Título: Prelúdio de amor
Autor: Arlene James
Título original: A bride to honor
Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1999
Publicação original: 1998
Gênero: Romance contemporâneo
Digitalização e correção: Nina
Estado da Obra: Corrigida
O que era mais importante para aquele homem?
Ele era um homem possuidor de uma fortuna e prestígio invejáveis, mas não havia quantia de * dinheiro capaz
de dispensar Paul Spencer de um iminente casamento de conveniência. Seu avô lhe deixara pouca escolha:
desposar uma mulher que ele desprezava ou perder os negócios da família. E, com Paul, a família sempre vinha
em primeiro lugar. Até ele pôr os olhos na bela e inocente Cassidy.
A partir daquele momento, ele já não sabia o que vinha primeiro: seu desejo de agradar à família ou de ter
Cassidy nos braços!
CAPITULO I
— Eu sei que é importante — disse Cassidy, endireitando a peruca vermelha —, mas estamos
perto do Haloween, e você sabe que esta é a época do ano mais movimentada para mim.
William, incomodado com a teimosia da irmã, respirou fundo, pensou e, enquanto ajeitava sua
gravata de seda, disse:
— Vou lhe contar por que preciso tanto desse favor.
Vendo-o tão aflito, Cassidy pensou que, se continuasse levando tudo tão a sério, William acabaria
tendo um ataque cardíaco antes dos quarenta anos.
— Que tal esta? E bem baratinha.
Nada o irritava mais que encontrar sua irmã vestida com uma das fantasias da loja. Era quase
impossível conversar com ela vestida de boneca. Puxando-a pelo braço, William insistiu:
— E o meu chefe, Cass! Ele está desesperado. E recomendei você, pessoalmente. Por
piedade, não me deixe encrencado!
Pobre William, sempre em sobressalto, com medo de que a própria família o deixasse embaraçado...
Tudo bem, talvez seus parentes fossem um tanto excêntricos, mas sempre se comportavam bem. Ou quase
sempre.
Ela sorriu, conciliadora, esquecendo-se completamente do rosto pintado de branco, dos cílios
imensos e da boca com formato de coração.
— Prometo, querido irmão, que o sr. Paul Barclay Spencer receberá um tratamento de rei. E
prometo que encontrarei para ele um traje que impressionará Betty. Palavra de honra de irmã.
William ficou apenas um pouco mais tranquilo.
— O nome correto é Bettina — frisou. — Bettina Lincoln. E, se tudo correr bem, ela será a sra.
Paul Spencer até a primavera.
— E o sr. Spencer terá salvo os negócios da família — Cassidy disse, para provar que tinha prestado
atenção nas palavras do irmão. — E dará esse crédito a você.
— Sim, se você não arruinar tudo. Agora, seria pedir demais que você tirasse essa roupa ridícula antes
que ele chegue?
Cassidy fez que sim. Arrancou a enorme peruca e, contrita, jurou:
— Vou abandonar meu traje de Raggedy Ann e trocá-lo por roupas adequadas para receber seu
patrão. Mais: encontrarei algo para ele usar e conquistar o coração, e tudo o mais, da glamourosa, fantástica srta.
Lincoln. Satisfeito?
William empertigou-se, alisou as dobras do terno italiano impecável e, assentindo, recomendou:
— Só para lembrar: estou contando com você.
O sorriso de Cassidy foi bastante encorajador. Ele lançou-lhe um olhar de aprovação. Mas a alegria de Cass
se foi quando percebeu que, ao sair, William contemplou com desprezo tudo à sua volta.
Sinceramente, ela não sabia qual o problema em ser figurinista. Figurinistas, por definição, desenham,
costuram e, se tiverem sorte, montam suas próprias lojas e fazem tudo dentro delas, o que inclui usar as próprias
criações. Mesmo que sejam fantasias. Quem usaria roupas que nem o próprio figurinista usa?
Mas William não era capaz de entender isso. Aliás, não percebia nada a não ser o próprio mundinho.
Ainda assim, reíletiu Cass, a família Penno era uma cruz para o pobre William carregar, e ela não queria
aumentar esse peso.
O irmão não entendera nada quando, um ano antes, os pais resolveram pedir divórcio. Alvin e Anna
Penno eram incompatíveis, e depois de trinta e cinco anos isso ficou ainda pior. Cassidy sempre percebera
esse detalhe, mas William não. Era impossível, para ele, admitir que os pais, depois de separados, haviam
conhecido a felicidade... e que nada disso tinha a ver com os filhos.
Cass supunha que a aproximação dele com o clã Barclay Spencer era parte do problema. Naquela
família, os negócios vinham em primeiro lugar. Como seria fazer parte de um grupo assim?
Para William, que os admirava e invejava, devia ser maravilhoso. E certamente fora isso que Paul
Spencer, presidente e principal responsável pelo sucesso das Panificadoras Barclay, pensara ao ficar
noivo de sua sobrinha de criação. Principalmente depois que ela recebera algumas cotas da companhia,
herdadas de Chester Barclay, avô de Paul. O casamento manteria os negócios na família.
Ela não conseguia entender por que a "adorável e sofisticada" Bettina, como dizia William, estava
tão relutante em se casar com o primo, Paul. Especialmente considerando que ele havia rompido um tórrido
caso por causa do testamento, poucos meses antes.
Cassidy imaginara que Bettina apostaria tudo naquele casamento. Mas talvez estivesse errada.
Pondo os problemas dos Barclay de lado, chamou Tony, que estava do outro lado do novo
mostruário, o 'Noites na Arábia". Ele saiu do que agora era o picadeiro de um circo, um dos quatro show-
room de que a loja dispunha.
— Chamou, chériel — perguntou com sotaque fran
cês carregado.
Era seu dia de Maurice Chevalier. Um dia antes, fora Clark Gable. Ele tinha convicção de que em
breve, terminando a faculdade, seria um astro. Deixaria Dai-las e iria para Los Angeles ou Nova York. Não
decidira ainda se preferia o cinema ou o teatro.
Aos vinte e cinco anos, os sonhos com o estrelato de Cassy tinham sido trocados por uma carreira
satisfatória como figurinista. Sentia-se décadas mais velha que seu assistente, Tony Abatto, de vinte
anos.
— Vou me trocar. Tome conta da loja. Estou esperando um cliente.
— Oui, mademoiselle. Com minha vida guardarei todos os seus sonhos, amour...
— Melhor expressar seu amour de outra maneira ou perderá o emprego — disse ela,
olhando para a confusão que havia no chão.
— Raggedy Ann, essa linda boneca não está agradando mais? — Tony perguntou.
— E a meu irmão que não agrada — respondeu ela, imaginando as caretas que Tony faria às
suas costas.
Para ele, William não passava de um "filisteu". E, mesmo que essa também fosse a opinião dela, não
suportava que ninguém falasse nada sobre o irmão. Antes de fechar a cortina do provador, gritou:
— Comece a separar as araras!
— De que vai precisar?
— Oh, nada além do usual para homens. O tipo másculo de sempre.
— Um Drácula-lutador-piloto-pirata saindo...
Cassidy suspirou, resignada. Tinha uma fantasia de Peter Cabeça de Abóbora perfeita para ser usada
numa festa antes do Dia das Bruxas. Mas certamente o chefe
de William não seria capaz de vestir algo tão original. Por outro lado, todos os Dráculas, soldados ou
piratas disponíveis já haviam sido reservados. O que quer que Paul Barclay escolhesse para fantasia, o
resultado seria o mesmo: ela teria de sentar na máquina novamente e costurar. Logo agora, que pensava
estar livre do atropelo... Bem, podia dormir na última semana de novembro, se vivesse até lá.
Deu uma última olhadela no traje de boneca de pano, que chamara de Raggedy Ann. Era quase um
símbolo, com suas tranças vermelhas e a roupa azul e branca. Começou tirando o avental e o vestido,
depois as meias coloridas e o sapato.
Uma calça jeans e o suéter cor de mostarda sobre a camiseta, os cabelos castanho-dourados presos
num elástico, e lá estava Cassidy ao natural, mas com o rosto ainda maquiado. A fantasia de boneca
Raggedy Ann foi devolvida à arara a contragosto, e só depois Cass voltou à loja.
Para ela, a sessão de maquiagem era sua hora favorita. Isso porque lá estavam muitos dos objetos
que pertenceram à barbearia de seu avô. A começar pela esponja grande de talco.
Sentada na imensa cadeira de couro verde, onde tantas vezes vira o avô trabalhar, começou a
tirar a pintura. Com a ponta dos dedos espalhou o creme de limpeza, e seu rosto se transformou numa
massa cinza-avermelhada.
Um leve movimento pelo espelho e Cassidy percebeu que não estava só na sala.
— Maurice! — esbravejou.
— Um cliente quer vê-la, chérie.
Era ele, o patrão de William. Sem dúvida, bastante atraente. Os cabelos eram escuros e o corte,
clássico. Os olhos azuis eram emoldurados por cílios longos e castanhos, e ela podia apostar que
tinha a barba escura, pela sombra que percebia naquela região do rosto. Tinha uma covinha no queixo e
duas no rosto, quando sorria.
Estendeu a mão longa e bem-feita para Cassy.
— Cassidy Penno, presumo.
Num gesto mecânico, ela correspondeu ao cumprimento.
— Sim.
— Paul Spencer.
Embaraçada, Cass pegou a toalha e tentou limpar o rosto.
— Desculpe-me, sr. Spencer. Estava vestida de Raggedy Ann quando meu irmão avisou-me que
viria. Achei que teria tempo de tirar a maquiagem, mas Tony provavelmente quis me envergonhar. Ele não
suporta William, e... William não entende por que não o despeço.
— E? — Tirando a toalha das mãos de Cassy, Paul passou a esfregar-lhe o rosto,
energicamente. —Estava me explicando por que não despede o rapaz.
— É preciso ter certas habilidades para trabalhar num lugar como este.
— Mesmo? — A limpeza estava quase completa.
Compenetrado, Paul Spencer usava lenços umedecidos para finalizar a tarefa de devolver à jovem suas
próprias feições. — Que tipo de habilidades são essas?
Incomodada com o olhar fixo em seu rosto, Cassidy virou-se para o espelho e, de posse de um
tónico adstrígente, fez menção de dispensar o auxílio de Paul Spencer.
— Alguém que ame o teatro — respondeu. — Geralmente atores. Alguém que goste de se
fantasiar. Alguém que trabalhe por pouco dinheiro.
Pelo espelho, podia ver o rosto de Paul, e aquele jeito meio irónico a punha nervosa. William a
mataria se soubesse o que tinha acontecido ali. Mais uma vez o coitado fora traído pela própria família...
Com as faces limpas mas com a dignidade arranhada, Cassidy soltou os cabelos, que caíram em
ondas sobre seus ombros. Virando-se, encarou o sr. Spencer.
— Ficaria muito grata se o senhor não mencionasse este episódio para William. Ele é um
irmão maravilhoso, mas...
— Empertigado — emendou Paul Spencer. — Sem senso de humor. Pernóstico.
A reação de Cassidy foi de puro terror aos adjetivos usados por Paul para descrever seu irmão. Não
esperava nem em sonhos ouvir isso. Spencer caiu na risada com o olhar horrorizado da jovem.
— Relaxe, srta. Penno. Tenho seu irmão na mais alta conta. Ele não só é um brilhante
executivo como também um dos mais proeminentes membros da sociedade. Só que leva a vida e a si
mesmo muito a sério. — E, fazendo um gesto como se fechasse a própria boca a zíper, concluiu: —
William não ouvirá uma palavra sobre você me receber fantasiada de monstro.
— Não fiz isso!
— Claro que não — concordou ele, rindo. — Estava brincando.
— Oh!
O riso deixava à mostra dentes lindos e brancos. Num passe de mágica, Cassy foi contaminada pelo
bom humor daquele homem, e soube que não apenas podia confiar nele como que essa confiança era mútua.
Mais descontraída, riu.
— Desculpe-me. Eu devia estar medonha.
— Digamos que eu jamais iria imaginar que havia um rosto tão bonito debaixo daquela tinta
toda — gracejou ele.
Antes de ficar feliz com o elogio, Cassy lembrou-se de que podia ser mais uma das gozações de
Paul.
— Você, hein? Na minha profissão, é bom ter um rosto comum como o meu. Funciona como
uma tela em branco para um pintor: aceita tudo.
— Quem disse que seu rosto é comum? William?
— Não, claro que não.
— Você tem uma beleza clássica, de traços finos e delicados — insistiu Paul, deslizando o
dedo sobre sua testa, descendo pela curva do nariz, atravessando a curva dos lábios até encontrar o
queixo.
Cassidy estava hipnotizada. Nunca ouvira de ninguém que era bonita. Estava quase acreditando
no que ele dizia quando a realidade a chamou de volta.
Saindo do transe, Cass balançou a cabeça e indicou a saída para a outra sala. O momento mágico
se fqra.
— Vamos ver as roupas? — A arara estava ali perto, e ela rezou para que Tony tivesse tido
bom senso na escolha dos trajes. Puxou um banquinho e, com ar solene, começou: — Se quiser se
sentar, sr. Spencer, eu lhe mostrarei alguns dos nossos trajes masculinos mais populares.
— Paul. Eu prefiro que me chame assim.
"Isso não vai dar certo", pensou Cassidy.
Limitou-se a sorrir e avançou para a primeira fantasia.
— Esta é a mais requisitada nessa época do ano. Conde Drácula.
Paul ergueu uma das sobrancelhas. , — Muito dramático.
Num floreio, Cassy devolveu-a ao cabide e trouxe outra:
— Que tal um pirata? Corsários são românticos e agradam às moças. Completa, com
papagaio, espada e até um brinco.
— Não tenho orelha furada.
— Talvez um piloto de guerra... O general Patton? — Negativas sucessivas a fizeram
enumerar: — Nem mesmo um soldado da Guerra Civil? Rebeldes? Ianques?
— Sinto. Não faço o género militar. Especialmente da Guerra Civil. Quero expandir nossos
negócios para o Sul.
— Nem índios ou ciganos, suponho. Hum... Rodolfo Valentino? O imperador da China? —
brincou ela.
— Nem Fidel Castro ou Stalin, caso tenha-os em mente.
Uma ideia iluminou o rosto de Cassy. De repente, era como se tivesse achado a inspiração.
— Stalin, Rússia... Céus! Lembra-se de um filme antigo, em que Tony Curtis fazia o papel de
um cossaco? Yul Brynner era o pai dele, e havia cavalos e mais cavalos...
— Taras Bulhai — exclamou Paul, entusiasmado.
— Claro que me lembro! O personagem de Tony Curtis não morre no final?
— E a mocinha fica a seu lado.
— É isso! — Pela primeira vez algo o animava. — Deixe-me ver a roupa.
Cassidy se deu conta que só na sua imaginação havia algo assim.
— Na verdade, não a tenho. Mas posso fazer para você.
— Seria então um traje exclusivo, só para mim?
Ela relaxou e sorriu, mesmo sabendo que não teria tempo para mais nada, pois era preciso desenhar,
procurar os materiais adequados e costurar. Suspirando, lembrou-se de que faria aquilo por William
e resignou-se.
— Exatamente.
— Fantástico! — Paul parecia ter achado o que que ria. — Como começamos?
— Pesquisando.
— Pesquisa? Otimo! Onde procuro? Quero dizer, qual é a época?
Ela piscou duas vezes, sem entender o que ele queria dizer.
—Esse é o meu trabalho. Não é necessário que faça nada.
— Bem, e quem me garante que você não vai errar?
Num muxoxo, Cassy concordou.
— Bem lembrado.
Paul caiu na risada.
— Confio em você, mas sou muito purista, sabe? E quero saber do que estarei vestido, caso me
perguntem.
Cassy estava antevendo como seria a tarefa, cheia de palpites e de interferências... Teria o dobro
do trabalho. Mas a essa altura não havia muita escolha.
— Já entendi. Quando quer ver os desenhos? No final da semana?
— Quinta-feira? Sexta é péssimo para mim.
— Certo. Fim da tarde?
Pensando um pouco, Paul respondeu:
— Não quero prendê-la até tarde. Venho na hora do almoço. A que horas Tony almoça?
— Uma hora está ótimo.
— Trago algo para comermos aqui. Ainda bem que você não tem problemas com excesso de
peso... — E, olhando para o relógio: — Tenho de ir. Quinta, à uma. Adorei conversar com você.
E correu porta afora, deixando-a sozinha, com o coração disparado. Cassy tinha um almoço marcado
com Paul Spencer Barclay. E estava deslumbrada.
Só quando se acomodou atrás do volante de seu Jaguar preto foi que Paul Spencer se deu conta de
que devia estar fora de si ao insistir tanto em almoçar com Cassidy Penno.
Era linda, solteira, adorável. Uma companhia divertida e inteligente. Não que essas qualidades
pudessem mudar o fato de que ele estava praticamente noivo de Bettina. Praticamente, e isso não era muito
agradável.
Estava resolvido que ela seria sua esposa. Era a única coisa a fazer, considerando que seu avô
havia deixado trinta por cento das ações das empresas Barclay para Bettina, a mesma porcentagem que
coubera a ele. Paul possuía, porém, outros dez por cento das cotas. O restante estava dividido entre os
outros membros da família.
Seu tio Cari, e a mãe de Bettina, Jewel, possuíam dez por cento. Seu tio John, solteirão convicto,
outros dez por cento. Mais dez por cento estavam com a viúva de um tio falecido, Mary, e sua filha, Joyce,
agora chamada sra. Joyce Spencer Thomas.
Ninguém de fora da família jamais pusera as mãos no património desde que seu bisavô fundara as
Empresas Panificadoras Barclay. Costumeiramente, os parentes dividiam os bens entre seus filhos, ao
atingir certa idade. No entanto, isso não acontecera com os Barclay. O bisavô e o avô de Paul haviam
reservado para si a maioria das ações.
Quase todos os membros da família abriam mão de um envolvimento mais direto com os negócios.
Sentiam-se gratos por não precisar preocupar-se com detalhes como de onde vinha o dinheiro que lhes
enchia os bolsos regiamente.
Paul fora uma exceção. Possuía um talento especial para os negócios e vontade de exercer essa
vocação. Aos poucos foi galgando os degraus da diretoria e assumiu a presidência quando o avô se
aposentou. Chegou a cogitar a possibilidade de herdar a maior parte das ações, e assim ser o único acionista
capaz de dirigir as empresas. Não apenas ele, como a família esperava que isso viesse a acontecer, uma vez
que todos confiavam nele para continuar a encher seus bolsos com altas quantias.
Fora então que seu velho avô lhe pregara uma peça.
Na verdade, parte da culpa cabia ao próprio Paul. Sempre soubera que seu estado civil não
agradava ao
avô. Aos trinta e nove anos, a maioria dos homens já se casara ao menos uma vez. Mas não ele.
Ainda não encontrara a mulher certa. Talvez ela nem existisse. Não que soubesse descrevê-la, mas tinha
certeza de que nenhuma das conhecidas preenchia os requisitos. Nenhuma lhe despertara interesse. Não até
encontrar Bettina.
Jamais deveria ter se deixado seduzir por ela. Por outro lado, que homem são poderia resistir a uma
belíssima mulher, que invade um escritório vestida apenas com uma capa de chuva, meias de seda, ligas e
saltos altos?
Não, não era tão grave sucumbir a essa tentação, mesmo sabendo que muito daquilo fora obra de
cirurgiões plásticos. Seu grande erro fora declarar que fizera tudo por pura distração, e que era perda de
tempo esperar algo além disso.
Em pouco tempo, o que era diversão virou um pesadelo. Quando percebeu que Bettina poria as
coisas em outra perspectiva para a família, Paul tentou terminar com aquilo.
Na frente dele, Bettina encarou o rompimento com naturalidade. Mas a versão que apresentou à
família foi outra. No papel de vítima abandonada pelo primo, chorou meses e conseguiu que todos virassem
as costas a Paul.
Além disso, a família começou a considerar que um enlace entre ambos seria perfeito, ideal. Bettina
tinha doze anos quando tio Cari se casara com sua mãe. Dezesseis anos depois, tornara-se querida, parte
da família, até porque Cari não tivera filhos biológicos. O casamento entre eles faria de Bettina uma
legítima Spencer Barclay.
Na superfície, uma mulher perfeita, adorável, sofisticada, companheira, divertida... Porém, só
superficialmente. Sob aquele verniz se escondia um poço de ambicão, de inteligência fria e calculista. Era
dissimulada a ponto de enganar a todos, àté, e principalmente, os mais próximos. Só a prima Joyce enxergava um
pouco da verdade. Mas de que isso adiantaria? Bem casada com o responsável pela produção da fábrica, a padaria pro-
priamente dita, Joyce só pensava em ter o primeiro filho.
Se, em vez de ter bancado o cavalheiro, Paul tivesse contado ao avô, em detalhes, tudo o que acontecera
entre ele e Bettina, certamente não estaria naquela situação. Não havia escolha. A família dependia dele. E
Bettina usaria as ações que herdara da pior forma possível.
Paul passara meses procurando uma saída legal para que os negócios não fossem afetados por ela, mas
finalmente se rendera às evidências. Nada poderia fazer, a não ser casar-se com a prima.
Em especial porque aquele era um momento delicado. Os pães Barclay iriam ser distribuídos em todo o
país, e o sucesso dessa estratégia dependia de uma posição sólida e confiável da empresa. Isso faria a diferença
entre a fortuna ou a bancarrota.
Como acionista, Bettina começara a fazer uma série de exigências ridículas, e exorbitantemente caras. Fora
então que ele a pedira em casamento.
O momento da vingança chegara. E não bastava isso. Ela queria a revanche por tudo o que passara. Daria
uma chance a Paul, desde que ele se humilhasse perante toda a família e a sociedade.
Esse baile a fantasia era para isso. Se algo a desagradasse, no dia seguinte sua reputação estaria
arrasada. A própria Bettina teria o maior prazer em fazer isso.
Bem, se era esse o jogo, ele, Paul, também tinha seus truques. E aí entrava Cassidy Penno.
Mas não ia estragar, com essas considerações sobre negócios, um encontro com Cassidy. Tinha de parar de
olhar para ela com tanto interesse. Essa era a pior hora para se interessar por uma mulher.
Teria o cuidado de explicar a situação para Cassidy, em detalhes. Tinham potencial para transformar
aquele trabalho no começo de uma amizade agradável. Se fosse o caso, poderiam usufruir da companhia
um do outro, sem que isso afetasse a intimidade de ambos. Ou seja, sem envolvimento sentimental.
Poderiam ser amigos. Por que não? Almoçar com ela seria apenas um divertimento, nada além
disso. E ele poderia providenciar um cardápio que traduzisse essa intenção.
Planejar esse almoço o deixou animado. Homens prestes a se comprometer merecem um pouco de
diversão. Até homens casados fazem isso. Especialmente se a esposa for Bettina Lincoln.
Uma coisa, porém, preocupava-o, e cada vez mais. Temia não conseguir separar a obrigação da
diversão. Ou o possível do desejável.
CAPITULO II
Cassidy bufava enquanto os garçons iam e vinham dentro da loja. Sua mesa de trabalho estava
coberta de linho adamascado. Preocupada, mas também excitada, ela assistia a tudo.
Almoço, Paul dissera. Mas aquilo era um banquete: salada de frutas, pães crocantes, queijo brie,
carne à Borgonha e, para acompanhar, um saborosíssimo vinho francês. Na sobremesa, chocolate e creme.
E tudo servido por um garçom vestido de maneira impecável.
Cassidy sorria de prazer ao ver os pratos dispostos em fila sobre um aparador improvisado. Os
rechauds, que mantinham a comida quente, eram de prata.
Por que Paul Spencer agia assim?
Ela não passava da irmã de um de seus funcionários, mas recebia tratamento de rainha. O
comportamento de Paul era o de quem corteja uma mulher.
Sua primeira preocupação foi com William. O que o irmão diria?
Esqueceu o assunto quando Paul Spencer entrou na sala. Ele falava ao telefone celular, mas sorriu,
desculpando-se pela indelicadeza. Fez questão de que Cassy ouvisse o teor da conversa com sua
secretária.
— Certo, Gladys. Entendi. Vou desligar. Não, não voltarei à tarde. Anote os recados.
Guardou o telefone no bolso do paletó e observou Cassy. Ao vê-la ali, em meio a toda aquela
pompa, seu rosto se iluminou. Deu-se conta de que também ela sentia um imenso prazer por estarem
juntos de novo. Mas sua parte racional insistia em lembrá-lo de que era um empresário poderoso, que
contratara os serviços de uma profissional. E que ela o atendia por causa do pedido de William.
— Você não devia ter tido todo esse incómodo.
— Incómodo nenhum. — Ele inspecionou as travessas de comida. — Hum... Parece ótimo!
O garçom sorriu, satisfeito, enquanto afastava a cadeira para Cassy. Sem perceber, ao sentar, ela
bateu no pé da mesa, fazendo voar para longe os talheres da salada. Morrendo de vergonha, assistiu ao
garçom recolhê-los. Paul conteve o riso.
— Achei que fosse encontrá-ía fantasiada de salada, ou algo assim...
Cassy ficou ainda mais vermelha.
— Oh, eu não faria isso. — Ouvindo-o rir, sentiu-se mais à vontade para dizer: — Na verdade,
nunca ouvi falar de uma fantasia própria para almoços.
— Pode ser uma boa ideia para sua próxima coleção. — O jeito cómico e sério de Paul ao dizer
esse tipo de coisa era hilariante. Cassy logo começou a rir. — Agora está melhor. — Com os cotovelos sobre
a mesa, ele se aproximou de Cass.
O garçom os servia com elegância. E uma súbita timidez tomou conta de Cassidy. Sentia que Paul a
cortejava. Mesmo que repetisse para si mesma um sem-número de vezes que aquilo era apenas produto de sua
imaginação, que ele estava noivo, não conseguia relaxar.
— Quer ver meus esboços?
— Estou faminto. No momento, só quero comer. E olhar para você.
— Ah...
Completamente sem jeito, Cassy não sabia onde pôr as mãos, ou para onde olhar. Levou alguns
segundos até conseguir se concentrar na salada de frutas, que continuava intocada.
— Está tendo dificuldades com os esboços? — Paul perguntou entre uma garfada e outra.
Esse assunto a fascinava. Abandonando de novo os talheres, Cassy sorriu:
— Não, de jeito nenhum. E muito fácil imaginar você fantasiado.
— E isso é bom?
Como explicar-lhe como era fácil fitá-lo e vê-lo usando roupas de cossaco? Durante a pesquisa, ela
fechara os olhos e soubera exatamente o que desenhar.
— Sim, é muito bom. Quando crio uma roupa, penso num personagem para dar vida à fantasia.
Na maioria das vezes não há nada em comum entre o que eu imaginei e a realidade de quem vai usar o
traje. No seu caso, isso não acontece. Você é o personagem.
— Então acha que serei capaz de dar vida a seu talento?
— De certa maneira, sim.
O que ela queria dizer era que, ultimamente, Paul Spencer era sua única fonte de inspiração.
— Se você diz, eu acredito. — Paul estava grato a William por ter lhe falado de Cassidy, e
gostaria de poder estar à altura do talento da moça. Tudo o que emanava de Cass era tão doce e suave
que ele não sabia mais o que dizer para expressar seus sentimentos. — Por que você me faz tão bem à
alma?
— Eu?
Os olhos e sorrisos eram mais eloquentes do que qualquer palavra. Cassy nunca tivera um almoço
tão maravilhoso. Disse isso a Paul.
— Eu quis que fosse especial — confessou ele, olhando-a no fundo dos olhos.
E, se Tony não tivesse interrompido o enlevo, entrando estabanado com sua caracterização de
Charlie Chaplin, Paul a teria beijado. Foi isso que Cassy pensou, muito embora uma mesa os separasse.
Uma mesa pequena, bem dito. O garçom já tinha sumido com os pratos do almoço, e tudo estaria
perfeito se Tony não fosse tão irritantemente inoportuno.
— Telefone para o sr. Spencer.
A doçura dos olhos de Paul desapareceu imediatamente, dando lugar à irritação e ao
desapontamento. Por fim, resignado, perguntou:
— Quem é?
— Não perguntei. Mas a voz é de mulher.
A tensão ficou evidente na expressão carregada de Paul. Com gentileza, dirigiu-se a Cassy, já em
pé:
— Sinto muito, mas é melhor ver de que se trata.
— Fique à vontade. Tony lhe mostrará o caminho.
Paul seguiu o assistente com evidente mau humor. Fazer o quê? Cassy sabia que os problemas dele não
lhe diziam respeito. Estava ali apenas para fazer uma fantasia. Tendo isso em mente, dirigiu-se ao ateliê e
juntou os esboços que fizera. Para sua surpresa, em curto espaço de tempo Paul reapareceu.
Durante os minutos em que esteve com os croquis nas mãos, pouco ou nada se ouviu dele. Alguns
murmúrios, mas nada que indicasse sua opinião. Por fim, colocou-os na mesa e perguntou:
— Tem algum favorito?
Cassidy estranhou a pergunta, mas foi sincera:
— Este. — Apontou.
Paul olhou de novo, deu alguns passos para trás, olhou melhor e assentiu.
— Quando começamos?
— Começamos?
— Sim. Tenho de tirar as medidas, não é?
— Tem, mas...
Antes que ela pudesse ficar mais surpresa, Paul se adiantou:
—Se pudermos trabalhar sábado, seria ótimo.
Cassy costumava trabalhar só meio período aos sábados, mas sugeriu:
— Sábado à tarde?
— Excelente. Almoçamos de novo?
— Oh, não! —• exclamou ela com veemência, assustada com os gastos daquela refeição. —
Quero dizer, não é necessário. No máximo tomaremos um café.
Ele sorriu de novo.
— Certo. Vou providenciar.
— Deixe-me fazê-lo, por favor.
— Se insiste, tudo bem. Às três horas?
— Ótimo. Quando chegar, terá de apertar, a campainha, pois fecho a loja ao meio-dia, no
sábado.
— Vamos estar a sós então?
— Com certeza.
Alívio e cumplicidade estamparam-se no rosto de Paul quando disse:
— Até sábado, então.
Cassidy se pegou sorrindo sozinha ao voltar para o ateliê. Fosse o que fosse, era mútuo o que
sentiam. Então lhe ocorreu que deveria ter algo pronto quando ele voltasse, no sábado, e nem tinha se
lembrado de tirar as medidas. Talvez não conseguisse fazer tudo em tão pouco tempo. Mas confiava em
seu instinto. Mesmo com a agenda lotada, daria cabo da tarefa, e no fundo sabia que, quanto mais
depressa terminasse o trabalho, mais depressa teria Paul Spencer fora de sua vida.
O tempo frio, cinzento e chuvoso seria motivo mais que suficiente para fazer Paul ficar em casa e
cancelar todos os compromissos, mas não aquele. Argumentou consigo mesmo que o encontro era
profissionalmente importante, e que não iria à loja apenas para ver Cas-sidy. Mas não podia negar o desejo
de ver aquela figurinista interessante, dona de um excelente senso de humor, gentil e... tímida. Era bonita
de forma natural, sem artifícios, o que não deixava de ser engraçado para alguém com aquela profissão.
Só mesmo isso para tirá-lo de casa num dia como aquele, pensou enquanto tocava a campainha.
Flagrou-se, no reflexo da vitrine, a arrumar os cabelos em desalinho, preocupado com a aparência.
"Negócios", pois sim... Rindo de si mesmo, ele balançou a cabeça, imaginando o que teria Cassidy Penno
para fazer com que se comportasse como um adolescente apaixonado.
Tocou a campainha novamente, e pareceu-lhe uma eternidade até ouvir a fechadura ranger e estar
frente ao sorriso de Cassy.
— Olá — disse ela enquanto fechava a porta e apanhava-lhe o casaco.
— Oi.
A loja estava às escuras, e somente os reflexos da luz vinda de fora iluminavam o lugar. O suéter
amarelo de Cass tinha os punhos e o decote debruados em preto, realçando a pele clara do colo e o dourado
dos cabelos. O jeans justo modelava-lhe as pernas. Os lábios realçados pelo batom de cor suave e o
perfume, mistura de banho recém-tomado e um antigo Dior, magnetizaram Paul.
Perturbado, ele acordou do transe ao ouvi-la perguntar com voz preocupada:
— Algo errado?
— Não. — Forçando um sorriso, Paul percebeu que suas mãos tremiam. — Acho que uma
bebida quente me faria bem.
Num volteio galante, Cassy sorriu e ofereceu-lhe o braço.
— Por aqui, cavalheiro...
Paul riu e obedeceu. A seu lado percorreu a loja deserta, rindo das peças que via no caminho até o
ateliê. Um pouco daquela mulher estava em cada um dos ob-jetos. Ela dava um pouco de fantasia à
realidade coti-diana, e Paul se deu conta de que a invejava por isso.
Cassy havia posto a mesa do chá num dos cantos da sala. A toalha, linda, parecia um xale
antigo de seda colorida. Além disso, havia guardanapos de linho rendados e colheres de prata antigas. As
xícaras eram de fina porcelana chinesa. Um bule de cerâmica fumegava sobre um pequeno fogareiro de
bronze. Para completar, leite, creme, açúcar e um lindo prato de cristal cheio de guloseimas.
Era óbvio que ela tivera muito trabalho para fazer tudo aquilo, e só para agradá-lo. Muito mais
bonito e valioso do que o almoço encomendado por ele. E sem dúvida, muito, muito mais comovente, por ter
o carinho das mãos e do coração em cada detalhe.
— Está maravilhoso.
Cass ficou ruborizada.
— Obrigada.
Sorveram o café, saboreando os bolos e as tortinhas diminutas, cheias de cremes e frutas. Tão cheias
que Paul lambuzou-se ao provar uma delas. E, quanto mais ria, mais o creme escorria. Cassy tentou socorrê-
lo com um guardanapo, mas as gargalhadas impediram-na de ser eficiente.
— Isso, srta. Penno, é uma demonstração de como os meninos brincam... — disse ele,
espalhando creme no nariz de Cassy e colocando-lhe na boca um pedacinho de doce.
Ela ria tanto que nem percebeu quando Paul enlaçou-lhe a cintura. Só foi perceber o que estava
acontecendo quando se viu abraçada por ele.
Foi como se uma descarga elétrica os atingisse. Nesse instante, ao admirar os sensuais lábios
femininos, Paul soube quanto a desejava. A boca entreaberta e o hálito doce eram convites a um beijo.
O beijo que ele ansiava desde que a vira pela primeira vez.
Esqueceu tudo para deslizar a ponta dos dedos naqueles lábios antes de tê-los nos seus, no mais
doce beijo da sua vida.
Cassy se rendeu à urgência da carícia, entregue ao momento. Mas aos poucos foi se afastando, e,
com gestos precisos, limpou o rosto, evitando encará-lo. Ambos sabiam que era tolice começar algo sem
futuro, e aquele beijo fora um erro. Para ambos. Isso estava escrito no olhar verde, intenso, de Cassidy.
Paul sentiu-se péssimo.
— Desculpe-me.
— Tudo bem.
— Não, não está tudo bem. Costumo ter mais bom senso.
— Você deve ser se sentido acuado, só isso...
— William contou-lhe algo?
Cassy fez que sim.
— Ele me disse que, se você não desposar uma certa moça, o testamento de seu avô o
deixará sem muita coisa.
— William se referia a Bettina — contou ele com amargura.
— Bettina, a da festa a fantasia de Halloween — frisou Cassy.
Apesar de tudo, Paul sorriu. O jeito como ela falava era suave e gentil, como um raio de sol no meio
do temporal que viria a ser seu futuro com Bettina. No deserto que estava vivendo, Cassy era um oásis
bem-vindo. Como virar as costas para a única coisa boa que lhe ocorria?
Riram juntos, pelo puro prazer de rir. Paul esperou que ela terminasse seu café para dizer:
— Vamos ao trabalho? — Ficou impressionado com a eficiência com que Cassy lhe tirou as
medidas. — Você é mesmo boa nisso!
— Faz parte do meu trabalho.
Quando foi tirar as medidas do peito largo, Cassy soltou sem querer a fita métrica, e acabou
encostando o corpo no dele. Petrificada, deixou a fita no chão e ficou imóvel. Paul não sabia o que estava
acontecendo, mas resolveu confiar nela. Então Cass, como que acordando de um sonho, pegou a tira de
plástico e pôs-se a medir, de joelhos, a altura da calça.
Tomando-lhe as mãos, Paul abaixou-se, abraçando-a carinhosamente. Cassy abandonou a cabeça no
colo protetor e deixou-se ficar assim por longo tempo. De olhos cerrados, ambos permaneceram quietos,
num silêncio cheio de melancolia. Por fim, Paul beijou-a de leve na testa e disse:
— Não tenho esse direito. Não há nada que eu possa fazer. Os negócios dependem desse
casamento, e a minha família inteira depende disso.
— Eu sei — assentiu Cassy num murmúrio quase inaudível.
As mãos de Paul deslizaram pelas costas femininas. Apertados contra seu peito, os seios eram uma
tentação. Fechando os olhos mais uma vez, Paul imaginou o corpo nu a seu lado.
— Gostaria de tê-la conhecido há muito mais tempo.
— Antes de Bettina, você quer dizer.
— Ainda bem que você sabe de tudo — ele comentou, rindo com ar malandro. — Não sei se
aguentaria a tentação de mentir para tê-la comigo.
Um brilho de felicidade tornou ainda mais verdes os olhos de Cassidy. Brincando com a fita
métrica, ela baixou a cabeça, meio tímida, ao dizer:
— Talvez você nem me notasse.
— Não diga isso.
— Verdade. Sou do tipo de mulher que passa despercebida.
Acariciando-lhe o pescoço e os ombros, Paul sentiu a pulsação acelerada.
— Até mesmo para nosso amigo "Charlie Chaplin"?
Ela fez uma careta e explicou:
— Tony nunca se interessou por mim. Ele pensa que as virgens, como eu, são frustradas. Não
se arrisca a chegar perto.
Virgem! Paul quase teve um colapso. Nem se lembrava qual fora a última vez que ouvira falar nisso.
Acostumado com a sofisticação das mulheres manipuladoras, quase fora cruel com a mais doce das criaturas.
Talvez merecesse alguém como Bettina. Cassidy Penno merecia, com certeza, alguém livre para amá-la e
cuidar dela como um tesouro. Com voz embargada, disse-lhe:
— Prometa que vai se guardar para alguém melhor do que aquele impostorzinho.
— Tony Abatto? Prefiro entrar para um convento.
— Oh, não exagere.
Com ar solene, Cassy levantou a mão.
— Eu nem poderia. Não sou católica.
Riram mais uma vez. Então Paul se levantou, pegou a fita métrica e, com ar sério, pediu:
— Deixe que eu mesmo meço a calça.
Cassy concordou. Limitou-se a anotar as medidas.
— Não é preciso que venha aqui até o momento da prova. Não quero causar problemas
desnecessários.
— Esqueça. Quero vir.
— Então, vou cortar o tecido na segunda-feira. E agora, fora daqui. Ambos temos mais o
que fazer — brincou ela.
— Segunda-feira, às seis, estarei aqui. E depois jantaremos. Já estou ansioso por isso.
— Eu também. Bem, vou acompanhá-lo até a saída.
— Está bem.
A chuva cessara e um vento frio fazia a respiração sair em lufadas. Depois de fechar a porta, Cassidy
disse um simples:
— Obrigada.
E saiu caminhando.
Paul viu-a desaparecer na esquina e, respirando fundo o ar gelado, saboreou aqueles poucos instantes de
liberdade.
CAPITULO III
Ansioso por rever Cassy, Paul foi pontualíssimo na segunda-feira. Antes de cortar a fantasia,
Cassidy fez questão de que ele escolhesse os tecidos. Espalhados pelo ateliê, havia quatro combinações de
cores e tramas com detalhadas explicações sobre como e onde seriam usados e davam uma ideia do
resultado final.
Paul olhou-os de relance e perguntou:
— Qual você prefere?
Cassy apontou para uma combinação de tons de terra, azul e vermelho queimado. Por poucos
segundos Paul estudou a escolha antes de dizer:
— Perfeito! Agora vamos jantar, estou faminto.
— Você está sempre faminto?
— Ultimamente, sim. — Todo o seu apetite fora despertado na última semana. — Vamos,
pegue seu casaco.
Foram a um lugar que mais parecia uma casa no-turna. Passava das seis e meia e já se ouvia uma
banda de jazz animadíssima. Havia uma fila considerável para entrar.
Segurando Cassy pela mão, Paul deu a volta no prédio, em direção à porta dos fundos, local reservado
aos caminhões de bebidas. Um vozeirão os fez parar.
— Spencer! Por que não avisou que vinha? — Um negro, de braços abertos e sorriso idem, os
recebeu.
— Achei que podia arriscar, mas pelo visto não adianta chegar cedo... Nunca vi tanta gente a essa
hora.
— Deixe comigo. Quem é a bela senhorita?
Passando o braço pelos ombros de Cassy, Paul ficou feliz em apresentá-los:
— Esta é minha amiga Cassidy Penno. Cass, este velho malandro é Hoot.
— Amiga, hein? — Hoot comentou enquanto olhava para Cassidy. — Belo casaco. Gostei.
— Obrigada.
Ela sorriu, divertida com a figura grande e simpática. A roupa branca era de mestre-cuca, e nele
fazia bela figura.
— Bebem o quê? É por conta da casa — ofereceu Hoot.
— Estou dirigindo. Nada para mim.
— Não bebo muito, sr. Hoot — agradeceu Cassy.
— Só Hoot, sem o "senhor". Menina, gostei de você. Vai tomar um drinque especial, com pouco
álcool. Não aceito recusa.
— Fico lisonjeada.
— Vamos, sigam-me.
Por cima do ombro, Hoot lançou um olhar de aprovação para Paul, sem que Cassy percebesse. O corredor
levou-os à cozinha e a outros pequenos cómodos, até alcançar a porta do escritório de Hoot. Pequeno e confuso,
o aposento tinha uma escrivaninha e um balcão como móveis principais. Um sofá de couro surrado e banquetas
completavam o mobiliário. Nas paredes, fotos autografadas de grandes nomes do jazz. Cassy reconheceu a
maior e mais bonita delas, Billie Holiday, a cantora negra que sua mãe lhe ensinara a amar desde pequena.
— Cá estamos. Agora me contem... Como se conheceram?
— Meu irmão trabalha para Paul.
— Cassidy é minha figurinista.
Caíram os três na risada, em alto e bom som. Hoot mostrou que sua curiosidade não tinha sido
satisfeita com nenhuma das respostas. Paul pigarreou, mas Hoot foi mais rápido e sua língua afiada não
poupou ninguém ao dizer:
— Figurinista... Quer dizer que agora fantasia se chama figurino? Então Bettina pegou você
com essa história de baile à fantasia...
— Tenho saída?
Hoot juntou as mãos em sinal de contrição, e com deboche comentou:
— Coitadinho dele!
— Acho que vi seu nome na lista de convidados, se não me falha a memória... — revidou
Paul.
— Já tem fantasia, Hoot? — indagou Cassy.
— Claro, não está vendo? Vou de mestre-cuca.
— Espertinho...
— Já tem o chapéu? E seria bom uma grande panela ou frigideira para dar um toque extra.
— Grande ideia! Quanto ao chapéu, não tenho, mas posso comprar.
— Por que não aluga? Terei prazer em fornecer tudo por cinco dólares: chapéu, frigideira e
maquiagem.
— Otimo negócio. Fechado, senhorita. — E, olhando para Paul: — Essa moça é um doce. Bem
melhor do que a enjoada Bettina.
— Acho que não vamos ficar para o jantar — disse Paul, com azedume.
— Deixe de besteira, meu amigo. Terão a melhor mesa da casa, ou não me chamo Hoot.
Olhe, garota, a família desse rapaz é formada por um bando de sanguessugas, se quer saber.
— Hoot...
Mas o protesto de Paul não adiantou de nada.
Hoot estava disposto a tornar pública sua opinião sobre os Barclay.
— Há muito tempo houve uma luta entre eles para decidir quais seriam os novos rumos dos
negócios da família. Como nenhum deles parecesse capaz de tocar a empresa, pegaram nosso amigo aqui
para o sacrifício.
— Sacrifício?
— Não é bem essa a verdade. O que aconteceu foi que decidi tomar a frente dos
negócios para defender meus interesses. Ninguém me obrigou a nada. Ao contrário.
— Sacrifício, sim, foi o que eu quis dizer — afirmou Hoot. — Os negócios vão bem porque você
se mata de trabalhar. Enquanto isso, os outros membros da família vivem como nababos, à custa do seu
esforço. Para Paul ficam as dores de cabeça, e para eles vão os cheques polpudos.
— Mas tenho liberdade total na empresa.
— É assim que vê as coisas? Para mim você está de mãos atadas. — E olhando para Cassidy:
— Abandonaram-no sozinho e fazem de conta que não percebem o que está acontecendo. Esse casamento
é pior, para meu amigo aqui, do que o cadafalso.
— Hoot! — censurou Paul.
— Está bem, a moça em questão é uma dama... — irónico, Hoot corrigiu.
— Chega de sermão. Estou faminto e não pretendo arruinar minha noite com essa conversa.
Posso jantar aqui ou não?
— Por favor... E não se esqueça de meu chapéu, senhorita. Mande-o por Paul. E pode cobrar dele
também.
Cassidy riu, divertida, enquanto era conduzida para o salão. No meio do caminho, Paul tomou uma
atitude inesperada: empurrou-a contra a parede e tomou seu rosto nas mãos. Foi tudo muito rápido, mas
mesmo assim Cassy sabia o que ia acontecer.
Não ofereceu resistência ao longo e ardente beijo. Um sorriso bailava no semblante feminino.
Trazendo-a para mais perto, num abraço doce, Paul sussurrou em seu ouvido:
— Por que me deixou fazer isso?
— Não pude evitar.
"Eu também não", Paul pensou, fechando os olhos.
Era injusto de sua parte. Era injusto para ambos. Mas ao abrir os olhos e ver um sorriso brilhante
naquele rosto lindo, sua respiração ficou suspensa. Uma sensação incomparável de perda, desespero e
impotência o dominou.
