198891204 merton-sociologia-teoria-e-estrutura

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198891204 merton-sociologia-teoria-e-estrutura

  1. 1. :ham 301 M575s lutor: Merton, Robert King, 1910- ~: 'itulo: Sociologia : teoria e estmtura .. ;' 11111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111 ' . :. 83230809 Ac. 2774 : t
  2. 2. SOCIOWGIA - Teoria e Estrutura ROBERT K. MERTON e profes- sor de Sodologia e diretor asso- ciado do «Bureau· of Applied Social Research» da. Universi- dade de Columbia; Membro da «The American Academy of Arts an4 Sciences» e ex-presidente de «American Sociological Associa- tion». Em 1962 foi agraciado com o Premio «Distinguished Scho- larship in the Humanities» pelo «American Council of Learned Societies» e, em 1964, pelo «Na- tional Institute of Health Lec- tureship» em reconhecimento as destacadas conquistas cientifi- cas. E autor ainda de varias outras obras de grande valor. Desde 0 seu lanc;amento, Socio- logia, Teoria e Estrutura passou a ser considerado como a pala- vra de importancia central nas ciencias sociais. Trata a obra, inicialmente, da influencia mu- tua entre a teoria social e a investigac;ao social e, a seguir, a codificac;aoprogressiva da teoria substantiva e os procedimentos da analise socio16gica. Sabre esta base S8 sustentam os diversos trabalhos que 0 Autor reuniu, modificou e ampliou pa- ra dar ao livro uma unidade, uma coerencia e urn relevo que se man tern a altura da magni- tude do tema. Sociologia, Teoria e Estrutura ja foi traduzido para o frances, italiano, espanhol, ja- pones, checo, alemao e hebreu, o que constitui incontestavel e expressivo significado do seu merito.
  3. 3. euLer OlqUtlra ~O"6'ogo VICtor Natlllael Schwetter Silveira PSIc6LOGO CRP 13523/04
  4. 4. 'I", T ~ , ( II ~ Victor Natalae'i SCh " er Silveira PSlc6'CoGO CRP 13523/04 SOCIOLOGIA cu. ~1-:r-~ U.F.M.G.• BIBLIOTECA UNIVERSITARIA III1111111111111111111111111111111 83230809 NAo DANIFIQUE ESTA ETIQUETA ~ ItA EDITORA MESTRE IOU SAO PAULO
  5. 5. Primeira edi,iia em ingles ....................•.................. 1919 Decima primeira reimpressao em ingles . . . . . .. . . . . . . . . . .. . .. 1967 Prjmeira edi,iia ampliada em ingles 1968 Primeira edi,iia em espanhal 1964 Segunda edi,iia em espanhal .......................•.............. 1965 Primeira edi,iia em partugues .....•.............................. 1970 PREFAclO DA EDlc;AO AMPLIADA DE 1968 ESTA NOVA IMPRESSAO nao e uma edigao novamente revista, mas apenas ampliada. A edigao revista de 1957 permanece inalterada, salvo a sua curta introdugao, agora amplamente aumentada e transformada nos capitulos I e II do presente volume. As unicas outras alterag6es sac tecnicas e de pequena monta: como ligeiras emendas nos indices analitico e de nomes. Ao severn inicialmente compostos, os ensaios que formam este livro nao eram destinados a constituir capitulos consecutivos de urn so volume. Seria inutil, portanto, pretender que os ensaios, como estao agor,a ordenados, apresentem uma progressao natural, estabelecendo rigorosa seqUencia de um ensaio para outro. Assim mesmo, nao acredito estarem ausentes as qualidades de coerencia, unidade e enfase. Para tornar a coerencia mais facilmente visivel, 0 livro esta dividido em quatro partes principais, a primeira estabelecendo uma orientagao teorica, de ac6rdo com a qual sac eXiaminados a seguir tres conjuntos de problemas sociologicos. Curtas introdug6es procedem cada uma dessas tres partes substantivas, no intuito de facilitar ao leitor a passagem inte- lectual de uma parte para a seguinte. Objetivando dar unidade, os ensaios foram reunidos levando-se em consideragao 0 gradual desdobramento e desenvolvimento de duas preo- cupag6es sociologicas que se estendem por todo 0 livro, preocupag6es melhor expressas pela perspectiva ,encontrada em todos os capitulos do que' em cada assunto especifico sob exame. Trata-se da preocupagao pela agaO reciproca da teoria social e da pesquisa social, e daquela de codificar tanto a teoria substantiva quanto os processos de amilise sociologica, especialmente da analise qualitativa. Temos de admitir que esses dois interesses nao sofrem por excessiva modestia em suas dimens6es. De fato, se eu fOsse sugerir que os ensaios fazem mais que contornar as margens desses territorios imensos e im- perfeitamente cartografados, 0 proprio exagero da pretengao aoentuaria ainda mais a pobreza dos resultados. Mas uma vez que a consolidagao da teoria e da pesquisa e a codificagao da teoria e dos metodos sac assuntos aventados com dificuldade por todos os capitulos deste livro, creio ser conveniente acrescentar algumas palavras a respeito da oi'ienbagao teorica, conforme apresentada na Parte 1. R~2~OR-Oq ~JC/.r~= ~c8"" <-de ederal de lA~~ © 1968by Robert K. Merton 1957by The Free Press, A. Corporation 1949by The' Free Press Direitos reservados para os paises de lingua portuguesa pela EDIT6RA MESTRE JOU Rua Martins Fontes, 99 Sao Paulo
  6. 6. o capitulo I expoe as razoes das func;oes distintivas, embora reciprooas, das hist6rias da teoria sociol6gica, de urn lado, e formulac;6es da teoria correntemente utilizada, de outro. Escusado dizer que a teoria sociol6gica atual repousa sabre legados do passado. Acredito, porem, que ha alguma utilidade em estudar os requisitos intelectuais para uma hist6ria genuina do pensamento sociol6gico, considerando-os mais que uma serie de sinopses de doutrina sociol6gica, cronolbgicamente disposta da mesma forma que e utH observ,ar exatamente como a teoria socio16gica corrente se inspira na teoria antecedente. Em vista da grande atenc;ao despertada pela teoria socio16gica de medio alcance na ultima decada, achei interessante fazer uma revisao do seu carater e das suas realizac;oes, a luz das utilizac;oes e das criticas pelas quais passou essa teoria dumnte esse periodo. 0 capitulo II e dedicado a essa tarefa. o capitulo III sugere urna estrutura para a teoria social conhecida como analise funcional. Centraliza-se num paradigma que procura codi- ficar as suposic;oes, conceitos e processos que tern estado implicitos (e as vezes explicitos) em interpretac;oes funcionais que se desenvolveram nos campos da sociologia, da psicologia e da antropologia sociais. Se deixarmos de lado as exl!ensasconotac;oes da palavra descoberta, poderemos dizer entao que os elementos do paradigma foram principalmente des- cobertos, e nao inventados. Foram descobertos, em parte esmiuc;ando cri- ticamenl!e as pesquisas e as discussoes te6ricas feitas por eruditos que utilizam a orientac;ao funcional para 0 estudo da sociedade, e em parte por melO do reexame dos meus pr6prios estudos sabre a estrutura social. Os dois ultimos capitulos da Parte I resurnem as especies de relac;6es reciprocas que hoje prevalecem na pesquisa socio16gica. o capitulo IV especifica os tipos relacionados, mas distintos de pes- quisar, compreendidos pelo termo teoria sociol6gica (urn tanto vago, mas usado com fl'eqtiencia): metodologia ou l6gica do processo, orientac;6es gerais, analise de conceitos, interpretac;6es ex post jacto, generalizac;6es empiricas e teoria no sentido estrito. Ao examinar as interconexoes entre eles - 0 fato de serem conexos implica que tambem san distintos - acentuo as limitac;oes bem como as func;oes das orientac;aes gerais na tearia, com as quais a sociologia esta mais fartamente provida do' que com conjuntos de uniformidades especificas e empiricamente confirmadas, derivadas da teoria geral. Assim, tambem, aoentuo e procuro caracterizar a importancia bem como a natureza parcial da generalizac;ao empirica. Nesse capitulo, sugere-se que essas generalizac;6es dispares podem ser colacionadas e consolidadas mediante urn processo de codificac;ao. Tor- nam-se, entao, exemplos de urna regra geral. o capitulo V examina a outra parte dessa relac;ao reciproca entre teoria e pesquisa: as diversas especies de conseqtiencias de pesquisa empirica para 0 desenvolvimento da teoria socio16gica. Sbmente aqueles que conhecem as pesquisas empiricas apenas pela }eitura, e que nao se dedieam praticamente a elas, podem continuar acreditando que a func;ao primordial ou mesma exclusiva da pesquisa consiste em experimentar hip6teses pre- estabelecidas. Isto representa uma func;ao da pesquisa, essencial n.as rest rita, e que esta longe de ser a linica, poisa pesquisa desempenha urn pa.pel muito mais ativo no desenvolvimento da teoria, do que urna simples func;ao passiva de confirmac;ao. Conforme 0 capitulo explica em detalhes, a investigac;ao empirica tambem inicia, reformula, reenfoca e clarifica a teoria sociol6gica. E na medida em que a pesquisa empirica faz assim frutificar a teoria, e evidente que 0 soci610go te6rico, que se acha afas- tado de toda pesquisa, que apenas aprende como que "de oitiva", corre o risco de ficar isolado das experiencias que mais provavelmente poderiam chamar a sua atenc;ao para novas e fecundas orientac;oes. Sua mente nao foi preparada pela experiencia. Acha-se afastado do fenomeno freqtiente- mente observado, de "serendipidade"* - a descoberta por acaso, por uma mente preparada, de novos resultados que nao eram procurados. Quando me refiro a isso, cansidero a serendipidade urn fato da investiga- c;ao empirica, e nao como uma filosofia. Max Weber tinha razao quando dizia que alguem nao precisa ser Cesar para compreender a Cesar. Mas os soci610gos te6ricos somos as vezes tent ados a agir como se nao fosse, ao menos, necessario estudar Cesar a fim de entende-lo. Contudo, sabemos que a ac;ao reciproca da teoria e da pesquisa contribui tanto para a compreensao do caso espec1fico quanto para a expansao da regra geral. Sou grato a Barbara Bengen, que emprestou seus talentos redatoriais aos dois primeiros capitulos, a Dra. Harriet A. Zuckermann, que examinou os primeiros rascunhos dos mesmos, a Sra. Mary Miles, que converteu urn palimpsesto em claro texto datilografado. Para a preparaC;ao desses dois capitulos introdut6rios, beneficiei-me de urn subsidio outorgado pela Na- tional Science Foundation. Hastings-on-Hudson, Nova Iorque marc;o de 1968 (OJ N. do trad.: Em ingles serendipity. Vejam-se. a respeito. os esclarecimentos do Autor nas Dotas 18 do cap. IV; 4-A do cap. V e 2, do cap. X.
  7. 7. PREFAclO DA EDICAo REVISTA<- DE 1957 MAIS DE UM TERc;O, aproximactamente, do conteudo do presente volume e materia nova. As principais alterag6es consistem de quatro capitulos novas e de dois pos-escritos bibliognificos, que abrangem recentes desenvolvimentos acerca do tema tratado nos capitulos a que foram apen- sados. Procurei igualmente aperfeigoar, em varios topicos do livro, a ex- posigao do assunto, reescrevendo paragrafos que nao apresentavam a de- vida clareza e eliminando diversos erros que nunca deveriam tel' sido co- metidos. Dos quatro capitulos acrescentados a esta edigao, dois pravem de sim- posios publicados, urn dos quais se esgotou e 0 outro, segundo estou infor- mado, aproxima-se da mesma situagao. "Padr6es de Influencia", que sur- giu inicialmente na publicagao Communications Research, 1747-47(P. F. Lazarsfeld e F. N. Stanton, editOres), faz parte de uma serie continuada de estudos feitos pelo Departamento de Pesquisa Social Aplicada, da Universidade de Columbia, versando sabre 0 papel da influencia pessoal na sociedade. Este capitulo estabelece 0 conceito do fator do "influente", identifica dois tipos distintos desse fatal', 0 "loDal" e 0 "cosmopolita" e os relaciona a estrutura de influencia na comunidade local. 0 segundo, "Contribuig6es a Teoria de Comportamento dos Grupos de Referencia", foi escrito em colaboragac;>com a Sra. Alice S. Rossi e originalmente publicado em Continuities in Social Research Cedigao de· R. K. Merton e P. F. Lazarsfeld). Baseia-se na ampla evidencia fornecida pelo The American Soldier, com a proposito de formular certas condig6es em que as pessoas se orientam pelas normas de varios grupos, pa,rticularmente POl' aqueles a que nao se acham filiadas. Os outros dais capitulos acrescentados a est a edigao nao foram pu- blicados antes. 0 primeiro, "Continuidades na Teoria da Estrutura So- cial e da Anomia", procura consolidar recennes amilises empiricas e teoricas das origens e conseqiiencias da infragao de normas sociais, descritas como anomia. 0 segundo, "Continuidades na Teoria dos Grupos de Referen- cia e Estrutura Social", procura revelar algumas das inferencias especifica- mente sociologicas das investigag6es atuais sabre 0 comportamento dos gru- pos de referencia, distinguindo-as das indug6es sociopsicologicas. Seu ob- jetivo e examinar alguns dos problemas teoricos da estrutura social, que de- vem ser resolvidos antes que ocorram determinadas progressos na analise saciologica dos grupos de referencia.
