Onde se mora não é onde se trabalha

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à obtenção do grau de Bacharel em
Ciências Sociais.

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Onde se mora não é onde se trabalha

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA Onde se mora não é onde se trabalhaEstudo etnográfico de itinerários urbanos, formas de sociabilidade e trabalho de moradores de Alvorada/RS que trabalham em Porto Alegre/RS Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Sociais Luciana Tubello Caldas Porto Alegre 2012
  2. 2. 2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA Onde se mora não é onde se trabalhaEstudo etnográfico de itinerários urbanos, formas de sociabilidade e trabalho de moradores de Alvorada/RS que trabalham em Porto Alegre/RS Autor: Luciana Tubello Caldas Profa. Orientadora: Cornelia Eckert Monografia apresentada como requisito à obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais Porto Alegre 2012
  3. 3. 3 FOLHA DE APROVAÇÃO Esta monografia foi julgada e aprovada para a obtenção do grau deBacharel no curso de Ciências Sociais, do Instituto de Filosofia e CiênciasHumanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, BANCA EXAMINADORA: ________________________________ Professora Doutora Viviane Vedana ________________________________ Professora Doutora Denise Fagundes Jardim ________________________________ Professora Doutora Cornelia Eckert (UFRGS) Orientadora
  4. 4. 4 AGRADECIMENTOS Após tantas madrugadas em claro ao longo do curso, estes agradecimentos nãopoderiam ser escritos em momento diferente. Agradeço a todos amigos e colegas decurso que partilharam destas madrugadas incansáveis e intermináveis, seja emconversas via mundo virtual ou com um café no dia seguinte para nos mantermosacordados, após a longa noite de estudos. Sem esta prática social, tipicamenteacadêmica, não estaria socialmente apta para dar forma a estas linhas. Agradeço à Secretaria de Assuntos Estudantis – SAE, pela bolsa trabalhoconcedida em meu ano de ingresso no curso. À todos os professores do Instituto deFilosofia e Ciências Humanas – IFCH, pela formação que recebi. Ao Conselho Nacionalde Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelas bolsas de IniciaçãoCientífica concedidas entre 2009 e 2011, no âmbito do Banco de Imagens e EfeitosVisuais – BIEV, local onde aprendi muito sobre antropologia e sobre a vida. À Dra Ana Luiza Carvalho da Rocha, coordenadora do BIEV que me ensinou aimportância, o valor e a grandiosidade da escrita etnográfica. À Dra Cornelia Eckertpela orientação, dedicação e paciência. Por não desistir e seguir acreditando nestetrabalho. Ao professor de história Nei Nordin, por ser o profissional dedicado e apaixonadoem que me inspiro desde o ensino médio. Ao Dr. Rafael Devos por me “iniciar” naAntropologia Visual fazendo com que ela se tornasse minha grande paixão. Aos amigos Mariana Petersen, Karin Bauken e Wagner Wingert: foi muito bomconhecer vocês. À Priscila Farfan por todas as discussões antropológicas, sonoras,afetivas e profissionais: aprendi muito com elas! Ao Diogo Schmidt por todas sessõescinematográficas, conversas e principalmente, pela amizade que nasceu ainda noprimeiro semestre e que certamente irá durar pelo resto de nossas vidas. À StéphanieBexiga por nascer, ter cruzado o meu caminho e ensinado o significado da palavra“amizade”. À Dra e amiga Viviane Vedana por me ensinar a “escutar”, por apoiar asideias absurdas que estão “esquematizadas na minha cabeça” e principalmente: poramar a antropologia (e todos deveriam te agradecer por isso).
  5. 5. 5 À Neca, Heloisa, Vera e Marion e os demais interlocutores desta pesquisa, porcompartilharem comigo suas vidas e seus cotidianos. Sem o acolhimento e engajamentode vocês este trabalho não existiria. E por fim, agradeço à Carlos Valdir, meu pai, pelo empenho e coragem em supriros anos de ausência permanecendo ao meu lado neste caminho acadêmico de formaamiga, apoiando minhas escolhas e decisões. À minha mãe, amiga e interlocutora depesquisa Vera Tubello, pelo exemplo de “mulher guerreira”, pelo amor e dedicação.Muito obrigada!
  6. 6. 6 RESUMOParte-se de uma etnografia das trajetórias e narrativas de um grupo de empregadasdomésticas que residem em Alvorada e que trabalham em Porto Alegre e de suas formasde interação e sociabilidades a bordo da linha de ônibus que utilizam diariamente para irtrabalhar. Metodologicamente desenvolvo observações participantes, construção deredes sociais, etnografia audiovisual e descrições densas junto a esse grupo detrabalhadoras. Neste estudo seguem-se referenciais teóricos pertinentes ao estudo deantropologia urbana e da imagem, orientada pelos conceitos de formas de sociabilidade(Simmel, 2006), de trajetória (Velho, 1994) e a reflexão sobre memória, imagem etempo no contexto citadino proposta por Eckert e Rocha, 2005.Palavras-Chave: Alvorada, empregadas domésticas, formas de sociabilidade, trajetória. ABSTRACTThis is based on ethnography of the trajectories and narrative of a group of housekeeperwho live in Alvorada and work in Porto Alegre and their forms of interaction andsociability on board of the bus line they use every day to go to work. Methodologically Idevelop participant observation, building social networks, audiovisual and ethnographicdeep descriptions next to that group of workers. In this study the following are relevantto the theoretical references of urban anthropology studies and image, guided by theconcepts of sociability ways (Simmel, 2006), trajectory (Velho, 1994) and reflection onmemory, image and time in the context of city proposed by Eckert and Rocha, 2005.Key-words: Alvorada, housekeeper, forms of sociability, trajectoryWhere you lives is not where you work: Ethnographic study of urban routes, forms of sociability and work of Alvorada residents in RS who working in Porto Alegre /RS
  7. 7. 7 LISTA DE FIGURAS E ILUSTRAÇÕESRede de sociação “amigas do ônibus”. Autora: Luciana Tubello Caldas. Ano: 2010 22Conjunto de fotos do trabalho doméstico de Vera e Marion. Autora: Luciana TubelloCaldas. Ano: 2010. 40Gráfico dos direitos trabalhistas incorporados à categoria de trabalhadores domésticos.Autora: Luciana Tubello Caldas. Ano: 2011 56Cartaz da campanha “Legalize sua doméstica”. Autoria: Doméstica Lega. Fonte:www.domesticalegal.or.br/vote 57