Em silêncio, tomou-a pela mão, e juntos entraram no salão cheio de gente. Risadas se
misturavam ao som de um piano. Por entre as muitas mesas, Paul se esgueirava, levando Cassy. Num
canto privilegiado havia três mesas vazias. Ele pendurou os casacos e a bolsa de Cassy e puxou a cadeira
para que ela se sentasse. Flores e velas deixavam o ambiente ainda mais agradável.
— E então, gostou?
— Muito. Este lugar é incrível. Seu amigo também.
— Esta mesa é reservada para os convidados.
Quem senta aqui come o que ele mandar. É autoritário até nisso.
Cassy batia os pés no chão, ao compasso da música, deslumbrada com tudo. Nem percebeu que a
garçonete se aproximara e falava com Paul. Mas teve que prestar atenção no copo colorido que foi colocado
à sua frente.
— O sr. Hoot já fez os pedidos para vocês. O drinque é uma das criações dele. Espero que goste.
— E, olhando para Paul: — Faça-nos um favor: assuma o piano enquanto o jantar não vem. Ninguém
aguenta mais esse moço.
Paul riu alto e disse:
— Por mim, tudo bem. — Mal a moça saiu, e Paul já estava de pé, puxando Cassidy. — Já que
não posso escolher meu jantar, pelo menos escolherei a música.
Cassy o seguiu até o piano. Ele a acomodou numa banqueta e, sem cerimónia, tocou uma versão de
"Old Man River". Maravilhada com o talento musical de Paul, ela levou alguns minutos para perceber
que todo o salão estava ouvindo em silêncio. Para deleite geral, outras três canções foram executadas.
Mas o jantar os esperava e a audição terminou. Sob aplausos, Paul deixou o piano. Só tinha olhos para
Cassidy, que batia palmas.
Por alguns instantes ele conheceu a felicidade. Naquele segundo, sua vida pareceu perfeita.
Cassidy entrou em casa em estado de graça. Fora uma noite inesquecível, e ela queria prolongar a
sensação de felicidade. Pegou no colo um enorme gato amarelo que ronronava, enroscado em suas pernas.
— Olá, Sunshine. Vovó Anna deu-lhe o jantar?
Brincandt) com o bichinho, Cassy foi até a cozinha, onde "vovó Anna" tinha deixado um bilhete e
uma fita em torno da geladeira. Uma das manias da mãe de Cassidy era a filosofia oriental, e segundo ela a
casa precisava ser "purificada". Professora de Tai-chi-chuan, versada nos rituais chineses, vegetariana
radical e tendo sua própria visão das coisas, ela não poupava críticas aos filhos, e especialmente ao ex-ma-
rido, Alvin, que aos sessenta anos se juntara a um grupo de motociclistas e deixara crescer os cabelos,
usando sempre rabo-de-cavalo.
Rindo de si mesma e da família pouco convencional que tinha, Cass pensou que talvez não fosse má
ideia agradar sua mãe e tentar a tal "purificação" da casa.
O som estridente da campainha a tirou desses devaneios. O relógio do microondas marcava dez
horas, tarde demais para qualquer visita. Na ponta dos pés, ela atravessou a sala e pelo olho mágico
verificou quem a procurava tão fora de hora. Com o coração aos pulos, abriu a porta para Paul.
— Oi! Quer entrar?
Ele balançou a cabeça, sério.
— Nós não combinamos quando nos encontraremos de novo.
— A primeira prova, claro! Deixe-me ver... quinta-feira não... Que tal sexta?
— Não. Falta muito tempo para sexta.
— Oh...
Cassy sentiu um arrepio. Por um lado era ótimo ouvi-lo dizer isso, mas por outro era impossível
aprontar antes disso a roupa.
— Tome café da manhã comigo na quarta-feira, e provarei a roupa na sexta.
— Café da manhã?
— Só a convidei para o café, não para passar a noite comigo. Por que está tão surpreso? Já
almoçamos, jantamos e tomamos chá juntos. Só falta mesmo o desjejum.
— Que seja — assentiu Cassy com visível alegria.
— Mas eu preparo tudo. Sete horas é muito cedo?
— Perfeito.
Antes de partir, Paul tomou-lhe o rosto nas mãos e fitou-a por algum tempo, silenciosamente.
Beijou-lhe a testa com suavidade e saiu.
Pela segunda vez naquela noite, Cassy trancou a porta e ficou pairando nas nuvens.
Anna apareceu na porta da cozinha, atraída pelo cheiro de bacon e ovos que se espalhava pelo
ambiente. Tinha as mãos na cintura e olhar de poucos amigos. A cabeleira grisalha presa numa longa
trança e o longo vestido de algodão azul davam-lhe uma aparência exótica, reforçada pelos brincos indianos
de prata.
— O que está tentando fazer? Envenenar a si mesma ou enfumaçar a casa toda?
— Digamos que estou tentando preparar um desjejum decente para um amigo — respondeu
Cassy.
— Envenenando seu amigo com carne de animais mortos?
— Mamãe, não posso comê-los vivos.
Anna estranhou a filha dizer aquilo. Afinal, sempre guardava para si os comentários jocosos. Uma
energia diferente emanava dela.
— Seria um amigo... do sexo masculino?
— Seria. Mamãe, por favor, tenho vários amigos. E café da manhã não quer dizer que dormi
com ele.
— Sei disso. Não sou tão preconceituosa como imagina. — E, mudando de assunto: — Deixei
um bilhete para você ontem.
— Pode purificar a casa quando quiser, desde que não seja agora.
— Obrigada. Farei isso, mas é melhor que não esteja por perto. Seu ceticismo atrapalha o fluxo
energético.
Não tiveram tempo para dar prosseguimento à conversa. A campainha soou, anunciando que o
convidado chegara. Atrapalhada entre a frigideira, o forno e a cafeteira, Cassidy tropeçou em duas
cadeiras e quem atendeu a porta foi Anna.
— Como vai, meu jovem? Sou Anna, mãe de Cassidy.
Paul estendeu-lhe a mão num gesto cortês, porém no rosto estava estampada sua surpresa. E sua decepção.
— Paul Spencer, muito prazer. Devo concluir que é mãe de William também. Eu e seu filho
trabalhamos juntos.
— Estranho, muito estranho... Em que dia o senhor nasceu?
— Dezessete de janeiro.
— 17--- Vou verificar. — Com o olhar perdido, Anna dirigiu-se à cozinha. — Vai comer coisas
mortas, sabia?
Cassidy acompanhou-a até a porta e assim que a viu desaparecer na rua, olhou para Paul.
— Desculpe-me, mamãe é um pouco excêntrica. Aliás, muito excêntrica.
— O que ela quis dizer com comer coisas mortas?
— Esqueça. Minha mãe é naturalista radical.
Paul caminhava pela cozinha, observando tudo com evidente ar de satisfação.
— Ovos, bacon, biscoitos caseiros... Não acredito que tenha feito geléia de amora! Eu adoro!
Cass não conseguiu esconder seu orgulho com o elogio.
— Minha avó me ensinou.
Eleja estava se servindo das guloseimas, com apetite de glutão. Entre uma garfada e outra, falou:
— Você não costuma comer isso sempre, não é?
— Quase nunca.
— Foi o que imaginei. Ninguém pode ter um corpo como o seu sem fazer sacrifícios.
— Como assim? — Corando até a raiz dos cabelos, Cassy não sabia onde pôr as mãos.
— Seu corpo é maravilhoso. Não só o corpo, tudo em você é lindo.
— Obrigada.
Ela não estava acostumada a ouvir elogios. Principalmente vindos de um homem como Paul.
Natural que reagisse com timidez.
— William nunca fala muito da família. Sempre estranhei isso, e agora muito mais.
Conhecendo você e sua mãe, não entendo mesmo!
— Minha mãe é "esquisita" demais para os padrões do meu irmão. Confesso que papai
também não se encaixa na "normalidade". Vive para se divertir. Ah, e William não suportou o divórcio
deles.
— Acho que vou gostar de seu pai.
— Com certeza. Mas minha mãe é o oposto disso. Para ela há coisas mais importantes que
diversão.
— Acho que pode haver um meio termo.
— O que não o impediu de se sacrificar pelo trabalho.
— Às vezes é preciso.
— Fale-me sobre Bettina.
Mesmo surpreso com o pedido, Paul relatou toda a história e terminou dizendo:
— Chego a pensar que tudo, para ela, baseia-se na vaidade. Se não fosse seu orgulho ferido,
nada disso estaria acontecendo. Mas agora é uma questão de honra casar comigo.
— Eu jamais conseguiria aguentar uma situação dessas.
— O que estamos vivendo é muito pior. Escute-me: se quiser que eu suma da sua vida, peça e o
farei. Só não quero magoar você.
— Não quero que você suma.
— Que bom! Preciso da sua amizade.
— Não somos amigos. Nenhum amigo me beijou como você.
— Sei. Vamos parar com isso.
— Não, não vamos. — E, para provar o que dizia, Cassidy uniu os lábios aos dele, num beijo
apaixonado.
CAPITULO IV
Entre sedas, cetins, cristais reluzentes, flores e champanha circulavam os convidados do baile à fantasia
de Bettina Lincoln. Pierrôs, colombinas, zorros e outros personagens se misturavam no cenário luxuoso criado pela
imaginação e pela riqueza da anfitriã.
Paul Spencer Barclay podia não ter o glamour de Tony Curtis, mas estava mais do que convincente nos trajes
de cossaco. Viril e charmoso, parecia vindo das estepes russas. A habilidade de Cassidy em dosar criatividade e bom
senso ficara provada nos detalhes, como as botas com aparência gasta ou o sabre autêntico que pendia do cinturão de
couro envelhecido.
Com um sorriso no rosto, Paul saboreava o champanha quando Bettina fez sinal para que se juntasse a
ela. Paul olhava ao redor, e convenceu-se de que Cassy estava certa ao afirmar que, no fundo, somos muito
semelhantes à fantasia escolhida. No caso de Bettina, isso estava evidente. Vestida de princesa encantada, agia
como se o mundo fosse seu conto de fadas. Bem, só uma varinha de condão faria o carpete branco ficar limpo
depois daquela festa.
Bettina tomou-o pelo braço. Dirigindo-se a um senhor vestido de George Washington e a um casal com
trajes pré-históricos, apresentou-o:
— Macie e Marc Gladsden, este é Paul Barclay Spencer, do pastifício Barclay.
— Para Bettina, ele seria sempre Paul Barclay Spencer, do pastifício Barclay. Se fosse apenas Paul
Spencer não estaria ali, servindo como seu bichinho de estimação...
— Como vão?
O casal o via como um objeto, e como tal ele se portou. Enquanto Bettina fingia não perceber que Macie
não tirava os olhos de Paul, ele se divertia com a situação. Conhecendo bem a alta sociedade, sabia que os
Gladsden não faziam parte dela. Ouvira muitas histórias sobre as "festinhas de embalo" organizadas pelos
dois.
Não eram os únicos amigos de Bettina a fazer parte desse universo um tanto ou quanto ousado para
os padrões normais. Ela mesma tinha uma certa tendência para se juntar ao lado escandaloso da sociedade.
Mas Paul nunca imaginou que pudesse se misturar à gentalha. Essa espécie de atitude era inaceitável
para qualquer membro da família, mas ele não tinha o direito de interferir na vida de ninguém. Mesmo
que naquele momento estivesse muito incomodado.
Aquilo se estenderia por muito mais tempo. Bettina não parecia disposta a deixá-lo. Tanto que,
passados alguns minutos, tomou-o pelo braço e, com uma desculpa qualquer, despediu-se do casal.
De braços dados com Paul, ela fez questão de desfilar por toda a festa, sorrindo, chamando
atenção dos convidados.
Mais alguns metros e Paul teria desistido, mas, para sua alegria, William Penno, seu fiel assessor,
surgiu, elegante numa versão de Daniel Boone. Bettina abandonou-o para voltar ao amigos.
— Cuide bem de seu chefe, William. Confio em você.
— Senhorita, ordene e eu farei — respondeu ele num tom de voz obsequioso.
Paul não suportava o jeito como o irmão de Cassy tratava Bettina. O servilismo dos gestos o
incomodava tanto quanto o esnobismo. Com ele, era diferente. Exigira ser chamado pelo primeiro nome
depois de oito meses de convivência diária, mas nunca soube que isso não significara, para William, que
tinham se tornado amigos.
Pobre rapaz, jamais entenderia que uma amizade verdadeira e leal podia ser muito mais valiosa
que sua postura servil e subserviente... Portava-se como um subalterno, e isso nunca mudaria.
Como dois irmãos podiam ser tão diferentes? Cassy era espontânea, autêntica...
Ele ponderava a respeito quando ouviu William dizer:
— Se me permite, devo confessar que está muito bem com essa roupa.
Sorrindo, com genuína gratidão no olhar, Paul apertou a mão do funcionário.
— Agradeço muito por ter me indicado sua irmã.
Obrigado mesmo.
— Oh, por favor... Nós é que agradecemos pela oportunidade de servi-lo.
Paul olhou-o de alto a baixo e perguntou-lhe:
— Ela escolheu sua roupa?
— Não. Veio de lá, mas eu escolhi.
Era o que Paul imaginava. Na certa Cassidy teria optado por um pajem medieval. Ela também era
da opinião que nada pior do que um homem servil e sem amor-próprio.
Bettina interrompeu o diálogo, chamando o noivo novamente, dessa vez para apresentá-lo a um
casal idoso e simpático. O marido confessou que viera quase por dever social, esperando se aborrecer, e
para seu espanto estava se divertindo muito.
Submetendo-o a tais provações, Bettina esperava vê-lo prostrado a seus pés. Naquele momento,
por exemplo, ela insistia em contar a ideia "brilhante" que acabara de ter.
—Um baile à fantasia muito maior, patrocinado pela empresa! — exclamou, animada. — Será
uma grande festa. Convidaremos os clientes e poderemos atrair a atenção dos distribuidores nacionais.
Faremos o lançamento oficial da campanha publicitária.
Essas palavras atingiram-no como torpedos. Conhecia a prima o suficiente para saber que ela
tramava algo. E, pior, com os negócios da família. Cauteloso, argumentou:
— Uma festa desse porte custa muito caro.
— Temos a verba da publicidade. Não seria um gasto inútil. Sem mencionar o que podemos
lucrar com o contato direto com clientes antigos, bancos, fornecedores... Você me diz sempre isso.
Nesse ponto ela estava certa. Paul sempre reclamava que faltava, à empresa, um toque pessoal, e
essa era uma excelente chance. Tinha que admitir que estava tentado pelo plano. Só não concordava com o
baile à fantasia. Por que não uma bela festa?
Mesmo animado, não demonstrou interesse imediato. Bettina não teria esse prazer. Foi então que
teve uma ideia:
— Se William nos auxiliar nisso, será muito mais fácil.
Sim, Paul decidira concordar com o baile à fantasia. Mas por um único motivo: Cassidy Penno. Que
se danassem os motivos reais de Bettina.
— Eu? — indagou William, surpreso.
— Precisamos fornecer as fantasias para os convidados de fora. Ou espera que cruzem o país
com esse tipo de traje na mala? E, para nossa sorte, sua família tem a melhor loja do género.
— Na verdade, o negócio é de minha irmã...
— Um lugar ótimo! — interveio Paul, enfatizando seu interesse na loja e não em Cassy. —
Fazem tudo, da criação ao acabamento. E possuem um estoque enorme. Só não sei se dispõem de uma lista
de tamanhos e modelos oferecidos.
— Tenho certeza de que sim. Eu mesmo ajudei a informatizar a loja — disse William.
— Pronto. Achamos o homem para providenciar esse detalhe da festa! — E, tentando parecer
casual: — Procure saber se sua irmã pode falar conosco na segunda-feira de manhã.
— Garanto que sim.
Bettina estava surpresa, mas entendeu como mais uma vitória sobre Paul e, exultante, lançou-lhe
um sorriso magnânimo antes de dizer:
— Bem, fico contente ao constatar que desta vez não iremos brigar. Como vê, tenho boas
ideias também.
Paul assentiu, sorrindo, e percebeu que até aquele momento o velho casal ficara abandonado à
própria sorte. Bettina já abandonara a roda para alardear sua conquista. Então coube a William fazer o
papel de anfitrião. Ele era ótimo nisso, e Paul tinha pressa em comunicar a Cassy sobre seu plano.
Já se despedira de todos quando William o segurou pelo braço e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Será que não devemos procurar uma loja maior?
— Nem pense nisso. Nenhuma loja grande nos atenderia tão prontamente. Faltam dois
meses para o ano-novo.
Mortificado, William gemeu e ousou dizer:
— Dois meses! Eu conheço minha irmã e...
— Preciso dela.
"Preciso mesmo", pensou.
Sem perceber, Bettina lhe dera a chance ideal para continuar a ver Cassidy. O resto poderia ser
resolvido.
Passava muito da meia-noite quando o telefone tocou. Cass, embora acordada, não atendeu
imediatamente. Estava imaginando como fora a festa e se Paul formalizara o noivado com Bettina Lincoln.
Tolice pensar assim, mas sentia que isso daria fim a seu idílio. Quando atendeu, não podia imaginar
que ouviria justamente a voz dele.
— É você mesmo?
— Sei que é tarde, mas o que tenho a dizer não pode esperar.
— Tudo bem. — Com o coração apertado, Cassy se preparou para ouvi-lo falar que não
poderiam mais se ver.
— Preciso que me ajude, e muito.
Abrindo os olhos, sentindo o sangue latejar, ela disse a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Sabe que farei qualquer coisa.
— Otimo. Eu contava com isso.
Agarrando o telefone com ambas as mãos, Cassy mal controlava o entusiasmo.
— Só me diga o que preciso fazer.
— Não sei exatamente, mas é muita coisa. E teremos que nos ver sempre.
Confusa, Cassy pôs-se de pé. Pelo que conhecia de Paul, tudo era possível.
— Espere! De que estamos falando?
— Do baile de ano-novo das empresas Barclay, um evento publicitário que meus sócios
inventaram e com o qual concordei. Um baile à fantasia. Outros detalhes William poderá fornecer amanhã.
— Quer dizer... este ano-novo?
— Achei que deveria ser informada desse pequeno detalhe.
— Acho que não será possível.
— Esse problema é de Bettina. Meu único problema é arrumar as fantasias dos convidados de
fora.
— Agora ficou claro. — Cassy não sabia se ficava feliz ou preocupada com a atitude de Paul.
Então foi direta: — Vocês ficaram noivos hoje?
— Claro que não!
Livre do peso, e achando-se um pouco tola, ela tentou se desculpar:
— Achei que... Bem, William me disse que era esse o motivo do baile e... quer dizer...
— Não há nenhum romance com Bettina. Nenhum de nós ama o outro. E uma questão de
orgulho ferido para ela, só isso.
— É que eu pensei que ela o amasse e... Bem, ela já tem dinheiro e poder com a herança. Por
que tanto empenho no casamento?
— Bettina quer ser um membro da família, uma Barclay legítima. E também restaurar seu
amor-próprio ferido.
— E, ao obrigar você a casar-se, conseguirá tudo isso?
— Ela conseguiu me encurralar. No momento, tudo o que Bettina quer é me mostrar que
venceu. Deseja que eu... hum... aceite meu destino.
Cassidy entendeu.
— Essa é a coisa mais triste que já ouvi.
— Não, Cass. A coisa mais triste é amar alguém que nunca será seu.
Algumas palavras não precisam ser ditas. Cassy já sabia de quem Paul estava falando. E ele tinha
razão.
— A melhor coisa a fazer agora é dormir.
— Certo. Boa noite.
— Boa noite, Paul.
— Vejo você logo?
— Logo, logo.
Ao desligar o telefone, Cassy sentiu que o deixara mais calmo. Surpreendentemente, em poucos
minutos dormia profundamente. Sentia-se em paz. Por algum tempo, teria Paul a seu lado, e seriam
mais do que "bons amigos". E isso era além do que podia almejar.
William conseguiu marcar a reunião com Cassidy, como prometera a Paul. Esquecido de que, antes de
ser funcionário da Barclay, era irmão de Cassy, continuava agindo com a prepotência costumeira. Celular em
punho, confirmava os números e dirigia-se para Paul:
— Bettina calculou cerca de trezentos convidados.
Gladys terá os nomes até a tarde, assim que elaborarem a lista oficial. Em um dia ou dois teremos a
listagem de idades, sexo, cor e tamanho aproximado de todos eles. Bendita seja a informática!
Paul forçou um sorriso.
— Vamos ao que interessa. — Virou-se para Cassidy.
— Você acha que terá dificuldade em conseguir roupas para toda essa gente?
Consultando o computador, ela respondeu:
— Não. Temos muita coisa em estoque e pouca procura para o reveillon. Se fizer a reserva
agora, terá tudo o que deseja. Mas seria melhor inventar um tema para a festa, algo como "velho Oeste" ou
"império Romano". Pela minha experiência, facilitaria a escolha das pessoas, evitaria rivalidades e
tornaria mais fácil a decoração.
— Faz sentido. Mas onde arranjaríamos local e cenários em tão pouco tempo?
— Um único tema me dá chance de negociar com todas as lojas.
William não quis ficar atrás da irmã, e sugeriu:
— Temos a velha fábrica. E grande, tem estilo e está vazia. Quer lugar melhor?
O olhar de Paul buscou socorro no de Cassy. Não fazia a menor ideia do que era razoável ou não.
Mesmo assim, deu seu palpite:
— E velho, antigo mesmo. Está sujo e de bom só tem a solidez das paredes. Ah, e o
tamanho.
— Parece muito bom. A srta. Bettina não precisa ser consultada?
— Antes quero ter algo concreto para mostrar. Alguma ideia de tema?
— Quem fundou o pastifício Barclay, e quando? — indagou Cass.
— Meu bisavô, em 1902. Por quê?
— Porque William tem fascinação pela saga da empresa, e muitos outros devem ter também.
Estamos no fim do século. Que tal voltar ao começo de tudo?
— Justamente agora que estamos mirando o futuro?
— bradou William. — É um contra-senso. Nosso alvo é atingir proporções nacionais. Essa estrutura
familiar está ultrapassada.
— Will está certo — assentiu Paul. — A Barclay está a um passo da nova era.
— Quer coisa melhor do que voltar ao início antes de olhar para o futuro? Dálias, 1902. O
começo de uma civilização, a nossa. "Quem não teve passado, não terá futuro." — A voz de Cassidy era
puro entusiasmo.
Paul estava inebriado com a ideia, com Cassidy, com tudo à sua volta. E o olhar denunciava seus
sentimentos. Queria ser feliz e esquecer o resto.
As ideias pululavam. William queria fazer um histórico da empresa com fotos no saguão da fábrica.
Cassidy sugeriu que Paul representasse o papel do patriarca Barclay. No auge da animação, ele não
resistiu e, juntando os dedos, jogou um beijo na direção dela.
— Brilhante! — Cassidy foi rápida ao notar a reação de William. O olhar do irmão ficou frio, e
a desaprovação era patente mesmo quando Paul abraçou os dois, repetindo: — Os brilhantes irmãos Penno!
O riso espontâneo de Paul não impediu Cassidy de notar em seu irmão traços de preocupação. Algo
o incomodava. Ela, porém, não se abalou. Tinha coisa mais séria em mente.
Não foi preciso esperar muito para obter as respostas. Na noite seguinte, William apareceu de
surpresa na casa de Cassidy, agitado e cruel, disparou suas farpas logo na entrada:
— E tudo culpa sua. Vai acabar com a minha carreira!
— Posso saber do que está falando?
— O plano era aproximar Bettina e Paul, não o contrário.
Cass respirou fundo e contou até dez. Levou o irmão à sala íntima, esperando que ele se acomodasse.
Acendeu o abajur, abriu um vinho do Porto e só depois de servi-lo, em copos de cristal belga, falou:
— Agora, com calma, pode me dizer o que houve?
—E Paul. Só pensa no baile. Esqueceu Bettina e, para se vingar, ela o atormenta com a
decoração a cada minuto.
—E o que eu tenho a ver com isso?
—Não se faça de sonsa, Cassidy Jane Penno. Não sei como, mas parece que você andou
virando a cabeça dele.
—Sou paga para dar ideias. Se isso afeta a cabeça
de seu chefe, não é problema meu.
— Que tipo de ideias? A meus olhos está claro que ele... Bem, gosta de você.
— E daí? Para seu governo, não é o único. Ou sua irmã parece um monstro? Se veio para
me dizer isso, ti, pode ir para casa.
Por um longo momento, William ficou sem ação e encarou sua irmã.
—Sabe que não existe chance. Ele está comprometido com outra.
Atónita, Cass sentiu mais que censura naquele comentário. Havia a preocupação legítima de
irmão mais velho.
— Ainda não está.
— Não acredito que você pensa que pode competir com Bettina Lincoln! Ela é sofisticada,
interessante, alta, loura... o tipo de mulher que faz um homem enlouquecer. E, mais que isso, é
poderosa. Nunca vai deixar que você ou qualquer outra mulher roube-lhe Paul.
Cassidy queria dizer que ele estava errado, e que Bettina ainda não possuía Paul. Mas no íntimo
concordava com William. Tinha quase certeza de que algo mais do que os negócios da família uniam os
dois.
— Sou sua irmã! Será que isso não conta nada? Deixe um pouco de lado a "magnífica"
Bettina e pense em mim. Ou em você.
— Está certo. Não posso ficar amarrado desse jeito a Paul.
— Exato. Pense neles como uma fonte de rendimentos para nós, e temporário. — E, com ar
inocente: — De mais a mais, foi por sua causa que eu o atendi.
— Só lhe peço uma coisa: não podemos deixar Bettina à margem dos acontecimentos. Ela
precisa ser a estrela dessa festa. Faça com que isso aconteça. Sei que vai armar uma pequena peça de
teatro para contar a história da empresa, e que Paul será o velho Barclay. Pois use a criatividade para
colocar Bettina como a mulher que fez o grande homem. Dê um jeito. Escreva, crie, dinheiro não é
problema. Não saio daqui sem um texto para Bettina ler amanhã. Chame seus amigos de teatro, faça o
que quiser. Mas faça.
Dois telefonemas e Tony e um amigo redator estavam lá, com pizzas e disposição. Como se fosse um
desafio para seu talento e caráter, Cassidy produziu naquela noite um texto completo, com tudo: marcação,
iluminação, trilha sonora. Como figura central, a esposa fiel e incansável, abnegada e brilhante: o papel de
Bettina,
Quando terminou, soube que fizera aquilo por Paul. Por causa do amor cada vez mais intenso que
nutria por aquele homem. Se isso o ajudasse em algo, teria valido a pena.
CAPITULO V
— Achei as fotos! — disse William, tirando da pasta um velho álbum.
Cassidy, Tony e os outros três rapazes do curso de teatro levantaram os olhos para ver do que se tratava.
— Há uma foto da casa do bisavô de Paul, em que ele aparece com a esposa.
Cassidy juntou as mãos, agradecida.
— Graças aos céus!
— Não vão acreditar, mas o velho Barclay fazia propaganda do pão já nos anos vinte. Aqui, eles
estão inaugurando a terceira loja.
Aquele era o material de que Cassidy precisava para a ambientação do baile e, especialmente, para sua pe-
quena peça de teatro sobre o patriarca Barclay. Entusiasmada, revirava o material que lhe daria subsídios para o
trabalho.
Estavam empenhadíssimos na produção da peça. Havia quatro dias que não faziam outra coisa.
Paul chegou nesse instante, furioso. Acabara de falar com alguém no celular.
— Essa foi a coisa mais estúpida que já ouvi em toda a minha vida! — Olhando para todos,
explodiu:
— Alguém precisa tomar, conta desta loja. Há clientes esperando!
Tony saiu correndo antes que a fúria de Paul desabasse nele. Os outros três jovens seguiram-no.
— E então? Bettina gostou da peça? — indagou William.
O coração de Cassidy ficou apertado. Trabalhara muito naquele roteiro. Conseguira contar a
história do patriarca Barclay, colocando Bettina no papel da bisavó de Paul. E, se fosse preciso reescrever
algo, estariam perdidos. Não haveria tempo.
— Bettina se recusou a fazer a peça. Alegou que isso arruinaria sua imagem — vociferou
Paul.
— Mas como? É o papel principal! Sua bisavó foi a responsável pelo desenvolvimento da
empresa!
Paul levantou o dedo em riste em direção a William, irritado.
— Exato! Ela morreu aos noventa e quatro anos, ativa e lúcida. Trabalhou para que
tivéssemos uma fábrica, ao invés de muitas padarias. Enfim, construiu tudo o que temos.
William balançou a cabeça, desalentado.
— Não entendo. A srta. Lincoln devia estar orgulhosa pór representar esse papel.
Mãos na cintura, Paul disse em tom sarcástico:
— A srta. Lincoln não tem muita coisa na cabeça. O que a incomodou foi a parte em que é
uma senhora idosa. Usando as palavras dela, uma velha.
— Só no final. Começamos com a personagem aos vinte anos, e recém-casada! — argumentou
Cass.
— Isso não faz diferença! — Paul continuava inconformado. — Bettina teme que a maquiagem
estrague sua pele, e não quer parecer velha. Ponto final.
Cassidy parou por alguns minutos, para pensar naquilo tudo. Nenhuma mulher do mundo seria
vaidosa a esse ponto. Havia algum outro motivo. William mostrava-se tão estarrecido quanto ela, mas, como
sempre, tinha um ponto de vista conciliador:
— Talvez a srta. Lincoln não tenha a dimensão exata do papel. Enquanto você sai depois da
segunda cena, ela continua até o fim da peça.
— Esqueça. Bettina se recusa e pronto! Essa mulher me tira a vontade de viver! — confessou
Paul.
— E agora? O que vamos fazer? — William perguntou.
Era a deixa que Paul esperava. Um brilho maquiavélico surgiu em seu olhar quando fixou-se em Cassy.
— Vamos achar alguém para substituir Bettina. E sei exatamente quem.
William Penno rebelou-se instantaneamente.
— Você não está sugerindo que...
— Oh, eu não ousaria — argumentou Cassy, entendendo que o papel sobraria para ela.
O charme e a postura de Paul Spencer Barclay eram imbatíveis nos negócios, diziam todos. Valendo-
se desse talento, ele se aproximou de Cassidy, tomou sua mão e foi direto ao dizer:
— Sei que estou pedindo demais da nossa amizade, mas preciso de você. Saberei recompensar
seu trabalho, prometo.
— Não é uma questão de dinheiro.
— Tenho certeza de que não. — Sua voz tornou-se suave. — Mas não tenho outro modo de
expressar minha gratidão por tudo o que tem feito, por seu apoio e generosidade... — E beijou-lhe a
mão.
Cassidy não resistiu ao gesto galante, capitulando.
— Oh, não! Por favor! — William estava inconformado. — Pense no que está fazendo!
Paul fuzilou-o com o olhar. Cansara-se de ouvir objeções e conselhos do assessor.
— Que sugere, então?
— Pense na srta. Lincoln...
— A srta. Lincoln sabe perfeitamente que alguém terá que fazer o papel que ela recusou.
Agora diga à sua irmã para aceitar minha proposta. Já!
— Eu?
— Você não é meu assessor? Pois então, resolva esse problema.
O poder que Paul se recusava a usar nas relações pessoais estava sendo útil, finalmente. Agir dessa
forma com William Penno era uma forma de fazê-lo perceber quanto podia ser desagradável a arrogância
alheia.
No fundo, Cass estava saboreando esse momento. Não deixou de ter uma certa graça ver o
prepotente William se render.
— Bem, apesar de tudo, pensando melhor... Nós não podemos abandonar Paul agora.
Cassidy se perguntou até que ponto era importante para Paul tê-la a seu lado. Mas a pergunta era
irrelevante. Seu coração sabia o que importava de verdade. Voltando o rosto para ele, respondeu com
sinceridade:
— Claro que terei prazer em fazer a peça, se é o que quer.
— Obrigado. Muito obrigado.
A essa altura, William já recuperara o autocontrole e, infelizmente, também a prepotência. Queria
que Bet-tina brilhasse, não Cass. Portanto, não permitiria que sua irmã se valesse dos mesmos trunfos
destinados à srta. Lincoln.
— Precisamos fazer modificações no texto, já que Cassidy será a matriarca, e não Bettina.
— Ninguém põe a mão no que está escrito. — Paul estava disposto a tudo para ser obedecido.
Seu olhar não deixava dúvidas sobre isso.
Engolindo em seco, William guardou para si as objeções. Cassy retomou o assunto do álbum de
fotografias:
— Agora vamos ver que fotos podemos usar.
A pesquisa foi produtiva. O bisavô de Paul fora um dos primeiros, em Dálias, a fazer uso constante da
fotografia como forma de registrar flagrantes cotidianos, quando a maioria das pessoas apenas posava para a
máquina.
Em menos de uma hora Cassidy já sabia o que precisava adquirir nos antiquários da cidade, e saiu
em busca das primeiras peças. Paul deu-lhe seu cartão de crédito e o celular.
A tarde voou. Quando ela finalmente pôs os pés na loja, tinha a sensação agradável de haver
conseguido avançar léguas no trabalho. Excitadíssima, tinha pronta, na cabeça, a decoração da festa, e em
detalhes.
Paul precisava ser informado de seu projeto. As ideias fervilhavam em seu cérebro e a loja já
estava deserta. Tony saiu correndo ao vê-la chegar, atrasado para a aula.
Como o telefone de Paul ficara com ela, não sabia onde procurá-lo. Nesse momento, ouviu a porta
bater.
— Oh, Paul! Você leu meu pensamento. Tenho de contar minha ideia...
— Que bom! Falaremos durante o jantar.
Como uma criança, Cass não se conteve e disparou a falar:
— Sabe a foto de sua bisavó na cozinha? E o jeito do restaurante de Hoot? Pense! Podemos
conseguir um ambiente mágico se reproduzirmos a cozinha dela em todo o salão! E é simples: basta usar as
toalhas certas, alguns objetos e pronto. Teremos a mesma atmosfera.
— Genial!
Seguindo-a pela loja, Paul ouvia, atento, os detalhes que Cassidy dava enquanto apagava luzes e ia
fechando a loja. Só quando estava na rua, com o vento frio despenteando seus cabelos, Cass parou de
tagarelar. E isso porque Paul segurava-lhe o queixo.
— O que foi?
— Isto. — Ele a beijou.
Era o primeiro beijo depois do baile à fantasia. Ambos ansiavam por esse momento, mas nenhum
tomara a iniciativa. Tinham medo. Não sabiam bem do quê, mas tinham. Foi Cassidy quem definiu as
coisas. Assim que seus lábios se separaram, ela disse:
— Não a peça em casamento até o ano-novo. Por favor, nos dê esse tempo.
— Certo. Prometo.
Abraçados, sentindo o vento gelado tocando seus corpos, estavam quase felizes. Ao menos poderiam
ficar juntos até janeiro.
O caos imperava quando começaram a mexer na fábrica. Sujeira e entulho misturavam-se aos
problemas técnicos para a produção da peça.
Tudo parecia se complicar, e William não tornava mais fácil a tarefa, implicando com Cassidy e
seus métodos.
Tony e seus colegas de faculdade estavam encarregados da faxina. Esse foi um motivo a mais para o
desentendimento dos irmãos Penno.
Paul chegara à fábrica justamente num desses momentos. Fora até lá para ensaiar e escolher
os atores coadjuvantes, todos estudantes da escola de arte dramática.
Essa fora uma das razões pelas quais Cassidy pedira que Tony levasse seus colegas de
faculdade. Mas William não entendia esse raciocínio e brigava por colocar, na limpeza, uma empresa
especializada. Paul interveio em favor de Cass. Queria que todos entendessem que faziam parte de
um projeto comum, e que juntos deveriam alcançar o resultado desejado.
Cassidy, com um assobio estridente, conseguiu a atenção de todos. Com voz firme, ela passou a
exercer o comando.
— Primeiro eu gostaria de agradecer a todos que estão dispostos a trabalhar conosco.
Quanto antes a limpeza acabar, mais cedo iremos para casa. — E, olhando para Paul, anunciou: — Acho
que o sr. Barclay tem algo a nos dizer.
— Em primeiro lugar, gostaria de lhes pedir que anotem seus telefones para contato,
horários de trabalho desejados e tarefas que têm facilidade em desempenhar. Isso nos garantirá um
aproveitamento me lhor das qualidades de todos — disse Paul.
Em pouco mais de vinte minutos já haviam chegado a um consenso sobre o trabalho da equipe, o
salário e os contratos temporários.
— Todos sabem que a festa está centrada num único ponto: a pequena peça que estamos
produzindo e que dará sentido ao evento. Já foram distribuídas cópias para todos. Eu farei Theo
Barclay, e a srta. Penno...
— Cassidy — corrigiu ela.
— Obrigado. Cassidy concordou em representar a esposa de Theo, minha bisavó. Inteligente
e criativa, a srta. Penno é a responsável por tudo aqui. O que ela disser ou fizer tem meu aval. O
poder é dela.
Tony e William reagiram às palavras de Paul com o mesmo sentimento de insatisfação. Porém,
foram os únicos a se sentir assim.
A palavra voltou para Cassidy, que começou a narrar suas escolhas para o elenco, o que incluía muitos
membros da família Barclay. Faltava um rapaz para representar Theo quando moço, e William sugeriu
que procurassem entre os filhos do pessoal da diretoria da empresa.
— Mais uma vez os irmãos Penno nos socorrem com suas ideias geniais. Obrigado, Will.
Pode providenciar isso?
William encheu-se de orgulho.
— Claro.
— Seria bom contar com uma ou duas meninas também — lembrou Cassidy.
— Verei isso — prometeu William.
Tudo encaminhado, a reunião foi encerrada. Paul, Cassy e William se isolaram para a leitura do
script. Cass explicou o motivo pelo qual discutia com William quando Paul aparecera na fábrica.
— Meu irmão se esquece de que estamos organizando um baile, não somente uma peça de
teatro. Não podemos deixar de ter claro que essa peça é só um detalhe dentro da festa. As pessoas não
estarão aqui para assistir a uma representação, mas sim para dançar, beber e se divertir na
passagem do ano. Portanto, não tem cabimento colocar um palco enorme no meio do salão.
Sem falar no detalhe de que Bettina não ficaria muito feliz com tamanho destaque para algo que não
lhe dizia respeito, pensou Paul. E, para a orquestra que ela escolhera, seria necessário muito espaço,
tornando inviável a colocação de outro palco só para a peça.
A ideia de Cassy foi aceita. Fariam um pequeno cenário, no lado oposto ao da orquestra. Ele
passaria despercebido em meio à decoração, e usariam o salão como cenário durante grande parte do
tempo.
Bettina sugerira que cortinas brancas de seda forrassem todo o interior, para desespero de Paul.
Irónico, ele observou que dificilmente isso se pareceria com uma cozinha rústica do começo do século.
William, por sua vez, se pôs a defender com ferocidade o ponto de vista de Bettina, mas Cassidy
concordou com Paul. Seria mais apropriado usar cortinas listradas e coloridas. Mas William insistiu no
assunto, o que o obrigou a ouvir palavras ásperas.
— Que uma coisa fique clara: sou obrigado a casar com Bettina, não a concordar com suas
idiotices.
Paul surpreendeu o assessor, que, chocado, não hesitou em culpar a irmã, fulminando-a com o
olhar. Cassidy sentiu-se desconfortável e injustamente acusada. Afinal, se Paul detestava Bettina, ela não
tinha nada a ver com isso.
Tentando desanuviar o ambiente, Cass sugeriu que repassassem as falas com Will, para que ele
pudesse julgar o desempenho de ambos, e do narrador, Andy, um ator profissional.
O começo foi realmente hilário. As falas não se encaixavam com a ação, e as mãos de Paul se
moviam como num filme mudo. Ensaiaram a cena em que o casal Barclay decide largar os empregos
para abrir seu próprio negócio.
As falas podiam não convencer muito, mas a intimidade demonstrada pelo casal era muito
convincente. Real demais para o gosto de William.
A cena terminava com o casal abraçado, olhando com esperança o futuro. E foi esse abraço que
mais incomodou o jovem Penno. Tony agiu rápido, distraindo os demais para que não vissem o que estava
acontecendo entre os protagonistas.
Paul não conseguia disfarçar seu interesse por Cass. Queria levá-la para um lanche, a fim de
ficar a sós com ela. Disse-lhe ao ouvido que sairia primeiro e que voltaria para buscá-la em alguns
minutos.
Tudo isso por causa de William, sempre perto, vigiando. Para espanto de Cassidy, que nunca se
colocara na posição de viver um romance clandestino, a censura dos olhos do irmão era dolorosa. Ele se
preocupou até mesmo em certificar-se de que Cass iria sozinha, e direto, para casa.
Essas e outras pressões foram fortes o bastante para que ela sentisse necessidade de
redefinir, ou repensar, a relação com Paul. Mas, com William em seu encalço, isso se tornou
impraticável. O irmão levou-a para casa, e, a pretexto de tomar um café, demorou tempo suficiente
para ter certeza de que nada aconteceria.
Agoniada, Cass viu as horas passando sem que Paul desse notícias ou atendesse o celular. Às dez
horas da noite ele apareceu, com aparência de quem saíra do chuveiro, cabelos molhados e revoltos.
Vestindo uma calça jeans larga, ténis e um blusão esportivo, parecia mais jovem, não fosse o cenho
cerrado.
Avançando em direção ao sofá, foi logo dizendo:
— Temos de conversar. — Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Cass foi bombardeada pelas
palavras:
— Sinto muito, mas não sou hipócrita o bastante para fingir que não estou louco por você. Ainda sou
um homem livre, e enquanto isso não mudar quero ficar a seu lado.
Mesmo atordoada com a declaração, Cass teve presença de espírito para contra-argumentar:
— Será isso possível? E Bettina? Já pensou que talvez ela se incomode?
Enterrando a cabeça nas mãos, Paul respondeu com desalento:
— Não sei. Realmente, não me importo mais.
Sem saber como agir ou o qie dizer, ela simples mente fez a pergunta-chave:
— Você tem mesmo de se casar com ela?
Respirando fundo, Paul ficou em silêncio por alguns instantes.
— Tenho.
— Oh, entendo...
A decepção foi maior do que ela esperara. Muito maior. Desviou o olhar, para esconder as
lágrimas. E mesmo as palavras seguintes dele não faziam sentido.
— Não vejo outra saída. Bettina está obcecada, não mudará de ideia. Queria tê-la conhecido
antes, Cass, muito antes.
— Antes de ter um caso com ela, quer dizer. — E, recuperando a calma: — Não vejo
alternativa senão continuar assim, escondidos, no pouco tempo que ainda nos resta.
— Não consigo vê-la feliz com isso.
— Por causa de William. Ele não compreende e me faz sentir culpada.
— Se estou causando embaraço, vergonha, diga-me e...
— Claro que não! Não há nada de que eu me envergonhe. Nada!
As mãos de Paul tocaram-lhe com delicadeza o rosto, deslizando numa carícia apaixonada. Seus olhos
a miravam, embevecidos.
— E aonde isso vai nos levar?
— Onde já estamos.
Beijando-a de leve muitas e muitas vezes, Paul pediu perdão, emocionado.
— Não pude conter meus sentimentos. Não me controlei, Cass.
— Não me peça perdão.
O beijo que ele lhe deu na mão percorreu-a como corrente elétrica. Fechando os olhos, entregou-se,
aninhando-se nos braços masculinos. Depois, inverteram as posições, e Cassy o aconchegou no regaço.
Olhando para o menino que ele parecia, ela o acariciou. Paul enterrou o rosto em seus seios. Aos
poucos, foi levando as mãos até eles, sentindo-os. Eram tão desejáveis que ele não se conteve. Excitado,
deslizou a outra mão para a coxa roliça.
A reação de Cassidy foi cerrar os olhos e deixar que aquela sensação deliciosa reverberasse em cada
centímetro de seu corpo. Paralisada, temendo interromper a magia, ficou imóvel. Uma onda de desejo
violento a dominou, enfraquecendo seus sentidos, aquecendo-a como nunca.
Mas ele se deteve de repente. Pôs-se de pé e, controlado, disse:
—Melhor eu ir para casa.
Dadas as circunstâncias, Cassy assentiu. Se continuassem ali, não poderia responder pelo que
aconteceria. Ao acompanhá-lo até a porta, percebeu quanto o desejava, e sofreu por vê-lo partir. Suas
pernas ainda estavam trémulas. Fechou os olhos. Seu coração e seu corpo ainda o sentiam intensamente.
Mesmo na cama, tempos depois, seu ser vibrava com a lembrança de Paul.
CAPITULO VI
Esbaforida, Cassidy entrou na fábrica. Todos respiraram aliviados. Especialmente Paul,
que não disfarçou sua alegria.
— Graças aos céus! Estava preocupado. Você não costuma se atrasar.
— Deixou todo mundo esperando — repreendeu William, incomodado com o gesto
afetuoso de Paul.
Afastando-se do abraço, Cassidy se desculpou pelo atraso, constrangida.
— Desculpem, tive uma reunião com o fornecedor de perucas, e demorou mais tempo
do eu supunha. Depois, houve um acidente na avenida central.
— Você deveria saber disso antes de escolher esse caminho — rebateu William,
irritado.
Paul respondeu com rapidez, intrigado com tanta hostilidade:
—O que o incomoda, Penno? Cuide de sua vida.
Cassidy interveio para serenar os ânimos. Segurando Paul pelo ombro, sugeriu:
— Estamos perdendo um tempo precioso. Ao trabalho!
A hostilidade de Paul arrefeceu, e William não disse nada. Limitou-se a olhar para ambos com
indignação. Cassidy já perdera o sono tentando achar um modo de tranquilizar o irmão e fazê-
lo aceitar sua relação com Paul. Mas nem ela mesma estava convencida de que agia corretamente.
A verdade era que vinha se encontrando com um homem que se casaria com outra, em breve. Já se
cons-cientizara de que o melhor seria romper, mas não tinha força para levar adiante essa resolução.
Enquanto houvesse chance, continuaria ao lado do homem que amava. E William sofreria por achar que
sua irmãzinha era amante do chefe.
Ao imaginar o futuro sem Paul, Cassy estremecia. Aos poucos, preparava-se para ocupar o lugar
que lhe caberia quando ele se casasse. No fundo, continuaria a ser a outra, pois não enxergava a vida
sem aquele homem. Nesses momentos, dava graças por ter coisas mais urgentes com que se preocupar.