  8. 8. Os p6s-escritos bibliognificos tratam reswnidamente da analise fun- donal da sociologia e se detem urn tanto no papel do puritanism a no desenvolvimento da ciencia moderna. Agradego especialmente a Dra. Elinor Barber e a Sra. Marie Klink, o auxflio prestado na corregao das provas. A Sra. Bernice Zelditch, a preparagao do indice. A revisao da presente obra foi beneficiada par pequeno auxflio monetario propiciado pelo Programa de Ciencias do Com- portamento, da Fundagao Ford, como parte de seu plano de auxflios, sem restrigoes previas, para urn "proj'eto" especifico. NENHUM HOMEM SABE, de modo integral, a que ;foi que modelou seu pr6prio pensamento. Torna-se dificH tragar, pormenorizadamente, a origem das concepgoes emitidas neste livro, bem como pesquisar as causas das suas progressivas modificagoes, que surgiram no decorrer dos anos, a medida em que eu ia elaborando esta obra. Muitos cien- tistas sociais contribuiram para desenvolve-Ias e sempre que a origem se tornava conhecida, eu tratava de referencia-Ia em nwnerosas notas, espa- lhadas pelos diversos capitulos. Entre essas fontes, porem, M seis de que me considero especialmente devedor, embora sob graus e modalida- des diversas, pelo que desejo prestar-Ihes 0 meu reconhecimento. o primeiro e maior desses tributos e ligeira e tardiamente reconhe- cido no fato de ser esse livro dedicado a Charles H. Hopkins, espaso de minha irma, cuja vida despertou em muitas criaturas 0 sentido profundo da dignidade hwnana. Para n6s, que compartHhamos do convivio de sua exisrencia serena, ele continua vivo. E com amor, respeito e grati- dao, que dedico este livro a Hopkins, que aprendeu por si mesmo aquilo que pade ensinar aos outros. Ao meu born amigo George Eaton Simpson, presentemente no Ober- lin College, sou grato par haver incutido, na mente de wn estudante no- vato como eu, 0 devido interesse para estudar 0 funcionamento dos sis- temas de relagoes sociais. Nao me poderia ter sido mais auspiciosa qual- quer outra introdugao a sociologia. Com relagao a Pitirim A. Sorokin - antes que se absorvesse no estu- do dos movimentos hist6ricos em grande escala, tais como aqueles repro- sentados em sua obra Social and Cultural Dynamics, devo dizer que me ajudou a fugir do provincianismo de pensar que os estudos efetivos da so>- ciedade se confinavam as fronteiras dos Estados Unidos. E mais: do provin- cianismo em acreditar que 0 assunto principal e primario da sociologia se centralizava em problemas tao perifericos da vida social, como sejam 0 div6rcio e a delinquencia juvenil. Prazerosamente reconhego que ainda devo esta obrigagao. A George Sarton, 0 mais apreciado entre os historiadores da ciencia, sou grato tanto pela amizade como pela orientagao e priviIegio de ter labutado a maior parte do periodo de dois anos em sua famosa oficina de trabalho, na 189."Secgao da Biblioteca de Harvard. Urn pequeno ves- tigio de seu estfmulo sera encontrado na Parte IV deste livro, dedicada a estudos sObre a sociologia da ciencia. Hastings-an-Hudson, Nova lorque Dia de Ac;;aode Grac;;as,1956
  9. 9. Aqueles que lerem as paginas que seguem, logo reco.'1hecerao que a maior divida nesse senti do e para com 0 meu professor e amigo Talcott Parsons, que desde 0 inicio de sua carreira soube inculcar a tantos de seus discipulos 0 maior entusiasmo pela teoria analitica. A medida de sua eficiencia ·cemo professo~ esta no ,fato de ter despertado a independen- cia intelectual, ao inves de meramente fazer com que seus discipulos lhe obedecessem. Na intimidade espiritual proporcionada pelo pequeno departamento de graduagao em sociologia, de Harvard, na primeira par- te da decada de 1930, era possivel a urn estudante do ultimo ano, como eu, visa..'1doa ,formatura, manter est:-eitas e continuas relagaes de traba- lho com urn instrutor da qualidade do Dr. Parsons. Tratava-se, na rea- lidade, de urn collegium, 0 que hoj'e nao e facil encontrar, em departa- mentos que abrigam muitos estudantes e urn pequeno numero de professa- res, submetidos a pesada rotina. Nos ultimos anos, enquanto eu trabalhava no Departamento de Pes- quisa Social Aplicada, na Universidade de Columbia, compartilhando de varias ta.refas, muito aprendi com Paul F. Lazarsfeld. Uma vez que em nossas incontaveis conversagaes tornou-se evidente que ele nao sus- peitara da extensao de minha divida intelectual para com ele, sinto-me especialmente feliz, nesta ocasiao, de chamar sabre ele a atengao do pu- blico. Para mim, urn de seus mais valiosos tragos tern side a sua cetica curiosidade, que me compeliu a articular-me do modo mais completo pos- sivel, quanto as minhas razaes em considerar a analise funcional presen- temente como a mais promissora, senao a unica orientagao teorica ade- quada a extensa faixa de problemas da sociedade humana. E, acima de tudo, atraves de seu proprio exemplo, ele reforgou a minha convicgao de que a grande diferenga entre a ciencia social e 0 dHetantismo reside na busca sistematica e seria, isto e, intelectualmente responsavel e aus- tera, daquilo que, a principio, e apenas uma ideia atraente e interessante. No mesmo sentido, penso que a presenga de Whitehead se patenteia nas linhas finais da passagem inscrita na epigrafe deste livro. Ha mais quatro pessoas que merecem breve referenda: todos quan- tos me conhecem sabem da minha grande obrigagao para com uma de- las; as demais, no devido tempo, descobrirao por si mesmas a exata na- tureza da minha grande obrigagao para com elas. Part~ I TEORIA SOCIOLOGICA
  10. 10. SOBRE A HISTORIA E A SISTEMATICA DA TEORIA SOCIOLOGiCA «Vma ciencia que hesita em esquecer seus fund:tdores esta perdidl». «E caracteristico de uma ciencia, em seus primeiros estagios ... see ao meSilla tempo ambicios'amente profunda em seus objetivos e trivial no maneje dos detalhes». «Porem, aproximar-se muito de uma teoria verdadeira c do. minar sua aplica~ao exata. sac duas (a isas bem diversas. como nos ensina a Hist6ria da Ciencia. Tuda quanta hi de importante ji foi dito por alguem que, no entanto. nao 0 descobriu». EMBORAINSPIRADOS em larga escala nos trabalhos dos primeiros mes- tres da sociologia, os presentes ensaios nao tratam da hist6ria da teoria socio16gica, mas da substancia sistematica de certas teorias hoje utilizadas pelos soci610gos. A distinc;ao entre as duas nao e apenas casual, mas ambas estao !reqiientemente con!undidas nos curriculos academicos e nas publi- cac;6es. Com e!eito, as ciencias sociais, em geral, com a. crescente excec;ao da psicologia e economia tendem a !undir a teoria corrente com a sua pr6pria hist6ria, num grau muito mais elevado do que 0 !azem outras ciencias, tais como a biologia, a quimica ou a Hsica.1 Simbblicamente, e muito adequado que os soci6logos tenham a ben- dencia de fundir a hist6ria com a sistematica da teoria, pois Auguste Comte, muitas vezes definido como 0 pai da sociologia, tern side tambem descrito 1. Esta discussao inspirou-se num cnsaio anterior a respe,ito da {(posic;ao da teoria sociol6gica». Amencan SocIOlogical ReView, 1949, 13, 164·8. Para observa<;6es oportunas sobre a papel da hlstorra do penSJIl1ento sOCIal, dlverso daquele da teoria sociol6gica corrente, ver: Howard Becker, «VitalIZIng socIOlogical theory», IbId., 1954, 19, 377·88, esp. 379,81, a recente trabalho, farta, e labonosamente documentado par Joseph Berger, Morris Zelditch Jr. e Bo Anderson. SOCiologIcal Theo<ies in Progress (Boston: Houghton Mifflin Co., 1966), IX-XII, e a ensaio de William R. Catton, From Animistic to Naruralisric Sociology (Nova lorque: Mc-Graw Hill, 1966). Urn ponto de VIsta urn tanto diferente sabre a natureza e as fun<;6es da teoria social paden. ser ~ncontrado em: Theodore Abel, «The present status of social theory», American Sociological Review, 1952, 1,7, 156-64, bem como na discussiio desse ensaio par Kenneth E. Bock e Stephen W. Reed, 164-7; e em Herbert Blumer, «WIu1t is wrong with social theory?». ibid" 1954, 19, 3-10,
  11. 11. como a pai da historia da ciencia. 2 Todavia, a confusao atraente mas fatal da teoria sociologica corrente com a historia das ideias sociologicas, des- preza suas l'espectivas fung6es, tao acentuadamente diferentes. o reconhecimento adequado da diferenga entre a historia e a siste- matica da historia poderia ter, como resultado, a composigao de historias autenticas. Estas poderiam ter as ingredientes e as caracberisticas formais das melhores historias de outras ciencias. Poderiam ocupar-se de assuntos como a filiagao complexa das ideias sociologicas, as maneiras como se desenvolveram, as conex6es da teoria com as origens sociais variantes e as subseqtientes status sociais dos seus expoentes, a interagao da tea ria com a organizagao social variante da sociologia, a difusao da teoria a partir de centros de pensamento sociologico e as suas modificag6es no decurso da difusao, e das maneiras em que esse pensamento foi influenciado por alterag6es na cultura e na estrutura social ambientes. A pratica dessa distingao contribuiria, em suma, para a historia sociologica da teoria sociologica,. Os sociologos porem, ainda conservam uma concepgao provinciana, diriamos mesmo "pickwickiana"*, da historia da teoria sociologica que, para eles, nao e mais que uma colegao de criticas sumarias de antigas teorias, apimentadas com breves biografias dos grandes teoricos. Isto ajuda a explicar porque quase todos os sociologos consideram-se qualificados a ensinar e a lescrever a "Historia" da teoria sociologica, pois, afinal de contas, eles estao a par dos escritos c1assicos do passado. Mas ess~ conceito da historia da teoria nao e nem historia nem sistematica, apenas urn produto hibrido, muito mal engendrado. Efetivamente, tal conceito constitui anomalia no campo do trabalho intelectual contemporaneo e assinala uma crescente inversao de papeis entre os sociologos e os histo·riadores, pois as sociologos estao mantendo sua concepgao limitada e vaga da historia das ideias exatamente quando nova estirpe, de historiadores especializados, da ciencia esta inspirando-se ampla e profundamente na sociologia, psicologia e politica da ciencia para conseguir rumos teoricos as suas interpretag6es do desenvolvimento da mesma. 3 A historia especializada da clencia abrange as conceitos intell- gentes mas erroneos que eram aceitaveis na epoca em que foram enunciados mas que foram mais tarde destruidos por testes empiricos inapelaveis, o~ substituidos por conceitos mais adequados aos novas conhecimentos. Tam- bem inclui as saidas erradas, as doutrinas que se revelaram arcaicas, os erros frutiferos au infrutiferos do pass ado. A historia da ciencia justifica-se quando pretende atingir 0 conhecimento de como os fatos se desenvolveram em determinada ciencia ou complexo de ciencia, nao apenas quando quer colacar em ordem cronologica as sinopses da teoria cientifica. E, acima de tudo, essa especie de historia nao se destina a instruir 0 cientistas de hoje na teoria operante corrente, na metodologia. ou na tecnica de sua ciencia. A historia e a sistematica da teoria cientifica podem ser relatadas, exatamente porque foram previamente l'econhecidas como sendo distintas. Os sociologos e os historiadores tern invertido seus papeis, de modo impressionante. Os historiadores estao compHando com muito entusiasmo a "historia oral" 4 do recente passado nas ciencias, entrevistando as prin- cipais personagens dessa historia e gravando suas declarag6es pelo sistema de "video-tape", ao passe que os sociologos ainda se limitam a concentrar sua atengao aos documentos publicos. E outro caso em que as historiadores estao "invadindo" e "sabrepujando" os sociologos em seu proprio dominio, ou seja, a tecnica da entrevista. Resumindo, podemos diZier que os his- toriadores da ciencia. fisica e biologica estao comegando a escrever his- torias analiticas baseadas em parte na sociologia da ciencia, 0 enquanto as sociologos continuam a considerar a historia da teoria sociologica como uma serie de sumarios criticos de suoessivos sistemas teoricos. Admitindo-se esse conceito restrito, conclui-se naturalmente que as obras de Marx, Weber, Durkheim, Simmel, Pareto, Sumner, Cooley e de outros autol'es menos inportantes que descrevam esses sistemas teoricos continuam sendo as fontes principais de material para os sociologos. Porem, essa escolha de materiais nas fontes, que parece tao justificada, choca-se contra a destoante diferenga entre as vers6es terminadas do trabalho cientifico como aparece na obra impressa e 0 andamento real da investigagao nas maos do pesquisador. A diferenga e urn pouca semelhante 2. Ver, por exemplo, George Sarton, The Study of the History of Science (Cambridge. Harvard University Press, 1936), 3-4. A atribui<;iio a Comte, Marx ou Saint-Simon do titulo de ..:pa!i» cia sociologia e, em parte, quesHio de opiniao e, em parte, resultado de uma suposi<;ao mal fundamentada s6bre a maneira como surgem e se cristalizam novas ciencias.F Continua sendo uma si.mples opiniao, porque nao hi criterios paclficamente aceitos quanta as condi<;6es de «paternIdade». de. urna cienc.ia; a suposi<;ao, sem muita base, e de que ha, tipicamente, urn pai p.a...ra . ca~a .clencla, 0 que nao passa de uma metafora biologica. Na realidade, a historia cla ClenCla Indica que a poligenese e a regra. Contudo, e fora de duvida que Comte. em 1839. cur:hou a pala.vra «soci?logia», esse horrivel termo hibrjdo que passou a designar a ciencia cia ~~cI~dade .. !"IUItos estudlOsOS e professores tern protestado, ate hoje, contra esse barbarismo. agora J ,~rremed~avel. Urn dos nurnerosos exemplos de protestos e a observa<;ao feita em 1852 pelo ~eOf1co sOClal talentoso e injustamente esquecido, George Corne wall lewis: « ... .a principal obje<;ao cima pa}avra cientif.ica, composta parcial mente de uma palavra inglesa e de uma grega e que- po e 1 ser Inco.rnpreensivel para urn estrangeiro que desconhe<;a a nossa lingua. 0 Sf. Comt; propos ~efe~l~v~a f S~C101~gy; mas 0 que diriamos a urn escritor alemao que usasse a palavra gesellO'logy, ou Rea c. a t~ ogy.)}: . A queixa esta registrada em A Treatise on the Methods of Observation and ter~~nl~g V. rOlltICS, de Lewis (Londres: 1852), II. 337-notas; quanto it propria historia desse (Londte: r 19~~)'r IBranford, «On the origin and use of the word sociology ... », Sociological Papers, Iorque' T Y 'c' 3-1~4 e L. L. Bernard e JeSSIe Bernard, Origins of American Sociology, (Noya (*) N. do t;ad.:r°J:le ~ 1~43), 249. . . . . Charles Dickens usao a. personagem burlesca prIncIpal de «As Aventuras do ~r., PlckwlCk», de e a sua fauna' a~~:tiscaal>~.a campo sem qualquer preparo, «para estudar as breJos de Hamsptead :'. Entre os representantes mais consequentes da nova historia da ciencia. encontram-se Charles Gillispie. Henry Guerlac. Rupert HalL Marie Boas Hall, Thnmas Kuhn, Everett Mendelsohn, Derek Pnce, Robert Schofield, L. Pearce Williams e A. C. Crombie. 4. Inventada pelo historiador Allan Nevins como mcio de preservac;ao dos dados fugazes do prescnte historico, a «historia oral» tern utilizado tecnicas de entrevista que sao mais proprjas dos soci()logo$ «de campo» que dos historiadores, pois estes sao tradicionalmente mestres no sistema de coleta e de anilise de mater.iais documentarios. Para um rclatorio sabre a «historia ora!», mo~o ~e jnvestj~a<;ao que se estendeu muito alcm do seu ponto de origem oa Universidade de ColumbIa, ver The Oral History Collection of Columbia University (Nova Iorque: Oral History Research Office, 1964), vol. I e suplementos aouais. . Como exemplo, 0 American Institute of Physics esta compilando, sob a direc;:ao de Charles Welner, u.~a hist~ria oral e documentaria da fisica nucle:lr; essa tecnica poderia se-r bem irnitacla pelos soclOlogos wteressados na historia reccnte cia sua propria disciplina. H' .s. Para .exempIos ~a historia da ciencia pintada sociologicamente, ver a publica"ao aoual H lstOry of SC!~nce, publlcad~ pela primeira vez efl.'. 1962, sob a dire<;ao de A. C. Crombie e M. A. U o~klns.' tambem Marshall Clagett, organlzador, CCltIcal Problems In the HIstory of SCience (MadIson: DIversIty of Wisconsin Press, 1959).
