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Tiragem: 8000                    Pág: 12

                                                                                                                     País: Portugal                   Cores: Cor

                                                                                                                     Period.: Diária                  Área: 27,16 x 34,56 cm²

    ID: 44904051                                          24-11-2012                                                 Âmbito: Regional                 Corte: 1 de 4

                                  DA ACÇÃO SOCIAL ESCOLAR À EMERGÊNCIA SOCIAL
                                  Armando Maria da Cunha Osório Araújo preside, desde Junho de 2011,




       En
                                  à delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa.
                                  Entre 1975 e 2003, o convidado do programa ‘Primeiro Plano’, da Rádio Antena
                                  Minho - Correio do Minho, exerceu o cargo de administrador dos Serviços de Acção
                                  Social da Universidade do Minho. A sua ligação à academia ficou selada com a
                                  atribuição de sócio honorário de quase todos os grupos culturais de estudantes.
                                  Um auditório da sede da Associação Académica tem o seu nome.
                                  Armando Osório teve, num passado já um pouco distante, um incursão pela vida
                                  política. De 1985 a 1990, exerceu funções de vereador na Câmara Municipal de
                                  Braga, eleito pelo PSD.



ARMANDO OSÓRIO                                                                                                                    ENTREVISTA                                CVP




Só quem for cego é
                                                                                                                                                      respeitar as pessoas que não querem ser
                                                                                                                                                      institucionalizadas.

                                                                                                                                                        P - Mas as valências que existem em
                                                                                                                                                      Braga respondem às necessidades dos
                                                                                                                                                      ‘sem abrigo’?




que não vê a fome
                                                                                                                                                        R - Quando detectamos pessoas com ne-
                                                                                                                                                      cessidades de alojamento, mesmo com o
                                                                                                                                                      nosso CAT cheio, há possibilidade de
                                                                                                                                                      serem acolhidas em pensões com o apoio
                                                                                                                                                      da Segurança Social.

                                                                                                                                                       P - Ao CAT que a CVP tem a fun-
A emergência social é a missão central da Cruz Vermelha Portuguesa, considera o                                                                       cionar em Nogueira está associada uma
presidente da delegação de Braga. Em entrevista, Armando Osório aponta poupança                                                                       horta biológica, um projecto apoiado
                                                                                                                                                      pela Fundação EDP.
de 30% nas despesas correntes da instituição, fruto do rigor imposto na gestão da                                                                      R - Essa horta é feita com o trabalho dos
                                                                                                                                                      próprios utentes do CAT.
instituição.
                                                                                                                                                        P - É uma forma de socializar essas
                                                                                                                                                      pessoas, de lhe criar competências?
                                                                                                                                                        R - E também auto-estima. Mais recen-
                                                                                                                                                      temente, estabelecemos uma parceria
                                                                                                                                                      com o Projecto Homem, que tem insta-
                                                                                                                                                      lações próximas das nossas, para o acom-
                                                                                                                                                      panhamento dos nossos utentes por técni-
                                                                                                                                                      cos ligados à problemática da toxico-
                                                                                                                                                      dependência.

                                                                                                                                                       P - A horta biológica já está a pro-
                                                                                                                                                      duzir?
                                                                                                                                                       R - Sim. Temos uma parceria com a As-
                                                                                                                                                      sociação das Terras Altas do Homem, Cá-
                                                                                                                                                      vado e Ave (ATAHCA) para um centro do
                                                                                                                                                      projecto ‘PROVE - Promover e Vender’
                                                                                                                                                      na nossa creche, onde temos já 80 con-
                                                                                                                                                      sumidores. Os utentes do CAT fazem as
                                                                                                                                                      cestas com produtos agrícolas que são
                                                                                                                                                      distribuídas à sexta-feira. Temos também
                                                                                                                                                      a funcionar no CAT um serviço de la-
                                                                                                                                                      vagem de automóveis.

