Aquele jeito de tocar guitarra, um swing
inacreditável, uma vitalidade rítmica incrível.
Como você mudou da cantora tímida para a intérprete
audaciosa e de visual arrojado no final dos anos 1960?
Logo no começo, fui perfeccionista e radical. Na fase da bossa
nova, era exigente, gostava de pouca gente. Mas eu convivia
aqui em São Paulo com a turma toda, ouvindo as discussões,
as conversas, participando... Nós cantávamos e tocávamos
juntos, sempre havia reuniões no apartamento de Caetano na
avenida São Luis. Assim, comecei a ouvir músicas com Gil:
Jimi Hendrix, Beatles, Janis Joplin. Fiquei alucinada por Janis
Joplin. Aquilo foi realmente me tomando. E me identifiquei de
verdade. Foi quando eles, Caetano e Gil, compuseram “Divino,
maravilhoso” e me convidaram para cantar e defender a música
no Festival da Record. Gil virou e disse: “Como você pensa
em cantar essa música?”. Respondi: “Quero cantar para fora”.
Então ele fez o arranjo. Eu me vesti, aquele cabelo eriçado, ideia
de Dedé [Gadelha, ex-mulher de Caetano]. E entrei no palco.
Caetano, que não tinha visto nenhum ensaio, nem se envolvido,
quase caiu duro ao me ver daquele jeito.
Houve reação de outros músicos e de amigos por sua
mudança de cantora bossa-nova para uma figura agressiva?
Ninguém me falava nada. Lembro bem de quando entrei no
palco para cantar “Divino, maravilhoso”, com vontade e atitude.
Muitos vaiavam e muitos aplaudiam. O engraçado foi que tinha
um cara me vaiando e eu o encarei: coloquei o dedo em riste,
no alto, a cantora em 1983 durante show no Ginásio do Ibirapuera,
em são Paulo. Acima, interpretando “Divino, maravilhoso”, de
caetano e gil, no IV Festival de Música Popular Brasileira, em 1968
gal em 1973 durante a turnê do disco índia, que traz “relance”
(caetano) e “desafinado” (tom jobim e newton mendonça)
“Em recanto,
perdi minha
ansiedade.
Sempre
foi fácil
trabalhar
com Caetano”
DOMICIOPINHEIRO/AgênciaESTADO/DOMICIOPINHEIRO/AgênciaESTADO
ARQUIVOAgênciaESTADO
41.
81
Personnalité gal costa
cenasdo complexo telma sobolh, na favela de paraisópolis:
recepção, aulas de música, brinquedoteca, sala
em sentido horário, A cantora em três momentos: no show
gal tropical (1979); cantando na tv tupi (1968); entre joão
gilberto e caetano veloso, duas de suas referências musicais
fui decidida e incisiva. Era também a primeira vez que me
apresentava com banda elétrica. Uma ruptura total.
É verdade que você chorou muito quando Caetano enviou
“Recanto escuro” para você ouvir e gravar?
Chorei muito mesmo. Muito. Porque é quase uma biografia, fala
de mim, de Caetano. Quando cita a prisão [de Caetano durante
a ditadura], eu não estava na prisão, mas estava lá, entendeu?
Vivi aquilo, como sofrimento. Tem coisas ali que fazem parte do
nosso começo, quando a gente se conheceu.
Gal, você costuma chorar quando recebe uma música que a
emociona? No palco você nunca chora...
Eu digo que não posso chorar no palco, senão minha voz se
desmantela. O show Recanto é uma entidade: ele me toma,
é muito forte. Desde os ensaios, quatro dias antes da estreia,
passei a sentir aquela comichão. Aí, um dia no ensaio, comecei
a cantar e chorei. Tive que parar e esse choro se manifestou
em todos. Caetano chorou. Todo mundo ficou comovido. Eu já
estava recebendo a entidade que existe em Recanto.
Você já havia sido dirigida uma vez por Caetano, no show e
disco Cantar, de 1974. Como foi aquela experiência?
