Escola Estadual Professora Beathris Caixeiro Del Cistia 
Trabalhos de Língua Portuguesa 
Nome: Wesley Germano Otávio Nº 41...
Música Asa Branca e livro Vidas Secas abordam 
o contexto da seca no Nordeste 
Ser forte não significa apenas resistir, re...
do nordeste e também da secura nos atos dos personagens, que precisam 
dessas atitudes para resistir aos muitos obstáculos...
233), segundo nos diz Afonso Romano de Santana. Observar a importância 
deste movimento para a formação da (contra-) cultu...
críticas veladas através de jogos intertextuais, confirmando em suas canções a 
equivalência entre os termos “antropofagia...
texto é cotidiana, uma gíria comum em contextos informais e referente ao que é 
baixo, sem apresentar qualquer reverência ...
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de sua força. 
A terceira estrofe traz a mes...
[O carnaval é] uma celebração coletiva que funciona como um modo de 
resistência simbólica, da parte da maioria marginaliz...
Intertextualidade Manuel Bandeira e Millôr 
Fernandes (Pasárgada) 
Vou-me embora de Pasárgada 
Sou inimigo do rei 
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lugar e consequentemente tudo que quiser ou que desejar estará ao seu dispor, 
pois no verso "Aqui eu não sou feliz" fala ...
tem e nem nunca terá nada do que deseja, podemos confirmar o seu sentimento 
de revolta e pessimismo diante da situação ca...
Finalizando, a tentativa de interpretar um poema claro como este, 
percebemos as características contemporâneas no texto d...
“Pegue seus botões de rosas enquanto podem...”. O professor explica 
que o termo em latim para esse termo é Carpe Diem - A...
papel principal. Empolgado contou aos colegas, mas não conseguiu o apoio do 
pai. Ficou muito triste. Pediu a opinião do p...
entre professor e aluno deve ter uma vivência democrática e interativa de forma 
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Intertextualidade Triste Bahia! Ó quão dessemelhante (Gregório de 
Matos) e Triste Bahia (Caetano Veloso) 
Triste Bahia 
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Triste Bahia! Ó quão dessemelhante 
Gregório de Matos 
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante 
Estás e estou do nosso antigo e...
Durante a Ditadura Militar, a capoeira foi marginalizada e perseguida. 
Caetano faz uma citação ao mestre Pastinha, capoei...
já que os peixes devoram uns aos outros, e, pior ainda, os maiores devoram os 
menores. 
A última parte é a peroração, ou ...
os indígenas. A alegoria e a ironia são a chave de um discurso argumentativo 
que quer levar o ouvinte à reflexão. Ao mesm...
mesmo lugar. Conversando com uma moradora, percebe que nenhuma das 
atividades que poderia desempenhar – agricultura e pec...
exatidão, da linguagem enxuta cuja matriz está, reconhecidamente, em 
Graciliano Ramos. 
 Importância do livro 
Em Morte ...
simbólicas da morte – irmãos de almas, carpideiras, rezadeiras, funeral –, 
inseridas no fundo social da peça, que é a dis...
livro que exemplifica bem a morte severino é quando o personagem Severino 
diz: 
Somos muitos Severinos 
iguais em tudo na...
Resenha Filme "Xica da Silva" 1976 
O filme Xica da Silva (1976) foi dirigido por Cacá Diegues, grande 
cineasta brasileir...
meio de “amansá-lo”. Logo, Xica percebe que presentear Valadares não está 
funcionando e tenta criar um exército, com ajud...
Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles 
RESUMO 
Na Idade Média, romance era o nome que se atribuía a uma obra poé...
suspeita do inconfidente e poeta Claudio Manuel da Costa, os padecimentos de 
Tomás Antônio Gonzaga, autor dos versos de M...
– como ocorre no “Romance X”, no qual a Inconfidência é vista da perspectiva 
de uma donzela: “Donzelinha, donzelinha / do...
questões que não dizem respeito apenas ao século XVIII da Inconfidência. Afinal, 
o livro trata de assuntos bastante atuai...
mantida: na manhã de 21 de abril de 1792, numa cerimônia pública no Rio de 
Janeiro, foi executado. Em seguida, teve a cab...
Também Jarbas Sertório de Carvalho, em ensaio publicado na Revista 
do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, defe...
jornalista Elio Gaspari comenta que "suicídios desse tipo são possíveis, porém 
raros. No porão da ditadura, tornaram-se c...
Quem sobe ao alto lugar, que não merece, 
Homem sobe, asno vai, burro parece, 
Que o subir é desgraça muitas vezes. 
Gregó...
Bibliografia 
 http://folhab.blogspot.com.br/2012/05/musica-asa-branca-e-livro-vidassecas. 
html 
 http://www.trabalhosf...
 http://www.franklinmartins.com.br/estacao_historia_artigo.php?tit 
ulo=cinco-poemas-de-gregorio-de-matos-o-boca-do-infer...
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Música asa branca e livro vidas secas Intertextualidade, Antropofagia e Tropicália, Intertextualidade Manuel Bandeira e Millôr Fernandes (Pasárgada), Resenha Sociedade dos Poetas Mortos e carpe diem,

  1. 1. Escola Estadual Professora Beathris Caixeiro Del Cistia Trabalhos de Língua Portuguesa Nome: Wesley Germano Otávio Nº 41 Série: 3ºB
  2. 2. Música Asa Branca e livro Vidas Secas abordam o contexto da seca no Nordeste Ser forte não significa apenas resistir, representa também a sabedoria de escolher a hora certa para se retirar em um momento de perigo. Muito conhecida é a seca que castiga o nordestino, fazendo com que esse povo deixe sua região em busca de condições de sobrevivência. O momento de retirada dessas pessoas inspira a arte brasileira. Entre elas a canção de Luiz Gonzaga, ''Asa Branca'' e a literatura de Graciliano Ramos, no livro ''Vidas Secas.'' A música foi lançada no ano de 1.947 e o livro em 1.938. Atualmente o êxodo diminuiu, mas ainda acontece. Como a natureza tem seus caprichos ''O sertão continuaria a mandar para a cidade homens fortes, brutos como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos. '' A família inteira sai a procura de um abrigo salvador. Na canção o personagem faz seu percurso sozinho, mas promete voltar, com o verde da plantação. Já em ''Vidas secas'', o receio do contato com uma cultura desconhecida e a tentativa de criar esperanças para vencer o caminho faz os personagens se dividirem entre a saudade da terra natal e a promessa de nunca mais voltar. Figuras presentes nas duas obras são os animais que também sofrem com a estiagem. A ave que dá nome a música Asa Branca partiu em busca de refúgio. Enquanto em ''Vidas secas'' a cachorra Baleia sofre e sonha com um osso cheio de tutano. A morte do gado serve como alerta para que os sertanejos consigam perceber o momento desfavorável. Tanto na música como na obra literária são apresentadas características da seca. Em ''Asa branca'' a terra é comparada com a fogueira, quente e vermelha, a mesma de ''Vidas secas'' , que logo no início apresenta como cenário uma planície avermelhada. O braseiro e o fornalho dão a dimensão do calor que Luiz Gonzaga quis retratar e Graciliano Ramos fala de uma manhã, sem pássaros, sem folhas e sem ventos. Asa Branca é um baião, que foi composto por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Na voz de Luiz Gonzaga, a música fez e ainda faz sucesso nacional e internacional. ''Vidas Secas'', de autoria de Graciliano Ramos, fala sobre a seca
  3. 3. do nordeste e também da secura nos atos dos personagens, que precisam dessas atitudes para resistir aos muitos obstáculos, impostos pela natureza. Antropofagia e Tropicália Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama. Oswald de Andrade – Manifesto antropófago a alegria é a prova dos nove e a tristeza é teu porto seguro minha terra é onde o sol é mais limpo e mangueira é onde o samba é mais puro tumbadora na selva selvagem pindorama – país do futuro Gilberto Gil & Torquato Neto – Geléia geral “O Tropicalismo é um neoantropofagismo”: assim definiu Caetano Veloso, em entrevista concedida a Augusto de Campos , o movimento que ajudara a fundar e deflagrar.A explosão do Tropicalismo (ou Tropicália), se deu nos Festivais da Música Brasileira, no fim da década de 60, quando “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso e “Domingo no Parque” de Gilberto Gil chamaram a atenção da mídia e do público por trazerem uma proposta inovadora em suas letras e arranjos, misturando Rock’n’roll, música experimental de vanguarda e ritmos brasileiros. Pouco depois, seria lançado o LP Tropicália, do qual participaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Torquato Neto, Rogério Duprat, Os Mutantes, etc. Neste texto, procuraremos investigar mais afundo esse que é “antes de tudo um movimento dessacralizador. Irônico e parodístico” (SANTANA, 1977, p.
