Machado de Assis
O ALIENISTA
Prefácio
Flávio Gordon
O Alienista
M A C H A D O D E A S S I S
Editora Gazeta do Povo
Editora Gazeta do Povo S/A, 2024
Todos os direitos reservados.
Título original: O Alienista (1882)
Capa e diagramação: Cristiano Alves
1ª Edição – formato PDF e EPUB
___________
Assis, Machado
O Alienista;
Editora Gazeta do Povo, 2024
___________
[2024]
Editora Gazeta do Povo S/A
Av. Victor Ferreira do Amaral, 306
Curitiba - Paraná
www.gazetadopovo.com.br
O Alienista
M A C H A D O D E A S S I S
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
C A P Í T U L O
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
O Alienista
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Prefácio
A Insônia da Razão Produz Monstros
A febre da razão
“O louco não é um homem que perdeu a razão.
O louco é um homem que perdeu tudo exceto a
razão” – escreve G. K. Chesterton em Ortodoxia. E
esse bem poderia ser o resumo mais curto já es-
crito de O Alienista, o genial conto de Machado de
Assis que a Gazeta do Povo ora relança em versão
digital ilustrada.
Com efeito, se algo faltava ao doutor Simão Ba-
camarte, protagonista da obra, decerto não era a
razão. Ao contrário, isso é o que ele tinha de sobra.
Formado nos mais excelentes centros acadêmicos
europeus, o cientista brasileiro era o embaixador
darazãoemterrastropicais.Maisainda!Naquali-
dade de “maior dos médicos do Brasil, de Portugal
e das Espanhas”, era a própria razão encarnada,
vinda ao mundo para salvar e redimir a pequena
província fluminense de Itaguaí, sua terra natal,
já em tempo de abandonar as trevas das supers-
Flávio Gordon
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tições coloniais em favor das luzes do progresso,
da civilização e da ciência moderna.
Bacamarteéumprodutotardio,ealgodesajeitado,
do Iluminismo francês. Vale lembrar que a França
do assim chamado “Século das Luzes” vira nascer
umadevoçãoverdadeiramentereligiosapelarazão
e pela ciência, traduzida na firme convicção em
sua capacidade reformadora. Embora não fossem
propriamente cientistas, mas homens de letras,
os philosophes iluministas dedicavam-se de corpo
e alma à divulgação das novas ideias e descobertas
científicas. E, embora não fossem propriamente
filósofos, mas críticos culturais, traziam con-
sigo uma mensagem de alcance filosófico consi-
derável: a crença no autoaperfeiçoamento da hu-
manidade por meio da ciência e da razão natural.
No mundo das letras francesas do período, houve
umverdadeiroencantamentocomafilosofia(mais
doquecomafísica)newtoniana.Que,porexemplo,
Newton tivesse descoberto a natureza da luz era
menos significativo que o tivesse feito brincando
com um prisma¹. Tudo se passava como se, pela
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primeira vez, a natureza fora trazida para perto
do homem. E o homem iluminista deslumbrou-se
comoqueviu.ComoconsagraramosversosdeAle-
xander Pope em seu Epitáfio para Sir Isaac Newton:
“Anaturezaesuasleisjaziamescondidasnanoite/
Deus disse, ‘Faça-se Newton’, e tudo se fez luz”.
Com a revolução científica, a natureza passara
a ser manipulada, testada, examinada em todos
os seus maravilhosos detalhes. Foi então que o
homem comum imaginou poder compreender a
natureza, consistindo justamente nisso o grande
impacto do newtonianismo. Pode-se dizer que a
filosofia setecentista concluiu o processo iniciado
por Bacon e Descartes, passando de puro exercício
de contemplação (a bios theoretikos aristotélica) a
meio de ação e aprimoramento da vida humana.
Dali em diante, o homem comum passou a asso-
ciar os seus anseios e expectativas aos grandes
nomes da ciência. Como mostrou Albert Mathiez²,
um dos pioneiros a ocupar a cátedra de história da
Revolução Francesa na Sorbonne, esta foi a ideia
1 Ver, sobre o assunto: BECKER, Carl. The Heavenly City of the Eighte-
enth-Century Philosophers. New Haven & London: Yale University Press,
1932.
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essencial da filosofia do século 18: por meio da
razão e da ciência, o homem pode melhorar in-
definidamente a sua condição, modificando o
organismo social.
E, de fato, no decorrer da Revolução Francesa –
o evento histórico que materializou aquela ideia
essencial – vimos como, de maneira grosseira de
tão caricata, elementos centrais da religião tradi-
cionalforamparodiadoseconvertidosemexóticos
cultos seculares. Tendo lugar em catedrais como
Notre-Dame e Chartres, esses cultos incluíam o
catecismo e o batismo cívicos, a eucaristia com
a pátria e, em particular, a penitência diante da
“deusa Razão”³. Uma nova religião, tendo a razão
humana como divindade e os filósofos iluministas
como apóstolos, surgia no horizonte como uma
aurora de esperança e redenção. O Zeitgeist era fe-
bril – a febre da razão.
2 Ver: MATHIEZ, Albert. As origens dos cultos revolucionários. Barueri:
Avis Rara (Faro Editorial), 2021.
3 Ver, sobre o assunto: OZOUF, Mona. Festivals and the French Revolu-
tion. Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press, 1988.
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Psiquiatria e reforma social
Precedido pelo ciclo pombalino e sucedido pelo
marxismo, o positivismo de Augusto Comte foi a
mais influente versão do cientificismo iluminista
no Brasil de meados do século 19⁴, período no qual
se desenrola a trama de O Alienista. E é justo nesse
período que começam a aparecer as primeiras
teses médicas sobre a alienação mental.
No Brasil, é em 18 de julho de 1841 que o impe-
rador decreta a criação, na Praia Vermelha do Rio
de Janeiro, do Hospício de Pedro II, modelado de
acordo com as instituições francesas organizadas
por Philippe Pinel e Jean-Étienne Esquirol. Tendo
condenado o antigo tratamento dado aos loucos
em sua sociedade, os mestres franceses introdu-
ziram na psiquiatria moderna a mescla tipica-
mente iluminista e positivista entre ciência e re-
forma social. E a revolução que Simão Bacamarte,
esse misto de médico e reformador social, pro-
voca na pacata vila de Itaguaí alude justamente,
4 Ver, sobre o assunto: PAIM, Antonio. História das Ideias Filosóficas no
Brasil (Vol. II). 6ª Ed. Londrina: Edições Humanidades, 2007. Cap. 5.
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de modo irônico, às intervenções da medicina nas
questões administrativas do Estado.
Ocorre que, sempre inspirado pelo Eclesiastes e,
como sugeriu o crítico Barreto Filho5, adepto de
uma visão trágica da vida, Machado desconfiava
dos triunfalismos progressista e cientificista de
sua época. De modo que, sendo o seu segundo tra-
balhodedestaquedafasemadura(sobreaqualfa-
laremos a seguir), O Alienista consiste numa crí-
tica ácida e bem-humorada aos mitos científicos
contemporâneos ao autor. Itaguaí é um micro-
cosmo da sociedade brasileira oitocentista, osci-
lante entre a permanência dos velhos hábitos de
um Brasil ainda colonial (referidos ironicamente,
no início do texto, como os “tempos remotos” da
viladeItaguaí)eaurgênciafrenética,porpartedas
elites locais, de acertar o passo com o progresso
científico e social oriundo da Europa. “A ciência é
o meu emprego único. Itaguaí é o meu universo”
– diz Bacamarte ao rei de Portugal, ao recusar-lhe
polidamente a oferta de permanecer em Coimbra
5 Ver: BARRETO FILHO, José. Introdução a Machado de Assis. Rio de Ja-
neiro: Agir, 1947.
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em favor da missão abnegada de civilizar a terra
natal. Por intermédio do médico, portanto, Ita-
guaí tinha o seu primeiro encontro com a ciência.
Tal como viria a fazer de Quincas Borba uma pa-
ródia das teses positivistas e social-darwinistas
importadasdoestrangeiro,MachadofezdeOAlie-
nista uma paródia da psiquiatria moderna e suas
inconclusivastesessobreasfronteirasentrealou-
cura e a sanidade. Quincas Borba e Simão Baca-
marte são intelectuais que enlouquecem por ex-
cesso de ciência. Os dois caem de cama, ardendo
em febre de razão. Pior ainda: auto-imbuídos da
missão de curar, civilizar e racionalizar a socie-
dade, ambos enlouquecem o ambiente social ao
redor. Se o sono da razão produz monstros – como
no título do famoso quadro de Goya –, a insônia
da razão talvez os produza ainda mais.
O Bruxo do Cosme Velho é especialmente impla-
cável ao retratar as extravagantes refrações so-
fridas pelas luzes europeias no contato com o am-
biente tropical. No Brasil, parecem desajeitadas
as teses importadas da Europa, como são desajei-
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tados os hábitos da elite local, que em tudo pro-
cura imitar os gostos europeus. Como diria Gil-
berto Freyre, não há nada que não amoleça sob
o calor dos trópicos, incluindo teses, hábitos,
gostos e... saltos altos. “O gosto de imitar as fran-
cesas da rua do Ouvidor é evidentemente um erro.
As nossas moças devem andar como sempre an-
daram, com seu vagar e paciência, e não este ti-
que-tique afrancesado” – comenta o agregado
José Dias em Dom Casmurro, depois de ver uma
dama da sociedade estatelar-se no chão por amor
às modas da França.
Em O Alienista, Machado expõe a forma rígida e
servil com que os estudiosos brasileiros da alie-
nação mental copiavam as teses dos doutores
franceses, mimetizando até mesmo as suas crí-
ticas sociopolíticas à administração pública dos
loucos. Carentes da mesma experiência dos co-
legas europeus no método asilar, todavia, nossos
alienistas calharam de adotar uma persona comi-
camente autoritária, tomando a si próprios, seus
gostos, valores e ideias, como medida e padrão-
-ouro da sanidade, e fazendo da ciência psiqui-
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átrica, epítome da razão humana universal, uma
arma de controle social e ideológico da população.
Ao propor a uma perplexa Câmara de Itaguaí a
construção de um asilo para os loucos – a Casa
Verde –, Bacamarte começa a sua insana ascensão
rumo ao posto de “editor” de uma cidade inteira.
Sempre ressaltando o confronto entre os antigos
hábitos itaguaienses e as urgentes aspirações do
progresso, Machado descreve a reação negativa
da população nos seguintes termos:
“A proposta excitou a curiosidade de toda
a vila e encontrou grande resistência, tão
certo é que dificilmente se desarraigam há-
bitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de
meter os loucos na mesma casa, vivendo em
comum, pareceu em si mesmo um sintoma
de demência” (grifos meus).
Considerando apenas o primeiro período da ci-
taçãoacima,aopiniãodonarradorparececoincidir
com a do alienista, ambas críticas à resistência ao
progresso (irracional, por óbvio) oferecida pelas
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mentes conservadoras locais. Mas, no período se-
guinte,aomencionaraopiniãopopularsobreain-
sensatez de juntar todos os loucos numa mesma
casa, Machado abala a aparente coincidência ini-
cial,levandooleitora,nomínimo,considerarcom
benevolência o senso comum contra a tese cien-
tífica. Na medida em que a narrativa se desenrola, e
emqueodoutorBacamarteavançaseuprojetosani-
tário e civilizatório, o senso comum vai se tornando
cada vez mais um mero sinônimo de bom senso, e a
ciência vai exibindo a sua face alucinada.
A loucura, até então vista por Bacamarte como
“uma ilha perdida no oceano da razão”, passa a
ser compreendida como um continente. Compor-
tamentos que, aos olhos leigos, seriam tidos por
absolutamente normais, senão mesmo virtuosos,
passam a ser vistos como sinal de loucura pelo
alienista. É o caso emblemático do Sr. Costa, “um
dos cidadãos mais estimados de Itaguaí”, que re-
solveu abrir mão de uma vultosa herança rece-
bida em favor dos pobres e necessitados. Aquilo
que o senso comum poderia julgar tratar-se de
desprendimento e caridade, o doutor Bacamarte
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diagnostica como alienação. Questionado sobre
o motivo da internação de tão querida personali-
dade, responde seca e objetivamente: “a ciência é
a ciência”.
Munido, pois, de tal ciência, o alienista passa a
diagnosticar Deus e o mundo como loucos, in-
cluindo a sua própria esposa D. Evarista, tranca-
fiada na Casa Verde junto com 80% da população
itaguaiense. Também das vizinhanças da cidade
chegam novos contingentes de loucos, que au-
mentamapopulaçãodomanicômioeobrigamBa-
camarte a anexar galerias à construção inicial. É
como arauto da modernidade, como agente civi-
lizador e como reformador social que Bacamarte
adquireopoderpara“empurrarahistória”deIta-
guaí. Ao contrário dos políticos comuns, sua auto-
ridade não advém da representatividade, mas do
saber.Daíquetodamanifestaçãodecontrariedade
à sua agenda reformista não seja legitimada como
visão política divergente, mas condenada como
bárbara e anticientífica. Seus críticos não são ci-
dadãos, mas inimigos da saúde e do progresso. A
revolta de parte da população itaguaiense contra
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a Casa Verde não é um ato político, mas um aten-
tado à razão. Quando a “ciência, ciência, ciência”
fala, o mais prudente é calar-se.
A transfiguração interior de Machado de Assis
O Alienista foi publicado originalmente em capí-
tulos, entre outubro de 1881 e março de 1882, no
jornalcarioca“AEstação”.Aindaem1882,elesaiu
porinteironovolumedecontosreunidosintitulado
Papéis Avulsos. Ou seja, a história de Simão Baca-
marte veio ao mundo meses depois da publicação
de Memórias Póstumas de Brás Cubas, também de
1881, e ambos os trabalhos, o romance e o conto,
inauguram a segunda fase da obra machadiana,
que alguns críticos chamam de “realista”, con-
trapondo-aàfase“romântica”anterior,masque,
inspirado em René Girard6, eu prefiro chamar de
romanesca, no sentido da revelação de verdades
sobre a existência humana ocultadas pelo roman-
tismo.
6 Ver: GIRARD, René. Mentira Romântica, Verdade Romanesca. São Pau-
lo: É Realizações, 2009.
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É certo que, ao longo de sua primeira fase, Ma-
chado já demonstrara parte de seu talento lite-
rário, ao menos no que diz respeito às qualidades
formais. Quando, em 1872, publicou Ressurreição,
o seu primeiro romance, já não era um autor obs-
curo, mas, ao contrário, um escritor bem-con-
ceituado e com fama de fidalgo das letras, o qual,
cinco anos antes, havia sido agraciado com o grau
de Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços pres-
tados às letras nacionais. Para os leitores dessa
época, portanto, que já o acompanhavam pelas
páginas do Diário do Rio de Janeiro e da Semana
Ilustrada, a publicação de seu primeiro romance,
formalmente irretocável, parecia consagrar a
bem-sucedida carreira de um escritor de escol, o
qual, estando no ápice, talvez já pudesse dar por
encerrada a sua obra neste planeta.
Mas, como sugere Gustavo Corção em volume de-
dicado a Machado de Assis numa coletânea sobre
os clássicos das letras brasileiras7, quão equivo-
cados estiveram os leitores da época, e quão feli-
7 Ver: CORÇÃO, Gustavo. “Machado de Assis”. Em: Alceu Amoro Lima e
Roberto Alvim Corrêa (eds.). Nossos Clássicos, vol. 37. Rio de Janeiro:
Agir, 1966.
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zardos foram os leitores futuros, que, já uma dé-
cada adiante, começaram a divisar o restante da
história, testemunhando a transformação da-
quele autor apenas competente no maior escritor
brasileiro de todos os tempos e monstro sagrado
da língua portuguesa. Referindo-se a 1872, ano de
publicação de Ressurreição, observa Corção:
“A obra machadiana até então realizada
tinha qualidades de linguagem, mas pouca
densidade de conteúdo. Não hesitaríamos
em classificar como medíocre o escritor que
nos apresentasse a bagagem com que Ma-
chado de Assis conquistou, naqueles tempos
fáceis, a estima e a consideração dos con-
temporâneos. Como disse, não estaríamos
aqui a preparar este volume, nem existiria
talvez nenhum dos livros constantes da ‘Bi-
bliografia Sobre o Autor’, se a obra poste-
rior fosse um mero prolongamento daquela
já então publicada. O verdadeiro Machado
de Assis, isto é, o autor que não hesitamos
em colocar entre os mais altos valores da
língua portuguesa, ao lado de Camões e de
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Fernando Pessoa, e que os assinantes do Di-
ário do Rio de Janeiro talvez nem pressen-
tissem, esse, o nosso Machado de Assis, só
dez anos mais tarde viria a nascer”.
Corção identifica o problema central de Ressur-
reição e dos três romances seguintes, A Mão e a
Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878).
Nesses quatro romances de sua primeira fase,
Machado já revelava ao mundo a perfeição de seu
maravilhoso aparelho de expressão. No entanto,
essa mesma perfeição evidenciava ainda mais a
pobreza do conteúdo, deixando no leitor apre-
sentado às obras da segunda fase a sensação de
desperdício de talento numa obra sem gênio. Dir-
-se-ia que, ao tempo de A Mão e a Luva e Helena,
Machado esteve a dois passos da mediocridade
laureada e auto-satisfeita.
Isso porque, ao contrário do que viria a fazer nos
romances da fase romanesca, e também, como
vimos, em O Alienista, Machado não conseguira,
antes de 1881, transcender e afastar-se de seu
próprio ambiente cultural, limitando-se a regis-
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trar, sem criticar, a superficialidade dos tipos hu-
manos da época, característicos da sociedade li-
beral-burguesa na qual o romancista parecia se
sentir em casa. Com efeito, os personagens da fase
“romântica” são apresentados por um autor da
mesma espécie e meio social, havendo, portanto,
umacoincidênciaentreasatitudesdosprimeirose
aperspectivadonarradorqueasretrata.Épossível
que, caso O Alienista tivesse sido escrito antes de
1881, seu narrador se limitasse a concordar, sem
acrescer-lhe a observação irônica, com o juízo
de Bacamarte sobre a reação hostil da população
itaguaiense à sua ideia de meter os loucos numa
mesma casa, conforme trecho supracitado.
Antes de sua transfiguração, em suma, ou antes
de Machado de Assis tornar-se Machado de Assis,
nota-se que o maior escritor brasileiro ainda não
escapara dos males do cronocentrismo. Nas pala-
vras de Corção:
“Nesses três romances [A Mão e a Luva, He-
lena e Iaiá Garcia] pode-se dizer que Ma-
chado foi homem de seu tempo. Ora, não há
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coisa pior para o artista do que ser do seu
tempo, desta maneira assentada e confor-
mada que se submete às tiranias do século.
O autor pintou figuras de seu tempo, e claro
é que não se pode imputar ao romancista a
maldade ou a mediocridade de seus perso-
nagens; mas podemos criticá-lo pelo fato
de haver tratado aqueles caracteres com os
próprios critérios, pobres e convencionais,
da mentalidade e da moral de seu tempo (...)
Dir-se-ia que Machado de Assis, até 1881, é
um autor que saboreia o sucesso produzido
pela concordância com os padrões vigentes,
e que por esse prisma antevê os persona-
gens que fabrica”.
Para a nossa sorte, Machado de Assis não morreu
naquele fatídico ano de 1881, quando esteve ado-
entado e experimentou uma espécie de crise exis-
tencial dos 40 anos. Não apenas sobreviveu aos
desafios da saúde frágil, que incluía ataques epi-
léticos, como deixou operar-se em si uma trans-
figuração espiritual profunda, que terminou por
libertar o gênio escondido. Tendo, talvez por ex-
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periência própria, contemplado a fragilidade do
ser, e refletido sobre o lado amargo da existência,
Machadojánãoviaqualquerconfortonaordemli-
beral burguesa, e passara a desconfiar mais e mais
dastolaspromessasdoracionalismoprogressista.
Elevando os dramas humanos cotidianos a uma
dimensão metafísica, escolheu a loucura – sobre-
tudo a dos moralistas, dos sábios e dos medalhões
– como um dos temas favoritos. Cito Corção mais
uma vez:
“Quem acaba de ler Iaiá Garcia e começa
a leitura de Memórias Póstumas de Brás
Cubas, vê logo, com refulgente evidência,
que está diante de um fato novo, ou de uma
nova estética (...) Em Brás Cubas, vê-se logo
que Machado liberou o demônio interior e
começa uma nova aventura (...) O contraste
entre Brás Cubas e a obra anterior, como
entre esta nova aventura e a vida de Ma-
chado, é tão forte que temos a tentação de
dizer, com Lúcia Miguel-Pereira, que ‘tal
obra não podia ter saído de tal homem’. Mas
não é a nova aventura ou a nova estética que
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constituemaessencialnovidadedaobraque
aparece em 1881. Ela é diferente não apenas
na forma, mas, sobretudo, na espirituali-
dade, na inspiração. Será preciso reabilitar
o conceito platônico de inspiração, ou de de-
lírio poético, para compreendermos melhor
adiferençadimensionalqueexisteentreIaiá
Garcia e Brás Cubas. Tínhamos antes um es-
critor talentoso, adaptado, que fazia obra ao
sabor das convenções correntes, manejando
muitíssimo bem a língua, mas seguindo os
caminhos batidos; temos agora diante de
nós, com espanto nosso, quase com susto,
um valor peregrino, ímpar, que iguala as
maiores altitudes da literatura universal”.
É inegavelmente a essa segunda fase, que nos es-
panta e assusta pela aparentemente brusca trans-
figuração interna do autor, que pertence o conto
O Alienista. Se, como escreveu o poeta americano
AllenTate,ohomemprovinciano,presoaotempo,
vive ao acaso, nota-se que a vida do Machado pós-
1881 tem um propósito. Desde então, o escritor
abandona todo provincianismo e se lança à uni-
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versalidade, transcendendo os limites do espaço,
mas, sobretudo, os do tempo.
Os Alienistas no Brasil contemporâneo: uma paródia
ao cubo
Eporfalaremtempo:quesurpresasnostrariauma
viagem de Machado de Assis ao tempo presente?
Penso que, fosse escrever sobre o Brasil de hoje,
o Bruxo do Cosme Velho teria um problema aná-
logo ao dos humoristas contemporâneos: a difi-
culdade em rivalizar com a realidade (ou surre-
alidade) nacional, ao mesmo tempo mais insana
e mais cômica do que tudo o que a arte de Ma-
chado e a dos os humoristas pudessem imaginar.
Porque, se a obra de arte machadiana foi conce-
bida como uma paródia das ilusões cientificistas
provenientesdaEuropadoséculo19,elaspróprias
uma paródia secular da soteriologia cristã, resta
que a vida brasileira contemporânea é como que
uma paródia da paródia da paródia: uma paródia
ao cubo.
Candidatos a Bacamarte não faltam, hoje prove-
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nientesnãodouniversomédico-científico,masdo
universo jurídico e, pior ainda, da mais alta corte
judicial brasileira. Tal como o alienista pretendia
fundamentar na autoridade da ciência e da razão
uma agenda política reformadora, nossos refor-
madores progressistas – alguns deles falando
abertamente em aplicar um “choque de ilumi-
nismo” nessa grande Itaguaí que é o Brasil inteiro
– escondem-se sob a toga, pretendendo vender
como defesa jurídica (“científica”, obviamente)
dademocraciaedoestadodedireitoaquiloquenão
passa de uma agenda político-partidária muito
mal disfarçada. Tal como o alienista, também eles
não foram eleitos e, portanto, fazem política fora
do ambiente democrático-representativo. Com a
ressalva de que, no caso de magistrados, é a pró-
pria lei brasileira que lhes proíbe atuar político-
-partidariamente.
A agenda da toga foi declarada com todas as letras
por um dos magistrados, que se jactou de haver
“derrotado o bolsonarismo”. É significativo que
a confissão tenha sido feita justo pelo mais baca-
mártico dentre os pares, um sujeito capaz de se
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descrever, sem corar, como um “adepto ao Ilu-
minismo, ou seja, à razão, à ciência, ao huma-
nismo e progresso social”. Que esse tipo de auto-
descrição fosse feita por um iluminista brasileiro
de meados do século 19 já era extravagante o su-
ficiente, a ponto de, justamente, virar objeto do
humor machadiano. Que seja feita em pleno sé-
culo 21, depois de um século de crítica ao raciona-
lismoiluminista(àdireitaeàesquerda),jánospõe
diante do cômico no sentido bergsoniano, reve-
lando uma autoimagem tão extemporânea, e por
isso mesmo tão engraçada, quanto a de Dom Qui-
xote de la Mancha. Alheio à comicidade da própria
situação,nossonovoBacamarte,poróbvio,seleva
muito a sério, e atribui à sobrevivência de “guetos
pré-iluministas”aresistênciaàsuamissão“reci-
vilizatória”. Afinal, só loucos não concordariam
com propostas progressistas como a legalização
do aborto, a descriminalização da maconha, a
criminalização da transfobia e a desmilitari-
zação das polícias, sem as quais uma civilização
não pode sobreviver.
Mais agressivo e menos sofisticado que o colega,
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umoutroBacamartecontemporâneo–etemosno
BrasildehojeumaverdadeirajuntadeBacamartes
– decidiu proclamar a si próprio como encarnação
da democracia, diagnosticando como “antidemo-
crático” tudo o que não seja ele próprio, e criando
inquéritosdaCasaVerdeparainternartodosos“ex-
tremistas” da grande Itaguaí, cujos limites agora
ultrapassam as fronteiras nacionais. De início, o
alienista de toga prescreveu internação nos insti-
tutos de reeducação democrática apenas a um pu-
nhado de críticos de internet, que ele descrevera
como “imbecis”, “populistas” e “extremo-direi-
tistas”. Pouco a pouco, esses conceitos foram fi-
cando mais elásticos, passando a incluir empre-
sários em grupos de WhatsApp, magistrados não
alinhados, influenciadores digitais, parlamen-
tares, jornalistas nacionais e até mesmo interna-
cionais. Não ficaram de fora sequer os veículos da
velha imprensa outrora entusiastas do alienista,
bem como políticos estrangeiros (como foi o caso
de Jason Miller, assessor de Donald Trump) e em-
presários americanos como Elon Musk, dono do
X, também diagnosticado como “antidemocrá-
tico” e, ato contínuo, confinado num dos inqué-
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ritosdaCasaVerde.Aliás,conta-seàbocapequena
em Itaguaí que, certa vez, salivando de expecta-
tiva asilar, o alienista de toga teria dito a colegas
de ciência: “Ainda tem muita gente para prender
e muita multa para aplicar”.
