2025_EM_V1
Conteúdos Objetivos
● Leiturade conto de Machado de
Assis – Pai contra Mãe;
● Compreensão do conto;
● Análise de contexto de produção;
● Tópico linguístico derivado do texto
(figura de linguagem, ortografia,
sintaxe etc.).
● Ler e compreender conto realista;
● Identificar o contexto histórico-
social presente em textos
produzidos no século XIX;
● Identificar diálogos com o presente
em textos literários do passado;
● Posicionar-se criticamente diante
do texto lido;
● Identificar o tópico linguístico
derivado do texto (figura de
linguagem, ortografia, sintaxe etc.).
3.
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Para começar
Adiante, vocêvai ler trechos do conto
Pai contra Mãe, de Machado de Assis.
Antes, com a ajuda de seus colegas,
responda:
• Com base no título do conto, qual
será o conflito central?
• Sabendo que é um conto realista do
século XIX, como você imagina que
foi o contexto de produção dessa
obra?
Imagem 1: Machado de Assis, 1904, Arquivo Nacional.
Reprodução – ARQUIVO NACIONAL/WIKIMEDIA COMMONS, 2024.
Disponível em:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Machado_de_Assis_1904.jpg. Acesso
em: 28 nov. 2024.
5 minutos
4.
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Bem diferente doque o título sugere...
●A primeira hipótese que um leitor pode ter ao ver
o título Pai contra mãe, se desconhecer o conto, é
a de que se trata de um conflito específico, que se
passa exclusivamente em núcleo familiar.
●Acontece, porém, que estamos diante de um dos
contos mais complexos da literatura brasileira,
cuja temática ultrapassa com fôlego o núcleo de
uma família burguesa qualquer, como era de
praxe nos romances de costume.
Um conto é uma narrativa
breve, geralmente centrada
em um único evento ou
personagem.
Caracterizado por sua
concisão e densidade, o
conto foca em um
desenvolvimento rápido da
trama, com um conflito bem
definido.
Foco no conteúdo
5.
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Reprodução – BBM,[s.d.]. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4776.
Acesso em: 28 nov. 2024.
A história gira em torno de Cândido
Neves, um homem pobre (mas branco)
que trabalha como capturador de
escravizados fugidos.
Por ter dificuldade em se firmar em uma
profissão, vive com dificuldades
financeiras. Ele se casa com Clara e eles
têm um filho.
É dessa necessidade de sustentar sua
família que nasce o conflito que rege o
conto, com um desfecho surpreendente.
O protagonista, Cândido Neves...
Foco no conteúdo
10 minutos
Imagem 2: O conto foi publicado originalmente em 1905, na coletânea
"Relíquias de Casa Velha“, Biblioteca Brasiliana.
6.
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A escravidão levouconsigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a
outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se
ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro
ao pé; havia também a máscara de folha de flandres.
A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes
tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e
era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber,
perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do
senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous
pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade, certas.
Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre
se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as
tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de
máscaras.
Antes de nos apresentar Cândido, o narrador inicia
o conto descrevendo o legado da escravidão...
Imagem 3: Máscara de Flandres: Jacques Arago,
1839. Museu Afro Brasil.
Reprodução – MUSEU AFRO BRASIL/WIKIPÉDIA, 2008.
Disponível em:
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Jacques_Etienne_Arag
o_-_Castigo_de_Escravos,_1839.jpg
. Acesso em: 28 nov. 2024.
(ASSIS, [s.d.])
Foco no conteúdo
7.
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Pause e responda
CompassivoCrítico
Indiferente Alegre
O narrador, nessa passagem, assume um tom evidente, que pode
ser descrito como:
Releia o último parágrafo:
Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se
alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham
penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
3 minutos
(ASSIS, [s.d.])
8.
2025_EM_V1
Pause e responda
CompassivoCrítico
Indiferente Alegre
O narrador, nessa passagem, assume um tom evidente, que pode
ser descrito como:
Releia o último parágrafo:
Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se
alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham
penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
(ASSIS, [s.d.])
9.
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Uma das principaiscaracterísticas da prosa machadiana é a interlocução
com o leitor:
O ferro ao pescoço era aplicado aos
escravos fujões. Imaginai uma coleira
grossa, com a haste grossa também, à
direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça
e fechada atrás com chave.