  4. 4. 233), segundo nos diz Afonso Romano de Santana. Observar a importância deste movimento para a formação da (contra-) cultura brasileira no que se chama modernismo tardio ou pós-modernismo, e sua poética dessacralizadora que mescla o popular e o erudito, que incorpora o “canônico” a “cultura de massa” (ou vice-versa), que deglute os monumentos de cultura das fontes irradiadoras (seja do colonialismo ou neoimperialismo), carnavaliza-as e descentra sua influência. A partir daí, podemos observar as origens imediatas e remotas da Tropicália, que busca desde a tradição barroca, do já antropófago Gregório de Matos, retoma as propostas do modernismo de 22, principalmente as lançadas no “Manifesto Antropofágico” de Oswald de Andrade (“Tupy, or not Tupy...”) e, dessa forma, se relaciona com outros movimentos de vanguarda de sua época, como o Cinema Novo e o Cinema Marginal, o Poema-Processo, a Poesia Marginal, a psicodelia hippie, todos marcados pelo seu aspecto experimental e iconoclasta, que mescla elementos heteróclitos, de diferentes linguagens e contextos, para criar uma arte autêntica de caráter híbrido. É importante ressaltar que tudo isto se deu em plena ditadura militar, e a estética arrojada da Tropicália era também uma forma de velar uma crítica, dessa forma, o protesto social adquiria caráter estético, de maneira que forma e conteúdo se uniam em uma proposta revolucionária que extrapolava para o comportamento: as cores, roupas e danças, a libertação dos instintos e o caráter muitas vezes andrógino dos artistas dialogavam em um sistema de signos constituindo uma mensagem subversiva. O grupo Secos e Molhados surge pouco depois da deflagração da Tropicália. Formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad, lançaram dois discos, o primeiro em 1973 e o outro em 1974, trazendo ainda as concepções estéticas do movimento, evidenciadas nas performances e visual pitorescas e na musicalização de poemas de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Julio Cortázar resinificando estes textos transpondo-os para outra realidade histórico–social e retomando, ainda, a proposta de Mallarmé, de [re]junção entre música e poesia. Dessa forma, o Secos e Molhados talvez refine ainda mais a proposta tropicalista de transgressão estética e comportamental, trazendo em suas letras
  5. 5. críticas veladas através de jogos intertextuais, confirmando em suas canções a equivalência entre os termos “antropofagia”, de Oswald de Andrade, “intertextualidade” de Kristeva e “dialogismo” ou “carnavalização” de Bakhtim, e o poder subversivo que essas práticas textuais assumem por meio da paródia, quando o dominado assume a força do discurso dominante para denunciar as próprias instituições de poder, onde o nivelamento da arte dita “elevada” e a arte “baixa”, popular, é uma forma de provocar e atacar a cultura oficial, elitista e colonizada, colocando a expressão da margem no centro da discussão e derrubando as hierarquias. Isto é, antropofagia e carnavalização são meios de inversão e resistência. Para melhor ilustrarmos essas afirmações, cabe partirmos para a análise de uma letra dos Secos e Molhados. Trata-se de “El Rey”, canção composta por Gerson Conrad e João Ricardo e lançada no disco de 1973: “Eu vi El Rey andar de quatro De quatro caras diferentes De quatrocentas celas Cheias de gente “Eu vi El Rey andar de quatro De quatro patas reluzentes De quatrocentas mortes... “Eu vi El Rey andar de quatro De quatro poses atraentes De quatrocentas velas Feitas duendes” Devemos observar, primeiramente, que o texto é permeado pela relação entre três ideias: Poder — decadência — resistência. El Rey é o signo do poder. A forma castelhana nos remete ao poder colonial: opulência, riqueza e dominação. Entretanto, o primeiro verso da canção diz: “Eu vi El Rey andar de quatro”. Neste verso entra também o elemento da decadência. O rei de quatro é a ridicularizarão do grandioso, e, quando no verso seguinte, lemos “quatro caras diferentes”, observamos que a palavra “cara” traz um sentido diferente de “face” ou “rosto”, pois, apesar de serem aparentemente sinônimos, a forma utilizada no
  6. 6. texto é cotidiana, uma gíria comum em contextos informais e referente ao que é baixo, sem apresentar qualquer reverência ou respeito, então aqui a palavra “cara” aparece como índice se dessacralização. Quatro caras: o poder se apresenta de várias formas, muda as máscaras (as personas, como no teatro grego), transforma o discurso. Assim como em um teatro, o poder muda de máscaras, e, assim como em um carnaval, suas máscaras trazem o brilho da riqueza na forma de extravagância. E, como bem traduz o barroco, o grandioso e o grotesco — a opulência e a decadência — andam juntos. O índice do despotismo surge no verso seguinte: “De quatrocentas celas cheias de gente”. Aqui vemos que o poder se despersonaliza, muda de máscaras e de discursos, mas, seja o discurso colonial imperialista, seja o neoliberal pretensamente democrático, vemos as história dos vencedores marchando sobre os corpos dos vencidos, e a tirania aparece no fim desta primeira estrofe na forma da supressão da liberdade do outro. A estrutura da primeira estrofe se repete na seguinte, isto é, o estribilho inicial, no segundo verso, “patas reluzentes” aparece no lugar de “caras diferentes”, apresentando, contudo, a mesma estrutura morfológica: caras/patas, assim como diferentes/reluzentes, apresentam o mesmo número de sílabas, as silabas tônicas na mesma posição e as mesmas terminações, mantendo a cadência e a melodia do texto. Além disso, essa correspondência estrutural anuncia que também será mantida as relações de ideias, pios, “quatro patas reluzentes” podem referir-se tanto à imagem de uma montaria, símbolo de altivez cavalheiresca, ou às quatro patas do próprio rei. O reluzente da riqueza vem novamente associado ao rebaixamento da imagem grotesca do “rei de quatro”. Cabe aqui enfocarmos a peculiaridade da palavra “morte” dentro do texto. Como podemos observar, o poema é dividido em três estrofes, duas de quatro versos, e uma, à qual nos reportamos agora, de três. Porém, na cadência da música, o lugar do quarto verso da segunda estrofe fica vazio, ou melhor, é preenchido pelo silêncio. Silêncio expressivo. Os três pontos que seguem a palavra “morte” corroboram essa ideia. Assim, podemos compreender a morte como forma maior de violência e coação, a pena capital empreendida pelo poder, sobre a qual não se faz necessário o uso de nenhum adjetivo: diante da (ameaça
  7. 7. de) morte, o coagido deve calar, não por respeito à autoridade, mas por medo de sua força. A terceira estrofe traz a mesma estrutura das anteriores: após o estribilho, surge, no segundo verso, “poses atraentes”, que se relaciona morfologicamente a “caras diferentes” e “patas reluzentes” reiteram a idéia da elegância atrativa ligada à imagem de riqueza ostentada pelo rei se relacionando à extravagância humorística, por meio da imagem caricatural atribuída à elegância e à riqueza na paródia carnavalizante. E nos dois últimos versos temos novamente o índice da dominação em “quatrocentas velas”. Num primeiro momento, o vocábulo “velas” pode ser visto como índice da dominação colonizadora se associado metonimicamente às caravelas que cruzaram o oceano subjugando povos. Por outro lado, “velas” pode também ser relacionado metonimicamente à morte. Visto por essa segunda perspectiva, a palavra “duentes”, presente no último verso, apresenta-se como uma chave de leitura por ilustrar como a resistência se integra no texto. Este ente fantástico, muito comum na mitologia céltica, é um símbolo de travessuras, de caráter semelhante aos sátiros da mitologia grega. Dessa forma, o duende é o que satiriza, ironiza, parodia, ridiculariza, ou seja, uma figura carnavalizante. As quatrocentas velas, quatrocentos mortos — políticos, culturais, etc. —, os vencidos e marginalizados dos centros de poder, erguem-se para novamente se opor, utilizando da carnavalização como instrumento de resistência. A carnavalização, apresentando-se como paródia, isto é, reescritura e transformação de outro texto, torna-se antropofagia quando o autor imerso em uma situação desfavorável, ou subdesenvolvida, como diz Antonio Candido, isto é, na situação de dominado, assume o texto do outro, do dominador, e o transforma. Dessa forma, como diz Robert Stam: O artista não pode ignorar a presença da arte estrangeira; tem de engoli - la, carnavalizá-la e fazer uma reciclagem para objetivos nacionais. ‘Antropofagia’, nesse sentido, é um outro nome para o que Kristeva, traduzindo Bakhtin, chamou de ‘intertextualidade’ e que o próprio Bakhtin chama de ‘dialogismo’ e carnavalização. (STAM, 1992, p. 49) Nesse sentido, a carnavalização como resistência apresenta-se no plano estético e textual assim como no plano social:
  8. 8. [O carnaval é] uma celebração coletiva que funciona como um modo de resistência simbólica, da parte da maioria marginalizada dos brasileiros, às hegemonias internas de classe, raça e gênero. Para Da Matta, o carnaval é o lócus privilegiado da inversão. Todos os que foram socialmente marginalizados invadem o centro simbólico da cidade (Idem, Ibidem, p. 50.) E, mais adiante, afirma que “A lógica do carnaval é a do mundo de pernas para o ar, onde se zomba dos poderosos e onde reis são entronizados e depostos” (Idem, Ibidem. p. 52) A carnavalização é a principal forma de subversão do oprimido contra o discurso oficial do dominador e é amplamente utilizada pela Tropicália e, mais especificamente, pelos Secos e Molhados. Nesse ponto, cabe ainda ressaltar o diálogo do texto com a tradição literária colonial, marcadamente o Barroco. Esse diálogo é já evidente na linguagem medievalista do texto, mas pode ser aprofundado observando-se algumas características barrocas dentro do poema em análise. Uma delas é o exagero das imagens. Tal característica é evidenciada não só nas imagens exóticas e grotescas, mas também com a utilização do conceptismo, recurso que cria um jogo verbal, o qual se estende a um jogo de idéias antitéticas. Assim, os números quatro e quatrocentos se referem ao exagero do poder: o quatro a riqueza que atrai, o quatrocentos a tirania que oprime. E, desse jogo de idéias antitéticas que desvela a decadência daquilo que é grandioso através da ironia e da paródia, resulta a resistência. Gregório de Matos é um baluarte dessa prática, com suas elaboradas sátiras ao governo colonial antecipou a Antropofagia oswaldiana, quando parafraseou o poema “Triste Tejo” do português Francisco Rodrigues Lobo em seu ácido “Triste Bahia”. Dessa forma, nota-se também, o aspecto metalinguístico de “El Rey, pois evidencia a atitude do artista Latino Americano, que, ao tomar consciência de seu subdesenvolvimento, não se isola da cultura dominante, símbolo do poder colonial outrora, e neo colonial atualmente, e sim devora-a, parodia e dessacraliza, impondo sua resistência.
