46 // Human Resources Portugal // Junho 2013 Junho 2013 // Human Resources Portugal // 47
Improviso:
umacompetênciaquesetreina
Têm todos experiência empresarial an-
terior à de actores profissionais. O que
é que teriam aplicado nessa fase, agora
que conhecem o improviso?
Pedro Borges // Se eu soubesse o que sei
hoje… teria tido uma atitude bastante mais
atrevida, menos receosa, estaria mais dis-
posto a lidar com o que viesse. O improviso
é isso: venha o que vier vou lidar e ultrapas-
sar. O improviso é muito útil para todos, não
é só para actores. Toda a gente improvisa, só
não sabe é porquê e como.
Marta Borges // Enquanto trabalhei
numa agência de publicidade e numa empre-
sa estrangeira de branding, onde cedo tive a
responsabilidade de gestão de projectos de
grande dimensão, com equipas muito diver-
sas, de diferentes nacionalidades e culturas,
acho que teria bem mais “ginga” para lidar
com os clientes e equipas internas, inclusive
com questões inesperadas que foram sur-
gindo, porque ouviria todos mais e melhor.
Esta capacidade de improviso ter-me-ia dado
também algumas ferramentas adicionais
para fazer teambuilding, para abraçar mais
as equipas com quem trabalhava.
Diz-sequeosportuguesessãobonsaim-
provisar,ovossogrupofazworkshopsem-
presariais,verificamestacaracterística?
Pedro Borges // Acho que os portugue-
ses são bons a desenrascar, que não é exac-
tamente a mesma coisa. O bom improviso
implica que as pessoas se unam, se aceitem
e consigam construir em conjunto e os por-
tugueses aí já são mais desconfiados, têm
medo de se expor.
Marta Borges //São bons, mas no início
acusam alguma pressão para acertar, sen-
tem-se avaliados pelos pares, são cerebrais,
cautelosos e contidos. Estivemos muito tem-
po debaixo de uma ditadura, que ainda está
de alguma forma presente na geração dos
nossos avós e pais. Isso instigou as pessoas
a “disfarçar” uma série de coisas, a jogar pelo
seguro, a não se mostrarem vulneráveis.
Quando se fazem jogos de improviso, quan-
do cuidadosamente vamos tirando a rede de
segurança das respostas e comportamentos
pré-preparados, quando se vai pondo a nú o
“eu verdadeiro”, as barreiras baixam. Aí sim,
os portugueses começam a entregar-se. E
quando o fazem, são mesmo bons, porque
somos um povo muito emocional, rico, den-
so, vivido e humano.
mente mais talento, mas a experiência diz-
-nosquetodaagenteconsegueserboaimpro-
visadora e, quanto mais se praticar, mais pre-
parado e refinado se fica. Neste caso, a prática
temmuitoquevercomfazermosnosensaios,
formações ou em palco aquilo que geralmen-
te nos esquecemos de fazer na vida, à medida
que crescemos: não querer ter só certezas, ser
sempre dono da razão e da resposta pronta, o
receiodefalhar,avergonhadoerro.Improvisar
é o contrário, é predispor-nos a estar vulnerá-
veis, a saltar no vazio, disponíveis para ouvir
tudo, comunicar, criar, aceitar e construir em
conjunto. E isto sim, exige muito treino. No
nosso caso, enquanto actores e com a respon-
sabilidade de fazer espectáculos semanais, os
ensaios e treinos não servem para preparar e
definir os conteúdos e temas dos improvisos.
Nisso somos muito “puristas”. O treino serve
para nos ginasticar mentalmente, aumentar
o grau de confiança em nós e no grupo, para
que,qualquerquesejaapropostafeitanomo-
mento, arrisquemos sem receios. Sem críticas
destrutivas.Issodáorigemaumrefrescamento
permanente, a um processo de constante des-
coberta, a um brotar de novas ideias, a uma
criatividade fervilhante. Só assim se justifica
que tenhamos nos nossos espectáculos e for-
maçõeshámaisde4anosemeiosemprecom
conteúdos novos, todas as semanas.
entrevista do conselho editorial
A
directora de Recursos
Humanos da Randstad
é assumidamente uma
entusiasta do improviso.