                                                                                                                                                        P - Têm necessidade de aumentar a
                                                                                                                                                      capacidade de alojamento do CAT?
                                                                                                                                                        R - Em colaboração com a Câmara,
                                                                                                                                                      temos um apartamento para residências
                                                                                                                                                      partilhadas e vamos ter mais dois.

                                                                                                                                                       P - A delegação de Braga foi pioneira,
                                                                                                                                        ROSA SANTOS
                                                                                                                                                      no seio da CVP, na criação de valências
                                                                                                                                                      sociais. É uma aposta para continuar
> josé paulo silva                          jantar foi um pedido de ajuda urgente,                que é alojado numa instituição apoiada              no futuro?
                                            porque a a Segurança Social só nos paga               pelo Estado deixa de receber esse rendi-             R - Jean-Henri Dunant criou a Cruz Ver-
P - A delegação de Braga da Cruz Ver-       80% dos custos de funcionamento. Os                   mento. Não podemos cobrar nada.                     melha para cuidar dos feridos em tempo
melha Portuguesa (CVP) promoveu             restantes 20% ultrapassam os 30 mil eu-                                                                   de guerra. Hoje a emergência é social. A
ontem um jantar de solidariedade a fa-      ros.                                                   P - A CVP tem em Braga uma vasta                   emergência social é uma área onde a CVP
vor do Centro de Acolhimento Tempo-                                                               acção na área da acção social. A si-                se sente bem e motivada.
rário (CAT). Esta valência que necessi-       P - Os utentes do CAT não pagam.                    tuação de crise que vivemos faz multi-
ta do apoio da sociedade?                     R - Os utentes não têm dinheiro. Ante-              plicar os casos de emergência social?                 P - Há projectos novos para avançar?
 R - O CAT increve-se nos princípios de     riormente, quando recebiam rendimento                  R - Sim. Infelizmente, esses casos têm               R - Nós queremos melhorar o que esta-
solidariedade e humanidade da CVP. Te-      social de inserção, pagavam uma pequena               aumentado. Em Braga, há uma rede so-                mos a fazer. Como os projectos que temos
mos capacidade para acolher 47 pessoas e    percentagem, e era justo que assim o                  cial e só fica na rua quem quer. Somos              não são pagos na totalidade pelo Estado,
mais algumas estão em lista de espera. O    fizessem. Com a nova legislação, alguém               uma instituição humanitária e temos de              temos de rentabilizar bem os recursos.
Tiragem: 8000                 Pág: 13

                                                                                                    País: Portugal                Cores: Cor

                                                                                                    Period.: Diária               Área: 27,77 x 34,25 cm²

    ID: 44904051                                       24-11-2012                                   Âmbito: Regional              Corte: 2 de 4


> “Não assino mais nenhum contrato deficitário com o Estado”.
ARMANDO OSÓRIO                                                                                                   ENTREVISTA                             CVP




Muita gordura que havia
na Cruz Vermelha acabou
 P - A CVP tem uma equipa de acom-
panhamento dos ‘sem abrigo’, a equipa
de rua ‘Aproximar’. Recentemente,
alertou para o perigo de interrupção de
um programa de distribuição de meta-
dona protocolado com o Ministério da
Saúde...
 R - Espero que o programa não acabe.
Os técnicos dizem-me que não vai acabar,
que vai ser renovado. Os responsáveis
sabem que as 60 ou 70 pessoas que são
apoiadas por nós, se deixam de ter a
metadona distribuída na rua, não vão ao
Centro de Saúde buscar esse substituto da
cocaína. A nossa equipa também faz
despistagem de tuberculose e HIV e en-
caminha doentes para os hospitais. Este
programa acabou em Junho, assinámos
um contrato até ao final do ano e estou
crente que vamos renovar esse contrato.

  P - O fenómeno da toxicodependência
já foi mais visível nas nossas ruas?
  R - Também por influência do trabalho
de acompanhamento que é feito pelas
instituições e pelo próprio Estado, mas
não estou em condições de dizer que o
fenómeno está a diminuir.