Está claro que, assim como o Bacamarte original,
os nossos alienistas de toga erigiram a si próprios
como medida-padrão da normalidade, do justo,
do bom e do belo, condenando como louca, fa-
nática e extremista a maioria da população, que
rejeita o sanitarismo político-ideológico da Su-
prema Corte. Tudo o que, aos olhos do brasileiro
médio, pareça normal e decente, os alienistas
diagnosticam como insano ou indecente; tudo o
que lhe soe aberrante e criminoso, os alienistas
chancelam como o suprassumo da virtude.
Resta que, ao contrário do alienista original – que,
apesar de louco, não era má pessoa –, os nossos
alienistas de toga não parecem demonstrar a ho-
nestidade intelectual necessária para reconhecer
que são eles os loucos e antidemocráticos. Daí que,
em vez de libertarem o povo e internarem a si pró-
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prios na Casa Verde, o que provavelmente farão é
expandir mais e mais o estado policialesco em que
transformaram o país.
Para o nosso azar, o Brasil de hoje não é um conto
de Machado de Assis, que a esta altura, se vivo
fosse, muito provavelmente também estaria con-
finado na Casa Verde de papel. Para a sua sorte, o
Bruxo do Cosme Velho não viveu para testemu-
nhar a sua ficção transformada numa realidade
sombria. O Brasil, afinal, não ganhou uma Casa
de Orates, mas se transformou em uma. E são os
loucos mais perigosos quem a administram.
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De Como Itaguaí
Ganhou Uma Casa
De Orates
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AscrônicasdaviladeItaguaídizemqueemtempos
remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão
Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos
médicosdoBrasil,dePortugaledasEspanhas.Es-
tudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro
anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei al-
cançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a
universidade, ou era Lisboa, expedindo os negó-
cios da monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu em-
prego único; ltaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em ltaguaí, e entregou-se de
corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as
curascomasleituras,edemonstrandoosteoremas
com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D.
Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte
e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita
nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas
peranteoEterno,enãomenosfranco,admirou-se
de semelhante escolha e disse-lho. Simão Baca-
marte explicou-lhe que D. Evarista reunia condi-
ções fisiológicas e anatômicas de primeira ordem,
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digeria com facilidade, dormia regularmente,
tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim
apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteli-
gentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas
da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal
composta de feições, longe de lastimá-lo, agra-
decia-o a Deus, porquanto não corria o risco de
preterir os interesses da ciência na contemplação
exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Baca-
marte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos.
A índole natural da ciência é a longanimidade; o
nosso medico esperou três anos, depois quatro,
depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo
profundo da matéria, releu todos os escritores
árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou
consultas às universidades italianas e alemãs, e
acabou por aconselhar à mulher um regime ali-
mentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusi-
vamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não
atendeu ás admoestações do esposo; e à sua resis-
tência,—explicável, mas inqualificável,—devemos
a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
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Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as
magoas; o nosso medico mergulhou inteiramente
no estudo e na pratica da medicina. Foi então que
um dos recantos desta lhe chamou especialmente
a atenção,—o recanto psíquico, o exame da pa-
tologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no
reino, uma só autoridade em semelhante matéria,
mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Ba-
camarte compreendeu que a ciência lusitana, e
particularmente a brasileira, podia cobrir-se de
«louros imarcescíveis,»—expressão usada por
ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade
doméstica; exteriormente era modesto, segundo
convém aos sabedores.
— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais
digna do médico.
— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares,
boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que
é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso
dos dementes. Assim é que cada louco furioso era
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trancado em uma alcova, na própria casa, e, não
curado, mas descurado, até que a morte o vinha
defraudar do benefício da vida; os mansos an-
davamàsoltapelarua.SimãoBacamarteentendeu
desde logo reformar tão ruim costume; pediu li-
cença à câmara para agasalhar e tratar no edifício
que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das
demais vilas e cidades, mediante um estipêndio,
que a câmara lhe daria quando a família do en-
fermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a
curiosidade de toda a vila, e encontrou grande re-
sistência, tão certo é que dificilmente se desar-
raigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia
de meter os loucos na mesma casa, vivendo em
comum, pareceu em si mesma um sintoma de de-
mência, e não faltou quem o insinuasse à própria
mulher do médico.
— Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário
do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de
Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom,
vira o juízo.
D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido,
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disse-lhe “que estava com desejos”, um princi-
palmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o
que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas
aquele grande homem, com a rara sagacidade que
o distinguia, penetrou a intenção da esposa e re-
darguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali
foi à câmara, onde os vereadores debatiam a pro-
posta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a
maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, vo-
tando ao mesmo tempo um imposto destinado a
subsidiarotratamento,alojamentoemantimento
dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi
fácil achá-la, tudo estava tributado em Itaguaí.
Depois de longos estudos, assentou-se em per-
mitir o uso de dois penachos nos cavalos dos en-
terros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um
coche mortuário pagaria dois tostões à câmara,
repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas
fossem as horas decorridas entre a do falecimento
e a da última benção na sepultura. O escrivão per-
deu-se nos cálculos aritméticos do rendimento
possível da nova taxa: e um dos vereadores, que
não acreditava na empresa do médico, pediu que
se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.
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— Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr.
Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora
meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o médico ar-
ranjou tudo. Uma vez empossado da licença co-
meçou logo a construir a casa. Era na rua Nova, a
maisbelaruadeItaguaínaqueletempo,tinhacin-
quenta janelas por lado, um pátio no centro, e nu-
merosos cubículos para os hóspedes. Como fosse
grande arabista, achou no Corão que Maomé de-
clara veneráveis os doidos, pela consideração de
que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A
ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez
gravar no frontispício da casa; mas, como tinha
medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o
pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa
fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse,
ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão
à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam
verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa
pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e
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até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro,
correu gente para assistir às cerimônias, que du-
raram sete dias. Muitos dementes já estavam re-
colhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o
carinho paternal e a caridade cristã com que eles
iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com
a glória do marido, vestira-se luxuosamente, co-
briu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verda-
deira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém
deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos
costumescaseiroserecatadosdoséculo,enãosóa
cortejavam como a louvavam; porquanto,—e este
fato é um documento altamente honroso para a
sociedadedotempo,—porquantoviamnelaafeliz
esposa de um alto espírito, de um varão ilustre,
e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja
dos admiradores.
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas;
Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates.
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Torrente de
Loucos
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Três dias depois, numa expansão íntima com o
boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o
mistério do seu coração.
—Acaridade,Sr.Soares,entradecertonomeuprocedi-
mento, mas entra como tempero, como o sal das coisas,
que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos Corín-
tios: “Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver
caridade, não sou nada.” O principal nesta minha obra
da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os
seus diversos grãos, classificar-lhe os casos, descobrir
enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este
é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto
um bom serviço à humanidade.
— Um excelente serviço, corrigiu o boticário.
— Sem este asilo, continuou o alienista, pouco po-
deria fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo
aos meus estudos.
— Muito maior, acrescentou o outro.
E tinham razão. De todas as vilas e arraiais vizi-
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nhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos,
erammansos,erammonomaníacos,eratodaafa-
míliadosdeserdadosdoespírito.Aocabodequatro
meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bas-
taram os primeiros cubículos: mandou-se anexar
uma galeria de mais trinte e sete. O padre Lopes
confessouquenãoimaginaraaexistênciadetantos
doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de
alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco
e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia
regularmente um discurso acadêmico, ornado de
tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus re-
camos de grego e latim, e suas borlas de Cicero,
ApuleoeTertuliano.Ovigárionãoqueriaacabardo
crer. Que! um rapaz que ele vira, três meses antes,
jogando peteca na rua!
— Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas
a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo.
Isto é todos os dias.
— Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode ex-
plicar pela confusão das línguas na torre de Babel,
segundo nos conta a Escritura; provavelmente, con-
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fundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las
agora, desde que a razão não trabalhe...
—Essapodeser,comefeito,aexplicaçãodivinadofenô-
meno, concordou o alienista, depois de refletir um ins-
tante, mas não é impossível que haja também alguma
razão humana, e puramente científica, e disso trato...
— Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!
Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só
dois espantavam pelo curioso do delírio. O pri-
meiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, su-
punha-seestrelad’alva,abriaosbraçosealargava
as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e fi-
cava assim horas esquecidas a perguntar se o sol
já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava
sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do
pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim
do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher
deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira
a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes
no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de
uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores
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O Alienista
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requintes de crueldade. O ciúme satisfez-se, mas
o vingado estava louco. E então começou aquela
ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos.
A mania das grandezas tinha exemplares notá-
veis. O mais notável era um pobre diabo, filho de
um algibebe, que narrava às paredes (porque não
olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua
genealogia, que era esta:
— Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a es-
pada, a espada engendrou David, David engendrou a
púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque en-
gendrou o marquês, o marquês engendrou o conde,
que sou eu.
Dava uma pancada na testa, um estalo com os
dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:
— Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Outro da mesma espécie era um escrivão, que se
vendia por mordomo do rei; outro era um boia-
deiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas
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a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seis-
centas a outro, mil e duzentas a outro, e não aca-
bava mais. Não falo dos casos de monomania
religiosa; apenas citarei um sujeito que, chaman-
do-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e
prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as
penas do inferno aos outros; e depois desse, o li-
cenciado Garcia, que não dizia nada, porque ima-
ginava que no dia em que chegasse a proferir uma
só palavra, todas as estrelas se despegariam do
céu e abrasariam a terra; tal era o poder que rece-
bera de Deus. Assim o escrevia ele no papel que o
alienista lhe mandava dar, menos por caridade do
que por interesse cientifico.
Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda
mais extraordinária do que todas as manias hos-
pedadas na Casa Verde; nada menos que assom-
brosa. Simão Bacamarte começou por organizar
um pessoal de administração; e, aceitando essa
ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe
também dois sobrinhos, a quem incumbiu da exe-
cução de um regimento que lhes deu, aprovado
pela câmara, da distribuição da comida e da roupa,
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e assim também da escrita, etc. Era o melhor que
podia fazer, para somente cuidar do seu ofício.—A
Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma es-
pécie de mundo, em que há o governo temporal e
o governo espiritual. E o padre Lopes ria deste pio
trocado,—e acrescentava,—com o único fim de
dizer também uma chalaça:—Deixe estar, deixe
estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.
Uma vez desonerado da administração, o alienista
procedeu a uma vasta classificação dos seus en-
fermos.Dividiu-osprimeiramenteemduasclasses
principais: os furiosos e os mansos; daí passou às
subclasses, monomanias, delírios, alucinações
diversas. Isto feito, começou um estudo aturado
e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as
horas do acesso, as aversões, as simpatias, as pa-
lavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida
dos enfermos, profissão, costumes, circunstan-
cias da revelação mórbida, acidentes da infância
e da mocidade, doenças de outra espécie, ante-
cedentes na família, uma devassa, enfim, como a
não faria o mais atilado corregedor. E cada dia no-
tava uma observação nova, uma descoberta inte-
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ressante,umfenômenoextraordinário.Aomesmo
tempo estudava o melhor regime, as substancias
medicamentosas, os meios curativos e os meios
paliativos, não só os que vinham nos seus amados
árabes, como os que ele mesmo descobria, à força
de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho
levava-lheomelhoreomaisdotempo.Maldormia
e mal comia; e, ainda comendo, era como se tra-
balhasse, porque ora interrogava um texto antigo,
ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de
um cabo a outro do jantar sem dizer uma só pa-
lavra a D. Evarista.
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Deus Sabe o
que Faz!
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A ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a
mais desgraçada das mulheres; caiu em profunda
melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco
e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe
nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava
nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e
definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como
lhe perguntasse o marido o que é que tinha, res-
pondeu tristemente que nada; depois atreveu-se
um pouco, e foi ao ponto de dizer que se conside-
rava tão viúva como dantes. E acrescentou:
— Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos...
Nãoacabouafrase;ouantes,acabou-alevantando
os olhos ao teto,—os olhos, que eram a sua feição
mais insinuante,—negros, grandes, lavados de
umaluzúmida,comoosdaaurora.Quantoaogesto,
era o mesmo que empregara no dia em que Simão
Bacamarte a pediu em casamento. Não dizem as
crônicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o
perversointuitodedegolardeumavezaciência,ou
pelo menos, decepar-lhe as mãos; mas a conjec-
tura é verosímil. Em todo caso, o alienista não lhe
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atribuiu outra intenção. E não se irritou o grande
homem, não ficou sequer consternado. O metal
de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal,
duro, liso, eterno, nem a menor prega veio que-
brar a superfície da fronte quieta como a água de
Botafogo. Talvez um sorriso lhe descerrou os lá-
bios, por entre os quais filtrou esta palavra macia
como o óleo do Cântico:
— Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro.
D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos
pés. Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que
posto não fosse sequer uma pálida sombra do que
hoje é, todavia era alguma coisa mais do que Ita-
guaí. Ver o Rio de Janeiro, para ela, equivalia ao
sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente,
que o marido assentara de vez naquela povoação
interior, agora é que ela perdera as últimas espe-
ranças de respirar os ares da nossa boa cidade; e
justamente agora é que ele a convidava a realizar
os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não
pode dissimular o gosto de semelhante proposta.
Simão Bacamarte pegou-lhe na mão e sorriu,—
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um sorriso tanto ou quanto filosófico, além de
conjugal, em que parecia traduzir-se este pensa-
mento: — "Não há remédio certo para as dores
da alma; esta senhora definha, porque lhe parece
que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e con-
sola-se.” E porque era homem estudioso tomou
nota da observação.
Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista.
Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao ma-
rido, que, se ele não ia, ela não iria também, porque
não havia de meter-se sozinha pelas estradas.
— Irá com sua tia, redarguiu o alienista.
Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso
mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo,
em primeiro lugar porque seria impor grandes
despesas ao marido, em segundo lugar porque era
melhor, mais metódico e racional que a proposta
viesse dele.
— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! sus-
pirou D. Evarista sem convicção.
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— Que importa? Temos ganho muito, disse o ma-
rido. Ainda ontem o escriturário prestou-me contas.
Queres ver?
E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslum-
brada. Era uma via-láctea de algarismos. E depois
levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus!
erammontesdeouro,erammilcruzadossobremil
cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência.
Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos ne-
gros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido
com a mais pérfida das alusões.
— Quem diria que meia dúzia de lunáticos...
D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com
muita resignação:
— Deus sabe o que faz!
Trêsmesesdepoisefetuava-seajornada.D.Evarista,
a tia, a mulher do boticário, um sobrinho deste, um
padre que o alienista conhecera em Lisboa, e que de
aventuraachava-seemItaguaí,cincoouseispajens,
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quatro mucamas, tal foi a comitiva que a população
viudalisairemcertamanhãdomêsdemaio.Asdes-
pedidasforamtristesparatodos,menosparaoalie-
nista. Conquanto as lagrimas de D. Evarista fossem
abundantes e sinceras, não chegaram a abalá-lo.
Homem de ciência, e só de ciência, nada o conster-
navaforadaciência;esealgumacoisaopreocupava
naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão
umolharinquietoepolicial,nãoeraoutracoisamais
doqueaideiadequealgumdementepodiaachar-se
ali misturado com a gente de juízo.
— Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário.
Epartiuacomitiva.CrispimSoares,aotornaracasa,
trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana
em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava
os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo
a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do
gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as
suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro
com todas as suas auroras.
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Uma Teoria
Nova
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Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha bus-
cando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava
por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova,
própria a alargar as bases da psicologia. Todo o
tempoquelhesobravadoscuidadosdaCasaVerde,
era pouco para andar na rua, ou de casa em casa,
conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos,
e virgulando as falas de um olhar que metia medo
aos mais heroicos.
Um dia de manhã,—eram passadas três se-
manas,—estando Crispim Soares ocupado em
temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que
o alienista o mandava chamar.
— Trata-se de negócio importante, segundo ele me
disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante
podia ser, se não alguma triste notícia da comi-
tiva, e especialmente da mulher? Porque este tó-
pico deve ficar claramente definido, visto insis-
tirem nele os cronistas: Crispim amava a mulher,
e, desde trinta anos, nunca estiveram separados
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um só dia. Assim se explicam os monólogos que
ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita
vez:—"Anda, bem feito, quem te mandou con-
sentir na viagem de Cesaria? Bajulador, torpe ba-
julador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois
agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de la-
caio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amen a tudo,
não é? aí tens o lucro, biltre!”— E muitos outros
nomes feios, que um homem não deve dizer aos
outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar
o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele
o recebeu como abriu mão das drogas e voou à
Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria pró-
pria de um sábio, uma alegria abotoada de cir-
cunspecção até o pescoço.
— Estou muito contente, disse ele.
— Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com
a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
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— Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma ex-
periência científica. Digo experiência, porque não me
atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ci-
ência é outra coisa, Sr. Soares, se não uma investi-
gação constante. Trata-se, pois, de uma experiência,
mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A
loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma
ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar
que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do
boticário. Depois explicou compridamente a sua
ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma
vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto
com grande cópia de raciocínios, de textos, de
exemplos. Os exemplos achou-os na história e em
ltaguaí; mas, como um raro espírito que era, re-
conheceu o perigo de citar todos os casos de Ita-
guaí, e refugiou-se na história. Assim, apontou
com especialidade alguns personagens célebres,
Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal,
que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala,
Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos
e pessoas, em que de mistura vinham entidades
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O Alienista
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odiosas, e entidades ridículas. E porque o boti-
cário se admirasse de uma tal promiscuidade, o
alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e
até acrescentou sentenciosamente:
— A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
— Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim So-
ares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura,
achou-a o boticário extravagante; mas a mo-
déstia, principal adorno de seu espírito, não lhe
sofreu confessar outra coisa além de um nobre
entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e
acrescentou que era “caso de matraca”. Esta ex-
pressão não tem equivalente no estilo moderno.
Naqueletempo,Itaguaí,quecomoasdemaisvilas,
arraiais e povoações da colônia, não dispunha de
imprensa, tinha dois modos de divulgar uma no-
tícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pre-
gados na porta da câmara e da matriz;—ou por
meio de matraca. Eis em que consistia este se-
gundo uso. Contratava-se um homem, por um ou
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maisdias,paraandarasruasdopovoado,comuma
matraca na mão. De quando em quando tocava a
matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que
lhe incumbiam,—um remédio para sezões, umas
terras lavradias, um soneto, um donativo eclesi-
ástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo dis-
curso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes
paraapazpública;maseraconservadopelagrande
energia de divulgação que possuía. Por exemplo,
umdosvereadores,—aquelejustamentequemais
se opusera à criação da Casa Verde,—desfrutava a
reputação de perfeito educador de cobras e ma-
cacos, e aliás nunca domesticara um só desses bi-
chos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que
algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis
dançando no peito do vereador; afirmação perfei-
tamente falsa, mas só devida à absoluta confiança
no sistema. Verdade, verdade; nem todas as ins-
tituições do antigo regime mereciam o desprezo
do nosso século.
— Há melhor do que anunciar a minha ideia, é prati-
cá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.
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E o boticário, não divergindo sensivelmente deste
modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor
começar pela execução.
— Sempre haverá tempo de a dar à matraca, con-
cluiu ele.
SimãoBacamarterefletiuaindauminstante,edisse:
— Supondo o espírito humano uma vasta concha, o
meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola,
que é a razão; por outros termos, demarquemos defi-
nitivamente os limites da razão e da loucura. A razão
é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí
insânia, insânia, e só insânia.
O vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria,
declarou lisamente que não chegava a entendê-la,
que era uma obra absurda, e, se não era absurda,
era de tal modo colossal que não merecia prin-
cípio de execução.
— Com a definição atual, que é a de todos os tempos,
acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente
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delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra
começa. Para que transpor a cerca?
Sobreolábiofinoediscretodoalienistaroçouavaga
sombra de uma intenção de riso, em que o desdém
vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra
saiu de suas egrégias entranhas. A ciência conten-
tou-se em estender a mão à teologia,—com tal se-
gurança, que a teologia não soube enfim se devia
crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam
à beira de uma revolução.
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O Terror
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Quatro dias depois, a população do Itaguaí ouviu
consternada a notícia de que um certo Costa fora
recolhido à Casa Verde.
— Impossível!
— Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã.
—Mas,naverdade,elenãomerecia...Aindaemcima!
depois de tanto que ele fez...
Costa era um dos cidadãos mais estimados de Ita-
guaí. Herdara quatrocentos mil cruzados em boa
moedadeel-reiD.JoãoV,dinheirocujarendabas-
tava, segundo lhe declarou o tio no testamento,
para viver “até o fim do mundo”. Tão depressa re-
colheu a herança, como entrou a dividi-la em em-
préstimos, sem usura, mil cruzados a um, dois mil
a outro, trezentos a este, oitocentos àquele, a tal
ponto que, no fim de cinco anos, estava sem nada.
Se a miséria viesse de chofre, o pasmo de Itaguaí
seria enorme; mas veio devagar; ele foi passando
da opulência à abastança, da abastança à me-
diania, da mediania à pobreza, da pobreza à mi-
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séria, gradualmente. Ao cabo daqueles cinco anos,
pessoas que levavam o chapéu ao chão, logo que
ele assomava no fim da rua, agora batiam-lhe no
ombro, com intimidade, davam-lhe piparotes no
nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre lhano,
risonho. Nem se lhe dava de ver que os menos cor-
teseseramjustamenteosquetinhamaindaadívida
em aberto; ao contrário, parece que os agasalhava
com maior prazer, e mais sublime resignação. Um
dia, como um desses incuráveis devedores lhe ati-
rasse uma chalaça grossa, e ele se risse dela, ob-
servou um desafeiçoado, com certa perfídia:—"-
Você suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga.”
Costa não se deteve um minuto, foi ao devedor e
perdoou-lhe a dívida.—"Não admira, retorquiu o
outro; o Costa abriu mão de uma estrela, que está
no céu.” Costa era perspicaz, entendeu que ele ne-
gava todo o merecimento ao ato, atribuindo-lhe a
intenção de rejeitar o que não vinham meter-lhe
na algibeira. Era também pundonoroso e inven-
tivo; duas horas depois achou um meio de provar
que lhe não cabia um tal labéu: pegou de algumas
dobras, e mandou-as de empréstimo ao devedor.
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— Agora espero que...—pensou ele sem concluir a frase.
Esse último rasgo do Costa persuadiu a crédulos e
incrédulos; ninguém mais pôs em dúvida os sen-
timentos cavalheirescos daquele digno cidadão.
As necessidades mais acanhadas saíram à rua,
vierambater-lheàporta,comosseuschinelosve-
lhos, com as suas capas remendadas. Um verme,
entretanto, roía a alma do Costa: era o conceito
do desafeto. Mas isso mesmo acabou; três meses
depois veio este pedir-lhe uns cento e vinte cru-
zados com promessa de restituir-lhos daí a dois
dias; era o resíduo da grande herança, mas era
também uma nobre desforra: Costa emprestou o
dinheiro logo, logo, e sem juros. Infelizmente não
teve tempo de ser pago; cinco meses depois era
recolhido à Casa Verde.
Imagina-se a consternação de Itaguaí, quando
soube do caso. Não se falou em outra coisa, di-
zia-sequeoCostaensandecera,aoalmoço,outros
que de madrugada; e contavam-se os acessos, que
eramfuriosos,sombrios,terríveis,—oumansos,e
até engraçados, conforme as versões. Muita gente
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correu à Casa Verde, e achou o pobre Costa, tran-
quilo, um pouco espantado, faltando com muita
clareza, e perguntando por que motivo o tinham
levado para ali. Alguns foram ter com o alienista.
Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima
e compaixão, mas acrescentava que a ciência era
a ciência, e que ele não podia deixar na rua um
mentecapto. Aúltimapessoaqueintercedeuporele
(porque depois do que vou contar ninguém mais se
atreveu a procurar o terrível medico) foi uma pobre
senhora, prima do Costa. O alienista disse-lhe con-
fidencialmente que esse digno homem não estava
noperfeitoequilíbriodasfaculdadesmentais,àvista
do modo como dissipara os cabedais que...
—Isso,não!issonão!interrompeuaboasenhoracom
energia. Se ele gastou tão depressa o que recebeu, a
culpa não é dele.
— Não?
— Não, senhor. Eu lhe digo como o negócio se passou.
O defunto meu tio não era mau homem; mas quando
estavafuriosoeracapazdenemtirarochapéuaoSan-
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tíssimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer,
descobriu que um escravo lhe roubara um boi; ima-
gine como ficou. A cara era um pimentão; todo ele
tremia, a boca escumava; lembra-me como se fosse
hoje. Então um homem feio, cabeludo, em mangas de
camisa, chegou-se a ele e pediu água. Meu tio (Deus
lhe fale n'alma!) respondeu que fosse beber ao rio ou
ao inferno. O homem olhou para ele, abriu a mão em
ar de ameaça, e rogou esta praga:—"Todo o seu di-
nheiro não há de durar mais de sete anos e um dia,
tão certo como isto ser o sino salomão!” E mostrou
o sino salomão impresso no braço. Foi isto, meu se-
nhor; foi esta praga daquele maldito.
Bacamarte espetara na pobre senhora um par de
olhosagudoscomopunhais.Quandoelaacabou,es-
tendeu-lhe a mão polidamente, como se o fizesse à
própriaesposadovice-rei,econvidou-aairfalarao
primo. A mísera acreditou; ele levou-a à Casa Verde
e encerrou-a na galeria dos alucinados.
