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Ando, pois – e isto agora em forma de uma penitente em confessionário – à procura doFOGO: da produção simultânea de calor,...
Júlia entrou no banheiro, lavou as mãos sem olhar-se no espelho, secou-as nas lateraisda saia. O queixo tremeu, nunca poss...
Exorcista, pedicure e madame. Estas, as três palavras que definem no twitter aescritora brasileira Andréa del Fuego de 37 ...
desamar, uma despedida, uma ruptura. E foi o livro de um sofrimento profundo, porqueescrever não tem nada de gostoso. É um...
Nesta obra premiada, cujo primeiro nome foi “Serra Morena” há um estilo apurado,cuidado, com descrições que se embalam num...
Depois de perderem os pais, fulminados por uma espécie de fogo da natureza, um raio,os irmãos separam-se. O mais velho Nic...
Andrea estreou-se nos contos eróticos. Um erótico a roçar, o realismo mágico, imberbe,ingénuo. Começou a fazer crónicas pa...
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Tinha paixão andreadel fuego-vanessarodrigues

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Comunicação elaborada pela jornalista Vanessa Rodrigues sobre a escritora brasileira Andrea del Fuego, prémio Saramago 2011, com o livro "Os Malaquias", para o Colóquio Tinha Paixão sobre Literaturas Brasileira e Africana, realizado nos Maus Hábitos, Porto, a 14 de Maio, 2012.

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Tinha paixão andreadel fuego-vanessarodrigues

  1. 1. - Andrea del Fuego[.por Vanessa Rodrigues.]vnrodrigues@gmail.comTexto para o Colóquio Tinha Paixão de Literaturas Brasileira e Africana.14 de Maio de 2012O fogo é uma serpente, bruxuleante - labareda que lambe o ar - e perto do papel ficaansioso, visceral, numa obsessão compulsiva, com transtorno pirotécnico, até que queima,funde-se no papel, ziguezagueando o ar; deixa cheiro de ardência em toda a casa (assimcomo há livros que nos queimam, ardem lentamente, ou nos atiçam chamas aopensamento); deixa esse odor, bronzeado pelo leve queimado, talvez um pouco de fuligemno final, coisa mínima, e a acre fragrância de uma página que perdeu a vida.Já experimentaram queimar uma folha de papel? Não vos deixa a ideia de poder?, derecomeço, de impermanência, mas ao mesmo tempo de um alívio infinito, como se otempo meditasse por nós? No fim, neste rescaldo em que se mataram as fibras, em que secarbonizou o hidrogénio da celulose, tudo o que resta é cinza...E para podermos chegar à cinza da literatura (fragmentos do que resta que pode serrecomeço, transformação) temos dois caminhos, ou pelo menos, aqueles que agoravislumbro, nestes dias de Primavera a cheirar-nos: a vida ensina-nos a destrinçar a boa damá literatura, será, então, a primeira impressão, para uma repulsa ou combustãoemocional, a PAIXÃO ;… ou, por outro lado, como o escritor norte-americano Ray Bradbury sugeriu fazermos,num romance distópico sobre o FOGO deitado à Literatura, para romper com a memória, aHistória, e assim atestar como morta a continuidade do património intelectual dascivilizações, como se faz em dias de ditadura: deitamos fogo aos livros e deixamos queardam, em crescendo, até atingir a temperatura ideal para serem queimados, esseFahrenheit 451, queimando as palavras, a ardência e o peso delas, algumas maisinflamáveis e inflamadas que outras, seguramente muitas combustíveis dos nossosdesentendimentos - porque entendimento é traduzir a linguagem de dentro de nós para omundo daqui – e o cérebro é muito mais rápido, criativo e imenso do que a nossa forma desintetizar a vida em milhões de palavras. E o infinito é apenas o começo.