 P - A comunidade imigrante tem tam-
bém merecido uma atenção especial da
CVP em Braga. O que estão a fazer
nesta área?
 R - Olhe, uma notícia que posso dar em
primeira mão é que o nosso Centro Local
de Apoio à Integração de Imigrantes
                                                                                                                                                                    ROSA SANTOS
(CLAII) vai continuar. Esta semana con-
seguimos da direcção nacional da CVP
apoio para pagar o défice acumulado de        P - A delegação da CVP gere outras       mo-nos bem neste ambiente.                 delegação: o empresário Ermelando Se-
15 mil euros. O financiamento do Alto       valências sociais.                          P - Embora também tenhas as valên-        queira. O que mais me agrada com a sua
Comissariado para a Imigração e Diálogo       R - Temos apoio domiciliário, o acom-    cias sociais clássicas...                  presença é que passei a ter na direcção al-
Intercultural cobre 50 a 60 por cento das   panhamento dos beneficiários de rendi-      R - Temos uma creche a funcionar bem      guém do meio empresarial, com uma
despesas. Temos um défice calculado de      mento social de inserção da freguesia de   em Braga e um lar de terceira idade em     visão muito própria. A presença de Erme-
15 mil euros que não podíamos continuar     S. Lázaro que estão a aumentar muito,      Terras de Bouro.                           lando Sequeira já está a dar frutos no ri-
a acumular, embora saibamos que o           projectos de acompanhamento de mino-                                                  gor da gestão. Vem de encontro ao nosso
CLAII é o único local em Braga que faz o    rias étnicas em Santa Tecla e Prado.        P - Quando tomou posse como presi-        objectivo de combate ao desperdício e de
acompanhamento humanizado dos imi-                                                     dente da delegação de Braga da CVP         unidade de acção em todas as valências.
grantes. Fazemos cerca de um milhar de       P - A CVP assume em Braga valências       comprometeu-se a criar um grupo de
atendimentos por ano. O CLAII era uma       sociais que mais ninguém porque são        consultores. São, no fundo, beneméri-       P - E de uma gestão mais empresa-
valência que estava em risco.               deficitárias e lidam com populações de     tos e mecenas?                             rial?
                                            risco?                                      R - Mas com ideias. Estou muito feliz      R - Há dois anos começámos a impor al-
  P - Há défice de financiamento públi-      R - Mas isso é a missão da CVP. Senti-    com uma boa aquisição para a direcção da   gumas regras e as despesas de funciona-
co do CAT, também do CLAII...                                                                                                     mento diminuiram em mais de 30%.
  R - O Estado é um bocado abusador.                                                                                              Havia muita gordura que acabou.
Transfere para as instituições aquilo que
são as suas obrigações e nós ainda temos                                                                                           P - Mantém-se a ideia de substituição
que arranjar as verbas em falta. Eu não     lll                                                                                   da actual sede por instalações mais fun-
assino mais nenhum contrato deficitário                                                                                           cionais?
                                            Esta semana conseguimos da direcção nacional da Cruz Vermelha
com o Estado. Não posso andar sempre a                                                                                             R - O projecto está adiado. Pode ser que
incomodar a sociedade civil para equili-    portuguesa apoio para pagar o défice acumulado de 15 mil euros do                     depois da crise se consiga. Esperemos
brar o orçamento.                           Centro Local de Apoio à Integração de Imigrantes.                                     que a casa não caia.
Tiragem: 8000                  Pág: 14

                                                                                                       País: Portugal                 Cores: Cor

                                                                                                       Period.: Diária                Área: 27,62 x 34,40 cm²

    ID: 44904051                                        24-11-2012                                     Âmbito: Regional               Corte: 3 de 4


> “A nossa estrutura manteve-se igual durante muitos anos”.
ARMANDO OSÓRIO                                                                                                      ENTREVISTA                               CVP




Estrutura de emergência
médica é complicada
                                                                                                                                      vossos apelos?
                                                                                                                                       R - Muitos. Lançámos uma campanha
                                                                                                                                      de angariação de sócios e há muita gentre
                                                                                                                                      a aderir. Uma coisa que não achava dig-
                                                                                                                                      nificante era o número de sócios da dele-
                                                                                                                                      gação da CVP.

