Artigo Jorge Kysnney

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Artigo Jorge Kysnney

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DO PARÁ – UFOPACENTRO DE FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR - CFIJORGE KYSNNEY SANTOS KAMASSURY - TURMA T5kamassury@gmail.comOrientador: Dr. Valdenildo dos Santos DEUS E SUA UNICIDADE: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA O referente artigo tem por intento pontual menear uma análise, sob uma perspectivasemiótica, de uma das mais famosas passagens bíblicas, na qual Moisés indaga a Deus, overdadeiro nome da sua divindade. Dentre as correntes de estudos semióticos, atrelar-me-ei à Escola de Paris, liderada proficientemente por Algirdas Julien Greimas. O corpus de estudo serão os versículos 13 a 15, do capítulo 3, pertencente ao livro Êxodo(Velho Testamento). O ineditismo desse estudo incorre na metodologia criteriosa e paulatinae os enfoques que a análise semiótica aplica a fim de extrair interpretações coerentes eminuciosas do texto em estudo, que por sua vez, não devem estar enleivadas,necessariamente, por alguma (s) corrente(s) de cunho especulativo ou religioso. Cardoso reforça essa visão enunciando que para uma análise de teor semiótico, sãoconsideradas as diferentes etapas na realização discursiva, etapas que consideram desde asuperficialidade de um discurso até as suas estruturas mais específicas e fundamentais¹. Ansiando nosso plano interpretativo, a priori, ancorar-me-ei numa abordagem maisestrutural do texto, avaliando aspectos da sintaxe narrativa, semântica narrativa e asemântica discursiva (coerência textual e estruturas fundamentais). A posteriori descrevereias observações que corroboram a isotopia² de unicidade fortemente presente nas palavrasdo narrador textual. 1. SINTAXE NARRATIVA De posse do corpus em análise podemos definir e estabelecer descrições semióticasacerca do corpus. Ademais, para fins de assimilação e ilustração recorrerei ao seguinteelenco de símbolos semióticos para desenvolver o estudo: 1 CARDOSO, p.3 2 Reiteração de quaisquer unidades semânticas (repetição de temas ou recorrência de figuras) no discurso, o que assegura sua linha sintagmática e sua coerência semântica. (BARROS, 2000, p. 87).
  2. 2.  S1: sujeito destinador, actante narrativo que determina os valores em jogo e que dota o destinatário-sujeito da competência modal necessário ao fazer (destinador- manipulador) e o sanciona, recompensando-o ou punindo-o pelas ações realizadas (destinador-julgador)3. Portanto, no nosso caso, esse sujeito concerne à figura de Deus;  S2: sujeito destinatário-operador, actante narrativo manipulado pelo destinador, de quem recebe a competência modal ao fazer e é por ele reconhecido, julgado e punido ou recompensado, segundo as ações que realizou4. Pelo proposto, esse sujeito é representado por Moisés (virtualizado);  S3: representa a quem realmente se direciona a proposta do sujeito-destinador. Perspicazmente, materializam-se na figura do povo israelita (está virtualizado);  PN (programa narrativo): sintagma elementar da narrativa, quem integra estados e transformações, e que se define como um enunciado de fazer que rege um enunciado de estado5. Observamos, portanto que o PN primordial é a libertação do povo israelita;  OV (objeto de valor): objeto determinado pelas aspirações e projetos do sujeito, por seus valores, em suma6. Salta-nos a aspiração de Deus em adquirir a crença de Moisés para realizar a missão;  Valor: o termo de uma categoria semântica, selecionada e investida em um objeto com o qual o sujeito mantenha uma relação. É a relação com o sujeito que define o valor7.  → : transformação, nessa análise implica no enunciado de fazer;  ∩ (junção): relação que determina o estado, a situação do sujeito em relação a um objeto qualquer8. Notoriamente, reflete o anseio de Deus para adquirir a fé de Moisés. De posse desses termos e definições, podemos iniciar a nossa abordagem semiótica. Aseguir está esboçado o fluxo do PN do S1. 3 BARROS, 2000, p. 85 4 BARROS, 2000, p. 85 5 BARROS, 2000, p. 89 6 BARROS, 2000, p. 88 7 BARROS, 2000, p.90 8 BARROS, 2000, p.19
