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ENTREVISTA



KENNETH ZEICHNER


                              Formação de
                              professores:
                              contato direto com a
                              realidade da escola

                               O      Professor Kenneth M.
                                     Zeichner, da Universi-
                               dade de Wisconsin — Madison
                               (Estados Unidos), é um dos
                                                                 ração com Bob Tahachnick); A
                                                                 formação reflexiva de profes-
                                                                 sores : Idéias e práticas. Zeich-
                                                                 ner foi entrevistado em feve-
                               mais importantes especialistas    reiro em seu gabinete, pelos
                               internacionais no campo da        professores Álvaro Moreira
                               formação de professores, ten-     Hypolito, da Universidade Fe-
     Transcrição e tradução
 •
     de Carlos Alberto         do publicado um conjunto de       deral de Pelotas, Júlio Emílio
     Gohn
                               obras de referência, como por     Diniz Pereira, da Universi-
                               exemplo, Teacher education        dade Federal de Minas Gerais,
                               and the social conditions of      e Luís Armando Gandin, da
                               schooling (em colaboração         Universidade Federal do Rio
                               com Dan Liston); Issues and       Grande do Sul, que também
                               practices in inquiry-oriented     revisaram e editaram o texto
                               teacher education (em colabo-     da entrevista.

                                                         v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA •   5
ENTREVISTA
                                    PP: Gostaríamos de começar falando        mulheres monolíngües e brancas. De
                                    sobre Formação de Professores. Na         outro lado, observa-se um número
                                    sua opinião, quais os temas mais          crescente de estudantes de cor e que
                                    importantes na educação de profes-        tem o inglês como segunda língua. Os
                                    sores para o século XXI?                  professores que estão sendo formados
                                        Ken Zeichner: Talvez a grande         não estão sendo preparados para ir às
                                    questão seja preparar professores que     escolas e serem bem-sucedidos. Cer-
                                    possam dar uma educação de quali-         tamente este não é um problema
                                    dade para os f ilhos das classes popu-    restrito ao campo da educação. Há
                                    lares. Nos Estados Unidos, mas tam-       outras pré-condições sociais que pre-
                                    bém em outros países, o que vejo é        cisam ser atendidas para que os pro-
                                    um sistema desigual de escolarização.     fessores possam ter sucesso. É preciso
                                    O fosso entre ricos e pobres continua     ver se eles têm tempo para traba-
                                    crescendo. Em parte, dependendo do        lharem juntos, se as reformas são
                                    nível de renda familiar, ou dependen-     impostas de cima, ou se os profes-
                                    do, como nos Estados Unidos, da sua       sores podem propor reformas a partir
                                    cor ou da sua primeira língua, há uma     da base. Relacionado a isso, há o iso-
                                    qualidade diferente de escolarização.     lamento das universidades, distantes
                                    Nós temos mais ou menos 1.200 insti-      das escolas e das comunidades. Mui-
                                    tuições de Formação de Professores        tos professores não estão aprendendo
                                    nos Estados Unidos que preparam um        a observar e aprender com as comu-
                                    número de professores suf iciente,        nidades e a incorporar, de modo posi-
                                    mas eles não estão distribuídos de        tivo, os recursos culturais que as cri-
                                    forma adequada. Uma estratégia,           anças trazem para a escola. Há ainda
                                    então, poderia ser utilizar o sistema     uma visão de déficit cultural. No
                                    tradicional e levá-lo a fazer as coisas   entanto, em meus estudos, pude
                                    de modo diferente. Outra estratégia       acompanhar exemplos de programas
                                    poderia ser buscar outros tipos de        de educação de professores ef icazes
                                    soluções, fora do sistema atual, a fim    na preparação prof issional para ensi-
                                    de preparar prof issionais para as        nar a todos os alunos. Muitos desses
                                    escolas onde estão os mais pobres.        programas são descentralizados da
                                    Temos um grande fosso nos Estados         universidade. Pessoas da comunidade,
                                    Unidos entre quem vai buscar a            que podem não ser educadores prof is-
                                    prof issão de professor e quem são        sionais, são empregadas nesses pro-
                                    seus alunos. De um lado, quem entra       gramas para transmitir conhecimento
                                    na profissão, em sua maioria, são         cultural.


6   • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
ENTREVISTA
             PP: O que o senhor quer dizer quan-          Namíbia. Há muitos brancos na Namí-
             do se refere a trabalhar fora do sis-        bia que nunca estiveram no norte. Estão
             tema e não só dentro dele, de modo a         projetando políticas para a educação lá,
             tentar transformá-lo?                        onde a maior parte das pessoas é negra
                Ken Zeichner: Uma de minhas               e pobre.
             experiências foi como supervisor de              Então, não é só um problema dos
             estágios num programa que buscava            Estados Unidos. Acho que os profes-
             preparar professores para ensinar nas        sores devem ser sacudidos, de modo a
             áreas pobres, rurais e urbanas. Os esta-     reexaminar o que eles aprenderam. A
             giários com os quais eu trabalhava ti-       apresentação que lhes f izeram da
             nham que viver nas comunidades. Se eu        história foi muito seletiva, ignorando a
             pudesse fazer isso aqui, eu faria. O que     contribuição de vários grupos. A pers-
             se tem hoje é uma situação em que pes-       pectiva dos negros e da classe traba-
             soas de classe média vêm e, em alguns        lhadora, por exemplo, foi deixada de
             casos, podem trabalhar em escolas de         fora, exceto por coisas superficiais,
             áreas pobres. Mas elas não vivem lá.         como feriados, comidas típicas, festi-
             Não fazem suas compras lá.                   vais e coisas assim. Se alguém men-
                Gloria Ladson-Billings, da Univer-        cionar Paulo Freire aos estudantes,
             sidade de Wisconsin, importante pro-         mesmo aqueles que estão avançados no
             fessora e pesquisadora das relações          programa de Formação de Professores
             entre raça e educação, fala sobre pro-       da Universidade de Wisconsin dirão
             fessores bem-sucedidos no trabalho           que nunca ouviram falar dele. Então, o
             com crianças afro-americanas. Parte do       tipo de experiência que o estudante tem
             que eu vejo no trabalho dela é essa          é muito limitado.Temos de romper com
             espécie de afiliação com a comunidade.       o sistema atual e buscar outras formas
             Ela fala sobre esses professores que,        de progredir.
             mesmo não vivendo nas comunidades,
             fazem lá as suas compras e lá estabele-      PP: O senhor mencionou o programa
             cem suas conexões. Temos de ensinar as       da Universidade de Wisconsin –
             pessoas a fazerem isso. Muitos de nos-       Madison, com o qual o senhor está
             sos estudantes têm pouca experiência         bastante envolvido. O que este pro-
             intercultural direta. Eles podem ter         grama apresenta de diferente para
             crescido em Los Angeles e nunca terem        atingir os princípios apresentados?
             ido a comunidades latinas, porque                Ken Zeichner: Nós temos uma
             vivem em Beverly Hills ou lugares            preparação bastante acadêmica. Incluí-
             assim. Eu encontrei a mesma coisa lá na      mos muito mais material relacionado


