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do chá foi feito por Nampo Jomyo em 1267. Naquela época, os chawans mais utilizadospelos shoguns japoneses eram produzidos...
outros segmentos sociais. Em boa medida, os chawans Temmoku carregam estesignificado até os dias de hoje.           Os gra...
chinesa de tons esverdeados que, seguindo a moda do vestuário, foram aclamadostambém como Celadon.             A tradição ...
influências chinesa e coreana tenham sido determinantes para o avanço da cerâmicajaponesa, a partir de então os ceramistas...
que significa "tranquilidade") foram se diversificando e continuam sendo produzidasainda hoje. No ocidente, o termo Raku é...
O chawan é um dos objetos que integram a cerimônia do chá e, como tal,tem uma função utilitária -é nele que o chá verde (m...
do chawan, é fundamental ter em mente tanto a sua função utilitária como a ritual,preocupação dispensável nos wans destina...
cm. A preparação do chá no chawan requer boa estabilidade e, neste sentido, muitaatenção deve ser conferida à base e ao pé...
Muitos chawans recebem esmaltes plúmbicos, como os do tipo Raku eSansai (três cores), que normalmente não são recomendados...
simples tigela. Formas semelhantes a um chawan surgiram em praticamente todas associedades cerâmicas, mas a cultura japone...
Embora a cerimônia do chá tenha contribuído para a propagaçãointernacional da cerâmica japonesa, é importante notar que é ...
obras tanto de um quanto de outro eram bastante altos e equivalentes, destinados aum grupo seleto de colecionadores e afic...
Phaedon, 1995.HARRIS, Victor. Jomon Pottery in Ancient Japan IN FREESTONE, Ian e GAIMSTER, David.Pottery in the Making: Wo...
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O que é uma chawan? Akira Umeda 2002

  1. 1. O que é um chawan? Akira Umeda 2002 Desde a época mais remota, objetos destinados a conter alimentos ebebidas são produzidos e utilizados em todas as culturas. Dentre eles, os de cerâmicacompõem um grupo bastante expressivo. Segundo Harris, os mais antigos fragmentosde cerâmica identificados até o momento foram localizados em Fukui, no Japão,datando de aproximadamente 12.700 a.C. As transformações sociais, econômicas e tecnológicas ocorridas desdeentão afetaram profundamente a cerâmica japonesa. Ao mesmo tempo, estes milêniosconsolidaram a cerâmica como uma das grandes tradições do Japão. Assim, existemobjetos cujas formas atingiram seu padrão de excelência já a partir do século XIII e quecontinuam sendo produzidos ainda hoje com muito poucas alterações. O chawan, emseus diversos estilos, é um destes objetos. O hábito de consumir o chá verde em pó (matcha) foi introduzido no Japãopelos monges que se dedicavam aos estudos da filosofia Zen nas proximidades doMonte Tianmu (conhecido no Japão como Monte Temmoku), localizado na provínciachinesa de Zheijiang. Nos monastérios, o chá era apreciado pelas suas propriedadescurativas e estimulantes, sendo bebido em utensílio apropriado chamado chawan, quesignifica, literalmente, tigela (wan) para chá (cha). Com o crescimento da influência doZen Budismo, o gosto pelo chá difundiu-se pelos vários segmentos da sociedadejaponesa, passando a ser consumido em cerimônias que, com o passar do tempo,foram codificadas pelos mestres que as coordenavam. Segundo Shimizu, o primeiro relato acerca dos utensílios para a cerimônia