  9. 9. Intertextualidade Manuel Bandeira e Millôr Fernandes (Pasárgada) Vou-me embora de Pasárgada Sou inimigo do rei Não tenho nada que quero Não tenho e nunca terei Vou-me embora de Pasárgada Aqui eu não sou feliz A existência é tão dura As elites tão senis Que Joana, a louca da Espanha Ainda é mais coerente Do que os donos do país. (Millôr Fernandes. Folha de S. Paulo, março/2001) Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconsequente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive. (Manuel Bandeira. “Bandeira a Vida Inteira”. Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90) Pasárgada, poesia de Manuel Bandeira (que é um poema conhecido, consagrado, um cânone) e uma releitura do mesmo poema realizada por Millôr Fernandes. Manuel Bandeira é da Primeira Geração Modernista e sua característica é uma linguagem renovada ao falar do cotidiano. As lentes líricas de Manuel Bandeira transformam cenas banais do dia-dia em poesia "é o olhar terno para o cotidiano". Segundo o próprio autor, o poema "veio" na sua primeira vez, na adolescência quando traduzia textos em latim e nestes textos Ciro estava construindo uma casa de veraneio e o nome era Pasárgada, que significa campo dos persas. Então sua imaginação começou a tentar criar este lugar, como seria Pasárgada. Mas foi na vida adulta, cansado da vida, vindo do trabalho que o autor falou: "Vou-me embora pra Pasárgada!" e o poema veio inteiro. A Pasárgada de Manuel Bandeira é uma cidade imaginária que o eu- poético idealiza como um lugar perfeito e onde tudo pode ser realizado. A voz que fala está desapontada, sem esperanças e cansada da sua realidade e usa a fuga para o seu imaginário onde fica uma cidade em que todos os seus desejos serão realizados. Em Pasárgada o eu poético é amigo do rei, a autoridade maior do
  10. 10. lugar e consequentemente tudo que quiser ou que desejar estará ao seu dispor, pois no verso "Aqui eu não sou feliz" fala claramente que no mundo real é infeliz. A ausência de leis ou regras a cumprir, a liberdade sexual para ter a mulher que quiser e "um processo seguro contra concepção" refletem o desejo de realizar coisas que no seu "mundo" real não são possíveis. Bem como o uso de drogas "à vontade", é mais um desejo que só em Pasárgada pode ser realizado. E ainda há a referência dos contraceptivos que funcionam e portanto não há motivos para preocupação com gravidez indesejada em Pasárgada. Outro fato interessante é o fato do eu poético tratar de forma idílica as prostitutas no verso "pra gente namorar", termo só usado para as "moças de família", é como se fosse uma forma de respeito também. Tudo é tão subversivo em Pasárgada, que o parentesco também "quebra sua ordem" e Joana a Louca da Espanha é a contraparente da nora que ele nunca teve! A rainha espanhola Joana, era uma mulher a frente de seu tempo, inteligente, ousada, que não se conformava em ficar sem fazer nada, queria governar, realizar coisas...E ainda amava seu marido, o rei Felipe "O Belo", e demonstrava isso em uma época de casamentos arranjados para juntar fortunas, não era comum e até "loucura" demonstrar amor. Outra "imagem" existente no poema é a infância do autor que foi privado da liberdade das brincadeiras infantis e em Pasárgada ele realiza o sonho de tomar banho de rio, banho de mar, subir em pau-de-sebo, montar à cavalo e ouvir as histórias de Rosa, sua babá, que é homenageada no poema. E quando estiver triste, com vontade de se "matar", há a fuga para Pasárgada, lá tudo é possível, lá "sou amigo do rei". A Pasárgada de Millôr Fernandes é o retrato do desencanto com a situação política e econômica brasileira, pode-se afirmar que o autor fala do Brasil devido a semelhança dos fatos narrados com os problemas do nosso país. No primeiro verso do poema, que também é o título, em vez do eu poético ir para Pasárgada, seu desejo é de ir embora de Pasárgada. E então se inicia o poema com a crítica social a esta cidade imaginária que é a representação do pessimismo diante da realidade da vida. Após o primeiro verso, que é a repetição do título do poema, o eu lírico afirma que é inimigo do rei, informação contrária ao poema de Manuel Bandeira. E ser inimigo do rei significa também não aprovar as atitudes desta pessoa, no caso, pode-se entender que a referência é feita ao presidente do país, que é a nossa autoridade máxima. Nos versos seguintes em que o eu poético afirma que a existência é dura, as elites são senis e que não
  11. 11. tem e nem nunca terá nada do que deseja, podemos confirmar o seu sentimento de revolta e pessimismo diante da situação caótica de Pasárgada. No verso "Aqui não sou feliz" que é o mesmo verso de Manuel Bandeira em Pasárgada, mas há a diferença de sentido atribuído que para um significa a realidade com a perspectiva de ser feliz em Pasárgada e para o outro o eu poético é a realidade do seu sentimento e sem ter nenhuma opção de fuga para a felicidade. A rainha espanhola Joana, no verso de Millôr Fernandes, mesmo com toda sua "loucura" é mais "coerente do que os donos do país". O contexto social brasileiro é denunciado no poema ao se referir, também, na forma como a polícia age "baixando o pau", ou seja, com violência, o exercício que o trabalhador tem tempo para fazer é nos velhos trens, lotados, a caminho e na volta do trabalho. A voz que fala está angustiada que fala está cansada do país em que tudo a revolta, sem esperança, que já comprou ida sem volta e diz "Aqui não quero ficar", não tem nada, nem mesmo a recordação. Está muito claro seu sentimento e o que quer dizer, não há metáforas ou outro meio de disfarçar o que quer transmitir, o poema é muito objetivo. E a outra crítica social que há no texto poético é sobre a alta taxa de natalidade, a falta de planejamento familiar que é uma das causas do aumento desordenado da população. O Estado não consegue alimentar, abrigar e educar tanta gente. E é nos versos "Nem a fome e doença, Impedem a concepção" que estes fatos podem ser relacionados. E ainda fazendo uma comparação entre o poema e a realidade brasileira e até mundial, o telefone não telefona: como está sendo o serviço prestado pelas operadoras de telefone fixo e móvel? Não é atual esse tema? E preços altos, linhas cruzadas, clonadas, fora de área... No verso "A droga é falsificada" é também um fato contemporâneo que se confirmava imprensa escrita, televisiva e outras fontes que atualmente falsifica-se inclusive drogas, que são misturadas com produtos químicos para render, não há mais droga pura. Em se falando de prostitutas aidéticas é outro retrato atual. A expansão do vírus da AIDS, que embora não tenha mais tanta vez na mídia, está aí e é preocupante. E mesmo assim, a "geração do ficar" não parece preocupada com isso.
