James Potter e a Copula dos Destinos - G. Norman Lippert

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James Potter e a Copula dos Destinos - G. Norman Lippert

  1. 1. 2 PRÓLOGO agia, pensou o senador Charles “Chuck” Filmore. Não acredito que é a isto que tenho que me sujeitar. Ele se inclinou para fora da porta de vidro aberta do edifício e sorriu cativantemente para as câmeras posicionadas do outro lado da Rua da Câmara. A normalmente apinhada via pública estava isolada em ambas as extremidades, bloqueada com barricadas laranja e oficiais da polícia de Nova York, que pareciam entediados e malhumorados com suas capas escuras e pistolas ao lado. Atrás das barricadas, uma turbulenta multidão havia se juntado, acenando e sorrindo para as câmeras. Aquilo era uma das coisas que Filmore tanto amava quanto odiava nesta cidade: não importava qual a hora do dia, havia sempre uma festa ao ar livre pronta para explodir à menor provocação, completada com vendedores de camisetas, levantadores de faixas, e turistas de olhos arregalados, parecendo como peixinhos dourados de aquário que repentinamente se encontraram na Grande Barreira de Coral. Filmore acenou para a direita e esquerda, mostrando seus dentes recém-branqueados num amplo sorriso ensaiado. Flashes de câmeras estouraram e chamejaram e então a multidão aclamou. Realmente eles não estavam aclamando a ele, claro, e ele sabia. Eles estavam aclamando porque era o rosto dele que preenchia naquele momento o telão. Não teria importado se o rosto tivesse pertencido a um manequim da Bloomingdale’s.1 Esta era outra característica das massas de Nova York: eram 1 Bloomingdale -Loja popular de roupas nos EUA 3 absolutamente negligentes quanto às coisas que aplaudiam, contanto que tivessem uma chance ótima de aparecer na televisão ao fazê-lo. O rosto no telão mudou. Agora ele pertencia a Michael Byrne, o grande mágico bajulador. Ele vestia uma camisa preta de colarinho aberto, seu lustroso cabelo pendia liso e frouxo ao redor do rosto, emoldurando seu encantador sorriso. Byrne não sorria como Filmore fazia, certamente. Ele parecia travessamente astuto, com seus olhos indo e vindo, como se não estivesse ciente da câmera que devia estar (Filmore sabia por experiência pessoal) a menos de sessenta centímetros de seu rosto. Byrne era um artista nato, e também era extremamente persuasivo, mesmo quando não estava dizendo nada. Fora isto, em parte, que lhe rendera tanto sucesso como mágico de palco. A multidão queria acreditar
  2. 2. em seus truques. De fato, se não tivesse sido pelo carisma contagiante de Byrne, insinceros como obviamente eram, Filmore nunca poderia ter concordado em participar de semelhante número. — Vamos falar dos detalhes práticos — dissera Byrne no dia em que se tinham encontrado pela primeira vez no escritório de Filmore. — O senhor é uma das estrelas em ascensão do mundo político, pelo menos em Nova York. Isso todo mundo sabe, certo? Nem todos os outros políticos gozam do reconhecimento que o senhor possui. Antigo capitão dos Jets, carreira na marinha, felizmente casado com uma proeminente atriz da Broadway. O senhor está pronto para trilhar o seu caminho para o topo da luta na lama de Washington. O senhor só precisa de um empurrãozinho; um pouco de propulsão para lhe lançar na mídia de massa. Filmore não gostara daquele homem quase desde o começo, mas àquela altura, Byrne estava falando uma linguagem que ele entedia muito bem, mesmo que não aprovasse. Filmore desejava ter reconhecimento puramente por sua história política e pela compreensão das necessidades de seu eleitorado – apesar do que muitos pensavam, ele era um homem esperto. Ele se saíra bem nos programas de entrevistas e talk-shows de domingos de manhã, em parte por causa de sua marca registrada, o discurso eloqüente, mas também por que ele, ao contrario de muitos outros senadores que poderia mencionar (mas não quis) realmente entendia dos problemas que estava discutindo. Apesar disto, contudo, Byrne estava certo. Eleitores americanos nem sempre votavam nos melhores candidatos. De fato, como Filmore bem sabia, a maior parte deles tendia a dar seu voto baseados em aparência e piadas curtas tanto em qualificação quanto registros eleitorais. Não havia sentido em reclamar disto, mesmo se Filmore ocasionalmente achasse isso deprimente. A única escolha prática era reconhecer a realidade do mundo político atual, e usá-la a seu favor o melhor que pudesse. — O senhor e o edifício Chrysler — dissera Byrne sorrindo e levantando as mãos. Dois monólitos de Nova York juntos ao mesmo tempo. Se funcionar, e irá, as pessoas de costa à costa saberão seus nomes. E o meu também, claro, mas isto não vem ao caso. — Você está propondo fazer desaparecer o edifício Chrysler? — respondera Filmore, se inclinando para trás em sua cadeira e olhando a cidade nebulosa além da janela de seu
  3. 3. escritório. — Comigo dentro? Byrne deu de ombros. — Que maneira melhor de consolidar nossas carreiras ao mesmo tempo, senador? Ambos sabemos que, hoje em dia, que a indústria do entretenimento e a política são os dois lados da mesma moeda. Além disso, vai ser divertido. 4 Filmore olhou de soslaio para Byrne. — Como você fará isso? Byrne suspirou languidamente. — Com magia — respondeu ele. — O que significa que é ou surpreendentemente simples ou alucinantemente complexo. Nenhuma resposta é satisfatória para o espectador. Então, o que diz senador? Filmore certamente concordara, embora tenha relutado um pouco. Se tivesse precisado de mais que uma escala noturna de tempo no saguão do famoso arranha-céu, ele provavelmente não teria. Olhando da sua vantajosa posição no saguão, ele se deu conta de que aquele truque realmente seria “alucinantemente complexo”. Havia sólidos espelhos em plataformas giratórias, por exemplo, posicionadas fora da vista da multidão barrada. Um andaime monstruoso de quase trinta andares de altura havia sido erguido na frente do prédio. Ele estava equipado com uma cortina do tamanho do arranha-céu que podia ser abaixada e levantada ao comando de Byrne, dando a sua equipe tempo para manipular qualquer uma das maquinações complicadas necessárias para se realizar este truque. Olhando para a plataforma de observação oficial, a menos de um bloco de distancia, Filmore teve uma idéia de como o truque seria realizado. Ele não entendia tudo a respeito, mas entendia o bastante para saber que o truque dependia de inúmeros e pequenos detalhes, de linhas de visão e edição de câmeras a psicologia das massas e até mesmo o ângulo de incidência do sol. De sua maneira, Byrne era bastante inteligente, embora, como ele mesmo havia indicado, ver os cordames dos bastidores de tamanho truque definitivamente tendia a reduzir o apreço por aquilo. Agora que estava oficialmente fora das câmeras, Filmore se virou e cruzou o saguão deserto, entrando numa porta lateral próxima à mesa da segurança. Lá, encontrou- se numa diminuta sala completamente preenchida por duas máquinas de refrigerantes, um longo
  4. 4. sofá de couro e um televisor de plasma. Na tela, uma transmissão remota das câmeras externas mostrava o que o resto do mundo iria ver. John Deckham, o guarda-costas de Filmore, um antigo companheiro de futebol, inteiramente careca, estava sentado no sofá, assistindo aos preparativos na enorme tela de plasma com pouco interesse. — Pareceu bom — comentou Deckham, acenando para a televisão. — Eles deram um close quando o senhor acenava. Tipo “o homem do povo”. Filmore suspirou enquanto sentava do outro lado do sofá. — Parece até conspiração. Odeio conspirações. — Conspirações fazem o mundo girar. — apontou Deckham, tirando uma mão cheia de pistaches de um saco. Filmore se acomodou para assistir o evento. Na tela, Michael Byrne levantou os braços enquanto a câmera se aproximava dramaticamente até ele, emoldurando-o contra o pôr-do-sol ao refletir nas janelas espelhadas da cidade. — E agora — anunciou Byrne, com a voz amplificada sobre a multidão, ecoando grandiosamente. — Vocês já me viram escapar da prisão de Alcatraz. Vocês testemunharam o meu triunfo sobre o Sepulcro Egípcio do Destino. Vocês assistiram quando eu fiz um elefante vivo desaparecer, e depois um aeroplano, e finalmente um trem de carga em movimento. Agora, pela primeira vez, realizarei o maior número de ilusionismo já tentado. Não somente farei desaparecer um dos maiores pontos de referência da cidade de Nova York, o legendário edifício Chrysler, desde as fundações: Farei enquanto o edifício está 5 ocupado pelo seu senador, uma referência por si próprio, o ilustre e respeitado Charles Hyde Filmore! Na tela, a multidão se alvoroçou novamente. Filmore podia ouvir o eco da aclamação emanando além do saguão. Byrne sorriu triunfantemente para a câmera, estendendo os braços, com as palmas da mão para cima, exultando na tênue luz do sol. Quando a multidão começou a silenciar novamente, montes de holofotes focaram para lá, iluminando a frente do prédio como se fosse uma enorme jóia. Byrne ergueu os braços, ainda com as palmas das mãos para cima, e então os abaixou. Naquele exato momento, centenas de metros de tecido vermelho se desenrolaram do andaime em frente ao prédio. O tecido caiu como água, cintilando grandiosamente à luz dos holofotes, e então finalmente alcançou a rua com um
  5. 5. baque audível. Pela visão das câmeras de televisão, bem como da dos espectadores na plataforma de observação, a cortina obscurecia o prédio completamente. Ainda com a silhueta visível contra o tecido vermelho, Byrne abaixou a cabeça. Aparentava estar profundamente concentrado. A multidão esperava ansiosa, contendo o fôlego. No fim do sofá, Deckham se agarrou ao saco de pistaches. — E então, como é que ele vai fazer isso? — perguntou ele. — Ele lhe contou? — Não — respondeu Filmore. — Segredo profissional e tudo mais. Tudo que sei é que temos que esperar aqui dentro por um minutou mais ou menos enquanto ele convence todo mundo que o lugar desapareceu. Quando tudo acabar, o prédio reaparece e eu volto pela porta da frente, acenando como um idiota. Obrigado e boa noite. — Somos mesmo as únicas pessoas no prédio inteiro? Filmore assentiu, sorrindo tristemente. — Esse tal de Byrne é realmente um gênio. Ele mexeu os pauzinhos para que o pessoal do ministério da saúde evacuasse o prédio, alegando que só podia garantir a segurança de uma pessoa apenas... eu mesmo... quando o prédio atravessasse dimensões desconhecidas. — Não mesmo — riu Deckham, ainda mastigando pistaches. Filmore assentiu novamente. Na tela do televisor, Byrne ainda estava de pé com a cabeça abaixada, com os braços suspensos ao lado como se alguém o tivesse desligado. Um rugir de tambores começou, e Byrne lentamente começou a içar seus braços novamente, e enquanto o fazia, se afastou da parede do cintilante tecido vermelho. O rugir dos tambores aumentou, quase atingindo um insuportável crescendo. Agora Byrne estava completamente de costas para a cortina, com os braços levantados e de cabeça baixa, seu cabelo escondia o rosto, e aí parou. De repente, o prédio ao redor de Filmore estremeceu violentamente. Poeira caia do teto e a energia vacilou, faiscou e então se foi. Filmore sentou, amedrontado. — O que foi...? — começou ele, mas parou quando um tatalar se apoderou das profundezas do edifício trazidas à vida. As luzes tremeluziram de novo, e a televisão piscou até se ligar. Deckham parecia desconfiado. — Era pra isso acontecer? — Eu... acho que sim — respondeu Filmore vagarosamente, indicando a televisão. — Olhe. As coisas do lado de fora aparentemente não haviam mudado. Byrne ainda estava com os braços estendidos, e com a cabeça baixa. E finalmente, abaixou os braços e levantou
  6. 6. a cabeça teatralmente, atirando seu cabelo preto para trás. Jatos de faíscas brancas 6 explodiram no ar e então a cortinha vermelha se soltou, remoinhando e ondulando enquanto caia. Atrás dela havia apenas um espaço vazio, cortado pelo ziguezague de feixes de uma dúzia de holofotes. O enorme e brilhante prédio certamente parecia ter desaparecido. A multidão explodiu em aplausos frenéticos e uma banda ao vivo começou a tocar uma fanfarra tumultuosa. — Nada mau — comentou Deckham, relaxando um pouco. — Parece real de verdade. — Puxa — respondeu Filmore enquanto esquadrinhava a tela. — Tá muito escuro. Era pra vermos os prédios detrás. Os holofotes estão distraindo todo mundo. — Acho que você é cético demais para magia, Chuck. É melhor se agarrar na política mesmo — disse o homem grande se levantando, embolando a sacola de pistache em suas enormes mãos. — Vou acertar a cara do sujeito antes de irmos. — Claro — resmungou Filmore, ainda observando a tela. Deckham espanou umas cascas de pistache de sua calça e desapareceu através da porta do banheiro num canto do pequeno cômodo. Lá fora, Byrne havia ordenado que a cortina fosse erguida mais uma vez. Vagarosamente, ela cilhou para cima, ocultando mais uma vez a misteriosa vista e os holofotes. A tela da televisão estava preenchida com o panorama do público na plataforma principal, mostrando pessoas abismadas de espanto, boquiabertas e com olhos arregalados. Filmore imaginou que elas foram forçadas a praticar aquela expressão durante os ensaios. Talvez Deckham estivesse certo; talvez ele simplesmente fosse céticodemais para magia. Bem, pensou ele, coisas piores já foram ditas do povo. Do outro lado da sala, a porta do corredor balançava lentamente devido à brisa que forçava passagem. Filmore franziu as sobrancelhas. A brisa cheirava um pouco incomum, embora ele não soubesse distingui-la com certeza. Era um cheiro doce, selvagem e terroso. — E agora — anunciou grandiosamente a voz de Michael Byrne através da televisão, — testemunhem a finalização do número de hoje à noite. Senhoras e senhores, deixem-me lhe reapresentar o edifício Chrysler, e o seu senador, Charles Hyde Filmore! — Ele levantou suas mãos mais uma vez, dessa vez estava de frente para a cortina. Os tambores rufaram novamente, e mais alto dessa vez. — Rápido, Deckham — disse Filmore, se levantando. — A gorda está para cantar. Outro tremor chacoalhou o prédio, fazendo as luzes tremeluzir uma vez mais.
