Fantásticas Memórias do Exilio

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O livro virtual. A obra mínima da Welington Corporation. Ficção, aventura e comédia.

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Fantásticas Memórias do Exilio

  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3E foram histórias tristesDentre fábulas fantásticasE desceram montes apáticosVestidos de couraças gélidasE criam naquelas bandeirasNa verdade, estandartes levantadosPor jovens de mãos fortesAcostumados com o gemido das batalhasE foram torrões acesosBrilhando com suas espadasPor entre as vielas CurdasPor entre os pastos queimadosSangrando homens treinadosGritavam cavalos baiosBrindavam espadas rarasCresciam pavores plenosMarechais e comandantesSeus soldados agora errantesEntre as pilhas dos caídosEntre os gritos dos vencidosAvante! Cavalos baiosPor esses morros infamesLutar na guerra sem nome
  4. 4. 4Até não poder correr mais livrementeAté que só sobre a fome.Caiam desfraldadas bandeirasCaiam pendões entre mãos trêmulasAté que se aquietem os valesAté que se aquietem os valesTodos os personagens deste livro são fictícios.Qualquer semelhança com alguém real é meracoincidência...Inclusive o autor...E o livro...Talvez...Quem saberá ao certo?Você que o lê agora...
  5. 5. 5Sobre a GuerraHouve um tempo além do tempo, quando asestrelas recém nascidas ainda quentes emanavammais luz que olhos humanos seriam capazes deenxergar, num lugar impensado, diante depaisagens deslumbrantes, rodeadas de espectros ecores hoje inexistentes, onde anéis de asteróidesfeitos de cristais de ametista e nuvens de gás feitasde azul cintilante mescladas de faixas prateadasentrecortavam os espaços celestiais.
  6. 6. 6Houve um tempo, além do tempo que um anjotranslúcido e reluzente, em movimentos espirais designificados desconhecidos, correu em direção a umsegundo e tenebroso anjo, com ordem de nãodeixá-lo passar. Numa época de desatino e loucurana qual alucinadamente, num delírio espectral,anjos escolheram as trevas como casa e aescuridão como envoltório. E nesse hiato entre oque foi e o que o universo veio a se tornar, entre aeternidade passada e o passado da eternidade, umdestes mensageiros de trevas foi interceptado poroutro mensageiro, que recusando as trevasconfirmou para sua morada a própria luz.Quando se viu perseguido, o maligno, numareviravolta espantosa, se atirou sobre o primeiro. O
  7. 7. 7que vinha em perseguição esperou a iminentecolisão.Os dois oponentes diametralmente se chocaram aonorte da imensidão. Lá onde hoje, se estende ovazio. O que não tinha nome, cuja origem era aluz, permaneceu impassível diante do cataclisma.Na onda e no turbilhão que se seguiram, energiasfantásticas percorrendo distancias inconcebíveisdesabaram sobre duas estrelas gigantescas que serasgaram. E uma galáxia inteira se colapsou.Incontinente, ele não se moveu.
  8. 8. 8Lançado longe por sua própria tentativa, conscienteentretanto do arroubo de seu terrível poder,novamente atacou, o maligno. Na segunda feita, foitão violento o embate, que o primeiro não pode sesegurar no tecido do invisível, sendo arremessadoimpetuosamente ao centro de uma terceira estrela,atravessando-a como fosse uma espada afiada.O de trevas avançou violentamente e então rasgoua estrela ferida indo ao encontro do primeiro anjo.Noutra torrente de interminável escuridão, selançou para destruir o formidável ser.
  9. 9. 9Dobraram-se mais uma vez as estruturas dasdimensões e expostas foram as vísceras dasconstelações, vindo outra galáxia a contorcer,gemer e perecer.Turbilhões de gás se espalharam no fatídico dia emque nasceram as nebulosas.Do vento feito de energia, o tecido da existência foiarrastado formando-se assim os buracos negros.Incandescia a fronte do formidável...... Quando pela primeira vez...Aquele que era como a luz...... revidou.WelingtonLanguage Institute
  10. 10. 10Meu amor,Olha sóHoje o solNão apareceuNuma apresentação daTwenty CenturyWelington
  11. 11. 11É o fimDa aventura humana,Na terraCoprodução da fantásticaWelingtonCorporation
  12. 12. 12Meu planeta adeus,Fugiremos nós dois na arca de NoépatrocínioBy WelingtonProductionsOlha meu amor,O final da odisséia terrestreSou Adão e você será...Minha menina Eva! Eva!
  13. 13. 13A bordo sim da últimaastronave...Além do infinito eu quero estar...
  14. 14. 14Prólogo11 de setembro de 1823“— Há muito dia passado, rumando pro sol poente,numa terra virge dos homî, vermelhos ou brancos,lá na terra de Urucu, foi que se assucedeu.Os olhos vivos de Eliã deixavam transparecer seuspesadelos, suas recordações e seus sonhos. — Ôô-
  15. 15. 15îuká. (Eles matam em Tupi-Guarani) disse minhaavózinha, sobre as história que ascutou da suamãe.Havia quatro menina, que já tinham sumido daaldeia, lá da tribo dos pataxó, que tinham nomisestranhos. Uma chamava Bela, otra Semente, umaera Canto e a otra Esperança. Minhas amigas, osmeus laços e minhas irmãs, que moravam comigona antiga taba, a grandiosa taba dos meus antigosancestrais. Foi quando os bichos guinchavam nasnoites sobre os Ipês e Sussuarunas, quando nastorrentes dos rios escureciam as águas do negrorio. As peste gritavam procurando minhas irmãs.Pajé falou pra ficar quieta, junto das armas quenem os mais valentes levantam, no dia dasassombração. No dia da dor, quando os bichoarremeteu, eu perdi minhas irmã. Chorei noite adentro pelas minhas pequenas irmãs. Decidi cumigo
  16. 16. 16merma: essa noite eu vou atrás desses bichoassassino, que tiraram a luz dos olhos brilhantes.Se eu morrê, que me enterrem no rio, que num miimporta mais. Essa noite eu vou sai pra caçá, queera assunto proibido pras mulher da minha tribo.Num importa, essa noite eu vou sair pra caçá, coma lâmina que brilha, que os valente da minha triboencontrou na noite em que os céus queimou, lá noigarapé, cravada nas raíz da castanheira. Facaenorme, esquisita, que vez por outra ilumina comofogo de carvão, mesmo cum noite sem estrela.
  17. 17. 17Os valente disseram que é a lança que Tupã jogouna terra. Essa lança que eu vou usá contra a coisaruim, já que flecha num adianta, já que grito e fogonum espanta as criatura, vou assim mesmo.Assim Eliã contou a história para as de suadescendência, onde haveriam de nascer outrasEliãs. E assim a cada década, a anciã querepresentaria a mais idosa do clã reuniria suaparentela para narrar os fatos que deram origem alenda. Lenda que seria contada desde essa noiteperdida nas folhas sobre folhas, das incontáveis
  18. 18. 18folhas do chão da floresta do tempo.— Num olhei pras costa, num vi que meacercava as árvore, quando se assucedia das trevasme encobrí como coberta, porque só alembrava dasminha irmã. Ia chorando, aos pés das aroeira e ipê,desviando dos cipós que caíam sobre as árvores,como teias daquelas aranhas caranguejeiras.
  19. 19. 19— A velha índia com cabelos embranquecidos, pelecrespa do tempo, falava com uma voz pausada efirme, para a multidão das crianças ao redor docajueiro, ao lado da velha cabana, daquela vila deCoari. Os olhos das crianças, sentadas no chão,debruçadas sobre a relva, pisando pés de arbustosde confrei, ou sentadas sobre os galhos doscajueiros, cintilavam a cada palavra que brotava daboca da anciã. As mães de pele morena, longascabeleiras negras e lisas, apertavam suas criançasde colo ao peito, enquanto homens avermelhados,com cabelos curtos e negros como o corvo,seguravam as velhas lanças da tribo que já não
  20. 20. 20existia mais. Moradores de Coari, trabalhadores emfazendas, catadores de castanhas, plantadores deguaraná e pescadores de rostos rudes,participantes da massa de gente que se ajuntavanaquele dia de declarações.Tucanos curiosos e araras gigantescas se ajeitavamsobre os imensos galhos dos cajueiros, ao lado dascrianças, interrompendo vez por outra a palestracom seu chalrear e com seus berros. Firmando as
  21. 21. 21mãos encarquilhadas sobre um tosco bordão avelha Eliã continuou:— Enxugava com uma das mãos os rios d’água quebrotavam dos meus olhos de menina, quando ocoisa-ruim berrou do outro lado da floresta.O grito do animal cortava o vento como o fogo,crispando a palha e me fazia tremer como ummacaco acuado pela onça. Depois do grito eu sabia,ah! Eu sabia... que viria o pipocar das árvore e o
  22. 22. 22romper dos galho, quando a criatura incansávelcorresse na minha direção. Eu num tava muitodistante do grito e sbia que já tava morta. Numtinha mais como escapá da criatura. E tambémnum importava mais. A macacada desesperadafugia pelos galhos altos dos Tucumanzeirosenquanto uma revoada de tucanos já mostrava queo bicho-ruim tava chegando.As crianças demonstravam desconforto cada vezque o bicho era mencionado. As de colo seapertavam mais ainda aos seios de suas mães. Osmais idosos seguravam seus chapéis de palha ebatiam os pés descompassadamente. Eliãcontinuou:— Ouvi o grito da criatura e me tremi toda. O ventosoprava por dentro da floresta e o chão tremia comas pancadas das patas do animal. Eu apertei aespada, enrolada na tapuá trançada de fibra dejuça que guardava Mouajé, e deixei Mouajé nua, aespada cintilante do extinto Igarapé. Longe ouvi ostronco sendo despedaçado, e longe ouvi as árvoregritando de dor pelas mãos do animal destruidor.
  23. 23. 23Os troncos partia com o som dos ribombá dostrovão, igual quando nas chuva se derrama os raio.Eu tava naclareira, perto dorio negro, pertoonde minhas irmãsmorreram. Foiquando vi as árvoregigantescas sendojogadas pro altoenquanto vinha omonstro em minhadireção. Quantomais ele seapruximava, maisárvore caia perto.Inté que caíram asduas últimas quefaziam a fronteirada clareira. Osolhos do bichofaiscavam. Minhasmãos tremiam.Meus pés tremiam.Meu coração tremeu. E daí? Eu num ia imbora
  24. 24. 24mesmo. Eu num tinha pra onde me esconder, numtinha pra onde correr. Eu num tinha mais nenhumairmã. Foi intão que o bicho veio correndo em minhadireção. E foi intão que eu corri na direção docoisa-ruim. Eu num só alembro de levanta a Mouajée escuta um ronco, um trovão, um negócio queparecia um raio batendo ni mim, que me arrepiouos cabelo, quando a coisa me tocou. E inda ouvi ogrito da criatura que me estrondou os ouvido. Ai eusó avistei a escuridão. Quando me encontram aclareira inda pegava fogo, enquanto deitada eu nosangue de minhas mãos. Só num queimei porquechovia.Chovia dimais...”Terminada a prosa, entoando cantigasancestrais, a imensa família rumava para barcaçasde proa esverdeada, amarradas em caisimprovisados, na beira do barrento rio Solimões. Nopercurso tortuoso que duraria três dias, os barcosseguiriam iluminados por antigos lampiões cheios
  25. 25. 25de óleo de peixe boi, que vistos dos céus de noiteseriam como pingos dourados piscando ao longo deum caminho ora negro, ora prateado, destacando-se em densa e úmida escuridão. Dois rios apósadentrariam as águas negro-esverdeadasapinhadas de piranhas e botos brancos do antigoUrucu. Então, descendo a grandiosa comitiva,caminhariam léguas pela floresta úmida, pisando apé os Igarapés, de onde, na época, mui longe, seavistavam cabanas toscas de larga frente,montadas sobre árvores, pertencentes às rarasfamílias ribeirinhas que viviam da colheita decastanhas. Caminhariam até a imensa e lendáriaclareira, debaixo dos gritos de papagaios dourados,envoltos pelo véu da noite estrelada, ondedepositariam flores aos pés de pequenas pedrasbrancas, cravadas no chão da lendária clareira,aonde se liam os nomes:
  26. 26. 26Bella, Sementhi, Cantho eEssperancçaEntão desembrulhavam a antiga espadabrilhante, envolvida nas fibras de juça, e abalançavam suavemente gerando nuances azuis evioletas, quando de mão em mão dançava aespada, até retornar às mãos da velha Eliã, que atornava a embrulhar.E a chorar.