  2. 2. do chá foi feito por Nampo Jomyo em 1267. Naquela época, os chawans mais utilizadospelos shoguns japoneses eram produzidos na China e, como foram trazidos pelosmonges Zen que estudavam no Monte Tianmu, ficaram conhecidos no Japão comochawans Temmoku. Esta denominação compreende chawans com formas,esmaltagens e decorações sensivelmente diferentes entre si, embora tenham emcomum a coloração dominante que varia do marrom ao preto. No Japão, o tipo clássico e emblemático de chawan Temmoku é o de estiloJian (também conhecido como Temmoku "pele de lebre"), cuja forma passou a serreproduzida domesticamente nos fornos de Mino a partir do século XV. O chawan Temmoku continua a ser produzido ainda hoje no Japão, sendouma especialidade rara entre os ceramistas, devido à grande dificuldade de suaexecução. O ceramista Akira Suzuki, um destes poucos, informa que a produção destetipo de chawan torna-se muito cara devido a uma alta taxa de perdas. Segundo ele,dentre 100 chawans produzidos, apenas cerca de 3 ou 4 são absolutamente perfeitos.Embora o yuteki (do tipo "mancha de óleo") e yohen (esmalte de cinza alterado eescorrido durante a queima com padrão muito próximo ao do tipo "pele de lebre")sejam os dois tipos mais comuns de esmalte Temmoku no Japão contemporâneo,Suzuki trabalha com maior número de variações, cada qual denominada por ele apartir de suas características: radenyo (madrepérola), kioyo (rosa flor de cerejeira), heki(azul real) e ki (ouro). No ocidente, o termo Temmoku tem sido genericamente utilizado paradesignar uma grande gama de esmaltes de coloração entre o marrom e o preto eapenas raramente remete aos chawans da Dinastia Song. Neste sentido, é importantesalientar o fato de que, entre os séculos XIII e XVI, os chawans Temmoku eram de usoexclusivo dos shoguns e dos monges em cerimônias bastante formais e exclusivas, ouseja, eram utensílios destinados às elites japonesas e que não eram acessíveis aos
  3. 3. outros segmentos sociais. Em boa medida, os chawans Temmoku carregam estesignificado até os dias de hoje. Os grandes mestres japoneses da cerimônia do chá exerciam grandeinfluência na escolha dos utensílios. Murata Juko (1422-1502), o primeiro mestre, tinhaum estilo bastante formal, definido por alguns especialistas como ostentatório eexótico, optando principalmente por utensílios de proveniência chinesa, emboraincluísse também a produção dos fornos japoneses de Bizen e Shigaraki. Seu sucessor, Takeno Joo (1502-1555), fundador de um estilo semi-formalnas cerimônias do chá, estimulou inicialmente a utilização da cerâmica produzida noJapão, especialmente de chawans que reproduziam os Temmoku chineses. A produçãolocal apresentava esmaltes com colorações que variavam de um marrom claro ouamarelado (chamado ki-Temmoku) até um branco leitoso (chamado shiro-Temmoku).Mais tarde, objetivando popularizar a cerimônia do chá, Takeno Joo instituiu um gostopor utensílios de aparência mais simples. Deu preferência às despojadas tigelasoriginalmente destinadas a conter arroz, de origem coreana, chamadas de chawanKoryo ou Korai chawan, que eram utilizadas cotidianamente pela população de origemnão-aristocrática desde o século XII. A partir de então, as tigelas mais simples passarama integrar a cerimônia do chá, sendo também reconhecidas como chawans. Muitos especialistas costumam referir-se aos esmaltes utilizados noschawans de estilo Korai como sendo "semelhantes a um Celadon", por apresentaremtons do bege ao castanho ligeiramente azulados ou esverdeados. O termo Celadontem origem francesa, sendo utilizado no ocidente para definir um esmalte decoloração que varia dos sutis tons de azul ao verde-jade. Em 1610, foi publicado oromance "LAstrée", de Honoré dUrfe, que tinha como herói o personagem Celadon,cujos trajes sempre verdes tornaram-se então a última palavra na moda do vestuárioeuropeu. Na mesma época, chegaram à Europa os primeiros exemplares da cerâmica