  2. 2. Ando, pois – e isto agora em forma de uma penitente em confessionário – à procura doFOGO: da produção simultânea de calor, luz, fumo e gases resultantes da combustão desubstâncias inflamáveis; lume. Podemos mesmo chamar-lhe uma “flor de obsessão”: aindanão desabrochou. Como diria o escritor brasileiro Nelson Rodrigues, nessa mesma crónicacom este nome: Flor de Obssessão: “o que seria de nós, se não fossem três ou quatro ideiasfixas? Não há santo, herói, génio ou pulha sem ideias fixas. Só os imbecis não as têm.”Ando, pois, fixada nisto: no Fogo na Literatura, no fogo na prosa, mas, essencialmente, noFOGO das palavras dela: e finto a redundância do nome da escritora brasileira: Andrea delFuego. É um combustível, de rastilho fácil, incendiando a prosa com a lírica. E eu transeicom ela – com devido respeito: resta dizer, para sossegar espíritos mais inquietos aí naplateia: não me queimei. Isto porque, sabemos, nós fazemos amor com o escritor sempreque o folheamos, despimos. Vemos-lhe a anatomia. Dissecamos o corpo do livro à procurado escritor. A anatomia dela é, pois, viscerosa, íntima, seca, curta, uma síntese inteligentena economia das palavras, tem uma certa musicalidade:Acompanhem-me, num excerto do livro “Os Malaquias”, como quem põe toros secos paraa fogueira:“Júlia foi ao banheiro, nem cheiro de Dinorá. Trocou as fraldas do menino, que chamoude António por causa do irmão do meio, o que brincava com ela. Tomou um café, foi atéao guichê. Ainda não tinha ônibus directo para a Serra Morena, sendo lá um lugar depassagem e sem rodoviária, a situação era a mesma de outros tempos. Teria que descerna estrada e seguir a pé com António no braço.Júlia amamentou o filho num canto sem tantos passageiros. Ajeitou a manta, a mala dobebé, ficou na porta do banheiro. Via as mulheres entrando, indo e vindo, umas maisapertadas, outras para fazer hora. Umas moças, outras senhoras, escolhia pelos olhos,pedia a hora e ouvia a voz, se dava confiança. Eis que vinha a senhora de roxo, agora demarron. Não reconheceu Júlia, mais madura e segura. Ficou atenta ao bebé, foi seaproximanfo, Júlia beijou a testa de António, benzeu-se e tomou fôlego.-A senhora pode segurar aqui pra eu ir no banheiro?A de marron nem olhou para o rosto de Júlia, pegou António com jeito de quemtrabalhava em berçário.-Pode ir sossegada.
  3. 3. Júlia entrou no banheiro, lavou as mãos sem olhar-se no espelho, secou-as nas lateraisda saia. O queixo tremeu, nunca possuiu o que era dela, não ia ser agora. Saiu dobanheiro, a mulher de marron não estava mais, nem António.Foi ao guichê de braços soltos, uma bolsa nos ombros.-Tem passagem para o mar? – O mar é grande, minha senhora, que lugar do mar? – Qualquer um. – Tem pra Santos, onde tem porto. – Vê umaIa voltar sozinha, como saiu, mesmo que o destino não fosse a Serra Morena. O ponto deorigem não foi a paisagem, mas o estrondo na casa dos pais. Disseram que no mar caemmais raios, podia ser atingida por um e voltar a casa.”...Contudo, há uma confissão que tenho de vos fazer, nesta procura pelo Fogo, nestaobsessão a que me propus para estar aqui hoje, até para dar textura ao tecido ardente.Tudo começou por causa do computador. Liguei o Skype e, do outro lado do ecrã, apareceum cabelão encaracolado, curto, volumoso, dois olhos esbugalhados e muito abertos, decores diferentes, prontos a ver mundo em vários ângulos; uma cara cheia, sorridente, defala-gargalhada, daquelas de quem tem humor até nos pontos finais, muito embora nasvírgulas do discurso, além de rendidos, estamos já com a mão na barriga a achar que rir émesmo o melhor tonificador para manter uns abdominais efeito tanquinho.Andrea del Fuego surgiu radiante, leve, de óculos de massa, pretos, a esconder-lhe os olhosagudos e intensos. Em baixo, na época, o Francisco, o filho de agora dois meses, ainda davapontapés como forma de dizer que já existe no mundo, ainda que sob uma enorme bolsaamniótica. Andrea graceja muito, faz humor brasileiro, daquele de pôr a vida a dançar aosabor das palavras, sacando o sol das nuvens, como se realmente a tristeza além de semfim, não tivesse sequer início.Vislumbrei-lhe o quarto criativo, aquele onde surta, tem “piripaques” de criação... E,senhoras e senhoras era uma parede a cru, onde ela faz arder a prosa, onde incendeia, ondefaz o suplício da fogueira, a dança livre das palavras que se roçam friccionam, até pariremsentidos.
