Considerações sobre o positivismo

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Considerações sobre o positivismo

  1. 1. http://www.slideshare.net/walnermamede fev-2013 CONSIDERAÇÕES SOBRE O POSITIVISMO Walner Mamede Jr. A ciência experimental tem suas raízes no Renascimento (Séc. XIV) e sua tentativa deresgatar a racionalidade grega, o que devolveu ao homem a centralidade nas questões daexistência e refutou o dogmatismo da Igreja e sua busca de explicar o mundo (CHASSOT,2004). Com isso, experimentadores como Galileu, diferentemente dos seguidores deAristóteles – que não recorriam a experimentos e tinham a indução como forma de ordenar ojá conhecido, extraindo-lhe a essência, sem estender ao desconhecido a validade de suasconclusões – passaram a confrontar suas hipóteses com os fatos, dando causa ao que,posteriormente, ficou conhecido como indutivismo. Essa visão acabou reduzindo acompreensão de Ciência como sendo o acúmulo de observações e generalizações indutivas apartir de proposições de observação singulares, aceitando que das generalizações derivarãodeduções que buscarão prever ou explicar um fenômeno. Francis Bacon (1561-1626) levou isso ao extremo com seu indutivismo metódico.Contrapôs-se à Escolástica, ao Aristotelismo e ao Platonismo, sendo avesso ao racionalismo aliembutido e demonstrando maior entusiasmo com o naturalismo dos pré-socráticos1.Tampouco poupou de crítica os empiristas incipientes, particularmente os antigos, a quemchamou de grosseiros2, por não sistematizarem suas observações na forma de um todoorgânico e coerente, comparando-os a formigas que acumulam material sem um critério e ummétodo definidos3. Para ele a realidade empírica não deveria ser, meramente, catalogadacomo algo imutável, oriundo de uma ordem divina, pois isso não permite o progresso doconhecimento, necessariamente, assentado na mutabilidade. Nessa visão está explícita suacrítica ao aristotelismo, no qual sobrevive a idéia de supremacia da sabedoria abstrata, da vidacontemplativa e da perfeição da mente divina, e uma contradição com o que está exposto nopróprio Novum Organum, onde exalta essas mesmas qualidades em detrimento daexperiência4. A despeito disso, Bacon defende o saber como meio de conquistar poder sobre anatureza (não sobre o homem), não como um bem ensimesmado, e, para tanto, a meracontemplação era inútil e, apesar de reconhecer que “...as coisas em si mesmas...são verdadee utilidade...”, também afirma que “...as obras devem ser estimadas mais como garantia deverdade que pelas comodidades que propiciam à vida humana...”, o que explicita suapreocupação em não reduzir a Ciência a um pragmatismo desmedido. Em sua contestação do racionalismo abstrato, da escolástica e da metafísica e tendo omundo das coisas como origem do conhecimento, Bacon é, por alguns, reconhecido como ofundador da filosofia experimental, inaugurando uma nova proposta de método para seconduzir uma pesquisa e a preocupação em divisar o conhecimento objetivo do mundo contraaquilo que é sua mera interpretação fantasiosa (THEMOTEO, 2010). Após Bacon, Descartes eGalileu seguidos por Locke, Berkeley e Hume, nos séculos XVII e XVIII, cada um com seu tom,dão seguimento aos pressupostos do empirismo. A despeito de Bacon não ter realizado grandes feitos no interior das ciências naturais,propriamente ditas, e de ter se eximido de usar plenamente a Matemática em suametodologia (aversão que tinha à abordagem teológico-platônica que se fazia da Matemática1 NO1: §LXIII-§LXV (BACON, 1999-Novum Organum: Aforismos sobre a Interpretação da Natureza e oReino do Homem, Livro 1-§LXIII-§LXV)2 NO1: §CXXV3 NO1: §XCV4 NO1: §CXXIV, em contraposição ao que diria mais tarde contra a vida contemplativa e a visãoaristotélica, em seu De Dignitate et Augmentis Scientiarum (cap. I; Livro VI): “...só a Deus e aos anjoscabe serem expectadores no teatro da vida humana...” (BACON, 1999; p. 93; NT)