  3. 3. PN de competência Atores distintos Aquisição Valores modaisF (libertar o povo) [s1(Deus) →s2(Moisés) ∩ Ov (proferir seu nome e adquirir a crença deMoisés)] Alerta-se aqui, que o PN de Moisés (S2) assume uma configuração virtualizada, ao passoque inferimos por pressuposição lógica que esse concretiza. O PN do S2 apresenta o seguintefluxo. Valores PN de performance Um único Ator Aquisição descritivosF (possuir a resposta para realizar a missão) [s2 (Moisés) →s2 (Moisés) ∩ Ov (o nome deDeus e realizar a missão)] Esmiuçando o PN de S1, percebemos que a transformação resulta num conjunto entre osujeito e o objeto-valor, e porquanto, assume a tipicidade de um programa de aquisição, naqual Deus ao conceder a resposta a Moisés visa, concomitantemente, afirmar a crença deMoisés para consigo. Como a relação narrativa ocorre, essencialmente, entre dois sujeitos S1(sujeito do fazer) e S2 (sujeito do estado), ela é transitiva. O critério tipológico é acompetência, haja vista que S1 doa a resposta (um valor modal) a S2 (sujeito de estado). Quanto ao PN de S2, inferimos que se trata também de um programa de aquisição, S2anseia o nome de S1 para realizar sua missão; porém, sua relação narrativa é reflexiva: S 1 deposse da resposta de S2 se tornará apto a cumprir sua função. Abaixo segue um quadrocomparativo para demonstrar as características dos programas narrativos de S1 e S2. CARACTERIZAÇÃO DO PROGRAMA NARRATIVO RELAÇÃO NATUREZA DA FUNÇÃO NARRATIVA/ DENOMINAÇÃO CRITÉRIO DISCURSO S1 Aquisição Transitiva Crença/Libertação Competência S2 Aquisição Reflexiva Conhecimento/Libertação Performance
  4. 4. Esses programas narrativos organizam em percursos narrativos que segundo Barros,consiste numa sequência de programas narrativos de tipos diferentes (de competência e deperformance), relacionados por pressuposição simples 9. Em virtude do caráter virtualizado do S2, dedica-se esta seção para o percursonarrativo do S1. Sendo o S1 o destinador, este pode ser destinador-manipulador oudestinador-julgador. Decerto, embasado no nosso corpus, o S1 é, mormente, um destinador-manipulador, pois não há sanção visível no trecho. A manipulação meneada pelo S1 se edifica em duas etapas. Na primeira, há aatribuição de competência, pois é vital que o sujeito-operador (S2) creia nos valores dodestinador, ou por ele, determinadas, objetivando que este se deixe manipular. Quando S1declara seu nome, reforçando seu teor de unicidade e absoluto, faze-o almejandosedimentar a crença de S2, quanto sua existência e confortá-lo para a libertação do S3. Num segundo plano, ocorre a manipulação propriamente dita, na doação dos valoresmodais (dever-fazer) expressa claramente nos trechos: “... Eis como responderá aosisraelitas... Assim falarás aos israelitas...”. Com efeito, S1 concede a resposta a S2 para queeste opere o papel por aquele delegado. Nesse permeio, oportunamente, temos como tipicidade de manipulação maisevidente, a intimidação. O modo incisivo e redundante da resposta e a própria condição dedivino do S1, são indicadores pontuais da intimidação que S1 lança a S2. Contudo, numaleitura mais visceral e pormenorizada, emerge, discretamente, a manipulação por tentação.O S2 vislumbra o seu futuro como consequência do contrato fiduciário e a realização damissão demandada pelo S1. Cabe recordar, que essa última análise está consubstanciada napressuposição lógica. Apesar da ofuscação por parte da condição de S1 como sujeito-manipulador, o vultode sujeito-julgador está presente. Manifesta-se a sanção cognitiva ou interpretativamaterializada uma auto-sanção, de Deus (S1) para consigo mesmo. Ao enunciar “Eu sou oque sou”, S1 reafirma sua própria existência, dirimindo demais interpretações, bem como,reconhece a si próprio como único e infinitamente temporal. 9 BARROS, 2000, p. 89
  5. 5. 2. SEMÂNTICA NARRATIVA Nessa seção, a vertente analítica se avoluma com o bojo da modalização que segundoBarros, refere-se à determinação que modifica a relação do sujeito com os valores(modalização do ser) ou que qualifica a relação do sujeito com o seu fazer (modalização dofazer) 10. As duas formas de modalização ocorrem nosso texto, explicitando outros aspectosque contribuem para uma abordagem mais proeminente. No tocante a modalização do ser, saltam-nos as modalidades virtualizantes e asatualizantes (instaura o sujeito). As modalidades virtualizantes presentes são o querer-fazer(S2 aspira conceder uma denominação do S1 ao S3) e dever-fazer (S1 ordena a S2, propagar aoS3 a resposta que ele proferiu). Quanto às modalidades atualizantes, há o saber-fazer (S2após a obtenção do nome de S1, saberá como proceder perante o S3). Na esfera da modalização do ser, figura a modalização veridictória - um estadoverdadeiro quando um sujeito diferente do sujeito modalizado o diz verdadeiro – o S1demonstra-se parecer e constitui um ser (imanência), e a modalização do querer (S2 querconhecer o nome de S1 a fim de confirmar seu amparo e dirimir sua insegurança, S1 quersedimentar a crença de S2 para consigo e libertar o S3), saber (S2 detém o saber do nome deS1), dever (provido do conhecimento do nome de S1, S2 deve cumprir sua missão) e poder(Detendo o apoio de S1, S2 está apto a libertar o S3). Vale enfocar que o objeto modalizador capital empregado pelo S1 para consolidar seupropósito fora a voz. 3. SEMÂNTICA DISCURSIVA Enveredando-nos numa observação mais exacerbada, o passo seguinte incorre nadeterminação das leituras possíveis do texto, as pluriisotopias, ou seja, ocorrência de váriasinterpretações. Habilmente, podemos identificar no nosso texto, sobretudo, a isotopiatemática que decorre da repetição de unidades semânticas abstratas, conduzindo a umacoerência textual. Essa isotopia se exibe nos termos “sou”, “Deus”, e viabilizam a confecçãodo seguinte quadrado, incitando e aclarando as relações das oposições. 10 BARROS, 2000, p. 88
