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  1. 1. “A noção de que o fim pode chegar amanhã, que o filme termina, parece-me importante”, diz Nuno Lobo Antunes JANEIRO 09 GINGKO 32
  2. 2. EU MUDEI SINTO MUITO NÃO TIRA FÉRIAS DA VIDA PORQUE DESPERDIÇAR TEMPO “É COMO DEITAR ALIMENTO FORA”. INQUIETO, NUNO LOBO ANTUNES DEFINE-SE COMO UM SOLISTA NUMA PERMANENTE PROCURA PELA SUA ORQUESTRA. ESPECIALISTA EM NEUROLOGIA PEDIÁTRICA ACREDITA QUE AS CRIANÇAS NASCERAM PARA SER FELIZES. ELE TEM FEITO A SUA PARTE PARA QUE ASSIM SEJA. TEXTO RITA PENEDOS DUARTE FOTOS PAULO CASTANHEIRA/AFFP A 10 de Maio de 1954 nascia, bia-Presbyterian Medical Center, prematuramente, o quinto dos seis em Nova Iorque, nasceu um livro. É irmãos Lobo Antunes. Nuno bebeu essa obra, testemunho duro e sofrido das influências familiares e seguiu da sua experiência com doentes Medicina, como o pai e os irmãos. oncológicos, que serve de mote à A procura por desafios cedo o nossa conversa. Em Sinto Muito, levou a explorar outros ares. Não só que já vai na quinta edição, partilha partiu, mais do que uma vez, para graças e desgraças, batalhas ganhas os Estados Unidos, onde estudou e perdidas. Era um livro necessário, e trabalhou, como fez incursões na indispensável até. Para colocar um província portuguesa. Do labor soli- ponto final nessa fase da sua vida. tário no interior do país não guarda Para que, agora, possa entregar-se to- saudades, se estas forem tomadas talmente a projectos como o CADIn, “como a vontade de voltar e repetir, Instituição Particular de Solidarieda- ou tornar a esse tempo para encon- de Social que procura a integração trar a satisfação que não se vê no na sociedade das crianças e jovens tempo presente”. Das viagens com perturbações do desenvolvimen- ao outro lado do Oceano e da to. Um espaço para novos começos, sua experiência no Colum- segundas oportunidades. JANEIRO 09 GINGKO 33
  3. 3. EU MUDEI “Eu chamo-me Nuno. Esta pessoa lo interior do receio de não ser capaz, bia, nos Estados Unidos, ajudou-me que Eu sou modificou-se ao longo ou de não ser tão bom. E, na verda- a ter melhor noção das minhas ca- da vida”, é assim que se apresenta de, o meu percurso académico inicial pacidades e da minha competência. numa passagem do seu livro. As foi medíocre. Não reprovei, mas Mas foi algo que chegou tarde. experiências que partilha nesta obra fui mediano, de acordo com o que ajudaram a modificá-lo? esperava de mim próprio. Penso que Diz no livro que “é preciso acreditar”. Claramente que sim. Mudaram-me o encontro com António Damásio foi Acreditou nos outros, da mesma de muitas maneiras: no conheci- fundamental na viragem da crença forma como acreditaram em si? mento do que são as pessoas que nas minhas capacidades. Acho que é preciso voltar a acreditar se cruzam connosco todos os dias nas pessoas e nos afectos. A mi- e que, quando colocadas perante Quando é que isso aconteceu? dramas pessoais, são capazes de Logo nos primeiros anos da Faculda- se transcender e de se portar como de de Medicina. As minhas classifi- heróis de carne e osso. Levaram-me cações subiram de forma estrondosa. a acreditar nas pessoas e no seu Nos últimos anos, devo ter sido um potencial de coragem e de amor. Mas dos melhores alunos do meu curso. transformaram-me também porque Além disto, o sucesso numa universi- me deram uma melhor percepção dade tão difícil como era a da Colum- daquilo que é supérfluo e do que é importante na vida. Por exemplo, neste ponto da minha vida custa-me desperdiçar tempo. É como deitar alimento fora. A que é que aprendeu a dar mais importância? Aos afectos e às as pessoas comuns, ao seu potencial interior quando são chamadas para grandes exigências. Sente-se privilegiado por ter vivido estas experiências? Sem sombra de dúvida. Mas, e para alimentar a minha auto-estima, posso dizer que também é preciso saber apreciar. Neste momento da vida Na introdução ao livro refere que a custa-lhe desperdiçar tempo. sua mãe lhe disse um dia que, de si, “É como deitar fora alimento” não queria mais do que um 10. Con- tudo, termina o curso de Medicina com 17 valores. Foi para lhe provar que conseguia mais? A leitura que faço do meu próprio percurso é, naturalmente, subjecti- va. Eu tive de lutar não só contra os obstáculos naturais que a vida nos coloca, mas também com o obstácu- JANEIRO 09 GINGKO 34