Somos e estamos mais maduros. Principalmente eu. A nossa
relação sempre foi tranquila. Flui. Assim aconteceu também
no Cantar. Era uma mudança total: tanto que o show foi mal
recebido pela crítica. Eu estava saindo de uma coisa roqueira,
eletrônica, para voltar a algo bossa-novista. Ali houve realmente
um salto, uma lacuna. O disco não foi bem-aceito. Agora virou
um trabalho que todos adoram, um registro cultuado. Desta vez,
em Recanto, perdi a ansiedade. Sou 90% menos ansiosa do que
eu era. Então vou com calma, tranquila, ouço as coisas, vejo,
aceito, não aceito. Sempre foi fácil trabalhar com Caetano.
E a imitação de Tim Maia, como surgiu essa ideia que
acabou virando uma homenagem no seu show?
O meu encontro com Tim Maia aconteceu em 1985, quando
mais de cem artistas da MPB se reuniram para gravar Chega de
mágoa, um disco voltado a arrecadar dinheiro para o Nordeste.
Todo mundo lá, a maior festa. Tim Maia estava num estúdio.
Quando acabei de gravar, fui ouvi-lo. E ele me disse assim: “Pô,
tu canta mesmo, hein... Vamos fazer um negócio juntos?”. Tim
começou a me ligar até de madrugada. Logo apareceu “Um dia
_
Os dois monges
“Formamos uma entidade única”, escreve
Gal sobre Caetano em texto inédito de 2005
Gil disse uma vez que nós quatro, Gil, Bethania,
Caetano e eu, somos um. Os doces bárbaros. As qua-
tro entidades são independentes, mas, juntas, forma-
mos uma entidade única. Somos os quatro fortemente
espiritualizados. Temos uma estranha comunhão de
espírito. Juntos, formamos uma quinta energia.
Com Caetano, principalmente, parece que nos
conhecemos há 180 anos. Ou há milênios. Digamos
até em vidas passadas, quem sabe? Num programa de
televisão, nos anos 80, Caetano disse que nós tínha-
mos uma identificação musical: como se dois monges
tivessem uma iluminação ao mesmo tempo e não pre-
cisassem dizer nada um ao outro para serem entendi-
dos. E essa iluminação, esse ponto de luz, de contato,
seria João Gilberto, nossa origem musical.
Meu primeiro disco, Domingo, foi isso: uma comu-
nhão total, nós dois éramos um só, eu me sentia como
sendo a voz dele. Creio que ele também sentia isso.
Mergulhei com ele no Tropicalismo, fiz Fa-Tal,
Índia, shows sempre com forte acentuação desse
movimento. Foi quando Caetano e eu resolvemos
mudar um pouco a história. Caetano queria que eu
mostrasse a minha essência de cantora. E veio o
Cantar. Nem o show nem o disco emplacaram. Foi
uma mudança muito radical. Neles eu recolhia as
minhas feras, as minhas garras, e partia para mostrar
um lado mais legitimamente meu.
Com o fracasso do Cantar fiquei retraída, entrei
em crise, três anos sem fazer nada. Foi quando
Roberto Menescal me sugeriu cantar Caymmi. Deu
certíssimo. Levamos o show a Buenos Aires. Lá
estava Guilherme Araújo, que, durante o show, teve
a ideia de realizar o Gal tropical que viria a dar um
rumo definitivo na minha carreira. Ao mesmo tem-
po eu tinha mais uma das minhas premonições:
a certeza de que o show iria ficar um ano em car-
taz. Ficou um ano e dois meses no Rio.
Caetano estava de férias na Bahia e veio ao
Rio especialmente assistir ao show. Chegou aos pran-
tos ao camarim. Aos soluços. Não conseguia falar
uma palavra.
Tempos depois me telefona dizendo querer falar
comigo. Em casa, os dois sentados na minha cama
em posição de lótus, ele me dizia que não havia
gostado do show. Que o show era careta, mas que
não poderia comentar isso em público, pois o Tropi-
cal era uma unanimidade nacional e não ficava bem
para ele ir contra a corrente.
Fiquei arrasada. Apesar de toda a crítica ter posto
o show nas alturas, de todos os meus amigos, meus
colegas, todos me cobrirem de elogios, Caetano ali na
minha frente, justo ele que era a opinião mais impor-
tante para mim, dizia não ter gostado.
Só agora, mais de 20 anos depois, entendo as
lágrimas dele no camarim. Acho que naquela hora ele
percebeu que nascia uma nova Gal, que ele perdia a
sua criatura, que eu poderia partir para sempre sendo
eu mesma. Como um pai que via a sua filha sair de
casa. Livre e independente.