                                                                                                                                       P - Quantos eram?
                                                                                                                                       R - Não chegavam a 300. Com a cam-
                                                                                                                                      panha que comecámos em Junho já temos
                                                                                                                                      perto de 2500. Ainda há um certo
                                                                                                                                      desconhecimento da população sobre
                                                                                                                                      aquilo que a CVP faz.

                                                                                                                                        P - Ao nível do voluntariado mais acti-
                                                                                                                                      vo tem havido resposta?
                                                                                                                                        R - Sobretudo ao nível da juventude. O
                                                                                                                                      nosso departamento de juventude está a
                                                                                                                                      fazer um trabalho excelente. A Universi-
                                                                                                                                      dade do Minho é um foco muito impor-
                                                                                                                                      tante para nós. Trabalhamos muito com a
                                                                                                                                      Universidade em estágios nas áreas da
                                                                                                                                      Educação e Psicologia.

                                                                                                                                       P - O vosso campo de acção funciona
                                                                                                                                      como laboratório para esses estu-
                                                                                                                                      dantes?
                                                                                                                                       R - É verdade.

                                                                                                                                        P - Entre 1975 e 2003 foi adminis-
                                                                                                                                      tração dos Serviços de Acção Social da
                                                                                                                                      Universidade do Minho. Directa ou in-
                                                                                                                                      directamente, lidou com muitas si-
                                                                                                                                      tuações de dificuldades económicas.
                                                                                                                                      Agora estará mais próximo dos proble-
                                                                                                                                      mas. Olhando para trás, quer a dio-
                                                                                                                                      grafia faz da evolução sócio-económica
                                                                                                                                 DR
                                                                                                                                      da região?
                                                                                                                                        R - É a diferença entre o céu e o inferno.
  P - Como está a a funcionar o sector         R - Não podemos concorrer contra este      com o Sporting de Braga e o Clube Au-       Na Universidade do Minho lidei com as
de emergência médica da delegação da         sistema. Se calhar a culpa é nossa. Esta é   tomóvel do Minho, mas isso é pouco.         dificuldades, mas havia meios, havia di-
CVP?                                         uma área que precisa de soluções que se-                                                 nheiro. Hoje é uma luta diária.
  R - Essa foi a matriz inicial da CVP.      jam o menos dolorosas possível. Tentá-        P - O voluntariado é a base de traba-
Tínhamos uma estrutura anterior ao           mos um concurso com o Hospital de Bra-       lho da CVP, mas as necessidades ac-           P - Sente-se mais impotente para re-
próprio INEM. Houve um açambarca-            ga, mas nunca nos disseram nada. Surgiu      tuais obrigam a contratação de pessoal      solver problemas?
mento do transporte de doentes por parte     também a possibilidade de sermos um          especializado...                              R - Agora não há meios. Nunca um
do INEM e a nossa estrutura manteve-se       posto do INEM.                                R - O voluntariado é a nossa matriz, mas   aluno da Universidade do Minho passou
igual durante muitos anos. Temos nesta                                                    a delegação de Braga tem 114 funcio-        fome. Hoje damos comida a dezenas de
área muitos voluntários com qualidade.        P - Em termos de gestão da delegação        nários.                                     pessoas através da nossa equipa de rua,
Não posso dizer que tenho uma unidade        da CVP, a área da emergência médica                                                      para além das refeições que fornecemos
deficitária quando há dezenas de volun-      preocupa-o?                                   P - Como diz, o voluntariado é a vossa     no CAT. Ninguém nos paga essas re-
tários que trabalham de graça. Nós trabal-    R - Preocupa-me porque temos lá             matriz. Neste particular as coisas têm      feições porque ainda não fomos integra-
hamos de graça e o serviço é deficitário     dezenas de voluntários. Temos acordos        corrido bem? A sociedade responde aos       dos na rede de cantinas sociais. Estamos à
porquê? A estrutura que existe é muito                                                                                                espera que nos integrem.
complicada. Estamos a ver se conse-
guimos arranjar novas formas de rendi-                                                                                                 P - A fome voltou a ser uma realidade
mento, se não...                                                                                                                      em Braga?
                                             lll                                                                                       R - Só quem for cego é que não vê.
  P - O sector do transporte de doentes                                                                                               Se perguntar a outras instituições sociais,
é agora mais concorrencial com a en-         O voluntariado é a nossa matriz, mas a delegação de Braga da Cruz                        a ideia delas não será diferente da mi-
trada de operadores privados.                Vermelha Portuguesa tem 114 funcionários.                                                nha.
Tiragem: 8000             Pág: 1