                                                       v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA •   7
ENTREVISTA
                                    com a educação multicultural do que         Researcher, o senhor afirmou que "a
                                    outros programas. Os estudantes são         crescente   internacionalização     da
                                    expostos a muitas questões a que eles       pesquisa em Formação de Profes-
                                    não seriam expostos na maioria dos ou-      sores é um dos grandes avanços feitos
                                    tros programas. Mas é ainda muito           na última década". O senhor poderia
                                    acadêmico. Eles lêem sobre temas, há        falar um pouco mais sobre isso, sobre
                                    pessoas que vêm visitar as salas de aula,   essas tendências em Formação de
                                    mas eles não estão imersos na comu-         Professores em todo o mundo?
                                    nidade.                                        Ken Zeichner: Quando se obser-
                                        Um dos programas que eu acom-           vam as referências utilizadas nos estu-
                                    panho é o da Universidade de Indiana,       dos sobre Formação de Professores
                                    no qual os estudantes vivem em uma          feitos nos EUA, dif icilmente se
                                    reserva indígena dos Navajos, no estado     encontram trabalhos de outro país. Há,
                                    do Novo México, fazendo trabalho            portanto, esse problema sério de um
                                    comunitário. Uma das experiências           estreitamento de perspectivas. Tem
                                    mais transformadoras que encontrei          havido, em anos recentes, um inter-
                                    nesse programa foi a de uma mulher          câmbio entre o Reino Unido, os EUA
                                    que passava cada sábado pastoreando         e a Austrália, mas a América Latina e
                                    ovelhas com uma avó anciã. Ela contou       a África não existem nessas referên-
                                    como aquela experiência mudou todas         cias. Há várias pessoas que escrevem
                                    as perspectivas que ela tinha sobre o       em inglês sobre a Formação de Profes-
                                    mundo. Não temos muitas transfor-           sores na América Latina, porque não
                                    mações de perspectivas básicas aqui.        há muitas pessoas nos EUA que
                                    Temos pessoas adquirindo conhecimen-        podem ler em espanhol, e menos
                                    tos novos e novas habilidades, mas, em      ainda, em português. Na África, há o
                                    geral, elas não se tornam pessoas dife-     aparecimento de uma bibliograf ia
                                    rentes. Acredito que se um racista entrar   africana sobre Formação de Profes-
                                    no programa vai continuar assim ao          sores. Tivemos uma coletiva de
                                    sair, porque não é suf icientemente         imprensa, algumas semanas atrás, na
                                    atingido. Mas há bastante conteúdo          Namíbia, acerca de um livro que orga-
                                    sobre educação multicultural, sobre         nizamos sobre a reforma da Formação
                                    igualdade e justiça social.                 de Professores. A primeira coisa que o
                                                                                ministro disse na TV foi "essas são as
                                    PP: Em um artigo sobre novas                vozes dos africanos e as pessoas em
                                    pesquisas em Formação de Profes-            outros lugares têm algo a aprender
                                    sores, publicado em Educational             conosco".


8   • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
ENTREVISTA
                No que se refere à Formação de               Estive no Brasil, em um congresso,
             Professores, eu diria que a maioria das     e vi uma exibição de livros, há toda uma
             pessoas nos EUA não foi afetada por         bibliograf ia sobre os trabalhos em
             essa internacionalização,    mas,   ao      andamento, e ninguém na América do
             menos na literatura acadêmica, podem-       Norte tem acesso a isso. Em parte é
             se encontrar artigos sobre a Formação       nossa culpa, devido a nossas deficiên-
             de Professores na Nicarágua, Costa          cias no conhecimento de línguas. Mas
             Rica, Chile.                                começa a haver mudanças. Eu próprio,
                                                         no início de minha carreira, tive de pu-
             PP: Há uma relação de dependência           blicar meu trabalho fora dos EUA
             para os EUA?                                porque o achavam muito politizado.
                Ken Zeichner: Tenho visto uma            Então publiquei meu primeiro trabalho
             crescente construção de competências,       no Canadá. Ainda estou um pouco à
             em certos países, com menos dependên-       margem, porque a Formação de Profes-
             cia de modelos importados e maior           sores nos EUA é muito "certinha".
             tendência a desenvolver algo próprio.       Alguém como eu é visto como uma
             Chile e Namíbia são os dois exemplos        ameaça ao sistema. O que é bom,
             mais claros onde não estão, necessaria-     porque penso que o sistema tem de
             mente, tentando adotar as inovações         mudar.
             mais recentes que aparecem no merca-
             do dos EUA. Pacotes são criados nos         PP: Em sua opinião, como é possível
             EUA e, quando o mercado se esgota,          conectar a Formação de Professores
             eles levam esses mesmos pacotes para a      com a pesquisa e a prática?
             América do Sul, África ou Ásia. A               Ken Zeichner: A formação de pro-
             maioria desses pacotes são modelos          fessores está ligada quase somente à
             técnicos de treinamento. A maior parte      bibliografia acadêmica. Há muitos cur-
             do trabalho de desenvolvimento de pro-      sos que se baseiam em estudar se a
             fessores na África tem sido assim, com      aprendizagem é cognitiva ou sociocul-
             algumas exceções. As coisas estão           tural, porém há pouco reconhecimento
             começando a mudar um pouco, mas não         de teorias produzidas por aqueles que
             muito. Há a edição em espanhol do           estão na prática.
             Journal of Teacher Education, que é um          Nos EUA há milhares de docentes
             dos principais periódicos,     mas é        fazendo pesquisa       em algo      como
             somente o conteúdo do inglês traduzido      "pesquisa-ação" ou "ensino com pes-
             para o espanhol. Não introduz muita         quisa". Muitas pesquisas são publi-
             coisa nova e interessante.                  cadas, mas quase nenhuma sobre o cur-