Catarina Horta chegou a
ter formação nesta área
com os entrevistados:
MartaBorges,PedroBor-
ges e Telmo Ramalho.
«O improviso é uma
arte muito útil no mun-
do do trabalho, uma vez
que põe em marcha uma
constanteginásticamental
eaumentaograudeautoconfiança»,assumem
“OsImprováveis”-ogrupoprofissionaldete-
atro de improviso, que pisa o palco há mais
de quatro anos. Numa conversa conduzida
por Catarina Horta, “Os Improváveis” dão a
conhecer o lado apaixonante do improviso e
comprovamqueéumaferramentadetrabalho
de grande utilidade.
Comonasce“OsImprováveis”?
Pedro Borges // Nasceu em 2008. Co-
meçou num workshop de uma encenadora
holandesa que estava em Portugal e que co-
nheciaacomédiadeimproviso.Apartirdesse
workshop formámos o grupo e começámos
a fazer espectáculos regulares. Foram saindo
uns actores, entrando outros e o grupo foi-se
profissionalizando.Desdeentãofomo-nosfor-
mando e especializando nesta área e hoje em
dia fazemos do improviso a nossa vida.
Oqueé,paracadaum,improvisar?
MartaBorges//Foradepalco,éaresposta
criativadadanomomentoaqualquercoisaque
surge.Dentrodopalcoéfazeristo,masbeme
sempre bem. Porque improvisar é uma coisa
inataemtodos,masporvezesesquecemo-nos
de o fazer “bem” e bloqueamos, somos mais
negativos. Intuitivamente, nas mais diversas
situações do dia-a-dia, todas as pessoas im-
provisam porque não têm um guião na vida.
Portantoimprovisaréestarespostanaturalde
ultrapassar tudo o que nos vai surgindo. Em
palco é isto, mas com uma responsabilidade
extradeserbem-feitoedemuitasvezesterum
cariz de entretenimento ou de gerar comédia,
ou se for uma peça teatral, ter profundidade e
algum drama.
PedroBorges//É adaptarmo-nos no mo-
mentoàscircunstânciaseconseguirmoscons-
truir da melhor forma possível um caminho,
uma resolução positiva.
Telmo Ramalho // Acho que é uma filo-
sofia de vida, um modo de vida. Improvisar
estátãodentrodenós.Começoaverascoisas
deoutroângulo,vounoautocarroeoiçouma
conversa entre dois adolescentes e penso logo
queaquilopoderiaserperfeitamenteumacena
deimproviso.Vejoumacenanarepartiçãodas
Finanças entre uma avó e um neto e pode ser
o início de outra cena de improviso. Assisto
a um filme e começo a perceber por onde a
história poderia ir e que outras ramificações
fariam sentido. É como se fosse um exercício
que eu não consigo controlar nem parar de o
fazer,estouconstantementeavernovaspossi-
bilidades de improviso.
Marta Borges // Há uma pressão, parece
quase um estado de alerta permanente. Tal
como para um fotógrafo que não consegue
olhardeformaisentaparaoqueorodeia,está
sempre a pensar no melhor ângulo. E isto é
verdade,estamosemsituaçõesquotidianasou
emrelaçõesfamiliareseoimprovisojáestána
nossacabeça,dezenasdevezes,aquerervoltar
a brincar. É quase um estado de regresso à in-
fância,doconstruirapartirdonada.Depoisde
ser descoberto fica-nos para sempre.
Quando vos vêem pela primeira vez, as
pessoastendemapensarqueascenassão
preparadas,quandonãosão.
TelmoRamalho//Venhamvermaisvezes,
é sempre diferente. Não há preparação de
conteúdos, não há truques, não há batota.
E fazemos questão que seja sempre assim:
genuíno e original!
O improviso é uma competência que
setreina?