  2. 2. à sua época)5 sua concepção de Ciência e seu método influenciaram (e, ainda, influenciam)toda uma era de filósofos da Ciência e pesquisadores. Admitindo a indução como origemnecessária das leis científicas, elevou a importância da experiência sensorial ao seu auge,propondo ser a verificação rigorosa e sistemática (em oposição à experiência vaga, fortuita)das hipóteses, por meio de fatos e evidências, a única forma de se constituírem teoriascientíficas verdadeiras e despojadas de crenças e dogmas (BACON, 1999). Assim, o acúmulo deconfirmações, por meio de evidências empíricas, concederia à hipótese seu valor de verdade,seja absoluto – conforme versões mais radicais do Indutivismo –, seja probabilístico –conforme versões posteriores mais moderadas. A visão indutivista de Ciência, mais tarde, já noinício século XX com o empirismo lógico do Círculo de Viena, criou condições para que ocritério verificacionista se tornasse a base racional da Ciência e o meio pelo qual elasupostamente progrediria, algo, duramente, criticado por Popper (1972; 1980) A forma indutivista de explicação da Ciência se fundamenta no empirismo e na idéiade que a experiência é a fonte do conhecimento e de que os dados, advindos da observação,suscitam uma teoria ‘a posteriori’, são fidedignos à realidade das coisas e representam averdade dos fatos, podendo ou não se adequar a um esquema preexistente no universo. Nessecontexto, teremos o aparelho sensorial – particularmente a visão – como o mediador entre osujeito cognoscente e o objeto cognoscível. A verdade científica depende, então, de umadequado uso de tal ferramenta, de seu perfeito funcionamento e da correta relação lógicaentre o dado observado e as concatenações teóricas posteriores, a fim de compreendê-lo eexplicá-lo, possibilitando previsões. É também importante ao indutivista se eximir de qualquerespeculação, teoria preconcebida ou subjetividade proposital que possa contaminar os dadoscoletados e comprometer as proposições empíricas daí advindas e das quais derivarão asteorias. Se tais pré-requisitos são atendidos, não havendo porque duvidar da eficiência eeficácia de nosso aparato sensorial e cognitivo, o conhecimento produzido é reconhecidocomo científico e será incorporado a uma massa de saberes pré-existentes, refutando uns econfirmando ou sustentando outros. Em síntese, o que ocorre é a proposta de que, emprimeira mão, o que temos são apenas os dados do mundo sensível, isentos de qualquerentendimento ‘a priori’ que lhes dê um contexto. Em seguida, coloca-se a postos a intelecção,que procurará ordenar os dados e extrair deles a informação necessária à produção da teoria.São, aqui, o mundo das coisas e a experiência a origem do conhecimento, e não o pensamento(HESSEM, 2003). É a partir dele e da observação de casos particulares – conforme critérios dequantidade, variedade, identidade e coerência – que o indutivismo alcança proposiçõesuniversais, sobre os objetos de estudo, que comporão o corpo do conhecimento científico. Detais generalizações (que se tornam leis ou teorias), compõem-se uma estrutura argumentativasilogística, chegando a conclusões que representam previsões e explicações. Chalmers (1993) nos chama a atenção para o fato da impossibilidade de a Ciência sere/produzir por meio do que denomina processo indutivista de produção do conhecimentocientífico: ...Chamei-a de indutivista porque ela é baseada no raciocínio indutivo...essa visão de ciência – juntamente com a explicação popular que se lhe assemelha – é completamente equivocada e mesmo perigosamente enganadora... (CHALMERS, 1993, p. 23)5 NO1: §XCVI. Ainda, segundo José A. R. de Andrade, em sua nota de abertura à versão do NovumOrganum, pela editora Nova Cultural, ‘Realmente, Bacon parece não ter entendido o papel dasmatemáticas no conhecimento da natureza...costumava ligar a matemática ao uso que tinha sido feito porPlatão e pelos platônicos...Todos eles ligavam a matemática a uma visão teológica do universo...Baconnão chegou, portanto, a conhecer a matemática laica dos cientistas modernos...’ (BACON, 1999; p. 17)
  3. 3. Devemos notar que Hume, não exatamente com este léxico, uma vez que elaborouseu pensamento em termos de causa e efeito (POPPER, 1980; COELHO, 2000; RODRIGUES,2009), propôs, já no século XVIII, que a justificação para a validade da indução é um raciocínioindutivo do tipo a indução ‘I1’ obteve sucesso, a indução ‘I2’ obteve sucesso, a indução ‘I3’obteve sucesso, a indução ‘In’ obteve sucesso, então é lícito afirmar que a indução é umprocesso válido, caracterizando a narrativa como um argumento circular viciado, no qual umaindução justifica, inferencialmente, outra indução, tornando-a de difícil aceitação do ponto devista epistemológico, principalmente, se considerarmos