  12. 12. a que existe entre os manuais de "metodo cientifico" e as maneiras pelas quais os cientistas efetivamente pensam, sentem e procedem em seu traba- Iho. Os livros sabre metodos apresentam padr6es ideais: como os cientistas deveriam pensar, sentir e agi.r, mas esses padr6es normativos consideniveis, como todas as pessoas que se tern dedicado a pesquisas sabem, nao re- produzem as adaptaQoes tipicamente desalinhadas e oportunistas que os cientistas fazeffi no transcorrer das suas inv'estigaQ6es. Tipicamente, 0 ensaio cientifico e a monografia apresentam uma aparencia imaculada, que POliCO ou nada reflete os saltos intuitivos, as falsas saidas, enganos, observac;;6esconfusas e inacabRdas, ou as felizes ocorrencias que van sur- O"indodesordenadamente durante a pesquisa. Os registros publicos da cien- ~ia, ou seja, os livros impressos, deixam, portanto, de fornecer muitos dos materiais das fontes originais, necessarios para reconstituir 0 curso real dos desenvolvimentos cientificos. A concepQao da historia da ideia sociologica, como uma serie de r-elatorios criticos de conceitos publicados, retarda-se muito da realidade ja bem conhecida,. Mesmo antes da invenc;;aoevoluciomiria do ensaio cien- tHico, tres seculos atnis, ja se sabia que 0 idioma da ciencia, tlpicamente impessoal, neutro e convencional so podia comunicar as noc;;6esessenciais das novas contribuic;;6es cientificas, mas nao podia reproduzir 0 andamento real da pesquisa. Em outras palavras, ja se sabia 'entao que a historia e a sistematica da teoria cientifica exigia especies diversas de materiais basicos. Nos primeiros anos do seculo XVII, Bacon simultaneamente observava e lamentava: talvez a posteridade, a respeito das suas contribuic;;6es a ciencia., eles tern continuado a publicar amplamente seus trabalhos de urn modo mais Ibgicamente cogente do que historicamente descritivo. Essa pratica con- tinuou a suprir 0 mesmo tipo de observac;;ao feita por Bacon e Leibniz. Quase dois seculos depois de Leibniz, Mach declarou que, em sua opiniao, as coisas nao haviam mudado, para melhor, no milenio posterior a des- cobert a da geometria euclidiana. As exposic;;6escientLfieas e matematicas ainda continuavam a inclinar-se mais para a casuistica logiea do que para o registro de cursos reais de investigac;;ao: «0 sistema de EucJides fascinou os pensadores grac;as it sua excelencia 16gic3 e os seus defeitos foram esquecidos no meio dessa admirac;ao. Grandes pesquisadores, mesmo em cpocas recentes. ~em sido erroneamentc levados a seguir 0 excmplo de Euclides na apresent.1C;J.o do resultado dos seus inqucritos e. dessa maneira, a esconder realmente seus metod-os de inve::tiga~ao, corn .<:rande prejulzo para a cienc.ia». 8 «Descartes queria fazer·nos erer que nao lera quase nada. Essa asse.rc;ao era urn tanto exagerada. Assim mesmo e born estudar as descobertas dos outros de uma manelra que nos [evele a fante das descobertas e' as torne de certo modo nossas. E eu gostaria que os autores nos contasser:n a hist6ria das suas descobertas e as passos que deram para chegar .1; elas. Qyando I eles delxam de faze-Io, devemos tentar adivinhar esses passos, a fim de aproveltar 0 mal.s posslvel. os .seug trabalhos Se os 'criticos quisessem fazer isso para nos quando comentam os lIvros [agul 5ena 0 Caso de perguntar ao grande matematico e £iloso£o: como poderiam fazer tal coisa?] eles pre5tariam grande servic;o ao pUDlico». 7 Mas, de certa maneira, a observa,c;;aode Mach e regressiva. Deixa -)le de perceber 0 que Bacon viu tao claramente alguns seculos antes, ou seja, que os anais da ciencia hao de diferir ineviUwelmente, conforme dependam da intenc;;aode contribuir com conhecimento sistematico corrente ou para uma melhor compreensao historic a, de como se desenvolve 0 tmbalho cientifieo. Mas 0 que Mach, como Bacon e Leibniz, pretende realmente dizer, e que nao podemos esperar reconstruir a historia verdadeira da investigac;;ao cientffica apenas prestando atenc;;aoa relatorios de tipo con- vencional ja publicados. Essa mesma observac;;aofoi feita recentemente pelo fisico A. A. Moles, ao dizer que os cientistas san "profissionalmente treinados a esconder para si mesmos 0 seu pensamento mais profundo" e para "exagerar incons- cientemente 0 aspecto racional" do trabalho feito no passado.9 0 que d~sejamos sublinhar e que 0 habito de explicar favoravelmente 0 curso atual, concreto e real da investigac;;ao,resulta principalmente dos costumes da comunicac;;aocientifica, os quais utilizam uma linguagem e uma forma passiva de observac;;ao. Isso implica em que as ideias se desenvolvem sem a ajuda da mente humana e que a pesquisa se ef'etua sem a colaborac;;ao das maos do homem. Essa observac;;ao foi generalizada pela botanica Agnes Arber, a qual !lotou que "0 modo de apresentac;;ao do trabalho cientifico e... moldado pelos preconoeitos de pensamento vigentes em sua epoca". Embora 0 estilo dos relat6rios cientLficos divirja de acordo com as tendencias inte- lectuais prevalecentes no periodo, todos eJes apresentam mais uma re- construc;;ao estilizada da pesquisa do que Uma descric;;aofiel do seu efetivo desenvolvimento. Agnes Arber observa que, no periodo euclidiano, quando o sistema dedutivo era altamente apreciado, 0 curso real das pesquisas Ii- cava encoberto "pelo metodo artificial de enfileirar conceitos numa linha de dedu:6es arbitrariamente escolhida", obscurecendo, dessa maneira, 0 seu aspecto empirico. Hoje, ° cientista, "achando-se dominado pelo metodo «que nnnca qualquer conhecimento foi difundid? .na mes~a ordem em que foi inv~n_tado, tampouco na matematica. embora se possa pensar 0 contrano, conslderanclo·se que as proposlc;oes. ap,:esenta.das em ultimo lugar utiIizam realmente as proposl(oes ou suposi(oes colocadas em prunelro Iugar pJ.Ia piOva e demonstraC;ao». 6 Desde entao, a mesma observac;ao tern sido feita repetida e indepen- dentemente, ao qu~ parece, por muitos espiritos perceptivos. Assim, urn seculo mais tarde, Leibniz toeou num ponto muito parecido numa carta nao destinada a publicac;;ao,mas que mais tarde passou a fazer parte do registro bistorico: Com efeito, 0 que Bacon e Leibniz estao dizendo e que as materias- -primas de que a hist6ria e a sistematica da ciencia necessitam, diferem muito significativamente entre si. Mas, uma vez que os cientistas costumam publicar suas ideias e descobertas, nao para ajudar os historiadores a reconstruirem seus metodos mas para informar sellS contemporaneos, e 6. FrancIS Bacon The Vorks of Francis Bacon. Compilados e editados por James Speddjng, Robert Leslie Ellis e Douglas Denon Heath (Cambridge, Inglaterra: Riverside Press, 1863), VI, 70. 7. Gottfried Wilhelm Leibniz, Philosophischen Schriften, C. I. Gerhardt, editor, (Berlim, 1887), II, )68, - em sua carta dirigida de Vien •• a Louis Bourquet, em 22 de mar,o de 1714. 8. Ernest Mach, Space and Geometry, trad. inglesa de T. J. McCormack (Chiogo: Open Court Publishing Co., 1906), 113; 0 grifo e nosso. 9. A. A., .lfoles, La cn~ation scienti£iquc. (Genebra, 1957), citado por Jacques Barzun em Science: The Glorious Entertainment (Nova Iorque: Harper & Row, 1964), 93.