O que deveria ser apenas uma pequena apresentação transformara-se numa produção teatral
completa. E o baile assumia proporções maiores a cada reunião.
Ensaiaram e ensaiaram. William fizera um ótimo trabalho com os cenários, conseguindo um meio
termo entre o projeto inicial e a parcimônia de Cassidy. Tinham um iluminador competente, e os resultados
eram gratificantes.
No intervalo de mais um ensaio, Tony chamou Cassidy para discutir alguns adereços. Era tarde e a
conversa parecia interminável. Paul estava faminto e nada disposto a esperar pela companhia de Cass.
Então, chamou-a. A reação de Tony foi violenta e imediata.
— Se o seu dinheiro pode comprar todos, isso não se aplica a mim. Pode nos dar licença,
"patrão"?
— Vamos acabar a conversa mais tarde, Tony? Por favor...
— Mas Cass...
— Mais tarde. Você ouviu a senhorita — reforçou Paul, vitorioso. E, virando-se para ela: — O que
você tem?
— Dor de cabeça, mais nada.
— Cass sempre tem isso quando não come — interveio Tony. — É comum acontecer.
Basta uma maçã e o mal-estar passa.
Era verdade, reconheceu ela. Esquecera de almoçar. Somente um café e meia torrada, que
ingerira depois que acordara, mantinham-na em pé. Assentiu, com a têmpora latejando.
— Vamos comer. Eu a levarei — resolveu Paul.
— No máximo um iogurte. Só uma aspirina e um quarto escuro resolvem — provocou
Tony.
— Providenciarei tudo isso. Vamos, querida.
Cassidy estava pálida, e quase desfalecida, quando William interveio:
— Se minha irmã está doente, eu a levarei para casa. — O tom autoritário
impressionou.
Esgotada, estourando de dor de cabeça, Cassidy não teve forças para discutir e, relutante,
cedeu às pressões de William. Dividida, falou:
— Acho que não estou disposta. Não vou sair com ninguém.
— É claro que não, mas precisa de quem cuide de você. Minha intenção é fazer isso.
— Paul pôs-se na frente de William, interceptando-lhe a passagem.
Foi o bastante para deflagrar a onda de revolta que Will vinha alimentando há algum
tempo. Esquecido de quem era Paul, insurgiu-se contra ele.
— Sinto muito, mas isso já foi longe demais. Não posso tolerar! — vociferou.
— Tolerar? Somos adultos, Will. Não creio que haja algo para ser "tolerado", por você
ou por quem quer que seja.
— Cassidy é minha irmã.
— E é adulta. Esta não é a hora, nem o lugar para discutir. Aliás, não há nada aqui que
lhe diga respeito.
William mudou o tom da conversa. A ira deu lugar ao apelo comovido, e foi assim que se dirigiu ao
chefe:
— Por favor, pense no que está fazendo. Cass não merece ser enganada. Pare de se comportar
como se ela significasse algo para você.
— E significa muito. Muito! Talvez não valha nada para o irmão, mas, para mim, ela é
importantíssima.
William fez de conta que não ouvira a provocação.
— Já pensou no que Bettina vai pensar se...
— Bettina não tem nada a ver com isso!
Cassidy, dividida e magoada, sentia as lágrimas ensopando o rosto delicado. Quando Paul a puxou
para si, afastando-a de William, seu coração doeu.
— Pense no que está em jogo — disse Will. E, cínico, completou: — Ela não vale tanto, Paul.
— Não sei se você é um canalha, William, ou só mais um imbecil, como tantos por aí.
Atónita, Cass ainda não captara a extensão do que seu irmão acabara de dizer. Sentia o desdém
dele como um punhal cravado em seu peito. Uma pequena parte dela dava razão a William, mas isso não
diminuía em nada seu sofrimento. Só uma coisa no mundo poderia lhe oferecer conforto naquele instan-
te: o abraço de Paul.
Gemendo, permitiu que ele a tomasse nos braços e a levasse para longe dali. Foi um bálsamo
sentir o vento frio no rosto, ao sair da. fábrica. Ainda zonza, respondia às perguntas de Paul com
monossílabos. Só se recordaria, depois, de ouvi-lo dizer que alguém precisava dar uma lição a William.
Ao sentir-se de volta ao lar, acomodada no sofá da sala, recuperou um pouco a energia habitual. Paul
se desdobrou em cuidados. Aspirina, sopa de legumes, bolachas e um pedaço de maçã ajudaram a
convalescença.
Enternecida, assistiu ao vaivém dele pela cozinha, atarefado com o preparo da refeição. Chá e
bolinhos também foram servidos, com tanta desenvoltura que Cass se surpreendeu. Solícito, ajoelhou-se
ao seu lado.
— Melhorou, querida?
— Muito.
— Então fique quietinha enquanto lavo os pratos. Não saia daí.
— Não seja tolo. Já estou boa.
— E espero que continue assim.
Fechando os olhos, Cassy não pôde evitar que um sorriso bailasse em seus lábios. Não se lembrava
da última vez em que alguém cuidara dela. Estava quase feliz, apesar de tudo. Os ruídos na cozinha, a
televisão ligada, o gato que se aninhara em seu colo... Essas pequenas coisas davam-lhe uma sensação
inebriante e única.
Cochilou alguns minutos, e quando Paul a acordou, para se despedir, as palavras saíram
naturalmente. Segurando-o pela manga, pediu:
— Por favor, fique comigo.
— Só um pouquinho...
Depois disso, ela adormeceu profundamente. Vagamente se lembrou de ter sido carregada para a
cama. Mas, sabendo que Paul estava ali, pôde descansar tranquila. O homem que amava tomava conta de seu
sono, e tudo daria certo...
Cassidy acordou com o nascer do sol. Teria continuado a dormir, mas o contato da mão quente e
pesada sobre sua pele nua a despertou. Ainda sonolenta, aos poucos foi se dando conta do que estava
acontecendo. O braço que envolvia sua cintura e o corpo musculoso que amparava o seu eram masculinos.
De Paul.
Um sorriso veio-lhe aos lábios ao se recordar da noite anterior. Lânguida, respondeu pouco a
pouco ao contato sensual.
Adormecido, ele nem notou que a enlaçava. O braço escorregou pelo corpo feminino e fez com que
Cassidy perdesse o fôlego ao iniciar carinhos muito atrevidos... Sentir o toque daqueles dedos
provocou-lhe prazer e medo.
Tensa, sem saber o que fazer, ela se deixou levar pelo instinto. Só então percebeu que Paul não
estava mais dormindo. Virou-a para si, escorregou as mãos pelo corpo bem feito e beijou-a na testa.
— Bom dia! Como se sente?
— Melhor, impossível.
— Preciso me certificar disso. — E, maroto, acariciou todo o corpo de Cassidy. — Você acorda
linda!
— Digo o mesmo...
— Dessa vez vou acreditar. — Paul ergueu-se um pouco da cama e, apoiado nos cotovelos,
fitou-a, embevecido. Nada, senão os lençóis, cobria a nudez de seus corpos. Por isso, quando Paul a
puxou, Cassidy sentiu-o por completo. A boca de Paul procurava, sedenta, pela dela, e num frémito os
lábios se juntaram. Cass queimava de desejo.
Nada parecia saciá-la. Ao arquear as costas, os seios exuberantes uniram-se ao peito de Paul, num
apelo mudo. A sensação que a dominava era de urgência. Urgência de tocar e ser tocada por Paul, juntar
seu corpo ao dele, buscando um contato cada vez maior, mais intenso. Cassy queria mais e mais, e tinha
a impressão de que nunca alcançaria o que buscava.
Por um segundo hesitou, mas só por uma fração de segundo, ao notar seu corpo ardendo pelo que
estava por vir. Os lábios de Paul deslizaram, suaves, até a orelha feminina, mordiscando-a. As carícias
continuaram pelo pescoço e desceram pelo colo, arrancando arrepios de prazer.
Fechando os olhos, Cassidy submergiu na onda de desejo que a envolvia.
Por isso, ao abrir as pálpebras e olhar o despertador, só conseguiu dizer:
— Céus!!!
— Eu diria que é o paraíso...
— Paul!
— Hum?
— São quase nove horas da manhã!
— O quê?
— Eu falei que...
Desperto dos devaneios, Paul parecia ter saído de uma ducha fria.
— Nove? Droga! Eu tinha de estar no escritório às oito e meia.
— Minha loja abre às dez. Ou abria...
Ela riu, e o fez rir junto. Linda e desejável, como nenhuma outra mulher jamais seria.
— Adoro quando você ri. Quero desesperadamente fazer amor com você.
— Eu sei, mas...
— Acho melhor avisar a fábrica que vou demorar. E me faça um favor, não levante até que
eu tenha saído. — Beijando-lhe a testa, ele s~e levantou enrolado no cobertor.
— Por quê?
— Para que eu possa me lembrar de você o dia todo, deitada entre lençóis. E, sinceramente,
não sei se resistiria a sua pele macia...
Cass tremeu da cabeça aos pés. Encolheu-se mais debaixo dos lençóis.
— Tudo bem.
Ele a beijou na boca longamente e depois, com os sapatos nas mãos, saiu do quarto. Minutos depois,
Cass ouviu a porta da rua bater, e um enorme vazio a tomou de assalto. Pela primeira vez passara uma
noite ao lado de um homem. E por ironia, ainda que ele fosse o homem de sua vida, continuava virgem.
Suspirou, sem saber se de alívio ou desapontamento. Ou ambos.
Cassidy não teria aceito o convite do pai, para almoçar, se soubesse que William também iria. Havia dias
que procurava evitar-lhe a companhia.
O semblante carregado do irmão evidenciava qual a opinião dele a seu respeito. Não que fizesse alguma
diferença para Cass, mas preferia evitar aborrecimentos para ambos.
O pai morava num apartamento dúplex, que, para desespero de William, estava em péssimo estado. Che-
gando lá, Cassidy logo adivinhou que fora dele a ideia daquela reunião familiar. Mal cumprimentara o pai, pôde
ver, da janela da sala, o belo carro de William estacionando.
Pegou a bolsa e, irritada, dirigiu-se ao velho Penno:
— Então é isso, hein? Saiba que estou indo embora.
AlvinPennoolhou-ae,comseujeitoúnico,argumentou:
— Deixe disso, filha. — E, virando os hambúrgueres na chapa do fogão, disse: — Reconheço que William
é um pouco rígido, mas é seu irmão e só quer seu bem.
Cassidy balançou a cabeça com veemência.
— Sinceramente, não dou a mínima para o que ele tem a me dizer.
— Querida, Will está firmemente decidido. Além disso, como vai manobrar o seu carro com o
dele parado atrás?
A porta da cozinha se abriu, e William entrou, com o ar arrogante de sempre.
— Bem — dirigiu-se para Cassidy —, finalmente estamos frente a frente. E você vai ter que me
ouvir.
— Engano seu. Você não tem nada a ver com minha vida.
A guerra estava declarada. William despejou sobre Cassy toda sorte de argumentos contra Paul e,
para culminar, responsabilizou-a caso fosse demitido da Barclay.
Cass não estava disposta a ceder. Se sua relação com Paul o incomodava tanto, certamente o
motivo nada tinha a ver com amor fraterno.
A hostilidade com que Will a vinha tratando desde o início assumiu contornos violentos.
— Ele é praticamente noivo!
— Praticamente. Você mesmo está dizendo.
— Todos sabem que Paul tem de se casar com Bettina.
— E daí? Enquanto isso, posso ser amiga dele.
— Amiga não é o termo exato. Chego a pensar que Paul a ama!
Entre tanta coisa desagradável, finalmente uma frase enchia Cass de alegria.
— Mesmo que seja verdade, nada impede que eles se casem.
— Exatamente.
— Então qual é a sua aflição? Evidente que não tem nada a ver com a minha tristeza. —
Melancólica e amarga, ironizou: — Relaxe, irmãòzinho. Seu plano vai dar certo. Paul e Bettina ficarão
juntos. — Viu que a palidez tomou conta do rosto de William. Era como se ele tivesse visto um
fantasma. A expressão aterrorizada despertou em Cassidy uma suspeita terrível: — Céus! Você está
atolado nisso até o pescoço,
não está? Você e Bettina... juntos!!!
A culpa de William estava expressa nas mãos que se contorciam, no canto da boca trémula, nos olhos.
Tudo nele o denunciava. Vacilante, mal conseguiu dizer:
— Não... não sei do que está falando... Tudo o que fiz foi... para o bem de todos.
Cassidy ficou imóvel, estarrecida, como se não o conhecesse. A figura patética à sua frente não podia
ser seu irmão, mas era. Apavorado, covarde, à espera da catástrofe iminente, William sempre vivera
assim, acuado pela própria existência.
Já não era raiva, mas um profundo pesar que a dominava. Soou estranho ouvir a própria voz,
muito mais fria que o habitual, dizer:
— Se o que o preocupa é perder o emprego por minha causa, sossegue, não importa quanto esteja
metido nas armações de Bettina.
William Penno, que havia poucos minutos rugia feito um leão, ameaçador e prepotente, agora decaíra.
Tornara-se servil e medroso. Seus olhos azuis pareciam de vidro, opacos e vazios.
— Eu não pretendia fazer isso! Ela confiou em mim, disse que tinha de casar com Paul. Não
perguntei por quê. Não imaginei o que poderia acontecer.
"Pobre William", pensou Cassidy, desalentada.
— Daí você disse a Bettina como conseguir o controle da empresa, e deu-lhe Paul de bandeja. —
Mais que uma pergunta, era uma afirmação.
William confirmou essa suspeita:
— Sim.
— E suponho que a ideia da peça, do baile também tenha sido sua...
— Não! Foi dela, juro. Eu avisei que era arriscado, mas Bettina não me ouviu. Nunca me
ouve, nem a ninguém.
Cassidy já escutara o bastante. Estava enojada e triste, muito triste. As lágrimas nublaram sua
visão quando percebeu que só Paul seria capaz de consolá-la. Mas Paul não se encontrava ali. E em breve não
estaria mais disponível. Enxugando o rosto, empertigou-se ao declarar, solene:
— Ele vai se casar com Bettina porque não há nada a fazer. — E em tom de desafio concluiu:
— O que não quer dizer que eu vá deixar de vê-lo.
William sacudiu a cabeça, acatando as palavras da irmã. Sua aparência era deplorável.
— Não preciso dizer que, se algo der errado, Bettina cuidará pessoalmente para que eu seja
demitido.
— Isso não vai acontecer. Não deixarei.
Era o que faltava para que William se ofendesse ainda mais: estar nas mãos da irmãzinha. Logo
ela, sempre tão insignificante e sem brilho...
— Tem certeza de que pode fazer algo a respeito?
— Sim, tenho.
Um silêncio incómodo instalou-se entre eles. Até que, por fim, William o quebrou:
— Obrigado.
— Por nada. Agora, por favor, vamos encerrar esse assunto de uma vez por todas.
William assentiu, quieto.
— Otimo. Será que podemos almoçar? Estou faminta.
Alvin surgiu do nada, com um sorriso conciliador e uma interrogação no olhar. Desistira de entender os
filhos, e não esperava ser entendido. Por isso se limitava a amá-los, como naquele instante.
— Quem falou em fome? — indagou.
Cassidy se esquecera completamente de que estava na casa do pai. E, olhando para o colete de
couro, a tatuagem e o rabo-de-cavalo, percebeu que nada nele lembrava o pai da sua infância. Alvin Penno
não era mais o chefe da família, e ela não era mais uma menina. Sentiu o peso da maturidade sobre seus
ombros e se lembrou de que sempre fora assim... Alvin, sua mãe, William, todos perdidos num mundo
paralelo ao real. Era ela que os ligava à realidade.
Até o divórcio tardio de seus pais acabara recaindo sobre seus ombros. Jane se tornara mística, Alvin
brincava de ser motoqueiro. Restara a ela assumir o lado responsável da família. William se colocara na
posição comoda do filho revoltado. E os três nunca haviam se lembrado de que Cass também tinha
necessidades.
Esses e outros pensamentos ocuparam sua mente durante a refeição. Enquanto pai e filho
trocavam frases sem muito interesse, Cassy comia em silêncio.
William não demorou para ir embora. Ao ficar a sós com o pai, no fundo de seus olhos reconheceu um
pouco a figura paterna da infância.
— Vamos, conte o que está havendo — pediu ele.
Cassidy foi direto ao ponto, sem rodeios.
— Estou apaixonada por um homem comprometido, e por acaso ele é o patrão de William.
Alvin não se mostrou chocado ou surpreso, e Cass ficou grata por isso. Apenas perguntou:
— A jovem está grávida?
Cass riu, divertida com o raciocínio antiquado do pai.
— Não. É bem pior que isso. Digamos que envolve negócios, família e testamento.
— E esse rapaz está apaixonado por você?
— Está. Pelo menos agora, está.
— Agora é o que importa, meu bem. É só o que importa. Por que não me conta essa
história desde o início? — sugeriu Alvin com extrema delicadeza.
Ele estava certo. Para que pensar no amanhã se há o presente para ser vivido?
— Está bem.
Cass tomou fôlego e começou a narrativa. Mais do que curiosidade, Alvin queria dar à filha a
chance de desabafar. Ouviu-a em silêncio e, no final, limitou-se a dizer:
— Filha, estou orgulhoso de você. Poucos seres humanos têm a felicidade de se entregar ao
amor, e pouquíssimos têm a coragem de fazê-lo em uma situação dessa. Viver o momento presente com
intensidade é uma dádiva imensa. Mesmo que venha a sofrer por isso, saiba que valerá a pena. A
lembrança desse amor vai estar com você até o fim dos seus dias, e isso é o que faz a vida ter sentido.
Esse era o apoio que Cassidy buscava. Paul era único, e ela não deixaria que o moralismo e as
convenções interferissem. Agradeceu pelo almoço e despediu-se do pai, abraçando-o. Ainda estava no
corredor quando as lamúrias de Alvin lhe chegaram aos ouvidos:
— Ou muito me engano ou essa menina vai envelhecer virgem!
Embaraço e humilhação tingiram de vermelho as faces de Cassidy, que naquele instante decidiu
que chegara a hora de desmentir a previsão do pai.
CAPÍTULO VII
Paul sorriu para Cassidy, exatamente como mandava o roteiro. Em seguida, passou o braço por
seus ombros, como fizera inúmeras vezes nos ensaios.
A diferença foi que, dessa vez, Cass, em vez de permanecer parada, correspondeu ao abraço,
enlaçando-o pela cintura e apertando-lhe com força a mão. Seu olhar o envolvia, cheio de promessas
sedutoras. E isso tudo certamente não estava previsto no roteiro.
O coração de Paul disparou. Ele precisou de toda a sua força de vontade para não beijá-la ali
mesmo, em frente aos holofotes.
No exato instante em que as luzes se apagaram, Paul tomou-a pela mão, arrastando-a para os
bastidores. Para seu espanto, assim que ficaram sozinhos Cassidy puxou-o pela cintura, colando o corpo no
dele.
— Que saudade! — sussurrou. — Você sabia que nunca dormi tão bem como naquela noite...
Como se uma corrente elétrica tivesse passado por seu corpo, Paul sentiu um sabor agridoce só de
lembrar da noite ao lado de Cassy. Um arrepio de desejo e prazer o percorreu. Desde então não haviam
tido outro momento de intimidade.
Obviamente não a culpava por ser pura, mas vivia se torturando com a ideia de que outro
homem ganharia o privilégio de tê-la pela primeira vez, enquanto ele estava proibido de tocá-la
intimamente.
Afinal, não tinha o direito de tirar-lhe a virgindade por um momento de prazer...
Tomou-a nos braços e beijou-a como sempre desejara, longa e profundamente, com desejo puro e
sem disfarce.
Notou uma certa agressividade no comportamento de Cassy, nos braços que enlaçavam seu
pescoço, na boca que se abria sem reservas, na língua que buscava a sua. Entre surpreso e deliciado, sentia
o corpo dela contra o seu, enlouquecendo-o.
Então Cass levou uma das mãos ao peito masculino e com movimentos rápidos, ritmados, começou a
acariciá-lo, produzindo um efeito estranho e poderoso sobre ele. Excitado como nunca, Paul se
surpreendeu com as sensações fantásticas e alucinantes.
Nenhuma mulher despertara-lhe algo parecido. Sentia-se arrastado pela força daquele turbilhão
chamado Cassidy.
Incapaz de se controlar, perdeu a noção de tudo e só quando a sentiu ofegante percebeu que lhe
acariciava os seios com volúpia.
Estavam perto de cometer uma loucura. Paul não conseguia pensar e logo seus dedos abririam os
botões e zíperes que ainda o detinham.
Ele a queria nua. Precisava sentir a maciez e o calor escondidos sob a malha de tricô. Explorava o
contorno dos seios, ávido por despi-los. Extasiado, tocava de leve os mamilos rígidos, que nem o suéter
disfarçava. Então, com a outra mão, puxou a blusa de Cass para fora da calça. Isso a fez recuar.
Trémula e ofegante, afastou-o, segurando-lhe os braços. Controlando o impulso de agarrá-la, Paul
apenas esperou, desejando, sonhando, sem saber direito o que estava acontecendo.
Subitamente, Cassy respirou fundo e, puxando-o pela camisa, disse:
— Vá para minha casa esta noite.
Tomando as mãos dela nas suas, Paul suplicou:
— Eu não poderia...
— Por favor. Eu preciso disso. Sei que não teremos muito tempo juntos, e quero, tanto quanto
você, aproveitar cada segundo. Estou pedindo...
Tomando-a nos braços, Paul apertou-a contra o peito, saboreando o momento. Enternecido com a
magnitude da decisão de Cassidy, concordou.
— Se é o que realmente quer...
— Estou certa que é.
Paul fechou os olhos, na tentativa de prolongar a sensação de felicidade.
— Cass, eu a quero tanto, tanto...
— Então espere meia hora e vá a meu encontro — sussurrou ela.
Dito isso, caminhou para a saída. Num rompante, porém, deu meia-volta e atirou-se nos braços de
Paul. Beijou sua boca com sofreguidão, e disse:
— Eu o amo!
— Cass...
Tarde demais. O som dos passos dela já ecoava na escada. Sozinho com seus pensamentos, Paul não
sabia se ria ou se chorava. Ou as duas coisas. Só tinha uma certeza: os trinta minutos seguintes seriam os
mais longos de sua vida. Mas depois teria Cassidy, e por isso valia a pena esperar.
Aquela meia hora foi terrível. Ele parecia um zumbi. Não tinha a menor ideia de como ou com quem
conversara. Tenso, pensava milhares de coisas. Tinha tantos receios que resolveu não pensar mais. Saiu da
fábrica e parou num bar próximo à casa de Cass, onde três cafés e uma fatia de torta ajudaram-no a suportar
a espera.
A agitação foi passando à medida que se aproximava a hora marcada. Que estranho! Logo ele, um
homem vivido, experiente até demais... Seu avô tivera motivos para se preocupar com sua vida amorosa. Ou
sexual, pois até então todas as suas relações tinham sido basicamente isso: muitas mulheres, muitas noites
de prazer, e nenhum tipo de envolvimento emocional.
Então uma jovem adorável, pura e virgem aparecera em seu caminho, e tudo se transformara
como num passe de mágica/ tornando-o um novo homem, capaz de compreender a beleza que existe na
relação de afeto puro entre homem e mulher, dando ao sexo uma outra dimensão.
O que Cass despertara nele, naquela tarde, ia muito além do que sentira ou imaginara até então.
Calmamente, foi ao encontro dela. Não havia homem mais feliz que ele.
Ao chegar, tocou a campainha algumas vezes e ouviu a voz macia pedindo-lhe que entrasse. Quando
girou a maçaneta, um mundo encantado surgiu diante de seus olhos.
O aposento cheirava a jasmim, e todos os abajures estavam cobertos com lenços de seda. Velas
aromáticas completavam a iluminação, e almofadas espalhadas davam, junto à música suave, o clima
perfeito.
Como um anjo, Cassidy surgiu, ajudando-o a tirar o paletó. Depois de guardá-lo, ela mostrou por
completo a aparência estonteante, efeito das roupas que a vestiam, ou melhor, desvestiam.
A calça de veludo e o suéter tinham sido trocados por um traje incomum, de dançarina. Um
corpete de cetim preto acentuava as curvas, fechado na frente por ganchinhos prateados. Colado ao
corpo, marcava a cintura delgada e, no busto, realçava-lhe os seios, exuberantes e semidespidos. Sempre
ocultos pela roupa, os seios de Cassidy eram magníficos, fartos e firmes, convidando ao desejo.
Abaixo do quadril o corpete terminava em uma pequena faixa de tecido vaporoso, bordado, que
cobria apenas o início da coxa. As pernas de Cass estavam cobertas por meias pretas finíssimas, presas
por ligas rendadas. Os sapatos de verniz tinham saltos altos. Os cabelos louros foram presos no alto da
cabeça, e a maquiagem leve conseguia deixá-la ainda mais deslumbrante.
Paul mal podia acreditar que aquela mulher estonteante seria dele, só e inteiramente dele.
Extasiado, nem ousava se aproximar, temendo quebrar o encanto. Mas Cassy chegou perto,
iluminada de felicidade. Acariciou-lhe o corpo e, tomando-lhe a ponta dos dedos, beijou-os um por um. Paul
envolveu-a pela cintura e deixou que ela lhe desabotoasse a camisa, para depois pegá-la nos braços. A voz
suave e rouca sugeriu:
— Vamos para o quarto?
Ansioso, ele a carregou até lá. Velas iluminavam a cama coberta de lençóis de cetim. Paul a
colocou ali com delicadeza, ajoelhando-se a seus pés. Vagarosamente, tirou-lhe os sapatos. Cass se recostou
e levantou a perna, para que ele a despisse. Reverentemente, os dedos masculinos obedeceram-na,
deslizando da liga até a ponta dos pés, descobrindo o calor e a brancura daquela pele ardente. Na altura
dos joelhos, os lábios de Paul acompanharam o trajeto dos dedos. Num frenesi de desejo, beijou cada
milímetro das pernas longas e bem-torneadas.
Levantou-se e, segurando Cassy, cobriu de beijos as espáduas nuas, provando o gosto da tez suave. Nas
mãos sentia o contorno das curvas, através do corpete. Pelo tato percebia cada detalhe, e, quando sentiu sob os
dedos a fileira de ganchinhos que prendia a roupa, fitou-os.
Cassidy estava deslumbrante dentro daquele mimo de seda e cetim. De perto via-se a perfeição dos
detalhes. E, para prolongar o arrebatamento, Paul se permitiu admirar, enlevado, cada encanto que Cassy
produzira para aquela noite.
Ela percebeu e, lisonjeada e mais segura, teve a certeza de que não se arrependeria jamais do que
iria fazer. Sentindo-se mulher, desejada e amada, extravasou o que estava reprimido, e pôde viver
realmente o sabor daquela fantasia. Com Paul. Para Paul. Sem medo.
Os olhos dele queriam guardar tudo na memória. Os cabelos louros presos em um coque frouxo, o
pescoço à mostra, o colo nu, o espartilho colado à pele, preso ao saiote de renda, curtíssimo na frente,
mas longo e farto nas costas.
Erotismo e lascívia exalavam de Cassidy de tal forma que Paul não se conteve mais. Como
esmeraldas, os olhos dela instigavam a procura dos tesouros ali ocultos.
Um a um, sob os dedos trémulos de Paul, os colchetes cederam. O saiote de seda caiu a seus pés.
Cada nesga de nudez, por menor que fosse, mostrava um pouco da perfeição das formas de Cassidy e o in -
citava a querer mais.
Os três últimos ganchos cederam e, diante dele, coberta apenas pela seda da calcinha, Cassidy o
desafiava, divina, enlouquecendo sua mente e fazendo disparar seu coração.
Sofregamente, ele tocou e acariciou cada contorno e saliência daquele corpo, com a respiração
suspensa. Quando os seios de Cassidy encheram suas mãos, Paul fechou os olhos, inebriado com o
tamanho, a textura e o calor.
— O paraíso! — suspirou, e olhando para Cassy: — Nada se compara à sua beleza. Você é a mais...
Mas como transmitir em palavras o que achava? Ela era a perfeição. A mulher mais completa e
fascinante, uma amante única e enlouquecedora, ao mesmo tempo intocada e pura. Inocente de corpo e
alma.
Cass, mais que nenhuma outra, merecia um homem e uma vida maravilhosa. Coisas que ele não
podia oferecer. Devia a Cassidy fidelidade e respeito, mas estava agindo às escusas, clandestinamente.
Graças à própria estupidez e ao comportamento obsessivo de Bettina, ele, Paul Barclay, perdera a
oportunidade de ser o homem da vida de Cassidy Penno. E, mais que isso, perdera a chance de ser feliz
um dia. Porém, antes ser infeliz e sofrer do que ser desonesto e vil. Ao menos saberia que não carregara
Cassidy ao lamaçal de desditas que o aguardava.
Ensopado pelas lágrimas que, sem aviso, escorriam por seu rosto, ele notou que nem fizera a barba
ou se perfumara para encontrá-la. Absorto em contar cada minuto que o separava do que iria receber, nem
cogitara em oferecer algo em retribuição.
Tinha certeza de que a amava, e como! Amava de tal maneira que seria capaz de renunciar a ela.
Até porque isso seria o maior sacrifício que alguém poderia lhe pedir.
— Cassidy, sinto muitíssimo, mas não posso fazer isso. Estaria arruinando sua vida agindo
assim, e nunca conseguiria viver com esse peso sobre meus ombros.
— Por favor, fique...
Ele balançou a cabeça, indicando que não havia opção. Tentado ao máximo, Paul não podia ceder ao
desejo egoísta de tê-la. Seu amor o forçou a superar o desejo, preservando-a de si mesmo. Ao sair da
casa de Cass, ele superava a si mesmo, e, pela primeira vez, abria mão do próprio prazer em proveito de
ou-trem. Confrangido, olhou-a pela última vez.
— Adeus, Cassidy. E obrigado.
Tinha certeza de que fazia a coisa certa. Mesmo assim correu para o carro, antes que mudasse de
ideia.
Paul não dormiu aquela noite. A cama parecia feita de espinhos e não foram necessários nem dez
minutos para que ele se convencesse da inutilidade de suas tentativas em conciliar o sono.
Sentado no escritório, varou a noite sem fechar os olhos. Ao amanhecer, saiu da poltrona e tomou
um banho frio para poder enfrentar o trabalho.
Não conseguiu engolir o café da manhã. A angústia o impedia de dormir, comer, até de pensar com
clareza.
Foi com esse estado de espírito que entrou na fábrica naquela manhã. E Bettina não poderia
escolher dia menos indicado para tentar pressioná-lo. Uma vez que ela não admitia ser contrariada,
ignorou os avisos da secretária e, sem se fazer anunciar, invadiu a sala de Paul.
Insolente, de nariz empinado, instalou-se sem cerimónia sobre a escrivaninha. Pernas esculturais à
mostra, ela era a própria imagem da mulher artificial.
Olhando-a dos pés à cabeça, Paul notou que tudo parecia milimetricamente produzido. Os olhos
maquiados de forma magistral causavam impacto. Sobre a pele bem cuidada havia um tailleur rosa-pálido
e nada mais. O tecido encorpado deixava entrever os seios, já que ela estava sem blusa sob o paletó. A
saia curta mal lhe cobria as coxas nuas, acentuadas pelos saltos altíssimos, da mesma cor da roupa.
O único adorno eram as pérolas em volta do pescoço e nas orelhas, imensas e valiosas. Muito valiosas.
Como tudo em Bettina Lincoln.
Gélida estátua sem vida, pensou Paul. De que servia tanta beleza se dentro dela não havia um
coração? Uma bruxa não seria tão repugnante quanto o demónio louro à sua frente.
Bettina cruzou as pernas, sedutora. Aquilo deixou-o doente, com mais raiva do que jamais sentira
antes.
— Desapareça da minha frente. Já!!! — vociferou, afastando-se.
Foi uma atitude inesperada, que chocou Bettina. Por um momento Paul desejou que ela se rebelasse
e pusesse um fim àquela história, mas se lembrou de que tinha responsabilidades para com a família.
Mesmo que eles não merecessem.
— Vai sair ou terei que chamar o segurança?
Debaixo da maquiagem, a expressão de Bettina mudara. De pé, ela esperou que Paul parasse de
gritar e disse:
— Conversei com William.
Paul gelou ao imaginar o tipo de conversa que poderiam haver tido. Temia por Cassidy, no caso de
Bettina ficar sabendo do que houvera entre eles. Surpreso, viu-a baixar os olhos em sinal de submissão.
— Estive pensando, e resolvi que estava enganada quanto à peça. Will me convenceu. Afinal,
o papel foi feito para mim. Seria tolice não interpretá-lo.
Então era isso! William tinha sido mais maquiavé-lico do que Paul poderia supor. Conseguira
convencer Bettina de que ela estava perdendo o jogo, e assim a fizera voltar atrás.
Ao mesmo tempo, afastava-o de Cassidy e ganhava pontos com Bettina. Aquilo o enojava de tal
maneira que sua vontade era jogar tudo para o alto. Mas, por pior que fossem, os membros de sua
família dependiam inteiramente dele, e não era justo sacrificá-los.
Se os parentes eram egoístas, Paul não era. Subitamente, ele sentiu-se terrivelmente cansado.
Pegou o paletó e, olhando para Bettina, respondeu:
— Acho que deve falar com William a respeito. Afinal, ele parece se importar. Eu, não. Até
logo.
Ela não se moveu.
— Você está estranho. Algo que eu possa fazer?
Paul deu dois passos em direção à porta, então se virou e disse:
— Sim, há. Fique longe de mim, bem longe. Quero esquecer que você existe.
— Mas e os ensaios? — perguntou ela com voz estridente.
— Fale com William. Ele dará um jeito — Paul respondeu, irónico.
Não foi preciso falar mais nada. Bettina se recompôs e, antes que ele a deixasse só, retirou-se da
sala.
Paul estava arrasado, mas não permitiria que William se encarregasse de dar a Cassidy as más
notícias. Ao mesmo tempo, não tinha forças para falar pessoalmente com ela. Não depois da noite
anterior.
Ligou para a loja. Cass atendeu ao telefone, fingindo despreocupação, e ele foi direto ao assunto. Em
poucas palavras disse que Bettina faria o papel de sua bisavó na peça. O silêncio que se seguiu do outro
lado da linha revelava a decepção. Mas, assim que recuperou a voz, Cassidy disse pausadamente que essa
era a melhor solução para todos.
No íntimo, Paul esperava que houvesse menos compreensão, que ela se mostrasse indignada ou
triste, mas não resignada daquela maneira. Era absurdo da parte dele, mas mesmo assim...
Pensando no bem-estar de Cassidy, murmurou:
— Eu sinto muito. — E desligou.
Depois disso, mergulhou no trabalho. Horas e horas olhando relatórios sem compreender nada,
fazendo e refazendo contas até se convencer de que estavam erradas. No começo da noite, resolveu
continuar no escritório e faltar ao ensaio.
Ligaria para William e diria para que ele se incumbisse também dessa parte da sua vida, já
que o assessor se mostrara tão interessado em resolver todas as outras.
Mas não o fez. Sentado em sua mesa, esperou até estar certo de que não havia mais ninguém no
prédio. Então saiu em direção à fábrica.
Lá chegando, logo avistou o carro de Cassidy, parado no lugar de sempre. Estava ali para vê-la,
mesmo que a distância. Não precisou esperar muito para avistar seu sorriso encantador. Magoada ou não, o
importante, para Paul, era saber que ela estava ali, viva, diante de seus olhos.
Saindo do carro, Paul caminhou em direção ao grupo, mas seus olhos continuaram fixos em Cassy.
Os cabelos presos, como na noite anterior, deixavam o longo pescoço à mostra. Vestida com um suéter
ver-de-escuro e uma saia longa de lã xadrez, verde e preta, ela usava um largo cinto e botas de
couro preto. A silhueta delicada se destacava, como se fosse uma ninfa entre simples mortais.
Entre eles também estava Bettina. Loura platinada, exibia as formas esguias dentro de um costume
vermelho, de calça e jaqueta, cujo zíper aberto na altura dos seios deixava-os quase à mostra. Irritante
vulgaridade para o gosto de Paul.
Cassidy chamou a atenção do grupo para anunciar as mudanças. Com a desculpa de que tinha
outras tarefas, explicou que caberiam a William e a Bettina suas antigas atribuições e os papéis de
protagonistas.
Mal saíra do lugar e Tony se adiantou, pedindo esclarecimentos. Com alguma insolência inquiriu
William:
— Você não sabe nada sobre teatro. Por que deveríamos lhe dar ouvidos?
William não gostou de ver sua autoridade questionada, ainda mais por Tony.
— Não estamos falando de Shakespeare. De mais a mais, ajudei a escrever esse roteiro. E,
se Cassidy me acha capaz de levar adiante o trabalho, não vejo razão para você questionar minha
capacidade.
— Pois é isso que me incomoda. Não estou convencido de que Cassidy tenha tomado essa decisão
— insistiu Tony. — Conheço-a bem para dizer isso. Para não tocar no repentino interesse da srta. Lincoln
pelo papel...
— Acho que a culpa é toda minha — interveio Bettina com voz macia.
Como se estivesse diante da realeza, William saiu em defesa dela.
— Nada mais natural. Afinal, esse papel foi escrito para ela. E não quero ouvir mais uma
palavra sobre isso.
Paul se aproximou e juntou-se a Tony, balançando a cabeça em sinal de desaprovação. Um
burburinho de insatisfação se fez ouvir.
William fitou o chefe e estremeceu ao notar o semblante duro, como esculpido em rocha. Temeroso,
interpretou erroneamente o que viu e partiu para a defesa, dizendo:
— Minha irmã é temperamental como todo artista. Daqui a um dia ou dois ela estará bem. —
E, dirigindo-se a Paul: — Sei que lhe devo desculpas. Percebi que minha irmã o importunou com suas
fantasias e...
— Importunou a mim? — Paul repetiu, incrédulo.
— Eu sei, eu sei — continuou William, sem perceber o erro. — Devia ter falado com você direito,
mas quase cheguei a crer que fosse outra coisa, imagine só! Mas, depois do que ouvi nos bastidores, tive de
tomar uma atitude drástica, sabe...
— Você ouviu? Você estava escutando?
— Foi doloroso, para mim, vê-la. E talvez eu não devesse ter ido conversar com Bettina, mas
entenda, não havia tempo para mais nada. E, convenhamos, será uma boa lição para que minha irmã
não mais se envolva com homens comprometidos.
O ódio cegou Paul. Um ódio tão intenso que ele sentia-se capaz de matar. E, antes que alguém
pudesse evitar, agarrou William pela garganta, jogou-o ao chão, e ignorando-lhe os gestos desesperados,
vociferou:
— Seu estúpido, nojento insensível! Nunca mais fale nada de sua irmã ou eu o matarei, ouviu bem?
Se eu não a amasse tanto, teria prazer em fazer isso já!
Levantou-se e deixou William respirar. Que tudo se danasse, inclusive Bettina. Aliás,
especialmente Bettina. Levá-la-ia ao altar se ela insistisse, mas só. Dali em diante a farsa estaria
encerrada. Se era o casamento que ela queria, ótimo. Seria satisfeita a sua vontade. Teriam a vida
inteira para usufruir daquele inferno.
CAPITULO VIII
O humor de Paul não melhorou depois daquela noite desastrosa. Ele decidiu que os ensaios
estariam limitados a uma vez por semana. Não era preciso mais que isso. Eram poucas as falas, e
Bettina podia perfeitamente ensaiar com William.
Depois, o grande trabalho fora feito por Cassidy, ela sim responsável pelo texto leve, os
cenários, o figurino e a iluminação que, somados, conseguiam encobrir o desempenho sofrível dos
atores.
Graças ao esforço sobre-humano de Cass, Bettina estaria vivendo seu momento de glória sob
a luz dos refletores, apesar da falta de talento para o palco.
Os dias passavam para Paul com enorme sacrifício, mas o trabalho o ajudava a suportá-los.
As noites, porém, eram longas agonias.
O aniversário de sessenta e três anos de seu tio John não lhe trouxe alegria. Jamais teria
se lembrado, não fosse seu tio Cari, padrasto de Bettina e irmão do aniversariante, que ligou
para lembrar-lhe de que cedera sua casa para a comemoração.
Relutante, Paul tomou as devidas providências, ou seja, ligou para sua governanta. Era absurdo
que até as festas de aniversário tivessem de ser organizadas por ele.
Com o bolo confeitado nas mãos, saiu da fábrica, comprou uma caixa de champanhe e,
cansado, chegou em casa a tempo de tomar banho antes que os convidados chegassem.
Ao descer a escada, vendo a mesa do salão arrumada com flores e velas, pensou que talvez não fosse
tão ruim passar uma noite entre a família, apesar de Bettina.
No bar, serviu-se de uma bebida. Ainda não provara o martíni seco quando sua prima Joyce
chegou, ao lado do marido, ambos irradiando felicidade. Recusando o drinque que lhe fora oferecido, ela
contou que estava esperando um bebe.
Tio Cari e tia Jewel foram os seguintes, desculpando-se pela ausência de Bettina e dando, dessa
forma, um motivo para Paul celebrar.
Quando resolveu abrir o champanhe, mesmo antes de o aniversariante chegar, ninguém pareceu
se dar conta de que os efeitos do álcool já se faziam notar no comportamento de Paul. Ou pelo menos
ninguém disse nada.
Um pouco mais tarde, a mãe de Joyce, Mary Spencer, chegou e disse:
— Vou ser avó, quem diria!
Jewel olhou para Paul e sugeriu:
— Quem sabe, no ano que vem a avó possa ser eu...
Ele sorriu com sarcasmo e disse, em voz alta:
— Isso se Bettina fosse capaz de sacrificar sua bela silhueta por uma criança! Não, tia Jewel,
encare os fatos. A senhora nunca será avó, nem eu serei pai. Ambos somos vítimas da obsessão cega
de Bettina. Seremos sacrificados, sem piedade.
O silêncio aterrador que se abateu sobre a mesa pareceu não ter sido notado por ele, que encheu outra
vez o copo com champanhe, alheio ao mal-estar reinante. John, o aniversariante, tentou mudar de assunto:
— E os negócios? Como vão?
Num gesto de desalento, Paul levantou a mão, dizendo:
—Estarão melhores depois do ano-novo. E difícil trabalhar com alguém sempre atrapalhando.
Os olhares trocados entre os presentes davam a entender que estavam todos cientes de quem se
tratava. Porém apenas Cari disse algo, enquanto sua esposa baixava o olhar para o prato:
— Tenho certeza de que tudo irá melhorar depois que você e Bettina se casarem. Ela não
terá tempo para pensar em negócios, estando a seu lado. O amor transforma as mulheres.
O ruído do copo de Paul se estilhaçando contra a mesa precedeu o que viria a seguir.
— Amor? Vocês estão brincando comigo ou enlouqueceram?
A ideia de Bettina amando alguém era hilariante, e Paul gargalhou. Só depois, quando olhou para
a pobre tia Jewel, percebeu que nem ela sabia a serpente que criara em seu seio. E nada havia para rir
naquela situação. Virando num único gole o conteúdo de outro copo, Paul sentiu um zumbido no ouvido
e, suando frio, quase perdeu os sentidos.
No instante em que conseguiu enxergar com clareza novamente, deparou com o olhar estarrecido de
seus tios. Jewel apoiava as mãos sobre a mesa, tentando achar as palavras certas.
— Paul, está dizendo... está falando sério quanto ao sentimento? Quer dizer que vocês não
se amam?
Fechando .os olhos, ele sentiu a cabeça pesar. Não estava com disposição para aquela conversa.
Passando a mão na testa, apenas disse:
— Tia, a senhora não pode realmente achar que Bettina e eu estamos apaixonados...
— Mas no ano passado...
— Nós tivemos um caso? Realmente, e ela torceu tudo de tal forma que acabei sendo forçado
a esse casamento. Mas não se preocupem, vou me casar. Pelo bem dos negócios, pelo bem de todos os
presentes, irei para o sacrifício.
Dito isso, Paul subiu a escada e recolheu-se em seu quarto, antes que o vexame fosse além do
socialmente aceitável.
Com a cabeça estourando e um gosto horrível na boca, ele lembrou que não podia beber mais que
uma dose. Se houvesse uma maneira de apagar a noite anterior, ele o faria. A reação da família o
preocupava, mas nada podia ser feito para remediar a situação.
O ruído do interfone nunca pareceu tão estridente e, quando a voz de Gladys soou, ele adivinhou
de que se tratava.
— A srta. Lincoln está aqui e não pude... — nisso a porta se abriu — ...evitar que ela
entrasse.
— Culpa minha, devia ter comprado uma arma — respondeu ele, deixando a secretária
aturdida.
Sob o olhar fuzilante de Bettina, ele calmamente tomou seu sal de frutas. Só depois dignou-se a
dar-lhe atenção. Horrorizada com o comportamento grosseiro, Bettina disse:
— Que está acontecendo? Você me humilhou diante de toda a família!
— Mesmo? Achei que você nem estava lá, que coisa!
Rodeando-o, Bettina bufava de raiva.
— Como ousa dizer a meus pais que não me ama?
Paul não pôde deixar de rir. O que a.irritava não era o fato de não ser amada, mas ouvi-lo dizer isso.
Balançando a cabeça, replicou, calmo:
— Sinto muitíssimo desapontá-la, mas não estou disposto a brincar de faz-de-conta. Estou
velho demais.
— Não me tire do sério! Venho sendo muito razoável. Até agora.
— Razoável? Quando? Acho que perdi essa parte!
— Furioso, Paul bateu com força o punho contra a mesa.
— Acho melhor ser mais cortês, primo. Pensa que não sei sobre a srta. Penno?
Mencionando o nome de Cassidy, Bettina tocou no ponto frágil de Paul, tirando-o do sério.
— Deixe-a fora disso ou vai se arrepender.
— É sobre isso que vim falar. Faço um acordo. Você não a vê nunca mais, e em troca assinarei
um acordo pré-nupcial do jeito que você achar melhor. — As palavras sibilavam, venenosas.