a relação excessivamente imediataentre premissas (‘I1’, ‘I2’, ‘In’) e conclusão (‘a indução é válida’) e a pequena correlação daspremissas entre si, o que não parece dotar a cadeia argumentativa de peso e coerênciasuficientes, exigíveis à defesa do raciocínio ao modo coerentista (BURDZINSKI, 2005). Umaargumentação desse gênero em defesa da indução não pode se assentar em uma circularidadeinferencial, pois seria uma abordagem reducionista do método, devendo evoluir para umaforma mais elaborada e sistêmica, algo não tão fácil de se realizar e que colocaria em questãoa própria validade da indução ao afirmar que a inferência não seria um modo legítimo peloqual as proposições no interior das crenças do sistema devam se relacionar. Assim, o que ficasubsumido é que, se considerarmos a indução válida como método de produção doconhecimento científico, o mesmo não poderá ser dito quanto à utilização do método indutivoem sua própria justificação, que deve ser buscada em um sistema externo (CHALMERS, 1993). Não obstante tais críticas, o empirismo e o método indutivo possibilitaram a espéciede ceticismo metafísico que deu origem ao Positivismo de Augusto Comte (1798-1857),sistematizado metodicamente pelo farmacêutico e médico Claude Bernard. Conforme Skandare Leal (2002), dentre as referências teóricas de Comte, merecem destaque Nicolas deCondercet (1666-1790), Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781) e Claude Henri de Saint-Simon (1760-1852). Condercet defendia a existência de uma Matemática Social que possibilitasse realizarum estudo preciso, rigoroso e numérico dos fenômenos sociais. Também afirmava que aCiência estava comprometida pela influência dos senhores feudais, da aristocracia e do clero eque sua objetividade apenas seria alcançada quando se livrasse desse controle. Turgot foi umeconomista francês nomeado Ministro-Geral das Finanças do rei Luís XVI da França (1774), quelutava por uma reforma econômica liberal e defendia o livre comércio e a interdepêndenciaentre as diferentes classes econômicas. São dele as primeiras formulações sobre a "Lei dos 3Estágios" desenvolvida mais tarde por Comte. Suas ideias despertaram a ira do clero e danobreza e menos de dois anos após subir ao cargo de Ministro foi deposto. Saint-Simon,filósofo socialista de quem Comte tornou-se secretário, defendia uma sociedade industrial efoi o primeiro a empregar a expressão ciência positiva para designar a necessidade de oconhecimento científico se fundar na observação dos fatos (SKANDAR e LEAL, 2002) Sob a influências desses pensadores, Comte visava, mais que uma reflexãoepistemológica, uma reforma social, a libertação da teoria social do enclausuramentoestabelecido pela teologia e metafísica e para isso uma Física Social positivista era necessária: A filosofia teológica e a filosofia metafísica nada mais dominam hoje em dia senão o sistema do estudo social. Elas devem ser expulsas deste último refúgio. Isto será feito principalmente pela interpretação básica do movimento social como necessariamente sujeito a leis físicas invariáveis, em lugar de ser governado por qualquer espécie de vontade (COMTE, 1978, p.16) Segundo o Positivismo “...devemos nos ater ao que é positivamente dado, aos fatosimediatos da experiência, mantendo-nos em guarda contra toda e qualquer especulação
  4. 4. metafísica...” (HESSEN, 2003; p. 35). O Positivismo contesta a possibilidade de conhecimentodo absoluto, das causas primeiras e das causas finais pela razão e concentra esforços noconhecimento apenas das relações e regularidades perceptíveis sensorialmente. Ele propõeque existam aspectos gerais e particulares das relações e regularidades identificadas nas coisase que a relação entre tais níveis se dá na proporção de poucos para muitos, respectivamente,estando o desenvolvimento da Ciência condicionado ao estabelecimento da relação do maiornúmero possível de aspectos particulares com o menor número possível de aspectos gerais,numa busca de simplificação da complexa realidade composta por variáveis observáveisquantificáveis. Tal simplificação seria fruto do estabelecimento de regras cada vez mais geraisque explicassem o mundo. Uma característica importante é sua proposição de que a produçãodo conhecimento (teoria) se dá de forma cumulativa e ascendente, posteriormente àobservação em quantidade e