  7. 7. Alguma coisa bem longe e lá em cima explodiu. Filmore olhou ao redor nervoso. Na tela, Byrne deixou seus dedos tremerem no extremo de seus braços estendidos. O rufo dos tambores foi duplicado, extraindo a tensão como uma faca. E então Byrne, categoricamente, se atirou para frente e caiu de joelhos, abaixando os braços como se ele mesmo estivesse tirando a enorme cortina de cena. A cortina caiu, desatada dessa vez da correia, e deslizou para o lado com a brisa. Caiu amontoada sobre a rua desordenadamente, levantando uma nuvem de poeira e cascalho. Atrás dela não havia nada. Filmore piscou para a tela, com os olhos bem abertos. Algo havia dado errado. Não era que apenas o edifício Chrysler continuasse desaparecido, era também agora, um misterioso negrume que tinha preenchido seu lugar. Os edifícios mais além podiam ser vistos atrás da poeira que subia, suas janelas brilhando amarelas na semi- escuridão da noite crescente. Byrne não se mexeu. Ele continuou no primeiro plano da televisão, ajoelhado, observando a visão inesperada. Um silêncio opressor preenchia a rua por todos os lados. 7 — Desapareceu! — gritou uma voz distante repentinamente. A visão da câmera mudou, focando mais perto da Rua da Câmara. Metros de cortina vermelha podiam ser vistos nos holofotes, cobrindo a rua como uma manta. A câmera virou. Havia um buraco enorme onde o edifício Chrysler deveria estar. Canos e fios elétricos sobressaiam dos lados do buraco, esguichando água e faíscas. — Já era! — gritou a voz novamente, agora mais perto — Desapareceu completamente, e o senador também! A multidão respondeu como uma fera. Um urro se espalhou por ela, confusão e descrença se misturaram com pânico, e o urro rapidamente se tornou uma cacofonia. A visão se ampliou e se focou na plataforma de observação. Aproximou-se, centralizando na figura de Michael Byrne. Ele ainda se ajoelhava, seu semblante estava vazio, completamente perplexo e descrente. Para Filmore, ele parecia virtualmente catatônico. — Deckham! Alguma coisa está errada! Vamos sair daqui! Não houve resposta. Filmore atravessou a porta do banheiro e a escancarou. Era um cômodo muito pequeno, havia apenas um vaso sanitário e uma pia. Estava completamente vazio. Um par de sapatos de couro preto repousava no chão, ainda estavam amarrados.
  8. 8. Filmore deixou o queixo cair com a visão, incapaz de falar. Outro hausto de fragância selvagem invadiu o cômodo, trazendo o som da multidão barulhenta com ele. Filmore se virou, espreitando o corredor. A porta se fechou sobre seu próprio braço pneumático. A televisão ainda tremeluzia e chilreava, mas Filmore não prestou mais atenção àquilo. Ele atravessou a sala vaga e cuidadosamente. O saguão estava mais brilhante do que estivera, iluminado por uma neblina estranhamente resplandecente que se pressionava contra as portas de vidro. Filmore rodeou a mesa da segurança e ouviu um som de água caindo. Baixou os olhos e viu então que estava pisando numa poça. Ela ondulava ao redor de seus sapatos, fluindo alegremente sobre o piso de mármore em direção dos elevadores. O piso inteiro estava coberto de água. Refletia o brilho das portas, lançando cobras de luz refratada ao teto alto. Filmore se sentia num sonho. Vagarosamente, abriu caminho até a porta da frente. Talvez, pensou, aquilo tudo fosse parte do truque. Talvez Byrne fosse um mágico muito mais competente do que ele pensara. A visão além da porta de vidro era perfeitamente alva, movendo-se fantasmagoricamente, quase como névoa. Filmore pulou repentinamente quando um rajada de vento espancou as portas, forçando-as para dentro com pressão suficiente para permitir que mais daquele ar exótico entrasse. A brisa rodeou Filmore, passando por entre seus cabelos e golpeando sua gravata. O ar estava úmido e quente. Filmore estendeu os braços e tocou a porta. Preparou-se, quadrando sua mandíbula, e empurrou. A porta se abriu com facilidade, admitindo uma explosão de brisa cálida e nevoenta e um rugido forte. Ele havia pensado que o barulho era o rugido da multidão de Nova York, mas agora sabia que tinha sido um erro. Nenhuma coleção de vozes humanas podia emitir esse som. Era ensurdecedor e consistente, enorme como o céu. Filmore foi até o som, se esforçando por ver através da brancura cegante. O vento se levantou de novo, repentino e úmido, e empurrou longe a névoa, dispersando-a o bastante como para que Filmore pudesse ver finalmente a fonte daquele som. Ele inclinou a cabeça para trás, mais e mais alto, olhando com olhos salientes para a bizarra e inexplicável enormidade do que estava presenciando. Rodeando o edifício, abarcando os três lados, havia uma parede de água estrondosa,
  9. 9. tão alta e ampla que parecia diminuir a brilhante torre de aço. Era uma cachoeira de tais 8 proporções que desafiava a lógica. Filmore encontrou-se pasmado, quase incapaz de se mover, ainda quando lhe molhava com sua neblina palpitante e resistente. De algum modo, impossivelmente, o edifício Chrysler tinha sido transportado, levado por aí, até uma localização completamente fantástica. Filmore se sacudiu, rompendo sua paralisia, e virou, olhando de novo para o edifício atrás dele. Se erguia totalmente intato, inclinando-se ligeiramente, sobre uma protuberância de rocha no meio de um rio extremamente tropical. Suas janelas gotejavam água, refletindo a montanha ao redor e suas selvas exuberantes e selvagens. — Saudações, senador — gritou uma voz, surpreendendo a Filmore tanto que girou sob seus calcanhares e quase se cai. — Sinto muito o de seu guarda-costas, mas o trato era uma única pessoa. Poderia estar em qualquer lugar, mas deixe-me tranqüilizá-lo, ele não está aqui. — O que...! — gaguejou Filmore fracamente. Abriu e fechou a boca várias vezes, vacilante ante a figura enquanto ela se aproximava através da névoa, andando com confiança. Parecia ser um homem, vestido todo de preto. Uma capa esvoaçava ao redor dos seus ombros e seu rosto estava coberto com uma máscara rara e metálica. Enquanto a figura se aproximava, Filmore viu várias formas mais vestidas de forma similar saindo da névoa palpitante, mantendo as distâncias, mas vigiando-o cuidadosamente. — Desculpe a omissão, senador — gritou a figura escura, parando de repente. Sua voz era entoada com o ritmo educado de um sotaque britânico. Parecia estar sorrindo. — Entendo que há tradições que cumprir. Isto é, afinal, um truque de magia — O homem fechou uma mão na boca mascarada, pigarreou e então levantou ambos os braços com um gesto grandiloqüente que pareceu abarcar todo o edifício Chrysler, a cachoeira troante, e até mesmo o próprio Charles Filmore. — Ta-daa! — gritou, claro como o cristal entre o som atroador. E depois riu, e riu, e riu. Algumas semanas depois, a uma grande distância dalí, um pequeno cozinheiro tocou um sino com a palma da mão e soltou um prato fumegante sobre o mostrador com um baque surdo. “Número três, sem cebola, maionese extra, pegue enquanto está quente” ele disse sem olhar. Uma garçonete, com um sujo vestido de raion, soprou o cabelo para fora da cara. “Já vou busca-lo em um segundo”. Ela virou-se para um casal acima do peso, que estava esperando na janela.
  10. 10. Inclinavam-se sobre os pedidos de lanches, estudando-os como num exame final. O homem levantou a cabeça e olhou para a garçonete, seus olhos nadando num grande par de óculos fundo- de-garrafa pretos. “O atum pode vir como entrada numa dessas tigelas elegantes de tomate?” “Elegantes...” a garçonete piscou. Ela tossiu com bom humor. “Você não sabe onde você está, sabe?” “Estamos no Bridgend, não?” disse a mulher gorda olhando para a garçonete, e em seguida olhando preocupada para o marido. “Não estamos? Eu lhe disse que deveríamos ter pego a via expressa. Estamos perdidos agora, não estamos?”. 9 “Não, eu acho...” a garçonete começou, mas o homem a interrompeu, abrindo um grande mapa que estava dobrado em um bolso no seu peito. “Bridgend” ele disse enfaticamente, desdobrando o mapa e indicando com um dedo gordo. “Bem aqui, vê? Você viu o sinal quando passamos no último giradouro.” “Eu vi um monte de sinais hoje, Herbert” a mulher bufou, sentando-se empertigada na cabine vermelha. “Vejam” disse a garçonete, baixando seu talão de pedidos “Se vocês precisam de um pouco mais de tempo...” O sino sobre o contador tocou novamente, alto dessa vez. A garçonete deu uma olhada, ficando esquentada, mas outra garçonete passou diante dela e tocou em seu ombro. “Eu pego isso, Trish,” a mais jovem (e decididamente mais bonita) garçonete falou. “Mesa três, certo?” Trish suspirou e fez uma cara feia na janela do captador de pedidos. “Obrigada Judy. Eu te juro que qualquer dia desses...” “Eu sei, eu sei,” Judy sorriu, cruzando o caminho estreito e balançando uma mão para mostrar que ela já tinha ouvido isso uma centena de vezes antes. Judy arrancou uma da páginas no fim de seu bloco e a espetou no carrossel da cozinha. Com um movimento ágil ela pegou o prato e o levou para uma mesa no canto, perto da porta. “Aqui está, querido” ela disse, deslizando o prato sobre a mesa diante de um homem de meia idade com um cabelo preto ralo. “Aprecie”. “Muito obrigado” o homem respondeu, sorrindo e desenrolando sobre a mesa o guardanapo onde estavam embrulhados os talheres. “Ora, eu acho que eu poderia esperar o dia todo pelos seus agrados, eu nuncasairia de casa” “Como você é galanteador” Judy respondeu, se remexendo. “Você não é daqui das redondezas, é?” O homem balançou a cabeça em negativa. “Não querida, sou da costa superior, de Cardiff. Apenas de passagem.” “Então é mesmo?” disse ela sorrindo enigmaticamente. “Eu tenho família por lá, talvez eu pudesse visita-los, será que você conhece algum deles?”. O sorriso do homem se tornou condescendente. “Cardiff é um grande lugar, docinho. A menos que o seu pai seja o prefeito, acho que infelizmente não os conheço, mas vamos em frente.”