  4. 4. Exorcista, pedicure e madame. Estas, as três palavras que definem no twitter aescritora brasileira Andréa del Fuego de 37 anos. E só para que conste: ela é fogo de signo:Carneiro, ou Áries no Brasil, mas isto não interessa nada, apenas mais lenha para estaimensa lareira à nossa volta.Andrea Fátima dos Santos nasceu em São Paulo, com raízes de Minas Gerais, embora elaadmita que tem mais de portuguesa do que pensava. A prémio Saramago 2011, com o livro“Os Malaquias” é autora da trilogia de contos "Minto enquanto posso", aliás primeiro filholiterário, "Nego tudo" e "Engano seu". Escreveu também os juvenis "Sociedade da Caveirade Cristal" e "Quase caio". Integra, entre outras, as antologias "Os cem menores contosbrasileiros do século" e "30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira". Estáhoje aqui connosco porque agarrou o pulso à nova geração de literatura brasileira e, entrenós, está no sétimo lugar de livros mais vendidos a nível nacional pela editora Bertrand.No Brasil é editada pela Língua Geral. Cá pelo Círculo de Leitores. E anda há 4 anos aestudar Filosofia na Faculdade de São Paulo – uma forma de estruturar o pensamento e avida. É uma mulher de agarrar e ficar. É casada há 20 anos. Vive da Literatura e anda apodar um último romance escrito sob o mecenato de uma bolsa literária da Petrobrás.O resto vocês podem fazer Google e não precisam de mim para nada. Deixem-me por issodestravar a bossa nova que tenho na Língua. E, sim, o meu português é afectado, temalguma tropicalidade já fajuta– 5 anos de Brasil haveria de deixar marca profunda nestavossa serva, e eu gosto. Por isso, assumindo o pretensiosismo de que já fui vizinha deAndrea del Fuego, uma espécie de conterrânea, também eu quis perceber, como é que umaautora como Andrea, natural do interior de São Paulo, a viver na alucinação urbana deuma cidade como São Paulo, conseguiu ter a serenidade para escrever um livro tãotelúrico, com os pés enterrados na terra do interior de Minas Gerais.Foi um parto, lento, de sete anos, com papéis quase queimados pelo escuro das gavetas, aasfixia do mofo e a pior das mortes lentas e bifásica de um afeto: a indiferença e oesquecimento. Ah e esconder até não enxergar mesmo. Ela desistiu várias vezes. Deixou osgatafunhos perdidos em pastas de computador. Ficaram lá, jogados na incerteza. Talvezum dia ela pegasse neles, de novo. Pegou, aprendeu e sofreu com ele. Foi o livro que,segundo diz, a ensinou a escrever e a perceber que a Literatura não se ensina, aquela que éa marca, a voz de alguém, é um caminho solitário, autista, perturbado, deserto, ermo,asceta, onde ardemos sozinhos e chegamos a ter muita febre. Não há dicas: é um amar e
  5. 5. desamar, uma despedida, uma ruptura. E foi o livro de um sofrimento profundo, porqueescrever não tem nada de gostoso. É uma dor, um derramamento, uma disciplina mental,e, sobretudo, uma forma de criar problemas para os personagens, porque eles têm desuperar o criador. Ser melhor do que ele. Desafiá-lo a ser melhor e a enfrentar medos,limitações. Isto cansa, extenua qualquer um, uma espécie de meditação pela qual Andreapassou. É por isso que agora está em fase de refluxo. Louca para começar, realmente, umnovo romance, porque a fase de podar capítulos é uma forma de sair pela madrugada epassar de cabaret em cabaret, à procura do fogo da vida.O prémio Saramago, o ano passado, além do evidente reconhecimento serviu, confidencia,para lhe dar legitimidade pessoal de um caminho certo, depois, graceja, para