Então esse era o jogo dela! Paul não hesitou:
— Eu concordo.
— Então não há mais o que falar. — Exultante, Bettina saiu da sala como entrou, sem
preâmbulos.
E deixou Paul com a sensação que dali em diante todas as suas vitórias seriam assim, tão alegres
que davam vontade de chorar. Bettina tinha razão numa coisa: não havia mais nada para ser dito.
Sentado no palco, Paul seguia com os olhos os movimentos de Cassidy pelo salão, vendo-a mostrar
a Hoot qual seria a disposição das mesas. Graças a ela, Hoot não apenas concordara em ceder todas as
mesas e cadeiras, como também aceitara a incumbência de ser o responsável pela comida e pela bebida.
Mesmo com a quantia generosa que estava desembolsando, Paul sentia-se radiante. Ter Hoot naquela festa
já seria motivo suficiente para trazer até ali um bom número de convidados importantes de fora do estado.
Além disso, conseguira que Bettina abrisse mão da orquestra, trocando-a por uma big band capaz de levar
para pista de dança até o mais empedernido dos homens.
Aqueles músicos custavam uma fortuna, mas valiam cada centavo. A festa seria um sucesso, e
graças ao trabalho de Cassidy. Seu coração se iluminava só ao lembrar dela. A seu lado Paul sentia-se
como um adolescente apaixonado.
Isso Bettina não podia controlar.
Naquele momento, ela surgiu. Com um casaco de pele e saltos altos, bufava de raiva. Bastou
avistar Paul e já desatou a proferir impropérios.
— Como ousa? — gritou, atirando sobre ele uma pilha de papéis.
— Você parece aborrecida — caçoou ele. — Foi algo que eu fiz?
O salão inteiro parou para ver o que estava acontecendo. Hoot e seus assistentes divertiam-se.
Mas Cassidy convidou-os a deixar que "o sr. Barclay e a srta. Lincoln" falassem em particular.
Porém, Paul não permitiu.
— Não vamos interromper o trabalho. E jamais me passou pela cabeça privar a srta. Lincoln de
fazer uma cena em público.
— Seu...
— Meça suas palavras, prima!
Tentando recuperar o controle, Bettina tentou transformar sua raiva em comiseração. Com ar
choroso, interpelou-o:
— Como pôde fazer algo tão hediondo com as ações que vovô me deixou?
— O meu avô, você quer dizer — corrigiu Paul. — Eu é que pergunto: como teve coragem
de usar as ações para fazer chantagem comigo?
— Não vou concordar em lhe dar minhas ações depois do casamento.
— Não? Que pena. Então esqueça o acordo. Ou acha que sou tolo a ponto de deixá-la interferir
nos rumos da empresa?
As mãos de Bettina estavam crispadas. Depois de um segundo de hesitação, ela disse:
— Certo. Mas você terá o direito de voto enquanto estivermos casados. Caso haja divórcio, as
cotas voltam para mim.
Paul sabia que isso acabaria acontecendo, mas não resistiu à tentação de irritar Bettina. Adorava
vê-la perder a compostura. Era sua pequena vingança. Para manter a calma, cerrou os dentes e falou:
— Tenho outra proposta. Com o casamento, você vende as ações para os outros membros
da família, menos a mim. Dessa forma todos ganham, inclusive seus pais.
Bettina estreitou os olhos, farejando algo suspeito no ar, mas concordou:
— Aceito. Assim terei um pecúlio para a velhice.
Paul pulou do palco para o chão, encarando-a com seriedade.
— Se é essa a questão, por que não me vende suas ações? Pago o dobro do valor de mercado.
— E deixá-lo livre? Nem pensar. Se eu disse que ia me casar com você, eu vou.
— Mesmo sabendo que não a amo? Só porque disse a seus amigos que se casaria comigo? Só
por orgulho?
— Acha que eu deixaria o melhor partido de Dálias me trocar por uma costureirazinha?
Segurando-a pela lapela, Paul' avisou:
— Mais uma palavra e eu juro que irá se arrepender de ter nascido, Bettina Lincoln. Sou capaz
de fazê-la ficar sozinha no altar se souber que você moveu um dedo em direção a Cass.
— Jura?
— Não pense que pode me dominar. Estou muito propenso a esquecer as tradições familiares
e mandar tudo para o ar. Quer apostar? Pois veja só. — E, virando-se para o salão, gritou para todos: —
Atenção!
Tenho um comunicado a fazer: a srta. Lincoln sente muito, mas não se acha capaz de interpretar o
papel de Jane Barclay. — Fez uma pausa para ver a perplexidade estampada em Bettina, e então
continuou:
— Cass, acho que terá de nos socorrer nisso.
Por um momento, Paul temeu que o bom senso de Cassy falasse mais alto e a levasse a recusar,
deixando-o sem saída. Mas ela apenas cochichou no ouvido de Hoot, explicando que falariam depois.
Exultante, Paul bateu palmas. E nem percebeu quando Bettina se retirou. Apenas ouviu-a dizer:
— Vejo você mais tarde, querido.
— Não, se eu puder evitar — respondeu ele.
Quando deu por si, era Cassidy quem estava a seu lado. Reconheceu nos olhos adoráveis a mesma expres-
são que já vira, temerosa por ele.
Apertando de leve a mão delicada, Paul tentou tranquilizá-la:
— Está tudo bem. Confie em mim.
Os olhos verdes o estudaram por um momento. Então Cassidy se virou para os outros e, resoluta,
disse:
— Todos em seus lugares. Esta é a última vez antes do grande dia!
Sua estrela brilhava outra vez. Não ia deixar que nada atrapalhasse aquele momento mágico. Muito
menos o orgulho de Bettina.
Cassidy não sabia o que pensar. Paul estaria em dúvida? Sentiria, tanto quanto ela, a separação
forçada? Ao mesmo tempo, queria e não queria que isso fosse verdade. Mesmo que conseguissem ficar
juntos por mais algum tempo, isso seria bom? Se ao menos Paul deixasse de lado seus princípios e fizesse
amor com ela... Poderiam viver intensamente o pouco tempo que lhes restava.
Como sofrera nos dias e nas noites em que estivera longe dele! Sem aquele homem, sua vida ficara
vazia, e a sensação de perda era constante.
E de repente lá estava ela, ao lado de Paul, como se pertencessem um ao outro. Enquanto
representavam o casal Barclay, extravasavam suas próprias emoções, misturando ficção e realidade, pois
sentiam-se tão unidos quanto eles.
Uma paz imensa tomou conta de Cass. Calma como o mar antes da tempestade, pensou ela. Estava
com Paul naquele momento, mas isso não duraria para sempre. E a ideia de perdê-lo novamente era
aterradora como a morte.
A primeira cena estava quase terminando, e Cassidy representara seu papel quase que
automaticamente. Mas, quando Paul tomou-a nos braços para a última fala, seus olhares se encontraram,
e ele a beijou apaixonadamente. Aplausos vieram de todos os lados da plateia improvisada.
O beijo foi interrompido, mas Paul manteve Cassidy nos braços.
— Cass querida, me perdoe.
Rindo, ela respondeu:
— De quê?
Paul não teve tempo de responder. Nesse minuto, as luzes se acenderam, e William surgiu, com
a expressão patética de sempre. Trazia na mão um calhamaço de papel. Parecia à beira de um colapso.
Porém, não foi dele a voz irada que se fez ouvir, mas a de Tony:
— Isso não está no roteiro!
— Agora está — respondeu Paul.
Cassidy fitou-o com ternura, perdoando-o por essa atitude ditatorial. Como recriminá-lo quando
tudo o que ele vinha fazendo era por ela? Para ela? Não, o amor tinha licença para coisas como essas... se
for amor de verdade.
Sua decisão estava tomada e, mesmo sabendo que isso teria consequências sérias, Paul sentia-se
aliviado. Pensara muito, e preferia faltar com a palavra dada e abrir mão de toda uma vida de
trabalho. A abrir mão de Cassidy. Não tinha direito de sacrificá-la, fazendo-a passar por
humilhações, escondendo-a de todos.
Naquela mesma noite anunciaria publicamente sua decisão, e Bettina que se conformasse. Talvez
o fato de seu amor por outra mulher ser de domínio público colaborasse para demovê-la da ideia do
casamento.
Tinha um plano para convencer Bettina a deixá-lo em paz, a contentar-se com seu dinheiro e não
com ele.
Cassidy tinha que estar a seu lado aquela noite. Seria a noite deles.
Não a via havia dois dias. Desde então estivera ocupado, organizando os negócios com alguns dos
maiores supermercados do país. Era a hora de a Barclay entrar no mercado nacional, e até aquele momento
os contatos tinham sido ótimos.
Paul pusera Cari Thomas, marido de Joyce, para participar das reuniões e assim se inteirar dos
negócios. Depois de pensar muito, escolhera-o para tomar seu lugar, caso fosse preciso.
Eram quase cinco horas, e ele se dirigiu para a fábrica, ansioso por encontrar Cassy. Embora fosse
muito cedo, achou melhor se vestir e esperar por ela nos trajes de bisavô. Impecável como patriarca da
família, passou o tempo que restava inspecionando os preparativos para a festa. Só Hoot e seus
empregados trabalhavam. Brincando com as teclas do piano, Paul viu Bettina chegar.
O traje escolhido por ela fazia lembrar uma corista de saloon. Supermaquiada, vestida de rosa-
choque, os cabelos presos num coque cheio de plumas e o imenso decote não deixavam dúvida de que era
Mae West a inspiradora do traje.
Ele a ignorou e vice-versa. Mesmo entretido com o relógio de bolso, Paul viu Cassidy ao pisar no
salão de baile, e sua imagem o deixou sem ar.
A primeira vista, Cass parecia irreal, saída do passado, com a aura de romantismo do começo do
século. O vestido de veludo e seda púrpura, adornado por renda negra, desenhava o colo e a cintura
delicada, enquanto no quadril se avolumava numa profusão de sedas e laços. Os braços cobertos por
luvas rendadas e mangas bufantes deixavam, entretanto, os ombros e o colo descobertos, e o decote
generoso debruado por renda negra dava o toque sensual, exibindo e realçando os seios perfeitos e fartos.
Paul caminhou pelo salão em direção a ela, e, oferecendo-lhe o braço, como um cavalheiro,
conduziu-a para a festa.
— Você está deslumbrante!
Cassidy estava de braços dados com Paul quando o primeiro convidado chegou, e assim permaneceu
durante muito tempo. Um a um, foi apresentada a todos os amigos e conhecidos dele, suscitando
comentários e obrigando Bettina a justificar-se.
Ignorando os lugares marcados para o jantar, Paul sentou-se ao lado de Cassy, na mesa de Hoot.
Sentia-se livre para viver a vida como bem entendesse, ao menos aquela noite. Todos pareciam muito
felizes, exceção feita a Bettina, visivelmente irritada.
O baile não parou nem um minuto. Mesmo quando o jantar foi servido, alguns pares rodopiavam
pelo salão.
Paul dançou com Cassy quase todas as músicas. A felicidade estampada em seu rosto não passou
despercebida aos tios, que, apreensivos, não sabiam o que pensar.
Um pouco antes do início da peça, a banda parou de tocar e algumas luzes foram apagadas.
Enquanto os convivas se acomodavam, Paul e Cassy se preparavam nos bastidores.
O belo vestido de noite foi substituído por outro, bem simples e de tecido rústico. Paul estava
perfeito na caracterização do imigrante, com os suspensórios sobre uma camisa de malha e o lenço
amarrado no pescoço. Silêncio total se fez assim que as luzes se apagaram e a voz do narrador
começou a contar a saga dos Barclay. Mas, quando os holofotes iluminaram o palco, um murmúrio de
admiração foi ouvido na plateia. O cenário reproduzia, com riqueza de detalhes, a cozinha dá bisavó
Jane. Em primeiro plano via-se Paul, amassando pão sobre uma mesa tosca. Atrás dele, Cassidy
parecia entretida com o fogão.
A primeira cena mostrava como Theo e Jane Barclay haviam conseguido tirar da cozinha de sua casa
os primeiros pães do que viria a se tornar um império. Contando os centavos, trabalhando dia e noite sem
descanso, muitas vezes Theo pensara em desistir, mas Jane estivera sempre a seu lado, até que
conseguiram abrir a primeira loja.
Em cena, Cassidy e Paul iam dando vida à história, levando os espectadores a se emocionar com a
árdua batalha travada pelos antepassados. Quando Theo anunciava a Jane que iam abrir a padaria,
ambos se abraçavam e assim terminaria o primeiro ato.
Terminaria, mas não terminou. Surpreendendo a todos, inclusive Cassidy, Paul modificou o
roteiro e, num gesto arrebatador, beijou-a. Como já fizera no ensaio, mas com muito mais paixão.
Perplexa, ela se entregou. Mas, ao explodirem os aplausos, entrou em pânico. Dali em diante
ninguém mais duvidaria de que ela e Paul eram muito mais que amigos ou bons atores.
Apavorada, desvencilhou-se do abraço e sussurrou:
— Você perdeu o juízo?
— Ao contrário, eu recuperei o bom senso.
— Do que está falando?
— Que não vou me casar com Bettina, mesmo que isso me custe a empresa. Mesmo que isso
custe o bem-estar da família.
Atónita, Cassidy teve que deixar para mais tarde a conversa. A peça tinha de prosseguir. Eles
precisavam trocar de roupa e voltar ao palco. William já acenava, pedindo que se apressassem.
Paul foi para o camarim em estado de graça com o que fizera. Dali em diante tudo seria mais fácil,
mesmo com as dificuldades que teria que enfrentar, Cassidy estaria a seu lado, e isso já fazia a vida valer
a pena.
CAPITULO IX
A peça, dali em diante, transformou-se um martírio para Cassidy, que não conseguia se concentrar. Paul
fizera uma loucura sem tamanho ao desafiar Bettina. Só ao pensar no que poderia acontecer com ele, Cass tremia.
Alheia ao que se passava à sua volta, ela precisou de um esforço sobre-humano para levar adiante o papel de
Jane. Porém, nada disso interferiu no absoluto sucesso de sua atuação, que arrancou aplausos entusiasmados no
final.
Depois de voltar ao palco duas vezes, ovacionados pela plateia, o elenco se retirou para que Cassidy e Paul
fossem aplaudidos. Mas Cass correu para o camarim, fugindo de Paul.
Demorou-se mais que o necessário. Para ganhar tempo, repetiu o ritual que incluía ducha e toalete
completa. E, mais linda que antes, meia hora depois saiu do vestiário.
Trabalho inútil, pois, com paciência e um sorriso nos lábios, Paul esperava por ela. Sem jeito, Cassy
tentou se esquivar.
— Ouça, eu realmente preciso verificar...
— Seja o que for, terá de esperar. Deste minuto em diante a noite é nossa. Vamos nos divertir juntos.
E pegou-a pela mão para voltar ao palco e receber mais aplausos. Agradecimentos feitos, Paul pulou do
palco para a pista, levando Cassidy. Poucos pares dançavam quando ele se aproximou do pianista e cochichou
algo. Em instantes os primeiros acordes de uma valsa encheram o salão. Sem escolha, Cassidy se viu no
meio da pista, conduzida pelo homem que amava.
— Paul, eu não sei valsar! — sussurrou ela.
— Não se aflija. Segure a calda do vestido e deixe o resto comigo.
— Está bem.
Sem saber direito como, Cassidy passou a rodopiar ao compasso da música. Vendo-a assim, ele
sorriu, dizendo:
— Viu só? Juntos somos capazes de qualquer coisa.
Um nó fechou a garganta de Cass ao ouvi-lo dizer aquilo. Sabendo ser impossível que permanecessem
juntos, ela segurou as lágrimas para não estragar aquele momento de felicidade.
Encostou a cabeça no ombro largo de Paul e deixou-se levar pela emoção de estar com o homem
de sua vida. Mesmo que pela última vez.
A valsa terminou sem que eles parassem de dançar. Estreitando-a ainda mais, Paul continuava
incansável nos volteios pelo salão. Os comentários inevitavelmente surgiram, mas nada parecia capaz de
abalar sua alegria.
Demorou muito até que ele olhasse para o relógio.
— Daqui a meia hora começará um novo ano.
— Já é tão tarde?
— Não tarde demais para nós dois — disse Paul. — Eu não quero que seja.
— Paul, não...
Mas a voz de Cassidy foi abafada quando outra ecoou, estridente e irada, pegando-os de
surpresa:
— Preciso falar com você, Paul Barclay! — bradou Bettina.
Intimidando Cass, e os casais que estavam perto, Bettina só não comoveu Paul, que continuava a
ignorá-la, mesmo com os apelos mudos de Cassidy para que lhe desse atenção.
— Seja o que for, pode esperar — respondeu ele em voz alta.
Fora de si, Bettina fez um gesto brusco e colocou-se entre os dois.
— Engano seu. Não pense que vai continuar me fazendo de idiota. Não vou permitir!
— Não? E de que jeito?
— Vou destruir você!
Gargalhando, Paul respondeu:
— Não seja ingénua.
— Juro que destruirei sua amada empresa e...
— Pois que seja. Faça o que quiser, mas nada me obrigará a casar com você.
Um grupo cada vez mais numeroso de pessoas assistia, surpreso, ao escândalo protagonizado pelos
anfitriões da noite, sem saber o que pensar ou como agir.
Bettina estava furiosa, o belo rosto transfigurado numa máscara de ódio, repulsiva e assustadora.
Histérica, gritava cada vez mais.
— Como ousa me usar dessa maneira?
Cassidy estremeceu com o rumo perigoso que a discussão tomara. Conhecia Paul e temia pela reação
dele. De fato, não estava enganada.
— Ora, veja! Você entra em meu escritório nua como veio ao mundo, joga-se a meus pés e depois
me acusa de usá-la?
Bettina empalideceu e avançou sobre ele, esbofeteando-o com violência.
Impassível, Paul limitou-se a dizer:
— Muito me arrependo de termos "usado" um ao outro, algumas vezes. Mas isso já passou,
e eu não vou me submeter à sua chantagem.
— Maldito!
Sentindo a tensão insuportável, Cassidy tentou evitar o pior, puxando Paul pelo braço antes
que fosse tarde demais. Mas ele parecia não ter perdido a frieza, mesmo quando reafirmou
categoricamente:
— Não vou me casar com você. Não há nada que possa fazer para me obrigar.
O silêncio caíra sobre todos na festa, e nem música se ouviu até o fim da discussão. O
burburinho começou imediatamente entre os homens de negócios presentes.
— Spencer se demitiu!
— Isso é suicídio para a empresa!
— Será que ele aceitaria mudar para Boston? — especulou o dono da maior
concorrente da Barclay, já pensando em contratá-lo.
— Sem Spencer, voltaremos ao tempo das carroças!
— Logo agora! Estamos perdidos...
Nesse ínterim, saído do nada, William apareceu ao lado de Paul com um sorriso estúpido no
rosto, tentando contornar o escândalo, como se isso fosse possível.
— Crianças, é melhor conversar sobre isso depois...
— Vá para o inferno, Penno! — vociferou Bettina. — Se você tivesse tirado sua
irmãzinha do caminho, como eu mandei...
Abandonando a atitude fleumática, Paul avançou em direção a ela, farto da atitude
despótica da prima.
— Cale essa boca, antes que eu faça isso por você!
Estava disposto a cumprir a ameaça, mas William segurou-o pelo braço. Fuzilando de desprezo,
Paul jogou o assessor para longe, enojado com a falta de escrúpulos de um homem como ele. Foi
então que Cassidy percebeu que tinha segundos para evitar o que poderia vir a ser, de verdade,
um escândalo desastroso.
Colocando-se no caminho de Paul, mãos espalmadas sobre o tórax musculoso, murmurou
entre os dentes, chamando-o de volta à razão:
—Não permita provocações. É só o que ela quer.
Bettina logo provou isso, pois voltou a espicaçar Paul.
Balançando a cabeça, desafiando o primo, continuou:
— Vou arruinar suas padarias, você verá!
— Mesmo comigo longe?
— Será mais fácil, e mais divertido, com você longe!
— Então não posso fazer nada.
— Quer dizer que vai abrir mão de tudo? — perguntou Bettina, incrédula.
— Não de tudo. Não de Cassidy. Dela eu não abrirei mão, de jeito algum.
Horrorizada, Cass assistia a tudo sem poder fazer nada. Quando Bettina olhou-a dos pés à cabeça,
seus olhos destilavam ódio, ameaçadores.
— Bem, se é assim que quer... As empresas Barclay vão afundar para que você possa estar com
essa garota de programa.
— Não! — exclamou Cassidy ao recuar, estarrecida.
Não permitiria que aquilo viesse a acontecer. Não com Paul, nem com sua família. Jamais se
perdoaria se tivesse de ser feliz à custa do sacrifício alheio.
Mas ninguém parecia ciente da situação. Os semblantes hostis à sua volta indicavam isso. Entre
tantos rostos, o de Tony se destacou dos demais. Correu para ele, implorando ajuda.
— Leve-me daqui. Quero ir para casa, por favor!
Merecendo a confiança depositada, Tony a amparou, e juntos encaminharam-se para a porta. Mas a
mão de Paul pousou no ombro de Cass, retendo-a.
— Fique.
— Eu tenho que ir.
— Não, querida. Por favor, espere. — Paul colocou-se no caminho, impedindo-a de seguir em
frente.
— Deixe-a em paz, Spencer.
Paul ignorou o aviso de Tony, como se ele não estivesse ali. Seu olhar parecia só enxergar
Cassidy.
— Vamos começar este ano juntos, como planejei.
Fique comigo.
— Não posso. Bettina...
— Esqueça Bettina! Não vê que ela mesma se destruiu, fazendo o que fez?
— Não importa — sussurrou Cass, e saiu correndo antes que ele a convencesse a ficar.
Como convencê-lo a mudar de ideia? Só ela poderia evitar que a ruína se abatesse sobre a
família Barclay. Poderiam ser felizes pagando um preço tão alto? Que diferença haveria entre ela
e Bettina se permitisse que Paul abandonasse os outros membros da família por sua causa?
Depois de trabalhar duro para construir aquele império, não era assim tão fácil largar tudo.
Correndo entre mesas e cadeiras, Cassidy tentava escapar de si mesma procurando a saída
para a rua. Tony a seguia, e Paul ia logo atrás deles.
Cassidy escutava as palavras que Paul gritava a distância, mas sem ouvi-las. Só parou de
correr quando percebeu que ele já não mais a perseguia e que, na noite fria de ano novo, escapava
do único homem que amara na vida. E ele jamais entenderia o motivo que a levara a deixá-lo.
Exausta, Cass se rendeu ao abraço amigo de Tony e chorou todas as lágrimas que um
coração partido pode ser capaz de produzir.
Fechado na solidão de seu gabinete, cercado de seus livros, Paul abrigou-se no escuro
enquanto o mundo inteiro recebia com fogos de artifício a chegada do ano novo.
O fiasco da festa era devido única e tão somente à loucura de Bettina, que conseguira
em meia hora pôr em risco um século de respeitabilidade e tradi ção familiar. A solidez do
nome Barclay desapareceria no momento em que os jornais anunciassem o escândalo da noite.
E, em vez de crescer no mercado nacional, a empresa teria sorte se conseguisse manter a posição atual.
As ações não valeriam um níquel se fossem colocadas na bolsa. E, se não fossem cautelosos, aquilo
poderia levá-los à falência.
Embora tivesse se desculpado publicamente pelo infeliz incidente, Paul não deixara de sentir a
repercussão péssima entre alguns de seus maiores clientes. O estrago já fora feito, e dificilmente a
confiança seria restaurada entre os investidores. Pior, entre os consumidores dos produtos Barclay. Ele riu
de si mesmo ao lembrar que os mesmos convidados que haviam aplaudido, comovidos, à peça, menos de
uma hora mais tarde tinham testemunhado o vexame vulgar de dois dos herdeiros da mesma família.
Enchendo a cabeça com essas considerações, Paul tentava evitar que seu pensamento recaísse na
verdadeira tragédia da noite: a perda de Cassidy. Feria-se ao recordar do olhar de sofrimento que vira nela.
Pior era lembrar da fuga da mulher amada, que se fora sem ao menos olhar para trás.
Ela não precisara dizer por que agira assim. Depois de ouvir as ameaças de Bettina, Cassidy não
poderia suportar que outros sofressem por sua causa.
Desmoronavam, sob o olhar impotente de Paul, os pilares sobre os quais construíra sua vida. E as
esperanças de felicidade esvaíram-se horas atrás.
Levado pelo temporal que se abatera sobre o navio da sua existência, Paul de repente vislumbrou,
entre os destroços do naufrágio, algo em que se apegar, talvez ainda uma tábua de salvação que o levasse
de volta à terra firme.
Com isso em mente, achou força para se levantar da poltrona, acender o abajur e procurar, dentro de
si, as palavras que melhor expressariam o que tinha a dizer.
No relógio que pertencera ao primeiro Barclay, os ponteiros marcavam uma e meia da manhã.
Decidido, colocou a data no alto da folha em branco e começou a escrever.
A quem possa interessar
Tive a honra e o privilégio de servir esta empresa e aos membros da família a quem ela pertence,
representando-os durante os vinte anos em que aqui permaneci, desde menino.
Todo esse período tenho sido diligente no cumprimento de minhas tarefas, dando sempre o melhor de
mim.
Por isso mesmo, quando, por escrúpulos, sou incapaz de permitir que minha vida privada seja
sacrificada aos interesses da empresa, acho por bem vir a público pedir minha demissão imediata e
irrevogável.
Meu último ato, se me permitem, é recomendar, como meu substituto, o sr. Cari Thomas, que tenho
certeza será capaz de servir à família com igual, senão maior, competência que eu.
Minha gratidão é enorme aos muitos colaboradores que tive o privilégio de encontrar esses anos
todos. Desejo de todo coração que a empresa e todos que dela fazem parte tenham muito sucesso. Estarei
torcendo e vibrando, mesmo a distância.
Sinceramente,
Paul Spencer Barclay.
Era tudo o que havia a ser dito. Tirou uma cópia, dobrou-a e colocou dentro do bolso do
paletó. Pegou o telefone e fez algumas ligações, deixando mensagens nas secretárias eletrônicas
que atenderam suas chamadas. Não esperava achar ninguém em casa, não naquela noite. Mas
avisou a todos que os esperava para uma reunião, no dia seguinte, a uma hora da tarde, na casa
de Joyce e Cari Thomas.
Para Carl e Joyce a mensagem fora mais calorosa do que as demais. Feito isso, Paul se deixou ficar por
mais algum tempo sentado à mesa que fora de seu avô, olhando para as paredes impregnadas de passado, de um
passado do qual em breve ele também faria parte.
A atmosfera do lugar o envolveu, como se o abraçasse pela última vez. Com a consciência tranquila,
ele apagou a luz e saiu para o corredor da fábrica vazia.
Foi direto para casa. Lá, desligou os telefones, tirou a fantasia com cuidado e guardou-a na caixa,
para enviá-la a Cassidy. Teria mais uso se ficasse na loja. Metódico e melancólico, segurou entre os dedos o
velho relógio de seu bisavô, olhando-o com carinho antes de devolvê-lo ao estojo.
Demorou-se sob o chuveiro, e ao enfiar-se sob as cobertas não imaginava que fosse conseguir conciliar o
sono.
Já eram dez horas quando se levantou. O chuveiro e a espuma de barbear o ajudaram a encarar a
manhã silenciosa. Quando deixou sua casa, em direção à cidade, tinha a alma mais serena.
Nas ruas os sinais da festa jaziam, lá e cá, como testemunhas indiscretas da folia noturna.
Ninguém parecia disposto a sair de casa tão cedo, nem se ouvia um ruído humano. A caixa com a fantasia
era a desculpa para que Paul pensasse em Cassidy. Perguntava-se se ela tinha noção de quanto era amada.
Talvez não. Talvez Paul nunca conseguisse retribuir à altura o que recebera, quando ela oferecera sua
virgindade sem pedir nada em troca. Tentara fazer algo semelhante ao renunciar a tudo por amor àquela
mulher.
Naquela tarde, quando a reunião acabasse, iria a seu encontro. A loja teria de receber de volta as
fantasias, e Cassidy teria que estar lá para isso, da uma até as quatro horas. E ele chegaria antes das
quatro, com certeza.
O tempo que faltava até a reunião foi gasto com um lauto café da manhã. Depois, ele deu uma
caminhada e por fim se dirigiu à casa de sua prima Joyce. Passava um pouco do meio-dia.
A jovem grávida o recebeu de braços abertos, mas com evidente cansaço. Preocupado, Paul quis
saber de sua saúde. Joyce sorriu, tranqúilizando-o.
— Noite longa, só isso. Sentimos sua falta.
— Digamos que perdi a animação.
— Sinto muito por tudo. — E, olhando-o com simpatia, Joyce emendou: — Você parece gostar
muito da srta. Penno.
— Muito.
— Fico feliz. Vou chamar Cari.
Enquanto Joyce entrava pelo corredor, atrás do marido, Paul aproveitou para se recostar numa das
poltronas em frente à lareira.
Acabara de sentar quando a campainha tocou. Ainda na dúvida se devia ou não atender, foi
surpreendido pela entrada intempestiva da tia Mary.
— Querida, mamãe está entrando...
A roupa extravagante, assim como os modos, faziam da mãe de Joyce uma figura e tanto, pensou
Paul, tentando se lembrar há quanto tempo ela ficara viúva, Sorte que Cari e Joyce já estavam de volta à
sala. Um pouco depois, John, seu tio, chegou.
— Paul, vamos logo com isso — apressou o velho solteirão.
— Vamos esperar os outros — disse Cari.
— Sabe, gostei muito da srta. Penno, meu rapaz — falou a sogra de Cari, tia Mary.
— Penno... Acho que já ouvi esse sobrenome.
— Tio John, ela é irmã de William Penno, um dos nossos funcionários.
— Não simpatizo com esse sujeito, mas gostei muito da moça. E quem se importa com o irmão
dela?
— Tenho certeza de que o senhor vai adorar Cassidy. Ela não é como...
A campainha voltou a soar. Os pais de Bettina entraram, forçando Paul a interromper o que dizia.
— ...William — concluiu ele.
O jeito de Joyce, ou melhor de todos, fez com que Paul conjeturasse se não estavam escondendo
algo dele. Quando seus tios entraram, suas suspeitas aumentaram. Comportavam-se de forma esquisita,
quase ensaiada. Paul começou a notar que todos tinham aparência péssima, como se não tivessem pregado
o olho a noite toda.
Ele não esperava uma boa recepção, depois de tudo o que acontecera na noite anterior. Mas, para
seu espanto, Jewel foi a seu encontro e beijou-o no rosto com simpatia.
Não havia motivo para delongas. Paul tirou a carta do bolso, pedindo que todos a lessem e
passassem adiante.
Sem demonstrar surpresa, calma e controlada, a família permaneceu quieta até que o último lesse a
carta. Um ou outro meneou a cabeça em desaprovação, mas quase imperceptivelmente.
Nervoso, Paul levantou-se e tentou prosseguir:
— Como sabem, ano passado, antes de vovô falecer, tive a infelicidade de me deixar envolver num
incidente...
— Já ouvimos ontem sobre a nudez e tudo o mais.
O mal-estar tomou conta de Paul ao ver a franqueza demonstrada pelo velho tio John. Com a garganta seca,
procurou encontrar as palavras certas para continuar. Olhando para Jewel, recomeçou:
— Talvez tenha me excedido ontem à noite, e ninguém lamenta mais do que eu pela mágoa
que posso ter causado, tia Jewel, mas a raiva me fez perder...
— Paul, ela mesma admitiu o que houve.
— Admitiu?
— E todos aqui concordamos que Bettina precisa
de ajuda profissional — falou a mãe de Joyce.
Os olhares entrecruzavam-se, e Paul percebeu que não se enganara: havia algo acontecendo, e era
de comum acordo.
O olhar triste do pai de Bettina, raso de lágrimas, comoveu a todos.
— Quando casei com Jewel, Bettina era criança — disse ele. — Talvez seja culpa minha, por
não ter dado a ela o nome Barclay, adotando-a. Não sei o que dizer, Paul. Apenas peço que nos perdoe.
Paul mal podia crer em seus ouvidos. Mas era verdade. Aceitou o que todos tinham a dizer com a
alma aberta. Riu e se emocionou com cada um, com as desculpas por tudo o que haviam exigido dele a vida
toda.
— Paul, em nome da família, recuso o seu pedido de demissão — falou tia Mary. — Talvez
isto o convença a ficar. — E colocou sobre a mesa de café um envelope, no que foi imitada por todos.
Então fizeram sinal para que ele os abrisse. Nem em um milhão de anos Paul poderia imaginar o
que estava acontecendo. Todos entregavam, formalmente, naqueles envelopes, suas ações da Barclay. Para
ele.
Tirando os trinta por cento de Bettina, Paul agora era o único dono da empresa. Emocionado, beijou os
parentes e, feliz com a demonstração de confiança, ensaiou uma recusa da oferta generosa. Mas, antes que o
fizesse, John, o mais velho da família, o interpelou com energia:
— Filho, isto não é um favor a você. E uma tarefa, e não ouse desobedecer com uma negativa.
— Saibam então que nunca vou me esquecer disso, e prometo que nada vai faltar para
nenhum Barclay enquanto eu, ou um dos meus, viver.
— Nunca duvidamos disso — afirmou o velho John Barclay, sentindo orgulho do próprio clã.
CAPITULO X
Cassidy olhava com melancolia para o chapéu que tinha nas mãos. As plumas e os laços cor-de-
rosa traziam-lhe à memória o rosto crispado de ódio de Bettina.
Um portador levara a fantasia à loja, e fora impossível, para ela, não se lembrar da dor que ainda a
magoava. Não sabia de quem tinha mais raiva, se de Bettina ou de Paul. Como ele pudera supor que ela
fosse concordar com tamanha insanidade? Cass jamais permitiria que o homem amado perdesse tudo por
sua causa.
Na frente da loja, Tony recebia os trajes de volta. Examinava-os e em seguida os encaminhava para
Cassidy, que tratava dos reparos, se necessário, antes de enviá-los para a lavanderia ou para outras lojas.
Cuidadosa, separava os acessórios, embalando cada peça. O chapéu de plumas também fora
abalado com a fúria de Bettina, mas pelo menos nesse caso os danos não eram irreparáveis. O mesmo não
podia ser dito das demais vítimas daquela mulher cruel.
De onde estava, era possível ouvir Tony conversando com os clientes. A maioria deles eram
empregados de hotéis que traziam várias caixas dos hóspedes de fora, ou então maridos sonolentos, loucos
para voltar para casa. Um ou outro, mulheres quase sempre, esticavam um pouco a conversa, que girava
sempre sobre o mesmo assunto: o escândalo de Bettina e Paul. Mas Tony discretamente evitava
comentários.
Por isso, ela estranhou o tom das palavras do assistente, cheias de raiva. Só então reconheceu a
voz de Paul, e estremeceu.
Desde que entrara no carro do amigo, fugindo da festa e de Paul, ela sabia que cedo ou tarde teria
que enfrentar a realidade e pôr um fim ao romance.
Apenas adiara esse momento ao fugir sem explicações. Em vão buscara uma maneira de tornar
isso menos doloroso. No fundo, apenas repetia o que ele fizera na noite em que tentara seduzi-lo.
Renúncia é um belo gesto, mas em geral acaba matando o amor. Ninguém pode viver com o peso e a
responsabilidade desse ato.
Amor não pode ser sacrifício ou dor, mas alegria compartilhada. Se não pode ser assim,
então não é amor.
Não foi surpresa a entrada intempestiva de Paul e Tony no ateliê, esbaforidos.
— Eu avisei que você não queria vê-lo —esbravejou Tony —, mas, como de costume; ele não
me ouviu.
Pelo desalinho de ambos, e pela atitude do assistente, não foi difícil deduzir que haviam ido além
do embate verbal. Tanto que as mãos de Tony ainda agarravam a jaqueta de Paul.
Dirigindo-se a Cassidy, ele fez de conta que Tony não existia, irritando-o.
— Eu tenho que falar com você.
Sem parar o que estava fazendo, Cassidy assumiu uma atitude distante, e com a voz isenta de
emoção disse em poucas palavras o que tinha a dizer.
— Como já dissemos antes, você não é homem para mim. Ontem, à meia-noite, nosso caso
terminou, conforme tínhamos combinado.
— Os planos mudaram.
— Não, no que me diz respeito.
— Querida, ouça. Não vou precisar desistir da empresa. Minha família...
— Não foi o que me disse — interrompeu ela.
— Na noite passada...
— Você afirmou que não era o homem certo para mim, e várias vezes. Até que me
convenceu disso.
— Isso foi antes que eu soubesse...
— Spencer, não ouviu? Ela não o quer mais! Será que não percebeu ainda?
Cassidy permanecia impassível. Apenas um leve tremor nos lábios denunciava seu verdadeiro estado
de espírito. Antes que desmoronasse, pegou o telefone, fingindo discar.
— O que está fazendo, Cass?
— Chamando a polícia, Paul. Eu pedi que saísse, mas você se recusa a me atender.
— Que há com você? Cass, sou eu! Será que não pode me dar um minuto?
— Serei mais claro, sr. Spencer. Ontem Cassidy fez sua escolha. Passou a noite comigo.
O rosto lívido e os olhos arregalados de Paul deixaram evidente que Tony conseguira um efeito
arrasador com sua revelação bombástica. Até Cassidy ficara chocada, mas disfarçou bem.
Não precisou esperar dois minutos para ter Paul Spencer Barclay longe da loja, e,
consequentemente, fora da sua vida. Sem uma palavra, ele se virou e partiu.
Chocado. Estarrecido. Na sala vazia de sua casa, sentado em frente à lareira, Paul estava alheio a
tudo à sua volta. Sempre soubera que aquele rapaz tinha uma paixão secreta por Cassidy, mas nunca lhe
passara pela cabeça que fosse recíproco. Ela mesma dissera que não havia nada entre os dois.
Não fazia mais diferença. De um jeito ou de outro, algo a havia empurrado para os braços de Tony,
e certamente o responsável por isso era ele mesmo.
Vira o desconforto de Cass quando a apresentara publicamente, não perguntara sua opinião antes de
expô-la a uma situação embaraçosa. Pressionara demais.
Aos vinte e cinco anos, Cassidy era uma jóia rara, que fora-lhe concedido possuir. E que ele
estupidamente recusara. Talvez isso explicasse o repentino interesse dela por Tony, pois o assistente
parecia não ter dúvidas sobre como agir a esse respeito.
Não, não. Era inconcebível imaginar que sua adorável, suave Cassidy fosse se atirar numa cama
com o primeiro homem disponível. Ou com qualquer outro homem que não ele.
Desesperado, Paul se curvou ao peso da solidão e da amargura. Fechando os olhos, cerrou os
maxilares para não gritar alto sua dor.
Foi nesse instante que se deu conta da mais óbvia realidade. Fora um tolo em não perceber o que
estava diante de seus olhos. Claro! Cassidy renunciara pelo seu bem. Só um estúpido apaixonado,
ciumento, não perceberia.
Precisava achar um jeito de fazê-la escutar o que tinha a dizer. Mas... e se realmente fosse
verdade o que Tony dissera? Se estivesse apenas tentando se enganar?
Enterrando o rosto nas mãos, Paul descobriu que não tinha escolha. Sem Cassidy, a vida não valeria a
pena. Portanto, só tinha a ganhar indo à procura dela. Enquanto houvesse um fiapo de esperança, não
desistiria.
Se Cass não quisesse ouvi-lo, procuraria alguém que pudesse falar por ele. Alguém que a fizesse
acreditar que poderiam ser felizes juntos.
Já eram quase cinco horas, e Cassidy ainda não conseguira fechar a loja. Depois da noite agitada,
todos pareciam ter deixado para a última hora a devolução das fantasias.
Deixando os reparos de lado, Cass socorreu b assistente no balcão. Triste, dava graças pela
montanha de roupas que aguardava' por ela nos dias seguintes. Mesmo tendo certeza de que fizera a coisa
certa, sentia o coração estraçalhado. Só o trabalho a distrairia.
Ocupada, com a loja cheia, mal pôde crer em seus olhos quando, entre os clientes, reconheceu
William. E Bettina Lincoln.
Atónita, Cassidy parou tudo o que fazia e, sem alarde, foi ao encontro deles. Encarando o irmão com
profundo desdém, foi taxativa:
— Fora da minha loja. Você e essa senhorita não são bem-vindos aqui.
Mas William parecia determinado a ficar. Segurando o braço de Cassidy, impediu-a de se afastar.
— Não saio antes de trocar duas frases com minha irmãzinha. Podemos falar a sós?
— Como ousa trazer sua amiga aqui? — Cass perguntou, furiosa.
— Posso explicar, se me der chance.
— William, estou ocupada.
— Sinto, mas isso não pode esperar. — E, ato contínuo, puxou a irmã para dentro.
Tony estava atolado de clientes, mas ainda perguntou se devia chamar a polícia para tirar
William de lá. Cassidy disse que não. Afinal, William ainda era seu irmão, e a polícia aumentaria muito
a dimensão do escândalo. Podia cuidar de seus problemas sozinha. Então virou-se para Tony antes de
entrar no ateliê e disse:
— Cuide dos clientes. Não demoro.
A cena era bizarra. Bettina e William de braços dados, trocando olhares cúmplices. Ao fechar a
porta, Cassidy sentiu o olhar da moça fixo nela. Um preâmbulo para o que viria a seguir.
— Você arruinou a minha vida — começou a srta. Lincoln em tom casual.
Para quem afirmava tal coisa, Bettina parecia muito bem. Aliás, bem demais. Elegante, vestia uma saia
longa de lã marrom, uma malha de gola role um tom mais claro e jaqueta de couro com gola de pele, também
marrom. E, principalmente, mostrava a expressão mais serena dos últimos meses. A impressão que se tinha
era de que a vida dela jamais poderia ser arruinada.
— Não fiz nada para isso.
— Como não? Você roubou o único homem que eu já quis.
Quis. Cassidy achou irónica a escolha das palavras, mas não deu mostras disso. Com calma,
retrucou:
— Sinto muito. Por você.
Bettina olhou desconcertada para William, pedindo auxílio.
— É verdade, Cass. Paul a ama. Humilhou e rechaçou Bettina por amor a você. Sei que tive
culpa nisso, mas não pensei que ele pudesse sentir atração por uma garota... bem, pela minha irmã
mais nova. — Num gesto teatral, o rapaz colocou a mão sobre o peito.
— Assumo toda a responsabilidade pelo que houve. Não devia ter confiado num homem como
ele, tão sedutor. Sei que Paul a envolveu com promessas para tirar proveito de sua ingenuidade.
Cassidy não sabia se ria ou se os enxotava dali. A situação era hilariante. Assumindo uma postura
mais formal, disse, com sinceridade:
— Paul não é esse canalha que você está insinuando. Jamais seria capaz de humilhar ou abusar
de quem quer que fosse.
— Ele me usou para satisfazer seus desejos sexuais — protestou Bettina, dramática.
— Por favor, não seja ridícula! Você o usou. Não apenas sexualmente. Também o chantageou
emocionalmente. O mundo sabe disso.
— Como ousa? — Avançando sobre Cass, Bettina foi detida por William.
— Cassidy, Paul conseguiu pôr toda a família a seu lado, e contra Bettina. Juro! Até os pais
dela estão com ele. Pode acreditar. Todas as ações da família Barclay pertencem a Paul agora. Faça
algo. Não permita que ele destrua Bettina. Você pode ser a próxima. Pense nisso!
— Vocês estão loucos! Não sei o que está havendo, mas conheço Paul. Ele não trairia ninguém,
muito me nos conspiraria contra uma mulher.
— Ele faz coisas horríveis quando lhe interessa — disse Bettina.
— Se é assim, por que você quer tanto se casar com ele?
Sem emitir um som, Bettina movia os lábios sem saber o que dizer. Por fim, irritada, gritou para
William:
— Diga algo! Convença sua irmã!
— Bettina o ama. E, depois, a família está contra ela. São capazes de arruinar a vida social
de Bettina com comentários maldosos. Além disso, como ela vai manter sua posição atual nesse
tumulto com a família?
— Tudo porque eu não tenho o nome Barclay! E injusto, sempre foi. Sempre me disseram
que eu era como eles, mas no fundo isso não era verdade. Nunca pude usar o nome do meu padrasto, e,
embora eu odiasse meu pai de verdade, obrigaram-me a manter contato com ele, ter "respeito" por ele. Um
joão-ninguém, que me cobria de vergonha com sua pobreza. Meu pai é Cari Barclay, sempre foi.
— Percebe quanto ela sofreu, Cass?
— Não, não percebo, mas deve ser duro mesmo...
— Cassidy não sabia o que dizer para aqueles dois pobres infelizes, tão obcecados por um
mundo de aparências, fúteis e ridículos. Eram dignos de pena.
— Faça algo por mim! Fará?
— O que quer que eu faça?
— Diga a Paul que não quer mais ficar com ele. Diga que o motivo é essa atitude em relação
a Bettina. Convença-o a voltar atrás e a cumprir com sua palavra. Ele pode casar com Bettina e ter você ao
mesmo tempo. E as empresas. Tudo será perfeito, não vê? E só deixar seu orgulho de lado, Cassidy. Só
dessa vez, faça algo por mim!
Era lamentável, depois de tudo o que ela fizera por William durante os últimos vinte e cinco anos,
ouvir esse tipo de coisa. Ficou claro que errara ao poupar o irmão das críticas, desculpando todos os seus
erros. Desde criança ele fora mimado por Cass. O resultado era esse homem egoísta.
Errara também quando julgara Paul tão inconsistente quanto William, negando-lhe a chance de
tomar uma decisão importante, expulsando-o da sua vida. Se conhecesse bem o homem que amava, saberia
que ele não sofreria se perdesse fama e fortuna. Paul desprezava aquilo que William prezava tanto.
— Pedi que Paul saísse de minha vida hoje à tarde. William, Bettina, não tenho nada mais com
ele. Cometi o erro de mandar embora o homem que desistiu de tudo por mim. Não há nada que eu
possa fazer por vocês, portanto.
Enfurecida, Bettina estava duplamente irada, pela inutilidade de sua humilhação e por estar sem
saída de novo.