Livres e independentes, mas ainda juntos ilumi-
nados. Como dois monges.
(Texto escrito por Gal Costa
em 29 de junho de 2005.
Neste ano, ela pensava em
publicar um livro com histó-
rias de sua trajetória.
O show citado é Gal tropical,
estreado no Rio, em 1979.
Produzido por Guilherme
Araújo, foi o espetáculo que
a transformou em cantora
popular, permanecendo dois
anos em turnê pelo Brasil,
Europa, Oriente Médio, Esta-
dos Unidos e Japão. Agrade-
cimentos a Karina Perez,
de Buenos Aires, do site
www.galcosta.com.ar)
80 gal e CAETANO no show OS DOCES BáRBAROS,
disco gravado com gil e bethania em 1976
ARQUIVOAgênciaESTADO/ARQUIVOAgênciaESTADO/ArquivoOCruzeiro/EM
ARQUIVOAgênciaESTADO
42.
82
Personnalité
82
“Minha voz, minhavida” contém uma história especial...
Morava na Barra da Tijuca e estava gravando um disco. E pedi
uma música a Caetano. Sempre peço a ele... Recebi “Minha
voz, minha vida” numa fita e fiquei emocionada. Fui ouvindo
no carro até o estúdio. E fui chorando. Dirigindo e chorando.
Ouvindo e chorando. Hoje, ela ganhou outros sentidos. Tudo o
que é dito, é dito de maneira nova. Isso é maravilhoso.
E “Força estranha”?
Essa música foi feita para Roberto Carlos. Mas, quando ouvi,
me apaixonei. Um dia falei para Caetano: “Quando canto ‘Força
estranha’ eu fico tonta, eu fico tonta”. Ele não entendeu nada.
Parecia que ia receber um santo. No Gal tropical minhas pernas
tremiam. Achava que ia cair no chão. É fogo. Você recebe uma
energia que vem. É muito bonito: “Eu vi o menino correndo/
eu vi o tempo, brincando ao redor/
do caminho daquele menino/ eu
pus os meus pés no riacho...”. Uma
coisa iluminada, de pureza, de
leveza. Fala de como as coisas se
renovam. As mesmas coisas são
diferentes em outros momentos.
Isso explica quase tudo: voz,
canto, vontade?
Talvez tenha tudo a ver com o que
vivo agora: renovação. Existe um
detalhe importante em mim, que
não sei se Caetano tem, porque ele se diz ateu... Sinto que a
minha missão é que a minha voz me foi dada e me foi passada.
Meu trabalho é uma missão, vem de Deus. Acredito nessa
transformação. Deus para mim é transformação, uma energia
universal. Nesse show eu faço isso. É uma coisa que vem.
A minha voz vem. Minha voz não sou eu. Minha voz vem.
de domingo” e gravamos. Fui criticada, meteram o pau, uma
coisa desagradável. Eu só gravei por Tim Maia! Sem ele na
faixa eu nem deixaria o disco sair! Agora, em Recanto, Caetano
incluiu a música. É uma lembrança, uma homenagem.
O empresário Guilherme Araújo fez você sair da era hippie
para virar cantora pop no show Gal tropical, um imenso
sucesso de 1979. Foi difícil aceitar essa guinada radical?
Bom... Guilherme me convenceu. Ele falou: “Minha querida,
vamos fazer um show que vou dirigir, você vai usar salto alto,
vai se vestir assim, não sei o quê”. Eu resisti, lembro que resisti.
Mas de repente ele disse algo: “O diretor vê o outro de fora.
E você não está se vendo. Você não se veste mais como antes.
Você mudou, olha estas suas roupas, veja como são...”. Tinha
razão! Eu estava mudando, era verdadeiro. Por isso deu certo. O
diretor não deve impor. É preciso olhar e extrair o que existe no
momento. Todos precisam mudar. Assim nasceu Gal tropical.
Vamos falar de canções que estão em seu show. “Vapor
barato”, 40 anos depois, ainda deixa a plateia acesa...
É incrível. Não sei explicar. Ela representa tanto: a solidão
de uma geração, os impasses da vida, o abandono, a busca...
Quando eu cantava no Fa-Tal, já continha tudo isso e remetia a
Caetano e Gil no exílio... Canto essa música, cara, e em todos os
shows é um sucesso! Pode ser voz e violão, pode ser com banda.