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ENTREVISTA
                                    rículo da Formação de Professores. Os     dão aulas juntos para os estudantes da
                                    professores fornecem oportunidades        universidade. Tentamos criar uma cul-
                                    para aqueles que estão nas universi-      tura de pesquisa nessas escolas, com
                                    dades pesquisar, mas não são vistos       pessoas examinando sua prática. É algo
                                    como fontes de teorias e conhecimento.    diferente do estudante vindo para as
                                    Algumas pessoas, inclusive eu, estão      aulas e voltando para casa, é muito mais
                                    tentando trabalhar na direção de algo     baseado na escola e no contexto da
                                    mais equilibrado entre o conhecimento     comunidade em que as escolas estão.
                                    acadêmico e o conhecimento dos que
                                    estão na prática. Trazemos professores    PP: Então o senhor considera que
                                    para falarem sobre o que sabem, assim     está havendo uma mudança significa-
                                    como pedimos aos estudantes que leiam     tiva em direção à prática na for-
                                    coisas que os acadêmicos escreveram.      mação de professores?
                                    Na verdade, peço a eles que leiam            Ken Zeichner: A maior parte dos
                                    coisas que os professores escreveram.     programas de formação de professores
                                    Meu gabinete está cheio de estudos que    dos EUA está indo nessa direção: todos
                                    professores fizeram nas escolas aqui de   tentando repensar como universidades e
                                    Madison. A idéia é proporcionar aos       escolas podem se juntar para o desen-
                                    estudantes uma visão mais ampla. Os       volvimento profissional de professores.
                                    professores não são apenas pessoas que    Parte disso pressupõe uma mudança nas
                                    têm uma prática, no sentido restrito,     universidades, de modo que não haja
                                    mas pessoas que produzem conheci-         punição para professores universitários
                                    mento sobre educação e que influenci-     que passam tempo nas escolas e comu-
                                    am políticas.                             nidades. Neste momento, temos um sis-
                                        Existem algumas parcerias entre       tema em que, quem fizer isso vai
                                    universidade e escola que trabalham       destruir sua carreira profissional. A
                                    buscando novas alternativas, tanto para   idéia é mudar as regras e, se as pessoas
                                    a preparação inicial quanto para a for-   fizerem bem esse papel nas comu-
                                    mação continuada de professores e co-     nidades, elas também terão promoção e
                                    participação em pesquisas. Geralmente,    conquistarão estabilidade no emprego.
                                    isso ocorre em escolas públicas – eu      A mesma coisa para as pessoas das
                                    mesmo trabalhei com quatro das esco-      escolas; elas não são recompensadas
                                    las mais pobres de Madison. Lá nós        por seu envolvimento com a educação
                                    temos alguns cursos para futuros pro-     de professores. De certa forma, elas
                                    fessores, nos quais os professores da     sofrem um tipo de ostracismo na sua
                                    escola e os professores da universidade   cultura escolar: "quem você pensa que


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ENTREVISTA
             é, dando aula em um curso de universi-      tros lugares. Mas esse conceito tem
             dade?". Em ambas as culturas, há uma        sido, muitas vezes, implementado de
             necessidade de olhar as coisas de modo      forma mecânica. Eu diria que muito do
             diferente. Além disso, a comunidade         que tenho falado são idéias não com-
             deve ser envolvida. O simples fato de       partilhadas por muitos programas que
             estagiários e professores trabalharem       formalmente aderem à idéia de profes-
             juntos, em cooperação, não quer dizer       sores reflexivos. Há programas que
             que os pais estejam tendo voz.              usam essa retórica e utilizam pacotes
                Mas existem programas nos quais a        completos, com fitas de vídeo e livros,
             comunidade possui um papel destacado        sobre ensino reflexivo para educação de
             e parte significativa dos estudantes está   professores a partir de modelos que
             aprendendo a ser professor trabalhando      reduzem essas idéias a um conceito
             em comunidades, vivendo em comu-            estritamente técnico. Muito pouco do
             nidades. A tradicional separação entre      que eu disse está representado nisso.
             Formação de Professores e prática,              Temos de tomar cuidado com a
             assim como a idéia de que os profes-        linguagem empregada. Muitos pro-
             sores são meros implementadores, e          gramas falam de educação de profes-
             não produtores de conhecimento, estão       sores para justiça social, mas eu sou
             sendo repensadas. É preciso superar a       cético em relação a muitos deles. É
             visão, historicamente dominante, do         muito fácil usar esse tipo de lin-
             professor como mero técnico.                guagem e é preciso ver o que estão
                Isso não ocorre apenas nos EUA,          realmente fazendo, onde os estu-
             mas em todo o mundo. A grande luta na       dantes fazem seus estágios, como
             Namíbia atualmente é investir nos           ensinam, como eles se relacionam
             profissionais e afirmar a idéia de que      com os pais etc. As noções de ensino
             não é necessário dar aos professores        reflexivo, pesquisa-ação, portfólios e
             materiais com scripts, com todos os         outras, ao menos nos EUA, estão
             passos a seguir, pois eles têm cérebros e   sendo implementadas de forma muito
             podem ser criativos, mesmo quando não       técnica, com noções muito limitadas
             possuem formação acadêmica.                 sobre o papel dos professores. Assim,
                                                         as minhas idéias não coincidem com
             PP: Essa idéia está ligada ao conceito      o que ocorre, hoje, ao menos nos
             de "professor reflexivo"?                   EUA.
                Ken Zeichner: Esse é um conceito
             que tem sido usado em muitos progra-        PP: Pode-se usar o conceito de forma
             mas nos EUA e crescentemente em ou-         diferente?


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ENTREVISTA
                                        Ken Zeichner: Daniel Liston e eu         A maior parte dos livros para progra-
                                    escrevemos dois livros juntos. O             mas de educação de professores tem
                                    primeiro foi sobre o conceito de ensino      um tratamento muito superficial de
                                    reflexivo, demonstrando que isso sig-        ensino reflexivo, basicamente dizendo
                                    nifica coisas diferentes para pessoas        que "refletir é bom, e se você é um pro-
                                    diferentes, indo além da simples idéia       fessor reflexivo, é um bom professor".
                                    de que "reflexivo" é sempre bom,             Isso não faz sentido. Tentamos ir além
                                    porque não é assim necessariamente.          disso.
                                    Você pode ser mais reflexivo e preju-
                                    dicar mais as crianças. A pergunta não é     PP: Em um de seus últimos artigos, o
                                    se os professores são reflexivos, mas        senhor afirma que alguns dos traba-
                                    como estão refletindo e sobre o que          lhos mais ambiciosos em pesquisa-
                                    estão refletindo. Há uma diferença           ação hoje estão sendo feitos em países
                                    qualitativa entre refletir sobre racismo,    em desenvolvimento. O senhor pode-
                                    amendoim ou queijo, por exemplo. Ten-        ria dar algum exemplo?
                                    tamos ampliar o conceito de ensino                  Ken Zeichner: O melhor exemplo
                                    reflexivo, de modo que os professores        para mim é a Namíbia, onde tenho tra-
                                    pensem sobre isso e vejam quais são as       balhado desde 1994. É um trabalho com
                                    alternativas.                                educadores de professores, professores
                                        Parte do que introduzimos é a            e estudantes-professores, na produção
                                    chamada perspectiva socioconstruti-          de conhecimento sobre sua própria
                                    vista, que tende a ser marginalizada na      prática. A estratégia geral é que o go-
                                    maior parte dos programas nos EUA.           verno quer afastar-se de um sistema de
                                    Sei que no Brasil é diferente, há mais       educação sob o controle da África do
                                    politização. Foi minha impressão. Todo       Sul, que essencialmente mantém os
                                    mundo falava de política.                    negros em posição inferior. Está tentan-
                                        Nos EUA é o contrário. Ser político      do implementar o que chamam de uma
                                    é visto como negativo. Não se quer que       abordagem mais democrática e centra-
                                    os professores tenham uma ação políti-       da no aluno, mais ligada com as comu-
                                    ca. Tentamos passar a idéia de que           nidades onde os pais tenham voz e vez
                                    todas as coisas têm um conteúdo políti-      no que está acontecendo nas escolas. A
                                    co, inclusive a reflexão. Esses livros       estratégia para fazer isso é estabelecer
                                    estão circulando muito bem, sendo usa-       uma direção geral e investir em pessoas
                                    dos em programas de Formação de Pro-         no nível básico, pessoas que estão na
                                    fessores em todo o país. Nossa estraté-      base, de modo a transformar suas práti-
                                    gia foi tentar fazer algo não superficial.   cas.