  11. 11. Judy colocou uma das mãos sobre a boca, como se estivesse prestes a compartilhar um segredo com ele. “Potter” ela disse, “James Potter”. Ele seria jovem, não um menino, mas também não um homem ainda.” O homem girou os olhos, como se estivesse revolvendo memórias profundas, como se ele realmente quisesse dizer que sim, apenas para manter a garçonete falando com ele, mas percebeu que ele não poderia fazer isso. Ele soltou um suspiro e balançou a cabeça. “desculpe, não posso dizer que conheço. Francamente, eu não ando mais com muitos garotos, não depois que eu mesmo cresci. Minha juventude foi para o militarismo, sabe...” A garçonete balançou a cabeça assertivamente. “Você me avisará se precisar de um sachê, certo?” Ela sorriu de novo, mais um daqueles sorrisos artificiais que ela havia lhe dado alguns minutos antes, e voltou. Trish, a garçonete mais velha, estava de pé próxima a caixa registradora, contando suas gorjetas do dia. Sem olhar para cima, ela disse “O que há entre você e esse menino Potter? Você tem perguntado por ele desde o seu primeiro dia aqui, são o que, umas três semanas atrás? Eu por mim, acho que eles não tem nenhuma relação com você. O que é? Ele bateu no seu irmãozinho? Eles lhe devem dinheiro?” Judy gargalhou, “Nada disso. Ele é apenas... Um amigo de um amigo. Alguém com quem eu perdi contato e queria encontrar novamente. Não é nada, é um tipo de hobby, realmente.” 10 Trish riu secamente. Ela fechou a gaveta da máquina e guardou um pequeno rolo de contas em seu avental. “Um hobby. Eu olhei seu pequeno apartamento, lembra? Se você quer um hobby, que tal decoração? Aquele lugar está tão vazio, nem mesmo uma cama. Assustador, se quer saber.” Judy não estava prestando atenção em Trish. Seus olhos estavam fixos na janela da frente, sem expressão e muito pensativa. “O que é que há, Judy?” Trish perguntou olhando para ela. “Você parece como se alguém tivesse passado por cima da sua...” Judy estendeu uma mão, com a palma para fora, alertantando a mulher mais velha para esperar. Trish esperou. Judy permaneceu em frente à janela. Entre os rostos do casal gordo, que ainda estava discutindo sobre o mapa, além do caminho estreito e do poste, do outro lado da rua, estava um pequeno homem, caminhando lentamente para um beco, batendo uma bengala torcida como ele, os olhos de Judy se estreitaram desconfiadamente, questionadoramente. Por trás dela, alto, o pequeno cozinheiro tocou o sino novamente. Um prato tilintou no mostrador. Nem Trish nem Judy se moveram. “Número seis” o cozinheiro chamou, olhando para as duas mulheres através da
  12. 12. janela do captador, suas bochechas vermelhas e suadas. “Molho e orégano, sem picles...” Ele continuou chamando alto, mas sua voz foi cortada abruptamente quando Judy agitou a mão vagamente na direção dele. Ele olhou para ela, imóvel, como se estivesse congelado no lugar. Judy saiu de trás do mostrador, com um passo veloz e decidido, totalmente diferente de seus movimentos anteriores. “Acho que estamos prontos para pedir agora” a mulher gorda disse, sorrindo esperançosa para ela. Ela congelou no lugar assim que Judy passou por ela. O sino tilintou sobre a porta, quando ela se abriu por conta própria de repente, tão repentinamente que puxou uma lufada de ar sobre a comedoria, arrastando menus e fazendo voar as folhas de pedido do carrossel por sobre a mesa. Ninguém lá dentro pareceu perceber. O homem de meia idade, de cabelo preto ralo estava sentado com metade do garfo na boca, imóvelcomo estátua. Judy saiu para a empoeirada luz do sol e começou a atravessar a rua. Uma buzina soou e freios gincharam, quando um caminhão se jogou sobre ela, desviando em uma poça funda. Mas o som foi cortado assim que Judy agitou sua mão. Dedos de gelo saíram da poça e seguraram o caminhão tão firmemente que o detiveram no ato. Ele emitiu um barulho de metal se amassando, e a cabeça do motorista bateu no parabrisas, quebrando-o como uma chuva de estrelas. Judy ainda não tinha desviado os olhos do homenzinho com a bengala. Ele virou-se para o barulho repentino do caminhão detido misteriosamente. Seus olhos eram amarelados e cautelosos. Ele viu Judy se aproximar. Sua expressão nãomudou, mas quando ele virou-se, assumiu uma postura muito improvável. Ele começou a correr beco adentro, segurando sua bengala ao lado. Judy sorriu felis e subiu o meio fio, seguindo o homem para o beco. Ele dobrou em uma rua estreita transversal, sem olhar para trás, mas Judy também era maravilhosamente rápida. Ela ainda estava rindo, e era um bonito sorriso, cheio de um tipo de deleite e encantamento. “Deixe-me!” O homenzinho gritou, ainda correndo. Ele subiu aos pulos uma escadinha na frente de uma decrépita porta de apartamento, e começou a girar uma chave na fechadura. “Deixe-me. Eu não fiz nada de errado!” 11
  13. 13. Judy chegou ao pé da escada assim que o homem girou a chave, ele abriu a porta e pulou para dentro, ainda segurando a bengala ao lado. “Por favor, espere” disse Judy, acenando a mão, mas o homem não olhou para trás. Ele não parou, como qualquer um teria feito. Ele bateu a porta e Judy ouviu a tranca cair no lugar. O sorriso dela se estreitou, afinando nos cantos, tornando-se um sorriso duro. Ela agitou sua mão mais uma vez, juntando o indicador e o polegar, e apontando para a porta. Parecia como se ela fosse chicotear o ar, e ela o fez. A pesada porta de madeira explodiu para dentro com um estrondo, fazendo uma abertura. Os estilhaços caíram em dúzias de pedaços, todos da escada estreita para dentro. O homenzinho estava a meio caminho de subir as escadas, baixado e segurando o corrimão, com medo de se mexer. “Eu não fiz nada de errado” ele gemeu numa alta e chorosa voz, ainda sem olhar para trás. “O que eu poderia ter feito? O que você quer? Porque você simplesmente não me deixa?” Judy se moveu adiante e começou a subir as escadas devagar. Os pedaços da porta voavam para longe quando ela passava por eles. “Quem você acha que eu sou?” Ela perguntou, sua voz parecendo satisfeita e divertida. “Bem, isto é simples, não é?” Disse o homem trêmulo. Ele finalmente olhou para ela, por sobre o ombro direito, ainda segurando a bengala. “Você é do Ministério. Você descobriu sobre a minha bengala. Não é uma varinha apropriada, realmente não. Eu comprei por encomenda, mas isto não é ilegal agora, é? Quer dizer, ela trabalha mal em tudo. Isso não viola minha condicional. Você não precisa me mandar de volta”. “Você...” Disse Judy ainda subindo os degraus lentamente, sorrindo maravilhada. “Você... é um feiticeiro. Uma pessoa mágica, não é?” O homem a olhava por cima do ombro, apenas meio voltado para ela “O que você quer dizer então? Você quer brincar comigo? Quer esfregar isso em mim, que eu tenha que viver como aqueles Trouxas bastardos? Foi apenas um pequeno roubo. Eu tive meu tempo em Azkaban, apertado e quadrado. E se eu mantiver meu nariz limpo por oito meses eu vou poder ter minha varinha de volta. Porque você veio quase me matando de susto e depois brinca comigo sobre ser um feiti...” O homem parou assim que viu a verdade na cara da mulher. Ela não estava brincando com ele. Ela quase o tinha alcançado agora. Ambos estavam de pé nas sombras
  14. 14. da escada. Ela estava dois degraus abaixo dele mas seus olhos já estavam no mesmo nível. O olhar agyado do homem se arregalou, quando ele percebeu que era porque ela estava flutuando alguns centímetros no ar, ainda sorrindo para ele. “Eu vejo agora” ela disse balançando a cabeça em concordância. “Uma sociedade mágica inteira, vivendo em segredo. Que absurdo interessante. Nossa, como os tempos mudaram. E no entanto tudo faz sentido agora. Issi não é nenhuma maravilha... Mas que boa sorte eu tive por ver você, meu amigo, e por reconhecer a estranha natureza de sua bengala. Será que poderia me dizer seu nome?” O homem ainda estava trêmulo, tanto que seus dentes batiam enquanto ele respondia. “B-b-Blagwell,” ele gaguejou “Harvey. Blagwell.” “Que nome desafortunado” ela franzia as sobrancelhas. “Diga-me Sr. Blagwell, eu admiraria se pudesse me ajudar. Eu estou procurando por alguém. Eu tenho perguntado a muitas pessoas, e nenhuma delas tem me ajudado. Entretanto, eu agora entendo o porquê. Eu espero que você possa se mostrar diferente.” 12 Blagwell assentiu de modo idiota, seus olhos arregalados. A mulher inclinou-se sobre ele, flutuando alto no ar de modo que o cobria com sua sombra. “Alguma vez você já ouviu falar de alguém chamado... James Potter?” Blagwell ficou parado diante dela, seus lábios tremendo. Ele fez uma espécie de risada tossida, e em seguida deixou escapar uma risada irregular. “P-Potter?” ele disse, balançando a cabeça como se ela estivesse brincando com ele. “Você... Você está brincando, não é?” O sorriso de Judy cresceu. Se esticou além dos seus limites normais de beleza. Tornando-se primeiro um sorriso aberto e em seguida uma expressão lunática e sem humor. “Conte-me mais”, ela respirou. “O que – O que vcê quer saber?” exclamou Blagwell, inclinando-se para trás, murcho sob a força de seu olhar. “Todo mundo os conhece. E-e-e eles tem sangue famoso, não tem?” “Ela está lá” a mulher respondeu, numa estranha voz cantante, sua face agora perdida nas sombras. “Eu senti isso através das lembranças dela. Isso não é muito, mas é tudo que eu precisava. Ela veio para cá, buscando refúgio depois de sua experiência no lago. Eu não pude segui-la, pois seu experimento se perdeu, mas duas palavras restaram, impressas no éter de onde um dia estava uma árvore. Duas palavras que eu sabia que iriam me levar até ela: James Potter. Diga-me onde eu posso encontra-lo. Diga-me e todo mundo poderá ser feliz novamente. Talvez até você, meu desafortunado amigo.