  27. 27. 27Capítulo Primeiro"A vida é como um sutiã, por isso, meta os peitos"11 de agosto de 1999Dentre as muitas histórias deste livro, nãopoderia deixar de narrar a fábula do amor entreNexter e Aninha. Desde as primeiras cartas, dosfantásticos desencontros e por fim o inesquecíveldesfecho da história. Aninha, Nexter conheceu sópor cartazes. Menina propaganda de uma grande
  28. 28. 28empresa de telecomunicações, de olhos azuis ecabelos negros azulados, tês alva e sorrisoincomparável. Ninguém sabe ao certo como eleconseguiu o e-mail dela. Os dois hackers de Urucu,o Aluízio ceará e o temido Carlos Borges guardaramsilêncio absoluto sobre o assunto em questão.Contam somente que numa dessas viagens paraUrucu, no desembarque no aeroporto, os dois quese substituíam na estadia dentro da provínciapetrolífera, num regime de 14 dias internados por14 de folga em seu estado de origem, sedepararam com Nexter sonhando acordado diantede um imenso cartaz de sua musa inspiradora.Depois de conversarem por quase uma hora econtinuarem, ainda assim vendo-o naquelamesmíssima pose de deslumbramento, como se otempo tivesse parado, tiveram a supremainspiração. Diz a lenda que foi neste momentolúdico, que eles, nossos poderosos hackers,começaram a busca pelo e-mail de Aninha.Ninguém dormiu naquela noite mágica, quando otal e-mail apareceu num bilhete escrito no bolso domacacão alaranjado do Nexter. E como nãopoderia deixar de ser, quando as cópias dos e-mailsenamorados foram distribuídas por vários povoados
  29. 29. 29ao norte de Coari, ninguém jamais descobriu comoforam copiados. A primeira carta era espetacular:“Oi. Eu sou o teu maior fã. E mesmo sendoestranho que eu, um completo desconhecido, aquem você certamente só ouviria por educação doque por qualquer outro motivo, queria aproveitareste momento eterno, ao menos para mim, essaoportunidade única, pra te dizer que te amo. Queamo esses teus olhos, amo esse teu sorriso e ojeito como teus lábios se movem, quando teusolhos que sempre queimam em mim, sorriemjuntamente. Você poderia me questionar,perguntando — Como pode me amar sem meconhecer... Sem saber como sou... Sem saberquem sou? — É porque vejo um pouco de vocêatravés de teus olhos, e do teu sorriso. E mesmoque você fosse insuportável, ou geniosa, e mesmoprepotente, ou arrogante, se um terço, somenteum terço do que me transmite o teu olhar, essadignidade oculta, essa vontade de viver imberbe,indizível, se somente um terço de tudo que eu sintoquando te percorrem meus olhos, for verdadeiro,só por isso já vale o fato irrevogável de te amar portodos os meus dias, mesmo porque eu irei sorrir acada dia que te vir sorrir, inda que numa fotoemoldurada, pois isto é algo sobre o qual não tenhocontrole. Pelo caminho que terei que cursar, te
  30. 30. 30levando em sonhos, te amando aos poucos, nãopoderia evitá-lo. Não pense que me ufano sobre tuaperfeição, e não te enganes que eu não virei a teadorar, a não ser como carinho, não estenderei umaltar sobre ti, sobre o qual venha a queimar velas.Você não é minha deusa, jamais será minha dona.Você é minha dádiva, meu encanto e meu amor,mesmo que quisesse não te esqueceria, pois vivesnos recantos da minha personalidade. Essecoração, talvez infeliz, te elegeu como musa e serecusa terminantemente a te abdicar. Não ireimorrer por você, não me ufano do teu amor, e nãome faria diferença a tua indiferença. Porque, pormais ferido que fosse, esse bastardo coração, jáfazes parte dos meus dias e das minhas noites,destas que são contadas como o tempo que me foiconcedido para viver...”Não é necessário dizer como as meninas deUrucu suspiravam a cada embarque de Nexter...E também não seria necessário dizer que quaseperdemos, por motivos vingativos tácitos emórbidos e cruéis, nossa inestimável dupla deApoio na área de Informática.Impressionantemente, toda história possui umcomeço. E por mais assombroso que possa parecer,
  31. 31. 31a nossa história, nossa interessante jornada, seinicia agora...Dublado nos estudios do Mem ExGroup** Mem Ex Group – Grupo de trabalho para confecção de Memórias do ExílioEra uma vez um certo grupo de Engenhariaque sempre possuía um corpo de técnicos fiscais deobras industriais, à prova de intempéries, bravos,destemidos, homens acima de quaisquer suspeita,que dominavam disciplinas técnicas diversificadastais como: Instrumentação, Eletricidade, Mecânica,Tubulação, Civil, Física Nuclear, e outrasinumeráveis disciplinas, sendo capazes detrabalhar, fosse no pólo norte até ao interior deselvas africanas. E perpertua a Lenda que paratodos os outros casos, existia o Exílio.
  32. 32. 32O ‘mardito’ ExílioHavia um cerimonial que aplicávamos quandoocorria a convocação de um pobre coitado, digo,alijado, digo, algum infeliz, quer dizer, um dos“agraciados” que trabalharia em algum lugar,usualmente, um pouco além de onde a civilizaçãotermina. Escrita com nanquim num pedaço de sépiaenrolada que nomeamos: Pergaminho dachamada abrupta.
  33. 33. 33Ei-la:“Na densa escuridão da noite, durante operíodo que os trovões levam, antes do próximorelampejar, trepidavam patas ferradas do corcelnegro, ferrando as poças da lama ocre no caminholamacento até o lendário castelo das forças deocupação. O alvo dos olhos dos animaisresplandecia, junto a sua escura crina a cada raioque os iluminava. Montado sobre o negro animal,Morfagnad, o mensageiro das terras distantes, comsuas indumentárias escuras e encharcadas, gritapara os guardas à frente dos gigantescos portais daantiga fortaleza. As imensas portas são abaixadas,enquanto ele ainda chicoteia o alazão, ao sonidoagora ocre, do trope nas pedras lavradas,recobertas de liquens acizentados do pátio castelar.
  34. 34. 34Da sacada superior, uma sombria figura observa achegada de Morfagnad, o mensageiro. Deixandosua cansada montaria, Morfagnad caminha, comoarrasta a si mesmo, até o grande salão de pórfiro egranito, enquanto um sombrio conselheiro vaimurmurando algum aviso para aquele que seassenta sobre uma gigantesca cadeira adornada depúrpura e de madeira ricamente trabalhada. Quase
  35. 35. 35um trono. O mensageiro entra solene pelas portaspalacianas, subindo até o lugar do grande salãorodeado de colunas de rosacrocita. Ele pára,subitamente, e se ajoelha, enquanto as abas desuas vestimentas molhadas enchem como umvestido o lugar onde se abaixara. Na verdade, usauma capa. Negra. Aquele que está sentado não sevira para cumprimentá-lo. De costas ainda, levantauma das mãos com a luva de couro e faz um gestocom a ponta dos dedos, somente abrindo a mão,sob os olhos malévolos e semicerrados do sombriohomem ao seu lado direito. O mensageiro selevanta e caminha, enquanto sua sombra se projetana cortinada das colunas, através da luz daslamparinas acesas com óleo de baleia Albina. Aolonge se esconde uma menina de olhosencantadores azuis, vestida com uma roupamesclando azul e branco, com um aventalvermelho, uma das dezenas de serviçais do imensocastelo. Seus cabelos negros avermelham-se pelasluzes e matizes das lamparinas cujas chamastremulam naquele dia de tormenta e tempestade. Oruído de suas botas de couro molhadas sobressaemagora no silencioso salão, reverberando a cadapasso sobre o pórfiro impecavelmente polido.Próximo ao homem assentado, ao se achegar, seajoelha novamente em reverência. Fala então:
  36. 36. 36— Ó coordenador do castelo. Nossos guerreirosdalém, nas terras distantes, que batalham já alongo tempo, necessitam dos préstimos de um dosservos sob tua alçada. O coordenador das terrasdistantes me enviou a ti, para que, encontrandomercê diante de ti, dignasses a conceder-nos umdos teus homens para nos socorrer.Quebrava-se o silêncio sepulcral, através domurmúrio do vento soprando entre as frestas, daspedras nas paredes, soando como fosse um antigoórgão tubular. O olhar do sombrio homem ao ladodo coordenador, semicerrou-se ainda mais. Por fimo homem assentado falou:— Escolhe aquele que queres, e depois to enviarei.Por tempo determinado. Trava então tu, asbatalhas que dele dependeres, entretanto, saibas,que este voltará quando minha vontade assim odeterminar.O mensageiro se levanta. Com cortesia agradece,enrola o manto negro sobre o rosto e prepara-separa partir. Desta vez o sombrio homem, atéaquele momento calado, com uma voz de ratazanacompletou o enunciado:
  37. 37. 37— Lembra-te... Por tempo determinado...O mensageiro se inclina ligeiramente, dando meia-volta e sumindo na penumbra do castelo. Umrelinchar apavorante se ouviu. E depois a chuva.Somente a chuva. Nada mais.”Esta sombria história localizava-se num rolo,no “Fabuloso pergaminho da chamadaabrupta” o qual, simbolicamente, nos era entreguepor algum colega (sádico) de trabalho no “dia dachamada”. O “dia da chamada” era o trágico dia emque algum chefe de Obra desesperado iria convocarum técnico qualquer, para trabalhar em algumlugar qualquer, onde os requisitos mínimosnecessários fossem capacitação em: ‘Combate aincêndio’, ‘Primeiros Socorros’, ‘Guia básico decomo sobreviver a quedas de avião em florestas
  38. 38. 38densas’ e um ‘Atestado de vacinação para tifo,febre amarela, malária, tétano e o que maisocorresse.’.Naquele dia na sede do prédio de Engenharia, euque havia sido emprestado para o setor deOrçamento, digitava uma dessas planilhasgigantescas em Excel, quando recebi o telefonemado meu setor de origem. O dia da ‘chamada’chegara. Em verdade era o que o pessoal chamavade Fiscal de Campo, um desses sujeitos quecarregava uma prancheta na mão percorrendotrechos de plantas industriais, procurando algumtipo de montagem em desacordo com as normas.No meu caso, normas de eletricidade. De “Campo”,nós apelidávamos qualquer Unidade Industrial,Obra ou Instalação. De “Sede” nomeávamos deEscritório. E ali estava eu, na Sede, há seis meses,em virtude do término das obras. Meus olhos doíamde tanto olhar para a tela do computador, ao ladode um colega de nome Helon, Analista de Sistemado setor. Atendi. Era meu chefe.— Oi Welington, tudo bem? Como estamos? Estouligando para te dizer que estão precisando de umapessoa de eletricidade numa obra no Norte.— Onde? Quanto tempo?— No máximo por três meses. Começa semana quevem. Você vai substituir um técnico. Tudo bem?— Onde?
  39. 39. 39— Pertinho, fica tranqüilo.— Quem vai estar lá?— Alguns você já conhece. Lembra do Jayme?Também estarão lá o Aluízio Xavier, fiscal detubulação, aquele paraibano. Vai estar lá o‘cientista louco’ Nexter, o japa, Hikano. Na área deSegurança o Alexandre... E o andróide.— O Boot? Já estão aceitando ‘máquinas’ nafiscalização?— A carência de mão de obra é muito grande aondevocê vai.— E posso saber para onde estou sendo enviado?