  13. 13. indutivo, mesmo quando atingiu, de fato, suas hipateses por analogia, reage instintivamente no sentido de esconder as suas pistas, e de apre- sentar todo 0 seu trabalho - e nao apenas a sua prova - em forma in. dutiva, como se as suas conclus6es houvessem sido realmente atingidas par esse processo".10 Agnes Arber observa que sbmente na literatura nao-cientifica encontra- mos tentativas para registrar 0 caniter reticula do e intricado do pensamento: Outro sinaI promissor foi 0 aparecimento, em 1965, do Journal oj the History oj the Behavioral Sciences, a primeira revista dedicada exclusiv3- mente a histaria das ciencias do comportamento - em contraste com grande mimero de revistas importantes e uma centena da pequenas pu- blicag6es consagradas a histaria das ciencias fisica e biolagica. Terceiro sinal foi 0 interesse cada vez maiar pelo estudo da histaria da pesquisa social. Nathan Glazer, por exemplo, tragou 0 processo, por meio do seu ensaio autenticamente histarico The Rise ot Social Research in Europe, ao passo que Paul F. Lazarsfeld instaurou urn programa especial de monogra- ijas dedicadas as primeiras manifestag6es da pesquisa social empirica na AIemanha, na Franga, na Inglaterra, na ItaJia, na Rolanda e na Escandi- mivia.14 Alvin Gouldner, em seu recente trabalho sabve a teoria social de Platao,] 5 estabelece urn precedente auspicioso para as monografias que relacionam a estrutura sacio-cultural do ambiente social com 0 desenvol- vimento da teoria social. Estas sac apenas algumas das muitas provas de que os socialogos estao voltando sua atengao as alllilises caracteristica- mente histaricas e sociolagicas da expansao tea rica. «Lawrence Sterne, e alguns escritores modernos influenciados pela sua tecnica [alusao bastante clara 30$ impreSSlOnistas James Joyce e Virginia Woolf], visualizaram e procuraram transportar na lingua gem 0 comportamento complicado e nao linear da mente hllmana, que arrernetc: (J~ urn Jado para Dutro sem se preocupar com as peias cia seqUencia temporal; mas POllCOS [cientistas) se arriscariam a tais experiencias». 1 I Contuo.o, nao e preciso ser muito otimista para perceber que a, inca- pac:idade da sociologia em distinguir entre a histaria e a sistematica da teoria sera urn dia superada. De inicio, alguns socialogos reconheceram que as publicag6es comuns proporciona,vam base insuficiente para desen- covar a histaria real da teoria e da investigagao sociolagica. Contornaram a dificuldade langando mao de outras 'especies de materiais originais: c&dernos de notas e diarios cientificos (p. ex., Cooley), correspondencia (p. ex., Marx-Engels, Ross-Ward), autobiografias e biografias (p. ex., Marx, Spencer, Weber e muitos outros). Socialogos mais recentes tern chegado a publicar, ocasionalmente, relatarios nao retocados, da maneira como efetuaram suas pesquisas, incluindo todos os detalhes das influencias intelectuais ,e sociais recebidas, os encontros ocasionais com dados e id6ias, os erros e descuidos, os desvios do plano original de investiga<;ao e todos os outros tipos de episadios que surgem no decorrer das pesquisas e nao sac geralmente relatados no trabalho publicado.]2 Embora ainda es- tejam na fase inicial, tais cranicas hao de dar maior extensao a pnitica introduzida por Lester F. Ward, em sua obra em seis volumes Glimpses ot the Cosmos,] 3 de introduzir cada ensaio como urn "esbago histarico des- cl'evendo exatamente quando, onde, como e porque ,foi escrito".13· CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES NA TEORIA SOCIOL6GICA Da mesma forma que outros artifices, os historiadores das ideias acham-se expostos aos varios percalgos do oficio. Urn desses casos mais axas- perantes e excitantes surge tadas as vezes que os historiadores procuram identificar as continuidades e as descontinuidades histaricas das ideias. E urn exercicio' acrobatico que se pode comparar com 0 de caminhar sabre urn arame, pois 0 menor desvio da posigao ereta e amiude suficiente paTa ,fazer perder 0 equilibrio. 0 escritor de ideias corre 0 risco de dizer que achou uma seqUencia de pensamento onde nenhuma existe, ou de nao a encontrar onde ela existe.16 Ao observarmos 0 comportamento dos historiadores de ideias, desco- brimos que, quando eles se enganam, cometem geralmente 0 primeiro tipo de erros. Sao muito propensos a encontrar uma firme corrente de I'r 10. Agnes Arber, «Analogy in the history of science», Srudies and Essays in rhe History of Science and Learning offered in Homage to George Sarton, compilados por M. F. Ashley Monta!!u (Nova Iorque: Henry Schumann. 1944), 222-33. esp. 229. 11. A!!nes Arber, The Mind ",nd rhe Eye: A Srudy of the Biologist's Standpoint (Cambridge University Press, 1954). 46. a capitulo V, «The Biologist and Written Word» e mesmo a totalidade desse livro sutil. perceptivo e profundamente informado, deveria constituir lcitura obrigat6ria para os historiadores de qualquer disciplina c.ientffica, nao excluindo a sociologia. 12. Por exemplo: 0 pormenorizado apendice metodo16gico apresentado por William Foote Wh~te na edi,iio aumentada de Street Corper Society: The Social Structure of an Italian Slum (ChIcago: University of Chicago Press, 1955); 0 relato de E. H. Sutherland sobre 0 desenvolvi- menta cia sua teoria de associac;ao diferenciaI. em The Sutherland Papers. compilac;iio de Albert Gohen, Alfred Lindesmith e Karl Schuessler (Bloomington: Indiana University Press. 1956); Edward A. Shils, «Primordial. Personal, Sacred and Civil Ties». Brirish Jourpal of Sociology, junho 1957, 140·145; Marie Jahoda, Paul F. Lazarsfeld e Hans Zeisel. Die Arbeitslosen von Marienthal. 2; ed. niio. revista (Bonn: Verlag fur Demoskopie, 1960). com nova introdu<;iio de Lazarsfeld sabre as ongens mtelectuais, 0 ambiente do pensamento socio16gico e psico16gico e os epis6dios que se desenrolaram durante a pesquisa. Em 1964, essa preocupa,iio com tudo aquilo que acooteceu pchNrentE no decurso de varias pesquisas sociologicas foi expressa em duas coletaneas desses assuntos: I Ip 13 Hammond, compilador, Sociologists at Work: The Craft of Social Research (Nova R:fl~e;. aSlc Books) ~ Arthur J. Vidich, Joseph Bensman e Maurice R. Stein, compiladores, erlOns on Commu,nrty StudIes (Nova Iorque: John Wiley & Sons). 13. Nova Iorque e Londres: G. P. Putnam, 1913.18. vida 13a. Para. ou.tro exemplo de inter·rela,iio entre 0 trabalho do soci6logo. a hist6ria de sua e Fr:nk Frga~lZb,ao SOCIal do campo. ver 0 ensaio biogrHico de Villiam J. Goode, Larry Mitchell urs en erg, em Selected Works of Willard W. Waller (no prelo). 14. Nathan Glazer «The Rise of Social Research in Europe», em The Human Meaning of the Social Sciences. Daniel Lerner, ·compilador (Nova Iorque: Meridian Books. 1959), 43·72. Ver tambem a primeira monngrafia publicada dentro do programa de Lazarsfeld: Anthony Oberschall, Empirical Social Research in Germany, 1848-1914 (Paris e Haia: M,?uton, 19~5). 15. Alvin W. Gouldner, Enter Plato: Classical Greece a,nd the OnglOs of SOCIal Theory (Nova Iorque: Basic Books. 1965). 16. Como exemplo adequado, posso dizer que cheguei a essa mesma distin<;iio alguns an,?s apos have-la elaborado pormenorizadamente durante uma serie de confereoCias. Vcr 3 ?ISCUSSao da «precursoritis», por Joseph T. Clark, S. J., «The philosophy of science and the hIstory of SC!cncc», em Clagett, op. cit., 103-40, e 0 comentaria sabre esse ensaio por 1. E. DrabkIn, esp. pag. 152. Essa coincidencia de ideias e duplamente adequada uma vez que, desde algum tempo, tenho sustentado a opiniao de que as historias e as sociologias das ideias exemplificam alguns dos mesmos processos hist6ricos e intelectuais que elas descrevem e analisam. Note-se, par exemplo, a observal";ao de que a teoria das descobertas multiplas e independentes na ciencia e confirmada pela sua pr6pria hist6ria, pois tern sido periodicamente descoberta no espa~o de varias gera~?es. Ver R. _ K, Merton, «Singletons and multiples in scientific discovery: a chapter in the SOCIOlogy of SCIence», Proceedings of rhe American Philosophical Society, outubro de 1961, 105, 470-86, esp. tl5-7. Ver outros casos de hip6teses e teorias que se exemplificam por si mesmas. em R. K. 19e;;)~' On rhe Shoulders of Gianw (Nova Iorque: The Free Press, 1965; Harcour, Brace & World,
  14. 14. precursores, de antecipagoes ou de prefi~ragoes, em muitos caso~ e:n que uma investigagao ma' profunda revelana tratar-se apenas de flCgoes. Compreende-se que os soci6logos compartilhem dessa tendi'mcia com os historiadores da ciencia, pois ambos adotam geralmente um modelo de desenvolvimento hist6rico da cH~nciaque procede de incrementos do conhecimento. Desse ponto de vista, as lacunas ocasionais provem linica- mente da incapaeidade de se descobrirem informagoes completas mediante a investigagao das obras do passado. Desconhecendo os trabalhos anterio- res, os cientistas mais recentes fazem descobrimentos que resultam ser redescobrimentos (isto e, conceitos ou achados que ja foram enunciados em todos os seus aspectos relevantes). Para 0 historiador que tem acesso tanto a primeira como a segunda versao da descoberta, essa ocorrencia 'indica uma continuidade intelectual, embora nao hist6rica, de que 0 se- gundo descobridor nao tinha conhecimento. Essa presungao de continui- dade e confirmada pelo fate 'abundantemente comprovado de que descober- tas e ideias multiplas e independentes ocorvem nas ciencias.17 Que algumas ideias cientificas tenham sido plenamente anteeipadas 11aOsignifica, e claro, que todas 0 foram. A continuidade hist6rica do conhecimento implica novos incrementos do conhecimento previo que nao haviam sido antecipados; existe tambem certa dose de descontinuidade genuina na forma da quantidade de saltos que se efetuam na formulagao das ideias, e na descobert a de uniformidades empfricas. Um dos passos qUE;mais contribui para 0 progresso sociol6gico da cieneia, consiste pre- cisarnente na solugao do problema da identificagao das condigoes e pro- cessos que provocarn a continuidade e a descontinuidade na ciencia. ]::sses problemas de reconstruir a exbensao da continuidade e descon- tinuidade saa inerentes a toda a hist6ria da ciencia, mas adquirem carater especial naquelas hist6rias (como, por exemplo, na hist6ria tipica da sociologia) que se limitam principalmente a sumarios de ideias cronolbgi- carnente organizados. Nos trabalhos que excluem 0 estudo serio da agao recfproca das ideias e da estrutura sociais, a pretensa ligagao entre as ideias mais novas e as mais antigas e colocada no centro das cogitagoes. o histOliador de ideias, quer 0 perceba ou nao, esta entao obrigado a dis- tinguir a extensao da similaridade existente entre velhas e novas ideias, dando-se ao ambito dessas diferengas os nomes de redescobrimento, ante- cipagoes, prefiguragoes e, no caso mais extremo, "prefiguracionismo". 1. Redeseobrimento e pre-deseobrimento. Falando em sentido estrito, as descobertas multiplas independentes na ciencia veferem-se a ideias subs- tantivamente identicas ou funcionalmente equivalentes, e a achados empf- ricos publicados por dois ou ma.is cientistas, cada qual desconhecedor do trabalho do outro. Quando isso ocorre mais ou menos ao mesmo tempo, chama-se descobrimentos independentes "simultaneos". Os historiadores nao estabeleceram criterios universalmente aceitos de "simultaneidade" mas, na pratica, as d·escobertas multiplas sao designadas como simultaneas quando se dao dentro do prazo de alguns anos. Quando intervalos maiores separam descobrimentos funeionalmente intercambiaveis, 0 mais recente e descrito como redeseobrimento. Como as historiadores da ciencia ainda nao tem designagao firmada para as descobertas mais antigas adotaremos o termo pre-deseobrimento. Nao e facil estabelecer 0 grau de similaridade entre ideias que se desenvolveram independentemente. Ate mesmo nas disciplinas mais exatas tais como na matematica, as prebensoes a inventos multiplos independen: tes sao vigorosamente discutidas. A questao esta em saber quantas "coin- cidencias" podem ser alegadas para constituir "identidade". Cuidadosa camparagao das geometrias nao-euclidianas inventadas por Bolyai e Laba- chevsky, por e~emplo, demonstrou que Lobachevsky desenvolvera cinco dcs nove componentes mais salientes dos conceitos coincidentes, de modo mais sistematico, mais fecundo e mais detalhado 18 Da mesma forma tern sido observado que nenhurn par, entve os dOz~ cientistas que "domi~ naram por si mesmos as partes essenciais do conceito da energia e da sua conservagao", tinham preeisamente a mesma concepgao do assunto.19 Nc entanto, diminuindo-se urn pouco 0 criterio da comparagao, as suas descobertas sao geralmente consideradas como multiplas independentes. No que se refere a formulagao menos precisa em muitas das ciencias so- ciais, torna-se ainda mais dfficiI estabelecer a identidade substantiva ou a equivalencia funcional dos conceitos independentes elaborados. Contudo, em vez de urna comparagao radical entre as primeiras e as ultimas versoes da "mesma" descobert a, surge outra especie de prova, presurnfvel senao compuls6ria de identidade ou equivaleneia: 0 depoi- mento, pelo qual 0 mais reeente inV'entor admite haver side precedido par outro. Presume-se que esses depoimentos sejam verfdicos; urna vez que a ciencia moderna recompensa a originalidade (ao contrario de outras epocas, em que as novas ideias precisavam ser referendadas por autori- dndes mais antigas), e pouco provavel que os inventores concordem em renunciar a originalidade dos seus pr6prios trabalhos. Encontrarnos exem- plos de novos inventores, que admitem pre-deseobrimentos em todas as ciencias. Thomas Young, por e~emplo, ffsico de grande poder inventivo, d'::clarou que "muitas circunstancias desconhecidas pelos matematicos in- gleses, que eu julgara ter side 0 primeiro a descobrir, ja haviam sido c.escobertas e demonstradas por matematicos estrangeiros". 