  15. 15. “Quem é você?” Blagwell gemeu, aterrorizado. A voz dela veio da escuridão, duas vozes se intercalando. Ela ainda estava sorrindo. “Me chame de Judith” ela disse “me chame de Dama do Lago”. Cinco minutos depois, a mulher saia pela abertura da porta quebrada, rindo para si mesma, contente. Ela tinha finalmente aprendido o que ela precisava saber. Isso tinha tomado dois meses dela, dois longos meses de espera e procura, alugando apartamentos vazios, apenas para manter aqueles ao redor dela longe de suspeitas. Agora, claro, tudo isso fazia perfeito sentido. Aquele era um estranho e absurdo tempo, um tempo em que o mundo mágico se escondia segredo, desconhecidos dos estúpidos não-mágicos. Agora ela entendia porque ela havia sido chamada para este tempo, refeita nesta forma. Ela entendeu o que ela estava teria que fazer. Esta seria uma difícil tarefa, mas ela queria desfrutar disso. Ela queria desfrutar disso intensamente. Ela voltou pela rua e encontrou uma grande poça dágua perto do meio fio. A água estava coberta por um fino e brilhante arco-íris, por causa do óleo. Ela viu a si mesma refletida na água suja, viu seu próprio sorriso. Era realmente um bonito sorriso, que inspirava pessoas, fazia com que quisessem ajudá-la. Até mesmo o grande feiticeiro havia caído por ela. Judith lembrava disso vagamente, pois estas não eram suas lembranças, não de verdade. Eram presas a esta forma, ao formato humano que ela assumiu, como uma nota fixada sobre a gola de um vestido. Aquela não era a Judith que o feiticeiro um vez havia conhecido e amado, e no entanto ela havia ocupado uma versão daquela forma de Judith, vendo através daqueles olhos de mulher, rindo seu lindo sorriso. O grande feiticeiro tinha realmente caído por este sorriso, e tinha perdido quase tudo em busca disso. A verdade é que ele ainda podia perder. 13 Judith dobrou um joelho, ainda olhando para dentro da poça. Ela finalmente tinha o que ela precisava. Uma coisa em comum, e era tão difícil de encontrar, pelo menos nesta era ignorante. Ela colocou a mão sobre a poça, com punho fechado. Uma adaga emergiu dalí, com o cabo encrustrado de jóias, sua lâmina negra e molhada. Ela deixou que algo vermelho escorresse pela ponta da adaga. Que pingou e se espalhou pela superfície da poça, formando ondulações e fazendo o brilho oleoso começar a girar, para formar formas nubladas. Essa magia elementar, ela pensou, e ainda assim tão raro. Ela compreendeu instintivamente, é
  16. 16. claro. Afinal, era como ela tinha chegado a ser. “Mostre-me” ela disse para a poça, “mostre-me onde eles estão, o menino James; seu irmão Alvo, a cobra; Sua irmã Lílian, a flôr; Seu pai Harry, a lenda; Sua mãe Gina, a tocha. Mostre-me onde eles estão, para que eu possa procura-los e achá-los.” O sangue de Harvey Blagwell escorreu através da poça e o óleo brilhou profunda e intensamente, formando um desenho. A Dama do Lago inclinou-se para perto, com ansiedade e prazer, vendo a imagem se formar. Lá haviam florestas, um lago, e também um castelo, alto e grandioso, com torres grandes e pequenas, cheio de janelas brilhantes. A imagem começou turva, mas foi se aproximando cada vez mais, mostrando o que ela queria saber. Tudo estava claro agora. Judith sabia sua tarefa e onde ela deveria ir. Em breve este mundo despertaria, terrível e irreversivelmente, e em seguida viria o caos. Judith amava o caos. Ela o respirava como o ar. Ela ansiava por ele, até mesmo agora. Ela endireitou-se, alisando o tecido desbotado de seu vestido de garçonete, e começou a andar. Ela mudaria logo, vestindo-se com roupas que tivessem mais ao nível de sua posição. Entretanto, se sentia satisfeita. Sua missão havia começado. Ela queria encontrar a garota, e então ela iria simplesmente observar. A garota era seu destino... sua irmã e sua filha. Sua Nêmesis e sua aliada. Elas estavam interligadas, inseparáveis e permanentemente. Querendo ou não, a garota iria ajudar Judith. A garota a levaria exatamente aonde ela teria que ir. Judith limpou a adaga, seu direito de nascimento, distraidamente no vestido. Ela começou a cantarolar. 14 CAPÍTULO UM ADEUS A HOGWARTS ão muito longe dali, o sol brilhava sobre o topo de uma ampla colina, aquecendo o ar da manhã de outono e inspirando um coro de vibrantes cigarras no pântano e canto dos pássaros nas árvores próximas. Mariposas e besouros serpenteavam e zuniam, desenhando padrões invisíveis entre as flores. A sombra de um enorme castelo se estendia sobre uma face da colina, seu contorno ficava disforme quando o vento traçava ondas sobre o gramado alto. Um rapaz corria pela sombra do castelo, deixando um caminho labiríntico desenhado na grama crescida. — O que você está esperando? — gritou o garoto, Alvo Potter, olhando para trás. — Você está fora dos limites — seu irmão James gritou de certa distância, com as
  17. 17. mãos à boca. — O campo terminou lá atrás, na rocha grande, seu imbecil. Você nem consegue ver a bola debaixo de toda essa grama. — É parte do desafio! — respondeu Alvo, sorrindo abertamente. — Estamos jogando futebol mágico ou o quê? — Não tem problema — gritou a voz de uma garota um pouco distante, James viu de relance sua prima de cabelos negros, Lucy, agachada diante de um par de jovens árvores, 15 deslizando de lado lentamente. — O gol se distanciou dele. Estou tentando mantê- la sob controle, mas é um desafio. Oh, aí vem, de novo! — Prontamente, as pequenas árvores que formavam o gol atrás dela, pareceram deslocar-se pela grama, caminhando sobre suas raízes como lulas de madeira muito altas. Lucy corria para manter-se vigiando às árvores, enquanto mantinha um olho em Alvo. — Estou livre, Al! — gritou Ralf Deedle, chamando a atenção de seu amigo e companheiro sonserino, sacudindo as mãos no ar como tentando ser útil. Alvo concordou, virou-se e chutou algo no meio da grama. Uma bola de futebol gasta apareceu momentaneamente, enquanto traçava um arco no ar. Ralf se preparou para alcançar a bola, mas esta nunca chegou até ele. Ao invés disso, dançou misteriosamente na luz do sol e se distanciou girando. — Eeei! — gritaram Alvo e Ralf ao mesmo tempo, olhando na direção da bola. Caiu na terra perto dos pés de uma garota ruiva que ondulava sua varinha fazendo a bola voar, e cair aos seus pés. — Estamos jogando futebol mágico ou o quê? — uivou ela, chutando a bola para o lado oposto da colina. — Rosa! — gritou James, correndo para alcançar sua prima. — Atrás de você! É o Teddy! Rosa se agachou enquanto uma nuvem de mariposas azuis passou voando sobre ela repentinamente, conjuradas da ponta da varinha de Ted Lupin. Ele assobiou enquanto passava correndo, apontando o pé para a bola, mas ela foi mais rápida com sua própria varinha. Com um movimento do pulso e um clarão, ela transfigurou uma folha morta em uma casca de banana. Um instante depois, o pé de Ted Lupin aterrissou sobre a casca e escorregou, arremessando-o ao chão. — Bons reflexos, Rosinha! — bramou Ron Weasley de onde estava, naquele momentos ao lado do campo. — Agora volte para a zona protegida! James está livre! O
  18. 18. goleiro deles ainda está sob o feitiço de cócegas! Mire para baixo! Rosa desnudou seus dentes sombriamente e chutou a bola para James, que dominou com facilidade e começou a manobra para o afloramento de rochas que atualmente servia de gol para seu time. De pé ali, Jorge Weasley, que estava nitidamente sendo atacado por cócegas, lutava para prestar atenção enquanto uma enorme pluma branca se arremessava em sua volta, roçando-o ocasionalmente e fazendo-o convulsionar num riso irritado. James estava a ponto de chutar a gol quando uma voz gritou perto de seu ouvido. — Argh! Esqueça a bola! Pega ele! — Sombras caíram sobre ele, e umas mãos agarraram seu cabelo e sua capa. James tentou espantá-las sem olhar, mas não serviu de nada. Seus primos mais novos, os gêmeos Haroldo e Júlio, o rodeavam em vassouras de brinquedo, agarrando-o e mordendo o ar, como piranhas aéreas. James levantou os olhos para eles exasperado, tropeçou nos próprios pés e caiu na grama como um saco de tijolos. Haroldo e Júlio olharam um para o outro por um momento e mergulharam no gramado alto para continuar seu ataque. A bola rolou até parar ali perto, enquanto Jorge se adiantava correndo para chutá-la. — Barricado! — gritou James, agitando suas mãos, enquanto Haroldo puxava seus cabelos. Uma pequena parede de tijolos fez erupção subitamente no chão, perto da bola, um segundo antes do pé de Jorge Weasley alcançá-la. A bola pulou fora do alcance do pé do goleiro, imediatamente bateu na pequena parede, e saiu disparada pelo ar, formando um 16 arco alto sob a cabeça de Jorge. Ele esticou a vista para observar, e acompanhou a bola cair com um ruído oco, passando entre as pedras atrás dele. — Gol! — gritou James, jogando as mãos para cima. — Marmelada! — gritaram Haroldo e Júlio, caindo outra vez por cima de James, derrubando-o. Rosa passou correndo por James e Jorge, recolhendo a bola de futebol. — A primeira regra do futebol mágico, é que não existe nenhuma regra — lembrou a todos, elevando a voz. — James marcou este com o encanto para criar barricadas, e eu ajudei com a casca de banana transfigurada. São mais cinco pontos para o time Hipogrifo. — Cinco pontos!? — replicou Alvo, aborrecido, caminhando rápido até parar perto. — Como você conseguiu chegar a essa soma?
  19. 19. — Um ponto pelo gol — bufou Rosa, fazendo a bola voar sobre sua palma direita, — dois pontos por cada sutileza mágica. — Esses feitiços valiam um ponto — argumentou Alvo. — Eu poderia ter feito dormindo! — Então talvez alguém devesse lançar um feitiço de sono em você — disse James, finalmente livrando-se dos primos. — Talvez você seja um jogador melhor nos seus sonhos! — Ao menos eu não preciso de nenhuma estúpida parede em miniatura que faça gols por mim — queixou-se Alvo, sacando sua varinha. — Eu tenho a idéia maluca de que gols são feitos com os pés. — Que pena que eles estejam tão ocupados travados na sua boca — replicou James, obviamente satisfeito com sua resposta. — Mas posso te ajudar com isso! Alvo percebeu a intenção de James um momento antes que acontecesse. Apurou- se em levantar sua própria varinha e ambos os garotos gritaram o feitiço exatamente ao mesmo tempo. Dois raios de magia cruzaram o topo da colina ensolarada e Alvo e James giraram no ar, impulsionados pelos seus tornozelos. — O que está acontecendo aqui? — gritou uma aguda voz feminina, oscilando à beira da fúria ultrajada. Todos os olhos se voltaram para ela culpadamente. Gina Potter, a mãe de James e Alvo, subia a colina a passos largos e enérgicos, aproximando-se da combativa reunião, com olhos flamejantes. A pequena Lílian Potter seguia os passos da mãe, escondendo um sorriso deleitado com as mãos. — Estive procurando todos vocês! — exclamou Gina. — E encontro aqui, no meio do gramado correndo e sujando suas túnicas! Ronald Weasley! — gritou, enxergando de repente seu irmão, que tentava se esconder. Fechou os punhos com força. — Eu devia saber! — O quê? — disse Rony, levantando as mãos. — Eles estavam entediados! Eu estava entediado! Eu estava... supervisionando, certificando-me de que não entrariam em apuros! Além disso, Jorge também está aqui fora, caso não tenha percebido! Gina suspirou cansada e sacudiu a cabeça. — Vocês são tão levados quanto as crianças. Todos vocês, voltem ao castelo neste instante. Todos estão esperando. Se não nos apressarmos vamos chegar atrasados para a cerimônia. Um metro acima da grama alta, James estava pendurado de cabeça para baixo enfrente ao seu irmão. Alvo encontrou seu olhar e suspirou, seus cabelos negros penduravam escorridos da sua cabeça.
  20. 20. — Eu te solto, se você me soltar — ele disse. — No três. James concordou. 17 — Um... — Liberacorpus — disse Ted, agitando sua varinha. Ambos os rapazes caíram do ar e rolaram desajeitadamente pela encosta. — De nada — sorriu Ted, guardando sua varinha. — Vamos. Vocês não querem fazer sua mãe esperar. O grupo trotou para alcançar Gina que andava apressadamente em direção das portas do castelo, onde uma pequena multidão estava reunida, todos vestidos como ela, em trajes coloridos, chapéus, casacos e capas. — Como estou? — James perguntou a Rosa, enquanto eles atravessavam o gramado. Ela o estudou criticamente. — Você está com uma boa aparência — disse compassivamente. — Rolar pela grama não é páreo para o feitiço Laveolus da tia Gina. Não fica mais nem uma mancha de grama. James xingou baixinho. — De qualquer maneira, eu não vejo porque precisamos usar essas roupas estúpidas. Ninguém tem certeza se o casamento de um gigante é uma questão formal, não é? Hagrid diz que nós somos os primeiros seres humanos em toda história a ver uma coisa dessas. Nem ele sabe como deveríamos nos vestir para a ocasião! — Melhor prevenir do que remediar — comentou Ralf, ajustando o colarinho alto e engomado. — Especialmente com loiras grandes o bastante para te esmagar como se fosse um verme-cego. James sacudiu a cabeça. — Grope e Prechka são nossos amigos. Hmm, mais ou menos. Não nos machucariam. — Não são eles que me preocupam — disse Ralf, arregalando os olhos. — Eu estou falando sobre toda a família. E aquele rei deles! Relações com as tribos dos gigantes são delicadas mesmo no melhor dos tempos! Você me disse que eles atacaram até o Hagrid uma vez! Rosa deu de ombros. — Isso foi há muito tempo. Anime-se, Ralf. Aposto que é considerado de mau gosto matar os amigos da noiva e do noivo. — Ao menos durante a cerimônia — acrescentou Lúcia razoavelmente. Enquanto se aproximavam dos bruxos e bruxas que esperavam perto dos portões do pátio, James viu que seu pai, Harry Potter, estava em pé perto de Merlino Ambrósio, o atual diretor da Escola Hogwarts de Magia e Bruxaria. Um observador casual poderia ter
  21. 21. assumido que os dois homens estavam apenas esperando o tempo passar com brincadeiras ociosas, mas James sabia que o seu pai era mais esperto do que isso. O Potter mais velho e o diretor tinham gasto muito tempo em discussões desde a noite anterior, com suas vozes baixas, e seus olhos procurando, observando. Havia um sentimento secreto entre eles de assuntos graves e temores cuidadosamente não ditos, no ar, mesmo quando estavam sorrindo. James sabia algo sobre isso, embora ele não entendesse tudo muito bem. Ele só sabia que, o que quer que fosse, era a razão por que tudo em sua vida, de repente, desordenadamente, ficou de cabeça para baixo, como o mais indiscriminado feitiço Levicorpus do mundo. Ele suspirou com raiva, e olhou para o castelo, imerso na vista. A luz do sol refletia nas janelas e brilhava na ardósia azul das torres mais altas. Lúcia começou a caminhar ao seu lado. — É realmente uma vergonha, sabe? — disse ela, como se tivesse lido seus pensamentos. 18 — Nem me lembre — resmungou ele, num tom sinistro. — Amanhã é o primeiro dia de aula. Já perdemos a seleção ontem. Provavelmente alguém já esteja usando minha cama na torre grifinória. — Bem — replicou Lúcia cuidadosamente, — ouvi dizer que sua cama ainda tem as palavras “Estúpido Potter Chorão” gravadas a fogo na cabeceira, apesar de não brilharem mais. Então, talvez não seja tão ruim, não é? James concordou, sem gostar muito. — Para você é fácil. Não vai saber o que está perdendo. Lúcia encolheu os ombros. — De que maneira isso seria o melhor? — Esquece — disse James, suspirando. — Logo voltaremos. Meu pai disse que provavelmente após o feriado de Natal. Desta vez Lucy não respondeu. James olhou-a. Ela era dois anos mais nova, mas às vezes em certas coisas parecia mais velha, mais madura, estranhamente enigmática. Seus olhos negros impenetráveis. — Lúcia — chamou alguém, interrompendo James no momento em que abria sua boca para falar. Ele olhou para o lado e viu seu tio Percy, pai de Lúcia, se aproximando, resplandecente em sua túnica azul marinho e seu barrete. — Venha. Não podemos nos atrasar. O guia já está nos esperando. A propósito, onde você estava? Não importa, não importa.