                                                                        País: Portugal            Cores: Cor

                                                                        Period.: Diária           Área: 26,85 x 11,39 cm²

               ID: 44904051                  24-11-2012                 Âmbito: Regional          Corte: 4 de 4



              ENTREVISTA ARMANDO OSÓRIO, PRESIDENTE DA DELEGAÇÃO DE BRAGA DA CRUZ VERMELHA PORTUGUESA >> 12 a 14



                                                                     “SÓ QUEM FOR
                                                                     CEGO É QUE
                                                                     NÃO VÊ A FOME”
                                                                     A emergência social é a missão central da Cruz Vermelha
                                                                     Portuguesa, considera o presidente da delegação de Braga.
                                                                     Em entrevista, Armando Osório aponta poupança de 30%
                                                                     nas despesas correntes da instituição, fruto do rigor imposto
                                                                     na gestão da instituição. Quanto ao futuro, garante que o pro-
ROSA SANTOS




                                                                     jecto da nova sede está suspenso pela crise económica que
                                                                     assola o país, mas adverte que não pode ser esquecido.

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  • 1. Tiragem: 8000 Pág: 12 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 27,16 x 34,56 cm² ID: 44904051 24-11-2012 Âmbito: Regional Corte: 1 de 4 DA ACÇÃO SOCIAL ESCOLAR À EMERGÊNCIA SOCIAL Armando Maria da Cunha Osório Araújo preside, desde Junho de 2011, En à delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa. Entre 1975 e 2003, o convidado do programa ‘Primeiro Plano’, da Rádio Antena Minho - Correio do Minho, exerceu o cargo de administrador dos Serviços de Acção Social da Universidade do Minho. A sua ligação à academia ficou selada com a atribuição de sócio honorário de quase todos os grupos culturais de estudantes. Um auditório da sede da Associação Académica tem o seu nome. Armando Osório teve, num passado já um pouco distante, um incursão pela vida política. De 1985 a 1990, exerceu funções de vereador na Câmara Municipal de Braga, eleito pelo PSD. ARMANDO OSÓRIO ENTREVISTA CVP Só quem for cego é respeitar as pessoas que não querem ser institucionalizadas. P - Mas as valências que existem em Braga respondem às necessidades dos ‘sem abrigo’? que não vê a fome R - Quando detectamos pessoas com ne- cessidades de alojamento, mesmo com o nosso CAT cheio, há possibilidade de serem acolhidas em pensões com o apoio da Segurança Social. P - Ao CAT que a CVP tem a fun- A emergência social é a missão central da Cruz Vermelha Portuguesa, considera o cionar em Nogueira está associada uma presidente da delegação de Braga. Em entrevista, Armando Osório aponta poupança horta biológica, um projecto apoiado pela Fundação EDP. de 30% nas despesas correntes da instituição, fruto do rigor imposto na gestão da R - Essa horta é feita com o trabalho dos próprios utentes do CAT. instituição. P - É uma forma de socializar essas pessoas, de lhe criar competências? R - E também auto-estima. Mais recen- temente, estabelecemos uma parceria com o Projecto Homem, que tem insta- lações próximas das nossas, para o acom- panhamento dos nossos utentes por técni- cos ligados à problemática