  8. 8. 8 SUMÁRIOINTRODUÇÃO 9CAPÍTULO I – ANTROPOLOGIA URBANA: IMAGENS NAS E DASSOCIEDADES COMPLEXAS 121.1 – Primeiros passos: o projeto Banco de Imagens e Efeitos Visuais – BIEV 121.2 – Percurso de campo: partindo de uma cultura do trânsito 141.2.1 – Olhos e ouvidos: uma etnografia sonora e visual 19CAPÍTULO II – DE PASSAGEIRAS A TRABALHADORAS: “AS AMIGAS DOÔNIBUS” E AS “EMPREGADAS DOMÉSTICAS” 212.1 – As “amigas do ônibus” e o cotidiano de ir e vir de uma cultura do trânsito 212.2 – No tempo da viagem 232.3 – O tempo de espera 272.4 – Desembarque: Bairro Menino Deus 332.5 – “A gente já chega pra trabalhar cansada da viagem” 362.6 – O “uso das mãos” no trabalho doméstico 372.7 – “Tenho a minha carteira assinada ali, assinada como empregada doméstica”: Atrajetória de Marion 402.8 – “A gente não assinou carteira, mas ele dava tudo”: A trajetória de Vera 43CAPÍTULO III – AS PASSAGEIRAS, AS TRABALHADORAS: SEUS CAMPOSDE POSSIBILIDADE E PROJETOS 463.1 – Casar, trabalhar: campos de possibilidade e projetos 463.2 – Desvalorização e discriminação do trabalho doméstico 513.3 – A produção acadêmica acerca do tema empregadas domésticas 57CAPÍTULO IV – COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS NA FEITURA DE UMDOCUMENTÁRIO ETNOGRÁFICO 604.1 – Coleções e suas narrativas 604.2 – O documentário (DVD) 61CONSIDERAÇÕES FINAIS 62REFERÊNCIAS 63
  9. 9. 9 INTRODUÇÃO Este trabalho consiste em um estudo antropológico da e na vida cotidiana detrabalhadores urbanos pertencentes a grupos populares residentes na cidade deAlvorada, que dista 01h10min da capital (Porto Alegre/RS). Nessa cidade reside umagrande maioria de trabalhadores dos mais diversos ramos; empregadas domésticas,diaristas, manicures, auxiliares de serviço, balconistas, garçons, etc. Marcada pelahorizontalidade de suas residências, a grande maioria dos trabalhadores sãoproprietários ou locatários de pequenos terrenos com casas simples, pátios, jardins ouhortas. Seus cotidianos são marcados pelo ritmo de deslocar-se à capital para o trabalhodiário. Para esse deslocamento contam, sobretudo com o serviço rodoviário oferecidopor uma empresa privada de transportes que detém o monopólio. O tema da cultura do trânsito a partir das narrativas desses usuários sobre suascondições de vida e de transporte e de como configuram essas condições em formas deinteração, sociabilidade tanto quanto experiências de risco e insegurança, se colocavamcomo universo potencial para reconhecer “trajetórias”, “projetos” e “campos depossibilidade”1. Metodologicamente desenvolvi observações participantes, entrevistasnão diretivas (THIOLENT, 1980) construção de redes sociais, etnografia audiovisual edescrições densas a partir de um compartilhamento de situações diversas vividas pelosusuários interpretando suas interações cotidianas (DE CERTEAU, 1994), formas desociabilidade e conflitos (SIMMEL, 1983) referentes às condições de transporte e aanálise de suas representações sobre a cultura do trânsito (CAIAFA, 2007), assim comoa adoção de uma perspectiva temporal acerca dos estudos dos “jogos da memória”2(ECKERT; ROCHA, 2005) e do “imaginário” (BACHELARD, 1993), que sãofundamentais para se compreender os re-arranjos sociais estabelecidos neste ir e vircotidiano. Com pesquisa de campo iniciada em janeiro de 2009, priorizei o uso da linhaPasso da Figueira via Ipiranga – com um tempo de viagem de aproximadamente1 Pretendo abordar este tema seguindo a tradição de uma antropologia urbana que analisa a cidade emsuas transformações de formas de vida e na complexidade de universos simbólicos. Tendo comoreferência teórica os estudos de Gilberto Velho (1989, 1994, 1999) acerca da trajetória social, campos depossibilidade e projetos para interpretação das identidades sociais que vivem e narram essa cidade.2 Do ponto de vista da investigação das trajetórias sociais e biográficas dos interlocutores desta pesquisa,é a elaboração de entrevistas não diretivas (THIOLENT, 1980), que orientem estes trabalhadores a tecersuas lembranças, o instrumento adequado para produzir os “jogos da memória” que irão compor suasnarrativas e apresentar suas histórias e reflexões sobre a vida, o trabalho e a cidade.
  10. 10. 1001h10min. A referida linha parte na Estrada Cândido Pinheiro de Barcelos (Bairro Passoda Figueira – Alvorada) e tem o seu final de linha na Avenida Padre Cacique (BairroMenino Deus – Porto Alegre), transpassando grandes Avenidas como: Avenida ProtásioAlves (POA), Avenida Antonio de Carvalho (POA) e Avenida Ipiranga (POA), sendoassim uma linha que traz grande oportunidade de acesso para aqueles que trabalham emPorto Alegre. A partir da “observação participante” (MALINOWSKI, 1978) realizada abordo da linha Passo da Figueira via Ipiranga, desenhou-se uma rede de trabalhadorasdomésticas, iniciada pela minha mãe Vera (empregada doméstica e usuária da referidalinha) e estendendo-se até Marion, Neca, Heloísa, etc. Desta rede de trabalhadoras medediquei a compreender a questão do trabalho doméstico a partir da trajetória social deVera e Marion. Tendo em vista que esta pesquisa se insere no campo de estudos sobreantropologia das sociedades complexas que, segundo Gilberto Velho (1981, p.17), “estáfundamentalmente ligada a uma acentuada divisão social do trabalho, a um espantosoaumento da produção e do consumo, à articulação de um mercado mundial e a umrápido e violento processo de crescimento urbano”, abordo o tema do trabalhodoméstico a partir dos conceitos de “práticas cotidianas” (DE CERTEAU, 1994) e de“campo de possibilidades” (VELHO, 1981) das trabalhadoras deste setor, tendo emvista a interpretação das “formas da vida social” (SIMMEL, 1983) que esta prática detrabalho conforma. Convergindo na análise dos campos de possibilidade e da construção de trajetóriassociais irei me valer da perspectiva dos estudos de gênero “como um sistema simbólicoque organiza relações de poder, igualdades e desigualdades no mundo do trabalho”(HEILBORN, 1999, p. 20), assim como, a problematização da categoria empregadadoméstica tensionada com a de identidade social – precedida por Suely Kofes (1990). No capítulo inicial trago meu aprendizado como bolsista de iniciação científica noâmbito do Banco de Imagens e Efeitos Visuais – BIEV, assim como minha inserção nalinhagem teórica acerca dos “estudos antropológicos na cidade” (OLIVEN, 1987) comadesão à Antropologia visual e sonora, apresentando a metodologia, o contextoetnográfico e de imersão em campo.