A notícia desta aleivosia do ilustre Bacamarte
lançou o terror à alma da população. Ninguém
queria acabar de crer, que, sem motivo, sem ini-
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mizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma
senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha
outro crime senão o de interceder por um infeliz.
Comentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros;
edificou-seumromance,umasfinezasnamoradas
que o alienista outrora dirigira à prima do Costa,
a indignação do Costa e o desprezo da prima. E daí
a vingança. Era claro. Mas a austeridade do alie-
nista, a vida de estudos que ele levava, pareciam
desmentir uma tal hipótese. Histórias! Tudo isso
eranaturalmenteacapadovelhaco.Eumdosmais
crédulos chegou a murmurar que sabia de outras
coisas, não as dizia, por não ter certeza plena, mas
sabia, quase que podia jurar.
— Você, que é intimo dele, não nos podia dizer o que
há, o que houve, que motivo...
Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar
da gente inquieta e curiosa, dos amigos atônitos,
era para ele uma consagração pública. Não havia
duvidar;todaapovoaçãosabiaenfimqueoprivado
do alienista era ele, Crispim, o boticário, o colabo-
rador do grande homem e das grandes coisas; daí
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a corrida à botica. Tudo isso dizia o carão jucundo
e o riso discreto do boticário, o riso e o silêncio,
porque ele não respondia nada; um, dois, três
monossílabos, quando muito, soltos, secos, en-
capados no fiel sorriso, constante e miúdo, cheio
de mistérios científicos, que ele não podia, sem
desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma
pessoa humana.
— Há coisa, pensavam os mais desconfiados.
Um desses limitou-se a pensá-lo, deu de ombros
e foi embora. Tinha negócios pessoais. Acabava
de construir uma casa suntuosa. Só a casa bas-
tava para deter e chamar toda a gente; mas havia
mais,—a mobília, que ele mandara vir da Hungria
e da Holanda, segundo contava, e que se podia ver
do lado de fora, porque as janelas viviam aber-
tas,—eojardim,queeraumaobra-primadeartee
de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico
de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma
casa magnífica, jardim pomposo, mobília rara.
Nãodeixouonegóciodasalbardas,masrepousava
dele na contemplação da casa nova, a primeira de
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Itaguaí, mais grandiosa do que a Casa Verde, mais
nobre do que a da câmara. Entre a gente ilustre da
povoação havia choro e ranger de dentes, quando
se pensava, ou se falava, ou se louvava a casa do
albardeiro,—um simples albardeiro, Deus do céu!
— Lá está ele embasbacado, diziam os transeuntes,
de manhã.
De manhã, com efeito, era costume do Matheus
estatelar-se, no meio do jardim, com os olhos
na casa, namorado, durante uma longa hora, até
que vinham chamá-lo para almoçar. Os vizinhos,
embora o cumprimentassem com certo respeito,
riam-seportrazdele,queeraumgosto.Umdesses
chegou a dizer que o Matheus seria muito mais
econômico, e estaria riquíssimo, se fabricasse as
albardas para si mesmo; epigrama ininteligível,
mas que fazia rir às bandeiras despregadas.
— Agora lá está o Matheus a ser contemplado, di-
ziam à tarde.
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A razão deste outro dito era que, de tarde, quando
as famílias saíam a passeio (jantavam cedo) usava
o Matheus postar-se à janela, bem no centro, vis-
toso, sobre um fundo escuro, trajado de branco,
atitudesenhoril,eassimficavaduasetrêshorasaté
que anoitecia de todo. Pode crer-se que a intenção
do Matheus era ser admirado e invejado, posto
que ele não a confessasse a nenhuma pessoa, nem
ao boticário, nem ao padre Lopes, seus grandes
amigos. E entretanto não foi outra a alegação do bo-
ticário, quando o alienista lhe disse que o albardeiro
talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele
Bacamartedescobriraeestudavadesdealgumtempo.
Aquilo de contemplar a casa...
— Não, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares.
— Não?
— Há de perdoar-me, mas talvez não saiba que ele
de manhã examina a obra, não a admira; de tarde,
são os outros que o admiram a ele e à obra.—E contou
o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o
cair da noite.
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Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão
Bacamarte.Ouelenãoconheciatodososcostumes
do albardeiro, ou nada mais quis, interrogando o
Crispim, do que confirmar alguma notícia incerta
ou suspeita vaga. A explicação satisfê-lo; mas
como tinha as alegrias próprias de um sábio, con-
centradas, nada viu o boticário que fizesse sus-
peitar uma intenção sinistra. Ao contrário, era de
tarde, e o alienista pediu-lhe o braço para irem a
passeio. Deus! era a primeira vez que Simão Ba-
camarte dava ao seu privado tamanha honra;
Crispim ficou trêmulo, atarantado, disse que sim,
que estava pronto. Chegaram duas ou três pessoas
de fora, Crispim mandou-as mentalmente a todos
os diabos; não só atrasavam o passeio, como podia
acontecer que Bacamarte elegesse alguma delas,
paraacompanhá-lo,eodispensasseaele.Queim-
paciência! que aflição! Enfim, saíram. O alienista
guiou para os lados da casa do albardeiro, viu-o
à janela, passou cinco, seis vezes por diante, de-
vagar, parando, examinando as atitudes, a ex-
pressão do rosto. O pobre Matheus, apenas notou
que era objeto da curiosidade ou admiração do
primeiro vulto de ltaguaí, redobrou de expressão,
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deu outro relevo às atitudes... Triste! triste! não
fez mais do que condenar-se; no dia seguinte, foi
recolhido à Casa Verde.
— A Casa Verde é um cárcere privado, disse um mé-
dico sem clínica.
Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapida-
mente. Cárcere privado: eis o que se repetia de
norte a sul e de leste a oeste de ltaguaí,—a medo,
é verdade, porque durante a semana que se se-
guiu à captura do pobre Matheus, vinte e tantas
pessoas,—duas ou três de consideração,—foram
recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só
eram admitidos os casos patológicos, mas pouca
gente lhe dava credito. Sucediam-se as versões
populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo
de Deus, monomania do próprio medico, plano
secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir
em Itaguaí qualquer gérmen de prosperidade que
viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e
míngua daquela cidade, mil outras explicações,
que não explicavam nada, tal era o produto diário
da imaginação pública.
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Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alie-
nista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a
maiscomitiva,—ouquasetoda,—quealgumasse-
manas antes partira de Itaguaí. O alienista foi re-
cebê-la, com o boticário, o padre Lopes, os verea-
dores,eváriosoutrosmagistrados.Omomentoem
que D. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido
é considerado pelos cronistas de tempo como um
dos mais sublimes da história moral dos homens,
e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas
extremas, ambas egrégias. D. Evarista soltou um
grito, balbuciou uma palavra, e atirou-se ao con-
sorte, de um gesto que não se pode melhor definir
do que comparando-o a uma mistura de onça e rola.
Não assim o ilustre Bacamarte; frio como um diag-
nóstico, sem desengonçar por um instante a ri-
gidez científica, estendeu os braços à dona, que caiu
neles, e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dons
minutos, D. Evarista recebia os cumprimentos dos
amigos, e o préstito punha-se em marcha.
D. Evarista era a esperança de Itaguaí; contava-se
com ela para minorar o flagelo da Casa Verde. Daí
as aclamações públicas, a imensa gente que atu-
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lhava as ruas, as flâmulas, as flores e damascos às
janelas.ComobraçoapoiadonodopadreLopes,—
porque o eminente Bacamarte confiara a mulher
ao vigário, e acompanhava-os a passo meditati-
vo,—D.Evaristavoltavaacabeçaaumladoeoutro,
curiosa, inquieta, petulante. O vigário indagava do
Rio de Janeiro, que ele não vira desde o vice-rei-
nado anterior; o D. Evarista respondia, entusias-
mada, que era a coisa mais bela que podia haver no
mundo. O Passeio Público estava acabado, um pa-
raíso, onde ela fora muitas vezes, o a rua das Belas
Noites, o chafariz das Marrecas... Ah! o chafariz
das Marrecas! Eram mesmo marrecas,—feitas de
metal e despejando água pela boca fora. Uma coisa
galantíssima. O vigário dizia que sim, que o Rio de
Janeirodeviaestaragoramuitomaisbonito.Sejáo
era noutro tempo! Não admira, maior do que Ita-
guaí, e de mais a mais sede do governo... Mas não
se pode dizer que Itaguaí fosse feio; tinha belas
casas, a casa do Matheus, a Casa Verde...,
— A propósito de Casa Verde, disso o padre Lopes es-
corregando habilmente para o assunto da ocasião, a
senhora vem achá-la muito cheia de gente.
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— Sim?
— É verdade. Lá está o Matheus...
— O albardeiro?
— O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fu-
lano, e Sicrano, e...
— Tudo isso doido?
— Ou quase doido, obtemperou o padre.
— Mas então?
O vigário derreou os cantos da boca, à maneira de
quem não sabe nada, ou não quer dizer tudo; res-
posta vaga, que se não pode repetir a outra pessoa,
por falta de texto. D. Evarista achou realmente ex-
traordinário que toda aquela gente ensandecesse;
um ou outro, vá; mas todos? Entretanto, custa-
va-lhe duvidar; o marido era um sábio, não reco-
lheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente
de loucura.
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— Sem dúvida... sem dúvida... ia pontuando o vigário.
Três horas depois, cerca de cinquenta convivas
sentavam-se em volta da mesa de Simão Baca-
marte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista
foi o assunto obrigado dos brindes, discursos,
versos de toda a casta, metáforas, amplificações,
apólogos. Ela era a esposa do novo Hipócrates, a
musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade,
vida, consolação; trazia nos olhos duas estrelas,
segundo a versão modesta de Crispim Soares, e
dois sóis, no conceito de um vereador. O alienista
ouvia essas coisas um tanto enfastiado, mas sem
visível impaciência. Quando muito dizia ao ou-
vido da mulher, que a retórica permitia tais ar-
rojos sem significação. D. Evarista fazia esforços
para aderir a esta opinião do marido; mas, ainda
descontandotrêsquartaspartesdaslouvaminhas,
ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos
oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de
vinte e cinco anos, pintalegrete acabado, curtido
de namoros e aventuras, declamou um discurso
em que o nascimento de D. Evarista era explicado
polo mais singular dos reptos. “Deus, disse ele,
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depois de dar ao universo o homem e a mulher,
esse diamante e essa pérola da coroa divina (e
o orador arrastava triunfalmente esta frase de
uma ponta a outra da mesa) Deus quis vencer a
Deus, e criou D. Evarista.”
D. Evarista baixou os olhos com exemplar mo-
déstia. Duas senhoras, achando a cortesanice ex-
cessivaeaudaciosa,interrogaramosolhosdodono
da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pare-
ceu-lhesnubladodesuspeitas,deameaças,e,pro-
vavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande,
pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a
Deus que removesse qualquer episódio trágico,—
ou que o adiasse, ao menos, para o dia seguinte.
Sim, que o adiasse. Uma delas, a mais piedosa,
chegou a admitir, consigo mesma, que D. Evarista
nãomerecianenhumadesconfiança,tãolongees-
tava de ser atraente ou bonita. Uma simples água-
-morna. Verdade é que, se todos os gostos fossem
iguais, o que seria do amarelo? E esta ideia fê-la
tremer outra vez, embora menos; menos, porque
o alienista sorria agora para o Martim Brito, e, le-
vantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do dis-
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curso. Não lhe negou que era improviso brilhante,
cheio de rasgos magníficos. Seria dele mesmo a
ideia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou tê-
-la-ia encontrado em algum autor que...? Não,
senhor; era dele mesmo; achou-a naquela oca-
sião e parecera-lhe adequada a um arroubo ora-
tório. De resto, suas ideias eram antes arrojadas
do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. Uma
vez, por exemplo, compôs uma ode à queda do
marquês de Pombal, em que dizia que esse mi-
nistro era o “dragão aspérrimo do Nada”, esma-
gado pelas “garras vingadoras do Todo”; e assim
outras, mais ou menos fora do comum; gostava
das ideias sublimes e raras, das imagens grandes
e nobres...
— Pobre moço! pensou o alienista. E continuou con-
sigo:—Trata-se de um caso de lesão cerebral; fenô-
meno sem gravidade, mas digno de estudo...
D. Evarista ficou estupefata quando soube, três
dias depois, que o Martim Brito fora alojado na
Casa Verde. Um moço que tinha ideias tão bo-
nitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes
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do alienista. Não podia ser outra coisa; realmente
a declaração do moço fora audaciosa demais.
Ciúmes? Mas como explicar que, logo em seguida,
fossem recolhidos José Borges do Couto Leme,
pessoa estimável, o Chico das Cambraias, fol-
gazãoemérito,oescrivãoFabricio,eaindaoutros?
O terror acentuou-se. Não se sabia já quem estava
são,nemquemestavadoido.Asmulheres,quando
os maridos saíam, mandavam acender uma lam-
parina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos
eram valorosos, alguns não andavam fora sem um
ou dois capangas. Positivamente o terror. Quem
podia, emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser
preso a duzentos passos da vila. Era um rapaz de
trinta anos, amável, conversado, polido, tão po-
lido que não cumprimentava alguém sem levar o
chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma
distânciadedezavintebraçasparairapertaramão
a um homem grave, a uma senhora, às vezes a um
menino, como acontecera ao filho do juiz de fora.
Tinha a vocação das cortesias. De resto, devia as
boas relações da sociedade, não só aos dotes pes-
soais, que eram raros, como à nobre tenacidade
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com que nunca desanimava diante de uma, duas,
quatro, seis recusas, caras feias, etc. O que acon-
tecia era que, uma vez entrado numa casa, não a
deixava mais, nem os da casa o deixavam a ele, tão
gracioso era o Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes,
apesardesesaberestimado,tevemedoquandolhe
disseram um dia que o alienista o trazia de olho;
na madrugada seguinte fugiu da vila, mas foi logo
apanhado e conduzido à Casa Verde.
— Devemos acabar com isto!
— Não pode continuar!
— Abaixo a tirania!
— Déspota! violento! Golias!
Não eram gritos na rua, eram suspiros em casa
masnãotardavaahoradosgritos.Oterrorcrescia:
avizinhava-se a rebelião. A ideia de uma petição
ao governo para que Simão Bacamarte fosse cap-
turado e deportado andou por algumas cabeças,
antes que o barbeiro Porfirio a expendesse na loja,
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com grandes gestos de indignação. Note-se,—e
essa é uma das laudas mais puras desta sombria
história,—note-sequeoPorfirio,desdequeaCasa
Verde começara a povoar-se tão extraordinaria-
mente, viu crescerem-lhe os lucros pela aplicação
assídua de sanguessugas que dali lhe pediam: mas
o interesse particular, dizia ele, deve ceder ao in-
teresse público. E acrescentava:—é preciso der-
rubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse
grito justamente no dia em Simão Bacamarte fi-
zera recolher à Casa Verde um homem que trazia
com ele uma demanda, o Coelho.
—NãomedirãoemqueéqueoCoelhoédoido?bradou
o Porfirio.
E ninguém lhe respondia; todos repetiam que era
um homem perfeitamente ajuizado. A mesma de-
manda que ele trazia com o barbeiro, acerca de
uns chãos da vila, era filha da obscuridade de um
alvará, e não da cobiça ou ódio. Um excelente ca-
ráter o Coelho. Os únicos desafeiçoados que tinha
eram alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos,
ou alegando andar com pressa, mal o viam de as
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esquinas, entravam nas lojas, etc. Na verdade, ele
amava a boa palestra, a palestra comprida, gos-
tada a sorvos largos, e assim é que nunca estava
só, preferindo os que sabiam dizer duas palavras,
mas não desdenhando os outros. O padre Lopes,
que cultivava o Dante, e era inimigo do Coelho,
nunca o via desligar-se de uma pessoa que não
declamasse e emendasse este trecho:
La bocca solevò dal fero pasto
Quel seccatore...
mas uns sabiam do ódio do padre, e outros pen-
savam que isto era uma oração em latim.
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O Alienista
M A C H A D O D E A S S I S
A Rebelião
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Cercadetrintapessoasligaram-seaobarbeiro,re-
digiram e levaram uma representação à câmara. A
câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa
Verde era uma instituição pública, e que a ciência
não podia ser emendada por votação administra-
tiva, menos ainda por movimentos de rua.
— Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o con-
selho que vos damos.
A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro
declarou que iam dali levantar a bandeira da re-
belião, e destruir a Casa Verde; que ltaguaí não
podia continuar a servir de cadáver aos estudos
e experiências de um déspota; que muitas pes-
soas estimáveis, algumas distintas, outras hu-
mildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubí-
culos da Casa Verde; que o despotismo científico
do alienista complicava-se do espírito de ga-
nância, visto que os loucos, ou supostos tais, não
eram tratados de graça: as famílias, e a câmara,
pagavam ao alienista...
— É falso, interrompeu o presidente.
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O Alienista
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— Falso?
— Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do
ilustre medico, em que nos declara que, tratando de
fazer experiências de alto valor psicológico, desiste
do estipêndio votado pela câmara, bem como nada
receberá das famílias dos enfermos.
A notícia deste ato tão nobre, tão puro, suspendeu
um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o
alienista podia estar em erro, mas nenhum inte-
resse alheio à ciência o instigava; e para demons-
trar o erro era preciso alguma coisa mais do que
arruaças e clamores, isto disse o presidente, com
aplausodetodaacâmara.Obarbeiro,depoisdeal-
guns instantes de concentração, declarou que es-
tava investido de um mandato público, e não res-
tituiria a paz a Itaguaí antes de ver por terra a Casa
Verde,—"essa Bastilha da razão humana”,—ex-
pressão que ouvira a um poeta local, e que ele re-
petiu com muita ênfase. Disse, e a um sinal todos
saíram com ele.
Imagine-se a situação dos vereadores; urgia
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O Alienista
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obstar ao ajuntamento, à rebelião, à luta, ao
sangue. Para acrescentar ao mal, um dos vere-
adores, que apoiara o presidente, ouvindo agora
a denominação dada pelo barbeiro à Casa Ver-
de—"Bastilha da razão humana”,—achou-a tão
elegante, que mudou de parecer. Disse que en-
tendia de bom aviso decretar alguma medida que
reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente, in-
dignado, manifestasse em temos enérgicos o seu
pasmo, o vereador fez esta reflexão:
— Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos
homens em quem supomos juízo são reclusos por
dementes, quem nos afirma que o alienado não é
o alienista?
Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o
dom da palavra, e falou ainda por algum tempo
com prudência, mas com firmeza. Os colegas es-
tavam atônitos; o presidente pediu-lhe que, ao
menos, desse o exemplo da ordem e do respeito à
lei, não aventasse as suas ideias na rua, para não
dar corpo e alma à rebelião, que era por ora um
turbilhãodeátomosdispersos.Estafiguracorrigiu
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um pouco a efeito da outra: Sebastião Freitas pro-
meteu suspender qualquer ação, reservando-se o
direito de pedir pelos meios legais a redução da
Casa Verde. E repetia consigo, namorado:—Bas-
tilha da razão humana!
Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta,
mas trezentas pessoas que acompanhavam o bar-
beiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada,
porque ela deu o nome à revolta; chamavam-lhe
o Canjica,—e o movimento ficou celebre com o
nome de revolta dos Canjicas. A ação podia ser
restrita,—visto que muita gente, ou por medo, ou
por hábitos de educação, não descia à rua; mas o
sentimento era unânime, ou quase unânime, e os
trezentos que caminhavam para a Casa Verde,—
dada a diferença de Paris a Itaguaí,—podiam ser
comparados aos que tomaram a Bastilha.
D. Evarista teve notícia da rebelião antes que ela
chegasse; veio dar-lha uma de suas crias. Ela pro-
vava nessa ocasião um vestido de seda,—um dos
trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,—e
não quis crer.
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O Alienista
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— Há de ser alguma patuscada, dizia ela mudando a
posição de um alfinete. Benedita, vê se a barra está boa.
— Está, sinhá, respondia a mucama de cócaras no
chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim, Está
muito boa.
— Não é patuscada, não, senhora; eles estão gri-
tando:—Morra o Dr. Bacamarte! o tirano! dizia o mo-
leque assustado.
— Cala a boca, tolo! Benedicta, olha aí do lado es-
querdo; não parece que a costura está um pouco en-
viesada? A risca azul não segue até abaixo; está muito
feio assim; é preciso descoser para ficar igualzinho e...
— Morra o Dr. Bacamarte! morra o tirano! uivaram
fora trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava
na rua Nova.
D.Evaristaficousempingadesangue.Noprimeiro
instante não deu um passo, não fez um gesto; o
terror petrificou-a. A mucama correu instintiva-
mente para a porta do fundo. Quanto ao moleque,
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a quem D. Evarista. não dera crédito, teve um ins-
tante de triunfo, um certo movimento súbito, im-
perceptível, entranhado, de satisfação moral, ao
ver que a realidade vinha jurar por ele.
— Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.
D. Evarista, se não resistia facilmente às como-
ções de prazer, sabia entestar com os momentos
de perigo. Não desmaiou; correu à sala interior
onde o marido estudava. Quando ela ali entrou,
precipitada, o ilustre médico escrutava um texto
de Averrois, os olhos dele, empanados pela cogi-
tação, subiam do livro ao teto e baixavam do teto
ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes
para os profundos trabalhos mentais. D. Evarista
chamou pelo marido duas vezes, sem que ele lhe
desse atenção; à terceira, ouviu e perguntou-lhe
o que tinha, se estava doente.
— Você não ouve estes gritos? perguntou a digna es-
posa em lágrimas.
O alienista atendeu então; os gritos aproxima-
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O Alienista
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vam-se,terríveis,ameaçadores;elecompreendeu
tudo. Levantou-se da cadeira de espaldar em que
estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e
tranquilo, foi depositá-lo na estante. Como a in-
trodução do volume desconcertasse um pouco a
linha dos dois tomos contíguos, Simão Bacamarte
cuidou de corrigir esse defeito mínimo, e, aliás,
interessante. Depois disse à mulher que se reco-
lhesse, que não fizesse nada.
—Não,não,imploravaadignasenhora,queromorrer
ao lado de você...
SimãoBacamarteteimouquenão,quenãoeracaso
de morte; e ainda que o fosse, intimava-lhe em
nome da vida que ficasse. A infeliz dama curvou a
cabeça, obediente e chorosa.
— Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas.
O alienista caminhou para a varanda da frente, e
chegou ali no momento em que a rebelião também
chegava e parava, defronte, com as suas trezentas
cabeçasrutilantesdecivismoesombriasdedeses-
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pero.—Morra!morra!bradaramdetodososlados,
apenas o vulto do alienista assomou na varanda.
Simão Bacamarte fez um sinal pedindo para falar;
os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de
indignação. Então, o barbeiro agitando o chapéu,
afimdeimporsilencioàturba,conseguiuaquietar
os amigos, e declarou ao alienista que podia falar,
mas acrescentou que não abusasse da paciência,
do povo como fizera até então.
— Direi pouco, ou até não direi nada, se for preciso.
Desejo saber primeiro o que pedis.
— Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro;
ordenamos que a Casa Verde seja demolida ou pelo
menos despojada dos infelizes que lá estão.
— Não entendo.
— Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade às
vítimas do vosso ódio, capricho, ganância...
O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande
homemnãoeracoisavisívelaosolhosdamultidão;
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O Alienista
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era uma contração leve de dois ou três músculos,
nada mais. Sorriu e respondeu:
— Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser
tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos
de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus.
Se quereis emendar a administração da Casa Verde,
estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue
a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar
alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver co-
migo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria
dar-vos mão do meu sistema, o que não farei a leigos,
nem a rebeldes.
Disseistooalienista,eamultidãoficouatônita;era
claroquenãoesperavatantaenergiaemenosainda
tamanha serenidade. Mas o assombro cresceu de
ponto quando o alienista, cortejando a multidão
com muita gravidade, deu-lhe as costas e reti-
rou-se lentamente para dentro. O barbeiro tornou
logoasi,e,agitandoochapéu,convidouosamigos
à demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas
lhe responderam. Foi nesse momento decisivo
que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição
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O Alienista
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do governo; pareceu-lhe então que, demolindo
a Casa Verde, e derrocando a influência do alie-
nista, chegaria a apoderar-se da câmara, dominar
as demais autoridades e constituir-se senhor de
Itaguaí. Desde alguns anos que ele forcejava por
ver o seu nome incluído nos pelouros para o sor-
teio dos vereadores, mas era recusado por não ter
uma posição compatível com tão grande cargo. A
ocasião era agora ou nunca. Demais fora tão longe
na arruaça, que a derrota seria a prisão, ou talvez
a forca, ou o degredo. Infelizmente, a resposta do
alienista diminuíra o furor dos sequazes. O bar-
beiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de
indignação, e quiz bradar-lhes:—Canalha! co-
vardes!—mas conteve-se, e rompeu deste modo:
— Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de
ltaguaí está nas vossas mãos dignas e heroicas. Des-
truamos o cárcere de vossos filhos e pais, de vossas
mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de vós
mesmos. Ou morrereis a pão e água, talvez a chicote,
na masmorra daquele indigno.
A multidão agitou-se, murmurou, bradou, ame-
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açou,congregou-setodaemderredordobarbeiro.
Era a revolta que tomava a si da ligeira síncope, e
ameaçava arrasar a Casa Verde.
— Vamos! bradou Porfirio agitando o chapéu.
— Vamos! repetiram todos.
Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões
que, a marche-marche, entrava na rua Nova.
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O Inesperado
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Chegados os dragões em frente aos Canjicas,
houve um instante de estupefacção; os Canjicas
não queriam crer que a força pública fosse man-
dada contra eles; mas o barbeiro compreendeu
tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão in-
timou à multidão que se dispersasse; mas, con-
quanto uma parte dela estivesse inclinada a isso,
a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja
resposta consistiu nestes termos alevantados:
— Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos ca-
dáveres, podeis tomá-los; mas só os cadáveres; não
levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos di-
reitos, e com eles a salvação da Itaguaí.