— Estamos perdidos... — lamentou William.
— Não há nada a fazer.
A voz vinha da porta, onde, parados, Paul e Tony assistiam ao final dramático daquela cena. Ao
contrário da tarde, pareciam muito amigos. Com as pernas bambas, Cassidy foi ao encontro dele, caindo em
seus braços.
— Paul!
Depois de acolher Cassidy, e senti-la segura, ele voltou sua atenção para Bettina.
— Você está certa, não há nada a fazer. A família me deu poder e me confiou todo o controle
acionário da empresa. Tenho setenta por cento das ações. Portanto, você terá de se curvar às minhas
decisões. Não esperava isso, ê cheguei a renunciar à minha função na empresa. Foram eles, sozinhos,
que resolveram tudo. Portanto nem eu, nem ninguém poderá ajudá-la a recuperar seu prestígio.
— Eles não podem agir assim! Eu não mereço! E você não pode ganhar tudo sempre...
— Não ganhei nada. Aprenda, nada vem sem esforço. Nem mesmo o amor.
— Para você, talvez — retrucou ela.
— Sugiro que saiam agora, os dois — ordenou Paul — Ou vou chamar a polícia. Certo, Tony?
Cassidy nem percebera os modos amistosos entre seu assistente e Paul. Estranhou quando ouviu o
jovem responder:
— Você manda!
Sem palavras, Cassy sorriu com doçura para o amigo e estendeu-lhe a mão.
— Obrigada, Tony. Por tudo.
Envergonhado, Tony baixou a cabeça. Num rompante, porém, esticou os braços para William e
Bettina com autoridade e ordenou:
— Que estão esperando? Rua! Ou terei de usar o telefone?
Os dois pareciam figuras caricatas. Desprezíveis. Saíram, finalmente, deixando Paul e Cassidy à
sós. Muita coisa vinha-lhes à cabeça, mas eles permaneceram quietos, pela primeira vez livres.
Paul se afastou um pouco para poder fitá-la por inteiro. Seus olhos se encheram de lágrimas, e,
emocionado, ajoelhou-se em frente a ela.
— Cassidy Penno, será que posso pedir sua mão em casamento? Desde a primeira vez que entrei
aqui, neste mesmo lugar, sonho com isso. Quer se casar comigo, minha boneca adorada?
Soluçando de felicidade, Cassy pendurou-se no pescoço de Paul, cobrindo-o de beijos. Essa pergunta
já tinha sido respondida por ela, muito tempo atrás. Mesmo assim, fez questão de repetir:
— Sim, eu quero me casar com você. É o que mais desejo na vida.
Um longo beijo selou o compromisso de amor.
FIM

Arlene james -_preludio_de_amor

  • 1.
    Título: Prelúdio deamor Autor: Arlene James Título original: A bride to honor Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1999 Publicação original: 1998 Gênero: Romance contemporâneo Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida O que era mais importante para aquele homem? Ele era um homem possuidor de uma fortuna e prestígio invejáveis, mas não havia quantia de * dinheiro capaz de dispensar Paul Spencer de um iminente casamento de conveniência. Seu avô lhe deixara pouca escolha: desposar uma mulher que ele desprezava ou perder os negócios da família. E, com Paul, a família sempre vinha em primeiro lugar. Até ele pôr os olhos na bela e inocente Cassidy. A partir daquele momento, ele já não sabia o que vinha primeiro: seu desejo de agradar à família ou de ter Cassidy nos braços!
  • 2.
    CAPITULO I — Eusei que é importante — disse Cassidy, endireitando a peruca vermelha —, mas estamos perto do Haloween, e você sabe que esta é a época do ano mais movimentada para mim. William, incomodado com a teimosia da irmã, respirou fundo, pensou e, enquanto ajeitava sua gravata de seda, disse: — Vou lhe contar por que preciso tanto desse favor. Vendo-o tão aflito, Cassidy pensou que, se continuasse levando tudo tão a sério, William acabaria tendo um ataque cardíaco antes dos quarenta anos. — Que tal esta? E bem baratinha. Nada o irritava mais que encontrar sua irmã vestida com uma das fantasias da loja. Era quase impossível conversar com ela vestida de boneca. Puxando-a pelo braço, William insistiu: — E o meu chefe, Cass! Ele está desesperado. E recomendei você, pessoalmente. Por piedade, não me deixe encrencado! Pobre William, sempre em sobressalto, com medo de que a própria família o deixasse embaraçado... Tudo bem, talvez seus parentes fossem um tanto excêntricos, mas sempre se comportavam bem. Ou quase sempre. Ela sorriu, conciliadora, esquecendo-se completamente do rosto pintado de branco, dos cílios imensos e da boca com formato de coração. — Prometo, querido irmão, que o sr. Paul Barclay Spencer receberá um tratamento de rei. E prometo que encontrarei para ele um traje que impressionará Betty. Palavra de honra de irmã. William ficou apenas um pouco mais tranquilo. — O nome correto é Bettina — frisou. — Bettina Lincoln. E, se tudo correr bem, ela será a sra. Paul Spencer até a primavera. — E o sr. Spencer terá salvo os negócios da família — Cassidy disse, para provar que tinha prestado atenção nas palavras do irmão. — E dará esse crédito a você. — Sim, se você não arruinar tudo. Agora, seria pedir demais que você tirasse essa roupa ridícula antes que ele chegue? Cassidy fez que sim. Arrancou a enorme peruca e, contrita, jurou: — Vou abandonar meu traje de Raggedy Ann e trocá-lo por roupas adequadas para receber seu patrão. Mais: encontrarei algo para ele usar e conquistar o coração, e tudo o mais, da glamourosa, fantástica srta. Lincoln. Satisfeito? William empertigou-se, alisou as dobras do terno italiano impecável e, assentindo, recomendou: — Só para lembrar: estou contando com você. O sorriso de Cassidy foi bastante encorajador. Ele lançou-lhe um olhar de aprovação. Mas a alegria de Cass se foi quando percebeu que, ao sair, William contemplou com desprezo tudo à sua volta. Sinceramente, ela não sabia qual o problema em ser figurinista. Figurinistas, por definição, desenham, costuram e, se tiverem sorte, montam suas próprias lojas e fazem tudo dentro delas, o que inclui usar as próprias criações. Mesmo que sejam fantasias. Quem usaria roupas que nem o próprio figurinista usa? Mas William não era capaz de entender isso. Aliás, não percebia nada a não ser o próprio mundinho. Ainda assim, reíletiu Cass, a família Penno era uma cruz para o pobre William carregar, e ela não queria aumentar esse peso. O irmão não entendera nada quando, um ano antes, os pais resolveram pedir divórcio. Alvin e Anna Penno eram incompatíveis, e depois de trinta e cinco anos isso ficou ainda pior. Cassidy sempre percebera esse detalhe, mas William não. Era impossível, para ele, admitir que os pais, depois de separados, haviam conhecido a felicidade... e que nada disso tinha a ver com os filhos. Cass supunha que a aproximação dele com o clã Barclay Spencer era parte do problema. Naquela família, os negócios vinham em primeiro lugar. Como seria fazer parte de um grupo assim? Para William, que os admirava e invejava, devia ser maravilhoso. E certamente fora isso que Paul Spencer, presidente e principal responsável pelo sucesso das Panificadoras Barclay, pensara ao ficar noivo de sua sobrinha de criação. Principalmente depois que ela recebera algumas cotas da companhia, herdadas de Chester Barclay, avô de Paul. O casamento manteria os negócios na família. Ela não conseguia entender por que a "adorável e sofisticada" Bettina, como dizia William, estava tão relutante em se casar com o primo, Paul. Especialmente considerando que ele havia rompido um tórrido caso por causa do testamento, poucos meses antes. Cassidy imaginara que Bettina apostaria tudo naquele casamento. Mas talvez estivesse errada.
  • 3.
    Pondo os problemasdos Barclay de lado, chamou Tony, que estava do outro lado do novo mostruário, o 'Noites na Arábia". Ele saiu do que agora era o picadeiro de um circo, um dos quatro show- room de que a loja dispunha. — Chamou, chériel — perguntou com sotaque fran cês carregado. Era seu dia de Maurice Chevalier. Um dia antes, fora Clark Gable. Ele tinha convicção de que em breve, terminando a faculdade, seria um astro. Deixaria Dai-las e iria para Los Angeles ou Nova York. Não decidira ainda se preferia o cinema ou o teatro. Aos vinte e cinco anos, os sonhos com o estrelato de Cassy tinham sido trocados por uma carreira satisfatória como figurinista. Sentia-se décadas mais velha que seu assistente, Tony Abatto, de vinte anos. — Vou me trocar. Tome conta da loja. Estou esperando um cliente. — Oui, mademoiselle. Com minha vida guardarei todos os seus sonhos, amour... — Melhor expressar seu amour de outra maneira ou perderá o emprego — disse ela, olhando para a confusão que havia no chão. — Raggedy Ann, essa linda boneca não está agradando mais? — Tony perguntou. — E a meu irmão que não agrada — respondeu ela, imaginando as caretas que Tony faria às suas costas. Para ele, William não passava de um "filisteu". E, mesmo que essa também fosse a opinião dela, não suportava que ninguém falasse nada sobre o irmão. Antes de fechar a cortina do provador, gritou: — Comece a separar as araras! — De que vai precisar? — Oh, nada além do usual para homens. O tipo másculo de sempre. — Um Drácula-lutador-piloto-pirata saindo... Cassidy suspirou, resignada. Tinha uma fantasia de Peter Cabeça de Abóbora perfeita para ser usada numa festa antes do Dia das Bruxas. Mas certamente o chefe de William não seria capaz de vestir algo tão original. Por outro lado, todos os Dráculas, soldados ou piratas disponíveis já haviam sido reservados. O que quer que Paul Barclay escolhesse para fantasia, o resultado seria o mesmo: ela teria de sentar na máquina novamente e costurar. Logo agora, que pensava estar livre do atropelo... Bem, podia dormir na última semana de novembro, se vivesse até lá. Deu uma última olhadela no traje de boneca de pano, que chamara de Raggedy Ann. Era quase um símbolo, com suas tranças vermelhas e a roupa azul e branca. Começou tirando o avental e o vestido, depois as meias coloridas e o sapato. Uma calça jeans e o suéter cor de mostarda sobre a camiseta, os cabelos castanho-dourados presos num elástico, e lá estava Cassidy ao natural, mas com o rosto ainda maquiado. A fantasia de boneca Raggedy Ann foi devolvida à arara a contragosto, e só depois Cass voltou à loja. Para ela, a sessão de maquiagem era sua hora favorita. Isso porque lá estavam muitos dos objetos que pertenceram à barbearia de seu avô. A começar pela esponja grande de talco. Sentada na imensa cadeira de couro verde, onde tantas vezes vira o avô trabalhar, começou a tirar a pintura. Com a ponta dos dedos espalhou o creme de limpeza, e seu rosto se transformou numa massa cinza-avermelhada. Um leve movimento pelo espelho e Cassidy percebeu que não estava só na sala. — Maurice! — esbravejou. — Um cliente quer vê-la, chérie. Era ele, o patrão de William. Sem dúvida, bastante atraente. Os cabelos eram escuros e o corte, clássico. Os olhos azuis eram emoldurados por cílios longos e castanhos, e ela podia apostar que tinha a barba escura, pela sombra que percebia naquela região do rosto. Tinha uma covinha no queixo e duas no rosto, quando sorria. Estendeu a mão longa e bem-feita para Cassy. — Cassidy Penno, presumo. Num gesto mecânico, ela correspondeu ao cumprimento. — Sim. — Paul Spencer. Embaraçada, Cass pegou a toalha e tentou limpar o rosto. — Desculpe-me, sr. Spencer. Estava vestida de Raggedy Ann quando meu irmão avisou-me que viria. Achei que teria tempo de tirar a maquiagem, mas Tony provavelmente quis me envergonhar. Ele não
  • 4.
    suporta William, e...William não entende por que não o despeço. — E? — Tirando a toalha das mãos de Cassy, Paul passou a esfregar-lhe o rosto, energicamente. —Estava me explicando por que não despede o rapaz. — É preciso ter certas habilidades para trabalhar num lugar como este. — Mesmo? — A limpeza estava quase completa. Compenetrado, Paul Spencer usava lenços umedecidos para finalizar a tarefa de devolver à jovem suas próprias feições. — Que tipo de habilidades são essas? Incomodada com o olhar fixo em seu rosto, Cassidy virou-se para o espelho e, de posse de um tónico adstrígente, fez menção de dispensar o auxílio de Paul Spencer. — Alguém que ame o teatro — respondeu. — Geralmente atores. Alguém que goste de se fantasiar. Alguém que trabalhe por pouco dinheiro. Pelo espelho, podia ver o rosto de Paul, e aquele jeito meio irónico a punha nervosa. William a mataria se soubesse o que tinha acontecido ali. Mais uma vez o coitado fora traído pela própria família... Com as faces limpas mas com a dignidade arranhada, Cassidy soltou os cabelos, que caíram em ondas sobre seus ombros. Virando-se, encarou o sr. Spencer. — Ficaria muito grata se o senhor não mencionasse este episódio para William. Ele é um irmão maravilhoso, mas... — Empertigado — emendou Paul Spencer. — Sem senso de humor. Pernóstico. A reação de Cassidy foi de puro terror aos adjetivos usados por Paul para descrever seu irmão. Não esperava nem em sonhos ouvir isso. Spencer caiu na risada com o olhar horrorizado da jovem. — Relaxe, srta. Penno. Tenho seu irmão na mais alta conta. Ele não só é um brilhante executivo como também um dos mais proeminentes membros da sociedade. Só que leva a vida e a si mesmo muito a sério. — E, fazendo um gesto como se fechasse a própria boca a zíper, concluiu: — William não ouvirá uma palavra sobre você me receber fantasiada de monstro. — Não fiz isso! — Claro que não — concordou ele, rindo. — Estava brincando. — Oh! O riso deixava à mostra dentes lindos e brancos. Num passe de mágica, Cassy foi contaminada pelo bom humor daquele homem, e soube que não apenas podia confiar nele como que essa confiança era mútua. Mais descontraída, riu. — Desculpe-me. Eu devia estar medonha. — Digamos que eu jamais iria imaginar que havia um rosto tão bonito debaixo daquela tinta toda — gracejou ele. Antes de ficar feliz com o elogio, Cassy lembrou-se de que podia ser mais uma das gozações de Paul. — Você, hein? Na minha profissão, é bom ter um rosto comum como o meu. Funciona como uma tela em branco para um pintor: aceita tudo. — Quem disse que seu rosto é comum? William? — Não, claro que não. — Você tem uma beleza clássica, de traços finos e delicados — insistiu Paul, deslizando o dedo sobre sua testa, descendo pela curva do nariz, atravessando a curva dos lábios até encontrar o queixo. Cassidy estava hipnotizada. Nunca ouvira de ninguém que era bonita. Estava quase acreditando no que ele dizia quando a realidade a chamou de volta. Saindo do transe, Cass balançou a cabeça e indicou a saída para a outra sala. O momento mágico se fqra. — Vamos ver as roupas? — A arara estava ali perto, e ela rezou para que Tony tivesse tido bom senso na escolha dos trajes. Puxou um banquinho e, com ar solene, começou: — Se quiser se sentar, sr. Spencer, eu lhe mostrarei alguns dos nossos trajes masculinos mais populares. — Paul. Eu prefiro que me chame assim. "Isso não vai dar certo", pensou Cassidy. Limitou-se a sorrir e avançou para a primeira fantasia. — Esta é a mais requisitada nessa época do ano. Conde Drácula. Paul ergueu uma das sobrancelhas. , — Muito dramático. Num floreio, Cassy devolveu-a ao cabide e trouxe outra: — Que tal um pirata? Corsários são românticos e agradam às moças. Completa, com
  • 5.
    papagaio, espada eaté um brinco. — Não tenho orelha furada. — Talvez um piloto de guerra... O general Patton? — Negativas sucessivas a fizeram enumerar: — Nem mesmo um soldado da Guerra Civil? Rebeldes? Ianques? — Sinto. Não faço o género militar. Especialmente da Guerra Civil. Quero expandir nossos negócios para o Sul. — Nem índios ou ciganos, suponho. Hum... Rodolfo Valentino? O imperador da China? — brincou ela. — Nem Fidel Castro ou Stalin, caso tenha-os em mente. Uma ideia iluminou o rosto de Cassy. De repente, era como se tivesse achado a inspiração. — Stalin, Rússia... Céus! Lembra-se de um filme antigo, em que Tony Curtis fazia o papel de um cossaco? Yul Brynner era o pai dele, e havia cavalos e mais cavalos... — Taras Bulhai — exclamou Paul, entusiasmado. — Claro que me lembro! O personagem de Tony Curtis não morre no final? — E a mocinha fica a seu lado. — É isso! — Pela primeira vez algo o animava. — Deixe-me ver a roupa. Cassidy se deu conta que só na sua imaginação havia algo assim. — Na verdade, não a tenho. Mas posso fazer para você. — Seria então um traje exclusivo, só para mim? Ela relaxou e sorriu, mesmo sabendo que não teria tempo para mais nada, pois era preciso desenhar, procurar os materiais adequados e costurar. Suspirando, lembrou-se de que faria aquilo por William e resignou-se. — Exatamente. — Fantástico! — Paul parecia ter achado o que que ria. — Como começamos? — Pesquisando. — Pesquisa? Otimo! Onde procuro? Quero dizer, qual é a época? Ela piscou duas vezes, sem entender o que ele queria dizer. —Esse é o meu trabalho. Não é necessário que faça nada. — Bem, e quem me garante que você não vai errar? Num muxoxo, Cassy concordou. — Bem lembrado. Paul caiu na risada. — Confio em você, mas sou muito purista, sabe? E quero saber do que estarei vestido, caso me perguntem. Cassy estava antevendo como seria a tarefa, cheia de palpites e de interferências... Teria o dobro do trabalho. Mas a essa altura não havia muita escolha. — Já entendi. Quando quer ver os desenhos? No final da semana? — Quinta-feira? Sexta é péssimo para mim. — Certo. Fim da tarde? Pensando um pouco, Paul respondeu: — Não quero prendê-la até tarde. Venho na hora do almoço. A que horas Tony almoça? — Uma hora está ótimo. — Trago algo para comermos aqui. Ainda bem que você não tem problemas com excesso de peso... — E, olhando para o relógio: — Tenho de ir. Quinta, à uma. Adorei conversar com você. E correu porta afora, deixando-a sozinha, com o coração disparado. Cassy tinha um almoço marcado com Paul Spencer Barclay. E estava deslumbrada. Só quando se acomodou atrás do volante de seu Jaguar preto foi que Paul Spencer se deu conta de que devia estar fora de si ao insistir tanto em almoçar com Cassidy Penno. Era linda, solteira, adorável. Uma companhia divertida e inteligente. Não que essas qualidades pudessem mudar o fato de que ele estava praticamente noivo de Bettina. Praticamente, e isso não era muito agradável. Estava resolvido que ela seria sua esposa. Era a única coisa a fazer, considerando que seu avô havia deixado trinta por cento das ações das empresas Barclay para Bettina, a mesma porcentagem que coubera a ele. Paul possuía, porém, outros dez por cento das cotas. O restante estava dividido entre os outros membros da família. Seu tio Cari, e a mãe de Bettina, Jewel, possuíam dez por cento. Seu tio John, solteirão convicto,
  • 6.
    outros dez porcento. Mais dez por cento estavam com a viúva de um tio falecido, Mary, e sua filha, Joyce, agora chamada sra. Joyce Spencer Thomas. Ninguém de fora da família jamais pusera as mãos no património desde que seu bisavô fundara as Empresas Panificadoras Barclay. Costumeiramente, os parentes dividiam os bens entre seus filhos, ao atingir certa idade. No entanto, isso não acontecera com os Barclay. O bisavô e o avô de Paul haviam reservado para si a maioria das ações. Quase todos os membros da família abriam mão de um envolvimento mais direto com os negócios. Sentiam-se gratos por não precisar preocupar-se com detalhes como de onde vinha o dinheiro que lhes enchia os bolsos regiamente. Paul fora uma exceção. Possuía um talento especial para os negócios e vontade de exercer essa vocação. Aos poucos foi galgando os degraus da diretoria e assumiu a presidência quando o avô se aposentou. Chegou a cogitar a possibilidade de herdar a maior parte das ações, e assim ser o único acionista capaz de dirigir as empresas. Não apenas ele, como a família esperava que isso viesse a acontecer, uma vez que todos confiavam nele para continuar a encher seus bolsos com altas quantias. Fora então que seu velho avô lhe pregara uma peça. Na verdade, parte da culpa cabia ao próprio Paul. Sempre soubera que seu estado civil não agradava ao avô. Aos trinta e nove anos, a maioria dos homens já se casara ao menos uma vez. Mas não ele. Ainda não encontrara a mulher certa. Talvez ela nem existisse. Não que soubesse descrevê-la, mas tinha certeza de que nenhuma das conhecidas preenchia os requisitos. Nenhuma lhe despertara interesse. Não até encontrar Bettina. Jamais deveria ter se deixado seduzir por ela. Por outro lado, que homem são poderia resistir a uma belíssima mulher, que invade um escritório vestida apenas com uma capa de chuva, meias de seda, ligas e saltos altos? Não, não era tão grave sucumbir a essa tentação, mesmo sabendo que muito daquilo fora obra de cirurgiões plásticos. Seu grande erro fora declarar que fizera tudo por pura distração, e que era perda de tempo esperar algo além disso. Em pouco tempo, o que era diversão virou um pesadelo. Quando percebeu que Bettina poria as coisas em outra perspectiva para a família, Paul tentou terminar com aquilo. Na frente dele, Bettina encarou o rompimento com naturalidade. Mas a versão que apresentou à família foi outra. No papel de vítima abandonada pelo primo, chorou meses e conseguiu que todos virassem as costas a Paul. Além disso, a família começou a considerar que um enlace entre ambos seria perfeito, ideal. Bettina tinha doze anos quando tio Cari se casara com sua mãe. Dezesseis anos depois, tornara-se querida, parte da família, até porque Cari não tivera filhos biológicos. O casamento entre eles faria de Bettina uma legítima Spencer Barclay. Na superfície, uma mulher perfeita, adorável, sofisticada, companheira, divertida... Porém, só superficialmente. Sob aquele verniz se escondia um poço de ambicão, de inteligência fria e calculista. Era dissimulada a ponto de enganar a todos, àté, e principalmente, os mais próximos. Só a prima Joyce enxergava um pouco da verdade. Mas de que isso adiantaria? Bem casada com o responsável pela produção da fábrica, a padaria pro- priamente dita, Joyce só pensava em ter o primeiro filho. Se, em vez de ter bancado o cavalheiro, Paul tivesse contado ao avô, em detalhes, tudo o que acontecera entre ele e Bettina, certamente não estaria naquela situação. Não havia escolha. A família dependia dele. E Bettina usaria as ações que herdara da pior forma possível. Paul passara meses procurando uma saída legal para que os negócios não fossem afetados por ela, mas finalmente se rendera às evidências. Nada poderia fazer, a não ser casar-se com a prima. Em especial porque aquele era um momento delicado. Os pães Barclay iriam ser distribuídos em todo o país, e o sucesso dessa estratégia dependia de uma posição sólida e confiável da empresa. Isso faria a diferença entre a fortuna ou a bancarrota. Como acionista, Bettina começara a fazer uma série de exigências ridículas, e exorbitantemente caras. Fora então que ele a pedira em casamento. O momento da vingança chegara. E não bastava isso. Ela queria a revanche por tudo o que passara. Daria uma chance a Paul, desde que ele se humilhasse perante toda a família e a sociedade. Esse baile a fantasia era para isso. Se algo a desagradasse, no dia seguinte sua reputação estaria arrasada. A própria Bettina teria o maior prazer em fazer isso.
  • 7.
    Bem, se eraesse o jogo, ele, Paul, também tinha seus truques. E aí entrava Cassidy Penno. Mas não ia estragar, com essas considerações sobre negócios, um encontro com Cassidy. Tinha de parar de olhar para ela com tanto interesse. Essa era a pior hora para se interessar por uma mulher. Teria o cuidado de explicar a situação para Cassidy, em detalhes. Tinham potencial para transformar aquele trabalho no começo de uma amizade agradável. Se fosse o caso, poderiam usufruir da companhia um do outro, sem que isso afetasse a intimidade de ambos. Ou seja, sem envolvimento sentimental. Poderiam ser amigos. Por que não? Almoçar com ela seria apenas um divertimento, nada além disso. E ele poderia providenciar um cardápio que traduzisse essa intenção. Planejar esse almoço o deixou animado. Homens prestes a se comprometer merecem um pouco de diversão. Até homens casados fazem isso. Especialmente se a esposa for Bettina Lincoln. Uma coisa, porém, preocupava-o, e cada vez mais. Temia não conseguir separar a obrigação da diversão. Ou o possível do desejável. CAPITULO II Cassidy bufava enquanto os garçons iam e vinham dentro da loja. Sua mesa de trabalho estava coberta de linho adamascado. Preocupada, mas também excitada, ela assistia a tudo. Almoço, Paul dissera. Mas aquilo era um banquete: salada de frutas, pães crocantes, queijo brie, carne à Borgonha e, para acompanhar, um saborosíssimo vinho francês. Na sobremesa, chocolate e creme. E tudo servido por um garçom vestido de maneira impecável. Cassidy sorria de prazer ao ver os pratos dispostos em fila sobre um aparador improvisado. Os rechauds, que mantinham a comida quente, eram de prata. Por que Paul Spencer agia assim? Ela não passava da irmã de um de seus funcionários, mas recebia tratamento de rainha. O comportamento de Paul era o de quem corteja uma mulher. Sua primeira preocupação foi com William. O que o irmão diria? Esqueceu o assunto quando Paul Spencer entrou na sala. Ele falava ao telefone celular, mas sorriu, desculpando-se pela indelicadeza. Fez questão de que Cassy ouvisse o teor da conversa com sua secretária. — Certo, Gladys. Entendi. Vou desligar. Não, não voltarei à tarde. Anote os recados. Guardou o telefone no bolso do paletó e observou Cassy. Ao vê-la ali, em meio a toda aquela pompa, seu rosto se iluminou. Deu-se conta de que também ela sentia um imenso prazer por estarem juntos de novo. Mas sua parte racional insistia em lembrá-lo de que era um empresário poderoso, que contratara os serviços de uma profissional. E que ela o atendia por causa do pedido de William. — Você não devia ter tido todo esse incómodo. — Incómodo nenhum. — Ele inspecionou as travessas de comida. — Hum... Parece ótimo! O garçom sorriu, satisfeito, enquanto afastava a cadeira para Cassy. Sem perceber, ao sentar, ela bateu no pé da mesa, fazendo voar para longe os talheres da salada. Morrendo de vergonha, assistiu ao garçom recolhê-los. Paul conteve o riso. — Achei que fosse encontrá-ía fantasiada de salada, ou algo assim... Cassy ficou ainda mais vermelha. — Oh, eu não faria isso. — Ouvindo-o rir, sentiu-se mais à vontade para dizer: — Na verdade, nunca ouvi falar de uma fantasia própria para almoços. — Pode ser uma boa ideia para sua próxima coleção. — O jeito cómico e sério de Paul ao dizer esse tipo de coisa era hilariante. Cassy logo começou a rir. — Agora está melhor. — Com os cotovelos sobre a mesa, ele se aproximou de Cass. O garçom os servia com elegância. E uma súbita timidez tomou conta de Cassidy. Sentia que Paul a cortejava. Mesmo que repetisse para si mesma um sem-número de vezes que aquilo era apenas produto de sua imaginação, que ele estava noivo, não conseguia relaxar. — Quer ver meus esboços? — Estou faminto. No momento, só quero comer. E olhar para você. — Ah... Completamente sem jeito, Cassy não sabia onde pôr as mãos, ou para onde olhar. Levou alguns segundos até conseguir se concentrar na salada de frutas, que continuava intocada. — Está tendo dificuldades com os esboços? — Paul perguntou entre uma garfada e outra. Esse assunto a fascinava. Abandonando de novo os talheres, Cassy sorriu:
  • 8.
    — Não, dejeito nenhum. E muito fácil imaginar você fantasiado. — E isso é bom? Como explicar-lhe como era fácil fitá-lo e vê-lo usando roupas de cossaco? Durante a pesquisa, ela fechara os olhos e soubera exatamente o que desenhar. — Sim, é muito bom. Quando crio uma roupa, penso num personagem para dar vida à fantasia. Na maioria das vezes não há nada em comum entre o que eu imaginei e a realidade de quem vai usar o traje. No seu caso, isso não acontece. Você é o personagem. — Então acha que serei capaz de dar vida a seu talento? — De certa maneira, sim. O que ela queria dizer era que, ultimamente, Paul Spencer era sua única fonte de inspiração. — Se você diz, eu acredito. — Paul estava grato a William por ter lhe falado de Cassidy, e gostaria de poder estar à altura do talento da moça. Tudo o que emanava de Cass era tão doce e suave que ele não sabia mais o que dizer para expressar seus sentimentos. — Por que você me faz tão bem à alma? — Eu? Os olhos e sorrisos eram mais eloquentes do que qualquer palavra. Cassy nunca tivera um almoço tão maravilhoso. Disse isso a Paul. — Eu quis que fosse especial — confessou ele, olhando-a no fundo dos olhos. E, se Tony não tivesse interrompido o enlevo, entrando estabanado com sua caracterização de Charlie Chaplin, Paul a teria beijado. Foi isso que Cassy pensou, muito embora uma mesa os separasse. Uma mesa pequena, bem dito. O garçom já tinha sumido com os pratos do almoço, e tudo estaria perfeito se Tony não fosse tão irritantemente inoportuno. — Telefone para o sr. Spencer. A doçura dos olhos de Paul desapareceu imediatamente, dando lugar à irritação e ao desapontamento. Por fim, resignado, perguntou: — Quem é? — Não perguntei. Mas a voz é de mulher. A tensão ficou evidente na expressão carregada de Paul. Com gentileza, dirigiu-se a Cassy, já em pé: — Sinto muito, mas é melhor ver de que se trata. — Fique à vontade. Tony lhe mostrará o caminho. Paul seguiu o assistente com evidente mau humor. Fazer o quê? Cassy sabia que os problemas dele não lhe diziam respeito. Estava ali apenas para fazer uma fantasia. Tendo isso em mente, dirigiu-se ao ateliê e juntou os esboços que fizera. Para sua surpresa, em curto espaço de tempo Paul reapareceu. Durante os minutos em que esteve com os croquis nas mãos, pouco ou nada se ouviu dele. Alguns murmúrios, mas nada que indicasse sua opinião. Por fim, colocou-os na mesa e perguntou: — Tem algum favorito? Cassidy estranhou a pergunta, mas foi sincera: — Este. — Apontou. Paul olhou de novo, deu alguns passos para trás, olhou melhor e assentiu. — Quando começamos? — Começamos? — Sim. Tenho de tirar as medidas, não é? — Tem, mas... Antes que ela pudesse ficar mais surpresa, Paul se adiantou: —Se pudermos trabalhar sábado, seria ótimo. Cassy costumava trabalhar só meio período aos sábados, mas sugeriu: — Sábado à tarde? — Excelente. Almoçamos de novo? — Oh, não! —• exclamou ela com veemência, assustada com os gastos daquela refeição. — Quero dizer, não é necessário. No máximo tomaremos um café. Ele sorriu de novo. — Certo. Vou providenciar. — Deixe-me fazê-lo, por favor. — Se insiste, tudo bem. Às três horas? — Ótimo. Quando chegar, terá de apertar, a campainha, pois fecho a loja ao meio-dia, no
  • 9.
    sábado. — Vamos estara sós então? — Com certeza. Alívio e cumplicidade estamparam-se no rosto de Paul quando disse: — Até sábado, então. Cassidy se pegou sorrindo sozinha ao voltar para o ateliê. Fosse o que fosse, era mútuo o que sentiam. Então lhe ocorreu que deveria ter algo pronto quando ele voltasse, no sábado, e nem tinha se lembrado de tirar as medidas. Talvez não conseguisse fazer tudo em tão pouco tempo. Mas confiava em seu instinto. Mesmo com a agenda lotada, daria cabo da tarefa, e no fundo sabia que, quanto mais depressa terminasse o trabalho, mais depressa teria Paul Spencer fora de sua vida. O tempo frio, cinzento e chuvoso seria motivo mais que suficiente para fazer Paul ficar em casa e cancelar todos os compromissos, mas não aquele. Argumentou consigo mesmo que o encontro era profissionalmente importante, e que não iria à loja apenas para ver Cas-sidy. Mas não podia negar o desejo de ver aquela figurinista interessante, dona de um excelente senso de humor, gentil e... tímida. Era bonita de forma natural, sem artifícios, o que não deixava de ser engraçado para alguém com aquela profissão. Só mesmo isso para tirá-lo de casa num dia como aquele, pensou enquanto tocava a campainha. Flagrou-se, no reflexo da vitrine, a arrumar os cabelos em desalinho, preocupado com a aparência. "Negócios", pois sim... Rindo de si mesmo, ele balançou a cabeça, imaginando o que teria Cassidy Penno para fazer com que se comportasse como um adolescente apaixonado. Tocou a campainha novamente, e pareceu-lhe uma eternidade até ouvir a fechadura ranger e estar frente ao sorriso de Cassy. — Olá — disse ela enquanto fechava a porta e apanhava-lhe o casaco. — Oi. A loja estava às escuras, e somente os reflexos da luz vinda de fora iluminavam o lugar. O suéter amarelo de Cass tinha os punhos e o decote debruados em preto, realçando a pele clara do colo e o dourado dos cabelos. O jeans justo modelava-lhe as pernas. Os lábios realçados pelo batom de cor suave e o perfume, mistura de banho recém-tomado e um antigo Dior, magnetizaram Paul. Perturbado, ele acordou do transe ao ouvi-la perguntar com voz preocupada: — Algo errado? — Não. — Forçando um sorriso, Paul percebeu que suas mãos tremiam. — Acho que uma bebida quente me faria bem. Num volteio galante, Cassy sorriu e ofereceu-lhe o braço. — Por aqui, cavalheiro... Paul riu e obedeceu. A seu lado percorreu a loja deserta, rindo das peças que via no caminho até o ateliê. Um pouco daquela mulher estava em cada um dos ob-jetos. Ela dava um pouco de fantasia à realidade coti-diana, e Paul se deu conta de que a invejava por isso. Cassy havia posto a mesa do chá num dos cantos da sala. A toalha, linda, parecia um xale antigo de seda colorida. Além disso, havia guardanapos de linho rendados e colheres de prata antigas. As xícaras eram de fina porcelana chinesa. Um bule de cerâmica fumegava sobre um pequeno fogareiro de bronze. Para completar, leite, creme, açúcar e um lindo prato de cristal cheio de guloseimas. Era óbvio que ela tivera muito trabalho para fazer tudo aquilo, e só para agradá-lo. Muito mais bonito e valioso do que o almoço encomendado por ele. E sem dúvida, muito, muito mais comovente, por ter o carinho das mãos e do coração em cada detalhe. — Está maravilhoso. Cass ficou ruborizada. — Obrigada. Sorveram o café, saboreando os bolos e as tortinhas diminutas, cheias de cremes e frutas. Tão cheias que Paul lambuzou-se ao provar uma delas. E, quanto mais ria, mais o creme escorria. Cassy tentou socorrê- lo com um guardanapo, mas as gargalhadas impediram-na de ser eficiente. — Isso, srta. Penno, é uma demonstração de como os meninos brincam... — disse ele, espalhando creme no nariz de Cassy e colocando-lhe na boca um pedacinho de doce. Ela ria tanto que nem percebeu quando Paul enlaçou-lhe a cintura. Só foi perceber o que estava acontecendo quando se viu abraçada por ele. Foi como se uma descarga elétrica os atingisse. Nesse instante, ao admirar os sensuais lábios femininos, Paul soube quanto a desejava. A boca entreaberta e o hálito doce eram convites a um beijo. O beijo que ele ansiava desde que a vira pela primeira vez.
  • 10.
    Esqueceu tudo paradeslizar a ponta dos dedos naqueles lábios antes de tê-los nos seus, no mais doce beijo da sua vida. Cassy se rendeu à urgência da carícia, entregue ao momento. Mas aos poucos foi se afastando, e, com gestos precisos, limpou o rosto, evitando encará-lo. Ambos sabiam que era tolice começar algo sem futuro, e aquele beijo fora um erro. Para ambos. Isso estava escrito no olhar verde, intenso, de Cassidy. Paul sentiu-se péssimo. — Desculpe-me. — Tudo bem. — Não, não está tudo bem. Costumo ter mais bom senso. — Você deve ser se sentido acuado, só isso... — William contou-lhe algo? Cassy fez que sim. — Ele me disse que, se você não desposar uma certa moça, o testamento de seu avô o deixará sem muita coisa. — William se referia a Bettina — contou ele com amargura. — Bettina, a da festa a fantasia de Halloween — frisou Cassy. Apesar de tudo, Paul sorriu. O jeito como ela falava era suave e gentil, como um raio de sol no meio do temporal que viria a ser seu futuro com Bettina. No deserto que estava vivendo, Cassy era um oásis bem-vindo. Como virar as costas para a única coisa boa que lhe ocorria? Riram juntos, pelo puro prazer de rir. Paul esperou que ela terminasse seu café para dizer: — Vamos ao trabalho? — Ficou impressionado com a eficiência com que Cassy lhe tirou as medidas. — Você é mesmo boa nisso! — Faz parte do meu trabalho. Quando foi tirar as medidas do peito largo, Cassy soltou sem querer a fita métrica, e acabou encostando o corpo no dele. Petrificada, deixou a fita no chão e ficou imóvel. Paul não sabia o que estava acontecendo, mas resolveu confiar nela. Então Cass, como que acordando de um sonho, pegou a tira de plástico e pôs-se a medir, de joelhos, a altura da calça. Tomando-lhe as mãos, Paul abaixou-se, abraçando-a carinhosamente. Cassy abandonou a cabeça no colo protetor e deixou-se ficar assim por longo tempo. De olhos cerrados, ambos permaneceram quietos, num silêncio cheio de melancolia. Por fim, Paul beijou-a de leve na testa e disse: — Não tenho esse direito. Não há nada que eu possa fazer. Os negócios dependem desse casamento, e a minha família inteira depende disso. — Eu sei — assentiu Cassy num murmúrio quase inaudível. As mãos de Paul deslizaram pelas costas femininas. Apertados contra seu peito, os seios eram uma tentação. Fechando os olhos mais uma vez, Paul imaginou o corpo nu a seu lado. — Gostaria de tê-la conhecido há muito mais tempo. — Antes de Bettina, você quer dizer. — Ainda bem que você sabe de tudo — ele comentou, rindo com ar malandro. — Não sei se aguentaria a tentação de mentir para tê-la comigo. Um brilho de felicidade tornou ainda mais verdes os olhos de Cassidy. Brincando com a fita métrica, ela baixou a cabeça, meio tímida, ao dizer: — Talvez você nem me notasse. — Não diga isso. — Verdade. Sou do tipo de mulher que passa despercebida. Acariciando-lhe o pescoço e os ombros, Paul sentiu a pulsação acelerada. — Até mesmo para nosso amigo "Charlie Chaplin"? Ela fez uma careta e explicou: — Tony nunca se interessou por mim. Ele pensa que as virgens, como eu, são frustradas. Não se arrisca a chegar perto. Virgem! Paul quase teve um colapso. Nem se lembrava qual fora a última vez que ouvira falar nisso. Acostumado com a sofisticação das mulheres manipuladoras, quase fora cruel com a mais doce das criaturas. Talvez merecesse alguém como Bettina. Cassidy Penno merecia, com certeza, alguém livre para amá-la e cuidar dela como um tesouro. Com voz embargada, disse-lhe: — Prometa que vai se guardar para alguém melhor do que aquele impostorzinho. — Tony Abatto? Prefiro entrar para um convento. — Oh, não exagere.
  • 11.
    Com ar solene,Cassy levantou a mão. — Eu nem poderia. Não sou católica. Riram mais uma vez. Então Paul se levantou, pegou a fita métrica e, com ar sério, pediu: — Deixe que eu mesmo meço a calça. Cassy concordou. Limitou-se a anotar as medidas. — Não é preciso que venha aqui até o momento da prova. Não quero causar problemas desnecessários. — Esqueça. Quero vir. — Então, vou cortar o tecido na segunda-feira. E agora, fora daqui. Ambos temos mais o que fazer — brincou ela. — Segunda-feira, às seis, estarei aqui. E depois jantaremos. Já estou ansioso por isso. — Eu também. Bem, vou acompanhá-lo até a saída. — Está bem. A chuva cessara e um vento frio fazia a respiração sair em lufadas. Depois de fechar a porta, Cassidy disse um simples: — Obrigada. E saiu caminhando. Paul viu-a desaparecer na esquina e, respirando fundo o ar gelado, saboreou aqueles poucos instantes de liberdade. CAPITULO III Ansioso por rever Cassy, Paul foi pontualíssimo na segunda-feira. Antes de cortar a fantasia, Cassidy fez questão de que ele escolhesse os tecidos. Espalhados pelo ateliê, havia quatro combinações de cores e tramas com detalhadas explicações sobre como e onde seriam usados e davam uma ideia do resultado final. Paul olhou-os de relance e perguntou: — Qual você prefere? Cassy apontou para uma combinação de tons de terra, azul e vermelho queimado. Por poucos segundos Paul estudou a escolha antes de dizer: — Perfeito! Agora vamos jantar, estou faminto. — Você está sempre faminto? — Ultimamente, sim. — Todo o seu apetite fora despertado na última semana. — Vamos, pegue seu casaco. Foram a um lugar que mais parecia uma casa no-turna. Passava das seis e meia e já se ouvia uma banda de jazz animadíssima. Havia uma fila considerável para entrar. Segurando Cassy pela mão, Paul deu a volta no prédio, em direção à porta dos fundos, local reservado aos caminhões de bebidas. Um vozeirão os fez parar. — Spencer! Por que não avisou que vinha? — Um negro, de braços abertos e sorriso idem, os recebeu. — Achei que podia arriscar, mas pelo visto não adianta chegar cedo... Nunca vi tanta gente a essa hora. — Deixe comigo. Quem é a bela senhorita? Passando o braço pelos ombros de Cassy, Paul ficou feliz em apresentá-los: — Esta é minha amiga Cassidy Penno. Cass, este velho malandro é Hoot. — Amiga, hein? — Hoot comentou enquanto olhava para Cassidy. — Belo casaco. Gostei. — Obrigada. Ela sorriu, divertida com a figura grande e simpática. A roupa branca era de mestre-cuca, e nele fazia bela figura. — Bebem o quê? É por conta da casa — ofereceu Hoot. — Estou dirigindo. Nada para mim. — Não bebo muito, sr. Hoot — agradeceu Cassy. — Só Hoot, sem o "senhor". Menina, gostei de você. Vai tomar um drinque especial, com pouco álcool. Não aceito recusa. — Fico lisonjeada. — Vamos, sigam-me. Por cima do ombro, Hoot lançou um olhar de aprovação para Paul, sem que Cassy percebesse. O corredor
  • 12.
    levou-os à cozinhae a outros pequenos cómodos, até alcançar a porta do escritório de Hoot. Pequeno e confuso, o aposento tinha uma escrivaninha e um balcão como móveis principais. Um sofá de couro surrado e banquetas completavam o mobiliário. Nas paredes, fotos autografadas de grandes nomes do jazz. Cassy reconheceu a maior e mais bonita delas, Billie Holiday, a cantora negra que sua mãe lhe ensinara a amar desde pequena. — Cá estamos. Agora me contem... Como se conheceram? — Meu irmão trabalha para Paul. — Cassidy é minha figurinista. Caíram os três na risada, em alto e bom som. Hoot mostrou que sua curiosidade não tinha sido satisfeita com nenhuma das respostas. Paul pigarreou, mas Hoot foi mais rápido e sua língua afiada não poupou ninguém ao dizer: — Figurinista... Quer dizer que agora fantasia se chama figurino? Então Bettina pegou você com essa história de baile à fantasia... — Tenho saída? Hoot juntou as mãos em sinal de contrição, e com deboche comentou: — Coitadinho dele! — Acho que vi seu nome na lista de convidados, se não me falha a memória... — revidou Paul. — Já tem fantasia, Hoot? — indagou Cassy. — Claro, não está vendo? Vou de mestre-cuca. — Espertinho... — Já tem o chapéu? E seria bom uma grande panela ou frigideira para dar um toque extra. — Grande ideia! Quanto ao chapéu, não tenho, mas posso comprar. — Por que não aluga? Terei prazer em fornecer tudo por cinco dólares: chapéu, frigideira e maquiagem. — Otimo negócio. Fechado, senhorita. — E, olhando para Paul: — Essa moça é um doce. Bem melhor do que a enjoada Bettina. — Acho que não vamos ficar para o jantar — disse Paul, com azedume. — Deixe de besteira, meu amigo. Terão a melhor mesa da casa, ou não me chamo Hoot. Olhe, garota, a família desse rapaz é formada por um bando de sanguessugas, se quer saber. — Hoot... Mas o protesto de Paul não adiantou de nada. Hoot estava disposto a tornar pública sua opinião sobre os Barclay. — Há muito tempo houve uma luta entre eles para decidir quais seriam os novos rumos dos negócios da família. Como nenhum deles parecesse capaz de tocar a empresa, pegaram nosso amigo aqui para o sacrifício. — Sacrifício? — Não é bem essa a verdade. O que aconteceu foi que decidi tomar a frente dos negócios para defender meus interesses. Ninguém me obrigou a nada. Ao contrário. — Sacrifício, sim, foi o que eu quis dizer — afirmou Hoot. — Os negócios vão bem porque você se mata de trabalhar. Enquanto isso, os outros membros da família vivem como nababos, à custa do seu esforço. Para Paul ficam as dores de cabeça, e para eles vão os cheques polpudos. — Mas tenho liberdade total na empresa. — É assim que vê as coisas? Para mim você está de mãos atadas. — E olhando para Cassidy: — Abandonaram-no sozinho e fazem de conta que não percebem o que está acontecendo. Esse casamento é pior, para meu amigo aqui, do que o cadafalso. — Hoot! — censurou Paul. — Está bem, a moça em questão é uma dama... — irónico, Hoot corrigiu. — Chega de sermão. Estou faminto e não pretendo arruinar minha noite com essa conversa. Posso jantar aqui ou não? — Por favor... E não se esqueça de meu chapéu, senhorita. Mande-o por Paul. E pode cobrar dele também. Cassidy riu, divertida, enquanto era conduzida para o salão. No meio do caminho, Paul tomou uma atitude inesperada: empurrou-a contra a parede e tomou seu rosto nas mãos. Foi tudo muito rápido, mas mesmo assim Cassy sabia o que ia acontecer. Não ofereceu resistência ao longo e ardente beijo. Um sorriso bailava no semblante feminino. Trazendo-a para mais perto, num abraço doce, Paul sussurrou em seu ouvido:
  • 13.
