Narcisa

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Narcisa

  1. 1. NARCISANarcisa nasceu com 2300 g numa tarde de inicio de primavera dia 22 em setembro noHospital Sírio Libanês, filha de Bellinda Marcondes Andrada, carioca de 26 anos, deolhos castanhos e tês branca, natural de Niterói, que odiava ser chamada de papagoiaba,dona de uma pequena loja de artesanato, descendente de italianos e filha de GeraldoGusmão Lancellote, gaucho que imigrou dos pampas ao Rio de Janeiro para trabalharnuma Consultoria de software, dono de um largo sorriso, robusto e de avós alemães. Osamigos de Geraldo gostavam de dizer que era bom ter um participante da TavolaRedonda como amigo. Moravam na Tijuca, próximos a Conde de Bonfim, numa velhacasa em constantes reformas. À menina deram o nome de Narcisa. Narcisa MarcondesAndrada Lancellote.Narcisa crescia normalmente como qualquer criança de sua idade. Pelo menos até osdois anos de idade. Foi quando os pais perceberam que sua filha era um pouco“diferente” das demais crianças de sua idade. Haviam comprado um quebra-cabeças de5000 peças e estavam montando ele no chão da sala, enquanto Narcisa estava sentadano sofá apertando aleatóriamente os botões do controle remoto. Bellinda foi até acozinha pegar alguma coisa para comer e Geraldo atender ao telefone.Dois minutos depois quando chegaram na sala viram todas as peças do quebra-cabeçaespalhadas por toda a sala, pelos corredores, sobre as almofadas, em cima dos móveis.Sobre a televisão. E Narcisa olhando atentamente a sua obra. Os pais riram com oquadro caótico das peças espalhadas por toda a casa. Mas foram parando de rir a medidaque a menina foi até o quarto e trazendo na mão uma peça aleatória a encaixouexatamente onde deveria se encaixar. E depois foi até a televisão e encaixou a terceira.E depois foi ao final do corredor e trouxe a quarta peça. Por incansáveis três horas a
  2. 2. menina de dois anos andava pela casa e sempre trazia as peças exatas. Duas, seis, dezpeças de cada vez. Então ela completou o gigantesco quebra-cabeça, sentou no sofá,sorrindo se deitou e dormiu exausta, na frente dos assustados pais.Narcisa was born with 2300 g one afternoon early spring, Sept. 22 in Syrian-LebaneseHospital. Daughter of Bellinda Marcondes Andrada, Carioca 26, hazel eyes and whiteskin, natural of Niterói girl who hated being called "papagoiaba." Belina owns a smallcraft shop and is also of Italian descent. Narcissas father, Geraldo Lancellote Gusmao,who immigrated gaucho is the "pampas" to Rio de Janeiro to work in a softwareconsulting company. Geraldo owns a broad smile, robust fellow, with Germangrandparents.Geraldos friends liked to say that it is good to have a participant of the "Round Table"as a friend, because the surname "Lancellote." The famíila lived in Tijuca, living nearConde de Bonfim, in an old house in constant reform. To the girl called Narcissa.Narcisa Marcondes Andrada Lancellote.The daughter Narcissa grew normally, like any child his age. At least until his two yearold. Thats when his parents realized that their daughter was a bit "different" from otherchildren his age. They had bought a puzzle of 5000 pieces and were setting it on thefloor of the room, while Narcissa was sitting on the couch pressing random buttons onthe remote control. Bellinda went to the kitchen to get something to eat and Geraldo gotup to answer the phone that rang insistently.Two minutes later, when they returned to the room and found all the pieces of thepuzzle spread all over the room, as well as in the corridors, on the pads and on top offurniture. And Narcissa was looking closely at their glorious work .The parents laughed with chaotic picture of the pieces scattered throughout the house.But were stopped laughing when the girl went to the room, and having in his hand apiece random, fit exactly where it should fit. And after that she went to the TV and thethird piece into place. And then went down the hall and brought the fourth piece.Tireless in three hours, the two year old girl was walking around the house and alwayshad the exact parts.Two, six, ten pieces each time.Then she completed the gigantic puzzle, sat on the sofa, smiling, lay down and fellasleep exhausted, in front of frightened parents.Narcisa sorria.Sinistra e discretamente.São exatas oito horas da manhã. Narcisa, sete anos de pura e genialidade maligna,caminha lenta e suavemente em direção ao monitor de seu andar na escola em quereside. Faltam 20 minutos para o fim do mundo, e ela será a causadora dele. Esfregandoas lentes de seus grossos óculos, Fernando, o zeloso monitor das crianças irrequietas efestivas do Colégio Arte e Intenção, não imagina que em sua direção naquele exatomomento caminhava o quinto cavaleiro do apocalipse.A pequena e doce Narcisa. De olhos meigos e lindas tranças negras que ultrapassavamsua cintura, olhos acinzentados e brilhantes, pele branca como de uma harpia e lábiosvermelhos como tomate colhido na véspera.E tendo no coração a tormenta.