Pesava, naturalmente, mas era menos
castigo que sinal. Escravo que fugia assim,
onde quer que andasse, mostrava um
reincidente, e com pouco era pegado.
O uso do imperativo “imaginai” deixa
evidente o pedido do narrador: os leitores
devem imaginar a coleira usada nos
escravos.
Em seguida, o uso do advérbio
“naturalmente” imprime um tom de
cumplicidade com o leitor, deixando claro
que o narrador considera uma hipótese que
pode ser levantada pelo leitor.
(ASSIS, [s.d.])
Foco no conteúdo 5 minutos
10.
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Há meio século,os escravos fugiam com frequência.
Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão.
Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem
todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte
era apenas repreendida; havia alguém de casa que
servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além
disso, o sentimento da propriedade moderava a ação,
porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se,
entretanto.
A conhecida ironia machadiana dá o tom
crítico ao processo escravocrata.
Ironia é uma figura de
linguagem na qual há uma
oposição ou discrepância
entre o que é dito e o que é
realmente pretendido.
Ao dizer que “nem todos gostavam da escravidão” ou “de apanhar
pancada”, Machado de Assis ironiza a triste realidade da
escravização do processo colonial brasileiro. O sentido pretendido
com o “nem todos” é explicitar a obviedade que ninguém gosta
de ser escravizado ou apanhar.
(ASSIS, [s.d.])
Foco no conteúdo
11.
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Ora, pegar escravosfugidos era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser
instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza
implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo;
a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e
alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem
que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Leia o trecho do conto "Pai contra Mãe" e identifique: a ironia usada
para construí-lo e a correlação estabelecida entre escravização e
pobreza.
(ASSIS, [s.d.])
Na prática 10 minutos
Veja no livro!
Atividade 1
12.
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Correção
No excerto lido,a ironia fica evidente na construção
adversativa sobre a “nobreza da escravidão”,
tentando justificá-la a partir da necessidade de
manter “a lei e a propriedade”. É justamente nesse
ponto que acontece a correlação, afinal, só existia
o ofício de caçar escravos fugidos porque havia
pobreza e a necessidade de sustentar a família.
(ASSIS, [s.d.])
Ora, pegar escravos fugidos era um
ofício do tempo. Não seria nobre, mas
por ser instrumento da força com
que se mantêm a lei e a
propriedade, trazia esta outra
nobreza implícita das ações
reivindicadoras. Ninguém se metia
em tal ofício por desfastio ou estudo; a
pobreza, a necessidade de uma
achega, a inaptidão para outros
trabalhos, o acaso, e alguma vez o
gosto de servir também, ainda que por
outra via, davam o impulso ao homem
que se sentia bastante rijo para pôr
ordem à desordem.
Na prática livro!
13.
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A fuga repetia-se,entretanto. Casos houve, ainda que raros, em
que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo,
deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que
seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor
que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
É importante pensar a literatura também como um
documento histórico, especialmente, a realista...
Tendo sido abolido em
1850 o tráfico de
escravizados para o
Brasil (lei Eusébio de
Queirós), os
escravizados vendidos
no Valongo depois
dessa data eram,
necessariamente, "de
contrabando".
Chamava-se "ladino" o escravizado que já
tinha relativo domínio da língua portuguesa.
Foco no conteúdo 5 minutos
(ASSIS, [s.d.])
14.
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Quem perdia umescravo por fuga
dava algum dinheiro a quem lho
levasse. Punha anúncios nas folhas
públicas, com os sinais do fugido, o
nome, a roupa, o defeito físico, se o
tinha, o bairro por onde andava e a
quantia de gratificação. Quando
não vinha a quantia, vinha
promessa: "gratificar-se-á
generosamente", ou "receberá uma
boa gratificação". Muita vez o
anúncio trazia em cima ou ao lado
uma vinheta, figura de preto,
descalço, correndo, vara ao ombro,
e na ponta uma trouxa. Protestava-
se com todo o rigor da lei contra
quem o acoutasse.
Imagem 4: Anúncios de Escravos, São Paulo Antiga
Reprodução – NASCIMENTO, 2013. Disponível em:
https://saopauloantiga.com.br/anuncios-de-escravos/. Acesso em: 28 nov.
2024.
É muito difícil ler a
descrição dos
anúncios criados
para encontrar
escravizados
fugidos e não se
assustar com
tamanha
objetificação. O
processo de
escravização é
uma das principais
máculas do
processo colonial
sofrido pelo Brasil.