Marta Borges // Sim. E muito! É como
qualquer arte, há pessoas com aparente-
CatarinaHorta,directoradeRecursosHumanosdoGrupoRandstad,directoraComercialda
PsicoformaemembrodoConselhoEditorialdarevistaHumanResourcesPortugal,entrevista
MartaBorges,PedroBorgeseTelmoRamalho-trêsprofissionaisdeteatrodeimproviso.
Por TitiAna Amorim Barroso · Fotografia Paulo Alexandrino
48 // Human Resources Portugal // Junho 2013
entrevista
do conselho
editorial
PedroBorges//E piadolas. Muita
gente usa o humor como defesa para
não ter de levar a sério uma tarefa.
Marta Borges // Muitas vezes
pensam que o improviso é mais fá-
cil para as pessoas que têm piada.
E geralmente é o oposto. Aquelas
pessoas que estão mais atentas, que
ouvem muito os outros, são melho-
res improvisadores do que as pessoas
extremamente extrovertidas e muito
centradas no seu discurso.
Deixem-medar-vosumaperspec-
tiva de como vos vejo: são gesto-
res de pessoas exímios porque
geremeinteragemsemanalmente
comgruposdiferentesdepessoas
quenãoconhecem.Comosevêem
enquanto gestores de pessoas?
Telmo Ramalho // Nunca tinha
pensado nisso. Ainda por cima sou
eu que faço a abertura dos espectácu-
los e consigo ver quem está na plateia,
quem está sentado ao lado de quem,
e perceber quem está disponível para
o espectáculo através da linguagem
corporal, que é o primeiro sinal. O
aquecimento que faço é para desblo-
quear aquelas pessoas que estão com
medo, na expectativa de serem cha-
madas a palco ou obrigadas a falar.
MartaBorges//Nos espectáculos
queremos acima de tudo que o públi-
co se divirta, tenha uma boa experi-
ência, mas não achincalhamos nem
desrespeitamos ninguém. Evitamos
escatologias e brejeirices, mostramos
que há outras formas de participar e
fazer humor. Quando o público está
muito disponível para participar,
tentamos acalmá-lo para a coisa não
sair fora do controlo. Se é um público
muito fechado, treina-se a interacção
e participação da plateia. Essa ener-
gia é vital para o sucesso do nosso
espectáculo. Quanto mais o público
nos der, mais nós damos, é um pro-
cesso tipo “bola de neve”.
Pedro Borges // Cria-se um cli-
ma de amizade com o público, todos
juntos a criar um espectáculo que só
a eles vai pertencer.
reuniões, sessões brainstormings,
na gestão diária de equipas, em
apresentações e para lidar com o
inesperado, diminuindo a resistên-
cia às mudanças. Pé ante pé pomos
todos a improvisar e a fazer o que
no início parecia impossível!
Fiz improviso convosco e aquilo
que teve maior generosidade foi
terem-me ensinado o “sim e…”.
Marta Borges // O “sim e…” é
a chave do improviso, mas que vai
para além dos palcos e das forma-
ções. É a tal forma construtiva, po-
sitiva de estar em qualquer situação,
de ouvir qualquer coisa e dar uma
resposta positiva. Normalmente, pe-
rante novas propostas, o típico para
qualquer pessoa, é ter a reacção de
dizer que “não”. Não por sermos más
pessoas, mas porque não estávamos
a antecipar aquilo, é desconfortável
obrigarem-nos a lidar com o inespe-
rado, a mudar o planeado. A postu-
ra de “não” constante gera conflito,
desgaste e desinteresse. Depois há
aquelas pessoas que optam por dizer
sempre “sim sim”. Embora simpáti-
cos, são cansativos de lidar, porque sabemos que nada
vai acontecer, não há compromisso. Depois há os “sim,
mas...”, cordiais mas que desviam o assunto para onde
lhes interessa, é novamente igual a um “não”. Fazer “Sim
e” implica ouvir e acrescentar algo, pondo um tijolo em
cima e não ao lado.