Nada mais imprudente do que essa resposta do
barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das
grandes crises. Talvez fosse também um excesso
deconfiançanaabstençãodasarmasporpartedos
dragões; confiança que o capitão dissipou logo,
mandando carregar sobre os Canjicas. O momento
foi indescritível. A multidão urrou furiosa; al-
guns, trepando às janelas das casas, ou correndo
pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria
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O Alienista
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ficou, bufando de cólera, indignada, animada pela
exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas es-
tava iminente, quando um terço dos dragões,—
qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o
declaram,—passou subitamente para o lado da
rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos
Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo
às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não ti-
veram coragem de atacar os seus próprios cama-
radas, e, um a um, foram passando para eles, de
modo que ao cabo de alguns minutos, o aspecto
das coisas era totalmente outro. O capitão estava
de um lado, com alguma gente, contra uma massa
compacta que o ameaçava de morte. Não teve re-
médio, declarou-se vencido e entregou a espada
ao barbeiro.
A revolução triunfante não perdeu um só minuto;
recolheu os feridos às casas próximas, e guiou
para a câmara. Povo e tropa fraternizavam, davam
vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao “ilustre
Porfirio”. Este ia na frente, empunhando tão des-
tramente a espada, como se ela fosse apenas uma
navalha um pouco mais comprida. A vitória cin-
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gia-lhe a fronte de um nimbo misterioso. A digni-
dade de governo começava a enrijar-lhe os quadris.
Os vereadores, às janelas, vendo a multidão e a
tropa, cuidaram que a tropa capturara a multidão,
e sem mais exame, entraram e votaram uma pe-
tição ao vice-rei para que mandasse dar um mês
de soldo aos dragões, “cujo denodo salvou Ita-
guaí do abismo a que o tinha lançado uma cáfila
de rebeldes”. Esta frase foi proposta por Sebas-
tião Freitas, o vereador dissidente, cuja defesa dos
Canjicas tanto escandalizara os colegas. Mas bem
depressa a ilusão se desfez. Os vivas ao barbeiro,
os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-
-lhes notícia da triste realidade. O presidente não
desanimou:—Qualquerquesejaanossasorte,disse
ele, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua
Majestade e do povo.—Sebastião Freitas insinuou
que melhor se poderia servir à coroa e à vila saindo
pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fora,
mas toda a câmara rejeitou esse alvitre.
Daí a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de
seus tenentes, entrava na sala da vereança, e in-
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timava à câmara a sua queda. A câmara não re-
sistiu, entregou-se, e foi dali para a cadeia. Então
os amigos do barbeiro propuseram-lhe que assu-
misse o governo da vila, em nome de Sua Majes-
tade. Porfirio aceitou o encargo, embora não des-
conhecesse (acrescentou) os espinhos que trazia;
disse mais que não podia dispensar o concurso
dos amigos presentes; ao que eles prontamente
anuíram. O barbeiro veio à janela, e comunicou ao
povo essas resoluções, quo o povo ratificou, acla-
mando o barbeiro. Este tomou a denominação
de—"Protetor da vila em nome de Sua Majes-
tade e do povo.” —Expediram-se logo várias
ordens importantes, comunicações oficiais do
novo governo, uma exposição minuciosa ao vi-
ce-rei, com muitos protestos de obediência às
ordens de Sua Majestade; finalmente, uma pro-
clamação ao povo, curta, mas enérgica:
“Itaguaienses!
Umacâmaracorruptaeviolentaconspiravacontra
os interesses de Sua Majestade e do povo. A opi-
nião pública tinha-a condenado; um punhado de
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cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dra-
gões de Sua Majestade, acaba de a dissolver igno-
miniosamente, e por unânime consenso da vila,
foi-me confiado o mando supremo, até que Sua
Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor
ao seu real serviço. Itaguaienses! não vos peço se
não que me rodeeis de confiança, que me auxi-
lieis em restaurar a paz e a fazenda publica, tão
desbaratada pela câmara que ora findou às vossas
mãos. Contai com o meu sacrifício, e ficai certos
de que a coroa será por nós.
O Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do
povo
Porfirio Caetano das Neves.”
Toda a gente advertiu no absoluto silencio desta
proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo
uns, não podia haver mais vivo indício dos pro-
jetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto
maior quanto que, no meio mesmo desses graves
sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas
sete ou oito pessoas, entre elas duas senhoras,
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O Alienista
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sendo um dos homens aparentado com o Protetor.
Não era um repto, um ato intencional; mas todos
o interpretaram dessa maneira, e a vila respirou
com a esperança de que o alienista dentro de vinte
e quatro horas estaria a ferros, e destruído o ter-
rível cárcere.
O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da
matraca ia recitando de esquina em esquina a
proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e ju-
rava morrer em defesa do ilustre Porfirio. Poucos
gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na
ação do governo. O barbeiro fez expedir um ato
declarando feriado aquele dia, e entabulou nego-
ciações com o vigário para a celebração de um Te-
-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a con-
junção do poder temporal com o espiritual; mas o
padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.
— Em todo caso, Vossa Reverendíssima não se alis-
tará entre os inimigos do governo? disse-lhe o bar-
beiro dando à fisionomia um aspecto tenebroso.
Ao que o padre Lopes respondeu, sem responder:
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—Comoalistar-me,seonovogovernonãoteminimigos?
O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o ca-
pitão, os vereadores e os principais da vila, toda
a gente o aclamava. Os mesmos principais, se o
não aclamavam, não tinham saído contra ele. Ne-
nhum dos almotacés deixou de vir receber as suas
ordens. No geral, as famílias abençoavam o nome
daquelequeiaenfimlibertarItaguaídaCasaVerde
e do terrível Simão Bacamarte.
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As Angústias
Do Boticário
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O Alienista
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Vinte e quatro horas depois dos sucessos nar-
rados no capítulo anterior, o barbeiro saiu do pa-
lácio do governo—foi a denominação dada à casa
da câmara—, com dois ajudantes de ordens, e di-
rigiu-se à residência de Simão Bacamarte. Não
ignorava ele que era mais decoroso ao governo
mandá-lo chamar; o receio, porém, de que o alie-
nista não obedecesse, obrigou-o a parecer tole-
rante e moderado.
Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer
que o barbeiro ia à casa do alienista.—Vai pren-
dê-lo, pensou ele. E redobraram-lhe as angús-
tias. Com efeito, a tortura moral do boticário na-
queles dias de revolução excede a toda a descrição
possível. Nunca um homem se achou em mais
apertado lance:—a privança do alienista chama-
va-o ao lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o
ao barbeiro. Já a simples notícia da sublevação ti-
nha-lhe sacudido fortemente a alma, porque ele
sabia a unanimidade do ódio ao alienista; mas a
vitória final foi também o golpe final. A esposa,
senhora máscula, amiga particular de D. Evarista,
dizia que o lugar dele era ao lado de Simão Ba-
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O Alienista
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camarte; ao passo que o coração lhe bradava que
não, que a causa do alienista estava perdida, e que
ninguém,poratopróprio,seamarraaumcadáver.
Fê-lo Catão, é verdade, sed victa Catoni, pensava
ele, relembrando algumas palestras habituais do
padre Lopes; mas Catão não se atou a uma causa
vencida, ele era a própria causa vencida, a causa
da república; o seu ato, portanto, foi de egoísta,
de um miserável egoísta; minha situação é outra.
Insistindo, porém, a mulher, não achou Crispim
Soares outra saída em tal crise senão adoecer; de-
clarou-se doente, e meteu-se na cama.
— Lá vai o Porfirio à casa do Dr. Bacamarte, disse-
-lhe a mulher no dia seguinte à cabeceira da cama;
vai acompanhado de gente.
—Vai prendê-lo, pensou o boticário.
Uma ideia traz outra; o boticário imaginou que,
uma vez preso o alienista, viriam também bus-
cá-lo a ele, na qualidade de cúmplice. Esta ideia
foi o melhor dos visicatórios. Crispim Soares er-
gueu-se,dissequeestavabom,queiasair;eapesar
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O Alienista
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de todos os esforços e protestos da consorte, ves-
tiu-seesaiu.Osvelhoscronistassãounanimesem
dizer que a certeza de que o marido ia colocar-se
nobrementeaoladodoalienistaconsolougrande-
mente a esposa do boticário; e notam, com muita
perspicácia, o imenso poder moral de uma ilusão;
porquanto, o boticário caminhou resolutamente
ao palácio do governo, não à casa do alienista. Ali
chegando,mostrou-seadmiradodenãoverobar-
beiro, a quem ia apresentar os seus protestos de
adesão, não o tendo feito desde a véspera por en-
fermo. E tossia com algum custo. Os altos funcio-
nários que lhe ouviam esta declaração, sabedores
da intimidade do boticário com o alienista, com-
preenderam toda a importância da adesão nova, e
trataram a Crispim Soares com apurado carinho;
afirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua
Senhoria tinha ido à Casa Verde, a negócio im-
portante, mas não tardava. Deram-lhe cadeira,
refrescos, elogios; disseram-lhe que a causa do
ilustre Porfirio era a de todos os patriotas; ao que
o boticário ia repetindo que sim, que nunca pen-
sara outra coisa, que isso mesmo mandaria de-
clarar Sua Majestade.
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Dois Lindos
Casos
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Não se demorou o alienista em receber o barbeiro;
declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e
portanto estava prestes a obedecer. Só uma coisa
pedia, é que o não constrangesse a assistir pesso-
almente à destruição da Casa Verde.
— Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro de-
pois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao go-
verno intenções vandálicas. Com razão ou sem ela,
a opinião crê que a maior parte dos doidos ali me-
tidos estão era seu perfeito juízo, mas o governo re-
conhece que a questão é puramente científica, e não
cogita em resolver com posturas as questões cientí-
ficas. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública;
tal a aceitamos das mãos da câmara dissolvida. Há,
entretanto,—por força que há de haver um alvitre in-
termédio que restitua o sossego ao espírito público.
O alienista mal podia dissimular o assombro; con-
fessou que esperava outra coisa, o arrasamento do
hospício, a prisão dele, o desterro, tudo, menos...
— O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente
o barbeiro, vem de não atender à grave responsabi-
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lidade do governo. O povo, tomado de uma cega pie-
dade, que lhe dá em tal caso legítima indignação,
pode exigir do governo certa ordem de atos; mas este,
com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve
praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa si-
tuação. A generosa revolução que ontem derrubou
uma câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos
brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode en-
trar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não.
E se o governo não a pode eliminar, está ao menos
apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também
não; é matéria de ciência. Logo, em assunto tão me-
lindroso, o governo não pode, não deve, não quer
dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe
pede é que de certa maneira demos alguma satis-
fação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obe-
decer. Um dos alvitres aceitáveis, se Vossa Senhoria
não indicar outro, seria fazer retinir da Casa Verde
aqueles enfermos que estiverem quase curados, e
bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse
modo, sem grande perigo, mostraremos alguma
tolerância e benignidade.
— Quantos mortos e feridos houve ontem no con-
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flito? perguntou Simão Bacamarte, depois de uns
três minutos.
O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas res-
pondeulogoqueonzemortosevinteecincoferidos.
— Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas
ou três vezes o alienista.
Eemseguidadeclarouqueoalvitrelhenãoparecia
bom, mas que ele ia catar algum outro, e dentro
de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe várias
perguntas acerca dos sucessos da véspera, ataque,
defesa, adesão dos dragões, resistência da câ-
mara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com
grande abundância, insistindo principalmente no
descrédito em que a câmara caíra. O barbeiro con-
fessou que o novo governo não tinha ainda por si
a confiança dos principais da vila, mas o alienista
podia fazer muito nesse ponto. O governo, con-
cluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não
já com a simpatia, senão com a benevolência do
mais alto espírito de Itaguaí, e seguramente do
reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera
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O Alienista
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fisionomia daquele grande homem, que ouvia ca-
lado, sem desvanecimento, nem modéstia, mas
impassível como um deus de pedra.
— Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alie-
nista, depois de acompanhar o barbeiro até a porta.
Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. Os sin-
tomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro
são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram
nãoéprecisooutraprovaalémdosonzemortosevinte
e cinco feridos.—Dois lindos casos!
— Viva o ilustre Porfirio! bradaram umas trinta pes-
soas que aguardavam o barbeiro à porta.
O alienista espiou pela janela, e ainda ouviu este
resto de uma pequena fala do barbeiro às trinta
pessoas que o aclamavam.
— ... porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo
pela execução das vontades do povo. Confiai em mim;
e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recomendo
ordem. A ordem, meus amigos, é a base do governo...
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— Viva o ilustre Porfirio! bradaram as trinta vozes,
agitando os chapéus.
— Dois lindos casos! murmurou o alienista.
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A Restauração
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Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa
Verdecercadecinquentaaclamadoresdonovogo-
verno.Opovoindignou-se.Ogoverno,atarantado,
não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia
abertamente nas ruas, que o Porfirio estava “ven-
dido ao ouro de Simão Bacamarte,” frase que con-
gregouemtornodeJoãoPinaagentemaisresoluta
da vila. Porfirio, vendo o antigo rival da navalha à
testadainsurreição,compreendeuqueasuaperda
era irremediável, se não desse um grande golpe;
expediu dois decretos, um abolindo a Casa Verde,
outro desterrando o alienista. João Pina mostrou
claramente, com grandes frases, que o ato de Por-
firio era um simples aparato, um engodo, em que
o povo não devia crer. Duas horas depois caía Por-
firio ignominiosamente, e João Pina assumia a di-
fícil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas
as minutas da proclamação, da exposição ao vice-
-rei e de outros atos inaugurais do governo ante-
rior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir;
acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se,
que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro bar-
beiro falara de uma câmara corrupta, falou este
de “um intruso eivado das más doutrinas fran-
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cesas, e contrário aos sacrossantos interesses de
Sua Majestade, etc.”
Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vi-
ce-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu
desde logo a entrega do barbeiro Porfirio, e bem
assim a de uns cinquenta e tantos indivíduos, que
declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses,
comoafiançaramentregar-lhemaisdezenovese-
quazes do barbeiro, que convalesciam das feridas
apanhadas na primeira rebelião.
Este ponto da crise de Itaguaí marca também o
grau máximo da influência de Simão Bacamarte.
Tudo quanto quiz, deu-se-lhe; e uma das mais
vivas provas do poder do ilustre médico acha-
mo-la na prontidão com que os vereadores, resti-
tuídos a seus lugares, consentiram em que Sebas-
tião Freitas também fosse recolhido ao hospício.
O alienista, sabendo da extraordinária inconsis-
tência das opiniões desse vereador, entendeu que
era um caso patológico, e pediu-o. A mesma coisa
aconteceu ao boticário. O alienista, desde que lhe
falaram da momentânea adesão de Crispim So-
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ares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à apro-
vação que sempre recebera dele, ainda na véspera,
e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou
o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um
movimento de terror, ao ver a rebelião triunfante,
e deu como prova a ausência de nenhum outro ato
seu, acrescentando que voltara logo à cama, do-
ente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse,
porém, aos circunstantes que o terror também é
pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe
parecia dos mais caracterizados.
Mas a prova mais evidente da influência de Simão
Bacamarte foi a docilidade com que a câmara lhe
entregou o próprio presidente. Este digno magis-
trado tinha declarado em plena sessão, que não
se contentava, para lavá-lo da afronta dos Can-
jicas, com menos de trinta almudes de sangue;
palavra que chegou aos ouvidos do alienista por
boca do secretário da câmara, entusiasmado de
tamanha energia. Simão Bacamarte começou por
meter o secretario na Casa Verde, e foi dali à câ-
mara, à qual declarou que o presidente estava pa-
decendo da “demência dos touros”, um gênero
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que ele pretendia estudar, com grande vantagem
para os povos. A câmara a princípio hesitou, mas
acabou cedendo.
Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um
homem não podia dar nascença ou curso à mais
simples mentira do mundo, ainda daquelas que
aproveitam ao inventor ou divulgador, que não
fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura.
Os cultores de enigmas, os fabricantes de cha-
radas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos
da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na
tafularia, um ou outro almotacé enfunado, nin-
guém escapava aos emissários do alienista. Ele
respeitava as namoradas e não poupava as na-
moradeiras, dizendo que as primeiras cediam a
um impulso natural, e as segundas a um vício.
Se um homem era avaro ou pródigo ia do mesmo
modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não
havia regra para a completa sanidade mental. Al-
guns cronistas creem que Simão Bacamarte nem
sempre procedia com lisura, e citam em abono da
afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato
de ter alcançado da câmara uma postura autori-
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zando o uso de um anel de prata no dedo polegar
da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra
prova documental ou tradicional, declarasse ter
nasveiasduasoutrêsonçasdesanguegodo.Dizem
esses cronistas que o fim secreto da insinuação à
câmara foi enriquecer um ourives, amigo e com-
padredele;mas,conquantosejacertoqueoourives
viu prosperar o negócio depois da nova ordenação
municipal, não o é menos que essa postura deu à
Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que,
não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro
fimdoilustremédico.Quanto à razão determina-
tiva da captura e aposentação na Casa Verde de
todos quantos usaram do anel, é um dos pontos
mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião
mais verossímil é que eles foram recolhidos por
andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa,
na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesti-
culam muito. Em todo caso é uma simples con-
jectura; de positivo nada há.
— Onde é que este homem vai parar? diziam os
principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado
os Canjicas...
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Um dia de manhã,—dia em que a câmara devia
dar um grande baile,—a vila inteira ficou abalada
com a notícia de que a própria esposa do alienista
fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou;
devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era
a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas
horas da noite. O padre Lopes correu ao alienista
e interrogou-o discretamente acerca do fato.
— Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gra-
vemente o marido. A modéstia com que ela vivera em
ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o
furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas
que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro.
Desde então comecei a observá-la. Suas conversas
eram todas sobre esses objetos; se eu lhe falava das
antigas cortes, inquiria logo da forma dos vestidos
das damas; se uma senhora a visitava, na minha au-
sência, antes de me dizer o objeto da visita, descre-
via-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando
outras. Um dia, creio que Vossa Reverendíssima há de
lembrar-se, propôs-se a fazer anualmente um ves-
tidoparaaimagemdeNossaSenhoradamatriz.Tudo
isto eram sintomas graves; esta noite, porém, decla-
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rou-se a total demência. Tinha escolhido, preparado,
enfeitado o vestuário que levaria ao baile da câmara
municipal; só hesitava entre um colar de granada e
outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles
levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem.
Ontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois
de jantar fui achá-la calada e pensativa.—Que tem?
perguntei-lhe.—Querialevarocolardegranada,mas
acho o de safira tão bonito!—Pois leve o de safira.—
Ah! mas onde fica o de granada?—Enfim, passou a
tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta
noite, seria hora e meia, acordo e não a vejo; levan-
to-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos
dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora
outro. Era evidente a demência; recolhi-a logo.
O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas
não objetou nada. O alienista, porém, percebeu
e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de
“mania suntuária,” não incurável, e em todo caso
digno de estudo.
— Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele.
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A abnegação do ilustre médico deu-lhe grande re-
alce. Conjecturas, invenções, desconfianças, tudo
caiu por terra, desde que ele não duvidou reco-
lher à Casa Verde a própria mulher, a quem amava
com todas as forças da alma. Ninguém mais tinha
o direito de resistir-lhe,—menos ainda o de atri-
buir-lhe intuitos alheios à ciência. Era um grande
homem austero, Hipócrates forrado de Catão.
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O Assombro
de Itaguaí
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E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro
em que ficou a vila, ao saber um dia que os loucos da
Casa Verde iam todos ser postos na rua.
— Todos?
— Todos.
— É impossível; alguns, sim, mas todos...
— Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje
de manhã à câmara.
Defato,oalienistaoficiaraàcâmaraexpondo:—1°,
que verificara das estatísticas da vila e da Casa
Verde, que quatro quintos da população estavam
aposentados naquele estabelecimento; 2°, que
esta deslocação de população levara-o a examinar
os fundamentos da sua teoria das moléstias ce-
rebrais, teoria que excluía do domínio da razão
todos os casos em que o equilíbrio das faculdades
não fosse perfeito e absoluto; 3°, que desse exame
e do fato estatístico resultara para ele a convicção
de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas
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a oposta, e portanto que se devia admitir como
normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades,
e como hipóteses patológicas todos os casos em
que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4°, que
à vista disso, declarava à câmara que ia dar liber-
dade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela
as pessoas que se achassem nas condições agora
expostas; 5°, que tratando de descobrir a verdade
científica, não se pouparia a esforços de toda a na-
tureza, esperando da câmara igual dedicação; 6°,
que restituía à câmara e aos particulares a soma do
estipêndio recebido para alojamento dos supostos
loucos, descontada a parte efetivamente gasta com
aalimentação,roupa,etc.;oqueacâmaramandaria
verificar nos livros e arcas da Casa Verde.
O assombro de Itaguaí for grande; não foi menor
a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jan-
tares, danças, luminárias, músicas, tudo houve
para celebrar tão fausto acontecimento. Não des-
crevoasfestaspornãointeressaremaonossopro-
pósito; mas foram esplêndidas, tocantes e pro-
longadas.
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E vão assim as coisas humanas! No meio do re-
gozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte,
ninguém advertia na frase final do § 4°, uma frase
cheia de experiências futuras.
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O Final do § 4°
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Apagaram-seasluminárias,reconstituíram-seas
famílias, tudo parecia reposto nos antigos eixos.
Reinava a ordem, a câmara exercia outra vez o go-
verno, sem nenhuma pressão externa; o próprio
presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus
lugares. O barbeiro Porfirio, ensinado pelos acon-
tecimentos, tendo “provado tudo”, como o poeta
disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque
Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro
achou preferível a glória obscura da navalha e da
tesoura às calamidades brilhantes do poder; foi,
é certo, processado; mas a população da vila im-
plorouaclemênciadeSuaMajestade;daíoperdão.
João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele
derrocara um rebelde. Os cronistas pensam que
deste fato é que nasceu o nosso adágio:—ladrão
que furta a ladrão, tem cem anos de perdão;—
adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil.
Não só findaram as queixas contra o alienista,
mas até nenhum ressentimento ficou dos atos
que ele praticara; acrescendo que os reclusos da
CasaVerde,desdequeeleosdeclararaplenamente
ajuizados, sentiram-se tomados de profundo re-
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conhecimento e férvido entusiasmo. Muitos en-
tenderam que o alienista merecia uma especial
manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se
seguiram outros bailes e jantares. Dizem as crô-
nicas que D. Evarista a princípio tivera ideia de se-
parar-se do consorte, mas a dor de perder a com-
panhia de tão grande homem venceu qualquer
ressentimento de amor-próprio, e o casal veio a
ser ainda mais feliz do que antes.
Não menos íntima ficou a amizade do alienista e
do boticário. Este concluiu do ofício de Simão Ba-
camarte que a prudência é a primeira das virtudes
em tempos de revolução, e apreciou muito a mag-
nanimidade do alienista que, ao dar-lhe a liber-
dade, estendeu-lhe a mão de amigo velho.
— É um grande homem, disse ele à mulher, referindo
aquela circunstância.
Não é preciso falar do albardeiro, do Costa, do
Coelho, do Martim Brito e outros, especialmente
nomeados neste escrito; basta dizer que puderam
exercer livremente os seus hábitos anteriores. O
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próprio Martim Brito, recluso por um discurso em
que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora
outroemhonradoinsignemedico—"cujoaltíssimo
gênio, elevando as azas muito acima do sol, deixou
abaixo de si todos os demais espíritos da terra.”
— Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alie-
nista, e ainda me não arrependo de o haver restituído
à liberdade.
Entretanto, a câmara, que respondera ao ofício
de Simão Bacamarte, com a ressalva de que opor-
tunamente estatuiria em relação ao final do § 4°,
tratouenfimdelegislarsobreele.Foiadotada,sem
debate,umaposturaautorizandooalienistaaaga-
salhar na Casa Verde as pessoas que se achassem
nogozodoperfeitoequilíbriodasfaculdadesmen-
tais. E porque a experiência da câmara tivesse sido
dolorosa, estabeleceu ela a cláusula, de que a au-
torização era provisória, limitada a um ano, para
o fim de ser experimentada a nova teoria psico-
lógica, podendo a câmara, antes mesmo daquele
prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse
aconselhada por motivos de ordem pública. O ve-
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reador Freitas propôs também a declaração de que
em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos
ao asilo dos alienados: cláusula que foi aceita, vo-
tada o incluída na postura, apesar das reclama-
ções do vereador Galvão. O argumento principal
deste magistrado é que a câmara, legislando sobre
uma experiência científica, não podia excluir as
pessoas dos seus membros das consequências da
lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira
estas duras palavras, romperam os vereadores em
altos brados contra a audácia e insensatez do co-
lega; este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer
que votava contra a exceção.
— A vereança, concluiu ele, não nos dá nenhum poder
especial nem nos elimina do espírito humano.
Simão Bacamarte aceitou a postura com todas
as restrições. Quanto à exclusão dos vereadores,
declarou que teria profundo sentimento se fosse
compelido a recolhê-los à Casa Verde; a cláusula,
porém, era a melhor prova de que eles não pade-
ciamdoperfeitoequilíbriodasfaculdadesmentais.
Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo
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acerto na objecção feita, e cuja moderação na res-
posta dada às invectivas dos colegas mostravam
da parte dele um cérebro bem organizado; pelo
que, rogava à câmara que lho entregasse. A câ-
mara, sentindo-se ainda agravada pelo proceder
do vereador Galvão, estimou o pedido do alienista,
e votou unanimemente a entrega.