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ENTREVISTA
                 Com a pesquisa-ação as pessoas          mos um conceito como educação cen-
             estão tentando compreender o que a          trada no aluno, com todo o trabalho
             aprendizagem centrada no aluno sig-         desenvolvido nos EUA, e se temos uma
             nifica na Namíbia, tanto nos programas      sala de aula no norte da Namíbia, 80
             de Formação de Professores quanto nas       alunos e poucos livros, não podemos
             escolas. Você não pode dar aulas sobre      usar o mesmo modelo dos EUA e
             a importância de envolver os estudantes     aplicá-lo naquela realidade. Tem-se de
             na sala de aula sem que o mesmo ocor-       criar algo que faça sentido no contexto
             ra nas universidades. E assim, em vez       da Namíbia.
             de importar dos EUA algum modelo de
             aprendizagem centrada no aluno (é pos-      PP: Nesta época de globalização, com
             sível comprar fitas de vídeo de algum       a hegemonia neoliberal e conservado-
             modelo americano de aprendizagem            ra, o governo do Brasil, como também
             centrada no aluno), eles decidiram          os de outros países, tem atribuído à
             desenvolver algo em seu próprio con-        educação um papel central para o
             texto, produzindo o que eles chamam         modelo de desenvolvimento proposto.
             "educação baseada no conhecimento da        Como o senhor vê a Formação de
             Namíbia". Eles estão criando seu            Professores nesse contexto?
             próprio conhecimento em educação, na            Ken Zeichner: Neste momento,
             África. Quando você forma pessoas           pelo menos aqui, o governo está tentan-
             para ensinar, você tem livros escritos      do usar a Formação de Professores
             por africanos e pesquisa feita por          como parte de sua estratégia, que inclui
             africanos.                                  muitas formas de controle e novas
                 Parte disso é interessante e rele-      demandas. É uma abordagem muito
             vante, mas ainda não é inteiramente         conservadora. Aqui em Wisconsin e em
             africano. Não há muitas oportunidades       outros estados, temos padrões a serem
             para publicação lá. Editei um livro apre-   atingidos e temos que mostrar ao Esta-
             sentando estudos produzidos por eles        do que os estudantes possuem determi-
             que mostram tentativas de implemen-         nadas competências. Mas há muito
             tação de educação democrática centra-       espaço de manobra. Podemos agir ensi-
             da no aluno. Esse é um exemplo a par-       nando professores a problematizar,
             tir do qual outras pessoas podem            como parte do currículo, essa visão de
             avançar, acreditando que essas reformas     escola que serve à economia global.
             são melhor descritas por pessoas que            Não sou totalmente pessimista
             fazem o trabalho. Eles estão criando a      sobre o futuro. Temos de lidar com a
             reforma e implementando-a. Se tomar-        Formação de Professores numa nova


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ENTREVISTA
                                    realidade, que inclui testes padroniza-    necessidade de olhar as coisas do lado
                                    dos, rankings, avaliação, relatórios. Há   de fora e levantar questões de outro
                                    muita coisa acontecendo nas políticas      ponto de vista, mas deve existir mais
                                    de educação, no sentido de preparar tra-   envolvimento das universidades com a
                                    balhadores para a economia global.         Formação de Professores.
                                    Apesar disso, vejo muitas possibili-
                                    dades para a criação de alternativas.      PP: Diante de todos esses problemas
                                        A grande questão é que a Formação      que estão relacionados com a univer-
                                    de Professores não recebe a importân-      sidade e as comunidades locais, como
                                    cia devida para que se façam as coisas     o senhor acha que os professores
                                    que precisam ser feitas, que podem ser     podem formar-se usando essa pers-
                                    feitas. Não é só um problema de gover-     pectiva crítica e reflexiva? Quais são
                                    no ou de políticas que está nos impedin-   as rupturas e os espaços possíveis?
                                    do. Há espaço para fazer o que deve ser       Ken Zeichner: Para isso acontecer
                                    feito. O problema é que no ambiente da     é preciso que haja uma conexão estreita
                                    universidade as pessoas não são recom-     entre a Formação de Professores na uni-
                                    pensadas por fazerem um bom trabalho       versidade com as escolas e as comu-
                                    na educação de professores. Na ver-        nidades. Não deve haver atividades
                                    dade, há uma espécie de punição para       acadêmicas isoladas, em que as pessoas
                                    quem utiliza seu tempo nas escolas com     somente vão para as universidades e
                                    os professores. Além disso, a Formação     assistem aulas sobre mudança social. É
                                    de Professores tem um status muito         preciso estudar as coisas em contexto.
                                    baixo nas universidades. Você não se       Talvez seja essa a maior mudança
                                    torna famoso só por fazer um bom tra-      necessária. Para isso, os professores
                                    balho em Formação de Professores. Na       devem sair da universidade e passar
                                    maioria dos casos, f icamos com a          mais tempo nas escolas, as quais pre-
                                    impressão errada de que o trabalho real-   cisam estar conectadas com as comu-
                                    mente bom é somente o das pesquisas.       nidades. Muitas escolas em áreas
                                    Mas isso não é verdade.                    pobres são como fortalezas: os profes-
                                        Muitas pessoas que pesquisam           sores entram e saem da escola, não
                                    sobre Formação de Professores não tra-     vivem lá e não têm compromissos.
                                    balham com Formação de Professores.           Mas isso não requer somente uma
                                    Eles escrevem coisas interessantes, mas    mudança individual. A solução não é
                                    acho que não reconheceriam um Pro-         escolher individualmente professores e
                                    grama de Formação de Professores se        dar a eles meu livro Reflective Teaching
                                    esbarrassem num. Claro que há uma          (Ensino Reflexivo). O que fazemos é