Pedro Borges // Quando isto se faz, quando damos
uma ideia, recebêmo-la transformada e voltamos a devol-
vê-la ainda mais enriquecida, o alcance das propostas vai
muito mais além. Seja no palco do teatro, do trabalho ou
da vida pessoal. Se largarmos o ego e baixarmos as guar-
das estamos mais disponíveis para construir em conjunto
um rumo ao desconhecido.
Marta Borges // Com esta filosofia de vida fica-nos
instalado quase que um “piloto automático”. Quando al-
guém fala connosco intuitivamente tentamos de imediato
reconhecer o seu perfil: se ouve ou não, se é líder, se é
muito ou pouco conflituoso, etc.
Telmo Ramalho // Durante o improviso conhecemos
logo quem é verdadeiramente aquela pessoa.
Marta Borges // Acho cada vez mais que conheço
melhor uma pessoa se improvisar com ela durante uma
hora, do que se estiver um dia inteiro à conversa num
café. A improvisar joga-se com a verdade, com as nossas
reais emoções, fragilidades e virtudes. E isso é impossível
de esconder.
E nos workshops como é que re-
cebem as pessoas?
Marta Borges // Com muito cui-
dado e respeito. A técnica do impro-
viso é aparentemente muito simples,
mas como em tudo na vida, o que
parece simples é difícil de fazer. É
muito democrática: quando se im-
provisa não há hierarquias, não inte-
ressa forçosamente onde a pessoa se
formou, com que grau académico, o
que leu. Interessa tão só que tenha
experiência de vida, seja ela qual
for. E isso todos temos. E depois,
que seja positiva, oiça e participe.
As pessoas não estão à espera que
todos consigam fazê-lo, dizem-nos
não ter jeito para teatro ou stand-
up comedy. Como não tem nada a
ver com isso, conseguem. Nalgumas
formações mais “clássicas” de role-
play, os introvertidos do grupo não
têm espaço para sobressair. Nos nos-
sos workshops reforçamos que não
se tratam de castings ou audições,
devagarinho puxamos a tal habili-
dade inata em todos de improvisar.
À medida que os exercícios vão
sendo feitos há a consciência indi-
vidual e colectiva de que todos são
mais criativos do que imaginavam,
que podem ser menos conflituosos,
algo que se vai revelar muito útil em
Umaentrevistaconduzida
porCatarinaHortaa
MartaBorges,Pedro
BorgeseTelmoRamalho

Entrevista ch improvs

  • 1.
    46 // HumanResources Portugal // Junho 2013 Junho 2013 // Human Resources Portugal // 47 Improviso: umacompetênciaquesetreina Têm todos experiência empresarial an- terior à de actores profissionais. O que é que teriam aplicado nessa fase, agora que conhecem o improviso? Pedro Borges // Se eu soubesse o que sei hoje… teria tido uma atitude bastante mais atrevida, menos receosa, estaria mais dis- posto a lidar com o que viesse. O improviso é isso: venha o que vier vou lidar e ultrapas- sar. O improviso é muito útil para todos, não é só para actores. Toda a gente improvisa, só não sabe é porquê e como. Marta Borges // Enquanto trabalhei numa agência de publicidade e numa empre- sa estrangeira de branding, onde cedo tive a responsabilidade de gestão de projectos de grande dimensão, com equipas muito diver- sas, de diferentes nacionalidades e culturas, acho que teria bem mais “ginga” para lidar com os clientes e equipas internas, inclusive com questões inesperadas que foram sur- gindo, porque ouviria todos mais e melhor. Esta capacidade de improviso ter-me-ia dado também algumas ferramentas adicionais para fazer teambuilding, para abraçar mais as equipas com quem trabalhava. Diz-sequeosportuguesessãobonsaim- provisar,ovossogrupofazworkshopsem- presariais,verificamestacaracterística? Pedro Borges // Acho que os portugue- ses são bons a desenrascar, que não é exac- tamente a mesma coisa. O bom improviso implica que as pessoas se unam, se aceitem e