da toxico- dependência. P - A horta biológica já está a pro- duzir? R - Sim. Temos uma parceria com a As- sociação das Terras Altas do Homem, Cá- vado e Ave (ATAHCA) para um centro do projecto ‘PROVE - Promover e Vender’ na nossa creche, onde temos já 80 con- sumidores. Os utentes do CAT fazem as cestas com produtos agrícolas que são distribuídas à sexta-feira. Temos também a funcionar no CAT um serviço de la- vagem de automóveis. P - Têm necessidade de aumentar a capacidade de alojamento do CAT? R - Em colaboração com a Câmara, temos um apartamento para residências partilhadas e vamos ter mais dois. P - A delegação de Braga foi pioneira, ROSA SANTOS no seio da CVP, na criação de valências sociais. É uma aposta para continuar > josé paulo silva jantar foi um pedido de ajuda urgente, que é alojado numa instituição apoiada no futuro? porque a a Segurança Social só nos paga pelo Estado deixa de receber esse rendi- R - Jean-Henri Dunant criou a Cruz Ver- P - A delegação de Braga da Cruz Ver- 80% dos custos de funcionamento. Os mento. Não podemos cobrar nada. melha para cuidar dos feridos em tempo melha Portuguesa (CVP) promoveu restantes 20% ultrapassam os 30 mil eu- de guerra. Hoje a emergência é social. A ontem um jantar de solidariedade a fa- ros. P - A CVP tem em Braga uma vasta emergência social é uma área onde a CVP vor do Centro de Acolhimento Tempo- acção na área da acção social. A si- se sente bem e motivada. rário (CAT). Esta valência que necessi- P - Os utentes do CAT não pagam. tuação de crise que vivemos faz multi- ta do apoio da sociedade? R - Os utentes não têm dinheiro. Ante- plicar os casos de emergência social? P - Há projectos novos para avançar? R - O CAT increve-se nos princípios de riormente, quando recebiam rendimento R - Sim. Infelizmente, esses casos têm R - Nós queremos melhorar o que esta- solidariedade e humanidade da CVP. Te- social de inserção, pagavam uma pequena aumentado. Em Braga, há uma rede so- mos a fazer. Como os projectos que temos mos capacidade para acolher 47 pessoas e percentagem, e era justo que assim o cial e só fica na rua quem quer. Somos não são pagos na totalidade pelo Estado, mais algumas estão em lista de espera. O fizessem. Com a nova legislação, alguém uma instituição humanitária e temos de temos de rentabilizar bem os recursos.
  • 2. Tiragem: 8000 Pág: 13 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 27,77 x 34,25 cm² ID: 44904051 24-11-2012 Âmbito: Regional Corte: 2 de 4 > “Não assino mais nenhum contrato deficitário com o Estado”. ARMANDO OSÓRIO ENTREVISTA CVP Muita gordura que havia na Cruz Vermelha acabou P - A CVP tem uma equipa de acom- panhamento dos ‘sem abrigo’, a equipa de rua ‘Aproximar’. Recentemente, alertou para o perigo de interrupção de um programa de distribuição de meta- dona protocolado com o Ministério da Saúde... R - Espero que o programa não acabe. Os técnicos dizem-me que não vai acabar, que vai ser renovado. Os responsáveis sabem que as 60 ou 70 pessoas que são apoiadas por nós, se deixam de ter a metadona distribuída na rua, não vão ao Centro de Saúde buscar esse substituto da cocaína. A nossa equipa também faz despistagem de tuberculose e HIV e en- caminha doentes para os hospitais. Este programa acabou em Junho, assinámos um contrato até ao final do ano e estou crente que vamos renovar esse contrato. P - O fenómeno da toxicodependência já foi mais visível nas nossas ruas? R - Também por influência do trabalho de acompanhamento que é feito pelas instituições e pelo próprio Estado, mas não estou em condições de dizer que o fenómeno está a diminuir. P - A comunidade imigrante tem tam- bém merecido uma atenção especial da