0 mesmo Young, por sua V'ez, recebeu desculpas de Fresnel, quando este veio a saber que, por inadvertencia, havia reproduzido os trabalhos daquele sobre a teoria das ondas de luz. 20 Da mesma forma Bertrand Russell, referindo-se 17. Para recentes cotejos de provas a respeito. colhidas pelo menos desde it epoca ?e Fr.a~cis Ba.c,?n ~te a de William Ogburn e Dorothy Thomas e que fornec~m testemu!1hos slste~atlcos adlcIOnals, ver Merton, «Singletons and multiples in scientific discovencs», op. CI(" ~ «ReSistance to the systematic study of multiple discoveries in science», E.uropean Journal of SOCIOlogy, 1963, 4. 237-82. 18. B. Petr~vievics. «N. Lobatschewsky et J. Boll'ai: etude comparative d'un cas special d'in- ;c~teurs_ slmultanes». Revue philosophique. 1929. CVII!. 190-214; e outro ensaio anterior do mesmo BU.or sabre o~tro caso antenor do mesmo genera: «Charles Darwin and Alfred Russel Wallace: eltrl'p' zm hoheren ~sychologie und zur Wissenschaftsgeschichte». Isis. 1925. VI!. 25-27 CI 9. Thomas S. Kuhn. «Energy conservatIOn as an example of SImultaneous dIscovery». Em agett. op. Clf.. 321-56. P 20. Alexander Wood. Thomas Yount: Natural Philosopher 1773-1829 (Cambridge: University ress. 1954), 65. 188-9. Fresnel esereYeu a Young: «Quando 'submeti meu trabalho [seu ensaio
  15. 15. as suas contribuigaes aos trabalhos de Whitehead e a sua propria obra Przncipia Mathematica, declarou que "grande parte desse trabalho ja havia sido feita pOl' F:ege, thas, a principio, nos nao sabfamos disso".21 Em todos os campos da ciencia social e das humanidades se encontram casos em que os auto res mais recentes confessam que suas contribuigaes tiveram predecessores, dando assim e10qUente testemunho do fenameno da descoberta multipla nessas disciplinas. Consideremos apenas estes diversos exemplos: Pavlov deu-se 0 trabalho de reconhecer que "a honra de tel' dado 0 primeiro passe nesse caminho [0 famoso metoda de inves- tigagao instaurado POl' €lIe] pertence a F. L. Thorndike". 22 Freud, que manifestou mais de 150 vezes seu interesse na questao da priori.dade das descobertas, diz 0 seguinte: "Muito mais tarde, encontrei as caracterfsticas essenciais e muito mais significativas da minha teoria dos sonhos - a transformaQao de uma distorgao onfrica em conflito interno, uma especie de desonestidade interior - num escritor familiarizado com a filosofia mas nao a medicina, 0 engenheiro J. Popper que publicou as suas Phantasien eines Realisten sob 0 pseudanimo de Linkeus".23 R. G. D. Allen e J. R. Hicks, os quais levaram a moderna teoria econamica do valor ao seu ponto culminante em 1934,tambem fizeram questao de advertir 0 publico sabre urn pre-descobrimento feito POl' urn economist a russo, Eugen Slutsky, e publicado num jornal Italiano em 1915,epoca em que a Guerra Europeia ocupava tadas as atengaes, em detrimento da facil circulagao das ideias. Allen dedicou urn artigo a teoria que Slutsky enunciara anteriormente e Hicks batizou a equagao fundamental da teoria dos va16res como "equagao de Slutsky". 24 A mesma configuragao se verifica entre os filosofos. Na obra. de Moore Principia Ethica, posslvelmente 0 livro que exerceu malar influencia etica do seculo XX, encontra-se a bem conhecida declaragao: "Quando este livro ja estava completo, encontrei em 'Origin of the Knowledge of Right and Wrong' [Origem do conhecimento certo e do errado], de Brentano, cpini6es muito mais parecidas com as minhas do que as de qualquer outro escritor etico que eu conhega". E Moore prossegue, sumariando quatro conceitos principais sabre os quais escreveu iranicamente: "Brentano pa- rece que conco~da completamente comigo ... " 25 As referencias a formulagoes precedentes atingem ate mesmo peque- nos detalhes, inclusive novas figuras de retorica. Assim, David Riesman introduz a imag·em do "giroscopio psicologico", declarando a seguir: " ... logo depois, descobrir que Gardnes Murphy utilizara a mesma metafora em seu livro Personality. 20 Quando constatamos que uma ideia nossa ja foi descoberta no pass ado fkamos tao desconcertados como quando encontramos, desprevenidos, u~ sosia no meio da multidao. A economista Edith Penrose exprime sem duvida a opiniao de muitos outros cientistas e estudiosos, quando diz: "depois de haver a duras penas elaborado POl' mim mesma uma ideia que ·eu julgava important-a e 'original', tenho sofrido muitas vezes a decepgao de constatar, mais tarde, que a mesma ideia ja havia sido melhor exposta POl' Gutro autor".27 Outra especie de prova que evidencia as redescobertas genufnas e for- Decida pelos numerosos cientistas e estudiosos que abandonam uma linha de trabalho ao achar que foram precedidos POl' outros. Os recem-chegados ao assunto teriam certamente todos os motivos para perceber ate mesmo as menores diferengas entre 0 seu proprio trabalho e 0 dos que os precederam; se abandonam sua propria linha de pesquisa, e porque percebem clara- mente que os antecessores ja haviam atingido conclus6es significativas antes deles. Ca:l SpEarman, POl' exemplo, relata que construiu uma cuida- 'dosa teoria de "coeficientes de correlagao" para medir graus de correlagao, mas logo verificou que "a malar parte da minha teoria ja fara estabele- cida - e muito melhor - POl' outros autores, especialmente pOl' Galton e Udney Yule. Assim grande parte do trabalho foi destrufda e a descoberta que me parecia tao original foi, pesarosamente abandonada".28 Tambem no campo da erudigao literaria, muitas pesquisas tern side feitas inutilmente, POl' ignorancia da existencia de trabalhos anteriores. POl' exemplo, 0 his- toriador J. H. Hexter, 'em sua linguagem direta e franca, declara que certa 'ez quase terminara urn apendice contestando "a tese de que, na Utopia, Thomas More se afastava dos conceitos sabre a propriedade privada, for- mulados POl' Hythloday, quando meu colega Prof. George Parks mostrou-me ·excelente artigo de Edward L. Surtz, tratando exaustivamente do masmo assunto. " 0 meu trabalho tornou-se completamente desnecessario".29 Es- ses exemplos publicamente registrados nao representam certamente a totalidade dos redescobrimentos. Muitos cientistas e estudiosos nao chega-sobre a teoria da luz] aD Instituto. eu nao sabia das vossas experient:i3<i C .das de.du<;6es q~e delas havieis tirado; por isso. apresentei como novidade aguila que ja havicls explIcado mUlto tempo ontes». N '1 d r The 21. Bertrand RusseJI, «My mental developmenh>, em James R. ewman, compi a 0 • World of Mathemotics (Novo lorque: Simon & Schuster, 1956), I, 388. N I . 22. I. P. Povlov, Lectures on Conditioned Reflexes, trad. de W. H. Gantt ( ova orque. Internotionol Publishers, 1928), 39-40. 4 ) 23. Sigmund Freud, Collected Papers, trod. de Joan Riviere (Londres: Hogarth. Press, 19 9 I, 302., Para um reloto detolhodo do interesse de Freud nas antecipa,oes, redescobnmentos, pre- -descobrimentos e prioridades, vel' Merton, «Resistance to the systematic study of multIple diSCO· veries in science», op. dr., 252·8. .' 24. R. G. D. Allen. «Professor Solutsky's Theory of Consumer Choice», ReVIew of EconomIc Studies, fevereiro 1936, vol. III, 2, 120: J. R. Hicks, Value and Capital (Oxford: Clarendon Press, 1946). . 25. G. E. Moore, Pri/lcipia Ethi'ca (Cambridge University Press .. 1903), X-XI. Como curdadoso erudito, Moore tambem nota uma diferen<;a basica entre suas ideias e as de Brentano. Exempltftca urn fator ~mpo:tante na forma~ao da opiniao que estamos aqui expand? ler:tamente, a saber, q~e mesmo a Identldade de certas ideias em duas ou mais tearias desenvolvldas wdependentemente nao ·significa necessariamente uma identiclade completa no conjunto das teorias. As teorias humanisticas e sociais, e as vezes tambem fis.icas e biol6gicas, naD possuem essa rigorosa coerencia 16gica que hz com que a identidade dos partes seja equivalente a identidade do todo. 26. David Riesman, em colabom,ao com Reue! Denney e Nathan Glozer, The Lonely Crowd (New Haven: Yole University Press. 1950), 16. 6 n. 27. Edith Penrose, The Theory of the growth of rhe Firm (Nova Iorque: John Wiley, 1959), 2. . 28. Carl Spearman, em A Hisrory of Psychology in Aurobiography. Reda,ao de Carl Mur- chIson (Nova Iorque: Russell & Russell, 1961), 322. _ 29. J. R., Hexter, More's Uropia: The Biography of an Idea (Princeton University Press, 1962), ,4 n. Hexter acrescenta que aincla foi antecipado em outro aspecto do seu trabalho: «Meu com~ plet.o desacardo com a interpreta~ao de Cncken sabre as inten~oes de More na Utopia e roinha profu~da divergencia com sua analise cia composic;ao dessa obra. d.uplica meu pesar de haver sido .tnteClpado por ele num ponto. Minha ilusao de haver sido 0 prime.iro em notar uma falha no R ,~ro I da Utopio ... foi destrufda por nova leitura da introdu,ao de Oncken a tradu,ao alema de Itter». Ibid., 13-14n. .
  16. 16. ram a admitir pilblicamente que os seus trabalhos ja haviam sido antecipa· dos por outrem e, pOn#isso, grande mlmero de casos so e conhecido num circulo restrito de amigos e colaboradores intimo. so 2. Antecipar;oes e Prefigumr;6es (ou prenuncios). Em livro reoente,'H o historiador de ciencia Thomas S. Kuhn estabeleceu distinc;ao entre "cien- cia normal" e "revoluc;6es dentificas", como fases na evoluC;aoda ciencia. A maioria dos comentarios sabre essa obra concentra-se, como 0 proprio Kuhn 0 fizera, sabre aqueles ocasionais assaltos progressivos que assinalam a revoluc;ao cientifica. Mas, embora essas revoluc;6es representem os mo- mentos mais impressionantes do desenvolvimento da ciencia, a ma,ioria dos, cientistas, na maior parte do tempo, encontra-se engajada no trabalho da "ciencia normal", desenvolvendo por increment os cWTIulativos 0 conheci· mento baseado em paradigmas divididos (conjuntos mais ou menos coeren- tes de suposic;6es ou de imagens). Assim, Kuhn nao rejeita a antiga teoria de que a ciencia progride principalmente por incrementos, embora sua principal preocupac;ao seja de demonstrar que isto e completamente re- moto a historia. Mas qualquer interpretagao do seu trabalho, inferindo que a acumulac;ao de conhecimentos reconhecida pela comunidade dos c,ientistas e apenas urn mito, estaria flagrantemente em desacardo com os registros historicos. A opiniao de que grande parte da ciencia se desenvolve pelo acumulo, de conhecimentos, embora estes sofram a influencia de desvios, engodos, ou retrocesS'os temporarios, implica que a maioria das novas ideias e' achados tern sido antecipada ou esboc;ada. A cada momenta determinado' surgem aproximac;6es daquilo que logo se vai desenvolver de maneira:, mais total. Seria muito interessante estabelecer urn vocabulario adequado para designar os varios graus de semelhanc;a entre as formulac;6es de ideias e achados cientificos mais antigos e mais recentes. Temos examinado os casos extremos, denominando-os pre-descobrimentos e redescobrimentos, designac;6es que envolvem identidades substantivas ou equivalencias fun- cionais. As antecipac;6es se ref'erem a algo menos que urna semelhanga, na qual as formulac;6es mais antigas se sobrep6em parcial mente as mais novas, mas que nao enfocam ou extraem 0 mesmo conjunto de implicac;6es. As prefigurac;6es (ou esboc;os) se ref'erem a uma semelhanc;a ainda menor, na qual as formulac;6es mais antigas apenas prenunciaram literalmente as mais novas, isto e, aproximaram·se muito vagamente das ideias subseqiientes, sem praticamente provocar ou acompanhar qualquer implicac;ao especifica. A dHerenc;a basica entre antecipac;6es e redescobrimentos ou prefi· gurac;6es esta muito bem caracterizada no apotegma de Whitehead que en- cabec;a este capitulo: "Porem, aproximar-se muito de uma teoria verdadeira e dominar sua aplicac;ao exata, sac duas coisas bem diversas, como nos ensina a historia da Ciencia. Tudo quanto ha de importante ja foi dito por alguem que, no entanto, nao 0 descobriu". Whitehead teria side 0 . 