  3. 3. Arrasta solenemente Matilda, sua sofrida boneca de pano, Fernando conhece a bonecaencardida que Narcisa arrastava desde que entrou na pré-escola cerca de dois anos antes.Coincidentemente a mesma época do incêndio, da invasão das vespas, um pouco antesda explosão do microondas da cantina, logo após o curto-circuito causado pelainundação do segundo andar.O a boneca sempre era arrastada por uma das pernas enquanto a cabeça ia batendo pelosdegraus enquanto subia as escadas ou as descia, sempre correndo.E eis que vinha Narcisa. Fernando passa a mão pelo nariz e levanta a lente em direçãoda menina, que fica meio distorcida na lente, parando como um fantasma diante de suamesa no meio do corredor, imóvel.Fernando abaixa a cabeça em direção da menina que lhe sorri docemente. Por algummotivo estranho sempre que a Narcisa chegava à sua mesa o colégio ficava nummomento de absoluto silencio. Talvez fosse só uma coincidência, porque instantes apósvoltava o som das vozes e da algazarra das crianças.- Fale Narcisa, o que você deseja? Pergunta o prestativo e inocente monitor do segundoandar.- Sabe... “seu” Fernando... eu... tô com dor de cabeça... eu estava brincando com a“luzinha” azul... e de repente comecei a ficar meio enjoada...- “Luzinha azul”? Que raio de “luzinha azul” é essa Narcisa? Pode mostrar para o tio? Oque você está sentindo, querida?- “Tô meio enjoada...”- Calma, vou te levar para a enfermaria, mas antes mostra pro tio a “luzinha azul”.Narcisa balança docemente a cabeça esfregando os olhos e aponta para o pátio daescola.Fernando leva-a pela mão e pede para que ela indique o local onde está a tal da “luzinhaazul”. Quando chegam ao pátio, ela aponta para uma caixa. Uma pequena caixa. A caixatinha algumas inscrições. Era metálica e parecia muito pesada e possuía um símbolo.Antes de ser monitor Fernando trabalhou alguns anos em áreas industriais. E conheciamuito bem o símbolo que estava na caixa. Significava “perigo – radioativo”Narcisa inocentemente aponta para o artefato metálico e após para alguma coisa queparece brilhar logo após a caixa.O monitor do colégio mandou isolar a área. Chamou a policia, o corpo de bombeiros eaté aos fuzileiros navais. A rua se encheu de curiosos. Um cordão de isolamento foiarmado enquanto retiravam as crianças do colégio, no mesmo momento em queambulâncias chegavam e um carro de técnicos da comissão nuclear. Dois técnicosvestidos de roupas a prova de radiação saíram dos veículos munidos de medidores deradiação e roupas especiais. Pais chegavam com seus automóveis em profusão,enquanto estações móveis de televisão se posicionavam diante do que parecia ser oquadro de um ataque terrorista. Na verdade uma equipe tática do exército despejoucinqüenta e dois soldados de três caminhões ao lado do colégio. Houve um telefonemaanônimo naquela manhã para o ministério do exército, mas ninguém deu muito créditoporque a voz que realizou a denuncia era de uma criança. Especificamente, a voz deuma menina.A confusão ficava maior a cada momento, a equipe médica proibiu a saída das criançasda área isolada enquanto não fosse verificado se havia contaminação radioativa dealguma delas.A primeira criança a ser examinada foi a Narcisa, que felizmente não apresentavanenhum vestígio de contaminação.
  4. 4. Os pais furaram o bloqueio em direção às crianças recém-liberadas, mas foram contidospela barreira de militares.Foi quando finalmente começou o tumulto.Indiferente a gritaria e a histeria da multidão, uma criança sorria.Sinistra e discreta.Narcisa...Não. Nunca encontraram nenhum vestígio de radiação no pátio do colégio. Sim. Oartefato era falso. A “luzinha azul” era só uma lâmpada com led. Um led azul.Não. Nunca descobriram o autor da proeza.Narcisa ganhou uma semana em casa.Para se recuperar do trauma.Da redação da Welington Corporation

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