  11. 11. 11 O segundo capítulo é resultado do esforço em apresentar e analisarantropologicamente o cotidiano destas moradoras de Alvorada que trabalham comoempregadas domésticas e diaristas em Porto Alegre. No terceiro capítulo atento para a análise das trajetórias sociais de Vera e Marion.Refletindo sobre a questão da desvalorização e discriminação do trabalho doméstico,finalizando com uma breve revisão bibliográfica sobre o tema. Por último, trago no quarto capítulo uma discussão acerca do método de “coleçõesetnográficas” (ROCHA, 2008) relacionando-o com a realização do documentárioetnográfico “Onde se mora não é onde se trabalha”, assim como o DVD contendo estaprodução.
  12. 12. 12 Capítulo I Antropologia urbana: imagens nas e das sociedades complexas1.1 – Primeiros passos: o projeto Banco de Imagens e Efeitos Visuais – BIEV Em 2008 fui selecionada para a bolsa de iniciação científica CNPq no projetocidade e memória: a cultura do trânsito, da circulação do transporte e dosdeslocamentos dos transeuntes em Porto Alegre, RS3 – no âmbito do Banco de Imagense Efeitos (BIEV) – que propunha o estudo das trajetórias sociais e narrativas biográficasde representantes de classes trabalhadoras urbanas. Iniciei meu aprendizado no grupo de trabalho em fotografia – um dos GTs queconstituem o BIEV4 – através da atividade de nomeação e identificação das fotografiasproduzidas e acervadas por seus pesquisadores e bolsistas e que migrarão do SistemaBIEV-DATA para uma nova interface de sistema de dados. O objetivo dessesrecadastramentos era o de identificar as fotografias a partir dos campos: assunto, autor,fonte, data e logradouro, com a preocupação de que essas imagens circulempreservando uma “identidade” de origem para novas consultas. A partir deste contatocom um vasto acervo fotográfico e etnográfico no interior do BIEV e incentivada pelascoordenadoras dei início a minha etnografia mergulhando nas imagens quecircunscrevem uma cultura do trânsito, dos itinerários e dos deslocamentos. Tambémprocurei tomar ciência das narrativas midiáticas acerca da questão do trânsito,acompanhando as reformas urbanas que buscam revitalizar o trânsito de Porto Alegrecom as diversas facetas temporais do fenômeno urbano que o trânsito representa noviver da cidade. Assim, realizei pesquisa e classificação de jornais como Zero Hora,Correio do Povo e Diário Gaúcho de novembro de 2007 a julho de 2010. Esse materialde acervo me ajudou a perceber, em uma dimensão temporal, a potência que as imagenstem de se ligarem para além das contradições em uma perspectiva histórica. Assim, aorealizar uma etnografia a partir de um acervo fotográfico para posteriormente produzir3 Projeto financiado pelo CNPq e Coordenado pela Professora Dra. Cornelia Eckert. Desenvolvido noâmbito do Banco de Imagens e Efeitos Visuais, (LAS, PPGAS, ILEA, UFRGS) coordenado pelasprofessoras Dra. Cornelia Eckert e Dra. Ana Luiza Carvalho da Rocha.4 BIEV constitui-se de Grupos de Trabalho (GTs) nos quais se pesquisa: etnografia sonora, fotografia,escrita etnográfica e narrativas etnográficas em vídeo, através de reuniões semanais realizadas pelasequipes de pesquisadores e bolsistas. Mais informações sobre o Banco de Imagens e Efeitos Visuais,acesse www.biev.ufrgs.br .
  13. 13. 13imagens homólogas em campo, visava reconhecer os ritmos temporais presentes nofenômeno estudado, que ao passar por um processo de reflexão e acomodação sãoestruturados como representações subjetivas, produto do pensamento antropológicoprovocado a partir do uso destas fotografias, que narram o processo de urbanização dacidade. No interior do projeto Banco de Imagens e Efeitos Visuais e do projeto Cidade ememória: a cultura do trânsito, da circulação do transporte e dos deslocamentos dostranseuntes em Porto Alegre, RS, imbuída das imagens e narrativas que permeiam oprocesso de urbanização da cidade de Porto Alegre e Alvorada me insiro no contextodas cidades moderno-contemporâneas e no “estudo antropológico na cidade” (OLIVEN,1987) que é motivado por conceitos como identidade, sociabilidade, interação, redessociais; conceitos que seguem uma linhagem teórica clássica, como Simmel que propõecomo conceitos chaves para tratar do fenômeno urbano, sociação e interação; Weberque junto a outros clássicos da antropologia como Durkheim trata de identidade social edas complexas estruturas de poder na cidade industrial; e por fim a Escola de Chicagocom os estudos da distribuição espacial entre o centro e periferia das cidades queconsolida as pesquisas sobre e nas cidades como universo de estudo primordial. Das imagens de acervos, dos recortes de jornais e de todo esse apanhado teórico econceitual que do qual fui tomando conhecimento acabei por (re)conhecer Alvorada,não mais a Alvorada do meu cotidiano e de minhas lembranças, mas de uma Alvoradaque se localiza na Região Metropolitana de Porto Alegre, RS e que obteve a suaemancipação política do Passo do Feijó em 17 de setembro de 1965, passando achamar-se Alvorada. Nome que referencia a população constituída em sua maioria portrabalhadores que acordam nas primeiras horas da manhã para trabalhar em PortoAlegre. Uma cidade que apesar de sua emancipação política ainda é dependente dePorto Alegre, já que seus moradores (e a própria pesquisadora) necessitam deslocar-seaté a capital para poder trabalhar, estabelecendo assim, uma relação entre cidade dotrabalho e cidade dormitório. Alvorada se mostra uma cidade com as característicasdeste mundo urbano industrial, com a vocação do trabalho em todos os setores, doindustrial, do comercial e de serviços. Uma cidade que se constrói na proporção das
  14. 14. 14demandas da capital, sendo uma espécie de satélite5 da cidade de Porto Alegre6 apesardo forte crescimento de outras cidades como Canoas e Novo Hamburgo.1.2 – Percurso de campo: partindo de uma cultura do trânsito Mais do que dar inicio ao processo de inserção em campo, dei início à umprocesso de relativização das noções de proximidade e familiaridade – sendo eumoradora de Alvorada há mais de 15 anos e usuária do transporte coletivo da cidade.Como propõe Gilberto Velho (1980, p.15), o ponto básico é que distância assim comoproximidade e familiaridade são noções que devem ser relativizadas e colocadas nocontexto adequado de discussão. Familiaridade e proximidade física não são sinônimosde conhecimento...”. Assim, começo a me defrontar com o desconhecido, que até entãoera minha morada e o meu cotidiano. Com o foco na questão dos itinerários urbanos e do deslocamento dos moradoresde Alvorada que trabalham em Porto Alegre, iniciei minha inserção em campo no dia 16de dezembro de 2008, indo ao setor de compras de passagem da empresa de ônibusSociedade de Ônibus União Ldta – SOUL e, ao comprar alguns créditos (a empresatrabalha com bilhete eletrônico), aproveitei para perguntar para o atendente quem era apessoa responsável pelas informações acerca da história da empresa. O atendenteindicou que eu me informasse, a esse respeito no setor administrativo, localizado em umprédio ao lado do setor de compra de passagens. Me dirigi ao setor administrativo,apertei a campainha e após alguns minutos de espera um rapaz – muito simpático esolícito – que se chamava Pablo veio me atender, e me informou que Fernanda Cardosoera quem ficava a frente da parte histórica e do acervo fotográfico, ela era a responsávelpela Central de Relacionamento da empresa. Peguei com Pablo o contato da Fernanda,para assim poder marcar uma conversa com ela e conhecer um pouco da história daempresa. Após ter realizado algumas trocas de e-mails com Fernanda e realizado opreenchimento de alguns formulários de intenção de pesquisa, Fernanda e eu marcamos5 Entendo por cidade satélite núcleos urbanos de caráter amplamente residencial e que contam, apenas,com serviços básicos de educação, saúde e comércio. Estas cidades possuem uma forte relação com otransporte coletivo, principal meio de locomoção que liga a população trabalhadora à capital.6 Segundo dados da FEE de 2010, Alvorada conta com uma população de mais de 195 mil habitantes.Sua economia, é baseada no setor de serviços que corresponde a 82,56% de seu PIB, sendo outros 17,3%gerado pela indústria. Apresenta o pior PIB per capita de todos os 496 municípios do RS (R$ 4.551,08).