Sempre foi assim. A nova versão de agora é muito intensa,
forte. Aquele solo de guitarra de Pedro Baby é lindo. Ele fica
comovido também por saber que o pai dele, Pepeu Gomes,
tocou comigo em Fa-Tal...
“Da maior importância”, que
abre o show, vem do seu disco
Índia, de 1973. Qual a história
dessa canção?
Sempre me pediam para cantá-la
novamente, embora Caetano foi
quem quis abrir com ela, composta
ao voltar do exílio. Lembro de nós
dois conversando na praia de São
Conrado. Então surgiu um clima
entre a gente... Mas a Dedé era
grande amiga minha, nunca aconteceria nada. A canção surgiu
desse momento particular, nosso. Meu e dele. É lindo abrir o
show com ela: demonstra afetividade, amorosidade, carinho,
respeito e amor entre Caetano e eu, tudo manifestado através
da música. Emocionante por contar a minha história que se
entrelaça com a dele. Uma coisa tão particular, tão verdadeira...
acima, no palco durante o show de seu mais recente disco,
recanto, a elogiada retomada da parceria com caetano veloso
“meu trabalho
é uma missão.
minha voz não
sou eu. minha
voz vem”
GeraldoBubniak/Fotoarena/Assistentedeprodução:JulianaCarletti/assistentesdefotografia:LeoFigueiredoeAndersonFogo/Beleza:CarlosCarrasco/BLZ/Estilo:DricaCruz/abamgt/Produçãodemoda:SatomiMaedaeBarbaraAchoua
SERVIÇO:AdolfoDominguez(11)38233710/Alcaçuz(11)38942522/Arezzo(11)30814929/Daslu(11)35523033/H.Stern08000227442/LeLisBlanc(11)38098950/PatriciaCenturion(11)30611548
43.
85
POR Millos KaiserFOTOS Nino Andrés
A história por trás do retorno dos LPs ao Brasil,
com reedições de álbuns clássicos, trabalhos
inéditos, reativamento da única fábrica da
América Latina, além de fãs apaixonados e uma
fartura de opções de discos importados
P or muitos anos, o DJ Tutu Moraes,
especializado em música brasileira,
precisou bater ponto em sebos e feiras
de disco de São Paulo para abastecer
seu acervo de vinis. “Cheguei a quase
sair no tapa por um disco”, diz. Essa pe-
regrinação era resultado de um proces-
so que se iniciou nos anos 1990 com a
massificação dos CDs. Os LPs – formato
que dominara a indústria fonográfica
mundial desde a década de 1950 – dei-
xavam de ser fabricados em escala in-
dustrial no Brasil. Acabavam um artigo
relegado a mercados de pulgas.
A virada começou no exterior. Grava-
doras voltaram a investir nas prensagens
em vinil na metade da década passada,
para conter a decadência do mercado
causada pela troca de arquivos de áudio
pela internet e a queda da venda de CDs
(só nos EUA, parâmetro do setor, a retra-
ção foi de 11,3% no último semestre).
Hoje, há casos de selos, como o nova-
iorquino Daptone, que apostam em
edições caprichadas (com vinis de 180
gramas) de artistas de música soul, como
Charles Bradley e Sharon Jones. Grandes
bandas, como Coldplay e Radiohead,
privilegiam o formato. Para tornar o LP
ainda mais atraente, tornou-se praxe en-
cartar um código para o ouvinte fazer o
download da versão digital do álbum.
O retorno do vinil às lojas nacionais é
um processo recente. Deve-se, sobretudo,
à paixão de um grupo de entusiastas. Em
2008, os sócios da gravadora Deckdisc
compraram e reativaram a Polysom,
única fábrica de vinis existente em toda
a América Latina, localizada em Belford
Roxo, no Rio de Janeiro. “Fomos motiva-
dos pelo simples fetiche e pela possibili-
dade de reduzir o custo de produção dos
vinis que a gente queria produzir para a
Deck”, afirma o produtor João Augusto
A VIRADA DO VINIL
caBeÇa dInoSSaUro, Titãs
Gravadora: Polysom
Ano de lançamento: 1986
Relançamento: 2010
Preço médio: R$ 70
Primeiro trabalho da banda produzido
por Liminha, o disco resgatou “Bichos
escrotos”, canção que estava no reper-
tório desde 1982, mas que, por causa da
censura, só pôde ser gravada na ocasião.