30. Para maiores dctalhes, ver Merton, «Singletons and multiples jn scientific discovery». op. CH., 479 e segs, 31. Thomas S. Kuhn, The Structure of Sci'entific Revolutions (Chicago: University of Ch;cago Press, 1952). Sociologia - TeOria e Estrutura primeiro a apreciar a ironia historic a de que f ele fara antecipado mas naa sofrera preemp _ ,8 A ·O azer essa observac;ao, , . . c;ao. ugustus de M exemplo, matematlCo, logico e historiador d 'd .. organ, por t· . . .e 1 ems pertencente . 211 en or Ja havia dito que "dificilment h s a gerac;ao '" . e ouve uma grande d b C1enC1acUJos germes nao se encontrassem nos tr esc.o.erta na temporaneos ou predecessores do homem ue v d a~aJhos de vanos con_ Mas foi outro teorico genial usando f' q d er. ade1ramente a realizou".S2 . ,1guras e lmguagem qua f . quem f1XOUa diferenc;a decisiva entre pre-descob . t se. reudmna, o primeiro desses termos consiste em . nmen 0 e antec1pac;ao: so - persegUlr uma ideia f acnado bastante serio para tornar evid"nt '. _ ou azer urn M '. " es suas 1mphcac;oes ss as os h1stonadol'es das ideias muitas veze d '. basicas. A grande freqiienc1'a de d b s esprezam essas d1Stinc;6es , re esco ertas genuinas 1 .• ~ ;elaxar os ~adr6es de identidade subs.tantiva e de eqUiv:~~~~a~mlU~e, ,la, e a menClOnar como formulaC;6es "redescobertas" que so h . un~lO- vagamente pressentidas no passado' em cer . .avmm sldo pensam completamente tais pad .: tos casos, os h1stonadores dis- "anlJecipac;6es" e "pre-deseObrime:~oess"::.:ntregam ao jago de achar exagerar as semelhanc;as e a de .0 a parte. Essa tendencia a mais antigas e as mais mOdern::r~zar as difere~c;a~ entre as formula<;6es historiadores das ideias. e urn mal prof1sslOnaJ que aflige muitos as historiadores mais no d '" pela tendencia dos seus d vos a clencm, profundamente desiludidos g. _ ". pre ecessores em descobrir antecipaf'6es e pref1'- urac;oes nas Clene1as mais t '" diagn6stico compar'ativo exa as, po~em chegar a repudiar, agastados, 0 . ~ , mas na reahdade 0 mal parece estar mais ro- fundar:nente _d1fu~d1dOentre os historiadores das ciencias sociais As r:- pa~al1s~o nao sac difioeis de serem encontradas. Tomemos a 'historia ~: SOClOogm - um exemplo 'to a u· . _ que mm eompreensivelmente nos interessa s; 1. Atr~ves das _gera~oes, .a maioria dos trabalhos de soeiologia Cinclu- ve ~s~a mtroduc;ao) tern sldo escritos no estilo do ensaio cientifico Ao c~ntr~:l0 .da ~o~ma longamente adotada par muito tempo para os en~aiOs das cl~nclll:Sfls1cas e biologieas, so recentemente se assentou nos ens";os de soelOlogIa T d ' "'"', a ~ra lCa e apresentar urna exposic;ao compacta do problema, o~ processos e mstrumentos de investigac;ao, os ach::'dos empiricos urna dlScussaa de tese e as implicac;6es teoricas do que foi encontrado. 's{ as 32. Augustus de Morgan Essa s h Lif d' Open COurt Publishing Co. '1914 Y l~n t pe e an Work of Newton (Chicago e Lond:es: The dccano dos psic61ogos norte-~merica~'os Edwtra exem.plo mats rec~nte. ver a o~servac;ao do atual (Nova Jorque: Appleton-Century.Croft; lnc n (. Bonng, em A HIStory of ExperImental Psychology, hertas tem tido suas antecipa~6es q h:'t ?5 d O 2 d ·a ed.), 4. «Quase todas as grandes desco· 33. 1i muito simb6lico 'F lid D h .15 ana or esenterra mats tarde». tamente que uma co.isa e d~~e UI~eau d aJa coloca~o 3.• quesbio O?S seguintes termos: «5ei perfe-i. Surge em forma de inspira<;ao ~f'" • uas ou m~lS vezes, revestlmento verba! a uma idcia que 30. pe cia !etrJ.. persegui-la a dcse~~ra. e o~tra cOlsa. ~em diferente e er;,cani-la seriamente, toma-Ia at'l conseguir-lhe finalmente ~ 0 de todas as dlflcuJdades, esclarece-la em todos os detalhes entre 0 namaro casual e 0 ':n~tri~:r i entre as verda des aceitas. Eo a mesma diferen(a que cxist~ ~~sado com uma jde.ia e uma figur~n d sf·lene com todos os seus deveres e dificuldades. 'Estar Istory of the psycho-anal tic m e tnguagem bastante comum». Sigmund Freud «On the em .Coller;red. Papers .• opY cit., °r,em 2 e;7t:>, trabalho p.ublicado primeiramente em 1914 e'reimpresso ded1cado a hlst6ria de uma ideia t' 35[. esp_ pag. 296. £sse ensalQ profundamente pessoal d 34. Para sermos bem elaros' eSI~ Iep eta de observa!;oes pertinentes aD nosso prescote estudo' es~ssa {forma para os ensaios soci~16a il:o~tac:sos que nao est.am?~ ...diz~ndo au implic:1!1do que 0 us~ babalhorma conseguem apenas dem~nstrar SCfUff a Sua SJgnr~lcan.C1a" Al~uns enS:1lOS que adotam Os que conservam 0 estilo d .C ar~me?t.e que sao 10consequentes; por Dutro lado, D enSalQ ClentlfJCo, conseguem as vezes transmitir conceitos
  17. 17. Robert K. Merton livros de sociologia eram escritos ensaios e, pa,rtiCUlarmente'b?~ " raramente eram definidos com antigos dfJ eitos aslCO", , num estilo em que os nc ue 0 processo e as relac;6es entre as ~eonas rio'or ao mesmo tempo em q t m sendo desenvolvidas), contmuava '" ,-, eis e a espedfica (que es ava d' - humanistica ha muito vanav " 't d acordo com a tra 1c;ao. _ largamente 1mpIlc1a," e, teve duas COnseqtienClas: 1.0 - Os con tempo estabelecida. Este sl~tema escapam facilmente da atenc;flOquando - . ' subJacentes d"les ceitos 'e ideias baslCOSe, os ou definidos e, assim, alguns ~ nao sac expressamente et1quetad d 2 0 _ A imprecisao das mais ant1~as sao, de fato, redeSc?bertos ,ma1~ta;r e cte 'ideias a fazer faceis identificac;o8~ formulac;6es incent1va 0 h1stonad uma analise mais meticulosa so de pre_descobrimentos em casos em qu~ ntes . agas e mconseque . 'd" s encontra semelhanc;as v , ' ombros do historiador de 1 .81a Essas ambigtiidades depos1tam nos tec1'pa,,6es genuinas e as pseudo- d' t'nguir entre as an ." . o pesado fardo de lS 1 . t'picamente confinada ao uso aC1- - s quais a semelhanc;a e ! 'da pelo -antecipac;oes, na 1 as da ultima versao, 1mpregna dfntal de algumas das mesmas p~:vr de conhecimentos mais recentes, A historiador de sigl1ific~dOSextra1sZ~do-anteciPac;6esrealmente nao e clara, distinc;ao entre as genumas e as p _ ' dolencia e permitir que qualq':,er mas se 0 historiador se entre gar fa m la,,6es passe por antecipac;ao, ele lhas ,e novas ormu ." hi t' 'asemelhanc;a entre ve " d 'deias mas nao a sua s on . estara de fato escrevendo a m1tol~~~~es:~b~imentos, a evidencia presur:ni~a Conforme acontece com os p . . eracidade quando 0 propno ,- 'na adqUlre mawr V' de uma antec1pac;ao genUl . t ntes dele tern apresentado e su- c'entista mais novO reconhece que ~du.:0 aFoi assim que Gordon Allport L tos da sua 1 e1a, 'a de blinhado certos aspec ,., d autonomia funcional: ou seJ , formulou decisivamente 0 pnnc1plO a d' -es especificas se transformam que as formas de comportamento, sob con b 1C;0se houvess~m iniciado por , mesmas em ora t 'ode em fins ou alvos por Sl " I e que 0 comportamen 0 P - 0 ponto essenc1a I 'mpulso cualquer outra razao, d -0 e mais reforcado pe 0 1 . ainda quan 0 na -" con manter-se par si mesmo, formulou pela primeira vez esse , - ou motivo original. Quando Allport t tores mas bastante controvert1do , fl" 'a em cer os se esmo ceito - de grande m uenC1 t primeiros exemplos que 0 rr:- em outros 35 - indicou prontamen e tOh S segundo a qual os mecalllsmos -0 de Woodwor , -0 de sternsugeria' a observac;a , pulsos' a observac;a . formados em 1m, ,,,, de , 016gicos podem ser trans . em "genomot1voS , a PSlC , d m transformar-se 1 u s "fenomotivos' po e ,,, d m "firmar·se pe 0 se de que 0 " bJ'etos-mews po e - do Tolman conforme a qual os 0 'f' m mais como antecipac;oes , se quaIl lCa , coin pr6prio merito". Esses casos ue as vers6es mais ant1gas - ue como pre_descobrimentos, uma, vez q _ 0 que e mais importante q as ma1S novas e, cidiam apenas em parte com . d 0 problema aqui d homem na sO~le~a. e. maS os atributoS noSSO conheCimento 0 OIOglCOS de importancw mUlto maLOr para estdos nOS escritos soCt I l"" antecipac;oes C t'f relatlvo dos dlferentcs . dares da sociologia a Dca tzar na-o e 0 mento C,lCn 1 1(0 I stana f 1 encoraJam os 11 d' . r a . J . foal 0 do ensalO 5000 0 gICO que d desenvolv1mento dessa ISCIP JO f · motives» Amertcan ou or pretlgura~5es no decurso 0 h functional autonomy 0 . _ t€:m sido observadas r 35, Gordon W, Allport, «T e • . de Allport as anteClpa,oes 'John ''V'iley & Sons, Psychology, 1937, 50, 141,56, d As referT~~~~ies of Personality (Nova lorque, Calvin S, Hall e Gardner L,n zey, em 1957), 270·1. nao apresenta,vam muitas das implicac;6es l6gicas e das manifestac;6es empiricas especialmente relatadas por Allport. Foi por isso que as for- lY1ulac;6ssde Allport modificaram 0 curso cJ.ahistoria da autonomia funcio- nal, ao passo que as antecipac;6es nao 0 fizeram, Essa especie de diferenc;a perde-se de vista nas historias de ideias que se preocupam principalmente em atribuir os "meritos" por contribuic;o'8S,porque tendem a misturar os pre·descobrimentos e as antecipac;6es num borrao informe. Ao contrario, as historias das ideias que se preocuparam primordialmente em reconstruir o curso real do desenvolvimento cientifico levam em conside.rac;ao a dife- renc;a crucial entre as primeiras aproximac;6es a uma ideia e as formulac;6es mais recentes que deixaram sua marca no desenvolvimento dessa ideia, induzindo seus auto res e outros interessados a acompanharem sistemati- camente 0 seu curso, Quando urn cientista depara com uma formulac;ao antiga G esquecida, detem-se por acha-la instrutiva e a seguir a acompanha ele proprio, a segue, temos urn autentico caso de continuidacJ.e historica de ideias, ainda que alguns anos ja se tenham passado, Mas, contrariando a versao romanceada da pesquisa cientifica, esse padrao parece nao ser muito freqtiente. Mais treqUente e que uma ideia seja formulada com tanta enfase e precisao que nao possa escapar a atenc;ao dos contemporaneos; nesse caso, torna-se facil encontrar antecipac;6es e prefigurac;6es da mesma, Mas 0 que e de- cisivo para a historia das ideias e 0 fato de fica,rem esquecidas essas pri- meiras sugest6es e nao serem sistematicamente seguidas por alguem, ate que uma nova formulac;ao temporariamente definida as traga de volta a luz da publicidade, A identificac;ao dos pre-descobrimentos, das antecipac;6es e das prefi- gurac;6es pode ser rapida ou demorada, Em geral e rapida, em vista da grande vigilancia exercida pelo si.stema social dos cientistas e dos estudiosos, Quando se publicam ideias novamente formuladas ou achados empiricos, ha geralmente urn pequeno numero de cientistas que ja examinou as ver- s6es mais antigas, embora nao as tenham utilizadas em seus trabalhos. A nova formula-c;ao reativa as suas lembranc;as da versao primitiva e eles entao comunicam os pre-descobrimentos, antecipac;6es ou prefigurac;6es aos seus colegas dentro do sistema, (As paginas da r·evista Science estao pontilhadas de comunicac;6es desse genero, dirigidas a irmandade cientifica). A identificac;ao demorada ocorre nos casos em que a versao mais antiga e rapidamente esquecida. Talvez houvesse side publicada em alguma revista obscura, ou incluida num ensaio tratando de outro assunto, ou escondida nas paginas ineditas de uma caderneta de laboratorio, num dia- rio ou carta intima,. Uma descoberta, durante certo tempo, e considerada completamente nova pelos contemporaneos. Mas quando se familiarizam COmessa nova ideia, alguns cientistas e estudiosos reconhecem formulac;6es que se parecem com as novas, G, medida que vao relendo tra.balhos mais antigos, E nesse sentido que a historia passada da ciencia esta sendo con- tinuamente reescrita pela sua hist6ria subseqtiente. A autonomia funcional formulada par Allport como principio psicol6- gico exemplifica 0 segundo padrao de descoberta. Agora que Allport in-