provar àfamília que, afinal, ela não estava a ficar louca quando se isolava no canto da casa, comaquela parede crua, de há pouco, escrevendo umas coisas. Provou que afinal ela estava,pois, a criar.Mas para lá chegar, ao prémio, foi um longo caminho. Lentos passos, muita solidão e oefeito ermita que o processo da escrita exige, já vimos, sobretudo pela loucura de Sampa.São Paulo é uma esquizofrénica feliz: um plano sequência que nos improvisa ainda mais avida. Del Fuego, enquanto falávamos, citou, por isso, o escritor brasileiro: MarcelinoFreire: “Eu não escrevo sobre violência eu escrevo sob violência.Encafuou-se, por isso, numa casa em Ilhabela para reescrever “Os Malaquias” (sei queanseiam que lhes conte um pedaço da história, sejam pacientes, já lá vamos), ficouquietinha, isolou-se por 40 dias, sem dizer uma palavra, e, segundo conta, conseguiu umaconcentração vertical (com a mente, claro):faz-se assim: ela apanhou um elevador e foi descendo, descendo, descendo, seminterrupções – o telefone não toca, não há nenhuma chamado para nada, há uma certaobsessão que se esquece, mesmo, os chamados do corpo: uma fome e sede imensas. Lutou,porém, contra os borrachudos, esses mosquitinhos quase imperceptíveis que sãoresidentes nessa maravilhosa e paradisíaca ilha a norte de São Paulo, e que se encarregamde chupar pequenas quantidades de sangue da pele, deixando picadas impertinente, queempolam, de alergia, deixando o corpo num FOGO quase insustentável. “Os Malaquias”foram reescritos e revistos numa cama com mosquiteiro à volta.
  6. 6. Nesta obra premiada, cujo primeiro nome foi “Serra Morena” há um estilo apurado,cuidado, com descrições que se embalam numa narrativa formal, mas ao mesmo tempoque deixa essa voz, essa marca da Andrea: brincar com as palavras, bafejando-as de poesia,criando imagens, adornando a prosa com metáforas, sinestésica – criando esses universossensoriais de aromas, cheiros, paladares, cores, onomatopeias (posso jurar que ouço oranger da porta, o barco na água, os pensamentos dos personagens, como mastiga um ecaminha outro, o cheiro de café, a terra húmida.) Há luz, muita luz. Parece que é sempredia. E cheira a ruralidade. Cheira a terra vermelha, do ferro que abunda em Minas Gerais.Cheira a clorofila, a vacas, a porcos, aos panos a secar ao sol, cheira a água fresca e floresdo campo. Estamos pois no vale de Serra Morena.E eis os irmãos Malaquias, lançados ao acaso da vida, aos caminhos díspares edecisórios que a vida nos presenteia a partir deste e não daqueleacontecimento.“Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhasvibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiamem um quarto. Nico, Júlia e António em outro, na mesma cama, aninhados em forma deembrião.Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corposcontra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. Otrovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção aterra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargasinvisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a viacontraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai emãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceuo sangue a níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndiointerno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana eAdolfo.Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vasodilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Semafetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.”