  4. 4. menos oportunidades. Sinto que há mais forças a puxarem para o lado negativo, a não serem estimulantes. É mais difícil as pessoas realizarem-se. Mas, ainda assim, voltou. Porquê? Por várias razões. A mais importante delas foi porque me apaixonei. Foi uma decisão de coração, não foi uma decisão de cabeça. E, fora o lado pessoal, está arrepen- dido? Não. Como está na introdução ao livro, “Voltei. Fiz bem”. Não estou arrependido. Estou numa fase fantás- tica da minha vida: tenho duas filhas encantadoras, uma vida afectiva que me preenche e este projecto fan- tástico que é o CADIn, cujo sucesso resulta do trabalho da equipa de que faço parte. Além disso, o livro foi extraordinariamente bem aceite. Para mim foi uma ousadia. Sendo um Lobo Antunes, é muito complicado ser confrontado com um eventual fracasso na escrita. Mas não foi um nha experiência americana é muito fracasso, pelo contrário. comunitária. Nova Iorque é muito cosmopolita, mas é também uma Falamos aqui da vida e no seu livro cidade de pequenas aldeias, em que fala-se de morte. É preciso reflectir cada quarteirão é um microcosmos sobre a morte, para falarmos da vida? de cumplicidades, muito protector. Acho que sim. Mas falo por mim. A Por outro lado, os EUA é um país minha experiência de vida foi, durante de segundas oportunidades, onde é bastante tempo, lidar com a morte. E possível acreditar. É difícil emigrar a morte é uma baliza. Uma presen- APRENDI A DAR e quem emigra para lá são pessoas ça infraconsciente mas que com IMPORTÂNCIA muito especiais. Viver nesse caldo, facilidade vem ao de cima. Temos um que se percebe no ambiente das tempo limitado. Os ingleses dizem ÀS PESSOAS ruas, que influencia a forma como as “during my lifetime”, durante o meu COMUNS, AO pessoas se relacionam. Lá, os nossos tempo de vida. Nós dizemos “durante SEU POTENCIAL competidores são os primeiros a reconhecer quando algo é bem feito a minha vida” e parece mais geral. Parece que não tem princípio nem INTERIOR QUANDO e a dar força. fim. Essa noção de que o fim pode SÃO CHAMADAS E em Portugal, não sente o mesmo? chegar amanhã, que o filme termina, parece-me importante. Está presente PARA GRANDES Sinto menos. Sinto a inveja... Talvez nas minhas decisões e na forma como EXIGÊNCIAS por ser um meio mais pequeno, com me relaciono com os outros. JANEIRO 09 GINGKO 35
  5. 5. O livro Sinto Muito permitiu ao médico ajudar a fechar um ciclo e iniciar outro Perto dos quarenta anos deixou a mas também na disponibilidade pe- estabilidade e um filho e partiu para rante o doente, na procura constante NÃO SOU UMA Nova Iorque. Foi um acto de cora- da melhor solução, de não largar as PESSOA DE FÉ. gem ou uma inconsciência? pessoas, de não as deixar. Acho que foi um acto de coragem. SOU ALGUÉM QUE Inconsciência não foi, seguramente. Nasceu prematuramente, teve uma SE INTERROGA, Foi um desafio, mais uma vez. Pare- peritonite em pequeno e esteve uma ce que preciso de desafios constan- vez hospitalizado. Ter sido doente, O QUE NÃO É tes para me manter vivo, no sentido ajudou-o a tornar-se melhor médico? EXACTAMENTE de viver a vida com intensidade. Foi a noção clara de que se permane- De pequeno não tenho grande memória mas, quando estive em O MESMO cesse em Lisboa durante mais uma Nova Iorque, sofri um acidente que década e depois olhasse para trás me poderia ter sido muito grave. Nessa vista foi seguramente útil para uma arrependeria de não ter partido. Não altura percebi melhor alguns dos melhor compreensão do que é o sen- queria que isso sucedesse. comportamentos que nós, médicos, tir do doente. A verdade é que todos por vezes achamos difíceis de expli- somos humanos … Quer na província onde já viveu e car: exigências mimalhas, a insistên- trabalhou, quer no