A arte da capa é inspirada num rascunho
de Leonardo da Vinci.
a TÁBUa de eSMeralda, Jorge Ben Jor
Gravadora: Polysom
Ano de lançamento: 1974
Relançamento: 2010
Preço médio: R$ 70
Tábua é uma salada ecumênica. Na capa,
imagens do alquimista francês Nicolas
Flamel. Nas letras, referências ao padre e
filósofo São Tomás de Aquino. O cantor
sempre diz que vai tirar o violão do fundo
do armário, trocado pela guitarra há mais
de três décadas, e fará um show tocando
apenas o repertório do disco. Mas ainda
não cumpriu a promessa.
84
The SMIle SeSSIonS, Beach Boys
Gravadora: Capitol
Ano de lançamento: 2011
Preço médio: R$ 140
Entre os verões de 1966 e 1967, após o
sucesso de Pet Sounds, o Beach Boys
trancou-se em estúdio e produziu as can-
ções que comporiam SMiLE. “Por falta de
tecnologia”, alegou a gravadora, o tra-
balho só viu a luz do dia 45 anos depois.
Há não só as dez músicas principais, que
seguem o estilo psicodélico do hit “Good
Vibrations”, mas também uma série de
takes recuperados da gravação.
44.
86 87o djtutu moraes, fã de mpb, é entusiasta das novas
prensagens: “antes delas, cheguei a quase sair no tapa numa
feira de vinis para conseguir comprar um lp do chico anysio”
Soares, diretor-presidente da gravadora.
“Logo descobrimos que poderia ser um
bom negócio, diante do crescimento do
mercado no exterior e aqui.”
A empresa iniciou uma fornada de
títulos clássicos e novidadeiros da músi-
ca brasileira. De lá, saíram Negro é lindo,
de Jorge Ben Jor, e Secos e Molhados (II)
– itens, aliás, adquiridos por Tutu Mo-
raes. Trabalhos de Jards Macalé, Nação
Zumbi, Rita Lee, Tom Zé, Planet Hemp
e Ultraje a Rigor chegariam às lojas, com
o preço médio de R$ 80.
“O vinil é uma experiência tátil, visual
e auditiva. Manusear quase 200 gramas
de acetato nas mãos, colocá-los no toca-
discos, observar magníficas artes estam-
padas em 31 x 31 centímetros [contra os
12 x 12 centímetros do CD] e ainda ouvir
um som que tem vantagens cientifica-
mente comprovadas sobre qualquer som
digital transformam o vinil em um objeto
de desejo”, conta João Augusto.
DISCOBJETO
A reedição do clássico Transa, álbum de
Caetano Veloso lançado em 1972, foi a
mais recente aquisição de Tutu Moraes.
“Cresci escutando meu pai contar ma-
ravilhado da versão original desse disco,
de como o encarte era uma obra de arte.
Virou uma memória afetiva para mim.
Quando vi aquele Transa virgem na loja,
tive que comprar”, diz. “Além disso, o
som dessas novas prensagens é muito
melhor, não tem aqueles chiados.” A
reedição chegou às lojas em março pela
Universal por R$ 120, em comemoração a
dois aniversários – os 70 anos de Caetano
e os 40 do álbum. A remasterização foi
feita em Londres, no estúdio Abbey Road
(sim, aquele dos Beatles), a partir das
fitas originais da gravação. O mimo maior
fica por conta do resgate do projeto grá-
fico original, preto, vermelho e prata,
assinado por Aldo Luiz e com concepção
de Álvaro Guimarães: um “discobjeto”
tridimensional, montado a partir da capa,
que se desdobra em três outras partes.
A prensagem não foi feita na Polysom. É
“made in Germany”. A Universal adianta
que há planos de lançar, em novembro, o
LP Gilberto Gil, de 1969, apelidado de Cé-
rebro eletrônico. Novamente, a fabricação
será feita fora do Brasil. “Nosso departa-
mento de planejamento é quem opta. A
razão é o preço compensador”, diz Alice
Soares, gerente do catálogo nacional.
Prila Paiva, a DJ Haru, organizadora
da festa paulistana Chica Chica Bum,
possui uma coleção de mil discos. “Não é
nada, comparada a outras por aí”, ela diz.