Compreende-seque,pelateorianova,nãobastava
um fato ou um dito, para recolher alguém à Casa
Verde; era preciso um longo exame, um vasto in-
quérito do passado e do presente. O padre Lopes,
por exemplo, só foi capturado trinta dias depois
da postura, a mulher do boticário quarenta dias. A
reclusão desta senhora encheu o consorte de in-
dignação. Crispim Soares saiu de casa espumando
de cólera, e declarando às pessoas a quem encon-
trava que ia arrancar as orelhas ao tirano. Um su-
jeito, adversário do alienista, ouvindo na rua essa
notícia, esqueceu os motivos de dissidência, e
correu à casa de Simão Bacamarte a participar-
-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mos-
trou-se grato ao procedimento do adversário, e
poucos minutos lhe bastaram para conhecer a re-
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O Alienista
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tidão dos seus sentimentos, a boa-fé, o respeito
humano, a generosidade; apertou-lhe muito as
mãos, e recolheu-o à Casa Verde.
— Um caso destes é raro, disse ele à mulher pasmada.
Agora esperemos o nosso Crispim.
Crispim Soares entrou. A dor vencera a raiva, o bo-
ticário não arrancou as orelhas ao alienista. Este
consolou o seu privado, assegurando-lhe que não
era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma
lesão cerebral; ia examiná-la com muita atenção;
mas antes disso não podia deixá-la na rua. E pare-
cendo-lhe vantajoso reuni-los, porque a astúcia
e velhacaria do marido poderiam de certo modo
curar a beleza moral que ele descobrira na esposa,
disse Simão Bacamarte:
— O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas
almoçará e jantará, com sua mulher, e cá passará as
noites, e os domingos e dias santos.
A proposta colocou o pobre boticário na situação
do asno de Buridan. Queria viver com a mulher,
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mas temia voltar à Casa Verde; e nessa luta esteve
algum tempo, até que D. Evarista o tirou da difi-
culdade, prometendo que se incumbiria de ver a
amiga e transmitir os recados de um para outro.
Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido.
Este último rasgo do egoísmo pusilânime pareceu
sublime ao alienista.
Aocabodecincomesesestavamalojadasumasde-
zoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrou-
xava; ia de rua em rua, de casa em casa, esprei-
tando, interrogando, estudando; e quando colhia
um enfermo, levava-o com a mesma alegria com
queoutroraosarrebanhavaàsdúzias.Essamesma
desproporção confirmava a teoria nova; acha-
ra-se enfim a verdadeira patologia cerebral. Um
dia, conseguiu meter na Casa Verde o juiz de fora;
mas procedia com tanto escrúpulo, que o não fez
senão depois de estudar minuciosamente todos os
seus atos, e interrogar os principais da vila. Mais
de uma vez esteve prestes a recolher pessoas per-
feitamente desequilibradas; foi o que se deu com
um advogado, em quem reconheceu um tal con-
junto de qualidades morais e mentais, que era pe-
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rigoso deixá-lo na rua. Mandou prendê-lo; mas
o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma
experiência; foi ter com um compadre, deman-
dado por um testamento falso, e deu-lhe de con-
selho que tomasse por advogado o Salustiano; era
o nome da pessoa em questão.
— Então, parece-lhe...?
— Sem dúvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira,
seja qual for, e confie-lhe a causa.
O homem foi ter com o advogado, confessou ter
falsificadootestamento,eacaboupedindoquelhe
tomasse a causa. Não se negou o advogado, es-
tudou os papéis, arrazoou longamente, e provou a
todas as luzes que o testamento era mais que ver-
dadeiro. A inocência do réu foi solenemente pro-
clamadapelojuiz,eaherançapassou-lheàsmãos.
O distinto jurisconsulto deveu a esta experiência a
liberdade. Mas nada escapa a um espírito original
e penetrante. Simão Bacamarte, que desde algum
tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciência, a
moderação daquele agente, reconheceu a habili-
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dade e o tino com que ele levara a cabo uma ex-
periência tão melindrosa e complicada, e deter-
minou recolhê-lo imediatamente à Casa Verde;
deu-lhe, todavia, um dos melhores cubículos.
Os alienados foram alojados por classes. Fez-se
umagaleriademodestos,istoé,osloucosemquem
predominava esta perfeição moral; outra de to-
lerantes, outra de verídicos, outra de símplices,
outra de leais, outra de magnânimos, outra de sa-
gazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente, as fa-
mílias e os amigos dos reclusos bradavam contra
a teoria; e alguns tentaram compelir a câmara a
cassar a licença. A câmara, porém, não esquecera
alinguagemdovereadorGalvão,esecassasseali-
cença, vê-lo-ia na rua, e restituído ao lugar; pelo
que, recusou. Simão Bacamarte oficiou aos vere-
adores, não agradecendo, mas felicitando-os por
esse ato de vingança pessoal.
Desenganados da legalidade, alguns principais da
vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfirio
e afiançaram-lhe todo o apoio de gente, dinheiro
e influência na corte, se ele se pusesse à testa de
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outro movimento contra a câmara e o alienista. O
barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição
o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas
que ele se emendara, reconhecendo o erro próprio
eapoucaconsistênciadaopiniãodosseusmesmos
sequazes;queacâmaraentenderaautorizaranova
experiência do alienista, por um ano: cumpria, ou
esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice-rei,
caso a mesma câmara rejeitasse o pedido. Jamais
aconselharia o emprego de um recurso que ele viu
falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e fe-
rimentos que seriam o seu eterno remorso.
— O que é que me está dizendo? perguntou o alie-
nista quando um agente secreto lhe contou a conver-
sação do barbeiro com os principais da vila.
Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa
Verde.—Preso por ter cão, preso por não ter cão!
exclamou o infeliz.
Chegou o fim do prazo, a câmara autorizou um
prazo suplementar de seis meses para ensaio dos
meios terapêuticos. O desfecho deste episódio da
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crônica Itaguaiense, é de tal ordem, e tão inespe-
rado, que merecia nada menos de dez capítulos de
exposição; mas contento-me com um, que será o
remate da narrativa, e um dos mais belos exem-
plos de convicção científica e abnegação humana.
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Plus Ultra!
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Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo
e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se
ainda na diligência e penetração com que prin-
cipiou a tratá-los. Neste ponto todos os cro-
nistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista
fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva
admiração em Itaguaí.
Com efeito, era difícil imaginar mais racional sis-
tema terapêutico. Estando os loucos divididos por
classes, segundo a perfeição moral que em cada
um deles excedia às outras, Simão Bacamarte
cuidou em atacar de frente a qualidade predomi-
nante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a
medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento
oposto; e não ia logo às doses máximas,—gradu-
ava-as, conforme o estado, a idade, o tempera-
mento, a posição social do enfermo. Às vezes bas-
tava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma
bengala, para restituir a razão ao alienado: em
outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria
então aos anéis de brilhantes, às distinções hono-
ríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu
a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar
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da cura, quando teve ideia de mandar correr ma-
traca, para o fim de o apregoar como um rival de
Garção e de Píndaro.
— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a
uma comadre; foi um santo remédio.
Outrodoente,tambémmodesto,opôsamesmare-
beldia à medicação; mas não sendo escritor, (mal
sabia assignar o nome) não se lhe podia aplicar
o remédio da matraca. Simão Bacamarte lem-
brou-se de pedir para ele o lugar de secretário de
AcademiadosEncobertosestabelecidaemItaguaí.
Os lugares de presidente e secretários eram de no-
meação régia, por especial graça do finado rei D.
João V, e implicavam o tratamento de Excelência e
o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo
de Lisboa recusou o diploma; mas representando
o alienista que o não pedia como prêmio hono-
rífico ou distinção legítima, e somente como um
meio terapêutico para um caso difícil, o governo
cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim
não o fez sem extraordinário esforço do ministro
de marinha e ultramar, que vinha a ser primo do
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alienado. Foi outro santo remédio.
— Realmente, é admirável! dizia-se nas ruas, ao ver
a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes.
Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada be-
leza moral ou mental era atacada no ponto em
que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era
certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que
a qualidade predominante resistia a tudo; então,
o alienista atacava outra parte, aplicando à tera-
pêutica o método da estratégia militar, que toma
uma fortaleza por um ponto, se por outro o não
pode conseguir.
No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa
Verde;todoscurados!OvereadorGalvãotãocruel-
menteafligidodemoderaçãoeequidade,teveafe-
licidade de perder um tio; digo felicidade, porque
o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve
uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e
embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do
alienista manifestou-se nesse lance; confessou
ingenuamente que não teve parte na cura: foi a
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O Alienista
M A C H A D O D E A S S I S
simples vis medicatrix da natureza. Não acon-
teceuomesmocomopadreLopes.Sabendooalie-
nista que ele ignorava perfeitamente o hebraico e
o grego, incumbiu-o de fazer uma análise crítica
da versão dos Setenta; o padre aceitou a incum-
bência, e em boa hora o fez; ao cabo de dois meses
possuía um livro e a liberdade. Quanto à senhora
do boticário, não ficou muito tempo na célula que
lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos.
— Porque é que o Crispim não vem visitar-me? dizia
ela todos os dias.
Respondiam-lhe ora uma coisa, ora outra; afinal
disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona,
não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas
explosões da cólera escaparam-lhe expressões
soltas e vagas, como estas:
—Tratante!...velhaco!...ingrato!...Umpatifequetem
feitocasasàcustadeunguentosfalsificadosepodres...
Ah! tratante!...
Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não
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O Alienista
M A C H A D O D E A S S I S
fosseverdadeiraaacusaçãocontidanestaspalavras,
bastavamelasparamostrarqueaexcelentesenhora
estavaenfimrestituídaaoperfeitodesequilíbriodas
faculdades; e prontamente lhe deu alta.
Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante
ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mos-
trais com isso que ainda não conheceis o nosso
homem. Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bas-
tava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura;
nãoocontentavaterestabelecidoemItaguaíorei-
nado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou
preocupado,cogitativo;algumacoisalhediziaque
a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novís-
sima teoria.
— Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à
última verdade.
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde
fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ul-
tramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre
de damasco, preso à cintura por um cordão de
seda, com borlas de ouro (presente de uma Uni-
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O Alienista
M A C H A D O D E A S S I S
versidade) envolvia o corpo majestoso e austero
do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma
extensa e nobre calva adquirida nas cogitações
cotidianas da ciência. Os pés, não delgados e fe-
mininos, não graúdos e mariolas, mas proporcio-
nados ao vulto, eram resguardados por um par de
sapatos cujas fivelas não passavam de simples e
modesto latão. Vede a diferença:—só se lhe no-
tava luxo naquilo que era de origem científica; o
que propriamente vinha dele trazia a cor da mo-
deração e da singeleza, virtudes tão ajustadas à
pessoa de um sábio.
Eraassimqueeleia,ograndealienista,deumcaboa
outro da vasta biblioteca, metido em si mesmo, es-
tranho a todas as coisas que não fosse o tenebroso
problema da patologia cerebral. Súbito, parou. Em
pé, diante de uma janela, com o cotovelo esquerdo
apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão
esquerda, fechada, perguntou ele a si:
—Masdeverasestariamelesdoidos,eforamcurados
pormim,—ouoquepareceucura,nãofoimaisdoque
a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?
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O Alienista
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E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que
chegou: os cérebros bem organizados que ele aca-
bava de curar, eram tão desequilibrados como os
outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a
pretensão de haver-lhes incutido um sentimento
ou uma faculdade nova; uma e outra coisa exis-
tiam no estado latente, mas existiam.
Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve
duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de
abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de
longas e pacientes investigações, constantes tra-
balhos, luta ingente com o povo, podia afirmar
esta verdade:—não havia loucos em Itaguaí; Ita-
guaí não possuía um só mentecapto. Mas tão de-
pressa esta ideia lhe refrescara a alma, outra apa-
receu que neutralizou o primeiro efeito; foi a ideia
dadúvida.Poisque!Itaguaínãopossuiriaumúnico
cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta,
não seria por isso mesmo errônea, e não vinha,
portanto, destruir o largo e majestoso edifício da
nova doutrina psicológica?
A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida
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O Alienista
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pelos cronistas Itaguaienses como uma das mais
medonhas tempestades morais que tem desabado
sobre o homem. Mas as tempestades só aterram
os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam
o trovão. Vinte minutos depois alumiou-se a fi-
sionomia do alienista de uma suave claridade.
— Sim, há de ser isso, pensou ele.
Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os carac-
terísticos do perfeito equilíbrio mental e moral;
pareceu-lhequepossuíaasagacidade,apaciência,
a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor
moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que
podem formar um acabado mentecapto. Duvidou
logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era
ilusão;massendohomemprudente,resolveucon-
vocar um conselho de amigos, a quem interrogou
com franqueza. A opinião foi afirmativa.
— Nenhum defeito?
— Nenhum, disse em coro a assembleia.
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O Alienista
M A C H A D O D E A S S I S
— Nenhum vicio?
— Nada.
— Tudo perfeito?
— Tudo.
— Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não
sinto em mim essa superioridade que acabo de ver
definir com tanta magnificência. A simpatia é que
vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique
os excessos da vossa bondade.
A assembleia insistiu; o alienista resistiu; final-
mente o padre Lopes explicou tudo com este con-
ceito digno de um observador.
— Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qua-
lidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem
aindaumaqualidadequerealçaasoutras:—amodéstia.
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça,
juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do
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O Alienista
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que triste. Ato contínuo, recolheu-se à Casa Verde.
Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que fi-
casse, que estava perfeitamente são e equilibrado:
nem rogos nem sugestões nem lágrimas o deti-
veram um só instante. A questão é científica, dizia
ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro
exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e
a prática.
— Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com
o rosto lavado em lagrimas.
Mas o ilustre medico, com os olhos acesos da con-
vicção científica, trancou os ouvidos à saudade da
mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta
da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si
mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a
dezessetemeses,nomesmoestadoemqueentrou,
sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao
pontodeconjecturarquenuncahouveoutrolouco,
além dele, em ltaguaí; mas esta opinião, fundada
em um boato que correu desde que o alienista ex-
pirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato
duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que
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O Alienista
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com tanto fogo realçara as qualidades do grande
homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com
muita pompa e rara solenidade.
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  • 2.
    Machado de Assis OALIENISTA Prefácio Flávio Gordon O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 3.
    Editora Gazeta doPovo Editora Gazeta do Povo S/A, 2024 Todos os direitos reservados. Título original: O Alienista (1882) Capa e diagramação: Cristiano Alves 1ª Edição – formato PDF e EPUB ___________ Assis, Machado O Alienista; Editora Gazeta do Povo, 2024 ___________ [2024] Editora Gazeta do Povo S/A Av. Victor Ferreira do Amaral, 306 Curitiba - Paraná www.gazetadopovo.com.br O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 4.
    C A PÍ T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O C A P Í T U L O I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 5.
    Prefácio A Insônia daRazão Produz Monstros A febre da razão “O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão” – escreve G. K. Chesterton em Ortodoxia. E esse bem poderia ser o resumo mais curto já es- crito de O Alienista, o genial conto de Machado de Assis que a Gazeta do Povo ora relança em versão digital ilustrada. Com efeito, se algo faltava ao doutor Simão Ba- camarte, protagonista da obra, decerto não era a razão. Ao contrário, isso é o que ele tinha de sobra. Formado nos mais excelentes centros acadêmicos europeus, o cientista brasileiro era o embaixador darazãoemterrastropicais.Maisainda!Naquali- dade de “maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, era a própria razão encarnada, vinda ao mundo para salvar e redimir a pequena província fluminense de Itaguaí, sua terra natal, já em tempo de abandonar as trevas das supers- Flávio Gordon voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 6.
    tições coloniais emfavor das luzes do progresso, da civilização e da ciência moderna. Bacamarteéumprodutotardio,ealgodesajeitado, do Iluminismo francês. Vale lembrar que a França do assim chamado “Século das Luzes” vira nascer umadevoçãoverdadeiramentereligiosapelarazão e pela ciência, traduzida na firme convicção em sua capacidade reformadora. Embora não fossem propriamente cientistas, mas homens de letras, os philosophes iluministas dedicavam-se de corpo e alma à divulgação das novas ideias e descobertas científicas. E, embora não fossem propriamente filósofos, mas críticos culturais, traziam con- sigo uma mensagem de alcance filosófico consi- derável: a crença no autoaperfeiçoamento da hu- manidade por meio da ciência e da razão natural. No mundo das letras francesas do período, houve umverdadeiroencantamentocomafilosofia(mais doquecomafísica)newtoniana.Que,porexemplo, Newton tivesse descoberto a natureza da luz era menos significativo que o tivesse feito brincando com um prisma¹. Tudo se passava como se, pela voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 7.
    primeira vez, anatureza fora trazida para perto do homem. E o homem iluminista deslumbrou-se comoqueviu.ComoconsagraramosversosdeAle- xander Pope em seu Epitáfio para Sir Isaac Newton: “Anaturezaesuasleisjaziamescondidasnanoite/ Deus disse, ‘Faça-se Newton’, e tudo se fez luz”. Com a revolução científica, a natureza passara a ser manipulada, testada, examinada em todos os seus maravilhosos detalhes. Foi então que o homem comum imaginou poder compreender a natureza, consistindo justamente nisso o grande impacto do newtonianismo. Pode-se dizer que a filosofia setecentista concluiu o processo iniciado por Bacon e Descartes, passando de puro exercício de contemplação (a bios theoretikos aristotélica) a meio de ação e aprimoramento da vida humana. Dali em diante, o homem comum passou a asso- ciar os seus anseios e expectativas aos grandes nomes da ciência. Como mostrou Albert Mathiez², um dos pioneiros a ocupar a cátedra de história da Revolução Francesa na Sorbonne, esta foi a ideia 1 Ver, sobre o assunto: BECKER, Carl. The Heavenly City of the Eighte- enth-Century Philosophers. New Haven & London: Yale University Press, 1932. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 8.
    essencial da filosofiado século 18: por meio da razão e da ciência, o homem pode melhorar in- definidamente a sua condição, modificando o organismo social. E, de fato, no decorrer da Revolução Francesa – o evento histórico que materializou aquela ideia essencial – vimos como, de maneira grosseira de tão caricata, elementos centrais da religião tradi- cionalforamparodiadoseconvertidosemexóticos cultos seculares. Tendo lugar em catedrais como Notre-Dame e Chartres, esses cultos incluíam o catecismo e o batismo cívicos, a eucaristia com a pátria e, em particular, a penitência diante da “deusa Razão”³. Uma nova religião, tendo a razão humana como divindade e os filósofos iluministas como apóstolos, surgia no horizonte como uma aurora de esperança e redenção. O Zeitgeist era fe- bril – a febre da razão. 2 Ver: MATHIEZ, Albert. As origens dos cultos revolucionários. Barueri: Avis Rara (Faro Editorial), 2021. 3 Ver, sobre o assunto: OZOUF, Mona. Festivals and the French Revolu- tion. Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press, 1988. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 9.
    Psiquiatria e reformasocial Precedido pelo ciclo pombalino e sucedido pelo marxismo, o positivismo de Augusto Comte foi a mais influente versão do cientificismo iluminista no Brasil de meados do século 19⁴, período no qual se desenrola a trama de O Alienista. E é justo nesse período que começam a aparecer as primeiras teses médicas sobre a alienação mental. No Brasil, é em 18 de julho de 1841 que o impe- rador decreta a criação, na Praia Vermelha do Rio de Janeiro, do Hospício de Pedro II, modelado de acordo com as instituições francesas organizadas por Philippe Pinel e Jean-Étienne Esquirol. Tendo condenado o antigo tratamento dado aos loucos em sua sociedade, os mestres franceses introdu- ziram na psiquiatria moderna a mescla tipica- mente iluminista e positivista entre ciência e re- forma social. E a revolução que Simão Bacamarte, esse misto de médico e reformador social, pro- voca na pacata vila de Itaguaí alude justamente, 4 Ver, sobre o assunto: PAIM, Antonio. História das Ideias Filosóficas no Brasil (Vol. II). 6ª Ed. Londrina: Edições Humanidades, 2007. Cap. 5. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 10.
    de modo irônico,às intervenções da medicina nas questões administrativas do Estado. Ocorre que, sempre inspirado pelo Eclesiastes e, como sugeriu o crítico Barreto Filho5, adepto de uma visão trágica da vida, Machado desconfiava dos triunfalismos progressista e cientificista de sua época. De modo que, sendo o seu segundo tra- balhodedestaquedafasemadura(sobreaqualfa- laremos a seguir), O Alienista consiste numa crí- tica ácida e bem-humorada aos mitos científicos contemporâneos ao autor. Itaguaí é um micro- cosmo da sociedade brasileira oitocentista, osci- lante entre a permanência dos velhos hábitos de um Brasil ainda colonial (referidos ironicamente, no início do texto, como os “tempos remotos” da viladeItaguaí)eaurgênciafrenética,porpartedas elites locais, de acertar o passo com o progresso científico e social oriundo da Europa. “A ciência é o meu emprego único. Itaguaí é o meu universo” – diz Bacamarte ao rei de Portugal, ao recusar-lhe polidamente a oferta de permanecer em Coimbra 5 Ver: BARRETO FILHO, José. Introdução a Machado de Assis. Rio de Ja- neiro: Agir, 1947. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 11.
    em favor damissão abnegada de civilizar a terra natal. Por intermédio do médico, portanto, Ita- guaí tinha o seu primeiro encontro com a ciência. Tal como viria a fazer de Quincas Borba uma pa- ródia das teses positivistas e social-darwinistas importadasdoestrangeiro,MachadofezdeOAlie- nista uma paródia da psiquiatria moderna e suas inconclusivastesessobreasfronteirasentrealou- cura e a sanidade. Quincas Borba e Simão Baca- marte são intelectuais que enlouquecem por ex- cesso de ciência. Os dois caem de cama, ardendo em febre de razão. Pior ainda: auto-imbuídos da missão de curar, civilizar e racionalizar a socie- dade, ambos enlouquecem o ambiente social ao redor. Se o sono da razão produz monstros – como no título do famoso quadro de Goya –, a insônia da razão talvez os produza ainda mais. O Bruxo do Cosme Velho é especialmente impla- cável ao retratar as extravagantes refrações so- fridas pelas luzes europeias no contato com o am- biente tropical. No Brasil, parecem desajeitadas as teses importadas da Europa, como são desajei- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 12.
    tados os hábitosda elite local, que em tudo pro- cura imitar os gostos europeus. Como diria Gil- berto Freyre, não há nada que não amoleça sob o calor dos trópicos, incluindo teses, hábitos, gostos e... saltos altos. “O gosto de imitar as fran- cesas da rua do Ouvidor é evidentemente um erro. As nossas moças devem andar como sempre an- daram, com seu vagar e paciência, e não este ti- que-tique afrancesado” – comenta o agregado José Dias em Dom Casmurro, depois de ver uma dama da sociedade estatelar-se no chão por amor às modas da França. Em O Alienista, Machado expõe a forma rígida e servil com que os estudiosos brasileiros da alie- nação mental copiavam as teses dos doutores franceses, mimetizando até mesmo as suas crí- ticas sociopolíticas à administração pública dos loucos. Carentes da mesma experiência dos co- legas europeus no método asilar, todavia, nossos alienistas calharam de adotar uma persona comi- camente autoritária, tomando a si próprios, seus gostos, valores e ideias, como medida e padrão- -ouro da sanidade, e fazendo da ciência psiqui- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 13.
    átrica, epítome darazão humana universal, uma arma de controle social e ideológico da população. Ao propor a uma perplexa Câmara de Itaguaí a construção de um asilo para os loucos – a Casa Verde –, Bacamarte começa a sua insana ascensão rumo ao posto de “editor” de uma cidade inteira. Sempre ressaltando o confronto entre os antigos hábitos itaguaienses e as urgentes aspirações do progresso, Machado descreve a reação negativa da população nos seguintes termos: “A proposta excitou a curiosidade de toda a vila e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam há- bitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesmo um sintoma de demência” (grifos meus). Considerando apenas o primeiro período da ci- taçãoacima,aopiniãodonarradorparececoincidir com a do alienista, ambas críticas à resistência ao progresso (irracional, por óbvio) oferecida pelas voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 14.
    mentes conservadoras locais.Mas, no período se- guinte,aomencionaraopiniãopopularsobreain- sensatez de juntar todos os loucos numa mesma casa, Machado abala a aparente coincidência ini- cial,levandooleitora,nomínimo,considerarcom benevolência o senso comum contra a tese cien- tífica. Na medida em que a narrativa se desenrola, e emqueodoutorBacamarteavançaseuprojetosani- tário e civilizatório, o senso comum vai se tornando cada vez mais um mero sinônimo de bom senso, e a ciência vai exibindo a sua face alucinada. A loucura, até então vista por Bacamarte como “uma ilha perdida no oceano da razão”, passa a ser compreendida como um continente. Compor- tamentos que, aos olhos leigos, seriam tidos por absolutamente normais, senão mesmo virtuosos, passam a ser vistos como sinal de loucura pelo alienista. É o caso emblemático do Sr. Costa, “um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí”, que re- solveu abrir mão de uma vultosa herança rece- bida em favor dos pobres e necessitados. Aquilo que o senso comum poderia julgar tratar-se de desprendimento e caridade, o doutor Bacamarte voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 15.
    diagnostica como alienação.Questionado sobre o motivo da internação de tão querida personali- dade, responde seca e objetivamente: “a ciência é a ciência”. Munido, pois, de tal ciência, o alienista passa a diagnosticar Deus e o mundo como loucos, in- cluindo a sua própria esposa D. Evarista, tranca- fiada na Casa Verde junto com 80% da população itaguaiense. Também das vizinhanças da cidade chegam novos contingentes de loucos, que au- mentamapopulaçãodomanicômioeobrigamBa- camarte a anexar galerias à construção inicial. É como arauto da modernidade, como agente civi- lizador e como reformador social que Bacamarte adquireopoderpara“empurrarahistória”deIta- guaí. Ao contrário dos políticos comuns, sua auto- ridade não advém da representatividade, mas do saber.Daíquetodamanifestaçãodecontrariedade à sua agenda reformista não seja legitimada como visão política divergente, mas condenada como bárbara e anticientífica. Seus críticos não são ci- dadãos, mas inimigos da saúde e do progresso. A revolta de parte da população itaguaiense contra voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 16.
    a Casa Verdenão é um ato político, mas um aten- tado à razão. Quando a “ciência, ciência, ciência” fala, o mais prudente é calar-se. A transfiguração interior de Machado de Assis O Alienista foi publicado originalmente em capí- tulos, entre outubro de 1881 e março de 1882, no jornalcarioca“AEstação”.Aindaem1882,elesaiu porinteironovolumedecontosreunidosintitulado Papéis Avulsos. Ou seja, a história de Simão Baca- marte veio ao mundo meses depois da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, também de 1881, e ambos os trabalhos, o romance e o conto, inauguram a segunda fase da obra machadiana, que alguns críticos chamam de “realista”, con- trapondo-aàfase“romântica”anterior,masque, inspirado em René Girard6, eu prefiro chamar de romanesca, no sentido da revelação de verdades sobre a existência humana ocultadas pelo roman- tismo. 6 Ver: GIRARD, René. Mentira Romântica, Verdade Romanesca. São Pau- lo: É Realizações, 2009. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 17.
