TRABALHO
DE
PORTUGUÊS


 FELIPE EDUARDO VICENTE


                8°C
Luis Fernando Veríssimo
                                                                                                Palavras
                                                                                    Luis Fernando Veríssimo 

Certas palavras dão a impressão de que voam ao sair da boca. "Sílfide", por exemplo. Diga 
"sílfide" e fique vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com 
o que a palavra significa. "Dirigível" não voa, "aeroplano" não voa e "bumerangue" mal sai da 
boca. "Sílfide" é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer dizer a mesma coisa diáfana, leve e 
borboleteante. Mas experimente dizer "silfo". Não voou, certo? Ao contrário de sua fêmea, "silfo" 
não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. "Silfo", zupt, plof. A própria palavra 
"borboleta" voa mal. Bate as asas, tenta se manter aérea, mas choca­se contra a parede e cai.
           Sempre achei que a palavra mais bonita da língua portuguesa é "sobrancelha". Esta não 
voa, mas paira no ar. Já a terrível palavra "seborréia" escorre pelos cantos da boca e pinga no 
tapete. Antônio Maria escreveu que sempre que alguém usa "outrossim" a frase é decorada. Eu 
mesmo   tenho   uma   frase   com   "outrossim"   pronta   para   usar   há   uns   20   anos,   mas   ainda   não 
apareceu a oportunidade. Quando sentir que vou morrer a usarei, mesmo que a  ocasião  seja 
imprópria, para não levá­la entalada.
           Às   vezes   fico   tentando   usar   a   palavra   "amiúde",   mas   sempre   hesito,   temendo   a 
quarentena social. E também porque amiúde penso que "amiúde" devia ser duas palavras, como 
em: "Ele entrou na sala à Miúde", ou à maneira do Miúde, seja o Miúde quem for. Muitas 
palavras pedem outro significado do que os que têm. "Plúmbeo" devia ser o barulho que um 
objeto   faz  ao cair na água. "Almoxarifado" devia ser um protetorado do xeque Al  Moxarif. 
"Alvíssaras"   deviam   ser   flores;   "picuinha",   um   tempero;   e   "lorota",   claro,   o   nome   de   uma 
manicure gorda.
           Vivemos numa era paradoxal em que tudo pode ser dito claramente e mesmo assim os 
eufemismos pululam. (Pululas: moluscos saltitantes que se reproduzem muito.) O empresário 
moderno   não   demite   mais,   faz   um   "downsizing",   ou   redimensionamento   para   baixo,   da   sua 
empresa. O empregado pode dizer em casa que não perdeu o emprego, foi downsizeado, e ainda 
impressionar os vizinhos. E não entendi por que "terceirizar" ainda não foi levado para a vida 
conjugal.   Maridos   podem   explicar   às   suas   mulheres   que   não   têm   exatamente   amantes, 
terceirizaram a sua vida sexual. E depois, claro, devem sair de perto à Miúde
A   S   F   G   E   T   O   S   D   K   B   C   Z   M   D   U   Y   E   R   Q
Z   C   V   B   I   J   N   B   H   U   E   G   V   F   R   E   D   C   X   S
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Felipe eduardo 8º cronicas

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  • 2.
    Luis Fernando Veríssimo Palavras Luis Fernando Veríssimo  Certas palavras dão a impressão de que voam ao sair da boca. "Sílfide", por exemplo. Diga  "sílfide" e fique vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com  o que a palavra significa. "Dirigível" não voa, "aeroplano" não voa e "bumerangue" mal sai da  boca. "Sílfide" é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer dizer a mesma coisa diáfana, leve e  borboleteante. Mas experimente dizer "silfo". Não voou, certo? Ao contrário de sua fêmea, "silfo"  não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. "Silfo", zupt, plof. A própria palavra  "borboleta" voa mal. Bate as asas, tenta se manter aérea, mas choca­se contra a parede e cai. Sempre achei que a palavra mais bonita da língua portuguesa é "sobrancelha". Esta não  voa, mas paira no ar. Já a terrível palavra "seborréia" escorre pelos cantos da boca e pinga no  tapete. Antônio Maria escreveu que sempre que alguém usa "outrossim" a frase é decorada. Eu  mesmo   tenho   uma   frase   com   "outrossim"   pronta   para   usar   há   uns   20   anos,   mas   ainda   não  apareceu a oportunidade. Quando sentir que vou morrer a usarei, mesmo que a  ocasião  seja  imprópria, para não levá­la entalada. Às   vezes   fico   tentando   usar   a   palavra   "amiúde",   mas   sempre   hesito,   temendo   a  quarentena social. E também porque amiúde penso que "amiúde" devia ser duas palavras, como  em: "Ele entrou na sala à Miúde", ou à maneira do Miúde, seja o Miúde quem for. Muitas  palavras pedem outro significado do que os que têm. "Plúmbeo" devia ser o barulho que um  objeto   faz  ao cair na água. "Almoxarifado" devia ser um protetorado do xeque Al  Moxarif.  "Alvíssaras"   deviam   ser   flores;   "picuinha",   um   tempero;   e   "lorota",   claro,   o   nome   de   uma  manicure gorda. Vivemos numa era paradoxal em que tudo pode ser dito claramente e mesmo assim os  eufemismos pululam. (Pululas: moluscos saltitantes que se reproduzem muito.) O empresário  moderno   não   demite   mais,   faz   um   "downsizing",   ou   redimensionamento   para   baixo,   da   sua  empresa. O empregado pode dizer em casa que não perdeu o emprego, foi downsizeado, e ainda  impressionar os vizinhos. E não entendi por que "terceirizar" ainda não foi levado para a vida  conjugal.   Maridos   podem   explicar   às   suas   mulheres   que   não   têm   exatamente   amantes,  terceirizaram a sua vida sexual. E depois, claro, devem sair de perto à Miúde
  • 3.
    A S F G E T O S D K B C Z M D U Y E R Q Z C V B I J N B H U E G V F R E D C X S C D T O K L Ç P M F B V C X Z P O I U Y F I O J K A A V I S S A R A Ç Q W E R T G A E O N Q A R U S X C B J U K E I M V B X D M Y F A X G V S I L F I D M K I R N S U V U X W S E D I F T G U O U J I L J F I Q O R A S V E L T H I D W I M Z S H B M U T E Q A Z S F D M F T S K I U M Y Q A E R O P L A N O C X T H I J I M G U S A S V C I E T O J K L D C Z T G B B I Y Q A Z A C I J N C B J B V I C D T O K T V M N S U K L E T O J E O N Q A T U O V G E T I I E H I J N C P M G F G X G L R B I J A N P A S V E D T V U I W S E Ç L K L E O H J E O N Q B I Q P R A S V P S V Y P Z A K V C D T O K U T E Q A Z X M J A Q Ç Q E J F G H J K S E D R M N Y W C N O U K I C U S X C B J H Ç Q U I I Q Ç S V E D T Ç G V B Y K B J U K A R