variabilidade significativas, por meio do raciocínio indutivo e combase naquilo que pode ser quantitativamente observado e mensurado, sendo seus enunciadosvalidados (confirmados) por achados empíricos que os qualificariam como verdadeiros(ANDERY et al, 1994; CHASSOT, 2004). Os princípios comteanos podem ser resumidos nasseguintes teses (SILVINO, 2006; ARANA, 2007): 1- O conhecimento científico é superior aos demais, podendo seu método de produção ser unificado e sendo as Ciências Naturais seu paradigma; 2- A única origem do conhecimento verdadeiro é o fato, não havendo espaço para conjecturas e hipóteses alheias à realidade empírica; 3- Não há obstáculos para o crescimento linear e ascendente da Ciência e seus feitos, sendo ela o único meio de solucionar todos os problemas sociais e humanos (tradição iluminista); 4- Existem leis gerais de causalidade que regem os fenômenos naturais e sociais e que podem ser, indutivamente, encontradas pela observação, comparação e experimentação tão objetivas quanto possível, evitando-se explicações metafísicas obscuras e imprecisas; 5- O conhecimento científico, apesar de relativo, necessita ser prático, útil, claro, mensurável, preciso e fundado no que é acessível aos sentidos (indutivismo- verificacionismo) e interpretado pela razão frente às condições materiais, históricas, culturais e pessoais do cientista. 6- O desenvolvimento do intelecto humano passa por três estágios: teológico, metafísico e positivo (“Lei dos Três Estágios”). Vários foram os que beberam de sua fonte e lhe deram continuidade sob um novoprisma ou romperam com suas bases epistemológicas. Explicitam-se três fases na evolução doPositivismo: Positivismo Clássico, Empiriocriticismo e Neopositivismo. Assim, peloEmpiriocriticismo de Avenarius e Mach, ligados historicamente ao Positivismo Clássico(‘comteano’) temos Carnap, Goedel, Neurath e Schilick, com o Empirismo Lógico do Círculo deViena; Gotlob Frege, Wittgenstein e Alfred Ayer, com a Filosofia Analítica (bastanteinfluenciada por Russel); George Moore e Bertrand Russel com seu Neo-realismo inglês;Reichenbach e Hempel com a Filosofia Empírica em Berlim; Nagel e Brigman com sua Filosofiada Ciência, assim como Skinner e Watson com o Behaviorismo, John Dewey, com oPragmatismo, e Karl Popper, com o Racionalismo Crítico (que rompe com o Positivismo), nosEUA, para onde migraram muitos pensadores europeus em decorrência da II Grande Guerra;entre outros que integraram o movimento denominado Neopositivismo (ou Pós-Positivismo),o qual, longe de ter concepções unívocas e alinhadas, caracterizou-se pelo sincretismo e
  5. 5. diversidade de suas bases filosóficas, entre os vários grupos (ANDERY et al, 1994; CHASSOT,2004; ARANA, 2007). O entusiasmo expansionista e progressista, fomentado pelo desenvolvimentotecnológico e científico de meados do séc XIX até as décadas iniciais do século XX, na Europa,afirmou as concepções positivistas de mundo e legitimou um ingênuo e exacerbado otimismo,que negligenciava a importância das mazelas sociais advindas da rápida industrialização edenunciadas pelo marxismo, acreditando serem transitórias e superáveis pelodesenvolvimento econômico (SILVINO, 2007). "Primeiro precisamos fazer o bolo crescer, paradepois repartí-lo", a célebre frase de Delfin Neto, Ministro da Fazenda na ditadura militarbrasileira, pode ser interpretada como um refugo, um resquício anacrônico desse otimismoleviano já decadente na Europa décadas antes. Frente à incapacidade da Ciência hegemônica de então em solucionar questõesatinentes aos problemas sociais, as discussões se acaloraram em torno do tema. Tomava corpoo debate sobre a eficiência da aplicação das concepções positivistas às Ciências Sociais.Historicamente, as discussões sobre Ciência se processaram tendo por referência necessidadespróprias do mundo natural. Ainda que o próprio Comte tenha postulado a necessidade de sedirigir olhares para o mundo social, sua filosofia não dava conta das particularidades dessaárea, fomentando uma transferência de métodos que enxergavam as variáveis sociais apenasparcialmente, negligenciando seus aspectos não mensuráveis. O Neopositivismo do Círculo deViena avança nesse sentido ao postular a possibilidade da avaliação qualitativa do mundo.Contudo, dada a variabilidade do mundo social, sua muito menor rigidez de regras e o