    É certo que,ao longo de sua primeira fase, Ma- chado já demonstrara parte de seu talento lite- rário, ao menos no que diz respeito às qualidades formais. Quando, em 1872, publicou Ressurreição, o seu primeiro romance, já não era um autor obs- curo, mas, ao contrário, um escritor bem-con- ceituado e com fama de fidalgo das letras, o qual, cinco anos antes, havia sido agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços pres- tados às letras nacionais. Para os leitores dessa época, portanto, que já o acompanhavam pelas páginas do Diário do Rio de Janeiro e da Semana Ilustrada, a publicação de seu primeiro romance, formalmente irretocável, parecia consagrar a bem-sucedida carreira de um escritor de escol, o qual, estando no ápice, talvez já pudesse dar por encerrada a sua obra neste planeta. Mas, como sugere Gustavo Corção em volume de- dicado a Machado de Assis numa coletânea sobre os clássicos das letras brasileiras7, quão equivo- cados estiveram os leitores da época, e quão feli- 7 Ver: CORÇÃO, Gustavo. “Machado de Assis”. Em: Alceu Amoro Lima e Roberto Alvim Corrêa (eds.). Nossos Clássicos, vol. 37. Rio de Janeiro: Agir, 1966. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 18.
    zardos foram osleitores futuros, que, já uma dé- cada adiante, começaram a divisar o restante da história, testemunhando a transformação da- quele autor apenas competente no maior escritor brasileiro de todos os tempos e monstro sagrado da língua portuguesa. Referindo-se a 1872, ano de publicação de Ressurreição, observa Corção: “A obra machadiana até então realizada tinha qualidades de linguagem, mas pouca densidade de conteúdo. Não hesitaríamos em classificar como medíocre o escritor que nos apresentasse a bagagem com que Ma- chado de Assis conquistou, naqueles tempos fáceis, a estima e a consideração dos con- temporâneos. Como disse, não estaríamos aqui a preparar este volume, nem existiria talvez nenhum dos livros constantes da ‘Bi- bliografia Sobre o Autor’, se a obra poste- rior fosse um mero prolongamento daquela já então publicada. O verdadeiro Machado de Assis, isto é, o autor que não hesitamos em colocar entre os mais altos valores da língua portuguesa, ao lado de Camões e de voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 19.
    Fernando Pessoa, eque os assinantes do Di- ário do Rio de Janeiro talvez nem pressen- tissem, esse, o nosso Machado de Assis, só dez anos mais tarde viria a nascer”. Corção identifica o problema central de Ressur- reição e dos três romances seguintes, A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Nesses quatro romances de sua primeira fase, Machado já revelava ao mundo a perfeição de seu maravilhoso aparelho de expressão. No entanto, essa mesma perfeição evidenciava ainda mais a pobreza do conteúdo, deixando no leitor apre- sentado às obras da segunda fase a sensação de desperdício de talento numa obra sem gênio. Dir- -se-ia que, ao tempo de A Mão e a Luva e Helena, Machado esteve a dois passos da mediocridade laureada e auto-satisfeita. Isso porque, ao contrário do que viria a fazer nos romances da fase romanesca, e também, como vimos, em O Alienista, Machado não conseguira, antes de 1881, transcender e afastar-se de seu próprio ambiente cultural, limitando-se a regis- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 20.
    trar, sem criticar,a superficialidade dos tipos hu- manos da época, característicos da sociedade li- beral-burguesa na qual o romancista parecia se sentir em casa. Com efeito, os personagens da fase “romântica” são apresentados por um autor da mesma espécie e meio social, havendo, portanto, umacoincidênciaentreasatitudesdosprimeirose aperspectivadonarradorqueasretrata.Épossível que, caso O Alienista tivesse sido escrito antes de 1881, seu narrador se limitasse a concordar, sem acrescer-lhe a observação irônica, com o juízo de Bacamarte sobre a reação hostil da população itaguaiense à sua ideia de meter os loucos numa mesma casa, conforme trecho supracitado. Antes de sua transfiguração, em suma, ou antes de Machado de Assis tornar-se Machado de Assis, nota-se que o maior escritor brasileiro ainda não escapara dos males do cronocentrismo. Nas pala- vras de Corção: “Nesses três romances [A Mão e a Luva, He- lena e Iaiá Garcia] pode-se dizer que Ma- chado foi homem de seu tempo. Ora, não há voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 21.
    coisa pior parao artista do que ser do seu tempo, desta maneira assentada e confor- mada que se submete às tiranias do século. O autor pintou figuras de seu tempo, e claro é que não se pode imputar ao romancista a maldade ou a mediocridade de seus perso- nagens; mas podemos criticá-lo pelo fato de haver tratado aqueles caracteres com os próprios critérios, pobres e convencionais, da mentalidade e da moral de seu tempo (...) Dir-se-ia que Machado de Assis, até 1881, é um autor que saboreia o sucesso produzido pela concordância com os padrões vigentes, e que por esse prisma antevê os persona- gens que fabrica”. Para a nossa sorte, Machado de Assis não morreu naquele fatídico ano de 1881, quando esteve ado- entado e experimentou uma espécie de crise exis- tencial dos 40 anos. Não apenas sobreviveu aos desafios da saúde frágil, que incluía ataques epi- léticos, como deixou operar-se em si uma trans- figuração espiritual profunda, que terminou por libertar o gênio escondido. Tendo, talvez por ex- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 22.
    periência própria, contempladoa fragilidade do ser, e refletido sobre o lado amargo da existência, Machadojánãoviaqualquerconfortonaordemli- beral burguesa, e passara a desconfiar mais e mais dastolaspromessasdoracionalismoprogressista. Elevando os dramas humanos cotidianos a uma dimensão metafísica, escolheu a loucura – sobre- tudo a dos moralistas, dos sábios e dos medalhões – como um dos temas favoritos. Cito Corção mais uma vez: “Quem acaba de ler Iaiá Garcia e começa a leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas, vê logo, com refulgente evidência, que está diante de um fato novo, ou de uma nova estética (...) Em Brás Cubas, vê-se logo que Machado liberou o demônio interior e começa uma nova aventura (...) O contraste entre Brás Cubas e a obra anterior, como entre esta nova aventura e a vida de Ma- chado, é tão forte que temos a tentação de dizer, com Lúcia Miguel-Pereira, que ‘tal obra não podia ter saído de tal homem’. Mas não é a nova aventura ou a nova estética que voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 23.
    constituemaessencialnovidadedaobraque aparece em 1881.Ela é diferente não apenas na forma, mas, sobretudo, na espirituali- dade, na inspiração. Será preciso reabilitar o conceito platônico de inspiração, ou de de- lírio poético, para compreendermos melhor adiferençadimensionalqueexisteentreIaiá Garcia e Brás Cubas. Tínhamos antes um es- critor talentoso, adaptado, que fazia obra ao sabor das convenções correntes, manejando muitíssimo bem a língua, mas seguindo os caminhos batidos; temos agora diante de nós, com espanto nosso, quase com susto, um valor peregrino, ímpar, que iguala as maiores altitudes da literatura universal”. É inegavelmente a essa segunda fase, que nos es- panta e assusta pela aparentemente brusca trans- figuração interna do autor, que pertence o conto O Alienista. Se, como escreveu o poeta americano AllenTate,ohomemprovinciano,presoaotempo, vive ao acaso, nota-se que a vida do Machado pós- 1881 tem um propósito. Desde então, o escritor abandona todo provincianismo e se lança à uni- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 24.
    versalidade, transcendendo oslimites do espaço, mas, sobretudo, os do tempo. Os Alienistas no Brasil contemporâneo: uma paródia ao cubo Eporfalaremtempo:quesurpresasnostrariauma viagem de Machado de Assis ao tempo presente? Penso que, fosse escrever sobre o Brasil de hoje, o Bruxo do Cosme Velho teria um problema aná- logo ao dos humoristas contemporâneos: a difi- culdade em rivalizar com a realidade (ou surre- alidade) nacional, ao mesmo tempo mais insana e mais cômica do que tudo o que a arte de Ma- chado e a dos os humoristas pudessem imaginar. Porque, se a obra de arte machadiana foi conce- bida como uma paródia das ilusões cientificistas provenientesdaEuropadoséculo19,elaspróprias uma paródia secular da soteriologia cristã, resta que a vida brasileira contemporânea é como que uma paródia da paródia da paródia: uma paródia ao cubo. Candidatos a Bacamarte não faltam, hoje prove- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 25.
    nientesnãodouniversomédico-científico,masdo universo jurídico e,pior ainda, da mais alta corte judicial brasileira. Tal como o alienista pretendia fundamentar na autoridade da ciência e da razão uma agenda política reformadora, nossos refor- madores progressistas – alguns deles falando abertamente em aplicar um “choque de ilumi- nismo” nessa grande Itaguaí que é o Brasil inteiro – escondem-se sob a toga, pretendendo vender como defesa jurídica (“científica”, obviamente) dademocraciaedoestadodedireitoaquiloquenão passa de uma agenda político-partidária muito mal disfarçada. Tal como o alienista, também eles não foram eleitos e, portanto, fazem política fora do ambiente democrático-representativo. Com a ressalva de que, no caso de magistrados, é a pró- pria lei brasileira que lhes proíbe atuar político- -partidariamente. A agenda da toga foi declarada com todas as letras por um dos magistrados, que se jactou de haver “derrotado o bolsonarismo”. É significativo que a confissão tenha sido feita justo pelo mais baca- mártico dentre os pares, um sujeito capaz de se voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 26.
    descrever, sem corar,como um “adepto ao Ilu- minismo, ou seja, à razão, à ciência, ao huma- nismo e progresso social”. Que esse tipo de auto- descrição fosse feita por um iluminista brasileiro de meados do século 19 já era extravagante o su- ficiente, a ponto de, justamente, virar objeto do humor machadiano. Que seja feita em pleno sé- culo 21, depois de um século de crítica ao raciona- lismoiluminista(àdireitaeàesquerda),jánospõe diante do cômico no sentido bergsoniano, reve- lando uma autoimagem tão extemporânea, e por isso mesmo tão engraçada, quanto a de Dom Qui- xote de la Mancha. Alheio à comicidade da própria situação,nossonovoBacamarte,poróbvio,seleva muito a sério, e atribui à sobrevivência de “guetos pré-iluministas”aresistênciaàsuamissão“reci- vilizatória”. Afinal, só loucos não concordariam com propostas progressistas como a legalização do aborto, a descriminalização da maconha, a criminalização da transfobia e a desmilitari- zação das polícias, sem as quais uma civilização não pode sobreviver. Mais agressivo e menos sofisticado que o colega, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 27.
    umoutroBacamartecontemporâneo–etemosno BrasildehojeumaverdadeirajuntadeBacamartes – decidiu proclamara si próprio como encarnação da democracia, diagnosticando como “antidemo- crático” tudo o que não seja ele próprio, e criando inquéritosdaCasaVerdeparainternartodosos“ex- tremistas” da grande Itaguaí, cujos limites agora ultrapassam as fronteiras nacionais. De início, o alienista de toga prescreveu internação nos insti- tutos de reeducação democrática apenas a um pu- nhado de críticos de internet, que ele descrevera como “imbecis”, “populistas” e “extremo-direi- tistas”. Pouco a pouco, esses conceitos foram fi- cando mais elásticos, passando a incluir empre- sários em grupos de WhatsApp, magistrados não alinhados, influenciadores digitais, parlamen- tares, jornalistas nacionais e até mesmo interna- cionais. Não ficaram de fora sequer os veículos da velha imprensa outrora entusiastas do alienista, bem como políticos estrangeiros (como foi o caso de Jason Miller, assessor de Donald Trump) e em- presários americanos como Elon Musk, dono do X, também diagnosticado como “antidemocrá- tico” e, ato contínuo, confinado num dos inqué- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 28.
    ritosdaCasaVerde.Aliás,conta-seàbocapequena em Itaguaí que,certa vez, salivando de expecta- tiva asilar, o alienista de toga teria dito a colegas de ciência: “Ainda tem muita gente para prender e muita multa para aplicar”. Está claro que, assim como o Bacamarte original, os nossos alienistas de toga erigiram a si próprios como medida-padrão da normalidade, do justo, do bom e do belo, condenando como louca, fa- nática e extremista a maioria da população, que rejeita o sanitarismo político-ideológico da Su- prema Corte. Tudo o que, aos olhos do brasileiro médio, pareça normal e decente, os alienistas diagnosticam como insano ou indecente; tudo o que lhe soe aberrante e criminoso, os alienistas chancelam como o suprassumo da virtude. Resta que, ao contrário do alienista original – que, apesar de louco, não era má pessoa –, os nossos alienistas de toga não parecem demonstrar a ho- nestidade intelectual necessária para reconhecer que são eles os loucos e antidemocráticos. Daí que, em vez de libertarem o povo e internarem a si pró- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 29.
    prios na CasaVerde, o que provavelmente farão é expandir mais e mais o estado policialesco em que transformaram o país. Para o nosso azar, o Brasil de hoje não é um conto de Machado de Assis, que a esta altura, se vivo fosse, muito provavelmente também estaria con- finado na Casa Verde de papel. Para a sua sorte, o Bruxo do Cosme Velho não viveu para testemu- nhar a sua ficção transformada numa realidade sombria. O Brasil, afinal, não ganhou uma Casa de Orates, mas se transformou em uma. E são os loucos mais perigosos quem a administram. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 30.
    De Como Itaguaí GanhouUma Casa De Orates voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 31.
    AscrônicasdaviladeItaguaídizemqueemtempos remotos vivera alium certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicosdoBrasil,dePortugaledasEspanhas.Es- tudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei al- cançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou era Lisboa, expedindo os negó- cios da monarquia. — A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu em- prego único; ltaguaí é o meu universo. Dito isto, meteu-se em ltaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curascomasleituras,edemonstrandoosteoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas peranteoEterno,enãomenosfranco,admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Baca- marte explicou-lhe que D. Evarista reunia condi- ções fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 32.
    digeria com facilidade,dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteli- gentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agra- decia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte. D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Baca- marte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso medico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regime ali- mentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusi- vamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu ás admoestações do esposo; e à sua resis- tência,—explicável, mas inqualificável,—devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 33.
    Mas a ciênciatem o inefável dom de curar todas as magoas; o nosso medico mergulhou inteiramente no estudo e na pratica da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção,—o recanto psíquico, o exame da pa- tologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Ba- camarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de «louros imarcescíveis,»—expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores. — A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico. — Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais. A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 34.
    trancado em umaalcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos an- davamàsoltapelarua.SimãoBacamarteentendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu li- cença à câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a câmara lhe daria quando a família do en- fermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande re- sistência, tão certo é que dificilmente se desar- raigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de de- mência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico. — Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo. D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 35.
    disse-lhe “que estavacom desejos”, um princi- palmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e re- darguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à câmara, onde os vereadores debatiam a pro- posta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, vo- tando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiarotratamento,alojamentoemantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la, tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em per- mitir o uso de dois penachos nos cavalos dos en- terros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última benção na sepultura. O escrivão per- deu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa: e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 36.
    — Os cálculosnão são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa? Enganava-se o digno magistrado; o médico ar- ranjou tudo. Uma vez empossado da licença co- meçou logo a construir a casa. Era na rua Nova, a maisbelaruadeItaguaínaqueletempo,tinhacin- quenta janelas por lado, um pátio no centro, e nu- merosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé de- clara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente. A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 37.
    até remotas, eda própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que du- raram sete dias. Muitos dementes já estavam re- colhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, co- briu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verda- deira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumescaseiroserecatadosdoséculo,enãosóa cortejavam como a louvavam; porquanto,—e este fato é um documento altamente honroso para a sociedadedotempo,—porquantoviamnelaafeliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores. Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 38.
    Torrente de Loucos voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 39.
    Três dias depois,numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração. —Acaridade,Sr.Soares,entradecertonomeuprocedi- mento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos Corín- tios: “Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada.” O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos grãos, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade. — Um excelente serviço, corrigiu o boticário. — Sem este asilo, continuou o alienista, pouco po- deria fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos. — Muito maior, acrescentou o outro. E tinham razão. De todas as vilas e arraiais vizi- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 40.
    nhos afluíam loucosà Casa Verde. Eram furiosos, erammansos,erammonomaníacos,eratodaafa- míliadosdeserdadosdoespírito.Aocabodequatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bas- taram os primeiros cubículos: mandou-se anexar uma galeria de mais trinte e sete. O padre Lopes confessouquenãoimaginaraaexistênciadetantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus re- camos de grego e latim, e suas borlas de Cicero, ApuleoeTertuliano.Ovigárionãoqueriaacabardo crer. Que! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua! — Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias. — Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode ex- plicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, con- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 41.
    fundidas antigamente aslínguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe... —Essapodeser,comefeito,aexplicaçãodivinadofenô- meno, concordou o alienista, depois de refletir um ins- tante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato... — Vá que seja, e fico ansioso. Realmente! Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O pri- meiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, su- punha-seestrelad’alva,abriaosbraçosealargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e fi- cava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 42.
    requintes de crueldade.O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos. A mania das grandezas tinha exemplares notá- veis. O mais notável era um pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta: — Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a es- pada, a espada engendrou David, David engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque en- gendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu. Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas: — Deus engendrou um ovo, o ovo, etc. Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boia- deiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 43.
    a toda agente, dava trezentas cabeças a um, seis- centas a outro, mil e duzentas a outro, e não aca- bava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chaman- do-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o li- cenciado Garcia, que não dizia nada, porque ima- ginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que rece- bera de Deus. Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse cientifico. Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hos- pedadas na Casa Verde; nada menos que assom- brosa. Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da exe- cução de um regimento que lhes deu, aprovado pela câmara, da distribuição da comida e da roupa, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 44.
    e assim tambémda escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício.—A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma es- pécie de mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual. E o padre Lopes ria deste pio trocado,—e acrescentava,—com o único fim de dizer também uma chalaça:—Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa. Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus en- fermos.Dividiu-osprimeiramenteemduasclasses principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo aturado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas do acesso, as aversões, as simpatias, as pa- lavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstan- cias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, ante- cedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia no- tava uma observação nova, uma descoberta inte- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 45.
    ressante,umfenômenoextraordinário.Aomesmo tempo estudava omelhor regime, as substancias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho levava-lheomelhoreomaisdotempo.Maldormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se tra- balhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só pa- lavra a D. Evarista. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 46.
    Deus Sabe o queFaz! voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 47.
    A ilustre dama,no fim de dois meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres; caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe perguntasse o marido o que é que tinha, res- pondeu tristemente que nada; depois atreveu-se um pouco, e foi ao ponto de dizer que se conside- rava tão viúva como dantes. E acrescentou: — Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos... Nãoacabouafrase;ouantes,acabou-alevantando os olhos ao teto,—os olhos, que eram a sua feição mais insinuante,—negros, grandes, lavados de umaluzúmida,comoosdaaurora.Quantoaogesto, era o mesmo que empregara no dia em que Simão Bacamarte a pediu em casamento. Não dizem as crônicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o perversointuitodedegolardeumavezaciência,ou pelo menos, decepar-lhe as mãos; mas a conjec- tura é verosímil. Em todo caso, o alienista não lhe voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 48.
    atribuiu outra intenção.E não se irritou o grande homem, não ficou sequer consternado. O metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veio que- brar a superfície da fronte quieta como a água de Botafogo. Talvez um sorriso lhe descerrou os lá- bios, por entre os quais filtrou esta palavra macia como o óleo do Cântico: — Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro. D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto não fosse sequer uma pálida sombra do que hoje é, todavia era alguma coisa mais do que Ita- guaí. Ver o Rio de Janeiro, para ela, equivalia ao sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente, que o marido assentara de vez naquela povoação interior, agora é que ela perdera as últimas espe- ranças de respirar os ares da nossa boa cidade; e justamente agora é que ele a convidava a realizar os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não pode dissimular o gosto de semelhante proposta. Simão Bacamarte pegou-lhe na mão e sorriu,— voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 49.
    um sorriso tantoou quanto filosófico, além de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensa- mento: — "Não há remédio certo para as dores da alma; esta senhora definha, porque lhe parece que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e con- sola-se.” E porque era homem estudioso tomou nota da observação. Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao ma- rido, que, se ele não ia, ela não iria também, porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas. — Irá com sua tia, redarguiu o alienista. Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e racional que a proposta viesse dele. — Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! sus- pirou D. Evarista sem convicção. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 50.
    — Que importa?Temos ganho muito, disse o ma- rido. Ainda ontem o escriturário prestou-me contas. Queres ver? E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslum- brada. Era uma via-láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus! erammontesdeouro,erammilcruzadossobremil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos ne- gros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões. — Quem diria que meia dúzia de lunáticos... D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação: — Deus sabe o que faz! Trêsmesesdepoisefetuava-seajornada.D.Evarista, a tia, a mulher do boticário, um sobrinho deste, um padre que o alienista conhecera em Lisboa, e que de aventuraachava-seemItaguaí,cincoouseispajens, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 51.
    quatro mucamas, talfoi a comitiva que a população viudalisairemcertamanhãdomêsdemaio.Asdes- pedidasforamtristesparatodos,menosparaoalie- nista. Conquanto as lagrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, não chegaram a abalá-lo. Homem de ciência, e só de ciência, nada o conster- navaforadaciência;esealgumacoisaopreocupava naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão umolharinquietoepolicial,nãoeraoutracoisamais doqueaideiadequealgumdementepodiaachar-se ali misturado com a gente de juízo. — Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário. Epartiuacomitiva.CrispimSoares,aotornaracasa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 52.
    Uma Teoria Nova voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 53.
    Ao passo queD. Evarista, em lágrimas, vinha bus- cando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempoquelhesobravadoscuidadosdaCasaVerde, era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. Um dia de manhã,—eram passadas três se- manas,—estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar. — Trata-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma triste notícia da comi- tiva, e especialmente da mulher? Porque este tó- pico deve ficar claramente definido, visto insis- tirem nele os cronistas: Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 54.
    um só dia.Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez:—"Anda, bem feito, quem te mandou con- sentir na viagem de Cesaria? Bajulador, torpe ba- julador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de la- caio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amen a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!”— E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria pró- pria de um sábio, uma alegria abotoada de cir- cunspecção até o pescoço. — Estou muito contente, disse ele. — Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 55.
    — Trata-se decoisa mais alta, trata-se de uma ex- periência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ci- ência é outra coisa, Sr. Soares, se não uma investi- gação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em ltaguaí; mas, como um raro espírito que era, re- conheceu o perigo de citar todos os casos de Ita- guaí, e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 56.
    odiosas, e entidadesridículas. E porque o boti- cário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente: — A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério. — Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim So- ares levantando as mãos ao céu. Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a mo- déstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta ex- pressão não tem equivalente no estilo moderno. Naqueletempo,Itaguaí,quecomoasdemaisvilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma no- tícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pre- gados na porta da câmara e da matriz;—ou por meio de matraca. Eis em que consistia este se- gundo uso. Contratava-se um homem, por um ou voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 57.
    maisdias,paraandarasruasdopovoado,comuma matraca na mão.De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam,—um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesi- ástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo dis- curso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes paraapazpública;maseraconservadopelagrande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, umdosvereadores,—aquelejustamentequemais se opusera à criação da Casa Verde,—desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e ma- cacos, e aliás nunca domesticara um só desses bi- chos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfei- tamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade; nem todas as ins- tituições do antigo regime mereciam o desprezo do nosso século. — Há melhor do que anunciar a minha ideia, é prati- cá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 58.
    E o boticário,não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. — Sempre haverá tempo de a dar à matraca, con- cluiu ele. SimãoBacamarterefletiuaindauminstante,edisse: — Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos defi- nitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia. O vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia prin- cípio de execução. — Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 59.
    delimitadas. Sabe-se ondeuma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobreolábiofinoediscretodoalienistaroçouavaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. A ciência conten- tou-se em estender a mão à teologia,—com tal se- gurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 60.
    O Terror voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 61.