  40. 40. 40— Olha, não posso dar mais detalhes agora, porquetenho uma reunião. Fica tranqüilo. As passagens deavião eu já mandei para sua casa! Até mais...O Helon olhou para minha expressão de ‘terrorsobrenatural’, misturado com ‘espanto e pasmo’,sorrindo ele abriu uma gaveta, tirando de dentrodela uma caixinha negro-esmeralda. Retirou dapequena caixa ‘o Pergaminho’ e o colocou sobreminhas mãos. E apesar de não ser uma práticaconsolidada, cantou-me a velha canção:Im singing in the rainJust singin in the rainWhat a glorious feeling
  41. 41. 41Im happy againIm laughing at cloudsSo dark up aboveThe suns in my heartAnd Im ready for loveLet the stormy clouds chaseEveryone from the placeCome on with the rainIve a smile on my faceI walk down the laneWith a happy refrainSingin, just singin in the rainDancing in the rainOhh ia ohh ia iaIam happy againIam singing and dancingin the rain...dancing and singinin the rainE como chovia naquela floresta, eu viria adescobrir...Quando eu era um filhote, digo, pequeno, recordoque aconteceu uma grande e tremendatempestade. De pés descalços e sem camisa,avistei as nuvens escurecendo cada vez mais, vindode longe e se aproximando, enquanto uma ventaniadescomunal fazia pequenos rodamoinhos. Logo oscéus eram somente escuridão, e a chuva torrencial
  42. 42. 42descia abundante enquanto eu corria para oapartamento onde morava, procurando me abrigar.As crianças desde cedo se encantam com a chuva.Perdi a conta das vezes que permaneciacontemplando as gotas de chuva escorrendo najanela, percorrendo o vidro que era preso commassa de vidraceiro em caixilhos de madeira.O Exílio era logo ali, ali a 620 km de Manaus,onde o vento não faz a curva, simplesmenteporque não consegue passar pelas árvorescentenárias, de tão próximas que alcançavamquase cento e vinte metros de altura.O Exílio era logo ali, às margens do rio Urucu.E em breve, muito breve eu estaria lá.
  43. 43. 4311 de setembro de 1999A Floresta. Essa desconhecida. A ultima fronteira.Essas são as aventuras e desventuras fantásticasde um técnico em eletricidade exilado, em algumlugar onde o mundo acabou, na sua missão dequatro (?) embarques (o nome que é dado para operíodo que alguém permanece numa PlataformaMarítima ou numa Unidade distante da civilização),para fiscalizar novas Unidades Industriais econhecer novas e inumeráveis espécies de insetos,indo aonde poucos técnicos puderam chegar. Epoucos conseguiram voltar.
  44. 44. 44— Quando você chegar a Manaus vai haver umaVan te esperando, um grupo do pessoal que estadesembarcando se confraternizando e indo para ooutro aeroporto que fará a conexão.— Conexão?É.Não havia ninguém. Não vi a tal Van. Solitário,com uma passagem só de ida para Manaus, umcartão telefônico com vinte ligações, e com toda avoluptuosa facilidade que o novo DDD da Embratelproporciona para os incautos, liguei para o Rio deJaneiro. Quinze minutos e meio de tentativasdepois:— Pega um táxi, que você já está atrasado —Disse-me o Engenheiro Hildebrant.— Como assim atrasado? — Pensei.O outro aeroporto se chamava Eduardinho.Parece um terminal rodoviário. Só que era mais feio(ó amazonense que ofendido lês estas rudes linhas,não te entristeças em vão, não passa de umareclamação literária. Na época em que eu fui paraUrucu, o aeroporto estava sendo ampliado,passando por várias reformas).Havia uma menina da Mortal aviação atendendonum balcão. Bem. Entenda-se balcão não na exataacepção aeroportuária do termo. Era uma tribuna,tipo três caixotes empilhados, um sobre o outro, euma folha de papel com os nossos nomes escritos.
  45. 45. 45Isso quando escreviam os nossos nomes. Porexemplo, no dia em que embarquei o meu nãoestava escrito. Mortal aviação?É.Eu disse que estava indo para Urucu. Palidamente,ela anotou meu nome numa lista, e deu-me umcartão branco (O que você compreende com ostermos “um cartão branco”? Talvez venha a você aimagem de um bilhete de passagem carimbado,uma ficha de embarque ou coisa que o valha. Não.Quando eu disse cartão branco, estou me referindoa um pedaço de plástico branco com um númeropintado em vermelho. O meu era o numero 45.).Fui para a sala de espera. Com gente que não
  46. 46. 46acabava mais, indo para regiões quais poucosacreditam que tenham um dia existido e muitomenos ainda que possuam aeroportos. Entrei noturbo-hélice da Mortal, com capacidade para 50passageiros. O sujeito que estava sentado do meulado, disse exatamente quatro solidárias palavrasdurante o percurso de 1 hora e 40 min, caso nãocaísse, até a Base de Urucu. As aeromoças,consoladoramente, eram lindas. Gostaria de ter amesma opinião, numa comparação culinária, sobreo lanche do avião.A águia, qual a uma “Apolo” sobre a superfícielunar, pousou plácidamente no meio da selva, querdizer, Floresta, e vivos, desembarcamos. Afinal,vinte e um dias passam rápido, pensei. Vinte e umdias?
  47. 47. 47É.Por uma questão de acerto dos turnos deembarque e desembarque, eu iria permanecer setedias a mais que o normal.Na chegada, duas meninasnos cadastram como os novoscondenados, digo, novos embarcados, todos, semexceção. Para o caso de sumir alguém. Sumiralguém?
  48. 48. 48É.Já sumiu alguém?Já.O Jorge Brito estava com uma Toyota meaguardando para levar para a cadeia, digo, oquarto da Base de Apoio. Do aeroporto até a Basede Apoio percorria-se cerca de quatro km. Meuprimeiro contato com a floresta amazônica foiatordoante. O cheiro da mata, as árvoresgigantescas que formavam um muro aos lados daestrada na qual transitávamos, as ramificações efolhagens diversas, sonorizadas pelas vozes depapagaios selvagens assentados sobre alguns deseus ramos, foi emocionante. Ver um tucanovoando desajeitadamente, quase como se nãofosse conseguir se elevar no espaço, ouvir o berrodescomunal daquilo que dava a impressão deserem pterodátilos, pelo menos na imagem sonora,das araras que traspassavam os céus, sempre emdupla indo pousar só Deus sabe onde, parecia-memágico. Além disso, por toda parte, certa multidão
  49. 49. 49de animais em profusão voava e corria alegrementepelas estradas.Eram os insetos.Multicolores,de tamanhos variados e de espécies que sóexistiam em Urucu.O nosso quarto possuía seis beliches. Seis?É.Possuía uns armários de metal, e uma estilizadacortina vinho, de arraste, em cada beliche. E um
  50. 50. 50ar-condicionado. Ou seja, o local em que eugostaria (imensamente) de passar minhas férias.Adorável.E tinha um rato. Bom. Parecia um rato. Pertencia afamília. Não sei como explicar exatamente isso. Eraum hamster. Um hamster?É.Vinte e dois anos haviam se passado desdeque as primeiras equipes de exploração, as equipesde Sísmica, iníciaram as suas atividades naquelaregião. Eles passavam semanas embrenhados namata, trazidos por helicópteros, em clareiras, comacampamentos montados às pressas, em condiçõesrealmente muito piores que as nossas. Nós jáestávamos numa situação de hospedagem ‘cincoestrelas’ comparando-os conosco. Nesse temposem estradas, entrando por regiões jamais pisadaspelo homem branco antes, um dos geólogos
  51. 51. 51resolveu trazer um hamster. Meio amarelado, meiogordo, o peludo roedor resolveu explorar por simesmo a imensa floresta amazônica, quando poracidente o geólogo esqueceu de fechar a porta dagaiola. A média de vida normal de um destesbichos é de dois a três anos. Esse hamsterarretado, picado por forma de vida desconhecida,simplesmente desobedeceu a tal regra.E também fez pouco caso das águias reais.E das cobras.
  52. 52. 52E dos macacos.
  53. 53. 53E das onças.Até aos dias de hoje. O rato imorrível aindacirculava pelos acampamentos, pelas Unidades
  54. 54. 54Industriais, pela base de apoio, como diria umgaúcho — tranqüilo como capincho em taipa deaçude — resolveu morar lá no quarto que mealojaram.Quando eu era um filhote, digo, pequeno,possuí alguns porquinhos da índia. Gordos eimensos porquinhos da índia. Tinha uma roseira nafrente do apartamento onde eu morava. Coloqueios porquinhos para passearem perto da roseira.Eles comeram a roseira.Após o reconhecimento daquela “colônia de férias”,vestido de uma farda laranja não muito fashion,entrei com um motorista na Toyota na primeiradescida de 12 Quilômetros até o curioso PoloPapagaio.Estava na Toyota, branca com duas divisões equatro portas, mais um bagageiro externo, umadas três Toyotas que eram usadas para o nossodeslocamento, quando notei que o assento domotorista estava, com algum tipo de mancha muitoparecido com sangue. Por via das dúvidas, mecalei. Subitamente, o carro bateu em algo,amassando um pouco o pára-choque, o animal,qualquer que fosse ele, soltou um urro apavorantee rapidamente pulou para as árvores ao lado daestrada, cuja altura média é de 32 metros.O motorista suava um pouco.
  55. 55. 55— O que foi aquilo? — questionei assustado.— Se preocupa não, tem muito animal estranhoaqui na mata... — A resposta enigmática nãoescondia um certo incomodo com o assunto.Ainda estava aturdido com o acontecimentoquando uma coisinha preta, esquisita, cheia depernas e do tamanho de uma caixa de fósforos‘tamanho grande’ entrou no carro. O motorista,de olhos arregalados, sussurrou para quepermanecesse absolutamente imóvel, enquanto oinseto (se é que aquele tanque de guerra voadorpodia assim ser considerado) voava para fora daToyota. Como o inseto não saía, ele lentamentepegou uma pistola 45 que trazia amarrada nacintura e deu um tiro no besouro. Acertou. O bichobateu no vidro traseiro, e para o meu espanto,ainda saiu voando. Ficou um furo no banco traseiro.Comecei a me preocupar. O motorista notou. Falouque eu não me preocupasse, porque aquelaespécie, apesar do veneno mortal, era pacífica e sómordia àqueles que se moviam...
  56. 56. 56Nós nos dirigíamos para o fabuloso Polo Papagaio, oglorioso nome da área industrial onde quatroimensos turbo-geradores, quatro esferas, quatroimensos compressores e quase duzentas bombas,nos aguardavam. O caminho do alojamento para ograndioso Polo Papagaio era simples, uma estradaasfaltada que dava para dois veículos, lado a lado,com três pequenas atravessias sobre córregos daregião, onde existiam pontes.Vez por outra, havia uma estrada lateral,normalmente de barro, que terminava em algumconjunto de válvulas de um poço de óleo ou gás.Notei também, próximo a uma dessas pontes,sobre um destes riachos na estrada de 12 km queconduz ao impressionante Polo Papagaio, cruzes demadeira. Perguntei qual a razão delas. Ele ficou emsilêncio. Olhei para as águas e vi alguns troncos
  57. 57. 57imensos boiando. Desperdício de madeira, pensei.Não eram troncos. Mergulharam à nossa passagem.Após uma última curva do meio da mata (aquicolocado como super-eufenismo de floresta), astorres de processo da Unidade recém-construídacomeçaram a aparecer.Eu tinha cerca de vinte e um anos quando entrei naempresa petrolífera a qual pertenço. Era setembro,e estava bastante frio. Passei os três primeirosmeses em fase de treinamento na parte da frentede uma Refinaria, bem guarnecida de jardins eárvores. A planta industrial (planta industrial étalvez a mais infeliz escolha linguística paradesignação de realidade não botânica que eu tenhonotícia) distava dois quilômetros de ondeestávamos. Consigo sentir ainda o choque doprimeiro contato, da primeira vez que tomei umônibus em direção às Unidades de refino. Umtremendo contraste entre os jardins e os fornos,das torres gigantescas metalizadas e as árvores,entre as estruturas de concreto escurecidas e overde das folhas. Do Édem ao Abismo, em doisQuilômetros.
  58. 58. 58Chegamos àimensa planta industrial, onde, por uma sortetriunfal, Já estava ocorrendo um foco de incêndionum aquecedor de óleo, sendo que o fogo eracombatido por uma equipe do E & P (Explorando eProduzindo). E vi, inexplicavelmente, um pequenoroedor correndo pelo chão. Parecia um hamster.Devia ser o calor. Estranhei não haver nenhumalarme.Apesar de nosso escritório ser próximo daPlanta de Processo, o motorista estacionou semmaiores problemas.Planta de Processo é o lugar contendo torres,vasos de pressão, tubulações, motores, bombas ecoisas do gênero. Extremamente feia; excelentelocal para rodar um filme de terror.Foi então que o alarme geral soou. O motoristaficou aterrorizado e gritou:
  59. 59. 59— Corra, corra para o abrigo!— Que abrigo? — Perguntei.Um enorme bando de gente, um batalhão de peões,corria em direção a abrigos com portas de ferro, oualgum tipo de metal estranho, semelhante àquelesabrigos contra tornados norte-americanos. Só que,muito mais reforçado. Pulamos dentro do abrigo, noqual cabiam umas seiscentas e vinte e cincopessoas, embora houvesse cerca de setecentasamontoadas.Os abrigos não faziam parte do projetooriginal. Era outra precaução logística e desegurança contra ataques de animais, levada afeito pelos rabiscos e croquis engenhosos do nossocientista-mor. Sete revestimentos mecânicos, trêstérmicos, duas camadas de brindagemeletromagnética e outra eletrostática, com projetoestrutural feito a base de uma engenharia queestava adiantada alguns séculos da quenormalmente usávamos. Nexter gostava deesnobar...Com dificuldade a pesada porta foi fechada. Lá foraficou alguém berrando:— Abram! Abram! — Enquanto batia na portametálica do abrigo. Eu falei:— Deixem o rapaz entrar! — Só que disseram:— Agora é tarde demais.