  15. 15. 15um encontro para que ela me apresentasse o acervo de fotos e reportagens da empresa.A ideia era a de me apropriar daquilo que considerava uma “história oficial” deAlvorada, visto que, a história da SOUL se confundia com a história da própria cidade. No dia 26 de janeiro de 2009 fui ao encontro de Fernanda na empresa SOUL.Fernanda me recebeu sorridente, perguntando como eu estava. Logo após aoscumprimentos seguimos para a sala de reuniões. Era uma sala ampla com duas mesasredondas cada uma posicionada em um extremo da sala, nos acomodamos na que estavamais próxima da porta no extremo esquerdo da sala. Enquanto eu tirava o caderno e alapiseira da bolsa, Fernanda perguntou o que eu precisava para a pesquisa, respondi quegostaria de ter acesso a jornais, revistas, documentos históricos e fotografias antigas queajudassem a contar a história da empresa, comentei da dificuldade que estava tendo emter acesso a história de Alvorada e que pretendia obter isso através da SOUL. Fernandame informou a respeito de um livro que havia sido lançado em 2006 pela Prefeitura deAlvorada e que contava a história de Alvorada. O livro se chamava “Raízes deAlvorada”, e podia ser encontrado Secretaria Municipal de Cultura. Fernandaacrescentou que neste livro havia um capítulo que contava a história da SOUL –Sociedade de Ônibus União Ltda, única empresa responsável pelo transporte coletivo dacidade, fundada em julho de 1951 – quando Alvorada ainda se chamava Passo do Feijóe suas vias ainda eram de chão batido – por José Antônio Ohlweiler, hoje com 84 anos: Fernanda: Início dos anos 50 o Sr. José Antônio Ohlweiler trabalhava como caixeiro viajante. Entre contatos e negócios acabou se tornando o credor de uma pessoa que lhe pagou a dívida com um caminhão. Esse caminhão ele trocou por um ônibus, e nessa mesma época viu um anúncio no jornal de uma empresa de ônibus (SOUL) que procurava pessoas para entrar como sócio no negócio. Diante da oportunidade o Sr. José Antônio Ohlweiler entrou, junto com o seu ônibus, como o 18º sócio da empresa SOUL e hoje é o único que mantém a empresa. Seguindo o percurso de minha inserção em campo, balizada pelo referencialteórico do Banco de Imagens e Efeitos Visuais – BIEV e da técnica de pesquisa de“etnografia de rua” (ECKERT; ROCHA, 2008) que consiste em caminhadas, sem umdestino fixo – mas com um roteiro prévio de intenções conceituais de produção deimagens – que visam a exploração e investigação do espaço urbano. Assim, ao longodas orientações e das reuniões semanais realizadas no âmbito do BIEV, me foi colocadoo desafio de realizar uma “etnografia de rua” e “observação participante” na situação
  16. 16. 16cotidiana de deslocamento em um transporte coletivo ao mesmo tempo que medefrontava com um cotidiano familiar, que acabara de se tornar estranho. No dia 06 de janeiro de 2009, fui a campo com a intenção de realizar uma“etnografia de rua” no interior de um ônibus e a partir dessa técnica experienciar umnovo olhar sobre essa situação de deslocamento. A empresa SOUL possuiuaproximadamente 150 linhas diferentes, diante de tamanha diversidade de linhas, fiqueireticente sobre por onde começar. Optei pela linha Passo da Figueira via Ipiranga das07h40min. Esta linha também era utilizada pela minha mãe7 (Vera) para ir até otrabalho. Pelo intermédio de Vera soube que esta linha é predominantemente utilizadapor mulheres, que em sua maioria são empregadas domésticas (como ela) e diaristas.Embarquei no ônibus por volta das 08h00min da manhã, estava lotado, mas no fundo doônibus havia um banco vago. Comecei a observar as pessoas que embarcavam noônibus, a grande maioria dos que embarcavam cumprimentavam alguns passageiros,que já eram conhecidos, dando bom dia e perguntando sobre os passageiros queestavam ausentes. As respostas eram unânimes: “tá de férias!”. E esse foi o assunto quepermeou toda a viagem, pelo menos do que eu pude ouvir, já que existiam vários focosde conversas o que impossibilitou a minha compreensão acerca das mesmas. O maiorfluxo de embarque foi na parada 48 de Alvorada, onde se localiza a Prefeitura e a PraçaCentral. Nessa parada subiu uma moça loira, aparentando ter uns 20 anos, quecumprimentou aproximadamente quatro pessoas no ônibus. Como havia um últimobanco vago ela se sentou (era um banco atrás do que eu estava), logo após, um rapazque ocupava um banco próximo se levantou para desembarcar do ônibus e, nesse meiotempo uma moça morena de aproximadamente 30 anos – que foi cumprimentada pelamoça loira – ocupou esse assento vago. Logo as duas começaram a conversar sobre oferiadão e que estavam ansiosas pelas suas férias. Esse também era o assunto de duasmulheres que estavam sentadas em um banco à frente do meu lado direito. Uma delascomentou que o seu chefe nunca dava férias no verão e que por esse motivo iria pedirsuas férias em agosto, como não podia tirar férias no verão iria tirar no auge do inverno.7 Conforme Luis Fernando Dias Duarte (2008, p. 35): “Não chega a ser uma novidade a ativação doscontatos pessoais para a abertura de redes que possibilitem a entrada em campo”. O contato pessoal paradar início à “observação participante” no interior da linha Passo da Figueira via Ipiranga – se deu atravésde Vera, minha mãe, com quem moro. No processo da negociação de papéis (intersubjetivas) entre mãe,filha, pesquisadora e pesquisada é que se acirrou processo de “estranhamento do familiar” e derelativização da imagem da cidade que ao mesmo tempo em que eu habitava, era também habitada pormim.