CVP em Braga. O que estão a fazer nesta área? R - Olhe, uma notícia que posso dar em primeira mão é que o nosso Centro Local de Apoio à Integração de Imigrantes ROSA SANTOS (CLAII) vai continuar. Esta semana con- seguimos da direcção nacional da CVP apoio para pagar o défice acumulado de P - A delegação da CVP gere outras mo-nos bem neste ambiente. delegação: o empresário Ermelando Se- 15 mil euros. O financiamento do Alto valências sociais. P - Embora também tenhas as valên- queira. O que mais me agrada com a sua Comissariado para a Imigração e Diálogo R - Temos apoio domiciliário, o acom- cias sociais clássicas... presença é que passei a ter na direcção al- Intercultural cobre 50 a 60 por cento das panhamento dos beneficiários de rendi- R - Temos uma creche a funcionar bem guém do meio empresarial, com uma despesas. Temos um défice calculado de mento social de inserção da freguesia de em Braga e um lar de terceira idade em visão muito própria. A presença de Erme- 15 mil euros que não podíamos continuar S. Lázaro que estão a aumentar muito, Terras de Bouro. lando Sequeira já está a dar frutos no ri- a acumular, embora saibamos que o projectos de acompanhamento de mino- gor da gestão. Vem de encontro ao nosso CLAII é o único local em Braga que faz o rias étnicas em Santa Tecla e Prado. P - Quando tomou posse como presi- objectivo de combate ao desperdício e de acompanhamento humanizado dos imi- dente da delegação de Braga da CVP unidade de acção em todas as valências. grantes. Fazemos cerca de um milhar de P - A CVP assume em Braga valências comprometeu-se a criar um grupo de atendimentos por ano. O CLAII era uma sociais que mais ninguém porque são consultores. São, no fundo, beneméri- P - E de uma gestão mais empresa- valência que estava em risco. deficitárias e lidam com populações de tos e mecenas? rial? risco? R - Mas com ideias. Estou muito feliz R - Há dois anos começámos a impor al- P - Há défice de financiamento públi- R - Mas isso é a missão da CVP. Senti- com uma boa aquisição para a direcção da gumas regras e as despesas de funciona- co do CAT, também do CLAII... mento diminuiram em mais de 30%. R - O Estado é um bocado abusador. Havia muita gordura que acabou. Transfere para as instituições aquilo que são as suas obrigações e nós ainda temos P - Mantém-se a ideia de substituição que arranjar as verbas em falta. Eu não lll da actual sede por instalações mais fun- assino mais nenhum contrato deficitário cionais? Esta semana conseguimos da direcção nacional da Cruz Vermelha com o Estado. Não posso andar sempre a R - O projecto está adiado. Pode ser que incomodar a sociedade civil para equili- portuguesa apoio para pagar o défice acumulado de 15 mil euros do depois da crise se consiga. Esperemos brar o orçamento. Centro Local de Apoio à Integração de Imigrantes. que a casa não caia.
  • 3. Tiragem: 8000 Pág: 14 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 27,62 x 34,40 cm² ID: 44904051 24-11-2012 Âmbito: Regional Corte: 3 de 4 > “A nossa estrutura manteve-se igual durante muitos anos”. ARMANDO OSÓRIO ENTREVISTA CVP Estrutura de emergência médica é complicada vossos apelos? R - Muitos. Lançámos uma campanha de angariação de sócios e há muita gentre a aderir. Uma coisa que não achava dig- nificante era o número de sócios da dele- gação da CVP. P - Quantos eram? R - Não chegavam a 300. Com a cam- panha que comecámos em Junho já temos perto de 2500. Ainda há um certo desconhecimento da população sobre aquilo que a CVP faz. P - Ao nível do voluntariado mais acti- vo tem havido resposta? R - Sobretudo ao nível da juventude. O nosso departamento de juventude está a fazer um trabalho excelente. A