    Quatro dias depois,a população do Itaguaí ouviu consternada a notícia de que um certo Costa fora recolhido à Casa Verde. — Impossível! — Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã. —Mas,naverdade,elenãomerecia...Aindaemcima! depois de tanto que ele fez... Costa era um dos cidadãos mais estimados de Ita- guaí. Herdara quatrocentos mil cruzados em boa moedadeel-reiD.JoãoV,dinheirocujarendabas- tava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver “até o fim do mundo”. Tão depressa re- colheu a herança, como entrou a dividi-la em em- préstimos, sem usura, mil cruzados a um, dois mil a outro, trezentos a este, oitocentos àquele, a tal ponto que, no fim de cinco anos, estava sem nada. Se a miséria viesse de chofre, o pasmo de Itaguaí seria enorme; mas veio devagar; ele foi passando da opulência à abastança, da abastança à me- diania, da mediania à pobreza, da pobreza à mi- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 62.
    séria, gradualmente. Aocabo daqueles cinco anos, pessoas que levavam o chapéu ao chão, logo que ele assomava no fim da rua, agora batiam-lhe no ombro, com intimidade, davam-lhe piparotes no nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre lhano, risonho. Nem se lhe dava de ver que os menos cor- teseseramjustamenteosquetinhamaindaadívida em aberto; ao contrário, parece que os agasalhava com maior prazer, e mais sublime resignação. Um dia, como um desses incuráveis devedores lhe ati- rasse uma chalaça grossa, e ele se risse dela, ob- servou um desafeiçoado, com certa perfídia:—"- Você suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga.” Costa não se deteve um minuto, foi ao devedor e perdoou-lhe a dívida.—"Não admira, retorquiu o outro; o Costa abriu mão de uma estrela, que está no céu.” Costa era perspicaz, entendeu que ele ne- gava todo o merecimento ao ato, atribuindo-lhe a intenção de rejeitar o que não vinham meter-lhe na algibeira. Era também pundonoroso e inven- tivo; duas horas depois achou um meio de provar que lhe não cabia um tal labéu: pegou de algumas dobras, e mandou-as de empréstimo ao devedor. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 63.
    — Agora esperoque...—pensou ele sem concluir a frase. Esse último rasgo do Costa persuadiu a crédulos e incrédulos; ninguém mais pôs em dúvida os sen- timentos cavalheirescos daquele digno cidadão. As necessidades mais acanhadas saíram à rua, vierambater-lheàporta,comosseuschinelosve- lhos, com as suas capas remendadas. Um verme, entretanto, roía a alma do Costa: era o conceito do desafeto. Mas isso mesmo acabou; três meses depois veio este pedir-lhe uns cento e vinte cru- zados com promessa de restituir-lhos daí a dois dias; era o resíduo da grande herança, mas era também uma nobre desforra: Costa emprestou o dinheiro logo, logo, e sem juros. Infelizmente não teve tempo de ser pago; cinco meses depois era recolhido à Casa Verde. Imagina-se a consternação de Itaguaí, quando soube do caso. Não se falou em outra coisa, di- zia-sequeoCostaensandecera,aoalmoço,outros que de madrugada; e contavam-se os acessos, que eramfuriosos,sombrios,terríveis,—oumansos,e até engraçados, conforme as versões. Muita gente voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 64.
    correu à CasaVerde, e achou o pobre Costa, tran- quilo, um pouco espantado, faltando com muita clareza, e perguntando por que motivo o tinham levado para ali. Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaixão, mas acrescentava que a ciência era a ciência, e que ele não podia deixar na rua um mentecapto. Aúltimapessoaqueintercedeuporele (porque depois do que vou contar ninguém mais se atreveu a procurar o terrível medico) foi uma pobre senhora, prima do Costa. O alienista disse-lhe con- fidencialmente que esse digno homem não estava noperfeitoequilíbriodasfaculdadesmentais,àvista do modo como dissipara os cabedais que... —Isso,não!issonão!interrompeuaboasenhoracom energia. Se ele gastou tão depressa o que recebeu, a culpa não é dele. — Não? — Não, senhor. Eu lhe digo como o negócio se passou. O defunto meu tio não era mau homem; mas quando estavafuriosoeracapazdenemtirarochapéuaoSan- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 65.
    tíssimo. Ora, umdia, pouco tempo antes de morrer, descobriu que um escravo lhe roubara um boi; ima- gine como ficou. A cara era um pimentão; todo ele tremia, a boca escumava; lembra-me como se fosse hoje. Então um homem feio, cabeludo, em mangas de camisa, chegou-se a ele e pediu água. Meu tio (Deus lhe fale n'alma!) respondeu que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para ele, abriu a mão em ar de ameaça, e rogou esta praga:—"Todo o seu di- nheiro não há de durar mais de sete anos e um dia, tão certo como isto ser o sino salomão!” E mostrou o sino salomão impresso no braço. Foi isto, meu se- nhor; foi esta praga daquele maldito. Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhosagudoscomopunhais.Quandoelaacabou,es- tendeu-lhe a mão polidamente, como se o fizesse à própriaesposadovice-rei,econvidou-aairfalarao primo. A mísera acreditou; ele levou-a à Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados. A notícia desta aleivosia do ilustre Bacamarte lançou o terror à alma da população. Ninguém queria acabar de crer, que, sem motivo, sem ini- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 66.
    mizade, o alienistatrancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz. Comentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros; edificou-seumromance,umasfinezasnamoradas que o alienista outrora dirigira à prima do Costa, a indignação do Costa e o desprezo da prima. E daí a vingança. Era claro. Mas a austeridade do alie- nista, a vida de estudos que ele levava, pareciam desmentir uma tal hipótese. Histórias! Tudo isso eranaturalmenteacapadovelhaco.Eumdosmais crédulos chegou a murmurar que sabia de outras coisas, não as dizia, por não ter certeza plena, mas sabia, quase que podia jurar. — Você, que é intimo dele, não nos podia dizer o que há, o que houve, que motivo... Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos atônitos, era para ele uma consagração pública. Não havia duvidar;todaapovoaçãosabiaenfimqueoprivado do alienista era ele, Crispim, o boticário, o colabo- rador do grande homem e das grandes coisas; daí voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 67.
    a corrida àbotica. Tudo isso dizia o carão jucundo e o riso discreto do boticário, o riso e o silêncio, porque ele não respondia nada; um, dois, três monossílabos, quando muito, soltos, secos, en- capados no fiel sorriso, constante e miúdo, cheio de mistérios científicos, que ele não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana. — Há coisa, pensavam os mais desconfiados. Um desses limitou-se a pensá-lo, deu de ombros e foi embora. Tinha negócios pessoais. Acabava de construir uma casa suntuosa. Só a casa bas- tava para deter e chamar toda a gente; mas havia mais,—a mobília, que ele mandara vir da Hungria e da Holanda, segundo contava, e que se podia ver do lado de fora, porque as janelas viviam aber- tas,—eojardim,queeraumaobra-primadeartee de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma casa magnífica, jardim pomposo, mobília rara. Nãodeixouonegóciodasalbardas,masrepousava dele na contemplação da casa nova, a primeira de voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 68.
    Itaguaí, mais grandiosado que a Casa Verde, mais nobre do que a da câmara. Entre a gente ilustre da povoação havia choro e ranger de dentes, quando se pensava, ou se falava, ou se louvava a casa do albardeiro,—um simples albardeiro, Deus do céu! — Lá está ele embasbacado, diziam os transeuntes, de manhã. De manhã, com efeito, era costume do Matheus estatelar-se, no meio do jardim, com os olhos na casa, namorado, durante uma longa hora, até que vinham chamá-lo para almoçar. Os vizinhos, embora o cumprimentassem com certo respeito, riam-seportrazdele,queeraumgosto.Umdesses chegou a dizer que o Matheus seria muito mais econômico, e estaria riquíssimo, se fabricasse as albardas para si mesmo; epigrama ininteligível, mas que fazia rir às bandeiras despregadas. — Agora lá está o Matheus a ser contemplado, di- ziam à tarde. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 69.
    A razão desteoutro dito era que, de tarde, quando as famílias saíam a passeio (jantavam cedo) usava o Matheus postar-se à janela, bem no centro, vis- toso, sobre um fundo escuro, trajado de branco, atitudesenhoril,eassimficavaduasetrêshorasaté que anoitecia de todo. Pode crer-se que a intenção do Matheus era ser admirado e invejado, posto que ele não a confessasse a nenhuma pessoa, nem ao boticário, nem ao padre Lopes, seus grandes amigos. E entretanto não foi outra a alegação do bo- ticário, quando o alienista lhe disse que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele Bacamartedescobriraeestudavadesdealgumtempo. Aquilo de contemplar a casa... — Não, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares. — Não? — Há de perdoar-me, mas talvez não saiba que ele de manhã examina a obra, não a admira; de tarde, são os outros que o admiram a ele e à obra.—E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o cair da noite. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 70.
    Uma volúpia científicaalumiou os olhos de Simão Bacamarte.Ouelenãoconheciatodososcostumes do albardeiro, ou nada mais quis, interrogando o Crispim, do que confirmar alguma notícia incerta ou suspeita vaga. A explicação satisfê-lo; mas como tinha as alegrias próprias de um sábio, con- centradas, nada viu o boticário que fizesse sus- peitar uma intenção sinistra. Ao contrário, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o braço para irem a passeio. Deus! era a primeira vez que Simão Ba- camarte dava ao seu privado tamanha honra; Crispim ficou trêmulo, atarantado, disse que sim, que estava pronto. Chegaram duas ou três pessoas de fora, Crispim mandou-as mentalmente a todos os diabos; não só atrasavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte elegesse alguma delas, paraacompanhá-lo,eodispensasseaele.Queim- paciência! que aflição! Enfim, saíram. O alienista guiou para os lados da casa do albardeiro, viu-o à janela, passou cinco, seis vezes por diante, de- vagar, parando, examinando as atitudes, a ex- pressão do rosto. O pobre Matheus, apenas notou que era objeto da curiosidade ou admiração do primeiro vulto de ltaguaí, redobrou de expressão, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 71.
    deu outro relevoàs atitudes... Triste! triste! não fez mais do que condenar-se; no dia seguinte, foi recolhido à Casa Verde. — A Casa Verde é um cárcere privado, disse um mé- dico sem clínica. Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapida- mente. Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de ltaguaí,—a medo, é verdade, porque durante a semana que se se- guiu à captura do pobre Matheus, vinte e tantas pessoas,—duas ou três de consideração,—foram recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só eram admitidos os casos patológicos, mas pouca gente lhe dava credito. Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio medico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer gérmen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e míngua daquela cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o produto diário da imaginação pública. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 72.
    Nisto chegou doRio de Janeiro a esposa do alie- nista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a maiscomitiva,—ouquasetoda,—quealgumasse- manas antes partira de Itaguaí. O alienista foi re- cebê-la, com o boticário, o padre Lopes, os verea- dores,eváriosoutrosmagistrados.Omomentoem que D. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido é considerado pelos cronistas de tempo como um dos mais sublimes da história moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egrégias. D. Evarista soltou um grito, balbuciou uma palavra, e atirou-se ao con- sorte, de um gesto que não se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não assim o ilustre Bacamarte; frio como um diag- nóstico, sem desengonçar por um instante a ri- gidez científica, estendeu os braços à dona, que caiu neles, e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dons minutos, D. Evarista recebia os cumprimentos dos amigos, e o préstito punha-se em marcha. D. Evarista era a esperança de Itaguaí; contava-se com ela para minorar o flagelo da Casa Verde. Daí as aclamações públicas, a imensa gente que atu- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 73.
    lhava as ruas,as flâmulas, as flores e damascos às janelas.ComobraçoapoiadonodopadreLopes,— porque o eminente Bacamarte confiara a mulher ao vigário, e acompanhava-os a passo meditati- vo,—D.Evaristavoltavaacabeçaaumladoeoutro, curiosa, inquieta, petulante. O vigário indagava do Rio de Janeiro, que ele não vira desde o vice-rei- nado anterior; o D. Evarista respondia, entusias- mada, que era a coisa mais bela que podia haver no mundo. O Passeio Público estava acabado, um pa- raíso, onde ela fora muitas vezes, o a rua das Belas Noites, o chafariz das Marrecas... Ah! o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas,—feitas de metal e despejando água pela boca fora. Uma coisa galantíssima. O vigário dizia que sim, que o Rio de Janeirodeviaestaragoramuitomaisbonito.Sejáo era noutro tempo! Não admira, maior do que Ita- guaí, e de mais a mais sede do governo... Mas não se pode dizer que Itaguaí fosse feio; tinha belas casas, a casa do Matheus, a Casa Verde..., — A propósito de Casa Verde, disso o padre Lopes es- corregando habilmente para o assunto da ocasião, a senhora vem achá-la muito cheia de gente. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 74.
    — Sim? — Éverdade. Lá está o Matheus... — O albardeiro? — O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fu- lano, e Sicrano, e... — Tudo isso doido? — Ou quase doido, obtemperou o padre. — Mas então? O vigário derreou os cantos da boca, à maneira de quem não sabe nada, ou não quer dizer tudo; res- posta vaga, que se não pode repetir a outra pessoa, por falta de texto. D. Evarista achou realmente ex- traordinário que toda aquela gente ensandecesse; um ou outro, vá; mas todos? Entretanto, custa- va-lhe duvidar; o marido era um sábio, não reco- lheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente de loucura. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 75.
    — Sem dúvida...sem dúvida... ia pontuando o vigário. Três horas depois, cerca de cinquenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Simão Baca- marte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assunto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta, metáforas, amplificações, apólogos. Ela era a esposa do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrelas, segundo a versão modesta de Crispim Soares, e dois sóis, no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado, mas sem visível impaciência. Quando muito dizia ao ou- vido da mulher, que a retórica permitia tais ar- rojos sem significação. D. Evarista fazia esforços para aderir a esta opinião do marido; mas, ainda descontandotrêsquartaspartesdaslouvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado polo mais singular dos reptos. “Deus, disse ele, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 76.
    depois de darao universo o homem e a mulher, esse diamante e essa pérola da coroa divina (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa) Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.” D. Evarista baixou os olhos com exemplar mo- déstia. Duas senhoras, achando a cortesanice ex- cessivaeaudaciosa,interrogaramosolhosdodono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pare- ceu-lhesnubladodesuspeitas,deameaças,e,pro- vavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer episódio trágico,— ou que o adiasse, ao menos, para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma delas, a mais piedosa, chegou a admitir, consigo mesma, que D. Evarista nãomerecianenhumadesconfiança,tãolongees- tava de ser atraente ou bonita. Uma simples água- -morna. Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo? E esta ideia fê-la tremer outra vez, embora menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito, e, le- vantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do dis- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 77.
    curso. Não lhenegou que era improviso brilhante, cheio de rasgos magníficos. Seria dele mesmo a ideia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou tê- -la-ia encontrado em algum autor que...? Não, senhor; era dele mesmo; achou-a naquela oca- sião e parecera-lhe adequada a um arroubo ora- tório. De resto, suas ideias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. Uma vez, por exemplo, compôs uma ode à queda do marquês de Pombal, em que dizia que esse mi- nistro era o “dragão aspérrimo do Nada”, esma- gado pelas “garras vingadoras do Todo”; e assim outras, mais ou menos fora do comum; gostava das ideias sublimes e raras, das imagens grandes e nobres... — Pobre moço! pensou o alienista. E continuou con- sigo:—Trata-se de um caso de lesão cerebral; fenô- meno sem gravidade, mas digno de estudo... D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um moço que tinha ideias tão bo- nitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 78.
    do alienista. Nãopodia ser outra coisa; realmente a declaração do moço fora audaciosa demais. Ciúmes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos José Borges do Couto Leme, pessoa estimável, o Chico das Cambraias, fol- gazãoemérito,oescrivãoFabricio,eaindaoutros? O terror acentuou-se. Não se sabia já quem estava são,nemquemestavadoido.Asmulheres,quando os maridos saíam, mandavam acender uma lam- parina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos, alguns não andavam fora sem um ou dois capangas. Positivamente o terror. Quem podia, emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser preso a duzentos passos da vila. Era um rapaz de trinta anos, amável, conversado, polido, tão po- lido que não cumprimentava alguém sem levar o chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distânciadedezavintebraçasparairapertaramão a um homem grave, a uma senhora, às vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fora. Tinha a vocação das cortesias. De resto, devia as boas relações da sociedade, não só aos dotes pes- soais, que eram raros, como à nobre tenacidade voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 79.
    com que nuncadesanimava diante de uma, duas, quatro, seis recusas, caras feias, etc. O que acon- tecia era que, uma vez entrado numa casa, não a deixava mais, nem os da casa o deixavam a ele, tão gracioso era o Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apesardesesaberestimado,tevemedoquandolhe disseram um dia que o alienista o trazia de olho; na madrugada seguinte fugiu da vila, mas foi logo apanhado e conduzido à Casa Verde. — Devemos acabar com isto! — Não pode continuar! — Abaixo a tirania! — Déspota! violento! Golias! Não eram gritos na rua, eram suspiros em casa masnãotardavaahoradosgritos.Oterrorcrescia: avizinhava-se a rebelião. A ideia de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse cap- turado e deportado andou por algumas cabeças, antes que o barbeiro Porfirio a expendesse na loja, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 80.
    com grandes gestosde indignação. Note-se,—e essa é uma das laudas mais puras desta sombria história,—note-sequeoPorfirio,desdequeaCasa Verde começara a povoar-se tão extraordinaria- mente, viu crescerem-lhe os lucros pela aplicação assídua de sanguessugas que dali lhe pediam: mas o interesse particular, dizia ele, deve ceder ao in- teresse público. E acrescentava:—é preciso der- rubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no dia em Simão Bacamarte fi- zera recolher à Casa Verde um homem que trazia com ele uma demanda, o Coelho. —NãomedirãoemqueéqueoCoelhoédoido?bradou o Porfirio. E ninguém lhe respondia; todos repetiam que era um homem perfeitamente ajuizado. A mesma de- manda que ele trazia com o barbeiro, acerca de uns chãos da vila, era filha da obscuridade de um alvará, e não da cobiça ou ódio. Um excelente ca- ráter o Coelho. Os únicos desafeiçoados que tinha eram alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos, ou alegando andar com pressa, mal o viam de as voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 81.
    esquinas, entravam naslojas, etc. Na verdade, ele amava a boa palestra, a palestra comprida, gos- tada a sorvos largos, e assim é que nunca estava só, preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas não desdenhando os outros. O padre Lopes, que cultivava o Dante, e era inimigo do Coelho, nunca o via desligar-se de uma pessoa que não declamasse e emendasse este trecho: La bocca solevò dal fero pasto Quel seccatore... mas uns sabiam do ódio do padre, e outros pen- savam que isto era uma oração em latim. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 82.
    A Rebelião voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 83.
    Cercadetrintapessoasligaram-seaobarbeiro,re- digiram e levaramuma representação à câmara. A câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde era uma instituição pública, e que a ciência não podia ser emendada por votação administra- tiva, menos ainda por movimentos de rua. — Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o con- selho que vos damos. A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da re- belião, e destruir a Casa Verde; que ltaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pes- soas estimáveis, algumas distintas, outras hu- mildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubí- culos da Casa Verde; que o despotismo científico do alienista complicava-se do espírito de ga- nância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça: as famílias, e a câmara, pagavam ao alienista... — É falso, interrompeu o presidente. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 84.
    — Falso? — Hácerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre medico, em que nos declara que, tratando de fazer experiências de alto valor psicológico, desiste do estipêndio votado pela câmara, bem como nada receberá das famílias dos enfermos. A notícia deste ato tão nobre, tão puro, suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em erro, mas nenhum inte- resse alheio à ciência o instigava; e para demons- trar o erro era preciso alguma coisa mais do que arruaças e clamores, isto disse o presidente, com aplausodetodaacâmara.Obarbeiro,depoisdeal- guns instantes de concentração, declarou que es- tava investido de um mandato público, e não res- tituiria a paz a Itaguaí antes de ver por terra a Casa Verde,—"essa Bastilha da razão humana”,—ex- pressão que ouvira a um poeta local, e que ele re- petiu com muita ênfase. Disse, e a um sinal todos saíram com ele. Imagine-se a situação dos vereadores; urgia voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 85.
    obstar ao ajuntamento,à rebelião, à luta, ao sangue. Para acrescentar ao mal, um dos vere- adores, que apoiara o presidente, ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro à Casa Ver- de—"Bastilha da razão humana”,—achou-a tão elegante, que mudou de parecer. Disse que en- tendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente, in- dignado, manifestasse em temos enérgicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexão: — Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista? Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra, e falou ainda por algum tempo com prudência, mas com firmeza. Os colegas es- tavam atônitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, desse o exemplo da ordem e do respeito à lei, não aventasse as suas ideias na rua, para não dar corpo e alma à rebelião, que era por ora um turbilhãodeátomosdispersos.Estafiguracorrigiu voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 86.
    um pouco aefeito da outra: Sebastião Freitas pro- meteu suspender qualquer ação, reservando-se o direito de pedir pelos meios legais a redução da Casa Verde. E repetia consigo, namorado:—Bas- tilha da razão humana! Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o bar- beiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ela deu o nome à revolta; chamavam-lhe o Canjica,—e o movimento ficou celebre com o nome de revolta dos Canjicas. A ação podia ser restrita,—visto que muita gente, ou por medo, ou por hábitos de educação, não descia à rua; mas o sentimento era unânime, ou quase unânime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde,— dada a diferença de Paris a Itaguaí,—podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha. D. Evarista teve notícia da rebelião antes que ela chegasse; veio dar-lha uma de suas crias. Ela pro- vava nessa ocasião um vestido de seda,—um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,—e não quis crer. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 87.
    — Há deser alguma patuscada, dizia ela mudando a posição de um alfinete. Benedita, vê se a barra está boa. — Está, sinhá, respondia a mucama de cócaras no chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim, Está muito boa. — Não é patuscada, não, senhora; eles estão gri- tando:—Morra o Dr. Bacamarte! o tirano! dizia o mo- leque assustado. — Cala a boca, tolo! Benedicta, olha aí do lado es- querdo; não parece que a costura está um pouco en- viesada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descoser para ficar igualzinho e... — Morra o Dr. Bacamarte! morra o tirano! uivaram fora trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava na rua Nova. D.Evaristaficousempingadesangue.Noprimeiro instante não deu um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama correu instintiva- mente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 88.
    a quem D.Evarista. não dera crédito, teve um ins- tante de triunfo, um certo movimento súbito, im- perceptível, entranhado, de satisfação moral, ao ver que a realidade vinha jurar por ele. — Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto. D. Evarista, se não resistia facilmente às como- ções de prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu à sala interior onde o marido estudava. Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre médico escrutava um texto de Averrois, os olhos dele, empanados pela cogi- tação, subiam do livro ao teto e baixavam do teto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que ele lhe desse atenção; à terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha, se estava doente. — Você não ouve estes gritos? perguntou a digna es- posa em lágrimas. O alienista atendeu então; os gritos aproxima- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 89.
    vam-se,terríveis,ameaçadores;elecompreendeu tudo. Levantou-se dacadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranquilo, foi depositá-lo na estante. Como a in- trodução do volume desconcertasse um pouco a linha dos dois tomos contíguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito mínimo, e, aliás, interessante. Depois disse à mulher que se reco- lhesse, que não fizesse nada. —Não,não,imploravaadignasenhora,queromorrer ao lado de você... SimãoBacamarteteimouquenão,quenãoeracaso de morte; e ainda que o fosse, intimava-lhe em nome da vida que ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e chorosa. — Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas. O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou ali no momento em que a rebelião também chegava e parava, defronte, com as suas trezentas cabeçasrutilantesdecivismoesombriasdedeses- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 90.
    pero.—Morra!morra!bradaramdetodososlados, apenas o vultodo alienista assomou na varanda. Simão Bacamarte fez um sinal pedindo para falar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação. Então, o barbeiro agitando o chapéu, afimdeimporsilencioàturba,conseguiuaquietar os amigos, e declarou ao alienista que podia falar, mas acrescentou que não abusasse da paciência, do povo como fizera até então. — Direi pouco, ou até não direi nada, se for preciso. Desejo saber primeiro o que pedis. — Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos que a Casa Verde seja demolida ou pelo menos despojada dos infelizes que lá estão. — Não entendo. — Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade às vítimas do vosso ódio, capricho, ganância... O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homemnãoeracoisavisívelaosolhosdamultidão; voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 91.
    era uma contraçãoleve de dois ou três músculos, nada mais. Sorriu e respondeu: — Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver co- migo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos mão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes. Disseistooalienista,eamultidãoficouatônita;era claroquenãoesperavatantaenergiaemenosainda tamanha serenidade. Mas o assombro cresceu de ponto quando o alienista, cortejando a multidão com muita gravidade, deu-lhe as costas e reti- rou-se lentamente para dentro. O barbeiro tornou logoasi,e,agitandoochapéu,convidouosamigos à demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe responderam. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 92.
    do governo; pareceu-lheentão que, demolindo a Casa Verde, e derrocando a influência do alie- nista, chegaria a apoderar-se da câmara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí. Desde alguns anos que ele forcejava por ver o seu nome incluído nos pelouros para o sor- teio dos vereadores, mas era recusado por não ter uma posição compatível com tão grande cargo. A ocasião era agora ou nunca. Demais fora tão longe na arruaça, que a derrota seria a prisão, ou talvez a forca, ou o degredo. Infelizmente, a resposta do alienista diminuíra o furor dos sequazes. O bar- beiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de indignação, e quiz bradar-lhes:—Canalha! co- vardes!—mas conteve-se, e rompeu deste modo: — Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de ltaguaí está nas vossas mãos dignas e heroicas. Des- truamos o cárcere de vossos filhos e pais, de vossas mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de vós mesmos. Ou morrereis a pão e água, talvez a chicote, na masmorra daquele indigno. A multidão agitou-se, murmurou, bradou, ame- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 93.
    açou,congregou-setodaemderredordobarbeiro. Era a revoltaque tomava a si da ligeira síncope, e ameaçava arrasar a Casa Verde. — Vamos! bradou Porfirio agitando o chapéu. — Vamos! repetiram todos. Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche, entrava na rua Nova. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 94.
    O Inesperado voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 95.