  18. 18. cutiu em nos esse princ1plO, ficamos atentos a qualquer V'ersao sua, que apareQa em obras do passado. Assim, graQas a Allport, posso dizer, apos reler J. S. Mill, que'ele ja sugerira 0 mesmo principio em 1865: "Sbmente depois que os nossos propositos se tornam independentes dos sentimentos de pena ou de prazer que lhes dao origem, e que podemos nos gabar de possuir urn carater firme".36 0 que desejo ressaltar e que eu nao prestara atenQao a observaQao de Mill ao le-la pela primeira vez porque, na ocasiao, nao me achava sensibilizado pelo conhecimento da formulaQao de Allport. Posso tambem citar que em 1908 Simmel havia antecipado, em termos sociologicos, 0 principio de Allport: sua forma posterior e mais desenvolvida. Prestaria atenQao, em suma, tanto as similaridades quanta as diferenQas: 1.0 - entre as varias formu- lagaes da ideia, 2.0 - ao grau em que s'e ajustava as outras construQ6es te6ricas da epoca e, 3.0 - aos contextos que afetaram seu destino hist6rico. Mas, como sabemos, os historiadores da sociologia geralmente nao cumprem esses severos requisitos para analisar antecipaQoes e prefigura- Qaes. Parecem, amiude, sentir prazer - e, sendo humanos, as vezes um prazer perverso - em desenterrar antecipaQoes, reais ou imaginarias, das concepQoes mais recentes. ~sse trabalho auto-suficiente nao e dificil, como veremos pelos seguintes exemplos: Tanto a formulaQao de Mill como a de Simmel representam auten- ticas antecipaQoes do principio de Allport. Expoem explicitamente parte da mesma ideia, nao a aplicam suficientementJe a ponto de impressionar seus contemporaneos (isto apesar de Simmel have-la caracterizado como "fata da maior importancia socioI6gica") e, mais do que tudo, essas pri- meiras formulaQaes nao foram destacadas e desenvolvidas no intervale entre 0 seu enunciado e a exposiQao de Allport sabre autonomia funcional. Realmente, se os primeiros houvessem continuado seus trahalhos du- rante esse intervalo, e provavel que Allport nao teria chegado a formular o principio; no maximo, re-lo-ia simplesmente ampliado. ~sse caso representa uma parabola para 0 tratamento apropriado das antecipagaes na historia das ideias. Encontrando as antecipaQoes de Mill e de Simmel apos haverem sido 'assinaladas na formulaQao de Allport, 0 autentico historiador de ideias identificaria imediatamente 0 problema his- torico crucial; por que foram as primeiras sugestoes ("deixas") desprezadas pelos dois autores, pelos seus contemporaneos e pelos seus mais proximos sucessores? Notaria que nao houve progressao imediata e inexoravel da ideia, da mesma forma como notaria sua eV'entual reemergencia como foco de pesquisa empirica. 0 historiador procuraria identificar as contextos, intelectual e social, dentro dos quais a ideia apareceu em sua primeira forma e as alteragoes nesses contextos que the deram peso adicional na o Gruoo Primario. E bem sabido que a formula(30 do grupo primario. feit:t por Cooley em 1909, deixou impressao imediata e duradoura sabre a analise socjol6~ica da vida em grupo. Alguns aoos mais tarde, urn historiador cia sociologia chamou a atendio sabre urn livro de Helen Bosanquet pub!icado naquele mesmo ano e que tratava da interac;ao entre os membros de uma familia como processo social influente sobre a personalidade de cada membro. Prossegue o historiad0f. assir.alando que, em 1894, Small e Vincent haviam intitulado «0 Primeiro Grupo Social: a Familia» urn capitulo da sua obra Introduction to the Study of Society. Alguns anoS mais tarde, porem, 0 biografo de Cooley revisou todo 0 assunto e concluiu significativamente que «rotulos sao uma coisa; outra coisa e 0 conteudo respectivo geralmente aceito. Cooley deu :10 conceito urn conteudo cht'io de significado: i'ito e 0 Clue jrnpoft~J). ]o.1ai~ exatarnente. acrescenta que foi a formula,ao de Cooley, e nao a de qualquer outro, que provocou muitos estudos e pesquisas sabre 0 grupo prirnario. Alertados pel:t inf!uente formubca.o de Cooley. podemos agora notar que 0 termo «grupo primfiriQ» (<<primare :rvra"se») foi, independentemente e de modo conciso, introduzido em 1921 por Freud, que, segundo tada probabilidade, desconhecia a existencia de Cooley. 38 Mas 0 conceito de Cooley tornau-se uma sementeira de pesquisas e investigac;5es sociol6gicas muito mais fertiI do que a termo «grupo primario» de Freud. A Personalidade Reflexiva (The Looking-glass Self). 0 conceito c!<ssico formulado por Cooley designa 0 processo social pelo qual as imagens que fazemos de nos mesmos sao moldadas pela ideia Que formamos das imagens que os outros fazem de n6s. Como se sabe, pois foi o proprio Cooley que no-l0 disse, essa formula<;ao amplificou as primeiras concep<;oes propostas pdos psic610gos William James e James Mark Baldwin. Vemos ai urn claro exemplo de incrementos cur:1ltlativos na teoria, que tern prosseguido ate hoje. :rvIenas conhecido e 0 fata de serem as pesquisas recentes. na Uniao Sovietica, derivadas de uma observa<;ao de M:HX, segundo a qual, aD compreender sua propria personalidade, cada pessoa olha para outra como :l urn espe!ho. 11 clnro que tanto oS russos como os norte·americanos ignoravam que Adam Smith ja. h:lvia empregadn :l met5fora do espelho forr.1<1do pe1as oDinioe" que 00;0 outrn<; tern de n6s, as quais nos permitem ser espectadores do nosso pr6prio comportamento. Nas palavras de Smith, «este e 0 unico espelho mediante 0 qual podemos, em certa medida, com a ajuda dos olhos de outras pessoas, examinar atentamente a nossa pr6pria conduta». AmpUancIo a mettHora, numa linguagem quase igual a de William James. escreve Leslie Stephen, em fins do seculo passado, que «devemos levar em considerac;ao nao apenas os reflexos primarios mas tambem os secundarios e. realmentc. podemos im::lginar dais espelhos opostos. reflctindo imagens em suce"sao infinita». Sao estas, aparentemente, formula~6es multiplas e independentes formula~6es da ideia, conforme tradi~6es te6ricas bastante diferentes. !vias esses episodios constituem apenas a materia-prima bruta para a analise da evolu~ao de uma ideia, nao 0 ponto final no qual as vers6es multiplas e coincidentes da ideia costumam simplesmente ocoeree. 39 «Fa to cia maior importancia sociol6gica e que Inumeras rela<;6es conservam sua estrutura socio- 16gica inalterad:l, mesmo apos haver-se esgotado 0 senti men to ou ocasiao prhica que Jhes deu origem. .. :e certo que 0 aparecimenta de uma rela~ao requer certo ntimero de condi<;5es positivas e negativas e a ausencia de apenas uma delas pode, de irnediato, impedir 0 seu desenvolvimento. I niciado este, parem. ele nern sempre e destruido pelo desaparecimento imediato daquela condi~io, sem a qual nao poderia ter surgido. 0 que tern sido dito dos Estados [politicosl - que se mantem somente atraves dos meios pelos quais foram fundados - e apenas uma verdade incompleta e nada mais que urn principio sodacion* que geralmente tudo abrange. 0 sentido de conexao sociologica, seja qual for a sua origem, provoCa a. autopreserva<;ao e a existencia autonoma das suas formas, que sao independentes dos seus motivos iniciais de conexaQ». 37 38. Como se sabe hoje pelo pr6prio testemunho de Cooley. a discuss50 do «I'rupo pflmarlO» em sua Social Organization foi introduzida apenas como segunda reflexao, e nem apareci~ na 1"ecladio original. 0 historiador que assinala as discllss6es simultiineas e independentes da iMia e Floyd N. House, em The R,nge of Social Theory (Nova Iorque: Holt, 1929), 140-1. 0 bi6grafo de Cooley que, n9 decurso da sua defesa, cita aspectos salientes das antecipa<;5es para a hist6ria do pensa· mento e Edward C. Jandy, em Charles Horton Cooley: His Life and His Social Theory (Nova Iorque: The Dryden Press, 1942), 171-81. 0 termo usa do por Freud e a sua coincidencia parcial com a concep'."O de Cooley, encontra-se em sua Massenpsycbologie und Ich-Analyse (Lipsia, Viena, Zurique: InternatlOnaler Psycl~oanalytischer. Verlag, 1921), 76. como segue: «Eine solehe primiire Masse ist eme Anzahl v~n Indmduen, die .e.ln und dasselbe Objekt an die Stelle ihres Ichideals gesetzt und sich In~o~gedessen In lhrem Ieh mitelnander identifiziert habem) (tudo i"so enfaticamente sublinhado no oflgtnal)._ Vma v~z que a versao inglesa par James Strachey utiliza a palavra «group» em tada a tradu(a? par~ Jnterpretar «a palavra alema de maior alcance Masse», esse trecho surge, sem ~ualquer mtenpo de arremedar Cooley, como segue: «A primary group of this kind is a number o mdlvlduals who have substituted one and same object for their ego and have consequently Identlfl~d ~h,ernsclves WIth one another in their egQ». (Urn grupo prirnario dessa especie e urn nume- ~o ~e If!F.JVIduOS que substituiram seus egos por urn mesmo e tinico objeto, e conseqiientemente, ~ lent} Icaraj ~uns ~o~ os outros em se1.1S egos). A expressao «grupo primario» e de Cooley, as a orm~ al;ao teoflca caractedstica e inconfundlvelmente de Freud. S .3:. A tormula,ao de Cooley, que ainda perdura, apareceu em sua obra Human Nature and tbe OCla Order (Nova Iorque: Scribner, 1902), 183-4. Jandy, op. cic., 108-26, reconstr6i altern.tin- 36. John Stuart Mill. A System of Logic (Londres: Longmans. Green. 1865), 423 ... . *.:t:'J. do crad.: Sociation: «urn modo au processo de interal;ao social quer aSS?c..latlvo, q:ler dlssocIatJV?; uma associa~ao ecolog:ica que e geralmente bastante estivel e de compos~<:ao essen.claI- mente unlforme» (Webster). A respeito da tradu~ao desse termo Gilberto Freyre dlz 0 ,egulnte: «AI.guns sociologos preferem fugir :10 vago da express30 social,' dando a designa<;ao tecnica de socle~al ou socierario a quanto e fenomeno de seres humanos associados ou caracterizados pela con.dl~ao de sociaJidade, distinta da de seres humanos individuos. E Simmel, ja vimos, que a expressao sOCJall~ad~ prefere 0 termo socicraliza~ao, que corresponde a importanci3. que ele,. ainda rnais do (ue .GIddmgs em Sua .f~ac;io ao org3.nismo e ao pr6prio reaLismo st?ciol~gico,. atnbui at? asp~cto J un~lOnal d<?s fatos SOCIalS como objeto de estudo da sociologia» SoclOlogla (RlO de Janeiro: LIVe. ose OlymplO, ed., 1945). 80-81. J(ur 37. Georg Simmel, S02iologie (Lipsia. Duncker & Humblot. 1908), 582-3, na fiel tradu~ao de t H. Wolff em Tbe Sociology of Georg Simmel (Nova Iorque: The Free Press, 1950). 380-1.
  19. 19. ApI1esento abaixo, rapidamente colhidas e nao glosadas, algumas alu- soes a pre-descobrimentos, anoecipac;oes, prefigurac;oes e pseudo-antecipa- c;oes em sociologia e psicologia, a fim de salientar 0 duplo ponto de vista de que: 1.0 - podem ser encontradas com bastant'e facilidade e, 2.· _ degeneram facilmente num "antiquarianismo" que nao faz, absoluta- mente, progredir a hist6ria da teoria sociol6gica, mas apenas reforc;a a luta entre os advogados dos Antigos e dos Modernos, os quais despende- ram tanta energia intelectual nos seculos XVII e XVIII: mento. Excelente exemplo de pesquisa desse tipo e 0 exame cu'd d• _ 1 a oso que J. J. Spengler fez da alegac;ao de Lovejoy, de que a Fable oj th B Mandeville (1714) seria uma completa antecipaC;ao das princi;ais e~~~i~: sustentadas por Veblen em The Theory oj the Leisure Class. 41 Tomando ate certo ponto, as semelhanc;a.ssuperficiais como bastante evidentes S I b t d . . '" , peng er su me e as uas senes de IdeIas a uma analise exaustiva, conseguindo assim demonstrar as profundas diferengas, bem como as ocasionais similarida- ~~s.entre elas. Dessa maneira, ele mostra como diferenc;as de formulac;ao, ImcIalmente pequenas, mas funcionalmente consequentes, podem ocasionar implicagoes teoricas diferentes, as quais sac entao seguidas e desenvolvidas pelos sucessores. 3. Prejigurar;oes. A identificac;ao dos pre-descobrimentos, das anteci- pac;6es ou das prefiguragoes discutidos na parte anterior, esta compreen- did~ nos canais de informac;ao do sistema social da ciencia e da erudic;ao, e nao depende de qualquer esforc;o especial. 0 prejiguracionismo, ao con- trario, Tefere-se a pesquisa deliberada e dedicada de toda especie de :mtigas vers6es de ideias cientificas ou eruditas. Nos casos mais extremos, 0 prefiguracionista descreve a maiSt tenue semelhanga entre ideias antigas e novas como se fosse uma identidade virtual. Sao varias as fontes dessa pesquisa intencional. Em alguns casos, pa. rece que 0 estudioso se comprometeu em provar que, realmente, "nao ha nada de novo debaixo do sol". A pesquisa entao apresenta 0 espetaculo profundamente humano de eruditos e de cientistas argumentando que tudo 0 que existe de importante ja foi descoberto antes, ao mesmo tempo rem que cada urn deles esta diligentemente tentando fazer novas descobertas, para fazer progredir a sua disciplina.42 Em outros casos, a pesquisa e acesa por uma faisca de chauvinismo. Quando uma nova ideia e formulada por urn cientista estrangeiro ou uma escola de pensamento alienigena ou, mais geralmente, por urn membro de qualquer grupo de fora ("outgroup"), 0 prefiguracionista sente-se incentivado a procurar al- guma antecipagao ou precursor aparente entre os seus proprios ances- trais intelectuais, a fim de restaurar a distribuic;ao apropriada de honra dentro do sistema. Em outras instancias, a pesquisa parece ser inc,enti- vada por urn sentimento de hostilidade para com 0 inventor contemporaneo, que tera de descer provavelmente alguns degraus da sua posic;ao, ao ser confrontado com precursores da sua suposta nova contribuigao anunciada. Mas 0 prefiguracionismo adquire maior virulencia quando se costuma dar maior valor aos "Antigos" em detrimento dos "Modernos", ou de desprezar os vivos para prestigiar os mortos. 42" Shakespeare, antecipando ostensivamente Freud no «wishful thinking» [pensame~to em que alguem interpreta os fatos em termos daquilo em que deseja erer] e oa raclOnahzar;ao, assirn se expressa em Henry IV: « ... teu desejo foi pai, Harry, desse teu pensamento». . Epicteto (sem falar de Schopenhauer e de mllltos Dutros), anteclpando presuffilvelmente 0 que tenho descrito como Teorema de Thomas, au seja. que as definir;oes que <: ho:ncm cia as situar;6es afetam .as suas conseqUencias: «0 que perturba e alarma os homens nao sac os fatos em si. mas suas opini6es e fantasias acerca dos fatos». 