ANO LETIVO 2020-2021
Lê o excerto (páginas 16 a 18) da obra “O rapaz e o robô”, de Luísa
Ducla Soares, e responde à pergunta:
Nessa tarde havia, por coincidência,
ponto de matemática. João iniciou o seu
plano. Disfarçado, para que ninguém o
reconhecesse, conduziu o robô até à escola.
Pelo caminho foi-lhe dando instruções: a
aula era a sala 13, a sua carteira a última da
direita (a que ficava mais longe da
professora para poder conversar e copiar à vontade).
- Sei tudo isso de cor! – exclamou a maquineta. – Não te lembras
que me deram a tua memória? Sei a marca de pastilhas elásticas que
compras, as alcunhas dos teus colegas, sei tudo…
- Mesmo tudo? – assustou-se o João.
- Sei que nunca lavas as orelhas, que colas pastilhas elásticas nas
cadeiras, que tiraste a caneta da Filipa para lhe pregares uma partida e
resolveste ficar com ela.
João corou. E se o robô o denunciava? Apressou-se a puxar a
caneta do bolso e a ordenar-lhe:
- Entrega-lha hoje. Não era minha intenção…
Tinham chegado finalmente ao portão. O robô ficou entregue a si
próprio. O rapaz sentia-se mais nervoso do que se fosse ele próprio a
fazer o ponto. Todo o seu futuro estava agora em jogo. O robô não iria
fazer asneiras? Confundir-se-ia com ele de facto?
Com as pernas a tremer como varas verdes, os dentes a bater
castanholas, João entrou no café e encomendou com voz sumida:
- Um chazinho quente, por favor.
Lê L
ANO LETIVO 2020-2021
O criado arregalou os olhos. Sentenciou:
- Para pedir um chá deve estar a morrer.
O tempo parecia suspenso. João chupou três pacotes de Sugus,
mascou três caixas de Chiclets, petiscou três pastéis de nata.
- Com certeza foi apanhado. Que vai ser de mim?
Estava tentado a mandar vir outro chá quando viu o robô a
avançar, de braço dado com a Gabriela, dizendo piadas e rindo alto.
Queria chamá-lo mas não podia. Viu-o encaminhar-se para a paragem.
Fez-lhe um sinal de longe. Obedecer-lhe-ia?
Dentro de um minuto tinha-o ali no passeio, à sua frente,
triunfante.
- Vais ter um Excelente! Correu tudo às mil maravilhas. São horas
de voltarmos para casa.
Mas como podia João levá-lo para casa? Num apartamento com
três assoalhadas, num prédio com dez andares, gente sempre a entrar
e a sair, não era fácil esconder um robô. Principalmente tendo uma
mãe bisbilhoteira, com a mania das limpezas e arrumações. O pai,
esse, era capaz de nem dar por nada.
Mas o nosso rapaz programara tudo. Com o dinheiro que lhe
sobrara, comprara uma velha roulote acampada, como sucata, num
terreno baldio.
- Desculpa lá, mas tens de ficar aqui – explicou o João, ao abrir-lhe
a porta empenada. Quando me fizeres falta, venho buscar-te. Precisas
de comida? De cobertores?
- Não, trabalho a energia solar. Só como quando é absolutamente
necessário. Mas depois vou à casa de banho e deito tudo fora.
- Sais barato. É o que me convém.
*
* *

Autor mes outubro 2020

  • 1.
    ANO LETIVO 2020-2021 Lêo excerto (páginas 16 a 18) da obra “O rapaz e o robô”, de Luísa Ducla Soares, e responde à pergunta: Nessa tarde havia, por coincidência, ponto de matemática. João iniciou o seu plano. Disfarçado, para que ninguém o reconhecesse, conduziu o robô até à escola. Pelo caminho foi-lhe dando instruções: a aula era a sala 13, a sua carteira a última da direita (a que ficava mais longe da professora para poder conversar e copiar à vontade). - Sei tudo isso de cor! – exclamou a maquineta. – Não te lembras que me deram a tua memória? Sei a marca de pastilhas elásticas que compras, as alcunhas dos teus colegas, sei tudo… - Mesmo tudo? – assustou-se o João. - Sei que nunca lavas as orelhas, que colas pastilhas elásticas nas cadeiras, que tiraste a caneta da Filipa para lhe pregares uma partida e resolveste ficar com ela. João corou. E se o robô o denunciava? Apressou-se a puxar a caneta do bolso e a ordenar-lhe: - Entrega-lha hoje. Não era minha intenção… Tinham chegado finalmente ao portão. O robô ficou entregue a si próprio. O rapaz sentia-se mais nervoso do que se fosse ele próprio a fazer o ponto. Todo o seu futuro estava agora em jogo. O robô não iria fazer asneiras? Confundir-se-ia com ele de facto? Com as pernas a tremer como varas verdes, os dentes a bater castanholas, João entrou no café e encomendou com voz sumida: - Um chazinho quente, por favor. Lê L
  • 2.
    ANO LETIVO 2020-2021 Ocriado arregalou os olhos. Sentenciou: - Para pedir um chá deve estar a morrer. O tempo parecia suspenso. João chupou três pacotes de Sugus, mascou três caixas de Chiclets, petiscou três pastéis de nata. - Com certeza foi apanhado. Que vai ser de mim? Estava tentado a mandar vir outro chá quando viu o robô a avançar, de braço dado com a Gabriela, dizendo piadas e rindo alto. Queria chamá-lo mas não podia. Viu-o encaminhar-se para a paragem. Fez-lhe um sinal de longe. Obedecer-lhe-ia? Dentro de um minuto tinha-o ali no passeio, à sua frente, triunfante. - Vais ter um Excelente! Correu tudo às mil maravilhas. São horas de voltarmos para casa. Mas como podia João levá-lo para casa? Num apartamento com três assoalhadas, num prédio com dez andares, gente sempre a entrar e a sair, não era fácil esconder um robô. Principalmente tendo uma mãe bisbilhoteira, com a mania das limpezas e arrumações. O pai, esse, era capaz de nem dar por nada. Mas o nosso rapaz programara tudo. Com o dinheiro que lhe sobrara, comprara uma velha roulote acampada, como sucata, num terreno baldio. - Desculpa lá, mas tens de ficar aqui – explicou o João, ao abrir-lhe a porta empenada. Quando me fizeres falta, venho buscar-te. Precisas de comida? De cobertores? - Não, trabalho a energia solar. Só como quando é absolutamente necessário. Mas depois vou à casa de banho e deito tudo fora. - Sais barato. É o que me convém. * * *