  60. 60. 60Um rugido assustador foi ouvido, assim como obarulho de algum animal pesado, correndo, umapancada seca na porta e depois o silêncio.— Céus! O que foi isso? — Perguntei.Ninguém sabia ao certo. AQUILO lá fora era omotivo dos abrigos. Até aquela época nãochegaram a descobrir. Existiam uns sensores demovimento da Coisa, como fora apelidado omonstro, espalhados pela Floresta, quando acriatura chegava perto eles, davam o alarme.Criação, como não poderia deixar de ser, do nossocientista-mor, Nexter. Deveriam pagar adicionalcontra ataques de monstruosidades também.Ao anoitecer, por volta das dezoito horas, era ahora de voltar para Base de Apoio.Base de apoio. Aquele belo alojamento com seisbeliches por quarto, sendo cada um delesesplendidamente decorado com uma cortina vinho.Você já morou em republica?Normalmente voltávamos num ônibus velho, outrasvezes nas nossas Toyotas de apoio. Andar emcarros velhos ou antigos, mesmo diferentes, nãoera grande novidade para mim. Meu pai teve umGordini, uma Vemaguette, assim como umKarmanguia. Andar de Toyota na verdade me traziacerta nostalgia.Geralmente, na nossa frente, iam uns batedores doexército com duas metralhadoras, “ponto 68mm”,
  61. 61. 61carregadas de munição. Cederam-me uma Uzisemi-automática.Cederam-me uma Uzi automática?ÉEnquanto eu ia lendo o seu manual de instruções,viajava ao lado de um macaco enorme, com umcerto ar sofisticado, com a farda da fiscalização. Anossa farda, nosso macacão laranja. Realmente acarência de mão-de-obra especia- lizada era grandena região.Abusanadam
  62. 62. 62Ao macaco, que além de extremamenteeducado, e que FALAVA fluentemente, chamavamde Abusanadam. Filósofo e lingüista, vivia às voltasdo Pré-Socratismo e da leitura de debates de lógicaem uns tomos velhos, escritos em grego clássico.
  63. 63. 63Lembrei-me que quando eu era um filhote, digo,pequeno, passavam desenhos de longa-metragemjaponeses na Rede Globo na velha Sessão daTarde, onde todo ano repetiam a história de umpequeno chimpanzé que teve que trilhar um longocaminho para aprender humildade.Não sei por que pensava naquele desenho animadoquando olhava para o Abusadanam.Por falar em macacos: Naquele dia osmacacos haviam tomado de assalto o restaurante.
  64. 64. 64Foram três horas de negociação para conseguirmosentrar nele.Nosso japonês predileto, Hikano,ex-técnico da Fuji japonesa, atualmente fiscalcontratado, intermediava as negociações. Eleministrava, eventualmente, aulas de Tai-Chi-Chuampara o grupo dos macacos.
  65. 65. 65Hikano fora levado ainda pequeno para aChina e lá permaneceu até a adolescência,aprendendo artes marciais e vários tipos de lutascom os mestres de sua época. O fato de que eletenha morado na China por tanto tempo fez comque seu sotaque, apesar da descendência japonesa,fosse igual ao de um chinês.Cresceu e foi para o Império do Sol, ingressounas forças armadas e se tornou exímio piloto, assimcomo seu idoso pai, que pilotara um avião tipo“caça” na Segunda Guerra Mundial, o famoso Caçade aviação, japonês, o Zero.
  66. 66. 66Seu pai, porém fracassara nas três últimastentativas de autodestruição. Hikano aspirava servalente como um Kamikase e realizar um atoheróico, qual um “Banzai” bem sucedido, emmemória de seu pai. De noite ele ia para oaeroporto mexer nas peças dos aviões queeventualmente erravam a pista...Até aquela época ninguém sabia por que elepassava tantas horas no aeroporto... Parecia atéque ele estava construindo um avião...O Abusanadam fazia parte do grupo do meuquarto. Nós dormíamos em turnos, pois não havia
  67. 67. 67beliches para todos. O que não era incomodo paratodos. O hamster que morava lá sempreencontrava um armário vago.Ao anoitecer, sonhei que todas as operadoras daObra se pareciam com a Ana Paula Anósio, e que aproporção de mulheres para homens da Base, dedez para cada homem, sendo todas ex-participantes do ‘Mis Universo’...Ao amanhecer nós vestíamos as fardas e corríamospara o restaurante, sempre em grupos;
  68. 68. 68Caso tivéssemos que lutar contra alguma onçafaminta, as chances de sobreviver seriam maiores.Precisávamos chegar antes dos macacos, também.Num daqueles dias havia um zum-zum-zum naObra, ou como fala na língua tupi, um nhê-nhê-nhêm (acreditem é fato lingüistico), por causa deum iceberg que conseguira chegar até o pequeno
  69. 69. 69terminal no rio Urucu, cheio de pingüins. Todos osrios caminham para o mar. Para que um Icebergentrasse por setecentos quilômetros de florestaamazônica, contra a correnteza, algo teria que te-loempurrado até lá. Foram encontrados dentro do riotrês esqueletos de baleia, próximos ao iceberg.Mesmo assim nenhuma teoria foi consideradasatisfatória para o fato de possuírmos um iceberg,pequeno, porém decente, nas negras águas do rioUrucu...Nas averiguações que se seguiram, oinusitado aconteceu outra vez. Dentro do bloco degelo, recoberto por camadas esbranquiçadas, havia
  70. 70. 70o corpo de um ser humano! Do bloco que derretiarapidamente podia se identificar com certa certezao que parecia ser um antigo guerreiro vikingcongelado.Foi um sufoco salvar os pingüins das piranhasdo rio. Quanto ao Eric, nome que a equipe deu parao congelado, foi levado para o frigorífico, até queum grupo de cientistas viesse estudar o que fazercom ele.
  71. 71. 71Como já falei antes, e como não me canso derepetir, da Base até a Obra do poderoso PoloPapagaio propriamente dita são cerca de 12 km. Nocaminho estabelecem-se os alojamentos dasempreiteiras, assim como saídas para poços e trêstribos indígenas: Os Orique, os Querio e os Oqueri.Ou talvez: Os Rioque, os Riqueo e os Queori, ouquem sabe...
  72. 72. 72Deixa pra lá. Essas três tribos possuíam costumessingulares. Uma delas praticava a antropofagia, aoutra encolhia cabeças, e a outra, absolutamentepacífica. Todas as três tribos, eram idênticasquanto à pintura, adereços etc. E semanalmentetrocavam de lugar. Você nunca sabia para qualdelas estava dando carona.O Carlos Borges repassou-me o último e-maildo Nexter para Aninha:
  73. 73. 73“De tanto pensar na imagem que eu tenho de vocêdentro do meu coração, às vezes só preciso fecharos olhos para te enxergar. Você é como um destesplanetas de massa descomunal, no qual eu, umpequeno asteróide sou atraído sem condições deme desviar. A cada instante eu me aproximo maisde tua atmosfera e de longe vejo a imensidão deteus mares, tuas montanhas e teus vales. E eu seique dia menos dia, vou fazer uma imensa craterana crosta de teu coração...”Cientistas apaixonados são um caso sério...
  74. 74. 74Na obra do barulhento Polo Papagaio,possuíamos um pequeno escritório próximo aoFlare ou tocha da Unidade. Quando aconteciamfalhas na operação dos equipamentos doimpressionante Polo Papagaio, eles jogavam oproduto inflamável para o tal do Flare. Eleassemelhava-se a uma imensa chaminé metálica,com sessenta metros de altura e dois metros dediâmetro.
  75. 75. 75Diversas vezes nós olhávamos para elequeimando gás, numa labareda com cerca de 90metros de altura. Localizava-se justamente aduzentos metros em linha reta da porta de entradados nossos escritórios. As paredes chegavam atremer, assim como as mesas quando o monstroruminava fogo de suas entranhas metálicas.No escritório havia um pequeno arquivotécnico, várias salas com computadores, umageladeira e muito papel. A geladeira sempre tinha
  76. 76. 76muitos salgados e suco de Cupuaçu.De vez em quando passava uma japonezinhapelas nossas salas recolhendo Projetos para oArquivo Técnico. A, caráter, de quimono. Era aMiki. Ela era a pessoa que tinha a difícil tarefa decadastrar e localizar milhares de desenhos dentrode uma sala que se alguém espirrasse explodiría asjanelas.Na sala administrativa conheci o Márcio e umapequena índia. Ela se chamava Eliã.
  77. 77. 77Quanto ao Márcio, fizemos amizade fácilmente, ejuntamente com o hacker do setor nós críamosuma brincadeira bem interessante...Uma Toyota na escuridão.“Uma Toyota na escuridão”, antes de tudo, poderiase definir como sendo um exercício de coragemdescomunal. Nós três voltávamos para a Base deApoio, lá pelas 20:00 e no meio da escuridãocomeçavámos a anunciar:
  78. 78. 78“Senhoras e senhores. A Twenty Century Fox emconjunto com a Paramount e Metro Golden Mayertem o prazer de apresentar: — O Márcio fazia amúsica de suspense —“Uma Toyota na escuridão”O Carlos Borges já começava a berraria. Com cercade cem quilômetros por hora no asfalto e envoltonuma escuridão que parecia o breu, quem estivessedirigindo apagava as luzes da Toyota quecaminhava na absoluta escuridão por quase vintesegundos, enquanto todos gritavam como numfilme de terror. É claro que quando os faróis eramreligados já estávamos quase que fora da estrada,
  79. 79. 79ou quase caindo num igarapê, ou subindo pelalama do acostamento.Então calmamente anunciávamos:—Tivemos o prazer de apresentar, mais uma vez:Uma Toyota na Escuridão.Nossos agradecimentos a todos os que têmacompanhado a saga desta instensa e imensaaventura. “Também aos nossos patrocinadores.”Quanto a Eliã, muito sorridente, nos cumprimentoue desejou boas-vindas. Eliã morava em Coari.Disseram-nos que ela era descendente de umatribo muito famosa da região de Coari e queherdara este nome como homenagem a dezgerações passadas, quando julgava certa lenda,uma grande guerreira chamada Eliã enfrentara umanimal terrível. Animal cujo nome eu jamais iríaesquecer:Mapyguari.
  80. 80. 80Saímos para dar uma volta pela área.Conhecemos os gigantescos compressores do Polo,seus turbo-geradores, vasos, torres, fornos,bombas e diversos equipamentos. Quilômetros debandejas metálicas encaminhavam os cabosarmados de diversos níveis de voltagem, que seconectavam a milhares de instrumentos, motores eválvulas.E fazia muito calor. Por toda parte tinha insetos.Nas janelas havia telas. Em todos os lugaresimagináveis havia insetos. Borboletas, mariposas,
  81. 81. 81besouros, e os IVNI (Insetos Voadores NãoIdentificados).Na hora do almoço, pegávamos as Toyotas evoltávamos a Base, onde se localizavam nossosalojamentos e o refeitório.E por falar no refeitório...Quanto aos pingüins, para que não houvesse riscoda nossa Engenharia perder a certificação da normaISO 14001, que trata da preservação do meioambiente, foram improvisadas roupas isotérmicas,capas com gelo, permanecendo eles no NOSSOrefeitório, que teve a monstruosa, antiga edesregulada máquina de ar-condicionado daMitsubishi, inclementada ao seu limite máximo.