40 Sumner antecipa·se ostensivamente ao conceito dos estere6tipos de Lippmann, ao escrever, em Folkways, que os costumes «~sac estereotipados». Spencer escrevendo que «a atrac;ao das cidades e direta 4fUanto a massa e inversa quanta a distancia», antecipa ostensivamente a teoria das oportunidades interven.ientes, de Stouffer, - outro cas a de similaridade mais verbal do que substantiva. A no,ao de «incapacidade treinada» de Veblen (escolhida, desdobrada e aplicada por soci610gos posteriores), foi ostensivamente antecipada por. Ph,ilip Hamerton, cJ? se~ .li.vr_o por rnui~o ~cm~o esquecido, publicado em 1873, quando se refena as {<recusas mentals» [I01~Ic;oes}. como JO.dlcl<;ao «oao de incapacidade congenita, mas [apenas] que a mente se tornou IncapaCltada dcvldo aoS seus habitos adquiridos e as suas ocupac;oes ordinarias», produzindo assim uma «incapacidade adquirida» (The Inrelleetual Life). John Stuart Mill antecipa, numa regra geral, 0 caso especifico do «efeito de Hawthorne», identificado urn seculo mais tarde; nas experiencias, «0 efe.ita po de ter sida produzido nao pela mudanc;a, mas pelos meios empregados para produzir a mudanc;a.. Admite-se. contudo, que a possibilidade desta ultima suposic;ao possa ser testacla conclusivamente par outras experiencias». Arist6teles prefigura 0 conceito de «outras pessoas significativas», de G. H. Mead, ao dizer, oa Ret6rica que «as pessoas diante das qu.ais sentimos vergonha sao aquelas cuja opiniao que tern de n6s e importante para n6s ... etc. .,,» Exemplo especifico da «profecia que se cum pre par si mesma) nos c dado no stkulo XVII pelo cientista e fil6sofo Frances Pierre Gassendi. 0 qual argumenta que as predi~oes astrol6gicas sobre 0 destino dos individuos contribuem a sua propria reaIiza~ao. pelo efeito estimulante ou depressivo que exercem sobre esses individuos. Exemplo de numerosas alegac;6es. de que os proverbios reproduzem ideias sociol6gicas a.mplamente aceitas. e fornecido pelo caso da imagem reflexiva adotada par urn transviado para justificar 0 seu comportamento: «Chamem alguem de ladrao e ele h:i de roubar». Essa rapida coleta de exemplos, que qualquer soci6logo com bons co- nhecimentos de literatura poderia multiplicar a vontade, mostra a faci- lidade com que as antecipac;oes e as prefiguragoes verdadeiras ou imagi_ narias, podem ser citadas ca.da vez que surge nova ideia teorica ou novo achado empirico. Essas eitac;oes nao contribuem para a compreensao do desenvolvimento historico do pensamento. Como a investigaC;ao das des- cobertas multiplas nas ciencias fisicas e biologicas, a pesquisa hist6rica, para s'er feeunda, requer a analise detalhada da substancia te6rica das versoes antigas e recentes versoes, bem como das condig6es que contri- buem para a observaC;ao das continuidades e descontinuidades do pensa. mente as extensoes dadas a idela por Cooley e George Mead. A origem independente da ideia em Marx foi atestada pelos psic610gos sOCIais do Instituto de Psicologia de Kiev, que conheclam bem Marx mas nada sabiam de Cooley e Mead (entrevistados que foram por Henry Rlecken e I'0r mlm em 1961). Leslie Stephen extraiu a metHora de Adam Smith da sua HISrory of English Thoughr in the Eighteenth Century (Nova Iorque: G. P. Putnam's Sons, 1902, 3.'. ed.), I, 174-75. 40. NasCidos no mesmo ano e ambos rnnito bem assimilados no brilhante amhlente de pesquisa sociol6gica que caracterizou a Univers.idade de Chicago no primeiro terc;o deste seculo, W. I. Thorn:.s e Georg.e H. Mead usaram de Iinguagem quase identica ao formularem 0 teorema; Thomas em. termos geraIs, Mead dentro de limites mais estreitos. Assim diz Thomas: «Se os homens d~fln~m situac;o~s como reais, reais se tornam em suas conseqi.iencias. Diz Mead: ,<Se uma coisa n~oTe recon~eClda como verdadeira. nao funciona.. como verdadeira na comunidadc). Movements o hought In the Nineteenth Century (University of Chicago Press, 1936), 29. 41. J.]. Spcngler, «Veblen and Mandeville Contrasted" Veltwirtschaftliches Archiv: Zeitschrift des Institurs fur Weltwirtschaft an der Universitlit Kiel, 1959, 82, 3-67. 42. EstudlOS0S e oentistas como se fossem homens Comuns muitas vezes :lssumem atitudes que negam as ,?r6prias tearias que I procuram confjrmar.. Whitehead' refere 0 caso de urn «behaviorista» C1ue'·f·na . decada de 1920, anunciava seu prop6sito de demonstrar que 0 prop6sito nao tern Iugar SIgn I lcatlva no comportamento humano. t 4~a. A batalha entre antigos e modernos e notoriamente de longa dura,ao. 0 relato sobre cosa atalha sel11 sentido voltada para uma guerra interminavel intimamente conhecido pOl' mim. n rhe Shoulders of Gianrs. '
  20. 20. S'ejam quais forem os motivos do prefiguracionista (que s6 podem ser deduzidos do que ele escreve), 0 aspecto observavel e bastante uniforme. De fato, 0 prefiguracionismo pode ser resumido numa especie de "Credo": "A descoberta nao e verdadeira; se verdadeira, nao e nova; se e nova e verdadeira, nao e relevante". «Dotado de boa mem6ria e de alguma instrudio, nosso nomem descobre geral nao inventam os sells aS5unto5, e parece seotie-se muito satisfeito quan~e as poet~'1 ~m a fante on~e se abeber~r~m., I?o P?nto .de vista simplesmente hist6rico. e eVide~~ense~ue l.:adl~~' nad~ a obJetar; ,3. matena e as veze~ mtc!,essante, contanto que naa seja ofensiva q e Ifao a realtdade, cIa aS51ffi se transforma mUItas vezes e no caso de I angba 'ne h . as, na , 'S S X t' • . I' -,1 , C ega a ser sempre agre~slva. . . e 0 r. !vesse posta os oeu as no oaeiz, teria vista em letra d~ f r segulO"te ... e~c. ete. Acredlto que Dante, se houvesse conhecido Lanrrbaine t .1h' 0 ma 0 urn fossa espcClJ.l em seu Inferno, onde nao faltaria lugar para outro; clJlpacl~:}). :~lareservado ,0 prefigur~cioni~mo nas humanidades e nas ciencias fisicas tern seu eqUlvalente mUlto vIsivel nas ciencias sociais Tem por exem 1 f t. " ' , "p 0, ._or es raIzes na. soclOlog1a. Embora nao se disponha de estudos monog aficos comparatIvos, 0 ~esenVOlv!mento inicial da modern a ciencia socio16gica p~re.c~ de fato nao ser tao cumulativa quanto 0 das ciencias fisicas e blOloglCas,47A predile9ao dos soci6logos do seculo XIX em desenvolver ca~a um seu "pr6prio sistema" de sociologia - e que se manifesta ainda. hOJe em certos, setores - significa que os mesmos sac elaborados, tipica- mente, como SIstemas opostos de pensamento, mais do que consolidados num produto cumulativo. Essa tendencia distrai a aten9ao que, ao inves de concentrar·se sabre a analise hist6rica do desenvolvimento da teoria, ocupa-se em provar que 0 novo sistema, afinal de contas, nada t'em de novo. A hist6ria das ideias transforma-se, entao, numa arena onde se d!sputam reivindica90es e contra-reivindica90es de paternidade, que nada te~ a ver com 0 progresso da ciencia, Quanto menor 0 grau de acumula9aO, malOr a tendencia a procurar semelhan9as entre 0 pensamento presente e o ~as~ado, tendencia que pode facilmente terminar na mania do prefigu- raClOnISmo. Movem-s'8 as hist6rias da sociologia para dentro e para fora dessa es- fera sombria, Em grau muito variavel, 48oscilam entre as duas pressuposi- 90es basicas que temos descrito, referentes ~.maneira como a sociologia, se desenvolve: de um lado, prefiguracionismo; do outro, a afirma9aO de que a sociologia progride mediante novas orienta90es ocasionais e mediante increment os de conhecimentos obtidos por meio da pesquisa sugerida por essas orienta90es - as quais envolvem as vezes pre-descobrimentos, anteci- pa90es e prefigura90es, devidamente documentados. Talvez, nenhum outro historiador da teoria sociol6gica se haja inte- ressado tao profundamente pelo assunto dos pre-descobrimentos, anteci- pa90es e prefigura90es quanto Pitirim A, Sorokin, em seu alentado traba· As vitimas dos prefiguracionistas e os observadores imparc1als do comportamento dessa especie de criticos conseguiram identificar algumas varia90es de canones, Muitas vezes, atingido pelas injurias dos prefiguracio- nistas, William James foi levado a descrever "os estagios classicos da carreira de uma teoria": em primeiro lugar "e atacada por absurda; a seguir e admitida por verdadeira, mas considerada 6bvia e insigni.ficante; finalmente, e julgada tao importante que os seus adversarios reivindicam a gl6ria de have-la descoberto",43 Provocado mais uma vez pelos "maus entendedores" da, sua descri9aO pragmatica da verdade, W, James deplorou a insinoeridade dos opositores, "os quais ja come9aram a utilizar 0 cliche de que '0 que e novo nao e verdadeiro, e 0 que e verdadeiro nao e novo' .. , Se nada dissemos que fosse de certa maneira original, por que tiveram tanto trabalho para compreender 0 que diziamos? [A seguir, em magnifica e ironica insinua9aO]: A culpa nao pode ser atribuida inteiramente a obs- curidade das nossas palavras, pois em outros assuntos sempre conseguimos nos fa~er entendidos". H Enquanto as vitimas protestam com veemencia contra 0 prefiguracio- nismo, os historiadores da ciencia 0 observam friamente, George Sarton, ate recentemente decano dos historiadnres mundiais da ciencia, observou que «;1 violenta obje~ao a uma descoberta, especialmente quando e tao pertllrbadora. quanta iml?ortante, p;1ssa geralmente par dais estagios. 0 primeiro e a .da nega.<;ao p~rJ e simples, mUlto. bem exemplificada pelos parisienses que se apunhJm a teona da CJrcu1:l~2_~ do sang-ue: .a teona. de H:ll've-y esta errada, e urn verdadeiro absurdo etc. Quando essa posrc;ao se tarnou l•.nsuste~tav~l, comeC;OlJ ;1 segunda fase: A descoberta esta correta, .mas naa f~)l. H~rvey quem a fez; fOI felta por muita gente antes dele." Coube a Van der Linden a onglnaltdade de haver proclamad.o. como 0 maior hipocratista da sua cpoca: 'Nao pode haver a menor duvida de que a C1r~ulac;ao do sangue ja era conhccida por Hipocrates!' Este c urn bom exemplo de C()!.10 funclOlu :l mente filol6gica, confundindo as palavras com as realidades». i5 ° prefiguraci0nismo tambem esta presente nas humanidades, onde recebeu 0 desgra.cioso nome de Quellenforscher (pesquisador de fontes), Saintsbury chegou a identificar um famoso representante do grupo: Ge- rard Langbaine, "autor um tanto famoso do Account of the English Dra- matic Poets". ° critico ingles nem chega a mante: a calma em seu re- trato a bico de pena do prefiguracionista frances: 46, George Saintsbury, A Hisrory of Criricism and Lirerary Tasre in Europe from rhe Earli'esr Texrs ro rhe Presem Day (Edimburgo e Londres: Will.iam Blackwood & Sons, 1909), II, 400.1. 47. Nao estamos sugerindo que 0 desenvolvimento das ciencias fisicas e bio16gicas seja urn modelo de firme e inexonivel continuidade e acumula!;ao. A hist6ria dessas ciencias e, naturalmente. assin~lada por muitos redescobrimentas que surgiram, anos au mesmo gera~6es, apos haverem sido perdldos de ~ista as .pre-descobrirnentos. Mas essas quebras de cantinuidade, reparadas ID:lis t:lrde por redc.scob[J~entos IOdependentes que chamam a aten~ao dos ooservadores para as vers6es antigas e esqueCldas. sao menos freqi.ientes e de menaces conseqi.iencias do que nas ciencias sociais. 48, Essa grande variedade e comprovada pela analise met6dica das seguintes hist6rias contem- poraneas da teoria sociol6gica: N S. Timasheff, Sociological Theory: Irs Narure and Growrh (Nova Jorque: Doubleday & Co" 1955); Dan Martindale, The Narure and Types of Sociological Theory (Boston: Houghton Mifflin Co" 1960); Harry E, Barnes e Howard Becker, Social Thoughr from Lore ro SCIence ('<fashington: Harran Press, 1952, 2,,' ed,); Charles P, Loomis e Zona K. Loomis, Modern Social Theorisrs (Nova Jorque: D. Van Nostrand, 1961); Harry Elmer Barnes, redator, An Inrro- ducnon ro rhe Hisrory of Sociology (Chicago: University of Chicago Press, 1948); Lewis A, Coser e Bernard Rosenberg. Sociological Theory (Nova lorque: Macmillan, 1964, 2.' ed,), '3. '<filliam Jame<. Pragmarism: A New Name for Some Old 'XIays of Thin!<i'ng. (Nova Iorque: Lon~mans. Green, 1907), 198. 44. '<filliam James, The Meaning of Trurh: A Sequel to 'Pragmarism' (Nova Iorque: Longmans. Green, 1909), 181, 45, George Sarton. «Johannes Antonides Vander Linden (1609·1664) Medical '<friter and BiblioRraphen>, em Science, Medicine and Hisrory: Essays on rhe Evolurion of the Scienrific Thought and Medical Pracrice, Wrirren in Honour of Charles Singer, compilados e publicados por E, Ashworth Underwood (Londres: Oxford University Press, 1953), II. 15, Para apenas maiS urn exemplo do mesmo genero descrito por urn historiador, ver A. R. Hall. The Scienrific Revolurion, 1500-1800 (Londres: Longmans, Green, 1954) pags, 255 e segs" 0 qual salienta que a teoria da luz de Newton passou pela mesma serie de estagios.

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