    — Por queme deixou fazer isso? — Não pude evitar. "Eu também não", Paul pensou, fechando os olhos. Era injusto de sua parte. Era injusto para ambos. Mas ao abrir os olhos e ver um sorriso brilhante naquele rosto lindo, sua respiração ficou suspensa. Uma sensação incomparável de perda, desespero e impotência o dominou. Em silêncio, tomou-a pela mão, e juntos entraram no salão cheio de gente. Risadas se misturavam ao som de um piano. Por entre as muitas mesas, Paul se esgueirava, levando Cassy. Num canto privilegiado havia três mesas vazias. Ele pendurou os casacos e a bolsa de Cassy e puxou a cadeira para que ela se sentasse. Flores e velas deixavam o ambiente ainda mais agradável. — E então, gostou? — Muito. Este lugar é incrível. Seu amigo também. — Esta mesa é reservada para os convidados. Quem senta aqui come o que ele mandar. É autoritário até nisso. Cassy batia os pés no chão, ao compasso da música, deslumbrada com tudo. Nem percebeu que a garçonete se aproximara e falava com Paul. Mas teve que prestar atenção no copo colorido que foi colocado à sua frente. — O sr. Hoot já fez os pedidos para vocês. O drinque é uma das criações dele. Espero que goste. — E, olhando para Paul: — Faça-nos um favor: assuma o piano enquanto o jantar não vem. Ninguém aguenta mais esse moço. Paul riu alto e disse: — Por mim, tudo bem. — Mal a moça saiu, e Paul já estava de pé, puxando Cassidy. — Já que não posso escolher meu jantar, pelo menos escolherei a música. Cassy o seguiu até o piano. Ele a acomodou numa banqueta e, sem cerimónia, tocou uma versão de "Old Man River". Maravilhada com o talento musical de Paul, ela levou alguns minutos para perceber que todo o salão estava ouvindo em silêncio. Para deleite geral, outras três canções foram executadas. Mas o jantar os esperava e a audição terminou. Sob aplausos, Paul deixou o piano. Só tinha olhos para Cassidy, que batia palmas. Por alguns instantes ele conheceu a felicidade. Naquele segundo, sua vida pareceu perfeita. Cassidy entrou em casa em estado de graça. Fora uma noite inesquecível, e ela queria prolongar a sensação de felicidade. Pegou no colo um enorme gato amarelo que ronronava, enroscado em suas pernas. — Olá, Sunshine. Vovó Anna deu-lhe o jantar? Brincandt) com o bichinho, Cassy foi até a cozinha, onde "vovó Anna" tinha deixado um bilhete e uma fita em torno da geladeira. Uma das manias da mãe de Cassidy era a filosofia oriental, e segundo ela a casa precisava ser "purificada". Professora de Tai-chi-chuan, versada nos rituais chineses, vegetariana radical e tendo sua própria visão das coisas, ela não poupava críticas aos filhos, e especialmente ao ex-ma- rido, Alvin, que aos sessenta anos se juntara a um grupo de motociclistas e deixara crescer os cabelos, usando sempre rabo-de-cavalo. Rindo de si mesma e da família pouco convencional que tinha, Cass pensou que talvez não fosse má ideia agradar sua mãe e tentar a tal "purificação" da casa. O som estridente da campainha a tirou desses devaneios. O relógio do microondas marcava dez horas, tarde demais para qualquer visita. Na ponta dos pés, ela atravessou a sala e pelo olho mágico verificou quem a procurava tão fora de hora. Com o coração aos pulos, abriu a porta para Paul. — Oi! Quer entrar? Ele balançou a cabeça, sério. — Nós não combinamos quando nos encontraremos de novo. — A primeira prova, claro! Deixe-me ver... quinta-feira não... Que tal sexta? — Não. Falta muito tempo para sexta. — Oh... Cassy sentiu um arrepio. Por um lado era ótimo ouvi-lo dizer isso, mas por outro era impossível aprontar antes disso a roupa. — Tome café da manhã comigo na quarta-feira, e provarei a roupa na sexta. — Café da manhã? — Só a convidei para o café, não para passar a noite comigo. Por que está tão surpreso? Já almoçamos, jantamos e tomamos chá juntos. Só falta mesmo o desjejum. — Que seja — assentiu Cassy com visível alegria.
  • 14.
    — Mas eupreparo tudo. Sete horas é muito cedo? — Perfeito. Antes de partir, Paul tomou-lhe o rosto nas mãos e fitou-a por algum tempo, silenciosamente. Beijou-lhe a testa com suavidade e saiu. Pela segunda vez naquela noite, Cassy trancou a porta e ficou pairando nas nuvens. Anna apareceu na porta da cozinha, atraída pelo cheiro de bacon e ovos que se espalhava pelo ambiente. Tinha as mãos na cintura e olhar de poucos amigos. A cabeleira grisalha presa numa longa trança e o longo vestido de algodão azul davam-lhe uma aparência exótica, reforçada pelos brincos indianos de prata. — O que está tentando fazer? Envenenar a si mesma ou enfumaçar a casa toda? — Digamos que estou tentando preparar um desjejum decente para um amigo — respondeu Cassy. — Envenenando seu amigo com carne de animais mortos? — Mamãe, não posso comê-los vivos. Anna estranhou a filha dizer aquilo. Afinal, sempre guardava para si os comentários jocosos. Uma energia diferente emanava dela. — Seria um amigo... do sexo masculino? — Seria. Mamãe, por favor, tenho vários amigos. E café da manhã não quer dizer que dormi com ele. — Sei disso. Não sou tão preconceituosa como imagina. — E, mudando de assunto: — Deixei um bilhete para você ontem. — Pode purificar a casa quando quiser, desde que não seja agora. — Obrigada. Farei isso, mas é melhor que não esteja por perto. Seu ceticismo atrapalha o fluxo energético. Não tiveram tempo para dar prosseguimento à conversa. A campainha soou, anunciando que o convidado chegara. Atrapalhada entre a frigideira, o forno e a cafeteira, Cassidy tropeçou em duas cadeiras e quem atendeu a porta foi Anna. — Como vai, meu jovem? Sou Anna, mãe de Cassidy. Paul estendeu-lhe a mão num gesto cortês, porém no rosto estava estampada sua surpresa. E sua decepção. — Paul Spencer, muito prazer. Devo concluir que é mãe de William também. Eu e seu filho trabalhamos juntos. — Estranho, muito estranho... Em que dia o senhor nasceu? — Dezessete de janeiro. — 17--- Vou verificar. — Com o olhar perdido, Anna dirigiu-se à cozinha. — Vai comer coisas mortas, sabia? Cassidy acompanhou-a até a porta e assim que a viu desaparecer na rua, olhou para Paul. — Desculpe-me, mamãe é um pouco excêntrica. Aliás, muito excêntrica. — O que ela quis dizer com comer coisas mortas? — Esqueça. Minha mãe é naturalista radical. Paul caminhava pela cozinha, observando tudo com evidente ar de satisfação. — Ovos, bacon, biscoitos caseiros... Não acredito que tenha feito geléia de amora! Eu adoro! Cass não conseguiu esconder seu orgulho com o elogio. — Minha avó me ensinou. Eleja estava se servindo das guloseimas, com apetite de glutão. Entre uma garfada e outra, falou: — Você não costuma comer isso sempre, não é? — Quase nunca. — Foi o que imaginei. Ninguém pode ter um corpo como o seu sem fazer sacrifícios. — Como assim? — Corando até a raiz dos cabelos, Cassy não sabia onde pôr as mãos. — Seu corpo é maravilhoso. Não só o corpo, tudo em você é lindo. — Obrigada. Ela não estava acostumada a ouvir elogios. Principalmente vindos de um homem como Paul. Natural que reagisse com timidez. — William nunca fala muito da família. Sempre estranhei isso, e agora muito mais. Conhecendo você e sua mãe, não entendo mesmo! — Minha mãe é "esquisita" demais para os padrões do meu irmão. Confesso que papai também não se encaixa na "normalidade". Vive para se divertir. Ah, e William não suportou o divórcio
  • 15.
    deles. — Acho quevou gostar de seu pai. — Com certeza. Mas minha mãe é o oposto disso. Para ela há coisas mais importantes que diversão. — Acho que pode haver um meio termo. — O que não o impediu de se sacrificar pelo trabalho. — Às vezes é preciso. — Fale-me sobre Bettina. Mesmo surpreso com o pedido, Paul relatou toda a história e terminou dizendo: — Chego a pensar que tudo, para ela, baseia-se na vaidade. Se não fosse seu orgulho ferido, nada disso estaria acontecendo. Mas agora é uma questão de honra casar comigo. — Eu jamais conseguiria aguentar uma situação dessas. — O que estamos vivendo é muito pior. Escute-me: se quiser que eu suma da sua vida, peça e o farei. Só não quero magoar você. — Não quero que você suma. — Que bom! Preciso da sua amizade. — Não somos amigos. Nenhum amigo me beijou como você. — Sei. Vamos parar com isso. — Não, não vamos. — E, para provar o que dizia, Cassidy uniu os lábios aos dele, num beijo apaixonado. CAPITULO IV Entre sedas, cetins, cristais reluzentes, flores e champanha circulavam os convidados do baile à fantasia de Bettina Lincoln. Pierrôs, colombinas, zorros e outros personagens se misturavam no cenário luxuoso criado pela imaginação e pela riqueza da anfitriã. Paul Spencer Barclay podia não ter o glamour de Tony Curtis, mas estava mais do que convincente nos trajes de cossaco. Viril e charmoso, parecia vindo das estepes russas. A habilidade de Cassidy em dosar criatividade e bom senso ficara provada nos detalhes, como as botas com aparência gasta ou o sabre autêntico que pendia do cinturão de couro envelhecido. Com um sorriso no rosto, Paul saboreava o champanha quando Bettina fez sinal para que se juntasse a ela. Paul olhava ao redor, e convenceu-se de que Cassy estava certa ao afirmar que, no fundo, somos muito semelhantes à fantasia escolhida. No caso de Bettina, isso estava evidente. Vestida de princesa encantada, agia como se o mundo fosse seu conto de fadas. Bem, só uma varinha de condão faria o carpete branco ficar limpo depois daquela festa. Bettina tomou-o pelo braço. Dirigindo-se a um senhor vestido de George Washington e a um casal com trajes pré-históricos, apresentou-o: — Macie e Marc Gladsden, este é Paul Barclay Spencer, do pastifício Barclay. — Para Bettina, ele seria sempre Paul Barclay Spencer, do pastifício Barclay. Se fosse apenas Paul Spencer não estaria ali, servindo como seu bichinho de estimação... — Como vão? O casal o via como um objeto, e como tal ele se portou. Enquanto Bettina fingia não perceber que Macie não tirava os olhos de Paul, ele se divertia com a situação. Conhecendo bem a alta sociedade, sabia que os Gladsden não faziam parte dela. Ouvira muitas histórias sobre as "festinhas de embalo" organizadas pelos dois. Não eram os únicos amigos de Bettina a fazer parte desse universo um tanto ou quanto ousado para os padrões normais. Ela mesma tinha uma certa tendência para se juntar ao lado escandaloso da sociedade. Mas Paul nunca imaginou que pudesse se misturar à gentalha. Essa espécie de atitude era inaceitável para qualquer membro da família, mas ele não tinha o direito de interferir na vida de ninguém. Mesmo que naquele momento estivesse muito incomodado. Aquilo se estenderia por muito mais tempo. Bettina não parecia disposta a deixá-lo. Tanto que, passados alguns minutos, tomou-o pelo braço e, com uma desculpa qualquer, despediu-se do casal. De braços dados com Paul, ela fez questão de desfilar por toda a festa, sorrindo, chamando atenção dos convidados. Mais alguns metros e Paul teria desistido, mas, para sua alegria, William Penno, seu fiel assessor, surgiu, elegante numa versão de Daniel Boone. Bettina abandonou-o para voltar ao amigos. — Cuide bem de seu chefe, William. Confio em você.
  • 16.
    — Senhorita, ordenee eu farei — respondeu ele num tom de voz obsequioso. Paul não suportava o jeito como o irmão de Cassy tratava Bettina. O servilismo dos gestos o incomodava tanto quanto o esnobismo. Com ele, era diferente. Exigira ser chamado pelo primeiro nome depois de oito meses de convivência diária, mas nunca soube que isso não significara, para William, que tinham se tornado amigos. Pobre rapaz, jamais entenderia que uma amizade verdadeira e leal podia ser muito mais valiosa que sua postura servil e subserviente... Portava-se como um subalterno, e isso nunca mudaria. Como dois irmãos podiam ser tão diferentes? Cassy era espontânea, autêntica... Ele ponderava a respeito quando ouviu William dizer: — Se me permite, devo confessar que está muito bem com essa roupa. Sorrindo, com genuína gratidão no olhar, Paul apertou a mão do funcionário. — Agradeço muito por ter me indicado sua irmã. Obrigado mesmo. — Oh, por favor... Nós é que agradecemos pela oportunidade de servi-lo. Paul olhou-o de alto a baixo e perguntou-lhe: — Ela escolheu sua roupa? — Não. Veio de lá, mas eu escolhi. Era o que Paul imaginava. Na certa Cassidy teria optado por um pajem medieval. Ela também era da opinião que nada pior do que um homem servil e sem amor-próprio. Bettina interrompeu o diálogo, chamando o noivo novamente, dessa vez para apresentá-lo a um casal idoso e simpático. O marido confessou que viera quase por dever social, esperando se aborrecer, e para seu espanto estava se divertindo muito. Submetendo-o a tais provações, Bettina esperava vê-lo prostrado a seus pés. Naquele momento, por exemplo, ela insistia em contar a ideia "brilhante" que acabara de ter. —Um baile à fantasia muito maior, patrocinado pela empresa! — exclamou, animada. — Será uma grande festa. Convidaremos os clientes e poderemos atrair a atenção dos distribuidores nacionais. Faremos o lançamento oficial da campanha publicitária. Essas palavras atingiram-no como torpedos. Conhecia a prima o suficiente para saber que ela tramava algo. E, pior, com os negócios da família. Cauteloso, argumentou: — Uma festa desse porte custa muito caro. — Temos a verba da publicidade. Não seria um gasto inútil. Sem mencionar o que podemos lucrar com o contato direto com clientes antigos, bancos, fornecedores... Você me diz sempre isso. Nesse ponto ela estava certa. Paul sempre reclamava que faltava, à empresa, um toque pessoal, e essa era uma excelente chance. Tinha que admitir que estava tentado pelo plano. Só não concordava com o baile à fantasia. Por que não uma bela festa? Mesmo animado, não demonstrou interesse imediato. Bettina não teria esse prazer. Foi então que teve uma ideia: — Se William nos auxiliar nisso, será muito mais fácil. Sim, Paul decidira concordar com o baile à fantasia. Mas por um único motivo: Cassidy Penno. Que se danassem os motivos reais de Bettina. — Eu? — indagou William, surpreso. — Precisamos fornecer as fantasias para os convidados de fora. Ou espera que cruzem o país com esse tipo de traje na mala? E, para nossa sorte, sua família tem a melhor loja do género. — Na verdade, o negócio é de minha irmã... — Um lugar ótimo! — interveio Paul, enfatizando seu interesse na loja e não em Cassy. — Fazem tudo, da criação ao acabamento. E possuem um estoque enorme. Só não sei se dispõem de uma lista de tamanhos e modelos oferecidos. — Tenho certeza de que sim. Eu mesmo ajudei a informatizar a loja — disse William. — Pronto. Achamos o homem para providenciar esse detalhe da festa! — E, tentando parecer casual: — Procure saber se sua irmã pode falar conosco na segunda-feira de manhã. — Garanto que sim. Bettina estava surpresa, mas entendeu como mais uma vitória sobre Paul e, exultante, lançou-lhe um sorriso magnânimo antes de dizer: — Bem, fico contente ao constatar que desta vez não iremos brigar. Como vê, tenho boas ideias também. Paul assentiu, sorrindo, e percebeu que até aquele momento o velho casal ficara abandonado à
  • 17.
    própria sorte. Bettinajá abandonara a roda para alardear sua conquista. Então coube a William fazer o papel de anfitrião. Ele era ótimo nisso, e Paul tinha pressa em comunicar a Cassy sobre seu plano. Já se despedira de todos quando William o segurou pelo braço e sussurrou-lhe ao ouvido: — Será que não devemos procurar uma loja maior? — Nem pense nisso. Nenhuma loja grande nos atenderia tão prontamente. Faltam dois meses para o ano-novo. Mortificado, William gemeu e ousou dizer: — Dois meses! Eu conheço minha irmã e... — Preciso dela. "Preciso mesmo", pensou. Sem perceber, Bettina lhe dera a chance ideal para continuar a ver Cassidy. O resto poderia ser resolvido. Passava muito da meia-noite quando o telefone tocou. Cass, embora acordada, não atendeu imediatamente. Estava imaginando como fora a festa e se Paul formalizara o noivado com Bettina Lincoln. Tolice pensar assim, mas sentia que isso daria fim a seu idílio. Quando atendeu, não podia imaginar que ouviria justamente a voz dele. — É você mesmo? — Sei que é tarde, mas o que tenho a dizer não pode esperar. — Tudo bem. — Com o coração apertado, Cassy se preparou para ouvi-lo falar que não poderiam mais se ver. — Preciso que me ajude, e muito. Abrindo os olhos, sentindo o sangue latejar, ela disse a primeira coisa que lhe veio à mente: — Sabe que farei qualquer coisa. — Otimo. Eu contava com isso. Agarrando o telefone com ambas as mãos, Cassy mal controlava o entusiasmo. — Só me diga o que preciso fazer. — Não sei exatamente, mas é muita coisa. E teremos que nos ver sempre. Confusa, Cassy pôs-se de pé. Pelo que conhecia de Paul, tudo era possível. — Espere! De que estamos falando? — Do baile de ano-novo das empresas Barclay, um evento publicitário que meus sócios inventaram e com o qual concordei. Um baile à fantasia. Outros detalhes William poderá fornecer amanhã. — Quer dizer... este ano-novo? — Achei que deveria ser informada desse pequeno detalhe. — Acho que não será possível. — Esse problema é de Bettina. Meu único problema é arrumar as fantasias dos convidados de fora. — Agora ficou claro. — Cassy não sabia se ficava feliz ou preocupada com a atitude de Paul. Então foi direta: — Vocês ficaram noivos hoje? — Claro que não! Livre do peso, e achando-se um pouco tola, ela tentou se desculpar: — Achei que... Bem, William me disse que era esse o motivo do baile e... quer dizer... — Não há nenhum romance com Bettina. Nenhum de nós ama o outro. E uma questão de orgulho ferido para ela, só isso. — É que eu pensei que ela o amasse e... Bem, ela já tem dinheiro e poder com a herança. Por que tanto empenho no casamento? — Bettina quer ser um membro da família, uma Barclay legítima. E também restaurar seu amor-próprio ferido. — E, ao obrigar você a casar-se, conseguirá tudo isso? — Ela conseguiu me encurralar. No momento, tudo o que Bettina quer é me mostrar que venceu. Deseja que eu... hum... aceite meu destino. Cassidy entendeu. — Essa é a coisa mais triste que já ouvi. — Não, Cass. A coisa mais triste é amar alguém que nunca será seu. Algumas palavras não precisam ser ditas. Cassy já sabia de quem Paul estava falando. E ele tinha razão. — A melhor coisa a fazer agora é dormir.
  • 18.
    — Certo. Boanoite. — Boa noite, Paul. — Vejo você logo? — Logo, logo. Ao desligar o telefone, Cassy sentiu que o deixara mais calmo. Surpreendentemente, em poucos minutos dormia profundamente. Sentia-se em paz. Por algum tempo, teria Paul a seu lado, e seriam mais do que "bons amigos". E isso era além do que podia almejar. William conseguiu marcar a reunião com Cassidy, como prometera a Paul. Esquecido de que, antes de ser funcionário da Barclay, era irmão de Cassy, continuava agindo com a prepotência costumeira. Celular em punho, confirmava os números e dirigia-se para Paul: — Bettina calculou cerca de trezentos convidados. Gladys terá os nomes até a tarde, assim que elaborarem a lista oficial. Em um dia ou dois teremos a listagem de idades, sexo, cor e tamanho aproximado de todos eles. Bendita seja a informática! Paul forçou um sorriso. — Vamos ao que interessa. — Virou-se para Cassidy. — Você acha que terá dificuldade em conseguir roupas para toda essa gente? Consultando o computador, ela respondeu: — Não. Temos muita coisa em estoque e pouca procura para o reveillon. Se fizer a reserva agora, terá tudo o que deseja. Mas seria melhor inventar um tema para a festa, algo como "velho Oeste" ou "império Romano". Pela minha experiência, facilitaria a escolha das pessoas, evitaria rivalidades e tornaria mais fácil a decoração. — Faz sentido. Mas onde arranjaríamos local e cenários em tão pouco tempo? — Um único tema me dá chance de negociar com todas as lojas. William não quis ficar atrás da irmã, e sugeriu: — Temos a velha fábrica. E grande, tem estilo e está vazia. Quer lugar melhor? O olhar de Paul buscou socorro no de Cassy. Não fazia a menor ideia do que era razoável ou não. Mesmo assim, deu seu palpite: — E velho, antigo mesmo. Está sujo e de bom só tem a solidez das paredes. Ah, e o tamanho. — Parece muito bom. A srta. Bettina não precisa ser consultada? — Antes quero ter algo concreto para mostrar. Alguma ideia de tema? — Quem fundou o pastifício Barclay, e quando? — indagou Cass. — Meu bisavô, em 1902. Por quê? — Porque William tem fascinação pela saga da empresa, e muitos outros devem ter também. Estamos no fim do século. Que tal voltar ao começo de tudo? — Justamente agora que estamos mirando o futuro? — bradou William. — É um contra-senso. Nosso alvo é atingir proporções nacionais. Essa estrutura familiar está ultrapassada. — Will está certo — assentiu Paul. — A Barclay está a um passo da nova era. — Quer coisa melhor do que voltar ao início antes de olhar para o futuro? Dálias, 1902. O começo de uma civilização, a nossa. "Quem não teve passado, não terá futuro." — A voz de Cassidy era puro entusiasmo. Paul estava inebriado com a ideia, com Cassidy, com tudo à sua volta. E o olhar denunciava seus sentimentos. Queria ser feliz e esquecer o resto. As ideias pululavam. William queria fazer um histórico da empresa com fotos no saguão da fábrica. Cassidy sugeriu que Paul representasse o papel do patriarca Barclay. No auge da animação, ele não resistiu e, juntando os dedos, jogou um beijo na direção dela. — Brilhante! — Cassidy foi rápida ao notar a reação de William. O olhar do irmão ficou frio, e a desaprovação era patente mesmo quando Paul abraçou os dois, repetindo: — Os brilhantes irmãos Penno! O riso espontâneo de Paul não impediu Cassidy de notar em seu irmão traços de preocupação. Algo o incomodava. Ela, porém, não se abalou. Tinha coisa mais séria em mente. Não foi preciso esperar muito para obter as respostas. Na noite seguinte, William apareceu de surpresa na casa de Cassidy, agitado e cruel, disparou suas farpas logo na entrada: — E tudo culpa sua. Vai acabar com a minha carreira! — Posso saber do que está falando? — O plano era aproximar Bettina e Paul, não o contrário.
  • 19.
    Cass respirou fundoe contou até dez. Levou o irmão à sala íntima, esperando que ele se acomodasse. Acendeu o abajur, abriu um vinho do Porto e só depois de servi-lo, em copos de cristal belga, falou: — Agora, com calma, pode me dizer o que houve? —E Paul. Só pensa no baile. Esqueceu Bettina e, para se vingar, ela o atormenta com a decoração a cada minuto. —E o que eu tenho a ver com isso? —Não se faça de sonsa, Cassidy Jane Penno. Não sei como, mas parece que você andou virando a cabeça dele. —Sou paga para dar ideias. Se isso afeta a cabeça de seu chefe, não é problema meu. — Que tipo de ideias? A meus olhos está claro que ele... Bem, gosta de você. — E daí? Para seu governo, não é o único. Ou sua irmã parece um monstro? Se veio para me dizer isso, ti, pode ir para casa. Por um longo momento, William ficou sem ação e encarou sua irmã. —Sabe que não existe chance. Ele está comprometido com outra. Atónita, Cass sentiu mais que censura naquele comentário. Havia a preocupação legítima de irmão mais velho. — Ainda não está. — Não acredito que você pensa que pode competir com Bettina Lincoln! Ela é sofisticada, interessante, alta, loura... o tipo de mulher que faz um homem enlouquecer. E, mais que isso, é poderosa. Nunca vai deixar que você ou qualquer outra mulher roube-lhe Paul. Cassidy queria dizer que ele estava errado, e que Bettina ainda não possuía Paul. Mas no íntimo concordava com William. Tinha quase certeza de que algo mais do que os negócios da família uniam os dois. — Sou sua irmã! Será que isso não conta nada? Deixe um pouco de lado a "magnífica" Bettina e pense em mim. Ou em você. — Está certo. Não posso ficar amarrado desse jeito a Paul. — Exato. Pense neles como uma fonte de rendimentos para nós, e temporário. — E, com ar inocente: — De mais a mais, foi por sua causa que eu o atendi. — Só lhe peço uma coisa: não podemos deixar Bettina à margem dos acontecimentos. Ela precisa ser a estrela dessa festa. Faça com que isso aconteça. Sei que vai armar uma pequena peça de teatro para contar a história da empresa, e que Paul será o velho Barclay. Pois use a criatividade para colocar Bettina como a mulher que fez o grande homem. Dê um jeito. Escreva, crie, dinheiro não é problema. Não saio daqui sem um texto para Bettina ler amanhã. Chame seus amigos de teatro, faça o que quiser. Mas faça. Dois telefonemas e Tony e um amigo redator estavam lá, com pizzas e disposição. Como se fosse um desafio para seu talento e caráter, Cassidy produziu naquela noite um texto completo, com tudo: marcação, iluminação, trilha sonora. Como figura central, a esposa fiel e incansável, abnegada e brilhante: o papel de Bettina, Quando terminou, soube que fizera aquilo por Paul. Por causa do amor cada vez mais intenso que nutria por aquele homem. Se isso o ajudasse em algo, teria valido a pena. CAPITULO V — Achei as fotos! — disse William, tirando da pasta um velho álbum. Cassidy, Tony e os outros três rapazes do curso de teatro levantaram os olhos para ver do que se tratava. — Há uma foto da casa do bisavô de Paul, em que ele aparece com a esposa. Cassidy juntou as mãos, agradecida. — Graças aos céus! — Não vão acreditar, mas o velho Barclay fazia propaganda do pão já nos anos vinte. Aqui, eles estão inaugurando a terceira loja. Aquele era o material de que Cassidy precisava para a ambientação do baile e, especialmente, para sua pe- quena peça de teatro sobre o patriarca Barclay. Entusiasmada, revirava o material que lhe daria subsídios para o trabalho. Estavam empenhadíssimos na produção da peça. Havia quatro dias que não faziam outra coisa. Paul chegou nesse instante, furioso. Acabara de falar com alguém no celular.
  • 20.
    — Essa foia coisa mais estúpida que já ouvi em toda a minha vida! — Olhando para todos, explodiu: — Alguém precisa tomar, conta desta loja. Há clientes esperando! Tony saiu correndo antes que a fúria de Paul desabasse nele. Os outros três jovens seguiram-no. — E então? Bettina gostou da peça? — indagou William. O coração de Cassidy ficou apertado. Trabalhara muito naquele roteiro. Conseguira contar a história do patriarca Barclay, colocando Bettina no papel da bisavó de Paul. E, se fosse preciso reescrever algo, estariam perdidos. Não haveria tempo. — Bettina se recusou a fazer a peça. Alegou que isso arruinaria sua imagem — vociferou Paul. — Mas como? É o papel principal! Sua bisavó foi a responsável pelo desenvolvimento da empresa! Paul levantou o dedo em riste em direção a William, irritado. — Exato! Ela morreu aos noventa e quatro anos, ativa e lúcida. Trabalhou para que tivéssemos uma fábrica, ao invés de muitas padarias. Enfim, construiu tudo o que temos. William balançou a cabeça, desalentado. — Não entendo. A srta. Lincoln devia estar orgulhosa pór representar esse papel. Mãos na cintura, Paul disse em tom sarcástico: — A srta. Lincoln não tem muita coisa na cabeça. O que a incomodou foi a parte em que é uma senhora idosa. Usando as palavras dela, uma velha. — Só no final. Começamos com a personagem aos vinte anos, e recém-casada! — argumentou Cass. — Isso não faz diferença! — Paul continuava inconformado. — Bettina teme que a maquiagem estrague sua pele, e não quer parecer velha. Ponto final. Cassidy parou por alguns minutos, para pensar naquilo tudo. Nenhuma mulher do mundo seria vaidosa a esse ponto. Havia algum outro motivo. William mostrava-se tão estarrecido quanto ela, mas, como sempre, tinha um ponto de vista conciliador: — Talvez a srta. Lincoln não tenha a dimensão exata do papel. Enquanto você sai depois da segunda cena, ela continua até o fim da peça. — Esqueça. Bettina se recusa e pronto! Essa mulher me tira a vontade de viver! — confessou Paul. — E agora? O que vamos fazer? — William perguntou. Era a deixa que Paul esperava. Um brilho maquiavélico surgiu em seu olhar quando fixou-se em Cassy. — Vamos achar alguém para substituir Bettina. E sei exatamente quem. William Penno rebelou-se instantaneamente. — Você não está sugerindo que... — Oh, eu não ousaria — argumentou Cassy, entendendo que o papel sobraria para ela. O charme e a postura de Paul Spencer Barclay eram imbatíveis nos negócios, diziam todos. Valendo- se desse talento, ele se aproximou de Cassidy, tomou sua mão e foi direto ao dizer: — Sei que estou pedindo demais da nossa amizade, mas preciso de você. Saberei recompensar seu trabalho, prometo. — Não é uma questão de dinheiro. — Tenho certeza de que não. — Sua voz tornou-se suave. — Mas não tenho outro modo de expressar minha gratidão por tudo o que tem feito, por seu apoio e generosidade... — E beijou-lhe a mão. Cassidy não resistiu ao gesto galante, capitulando. — Oh, não! Por favor! — William estava inconformado. — Pense no que está fazendo! Paul fuzilou-o com o olhar. Cansara-se de ouvir objeções e conselhos do assessor. — Que sugere, então? — Pense na srta. Lincoln... — A srta. Lincoln sabe perfeitamente que alguém terá que fazer o papel que ela recusou. Agora diga à sua irmã para aceitar minha proposta. Já! — Eu? — Você não é meu assessor? Pois então, resolva esse problema. O poder que Paul se recusava a usar nas relações pessoais estava sendo útil, finalmente. Agir dessa forma com William Penno era uma forma de fazê-lo perceber quanto podia ser desagradável a arrogância
  • 21.
    alheia. No fundo, Cassestava saboreando esse momento. Não deixou de ter uma certa graça ver o prepotente William se render. — Bem, apesar de tudo, pensando melhor... Nós não podemos abandonar Paul agora. Cassidy se perguntou até que ponto era importante para Paul tê-la a seu lado. Mas a pergunta era irrelevante. Seu coração sabia o que importava de verdade. Voltando o rosto para ele, respondeu com sinceridade: — Claro que terei prazer em fazer a peça, se é o que quer. — Obrigado. Muito obrigado. A essa altura, William já recuperara o autocontrole e, infelizmente, também a prepotência. Queria que Bet-tina brilhasse, não Cass. Portanto, não permitiria que sua irmã se valesse dos mesmos trunfos destinados à srta. Lincoln. — Precisamos fazer modificações no texto, já que Cassidy será a matriarca, e não Bettina. — Ninguém põe a mão no que está escrito. — Paul estava disposto a tudo para ser obedecido. Seu olhar não deixava dúvidas sobre isso. Engolindo em seco, William guardou para si as objeções. Cassy retomou o assunto do álbum de fotografias: — Agora vamos ver que fotos podemos usar. A pesquisa foi produtiva. O bisavô de Paul fora um dos primeiros, em Dálias, a fazer uso constante da fotografia como forma de registrar flagrantes cotidianos, quando a maioria das pessoas apenas posava para a máquina. Em menos de uma hora Cassidy já sabia o que precisava adquirir nos antiquários da cidade, e saiu em busca das primeiras peças. Paul deu-lhe seu cartão de crédito e o celular. A tarde voou. Quando ela finalmente pôs os pés na loja, tinha a sensação agradável de haver conseguido avançar léguas no trabalho. Excitadíssima, tinha pronta, na cabeça, a decoração da festa, e em detalhes. Paul precisava ser informado de seu projeto. As ideias fervilhavam em seu cérebro e a loja já estava deserta. Tony saiu correndo ao vê-la chegar, atrasado para a aula. Como o telefone de Paul ficara com ela, não sabia onde procurá-lo. Nesse momento, ouviu a porta bater. — Oh, Paul! Você leu meu pensamento. Tenho de contar minha ideia... — Que bom! Falaremos durante o jantar. Como uma criança, Cass não se conteve e disparou a falar: — Sabe a foto de sua bisavó na cozinha? E o jeito do restaurante de Hoot? Pense! Podemos conseguir um ambiente mágico se reproduzirmos a cozinha dela em todo o salão! E é simples: basta usar as toalhas certas, alguns objetos e pronto. Teremos a mesma atmosfera. — Genial! Seguindo-a pela loja, Paul ouvia, atento, os detalhes que Cassidy dava enquanto apagava luzes e ia fechando a loja. Só quando estava na rua, com o vento frio despenteando seus cabelos, Cass parou de tagarelar. E isso porque Paul segurava-lhe o queixo. — O que foi? — Isto. — Ele a beijou. Era o primeiro beijo depois do baile à fantasia. Ambos ansiavam por esse momento, mas nenhum tomara a iniciativa. Tinham medo. Não sabiam bem do quê, mas tinham. Foi Cassidy quem definiu as coisas. Assim que seus lábios se separaram, ela disse: — Não a peça em casamento até o ano-novo. Por favor, nos dê esse tempo. — Certo. Prometo. Abraçados, sentindo o vento gelado tocando seus corpos, estavam quase felizes. Ao menos poderiam ficar juntos até janeiro. O caos imperava quando começaram a mexer na fábrica. Sujeira e entulho misturavam-se aos problemas técnicos para a produção da peça. Tudo parecia se complicar, e William não tornava mais fácil a tarefa, implicando com Cassidy e seus métodos. Tony e seus colegas de faculdade estavam encarregados da faxina. Esse foi um motivo a mais para o desentendimento dos irmãos Penno. Paul chegara à fábrica justamente num desses momentos. Fora até lá para ensaiar e escolher
  • 22.
    os atores coadjuvantes,todos estudantes da escola de arte dramática. Essa fora uma das razões pelas quais Cassidy pedira que Tony levasse seus colegas de faculdade. Mas William não entendia esse raciocínio e brigava por colocar, na limpeza, uma empresa especializada. Paul interveio em favor de Cass. Queria que todos entendessem que faziam parte de um projeto comum, e que juntos deveriam alcançar o resultado desejado. Cassidy, com um assobio estridente, conseguiu a atenção de todos. Com voz firme, ela passou a exercer o comando. — Primeiro eu gostaria de agradecer a todos que estão dispostos a trabalhar conosco. Quanto antes a limpeza acabar, mais cedo iremos para casa. — E, olhando para Paul, anunciou: — Acho que o sr. Barclay tem algo a nos dizer. — Em primeiro lugar, gostaria de lhes pedir que anotem seus telefones para contato, horários de trabalho desejados e tarefas que têm facilidade em desempenhar. Isso nos garantirá um aproveitamento me lhor das qualidades de todos — disse Paul. Em pouco mais de vinte minutos já haviam chegado a um consenso sobre o trabalho da equipe, o salário e os contratos temporários. — Todos sabem que a festa está centrada num único ponto: a pequena peça que estamos produzindo e que dará sentido ao evento. Já foram distribuídas cópias para todos. Eu farei Theo Barclay, e a srta. Penno... — Cassidy — corrigiu ela. — Obrigado. Cassidy concordou em representar a esposa de Theo, minha bisavó. Inteligente e criativa, a srta. Penno é a responsável por tudo aqui. O que ela disser ou fizer tem meu aval. O poder é dela. Tony e William reagiram às palavras de Paul com o mesmo sentimento de insatisfação. Porém, foram os únicos a se sentir assim. A palavra voltou para Cassidy, que começou a narrar suas escolhas para o elenco, o que incluía muitos membros da família Barclay. Faltava um rapaz para representar Theo quando moço, e William sugeriu que procurassem entre os filhos do pessoal da diretoria da empresa. — Mais uma vez os irmãos Penno nos socorrem com suas ideias geniais. Obrigado, Will. Pode providenciar isso? William encheu-se de orgulho. — Claro. — Seria bom contar com uma ou duas meninas também — lembrou Cassidy. — Verei isso — prometeu William. Tudo encaminhado, a reunião foi encerrada. Paul, Cassy e William se isolaram para a leitura do script. Cass explicou o motivo pelo qual discutia com William quando Paul aparecera na fábrica. — Meu irmão se esquece de que estamos organizando um baile, não somente uma peça de teatro. Não podemos deixar de ter claro que essa peça é só um detalhe dentro da festa. As pessoas não estarão aqui para assistir a uma representação, mas sim para dançar, beber e se divertir na passagem do ano. Portanto, não tem cabimento colocar um palco enorme no meio do salão. Sem falar no detalhe de que Bettina não ficaria muito feliz com tamanho destaque para algo que não lhe dizia respeito, pensou Paul. E, para a orquestra que ela escolhera, seria necessário muito espaço, tornando inviável a colocação de outro palco só para a peça. A ideia de Cassy foi aceita. Fariam um pequeno cenário, no lado oposto ao da orquestra. Ele passaria despercebido em meio à decoração, e usariam o salão como cenário durante grande parte do tempo. Bettina sugerira que cortinas brancas de seda forrassem todo o interior, para desespero de Paul. Irónico, ele observou que dificilmente isso se pareceria com uma cozinha rústica do começo do século. William, por sua vez, se pôs a defender com ferocidade o ponto de vista de Bettina, mas Cassidy concordou com Paul. Seria mais apropriado usar cortinas listradas e coloridas. Mas William insistiu no assunto, o que o obrigou a ouvir palavras ásperas. — Que uma coisa fique clara: sou obrigado a casar com Bettina, não a concordar com suas idiotices. Paul surpreendeu o assessor, que, chocado, não hesitou em culpar a irmã, fulminando-a com o olhar. Cassidy sentiu-se desconfortável e injustamente acusada. Afinal, se Paul detestava Bettina, ela não tinha nada a ver com isso. Tentando desanuviar o ambiente, Cass sugeriu que repassassem as falas com Will, para que ele
  • 23.
    pudesse julgar odesempenho de ambos, e do narrador, Andy, um ator profissional. O começo foi realmente hilário. As falas não se encaixavam com a ação, e as mãos de Paul se moviam como num filme mudo. Ensaiaram a cena em que o casal Barclay decide largar os empregos para abrir seu próprio negócio. As falas podiam não convencer muito, mas a intimidade demonstrada pelo casal era muito convincente. Real demais para o gosto de William. A cena terminava com o casal abraçado, olhando com esperança o futuro. E foi esse abraço que mais incomodou o jovem Penno. Tony agiu rápido, distraindo os demais para que não vissem o que estava acontecendo entre os protagonistas. Paul não conseguia disfarçar seu interesse por Cass. Queria levá-la para um lanche, a fim de ficar a sós com ela. Disse-lhe ao ouvido que sairia primeiro e que voltaria para buscá-la em alguns minutos. Tudo isso por causa de William, sempre perto, vigiando. Para espanto de Cassidy, que nunca se colocara na posição de viver um romance clandestino, a censura dos olhos do irmão era dolorosa. Ele se preocupou até mesmo em certificar-se de que Cass iria sozinha, e direto, para casa. Essas e outras pressões foram fortes o bastante para que ela sentisse necessidade de redefinir, ou repensar, a relação com Paul. Mas, com William em seu encalço, isso se tornou impraticável. O irmão levou-a para casa, e, a pretexto de tomar um café, demorou tempo suficiente para ter certeza de que nada aconteceria. Agoniada, Cass viu as horas passando sem que Paul desse notícias ou atendesse o celular. Às dez horas da noite ele apareceu, com aparência de quem saíra do chuveiro, cabelos molhados e revoltos. Vestindo uma calça jeans larga, ténis e um blusão esportivo, parecia mais jovem, não fosse o cenho cerrado. Avançando em direção ao sofá, foi logo dizendo: — Temos de conversar. — Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Cass foi bombardeada pelas palavras: — Sinto muito, mas não sou hipócrita o bastante para fingir que não estou louco por você. Ainda sou um homem livre, e enquanto isso não mudar quero ficar a seu lado. Mesmo atordoada com a declaração, Cass teve presença de espírito para contra-argumentar: — Será isso possível? E Bettina? Já pensou que talvez ela se incomode? Enterrando a cabeça nas mãos, Paul respondeu com desalento: — Não sei. Realmente, não me importo mais. Sem saber como agir ou o qie dizer, ela simples mente fez a pergunta-chave: — Você tem mesmo de se casar com ela? Respirando fundo, Paul ficou em silêncio por alguns instantes. — Tenho. — Oh, entendo... A decepção foi maior do que ela esperara. Muito maior. Desviou o olhar, para esconder as lágrimas. E mesmo as palavras seguintes dele não faziam sentido. — Não vejo outra saída. Bettina está obcecada, não mudará de ideia. Queria tê-la conhecido antes, Cass, muito antes. — Antes de ter um caso com ela, quer dizer. — E, recuperando a calma: — Não vejo alternativa senão continuar assim, escondidos, no pouco tempo que ainda nos resta. — Não consigo vê-la feliz com isso. — Por causa de William. Ele não compreende e me faz sentir culpada. — Se estou causando embaraço, vergonha, diga-me e... — Claro que não! Não há nada de que eu me envergonhe. Nada! As mãos de Paul tocaram-lhe com delicadeza o rosto, deslizando numa carícia apaixonada. Seus olhos a miravam, embevecidos. — E aonde isso vai nos levar? — Onde já estamos. Beijando-a de leve muitas e muitas vezes, Paul pediu perdão, emocionado. — Não pude conter meus sentimentos. Não me controlei, Cass. — Não me peça perdão. O beijo que ele lhe deu na mão percorreu-a como corrente elétrica. Fechando os olhos, entregou-se, aninhando-se nos braços masculinos. Depois, inverteram as posições, e Cassy o aconchegou no regaço.
  • 24.
    Olhando para omenino que ele parecia, ela o acariciou. Paul enterrou o rosto em seus seios. Aos poucos, foi levando as mãos até eles, sentindo-os. Eram tão desejáveis que ele não se conteve. Excitado, deslizou a outra mão para a coxa roliça. A reação de Cassidy foi cerrar os olhos e deixar que aquela sensação deliciosa reverberasse em cada centímetro de seu corpo. Paralisada, temendo interromper a magia, ficou imóvel. Uma onda de desejo violento a dominou, enfraquecendo seus sentidos, aquecendo-a como nunca. Mas ele se deteve de repente. Pôs-se de pé e, controlado, disse: —Melhor eu ir para casa. Dadas as circunstâncias, Cassy assentiu. Se continuassem ali, não poderia responder pelo que aconteceria. Ao acompanhá-lo até a porta, percebeu quanto o desejava, e sofreu por vê-lo partir. Suas pernas ainda estavam trémulas. Fechou os olhos. Seu coração e seu corpo ainda o sentiam intensamente. Mesmo na cama, tempos depois, seu ser vibrava com a lembrança de Paul. CAPITULO VI Esbaforida, Cassidy entrou na fábrica. Todos respiraram aliviados. Especialmente Paul, que não disfarçou sua alegria. — Graças aos céus! Estava preocupado. Você não costuma se atrasar. — Deixou todo mundo esperando — repreendeu William, incomodado com o gesto afetuoso de Paul. Afastando-se do abraço, Cassidy se desculpou pelo atraso, constrangida. — Desculpem, tive uma reunião com o fornecedor de perucas, e demorou mais tempo do eu supunha. Depois, houve um acidente na avenida central. — Você deveria saber disso antes de escolher esse caminho — rebateu William, irritado. Paul respondeu com rapidez, intrigado com tanta hostilidade: —O que o incomoda, Penno? Cuide de sua vida. Cassidy interveio para serenar os ânimos. Segurando Paul pelo ombro, sugeriu: — Estamos perdendo um tempo precioso. Ao trabalho! A hostilidade de Paul arrefeceu, e William não disse nada. Limitou-se a olhar para ambos com indignação. Cassidy já perdera o sono tentando achar um modo de tranquilizar o irmão e fazê- lo aceitar sua relação com Paul. Mas nem ela mesma estava convencida de que agia corretamente. A verdade era que vinha se encontrando com um homem que se casaria com outra, em breve. Já se cons-cientizara de que o melhor seria romper, mas não tinha força para levar adiante essa resolução. Enquanto houvesse chance, continuaria ao lado do homem que amava. E William sofreria por achar que sua irmãzinha era amante do chefe. Ao imaginar o futuro sem Paul, Cassy estremecia. Aos poucos, preparava-se para ocupar o lugar que lhe caberia quando ele se casasse. No fundo, continuaria a ser a outra, pois não enxergava a vida sem aquele homem. Nesses momentos, dava graças por ter coisas mais urgentes com que se preocupar. O que deveria ser apenas uma pequena apresentação transformara-se numa produção teatral completa. E o baile assumia proporções maiores a cada reunião. Ensaiaram e ensaiaram. William fizera um ótimo trabalho com os cenários, conseguindo um meio termo entre o projeto inicial e a parcimônia de Cassidy. Tinham um iluminador competente, e os resultados eram gratificantes. No intervalo de mais um ensaio, Tony chamou Cassidy para discutir alguns adereços. Era tarde e a conversa parecia interminável. Paul estava faminto e nada disposto a esperar pela companhia de Cass. Então, chamou-a. A reação de Tony foi violenta e imediata. — Se o seu dinheiro pode comprar todos, isso não se aplica a mim. Pode nos dar licença, "patrão"? — Vamos acabar a conversa mais tarde, Tony? Por favor... — Mas Cass... — Mais tarde. Você ouviu a senhorita — reforçou Paul, vitorioso. E, virando-se para ela: — O que você tem? — Dor de cabeça, mais nada. — Cass sempre tem isso quando não come — interveio Tony. — É comum acontecer. Basta uma maçã e o mal-estar passa.