  22. 22. Ele pôs a mão no ombro de sua filha e a conduziu para longe. Ela olhou novamente para James, com uma expressão levemente sarcástica, como se dissesse “Esta é a minha vida, não está com ciúmes?”. Percy se reuniu com sua esposa, Audrey, que olhou fixamente para Lúcia, por um segundo, registrando sua presença, e então voltou sua atenção à mulher que estava parada perto dela, vestida com uma túnica vermelha e um bastante ridículo chapéu florido com uma coruja viva que fez seu ninho nele. Molly, a irmã mais nova de Lúcia, estava parada perto da mãe delas, parecendo entediada e vagamente altiva. James gostava de Molly e dos pais de Lúcia, mesmo que os conhecesse muito menos que a tia Hermione e o tio Rony. Percy viajava muito devido ao seu trabalho no ministério e freqüentemente levava sua esposa e filhas com ele quando fazia. James sempre tinha pensado que tal vida devia ser bastante animada – viajar a lugares distantes, conhecer bruxas e magos exóticos, hospedar-se em hotéis grandiosos e embaixadas –, mas ele nunca tinha pensado que pudesse acontecer com ele. Lúcia estava acostumada, ainda que nem sempre parecesse gostar particularmente; afinal, ela acompanhava a família às viagens desde que era um bebê, desde que a haviam trazido aqui do orfanato em Osaka, mesmo antes de Molly nascer. Ela havia tido tempo para familiarizar-se com a rotina de viajar que era virtualmente tediosa. James conhecia sua prima bastante bem para saber que estivera sonhando com a coerência e a agradável previsibilidade de seu primeiro ano em Hogwarts. Pensando nisso, sentiu-se um pouco mal por dizer-lhe que a próxima viagem seria mais fácil para ela. Ao menos ele já tinha estado por dois anos em Hogwarts, dois anos de aulas e estudos, vida de dormitório e refeições no Salão Principal, mesmo se tudo isso tivesse sido preenchido com alguns eventos bastante espectaculares. E, exatamente quando Lúcia estava esperando para começar seu primeiro contato com essas coisas, tudo foi tirado de suas mãos. Ainda que, considerando-se a personalidade da menina, era fácil esquecer que ela pudesse estar provavelmente ainda mais chateada com isso do que ele. 19 — Bem-vindos de volta, James, Alvo — disse seu pai, sorrindo e desarrumando os cabelos dos garotos. James se esquivou, franzindo a testa, e passou a mão pelos cabelos,
  23. 23. penteando-se. — Muito bem — gorjeou uma voz feminina muito fina, mal escondendo a impaciência. James olhou para a frente do pequeno grupo e viu a professora Minerva McGonagall, passando os olhos por cima deles severamente. — Agora que estamos todos nominalmente presentes, devemos continuar? — Abra caminho, professora — disse Merlim com sua voz grave e retumbante, inclinando a cabeça e apontando para o bosque. — Odiaríamos fazer nossos amigos gigantes esperar, especialmente numa ocasião tão transcendental. McGonagall assentiu cortesmente, girou sobre os calcanhares, e começou a caminhar, dirigindo-se diretamente à Floresta Proibida, do outro lado do gramado. A tropa a seguiu. Pouco tempo depois, Ralf falou entre as sombras das enormes e nodosas árvores. — Acho que estamos chegando — disse, com voz tensa e os olhos muito arregalados. James levantou o olhar. O caminho se curvava ao redor do cume escarpado e, de pé sobre aquela crista, emoldurada pelas arvores, erguia-se uma figura monstruosa e irregular. O gigante tinha facilmente oito metros de alto, com braços que pareciam uma manada de porcos recheando um pé de meia e pernas tão grossas e peludas que pareciam ocupar dois terços do resto do corpo. A cabeça parecia uma pequena batata peluda equilibrada sobre o pescoço musculoso da criatura. Estava vestida com metros de pano de saco, enormes sandálias de couro, e uma capa feita de não menos que uma dezena de peles de urso. Ele estudou-os gravemente enquanto se aproximavam. — Maldição — disse Ralf com a voz alta e instável, — sabia que devia ter mandado um presente. 20 Capítulo 2 O Gwyndemere James não conseguia se lembrar da última vez que tinha sido acordado tão cedo assim. O sol era apenas uma sugestão rosa-acinzentado no horizonte, deixando o resto do céu salpicado de estrelas tremeluzentes e nuvens altas, banhado com a luz da lua. Neblina subia do terreno da escola e a grama estava tão molhada que James podia sentir isso através de seus tênis. - Bom dia, James - Isa, a irmã de Petra, anunciou alegremente, movendo-se ao lado dele
  24. 24. conforme os viajantes faziam seu caminho na escuridão do amanhecer perolado. - É emocionante, não é? - É, realmente - concordou James, sorrindo para a menina mais nova enquanto ela pulava ao lado dele, seus cachos loiros saltando em volta do rosto. Isa era um ano mais velha que a irmã de James, Lílian, mas era um pouco difícil de lembrar isso. Quando Lúcia tendia a fazer as pessoas pensarem que ela era mais velha do que realmente era, Isabela Morganstern tinha uma inocência simples que a fazia parecer um pouco mais jovem. Petra havia explicado a James e sua família que Isa tinha nascido com algum tipo de dificuldade de aprendizado, o que tinha lhe valido o desprezo de sua própria mãe e quase a condenado a uma vida de servidão maçante na mão fria da mulher. James não achava que Isa parecia exatamente lenta e tonta. Pelo contrário, era quase como se seu cérebro fosse simplesmente feliz, sem estar sobrecarregado pelo tipo de preocupação persistente que deixava a maioria das pessoas mal-humoradas e irritadas. James a invejava um pouco. 21 - Petra não queria se levantar quando tentei acordá-la - disse Isa em um sussurro teatral, balançando a cabeça em direção a sua irmã, que estava andando a alguma distância, perto de Percy e Audrey. - Ela diz que não é uma pessoa matinal. James assentiu. -Eu não sou também, geralmente. Mas isto é diferente, né? - Não é como levantar-se para um dia de trabalho na fazenda ou algo maçante como isso - concordou Isa, agarrando a mão de James e pulando alegremente. - Estamos saindo em uma grande aventura! Estamos indo para um passeio em um navio, assim como Treus. Não estamos? - Empunhai vossas varinhas e sagacidade - comentou Alvo em algum lugar atrás de James. - Certo “Treus”? - Como nós chegaremos lá, então? - interrompeu Ralf. James voltou-se para ver o garoto maior andando ao lado de Alvo, com as mãos enfiadas no bolso do seu moletom de capuz. - Chave de Portal? Eu sempre quis viajar pela Chave de Portal. Vamos nos evaporar até lá? - Você sabe quem está conduzindo essa pequena expedição, não, Ralf? - replicou James,
  25. 25. balançando a cabeça em direção à frente do grupo. Ralf olhou de esguelha. - Sim. É Merlim - disse ele, e então tropeçou quando a compreensão disso o pegou. - Aaah. Alvo olhou em frente ao diretor. - O que isso significa, então? - Isso significa que iremos caminhando - respondeu James, arregalando os dentes. - Merlim gosta de estar em comunhão com os segredos da natureza sempre que ele tem chance, você não sabe? Ralf suspirou. - Por que ele está vindo mesmo? - Simples - uma nova voz respondeu. James olhou para cima para ver o pai de Ralf, Dêniston Dolohov, andando perto, suas bochechas coradas à luz perolada que peneirava para baixo através das árvores da Floresta Proibida. - Em seu tempo, ninguém sabia nada sobre o “Novo Mundo”, embora muitos bruxos e bruxas suspeitassem da sua existência. Ele está vindo de muito longe poucos dias antes de voltar para Hogwarts. Espero que ele queira dar uma olhada e ver como é a vida do outro lado da lagoa. Seria como se um de nós viajasse para o futuro distante e nos fosse oferecido a oportunidade de visitar cidades na Lua. 22 - Isso sim seria legal - suspirou Alvo. - Muito melhor do que ser arrastado pela velha estúpida América. - Eu teria cuidado com uma conversa como essa - falou Lúcia. James olhou para o lado e a viu andando no outro lado de Isa, sua mochila pendurada ao ombro. - Entendo que os americanos podem ser ferozmente orgulhosos de seu país. Não diferindo de alguns de nós, é claro. - Bem, é fácil para nós, não é? - exclamou Alvo. - Quero dizer, nós conseguimos um monte de história e tradições para contar, que remontam a milhares de anos! Eles têm o quê? Cerca de quinze minutos e uma festa de chá? - Falando em chá - disse Ralf, esfregando o estômago, - eu preciso dar uma mordida. Como se no momento oportuno, a mãe de James recuou da frente do grupo. - Biscoitos, alguém quer? - ofereceu ela, carregando uma lata aberta. James colocou sua bolsa nos ombros e agarrou com as duas mãos. - Obrigado, mãe. - Ah! Bolacha! - exclamou Isa alegremente. - Nós dificilmente tivemos bolachas em casa!
  26. 26. - Merlino disse que um pouco de alimento é necessário para a viagem - comentou Gina, assentindo. - Afinal, temos muito a fazer e um longo caminho a percorrer. - E nós iremos andando todo o caminho? - perguntou Alvo, com a boca cheia de biscoito. - Sério? Gina acenou com a cabeça. - Merlim enviou todos os nossos baús na frente ontem à tarde. Eles estarão nos esperando no porto. Um pouco de exercício vai ser bom para você. - Talvez o ajude a crescer um pouco - sugeriu Lucy prestativa. - Hã, hã, hã, - ponderou Alvo sarcasticamente. - Então quanto tempo isso vai levar de qualquer maneira? - Sim - bufou Ralf, olhando para as árvores enquanto passavam em cima. - E se qualquer um de nós, você sabe, desmaiar de fome ou algo ao longo do caminho? - Nós estamos aqui - uma voz chamou da frente. Para a surpresa de James, ele reconheceu como pertencente a Neville Longbottom. - Todo mundo fique perto agora. Alvo hesitou. - Nós estamos aqui? - Esse é o Prof. Longbottom? - Ralph franziu a testa, intrigado. - Quer dizer, diversão é diversão, mas alguém não deveria ficar em casa para cuidar de Hogwarts? 23 James, que esteve em uma das mágicas caminhadas de Merlim a pé no passado, sorriu. Ainda segurando um biscoito em uma mão, ele correu à frente, juntando-se aos adultos perto da frente do grupo. - Oi tio Percy, tia Audrey, Molly - cumprimentou ele conforme ele passou. - Oi Petra. Bom dia. - Ele disparou passando por ela e desacelerou quando ele encontrou seu pai, Merlim, e Neville Longbottom andando na frente da tropa. Certo o bastante, enquanto James olhava ao redor, ele podia perceber que as árvores aqui pareciam diferentes. Elas não eram mais como as enormes e antigas árvores da Floresta Proibida. Eram árvores jovens, repletas de ervas daninhas e musgo, inclinando-se com o balanço do vento. O ar cheirava salgado e úmido. - Bom dia, James - disse Neville, sorrindo para ele. - Excitado? - Eu estou! - concordou James, encontrando o sorriso de Neville. - Por que você está vindo? Se você não se importa de eu estar perguntando. - O professor Longbottom veio a meu pedido, Sr. Potter - contestou Merlim, caminhando a passos longos facilmente por um caminho sinuoso e rochoso. - Além disso, até mesmo
  27. 27. os professores de Herbologia merecem férias ocasionais. Mesmo que seja um feriado a trabalho. - O pessoal da Alma Aleron me pediu para dar uma palestra - admitiu Neville timidamente. - Eu fui recomendado para seu Departamento de Flora pelo próprio Ben Franklyn. Pareceu-me uma oportunidade que não deveria perder. - Empunhem suas varinhas, todos - comentou Harry suavemente. James olhou para cima conforme as árvores finas balançavam para trás. Ele podia ver agora que estavam na periferia de uma pequena vila de pesca lotada. O céu da manhã estava baixo, pálido e sem graça, cheio de nuvens sobre os telhados. Uma fumaça taciturna era impelida com indiferença das dezenas de chaminés e as ruas estavam molhadas, os paralelepípedos brilhando tediosamente. O grupo desceu pelo caminho pedregoso e curvado, em fila indiana, até que encontraram a rua. Um velho com uma barba grisalha branca estava sentado em um banquinho perto, abaixo do toldo de uma loja de peixes. Ele empurrou a aba do seu boné com um caloso polegar enquanto o grupo desfilava. - Bom dia - pronunciou Harry Potter, alegremente. - Lindo dia para um passeio, não é? - adicionou Gina, fechando a marcha. - Povoado legal você tem aqui - gritou Alvo, virando-se e andando acanhado, sorrindo para o homem. - Soa um pouco engraçado, mas nós não vamos usá-lo contra você! Gina agarrou-o pelo braço, girando-o de volta. A rua estreita descia em uma série de desvios acentuados e ziguezagueantes, passando por casas e lojas atestadas e, eventualmente esvaziando na orla do mar. Cais, docas e 24 píeres enfeitavam o litoral, produzindo uma aborrecida silhueta contra o céu de aço. Alguns por ali estavam ocupados com botes de pesca enferrujados, outros com imaculados iates de turismo, outros ainda com gigantescos e iminentes navios de carga. Ondas verdes batiam nos cascos, açoitando-os e lambendo-os monotonamente. Merlim assobiava enquanto caminhava, levando o grupo ao longo de um calçadão deformado, passando navio após navio. Trabalhadores em casacos pesados e bonés de lã escura olhavam para o grupo que passava por ali, pasmados e de olhos bem abertos. - Em que tipo de navio iremos? - perguntou Isa, com sua voz cheia de admiração. - Será um dos grandes? - Provavelmente não é um dos grandes - respondeu Petra, com um sorriso na voz.