  6. 6. UNICIDADE PLURALIDADE NÃO-PLURALIDADE NÃO-UNICIDADE Representativamente, as linhas uniformes com setas conotam relações de contraditórios,as linhas, tão-só, uniformes simbolizam as relações entre complementares e as linhastracejadas com setas inerem a relação entre termos contrários. Com efeito, recorrendo a sequência lógica para o encontro da isotopia geral, teremos: PLURALIDADE NÃO-PLURALIDADE UNICIDADE Essa dimensão de unicidade, de afirmação e reconhecimento de si próprio, fica aindamais nítida no formato cíclico da expressão “... Eu sou o que sou...”. SOU SOU Apoiado na prática da embreagem e desembreagem da semiótica Greimasiana, ou seja,visualizando superficialmente o contexto e retornando ao escopo de análise, verificamosque o ideal de unicidade para as divindades da época era raro. Diferente de outras culturasque acreditavam na existência de vários deuses (politeísmo) - como o povo grego -, essanatureza de singularidade, nasce com os israelitas, de certo modo, para fomentar a união dopovo disperso, inseguro e impotente religiosamente. Embasado nessa perspectiva, percebemos que, realmente, S1 parte das parcialidades -isotopias de divinização – para a unicidade divina. As isotopias de divinização desaguamassim num único sentido máximo, a identidade11 consumada de S1. Essa identidade reflete aessência de Deus, a definição da personalidade e da totalidade do ser, absoluto e nãocontraditório, um verdadeiro axioma12. 11 Na lógica, o princípio da identidade é uma das três leis básicas do raciocínio para Aristóteles, se expressa pela fórmula “A=A”, ou seja, todo objeto é igual a si mesmo. (JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p.140) 12 Proposição evidente em si mesma e indemonstrável. (JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 23)
  7. 7. DEUS DE JACÓ JAVÉ DEUS DE ABRAÃO DEUS “SOU” DEUS DE VOSSSO PAIS DEUS DE ISAAC A condição absoluta de Deus representa nenhuma restrição ou mácula, o princípio daexistência, pessoal e distinto do mundo, é em si e por si, independentemente de qualqueroutra coisa, possuindo em si mesmo sua própria razão de ser, não comportando nenhumlimite e sendo considerado independentemente de toda relação com um outro13. Desse modo, Deus exibe-se perfeito, com uma identidade completa e acabada, alicerçadaem todos os predicados inerentes e vitais à sua natureza, substancialmente idêntico a esta,ou seja, na sua plenitude, um gozo experimentado tão-somente por uma divindade. O bojoda totalidade de Deus, oportunamente, enquadra-se como aquilo que contém de tal forma oque contém que forma uma unidade14. Logo, aceticamente, podemos inferir que a isotopia geral do texto repercute naidentidade consumada de Deus, acabada, perfeita, absoluta e totalizadora. A unicidade deDeus é resultado, portanto, da sua identidade definida. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O bojo analítico da semiótica nos propõe interpretar os textos consoante umametodologia criteriosa e minuciosa. No discorrer do estudo do nosso corpus, empregamosconceitos e aspectos dessa metodologia (sintaxe narrativa, semântica narrativa e asemântica discursiva) que nos nortearam a leituras mais precisas e ricas do texto, sem nosatermos exacerbadamente no contexto. O valor da postura semiótica, portanto, incorrenesse aspecto. As relações entre os sujeitos acentuaram o caráter significativo máximo do texto, aidentidade consumada de Deus que utiliza de meios variados para comprovar sua unicidade 13 JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p.1 14 JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 268
  8. 8. existencial, sua condição de absoluto e perfeito para Moisés a fim de promover a libertaçãodo povo israelita.REFERÊNCIASBARROS, Diana Luiz Pessoa. Teoria semiótica do texto. São Paulo, ática, 2000.JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Rio de janeiro, Zahar,2006.CARDOSO, Joel. Introdução à semiótica. UFPA.

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