  12. 12. Finalizando, a tentativa de interpretar um poema claro como este, percebemos as características contemporâneas no texto de Millôr Fernandes, com a presença da crítica social e humor sarcástico para denunciar os problemas sociais e políticos que presenciamos nessa época de mensalão, juízes presos, memórias de Bruna Surfistinha, cracolândia, chacinas... O autor está ou não está falando da realidade? Resenha Sociedade dos Poetas Mortos O filme sociedade dos poetas mortos, dirigido por Peter Weir é um drama vivido na Academia Welton no ano 1959, nos Estados Unidos. Uma escola tradicional de segundo grau, que aplica um ensino rígido como na academia militar e adota uma concepção didática racionalizada com prospecção para formação superior. No início do filme, uma solenidade de abertura do ano letivo, onde os alunos adentram o auditório com trajes formais exibindo os brasões, a farda e o comportamento sisudo exigido pela escola. Na plateia, os pais e funcionários acompanham o hino exaltando a herança histórica e os legados da colonização. O discurso formal do diretor Nolan(Norman Lioyd), enfatizando os cem anos da escola e o orgulho estribado nos quatro pilares, que ainda garantiam o sucesso daquela instituição: Tradição; Honra; Disciplina; Excelência. A menção desses princípios empolga muito os pais de alunos no auditório, pois sabem que ali as chances são bem maiores de seus filhos ingressarem em curso superior e a garantia de um futuro promissor. A apresentação do novo professor John Keating (Robin Willins) que já fora aluno dessa escola. Na sua primeira aula, o professor Keating inicia a leitura com uma frase de um poema de Walt Whitman a respeito de Abraham Lincoln: “Meu Capitão, Meu Capitão”, o que se pode entender teria chamado assim também seu mestre que o inspirou. Pede aos alunos que leiam o primeiro verso do poema “Às virgens para aproveitar o tempo” da página 542 do livro de hinos:
  13. 13. “Pegue seus botões de rosas enquanto podem...”. O professor explica que o termo em latim para esse termo é Carpe Diem - Aproveite o dia. Viver cada dia intensamente como se fosse o último. Na aula seguinte, solicita a leitura da introdução do livro: “Entendendo a Poesia”. O texto diz que a poesia pode ser demonstrada com gráfico matemático, não parece ser aplicação da interdisciplinaridade, mas apenas um método antiquado de olhar a poesia. Keating pede que arranquem essa e outras páginas semelhantes. Diz ele: “Poesia é para ser vivida e não calculada”. Que não pensem como são mandados, mas pensem por si mesmos. Com certa dificuldade consegue convencê-los. O professor sobe na mesa, pede aos alunos que subam também e vejam de forma diferente. Ver de outro ângulo, por si mesmos e não apenas como são induzidos. O professor Keating é do tipo que entra na sala assoviando; Descontrai os alunos; Leva-os para aulas ao ar livre; Pede que façam poesias espontâneas; Incute neles o desejo de viver cada momento intensamente. Adota um estilo divergente da escola tradicional. Leva os alunos a uma nova forma de ver as coisas. Os alunos começam a tomar gosto pela literatura e a perceberem a sensação de viver a poesia. Sentem o ambiente, que aliás é propício para aulas ao ar livre. O ambiente evoca a tradição inglesa: Árvores altas, extensos jardins, a exuberância da natureza, espaços bem definidos. Os alunos se sentem à vontade com o professor Keating, deixam fluir suas inspirações. As aulas começam a produzir efeitos. Neil Perry (Robert Sean) um dos alunos, descobre o anuário do professor Keating e o questiona sobre o que seria a Sociedade dos Poetas Mortos, da qual ele fazia parte. O professor hesita, mas fala dos hábitos e do local secreto onde costumavam se reunir para ler poesia. Isso foi o bastante para aguçar a curiosidade no grupo, que nas horas de folga com facilidade conseguiam chegar até a caverna onde principiaram suas primeiras leituras ainda tímidas.Tomaram gosto e as idas até lá viraram o hobby preferido deles, às vezes até as garotas também participavam. Essa nova sensação despertou em Neil o gosto pela dramatização e resolveu se inscrever para uma peça de teatro, onde concorreu e conseguiu o
  14. 14. papel principal. Empolgado contou aos colegas, mas não conseguiu o apoio do pai. Ficou muito triste. Pediu a opinião do professor Keating, que o aconselhou a ser aberto com seu pai. Neil não tem liberdade para se expressar. Seu pai, é um linha dura, que não abre mão dos seus princípios e lhe nega o consentimento. Neil forja uma autorização da escola com assinatura falsa do diretor. Saiu-se bem na peça. Festejou o sucesso da apresentação. Recebeu os aplausos do auditório. O abraço dos colegas e amigos, mas teve de suportar a dura chamada do pai. A gota d’água para sua decepção com relação à futura carreira. Desanimou totalmente. Desistiu de viver. A arma do próprio pai foi seu carrasco. Aquela noite de glória foi também de caos. Entrou definitivamente para a sociedade dos poetas mortos, mas de forma trágica. O tão entusiasmado Neil, agora deixa tristeza na família, na escola, nos colegas e amigos. É a notícia do momento. Assunto dos corredores. A escola não iria perder sua reputação. O diretor tem de punir alguém. Não poderia ser outro: O professor Keating, seria demitido. Convoca os alunos do professor Keating e interroga-os, quer saber quem faz parte da sociedade. Terão de renunciar e assinar o termo de responsabilidade. Os pais estão presentes e certificam-se de que tal professor não lecionará mais ali. Os jovens não têm escolha. Grande é a sua dor em ter de separar-se do professor. As aulas voltarão a ser com antes dele. O diretor assume a sala. Todos terão de pagar as matérias atrasadas. Rever o assunto antes refutado. O professor Keating entra na sala para pegar suas coisas no armário. Será o último encontro com aqueles alunos. Ao sair, mesmo sem se despedir, Anderson um dos alunos, com uma atitude inusitada, sobe na carteira, e exclama: Meu capitão! Esse era o apelido carinhoso que lhe deram. Os outros imitam. O diretor que está lecionando perde o domínio da sala. O professor keating agradece, pois sabe, mesmo não podendo mais continuar ali, leva a certeza de que algo ficou marcado naqueles garotos. A conclusão desse episódio é que o filme Sociedade dos Poetas Mortos mostra uma crítica à educação tradicional, onde o aprendizado acontece de forma mecânica: O professor fala, o aluno ouve. O discente não inclui suas experiências do dia-a-dia no processo de aprendizagem. O professor Keating rompe com o tradicional e mostra um novo ideal pedagógico no qual a relação
  15. 15. entre professor e aluno deve ter uma vivência democrática e interativa de forma espontânea, permitindo ao aluno poder extrair o melhor de si. Carpem Die Sociedade dos Poetas Mortos “Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? - Carpe - ouve? - Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas." Nesta cena do filme o Prof. Keating está em frente a uma galeria de fotos de ex-alunos que formaram na tradicional escola Welton, ele pede para que os alunos se aproximem da galeria para ouvirem o espirito de seus predecessores a dizer: "carpe diem"1. 1 Carpe diem é uma expressão em latim que significa "aproveite o dia". Essa é a tradução literal, e não significa aproveitar um dia específico, mas tem o sentido de aproveitar ao máximo o agora, apreciar o presente.