Columbia-Pres- cia em ter uma enfermeira presente É uma pessoa de fé? byterian Medical Center, o médico é assim que é chamada. Um médico Sou uma pessoa de esperança, descrito como estando muito perto lida todos os dias com estas questões sou um optimista. Só se for nesse do divino. É a “mão de Deus”. Esta em ambiente hospitalar e parecem sentido. Porque, de resto, sou uma não é uma grande responsabilidade? descabidas. O curioso é que, quando pessoa que se interroga, o que não Acho que sim, mas não podemos vi- estive internado, tive exactamente é exactamente o mesmo. Defino-me ver com esse peso sempre presente. as mesmas exigências. Quando não como agnóstico, o que pressupõe a Faltaria o ar, e inibir-se-ia a acção. eram satisfeitas deixavam-me ansio- existência da dúvida. A existência da Há um imperativo ético não só na so e achava que o serviço não estava dúvida pressupõe momentos de fé. forma como se pratica a Medicina, a ser competente. Desse ponto de Acho que é isto. JANEIRO 09 GINGKO 36
  6. 6. EU MUDEI o director do hospital disse-lhes que aqui. O CADIn não sou eu, isto é um ESTE LIVRO existia ali um código de vestir muito trabalho de equipa. TEVE A FUNÇÃO simples: “As vossas avós têm de sentir orgulho de vocês”. Como é trabalhar com crianças CATÁRTICA doentes? DE ME LIBERTAR É uma questão de respeito para com Como pediatra, durante toda a minha DO PESO DE o doente? Sim, até porque muitos doentes vida trabalhei com crianças. Era isso o que eu queria. Não penso que tra- ALGUMAS oncológicos têm já certa idade e, balho com crianças doentes. Penso DORES portanto, a sua visão do médico e da que trabalho com crianças a quem forma como se deve apresentar tem vou ajudar. de ser respeitada. É nesses pequenos detalhes que se cria segurança ou São doentes especiais? A determinada altura, no livro, pare- insegurança. São pessoas especiais, mas não são ce que fala com os mortos. É porque todas iguais. Uma das coisas interes- acredita que há algo para além da Disse, em determinada altura, que santes em relação à pediatria é que morte, ou fala com a memória dos “Portugal é um país de solistas e se lida, talvez de forma mais intensa doentes? não de orquestras”. Considera-se um do que noutras especialidades, com É para poder continuar a falar com solista à procura da sua orquestra? um maior conjunto de intervenien- eles. Para poder dizer o que não foi Você disse agora uma coisa que eu tes. Lida-se com a família, com as dito a tempo e abraçar agora quem nunca tinha conseguido explicar tão implicações da relação da criança não pude abraçar enquanto médi- bem. A minha ida para os Estados com a família e com as questões que co, porque a distância profissional Unidos foi a ida do solista à procura se prendem com o seu microcosmos, muitas vezes impossibilita o contacto da sua orquestra. Sem sombra de que é a escola. E depois com a socie- físico próximo, inibe a revelação dos dúvida. E em Portugal, sobretudo dade em geral. É uma especialidade afectos e, de certo modo, mantendo com o CADIn, sou um solista que cujas implicações, embora se tenha a assepsia necessária à relação técni- quer ajudar a formar uma orquestra. a atenção focada naquela criança, ca, não permite proximidades. Coisas são sempre mais vastas. ficam por dizer. E já disse que quer tornar este no melhor centro do mundo. Está nesse Fala dessa relação médico/paciente e caminho? parece-me que, no livro, faz algumas Acho que é possível, mas não sei se críticas à forma como ela se processa é isso o que interessa. A medalha em Portugal. Há diferenças relativa- de ouro não me interessa, mas sim mente ao que acontece nos EUA? o percurso da melhoria constante. São generalizações e essas são sem- Mas gosto também de sublinhar que pre perigosas. Nem toda a medicina sou uma das pessoas que trabalha americana é fantástica, e nem toda a medicina em Portugal é sofrível. Trabalhei nos melhores hospitais de Nova Iorque. É bom que se tenha essa noção. Aí, sim, sinto que há uma cultura, até de ensino médico/ doente que não existe em Portu- gal. Uma cultura de respeito pelos valores do doente. Um exemplo que cito no livro parece-me importante. Quando os jovens internos chegaram, É da sua experiência no Presbyterian Hospital, em Nova Iorque, que Nuno Lobo Antunes fala nesta obra JANEIRO 09 GINGKO 37