consigam construir em conjunto e os por- tugueses aí já são mais desconfiados, têm medo de se expor. Marta Borges //São bons, mas no início acusam alguma pressão para acertar, sen- tem-se avaliados pelos pares, são cerebrais, cautelosos e contidos. Estivemos muito tem- po debaixo de uma ditadura, que ainda está de alguma forma presente na geração dos nossos avós e pais. Isso instigou as pessoas a “disfarçar” uma série de coisas, a jogar pelo seguro, a não se mostrarem vulneráveis. Quando se fazem jogos de improviso, quan- do cuidadosamente vamos tirando a rede de segurança das respostas e comportamentos pré-preparados, quando se vai pondo a nú o “eu verdadeiro”, as barreiras baixam. Aí sim, os portugueses começam a entregar-se. E quando o fazem, são mesmo bons, porque somos um povo muito emocional, rico, den- so, vivido e humano. mente mais talento, mas a experiência diz- -nosquetodaagenteconsegueserboaimpro- visadora e, quanto mais se praticar, mais pre- parado e refinado se fica. Neste caso, a prática temmuitoquevercomfazermosnosensaios, formações ou em palco aquilo que geralmen- te nos esquecemos de fazer na vida, à medida que crescemos: não querer ter só certezas, ser sempre dono da razão e da resposta pronta, o receiodefalhar,avergonhadoerro.Improvisar é o contrário, é predispor-nos a estar vulnerá- veis, a saltar no vazio, disponíveis para ouvir tudo, comunicar, criar, aceitar e construir em conjunto. E isto sim, exige muito treino. No nosso caso, enquanto actores e com a respon- sabilidade de fazer espectáculos semanais, os ensaios e treinos não servem para preparar e definir os conteúdos e temas dos improvisos. Nisso somos muito “puristas”. O treino serve para nos ginasticar mentalmente, aumentar o grau de confiança em nós e no grupo, para que,qualquerquesejaapropostafeitanomo- mento, arrisquemos sem receios. Sem críticas destrutivas.Issodáorigemaumrefrescamento permanente, a um processo de constante des- coberta, a um brotar de novas ideias, a uma criatividade fervilhante. Só assim se justifica que tenhamos nos nossos espectáculos e for- maçõeshámaisde4anosemeiosemprecom conteúdos novos, todas as semanas. entrevista do conselho editorial A directora de Recursos Humanos da Randstad é assumidamente uma entusiasta do improviso. Catarina Horta chegou a ter formação nesta área com os entrevistados: MartaBorges,PedroBor- ges e Telmo Ramalho. «O improviso é uma arte muito útil no mun- do do trabalho, uma vez que põe em marcha uma constanteginásticamental eaumentaograudeautoconfiança»,assumem “OsImprováveis”-ogrupoprofissionaldete- atro de improviso, que pisa o palco há mais de quatro anos. Numa conversa conduzida por Catarina Horta, “Os Improváveis” dão a conhecer o lado apaixonante do improviso e comprovamqueéumaferramentadetrabalho de grande utilidade. Comonasce“OsImprováveis”? Pedro Borges // Nasceu em 2008. Co- meçou num workshop de uma encenadora holandesa que estava em Portugal e que co- nheciaacomédiadeimproviso.Apartirdesse workshop formámos o grupo e começámos a fazer espectáculos regulares. Foram saindo uns actores, entrando outros e o grupo foi-se profissionalizando.Desdeentãofomo-nosfor- mando e especializando nesta área e hoje em dia fazemos do improviso a nossa vida. Oqueé,paracadaum,improvisar? MartaBorges//Foradepalco,éaresposta criativadadanomomentoaqualquercoisaque surge.Dentrodopalcoéfazeristo,masbeme sempre bem. Porque improvisar é uma coisa inataemtodos,masporvezesesquecemo-nos de o fazer “bem” e bloqueamos, somos mais negativos. Intuitivamente, nas mais diversas situações do dia-a-dia, todas as pessoas im- provisam porque não têm um guião na vida. Portantoimprovisaréestarespostanaturalde ultrapassar tudo o que