  16. 16. Intertextualidade Triste Bahia! Ó quão dessemelhante (Gregório de Matos) e Triste Bahia (Caetano Veloso) Triste Bahia Caetano Veloso *A primeira estrofe da música é parte do poema homônimo de Gregório de Mattos Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás E estou do nosso antigo estado Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado Rico te vejo eu, já tu a mim abundante Triste Bahia, oh, quão dessemelhante A ti tocou-te a máquina mercante Quem tua larga barra tem entrado A mim vem me trocando e tem trocado Tanto negócio e tanto negociante Triste, oh, quão dessemelhante, triste... Pastinha já foi à África Pastinha já foi à África Pra mostrar capoeira do Brasil Eu já vivo tão cansado De viver aqui na Terra Minha mãe, eu vou pra lua Eu mais a minha mulher Vamos fazer um ranchinho Tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua E seja o que Deus quiser Triste, oh, quão dessemelhante Ê, ô, galo canta O galo cantou, camará Ê, cocorocô, ô cocorocô, camará Ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará Ê, pelo mundo afora, ê pelo mundo afora camará Ê, triste Bahia, ê triste Bahia, camará Bandeira branca enfiada em pau forte Afoxé leî, leî, leô Bandeira branca, bandeira branca enfiada em pau forte O vapor da cachoeira não navega mais no mar Triste recôncavo, oh, quão dessemelhante Maria pegue o mato é hora, arriba a saia e vamo-nos embora Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vai embora Oh, virgem mãe puríssima Bandeira branca enfiada em pau forte Trago no peito a estrela do norte Bandeira branca enfiada em pau forte
  17. 17. Triste Bahia! Ó quão dessemelhante Gregório de Matos Triste Bahia! Ó quão dessemelhante Estás e estou do nosso antigo estado! Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, Rica te vi eu já, tu a mi abundante. A ti trocou-te a máquina mercante, Que em tua larga barra tem entrado, A mim foi-me trocando e tem trocado Tanto negócio e tanto negociante. Deste em dar tanto açúcar excelente Pelas drogas inúteis, que abelhuda Simples aceitas do sagaz Brichote. Oh quisera Deus que de repente Um dia amanheceras tão sisuda Que fora de algodão o teu capote! No soneto, Gregório de Matos lamenta o estado de sua cidade, outrora rica, agora pobre. Há a personificação da cidade, por o eu-lírico se identificar com sua condição/a ti trocou-te e a mim foi me trocando. A condição de miséria da cidade se deve ao fato de ela se dar ao estrangeiro/brichote. O desfecho do poema possui teor moralizante, já que o poeta propõe como saída o retorno da cidade á condição de humildade, desejando – por Deus! – vê-la em simples capote de algodão, desprovida da sedutora seda. Gravado integralmente em Londres, em1972, Transa é o terceiro trabalho solo de Caetano Veloso. Marcante pela mistura de ritmos e de referências culturais e literárias, o disco traz em Triste Bahia uma analogia do compositor com o Boca do Inferno – ambos perseguidos. Na letra, Caetano Veloso destaca aspectos culturais – Mestre Pastinha, responsável pela difusão da capoeira na África e perseguido pelos militares - musicais e literárias – para lamentar a perda da identidade de sua terra. A música inicia com alguns versos de Triste Bahia (Gregório de Mattos). Apesar da grande diferença de épocas entre Gregório e Caetano, ambos criticam a Bahia com o mesmo poema: Gregório num cenário econômico, quando itens de necessidade eram trocados por especiarias europeias e Caetano no cenário político da Ditadura Militar. Máquina mercante na música de Caetano refere-se à Ditadura. A partir do trecho "Pastinha já foi à África", Caetano adiciona seus próprios versos à música.
  18. 18. Durante a Ditadura Militar, a capoeira foi marginalizada e perseguida. Caetano faz uma citação ao mestre Pastinha, capoeirista que visitou a África para mostrar a capoeira brasileira. Caetano faz um jogo com o acontecimento e a época dizendo que Pastinha preferiu ir à África à ficar no Brasil. Caetano sempre cita uma fuga da Ditadura, como quando diz querer ir morar na lua e "Vamo-nos embora pelo mundo afora, camará. Triste Bahia camará" ou "Maria pegue o mato é hora, Arriba a saia e vamo-nos embora". E "Bandeira branca enfiada em pau forte" significa um pedido de paz, de fim da Ditadura Militar. Da poesia barroca, identifica-se o hipérbato, ou seja, a troca da ordem direta dos termos da oração, a antítese, que consiste na exposição de ideias opostas e a obsessão pela linguagem culta, característica barroca. Sermão de Santo Antônio aos Peixes Resumo O sermão foi proferido em São Luís do Maranhão em 13 de junho de 1654, dia de Santo Antônio e três dias antes da partida de Vieira para Portugal, onde pretendia interceder em favor dos índios diante das autoridades portuguesas. O sermão é construído em forma de alegoria, dirige-se aos peixes mas, na verdade, fala aos homens. O texto está dividido em seis partes. A primeira delas é o exórdio, ou introdução, na qual faz o chamamento "Vós sois o sal da terra". Os pregadores são o sal da terra, cabendo ao sal impedir a corrupção. Mas na terra não lhes dão ouvidos, por isso voltam-se para o mar, onde estão os peixes. Há também a invocação da Virgem Maria. Nas partes II a V temos o desenvolvimento do sermão. Antônio Vieira exalta as qualidades dos peixes, como a obediência, e repreende os vícios, como a soberba e o oportunismo. Deve-se destacar aí a citação de diversos tipos de peixes. As virtudes são descritas nos peixes de Tobias, Rémora, Torpedo e Quatro-Olhos. Já os defeitos estão nos seguintes peixes: Roncadores, Pegadores, Voadores e no Polvo. O principal defeito apontado é a voracidade,
  19. 19. já que os peixes devoram uns aos outros, e, pior ainda, os maiores devoram os menores. A última parte é a peroração, ou conclusão, na qual Vieira exalta os peixes que, por sua natureza, não podem ser sacrificados vivos a Deus e sacrificam-se então, em respeito e reverência. Confessando-se pecador, o orador se despede com uma oração de louvor a Deus. Contexto  Sobre o autor Antônio Vieira é o maior representante da prosa barroca no Brasil e o maior orador sacro do Brasil-Colônia. Nascido em Portugal, veio para o Brasil ainda criança e estudou no Colégio dos Jesuítas, em Salvador. Importância do livro Os sermões do Padre Vieira são o melhor exemplo do Barroco Conceptista no Brasil. São textos que usam a retórica, com jogos de ideias e palavras, para convencer os leitores (no caso, os assistentes) pelo raciocínio, mais que pela emoção. No Sermão de Santo Antônio aos Peixes, além de exaltar a necessidade da pregação, Vieira usa a alegoria dos peixes para criticar a exploração do homem pelo homem e, mais especificamente, para condenar a escravidão indígena.  Período histórico Na época em que o sermão foi escrito, 1654, Padre Antônio Vieira lutava contra a escravidão indígena e contra a exploração portuguesa. Logo depois do sermão, o Padre foi para Portugal interceder pelos índios. Análise No Sermão de Santo Antônio aos Peixes, Vieira junta sua devoção ao santo à preocupação que o levaria, dias depois da pregação, a fugir secretamente para Portugal: a questão da escravidão e dos maus tratos contra
  20. 20. os indígenas. A alegoria e a ironia são a chave de um discurso argumentativo que quer levar o ouvinte à reflexão. Ao mesmo tempo, a saudação inicial “Vós sois o sal da terra” é um chamamento à participação ativa na sociedade. A discussão sobre as virtudes e os vícios humanos passa necessariamente por uma preocupação social. A ideia de que peixes maiores comem os peixes menores, ou seja, que a grandeza de cada um na sociedade tem valor relativo, surge espantosamente à frente do seu tempo. Em plena era mercantil, o texto de Vieira, por meio da alegoria, desvenda para os colonos do Maranhão a realidade da competição proto-capitalista: são peixes grandes na colônia, pois escravizam os nativos, que consideram inferiores, porém, uma vez na metrópole, serviriam de alimento para outros peixes maiores, contra os quais não teriam defesa. Portanto, o texto de Vieira, datado do século XVII, traz para nós uma inquietante contemporaneidade, pois seus temas principais são a ganância humana e a corrupção da sociedade, assuntos mais do que presentes em nosso cotidiano. Por meio de sua linguagem finamente elaborada, Vieira nos faz refletir sobre os desafios da sociedade de seu tempo, nos ajudando também a pensar sobre a nossa realidade. Morte e Vida Severina RESUMO Na abertura da peça, o retirante Severino se apresenta à plateia e se dispõe a narrar sua trajetória. Sai do sertão nordestino em direção ao litoral, em busca da vida que escasseava em sua terra. Ao longo do caminho, mantém uma série de encontros com tipos nordestinos. Logo de saída encontra os irmãos das almas, lavradores encarregados de conduzir a um cemitério distante o corpo de um colega, assassinado a mando de latifundiários. Aos poucos, assiste à seca do rio Capiberibe, que Severino segue em sua viagem ao litoral. Passa por um lugarejo e ouve uma cantoria vinda de uma casa. Trata-se do canto de excelências, isto é, fúnebre, em honra a outro Severino morto. Com a morte definitiva do rio, Severino pensa em desistir de sua viagem, mas acaba por optar pelo prosseguimento. Assim, planeja instalar-se naquele