  28. 28. - É um navio de cruzeiro? - cismou Ralf esperançosamente. - Eles têm bufês em navios de cruzeiro. A equipe andava assim por diante. O sol finalmente começou a queimar as nuvens densas e tornou-se uma bola branca dura no horizonte, lançando seu reflexo sobre o oceano em uma longa faixa cegante. - Aqui estamos - Merlin finalmente anunciou. Tinham chegado ao final do calçadão. Estava praticamente abandonado, sombreado por um promontório rochoso e adornado com um farol muito antiquado. James ficou surpreso ao ver o velho Ford Anglia de seu avô estacionado perto do final do calçadão, o motor movimentando-se lento e suave. Alvo franziu a testa interrogativamente. - O que o carro do avô está fazendo aqui? Gina respondeu distraidamente. - Vão ajudar seu pai a descarregar agora. Depressa, todos vocês. - Descarregar o quê? - perguntou Ralf conforme ela os conduzia para frente. Merlim levantou seu cajado, que parecia estar sempre com ele, escondido em algum lugar longe da vista, apesar de seu tamanho bastante impressionante. Ele bateu-o na calçada e o porta-malas do Anglia abriu-se com um súbito ruído. - Aaah - disse Ralf, respondendo à sua própria pergunta. - Trabalho manual. - Maneiro! - exultou Alvo, correndo para frente. - Tem todas as nossas malas nele. Você o enviou na frente por si só? Ele pode dirigir sozinho? - Foi seu avô que o ensinou essa habilidade especial - respondeu Merlim, sorrindo. - Quanto mais aprendo sobre ele, mais eu fico impressionado. Coloquem as malas aqui na beira da praia, se quiserem. Vou alertar o mestre do porto da nossa chegada. - Mas onde está o barco? - James perguntou, olhando ao redor do desértico cais. 25 Merlim ou não ouviu ou preferiu não responder. O velho bruxo caminhou pesadamente até a torta e curva escada que levava à porta do farol. - Peguem isso, homens - gritou Harry amigavelmente, chegando ao porta-malas e puxando fortemente um dos baús. Tal como acontecia com muitos espaços bruxos, o porta-malas era muito maior dentro do que parecia por fora. Finalmente, James, Alvo e Ralf situaram-se próximos a uma torre de baús, malas, e caixotes empilhados precariamente. - Ainda bem que eu comi aquele biscoito - Ralf respirava, enxugando a testa. - Merlim tinha razão. Viajar é um trabalho duro. James deu uma olhada para o farol, olhando para ver o que o diretor estava tramando.
  29. 29. Enquanto observava, uma pequena porta no lado do farol abriu. Merlim saiu a passos largos, de cabeça baixa enquanto ele atravessava a escada estreita e inclinada. - Segurem firme, todo mundo - anunciou ele. - Preparem-se para subir a bordo. Atrás dele, uma nota tensa, mas baixa, de repente soou, proveniente da casa de luz do topo do farol. Era um som singular solitário, ecoando longa e profundamente sobre a água. James reconheceu como o som de uma sirene. Quando o som finalmente desapareceu, perseguindo seus ecos sobre as ondas distantes, um feixe de luz surgiu a partir do decrépito farol. Gina ofegou ao brilho dele conforme foi lançado na manhã sombria, parecendo estender-se até a linha do horizonte. Lentamente, o feixe começou a virar. James tropeçou. Agarrou-se e apertou um punhado da camiseta de Ralf, só então percebendo que Ralf estava cambaleando também. Ambos os garotos se encostaram fortemente contra o Anglia. - O que está acontecendo? - chamou Alvo. - Permaneçam firmes, marinheiros de água doce - o tio Percy riu, segurando sua esposa Audrey e sua filha Molly. - Vocês não tem pernas para o mar ainda. - Olhem - anunciou Lúcia, apontando para o feixe do farol. James observou. Estranhamente, parecia que o feixe estivesse, contra todas as probabilidades, conservando-se perfeitamente imóvel. E era o próprio mundo que era rotativo, puxado em torno de um eixo liso e longo pela âncora do feixe no centro do foco. - Ali - informou Harry. - Nosso navio parece estar chegando. James seguiu o olhar de seu pai e viu um longo barco elegante aparecendo em torno do promontório rochoso. Como o feixe de luz, o navio parecia estar parado perfeitamente enquanto o oceano agitava-se em baixo, enviando suas ondas até debaixo da proa e transformando-os em espuma salgada. O navio era longo e elegante, com um casco de 26 madeira polida manchado com marrom profundo, adornado com brilhantes escotilhas de bronze e uma série de mastros altos e complicados e uma única chaminé negra sobressaindo acima do centro. Letras brancas pintadas ao longo da proa proclamavam o nome do navio: « GWYNDEMERE » Pesadamente, o píer angulou em direção ao navio até que apontava diretamente para ele. Havia figuras se movendo no convés do navio, gritando uns com os outros e se encarregando das cordas do navio. James sorriu amplamente quando um dos marinheiros jogou um pedaço de corda pelo costado do navio, desaparatou do convés e,
  30. 30. em seguida re-aparatou no píer segundos depois pegando a corda que caia nas pranchas. Ele a enrolou em torno de uma amarração industrial de ferro, ancorando o Gwyndemere à costa. Com isso feito, o feixe de luz deixou de girar e desligou. James tropeçou mais uma vez conforme o mundo parecia tremer em seu lugar. - Todos a bordo - repôs Percy, caminhando a passos largos para o cais, agarrando o chapéu para a cabeça, quando o vento aumentou. - Temos um cronograma a ser seguido. Merlim assentiu em aprovação, e depois inclinou-se para a janela do Anglia no lado da direção. Ele parecia dizer alguma coisa para o veículo, e deu uns tapinhas de forma leve, e recuou quando ele começou a andar. Ele realizou uma curva de ré até o final do calçadão, e em seguida, seguiu serenamente embora, com as janelas refletindo o céu baixo. - Espero que eu tenha embalado meias o suficiente - comentou Ralf, observando o Anglia ganhar distância. - Eu odeio ficar sem meias. - Aposto que eles têm meias nos Estados Unidos- respondeu Alvo, batendo o garoto maior no ombro. - Vamos arriscar, né? James sorriu e seguiu a sua família para o cais, desfrutando o som das ondas e a brisa nublada. Gaivotas circulavam sobre a cabeça e pousavam sobre as ondas em torno do navio, onde flutuavam como rolhas. Mais marinheiros aparataram no cais, movendo-se economicamente para a pilha de bagagem, que começavam a arrastar em direção ao barco. Uma passarela apareceu, íngreme e estreito, ligando o navio até ao fim do cais. James não podia ter certeza se aquela passarela tinha surgido para fora do cais ou tinha se estendido para baixo do navio. Qualquer opção parecia provável. Ele correu para frente, perseguido de perto por Lúcia, Isa e Petra, que estava rindo com prazer. 27 Uma vez a bordo, James olhou ao redor maravilhado. Do convés, o Gwyndemere parecia ao mesmo tempo enorme e acolhedor. Sua proa e popa do deque eram separadas por dois caminhos recessos, um de cada lado do barco, acessados por uma escada na frente e atrás. As passagens anexavam uma guarita alta, longa, que dominava o centro do navio, capitaneado de frente para o leme. James podia ver os homens em jaquetas e bonés brancos, movendo-se de lá para cá ativamente. Uma das enormes rodas do navio girou
  31. 31. suavemente para trás e frente conforme as ondas abalavam o barco. - Isso é tão legal - disse Ralf, aproximando-se de James. - Eu nunca estive em um barco antes. Você acha que um navio mágico é diferente dos navios normais? - Você está perguntando a pessoa errada, Ralf - comentou Alvo. – Isso é tão novidade pra nós quanto para você. Pergunte ao tio Percy se você quiser uma resposta real. Ou, de fato, à prima Lucy, sobre esse assunto. - Eu só viajei de barco uma vez, acredite ou não - disse Lúcia, puxando seu cabelo para trás em um rabo de cavalo. - E era um muito menor do que este, em uma viagem para a Grécia. - Vocês já viram a galeria de jantar? - chamou Petra das escadas do nível mais baixo. - O café da manhã está pronto, e é perfeitamente lindo! Venham se juntar a nós! - Eles têm pães de groselha! - acrescentou Isa importantemente, levando as mãos à boca em forma de buzina. James, Alvo, Ralf e Lúcia correram para as escadas e mergulharam em uma entrada na parte inferior, que se abria para uma sala comprida e baixa, com janelas de cada lado, deixando entrar a tênue luz da manhã aquosa. Duas longas mesas dominavam a sala, rodeadas de ambos os lados por cadeiras de madeira giratórias. Talheres, copos de cristal, pratos de porcelana, sopeiras prateadas fumegantes e travessas estavam espalhadas sobre as mesas. - É disso que eu mais gosto! - exclamou Ralf, retirando seu moletom nos cantos mais quentes. Ele caminhou pela mesa mais próxima e sentou-se ao lado de seu pai, que já estava mexendo uma xícara de chá. - Aproveitem enquanto vocês podem amigos - proclamou Dêniston Dolohov. - Isto é o que é viajar em falciforme do Ministério - Além dele, o resto dos adultos estava tomavam seus assentos também, suspirando feliz e removendo suas capas de viagem e chapéus. - As cadeiras são aparafusadas ao chão - falou Alvo, girando sua cadeira experimentalmente. 28 - Em caso de tempestades, - assentiu com a cabeça Lúcia, falando em torno de um bocado de bolo. - não pode ter tudo batendo em todo o lugar se o mar ficar agitado. Ralf olhou para cima, com a testa franzida. - É provável que isso aconteça? Você acha? Lúcia deu de ombros. - É o oceano Atlântico. Estar agitado é uma espécie de hábito.