Universi- dade do Minho é um foco muito impor- tante para nós. Trabalhamos muito com a Universidade em estágios nas áreas da Educação e Psicologia. P - O vosso campo de acção funciona como laboratório para esses estu- dantes? R - É verdade. P - Entre 1975 e 2003 foi adminis- tração dos Serviços de Acção Social da Universidade do Minho. Directa ou in- directamente, lidou com muitas si- tuações de dificuldades económicas. Agora estará mais próximo dos proble- mas. Olhando para trás, quer a dio- grafia faz da evolução sócio-económica DR da região? R - É a diferença entre o céu e o inferno. P - Como está a a funcionar o sector R - Não podemos concorrer contra este com o Sporting de Braga e o Clube Au- Na Universidade do Minho lidei com as de emergência médica da delegação da sistema. Se calhar a culpa é nossa. Esta é tomóvel do Minho, mas isso é pouco. dificuldades, mas havia meios, havia di- CVP? uma área que precisa de soluções que se- nheiro. Hoje é uma luta diária. R - Essa foi a matriz inicial da CVP. jam o menos dolorosas possível. Tentá- P - O voluntariado é a base de traba- Tínhamos uma estrutura anterior ao mos um concurso com o Hospital de Bra- lho da CVP, mas as necessidades ac- P - Sente-se mais impotente para re- próprio INEM. Houve um açambarca- ga, mas nunca nos disseram nada. Surgiu tuais obrigam a contratação de pessoal solver problemas? mento do transporte de doentes por parte também a possibilidade de sermos um especializado... R - Agora não há meios. Nunca um do INEM e a nossa estrutura manteve-se posto do INEM. R - O voluntariado é a nossa matriz, mas aluno da Universidade do Minho passou igual durante muitos anos. Temos nesta a delegação de Braga tem 114 funcio- fome. Hoje damos comida a dezenas de área muitos voluntários com qualidade. P - Em termos de gestão da delegação nários. pessoas através da nossa equipa de rua, Não posso dizer que tenho uma unidade da CVP, a área da emergência médica para além das refeições que fornecemos deficitária quando há dezenas de volun- preocupa-o? P - Como diz, o voluntariado é a vossa no CAT. Ninguém nos paga essas re- tários que trabalham de graça. Nós trabal- R - Preocupa-me porque temos lá matriz. Neste particular as coisas têm feições porque ainda não fomos integra- hamos de graça e o serviço é deficitário dezenas de voluntários. Temos acordos corrido bem? A sociedade responde aos dos na rede de cantinas sociais. Estamos à porquê? A estrutura que existe é muito espera que nos integrem. complicada. Estamos a ver se conse- guimos arranjar novas formas de rendi- P - A fome voltou a ser uma realidade mento, se não... em Braga? lll R - Só quem for cego é que não vê. P - O sector do transporte de doentes Se perguntar a outras instituições sociais, é agora mais concorrencial com a en- O voluntariado é a nossa matriz, mas a delegação de Braga da Cruz a ideia delas não será diferente da mi- trada de operadores privados. Vermelha Portuguesa tem 114 funcionários. nha.
  • 4. Tiragem: 8000 Pág: 1 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 26,85 x 11,39 cm² ID: 44904051 24-11-2012 Âmbito: Regional Corte: 4 de 4 ENTREVISTA ARMANDO OSÓRIO, PRESIDENTE DA DELEGAÇÃO DE BRAGA DA CRUZ VERMELHA PORTUGUESA >> 12 a 14 “SÓ QUEM FOR CEGO É QUE NÃO VÊ A FOME” A emergência social é a missão central da Cruz Vermelha Portuguesa, considera o presidente da delegação de Braga. Em entrevista, Armando Osório aponta poupança de 30% nas despesas correntes da instituição, fruto do rigor imposto na gestão da instituição. Quanto ao futuro, garante que o pro- ROSA SANTOS jecto da nova sede está suspenso pela crise económica que assola o país, mas adverte que não pode ser esquecido.