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Fundamentos existenciais da
Pesquisa em Design
Frederick van Amstel @usabilidoido
Design de Serviços e Design de Experiências
DADIN - UTFPR, Brasil
www.usabilidoido.com.br
Sou um trabalhador científico localizado num país subdesenvolvido que
não dá prioridade à ciência para o seu desenvolvimento.
A minha condição existencial é o ponto de partida para as minhas
questões e projetos de investigação.
Quais são os objetivos das
ciências do design? Quem se
interessa por essas ciências? O que
pode ser feito com o conhecimento
produzido por essas ciências?
As pesquisas sobre opressão realizadas por Paulo Freire e outros tornou a
Educação e a pesquisa nas ciências sociais mais conscientes das
desigualdades estruturais da América Latina.
Por outro lado, a pesquisa sobre raça, gênero e cultura foi utilizada para
justificar a opressão de grupos sociais considerados inferiores (A
Redenção de Cam, 1895).
Como a ciência pode ser
projetada contra a opressão e a
favor da libertação?
O filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto (1909-1987) escreveu sobre as
relações existenciais entre ciência e design.
Para ele, o mundo em que vivemos é produzido socialmente por nossas
mãos. Não temos contato imediato com a natureza, mas sim através de
mediações.
Para produzir nossa existência e continuar existindo, precisamos dominar
as mediações entre nossa consciência e nosso mundo: linguagem, técnica,
ferramentas, design e muitas outras.
Vieira Pinto define a ciência como autoconsciência máxima possível em
cada cultura humana. Assim, ele reconhece que há uma forma de ciência
em todas as culturas, embora com outros nomes.
A autoconsciência expande o domínio das mediações empregadas pelo
trabalho para transformar o mundo. Por sua vez, a transformação do
mundo cria novas possibilidades de consciência.
Todo trabalho é científico, mas algumas formas de trabalho são
legitimadas como mais científicas. A colonialidade do conhecimento
estabelece hierarquias entre as pessoas através de dicotomias.
trabalho científico
trabalho intelectual
ciência pura
ciência desenvolvida
teoria
trabalho técnico
trabalho manual
ciência aplicada
ciência subdesenvolvida
prática
Para superar essas dicotomias, Vieira Pinto recomenda incluir a condição
existencial do pesquisador como parte do problema de pesquisa e também
como uma mediação metodológica.
Se reconhecermos que nossa condição é subdesenvolvida e que não
podemos fazer a mesma ciência que as metrópoles coloniais, podemos
então nos debruçar sobre os problemas de nossos povos.
A colonialidade do conhecimento nos leva a pensar que as soluções para
nossos problemas estão sempre em outro lugar, em outro tempo, mas
nunca aqui e agora.
Junto com as soluções estrangeiras vêm também os problemas
estrangeiros. Habituamo-nos a resolver os problemas científicos de outros
países e ignoramos as nossas próprias ciências.
Para descobrir o que é possível no aqui e agora, devemos entender as
origens históricas de nossos problemas. Eu utilizo o conceito metodológico
de contradição para capturar esta historicidade.
Fome
Obesidade
Trabalho
Capital
Minha tese de doutorado identificou uma prática expansiva de design que
inclui contradições como fonte de mudança nas atividades e nos espaços
que habitamos (Van Amstel, 2015).
Desde que defendi minha tese na Holanda e retornei ao Brasil, tenho
focado minha pesquisa na contradição da opressão. Eu me pergunto:
como o design oprime e como ele liberta?
OPRESSORES
Grupos sociais
historicamente
privilegiados
OPRIMIDOS
Grupos sociais
historicamente
desprivilegiados
desumanização
subestimação
prescrição
negação
re-humanização
reação
crítica
afirmação
A contradição da opressão de acordo com Paulo Freire, Augusto
Boal e Vieira Pinto
interações
estéticas
DESIGNERS
grupo social
historicamente
privilegiado que
utiliza o
computador para
oprimir
USUÁRIOS
grupo social
historicamente
desprivilegiado
que usa o
computador para
libertar-se
A opressão dos usuários (Gonzatto & Van Amstel, 2022)
COMPUTA
DOR
desumanização
subestimação
prescrição
negação
re-humanização
reação
crítica
afirmação
Projetos de pesquisa em design
geralmente incluem
experimentos artísticos na
criação de situações.
A seguir, apresentarei os
experimentos que venho
realizando na minha pesquisa.
1. Primeiro experimento:
ver-se como uma pessoa
oprimida.