  82. 82. 82Isso incomodava muito o tal rato imorrível, queeventualmente participava das refeições conosco.Além disso, tudo, eu podia jurar que um daquelespingüins usava óculos...De certo modo, o frio glacial do refeitório colaboroupara uma trégua na guerra contra os macacos pela
  83. 83. 83tomada do mesmo. Em compensação, tínhamosque comer rapidamente antes que congelássemos.No terceiro dia de embarque, o rapaz doControle de Qualidade Elétrica da Techim avistouuma estrela cadente que se incendiou e caiu naFloresta. (Esse livro mescla de modo quaseindivisível a fantasia e a realidade, esse fato, noentanto é verídico. Quem acreditaria se eu dissesseque um gerador a diesel explodiu do meu lado umminuto depois de que saí de seu lado? Ou queSobrevivemos sem um arranhão a um vazamentode gás que perdurou vinte minutos a uma pressãode 23 Quilos/cm2? Ou que vivíamos sendoiluminados por colunas de gás queimando comcerca de 90 metros de altura, ou que um dia umachuva apagou uma de nossas “chaminés” ou flares
  84. 84. 84e que noutro dia um relâmpago tornou a acendê-lo?)Um estranho pressentimento me dizia que aqueleacontecimento ainda ia trazer complicações.Enquanto isso seguiam incansáveis as viagens doHikano ao aeroporto da Base. Eventualmente, orato imorrível acompanhava ao Hikano.Os escravos, digo, os contratados, estavam jáindo para o sexto mês de confinamento. Alguns jáestavam desaprendendo a falar o português. Osargentinos da Techim viviam uniformizados com ascores do time Boca Juniors. No dia da derrota daArgentina para o Brasil na copa América, de raiva,entraram na Floresta para caçar onças, à unha.
  85. 85. 85Cada um voltou com duas. Foram duramenterepreendidos e tiveram que soltar os bichosassustados, que correram sem entender nada, parao meio da Floresta.Do restaurante onde estava o frigorífico, namanhã seguinte, veio a notícia que o Eric haviadesaparecido. Os pingüins foram interrogados porduas horas pela vigilância. Como haviam feito umpacto de silêncio, nada disseram.Quem poderia ter furtado o corpo do“congelado”?Certamente a vida possui essas questões difíceis deentender.
  86. 86. 86Enviaram para o Polo um mecânico da Sulzer,o Teodoro Florentino Misto Cartesiano, que játrabalhara nas bombas Montro A e Monstro B lá doantigo parque de bombeio da Reduc (RefinariaDuque de Caxias). O serviço dele seriaextremamente fácil. Teria ele inteiros 14 dias parafazer 48 bombas com seus trocentos subsistemasde lubrificação funcionassem a contento...Nada que um homem sozinho não terminasse emduzentos e trinta e oito anos, quatro meses equinze dias...
  87. 87. 87O Abusanadam foi destacado para acompanhá-lo. OAlexandre trabalhava ao som das recitações deHomero e Ilíadas, em grego arcaico, por parte doAbusanadam. E vez por outra passava certoroedor peludo por cima das tubulações.Quando os insetos deixavam. Era inseto no chão.Era inseto nas paredes. Deveria ter feito faculdadede entomologia.
  88. 88. 88Aconteceu, pra variar, outro incêndio noaquecedor de óleo. O pessoal de combate aincêndio chegava bocejando, e apagava o fogo emuns dez minutos. A não ser quando o Alexandreestava presente. Alexandre inquietava-se comogalho de sarandi tocado pelo vento, quando viafogo. Quando ele chegava, era um fuzuê. PareciaGuerra nas Estrelas. Ele chegava dando um cavalo-de-pau com o caminhão de combate a incêndio, evez por outra jogava alguém da brigada decombate a incêndio para dentro de algum lugar. —ONQUIÉ? ONQUIÉ? — Já chegava gritandodesesperado.
  89. 89. 89— Ô trem bão! Anarriê! Esse foguinho é meu! Cadêas mangueiras? Abre o canhão! Abre o canhão! Pelaesquerda! Joga espuma! Mais espuma! Maisespuma! Águaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!Coloca mais água. Arrasta as mangueiras! Jorgepela direita! Antunes se atira no fogo! Que fumaça,que nada! Mascára! Mascará!! Cadê a máscara?Capacete! Jateia ali! Não, Lá. Mais pra cima!Segura o bicho pelas tripa! Isso num é fumaça, issoé incenso! Vem pra mim fogo dos inferno!
  90. 90. 90De noite eu conversava pela Internet. Euentrei em um Chat gráfico (uma página deconversa pelo teclado através da Internet)denominado A3, onde havia uma menina chamada
  91. 91. 91Joana. Eu sempre entrava com o nome de Eric, emhomenagem ao congelado. Ela já foi logo falando:— Joana: Oi Eric!— Eric: Oi Joana!— Joana: Eu estou esperando uns amigos aqui noChat...— Eric: Que legal— Joana: De onde você tc? (No informatês básicosignifica: de onde você está teclando)— Eric: Linda Joana, se eu contar você não vaiacreditar.— Joana: Obrigada pelo: linda!— Eric: Você é uma micreira de carteirinha?— Joana: Exatamente.— Eric: Joana quer casar comigo?— Joana: Nossa! Você é rápido! Não posso, estounoiva e vou casar em outubro.— Eric: Minha grande desilusão amorosa— Joana: você está tão carente assim?— Eric: (nessa hora eu menti descaradamente)Não! Só estou brincando com você! Felicidades aonoivo.— Eric: Está gostando de conversar comigo?— Joana: Sim, gostando muito...— Joana: Sim gostando muito, você é muitoengraçado...— Eric: Quando você disse “gostando muito” euquase derreti sobre o teclado...
  92. 92. 92— Joana: Não faça isso! Assim você não vaiconseguir mais teclar.— Eric: Você está rindo de verdade? Ou só sendopolida?— Joana: Estou desabando de tanto rir, tenho queme segurar para não cair.— Eric: tenho que ir, um abraço nos seus amigos...— Joana: Como faço para falar com vocênovamente?— Eric: É fácil. Encosta a cabeça bem próxima àtela— Joana: Encostei.— Eric: Agora grita bem alto: Macarrão!— Joana: Macarrão!— Eric: macarrão@uol.com.br (o nome do e-mailoriginal foi modificado)— Eric: viu, deu certo!E assim se passavam as noites.
  93. 93. 93Quando eu era um filhote, digo pequeno, adoravadesmontar coisas. Antes da geração dos relógiosdigitais, quando um relógio comum possuía umaparafernália de engrenagens e geringonças. Asengrenagens de um relógio têm uma beleza esimetria incomparável. Quanto menores eram osrelógios, mais perfeitas era as pequenas peças queformavam aquele pequeno universo pulsantemarcador de tempo, prestes a desabar sobre astremendas habilidades que eu possuía de arrancaraquelas pecinhas que juntas marcavam as horas, eque separadas viravam excelentes piões. Girar umadaquelas engrenagens num chão lisinho era quaseum sonho.
  94. 94. 94A engrenagem não parava nunca de rodar. E euconseguia desmontar relógios dentro de umarmário, na mais completa escuridão, para quemeus pais não percebessem que eu estavatransformando um caro relógio, em coisa alguma...E tive outro sonho. Sonhei que a SandraBulock trabalhava numa bilheteria do metrô e queera apaixonada por mim. Até que um dia passei
  95. 95. 95mal na fila e... Sempre acordava com a impressãoque já vira esse filme antes.Naquela manhã eu acordei tarde. Perdi de novo oônibus que nos levava ao Polo e peguei carona comuma das três Toyotas que nos davam apoio. Pertoda ponte tivemos que parar para que passasse umcaminhão. No meio do caminho entrou um insetoque me parecia familiar.Do tamanho de uma caixa de fósforos‘tamanho grande’.
  96. 96. 96Ele possuía um amassado na carapaça e suasantenas zumbiam num ruído que me parecia serum clamor de vingança. E desta vez o motoristaestava desarmado.Será tudo isso um sonhoEntre árvores e copasSerá tudo isso a menteTe dizendo pra dormirOuves tu, a Arara gritaComo um monstro voadorRessabiada susuarana,
  97. 97. 97Inda mais onça assustadaOnde estão esses tucanosQue ontem me espantavam cedoNão sei se eles vão voandoOu caindo pelo ar...Capítulo SEGUNDO
  98. 98. 98"As coisas podem piorar, você é que não temimaginação."Lembrando certa poética resposta minha a certoconvite indecente para trabalhar em turno, perceboque certas vezes, certos acontecimentos, têm certarazão de ser...
  99. 99. 99“A noite é feita para os morcegos, hamsters ecriaturas noctívagas. Tá me chamando de boêmio?‘Se acha’ que na minha idade eu tenho condiçõesde ficar acordado de madrugada? Curtindo o docesom das válvulas de alívio ululantes?!O turno é como uma mulher mal-humorada e mal-amada, Que sorri com ofertas enganosas deprazeres ilimitados, as quais não poderá jamais nosconceder... A refinaria a noite um masouléu cujaserenidade noturna é quebrada, mormente porincêndios descomunais, e quedas de energia cujaorigem está geralmente num campo místico alémda nossa limitada compreensão. Fantasmas deoperadores de eras passadas gritam em banheirosde Zonas de manutenção abandonadas. Tubulaçõesescondidas sobre unidades cujas plantassubterrâneas morreram junto da tecnologia damicrofilmagem, ainda transportam produtosdesconhecidos, para ninguém sabe onde, sendoencontradas somente na hora derradeira dacravação da estaca assassina. Um lugar proibido àbeleza das lolitas, onde mesmo as corujas sentemassombro quando abrem seus imensos olhos umpouco mais, procurando a quem entregar suascartas... (Harry Potter que me perdoe). Não,
  100. 100. 100Eduardo. Não atenderei a este apelo do inominável.Não desta vez...”Trouxeramos uma barra de ferro no banco de trás.O problema era quanto tempo a gente podiaprender a respiração, estar imóveis, distrair oinseto e pular para o banco de trás para pegar abarra, tudo ao mesmo tempo.O motorista sinalizou com os olhos, dando aentender que ia pular para o banco detrás. Sobroupara eu distrair o inseto.— Olha! Lá fora! Uma Joaninha! — Eu apontei.O inseto era muito burro (o que bem poderia serchamado de um zôomorfismo), virou a cabeça emdireção ao lado que eu apontava. O motoristaconseguiu pegar a barra de ferro, enquanto eupulava para fora da Toyota para pegar ametralhadora Uzi que eu deixara na caçamba daToyota. Ele batia violentamente com a barra deferro no inseto, que não se intimidou. Numalinguagem despida de subjetividade: — Partiu paracima do motorista —.A Toyota balançava enquanto eu tentava pegar oraio da metralhadora. Como o carro não estava
  101. 101. 101engrenado, começou a descer em direção do rio.Foi ai que eu vi a primeira cobra daquela região. Omonstro fazia ondas dentro do riacho, enquanto seaproximava da margem para a qual a Toyotadescia. ‘Se abaixa’ que eu vou atirar! Não deu paraver se ele havia se abaixado. Estourei os vidros daToyota e o inseto fugiu covardemente pousando naestrada. O problema agora era parar a Toyota.Quando finalmente o motorista reapareceu, aToyota já submergira meio metro dentro d’água. Ea cobra vinha chegando.— Arranca com esse carro! — Gritei.O carro, por sua vez, não pegava. A cobra saiu coma cabeça de dentro do riacho e a Toyota escureceucom a sombra do animal. Lá no alto da estrada oinseto zumbia como se estivesse rindo. A Toyotafinalmente pegou. Nessa hora eu descobri para queservia aquele pequeno câmbio ao lado da marchamaior: Tração! A Toyota disparou subindo obarranco e caiu no meio da estrada. O insetoempalideceu. O motorista passou por cima dele,como se tivesse subido numa pequena pedra...Então POFFT!Fim daquela criatura asquerosa.Nós estávamos indo para a Subestação AraraQuatro do Insofismável Polo Papagaio. UmaSubestação é como chamamos o local onde
  102. 102. 102abrigamos os painéis elétricos que alimentam umaUnidade Industrial. Caso funcionem.A Subestação Arara Quatro, apesar de abrigada,possuía dezenas de espécies de árvores. Para sechegar aos painéis era necessário um guia, e umfacão afiado. Já era o segundo dia queprocurávamos, nós, o Abusanadam e o técnico doControle de Qualidade, ao técnico da Treeal dentroda mesma. Então aconteceu que outra triboindígena que morava na Subestação Arara Quatroindicou a taba onde ele se encontrava preenchendoa folha dos testes dos painéis. Como já fazia doisanos que se testavam os equipamentos, o técnicoaproveitou para se casar com uma linda índia datribo, Brisa Serena, e já estava vestido conforme oscostumes locais.Brisa Serena tinha os cabelos negros ondulados,quase azulados, pele moreno-jambo e os olhospuxados... Incrivelmente azuis.Azuis?Sim, azuis...