  21. 21. mesmo lugar. Conversando com uma moradora, percebe que nenhuma das atividades que poderia desempenhar – agricultura e pecuária – encontraria espaço ali, mas apenas aquelas ligadas à morte, como rezadeira e coveiro. Severino continua sua jornada e passa pela Zona da Mata, região de relativa prosperidade no interior do sertão. Encanta-se com a natureza verdejante do lugar, mas percebe ainda a presença da morte ao testemunhar o funeral de um lavrador que se realiza no cemitério local. Abandona o pensamento inicial de encerrar ali a busca que mantinha pela vida e continua sua viagem. Por fim, chega ao Recife, onde resolve descansar ao pé de um muro. Trata-se de um cemitério, e Severino escuta então o diálogo entre dois coveiros. Os trabalhadores conversam sobre o trabalho que lhes dão os retirantes que saem de suas casas sertanejas para morrer ali, fazendo-o ademais no seco e não no rio – o que lhes daria menos serviço e mais sossego. Diante desse novo encontro com a morte, Severino resolve entregar-se a ela e se matar, atirando-se em um dos rios que cortam a cidade. Ao se aproximar do rio, inicia um diálogo com José, mestre carpina (carpinteiro), morador ribeirinho. Pergunta-lhe se aquele ponto do rio era propício ao suicídio. O mestre responde positivamente, mas tenta convencer o retirante a não se atirar. Severino pede então que lhe dê uma única razão para não fazê-lo. A resposta do mestre é interrompida pelo anúncio do nascimento de seu filho. José o celebra com vizinhos e conhecidos, recebe os presentes pobres que lhe trazem, ouve as previsões pessimistas de duas ciganas a respeito do futuro da criança e, por fim, recordando-se da pergunta de Severino, dispõe-se a respondê-la. Afirma então que ele, José, não tem a resposta para a questão de saber se a vida vale ou não a pena, mas que o nascimento de seu filho funciona como resposta, representando a reafirmação da vida diante da morte. CONTEXTO  Sobre o autor João Cabral é o maior poeta da terceira fase modernista. Mais do que isso: forma, ao lado de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira o trio de poetas mais importantes da nossa história. É o poeta da pesquisa formal, da
  22. 22. exatidão, da linguagem enxuta cuja matriz está, reconhecidamente, em Graciliano Ramos.  Importância do livro Em Morte e Vida Severina, sem abrir mão do rigor imagético e da síntese expressiva, João Cabral alcança uma comunicabilidade maior, talvez em função do fato de ter sido desafiado a escrever uma peça de teatro – destinada, portanto, a um público mais amplo do que aquele que sua poesia poderia alcançar. A abordagem do drama da seca é feita de tal forma a dialogar com o romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, do qual funciona quase como continuação.  Período histórico Os anos 1950 se caracterizam na história brasileira pelo desenvolvimentismo do governo de Juscelino Kubitscheck. Trata-se de um período de grande entusiasmo cultural e intelectual, que atinge o campo da literatura em autores como Guimarães Rosa e Clarice Lispector, além do próprio João Cabral. ANÁLISE João Cabral classificou sua peça de auto de natal pernambucano, levando em conta tanto a forma popular dos versos curtos, comuns nos autos medievais, quanto a circunstância de tratar de um nascimento (natal) e de ambientar-se no sertão pernambucano. O título promove uma proposital inversão entre vida e morte, colocando esta em primeiro lugar. Essa troca da ordem natural indica os encontros com a morte e a vitória da vida, no final.  LEMBRETE Morte e Vida Severina é uma peça de teatro em versos. O autor resgata uma forma popular – os versos curtos – para tratar de um assunto que atingia particularmente o povo nordestino: a seca. Além disso, o nome próprio Severina é usado como adjetivo no título, sugerindo uma ampliação de sentido que é confirmada logo nas primeiras palavras do retirante, que, ao tentar se apresentar, evidencia que sua situação particular é, na verdade, uma metonímia do que ocorre com outros sertanejos, igualmente vítimas da seca. Em seu caminho em direção ao litoral, Severino alterna diálogos e monólogos. Os primeiros representam os encontros sucessivos com figuras
  23. 23. simbólicas da morte – irmãos de almas, carpideiras, rezadeiras, funeral –, inseridas no fundo social da peça, que é a disputa pela terra. Já os monólogos mostram as reflexões do retirante, que tenta redefinir seus rumos depois de cada diálogo. Os pontos culminantes da trajetória fatalista do retirante são a morte do rio cujo percurso ele acompanha até o litoral – representação de um meio que se rende à morte como o morador instalado nele – e o paradoxo do contato com ofícios que demonstram vitalidade justamente porque associados à morte – rezadeira, coveiro, farmacêutico etc. A chegada à cidade é a desilusão final do retirante. O diálogo travado entre os coveiros funciona como sua sentença de rendição à morte, ato máximo de seu desespero. Por outro lado, o nascimento de uma criança instala a contradição entre a opção de saltar fora da vida, desistindo dela e a alternativa de agarrar-se à existência e resistir à morte opressora. Nesse sentido, a simbologia da criança – para além de figurar o nascimento de Cristo, em sua condição de filho de carpinteiro – abarca a ideia da purificação, da limpeza de toda a podridão associada à morte. A peça não resolve a contradição, já que sua última fala é a do carpina propondo a vida a Severino, sem que se saiba a opção feita por este. No entanto, o título da peça, que propõe o encontro final com a vida, parece sugerir a vitória da resistência e da insistência na esperança.  O que é uma vida severina? 'Vida severina' é uma vida dura, de labuta, dissabores, coragem, força e fé.  O que é morte severina? A história começa com um homem chamado Severino que, ao percorrer todo o sertão, em busca de trabalho só se depara com funerais de pessoas que morreram de fome, caracterizando a "morte severina", pois eram todos iguais, tanto na vida, como na morte, morrem sempre da mesma causa: a fome, provocada pela falta de recursos em decorrência da seca. Uma passagem do
  24. 24. livro que exemplifica bem a morte severino é quando o personagem Severino diz: Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida).  O que ser severino? Severino é uma metáfora para nordestino, que na maioria das vezes sai do sertão acreditando que no Recife, ou outras cidades nas quais a seca é mais branda, a vida pode ser melhor, mas em todo percurso ele vai percebendo que a vida Severina, independe do lugar, ou das condições climáticas.  Se a vida dos severinos é tão sofrida, com tantas dificuldades deve continuar sendo vivida? José, não tem a resposta para a questão de saber se a vida vale ou não a pena, mas que o nascimento de seu filho funciona como resposta, representando a reafirmação da vida diante da morte.
  25. 25. Resenha Filme "Xica da Silva" 1976 O filme Xica da Silva (1976) foi dirigido por Cacá Diegues, grande cineasta brasileiro. Formou-se em Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), mas seu amor pelo cinema falou mais alto. Dirigiu filmes como Ganga Zumba (1964), Bye Bye Brasil (1979) e Deus é Brasileiro (2003). Venceu inúmeros prêmios em variados festivais pelo mundo, como o Festival de Londres e de Cartagena. Xica da Silva é um filme de comédia baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos. Narra a estória da escrava Francisca da Silva, mais conhecida como Xica, que se envolve com o contratador português João Fernandes, e causa grande alvoroço na cidade e até em Portugal. Xica da Silva é uma esperta escrava que serve ao Sargento-Mor e a seu filho, José, um rapaz rebelde que sonha com o fim da exploração. O maior desejo de Xica é ter a liberdade e ser tratada como “gente”, mas nunca é levada a sério, e sempre é vista como objeto sexual. Chega à cidade o Contratador João Fernandes de Oliveira, enviado pela Coroa para liderar a busca por diamantes. É tratado como um rei pela população e pelo interesseiro Intendente. Xica é outra que se interessa por ele, e consegue chamar sua atenção usando seu exotismo e sensualidade. Logo, vira amante de João Fernandes e tem todos os seus desejos realizados, até os mais extravagantes, sentindo-se uma rainha. A relação entre escrava e comendador é vista por maus olhos entre a “elite” da cidade, que acha uma grande burrice um homem rico e prestigiado gastar fortunas com uma escrava. Como passo final para sentir-se tratada como “gente”, Xica consegue sua carta de alforria, mas ao tentar entrar na igreja, é barrada por conta de sua cor da pele, o que a deixa furiosa. João Fernandes lhe dá um palácio e um navio para ratificar que ela é uma rainha, e tais atitudes são denunciadas ao rei de Portugal. O rei de Portugal envia o Conde de Valadares para inspecionar o trabalho do Contratador. Sua chegada causa medo em João Fernandes, que teme ter que voltar a Portugal, e por isso, enche o Conde de presentes como
  26. 26. meio de “amansá-lo”. Logo, Xica percebe que presentear Valadares não está funcionando e tenta criar um exército, com ajuda de Teodoro, um garimpeiro ilegal, mas ele acaba sendo pego por Valadares e seus capangas. Como última cartada, a dama do contratador oferece um banquete africano ao Conde, que fica furioso. João Fernandes é obrigado a voltar a Portugal, deixando sua amante na colônia. Xica vê seu prestígio e poder se diluir com a partida forçada de seu companheiro. Volta a ser anônima. O filme de Cacá Diegues é comédia de forte apelo popularesco com personagens estereotipados e até exagerados. Na primeira cena, um dos personagens diz ao Contratador “Somos artistas e não nos metemos com política”. Tal fala parece ser um recado para a censura militar da época com o intuito de frisar que o filme ali produzido não tocará no assunto política. Mas, claro que Diegues não deixaria de fazer sua crítica, para tanto, usa o personagem José, interpretado por Stepan Nercessian, um jovem que é contra a exploração vivida pela colônia. Em um momento, diz “O povo gosta de quem os explora”. José é da era colonial, mas suas ideias são atuais. Ele, como muitos, lutam contra a exploração do sistema. Zezé Motta foi feliz em sua interpretação como Xica da Silva, que, no filme, veio buscando sua liberdade e reconhecimento. Xica viu em João Fernandes o meio mais rápido de atingir seus objetivos. Ela queria ser reconhecida como um branco era reconhecido na sociedade, para isso, passou a se vestir, comer e frequentar os mesmos lugares que os brancos, mas não importava o que ela fizesse, sua cor de pele sempre estaria a frente na hora de ser julgada. Assim é a realidade, não importa o que as pessoas façam, sempre serão julgadas pela cor da pele, opção sexual, peso... Ao final do filme, quando seu amante vai embora, Xica, mesmo livre, é ainda tratada como escrava. Xica da Silva se passa na metade do Séc. XVIII e trata de questões como escravidão e extração de diamantes, além de ser uma adaptação de um livro de grande sucesso. Portanto é uma boa pedida para quem se interesse em estudar o período colonial do Brasil.