  17. 17. 17Também, na parada 48, embarcou uma mulher possuindo em torno de 40 anos de idadee que cumprimentou aproximadamente seis pessoas, entre elas essas duas mulheres quese encontravam próximas do meu banco à minha direita. Essas três mulheres foramprotagonistas da cena que mais me chamou a atenção: a mulher que embarcou porúltimo, ficou um pouco afastada (em pé) das outras duas que já se encontravam noônibus (sentadas a minha direita); quando o ônibus se encontrava na Avenida ProtásioAlves, uma delas chamou a que estava em pé e, esta por sua vez se dirigiu até o banco,enquanto a outra se levantava e lhe cedia o lugar. Ao lado dessas mulheres, que estavamsentadas, havia outra senhora que estava em pé, mas como esta, aparentemente, não eraconhecida delas, foi privada de sentar-se, já a outra que se encontrava mais longe, masera conhecida das mesmas foi chamada a se sentar. A partir desta situação, que provavelmente deve ter ocorrido inúmeras vezes aolongo de minhas idas e vindas como estudante e trabalhadora, usuária do transportecoletivo, uma pergunta passou a orientar esse estudo etnográfico: “como se dá aconfiguração destas formas de sociabilidade e interação no interior de um transportecoletivo?”. Para responder a essa pergunta segui com as observações participantes nointerior da linha Passo da Figueira via Ipiranga das 07h40min e no trânsito entre acidade de Alvorada e a cidade Porto Alegre conheci e acompanhei um grupo deempregadas domésticas que residem em diferentes bairros de Alvorada e que trabalhamno Bairro Menino Deus em Porto Alegre. Assim, começou a se configurar uma rede desociação e de laços sociais que se tecem a partir desta condição cotidiana dedeslocamento e de sua condição como trabalhadoras domésticas, se conformando emum estudo a respeito destas moradoras de Alvorada, usuárias do transporte coletivo etrabalhadoras do setor doméstico. Após algumas incursões em campo – a bordo da linha Passo da Figueira via Ipirangadas 07h40min – observando e participando da sociabilidade existente entre “as amigasdo ônibus” (Vera, Neca, Heloísa e Marion) se fez necessário o aprofundamento destecotidiano não somente acompanhando o grupo em sua rotina de ida para o trabalho, mastambém em sua rotina de retorno para casa. Certamente, que algumas questões de ordemprática corroboraram para que o itinerário de volta ao lar fosse incluído em um roteirode saída de campo, como por exemplo, o fato de que “as amigas do ônibus” embarcamna linha Passo da Figueira via Ipiranga das 14h45min na segunda parada após o fim da
  18. 18. 18linha, logo a maioria dos assentos do ônibus estavam desocupados e as companheiras deviagem podiam sentar-se próximas para poderem conversarem. É flagrante que nestecontexto de volta eu também teria a oportunidade de sentar próxima ao grupo e,portanto – a partir dessa proximidade física – poderia estreitar os meus laços depesquisadora com o grupo. Voltando o meu olhar para aquilo que acontece após o desembarque em PortoAlegre, ou melhor, para o cotidiano de trabalho de minhas interlocutoras de pesquisainiciei uma negociação com Vera e Marion para que eu pudesse acompanhar efotografar essa rotina de trabalho na casa de seus patões. Pelo laço de parentesco entreVera e seu patrão (Vicente, tio de Vera) e entre Vera e eu, tive pronto consentimento paraadentrar na casa em que Vera trabalha. Porém, a vigilância epistemológica e o esforçoem estranhar aquela morada que me era tão familiar se fizeram presentes. A negociaçãocom os patrões de Marion foi mediada pela própria, que também definiu a data em queseria realizada essa saída de campo, optando pelo dia em que seus patões não estariampresentes, já que – em suas palavras – ela “ficaria mais à vontade”. Coadunava-se a issoo inicio do projeto Trabalho e cidade: antropologia da memória do trabalho na cidademoderno-contemporânea”, desenvolvido no âmbito do BIEV, tendo por objeto aetnografia da memória do trabalho na cidade moderno-contemporânea, suas redes e suaspráticas cotidianas no contexto metropolitano. No interior deste projeto foi desenvolvidoum sub-projeto de iniciação científica intitulado Memória e trabalho: estudoantropológico de itinerários urbanos, trajetórias sociais e narrativas biográficas demoradores da cidade Alvorada que trabalham em Porto Alegre. Este sub-projeto, alémde ter por objeto os itinerários urbanos de moradores da cidade de Alvorada quetrabalham em Porto Alegre, contemplava uma etnografia das trajetórias sociais,narrativas biográficas e do cotidiano de trabalhadores urbanos pertencentes a grupospopulares; analisando de forma privilegiada a cidade de Alvorada/RS em contraposiçãocom a cidade de Porto Alegre/RS que absorve a maior parte da mão-de-obra daprimeira. Seguindo a linha teórica do “estudo de sociedades complexas” (VELHO, 1981) esuas fronteiras simbólicas estabelecidas entre particularizações e universalizações, natensão entre experiências de vida e experiências sócio-históricas, este percursoetnográfico culmina na investigação do trabalho doméstico a partir da trajetória social e
  19. 19. 19das experiências cotidianas de Vera e Marion analisando as relações sociais em que elasestão imersas e deste modo estabelecer uma convergência entre a reflexividade queemerge de suas narrativas e o processo histórico e social em que a questão do trabalhodoméstico está inserida. Neste ponto da etnografia, no qual realizei uma entrevistavalendo-se do uso do vídeo com Vera, foi necessário me manter vigilante para nãoconduzir a entrevista a partir de minhas memórias como filha e sim a partir de suanarrativa, relativizando as escolhas feitas ao longo de sua trajetória. Perceber oagenciamento de papéis que existem nestas escolhas (ela não é simplesmente a minhamãe!). Também foi preciso reforçar o meu papel nesta entrevista, criando umacumplicidade entre mulheres, entre pesquisadora e interlocutora em uma “relaçãodialógica”. (OLIVEIRA, 2006). Com Marion, em que a entrevista também foi realizadacom o uso do vídeo, o desafio foi manter a cumplicidade conquistada entrepesquisadora e interlocutora com a inserção daquele objeto (a câmera), que até então,não havia se feito presente em nossos encontros e aventuras etnográficas.1.2.1 – Olhar e ouvir: uma etnografia sonora e visual Realizar uma iniciação científica como bolsista do Banco de Imagens e EfeitosVisuais proporcionou um aprendizado antropológico pelo viés da antropologia urbana 8(e das sociedades complexas) e visual, em que a produção e manipulação de fotos, sons,vídeos e textos está ligada a uma etnografia da duração (ECKERT; ROCHA, 2005), poronde perpassa o tema da memória coletiva e do imaginário. Motivada pela teoria doimaginário de Gilbert Durand (1997) foi possível provocar o pensamento antropológicopartindo das imagens visuais e sonoras que compõe o fenômeno investigado e queevocam conceitos e sentidos. Um mundo de dados invade o pesquisador em campo, na descontinuidade doinstante etnográfico e na própria descontinuidade do fenômeno observado em seuprocesso de “configuração” (RICOEUR, 1994) a aprendiz de antropóloga poderá contarcom os mais diferentes suportes: vídeo, som, foto na tentativa de apreender e“refigurar” (RICOEUR, 1994) os acontecimentos vividos e observados em campo.8 A antropologia urbana foi proposta originalmente por Eunice Durham e por Ruth Cardoso naUniversidade de São Paulo – USP, sendo a sua segunda linha criada por Gilberto Velho no MuseuNacional, UFRJ.