  4. 4. chinesa de tons esverdeados que, seguindo a moda do vestuário, foram aclamadostambém como Celadon. A tradição da cerâmica de tons azulados e esverdeados remonta ao períodochinês das Cinco Dinastias (907 - 960), quando era conhecida como Longquan Qingci,que significa "porcelana verde". A cerâmica com estas características foi tambémproduzida na Coréia, principalmente ao longo da Dinastia Koryo (918 - 1392). No Japão,esta cerâmica é conhecida como Seiji e é raramente praticada pelos ceramistas, devidoàs grandes dificuldades técnicas, como ocorre com o Temmoku. As cerimônias do chá informais foram criadas pelo mestre Sen no Rikyu(1522-1591), que buscou difundi-las ainda mais na sociedade japonesa e aprofundou oconceito estético relacionado à simplicidade e ao despojamento, chamado Wabi Sabi,como norteador na escolha dos utensílios. Sen no Rikyu contribuiu enormemente parareforçar a visão tipicamente japonesa que considera objetos simples de uso cotidianocomo arte. Neste sentido, a partir do final do século XVI, chawans de diferentes estilospassaram a ser utilizados nas cerimônias, verificando-se a preferência pela produçãonacional e a consolidação de uma estética propriamente japonesa, situação que foipotencializada pela política de isolamento instituída por Tokugawa Ieyasu queperduraria de 1639 a 1858. Também houve um aumento da influência dos mestres dochá nos fornos japoneses que, ao lado do que produziam regularmente, passaram aincluir os utensílios para as cerimônias. O período de transição entre os séculos XVI e XVII, conhecido comoMomoyama, é tido como o apogeu da produção de cerâmica para a cerimônia do chá.Vários dos exercícios estilísticos iniciados naquela época tornaram-se sólidas tradições,constituíndo grandes vertentes da cerâmica japonesa até os dias atuais. Embora as
  5. 5. influências chinesa e coreana tenham sido determinantes para o avanço da cerâmicajaponesa, a partir de então os ceramistas concentraram-se principalmente nodesenvolvimento de uma nova linguagem. Os chawans Shino, cuja produção iniciou-se nos fornos de Mino e Seto,estão entre os mais inovadores surgidos na época. As formas cilíndricas baixas(hantsutsu gata) e altas (tsutsu gata) são dominantes, bem como as linhas assimétricase distorcidas. O esmalte base utilizado é chamado de chosekiyu, de coloraçãoesbranquiçada, tendo como principal componente um feldspato. Um estilo bastante próximo do Shino é chamado de Oribe, cujos chawanstêm uma forma bastante peculiar chamada kutsu gata (forma de um calçado utilizadona época) e são esmaltados em preto (kuro oribe) e branco. Outra grande tradição estilística dentre os chawans é chamada de Raku,iniciada por Sasaki Chojiro, também no período Momoyama. É a perfeita expressão dasimplicidade e da serenidade valorizados por Sen no Rikyu, através do conceito deWabi-Sabi. A sua forma cilíndrica e regular é modelada manualmente a partir de umdisco de argila. O esmalte utilizado é de baixa temperatura, à base de chumbo(namariyu), resultando em duas colorações básicas, preto e avermelhado, obtidasatravés do resfriamento brusco das peças, que são retiradas do forno durante oprocesso de queima a temperaturas entre 800 e 1000°C. Estudiosos da cerâmicaafirmam que a grande demanda por utensílios para a cerimônia do chá e a necessidadede produzi-los mais rapidamente deram origem à queima Raku. Mas também éimportante frisar que, apesar do desenvolvimento da cerâmica de alta temperatura noJapão, ainda no período Momoyama, as peças de baixa temperatura eram largamenteutilizadas no dia-a-dia. Com o passar do tempo, as formas desenvolvidas pela família Raku (termo