14   • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
ENTREVISTA
             isso: dar textos que levantam idéias        compreendem. Esses textos fazem-nas
             críticas para serem lidos. Isso é o que é   se sentirem pouco inteligentes. Isso me
             feito na maior parte das salas de aula      preocupa, porque uma das coisas que
             nas universidades. Isso não vai mudar       tentei fazer ao longo dos anos foi tornar
             nada. A mudança tem que ser institu-        meus textos acessíveis a pessoas que
             cional.                                     estão se formando como professores.
                                                             Muitas das idéias de autores em
             PP: Assim como em outras partes do          educação são extremamente impor-
             mundo, no Brasil pesquisadores e            tantes para o dia-a-dia dos professores.
             educadores estão discutindo diferen-        Meu projeto tem sido tentar integrar
             tes visões sobre educação. Como se          algumas dessas grandes idéias a um
             pode pensar a relação entre a área de       contexto prático dos professores, de
             Formação de Professores e as visões         maneira que eles percebam a relevância
             críticas contemporâneas?                    disso. Se as idéias das quais tratamos
                 Ken Zeichner: Muito do trabalho         são tão importantes, devemos ser
             crítico atual parece ser compatível com     capazes de apresentá-las de uma
             a pesquisa e a Formação de Professores.     maneira que não afaste, automatica-
             Mas vejo o mesmo problema de isola-         mente, parte dos professores.
                                                                                                •
             mento do qual falei antes em partes
             desta entrevista.
                 Na minha última viagem a Namí-
             bia, pediram-me que usasse um longo
             texto para falar a formadores de profes-
             sores sobre coisas muito importantes:
             pós-modernismo, feminismo e o que
             tudo isso significa para a Namíbia. O
             que aconteceu é que as pessoas não se
             empolgaram com aquele texto. A bi-
             bliografia acadêmica que trata dessas
             questões não é, geralmente, dirigida a
             pessoas que trabalham nas escolas. O
             que há é uma conversa interna entre
             acadêmicos. Vejo muitas pessoas – pes-
             soas inteligentes – recusando-se até a
             ler alguns desses materiais, porque eles
             estão numa linguagem que elas não


                                                    v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA •   15

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Formação de professores: contato direto com a realidade da escola