Teatro-Fórum sobre a precariedade do trabalho do designer para alunos
da USP (2020).
Inteligência artificial
que atende clientes e
distribui vagas na
plataforma
Designer
precarizado
trabalhando em
plataforma digital
Designer
precarizado que se
vê como empresário
2. Segundo experimento: ver-se
como uma pessoa opressora.
Oficina Arco-Íris do Desejo para examinar os opressores (os tiras) que
estão em nossas cabeças (2021).
3. Terceiro experimento:
subverter seus privilégios e
compartilhá-los com as lutas
de libertação.
Livros com histórias concretas de opressão escritas e projetadas por
estudantes da UTFPR (Editoração em Com. Org.).
3. Quarto experimento:
reconhecer que a nossa
liberdade depende da liberdade
dos grupos sociais a que
pertencemos.
Usando o baralho B.AKKA para questionar as condições existenciais de
nossos novos pesquisadores em design.
O que te impede de chegar lá?
O que está impedindo pessoas como você de chegar lá?
Quem é você? Quem você quer ser
depois do seu TCC?
4. Quinto experimento:
despertar a consciência social do
corpo coletivo com o design
participativo.
Os alunos da UTFPR escreverão um manifesto vestível sobre a
responsabilidade política do design em 2019.
Na versão digital do manifesto, quebraram quase todas as regras do
design que conheciam para se conscientizar da opressão do usuário.
Movimento iniciado pelo manifesto deu origem em 2021 ao Laboratório de
Design contra Opressões (LADO).
Os projetos de pesquisa do LADO são desenvolvidos em rede, a partir de
relações concretas entre muitas pessoas e grupos.
Segundo Vieira Pinto,
pesquisadores podem negar suas
origens e servir a outros corpos
coletivos, mas essa não é a
atitude moral mais consistente.
Na condição de
subdesenvolvimento,
pesquisadores devem se
identificar com o povo e com o
povo criar projetos de pesquisa
libertadores.
Assim, seu trabalho científico
contribuirá para um país mais
consciente de suas ciências, de suas
culturas e de seus mundos, enfim,
de quem somos enquanto uma
nação pluriversal.
Obrigado!
Frederick van Amstel @usabilidoido
Design de Serviços e Design de Experiências
DADIN - UTFPR, Brasil
www.usabilidoido.com.br

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Fundamentos existenciais da Pesquisa em Design

  • 1. Fundamentos existenciais da Pesquisa em Design Frederick van Amstel @usabilidoido Design de Serviços e Design de Experiências DADIN - UTFPR, Brasil www.usabilidoido.com.br
  • 2. Sou um trabalhador científico localizado num país subdesenvolvido que não dá prioridade à ciência para o seu desenvolvimento.
  • 3. A minha condição existencial é o ponto de partida para as minhas questões e projetos de investigação.
  • 4. Quais são os objetivos das ciências do design? Quem se interessa por essas ciências? O que pode ser feito com o conhecimento produzido por essas ciências?
  • 5. As pesquisas sobre opressão realizadas por Paulo Freire e outros tornou a Educação e a pesquisa nas ciências sociais mais conscientes das desigualdades estruturais da América Latina.
  • 6. Por outro lado, a pesquisa sobre raça, gênero e cultura foi utilizada para justificar a opressão de grupos sociais considerados inferiores (A Redenção de Cam, 1895).
  • 7. Como a ciência pode ser projetada contra a opressão e a favor da libertação?
  • 8. O filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto (1909-1987) escreveu sobre as relações existenciais entre ciência e design.
  • 9. Para ele, o mundo em que vivemos é produzido socialmente por nossas mãos. Não temos contato imediato com a natureza, mas sim através de mediações.
  • 10. Para produzir nossa existência e continuar existindo, precisamos dominar as mediações entre nossa consciência e nosso mundo: linguagem, técnica, ferramentas, design e muitas outras.
  • 11. Vieira Pinto define a ciência como autoconsciência máxima possível em cada cultura humana. Assim, ele reconhece que há uma forma de ciência em todas as culturas, embora com outros nomes.
  • 12. A autoconsciência expande o domínio das mediações empregadas pelo trabalho para transformar o mundo. Por sua vez, a transformação do mundo cria novas possibilidades de consciência.
  • 13. Todo trabalho é científico, mas algumas formas de trabalho são legitimadas como mais científicas. A colonialidade do conhecimento estabelece hierarquias entre as pessoas através de dicotomias.