  6. 6. que significa "tranquilidade") foram se diversificando e continuam sendo produzidasainda hoje. No ocidente, o termo Raku é utilizado para designar uma técnica maisassociada à decoração da superfície das peças, não apresentando qualquer referência auma forma específica de chawan. Os fornos de Bizen e Shigaraki, seguindo a tradição da ancestral cerâmicaSue, que produzem até hoje uma cerâmica "acidental" ou "naturalmente" esmaltadapelas cinzas que se depositam nas peças durante a queima, também vinhamdesenvolvendo utensílios para a cerimônia do chá. Em Bizen, a argila utilizada ébastante fina, a forma das peças é mais uniforme e a principal característica estilísticasão as "marcas de fogo" (hidasuki) resultantes da utilização de material orgânico (como,por exemplo, palha) para preencher o espaço entre as peças no forno. Diferentemente,a argila de Shigaraki é mais grosseira e as formas das peças são mais irregulares,apresentando superfícies marcadas por grãos aparentes de feldspato e quartzo sob asáreas "acidentalmente" esmaltadas. Bastante tradicionais e apreciados pelos mestres da cerimônia do chá sãotambém os chawans Hagi e Ido e os de estilo Irabo, todos de inspiração coreana. Osprimeiros fornos de Hagi foram instalados no início do século XVII. Com o passar dotempo, a influência coreana foi diluída e os ceramistas de Hagi desenvolveram formaspróprias marcadas por grande despojamento e elegância. Ido é um termo que se refereà cerâmica coreana de baixa temperatura de uso cotidiano, cuja produção iniciou-se noséculo XV. Os desdobramentos nas preferências dos mestres do chá fizeram com queas tigelas para arroz do tipo Ido passassem a ser utilizadas nas cerimônias do chá.Desde então, consolidaram-se como um dos grandes estilos de chawan. Irabo é umtermo derivado de "ira-ira", algo como "irritação", referência à sensação provocada pelaargila grosseira utilizada em alguns chawans de origem coreana. Esta característica,muito contrastante em relação ao estilo chinês, é particularmente apreciada no Japãoaté os dias de hoje.
  7. 7. O chawan é um dos objetos que integram a cerimônia do chá e, como tal,tem uma função utilitária -é nele que o chá verde (matcha) é preparado e servido aosconvidados- e, também, uma função ritual. Afinal, trata-se de um objeto inserido nocontexto de uma cerimônia, de um ritual, e não de um objeto cuja utilização vincula-seao cotidiano doméstico. Mais recentemente, em várias partes do mundo, "chawan" passou a ser umtermo utilizado para designar uma tigela tipicamente japonesa ou orientalindependentemente de sua função. Assim, entende-se que alimentos como arroz,caldos e sobremesas possam ser servidos em tigelas chamadas de "chawan", ao passoque a idéia de tomar chá em um chawan costuma provocar estranhamento,evidenciando o fato de que ele é cada vez menos associado à cerimônia do chá. No Japão, existem outros objetos destinados a conter chá para ser bebido.Tigelas semelhantes ao chawan, também de cerâmica, porém menores, chamadas"sencha chawan", são utilizadas para servir o chá verde do tipo sencha. Copos decerâmica, chamados yunomi, são utilizados para servir chá verde comum ou qualqueroutro tipo de chá. Além disto, outras tigelas parecidas com o chawan são utilizadas paradiversas finalidades, algumas não específicas. Elas podem ser chamadasgenericamente de wan ou hachi. Para o arroz, por exemplo, utiliza-se o meishi-jawanou gohan-jawan. Outros pratos podem ser servidos em um donburi-bachi. Aspequenas tigelas para soba são chamadas de soba-choko. Até mesmo um copo parasaquê, chamado güinomi ou sake-choko, pode ter a forma de um pequeno wan. Todosestes objetos têm praticamente a mesma forma em diferentes tamanhos e decorações,mas possuem funções distintas. Ou seja, sendo a tigela do tipo wan ou hachi umaforma comum na cerâmica japonesa, é importante atentar para a sua função. No caso