aspectopsicológico inerente ao ser humano, métodos válidos para tal avaliação precisariam (e aindaprecisam) de muita discussão para obter um julgamento consensual6. Abriu-se espaço para asciências compreensivistas, para o Estudo de Caso e para inferências lógico-racionais por meioda observação do mundo e sua avaliação qualitativa. Para isso contribuiu Popper (1972; 1980)que se distanciou do Empirismo Lógico do Círculo de Viena ao contrapor a noção deverificabilidade pela de refutabilidade (ou falseabilidade), na qual entendia-se (não obstante àscríticas sofridas posteriormente) que um enunciado científico jamais pode ser empírica edefinitivamente confirmado, mas tão somente corroborado, enquanto sua refutação pode serassim determinada. A racionalidade hipotético-dedutiva tem sido a tônica do pensamentocientífico desde então, que, apesar de não ter abandonado o raciocínio indutivo como suaferramenta, superou a visão empírico-indutivista de Ciência. De forma geral, quando se fala da presença do Positivismo na pesquisa atual estamosnos referindo a matizes do Neopositivismo e não às suas vertentes mais antigas, ainda que taldenominação seja passível de crítica em razão dos reducionismos analíticos que têm sido6 A isso podemos apresentar o comentário de que mesmo nas linhas positivistas a definição do métodonão antecede o conhecimento do objeto. O que ocorre é que, sendo a variabilidade dos objetos naturaismenor que a dos sociais, o método escolhido para aqueles foi já historicamente validado e reconhecidocomo sendo o melhor para aquela categoria específica de objeto, acreditando-se não haver necessidade deavaliações exploratórias a cada novo estudo, a menos que seja um objeto desconhecido ou que haja umamudança paradigmática a seu respeito. Ao transpormos essa conduta para as Ciências Sociais é quesurgem os problemas, pois uma coisa seria dizer que tais ciências adquiriram maturidade suficiente paradefinir ‘a priori’, por respaldo histórico, qual o método mais adequado para a abordagem de determinadoobjeto (considerando que isso fosse possível dado o mapeamento e triagem de toda a variabilidade socialpossível), outra coisa é dizer que, por aproximação ou semelhança, um método reconhecidamenteeficiente em Ciências Naturais seria igualmente eficiente se aplicado a um objeto social. Esta últimaconduta resulta em uma avaliação parcial ou mesmo equivocada do objeto estudado e se equivaleria auma escolha equivocada de um método a ser aplicado dentro das próprias Ciências Naturais, ou seja, umerro metodológico. Em todo caso, postula-se hoje que a abordagem do objeto (qualquer que seja) ésempre precedida por uma teoria que lhe define e orienta o pesquisador na escolha do melhor método e naseleção do que é ou não relevante para a pesquisa e que o pesquisador deve estar aberto a informaçõesemergentes que surjam durante a pesquisa, para adequar o método ao objeto.
  6. 6. empregados na avaliação dos diversos sistemas da epistemologia contemporânea. Nessecaudal, Silvino (2006) se posiciona firme contra o emprego da adjetivação “positivista” oumesmo “neopositivista” na caracterização do modelo hegemônico de Ciência nos dias atuais,uma vez que trata por semelhantes coisas desiguais, em uma generalização indevida a partirde fragmentos descontextualizados de cada sistema avaliado, tomando o todo por suas partesou pela mera soma delas. Alerta que as críticas realizadas são, na maioria das vezes,pertinentes, suscitando a necessidade de aprimoramento metodológico e adequação filosóficado modelo, mas que disso não deve resultar a afirmação de ser este ou aquele sistemapositivista. Assim, cair nessa “armadilha” seria esquecer-se de toda uma gama decaracterísticas definidoras da Filosofia Positivista, necessárias a tal qualificação e resumidasnas seis teses citadas acima (SILVINO, 2006). No Brasil, o Positivismo chega em meados do século XIX, aflorando com mais força nosfinais desse século. O movimento republicano foi, particularmente, influenciado por essacorrente de pensamento, tendo Benjamin Constant (1836-1891) como um de seus expoentesbrasileiros e grande receptividade por parte de vários oficiais militares. Não por acaso o lemapositivista de progresso por meio da ordem (uma contraposição explícita ao sacrifício doprogresso em nome da ordem, proposto pela Teologia, e à completa ausência