  20. 20. 20 Ao me inserir no grupo de trabalho narrativas etnográficas em vídeo – no âmbitodo BIEV – inicio o uso metodológico do suporte videográfico, buscando apreender ocotidiano com seus deslocamentos, embarques, desembarques e trazer para o diálogo,com estas imagens cotidianas, as imagens da memória de meus interlocutores depesquisa. Respectivamente me insiro no grupo de trabalho em “etnografia sonora”(ROCHA; VEDANA, 2007), que me oportunizou – em um primeiro momento –convergir as imagens fotográficas de acervo com relatos sonoros de interlocutores quenarram suas lembranças e percepções acerca do deslocamento cotidiano; e em umsegundo momento pude perceber quais imagens sonoras evocam a situação cotidiana dedeslocamento na cidade ou melhor, quais sons são produzidos nesse viver urbano enarram uma história. Estas narrativas (sonoras e visuais) produzidas a partir destesencontros etnográficos se pautam pelo ponto de vista do “Outro” em que o pesquisadorestabelece escolhas de captação em campo, balizado por conceitos antropológicos queexigem do pesquisador uma constante interpretação do fenômeno pesquisado eetnografado revelando as camadas de tempo que conformam o “fenômeno urbano”(VELHO, 1967).
  21. 21. 21 Capítulo II De passageiras a trabalhadoras: “as amigas do ônibus” e as “empregadas domésticas”2.1 – As “amigas do ônibus” e o cotidiano de ir e vir de uma cultura do trânsito O grupo do qual tive a oportunidade de vivenciar e compartilhar seu itinerário ecotidiano, é formado por Vera, 60 anos, usuária da linha Passo da Figueira/Ipiranga háaproximadamente dois anos, utilizando-a de segunda a sábado. Ela embarca com oônibus já lotado todos os dias na Parada 51, Bairro Formosa, em Alvorada. Neca Maria,42 anos, diarista. Utiliza a linha Passo da Figueira/Ipiranga nas terças, quintas e sextas-feiras. Normalmente, ao embarque de Vera, Neca encontra-se sentada, pois é moradorado Bairro Passo da Figueira e embarca no fim da linha. Marion, 57 anos, empregadadoméstica/diarista há 34 anos. Utiliza a linha Passo da Figueira via Ipiranga nas terças equintas-feiras, segundas, quartas e sextas-feiras é usuária da linha Alvorada via AssisBrasil, onde reside a mãe da sua patroa no Bairro Menino Deus. Seu embarque ocorrena parada 52, Bairro Bela Vista, em Alvorada. Heloisa, mais de 40 anos, é empregadadoméstica no Bairro Menino Deus há seis anos. Utiliza a linha Passo da Figueira desegunda a sexta-feira, seu embarque ocorre na parada 52 em Alvorada, assim comoVera, é moradora do Bairro Formosa. Segundo relato das próprias informantes a sociação entre elas partiu de Heloisa eMarion, nas palavras de Heloisa: As “amigas” começaram eu e a Marion... Eu já via a Vera há horas, mas a Vera não conversava... A Vera sempre séria... E eu dizia para a Marion: “aquela senhora vem sempre no ônibus, mas ela não fala nada... Ela não ri, não conversa com ninguém”... Daí um dia a Marion disse bem assim: “Deixa que eu vou falar com ela!”. Assim, Marion “puxou” conversa com Vera, na parada de ônibus no BairroMenino Deus, perguntando se Vera também iria para Alvorada. Vera respondeu quesim. Insistindo na aproximação, Marion perguntou onde Vera morava. Vera respondeuque na Rua Hermes da Fonseca. Partindo desta informação Marion comentou que o seupai também morava na Hermes da Fonseca e que era irmã da Daiane que tambémmorava na mesma rua. Quem nos fala da chegada de Neca ao grupo é Vera:
  22. 22. 22 A Neca no começo, bem no começo que eu comecei a trabalhar, eu só via as outras mulheres falando da Neca... Falando de bem, comentando a Neca não veio hoje... Essas coisas... Mas não lembro como a gente começou a se falar... É possível representar a “sociação” (SIMMEL, 1983) entre Heloísa, Marion, Verae Neca a partir da rede que se segue: A partir do estudo de redes sociais (LOMNITZ, 1994; BOTH,1976; FOOTE-WHYTE, 2005), torna-se possível ordenar os dados obtidos através das observaçõesparticipantes, dos relatos de como essas mulheres se conheceram e se sociaram, isto é, aordem de adesão de cada uma no grupo. Assim, como refletir sobre o quanto asdinâmicas de transporte (e a fluidez de seus usuários e trabalhadores), a mobilidadeurbana e o seu ordenamento no espaço aludem a interações e a criação de laços afetivos,ao mesmo tempo em que revelam redes de solidariedade, de vizinhança, de parentesco,etc. Esta rede contempla os bairros em que cada uma das “amigas de ônibus” reside,dando dimensão da abrangência de bairros que fazem parte do itinerário da linha Passo
  23. 23. 23da Figueira – Ipiranga. Também é feita uma distinção entre diaristas e empregadasdomésticas, diferença que está ligada ao cotidiano destas mulheres, já que as que sãodiaristas não pegam a mesma linha todos os dias, diferentemente das que sãoempregadas domésticas que tem uma rotina e itinerário fixo. A rede também procuraevidenciar o local de observação da pesquisadora, tendo como ponto de origem oparentesco com Vera, possibilitando a entrada da pesquisadora no grupo.2.2 – No tempo da viagem No dia 16 de junho de 2009, Vera, Marion e eu desembarcamos da linha Passo daFigueira via Ipiranga por volta das 09h30min da manhã, na Avenida Borges deMedeiros, atravessamos a rua para chegarmos à Rua José de Alencar, por ondeseguiríamos caminhando. Vera me apresentou para Marion dizendo que eu era a suafilha. Marion me deu oi e perguntou-me se eu estava trabalhando ali perto. Vera tomou afrente, e disse que eu estava fazendo uma pesquisa para a faculdade, completou a suafala com a constatação de que naquele dia “o ônibus estava calmo”. Marion assentiucom a constatação de Vera dizendo: “É... Tu viu que a crente não me olha mais, né? Elanão é nem louca”. Interpelei-a sobre qual o motivo. Marion contou-me que na semanaanterior a “crente” havia lhe chutado as canelas para poder sentar-se em um banco quehavia ficado vago e em tom indignado completou: “Mas que ela faça isso de novo queeu vou ter o prazer de desmanchar aquele “coquinho” na unha... Dentro do ônibusmesmo”. Vera e Marion deram risada. Marion seguiu o seu relato dizendo: “Sabe... Temque ver que o ônibus é um lugar coletivo, tu tem que saber respeitar as pessoas, olimite... Sabe?”. Partindo de uma análise simmeliana, podemos observar que esse exemplo deconflito existente no interior do transporte coletivo ao mesmo tempo em que segmenta,surge como “força de coesão no grupo” (SIMMEL, 1983), isso se evidencia no relatoetnográfico descrito acima, em que o conflito de Marion com uma passageira acaboutornando-se um elo unificador entre ela e Vera. Pude perceber no decorrer da pesquisaque essas formas de “sociação” ocorridas no interior do ônibus operam em uma mesma“província de significado” (SCHUTZ, 1979) e interagem através de uma “rede designificados” (VELHO, 1994) comum a esse grupo de trabalhadores que utilizam o