  • 25.
    Era verdade, reconheceuela. Esquecera de almoçar. Somente um café e meia torrada, que ingerira depois que acordara, mantinham-na em pé. Assentiu, com a têmpora latejando. — Vamos comer. Eu a levarei — resolveu Paul. — No máximo um iogurte. Só uma aspirina e um quarto escuro resolvem — provocou Tony. — Providenciarei tudo isso. Vamos, querida. Cassidy estava pálida, e quase desfalecida, quando William interveio: — Se minha irmã está doente, eu a levarei para casa. — O tom autoritário impressionou. Esgotada, estourando de dor de cabeça, Cassidy não teve forças para discutir e, relutante, cedeu às pressões de William. Dividida, falou: — Acho que não estou disposta. Não vou sair com ninguém. — É claro que não, mas precisa de quem cuide de você. Minha intenção é fazer isso. — Paul pôs-se na frente de William, interceptando-lhe a passagem. Foi o bastante para deflagrar a onda de revolta que Will vinha alimentando há algum tempo. Esquecido de quem era Paul, insurgiu-se contra ele. — Sinto muito, mas isso já foi longe demais. Não posso tolerar! — vociferou. — Tolerar? Somos adultos, Will. Não creio que haja algo para ser "tolerado", por você ou por quem quer que seja. — Cassidy é minha irmã. — E é adulta. Esta não é a hora, nem o lugar para discutir. Aliás, não há nada aqui que lhe diga respeito. William mudou o tom da conversa. A ira deu lugar ao apelo comovido, e foi assim que se dirigiu ao chefe: — Por favor, pense no que está fazendo. Cass não merece ser enganada. Pare de se comportar como se ela significasse algo para você. — E significa muito. Muito! Talvez não valha nada para o irmão, mas, para mim, ela é importantíssima. William fez de conta que não ouvira a provocação. — Já pensou no que Bettina vai pensar se... — Bettina não tem nada a ver com isso! Cassidy, dividida e magoada, sentia as lágrimas ensopando o rosto delicado. Quando Paul a puxou para si, afastando-a de William, seu coração doeu. — Pense no que está em jogo — disse Will. E, cínico, completou: — Ela não vale tanto, Paul. — Não sei se você é um canalha, William, ou só mais um imbecil, como tantos por aí. Atónita, Cass ainda não captara a extensão do que seu irmão acabara de dizer. Sentia o desdém dele como um punhal cravado em seu peito. Uma pequena parte dela dava razão a William, mas isso não diminuía em nada seu sofrimento. Só uma coisa no mundo poderia lhe oferecer conforto naquele instan- te: o abraço de Paul. Gemendo, permitiu que ele a tomasse nos braços e a levasse para longe dali. Foi um bálsamo sentir o vento frio no rosto, ao sair da. fábrica. Ainda zonza, respondia às perguntas de Paul com monossílabos. Só se recordaria, depois, de ouvi-lo dizer que alguém precisava dar uma lição a William. Ao sentir-se de volta ao lar, acomodada no sofá da sala, recuperou um pouco a energia habitual. Paul se desdobrou em cuidados. Aspirina, sopa de legumes, bolachas e um pedaço de maçã ajudaram a convalescença. Enternecida, assistiu ao vaivém dele pela cozinha, atarefado com o preparo da refeição. Chá e bolinhos também foram servidos, com tanta desenvoltura que Cass se surpreendeu. Solícito, ajoelhou-se ao seu lado. — Melhorou, querida? — Muito. — Então fique quietinha enquanto lavo os pratos. Não saia daí. — Não seja tolo. Já estou boa. — E espero que continue assim. Fechando os olhos, Cassy não pôde evitar que um sorriso bailasse em seus lábios. Não se lembrava da última vez em que alguém cuidara dela. Estava quase feliz, apesar de tudo. Os ruídos na cozinha, a televisão ligada, o gato que se aninhara em seu colo... Essas pequenas coisas davam-lhe uma sensação
  • 26.
    inebriante e única. Cochiloualguns minutos, e quando Paul a acordou, para se despedir, as palavras saíram naturalmente. Segurando-o pela manga, pediu: — Por favor, fique comigo. — Só um pouquinho... Depois disso, ela adormeceu profundamente. Vagamente se lembrou de ter sido carregada para a cama. Mas, sabendo que Paul estava ali, pôde descansar tranquila. O homem que amava tomava conta de seu sono, e tudo daria certo... Cassidy acordou com o nascer do sol. Teria continuado a dormir, mas o contato da mão quente e pesada sobre sua pele nua a despertou. Ainda sonolenta, aos poucos foi se dando conta do que estava acontecendo. O braço que envolvia sua cintura e o corpo musculoso que amparava o seu eram masculinos. De Paul. Um sorriso veio-lhe aos lábios ao se recordar da noite anterior. Lânguida, respondeu pouco a pouco ao contato sensual. Adormecido, ele nem notou que a enlaçava. O braço escorregou pelo corpo feminino e fez com que Cassidy perdesse o fôlego ao iniciar carinhos muito atrevidos... Sentir o toque daqueles dedos provocou-lhe prazer e medo. Tensa, sem saber o que fazer, ela se deixou levar pelo instinto. Só então percebeu que Paul não estava mais dormindo. Virou-a para si, escorregou as mãos pelo corpo bem feito e beijou-a na testa. — Bom dia! Como se sente? — Melhor, impossível. — Preciso me certificar disso. — E, maroto, acariciou todo o corpo de Cassidy. — Você acorda linda! — Digo o mesmo... — Dessa vez vou acreditar. — Paul ergueu-se um pouco da cama e, apoiado nos cotovelos, fitou-a, embevecido. Nada, senão os lençóis, cobria a nudez de seus corpos. Por isso, quando Paul a puxou, Cassidy sentiu-o por completo. A boca de Paul procurava, sedenta, pela dela, e num frémito os lábios se juntaram. Cass queimava de desejo. Nada parecia saciá-la. Ao arquear as costas, os seios exuberantes uniram-se ao peito de Paul, num apelo mudo. A sensação que a dominava era de urgência. Urgência de tocar e ser tocada por Paul, juntar seu corpo ao dele, buscando um contato cada vez maior, mais intenso. Cassy queria mais e mais, e tinha a impressão de que nunca alcançaria o que buscava. Por um segundo hesitou, mas só por uma fração de segundo, ao notar seu corpo ardendo pelo que estava por vir. Os lábios de Paul deslizaram, suaves, até a orelha feminina, mordiscando-a. As carícias continuaram pelo pescoço e desceram pelo colo, arrancando arrepios de prazer. Fechando os olhos, Cassidy submergiu na onda de desejo que a envolvia. Por isso, ao abrir as pálpebras e olhar o despertador, só conseguiu dizer: — Céus!!! — Eu diria que é o paraíso... — Paul! — Hum? — São quase nove horas da manhã! — O quê? — Eu falei que... Desperto dos devaneios, Paul parecia ter saído de uma ducha fria. — Nove? Droga! Eu tinha de estar no escritório às oito e meia. — Minha loja abre às dez. Ou abria... Ela riu, e o fez rir junto. Linda e desejável, como nenhuma outra mulher jamais seria. — Adoro quando você ri. Quero desesperadamente fazer amor com você. — Eu sei, mas... — Acho melhor avisar a fábrica que vou demorar. E me faça um favor, não levante até que eu tenha saído. — Beijando-lhe a testa, ele s~e levantou enrolado no cobertor. — Por quê? — Para que eu possa me lembrar de você o dia todo, deitada entre lençóis. E, sinceramente, não sei se resistiria a sua pele macia... Cass tremeu da cabeça aos pés. Encolheu-se mais debaixo dos lençóis.
  • 27.
    — Tudo bem. Elea beijou na boca longamente e depois, com os sapatos nas mãos, saiu do quarto. Minutos depois, Cass ouviu a porta da rua bater, e um enorme vazio a tomou de assalto. Pela primeira vez passara uma noite ao lado de um homem. E por ironia, ainda que ele fosse o homem de sua vida, continuava virgem. Suspirou, sem saber se de alívio ou desapontamento. Ou ambos. Cassidy não teria aceito o convite do pai, para almoçar, se soubesse que William também iria. Havia dias que procurava evitar-lhe a companhia. O semblante carregado do irmão evidenciava qual a opinião dele a seu respeito. Não que fizesse alguma diferença para Cass, mas preferia evitar aborrecimentos para ambos. O pai morava num apartamento dúplex, que, para desespero de William, estava em péssimo estado. Che- gando lá, Cassidy logo adivinhou que fora dele a ideia daquela reunião familiar. Mal cumprimentara o pai, pôde ver, da janela da sala, o belo carro de William estacionando. Pegou a bolsa e, irritada, dirigiu-se ao velho Penno: — Então é isso, hein? Saiba que estou indo embora. AlvinPennoolhou-ae,comseujeitoúnico,argumentou: — Deixe disso, filha. — E, virando os hambúrgueres na chapa do fogão, disse: — Reconheço que William é um pouco rígido, mas é seu irmão e só quer seu bem. Cassidy balançou a cabeça com veemência. — Sinceramente, não dou a mínima para o que ele tem a me dizer. — Querida, Will está firmemente decidido. Além disso, como vai manobrar o seu carro com o dele parado atrás? A porta da cozinha se abriu, e William entrou, com o ar arrogante de sempre. — Bem — dirigiu-se para Cassidy —, finalmente estamos frente a frente. E você vai ter que me ouvir. — Engano seu. Você não tem nada a ver com minha vida. A guerra estava declarada. William despejou sobre Cassy toda sorte de argumentos contra Paul e, para culminar, responsabilizou-a caso fosse demitido da Barclay. Cass não estava disposta a ceder. Se sua relação com Paul o incomodava tanto, certamente o motivo nada tinha a ver com amor fraterno. A hostilidade com que Will a vinha tratando desde o início assumiu contornos violentos. — Ele é praticamente noivo! — Praticamente. Você mesmo está dizendo. — Todos sabem que Paul tem de se casar com Bettina. — E daí? Enquanto isso, posso ser amiga dele. — Amiga não é o termo exato. Chego a pensar que Paul a ama! Entre tanta coisa desagradável, finalmente uma frase enchia Cass de alegria. — Mesmo que seja verdade, nada impede que eles se casem. — Exatamente. — Então qual é a sua aflição? Evidente que não tem nada a ver com a minha tristeza. — Melancólica e amarga, ironizou: — Relaxe, irmãòzinho. Seu plano vai dar certo. Paul e Bettina ficarão juntos. — Viu que a palidez tomou conta do rosto de William. Era como se ele tivesse visto um fantasma. A expressão aterrorizada despertou em Cassidy uma suspeita terrível: — Céus! Você está atolado nisso até o pescoço, não está? Você e Bettina... juntos!!! A culpa de William estava expressa nas mãos que se contorciam, no canto da boca trémula, nos olhos. Tudo nele o denunciava. Vacilante, mal conseguiu dizer: — Não... não sei do que está falando... Tudo o que fiz foi... para o bem de todos. Cassidy ficou imóvel, estarrecida, como se não o conhecesse. A figura patética à sua frente não podia ser seu irmão, mas era. Apavorado, covarde, à espera da catástrofe iminente, William sempre vivera assim, acuado pela própria existência. Já não era raiva, mas um profundo pesar que a dominava. Soou estranho ouvir a própria voz, muito mais fria que o habitual, dizer: — Se o que o preocupa é perder o emprego por minha causa, sossegue, não importa quanto esteja metido nas armações de Bettina. William Penno, que havia poucos minutos rugia feito um leão, ameaçador e prepotente, agora decaíra. Tornara-se servil e medroso. Seus olhos azuis pareciam de vidro, opacos e vazios.
  • 28.
    — Eu nãopretendia fazer isso! Ela confiou em mim, disse que tinha de casar com Paul. Não perguntei por quê. Não imaginei o que poderia acontecer. "Pobre William", pensou Cassidy, desalentada. — Daí você disse a Bettina como conseguir o controle da empresa, e deu-lhe Paul de bandeja. — Mais que uma pergunta, era uma afirmação. William confirmou essa suspeita: — Sim. — E suponho que a ideia da peça, do baile também tenha sido sua... — Não! Foi dela, juro. Eu avisei que era arriscado, mas Bettina não me ouviu. Nunca me ouve, nem a ninguém. Cassidy já escutara o bastante. Estava enojada e triste, muito triste. As lágrimas nublaram sua visão quando percebeu que só Paul seria capaz de consolá-la. Mas Paul não se encontrava ali. E em breve não estaria mais disponível. Enxugando o rosto, empertigou-se ao declarar, solene: — Ele vai se casar com Bettina porque não há nada a fazer. — E em tom de desafio concluiu: — O que não quer dizer que eu vá deixar de vê-lo. William sacudiu a cabeça, acatando as palavras da irmã. Sua aparência era deplorável. — Não preciso dizer que, se algo der errado, Bettina cuidará pessoalmente para que eu seja demitido. — Isso não vai acontecer. Não deixarei. Era o que faltava para que William se ofendesse ainda mais: estar nas mãos da irmãzinha. Logo ela, sempre tão insignificante e sem brilho... — Tem certeza de que pode fazer algo a respeito? — Sim, tenho. Um silêncio incómodo instalou-se entre eles. Até que, por fim, William o quebrou: — Obrigado. — Por nada. Agora, por favor, vamos encerrar esse assunto de uma vez por todas. William assentiu, quieto. — Otimo. Será que podemos almoçar? Estou faminta. Alvin surgiu do nada, com um sorriso conciliador e uma interrogação no olhar. Desistira de entender os filhos, e não esperava ser entendido. Por isso se limitava a amá-los, como naquele instante. — Quem falou em fome? — indagou. Cassidy se esquecera completamente de que estava na casa do pai. E, olhando para o colete de couro, a tatuagem e o rabo-de-cavalo, percebeu que nada nele lembrava o pai da sua infância. Alvin Penno não era mais o chefe da família, e ela não era mais uma menina. Sentiu o peso da maturidade sobre seus ombros e se lembrou de que sempre fora assim... Alvin, sua mãe, William, todos perdidos num mundo paralelo ao real. Era ela que os ligava à realidade. Até o divórcio tardio de seus pais acabara recaindo sobre seus ombros. Jane se tornara mística, Alvin brincava de ser motoqueiro. Restara a ela assumir o lado responsável da família. William se colocara na posição comoda do filho revoltado. E os três nunca haviam se lembrado de que Cass também tinha necessidades. Esses e outros pensamentos ocuparam sua mente durante a refeição. Enquanto pai e filho trocavam frases sem muito interesse, Cassy comia em silêncio. William não demorou para ir embora. Ao ficar a sós com o pai, no fundo de seus olhos reconheceu um pouco a figura paterna da infância. — Vamos, conte o que está havendo — pediu ele. Cassidy foi direto ao ponto, sem rodeios. — Estou apaixonada por um homem comprometido, e por acaso ele é o patrão de William. Alvin não se mostrou chocado ou surpreso, e Cass ficou grata por isso. Apenas perguntou: — A jovem está grávida? Cass riu, divertida com o raciocínio antiquado do pai. — Não. É bem pior que isso. Digamos que envolve negócios, família e testamento. — E esse rapaz está apaixonado por você? — Está. Pelo menos agora, está. — Agora é o que importa, meu bem. É só o que importa. Por que não me conta essa história desde o início? — sugeriu Alvin com extrema delicadeza. Ele estava certo. Para que pensar no amanhã se há o presente para ser vivido?
  • 29.
    — Está bem. Casstomou fôlego e começou a narrativa. Mais do que curiosidade, Alvin queria dar à filha a chance de desabafar. Ouviu-a em silêncio e, no final, limitou-se a dizer: — Filha, estou orgulhoso de você. Poucos seres humanos têm a felicidade de se entregar ao amor, e pouquíssimos têm a coragem de fazê-lo em uma situação dessa. Viver o momento presente com intensidade é uma dádiva imensa. Mesmo que venha a sofrer por isso, saiba que valerá a pena. A lembrança desse amor vai estar com você até o fim dos seus dias, e isso é o que faz a vida ter sentido. Esse era o apoio que Cassidy buscava. Paul era único, e ela não deixaria que o moralismo e as convenções interferissem. Agradeceu pelo almoço e despediu-se do pai, abraçando-o. Ainda estava no corredor quando as lamúrias de Alvin lhe chegaram aos ouvidos: — Ou muito me engano ou essa menina vai envelhecer virgem! Embaraço e humilhação tingiram de vermelho as faces de Cassidy, que naquele instante decidiu que chegara a hora de desmentir a previsão do pai. CAPÍTULO VII Paul sorriu para Cassidy, exatamente como mandava o roteiro. Em seguida, passou o braço por seus ombros, como fizera inúmeras vezes nos ensaios. A diferença foi que, dessa vez, Cass, em vez de permanecer parada, correspondeu ao abraço, enlaçando-o pela cintura e apertando-lhe com força a mão. Seu olhar o envolvia, cheio de promessas sedutoras. E isso tudo certamente não estava previsto no roteiro. O coração de Paul disparou. Ele precisou de toda a sua força de vontade para não beijá-la ali mesmo, em frente aos holofotes. No exato instante em que as luzes se apagaram, Paul tomou-a pela mão, arrastando-a para os bastidores. Para seu espanto, assim que ficaram sozinhos Cassidy puxou-o pela cintura, colando o corpo no dele. — Que saudade! — sussurrou. — Você sabia que nunca dormi tão bem como naquela noite... Como se uma corrente elétrica tivesse passado por seu corpo, Paul sentiu um sabor agridoce só de lembrar da noite ao lado de Cassy. Um arrepio de desejo e prazer o percorreu. Desde então não haviam tido outro momento de intimidade. Obviamente não a culpava por ser pura, mas vivia se torturando com a ideia de que outro homem ganharia o privilégio de tê-la pela primeira vez, enquanto ele estava proibido de tocá-la intimamente. Afinal, não tinha o direito de tirar-lhe a virgindade por um momento de prazer... Tomou-a nos braços e beijou-a como sempre desejara, longa e profundamente, com desejo puro e sem disfarce. Notou uma certa agressividade no comportamento de Cassy, nos braços que enlaçavam seu pescoço, na boca que se abria sem reservas, na língua que buscava a sua. Entre surpreso e deliciado, sentia o corpo dela contra o seu, enlouquecendo-o. Então Cass levou uma das mãos ao peito masculino e com movimentos rápidos, ritmados, começou a acariciá-lo, produzindo um efeito estranho e poderoso sobre ele. Excitado como nunca, Paul se surpreendeu com as sensações fantásticas e alucinantes. Nenhuma mulher despertara-lhe algo parecido. Sentia-se arrastado pela força daquele turbilhão chamado Cassidy. Incapaz de se controlar, perdeu a noção de tudo e só quando a sentiu ofegante percebeu que lhe acariciava os seios com volúpia. Estavam perto de cometer uma loucura. Paul não conseguia pensar e logo seus dedos abririam os botões e zíperes que ainda o detinham. Ele a queria nua. Precisava sentir a maciez e o calor escondidos sob a malha de tricô. Explorava o contorno dos seios, ávido por despi-los. Extasiado, tocava de leve os mamilos rígidos, que nem o suéter disfarçava. Então, com a outra mão, puxou a blusa de Cass para fora da calça. Isso a fez recuar. Trémula e ofegante, afastou-o, segurando-lhe os braços. Controlando o impulso de agarrá-la, Paul apenas esperou, desejando, sonhando, sem saber direito o que estava acontecendo. Subitamente, Cassy respirou fundo e, puxando-o pela camisa, disse: — Vá para minha casa esta noite. Tomando as mãos dela nas suas, Paul suplicou:
  • 30.
    — Eu nãopoderia... — Por favor. Eu preciso disso. Sei que não teremos muito tempo juntos, e quero, tanto quanto você, aproveitar cada segundo. Estou pedindo... Tomando-a nos braços, Paul apertou-a contra o peito, saboreando o momento. Enternecido com a magnitude da decisão de Cassidy, concordou. — Se é o que realmente quer... — Estou certa que é. Paul fechou os olhos, na tentativa de prolongar a sensação de felicidade. — Cass, eu a quero tanto, tanto... — Então espere meia hora e vá a meu encontro — sussurrou ela. Dito isso, caminhou para a saída. Num rompante, porém, deu meia-volta e atirou-se nos braços de Paul. Beijou sua boca com sofreguidão, e disse: — Eu o amo! — Cass... Tarde demais. O som dos passos dela já ecoava na escada. Sozinho com seus pensamentos, Paul não sabia se ria ou se chorava. Ou as duas coisas. Só tinha uma certeza: os trinta minutos seguintes seriam os mais longos de sua vida. Mas depois teria Cassidy, e por isso valia a pena esperar. Aquela meia hora foi terrível. Ele parecia um zumbi. Não tinha a menor ideia de como ou com quem conversara. Tenso, pensava milhares de coisas. Tinha tantos receios que resolveu não pensar mais. Saiu da fábrica e parou num bar próximo à casa de Cass, onde três cafés e uma fatia de torta ajudaram-no a suportar a espera. A agitação foi passando à medida que se aproximava a hora marcada. Que estranho! Logo ele, um homem vivido, experiente até demais... Seu avô tivera motivos para se preocupar com sua vida amorosa. Ou sexual, pois até então todas as suas relações tinham sido basicamente isso: muitas mulheres, muitas noites de prazer, e nenhum tipo de envolvimento emocional. Então uma jovem adorável, pura e virgem aparecera em seu caminho, e tudo se transformara como num passe de mágica/ tornando-o um novo homem, capaz de compreender a beleza que existe na relação de afeto puro entre homem e mulher, dando ao sexo uma outra dimensão. O que Cass despertara nele, naquela tarde, ia muito além do que sentira ou imaginara até então. Calmamente, foi ao encontro dela. Não havia homem mais feliz que ele. Ao chegar, tocou a campainha algumas vezes e ouviu a voz macia pedindo-lhe que entrasse. Quando girou a maçaneta, um mundo encantado surgiu diante de seus olhos. O aposento cheirava a jasmim, e todos os abajures estavam cobertos com lenços de seda. Velas aromáticas completavam a iluminação, e almofadas espalhadas davam, junto à música suave, o clima perfeito. Como um anjo, Cassidy surgiu, ajudando-o a tirar o paletó. Depois de guardá-lo, ela mostrou por completo a aparência estonteante, efeito das roupas que a vestiam, ou melhor, desvestiam. A calça de veludo e o suéter tinham sido trocados por um traje incomum, de dançarina. Um corpete de cetim preto acentuava as curvas, fechado na frente por ganchinhos prateados. Colado ao corpo, marcava a cintura delgada e, no busto, realçava-lhe os seios, exuberantes e semidespidos. Sempre ocultos pela roupa, os seios de Cassidy eram magníficos, fartos e firmes, convidando ao desejo. Abaixo do quadril o corpete terminava em uma pequena faixa de tecido vaporoso, bordado, que cobria apenas o início da coxa. As pernas de Cass estavam cobertas por meias pretas finíssimas, presas por ligas rendadas. Os sapatos de verniz tinham saltos altos. Os cabelos louros foram presos no alto da cabeça, e a maquiagem leve conseguia deixá-la ainda mais deslumbrante. Paul mal podia acreditar que aquela mulher estonteante seria dele, só e inteiramente dele. Extasiado, nem ousava se aproximar, temendo quebrar o encanto. Mas Cassy chegou perto, iluminada de felicidade. Acariciou-lhe o corpo e, tomando-lhe a ponta dos dedos, beijou-os um por um. Paul envolveu-a pela cintura e deixou que ela lhe desabotoasse a camisa, para depois pegá-la nos braços. A voz suave e rouca sugeriu: — Vamos para o quarto? Ansioso, ele a carregou até lá. Velas iluminavam a cama coberta de lençóis de cetim. Paul a colocou ali com delicadeza, ajoelhando-se a seus pés. Vagarosamente, tirou-lhe os sapatos. Cass se recostou e levantou a perna, para que ele a despisse. Reverentemente, os dedos masculinos obedeceram-na, deslizando da liga até a ponta dos pés, descobrindo o calor e a brancura daquela pele ardente. Na altura dos joelhos, os lábios de Paul acompanharam o trajeto dos dedos. Num frenesi de desejo, beijou cada
  • 31.
    milímetro das pernaslongas e bem-torneadas. Levantou-se e, segurando Cassy, cobriu de beijos as espáduas nuas, provando o gosto da tez suave. Nas mãos sentia o contorno das curvas, através do corpete. Pelo tato percebia cada detalhe, e, quando sentiu sob os dedos a fileira de ganchinhos que prendia a roupa, fitou-os. Cassidy estava deslumbrante dentro daquele mimo de seda e cetim. De perto via-se a perfeição dos detalhes. E, para prolongar o arrebatamento, Paul se permitiu admirar, enlevado, cada encanto que Cassy produzira para aquela noite. Ela percebeu e, lisonjeada e mais segura, teve a certeza de que não se arrependeria jamais do que iria fazer. Sentindo-se mulher, desejada e amada, extravasou o que estava reprimido, e pôde viver realmente o sabor daquela fantasia. Com Paul. Para Paul. Sem medo. Os olhos dele queriam guardar tudo na memória. Os cabelos louros presos em um coque frouxo, o pescoço à mostra, o colo nu, o espartilho colado à pele, preso ao saiote de renda, curtíssimo na frente, mas longo e farto nas costas. Erotismo e lascívia exalavam de Cassidy de tal forma que Paul não se conteve mais. Como esmeraldas, os olhos dela instigavam a procura dos tesouros ali ocultos. Um a um, sob os dedos trémulos de Paul, os colchetes cederam. O saiote de seda caiu a seus pés. Cada nesga de nudez, por menor que fosse, mostrava um pouco da perfeição das formas de Cassidy e o in - citava a querer mais. Os três últimos ganchos cederam e, diante dele, coberta apenas pela seda da calcinha, Cassidy o desafiava, divina, enlouquecendo sua mente e fazendo disparar seu coração. Sofregamente, ele tocou e acariciou cada contorno e saliência daquele corpo, com a respiração suspensa. Quando os seios de Cassidy encheram suas mãos, Paul fechou os olhos, inebriado com o tamanho, a textura e o calor. — O paraíso! — suspirou, e olhando para Cassy: — Nada se compara à sua beleza. Você é a mais... Mas como transmitir em palavras o que achava? Ela era a perfeição. A mulher mais completa e fascinante, uma amante única e enlouquecedora, ao mesmo tempo intocada e pura. Inocente de corpo e alma. Cass, mais que nenhuma outra, merecia um homem e uma vida maravilhosa. Coisas que ele não podia oferecer. Devia a Cassidy fidelidade e respeito, mas estava agindo às escusas, clandestinamente. Graças à própria estupidez e ao comportamento obsessivo de Bettina, ele, Paul Barclay, perdera a oportunidade de ser o homem da vida de Cassidy Penno. E, mais que isso, perdera a chance de ser feliz um dia. Porém, antes ser infeliz e sofrer do que ser desonesto e vil. Ao menos saberia que não carregara Cassidy ao lamaçal de desditas que o aguardava. Ensopado pelas lágrimas que, sem aviso, escorriam por seu rosto, ele notou que nem fizera a barba ou se perfumara para encontrá-la. Absorto em contar cada minuto que o separava do que iria receber, nem cogitara em oferecer algo em retribuição. Tinha certeza de que a amava, e como! Amava de tal maneira que seria capaz de renunciar a ela. Até porque isso seria o maior sacrifício que alguém poderia lhe pedir. — Cassidy, sinto muitíssimo, mas não posso fazer isso. Estaria arruinando sua vida agindo assim, e nunca conseguiria viver com esse peso sobre meus ombros. — Por favor, fique... Ele balançou a cabeça, indicando que não havia opção. Tentado ao máximo, Paul não podia ceder ao desejo egoísta de tê-la. Seu amor o forçou a superar o desejo, preservando-a de si mesmo. Ao sair da casa de Cass, ele superava a si mesmo, e, pela primeira vez, abria mão do próprio prazer em proveito de ou-trem. Confrangido, olhou-a pela última vez. — Adeus, Cassidy. E obrigado. Tinha certeza de que fazia a coisa certa. Mesmo assim correu para o carro, antes que mudasse de ideia. Paul não dormiu aquela noite. A cama parecia feita de espinhos e não foram necessários nem dez minutos para que ele se convencesse da inutilidade de suas tentativas em conciliar o sono. Sentado no escritório, varou a noite sem fechar os olhos. Ao amanhecer, saiu da poltrona e tomou um banho frio para poder enfrentar o trabalho. Não conseguiu engolir o café da manhã. A angústia o impedia de dormir, comer, até de pensar com clareza.
  • 32.
    Foi com esseestado de espírito que entrou na fábrica naquela manhã. E Bettina não poderia escolher dia menos indicado para tentar pressioná-lo. Uma vez que ela não admitia ser contrariada, ignorou os avisos da secretária e, sem se fazer anunciar, invadiu a sala de Paul. Insolente, de nariz empinado, instalou-se sem cerimónia sobre a escrivaninha. Pernas esculturais à mostra, ela era a própria imagem da mulher artificial. Olhando-a dos pés à cabeça, Paul notou que tudo parecia milimetricamente produzido. Os olhos maquiados de forma magistral causavam impacto. Sobre a pele bem cuidada havia um tailleur rosa-pálido e nada mais. O tecido encorpado deixava entrever os seios, já que ela estava sem blusa sob o paletó. A saia curta mal lhe cobria as coxas nuas, acentuadas pelos saltos altíssimos, da mesma cor da roupa. O único adorno eram as pérolas em volta do pescoço e nas orelhas, imensas e valiosas. Muito valiosas. Como tudo em Bettina Lincoln. Gélida estátua sem vida, pensou Paul. De que servia tanta beleza se dentro dela não havia um coração? Uma bruxa não seria tão repugnante quanto o demónio louro à sua frente. Bettina cruzou as pernas, sedutora. Aquilo deixou-o doente, com mais raiva do que jamais sentira antes. — Desapareça da minha frente. Já!!! — vociferou, afastando-se. Foi uma atitude inesperada, que chocou Bettina. Por um momento Paul desejou que ela se rebelasse e pusesse um fim àquela história, mas se lembrou de que tinha responsabilidades para com a família. Mesmo que eles não merecessem. — Vai sair ou terei que chamar o segurança? Debaixo da maquiagem, a expressão de Bettina mudara. De pé, ela esperou que Paul parasse de gritar e disse: — Conversei com William. Paul gelou ao imaginar o tipo de conversa que poderiam haver tido. Temia por Cassidy, no caso de Bettina ficar sabendo do que houvera entre eles. Surpreso, viu-a baixar os olhos em sinal de submissão. — Estive pensando, e resolvi que estava enganada quanto à peça. Will me convenceu. Afinal, o papel foi feito para mim. Seria tolice não interpretá-lo. Então era isso! William tinha sido mais maquiavé-lico do que Paul poderia supor. Conseguira convencer Bettina de que ela estava perdendo o jogo, e assim a fizera voltar atrás. Ao mesmo tempo, afastava-o de Cassidy e ganhava pontos com Bettina. Aquilo o enojava de tal maneira que sua vontade era jogar tudo para o alto. Mas, por pior que fossem, os membros de sua família dependiam inteiramente dele, e não era justo sacrificá-los. Se os parentes eram egoístas, Paul não era. Subitamente, ele sentiu-se terrivelmente cansado. Pegou o paletó e, olhando para Bettina, respondeu: — Acho que deve falar com William a respeito. Afinal, ele parece se importar. Eu, não. Até logo. Ela não se moveu. — Você está estranho. Algo que eu possa fazer? Paul deu dois passos em direção à porta, então se virou e disse: — Sim, há. Fique longe de mim, bem longe. Quero esquecer que você existe. — Mas e os ensaios? — perguntou ela com voz estridente. — Fale com William. Ele dará um jeito — Paul respondeu, irónico. Não foi preciso falar mais nada. Bettina se recompôs e, antes que ele a deixasse só, retirou-se da sala. Paul estava arrasado, mas não permitiria que William se encarregasse de dar a Cassidy as más notícias. Ao mesmo tempo, não tinha forças para falar pessoalmente com ela. Não depois da noite anterior. Ligou para a loja. Cass atendeu ao telefone, fingindo despreocupação, e ele foi direto ao assunto. Em poucas palavras disse que Bettina faria o papel de sua bisavó na peça. O silêncio que se seguiu do outro lado da linha revelava a decepção. Mas, assim que recuperou a voz, Cassidy disse pausadamente que essa era a melhor solução para todos. No íntimo, Paul esperava que houvesse menos compreensão, que ela se mostrasse indignada ou triste, mas não resignada daquela maneira. Era absurdo da parte dele, mas mesmo assim... Pensando no bem-estar de Cassidy, murmurou: — Eu sinto muito. — E desligou.
  • 33.
    Depois disso, mergulhouno trabalho. Horas e horas olhando relatórios sem compreender nada, fazendo e refazendo contas até se convencer de que estavam erradas. No começo da noite, resolveu continuar no escritório e faltar ao ensaio. Ligaria para William e diria para que ele se incumbisse também dessa parte da sua vida, já que o assessor se mostrara tão interessado em resolver todas as outras. Mas não o fez. Sentado em sua mesa, esperou até estar certo de que não havia mais ninguém no prédio. Então saiu em direção à fábrica. Lá chegando, logo avistou o carro de Cassidy, parado no lugar de sempre. Estava ali para vê-la, mesmo que a distância. Não precisou esperar muito para avistar seu sorriso encantador. Magoada ou não, o importante, para Paul, era saber que ela estava ali, viva, diante de seus olhos. Saindo do carro, Paul caminhou em direção ao grupo, mas seus olhos continuaram fixos em Cassy. Os cabelos presos, como na noite anterior, deixavam o longo pescoço à mostra. Vestida com um suéter ver-de-escuro e uma saia longa de lã xadrez, verde e preta, ela usava um largo cinto e botas de couro preto. A silhueta delicada se destacava, como se fosse uma ninfa entre simples mortais. Entre eles também estava Bettina. Loura platinada, exibia as formas esguias dentro de um costume vermelho, de calça e jaqueta, cujo zíper aberto na altura dos seios deixava-os quase à mostra. Irritante vulgaridade para o gosto de Paul. Cassidy chamou a atenção do grupo para anunciar as mudanças. Com a desculpa de que tinha outras tarefas, explicou que caberiam a William e a Bettina suas antigas atribuições e os papéis de protagonistas. Mal saíra do lugar e Tony se adiantou, pedindo esclarecimentos. Com alguma insolência inquiriu William: — Você não sabe nada sobre teatro. Por que deveríamos lhe dar ouvidos? William não gostou de ver sua autoridade questionada, ainda mais por Tony. — Não estamos falando de Shakespeare. De mais a mais, ajudei a escrever esse roteiro. E, se Cassidy me acha capaz de levar adiante o trabalho, não vejo razão para você questionar minha capacidade. — Pois é isso que me incomoda. Não estou convencido de que Cassidy tenha tomado essa decisão — insistiu Tony. — Conheço-a bem para dizer isso. Para não tocar no repentino interesse da srta. Lincoln pelo papel... — Acho que a culpa é toda minha — interveio Bettina com voz macia. Como se estivesse diante da realeza, William saiu em defesa dela. — Nada mais natural. Afinal, esse papel foi escrito para ela. E não quero ouvir mais uma palavra sobre isso. Paul se aproximou e juntou-se a Tony, balançando a cabeça em sinal de desaprovação. Um burburinho de insatisfação se fez ouvir. William fitou o chefe e estremeceu ao notar o semblante duro, como esculpido em rocha. Temeroso, interpretou erroneamente o que viu e partiu para a defesa, dizendo: — Minha irmã é temperamental como todo artista. Daqui a um dia ou dois ela estará bem. — E, dirigindo-se a Paul: — Sei que lhe devo desculpas. Percebi que minha irmã o importunou com suas fantasias e... — Importunou a mim? — Paul repetiu, incrédulo. — Eu sei, eu sei — continuou William, sem perceber o erro. — Devia ter falado com você direito, mas quase cheguei a crer que fosse outra coisa, imagine só! Mas, depois do que ouvi nos bastidores, tive de tomar uma atitude drástica, sabe... — Você ouviu? Você estava escutando? — Foi doloroso, para mim, vê-la. E talvez eu não devesse ter ido conversar com Bettina, mas entenda, não havia tempo para mais nada. E, convenhamos, será uma boa lição para que minha irmã não mais se envolva com homens comprometidos. O ódio cegou Paul. Um ódio tão intenso que ele sentia-se capaz de matar. E, antes que alguém pudesse evitar, agarrou William pela garganta, jogou-o ao chão, e ignorando-lhe os gestos desesperados, vociferou: — Seu estúpido, nojento insensível! Nunca mais fale nada de sua irmã ou eu o matarei, ouviu bem? Se eu não a amasse tanto, teria prazer em fazer isso já! Levantou-se e deixou William respirar. Que tudo se danasse, inclusive Bettina. Aliás, especialmente Bettina. Levá-la-ia ao altar se ela insistisse, mas só. Dali em diante a farsa estaria
  • 34.
    encerrada. Se erao casamento que ela queria, ótimo. Seria satisfeita a sua vontade. Teriam a vida inteira para usufruir daquele inferno. CAPITULO VIII O humor de Paul não melhorou depois daquela noite desastrosa. Ele decidiu que os ensaios estariam limitados a uma vez por semana. Não era preciso mais que isso. Eram poucas as falas, e Bettina podia perfeitamente ensaiar com William. Depois, o grande trabalho fora feito por Cassidy, ela sim responsável pelo texto leve, os cenários, o figurino e a iluminação que, somados, conseguiam encobrir o desempenho sofrível dos atores. Graças ao esforço sobre-humano de Cass, Bettina estaria vivendo seu momento de glória sob a luz dos refletores, apesar da falta de talento para o palco. Os dias passavam para Paul com enorme sacrifício, mas o trabalho o ajudava a suportá-los. As noites, porém, eram longas agonias. O aniversário de sessenta e três anos de seu tio John não lhe trouxe alegria. Jamais teria se lembrado, não fosse seu tio Cari, padrasto de Bettina e irmão do aniversariante, que ligou para lembrar-lhe de que cedera sua casa para a comemoração. Relutante, Paul tomou as devidas providências, ou seja, ligou para sua governanta. Era absurdo que até as festas de aniversário tivessem de ser organizadas por ele. Com o bolo confeitado nas mãos, saiu da fábrica, comprou uma caixa de champanhe e, cansado, chegou em casa a tempo de tomar banho antes que os convidados chegassem. Ao descer a escada, vendo a mesa do salão arrumada com flores e velas, pensou que talvez não fosse tão ruim passar uma noite entre a família, apesar de Bettina. No bar, serviu-se de uma bebida. Ainda não provara o martíni seco quando sua prima Joyce chegou, ao lado do marido, ambos irradiando felicidade. Recusando o drinque que lhe fora oferecido, ela contou que estava esperando um bebe. Tio Cari e tia Jewel foram os seguintes, desculpando-se pela ausência de Bettina e dando, dessa forma, um motivo para Paul celebrar. Quando resolveu abrir o champanhe, mesmo antes de o aniversariante chegar, ninguém pareceu se dar conta de que os efeitos do álcool já se faziam notar no comportamento de Paul. Ou pelo menos ninguém disse nada. Um pouco mais tarde, a mãe de Joyce, Mary Spencer, chegou e disse: — Vou ser avó, quem diria! Jewel olhou para Paul e sugeriu: — Quem sabe, no ano que vem a avó possa ser eu... Ele sorriu com sarcasmo e disse, em voz alta: — Isso se Bettina fosse capaz de sacrificar sua bela silhueta por uma criança! Não, tia Jewel, encare os fatos. A senhora nunca será avó, nem eu serei pai. Ambos somos vítimas da obsessão cega de Bettina. Seremos sacrificados, sem piedade. O silêncio aterrador que se abateu sobre a mesa pareceu não ter sido notado por ele, que encheu outra vez o copo com champanhe, alheio ao mal-estar reinante. John, o aniversariante, tentou mudar de assunto: — E os negócios? Como vão? Num gesto de desalento, Paul levantou a mão, dizendo: —Estarão melhores depois do ano-novo. E difícil trabalhar com alguém sempre atrapalhando. Os olhares trocados entre os presentes davam a entender que estavam todos cientes de quem se tratava. Porém apenas Cari disse algo, enquanto sua esposa baixava o olhar para o prato: — Tenho certeza de que tudo irá melhorar depois que você e Bettina se casarem. Ela não terá tempo para pensar em negócios, estando a seu lado. O amor transforma as mulheres. O ruído do copo de Paul se estilhaçando contra a mesa precedeu o que viria a seguir. — Amor? Vocês estão brincando comigo ou enlouqueceram? A ideia de Bettina amando alguém era hilariante, e Paul gargalhou. Só depois, quando olhou para a pobre tia Jewel, percebeu que nem ela sabia a serpente que criara em seu seio. E nada havia para rir naquela situação. Virando num único gole o conteúdo de outro copo, Paul sentiu um zumbido no ouvido e, suando frio, quase perdeu os sentidos. No instante em que conseguiu enxergar com clareza novamente, deparou com o olhar estarrecido de
  • 35.
    seus tios. Jewelapoiava as mãos sobre a mesa, tentando achar as palavras certas. — Paul, está dizendo... está falando sério quanto ao sentimento? Quer dizer que vocês não se amam? Fechando .os olhos, ele sentiu a cabeça pesar. Não estava com disposição para aquela conversa. Passando a mão na testa, apenas disse: — Tia, a senhora não pode realmente achar que Bettina e eu estamos apaixonados... — Mas no ano passado... — Nós tivemos um caso? Realmente, e ela torceu tudo de tal forma que acabei sendo forçado a esse casamento. Mas não se preocupem, vou me casar. Pelo bem dos negócios, pelo bem de todos os presentes, irei para o sacrifício. Dito isso, Paul subiu a escada e recolheu-se em seu quarto, antes que o vexame fosse além do socialmente aceitável. Com a cabeça estourando e um gosto horrível na boca, ele lembrou que não podia beber mais que uma dose. Se houvesse uma maneira de apagar a noite anterior, ele o faria. A reação da família o preocupava, mas nada podia ser feito para remediar a situação. O ruído do interfone nunca pareceu tão estridente e, quando a voz de Gladys soou, ele adivinhou de que se tratava. — A srta. Lincoln está aqui e não pude... — nisso a porta se abriu — ...evitar que ela entrasse. — Culpa minha, devia ter comprado uma arma — respondeu ele, deixando a secretária aturdida. Sob o olhar fuzilante de Bettina, ele calmamente tomou seu sal de frutas. Só depois dignou-se a dar-lhe atenção. Horrorizada com o comportamento grosseiro, Bettina disse: — Que está acontecendo? Você me humilhou diante de toda a família! — Mesmo? Achei que você nem estava lá, que coisa! Rodeando-o, Bettina bufava de raiva. — Como ousa dizer a meus pais que não me ama? Paul não pôde deixar de rir. O que a.irritava não era o fato de não ser amada, mas ouvi-lo dizer isso. Balançando a cabeça, replicou, calmo: — Sinto muitíssimo desapontá-la, mas não estou disposto a brincar de faz-de-conta. Estou velho demais. — Não me tire do sério! Venho sendo muito razoável. Até agora. — Razoável? Quando? Acho que perdi essa parte! — Furioso, Paul bateu com força o punho contra a mesa. — Acho melhor ser mais cortês, primo. Pensa que não sei sobre a srta. Penno? Mencionando o nome de Cassidy, Bettina tocou no ponto frágil de Paul, tirando-o do sério. — Deixe-a fora disso ou vai se arrepender. — É sobre isso que vim falar. Faço um acordo. Você não a vê nunca mais, e em troca assinarei um acordo pré-nupcial do jeito que você achar melhor. — As palavras sibilavam, venenosas. Então esse era o jogo dela! Paul não hesitou: — Eu concordo. — Então não há mais o que falar. — Exultante, Bettina saiu da sala como entrou, sem preâmbulos. E deixou Paul com a sensação que dali em diante todas as suas vitórias seriam assim, tão alegres que davam vontade de chorar. Bettina tinha razão numa coisa: não havia mais nada para ser dito. Sentado no palco, Paul seguia com os olhos os movimentos de Cassidy pelo salão, vendo-a mostrar a Hoot qual seria a disposição das mesas. Graças a ela, Hoot não apenas concordara em ceder todas as mesas e cadeiras, como também aceitara a incumbência de ser o responsável pela comida e pela bebida. Mesmo com a quantia generosa que estava desembolsando, Paul sentia-se radiante. Ter Hoot naquela festa já seria motivo suficiente para trazer até ali um bom número de convidados importantes de fora do estado. Além disso, conseguira que Bettina abrisse mão da orquestra, trocando-a por uma big band capaz de levar para pista de dança até o mais empedernido dos homens. Aqueles músicos custavam uma fortuna, mas valiam cada centavo. A festa seria um sucesso, e graças ao trabalho de Cassidy. Seu coração se iluminava só ao lembrar dela. A seu lado Paul sentia-se como um adolescente apaixonado. Isso Bettina não podia controlar.