Estão em sua prateleira o relançamento
de Paêbirú, de Lula Cortês e Zé Ramalho,
além de Afrociberdelia, de Chico Science
“o vinil
é uma
experiência
tátil, visual
e auditiva”,
diz joão
augusto,
da fábrica
polysom
& Nação Zumbi, que ganhou pela primei-
ra vez edição no formato LP.
Paêbirú, vindo ao mundo em 1975, é o
fetiche-mor de todo colecionador. Uma
enchente destruiu boa parte do estoque
de 1.300 cópias produzidas na época,
transformando-o na pepita nacional
mais valiosa da história – pagam-se até
R$ 5 mil em leilões virtuais. A reedição,
lançada pelo selo britânico Mr. Bongo,
que conta com diversos outros títulos
brasileiros no catálogo, custa aproxima-
damente R$ 30 no site da empresa.
REDESCOBERTAS
Prila discoteca apenas com vinil. “Meu
pai era colecionador também. É o for-
mato de música com que mais estou
acostumada”, diz. Para ela, o investimen-
to financeiro e o esforço de carregar a
pesada maleta de bolachas para as festas
compensam: “Quando uma pessoa vem
perguntar o que você está tocando e você
mostra a música fisicamente, em vez de
um CD gravado ou um arquivo na tela do
SecoS e MolhadoS I, Secos e Molhados
Ano de lançamento: 1973
Relançamento: 2010
Preço médio: R$ 70
Quinto lugar na lista de “100 maiores dis-
cos brasileiros” da revista Rolling Stone
e “Melhor capa de disco brasileiro” pelo
jornal Folha de S.Paulo, o álbum é a estreia
da banda de Ney Matogrosso. A foto é de
Antônio Carlos Rodrigues, que produziu
uma mesa de jantar com “secos e molha-
dos” (nome genérico usado na época para
produtos de armazém). Os integrantes
tiveram que passar a noite sentados em
cima de tijolos, com a cabeça enfiada na
mesa, até o clique definitivo sair.
TranSa, Caetano Veloso
Gravadora: Universal
Ano de lançamento: 1972
Relançamento: 2012
Preço médio: R$ 130
É o álbum de Caetano preferido da nova
geração de músicos brasileiros. Ficou
conhecido como “discobjeto” por conta
do projeto gráfico conceitual. Muita gente
reclamou – incluindo o cantor –, porque
na inovação não coube a ficha técnica.
Na nova versão, o erro foi reparado.
45.
88 89acima, adj prila paiva, que possui uma coleÇão de mil vinis e
discoteca utilizando apenas lps: “quando as pessoas veem a capa
de um álbum que toquei numa festa, os olhos delas brilham”
_
A escolha do
seu toca-discos
A maioria das vitrolas pode ser plugada
no aparelho de som na entrada auxiliar. As
que contam com interface USB podem ser
conectadas ao computador. Todas rodam
bolachas de 33 ou 45 RPM. As agulhas que
vêm nas vitrolas são mais que suficientes
para o uso doméstico (mas há opções pro-
fissionais que chegam a custar US$ 5 mil).
computador, os olhos dela brilham”.
Rodrigo Alvarado, 32, não é nenhum
DJ ou profissional da música. Mas o pro-
dutor cultural, que viveu o auge dos CDs,
também é uma feliz vítima do retorno
dos LPs. “O disco te obriga a seguir uma
cerimônia na hora de escutar. É uma
audição mais consciente, que incentiva a
ouvir o álbum na íntegra, entender a pro-
posta do artista naquela obra”, diz.
Há um problema a ser superado para
a popularização dos vinis no Brasil: o
preço. “As reprensagens feitas no país
acabam ficando muito caras”, afirma
João Augusto, da Deckdisc. “Cerca de
70% do preço final são impostos, causa-
dos por uma cadeia tributária absurda,
que começa na aquisição das maté-
rias- primas.” Por essa razão, muitos
brasileiros que embarcam na missão de
produzir um vinil recorrem a fábricas no
exterior. É o caso de Cleiton Raí Ferreira,
dono da Vale Verde Records, gravadora
focada em resgatar bandas de rock psi-
codélico nacional perdidas no tempo e
no espaço e que manda fazer seus discos
nos Estados Unidos.