  8. 8. do chawan, é fundamental ter em mente tanto a sua função utilitária como a ritual,preocupação dispensável nos wans destinados, por exemplo, a servir arroz. A forma básica de um chawan pode ser vista na ilustração acima. Acaracterística de cada uma das partes indicadas costuma ser avaliada e apreciada pelosespecialistas, seja do ponto de vista técnico ou artístico e filosófico. Além disto, ochawan também é visto como um todo, de forma mais complexa ou metafísica, comouma espécie de "paisagem". Para estas análises, concorrem tanto as informações visuaisquanto as táteis, além daquilo que pode ser apreendido através de uma certa "poética"do chawan. De modo geral, estes critérios específicos aplicados ao chawan diferembastante daqueles utilizados para avaliar um objeto comum, como um prato para usocotidiano no ocidente; eventualmente, podem mesmo opor-se a eles. Do ponto de vista da utilização, o chawan deve possibilitar o corretopreparo do matcha em seu interior. Isto significa ter espaço suficiente para o manuseiodo chasen, artefato de bambu utilizado para misturar vigorosamente em movimentoscontínuos a água quente ao chá em pó. O diâmetro da borda de um chawan varia deacordo com o seu estilo, mas situa-se entre 9,5 cm (para um chawan do tipo cilíndricoque lembra um yunomi) e 16 cm (para um chawan do tipo mais arredondado e amplo).A sua profundidade varia entre 5 cm e 8 cm, aproximadamente; a altura, entre 7 e 10
  9. 9. cm. A preparação do chá no chawan requer boa estabilidade e, neste sentido, muitaatenção deve ser conferida à base e ao pé. Também é desejável que o chawan seja feito de uma cerâmicaimpermeável. Em geral, utilizam-se argilas refratárias para queima em alta temperaturaque são esmaltadas, seja por meio da aplicação de esmaltes compostos ou pordecorrência do processo de queima (esmaltagem "acidental" com cinzas em umaqueima a lenha, por exemplo). Mas também aqui há variações e exceções. Os chawansdo tipo Raku, por exemplo, são exemplos característicos da cerâmica de baixatemperatura. Segundo Shimizu, a coloração preta do esmalte (kuroraku) é obtida auma temperatura de 1000° e a vermelha (akaraku) a 800° em fornos do tipo mufla. Oschawans mais antigos do tipo Ido também eram queimados em baixa temperatura. Aporosidade de algumas argilas, como as utilizadas nos chawans de estilo Hagi, faz comque resíduos de chá se acumulem ao longo do tempo, alterando a sua coloração. Aocontrário do que se poderia pensar, trata-se de uma característica bastante admiradapelos especialistas e de um fator que pode valorizar enormemente um chawan. Um chawan cuja superfície é lisa e uniforme, que não possui reentrânciasespecialmente no seu interior, onde resíduos podem se acumular, e cujo esmalte nãose apresenta craquelado seria o ideal do ponto de vista da higiene. Os chawans maispróximos desta descrição talvez sejam os do tipo Temmoku. No entanto, é precisoconsiderar que quase todos os estilos de chawan apresentam pequenas ou grandesirregularidades, rugosidades, saliências e texturas. Alguns esmaltes, como o Celadon,são craquelados; outros, como o Shino e o Hagi, são rugosos e apresentam retrações,além de fundir de maneira bastante irregular. Os chawans Oribe são extremamentedeformados. As argilas de Shigaraki são grosseiras e apresentam "explosões" de grãosde feldspato e quartzo na superfície dos chawans. Estas e tantas outras característicasque contrariam certos princípios de higiene e limpeza são profundamente admiradasnos chawans.