Foco no conteúdo
(ASSIS, [s.d.])
15.
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● Ao longoda aula, lemos diversos excertos do conto
Pai contra mãe. Explique o efeito de sentido da
ironia nesses excertos.
● Comente como o efeito de sentido dialoga com o
contexto de produção da obra.
Imagem 5: Jean-Baptiste Debret
Paisagem da Bahía do Rio de Janeiro e Igreja da Glória
Reprodução – MASP, [s.d.]. Disponível em:
https://masp.org.br/acervo/obra/paisagem-da-bahia
-do-rio-de-janeiro-e-igreja-da-gloria. Acesso em: 28 nov. 2024.
Encerramento 5 minutos
16.
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Aprofundando
A seguir, vocêencontra uma seleção de exercícios extras,
que ampliam as possibilidades de prática, de retomada e
aprofundamento do conteúdo estudado.
17.
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B
C
D
E
A
Ora, pegar escravosfugidos era um
ofício do tempo. Não seria nobre, mas
por ser instrumento da força com que se
mantêm a lei e a propriedade, trazia esta
outra nobreza implícita das ações
reivindicadoras. Ninguém se metia em tal
ofício por desfastio ou estudo; a pobreza,
a necessidade de uma achega, a
inaptidão para outros trabalhos, o acaso,
e alguma vez o gosto de servir também,
ainda que por outra via, davam o impulso
ao homem que se sentia bastante rijo
para pôr ordem à desordem.
(Contos: uma antologia, 1998.)
(UNESP 2018 – Adaptada)
No excerto lido, “pôr ordem à
desordem” significa
estimular os proprietários a tratarem
seus escravos com menos rigor.
restituir os escravos fugidos a seus
proprietários.
abolir a tortura imposta aos escravos
fugidos.
conceder aos proprietários de escravos
fugidos alguma compensação.
conceder a liberdade aos escravos
fugidos.
Aprofundando Veja no livro!
5 minutos
18.
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B
C
D
E
A
(Contos: uma antologia,1998.)
estimular os proprietários a tratarem
seus escravos com menos rigor.
restituir os escravos fugidos a seus
proprietários.
abolir a tortura imposta aos escravos
fugidos.
conceder aos proprietários de escravos
fugidos alguma compensação.
conceder a liberdade aos escravos
fugidos.
Aprofundando
Ora, pegar escravos fugidos era um
ofício do tempo. Não seria nobre, mas
por ser instrumento da força com que se
mantêm a lei e a propriedade, trazia esta
outra nobreza implícita das ações
reivindicadoras. Ninguém se metia em tal
ofício por desfastio ou estudo; a pobreza,
a necessidade de uma achega, a
inaptidão para outros trabalhos, o acaso,
e alguma vez o gosto de servir também,
ainda que por outra via, davam o impulso
ao homem que se sentia bastante rijo
para pôr ordem à desordem.
(UNESP 2018 – Adaptada)
No excerto lido, “pôr ordem à
desordem” significa
Veja no livro!
5 minutos
2025_EM_V1
Slide 2
Habilidade: (EM13LP52)Analisar obras significativas das literaturas brasileiras e de
outros países e povos, em especial a portuguesa, a indígena, a africana e a latino-
americana, com base em ferramentas da crítica literária (estrutura da composição, estilo,
aspectos discursivos) ou outros critérios relacionados a diferentes matrizes culturais,
considerando o contexto de produção (visões de mundo, diálogos com outros textos,
inserções em movimentos estéticos e culturais etc.) e o modo como dialogam com o
presente (SÃO PAULO, 2020).
22.
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Slide 3
Dinâmica decondução: no slide 3, é introduzido o assunto relacionado à literatura de
Machado de Assis, possivelmente, uma das mais relevantes em língua portuguesa
mundialmente falando. Aproveite o tema para abordar com os estudantes a relevância
desses textos, ao mostrar para eles como muitas das questões presentes nas obras desse
autor continuam relevantes atualmente. Além disso, destaque que essa literatura é uma
ótima forma de entender algumas questões da sociedade da época. É importante os
estudantes terem em mente essas informações, que justificam a importância de se estudar
Machado de Assis na escola, para que eles entendam exatamente uma das finalidades do
estudo literário. Com isso, é possível responder aos típicos questionamentos “por que só
lemos autores mortos?” ou “por que só lemos coisas velhas?”.