  103. 103. 103Interessante frisar que o técnico da Treealentrou na sala no exato instante que eu estavaescrevendo este trecho do livro (Grande partedeste livro foi escrito em URUCU). Dei o maisrápido “comando minimizar janela” da história daInformática, desde a invenção do sistemaoperacional UNIX.
  104. 104. 104Mermão, fomos atacados pelas três tribos queeu citei lá no início do livro, ainda no interior daSubestação Arara Quatro: Os Orique, os Querio eos Oqueri. Ou talvez, os Rioque, os Riqueo e osQueori, ou quem sabe... Cercados, carregandosomente instrumentos de testes, uma prancheta etrês canetas bics, numa avaliação superficial,mortos. A importância de seguros pessoais deveriaser repensada para nossos próximos embarques,assim como valores de pensão em caso de sinistro.Quando tudo parecia, assim, sabe, como que causaperdida, apareceu um sujeito enorme, com umacouraça e um capacete estranho, e uma espadagigantesca. (A preguiça me impediu de detalhar aindumentária do sujeito. Essa mudança irritante deestilos literários é proposital.) Era tão branco queparecia estar azulado. E bravo como um touro. Osujeito de aparência escandinava pulou em cima da
  105. 105. 105tribo inteira de uma vez. Tendo em vista apossibilidade de crianças virem a ler essa histórianum futuro qualquer, retiraremos a possibilidade deuma carnificina com ossos partindo, muito sanguederramado, cabeças cortadas, e etc.As tribos foram afugentadas. Restava, comosempre, aquela terna pergunta básica: Estaríamosa salvo da fúria do guerreiro? Graças aAbusanadam, sim. O símio conhecia inglês arcaico,e pelo menos quatro variantes de norueguês. Eratambém versado em línguas indo-européias.O Eric fora encontrado.Resolvemos colocar ele para “dar uma força” naelétrica. Sabe como é, aquela história de falta demão de obra especializada.Naquela noite teve festa no refeitório e foiemocionante o reencontro entre Eric e os pingüins.Tão grande foi sua alegria que até nos deixaramentrar no refeitório. Agora eles eram os senhoresdo refeitório. Imaginávamos que os macacos iriamfazer uma ofensiva a qualquer momentoFoi o que aconteceu. Eles chegaram aos milhares, enos cercaram dentro do refeitório. Pareciamabelhas ao redor de nós.Os pingüins se posicionaram em formação deguerrilha.
  106. 106. 106Você já viu um pingüim em formação deguerrilha?Bom, não importa. Eric dava ordens em pinguinlêscom um ligeiro sotaque germânico. Permanecemos,à espera do ataque final, munidos, apenas detalheres em nossas mãos.E os talheres eram de plástico.Resolvemos nos render. Mandamos o Abusanadamcom uma bandeira branca tentar um acordohonroso com a macacada hostil. Ele voltou com abandeira em frangalhos e com uma expressãoaterrorizada. Foi quando começou a chover.A chuva.Sempre imaginamos a chuva como um elementoextremamente poético.As gotas deslizando pela janela,o vento balançando docemente asárvores,e o doce barulho das gotas sobre otelhado...A chuva.“Que que é isso minha gente! Vixe Maria”. Só quemviu uma torrente de água descendo de um céunegro que nem o breu, gotas do tamanho de bolasde tênis e raios feitos de pura cor é que têm idéiade uma chuva em URUCU.
  107. 107. 107No vigésimo segundo raio que caiu em exatos vintee dois segundos, a macacada se dispersou. Osmacacos voavam ao sabor da ventania. Quandoterminou a doce chuva... O dilúvio... Existiamsomente umas manchas negras, no pisocarbonizado, espalhadas aleatoriamente pela áreaao redor do refeitório.Vencemos...Tive outro sonho naquela noite. De novo coma Sandra Bulock. Eu era um policial e estava comela dentro de um ônibus, ela dirigia, que não podiadiminuir a velocidade porque possuía uma bombaque explodiria se isso acontecesse.A manhã transcorreu sem maiores incidentes.Novamente perdi o ônibus, e lá fomos nós naToyota. Paramos para arrancar uma Figueira docaminho.Depois da chuva, nós levávamos explosivo plásticopara desobstruir o caminho. O processo era bemdemorado, não tanto pela dificuldade técnica deexecução do mesmo, mais pelo discurso dedespedida que o Abusanadam fazia para cada uma
  108. 108. 108delas antes que a explodíssemos. Semprelevávamos o Abusanadam nos dias de chuva.Foi durante um desses discursos, proferido aindadentro da Toyota, seguindo a risca as dicas do DaleCarneggie, famoso professor de oratória americano,que um bicho preto, com sua carapaça torta, meioamassada, e sem uma antena, entrou de novo nanossa Toyota.Parecia-nos familiar. O zumbido estava um poucorouco, mas era ele mesmo.Partimos inabaláveis para dentro da criatura. Ai jáse tornara abuso. O inseto era muito forte. Dá-lhebarrada de ferro, e puxa a antena que sobrou, jogaa criatura para o lado. Abusanadam foi jogadopara fora do carro. Ele estava vencendo. Sobreveioenfim a não tão fabulosa idéia — O explosivoplástico — O problema era parar o ‘pequeno tanquede guerra voador’Desta vez o motorista trouxera uma magnum357. O tiro certeiro, do exímio motorista, lançou-opara o painel dianteiro. Ainda tonto foi emplastadode massa do C4, o explosivo. O motorista enfiou aespoleta na pasta.Pulamos para fora da Toyota, nos abrigandoatrás da árvore caída. Cada Toyota recebera umnome. Essa se chamava Demoiselle. Abusanadamestava com o detonador. Só que era emotivodemais.
  109. 109. 109— Aperta essa joça! — Nós todos gritamos.Demoiselle Voou pelos ares. Pobre Toyota.Abusanadam chorava. Não sobrara nada,absolutamente nada, sombra, cheiro, antenas oupatas do asqueroso inseto. E nem da Demoiselle.Duas horas depois chegamos ao Polo.Abusanadam repetiu duas vezes durante o trajeto atragédia grega, de Sófocles, tragédia cujo nomenão guardei...Pra variar, era dia de teste hidrostático de uma dasEsferas.Esfera é o nome de uma bola de vinte e doismetros de altura, 3 polegadas de espessura e pesodescomunal, que usávamos para estocar gás.Teste hidrostático consistia em encher aquelaEsfera enorme de 20 metros de diâmetro comágua, para ver como a sua estrutura secomportaria. Pouca água, só umas 10 piscinasolímpicas.Naquele dia havia um americano, natural doKansas, de uma cidadezinha chamada Smalville,que fazia uma reportagem sobre a Obra. Como eramesmo o nome do jornal dele? Era alguma coisacom Planet no final. Estava fotografando as esferasquando o acidente aconteceu. Os pilares nãosuportaram o peso e ela se desprendeu, rolandoem direção ao sujeito que seria completamente
  110. 110. 110esmagado. Todos fecharam os olhos para não ver.Porém, algo impressionante aconteceu. Um rastro,de cores vermelha e azul, indefinido, envolveu aesfera e a levantou no ar; ela então desceusuavemente e novamente foi assentada sobre ospilares. Outro clarão e suas colunas quebradas setornaram incandescentes, e quando tudo terminou,ela estava como antes, fora a fumaça que saia detodas as colunas. Foram encontrar o repórter caídono pipe-rack ao lado das esferas, desmaiado.Perguntaram se ele estava bem.— Tudo bem com o senhor, mister Kent? — Eleacenou ajeitando seus óculos e limpando a poeira,que estava tudo bem.Logo depois deste incidente voltou para Metrópolis,onde atualmente residia.Um grupo do Nordeste havia trazido um jornalde Pernambuco, que tinha uma notícia muitoengraçada. Na primeira capa, a foto de dois ‘heróis’locais, fantasiados. Parece que haviam salvado um
  111. 111. 111grupo de crianças de um incêndio, evitado umassalto a um supermercado e acabado com umseqüestro a um ônibus, tudo no mesmo dia.Vestiam umas roupas estranhas, o primeiro comuma mistura de Batman com Zorro, só que comuma capa bordada... O outro parecia ter saído deum seriado japonês. Muito hilário. Da terra doHikano e do Aluízio. Coisa do Cearense... Mostrei ojornal para Hikano que riu sem graça edisfarçadamente foi se afastando... De noite umnoticiário sobre os dois heróis mostrou a filmagemdo supermercado, feita por um amador, sobre oassalto impedido. Dava para ouvir até os diálogos.— Avante National! Essa vulgaridade insanadistribuída nessa violência escrota me dá ânsias devomito. Eu tê dou a cobertura necessária enquantotu, cabra macho sim sinhô, faz uma levedemonstração do nosso inenarrável treinamentopara realização de atos heróicos e coisas afins.Esses meninos tão carecendo de um corretivo.Porrada neles National! — O camarada vestido denegro numa mistura estilizada de Batman, Zorro enão sei-mais-o-quê comandava um baixinhofantasiado com uma roupa que parecia saída de umseriado de televisão antigo. Seu sotaque denordestino, comendo rapadura com farinha demandioca, dava um acento inconfundível à cena
  112. 112. 112incomum. Deveria haver cerca de duzentas pessoascorrendo debaixo de uma formidável artilharia, porcausa do que representava o incrível poder de fogode seis assaltantes, que constava de metralhadorasa armas automáticas. Estantes inteiras erammetralhadas, latas de leite condensado vazavamenquanto molhos de tomate e caixas de leite desoja sabor laranja voavam em pedaços seconfundindo com a poeira intensa das sacas defarinha de trigo estouradas pelo tiroteio vão. Osupermercado parecia uma praça de guerra.— Sim Honolável!National man. Eta nomezinho para herói nipônico-nordestino. A partir deste dia, assim o baixinhocom mascara engraçada seria reconhecido. Pelonoticiário, a situação já estava tensa desde a horade abertura do supermercado, quando osassaltantes o invadiram, piorando muito mais como cerco da polícia de Fortaleza.