  32. 32. - Principalmente nesta época do ano - concordou Alvo, atingindo um prato de torradas. James assentiu gravemente. - Pode ser que tenhamos que passar por um furacão ou dois. Além de icebergs. - E monstros marinhos - acrescentou Isa sabiamente, encontrando os olhos de Lílian e sufocando um sorriso. - Uma lula gigante, com tentáculos como bondes! - Ah - disse Ralf, revirando os olhos. - O sarcasmo, então. Eu vejo como é. - Não se preocupe, Ralf - acalmou Petra. - Trouxemos Merlim conosco. Se algum dos monstros do mar no atacar, ele vai apenas convencê-los a se juntar a nós para a viagem. - Ou vencê-los e cozinhá-los para jantar - disse Lílian, sorrindo abertamente. Um pouco mais tarde, James tinha acabado o seu café da manhã e descobriu que ele estava muito animado para ficar sentado por mais tempo. Os adultos seguiram caminhos abaixo do convés para explorar suas cabines, enquanto a maioria das crianças voltavam para o convés da proa para apreciar o sol iluminando e a marca espumosa da proa sobre as ondas. - O que está nos fazendo mover, eu me pergunto? - perguntou Isa, olhando para cima para os mastros. James olhou também, percebendo que todas as velas estavam enroladas rigorosamente, amarradas a postes em feixes arrumados. - Boa pergunta - concordou Alvo, franzindo a testa. - Eu acho que nós estamos conseguindo força de alguma forma. Olhe para a chaminé. Efetivamente, um fluxo constante de fumaça negra era expedido do alto do funil preto da chaminé. James escolheu os ombros, voltando à vista para o mar. - Carvão, vocês acham? - ponderou Ralf. - Eu não esperava isso. - Talvez seja um tipo de fogo mágico - respondeu Lílian razoavelmente. - Aquele que não necessita de qualquer combustível ou qualquer outra coisa. Lúcia assentiu. 29 - Como faísca de duende. Isso faria sentido. Ventos sopravam sobre o navio, empurrando a partir do oceano e chicotando o cabelo de James em torno de sua cabeça. Ele mostrou os dentes com um sorriso aberto, e então virou-se e inclinou sobre o parapeito, olhando em direção à costa, que se afastava silenciosamente ao lado do navio. O Gwyndemere passava por outras docas e píeres ainda, e James observou dezenas de barcos agrupados ao longo da margem, estonteantes em seus tamanhos e variedades. Os trabalhadores se aglomeravam entre eles, movendose no cais e rampas, em silêncio à distância. Finalmente, o Gwyndemere começou a
  33. 33. angular de distância da costa, e os cais e navios de carga enormes começaram a crescer no nevoeiro fraco da manhã. Um apito soou alto. James ergueu os olhos para cima e viu um homem no que parecia um balde de madeira, anexo ao mastro principal. O apito sobressaía por entre seus lábios e segurava a um olho, um longo telescópio desmontável. Conforme James observou, o homem abaixou o telescópio e cuspiu o apito, que oscilava em torno de seu pescoço em um comprimento de corda. - Agora, saindo da zona continental trouxa - ele gritou. - Entrando em águas internacionais de domínio mágico. Um marinheiro, assobiando alegremente, passou atrás perto dos cinco viajantes onde eles se reuniam perto da grade. James virou-se para ver quando o homem se inclinou, agarrou a manivela de um portal grande do deque, e soltou-o, abrindo. - Tudo bem, Dodongo, você ouviu o homem - disse o marinheiro, falando para dentro da escuridão por baixo do convés. - Ponha isso para fora agora. Não me faça descer ai. James e o resto desviaram o olhar do marinheiro e olharam para baixo, para as sombras. O interior do porão era enorme, ocupando a maior parte da proa do barco. Escotilhas iluminavam uma forma enorme, peluda, que descansava no porão, tendo a maior parte do espaço. James piscou em choque. A criatura era como um gorila, mas crescido monumentalmente em proporções titânicas. Seu grande rosto marcado podia ser visto pela escotilha aberta, sugando seus lábios, pensativo. Seus pés agarravam os pedais de um mecanismo complicado de latão, girando-o facilmente. O mecanismo, por sua vez, operava um eixo de acionamento que se estendia através da parte de trás do porão, aparentemente conduzindo a hélice do navio. Para a crescente surpresa de James, o macaco gigante parecia estar fumando um charuto igualmente gigantesco, soprando fumaça preta através de um tubo em forma de funil. - Escolhi-o anos atrás - explicou o marinheiro, plantando suas mãos em seus quadris e balançando a cabeça. - Encontramos o errante em alguma ilha perdida no Pacífico sul. Alguém teve a idéia pirada de que ele seria uma grande atração no continente, fazendonos todos milionários. O problema era que, uma vez que nós o colocamos a bordo, ele 30
  34. 34. nunca quis sair. Você conhece a velha piada sobre o local onde um gorila de trinta mil libras se senta, certo? Onde quer que ele sangre bem é agradável. James, Ralf, Izzy, Alvo e Lúcia olharam para o marinheiro e para o enorme gorila novamente. Dodongo pedalava feliz, produzindo ruídos uuc gentis consigo mesmo e fumando seu charuto monstruoso. - Olá! - chamou o marinheiro de novo, colocando as mãos à boca como buzina. - Eu disse para você colocar essa coisa para fora, não disse? É a última vez que nos embarcamos até Bordeaux. O que mais você vai usar para a fumaça falsa da chaminé, ãnn? As cascas de banana? - Eu acho que - Lúcia disse com uma voz pequena, - há um pouco de diferença entre um navio trouxa e um navio mágico. A primeira etapa da viagem oceânica progrediu rapidamente. James explorou o barco com seus companheiros de viagem, encontrando a galeria de cozinhas, o porão de armazenamento de popa, uma dúzia de pequenos, mas meticulosamente elegantes camarotes, e até mesmo o quarto do capitão, o qual a tripulação de bruxos e bruxas adolescentes (até Isa) tinha invadido por acidente enquanto perseguiam uns aos outros pelos corredores estreitos. Os aposentos do capitão estavam na parte traseira do navio, acima do porão, cercados com um círculo de janelas que dava para olhar a ebulição do barco. Teria sido um lugar muito interessante para explorar, com seus mapas emoldurados, lanternas de latão, estantes cheias de curiosos instrumentos náuticos e artefatos, exceto pelo fato de que o próprio capitão estava ali, olhando para cima de sua mesa com uma mistura de aborrecimento e paciência cansada. James tinha pedido desculpas rapidamente e formalmente tanto quanto ele sabia, saindo da sala e pastoreando os outros atrás dele. A maior parte dos dias, porém, foram gastos em cima do convés, folgando sob o sol nebuloso e bisbilhotando os tripulantes gerindo o aparelhamento complicado do navio. James estava apenas ligeiramente surpreso ao saber que os marinheiros cantavam refrões enquanto trabalhavam, levantando o volume de suas vozes em uníssono para o som transitar todo o convés, claro e alegre nos ventos que lufavam. - Então - falou Alvo, encostado na grade alta da popa, - eu me pergunto se essa é a popa? Isa soltou um riso tonto, mas Petra revirou os olhos.
  35. 35. - Essa piada não foi engraçada na primeira vez, Alvo. Não tem como ficar melhor com o tempo. 31 - Eu não estou brincando - replicou Alvo, erguendo as sobrancelhas com ingênua inocência. - Eu estou apenas fazendo uma pergunta. Cada navio tem uma popa. É um fato conhecido. Eu só estou tentando fazer isto uma experiência educacional. - Sim - assentiu Lúcia. - Por que isso é tão sua cara. - Eu gosto das músicas - disse Ralf, olhando para os mastros enquanto um par de tripulantes escalava e pulava, cantando em harmonia. James não pôde deixar de notar que as velas ainda estavam arriadas, amarradas ordenadamente para os estranhos mastros articulados. Alvo sorriu com satisfação. - A mãe diz que as músicas são agradáveis, contanto que você não escute as palavras reais. - O que só faz você prestar atenção ainda mais - James concordou. - Eu particularmente gosto de uma sobre os piratas antigos mortos lutando por um dobrão, cortando fora pedaços de si até que não sobrou nada além de um monte de mãos esqueléticas saltitando e segurando cutelos. - Muitos delas parecem ter um tema semelhante - inquiriu Petra. - Têm um monte de piratas mortos, barris de rum, malditos tesouros perdidos, esse tipo de coisa. - Eu ouvi Merlim e papai falar sobre isso na hora do almoço - disse Alvo, baixando a voz conspiratoriamente. - Merlim diz que desde que a Polícia Internacional Mágica acabou com a pirataria mágica, um monte de piratas tiveram de recorrer a um trabalho mais honesto. A maioria deles tem empregos em navios como este. Aposto que estes gajos são todos corsários! Vocês acham? Ralf olhou de esguelha para os homens nos mastros. - Eu teria esperado mais pernas de pau e papagaios - o garoto encolheu os ombros. Alvo revirou os olhos. À medida que a tarde avançava, Petra e Isa desceram no convés para tomar um chá e abrir seus baús. Alvo perambulava em busca de marinheiros na grade para crivá- los de perguntas sobre suas nefastas vidas anteriores, e James, Ralph e Lúcia andaram pelo caminho para a proa, onde encontraram o pai de James, o professor Longbottom, e Merlino Ambrósio observando o mar e conversando. - Vocês viram o grande gorila? - James perguntou quando os adultos os cumprimentaram.
  36. 36. Harry acenou. 32 - O capitão nos levou para encontrá-lo. Ele é muito inteligente. Gosta de pipoca. Aparentemente, ele é o principal modo de propulsão em direção a terra para terminar o trajeto. - O capitão diz que o impede de ficar gordo e preguiçoso - acrescentou Neville, sorrindo. - Vocês conheceram o capitão também? - Lúcia perguntou, olhando com concentração para os homens. - Ele é um veterano da Marinha bruxa - respondeu Neville. - E um parente distante meu. Conheceu meus pais, na época quando eu era um bebê. Eu não o vi nas últimas décadas, e ainda assim, é bom se conectar com a velha rede da família. Ralf olhou de soslaio de Merlim a Harry Potter, e então perguntou: - O que vocês estão procurando? - Sinto o cheiro da terra - Merlim respondeu suavemente. - Eu acho que nós estamos quase atingindo o destino de hoje. James piscou. - Já? Nós estamos lá? - Rapaz - comentou Ralf, olhando para fora sobre as ondas, - mágica torna o mundo um lugar minúsculo. - Ele não quer dizer que já chegamos à América, bobo - disse Lúcia, rindo. - Vamos parar em um porto ao longo do caminho. - Para quê? - perguntou James. - Para pegar mais passageiros - explicou Harry, tirando os óculos e limpando a névoa do mar a partir deles com a manga de suas vestes. - E diminuir a carga, adquirir materiais e alimentos, e nos equipar para a parte transatlântica da viagem. - Você quer dizer - disse Ralph, esclarecendo - que nós navegamos todo o dia, e nós não chegamos ainda à parte transatlântica? - O oceano é um lugar monstruosamente grande - expôs Merlim, sorrindo, com a barba balançando ao vento. - Isso nos dá uma desculpa para não fazer nada durante um dia ou dois. Aproveite isso, Sr. Deedle. Em breve, o ritmo da vida vai nos pegar de novo. James olhou para Ralf com expectativa. - Você ouviu o diretor? - cutucou ele delicadamente. Ralf olhou para ele e depois revirou os olhos. - Sim, sim. “Monstruosamente” grande. Olha, eu não sou um bebezão. Você pode parar de tentar me dar pesadelos. 33 - Eu tinha ouvido dizer que o oceano era “bestialmente” enorme, disse Lúcia, - mas “monstruosamente” é ainda melhor. Lembra-me aqueles velhos mapas xilográficos cobertos de serpentes do mar e krakens e assim por diante.