  • 14. trabalho científico trabalho intelectual ciência pura ciência desenvolvida teoria trabalho técnico trabalho manual ciência aplicada ciência subdesenvolvida prática
  • 15. Para superar essas dicotomias, Vieira Pinto recomenda incluir a condição existencial do pesquisador como parte do problema de pesquisa e também como uma mediação metodológica.
  • 16. Se reconhecermos que nossa condição é subdesenvolvida e que não podemos fazer a mesma ciência que as metrópoles coloniais, podemos então nos debruçar sobre os problemas de nossos povos.
  • 17. A colonialidade do conhecimento nos leva a pensar que as soluções para nossos problemas estão sempre em outro lugar, em outro tempo, mas nunca aqui e agora.
  • 18. Junto com as soluções estrangeiras vêm também os problemas estrangeiros. Habituamo-nos a resolver os problemas científicos de outros países e ignoramos as nossas próprias ciências.
  • 19. Para descobrir o que é possível no aqui e agora, devemos entender as origens históricas de nossos problemas. Eu utilizo o conceito metodológico de contradição para capturar esta historicidade. Fome Obesidade Trabalho Capital
  • 20. Minha tese de doutorado identificou uma prática expansiva de design que inclui contradições como fonte de mudança nas atividades e nos espaços que habitamos (Van Amstel, 2015).
  • 21. Desde que defendi minha tese na Holanda e retornei ao Brasil, tenho focado minha pesquisa na contradição da opressão. Eu me pergunto: como o design oprime e como ele liberta?
  • 23. DESIGNERS grupo social historicamente privilegiado que utiliza o computador para oprimir USUÁRIOS grupo social historicamente desprivilegiado que usa o computador para libertar-se A opressão dos usuários (Gonzatto & Van Amstel, 2022) COMPUTA DOR desumanização subestimação prescrição negação re-humanização reação crítica afirmação
  • 24.
  • 25. Projetos de pesquisa em design geralmente incluem experimentos artísticos na criação de situações.
  • 26. A seguir, apresentarei os experimentos que venho realizando na minha pesquisa.
  • 27. 1. Primeiro experimento: ver-se como uma pessoa oprimida.
  • 28. Teatro-Fórum sobre a precariedade do trabalho do designer para alunos da USP (2020). Inteligência artificial que atende clientes e distribui vagas na plataforma Designer precarizado trabalhando em plataforma digital Designer precarizado que se vê como empresário
  • 29. 2. Segundo experimento: ver-se como uma pessoa opressora.
  • 30. Oficina Arco-Íris do Desejo para examinar os opressores (os tiras) que estão em nossas cabeças (2021).
  • 31. 3. Terceiro experimento: subverter seus privilégios e compartilhá-los com as lutas de libertação.
  • 32. Livros com histórias concretas de opressão escritas e projetadas por estudantes da UTFPR (Editoração em Com. Org.).
  • 33. 3. Quarto experimento: reconhecer que a nossa liberdade depende da liberdade dos grupos sociais a que pertencemos.
  • 34. Usando o baralho B.AKKA para questionar as condições existenciais de nossos novos pesquisadores em design. O que te impede de chegar lá? O que está impedindo pessoas como você de chegar lá? Quem é você? Quem você quer ser depois do seu TCC?
  • 35. 4. Quinto experimento: despertar a consciência social do corpo coletivo com o design participativo.
  • 36. Os alunos da UTFPR escreverão um manifesto vestível sobre a responsabilidade política do design em 2019.
  • 37. Na versão digital do manifesto, quebraram quase todas as regras do design que conheciam para se conscientizar da opressão do usuário.
  • 38. Movimento iniciado pelo manifesto deu origem em 2021 ao Laboratório de Design contra Opressões (LADO).
  • 39. Os projetos de pesquisa do LADO são desenvolvidos em rede, a partir de relações concretas entre muitas pessoas e grupos.
  • 40. Segundo Vieira Pinto, pesquisadores podem negar suas origens e servir a outros corpos coletivos, mas essa não é a atitude moral mais consistente.
  • 41. Na condição de subdesenvolvimento, pesquisadores devem se identificar com o povo e com o povo criar projetos de pesquisa libertadores.
  • 42. Assim, seu trabalho científico contribuirá para um país mais consciente de suas ciências, de suas culturas e de seus mundos, enfim, de quem somos enquanto uma nação pluriversal.
  • 43. Obrigado! Frederick van Amstel @usabilidoido Design de Serviços e Design de Experiências DADIN - UTFPR, Brasil www.usabilidoido.com.br