de ordem emnome do progresso, proposta pelos anarquistas) está expresso em nossa bandeira nacional(SKANDAR e LEAL, 2002). Também na Saúde o Positivismo se apresenta já nos finais do século XIX,particularmente, nos cursos de Medicina, no interior dos quais alunos, professores, reitores epolíticos dividem opiniões quanto à adequação ou não de se filiar a esta corrente depensamento (WEBER, 1999). No campo da Educação escolar, o Positivismo se faz sentir,particularmente, por meio da Sociologia e da Psicologia. Dois positivistas merecem destaquepor sua influência sobre o currículo escolar: John Stuart Mill (1806-1873) e Herbert Spencer(1820-1903). Mill enfatizava a importância de uma formação mais humanística no interior dasescolas, enquanto Spencer defendia a supremacia das Ciências Naturais (SKANDAR e LEAL,2002). Considerações finais De forma geral, o Positivismo (COMTE, 1978) avança quando comparado com seupredecessor Empirismo, contudo, ainda permanece preso ao processo indutivo, duramentecriticado por Popper (1972; 1980), que inaugura um novo paradigma científico ao contrapor overificacionismo positivista por seu falseamento. Na Educação (SKANDAR E LEAL, 2002), o Positivismo passa a, direta ou indiretamente,definir a forma dos currículos segundo seu entendimento sobre: como as disciplinas devem sedividir para possibilitar seu melhor aprendizado pelo planejamento e organização sistemáticados saberes, fragmentando o currículo escolar; como deve ser a organização social, econômicae produtiva, que acaba por ser reproduzida nos espaços escolares; como deve se processar odesenvolvimento intelectual dos alunos, pela “Lei dos Três Estágios”; como deve se valorizar aprimazia das Ciências Naturais e seu rigor metodológico de observação, experimentação econtrole. Essas interferências, se por um lado, trazem contribuições significativas comoaprimoramento do planejamento escolar e do uso de tecnologias educacionais,desenvolvimento do ensino profissionalizante e ensino de conteúdos científicos, por outro, oreducionismo cientificista, a excessiva especialização dos saberes, o rigor didático-metodológico e o exacerbado controle externo dos processos comprometeu a autonomia daescola e a amplitude da formação humana possível, problemas ainda presentes e de difícilsuperação nos espaços educacionais.
  7. 7. ReferênciasANDERY, Maria Amália et al. Para compreender a Ciência: uma perspectiva histórica. 5ed. Riode Janeiro: Espaço e Tempo, 1994.ARANA, Hermas Gonçalves. Positivismo: reabrindo o debate. Campinas/SP: AutoresAssociados, 2007.BACON, Francis. Novum Organum. São Paulo/SP: Nova Cultural, 1999. (orig. 1620 – Coleção‘Os Pensadores’)BURDZINSKI, Júlio César. Justificação, coerência e circularidade. Veritas [online]., vol 50. n.4,Porto Alegre: PUC, p. 65-93, nov. 2005.CHALMERS, A. F. O que é ciência afinal?. São Paulo: Brasiliense, 1993.CHASSOT, Attico. A Ciência através dos tempos. 2ed. São Paulo: Moderna, 2004.COELHO, Jonas Gonçalves. Hume: ceticismo e demarcação. Ciência & Educação, v. 6, n. 2, p.141-149, 2000.COMTE, Agusto. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).HESSEM, Johannes. Teoria do Conhecimento. 2ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [Trad.:João V.G. Cuter]ISKANDAR, Jamil Ibrahim; LEAL, Maria Rute. Sobre Positivismo e Educação. Rev. DiálogoEducacional, v. 3, n. 7, p. 1-6, 2002.POPPER, Karl R. Conjecturas e Refutações. Brasília: Editora da UnB. 1980.POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultrix, 1972.RODRIGUES, Osvaldino Marra. A Crítica de Popper a Hume: O Problema da Indução. Rev. AParte Rei, n. 66, p. 01-09, nov/2009. [Disponível em http://serbal.pntic.mec.es/~cmunoz11/marra66.pdf].SILVINO, Alexandre Magno Dias. Epistemologia Positivista: Qual a Sua Influência Hoje?. Rev.Psicologia Ciência e Profissão, v. 27, n. 2, p. 276-289, 2007.THEMOTEO, Reinaldo J. Popper leitor de Bacon: uma análise das críticas falibilistas aoindutivismo baconiano, Cadernos UFS, p. 35-45, 2010 (Disponível em http://200.17.141.110/periodicos/cadernos_ufs_filosofia/revistas/ARQ_cadernos_6/reinaldo.pdf, em 21/09/2010)WEBER, Beatriz Teixeira. Positivismo e ciência médica no Rio Grande do Sul: a Faculdade deMedicina de Porto Alegre. Hist. Cienc. Saúde-Manguinhos, vol.5, n.3, 1999 (ISSN 0104-5970).

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