  7. 7. Depois de perderem os pais, fulminados por uma espécie de fogo da natureza, um raio,os irmãos separam-se. O mais velho Nico, espécie de caseiro de um dono de fazenda; oirmão do meio, o anão, inspirado no avô de Andrea del Fuego, é rejeitado para adopção.A irmã, criada por freiras num orfanato, é uma nómada, migrante. Mas é precisoestarmos desligados do real para vivermos as figuras de estilo como realidade, ou, decerta forma, mergulharmos numa espécie de Andrea no País das Maravilhas. Ofantástico é roupagem que, às vezes, veste o romance, uma prosa que começa, pois, comum facto familiar pouco falado em casa. Uma espécie de silêncio que ganhou umageremia: ou melhor um fogo nos dedos e na inquietação. Ela partiu desse silêncio, apartir da orfandade do avô Nico.O raio aconteceu, também. É real!O resto é vertigem e tempo, alma e diabo no corpo, inquietações e um total líquidoamniótico, sempre pronto a rebentar para parir algo. Quem folheia “Os Malaquias” percebeque há um lago que se liquefaz, que escorre do livro, uma cachoeira, neste ritmo denarrativa que segue um fluxo. Literalmente, dentro da diegese do livro, há um vale que seráinundado por um rio. E nós chapinhamos nessas águas. Engolfamo-nos nela, capítulo-a-capítulo, que são autênticos poemas isolados.E que verbo seria, caso Andrea fosse um? Posso arriscar? “Queimar: com as palavras”.Para um autor estreante naquele que é considerada a Literatura nobre, Andreia queimacom as palavras pois tem um fôlego inteligente, pensado, estruturado, mas ao mesmotempo leve e erudito, sem ser hermético. Talvez seja porque a Filosofia, admite, a tenhaensinado a pensar, a desmontar as palavras, a tecer uma lógica na teia invisível de umatrama literária. E isso porque os personagens têm de impor desafio ao escritor, fazer-lhe avida negra. A Filosofia é um divisor de águas, de grande influência no controlo do texto:racionalizar para criar uma organização, dividir o problema em partes: o discurso dométodo, afirma, contundente, serve muito para a Literatura.Mas, meus caros, continuo à procura do FOGO. E sei, de fonte segura, que Andrea delFuego usou e abusou da Literatura. Estreou-se em 2004 com esse “Minto EnquantoPosso”, de que agora não gosta muito (o complexo que acomete a maioria dos escritoressobre as obras anteriores), justificando-o pela pressa de querer publicar, inerente à cidadeonde vive, São Paulo, e onde as coisas têm de acontecer rápido demais.
  8. 8. Andrea estreou-se nos contos eróticos. Um erótico a roçar, o realismo mágico, imberbe,ingénuo. Começou a fazer crónicas para a rádio, dando conselhos sobre sexo, drogas (massó afectivamente pesadas, como o Amor e a Paixão) e transformou, então o nome deFátima dos Santos, casto, imaculado, puro, quase virginal, para Del Fuego. Era toda umapasión latina a latejar. O vermelho que pulsa vestia-se de lingerie para pôr as ligas e asmeias rendadas na prosa. Estudou publicidade, fez produção para revistas, bastidores decinema e manteve um blogue durante algum tempo, onde denunciou um outro incêndiointerno: a fotografia. Queimou por isso com a luz, escreveu com ela imagens e apercebeu-se que a fotografia é irmã gémea do micro-conto: o momento congelado, onde ficcionamoso antes, acontecimento, e o que poderá ser depois. Uma espécie de beijo de Judas, umaontologia do tempo em suspenso, a repetição do infinito congelada, a repetição mecânicado que jamais se poderá repetir existencialmente diria o francês Roland Barthes. Umparticular absoluto, a Ocasião, o Encontro, o vazio, uma explosão congelada de umametamorfose. O micro-conto para del Fuego é esta relação curta com o tempo, a ficção e oreal imaginado. Outra espécie de Fogo na Literatura. E agora pergunto: já experimentaramqueimar uma fotografia? Rasgar, talvez, mas deitar fogo??? Não vos dá a sensação deapagar uma memória com o fogo? Talvez seja isto: agarrar o fogo como transformador,como a química do pensamento, como química digestiva, como química mutável. E talvez,então, na procura do Fogo, de qualquer Fogo, e neste especificamente, literário, como o deAndrea del Fuego, que há nela uma voz peculiar, um laivo de transformação latejante,talvez seja este, então, o Fahrenheit 451 que a Literatura faz em nós: o de transformar e nostornar obsessivos por palavras que se estendem a nós, que nos queima, e nos fazem arder,febris pela magia que a paixão literária tem.

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