nos vai surgindo. Em palco é isto, mas com uma responsabilidade extradeserbem-feitoedemuitasvezesterum cariz de entretenimento ou de gerar comédia, ou se for uma peça teatral, ter profundidade e algum drama. PedroBorges//É adaptarmo-nos no mo- mentoàscircunstânciaseconseguirmoscons- truir da melhor forma possível um caminho, uma resolução positiva. Telmo Ramalho // Acho que é uma filo- sofia de vida, um modo de vida. Improvisar estátãodentrodenós.Começoaverascoisas deoutroângulo,vounoautocarroeoiçouma conversa entre dois adolescentes e penso logo queaquilopoderiaserperfeitamenteumacena deimproviso.Vejoumacenanarepartiçãodas Finanças entre uma avó e um neto e pode ser o início de outra cena de improviso. Assisto a um filme e começo a perceber por onde a história poderia ir e que outras ramificações fariam sentido. É como se fosse um exercício que eu não consigo controlar nem parar de o fazer,estouconstantementeavernovaspossi- bilidades de improviso. Marta Borges // Há uma pressão, parece quase um estado de alerta permanente. Tal como para um fotógrafo que não consegue olhardeformaisentaparaoqueorodeia,está sempre a pensar no melhor ângulo. E isto é verdade,estamosemsituaçõesquotidianasou emrelaçõesfamiliareseoimprovisojáestána nossacabeça,dezenasdevezes,aquerervoltar a brincar. É quase um estado de regresso à in- fância,doconstruirapartirdonada.Depoisde ser descoberto fica-nos para sempre. Quando vos vêem pela primeira vez, as pessoastendemapensarqueascenassão preparadas,quandonãosão. TelmoRamalho//Venhamvermaisvezes, é sempre diferente. Não há preparação de conteúdos, não há truques, não há batota. E fazemos questão que seja sempre assim: genuíno e original! O improviso é uma competência que setreina? Marta Borges // Sim. E muito! É como qualquer arte, há pessoas com aparente- CatarinaHorta,directoradeRecursosHumanosdoGrupoRandstad,directoraComercialda PsicoformaemembrodoConselhoEditorialdarevistaHumanResourcesPortugal,entrevista MartaBorges,PedroBorgeseTelmoRamalho-trêsprofissionaisdeteatrodeimproviso. Por TitiAna Amorim Barroso · Fotografia Paulo Alexandrino
  • 2.
    48 // HumanResources Portugal // Junho 2013 entrevista do conselho editorial PedroBorges//E piadolas. Muita gente usa o humor como defesa para não ter de levar a sério uma tarefa. Marta Borges // Muitas vezes pensam que o improviso é mais fá- cil para as pessoas que têm piada. E geralmente é o oposto. Aquelas pessoas que estão mais atentas, que ouvem muito os outros, são melho- res improvisadores do que as pessoas extremamente extrovertidas e muito centradas no seu discurso. Deixem-medar-vosumaperspec- tiva de como vos vejo: são gesto- res de pessoas exímios porque geremeinteragemsemanalmente comgruposdiferentesdepessoas quenãoconhecem.Comosevêem enquanto gestores de pessoas? Telmo Ramalho // Nunca tinha pensado nisso. Ainda por cima sou eu que faço a abertura dos espectácu- los e consigo ver quem está na plateia, quem está sentado ao lado de quem, e perceber quem está disponível para o espectáculo através da linguagem corporal, que é o primeiro sinal. O aquecimento que faço é para desblo- quear aquelas pessoas que estão com medo, na expectativa de serem cha- madas a palco ou obrigadas a falar. MartaBorges//Nos espectáculos queremos acima de tudo que o públi- co se divirta, tenha uma boa experi- ência, mas não achincalhamos nem desrespeitamos ninguém. Evitamos escatologias e brejeirices, mostramos que há outras formas de participar e fazer humor. Quando o público está muito disponível para participar, tentamos acalmá-lo para a coisa não sair fora do controlo. Se é um público muito fechado, treina-se a interacção e participação da plateia. Essa ener- gia é vital