  • 36.
    Naquele momento, elasurgiu. Com um casaco de pele e saltos altos, bufava de raiva. Bastou avistar Paul e já desatou a proferir impropérios. — Como ousa? — gritou, atirando sobre ele uma pilha de papéis. — Você parece aborrecida — caçoou ele. — Foi algo que eu fiz? O salão inteiro parou para ver o que estava acontecendo. Hoot e seus assistentes divertiam-se. Mas Cassidy convidou-os a deixar que "o sr. Barclay e a srta. Lincoln" falassem em particular. Porém, Paul não permitiu. — Não vamos interromper o trabalho. E jamais me passou pela cabeça privar a srta. Lincoln de fazer uma cena em público. — Seu... — Meça suas palavras, prima! Tentando recuperar o controle, Bettina tentou transformar sua raiva em comiseração. Com ar choroso, interpelou-o: — Como pôde fazer algo tão hediondo com as ações que vovô me deixou? — O meu avô, você quer dizer — corrigiu Paul. — Eu é que pergunto: como teve coragem de usar as ações para fazer chantagem comigo? — Não vou concordar em lhe dar minhas ações depois do casamento. — Não? Que pena. Então esqueça o acordo. Ou acha que sou tolo a ponto de deixá-la interferir nos rumos da empresa? As mãos de Bettina estavam crispadas. Depois de um segundo de hesitação, ela disse: — Certo. Mas você terá o direito de voto enquanto estivermos casados. Caso haja divórcio, as cotas voltam para mim. Paul sabia que isso acabaria acontecendo, mas não resistiu à tentação de irritar Bettina. Adorava vê-la perder a compostura. Era sua pequena vingança. Para manter a calma, cerrou os dentes e falou: — Tenho outra proposta. Com o casamento, você vende as ações para os outros membros da família, menos a mim. Dessa forma todos ganham, inclusive seus pais. Bettina estreitou os olhos, farejando algo suspeito no ar, mas concordou: — Aceito. Assim terei um pecúlio para a velhice. Paul pulou do palco para o chão, encarando-a com seriedade. — Se é essa a questão, por que não me vende suas ações? Pago o dobro do valor de mercado. — E deixá-lo livre? Nem pensar. Se eu disse que ia me casar com você, eu vou. — Mesmo sabendo que não a amo? Só porque disse a seus amigos que se casaria comigo? Só por orgulho? — Acha que eu deixaria o melhor partido de Dálias me trocar por uma costureirazinha? Segurando-a pela lapela, Paul' avisou: — Mais uma palavra e eu juro que irá se arrepender de ter nascido, Bettina Lincoln. Sou capaz de fazê-la ficar sozinha no altar se souber que você moveu um dedo em direção a Cass. — Jura? — Não pense que pode me dominar. Estou muito propenso a esquecer as tradições familiares e mandar tudo para o ar. Quer apostar? Pois veja só. — E, virando-se para o salão, gritou para todos: — Atenção! Tenho um comunicado a fazer: a srta. Lincoln sente muito, mas não se acha capaz de interpretar o papel de Jane Barclay. — Fez uma pausa para ver a perplexidade estampada em Bettina, e então continuou: — Cass, acho que terá de nos socorrer nisso. Por um momento, Paul temeu que o bom senso de Cassy falasse mais alto e a levasse a recusar, deixando-o sem saída. Mas ela apenas cochichou no ouvido de Hoot, explicando que falariam depois. Exultante, Paul bateu palmas. E nem percebeu quando Bettina se retirou. Apenas ouviu-a dizer: — Vejo você mais tarde, querido. — Não, se eu puder evitar — respondeu ele. Quando deu por si, era Cassidy quem estava a seu lado. Reconheceu nos olhos adoráveis a mesma expres- são que já vira, temerosa por ele. Apertando de leve a mão delicada, Paul tentou tranquilizá-la: — Está tudo bem. Confie em mim. Os olhos verdes o estudaram por um momento. Então Cassidy se virou para os outros e, resoluta, disse:
  • 37.
    — Todos emseus lugares. Esta é a última vez antes do grande dia! Sua estrela brilhava outra vez. Não ia deixar que nada atrapalhasse aquele momento mágico. Muito menos o orgulho de Bettina. Cassidy não sabia o que pensar. Paul estaria em dúvida? Sentiria, tanto quanto ela, a separação forçada? Ao mesmo tempo, queria e não queria que isso fosse verdade. Mesmo que conseguissem ficar juntos por mais algum tempo, isso seria bom? Se ao menos Paul deixasse de lado seus princípios e fizesse amor com ela... Poderiam viver intensamente o pouco tempo que lhes restava. Como sofrera nos dias e nas noites em que estivera longe dele! Sem aquele homem, sua vida ficara vazia, e a sensação de perda era constante. E de repente lá estava ela, ao lado de Paul, como se pertencessem um ao outro. Enquanto representavam o casal Barclay, extravasavam suas próprias emoções, misturando ficção e realidade, pois sentiam-se tão unidos quanto eles. Uma paz imensa tomou conta de Cass. Calma como o mar antes da tempestade, pensou ela. Estava com Paul naquele momento, mas isso não duraria para sempre. E a ideia de perdê-lo novamente era aterradora como a morte. A primeira cena estava quase terminando, e Cassidy representara seu papel quase que automaticamente. Mas, quando Paul tomou-a nos braços para a última fala, seus olhares se encontraram, e ele a beijou apaixonadamente. Aplausos vieram de todos os lados da plateia improvisada. O beijo foi interrompido, mas Paul manteve Cassidy nos braços. — Cass querida, me perdoe. Rindo, ela respondeu: — De quê? Paul não teve tempo de responder. Nesse minuto, as luzes se acenderam, e William surgiu, com a expressão patética de sempre. Trazia na mão um calhamaço de papel. Parecia à beira de um colapso. Porém, não foi dele a voz irada que se fez ouvir, mas a de Tony: — Isso não está no roteiro! — Agora está — respondeu Paul. Cassidy fitou-o com ternura, perdoando-o por essa atitude ditatorial. Como recriminá-lo quando tudo o que ele vinha fazendo era por ela? Para ela? Não, o amor tinha licença para coisas como essas... se for amor de verdade. Sua decisão estava tomada e, mesmo sabendo que isso teria consequências sérias, Paul sentia-se aliviado. Pensara muito, e preferia faltar com a palavra dada e abrir mão de toda uma vida de trabalho. A abrir mão de Cassidy. Não tinha direito de sacrificá-la, fazendo-a passar por humilhações, escondendo-a de todos. Naquela mesma noite anunciaria publicamente sua decisão, e Bettina que se conformasse. Talvez o fato de seu amor por outra mulher ser de domínio público colaborasse para demovê-la da ideia do casamento. Tinha um plano para convencer Bettina a deixá-lo em paz, a contentar-se com seu dinheiro e não com ele. Cassidy tinha que estar a seu lado aquela noite. Seria a noite deles. Não a via havia dois dias. Desde então estivera ocupado, organizando os negócios com alguns dos maiores supermercados do país. Era a hora de a Barclay entrar no mercado nacional, e até aquele momento os contatos tinham sido ótimos. Paul pusera Cari Thomas, marido de Joyce, para participar das reuniões e assim se inteirar dos negócios. Depois de pensar muito, escolhera-o para tomar seu lugar, caso fosse preciso. Eram quase cinco horas, e ele se dirigiu para a fábrica, ansioso por encontrar Cassy. Embora fosse muito cedo, achou melhor se vestir e esperar por ela nos trajes de bisavô. Impecável como patriarca da família, passou o tempo que restava inspecionando os preparativos para a festa. Só Hoot e seus empregados trabalhavam. Brincando com as teclas do piano, Paul viu Bettina chegar. O traje escolhido por ela fazia lembrar uma corista de saloon. Supermaquiada, vestida de rosa- choque, os cabelos presos num coque cheio de plumas e o imenso decote não deixavam dúvida de que era Mae West a inspiradora do traje. Ele a ignorou e vice-versa. Mesmo entretido com o relógio de bolso, Paul viu Cassidy ao pisar no salão de baile, e sua imagem o deixou sem ar. A primeira vista, Cass parecia irreal, saída do passado, com a aura de romantismo do começo do século. O vestido de veludo e seda púrpura, adornado por renda negra, desenhava o colo e a cintura
  • 38.
    delicada, enquanto noquadril se avolumava numa profusão de sedas e laços. Os braços cobertos por luvas rendadas e mangas bufantes deixavam, entretanto, os ombros e o colo descobertos, e o decote generoso debruado por renda negra dava o toque sensual, exibindo e realçando os seios perfeitos e fartos. Paul caminhou pelo salão em direção a ela, e, oferecendo-lhe o braço, como um cavalheiro, conduziu-a para a festa. — Você está deslumbrante! Cassidy estava de braços dados com Paul quando o primeiro convidado chegou, e assim permaneceu durante muito tempo. Um a um, foi apresentada a todos os amigos e conhecidos dele, suscitando comentários e obrigando Bettina a justificar-se. Ignorando os lugares marcados para o jantar, Paul sentou-se ao lado de Cassy, na mesa de Hoot. Sentia-se livre para viver a vida como bem entendesse, ao menos aquela noite. Todos pareciam muito felizes, exceção feita a Bettina, visivelmente irritada. O baile não parou nem um minuto. Mesmo quando o jantar foi servido, alguns pares rodopiavam pelo salão. Paul dançou com Cassy quase todas as músicas. A felicidade estampada em seu rosto não passou despercebida aos tios, que, apreensivos, não sabiam o que pensar. Um pouco antes do início da peça, a banda parou de tocar e algumas luzes foram apagadas. Enquanto os convivas se acomodavam, Paul e Cassy se preparavam nos bastidores. O belo vestido de noite foi substituído por outro, bem simples e de tecido rústico. Paul estava perfeito na caracterização do imigrante, com os suspensórios sobre uma camisa de malha e o lenço amarrado no pescoço. Silêncio total se fez assim que as luzes se apagaram e a voz do narrador começou a contar a saga dos Barclay. Mas, quando os holofotes iluminaram o palco, um murmúrio de admiração foi ouvido na plateia. O cenário reproduzia, com riqueza de detalhes, a cozinha dá bisavó Jane. Em primeiro plano via-se Paul, amassando pão sobre uma mesa tosca. Atrás dele, Cassidy parecia entretida com o fogão. A primeira cena mostrava como Theo e Jane Barclay haviam conseguido tirar da cozinha de sua casa os primeiros pães do que viria a se tornar um império. Contando os centavos, trabalhando dia e noite sem descanso, muitas vezes Theo pensara em desistir, mas Jane estivera sempre a seu lado, até que conseguiram abrir a primeira loja. Em cena, Cassidy e Paul iam dando vida à história, levando os espectadores a se emocionar com a árdua batalha travada pelos antepassados. Quando Theo anunciava a Jane que iam abrir a padaria, ambos se abraçavam e assim terminaria o primeiro ato. Terminaria, mas não terminou. Surpreendendo a todos, inclusive Cassidy, Paul modificou o roteiro e, num gesto arrebatador, beijou-a. Como já fizera no ensaio, mas com muito mais paixão. Perplexa, ela se entregou. Mas, ao explodirem os aplausos, entrou em pânico. Dali em diante ninguém mais duvidaria de que ela e Paul eram muito mais que amigos ou bons atores. Apavorada, desvencilhou-se do abraço e sussurrou: — Você perdeu o juízo? — Ao contrário, eu recuperei o bom senso. — Do que está falando? — Que não vou me casar com Bettina, mesmo que isso me custe a empresa. Mesmo que isso custe o bem-estar da família. Atónita, Cassidy teve que deixar para mais tarde a conversa. A peça tinha de prosseguir. Eles precisavam trocar de roupa e voltar ao palco. William já acenava, pedindo que se apressassem. Paul foi para o camarim em estado de graça com o que fizera. Dali em diante tudo seria mais fácil, mesmo com as dificuldades que teria que enfrentar, Cassidy estaria a seu lado, e isso já fazia a vida valer a pena. CAPITULO IX A peça, dali em diante, transformou-se um martírio para Cassidy, que não conseguia se concentrar. Paul fizera uma loucura sem tamanho ao desafiar Bettina. Só ao pensar no que poderia acontecer com ele, Cass tremia. Alheia ao que se passava à sua volta, ela precisou de um esforço sobre-humano para levar adiante o papel de Jane. Porém, nada disso interferiu no absoluto sucesso de sua atuação, que arrancou aplausos entusiasmados no final. Depois de voltar ao palco duas vezes, ovacionados pela plateia, o elenco se retirou para que Cassidy e Paul fossem aplaudidos. Mas Cass correu para o camarim, fugindo de Paul.
  • 39.
    Demorou-se mais queo necessário. Para ganhar tempo, repetiu o ritual que incluía ducha e toalete completa. E, mais linda que antes, meia hora depois saiu do vestiário. Trabalho inútil, pois, com paciência e um sorriso nos lábios, Paul esperava por ela. Sem jeito, Cassy tentou se esquivar. — Ouça, eu realmente preciso verificar... — Seja o que for, terá de esperar. Deste minuto em diante a noite é nossa. Vamos nos divertir juntos. E pegou-a pela mão para voltar ao palco e receber mais aplausos. Agradecimentos feitos, Paul pulou do palco para a pista, levando Cassidy. Poucos pares dançavam quando ele se aproximou do pianista e cochichou algo. Em instantes os primeiros acordes de uma valsa encheram o salão. Sem escolha, Cassidy se viu no meio da pista, conduzida pelo homem que amava. — Paul, eu não sei valsar! — sussurrou ela. — Não se aflija. Segure a calda do vestido e deixe o resto comigo. — Está bem. Sem saber direito como, Cassidy passou a rodopiar ao compasso da música. Vendo-a assim, ele sorriu, dizendo: — Viu só? Juntos somos capazes de qualquer coisa. Um nó fechou a garganta de Cass ao ouvi-lo dizer aquilo. Sabendo ser impossível que permanecessem juntos, ela segurou as lágrimas para não estragar aquele momento de felicidade. Encostou a cabeça no ombro largo de Paul e deixou-se levar pela emoção de estar com o homem de sua vida. Mesmo que pela última vez. A valsa terminou sem que eles parassem de dançar. Estreitando-a ainda mais, Paul continuava incansável nos volteios pelo salão. Os comentários inevitavelmente surgiram, mas nada parecia capaz de abalar sua alegria. Demorou muito até que ele olhasse para o relógio. — Daqui a meia hora começará um novo ano. — Já é tão tarde? — Não tarde demais para nós dois — disse Paul. — Eu não quero que seja. — Paul, não... Mas a voz de Cassidy foi abafada quando outra ecoou, estridente e irada, pegando-os de surpresa: — Preciso falar com você, Paul Barclay! — bradou Bettina. Intimidando Cass, e os casais que estavam perto, Bettina só não comoveu Paul, que continuava a ignorá-la, mesmo com os apelos mudos de Cassidy para que lhe desse atenção. — Seja o que for, pode esperar — respondeu ele em voz alta. Fora de si, Bettina fez um gesto brusco e colocou-se entre os dois. — Engano seu. Não pense que vai continuar me fazendo de idiota. Não vou permitir! — Não? E de que jeito? — Vou destruir você! Gargalhando, Paul respondeu: — Não seja ingénua. — Juro que destruirei sua amada empresa e... — Pois que seja. Faça o que quiser, mas nada me obrigará a casar com você. Um grupo cada vez mais numeroso de pessoas assistia, surpreso, ao escândalo protagonizado pelos anfitriões da noite, sem saber o que pensar ou como agir. Bettina estava furiosa, o belo rosto transfigurado numa máscara de ódio, repulsiva e assustadora. Histérica, gritava cada vez mais. — Como ousa me usar dessa maneira? Cassidy estremeceu com o rumo perigoso que a discussão tomara. Conhecia Paul e temia pela reação dele. De fato, não estava enganada. — Ora, veja! Você entra em meu escritório nua como veio ao mundo, joga-se a meus pés e depois me acusa de usá-la? Bettina empalideceu e avançou sobre ele, esbofeteando-o com violência. Impassível, Paul limitou-se a dizer: — Muito me arrependo de termos "usado" um ao outro, algumas vezes. Mas isso já passou, e eu não vou me submeter à sua chantagem. — Maldito!
  • 40.
    Sentindo a tensãoinsuportável, Cassidy tentou evitar o pior, puxando Paul pelo braço antes que fosse tarde demais. Mas ele parecia não ter perdido a frieza, mesmo quando reafirmou categoricamente: — Não vou me casar com você. Não há nada que possa fazer para me obrigar. O silêncio caíra sobre todos na festa, e nem música se ouviu até o fim da discussão. O burburinho começou imediatamente entre os homens de negócios presentes. — Spencer se demitiu! — Isso é suicídio para a empresa! — Será que ele aceitaria mudar para Boston? — especulou o dono da maior concorrente da Barclay, já pensando em contratá-lo. — Sem Spencer, voltaremos ao tempo das carroças! — Logo agora! Estamos perdidos... Nesse ínterim, saído do nada, William apareceu ao lado de Paul com um sorriso estúpido no rosto, tentando contornar o escândalo, como se isso fosse possível. — Crianças, é melhor conversar sobre isso depois... — Vá para o inferno, Penno! — vociferou Bettina. — Se você tivesse tirado sua irmãzinha do caminho, como eu mandei... Abandonando a atitude fleumática, Paul avançou em direção a ela, farto da atitude despótica da prima. — Cale essa boca, antes que eu faça isso por você! Estava disposto a cumprir a ameaça, mas William segurou-o pelo braço. Fuzilando de desprezo, Paul jogou o assessor para longe, enojado com a falta de escrúpulos de um homem como ele. Foi então que Cassidy percebeu que tinha segundos para evitar o que poderia vir a ser, de verdade, um escândalo desastroso. Colocando-se no caminho de Paul, mãos espalmadas sobre o tórax musculoso, murmurou entre os dentes, chamando-o de volta à razão: —Não permita provocações. É só o que ela quer. Bettina logo provou isso, pois voltou a espicaçar Paul. Balançando a cabeça, desafiando o primo, continuou: — Vou arruinar suas padarias, você verá! — Mesmo comigo longe? — Será mais fácil, e mais divertido, com você longe! — Então não posso fazer nada. — Quer dizer que vai abrir mão de tudo? — perguntou Bettina, incrédula. — Não de tudo. Não de Cassidy. Dela eu não abrirei mão, de jeito algum. Horrorizada, Cass assistia a tudo sem poder fazer nada. Quando Bettina olhou-a dos pés à cabeça, seus olhos destilavam ódio, ameaçadores. — Bem, se é assim que quer... As empresas Barclay vão afundar para que você possa estar com essa garota de programa. — Não! — exclamou Cassidy ao recuar, estarrecida. Não permitiria que aquilo viesse a acontecer. Não com Paul, nem com sua família. Jamais se perdoaria se tivesse de ser feliz à custa do sacrifício alheio. Mas ninguém parecia ciente da situação. Os semblantes hostis à sua volta indicavam isso. Entre tantos rostos, o de Tony se destacou dos demais. Correu para ele, implorando ajuda. — Leve-me daqui. Quero ir para casa, por favor! Merecendo a confiança depositada, Tony a amparou, e juntos encaminharam-se para a porta. Mas a mão de Paul pousou no ombro de Cass, retendo-a. — Fique. — Eu tenho que ir. — Não, querida. Por favor, espere. — Paul colocou-se no caminho, impedindo-a de seguir em frente. — Deixe-a em paz, Spencer. Paul ignorou o aviso de Tony, como se ele não estivesse ali. Seu olhar parecia só enxergar Cassidy. — Vamos começar este ano juntos, como planejei. Fique comigo.
  • 41.
    — Não posso.Bettina... — Esqueça Bettina! Não vê que ela mesma se destruiu, fazendo o que fez? — Não importa — sussurrou Cass, e saiu correndo antes que ele a convencesse a ficar. Como convencê-lo a mudar de ideia? Só ela poderia evitar que a ruína se abatesse sobre a família Barclay. Poderiam ser felizes pagando um preço tão alto? Que diferença haveria entre ela e Bettina se permitisse que Paul abandonasse os outros membros da família por sua causa? Depois de trabalhar duro para construir aquele império, não era assim tão fácil largar tudo. Correndo entre mesas e cadeiras, Cassidy tentava escapar de si mesma procurando a saída para a rua. Tony a seguia, e Paul ia logo atrás deles. Cassidy escutava as palavras que Paul gritava a distância, mas sem ouvi-las. Só parou de correr quando percebeu que ele já não mais a perseguia e que, na noite fria de ano novo, escapava do único homem que amara na vida. E ele jamais entenderia o motivo que a levara a deixá-lo. Exausta, Cass se rendeu ao abraço amigo de Tony e chorou todas as lágrimas que um coração partido pode ser capaz de produzir. Fechado na solidão de seu gabinete, cercado de seus livros, Paul abrigou-se no escuro enquanto o mundo inteiro recebia com fogos de artifício a chegada do ano novo. O fiasco da festa era devido única e tão somente à loucura de Bettina, que conseguira em meia hora pôr em risco um século de respeitabilidade e tradi ção familiar. A solidez do nome Barclay desapareceria no momento em que os jornais anunciassem o escândalo da noite. E, em vez de crescer no mercado nacional, a empresa teria sorte se conseguisse manter a posição atual. As ações não valeriam um níquel se fossem colocadas na bolsa. E, se não fossem cautelosos, aquilo poderia levá-los à falência. Embora tivesse se desculpado publicamente pelo infeliz incidente, Paul não deixara de sentir a repercussão péssima entre alguns de seus maiores clientes. O estrago já fora feito, e dificilmente a confiança seria restaurada entre os investidores. Pior, entre os consumidores dos produtos Barclay. Ele riu de si mesmo ao lembrar que os mesmos convidados que haviam aplaudido, comovidos, à peça, menos de uma hora mais tarde tinham testemunhado o vexame vulgar de dois dos herdeiros da mesma família. Enchendo a cabeça com essas considerações, Paul tentava evitar que seu pensamento recaísse na verdadeira tragédia da noite: a perda de Cassidy. Feria-se ao recordar do olhar de sofrimento que vira nela. Pior era lembrar da fuga da mulher amada, que se fora sem ao menos olhar para trás. Ela não precisara dizer por que agira assim. Depois de ouvir as ameaças de Bettina, Cassidy não poderia suportar que outros sofressem por sua causa. Desmoronavam, sob o olhar impotente de Paul, os pilares sobre os quais construíra sua vida. E as esperanças de felicidade esvaíram-se horas atrás. Levado pelo temporal que se abatera sobre o navio da sua existência, Paul de repente vislumbrou, entre os destroços do naufrágio, algo em que se apegar, talvez ainda uma tábua de salvação que o levasse de volta à terra firme. Com isso em mente, achou força para se levantar da poltrona, acender o abajur e procurar, dentro de si, as palavras que melhor expressariam o que tinha a dizer. No relógio que pertencera ao primeiro Barclay, os ponteiros marcavam uma e meia da manhã. Decidido, colocou a data no alto da folha em branco e começou a escrever. A quem possa interessar Tive a honra e o privilégio de servir esta empresa e aos membros da família a quem ela pertence, representando-os durante os vinte anos em que aqui permaneci, desde menino. Todo esse período tenho sido diligente no cumprimento de minhas tarefas, dando sempre o melhor de mim. Por isso mesmo, quando, por escrúpulos, sou incapaz de permitir que minha vida privada seja sacrificada aos interesses da empresa, acho por bem vir a público pedir minha demissão imediata e irrevogável. Meu último ato, se me permitem, é recomendar, como meu substituto, o sr. Cari Thomas, que tenho certeza será capaz de servir à família com igual, senão maior, competência que eu. Minha gratidão é enorme aos muitos colaboradores que tive o privilégio de encontrar esses anos todos. Desejo de todo coração que a empresa e todos que dela fazem parte tenham muito sucesso. Estarei torcendo e vibrando, mesmo a distância. Sinceramente,
  • 42.
    Paul Spencer Barclay. Eratudo o que havia a ser dito. Tirou uma cópia, dobrou-a e colocou dentro do bolso do paletó. Pegou o telefone e fez algumas ligações, deixando mensagens nas secretárias eletrônicas que atenderam suas chamadas. Não esperava achar ninguém em casa, não naquela noite. Mas avisou a todos que os esperava para uma reunião, no dia seguinte, a uma hora da tarde, na casa de Joyce e Cari Thomas. Para Carl e Joyce a mensagem fora mais calorosa do que as demais. Feito isso, Paul se deixou ficar por mais algum tempo sentado à mesa que fora de seu avô, olhando para as paredes impregnadas de passado, de um passado do qual em breve ele também faria parte. A atmosfera do lugar o envolveu, como se o abraçasse pela última vez. Com a consciência tranquila, ele apagou a luz e saiu para o corredor da fábrica vazia. Foi direto para casa. Lá, desligou os telefones, tirou a fantasia com cuidado e guardou-a na caixa, para enviá-la a Cassidy. Teria mais uso se ficasse na loja. Metódico e melancólico, segurou entre os dedos o velho relógio de seu bisavô, olhando-o com carinho antes de devolvê-lo ao estojo. Demorou-se sob o chuveiro, e ao enfiar-se sob as cobertas não imaginava que fosse conseguir conciliar o sono. Já eram dez horas quando se levantou. O chuveiro e a espuma de barbear o ajudaram a encarar a manhã silenciosa. Quando deixou sua casa, em direção à cidade, tinha a alma mais serena. Nas ruas os sinais da festa jaziam, lá e cá, como testemunhas indiscretas da folia noturna. Ninguém parecia disposto a sair de casa tão cedo, nem se ouvia um ruído humano. A caixa com a fantasia era a desculpa para que Paul pensasse em Cassidy. Perguntava-se se ela tinha noção de quanto era amada. Talvez não. Talvez Paul nunca conseguisse retribuir à altura o que recebera, quando ela oferecera sua virgindade sem pedir nada em troca. Tentara fazer algo semelhante ao renunciar a tudo por amor àquela mulher. Naquela tarde, quando a reunião acabasse, iria a seu encontro. A loja teria de receber de volta as fantasias, e Cassidy teria que estar lá para isso, da uma até as quatro horas. E ele chegaria antes das quatro, com certeza. O tempo que faltava até a reunião foi gasto com um lauto café da manhã. Depois, ele deu uma caminhada e por fim se dirigiu à casa de sua prima Joyce. Passava um pouco do meio-dia. A jovem grávida o recebeu de braços abertos, mas com evidente cansaço. Preocupado, Paul quis saber de sua saúde. Joyce sorriu, tranqúilizando-o. — Noite longa, só isso. Sentimos sua falta. — Digamos que perdi a animação. — Sinto muito por tudo. — E, olhando-o com simpatia, Joyce emendou: — Você parece gostar muito da srta. Penno. — Muito. — Fico feliz. Vou chamar Cari. Enquanto Joyce entrava pelo corredor, atrás do marido, Paul aproveitou para se recostar numa das poltronas em frente à lareira. Acabara de sentar quando a campainha tocou. Ainda na dúvida se devia ou não atender, foi surpreendido pela entrada intempestiva da tia Mary. — Querida, mamãe está entrando... A roupa extravagante, assim como os modos, faziam da mãe de Joyce uma figura e tanto, pensou Paul, tentando se lembrar há quanto tempo ela ficara viúva, Sorte que Cari e Joyce já estavam de volta à sala. Um pouco depois, John, seu tio, chegou. — Paul, vamos logo com isso — apressou o velho solteirão. — Vamos esperar os outros — disse Cari. — Sabe, gostei muito da srta. Penno, meu rapaz — falou a sogra de Cari, tia Mary. — Penno... Acho que já ouvi esse sobrenome. — Tio John, ela é irmã de William Penno, um dos nossos funcionários. — Não simpatizo com esse sujeito, mas gostei muito da moça. E quem se importa com o irmão dela? — Tenho certeza de que o senhor vai adorar Cassidy. Ela não é como... A campainha voltou a soar. Os pais de Bettina entraram, forçando Paul a interromper o que dizia. — ...William — concluiu ele. O jeito de Joyce, ou melhor de todos, fez com que Paul conjeturasse se não estavam escondendo
  • 43.
    algo dele. Quandoseus tios entraram, suas suspeitas aumentaram. Comportavam-se de forma esquisita, quase ensaiada. Paul começou a notar que todos tinham aparência péssima, como se não tivessem pregado o olho a noite toda. Ele não esperava uma boa recepção, depois de tudo o que acontecera na noite anterior. Mas, para seu espanto, Jewel foi a seu encontro e beijou-o no rosto com simpatia. Não havia motivo para delongas. Paul tirou a carta do bolso, pedindo que todos a lessem e passassem adiante. Sem demonstrar surpresa, calma e controlada, a família permaneceu quieta até que o último lesse a carta. Um ou outro meneou a cabeça em desaprovação, mas quase imperceptivelmente. Nervoso, Paul levantou-se e tentou prosseguir: — Como sabem, ano passado, antes de vovô falecer, tive a infelicidade de me deixar envolver num incidente... — Já ouvimos ontem sobre a nudez e tudo o mais. O mal-estar tomou conta de Paul ao ver a franqueza demonstrada pelo velho tio John. Com a garganta seca, procurou encontrar as palavras certas para continuar. Olhando para Jewel, recomeçou: — Talvez tenha me excedido ontem à noite, e ninguém lamenta mais do que eu pela mágoa que posso ter causado, tia Jewel, mas a raiva me fez perder... — Paul, ela mesma admitiu o que houve. — Admitiu? — E todos aqui concordamos que Bettina precisa de ajuda profissional — falou a mãe de Joyce. Os olhares entrecruzavam-se, e Paul percebeu que não se enganara: havia algo acontecendo, e era de comum acordo. O olhar triste do pai de Bettina, raso de lágrimas, comoveu a todos. — Quando casei com Jewel, Bettina era criança — disse ele. — Talvez seja culpa minha, por não ter dado a ela o nome Barclay, adotando-a. Não sei o que dizer, Paul. Apenas peço que nos perdoe. Paul mal podia crer em seus ouvidos. Mas era verdade. Aceitou o que todos tinham a dizer com a alma aberta. Riu e se emocionou com cada um, com as desculpas por tudo o que haviam exigido dele a vida toda. — Paul, em nome da família, recuso o seu pedido de demissão — falou tia Mary. — Talvez isto o convença a ficar. — E colocou sobre a mesa de café um envelope, no que foi imitada por todos. Então fizeram sinal para que ele os abrisse. Nem em um milhão de anos Paul poderia imaginar o que estava acontecendo. Todos entregavam, formalmente, naqueles envelopes, suas ações da Barclay. Para ele. Tirando os trinta por cento de Bettina, Paul agora era o único dono da empresa. Emocionado, beijou os parentes e, feliz com a demonstração de confiança, ensaiou uma recusa da oferta generosa. Mas, antes que o fizesse, John, o mais velho da família, o interpelou com energia: — Filho, isto não é um favor a você. E uma tarefa, e não ouse desobedecer com uma negativa. — Saibam então que nunca vou me esquecer disso, e prometo que nada vai faltar para nenhum Barclay enquanto eu, ou um dos meus, viver. — Nunca duvidamos disso — afirmou o velho John Barclay, sentindo orgulho do próprio clã. CAPITULO X Cassidy olhava com melancolia para o chapéu que tinha nas mãos. As plumas e os laços cor-de- rosa traziam-lhe à memória o rosto crispado de ódio de Bettina. Um portador levara a fantasia à loja, e fora impossível, para ela, não se lembrar da dor que ainda a magoava. Não sabia de quem tinha mais raiva, se de Bettina ou de Paul. Como ele pudera supor que ela fosse concordar com tamanha insanidade? Cass jamais permitiria que o homem amado perdesse tudo por sua causa. Na frente da loja, Tony recebia os trajes de volta. Examinava-os e em seguida os encaminhava para Cassidy, que tratava dos reparos, se necessário, antes de enviá-los para a lavanderia ou para outras lojas. Cuidadosa, separava os acessórios, embalando cada peça. O chapéu de plumas também fora abalado com a fúria de Bettina, mas pelo menos nesse caso os danos não eram irreparáveis. O mesmo não podia ser dito das demais vítimas daquela mulher cruel. De onde estava, era possível ouvir Tony conversando com os clientes. A maioria deles eram
  • 44.
    empregados de hotéisque traziam várias caixas dos hóspedes de fora, ou então maridos sonolentos, loucos para voltar para casa. Um ou outro, mulheres quase sempre, esticavam um pouco a conversa, que girava sempre sobre o mesmo assunto: o escândalo de Bettina e Paul. Mas Tony discretamente evitava comentários. Por isso, ela estranhou o tom das palavras do assistente, cheias de raiva. Só então reconheceu a voz de Paul, e estremeceu. Desde que entrara no carro do amigo, fugindo da festa e de Paul, ela sabia que cedo ou tarde teria que enfrentar a realidade e pôr um fim ao romance. Apenas adiara esse momento ao fugir sem explicações. Em vão buscara uma maneira de tornar isso menos doloroso. No fundo, apenas repetia o que ele fizera na noite em que tentara seduzi-lo. Renúncia é um belo gesto, mas em geral acaba matando o amor. Ninguém pode viver com o peso e a responsabilidade desse ato. Amor não pode ser sacrifício ou dor, mas alegria compartilhada. Se não pode ser assim, então não é amor. Não foi surpresa a entrada intempestiva de Paul e Tony no ateliê, esbaforidos. — Eu avisei que você não queria vê-lo —esbravejou Tony —, mas, como de costume; ele não me ouviu. Pelo desalinho de ambos, e pela atitude do assistente, não foi difícil deduzir que haviam ido além do embate verbal. Tanto que as mãos de Tony ainda agarravam a jaqueta de Paul. Dirigindo-se a Cassidy, ele fez de conta que Tony não existia, irritando-o. — Eu tenho que falar com você. Sem parar o que estava fazendo, Cassidy assumiu uma atitude distante, e com a voz isenta de emoção disse em poucas palavras o que tinha a dizer. — Como já dissemos antes, você não é homem para mim. Ontem, à meia-noite, nosso caso terminou, conforme tínhamos combinado. — Os planos mudaram. — Não, no que me diz respeito. — Querida, ouça. Não vou precisar desistir da empresa. Minha família... — Não foi o que me disse — interrompeu ela. — Na noite passada... — Você afirmou que não era o homem certo para mim, e várias vezes. Até que me convenceu disso. — Isso foi antes que eu soubesse... — Spencer, não ouviu? Ela não o quer mais! Será que não percebeu ainda? Cassidy permanecia impassível. Apenas um leve tremor nos lábios denunciava seu verdadeiro estado de espírito. Antes que desmoronasse, pegou o telefone, fingindo discar. — O que está fazendo, Cass? — Chamando a polícia, Paul. Eu pedi que saísse, mas você se recusa a me atender. — Que há com você? Cass, sou eu! Será que não pode me dar um minuto? — Serei mais claro, sr. Spencer. Ontem Cassidy fez sua escolha. Passou a noite comigo. O rosto lívido e os olhos arregalados de Paul deixaram evidente que Tony conseguira um efeito arrasador com sua revelação bombástica. Até Cassidy ficara chocada, mas disfarçou bem. Não precisou esperar dois minutos para ter Paul Spencer Barclay longe da loja, e, consequentemente, fora da sua vida. Sem uma palavra, ele se virou e partiu. Chocado. Estarrecido. Na sala vazia de sua casa, sentado em frente à lareira, Paul estava alheio a tudo à sua volta. Sempre soubera que aquele rapaz tinha uma paixão secreta por Cassidy, mas nunca lhe passara pela cabeça que fosse recíproco. Ela mesma dissera que não havia nada entre os dois. Não fazia mais diferença. De um jeito ou de outro, algo a havia empurrado para os braços de Tony, e certamente o responsável por isso era ele mesmo. Vira o desconforto de Cass quando a apresentara publicamente, não perguntara sua opinião antes de expô-la a uma situação embaraçosa. Pressionara demais. Aos vinte e cinco anos, Cassidy era uma jóia rara, que fora-lhe concedido possuir. E que ele estupidamente recusara. Talvez isso explicasse o repentino interesse dela por Tony, pois o assistente parecia não ter dúvidas sobre como agir a esse respeito. Não, não. Era inconcebível imaginar que sua adorável, suave Cassidy fosse se atirar numa cama
  • 45.
    com o primeirohomem disponível. Ou com qualquer outro homem que não ele. Desesperado, Paul se curvou ao peso da solidão e da amargura. Fechando os olhos, cerrou os maxilares para não gritar alto sua dor. Foi nesse instante que se deu conta da mais óbvia realidade. Fora um tolo em não perceber o que estava diante de seus olhos. Claro! Cassidy renunciara pelo seu bem. Só um estúpido apaixonado, ciumento, não perceberia. Precisava achar um jeito de fazê-la escutar o que tinha a dizer. Mas... e se realmente fosse verdade o que Tony dissera? Se estivesse apenas tentando se enganar? Enterrando o rosto nas mãos, Paul descobriu que não tinha escolha. Sem Cassidy, a vida não valeria a pena. Portanto, só tinha a ganhar indo à procura dela. Enquanto houvesse um fiapo de esperança, não desistiria. Se Cass não quisesse ouvi-lo, procuraria alguém que pudesse falar por ele. Alguém que a fizesse acreditar que poderiam ser felizes juntos. Já eram quase cinco horas, e Cassidy ainda não conseguira fechar a loja. Depois da noite agitada, todos pareciam ter deixado para a última hora a devolução das fantasias. Deixando os reparos de lado, Cass socorreu b assistente no balcão. Triste, dava graças pela montanha de roupas que aguardava' por ela nos dias seguintes. Mesmo tendo certeza de que fizera a coisa certa, sentia o coração estraçalhado. Só o trabalho a distrairia. Ocupada, com a loja cheia, mal pôde crer em seus olhos quando, entre os clientes, reconheceu William. E Bettina Lincoln. Atónita, Cassidy parou tudo o que fazia e, sem alarde, foi ao encontro deles. Encarando o irmão com profundo desdém, foi taxativa: — Fora da minha loja. Você e essa senhorita não são bem-vindos aqui. Mas William parecia determinado a ficar. Segurando o braço de Cassidy, impediu-a de se afastar. — Não saio antes de trocar duas frases com minha irmãzinha. Podemos falar a sós? — Como ousa trazer sua amiga aqui? — Cass perguntou, furiosa. — Posso explicar, se me der chance. — William, estou ocupada. — Sinto, mas isso não pode esperar. — E, ato contínuo, puxou a irmã para dentro. Tony estava atolado de clientes, mas ainda perguntou se devia chamar a polícia para tirar William de lá. Cassidy disse que não. Afinal, William ainda era seu irmão, e a polícia aumentaria muito a dimensão do escândalo. Podia cuidar de seus problemas sozinha. Então virou-se para Tony antes de entrar no ateliê e disse: — Cuide dos clientes. Não demoro. A cena era bizarra. Bettina e William de braços dados, trocando olhares cúmplices. Ao fechar a porta, Cassidy sentiu o olhar da moça fixo nela. Um preâmbulo para o que viria a seguir. — Você arruinou a minha vida — começou a srta. Lincoln em tom casual. Para quem afirmava tal coisa, Bettina parecia muito bem. Aliás, bem demais. Elegante, vestia uma saia longa de lã marrom, uma malha de gola role um tom mais claro e jaqueta de couro com gola de pele, também marrom. E, principalmente, mostrava a expressão mais serena dos últimos meses. A impressão que se tinha era de que a vida dela jamais poderia ser arruinada. — Não fiz nada para isso. — Como não? Você roubou o único homem que eu já quis. Quis. Cassidy achou irónica a escolha das palavras, mas não deu mostras disso. Com calma, retrucou: — Sinto muito. Por você. Bettina olhou desconcertada para William, pedindo auxílio. — É verdade, Cass. Paul a ama. Humilhou e rechaçou Bettina por amor a você. Sei que tive culpa nisso, mas não pensei que ele pudesse sentir atração por uma garota... bem, pela minha irmã mais nova. — Num gesto teatral, o rapaz colocou a mão sobre o peito. — Assumo toda a responsabilidade pelo que houve. Não devia ter confiado num homem como ele, tão sedutor. Sei que Paul a envolveu com promessas para tirar proveito de sua ingenuidade. Cassidy não sabia se ria ou se os enxotava dali. A situação era hilariante. Assumindo uma postura mais formal, disse, com sinceridade: — Paul não é esse canalha que você está insinuando. Jamais seria capaz de humilhar ou abusar de quem quer que fosse.
  • 46.
    — Ele meusou para satisfazer seus desejos sexuais — protestou Bettina, dramática. — Por favor, não seja ridícula! Você o usou. Não apenas sexualmente. Também o chantageou emocionalmente. O mundo sabe disso. — Como ousa? — Avançando sobre Cass, Bettina foi detida por William. — Cassidy, Paul conseguiu pôr toda a família a seu lado, e contra Bettina. Juro! Até os pais dela estão com ele. Pode acreditar. Todas as ações da família Barclay pertencem a Paul agora. Faça algo. Não permita que ele destrua Bettina. Você pode ser a próxima. Pense nisso! — Vocês estão loucos! Não sei o que está havendo, mas conheço Paul. Ele não trairia ninguém, muito me nos conspiraria contra uma mulher. — Ele faz coisas horríveis quando lhe interessa — disse Bettina. — Se é assim, por que você quer tanto se casar com ele? Sem emitir um som, Bettina movia os lábios sem saber o que dizer. Por fim, irritada, gritou para William: — Diga algo! Convença sua irmã! — Bettina o ama. E, depois, a família está contra ela. São capazes de arruinar a vida social de Bettina com comentários maldosos. Além disso, como ela vai manter sua posição atual nesse tumulto com a família? — Tudo porque eu não tenho o nome Barclay! E injusto, sempre foi. Sempre me disseram que eu era como eles, mas no fundo isso não era verdade. Nunca pude usar o nome do meu padrasto, e, embora eu odiasse meu pai de verdade, obrigaram-me a manter contato com ele, ter "respeito" por ele. Um joão-ninguém, que me cobria de vergonha com sua pobreza. Meu pai é Cari Barclay, sempre foi. — Percebe quanto ela sofreu, Cass? — Não, não percebo, mas deve ser duro mesmo... — Cassidy não sabia o que dizer para aqueles dois pobres infelizes, tão obcecados por um mundo de aparências, fúteis e ridículos. Eram dignos de pena. — Faça algo por mim! Fará? — O que quer que eu faça? — Diga a Paul que não quer mais ficar com ele. Diga que o motivo é essa atitude em relação a Bettina. Convença-o a voltar atrás e a cumprir com sua palavra. Ele pode casar com Bettina e ter você ao mesmo tempo. E as empresas. Tudo será perfeito, não vê? E só deixar seu orgulho de lado, Cassidy. Só dessa vez, faça algo por mim! Era lamentável, depois de tudo o que ela fizera por William durante os últimos vinte e cinco anos, ouvir esse tipo de coisa. Ficou claro que errara ao poupar o irmão das críticas, desculpando todos os seus erros. Desde criança ele fora mimado por Cass. O resultado era esse homem egoísta. Errara também quando julgara Paul tão inconsistente quanto William, negando-lhe a chance de tomar uma decisão importante, expulsando-o da sua vida. Se conhecesse bem o homem que amava, saberia que ele não sofreria se perdesse fama e fortuna. Paul desprezava aquilo que William prezava tanto. — Pedi que Paul saísse de minha vida hoje à tarde. William, Bettina, não tenho nada mais com ele. Cometi o erro de mandar embora o homem que desistiu de tudo por mim. Não há nada que eu possa fazer por vocês, portanto. Enfurecida, Bettina estava duplamente irada, pela inutilidade de sua humilhação e por estar sem saída de novo. — Estamos perdidos... — lamentou William. — Não há nada a fazer. A voz vinha da porta, onde, parados, Paul e Tony assistiam ao final dramático daquela cena. Ao contrário da tarde, pareciam muito amigos. Com as pernas bambas, Cassidy foi ao encontro dele, caindo em seus braços. — Paul! Depois de acolher Cassidy, e senti-la segura, ele voltou sua atenção para Bettina. — Você está certa, não há nada a fazer. A família me deu poder e me confiou todo o controle acionário da empresa. Tenho setenta por cento das ações. Portanto, você terá de se curvar às minhas decisões. Não esperava isso, ê cheguei a renunciar à minha função na empresa. Foram eles, sozinhos, que resolveram tudo. Portanto nem eu, nem ninguém poderá ajudá-la a recuperar seu prestígio. — Eles não podem agir assim! Eu não mereço! E você não pode ganhar tudo sempre... — Não ganhei nada. Aprenda, nada vem sem esforço. Nem mesmo o amor. — Para você, talvez — retrucou ela.
  • 47.
    — Sugiro quesaiam agora, os dois — ordenou Paul — Ou vou chamar a polícia. Certo, Tony? Cassidy nem percebera os modos amistosos entre seu assistente e Paul. Estranhou quando ouviu o jovem responder: — Você manda! Sem palavras, Cassy sorriu com doçura para o amigo e estendeu-lhe a mão. — Obrigada, Tony. Por tudo. Envergonhado, Tony baixou a cabeça. Num rompante, porém, esticou os braços para William e Bettina com autoridade e ordenou: — Que estão esperando? Rua! Ou terei de usar o telefone? Os dois pareciam figuras caricatas. Desprezíveis. Saíram, finalmente, deixando Paul e Cassidy à sós. Muita coisa vinha-lhes à cabeça, mas eles permaneceram quietos, pela primeira vez livres. Paul se afastou um pouco para poder fitá-la por inteiro. Seus olhos se encheram de lágrimas, e, emocionado, ajoelhou-se em frente a ela. — Cassidy Penno, será que posso pedir sua mão em casamento? Desde a primeira vez que entrei aqui, neste mesmo lugar, sonho com isso. Quer se casar comigo, minha boneca adorada? Soluçando de felicidade, Cassy pendurou-se no pescoço de Paul, cobrindo-o de beijos. Essa pergunta já tinha sido respondida por ela, muito tempo atrás. Mesmo assim, fez questão de repetir: — Sim, eu quero me casar com você. É o que mais desejo na vida. Um longo beijo selou o compromisso de amor. FIM