  10. 10. Muitos chawans recebem esmaltes plúmbicos, como os do tipo Raku eSansai (três cores), que normalmente não são recomendados para peças utilitáriasdevido à sua toxicidade. Nem por isto deixam de ser apreciados e utilizados nascerimônias do chá. Os chawans Raku, por exemplo, são tidos como um dos maisapropriados ao espírito da cerimônia, devido ao seu despojamento, a sua sobriedade e,principalmente, a maneira agradável com que se acomodam entre as palmas das mãosdos participantes da cerimônia, característica essencial de um chawan. Uma outra peculiaridade do chawan é a parte chamada chadamari,localizada em seu fundo, onde o chá deve ficar acumulado, em pequena quantidade,após ser consumido. Esta parte costuma receber grande atenção dos ceramistas e dosespecialistas na cerimônia do chá. Não se trata de um "orifício", mas de uma suavedepressão. Durante a cerimônia, os convidados costumam observar atentamente ochawan. Especial atenção é dada ao contraste entre a cor esverdeada intensa domatcha e a coloração verificada no interior do chawan. Não existe uma preferênciaúnica quanto ao contraste desejado. Assim, as cores escuras e profundas, como as deum Temmoku, são apreciadas tanto quanto o branco leitoso de um Shino ou toda agama de tonalidades terrosas ou aquelas incertas e fugidias. O pé de um chawan (kodai) também é cuidadosamente observado ao finalda cerimônia. Normalmente, é apenas nesta parte em que é possível ver a argila de queé feita um chawan, já que costuma ficar sem a cobertura de um esmalte. O pé tambémindica a habilidade, a experiência e o estilo característico de um ceramista.Tradicionalmente, os tipos de pé variam tanto quanto os estilos de chawan, e osceramistas conferem especial atenção à sua confecção, uma espécie de assinatura. Como se pode perceber, o chawan é uma tigela simples, mas não é uma
  11. 11. simples tigela. Formas semelhantes a um chawan surgiram em praticamente todas associedades cerâmicas, mas a cultura japonesa conferiu a elas uma dimensão quaseintangível, envolta em yugen, a misteriosa impenetrabilidade das coisas. É por estarazão que o chawan costuma ser entendido como um objeto expressivo, que reflete aimperfeição e a inconclusão do homem e do mundo. Em resumo, um objeto de arte. Ao longo de vários séculos, a cerâmica consolidou-se como patrimôniocultural no Japão, situação que não se repete em qualquer parte do mundo. Assim, osdiversos segmentos da sociedade japonesa dispõem de elementos básicos quepossibilitam compreender, apreciar e consumir a cerâmica. É certo que a adoção dosistema fabril, a partir do século XIX, teve um grande impacto sobre os padrões deprodução e consumo no Japão, introduzindo um gosto tipicamente ocidental. Operíodo inicial da industrialização japonesa coincide com o declínio da qualidade desua cerâmica tradicional e mesmo da reputação dos mestres ceramistas. É conhecido ocaso do mestre Kenzan VI, herdeiro da grande tradição de Ogata Kenzan, que no iníciodo século XX produzia uma cerâmica medíocre para poder sobreviver nos arredores deTokyo e que teve como alunos Bernard Leach e Kenkichi Tomimoto. Por outro lado, aintensa participação no mercado internacional levou à adoção de políticas depreservação do patrimônio cultural no Japão e, também, à disseminação de princípiosda estética japonesa e do gosto pela cerâmica mundo afora. A influência da cerâmica japonesa pode ser percebida fortemente naEuropa já no início do século XX, especialmente na Inglaterra, onde o ceramistaBernard Leach criou e promoveu a fusão que ficou conhecida como anglo-oriental. NaFrança e em outros países, as tendências artísticas da cerâmica e o movimento ArtNouveau, marcados por uma predileção pelo exótico, fizeram sua interpretação daestética japonesa, o japonismo. Mesmo no Brasil a influência é verificada, ainda quetardiamente, a partir da segunda metade do século XX, quando instalaram-se por aquiceramistas vindos do Japão.