  37. 37. - É a terra ali? - perguntou Neville de repente, inclinando-se sobre os trilhos e apertando os olhos. Merlim assentiu. - Pode muito bem ser. Vocês podem sentir o cheiro, não podem? As árvores, a areia... - Nem todos são tão sensíveis a essas coisas como você, diretor - respondeu Harry, balançando a cabeça. James encostou-se ao corrimão e contemplou a distância. O céu tinha crescido claro e sem nuvens conforme o dia avançava. Agora, como o sol baixou, a clareza do ar fez o horizonte parecer algo que ele poderia quase chegar e tocar. A proa do navio rebotava ritmicamente sobre as ondas, enviando rajadas de finas gotas de onda. Além dele, situado na borda aquosa do mundo como um inseto em um peitoril da janela, estava um minúsculo vulto preto. - O que é aquilo? - perguntou Lúcia, protegendo os olhos. - É outro barco? Ninguém respondeu. Gradualmente, a forma cresceu conforme o Gwyndemere aproximou-se, diminuindo a velocidade de forma quase imperceptível. Para James, começou a parecer como o topo da cabeça de um gigante, bordado com franjas de cabelos desgrenhados, debruçando-se além do horizonte. Ele observou, paralisado, quando a forma finalmente se desmistificou como sendo o contorno inconfundível de uma ilha pequena, pouco maior que o jardim dos fundos da casa da família Potter em Arco de Mármore. Uma estreita praia de areia branca cercava a ilha, abrangendo um mato crescido e ervas selvagens. No centro, meia dúzia de árvores atrofiadas balançava em lentidão. Conforme o Gwyndemere diminuiu a marcha, chegando de uma curta distância da pequena ilha, James ficou chocado ao ouvir uma voz gritar a partir da sombra das árvores. - Um navio! - gritou a voz. - Oh, graças a Deus, um navio! Finalmente! Um homem tropeçou para fora da praia e saltou para cima e para baixo, acenando com um pedaço de madeira balançante na mão. O homem era muito magro e descontroladamente sujo, com o cabelo e a barba crescidos até proporções quase cômicas e com vestes brancas desbotadas. - Hurra! - ele gritou. - Minha mensagem que mandei em todos os odres velhos não foram em vão! As gaivotas riram de mim, elas fizeram! Me disseram que era tolice esperar, mas eu mantive a fé! Eu sabia que um dia minha estada longa, longa, viria um... oh, é você - disse ele, sua voz caindo nas últimas três palavras. 34
  38. 38. - Eioooô, Roberts! - gritou um dos marinheiros no cesto da gávea. - Tudo está claro ao longo do período de bússola. Tudo limpo até onde a bússola alcança. O capitão Ash Farragut solicita desembarque. - Permissão concedida - o outrora náufrago respondeu mal-disposto, virando e caminhando de volta para as árvores. Sua voz foi facilmente transportada sobre a rebentação das ondas quando ele murmurou – Me diz que tudo está claro ao longo do período de bússola. Como se eu não tivesse ficado sentado aqui o dia todo mantendo vigia. É meu trabalho, afinal, não é? James observava com fascínio enquanto o homem desalinhado parava embaixo de uma das árvores e bateu com sua errante bengala nos troncos. - Mestre do porto, Roberts, relatando a chegada do Gwyndemere, o capitão Farragut no comando, com o complemento parcial de passageiros, mercadorias e de carga. Quarenta minutos atrasado também, a menos que o sol seja um mentiroso. - Ah, chegamos ao porto - disse com alegria uma voz atrás de James. Ele fitou com o rabo do olho para trás para ver seu tio Percy vestido com um manto de viagem e chapéu-coco combinados.- Aquapolis para passar a noite, senhoras e senhores. Será a última vez que avistemos terra até o fim da viajem. Eu vou dizer aos outros. James olhou de esguelha de seu tio para Ralf e Lúcia. - Algum “porto” é isso? Eu nem tenho certeza que vamos caber todos lá em baixo. - Você está certo - concordou Ralf. - Se é a mesma coisa para todo mundo, eu acho que vou ficar aqui no navio durante a noite. - Muito inteligente do mestre do porto desempenhar o papel de um sobrevivente de naufrágio - comentou Lúcia apreciativa. – Mas apenas no caso de um navio trouxa aparecer no lugar. James olhou de novo para o homem na terra, com a testa franzida. - Como você está certa de que ele está realmente fazendo o papel? - Uau - falou Ralf, de repente, agarrando o corrimão com uma mão. - O que foi isso? - O que foi o quê? - perguntou James, e depois engasgou quando ele sentiu o mesmo. O barco estava tremendo muito fracamente, como se mil punhos estavam batendo no casco. Um som acompanhou a sensação, uma espécie de baixo tambor, profunda e ampla. - Está tudo certo - replicou Neville, embora um pouco nervoso. - De alguma forma, eu acho que isto é suposto de acontecer. - Não está acontecendo apenas no navio - gritou Lúcia, apontando. - Olhe para a ilha! 35
  39. 39. James olhou. As folhas das árvores estavam tremiam ligeiramente. Um grande fruto amarelado caiu de uma das árvores e rolou até parar na areia branca. Estranhamente, parecia haver muito mais areia do que deveria ter tido. Era como se a praia estava se expandindo ao redor da ilha, crescendo mais a cada vez, empurrando para trás as ondas. O homem sobre a orla parecia estar completamente imperturbável pelo fenômeno. Ele andou a passos lentos ao longo de uma grande pedra escura, chegou por trás dela e pegou uma prancheta, que ele consultou criticamente. - Eis - proclamou Merlim, elevando o queixo contra o crescente vento. - As maravilhas da cidade perdida. Eis Aquapolis, a mais grandiosa das sete cidades do continente de Atlântida. Lentamente, a ilha se levantou, empurrada para cima por uma grande plataforma de pedra. Os cimentos aumentaram conforme era elevada, como se a ilha fosse apenas o mais alto pico de uma montanha submarina enorme. Água trovejou nas faces amplas de penhascos, transcorrendo para fora de dezenas de penhascos e cavernas profundas. James assistia, estarrecido, enquanto o pedaço de terra crescia, estendendo grandes braços de rochas para abraçar o Gwyndemere, criando uma baía em torno dele. Formas regulares se tornaram visíveis quando eles foram empurrados para cima através das ondas: primeiro telhados pontiagudos, cúpulas, torres, e depois as monumentais colunas de pedra, arcos e colunatas. Elevadas pontes e escadarias cruzavam a montanha, ligando todas as estruturas e envolventes pátios amuralhados, estátuas antigas e brilhantes e coloridos jardins de coral. Luz do sol resplandecia sobre a cidade uma vez que se revelou, refletindo como se fosse de inúmeras jóias enormes. Com uma emoção de admiração, James percebeu que as coisas brilhantes não eram joias na verdade, mas janelas e portas de vidro, montadas em estruturas de cobre finamente trabalhadas. As janelas brilhavam como um arco-íris conforme a água do mar fluía por baixo deles, cintilando de cada abertura de porta e, de entre todos os pilares e colunas, fechando completamente a cidade em ondulações brilhosas e salgadas. - Eu já ouvi falar deste lugar - disse Harry Potter, colocando a mão no ombro de seu filho,
  40. 40. - mas eu nunca imaginei que seria assim. - As outras seis cidades da Atlântida são como essa também? - perguntou Ralf numa voz reverente. Merlim suspirou melancolicamente. - Infelizmente, a Aquapolis é a única sobrevivente da grande República. Os outros já há muito estabeleceram suas sepulturas aquosas, tendo esgotado a sua magia conforme suas populações diminuíram atraídas pelas terras firmes. Esse é o curso da história. Todas as grandes coisas, mesmo as mais maravilhosas, devem cumprir os seus fins. 36 - Você viu isso? - gritou Alvo repentinamente, agarrando o ombro de James e sacudindo-o com entusiasmo. - Você a viu subir fora d’água? - Foi muito difícil perder, Al - riu James, girando. - Onde você estava? - O primeiro oficial me levou até a casa do leme para assistir dali! - exclamou Alvo, com uma emoção transbordante. – Eu, Petra e Isa. Mamãe e Lil também! Foi tão incrível quanto ver alguém sangrando! - Não diga isso - repreendeu Gina suavemente, na seqüência de Alvo em todo o convés com os outros ao seu lado. - Mas foi, realmente. Eu não tinha idéia. - Bem - anunciou Harry pomposamente, voltando-se para encarar os viajantes, - todos em terra, quem está terra! James sorriu abertamente e se virou para olhar para trás na ilha grande novamente. Suas inúmeras janelas brilhavam moderadamente enquanto o sol baixava, pintando a cidade num tom bronze e dourado. Um grupo de homens em túnicas pulcras vermelhas estava pilotando uma balsa em direção ao Gwyndemere, aparentemente preparado para o transporte de todos a bordo de sua residência durante a noite. - É lindo, não é? - disse Gina, suspirando. - Quase faz toda a viagem valer a pena. James sorriu para sua mãe. No momento, sem saber o que ainda estava por vir, concordava com ela completamente. James estava em sua cama e ficou olhando para o teto baixo, incapaz de dormir. Os alojamentos de Aquapolis eram limpos, ornados, e bem mantidos, mas muito, muito antigos. A cidade inteira, tão espetacular como era, cheirava úmido vagamente, que era, claro, perfeitamente compreensível. O tio Percy, que aparentemente sofria de alergias de mofo, tinha tido um momento bastante difícil, especialmente quando a noite havia se estabelecido e a cidade mais uma vez havia afundado em seu habitat aquático.
  41. 41. Eventualmente, a tia Audrey tinha pedido uma de suas hospedeiras atlantes, uma bonita e jovem mulher rechonchuda com cabelos negros e espessos e pele cor de oliva, se Percy poderia ter uma determinada marca de chás medicinais. A mulher, cujo nome era Mila, tinha tomado um olhar para o nariz vermelho e os olhos de Percy, e voltado minutos depois com um copo vazio e um pequeno bule fumegante. Após beber o conteúdo da vasilha, Percy não espirrou ou fungou mais, no entanto, se manteve em um estado de ânimo meio que irritado durante toda a noite. Merlim, como sempre, foi tratado com grande alarde em cima de sua chegada na cidade, mesmo quando ele desembarcava da balsa com James e Ralf ao seu lado. Homens em longas túnicas brancas e bengalas curiosamente esculpidas se encontraram com eles 37 sobre os degraus do salão de recepção da cidade, que era cortado diretamente da pedra da montanha. Enquanto os líderes da cidade e Merlim trocavam cumprimentos formais, Lúcia e Alvo tinham pegado James e Ralf, e todos os quatro ficaram olhando com admiração indisfarçável. A água ainda corria pelo chão de mármore intricadamente estampado e pingava do alto teto arqueado, e James entendeu que o salão de recepção, grande como era, estava preenchido com água do mar a maior parte do tempo. Uma grande coluna de pedra dominava na entrada para aquele recinto, coroada com uma estátua monumental de um mago barbudo em vestimenta estilo toga, segurando um cajado na mão esquerda e a mão direita levantada, pressionada na base de um dos suportes abobadados do teto, como se ele estivesse segurando-o no alto. - Soterios - havia dito Lúcia, lendo a inscrição no pedestal da estátua. - O herói de Atlântida. Ele foi que unificou o povoado mágico de Atlântida e criou a rede de magia que manteve intactas as cidades, inclusive quando suas fundações sofreram a erosão. Eu li sobre ele na biblioteca mágica em casa. “Poios Idryma sozo párr magica dia magikos”. - O que isso significa? - Alvo tinha perguntado, caminhando ao redor da coluna para ler a inscrição. Isa, Lily e Petra tinham ficado fora da balsa até agora e se juntado aos outros perto da base da estátua. Petra tinha olhado ensimesmada para as antigas palavras. - Significa, “que salvou as bases da magia, com magia”.
  42. 42. - Então - tinha dito Ralf lentamente, - todo este lugar se mantém unido por meio, do quê...? Petra havia encolhido os ombros. - A vontade coletiva mágica das bruxas e bruxos que vivem aqui. - Faz sentido, na realidade - Lúcia tinha comentado. - Afinal, foram os gregos que inventaram o conceito de democracia, que é exatamente a idéia da cidade que possui o apóio das pessoas que nela vivem. Entretanto, isto leva a um nível bastante novo. Ralf tinha sacudido a cabeça e olhado em torno dos colossais tetos escuros. - Eu não sei sobre o resto de vocês, mas estou um pouco duvidoso sobre a idéia de força de vontade como alicerce estrutural. - É porque você está pensando em sua força de vontade - tinha inalado Lúcia. - Está parado por séculos, Ralf - dissera Alvo, encolhendo os ombros. - O que poderia acontecer? Ralf tinha olhado profundamente para Alvo e, em seguida, para Merlim, que ainda estava conversando com os anciãos de Aquapolis a alguma distância. 38 - Eu não sei - ele tinha respondido. - Por que você não pergunta as outras seis cidades da Atlântida? Mais tarde, quando o sol tinha se posto no horizonte em meio a um caldeirão ardente de nuvens coloridas, um ancião atlante chamado Atropos tinha pego os viajantes para um passeoio pela cidade, levando-os ao longo de amplas e panorâmicas escadas e pontes, guiando-os através de enormes colunatas, passando por ornamentados jardins oceânicos, estátuas e extensos arcos. Na miríade da cidade, enormes janelas tinham sido abertas majestosamente, deixando entrar a brisa fresca do oceano. - A cidade se manteve praticamente inalterada desde a sua descida para as profundezas - tinha explicado Atropos. - Quando as águas começaram a subir, os nossos antepassados tiveram suficiente advertência para projetar e construir um sistema de válvulas de cristal herméticas, o que todos vocês podem ver ao nosso redor. Elas são praticamente inquebráveis, e são reforçadas por uma alquimia única que as torna menos frágeis. - Para ilustrar, Atropos se aproximara de uma das janelas altas de cobre moldado que ficava entre um conjunto de colunas de hercúleas. Inclinou-se sobre o cristal com uma mão e, em seguida, suavemente aplicou o seu peso. Em vez de quebrar, o cristal lentamente dobrou em torno de sua mão, quase como se fosse uma enorme bolha de sabão muito,

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