  113. 113. 113A figura esquálida sobre com o uniforme ainda maisesquisito se esgueirava pelas prateleiras e comsaltos ornamentais se atirava sobre o não menosespantado grupo de assaltantes. E mais farinhavoava pelo supermercado que a essa altura pareciaLondres em dia de nevoeiro. As imagensesbranquiçadas não permitiam entender muito doque estava acontecendo. Certa hora o barulho dechicotada crispou o ar e um bandido caiu no chão.— Em capa que tia Josefina cozeu, abestalhadoninhum põe a mão, bandido sem-vergonha...Pelas minhas contas já tinha pelo menos unstrês bandidos espancados.Dois dos marginais voaram por dentro dasprateleiras e por fim só sobrou um sujeito, que seagarrou com uma refém. Eu acho que era umarefém. Não dava pra ver direito com tanta farinhano ar. A mulher gritava mais que porco quando élevado pro matadouro em dia de festa junina. O talmascarado parou na frente do bandido com refém,enquanto o Japonesinho fazia uma posição, a qualsegundo Hikano, denominava-se “flor de laranjeiraem dia de vento exíguo”. O cara mais magrelosimplesmente arrancou a arma da mão do bandidocom a melhor (e mais certeira) chicotada de todosos tempos. Quando a farinha abaixou, havia umsupermercado semi-destruído, muita gente
  114. 114. 114tossindo e seis assaltantes amarrados ao lado deuma pilha de armas. Coisas do nordeste.Milhares de pessoas trabalharam para construçãodas obras do instigante Polo Papagaio. Havia umaequipe de indianos, cerca de vinte e sete sujeitosque vieram somente para a pré-operação da plantaindustrial. Os coreanos andavam as voltas com oprojeto dando ênfase Automação da Unidade comcomputadores rodando um tal de VMS. Haviamtantas nacionalidades misturadas a brasileiros, detantas regiões, que às vezes nas reuniões, só comtradução simultânea.Na mesma época os peões da Obra começaram ummovimento intitulado "Morte aos encarregados".Que na verdade reivindicava somente a cabeça dossupervisores numa bandeja, literalmente falando.Um grupo armado de pedaços de eletrodutos ecoisas afins, gritando palavras de ordem, se dirigiuaté a entrada do barracão dos supervisores,dispostos a matar ou matar. Depois de muito custo,a horda foi contida quando os supervisores, visandosua auto-sobrevivência, colocaram a culpa nacrueldade da Fiscalização.O bordão foi atualizado para "Morte para aFiscalização" (com pequenas variações). Depois de
  115. 115. 115disputada assembléia em que, por diferença de trêsvotos mudaram o bordão para:"Morte cruel para a Fiscalização".Cercaram o escritório. Eram incontáveis. Até os quepermaneciam já há meses perdidos na Floresta, seajuntaram ao ensandecido grupo. Foi quando nossoreforço na elétrica saiu com brados, levando aporta da entrada com ele. Eric se atirou em cima dainumerável multidão e disse uma frase que depois oAbusanadam traduziu como:— Esses aqui são meus, arranjem outros paravocês lutarem.Negócio muito violento. Meia-hora depois tinhapeão espalhado até por cima do pipe-rack. É certoque Hikano deu uma ajuda memorável quando emvinte e dois segundos derrubou exatos vintesujeitos, com uma seqüência de golpes alucinantes.Repentinamente Omã Saiibh Abdul Salam, soldadorcrudelíssimo, apareceu no meio da UnidadeIndustrial. Ele media quase dois metros e meio dealtura. A bota dele fora trazida de balsa. Eric nãoera tão alto assim. Seus dois metros e vinte aindanão faziam sombra aos dois e quarenta e cinco dobrutal soldador. Eric não se intimidou. Arrancou em
  116. 116. 116direção de Omã Saiibh Abdul Salam. Omã arrancoucom uma das mãos um pedaço da tubulação dequatro polegadas e os gigantes se chocaram. Ochão tremia. Os peões e um hamster, incrédulosobservavam a terrível luta que se desenrolava nomeio deles. Lutaram cerca de três horas. Por fim,três compressores de gás residual desmontadosdepois, do meio dos escombros, levantou-se umvencedor.Omã.Eric não se levantou mais. O espanto geral seapoderou de toda, completa e plenamenteaterrorizada Fiscalização. Menos de um deles.Hikano estava lívido de ódio. Enquanto Omã seaproximava do pequeno grupo de Fiscais que seespremia como ovelhas que são levadas ao
  117. 117. 117matadouro, Hikano se postava entre nós e omonstruoso soldador.Sua posição lembrava vagamente o Bruce Lee. Oumelhor, o Jet Lee. Omã parou próximo aopequenino Hikano.— Pala tlás monstlo lepugnante. Se deles mais umpasso, tua tliste vida telminalá nesse exatomomento — Disse Hikano, com uma expressão queperduraria na memória do grupo pelos anos que sesucederiam. Hikano movimentou os braços comose fortalecesse cada músculo, retesando-os episando sobre o chão da unidade com arranjos quese assemelhavam aos passos de Tai Chi. Estendiaas pontas dos dedos que se curvavam a altura dosseus olhos suavemente.
  118. 118. 118Omã sequer piscou. O gigantesco soldadormisturava sua tensa respiração a um grunhidogutural, enquanto dobrava o imenso pescoçotatuado com mosaicos de formas geométricas.Subitamente ele tentou bater em Hikano. Somentetentou. Como se amarra o vento? Como se prendea luz? Quando os seus gigantescos músculosretesados se distenderam, poder-se-ia afirmar arespeito de Hikano que nenhum homem jamais semoveu assim. Hikano movia-se à velocidade da luz(uau!). Desprezando as leis eternas da gravidade,Hikano tocou, de cabeça para baixo, nos tubos dopipe-rack. Ainda estava voando quando acertoutrês socos quase no mesmo momento em Omã.Pulou sobre os 2,45 m de Omã como se subissenum degrau.Foram tantos chutes que eu não pude contar,mesmo porque eu não conseguia ver. Omã resistiaimpassível. Porém, mesmo montanhas costumamse curvar diante da força do vento. Hikanogolpeava com maior velocidade. (Já foi provado emlaboratório que a luz pode ter sua velocidadeultrapassada, porém deixado de lado à apreensãotécnicista do texto, pense na expressão como umafigura de linguagem. Pensaram que eu não ia
  119. 119. 119reparar...). Por dois minutos o gigante aindaavançou. Porém Hikano deu uma parada em plenoar. Ele parou no ar. Antes de Matrix. O gigante deuum passo em direção de Hikano que ainda flutuavano ar. Girou sobre o próprio corpo e acertou umpoderosíssimo chute. Pela primeira vez o giganteparou. E temeu. A partir daí Omã recuou. E foirecuando sobre o peso das mãos do pequeninoHikano. Numa última e desesperada tentativa, ogigante arrancou uma tubulação de oito polegadase a atirou sobre Hikano. A tubulação se dobrousobre os pés de Hikano, quebrando-se como cristalem sólidos três pedaços. Hikano olhou uma últimavez para os olhos do soldador. Omã tremeu. A lutaterminou ali mesmo. Na mesma posição que ocombate se iniciara. O golpe final de Hikano foi tãoviolento que Omã desabou, levando após si maisdois vasos de processo, cada um com duastoneladas.A MORTE DE ERICForam socorrer o Eric. Porem era tarde demais. Erichavia morrido. Nós sofremos como joelho de freirana Semana Santa. Fizemos-lhe um enterro viking,com um barco improvisado, levando Eric pelaságuas do Rio Urucu. Ao longe o pequenino e
  120. 120. 120incendiado barco era arrastado pela correnteza dorio. Estava indo para Asgard.Os pingüins choraram por toda aquelasemana.
  121. 121. 121Sobre a Guerra
  122. 122. 122
  123. 123. 123Raios cujo diâmetro chegava à ordem de milhõesde quilômetros faiscavam de suas vestes quando oprimeiro anjo se levantou para o combate. Sobreseu peito flamejou um peitoral adornado de pedraspreciosíssimas, enquanto tirava de uma bainhafeita de plasma uma espada espelhando a própriarepresentação do poder.Em sua mão sibilou esta espada, ecoando estesibilo até as regiões mais distantes do universoatravés da matéria que antes preenchia aquilo quehoje conhecemos como vácuo, cortando o manto deescuridão. E deixando para trás a própria luz,pendente sobre a vastidão do inimaginável, voou...Além e acima das leis da estremecida Criação enum primeiro golpe impressionante, lançou aolongínquo o maligno ser. Tamanho golpe definiu aslinhas do tempo, e modelou duas de trêsdimensões.Sobre o peso de tamanho confronto parte daimensidão escureceu. Parte da imensidão sedividiu.Levantou novamente o bravo, sua fortíssima arma,que de tão resplandecente, até a escuridão ao seuredor, fez incandescer e queimar.
  124. 124. 124Antes que o golpeasse pela segunda vez, umchamado em sua alma o estancou. Ele levantou suafronte e parado escutou.Neste ínterim, sabendo que morreria, o outro anjonum turbilhão, fugiu por entre o tempo e asdimensões.Deixando a própria esfera da existência, atravessouos domínios e irrompendo sobre o abismo,mergulhou.O abismo, insondável, de escuridão inimaginávellhe serviria de abrigo. Não por muito tempo.
  125. 125. 125O primeiro anjo olhou para dentro do abismo, e oabismo estremeceu. Flutuou sobre a tremendaescuridão e num salto,num magnífico salto, sem temer,mergulhou.
  126. 126. 126Capítulo TERCEIRO"Gato: um autômato flexível e indestrutível,fornecido pela natureza para ser chutado quando ascoisas vão mal no círculo doméstico."Se o Jayme estivesse aqui, certamente Eric nãoteria morrido. Ninguém sabe ao certo dizer porqueo Jayme era tão forte. Alguns dizem que elesimplesmente não era humano. Tinha uma versão
  127. 127. 127sobre o fato de seu pai ter sido visitado por umanjo antes de seu nascimento. Isso já haviaacontecido uma vez, lá nas terras de Israel, poderiater ocorrido segunda vez... A mãe do Jayme eraHúngara e o pai o último descendente de umpovoado estranho, do leste da Rússia, um grupoindígena muito parecido com certas tribosamericanas, com costumes e lendas próximas,cujas tradições remontam da antiguidade. Nãofalaram por muito tempo nenhum dialeto russo, atéquando sua língua natal pereceu. E é claro que eunão vou perguntar para o Abusadanam o que elesfalavam porque é capaz do símio abusado meresponder. A mãe veio para o Brasil com o filhorecém nascido, logo após a morte do seu pai, indoa residir ao sul do país, em Panambi, interior do RioGrande do Sul. Contam que aos dois anos de idade,Jayme segurou uma corda que se arrastava nochão, por detrás de uma carroça carregada detonéis de vinho, arrastada por uma junta de dozebois. Doze enormes bois. Ele olhou curioso para acorda que se arrastava no barro perto de si,emcapuzado e vestido dos pés a cabeça por causada baixa temperatura do inverno no sul. Resolveusegurar a corda e de brincadeira ele a puxou. Nãofoi preciso dizer que começou a ser arrastado juntocom a carroça, que passava lentamente pela velhaestrada na frente de sua casa.
  128. 128. 128Quando a carroça passou perto de um poste deiluminação, Jayme agarrou-se ao poste com umamão enquanto com a outra segurou a corda dacarroça. A corda começou a esticar, esticar eesticar. Jayme ficou vermelho e continuousegurando a corda. Quando a corda se esticoucompletamente, a carroça parou. E os bois já nãoconseguiam mais arrastá-la! O boiadeiro que iaguiando os bois bateu com o chicote nos boiscondutores, pensando que a carroça tinha seprendido em algum buraco. Nada conseguiu. Aoolhar para trás viu o poste começando a se dobrare com os olhos arregalados avistou a criança quesem ter os pés no chão, segurava o poste com umadas mãos e a carroça pela corda com a outra...— Barbaridade! Tchê!E assim começou a história da força assombrosa deJayme...Ah se ele estivesse aqui!Estávamos desolados com a morte de Eric.Ninguém esperava por isso, lamentavelmente oescritor decidiu que ele devia morrer. E eu sousomente um personagem a mais nessa história.
  129. 129. 129Naquela noite, enquanto deitados na gramapróxima ao alojamento, nós fiscais, mais dois mil equinhentos índios, e um hamster, conforme nossocostume de aos sábados observar o céu estrelado,refletíamos se valera à pena, tanto sacrifício, pararealizar aquela gigantesca Obra.Em breve estaria chegando a equipe de apoio, abase dos fiscais de Urucu. Nexter; Jayme; Boot;Aluízio Xavier. Quando eles chegassem, a festa iriacomeçar. Faltava ainda o Alexandre.Todos adormeceram ali naquela noite, abraçadosaos pingüins Inclusive, dormiram conosco os 1200indígenas.Outro sonho:A Ana Paula Anósio e a Sandra Bulockdesembarcaram na ilha e nós, Abusanadam, omotorista e eu, fomos buscá-las para conhecerem aObra com a Toyota. O Abusanadam ia na parte dafrente. Eu no banco traseiro entre a Ana e aSandra. Foram três horas de debate de lógica como Abusanadam para que ele me deixasse ir atrás.Disse que seria lógica a sua morte prematura se eleassim não o fizesse.E ali, estávamos, no sonho, indo para o Porto no rioUrucu, para que elas tivessem uma idéia de comochegaram alguns equipamentos, quando
  130. 130. 130repentinamente uma coisa meio esbranquiçada dotamanho de uma caixa de fósforos ‘tamanhogrande’, sem metade de uma asa, desprovido deantenas, entrou de novo, dentro da Toyota.(Estavam esperando que amanhecesse, nãoestavam...).E agora? Estava absolutamente irado. AQUELEBICHO IRRITANTE ESTAVA ATRAPALHANDO O MEUMELHOR SONHO DAQUELA SEMANA! (Talvez o daminha...). Cautelosamente, falei para que asmeninas não se movessem, sabendo que oasqueroso inseto só as mataria se elas semexessem. E agora? Não dava para atirar porque ocarro estava muito cheio. Não estava chovendo enão havíamos trazido explosivo. E aquele bichoestava obstinado com a idéia de vingança. A AnaPaula começou a roxear de tanto prender arespiração. A Sandra Bulock, por ser naturalizadaamericana, estava se tornando azul. O que é quetem a ver a nacionalidade de uma pessoa com a corque ela adquire quando prende a respiração,perguntará o atento leitor. Não sei. Antes que elasdesmaiassem, o motorista realizou uma loucura.Pisou fundo no acelerador e se jogou doancoradouro de balsas no meio do rio.Submergimos nas águas escuras do Urucu.Infestadas de piranhas. Repletas de jacarés. Comcobras. E com um boto branco.