  27. 27. Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles RESUMO Na Idade Média, romance era o nome que se atribuía a uma obra poética de caráter narrativo. Uma reunião de romances formava um romanceiro. O Romanceiro da Inconfidência narra a história da Conjuração Mineira, movimento revoltoso de 1789 promovido por colonos brasileiros que pretendiam tornar a região de Vila Rica (Minas Gerais) independente do domínio português. O sucesso poderia levar à utilização da riqueza produzida pelo ouro na própria região, acabando com a sangria monetária promovida pelos interesses metropolitanos. Em uma “Fala inicial”, o narrador, assumindo a primeira pessoa, manifesta a sensação imperativa de tornar pública a revolta que toma conta da colônia, o que funciona como justificativa para a própria obra. A partir daí, a história narrada é dividida em “Cenários”, obedecendo à ordem cronológica dos acontecimentos. Assim, o primeiro Cenário enquadra o desenrolar da febre do ouro na região: a busca enlouquecida pelo metal, a crescente intervenção das autoridades, a consequente luta dos colonos contra o poder instituído (como a Revolução de 1720, liderada por Felipe dos Santos), a prática do contrabando e, por fim, a presença ativa dos escravos na mineração. A atuação dos negros acabou por gerar a lenda do Chico-Rei, lendário negro que, enriquecido, dedicava-se a comprar a liberdade de outros, e a de Chica da Silva, a sedutora namorada de um rico minerador. Essa primeira parte da narrativa se encerra com o nascimento de Tiradentes (1746). O segundo Cenário é a cidade de Vila Rica. Esta parte retrata a vida local: a bucólica e pacífica poesia dos árcades convive com o crescimento do espírito de rebelião, que envolve um número cada vez maior de colonos. Surge o herói Tiradentes, o “animoso alferes”, e, ao mesmo tempo, aquele que viria a ser o traidor, Joaquim Silvério dos Reis. Espalha-se o terror, com a prisão dos envolvidos. Uma “Fala aos pusilânimes” serve como página de acusação aos traidores de todos os tempos e trata da consequência das prisões: a morte
  28. 28. suspeita do inconfidente e poeta Claudio Manuel da Costa, os padecimentos de Tomás Antônio Gonzaga, autor dos versos de Marília de Dirceu e o abandono a que é relegado Tiradentes, que acaba por assumir a culpa solitariamente. O Cenário seguinte mostra os desdobramentos da Inconfidência para seus participantes, destacando a relação de Gonzaga com Maria Joaquina, a Marília de seus poemas: ele se casa no exílio africano, enquanto ela sofre em terras brasileiras. O último Cenário relata as atitudes das autoridades portuguesas responsáveis pela punição dos revoltosos. Narra-se aqui ainda a morte de Marília. A obra termina com uma homenagem aos rebeldes (“Fala aos inconfidentes mortos”). CONTEXTO  Sobre o autor Cecília Meireles é bem o retrato da poesia de seu tempo. Tendo se destacado no resgate de recursos da estética simbolista, criando uma atmosfera difusa para explorar temas abstratos – como fizeram muitos poetas da época – também enveredou por caminhos mais concretos, como aqueles pertinentes à temática social – que atravessa igualmente a obra de muitos de seus contemporâneos.  Importância do livro Mesmo que destoe um pouco do sentido geral que a autora imprimiu à sua obra, o fato é que o Romanceiro da Inconfidência se tornou a obra mais conhecida de Cecília Meireles. De um lado, por apresentar uma linguagem mais clara e comunicativa; de outro, por tratar de um assunto familiar a muitos leitores. Seja como for, trata-se de grande poesia. ANÁLISE A fala que abre o livro, tratando da necessidade imperativa do canto, sugere uma concepção da arte como instrumento de eternização da ação humana. O Romanceiro assume, com essa proposição, uma postura de combate, opondo-se aos relatos produzidos pela história oficial – pelo menos aquela construída no período da Conjura. Essa oposição se dá de duas maneiras: em primeiro lugar, porque aqueles que a história oficial poderia conceber como traidores são vistos aqui como heróis; segundo, porque a narrativa de seus atos será feita de uma perspectiva lírica e não apenas factual
  29. 29. – como ocorre no “Romance X”, no qual a Inconfidência é vista da perspectiva de uma donzela: “Donzelinha, donzelinha / dos grandes olhos sombrios, / teus parentes andam longe, / pelas serras, pelos rios, / tentando a sorte nas catas, / em barrancos já vazios!”.  LEMBRETE Um evento histórico conhecido é abordado sob um prisma subjetivo, no qual a voz lírica se confunde com atores ou testemunhas do fato. Muitas vezes, explora-se a função apelativa da linguagem, isto é, aquela que é centrada no receptor da mensagem. Destacam-se ainda as analogias criadas pela autora. No entanto, é curioso verificar certa persistência de concepções maniqueístas – as mesmas que costumam fundamentar algumas produções da historiografia oficial, pródiga em criar heróis da pátria. Assim, no Romanceiro, reforça-se a imagem dos inconfidentes como vítimas de perseguições políticas e indivíduos antecipadores da independência brasileira. Particularmente, a figura de Tiradentes ganha destaque: mesmo com sua morte, a ideia libertária permanece, o que sugere o triunfo do heroísmo. Por outro lado, temos o estereótipo do vilão em Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da causa inconfidente, que merece do Romanceiro a mesma verve acusatória que acabaria por receber da própria história. Embora essas ressalvas possam – e devam – ser feitas, é preciso sempre lembrar que a proposta da autora nunca foi produzir uma obra documental, mas lírica. Tal característica é comprovada pela insistência com que a voz poética assume a primeira pessoa, explicitando um olhar subjetivo mais próprio da poesia que da historiografia. Dessa forma, o livro conduz a um envolvimento mais lírico que ideológico. A própria linguagem da obra parece confirmar esse viés: Cecília resgata algumas expressões árcades, como ocorre no “Romance LIV ou Do enxova l interrompido”: “Sabeis, ó pastora, / daquele zagal / que andava num prado / sobrenatural?”. Convém lembrar que muitos poetas do arcadismo brasileiro se envolveram diretamente com a Inconfidência, como foi o caso de Claudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga – ambos referidos no Romanceiro. Por fim, é importante notar que a força dos versos do texto de Cecília Meireles é transcendental, isto é, vai além do tempo e do espaço referidos ali. Na obra, passado e presente dialogam de forma produtiva, de maneira a iluminar
  30. 30. questões que não dizem respeito apenas ao século XVIII da Inconfidência. Afinal, o livro trata de assuntos bastante atuais, como a ambição humana, a ação de traidores e a necessidade de se continuar lutando contra ambos. A “Fala aos pusilânimes”, por exemplo, que encerra uma das partes do livro, é dirigida aos traidores de todos os tempos, tratados ali por “vós”, o que sugere um olhar voltado para o presente. Assim, o Romanceiro aponta para um fato histórico isolado, mas estende suas reflexões para toda a história humana. Contexto político que deu origem à Inconfidência (o plano e porque fracassou) Na segunda metade do século XVIII, Minas Gerais entrou em fase de decadência econômica (jazidas de ouro esgotadas, mineiros empobrecidos, altos impostos sobre os mineradores). Em 1788, a Coroa Portuguesa nomeou o Visconde de Barbacena. Objetivo: aplicar a Derrama (cobrança dos impostos atrasados). Movidos pela revolta, importantes membros da elite econômica e cultural de Minas planejaram um movimento contra as autoridades portuguesas: a Inconfidência Mineira. Os planos dos inconfidentes eram: 1) Libertar o Brasil de Portugal, criando uma república com capital em São João Del Rei. 2) Adotar uma nova bandeira que teria um triângulo no centro com a frase latina: Libertas quae sera tamen (liberdade ainda que tardia). 3) Desenvolver indústrias no País. 4) Criar uma universidade em Vila Rica. Sem tropas, sem armas, sem a participação do povo, sem intenção de libertar os negros, sem o mínimo de organização, bastou que o coronel Joaquim Silvério dos Reis denunciasse os planos dos inconfidentes ao Governador de Minas Gerais para que o movimento fracassasse. Todos os participantes foram presos, julgados e condenados. Só Tiradentes (o mais pobre, o mais entusiasmado) teve sua pena de morte