  7. 7. EU MUDEI CADA TEXTO Por que razão escolheu a neuro- O livro tem sido um sucesso, já vai na -oncologia pediátrica? É VERÍDICO. quinta edição. De que é que acha que Fui para Medicina porque queria DEIXOU-ME as pessoas vão à procura? ser pediatra. As ligações de ordem Acho que o livro tem qualidades. É um familiar e o facto de ter trabalhado EXAUSTO NO FIM, bom livro. Tem a qualidade primeira, com António Damásio puxaram- FEZ-ME VIVER do meu ponto de vista, de ser genuíno. me para o campo da neurologia. E depois fez-se luz. Percebi que o OUTRA VEZ COM Ao falarmos de coisas como os sen- timentos de um médico, as pessoas que fazia sentido era juntar as duas INTENSIDADE. percebem que não é trabalhado no coisas: a minha vocação inicial e as ALGUNS sentido de comover, plastificar algo e questões relacionadas com o sistema torná-lo diferente do que é. Cada texto nervoso. Daí a neuropediatria. E fiz PARÁGRAFOS é verídico. Mas cansou-me muito, neuropediatria geral durante muitos FORAM ESCRITOS deixou-me exausto no fim, fez-me viver anos. Quando fui procurar a minha orquestra tive de pensar quais eram A SOLUÇAR outra vez com intensidade. Alguns parágrafos foram escritos a soluçar. os campos possíveis. Um deles era a neurologia neonatal, os prematuros, Diz a certa altura que as crianças nas- um campo fascinante e que estava ceram para ser felizes. E os adultos, em grande desenvolvimento. O outro onde é que os põe? era a oncologia, até porque trabalhava E conseguiu? Não sei bem. Quando o meu pai fez a no IPO e sentia que não tinha nem a Não. Em boa verdade, não. Penso sua alocução final de jubilação falava preparação nem o treino necessários que cada um tem uma resposta nisso e dizia que o problema estava, para fazer bem feito. individual. Há quinze dias estive com certeza, na educação: que todas em Nova Iorque com a Mary e com as crianças nasciam brilhantes e, na À enfermeira Mary, uma das persona- outros amigos com quem trabalhei, maior parte, acabavam adultos tontos, gens de que fala no livro, pergunta “e e que continuam activamente no para não dizer pior. O que falhava no a dor, onde a pomos”? Como é lidar campo da neuro-oncologia. Quantas caminho era a educação. Isto é, se com a dor de perder estes pacientes, vezes olho para eles e pergunto-me calhar, a resposta mais próxima da que se encontram numa fase tão como é que eles digerem, na sua realidade mutável. Se não for a lei inicial da vida? vida quotidiana, esta presença cons- biológica que nos faz passar de génios Essa não é uma pergunta de retórica, tante do sofrimento. Que coisas es- a tolos então, o que está no meio é, porque ela foi realmente feita. E condidas fazem ou pensam de forma seguramente, a educação. mais do que uma vez. Perguntei à a lidar com isto? Não vejo. Este livro Mary, porque é uma irlandesa cató- teve a função catártica de libertar-me De qualquer forma, pelo menos neste lica, com fé de carroceiro (eu tinha do peso de alguma dessas dores. momento, sente-se feliz e não tolo. uma tia que, quando eu era adoles- Permitiu-me comunicar, falar de Sinto-me feliz e, eventualmente, com cente e lhe apresentava questões novo com essas pessoas, dizer-lhes momentos de tolice. Acho que se pode teológicas muito complexas, ela dizia coisas que ainda não tinha dito. ser ambos. sempre: “Comigo não vale a pena, meu querido, que eu tenho uma fé De acabar conversas? de carroceiro”). Quando lhe fiz a Sim. De “bring closure”. É esta ideia pergunta, queria mesmo que ela me de encerrar que é importante. O facto respondesse, queria que me transmi- de pôr estes assuntos no papel não co- tisse a sua fé. locou um ponto final mas, de alguma forma, trouxe uma “closure”. E permi- tiu-me avançar para outras coisas. JANEIRO 09 GINGKO 38

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