  • 1. ENTREVISTA KENNETH ZEICHNER Formação de professores: contato direto com a realidade da escola O Professor Kenneth M. Zeichner, da Universi- dade de Wisconsin — Madison (Estados Unidos), é um dos ração com Bob Tahachnick); A formação reflexiva de profes- sores : Idéias e práticas. Zeich- ner foi entrevistado em feve- mais importantes especialistas reiro em seu gabinete, pelos internacionais no campo da professores Álvaro Moreira formação de professores, ten- Hypolito, da Universidade Fe- Transcrição e tradução • de Carlos Alberto do publicado um conjunto de deral de Pelotas, Júlio Emílio Gohn obras de referência, como por Diniz Pereira, da Universi- exemplo, Teacher education dade Federal de Minas Gerais, and the social conditions of e Luís Armando Gandin, da schooling (em colaboração Universidade Federal do Rio com Dan Liston); Issues and Grande do Sul, que também practices in inquiry-oriented revisaram e editaram o texto teacher education (em colabo- da entrevista. v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 5
  • 2. ENTREVISTA PP: Gostaríamos de começar falando mulheres monolíngües e brancas. De sobre Formação de Professores. Na outro lado, observa-se um número sua opinião, quais os temas mais crescente de estudantes de cor e que importantes na educação de profes- tem o inglês como segunda língua. Os sores para o século XXI? professores que estão sendo formados Ken Zeichner: Talvez a grande não estão sendo preparados para ir às questão seja preparar professores que escolas e serem bem-sucedidos. Cer- possam dar uma educação de quali- tamente este não é um problema dade para os f ilhos das classes popu- restrito ao campo da educação. Há lares. Nos Estados Unidos, mas tam- outras pré-condições sociais que pre- bém em outros países, o que vejo é cisam ser atendidas para que os pro- um sistema desigual de escolarização. fessores possam ter sucesso. É preciso O fosso entre ricos e pobres continua ver se eles têm tempo para traba- crescendo. Em parte, dependendo do lharem juntos, se as reformas são nível de renda familiar, ou dependen- impostas de cima, ou se os profes- do, como nos Estados Unidos, da sua sores podem propor reformas a partir cor ou da sua primeira língua, há uma da base. Relacionado a isso, há o iso- qualidade diferente de escolarização. lamento das universidades, distantes Nós temos mais ou menos 1.200 insti- das escolas e das comunidades. Mui- tuições de Formação de Professores tos professores não estão aprendendo nos Estados Unidos que preparam um a observar e aprender com as comu- número de professores suf iciente, nidades e a incorporar, de modo posi- mas eles não estão distribuídos de tivo, os recursos culturais que as cri- forma adequada. Uma estratégia, anças trazem para a escola. Há ainda então, poderia ser utilizar o sistema uma visão de déficit cultural. No tradicional e levá-lo a fazer as coisas entanto, em meus estudos, pude de modo diferente. Outra estratégia acompanhar exemplos de programas poderia ser buscar outros tipos de de educação de professores ef icazes soluções, fora do sistema atual, a fim na preparação prof issional para ensi- de preparar prof issionais para as nar a todos os alunos. Muitos desses escolas onde estão os mais pobres. programas são descentralizados da Temos um grande fosso nos Estados universidade. Pessoas da comunidade, Unidos entre quem vai buscar a que podem não ser educadores prof is- prof issão de professor e quem são sionais, são empregadas nesses pro- seus alunos. De um lado, quem entra gramas para transmitir conhecimento na profissão, em sua maioria, são cultural. 6 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
  • 3. ENTREVISTA PP: O que o senhor quer dizer quan- Namíbia. Há muitos brancos na Namí- do se refere a trabalhar fora do sis- bia que nunca estiveram no norte. Estão tema e não só dentro dele, de modo a projetando políticas para a educação lá, tentar transformá-lo? onde a maior parte das pessoas é negra Ken Zeichner: Uma de minhas e pobre. experiências foi como supervisor de Então, não é só um problema dos estágios num programa que buscava Estados Unidos. Acho que os profes- preparar professores para ensinar nas sores devem ser sacudidos, de modo a áreas pobres, rurais e urbanas. Os esta- reexaminar o que eles aprenderam. A giários com os quais eu trabalhava ti- apresentação que lhes f izeram da nham que viver nas comunidades. Se eu história foi muito seletiva, ignorando a pudesse fazer isso aqui, eu faria. O que contribuição de vários grupos. A pers- se tem hoje é uma situação em que pes- pectiva dos negros e da classe traba- soas de classe média vêm e, em alguns lhadora, por exemplo, foi deixada de casos, podem trabalhar em escolas de fora, exceto por coisas superficiais, áreas pobres. Mas elas não vivem lá. como feriados, comidas típicas, festi- Não fazem suas compras lá. vais e coisas assim. Se alguém men- Gloria Ladson-Billings, da Univer- cionar Paulo Freire aos estudantes, sidade de Wisconsin, importante pro- mesmo aqueles que estão avançados no fessora e pesquisadora das relações programa de Formação de Professores entre raça e educação, fala sobre pro- da Universidade de Wisconsin dirão fessores bem-sucedidos no trabalho que nunca ouviram falar dele. Então, o com crianças afro-americanas. Parte do tipo de experiência que o estudante tem que eu vejo no trabalho dela é essa é muito limitado.Temos de romper com espécie de afiliação com a comunidade. o sistema atual e buscar outras formas Ela fala sobre esses professores que, de progredir. mesmo não vivendo nas comunidades, fazem lá as suas compras e lá estabele- PP: O senhor mencionou o programa cem suas conexões. Temos de ensinar as da Universidade de Wisconsin – pessoas a fazerem isso. Muitos de nos- Madison, com o qual o senhor está sos estudantes têm pouca experiência bastante envolvido. O que este pro- intercultural direta. Eles podem ter grama apresenta de diferente para crescido em Los Angeles e nunca terem atingir os princípios apresentados? ido a comunidades latinas, porque Ken Zeichner: Nós temos uma vivem em Beverly Hills ou lugares preparação bastante acadêmica. Incluí- assim. Eu encontrei a mesma coisa lá na mos muito mais material relacionado v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 7
  • 4. ENTREVISTA com a educação multicultural do que Researcher, o senhor afirmou que "a outros programas. Os estudantes são crescente internacionalização da expostos a muitas questões a que eles pesquisa em Formação de Profes- não seriam expostos na maioria dos ou- sores é um dos grandes avanços feitos tros programas. Mas é ainda muito na última década". O senhor poderia acadêmico. Eles lêem sobre temas, há falar um pouco mais sobre isso, sobre pessoas que vêm visitar as salas de aula, essas tendências em Formação de mas eles não estão imersos na comu- Professores em todo o mundo? nidade. Ken Zeichner: Quando se obser- Um dos programas que eu acom- vam as referências utilizadas nos estu- panho é o da Universidade de Indiana, dos sobre Formação de Professores no qual os estudantes vivem em uma feitos nos EUA, dif icilmente se reserva indígena dos Navajos, no estado encontram trabalhos de outro país. Há, do Novo México, fazendo trabalho portanto, esse problema sério de um comunitário. Uma das experiências estreitamento de perspectivas. Tem mais transformadoras que encontrei havido, em anos recentes, um inter- nesse programa foi a de uma mulher câmbio entre o Reino Unido, os EUA que passava cada sábado pastoreando e a Austrália, mas a América Latina e ovelhas com uma avó anciã. Ela contou a África não existem nessas referên- como aquela experiência mudou todas cias. Há várias pessoas que escrevem as perspectivas que ela tinha sobre o em inglês sobre a Formação de Profes- mundo. Não temos muitas transfor- sores na América Latina, porque não mações de perspectivas básicas aqui. há muitas pessoas nos EUA que Temos pessoas adquirindo conhecimen- podem ler em espanhol, e menos tos novos e novas habilidades, mas, em ainda, em português. Na África, há o geral, elas não se tornam pessoas dife- aparecimento de uma bibliograf ia rentes. Acredito que se um racista entrar africana sobre Formação de Profes- no programa vai continuar assim ao sores. Tivemos uma coletiva de sair, porque não é suf icientemente imprensa, algumas semanas atrás, na atingido. Mas há bastante conteúdo Namíbia, acerca de um livro que orga- sobre educação multicultural, sobre nizamos sobre a reforma da Formação igualdade e justiça social. de Professores. A primeira coisa que o ministro disse na TV foi "essas são as PP: Em um artigo sobre novas vozes dos africanos e as pessoas em pesquisas em Formação de Profes- outros lugares têm algo a aprender sores, publicado em Educational conosco". 8 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