para o sucesso do nosso espectáculo. Quanto mais o público nos der, mais nós damos, é um pro- cesso tipo “bola de neve”. Pedro Borges // Cria-se um cli- ma de amizade com o público, todos juntos a criar um espectáculo que só a eles vai pertencer. reuniões, sessões brainstormings, na gestão diária de equipas, em apresentações e para lidar com o inesperado, diminuindo a resistên- cia às mudanças. Pé ante pé pomos todos a improvisar e a fazer o que no início parecia impossível! Fiz improviso convosco e aquilo que teve maior generosidade foi terem-me ensinado o “sim e…”. Marta Borges // O “sim e…” é a chave do improviso, mas que vai para além dos palcos e das forma- ções. É a tal forma construtiva, po- sitiva de estar em qualquer situação, de ouvir qualquer coisa e dar uma resposta positiva. Normalmente, pe- rante novas propostas, o típico para qualquer pessoa, é ter a reacção de dizer que “não”. Não por sermos más pessoas, mas porque não estávamos a antecipar aquilo, é desconfortável obrigarem-nos a lidar com o inespe- rado, a mudar o planeado. A postu- ra de “não” constante gera conflito, desgaste e desinteresse. Depois há aquelas pessoas que optam por dizer sempre “sim sim”. Embora simpáti- cos, são cansativos de lidar, porque sabemos que nada vai acontecer, não há compromisso. Depois há os “sim, mas...”, cordiais mas que desviam o assunto para onde lhes interessa, é novamente igual a um “não”. Fazer “Sim e” implica ouvir e acrescentar algo, pondo um tijolo em cima e não ao lado. Pedro Borges // Quando isto se faz, quando damos uma ideia, recebêmo-la transformada e voltamos a devol- vê-la ainda mais enriquecida, o alcance das propostas vai muito mais além. Seja no palco do teatro, do trabalho ou da vida pessoal. Se largarmos o ego e baixarmos as guar- das estamos mais disponíveis para construir em conjunto um rumo ao desconhecido. Marta Borges // Com esta filosofia de vida fica-nos instalado quase que um “piloto automático”. Quando al- guém fala connosco intuitivamente tentamos de imediato reconhecer o seu perfil: se ouve ou não, se é líder, se é muito ou pouco conflituoso, etc. Telmo Ramalho // Durante o improviso conhecemos logo quem é verdadeiramente aquela pessoa. Marta Borges // Acho cada vez mais que conheço melhor uma pessoa se improvisar com ela durante uma hora, do que se estiver um dia inteiro à conversa num café. A improvisar joga-se com a verdade, com as nossas reais emoções, fragilidades e virtudes. E isso é impossível de esconder. E nos workshops como é que re- cebem as pessoas? Marta Borges // Com muito cui- dado e respeito. A técnica do impro- viso é aparentemente muito simples, mas como em tudo na vida, o que parece simples é difícil de fazer. É muito democrática: quando se im- provisa não há hierarquias, não inte- ressa forçosamente onde a pessoa se formou, com que grau académico, o que leu. Interessa tão só que tenha experiência de vida, seja ela qual for. E isso todos temos. E depois, que seja positiva, oiça e participe. As pessoas não estão à espera que todos consigam fazê-lo, dizem-nos não ter jeito para teatro ou stand- up comedy. Como não tem nada a ver com isso, conseguem. Nalgumas formações mais “clássicas” de role- play, os introvertidos do grupo não têm espaço para sobressair. Nos nos- sos workshops reforçamos que não se tratam de castings ou audições, devagarinho puxamos a tal habili- dade inata em todos de improvisar. À medida que os exercícios vão sendo feitos há a consciência indi- vidual e colectiva de que todos são mais criativos do que imaginavam, que podem ser menos conflituosos, algo que se vai revelar muito útil em Umaentrevistaconduzida porCatarinaHortaa MartaBorges,Pedro BorgeseTelmoRamalho