    Chegados os dragõesem frente aos Canjicas, houve um instante de estupefacção; os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse man- dada contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão in- timou à multidão que se dispersasse; mas, con- quanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados: — Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos ca- dáveres, podeis tomá-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos di- reitos, e com eles a salvação da Itaguaí. Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso deconfiançanaabstençãodasarmasporpartedos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível. A multidão urrou furiosa; al- guns, trepando às janelas das casas, ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 96.
    ficou, bufando decólera, indignada, animada pela exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas es- tava iminente, quando um terço dos dragões,— qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram,—passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não ti- veram coragem de atacar os seus próprios cama- radas, e, um a um, foram passando para eles, de modo que ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado, com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve re- médio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro. A revolução triunfante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos às casas próximas, e guiou para a câmara. Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao “ilustre Porfirio”. Este ia na frente, empunhando tão des- tramente a espada, como se ela fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A vitória cin- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 97.
    gia-lhe a frontede um nimbo misterioso. A digni- dade de governo começava a enrijar-lhe os quadris. Os vereadores, às janelas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a tropa capturara a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma pe- tição ao vice-rei para que mandasse dar um mês de soldo aos dragões, “cujo denodo salvou Ita- guaí do abismo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes”. Esta frase foi proposta por Sebas- tião Freitas, o vereador dissidente, cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os colegas. Mas bem depressa a ilusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar- -lhes notícia da triste realidade. O presidente não desanimou:—Qualquerquesejaanossasorte,disse ele, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua Majestade e do povo.—Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia servir à coroa e à vila saindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fora, mas toda a câmara rejeitou esse alvitre. Daí a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança, e in- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 98.
    timava à câmaraa sua queda. A câmara não re- sistiu, entregou-se, e foi dali para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propuseram-lhe que assu- misse o governo da vila, em nome de Sua Majes- tade. Porfirio aceitou o encargo, embora não des- conhecesse (acrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que eles prontamente anuíram. O barbeiro veio à janela, e comunicou ao povo essas resoluções, quo o povo ratificou, acla- mando o barbeiro. Este tomou a denominação de—"Protetor da vila em nome de Sua Majes- tade e do povo.” —Expediram-se logo várias ordens importantes, comunicações oficiais do novo governo, uma exposição minuciosa ao vi- ce-rei, com muitos protestos de obediência às ordens de Sua Majestade; finalmente, uma pro- clamação ao povo, curta, mas enérgica: “Itaguaienses! Umacâmaracorruptaeviolentaconspiravacontra os interesses de Sua Majestade e do povo. A opi- nião pública tinha-a condenado; um punhado de voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 99.
    cidadãos, fortemente apoiadospelos bravos dra- gões de Sua Majestade, acaba de a dissolver igno- miniosamente, e por unânime consenso da vila, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguaienses! não vos peço se não que me rodeeis de confiança, que me auxi- lieis em restaurar a paz e a fazenda publica, tão desbaratada pela câmara que ora findou às vossas mãos. Contai com o meu sacrifício, e ficai certos de que a coroa será por nós. O Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo Porfirio Caetano das Neves.” Toda a gente advertiu no absoluto silencio desta proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indício dos pro- jetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre elas duas senhoras, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 100.
    sendo um doshomens aparentado com o Protetor. Não era um repto, um ato intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira, e a vila respirou com a esperança de que o alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros, e destruído o ter- rível cárcere. O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e ju- rava morrer em defesa do ilustre Porfirio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro fez expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou nego- ciações com o vigário para a celebração de um Te- -Deum, tão conveniente era aos olhos dele a con- junção do poder temporal com o espiritual; mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso. — Em todo caso, Vossa Reverendíssima não se alis- tará entre os inimigos do governo? disse-lhe o bar- beiro dando à fisionomia um aspecto tenebroso. Ao que o padre Lopes respondeu, sem responder: voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 101.
    —Comoalistar-me,seonovogovernonãoteminimigos? O barbeiro sorriu;era a pura verdade. Salvo o ca- pitão, os vereadores e os principais da vila, toda a gente o aclamava. Os mesmos principais, se o não aclamavam, não tinham saído contra ele. Ne- nhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as famílias abençoavam o nome daquelequeiaenfimlibertarItaguaídaCasaVerde e do terrível Simão Bacamarte. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 102.
    As Angústias Do Boticário voltarpara o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 103.
    Vinte e quatrohoras depois dos sucessos nar- rados no capítulo anterior, o barbeiro saiu do pa- lácio do governo—foi a denominação dada à casa da câmara—, com dois ajudantes de ordens, e di- rigiu-se à residência de Simão Bacamarte. Não ignorava ele que era mais decoroso ao governo mandá-lo chamar; o receio, porém, de que o alie- nista não obedecesse, obrigou-o a parecer tole- rante e moderado. Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer que o barbeiro ia à casa do alienista.—Vai pren- dê-lo, pensou ele. E redobraram-lhe as angús- tias. Com efeito, a tortura moral do boticário na- queles dias de revolução excede a toda a descrição possível. Nunca um homem se achou em mais apertado lance:—a privança do alienista chama- va-o ao lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro. Já a simples notícia da sublevação ti- nha-lhe sacudido fortemente a alma, porque ele sabia a unanimidade do ódio ao alienista; mas a vitória final foi também o golpe final. A esposa, senhora máscula, amiga particular de D. Evarista, dizia que o lugar dele era ao lado de Simão Ba- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 104.
    camarte; ao passoque o coração lhe bradava que não, que a causa do alienista estava perdida, e que ninguém,poratopróprio,seamarraaumcadáver. Fê-lo Catão, é verdade, sed victa Catoni, pensava ele, relembrando algumas palestras habituais do padre Lopes; mas Catão não se atou a uma causa vencida, ele era a própria causa vencida, a causa da república; o seu ato, portanto, foi de egoísta, de um miserável egoísta; minha situação é outra. Insistindo, porém, a mulher, não achou Crispim Soares outra saída em tal crise senão adoecer; de- clarou-se doente, e meteu-se na cama. — Lá vai o Porfirio à casa do Dr. Bacamarte, disse- -lhe a mulher no dia seguinte à cabeceira da cama; vai acompanhado de gente. —Vai prendê-lo, pensou o boticário. Uma ideia traz outra; o boticário imaginou que, uma vez preso o alienista, viriam também bus- cá-lo a ele, na qualidade de cúmplice. Esta ideia foi o melhor dos visicatórios. Crispim Soares er- gueu-se,dissequeestavabom,queiasair;eapesar voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 105.
    de todos osesforços e protestos da consorte, ves- tiu-seesaiu.Osvelhoscronistassãounanimesem dizer que a certeza de que o marido ia colocar-se nobrementeaoladodoalienistaconsolougrande- mente a esposa do boticário; e notam, com muita perspicácia, o imenso poder moral de uma ilusão; porquanto, o boticário caminhou resolutamente ao palácio do governo, não à casa do alienista. Ali chegando,mostrou-seadmiradodenãoverobar- beiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adesão, não o tendo feito desde a véspera por en- fermo. E tossia com algum custo. Os altos funcio- nários que lhe ouviam esta declaração, sabedores da intimidade do boticário com o alienista, com- preenderam toda a importância da adesão nova, e trataram a Crispim Soares com apurado carinho; afirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua Senhoria tinha ido à Casa Verde, a negócio im- portante, mas não tardava. Deram-lhe cadeira, refrescos, elogios; disseram-lhe que a causa do ilustre Porfirio era a de todos os patriotas; ao que o boticário ia repetindo que sim, que nunca pen- sara outra coisa, que isso mesmo mandaria de- clarar Sua Majestade. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 106.
    Dois Lindos Casos voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 107.
    Não se demorouo alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a obedecer. Só uma coisa pedia, é que o não constrangesse a assistir pesso- almente à destruição da Casa Verde. — Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro de- pois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao go- verno intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali me- tidos estão era seu perfeito juízo, mas o governo re- conhece que a questão é puramente científica, e não cogita em resolver com posturas as questões cientí- ficas. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da câmara dissolvida. Há, entretanto,—por força que há de haver um alvitre in- termédio que restitua o sossego ao espírito público. O alienista mal podia dissimular o assombro; con- fessou que esperava outra coisa, o arrasamento do hospício, a prisão dele, o desterro, tudo, menos... — O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não atender à grave responsabi- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 108.
    lidade do governo.O povo, tomado de uma cega pie- dade, que lhe dá em tal caso legítima indignação, pode exigir do governo certa ordem de atos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa si- tuação. A generosa revolução que ontem derrubou uma câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode en- trar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não; é matéria de ciência. Logo, em assunto tão me- lindroso, o governo não pode, não deve, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satis- fação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obe- decer. Um dos alvitres aceitáveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retinir da Casa Verde aqueles enfermos que estiverem quase curados, e bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerância e benignidade. — Quantos mortos e feridos houve ontem no con- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 109.
    flito? perguntou SimãoBacamarte, depois de uns três minutos. O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas res- pondeulogoqueonzemortosevinteecincoferidos. — Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou três vezes o alienista. Eemseguidadeclarouqueoalvitrelhenãoparecia bom, mas que ele ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe várias perguntas acerca dos sucessos da véspera, ataque, defesa, adesão dos dragões, resistência da câ- mara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundância, insistindo principalmente no descrédito em que a câmara caíra. O barbeiro con- fessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O governo, con- cluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a simpatia, senão com a benevolência do mais alto espírito de Itaguaí, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 110.
    fisionomia daquele grandehomem, que ouvia ca- lado, sem desvanecimento, nem modéstia, mas impassível como um deus de pedra. — Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alie- nista, depois de acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. Os sin- tomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram nãoéprecisooutraprovaalémdosonzemortosevinte e cinco feridos.—Dois lindos casos! — Viva o ilustre Porfirio! bradaram umas trinta pes- soas que aguardavam o barbeiro à porta. O alienista espiou pela janela, e ainda ouviu este resto de uma pequena fala do barbeiro às trinta pessoas que o aclamavam. — ... porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recomendo ordem. A ordem, meus amigos, é a base do governo... voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 111.
    — Viva oilustre Porfirio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéus. — Dois lindos casos! murmurou o alienista. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 112.
    A Restauração voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 113.
    Dentro de cincodias, o alienista meteu na Casa Verdecercadecinquentaaclamadoresdonovogo- verno.Opovoindignou-se.Ogoverno,atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfirio estava “ven- dido ao ouro de Simão Bacamarte,” frase que con- gregouemtornodeJoãoPinaagentemaisresoluta da vila. Porfirio, vendo o antigo rival da navalha à testadainsurreição,compreendeuqueasuaperda era irremediável, se não desse um grande golpe; expediu dois decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes frases, que o ato de Por- firio era um simples aparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois caía Por- firio ignominiosamente, e João Pina assumia a di- fícil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice- -rei e de outros atos inaugurais do governo ante- rior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se, que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro bar- beiro falara de uma câmara corrupta, falou este de “um intruso eivado das más doutrinas fran- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 114.
    cesas, e contrárioaos sacrossantos interesses de Sua Majestade, etc.” Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vi- ce-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfirio, e bem assim a de uns cinquenta e tantos indivíduos, que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses, comoafiançaramentregar-lhemaisdezenovese- quazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na primeira rebelião. Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quiz, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico acha- mo-la na prontidão com que os vereadores, resti- tuídos a seus lugares, consentiram em que Sebas- tião Freitas também fosse recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da extraordinária inconsis- tência das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso patológico, e pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticário. O alienista, desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim So- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 115.
    ares à rebeliãodos Canjicas, comparou-a à apro- vação que sempre recebera dele, ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro ato seu, acrescentando que voltara logo à cama, do- ente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados. Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a câmara lhe entregou o próprio presidente. Este digno magis- trado tinha declarado em plena sessão, que não se contentava, para lavá-lo da afronta dos Can- jicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da câmara, entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretario na Casa Verde, e foi dali à câ- mara, à qual declarou que o presidente estava pa- decendo da “demência dos touros”, um gênero voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 116.
    que ele pretendiaestudar, com grande vantagem para os povos. A câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo. Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de cha- radas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, nin- guém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as na- moradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural, e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Al- guns cronistas creem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da câmara uma postura autori- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 117.
    zando o usode um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nasveiasduasoutrêsonçasdesanguegodo.Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à câmara foi enriquecer um ourives, amigo e com- padredele;mas,conquantosejacertoqueoourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fimdoilustremédico.Quanto à razão determina- tiva da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesti- culam muito. Em todo caso é uma simples con- jectura; de positivo nada há. — Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Canjicas... voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 118.
    Um dia demanhã,—dia em que a câmara devia dar um grande baile,—a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. O padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato. — Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gra- vemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos; se eu lhe falava das antigas cortes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava, na minha au- sência, antes de me dizer o objeto da visita, descre- via-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendíssima há de lembrar-se, propôs-se a fazer anualmente um ves- tidoparaaimagemdeNossaSenhoradamatriz.Tudo isto eram sintomas graves; esta noite, porém, decla- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 119.
    rou-se a totaldemência. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuário que levaria ao baile da câmara municipal; só hesitava entre um colar de granada e outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Ontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois de jantar fui achá-la calada e pensativa.—Que tem? perguntei-lhe.—Querialevarocolardegranada,mas acho o de safira tão bonito!—Pois leve o de safira.— Ah! mas onde fica o de granada?—Enfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, acordo e não a vejo; levan- to-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demência; recolhi-a logo. O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objetou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de “mania suntuária,” não incurável, e em todo caso digno de estudo. — Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 120.
    A abnegação doilustre médico deu-lhe grande re- alce. Conjecturas, invenções, desconfianças, tudo caiu por terra, desde que ele não duvidou reco- lher à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe,—menos ainda o de atri- buir-lhe intuitos alheios à ciência. Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 121.
    O Assombro de Itaguaí voltarpara o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 122.
    E agora prepare-seo leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua. — Todos? — Todos. — É impossível; alguns, sim, mas todos... — Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à câmara. Defato,oalienistaoficiaraàcâmaraexpondo:—1°, que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2°, que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias ce- rebrais, teoria que excluía do domínio da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3°, que desse exame e do fato estatístico resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 123.
    a oposta, eportanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4°, que à vista disso, declarava à câmara que ia dar liber- dade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5°, que tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a na- tureza, esperando da câmara igual dedicação; 6°, que restituía à câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com aalimentação,roupa,etc.;oqueacâmaramandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde. O assombro de Itaguaí for grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jan- tares, danças, luminárias, músicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não des- crevoasfestaspornãointeressaremaonossopro- pósito; mas foram esplêndidas, tocantes e pro- longadas. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 124.
    E vão assimas coisas humanas! No meio do re- gozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém advertia na frase final do § 4°, uma frase cheia de experiências futuras. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 125.
    O Final do§ 4° voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 126.
    Apagaram-seasluminárias,reconstituíram-seas famílias, tudo pareciareposto nos antigos eixos. Reinava a ordem, a câmara exercia outra vez o go- verno, sem nenhuma pressão externa; o próprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus lugares. O barbeiro Porfirio, ensinado pelos acon- tecimentos, tendo “provado tudo”, como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferível a glória obscura da navalha e da tesoura às calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da vila im- plorouaclemênciadeSuaMajestade;daíoperdão. João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio:—ladrão que furta a ladrão, tem cem anos de perdão;— adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil. Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os reclusos da CasaVerde,desdequeeleosdeclararaplenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo re- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 127.
    conhecimento e férvidoentusiasmo. Muitos en- tenderam que o alienista merecia uma especial manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as crô- nicas que D. Evarista a princípio tivera ideia de se- parar-se do consorte, mas a dor de perder a com- panhia de tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor-próprio, e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes. Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário. Este concluiu do ofício de Simão Ba- camarte que a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução, e apreciou muito a mag- nanimidade do alienista que, ao dar-lhe a liber- dade, estendeu-lhe a mão de amigo velho. — É um grande homem, disse ele à mulher, referindo aquela circunstância. Não é preciso falar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim Brito e outros, especialmente nomeados neste escrito; basta dizer que puderam exercer livremente os seus hábitos anteriores. O voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 128.
    próprio Martim Brito,recluso por um discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora outroemhonradoinsignemedico—"cujoaltíssimo gênio, elevando as azas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra.” — Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alie- nista, e ainda me não arrependo de o haver restituído à liberdade. Entretanto, a câmara, que respondera ao ofício de Simão Bacamarte, com a ressalva de que opor- tunamente estatuiria em relação ao final do § 4°, tratouenfimdelegislarsobreele.Foiadotada,sem debate,umaposturaautorizandooalienistaaaga- salhar na Casa Verde as pessoas que se achassem nogozodoperfeitoequilíbriodasfaculdadesmen- tais. E porque a experiência da câmara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ela a cláusula, de que a au- torização era provisória, limitada a um ano, para o fim de ser experimentada a nova teoria psico- lógica, podendo a câmara, antes mesmo daquele prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública. O ve- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 129.
    reador Freitas propôstambém a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos alienados: cláusula que foi aceita, vo- tada o incluída na postura, apesar das reclama- ções do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a câmara, legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das consequências da lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira estas duras palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audácia e insensatez do co- lega; este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a exceção. — A vereança, concluiu ele, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espírito humano. Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. Quanto à exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde; a cláusula, porém, era a melhor prova de que eles não pade- ciamdoperfeitoequilíbriodasfaculdadesmentais. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 130.
    acerto na objecçãofeita, e cuja moderação na res- posta dada às invectivas dos colegas mostravam da parte dele um cérebro bem organizado; pelo que, rogava à câmara que lho entregasse. A câ- mara, sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou o pedido do alienista, e votou unanimemente a entrega. Compreende-seque,pelateorianova,nãobastava um fato ou um dito, para recolher alguém à Casa Verde; era preciso um longo exame, um vasto in- quérito do passado e do presente. O padre Lopes, por exemplo, só foi capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticário quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de in- dignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera, e declarando às pessoas a quem encon- trava que ia arrancar as orelhas ao tirano. Um su- jeito, adversário do alienista, ouvindo na rua essa notícia, esqueceu os motivos de dissidência, e correu à casa de Simão Bacamarte a participar- -lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mos- trou-se grato ao procedimento do adversário, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a re- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 131.
    tidão dos seussentimentos, a boa-fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o à Casa Verde. — Um caso destes é raro, disse ele à mulher pasmada. Agora esperemos o nosso Crispim. Crispim Soares entrou. A dor vencera a raiva, o bo- ticário não arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado, assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examiná-la com muita atenção; mas antes disso não podia deixá-la na rua. E pare- cendo-lhe vantajoso reuni-los, porque a astúcia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte: — O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará, com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos. A proposta colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 132.
    mas temia voltarà Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da difi- culdade, prometendo que se incumbiria de ver a amiga e transmitir os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este último rasgo do egoísmo pusilânime pareceu sublime ao alienista. Aocabodecincomesesestavamalojadasumasde- zoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrou- xava; ia de rua em rua, de casa em casa, esprei- tando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo, levava-o com a mesma alegria com queoutroraosarrebanhavaàsdúzias.Essamesma desproporção confirmava a teoria nova; acha- ra-se enfim a verdadeira patologia cerebral. Um dia, conseguiu meter na Casa Verde o juiz de fora; mas procedia com tanto escrúpulo, que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus atos, e interrogar os principais da vila. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas per- feitamente desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em quem reconheceu um tal con- junto de qualidades morais e mentais, que era pe- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 133.
    rigoso deixá-lo narua. Mandou prendê-lo; mas o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiência; foi ter com um compadre, deman- dado por um testamento falso, e deu-lhe de con- selho que tomasse por advogado o Salustiano; era o nome da pessoa em questão. — Então, parece-lhe...? — Sem dúvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual for, e confie-lhe a causa. O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificadootestamento,eacaboupedindoquelhe tomasse a causa. Não se negou o advogado, es- tudou os papéis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que o testamento era mais que ver- dadeiro. A inocência do réu foi solenemente pro- clamadapelojuiz,eaherançapassou-lheàsmãos. O distinto jurisconsulto deveu a esta experiência a liberdade. Mas nada escapa a um espírito original e penetrante. Simão Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciência, a moderação daquele agente, reconheceu a habili- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 134.
    dade e otino com que ele levara a cabo uma ex- periência tão melindrosa e complicada, e deter- minou recolhê-lo imediatamente à Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos melhores cubículos. Os alienados foram alojados por classes. Fez-se umagaleriademodestos,istoé,osloucosemquem predominava esta perfeição moral; outra de to- lerantes, outra de verídicos, outra de símplices, outra de leais, outra de magnânimos, outra de sa- gazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente, as fa- mílias e os amigos dos reclusos bradavam contra a teoria; e alguns tentaram compelir a câmara a cassar a licença. A câmara, porém, não esquecera alinguagemdovereadorGalvão,esecassasseali- cença, vê-lo-ia na rua, e restituído ao lugar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte oficiou aos vere- adores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse ato de vingança pessoal. Desenganados da legalidade, alguns principais da vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfirio e afiançaram-lhe todo o apoio de gente, dinheiro e influência na corte, se ele se pusesse à testa de voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 135.
    outro movimento contraa câmara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que ele se emendara, reconhecendo o erro próprio eapoucaconsistênciadaopiniãodosseusmesmos sequazes;queacâmaraentenderaautorizaranova experiência do alienista, por um ano: cumpria, ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma câmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia o emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e fe- rimentos que seriam o seu eterno remorso. — O que é que me está dizendo? perguntou o alie- nista quando um agente secreto lhe contou a conver- sação do barbeiro com os principais da vila. Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde.—Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz. Chegou o fim do prazo, a câmara autorizou um prazo suplementar de seis meses para ensaio dos meios terapêuticos. O desfecho deste episódio da voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 136.
    crônica Itaguaiense, éde tal ordem, e tão inespe- rado, que merecia nada menos de dez capítulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais belos exem- plos de convicção científica e abnegação humana. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 137.
    Plus Ultra! voltar parao índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 138.
    Era a vezda terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que prin- cipiou a tratá-los. Neste ponto todos os cro- nistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí. Com efeito, era difícil imaginar mais racional sis- tema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predomi- nante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas,—gradu- ava-as, conforme o estado, a idade, o tempera- mento, a posição social do enfermo. Às vezes bas- tava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado: em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções hono- ríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 139.
    da cura, quandoteve ideia de mandar correr ma- traca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Píndaro. — Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio. Outrodoente,tambémmodesto,opôsamesmare- beldia à medicação; mas não sendo escritor, (mal sabia assignar o nome) não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Simão Bacamarte lem- brou-se de pedir para ele o lugar de secretário de AcademiadosEncobertosestabelecidaemItaguaí. Os lugares de presidente e secretários eram de no- meação régia, por especial graça do finado rei D. João V, e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas representando o alienista que o não pedia como prêmio hono- rífico ou distinção legítima, e somente como um meio terapêutico para um caso difícil, o governo cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim não o fez sem extraordinário esforço do ministro de marinha e ultramar, que vinha a ser primo do voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 140.
    alienado. Foi outrosanto remédio. — Realmente, é admirável! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes. Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada be- leza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, aplicando à tera- pêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir. No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde;todoscurados!OvereadorGalvãotãocruel- menteafligidodemoderaçãoeequidade,teveafe- licidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 141.
    simples vis medicatrixda natureza. Não acon- teceuomesmocomopadreLopes.Sabendooalie- nista que ele ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma análise crítica da versão dos Setenta; o padre aceitou a incum- bência, e em boa hora o fez; ao cabo de dois meses possuía um livro e a liberdade. Quanto à senhora do boticário, não ficou muito tempo na célula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos. — Porque é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ela todos os dias. Respondiam-lhe ora uma coisa, ora outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona, não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões da cólera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas: —Tratante!...velhaco!...ingrato!...Umpatifequetem feitocasasàcustadeunguentosfalsificadosepodres... Ah! tratante!... Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 142.
    fosseverdadeiraaacusaçãocontidanestaspalavras, bastavamelasparamostrarqueaexcelentesenhora estavaenfimrestituídaaoperfeitodesequilíbriodas faculdades; e prontamentelhe deu alta. Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mos- trais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bas- tava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; nãoocontentavaterestabelecidoemItaguaíorei- nado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado,cogitativo;algumacoisalhediziaque a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novís- sima teoria. — Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade. Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ul- tramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Uni- voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 143.
    versidade) envolvia ocorpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas da ciência. Os pés, não delgados e fe- mininos, não graúdos e mariolas, mas proporcio- nados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença:—só se lhe no- tava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da mo- deração e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio. Eraassimqueeleia,ograndealienista,deumcaboa outro da vasta biblioteca, metido em si mesmo, es- tranho a todas as coisas que não fosse o tenebroso problema da patologia cerebral. Súbito, parou. Em pé, diante de uma janela, com o cotovelo esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou ele a si: —Masdeverasestariamelesdoidos,eforamcurados pormim,—ouoquepareceucura,nãofoimaisdoque a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 144.
    E cavando poraí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele aca- bava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa exis- tiam no estado latente, mas existiam. Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes tra- balhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade:—não havia loucos em Itaguaí; Ita- guaí não possuía um só mentecapto. Mas tão de- pressa esta ideia lhe refrescara a alma, outra apa- receu que neutralizou o primeiro efeito; foi a ideia dadúvida.Poisque!Itaguaínãopossuiriaumúnico cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica? A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 145.
    pelos cronistas Itaguaiensescomo uma das mais medonhas tempestades morais que tem desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão. Vinte minutos depois alumiou-se a fi- sionomia do alienista de uma suave claridade. — Sim, há de ser isso, pensou ele. Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os carac- terísticos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhequepossuíaasagacidade,apaciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão;massendohomemprudente,resolveucon- vocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa. — Nenhum defeito? — Nenhum, disse em coro a assembleia. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 146.
    — Nenhum vicio? —Nada. — Tudo perfeito? — Tudo. — Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade. A assembleia insistiu; o alienista resistiu; final- mente o padre Lopes explicou tudo com este con- ceito digno de um observador. — Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qua- lidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem aindaumaqualidadequerealçaasoutras:—amodéstia. Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 147.
    que triste. Atocontínuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que fi- casse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o deti- veram um só instante. A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. — Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lagrimas. Mas o ilustre medico, com os olhos acesos da con- vicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessetemeses,nomesmoestadoemqueentrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao pontodeconjecturarquenuncahouveoutrolouco, além dele, em ltaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista ex- pirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 148.
    com tanto fogorealçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade. voltar para o índice O Alienista M A C H A D O D E A S S I S
  • 149.
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