  24. 24. 24transporte coletivo. Esse relato etnográfico exemplifica o “sistema de valores”(VELHO, 1994) compartilhado por Vera e Marion, ou seja, um entendimento ético acerca da “situação social” (VELHO, 1994) vivida por Marion, que percebendo a posturada “crente”, como fora de seus padrões éticos e morais de se portar em um ônibus,promove a sociação com Vera que, assim como Marion, vê a prática da “crente” em“chutar as canelas de Marion”, como uma prática desviante desse entendimento éticoacerca da situação de deslocamento em um transporte coletivo. No dia 24 de novembro de 2009, abordo da linha Passo da Figueira via Ipiranga,por volta das 08h30min da manhã os desembarques se iniciaram, estava em pé ao ladode Vera, próxima à articulação do ônibus – local esse que Vera chamava de “redondo”,fazendo clara alusão ao seu formato. Ali, igualmente em pé, estava Marion e na suafrente estava o seu neto. Marion perguntou quando eu iria terminar a pesquisa.Respondi que tinha muito tempo de pesquisa ainda, que era provável que iria até otérmino da faculdade. Pouco tempo depois Vera virou-se para mim e disse: Cuida se umbanco desocupar para a Marion poder se sentar com o gurizinho dela. Prontamenteconcordei com o pedido. Uma mulher que estava sentada ao lado da janela num bancoem frente ao banco em que eu me segurava levantou-se para desembarcar. Vera fez sinalpara que eu me sentasse para guardar o lugar para Marion, mas a outra mulher queestava sentada no banco, no lado do corredor, chamou uma senhora – de cabelosgrisalhos e aparência cansada – que estava em pé, do meu lado esquerdo. Vera viu que asenhora estava indo sentar-se no lugar que havia ficado vago e me cutucou, disse a elaque a moça que ainda ocupava o banco havia dado o lugar para a senhora que estava empé ao meu lado. Marion já havia se aproximado de Vera, quando esta lhe avisou que obanco já havia sido ocupado. No decorrer da aproximada 1h10min de deslocamento diário esse espaço doônibus torna-se um “espaço vivido” (BACHELARD, 1993), um espaço que concentra“o jogo do exterior e da intimidade” (BACHELARD, 1993), ainda que público, depassagem, proporciona a construção de laços por troca de olhares, de palavras ou debancos. Chamo de “espaço vivido” não apenas por ser um espaço em que brotam laçosde cumplicidade, mas também por ser um espaço habitado por histórias, espaço queevoca lembranças de experiências vividas e apreendidas. “Espaço vivido” que seapresenta repleto de imagens, que se configuram a partir da experiência diária desse
  25. 25. 25deslocamento, das interações, conflitos e reciprocidades vividas no interior da linhaPasso da Figueira/Ipiranga; culminando em narrativas construídas no âmbito dessaperspectiva urbana de deslocamento. Faço essa reflexão a partir de um trecho deentrevista realizada com Marion, em sua casa, no dia 24 de abril de 2010: Luciana: Mas aí, tu começou a ferver no Romeu e Julieta? Como assim? A ferver como? Marion: Brincando, bagunçando... Nós tinha uma turma que naquela época seria quase que nem a nossa turma de agora. Só que naquela época era gurizada, tudo da idade tua da Jú, assim... Quando nós dizia: “Hoje ninguém vai pagar a passagem!”, nós pulava a roleta (erguendo as mãos para cima). Todo mundo pulava a roleta, era uma... A anarquia era grande. Teve muita época... Que logo no começo, assim... Teve roleta, teve o talãozinho, depois teve roleta... Tudo assim, né? Era uma coisa de tudo assim, sabe? Mas era bom trabalha... Anda assim prá lá e prá cá... Sempre foi, né? Sabe... Eu me conheço por gente assim... Trabalhando! (...) O que eu posso te dizer é assim... Me dou bem com todo mundo, dentro do ônibus, como tu vê, todo mundo vê... Os dia que eu não vou prá lá parece que falta uma coisa, porque essa turma do Alvorada o pessoal já é mais calmo que tem “menas” hora dentro do ônibus, né? Se eu tô quieta dentro do ônibus tá todo mundo quieto, então... Mas é bom... Na tentativa de ampliar essa reflexão, acerca dessas imagens que habitam oespaço do ônibus, trago a imagem de uma situação conflituosa, objeto de análise napesquisa de campo realizada no dia 16 de junho de 2009, em que Vera relata a respeitode um dia em que ela estava em pé em frente a um banco, um senhor que estava sentadolevantou-se para descer, no momento em que Vera se preparava para ocupar o lugar dopassageiro que desembarcava, ela foi empurrada por uma senhora, que segundo ela nemestava próxima ao banco (estava mais ou menos umas duas pessoas depois do banco), elhe deu um “cotovelaço” para poder sentar-se naquele lugar. Essa situação que me foinarrada me deixou intrigada: qual teria sido a “ofensa” nessa situação? A agressãofísica, ou a transgressão da norma implícita de que, quem está mais próximo ao bancoque foi desocupado tem direito ao lugar? Nas observações feitas nessa linha durante otrajeto foi possível perceber a importância corporal e gestual nas situações recorrentesde superlotação, situações essas que acabam configurando-se em uma “lutacompetitiva” (SIMMEL, 1983) pelo espaço. Nessa concepção temos a construção doespaço a partir da demarcação de uma fronteira, como pude observar em minhas saídasde campo, ela começa a ser estabelecida já no momento de embarque, através dedisputas veladas para poder sentar-se na janela, no lado da sombra ou próximo da porta