  131. 131. 131Acordei. Vesti o velho uniforme, cor de laranja, ummacacão. Coloquei dois pentes de balas demetralhadora ao redor da cintura e ombros, tomeiduas granadas e a bazuca desmontável queguardaram dentro do armário de aço, ao lado dolivro do Pedro S. Teles de Tubulações Industriais.Amarrei uma fita vermelha ao redor da testa. Seaquele inseto nojento aparecesse, ia virar poeira debesouro.O encontro finalFomos armados até os dentes na segunda Toyota,que chamávamos de Bianca. Que venha oAsqueroso. Era assim que nós o denominamos.Nada de anormal. Manhã tranqüila. Fora orinoceronte branco que quase nos jogou no rio,nada acontecia.Podia ser cisma. Sentíamos que a criaturaasquerosa nos aguardava escondida em algumponto da mata. Abusanadam estava malacostumado. Agora, todo dia de manhã ele ia decarona com a gente. Na minha mente só pensavana Ana, na Sandra e em mim, no fundo daquele rio.Hoje ele iria morrer.
  132. 132. 132O motorista não acreditava que o inseto tivessesobrevivido à explosão. Eu sim. Qual o hamster ládo nosso quarto, aquela criatura era imortal. Foiquando escutamos um zumbido familiar.Longínquo, que aumentava a cada momento. Nãoera o som de um único inseto.O céu se escureceu.Aquele inseto asqueroso e covarde havia chamadotoda sua parentela.Olhamos com os binóculos e eis que lá estava, ele,o bastardo inseto esbranquiçado e voando trôpegoà frente da incontável nuvem de besouros.Resolvemos após brevíssima reunião, bater emimediata retirada. Não dava tempo de fazer a volta.Fomos de ré. E lá vinha a horda sanguinária deinsetos asquerosos. Tomamos a direção do Porto dorio Urucu. A horda assassina se aproximavaincansavelmente. A estrada acabou. A escolha erasimples: Bater no guindaste parado no cais ou seatirar no rio repleto de piranhas, ou ainda,enfrentar resolutamente a morte certa. As piranhastalvez fossem mais complacentes do que aqueleinseto vingativo. Ainda de ré, a Toyota quebrou acorda de segurança ao redor do pequeno Pier demadeira e cruzando o ar, vôou conosco dentro,
  133. 133. 133afundando nas turvas águas do rio Urucu. A últimafrase que me lembro do momento é doAbusanadam dizendo que não sabia nadar. Pelomenos isso. Lembrei-me do velho filósofo que dizia:"O doberman que tu não enxergas, atento epróximo observa irado, o osso que agora escavas."Chegara mais uma vez o fim. Os peixes estavamfamintos. Dava para ver pelo sorriso com quealegremente nos recepcionaram. Já estávamosacostumados com a ecológica idéia de suprirmos acarência alimentar das piranhas famintas, quandoaconteceu um raro fenômeno da natureza. Asturvas águas se tornaram barrentas, e nós que jánão respirávamos mais fazia algum tempo, tambémdeixamos de enxergar o pouco que ainda dava paraver.A Pororoca chegava ao rio Urucu. Pela primeira vez,é verdade... convenhamos, em ótima hora. A fúriada água era tanta que a Toyota foi lançada parafora do rio. Os Insetos que estavam quase na linhad’ água à espreita da primeira cabeça que delasurgisse, foram acertados em cheio. A água levouo pier, as balsas, e o guindaste sobre ele. Quandofinalmente a Toyota parou de ser arrastada, já
  134. 134. 134tínhamos andado uns dois quilômetros de estrada.Os insetos foram levados pelas ondas enlameadas.Bianca virou lama. Foi a segunda Toyota que nósperdemos naquela semana de julho. Mais uma horade caminhada para chegar ao acampamento.Agora, na hora da saída, dezoito fiscais seexprimiam na Figueira, a única Toyota que sobrara.Foram-se noites dormidasCom um certo dissaborEntre as noites fingidasPorque não se tinha amorDeixem que eu manifesteQuero é dizer no cantoQue encanto verdadeiroÉ viver sem ter rancor...
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  136. 136. 136Capítulo QUARTO"Se a experiência funcionou na primeira tentativa,tem algo errado."A festa estava para começar. Os valentes fiscaisestavam chegando. Soube por telefone que os“pergaminhos de chamada abrupta” foram enviadosde Norte a Sul do país. Lá em Jacarepaguá, naestrada do Rio grande, três quilômetros depois doclube da Telemar, antigo clube da Telerj, situava-seo Monstrolábio. Assim chamávamos aquelaempresa abandonada que Nexter usava comolaboratório. Era até um lugar agradável, nãofossem os ratos, as baratas e os morcegos. O únicolocal limpo do monstrolábio era uma sala ondeNexter guardava várias fotos dos pais, da irmã edos avós. Os avós do Nexter morreram naAlemanha, na pior época do governo autoritário deHitler. Quase por um milagre seus pais aindapequenos conseguiram, graças a ajuda de parentesbrasileiros, chegar em nosso país. Quando nãoestava na “sala de recordações” como chamávamos
  137. 137. 137a sala por causa das fotos antigas, normalmenteestava explodindo algo. No dia do ‘pergaminho’ eleestava testando sua nova invenção. Pelos avisos de‘afaste-se’ ‘perigo mortal’ e ‘experienciapotencialmente perigosa em andamento’ dava paracompreender a periculosidade do evento. Há mesesele trabalhava na criação do mais poderoso trajemultimodal, ou cibernético já visto. Depois detrezentas tentativas frutradas, parecia terconseguido êxito. Dois quilômetros de profundidadeera o que sinalizava o elevador que levava acâmara de testes. Um telefone tocava insistenteenquanto Nexter era comprimido contra a paredepor uma prensa hidráulica capaz de fazer atédiamantes artificiais! Estava no meio da experiênciacom o macacão negro quando o telefone tocou. Aprensa hidráulica apresentou um defeito nesseexato momento, lançando todo seu peso contra ocientista. Três segundos depois, a prensa estavacravada na parede distante vinte metros nocorredor da câmara. O traje funcionava. Só faltavabatizá-lo.Nexter atendeu o telefone eufórico. Até ouvir asdoces palavras mágicas ditas com sotaquepernambucano...“Na escuridão da noite, durante o espaço queos trovões levam, antes do próximo relampejar,trepidavam patas não ferradas do corcel negro,
  138. 138. 138batendo nas poças de lama no caminho lamacentoaté o lendário castelo das forças de ocupação...”— E aí cabra porreta! Vamo tomá um veneno derato arretado! Tamo fumado. Tamo convocado.Vixe. Menino, Urucu tem mais inseto que átomo.Mais mosquito que ar. Nexter. Nóis vamos amaraquele lugar. To nessa, cabra, semana que vem, teencontro na conexão da Varig em Brasília. Hikanota te mandando um beijo. —Quando os pergaminhos foram enviados eujá havia desembarcado. Recebi um convite doNexter para me encontrar com ele no MuseuAeroespacial do Campo dos Afonsos, no próximoembarque. Eu tive um péssimo pressentimentoquanto a este convite.Em Urucu, Abusadanam aproveitava a ausência doscompanheiros de quarto para dormir. Como dormiaaquele macaco...Imortal. Não, ele não nasceu nas Terras Altasda Escócia. Quando nasceu ainda existia uma sólinguagem em toda terra. Ele viu a torre de Babelser construída. Seu pai trabalhava na suaconstrução. No dia da Grande Confusão, elelembra bem que seu pai gritava algo para ele, queele não pode entender. Olhou para o lado e tentouchamar seu pai, e já não entendia sequer as
  139. 139. 139palavras que ele mesmo pronunciava. Os homenstentaram alcançar o mundo celestial com umgrandioso arranha-céu. Queriam subir às moradasde Deus. Não entendiam que quando a torrechegasse a determinada altura, ela se partiria sobresi mesma, matando a todos que nela habitassem ea todos que a edificassem. Metade dos homensteria morrido ali, pois isso aconteceu, quandopoucos homens existiam. Poucos milhares. Ele eraum deles. Viu as pessoas correndo sem ter paraonde ir, quando aconteceu. As pessoas levavam asmãos à garganta e sons estranhos, jamais ouvidos,começaram a brotar de suas bocas. Perderam odom de falar. Não. Não perderam. Porém, aunidade deu lugar a multidiversidade. Em vez desomente uma língua, agora eram milhares. Amultidão corria enlouquecida. Pensou em sua mãe.Correu desesperado em direção a ela, no meio demuitos. Gritou o nome que tantas vezespronunciara, e de seus lábios saíram palavrasestranhas. Ao longe sua mãe gritou algo, quetambém não entendeu. Já não falava a mesmalíngua de seus pais. Sua família se afastou,enquanto muitos corriam em várias direções,quando tropeçou numa jovem de olhos azuis ecabelos negros, com a pele branca como a neve,que gritou para ele:— Olha para onde você está indo, seu estúpido!
  140. 140. 140Ele se espantou. Podia entender o que ela dizia, e amais ninguém. Segurou a menina e correu com ela,que se debatia para se soltar. Quando tudo acabou,restavam somente os dois a falar a mesma língua,e um grupo, que falava pequenas palavras quepodiam entender. Foram com eles, embora elareclamasse mais do que falasse. Outros grupos seformaram, e a partir dali separam-se em váriasdireções. Nunca mais avistou seus pais. Cresceu ecasou com a menina que chamava de Hannah,embora seu destino fosse bem diferente da própriageração que estava originando. Em busca de seupassado, aprendeu que poderia falar diversaslínguas, comunicar-se com muitos povos. Talvezcom todos. Da horrível cena da separação, poucolembrava, vagamente. Nada mais. Isso aconteceua seis mil anos. Seis mil anos. Nunca morreu desdeentão.Imortal.Abusanadam contava esse pesadelo em cada fim desemana. Êta macaco Abusado.MUSEU AEROESPACIAL DO CAMPO DOSAFONSOS - RJ - SEGUNDO EMBARQUE:
  141. 141. 141O museu aeroespacial do Campo dos Afonsos,como o nome já denota, era um imenso galpãoonde guardavam antiguidades da aviação. Tinhauma cópia do 14 Bis, outra do Demoiselles, algunsaviões da primeira guerra e outras raridades,incluindo um avião anfíbio.
  142. 142. 142Quando eu cheguei lá percebi que minha intuiçãonão me enganara. Estava enrascado. Quando eu viNexter com aquele macacão laranja que elechamava de transformer e depois vi o Boot, nossocibernético companheiro, dando a volta naaeronave...— Não Nexter. EU NÃO VOU ENTRAR NESSACOISA.— Relaxa, Welington, Vai dar tudo certo.— Nexter. Esse ferro-velho tá aqui dentro a pelomenos vinte e sete anos. Parou de ser fabricado emmeados de 1960. Olha a placa Nexter. VickersViscount VC-90 número FAB 2100.
  143. 143. 143Pelo menos não é avião de guerra. Era utilizado atépela presidência. Não tem condições. Acorda,criatura. O último vôo foi em 1972. Nós vamosmorrer.— Welington, você sabe que os vôos foramcancelados por causa do mau tempo e que temosque render o pessoal. Pelos meus cálculosmeteorológicos só poderemos chegar na Obra daquia uma semana. Além do mais o pessoal aqui daBase Aérea está me devendo alguns favores. Eudei uns ajustes no radar do AMX deles. Em trocaeles me emprestaram o avião.— Não Nexter. EU DISSE NÃO. Fui claro? Você estáme entendendo? Boot, fala com este anteprojeto de
  144. 144. 144cientista maluco o que vai acontecer se... Boot?Boot? Cadê você?... — O Boot saiu vestido dedebaixo da turbina esquerda com uma farda azulescuro manchada de óleo hidráulico dizendo que osistema redundante de abertura dos Flaps da asaesquerda estava ok. Comecei a sentir calafrios.A pista dois foi liberada. Havia um pessoal do ladode fora dos hangares do museu brincando deaeromodelismo quando o Boot abriu a imensaporta. Simultaneamente Nexter ligou os motores. Elá se foram os vidros de duas imensas portas. Nosusto os aeromodelistas deixaram os controlesremotos, vinte e dois aviões rádio-controlados

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