  12. 12. Embora a cerimônia do chá tenha contribuído para a propagaçãointernacional da cerâmica japonesa, é importante notar que é a culinária japonesa ofator determinante para a sua popularização. Pratos como sushi e sashimi, porexemplo, são elaborados hoje em restaurantes e fast-foods de todo o mundo e, maisno sentido de reforçar uma ambientação e uma identidade tipicamente japonesas,costumam ser servidos em aparelhos adaptados ou em cerâmicas apropriadas. Maisrecentemente, existe também uma tendência de utilização doméstica de cerâmicasjaponesas para pratos ocidentais do dia-a-dia. É neste processo que se verifica uma certa descontextualização do chawane da cerâmica japonesa como um todo. A necessidade da massificação nas sociedadescontemporâneas impõe um modo de ver e de sentir as coisas bastante superficial eurgente. Os estereótipos que se traduzem em estilos diluídos mostram-se maiseficientes que os arquétipos quando se trata de identificar algo como sendotipicamente japonês. É por isto que chawans Shino ou Oribe originais são menosassociados à cultura japonesa que uma tigela de louça industrial na forma de cumbucacom a aplicação de um decalque lembrando vagamente um ideograma chinês. Também é forçoso reconhecer que, popularmente, as formas industriaisresultantes de processos de injeção a seco tendem a ser preferidas em detrimento dasformas obtidas a partir da argila modelada ou torneada, ainda mais se se considerar asua acessibilidade, seja do ponto de vista da quantidade disponível e visível aos olhosdo consumidor, seja do ponto de vista do custo. Pelo menos desde a geração dosgrandes ceramistas ingleses William Staite-Murray, Bernard Leach e Michael Cardew, acerâmica propriamente, não apenas a japonesa, é antes um processo de produção deobjetos caros e exclusivos, talvez artísticos. Leach costumava acusar Staite-Murray deconcentrar-se em artigos luxuosos, decorativos, "artísticos", e defendia a produção deartigos simplesmente personalisados, utilitários, "éticos". Na verdade, os preços das
  13. 13. obras tanto de um quanto de outro eram bastante altos e equivalentes, destinados aum grupo seleto de colecionadores e aficcionados. Segundo Clark, emboraproduzissem peças que eram vendidas por até cem libras, as peças mais consumidasde ambos não custavam mais de dez, sendo que, na época, o trabalhador britânicomédio recebia cerca de cinco libras por semana. No Japão, o chawan propriamente é um objeto ritual que, no contexto deuma sociedade moderna, é visto como objeto de arte. No resto do mundo, eparticularmente no Brasil, é importante atentar para o fato de que a cerimônia do chá,embora seja adotada por pequenos grupos interessados tanto na filosofia Zen quantoem certo exotismo ou por imigrantes que buscam preservar suas raízes, é uma práticaimportada e bastante limitada. Mas a dimensão artístico-filosófica do chawan podeabrir algumas possibilidades de trabalho e pesquisa para os ceramistas de ateliê não-japoneses, já que se trata de um objeto expressivo e aberto a leituras diversas mesmono Japão. Ainda que a sua função seja preservada, pode ser bastante interessanteexercitar o desenvolvimento de chawans realçando interpretações de diferentesartistas e de diferentes culturas, como a brasileira. O estudo sobre a "poética" dochawan é outro caminho a ser explorado. Materiais e técnicas de decoração específicosdos chawans podem ser estudados para aplicação em outros tipos de objetos. Ainvestigação destas possibilidades pode ser importante também no sentido de reforçara diversidade no universo dos utensílios para a mesa, de multiplicar os gostos e aspreferências socialmente estabelecidas e de aprofundar uma cultura visual, ações tãonecessárias ao cenário brasileiro.REFERÊNCIASCLARK, Garth. The Potters Art: A Complete History of Pottery in Britain. Inglaterra:
  14. 14. Phaedon, 1995.HARRIS, Victor. Jomon Pottery in Ancient Japan IN FREESTONE, Ian e GAIMSTER, David.Pottery in the Making: World Ceramic Traditions, Inglaterra: British Museum Press, 1997.HARRIS, Victor. Ash-Glazed Stoneware in Japan IN FREESTONE, Ian e GAIMSTER, David.Pottery in the Making: World Ceramic Traditions, Inglaterra: British Museum Press, 1997.SHIMIZU, Christine. La Céramique de la Cérémonie du Thé IN Japon, Saveurs etSérénité: La Cérémonie du Thé dans le Collections du Musée des Arts Idemitsu. França:Musée Cernuschi, 1995.SIMPSON, Penny; KITTO, Lucy e SODEOKA, Kanji. The Japanese Pottery Handbook. 3ªed. Japão: Kodansha International Ltd., 1981.

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