  • 5. ENTREVISTA No que se refere à Formação de Estive no Brasil, em um congresso, Professores, eu diria que a maioria das e vi uma exibição de livros, há toda uma pessoas nos EUA não foi afetada por bibliograf ia sobre os trabalhos em essa internacionalização, mas, ao andamento, e ninguém na América do menos na literatura acadêmica, podem- Norte tem acesso a isso. Em parte é se encontrar artigos sobre a Formação nossa culpa, devido a nossas deficiên- de Professores na Nicarágua, Costa cias no conhecimento de línguas. Mas Rica, Chile. começa a haver mudanças. Eu próprio, no início de minha carreira, tive de pu- PP: Há uma relação de dependência blicar meu trabalho fora dos EUA para os EUA? porque o achavam muito politizado. Ken Zeichner: Tenho visto uma Então publiquei meu primeiro trabalho crescente construção de competências, no Canadá. Ainda estou um pouco à em certos países, com menos dependên- margem, porque a Formação de Profes- cia de modelos importados e maior sores nos EUA é muito "certinha". tendência a desenvolver algo próprio. Alguém como eu é visto como uma Chile e Namíbia são os dois exemplos ameaça ao sistema. O que é bom, mais claros onde não estão, necessaria- porque penso que o sistema tem de mente, tentando adotar as inovações mudar. mais recentes que aparecem no merca- do dos EUA. Pacotes são criados nos PP: Em sua opinião, como é possível EUA e, quando o mercado se esgota, conectar a Formação de Professores eles levam esses mesmos pacotes para a com a pesquisa e a prática? América do Sul, África ou Ásia. A Ken Zeichner: A formação de pro- maioria desses pacotes são modelos fessores está ligada quase somente à técnicos de treinamento. A maior parte bibliografia acadêmica. Há muitos cur- do trabalho de desenvolvimento de pro- sos que se baseiam em estudar se a fessores na África tem sido assim, com aprendizagem é cognitiva ou sociocul- algumas exceções. As coisas estão tural, porém há pouco reconhecimento começando a mudar um pouco, mas não de teorias produzidas por aqueles que muito. Há a edição em espanhol do estão na prática. Journal of Teacher Education, que é um Nos EUA há milhares de docentes dos principais periódicos, mas é fazendo pesquisa em algo como somente o conteúdo do inglês traduzido "pesquisa-ação" ou "ensino com pes- para o espanhol. Não introduz muita quisa". Muitas pesquisas são publi- coisa nova e interessante. cadas, mas quase nenhuma sobre o cur- v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 9
  • 6. ENTREVISTA rículo da Formação de Professores. Os dão aulas juntos para os estudantes da professores fornecem oportunidades universidade. Tentamos criar uma cul- para aqueles que estão nas universi- tura de pesquisa nessas escolas, com dades pesquisar, mas não são vistos pessoas examinando sua prática. É algo como fontes de teorias e conhecimento. diferente do estudante vindo para as Algumas pessoas, inclusive eu, estão aulas e voltando para casa, é muito mais tentando trabalhar na direção de algo baseado na escola e no contexto da mais equilibrado entre o conhecimento comunidade em que as escolas estão. acadêmico e o conhecimento dos que estão na prática. Trazemos professores PP: Então o senhor considera que para falarem sobre o que sabem, assim está havendo uma mudança significa- como pedimos aos estudantes que leiam tiva em direção à prática na for- coisas que os acadêmicos escreveram. mação de professores? Na verdade, peço a eles que leiam Ken Zeichner: A maior parte dos coisas que os professores escreveram. programas de formação de professores Meu gabinete está cheio de estudos que dos EUA está indo nessa direção: todos professores fizeram nas escolas aqui de tentando repensar como universidades e Madison. A idéia é proporcionar aos escolas podem se juntar para o desen- estudantes uma visão mais ampla. Os volvimento profissional de professores. professores não são apenas pessoas que Parte disso pressupõe uma mudança nas têm uma prática, no sentido restrito, universidades, de modo que não haja mas pessoas que produzem conheci- punição para professores universitários mento sobre educação e que influenci- que passam tempo nas escolas e comu- am políticas. nidades. Neste momento, temos um sis- Existem algumas parcerias entre tema em que, quem fizer isso vai universidade e escola que trabalham destruir sua carreira profissional. A buscando novas alternativas, tanto para idéia é mudar as regras e, se as pessoas a preparação inicial quanto para a for- fizerem bem esse papel nas comu- mação continuada de professores e co- nidades, elas também terão promoção e participação em pesquisas. Geralmente, conquistarão estabilidade no emprego. isso ocorre em escolas públicas – eu A mesma coisa para as pessoas das mesmo trabalhei com quatro das esco- escolas; elas não são recompensadas las mais pobres de Madison. Lá nós por seu envolvimento com a educação temos alguns cursos para futuros pro- de professores. De certa forma, elas fessores, nos quais os professores da sofrem um tipo de ostracismo na sua escola e os professores da universidade cultura escolar: "quem você pensa que 10 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
  • 7. ENTREVISTA é, dando aula em um curso de universi- tros lugares. Mas esse conceito tem dade?". Em ambas as culturas, há uma sido, muitas vezes, implementado de necessidade de olhar as coisas de modo forma mecânica. Eu diria que muito do diferente. Além disso, a comunidade que tenho falado são idéias não com- deve ser envolvida. O simples fato de partilhadas por muitos programas que estagiários e professores trabalharem formalmente aderem à idéia de profes- juntos, em cooperação, não quer dizer sores reflexivos. Há programas que que os pais estejam tendo voz. usam essa retórica e utilizam pacotes Mas existem programas nos quais a completos, com fitas de vídeo e livros, comunidade possui um papel destacado sobre ensino reflexivo para educação de e parte significativa dos estudantes está professores a partir de modelos que aprendendo a ser professor trabalhando reduzem essas idéias a um conceito em comunidades, vivendo em comu- estritamente técnico. Muito pouco do nidades. A tradicional separação entre que eu disse está representado nisso. Formação de Professores e prática, Temos de tomar cuidado com a assim como a idéia de que os profes- linguagem empregada. Muitos pro- sores são meros implementadores, e gramas falam de educação de profes- não produtores de conhecimento, estão sores para justiça social, mas eu sou sendo repensadas. É preciso superar a cético em relação a muitos deles. É visão, historicamente dominante, do muito fácil usar esse tipo de lin- professor como mero técnico. guagem e é preciso ver o que estão Isso não ocorre apenas nos EUA, realmente fazendo, onde os estu- mas em todo o mundo. A grande luta na dantes fazem seus estágios, como Namíbia atualmente é investir nos ensinam, como eles se relacionam profissionais e afirmar a idéia de que com os pais etc. As noções de ensino não é necessário dar aos professores reflexivo, pesquisa-ação, portfólios e materiais com scripts, com todos os outras, ao menos nos EUA, estão passos a seguir, pois eles têm cérebros e sendo implementadas de forma muito podem ser criativos, mesmo quando não técnica, com noções muito limitadas possuem formação acadêmica. sobre o papel dos professores. Assim, as minhas idéias não coincidem com PP: Essa idéia está ligada ao conceito o que ocorre, hoje, ao menos nos de "professor reflexivo"? EUA. Ken Zeichner: Esse é um conceito que tem sido usado em muitos progra- PP: Pode-se usar o conceito de forma mas nos EUA e crescentemente em ou- diferente? v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 11