  31. 31. mantida: na manhã de 21 de abril de 1792, numa cerimônia pública no Rio de Janeiro, foi executado. Em seguida, teve a cabeça cortada e o corpo esquartejado. Intertextualidade Cláudio Manuel da Costa e Vladmir Herzog Cláudio Manuel da Costa Sua morte está cercada de detalhes obscuros. Há mais de duzentos anos que o assunto suscita debates e há argumentos de peso tanto a favor como contra a tese do suicídio. Os partidários da crença de que Cláudio Manuel da Costa tenha se suicidado se baseiam no fato de que ele estava profundamente deprimido na véspera da sua morte. Isso está estampado no seu próprio depoimento, registrado na Devassa. Além disso, seu padre confessor teria confirmando seu estado depressivo a um frade que trouxe o registro à luz. Os partidários da tese de que Cláudio tenha sido assassinado, contestam tanto a autenticidade do depoimento apensado aos autos da Devassa, quanto a honestidade do registro do frade. Quem acredita na tese do assassinato se baseia em um argumento principal: o próprio laudo pericial que concluiu pelo suicídio. Pelo laudo, o indigitado poeta teria se enforcado usando os cadarços do calção, amarrados numa prateleira, contra a qual ele teria apertado o laço, forçando com um braço e um joelho. Muitos acreditam ser impossível alguém conseguir se enforcar em tais circunstâncias. O historiador Ivo Porto de Menezes relata que ao organizar antigos documentos relativos à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, em 1957 ou 1958, encontrou no livro de assentos dos integrantes da Irmandade de São Miguel e Almas, a anotação da admissão de Cláudio Manuel e à margem a observação de que havia "sufragado com 30 missas" a alma do falecido, e "pago tudo pela fazenda real". De igual forma procedera a Irmandade de Santo Antônio, que lançou em seu livro: "falecido em julho de 1789. E feitos os sufrágios." Relembra que havia à época proibição de missas pelos suicidas.
  32. 32. Também Jarbas Sertório de Carvalho, em ensaio publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, defende com boa documentação a tese do assassinato. Há ainda quem acredite que o próprio governador, Visconde de Barbacena, esteve envolvido na conspiração e Cláudio teria sido eliminado por estar disposto a revelar isso. Mas o fato é que somente a tese do suicídio pôde se lastrear em documentos, ainda que duvidosos quanto a sua honestidade e veracidade, como bem salientam os adeptos da tese de assassinato. Júlio José Chiavenato lança um dado que reforça a tese da farsa montada do "suicídio" de Cláudio Manuel da Costa. Na tarde do mesmo dia em que o advogado é preso, são assassinados no sítio da Vargem a sua filha, o genro e outros familiares, bem como alguns escravos e roubados todos os seus bens. O Visconde de Barbacena só informou Lisboa da morte de Cláudio Manuel da Costa a 15 de julho, onze dias depois de ter ocorrido e quando dera conhecimento a Lisboa do seu interrogatório a 11 de Julho, sem nunca referir o facto. Se a morte do alferes (Tiradentes) não causaria embaraços em Lisboa a de Cláudio e da sua família poderia causar, daí a necessidade da farsa ser montada. Dez dias depois da sua morte, a população de Paris tomava a fortaleza da Bastilha, marcando o início do fim da dinastia dos gloriosos Luíses de França. Começava a tomar corpo então, um projeto político, sonhado pelo próprio Cláudio Manuel da Costa para seu país. Demoraria, no entanto, mais trinta anos para que o Brasil se tornasse liberto de Portugal. Cem anos a mais seriam necessários para a realização da segunda parte do sonho, a implantação do regime republicano no Brasil. Vladmir Herzog O Serviço Nacional de Informações recebeu uma mensagem em Brasília de que naquele dia 25 de outubro: "cerca de 15h, o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se no DOI/CODI/II Exército". Na época, era comum que o governo militar divulgasse que as vítimas de suas torturas e assassinatos haviam perecido por "suicídio", fuga ou atropelamento, o que gerou comentários irônicos de que Herzog e outras vítimas haviam sido "suicidados" pela ditadura. O
  33. 33. jornalista Elio Gaspari comenta que "suicídios desse tipo são possíveis, porém raros. No porão da ditadura, tornaram-se comuns, maioria até." Conforme o Laudo de Encontro de Cadáver expedido pela Polícia Técnica de São Paulo, Herzog se enforcara com uma tira de pano - a "cinta do macacão que o preso usava" - amarrada a uma grade a 1,63 metro de altura. Ocorre que o macacão dos prisioneiros do DOI-CODI não tinha cinto, o qual era retirado, juntamente com os cordões dos sapatos, segundo a praxe naquele órgão. No laudo, foram anexadas fotos que mostravam os pés do prisioneiro tocando o chão, com os joelhos fletidos - posição em que o enforcamento era impossível. Foi também constatada a existência de duas marcas no pescoço, típicas de estrangulamento. Vladimir era judeu, e a tradição judaica manda que suicidas sejam sepultados em local separado. Mas quando os membros da Chevra kadisha – responsáveis pela preparação dos corpos dos mortos segundo os preceitos do judaísmo – preparavam o corpo para o funeral, o rabino Henry Sobel, líder da comunidade, viu as marcas da tortura. "Vi o corpo de Herzog. Não havia dúvidas de que ele tinha sido torturado e assassinado", declarou. Assim, foi decidido que Vlado seria enterrado no centro do Cemitério Israelita do Butantã, o que significava desmentir publicamente a versão oficial de suicídio. As notícias sobre a morte de Vlado se espalharam, atropelando a censura à imprensa então vigente. Sobel diria mais tarde: "O assassinato de Herzog foi o catalisador da volta da democracia". Anos depois, em outubro de 1978, o juiz federal Márcio Moraes, em sentença histórica, responsabilizou o governo federal pela morte de Herzog e pediu a apuração da sua autoria e das condições em que ocorrera. Entretanto nada foi feito. Em 24 de setembro de 2012, o registro de óbito de Vladimir Herzog foi retificado, passando a constar que a "morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (Doi-Codi)", conforme havia sido solicitado pela Comissão Nacional da Verdade.
  34. 34. Quem sobe ao alto lugar, que não merece, Homem sobe, asno vai, burro parece, Que o subir é desgraça muitas vezes. Gregório de Matos
  35. 35. Bibliografia  http://folhab.blogspot.com.br/2012/05/musica-asa-branca-e-livro-vidassecas. html  http://www.trabalhosfeitos.com/ensaios/Rela%C3%A7%C3%A3o- Entre-o-Livro-Vidas-Secas/31912297.html  http://literaturidade.blogspot.com.br/2012/05/graciliano-ramos-vidas- secas-e-luiz.html  http://revistakamikases.blogspot.com.br/2010_03_01_archive.html  http://jonesmatos.blogspot.com.br/2011/09/resenha-do-filme-sociedade- dos-poetas.html  http://pt.wikipedia.org/wiki/Carpe_diem  http://sabereslitbras1.wordpress.com/tag/gregorio-de-matos/  http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/triste-bahia.html  http://www.guiadelinguagens.com.br/dicas-de-estudo/barroco-poesia- gregorio-de-matos/  http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/ sermao-de-santo-antonio-aos-peixes.html  http://pt.wikipedia.org/wiki/Sermão_de_Santo_António_aos_Peix es  http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/ morte-e-vida-severina.html  http://www.coladaweb.com/resumos/morte-e-vida-severina-joao-cabral- de-melo-neto  http://loiroeinteligente.blogspot.com.br/2013/09/resenha-filme-xica- da-silva-1976.html  http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/historia/crise-do- antigo-sistema-colonial/a-inconfidencia-mineira.html  http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/ romanceiro-da-inconfidencia.html
  36. 36.  http://www.franklinmartins.com.br/estacao_historia_artigo.php?tit ulo=cinco-poemas-de-gregorio-de-matos-o-boca-do-inferno-bahia- 1682  http://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Herzog  http://pt.wikipedia.org/wiki/Cl%C3%A1udio_Manuel_da_Costa

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