“Estamos mais para um projeto de
resgate da memória brasileira do que
para uma gravadora. Não ganhamos di-
nheiro, fazemos por amor”, diz Cleiton.
Em sua opinião, a parte mais gratificante
do trabalho é entrar em contato com os
músicos. Quando procurou por Loyce,
da banda Loyce e os Gnomos, descobriu
que ele havia falecido anos antes. Con-
versou então com a filha do artista, que
nem sequer sabia que o pai tinha grava-
do o LP Despertar dos mágicos. Emocio-
nada, aprovou o relançamento.
Os principais consumidores desse
tipo de iniciativa estão no Japão – que
tem tradição na reprensagem de discos
de bossa nova –, na Espanha e nos EUA.
Criolo, Bixiga 70, Céu, Leo Cavalcan-
ti e outros novos artistas da MPB pren-
saram seus trabalhos em vinil na GZ
Media, em Praga, na República Tcheca,
responsável pela fabricação de bolachas
dos Rolling Stones e do U2. No Brasil,
ela é representada por Clênio Lemos, o
China. Depois de ter lojas de disco por
anos na Inglaterra, a crise, causada pela
pirataria e pela consequente queda da
venda de CDs, o forçou a fechar as portas
em 2005. “Mas nunca achei que o vinil
fosse morrer. Pelo contrário, percebi que
ele seria o único formato a resistir”, conta.
Seus principais clientes são bandas de
heavy metal, “fãs do peso e do grave que
só o vinil tem”. Por mês, ele estima rece-
ber cerca de 200 pedidos de orçamento.
“Mas poucos fecham negócio, pois de
fato ainda é uma brincadeira cara”, diz.
Ao que parece, dinheiro – e tudo mais
que não for música – é um problema
secundário para aficionados por vinis. O
que importa é saciar o apetite. Como o
próprio Clênio diz: “Quando você com-
pra um disco quer ir para casa na mesma
hora para escutar. Não tira sapato, não
vai ao banheiro nem cumprimenta a es-
posa. Só quer botar o LP para rodar”.
CROSLEY CR6249A-TA
Novo, mas com cara de roubado da avó,
o Crosley é portátil e vem com alto-falante.
A interface USB permite gravar as músicas
no computador e dele para outra mídia.
Preço médio: R$ 400 (importado)
ION AUDIO IPTUSB
Campeão da categoria bom e barato. Como
o Crosley, ele também tem alto-falante e
funciona via cabo USB ou a bateria, ideal
para ser usado ao ar livre.
Preço médio: R$ 250 (importado)
“quando
você
compra um
disco quer
ir para
casa na
mesma hora
escutar”
TECHNICS SL-1200 MK-II
Inventado há 40 anos, o pickup saiu de
linha, mas ainda é o preferido dos DJs e
pode ser encontrado em sites de leilão.
Preço médio: R$ 2 mil
divulgaÇão
Mccartney, Paul McCartney
Gravadora: Apple, EMI
Ano de lançamento: 1970
Relançamento: 2012
Preço médio: R$ 160
A crítica bateu na época, mas o primeiro
trabalho de Paul após o fim dos Beatles é
hoje cultuado por sua gravação caseira e
por canções como “Maybe I’m Amazed”.
A foto do músico na contracapa com a fi-
lha Mary ainda pequena, abrigada em seu
casaco, foi tirada por sua mulher, Linda.
JardS MacalÉ, Jards Macalé
Gravadora: Polysom
Ano de lançamento: 1972
Relançamento: 2012
Preço médio: R$ 70
Mais recente lançamento da série de ree-
dições da MPB da Polysom. Como todos
os outros, a bolacha tem 180 gramas (o
peso maior nos discos, é bom dizer, é
apenas fetiche de colecionador; para a
qualidade do som é indiferente). O LP foi
gravado por um trio em apenas dois dias.
46.
90 91
primeira pessoa| joão montanaro
_
Ideias no sótão
Por Rosane Queiroz
João Montanaro, 16 anos,
começou a trabalhar em
2008 (aos 12 anos!) na
revista Mad. Em 2010,
passou a fazer a charge
política do jornal Folha de
S.Paulo. Ganhou o Troféu
HqMix de 2011 (o mais
importante do setor no país)
pelo seu livro Cócegas no
raciocínio. Cursa o segundo
ano do ensino médio.