  • 8. ENTREVISTA Ken Zeichner: Daniel Liston e eu A maior parte dos livros para progra- escrevemos dois livros juntos. O mas de educação de professores tem primeiro foi sobre o conceito de ensino um tratamento muito superficial de reflexivo, demonstrando que isso sig- ensino reflexivo, basicamente dizendo nifica coisas diferentes para pessoas que "refletir é bom, e se você é um pro- diferentes, indo além da simples idéia fessor reflexivo, é um bom professor". de que "reflexivo" é sempre bom, Isso não faz sentido. Tentamos ir além porque não é assim necessariamente. disso. Você pode ser mais reflexivo e preju- dicar mais as crianças. A pergunta não é PP: Em um de seus últimos artigos, o se os professores são reflexivos, mas senhor afirma que alguns dos traba- como estão refletindo e sobre o que lhos mais ambiciosos em pesquisa- estão refletindo. Há uma diferença ação hoje estão sendo feitos em países qualitativa entre refletir sobre racismo, em desenvolvimento. O senhor pode- amendoim ou queijo, por exemplo. Ten- ria dar algum exemplo? tamos ampliar o conceito de ensino Ken Zeichner: O melhor exemplo reflexivo, de modo que os professores para mim é a Namíbia, onde tenho tra- pensem sobre isso e vejam quais são as balhado desde 1994. É um trabalho com alternativas. educadores de professores, professores Parte do que introduzimos é a e estudantes-professores, na produção chamada perspectiva socioconstruti- de conhecimento sobre sua própria vista, que tende a ser marginalizada na prática. A estratégia geral é que o go- maior parte dos programas nos EUA. verno quer afastar-se de um sistema de Sei que no Brasil é diferente, há mais educação sob o controle da África do politização. Foi minha impressão. Todo Sul, que essencialmente mantém os mundo falava de política. negros em posição inferior. Está tentan- Nos EUA é o contrário. Ser político do implementar o que chamam de uma é visto como negativo. Não se quer que abordagem mais democrática e centra- os professores tenham uma ação políti- da no aluno, mais ligada com as comu- ca. Tentamos passar a idéia de que nidades onde os pais tenham voz e vez todas as coisas têm um conteúdo políti- no que está acontecendo nas escolas. A co, inclusive a reflexão. Esses livros estratégia para fazer isso é estabelecer estão circulando muito bem, sendo usa- uma direção geral e investir em pessoas dos em programas de Formação de Pro- no nível básico, pessoas que estão na fessores em todo o país. Nossa estraté- base, de modo a transformar suas práti- gia foi tentar fazer algo não superficial. cas. 12 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
  • 9. ENTREVISTA Com a pesquisa-ação as pessoas mos um conceito como educação cen- estão tentando compreender o que a trada no aluno, com todo o trabalho aprendizagem centrada no aluno sig- desenvolvido nos EUA, e se temos uma nifica na Namíbia, tanto nos programas sala de aula no norte da Namíbia, 80 de Formação de Professores quanto nas alunos e poucos livros, não podemos escolas. Você não pode dar aulas sobre usar o mesmo modelo dos EUA e a importância de envolver os estudantes aplicá-lo naquela realidade. Tem-se de na sala de aula sem que o mesmo ocor- criar algo que faça sentido no contexto ra nas universidades. E assim, em vez da Namíbia. de importar dos EUA algum modelo de aprendizagem centrada no aluno (é pos- PP: Nesta época de globalização, com sível comprar fitas de vídeo de algum a hegemonia neoliberal e conservado- modelo americano de aprendizagem ra, o governo do Brasil, como também centrada no aluno), eles decidiram os de outros países, tem atribuído à desenvolver algo em seu próprio con- educação um papel central para o texto, produzindo o que eles chamam modelo de desenvolvimento proposto. "educação baseada no conhecimento da Como o senhor vê a Formação de Namíbia". Eles estão criando seu Professores nesse contexto? próprio conhecimento em educação, na Ken Zeichner: Neste momento, África. Quando você forma pessoas pelo menos aqui, o governo está tentan- para ensinar, você tem livros escritos do usar a Formação de Professores por africanos e pesquisa feita por como parte de sua estratégia, que inclui africanos. muitas formas de controle e novas Parte disso é interessante e rele- demandas. É uma abordagem muito vante, mas ainda não é inteiramente conservadora. Aqui em Wisconsin e em africano. Não há muitas oportunidades outros estados, temos padrões a serem para publicação lá. Editei um livro apre- atingidos e temos que mostrar ao Esta- sentando estudos produzidos por eles do que os estudantes possuem determi- que mostram tentativas de implemen- nadas competências. Mas há muito tação de educação democrática centra- espaço de manobra. Podemos agir ensi- da no aluno. Esse é um exemplo a par- nando professores a problematizar, tir do qual outras pessoas podem como parte do currículo, essa visão de avançar, acreditando que essas reformas escola que serve à economia global. são melhor descritas por pessoas que Não sou totalmente pessimista fazem o trabalho. Eles estão criando a sobre o futuro. Temos de lidar com a reforma e implementando-a. Se tomar- Formação de Professores numa nova v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 13
  • 10. ENTREVISTA realidade, que inclui testes padroniza- necessidade de olhar as coisas do lado dos, rankings, avaliação, relatórios. Há de fora e levantar questões de outro muita coisa acontecendo nas políticas ponto de vista, mas deve existir mais de educação, no sentido de preparar tra- envolvimento das universidades com a balhadores para a economia global. Formação de Professores. Apesar disso, vejo muitas possibili- dades para a criação de alternativas. PP: Diante de todos esses problemas A grande questão é que a Formação que estão relacionados com a univer- de Professores não recebe a importân- sidade e as comunidades locais, como cia devida para que se façam as coisas o senhor acha que os professores que precisam ser feitas, que podem ser podem formar-se usando essa pers- feitas. Não é só um problema de gover- pectiva crítica e reflexiva? Quais são no ou de políticas que está nos impedin- as rupturas e os espaços possíveis? do. Há espaço para fazer o que deve ser Ken Zeichner: Para isso acontecer feito. O problema é que no ambiente da é preciso que haja uma conexão estreita universidade as pessoas não são recom- entre a Formação de Professores na uni- pensadas por fazerem um bom trabalho versidade com as escolas e as comu- na educação de professores. Na ver- nidades. Não deve haver atividades dade, há uma espécie de punição para acadêmicas isoladas, em que as pessoas quem utiliza seu tempo nas escolas com somente vão para as universidades e os professores. Além disso, a Formação assistem aulas sobre mudança social. É de Professores tem um status muito preciso estudar as coisas em contexto. baixo nas universidades. Você não se Talvez seja essa a maior mudança torna famoso só por fazer um bom tra- necessária. Para isso, os professores balho em Formação de Professores. Na devem sair da universidade e passar maioria dos casos, f icamos com a mais tempo nas escolas, as quais pre- impressão errada de que o trabalho real- cisam estar conectadas com as comu- mente bom é somente o das pesquisas. nidades. Muitas escolas em áreas Mas isso não é verdade. pobres são como fortalezas: os profes- Muitas pessoas que pesquisam sores entram e saem da escola, não sobre Formação de Professores não tra- vivem lá e não têm compromissos. balham com Formação de Professores. Mas isso não requer somente uma Eles escrevem coisas interessantes, mas mudança individual. A solução não é acho que não reconheceriam um Pro- escolher individualmente professores e grama de Formação de Professores se dar a eles meu livro Reflective Teaching esbarrassem num. Claro que há uma (Ensino Reflexivo). O que fazemos é 14 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.6 n.34 • jul./ago. 2000
  • 11. ENTREVISTA isso: dar textos que levantam idéias compreendem. Esses textos fazem-nas críticas para serem lidos. Isso é o que é se sentirem pouco inteligentes. Isso me feito na maior parte das salas de aula preocupa, porque uma das coisas que nas universidades. Isso não vai mudar tentei fazer ao longo dos anos foi tornar nada. A mudança tem que ser institu- meus textos acessíveis a pessoas que cional. estão se formando como professores. Muitas das idéias de autores em PP: Assim como em outras partes do educação são extremamente impor- mundo, no Brasil pesquisadores e tantes para o dia-a-dia dos professores. educadores estão discutindo diferen- Meu projeto tem sido tentar integrar tes visões sobre educação. Como se algumas dessas grandes idéias a um pode pensar a relação entre a área de contexto prático dos professores, de Formação de Professores e as visões maneira que eles percebam a relevância críticas contemporâneas? disso. Se as idéias das quais tratamos Ken Zeichner: Muito do trabalho são tão importantes, devemos ser crítico atual parece ser compatível com capazes de apresentá-las de uma a pesquisa e a Formação de Professores. maneira que não afaste, automatica- Mas vejo o mesmo problema de isola- mente, parte dos professores. • mento do qual falei antes em partes desta entrevista. Na minha última viagem a Namí- bia, pediram-me que usasse um longo texto para falar a formadores de profes- sores sobre coisas muito importantes: pós-modernismo, feminismo e o que tudo isso significa para a Namíbia. O que aconteceu é que as pessoas não se empolgaram com aquele texto. A bi- bliografia acadêmica que trata dessas questões não é, geralmente, dirigida a pessoas que trabalham nas escolas. O que há é uma conversa interna entre acadêmicos. Vejo muitas pessoas – pes- soas inteligentes – recusando-se até a ler alguns desses materiais, porque eles estão numa linguagem que elas não v.6 n.34 • jul./ago. 2000 • PRESENÇA PEDAGÓGICA • 15