  26. 26. 26de desembarque. No interior do ônibus, em uma situação de superlotação essa fronteirase estabelece simbólica e moralmente. Outra imagem que se apresenta com força nesse espaço vivido que é o ônibus sãoos “pretextos para diálogo” (GOMES, 2005), que examinarei pela perspectiva dasociologia formal de Simmel (1983). Conforme o relato de campo do dia 21 de maio de2009: Abordo da linha Passo da Figueira via Ipiranga das 16h45min (no sentido Porto Alegre – Alvorada), sentei-me no primeiro banco após passar a roleta, o lado do banco que dava para a janela estava ocupado por uma mulher, que devia ter em torno de 40 anos. Acomodei-me no banco, percebi que a mulher ao meu lado havia me olhado com espanto, já que muitos bancos estavam vagos e eu havia sentado justamente ao seu lado. Nesse momento alguns passageiros ainda embarcavam e Samuel (o cobrador) cumprimentava a todos. Sentada em um banco do lado oposto do banco em que eu estava sentada havia uma mulher, morena de cabelos encaracolados. Ela reclamou para o cobrador que já não aguentava mais a “lerdeza” do motorista, acrescentou que desde que o Rogério havia saído de férias (deduzi que era o antigo motorista) ela não conseguia mais assistir a novela “Paraíso”. Samuel na tentativa de contornar a situação disse para a passageira que ela chegava a tempo da novela “Caras e Bocas” que era muito boa. A passageira afirmou que assistia a “Caras e Bocas”, mas que gostava mesmo da novela “Paraíso”. A partir dessa observação pude perceber que esses pretextos para diálogo são“símbolos compartilhados” (VELHO, 1994) em um processo de interação e“negociação da realidade” (VELHO, 1994). Também foi possível verificar que algunsdos temas que surgem significantemente no decorrer de uma viagem de ônibus são:novela, futebol, violência e as próprias condições da viagem. Podemos pensar, a partirda ideia de “conversação” de Simmel (1983, p.176), esses pretextos para diálogo comouma prática “puramente sociável, em que o assunto é simplesmente o meioindispensável para que a viva troca de palavras revele seus encantos” , isto é, essesdiferentes temas são compartilhados e utilizados como códigos sociais de aproximaçãoe reciprocidade pertencentes a um jogo de relações em que o conteúdo é o que menosimporta, já que esses pretextos para diálogo são um meio para a reciprocidade, paratroca e interação durante o tempo de viagem. É com estes pretextos para diálogo e seusdiferentes temas e conteúdos que em uma situação de conversação se estabelece umarelação, que constrói laços dando vida ao espaço do ônibus.
  27. 27. 27 As amigas começaram eu e a Marion... Marion completou a fala de Heloísa dizendo: É mesmo, né? A Heloísa tímida na parada e eu também... Heloísa tomou a palavra novamente dizendo: Eu já via a Vera há horas, mas a Vera não conversava... A Vera sempre séria... E eu dizia para a Marion: “aquela senhora vem sempre no ônibus, mas ela não fala nada... Ela não ri, não conversa com ninguém...” Daí um, dia a Marion disse bem assim: “Deixa que eu vou falar com ela!” Um dia a Marion veio e eu não vim. Depois no outro dia a Marion disse: “Mas ela fala até demais”. Marion tomou a palavra para contar em detalhes o início da primeira conversa entre ela e Vera: Na parada do ônibus eu dizia: “tu vai pra Alvorada também?”. E ela: “Eu também vou”. Daí depois: “Onde é que tu mora?”. “Eu moro ali na Hermes da Fonseca”. E eu respondi: o meu pai também, eu sou irmã da Daiane que também mora ali... Assim a gente começou a se falar... Conforme o relato de campo acima, do dia 03 de janeiro de 2010, a conversa entreVera e Marion é reveladora dos elementos de sociabilidade que não visam nenhumconteúdo em particular e ainda assim, são elementos fundadores dos laços que as unem.É interessante ressaltar que este relato de campo foi produzido durante umaconfraternização de final de ano (amigo secreto) na casa de Vera e organizado por Neca,Marion, Heloísa e pela própria Vera. Este fato corrobora a análise da conversação e seuspretextos para diálogo como fundadores dos laços estabelecidos entre “as amigas deônibus”, já que é possível inferir essa confraternização como sendo um subterfúgio paramanutenção e consolidação dos laços estabelecidos através de conversações ao longodas viagens de ônibus e durante a espera pelo mesmo.2.3 – O tempo de espera Nas situações de espera, que oscilaram entre 15 e 40 minutos, confrontei-me comnarrativas e “retóricas de práticas e táticas” (DE CERTEAU, 1994) densas. Tambémpude observar as formas de se posicionar e de interação daqueles que esperam. Paraanálise, trago três situações etnográficas vividas em campo. Inicio com um relatoetnográfico referente à pesquisa de campo realizada no dia 12 de agosto de 2009 quemostra a ambiência e a sociabilidade existente no Terminal Conceição em Porto Alegre,terminal que abriga mais de 15 linhas de ônibus da empresa SOUL – Sociedade deÔnibus União Ltda.
  28. 28. 28 Segui caminhando pela Rua Voluntários da Pátria, quanto mais me aproximava do Terminal Conceição mais forte eram os sons dos motores e das freadas dos ônibus. O sol já não se fazia mais presente, a noite já estava caindo. Na esquina da Rua Voluntários da Pátria com a Rua da Conceição se encontrava o Terminal Conceição, não vi pessoas esperando o ônibus, vi uma enorme fila de aproximadamente cinco ônibus esperando o sinal abrir para que eles pudessem seguir caminho pela Avenida Farrapos. Aproveitando que o sinal encontrava-se fechado para os ônibus, atravessei a rua em direção a parada de ônibus da linha Alvorada que ficava próxima a Rua Voluntários da Pátria e era uma das primeiras paradas, assim, podia observar as outras paradas que ficavam logo atrás desta. Havia poucas pessoas esperando, era provável que um ônibus havia acabado de partir. O espaço entre as paradas (que era uma em frente à outra) era pequeno, fazendo com que, as filas de pessoas que esperavam o ônibus acabassem se misturando, gerando uma pequena confusão e a pergunta frequente: “Essa é a fila de qual ônibus?”. Havia também no meio do terminal alguns pequenos comércios, como: banca de frutas, lojas de doces, carrocinha de cachorro quente, etc... O que acabava ocupando um espaço considerável para o deslocamento dos transeuntes em direção as suas respectivas paradas. Olhei no relógio: 18h20min. Já estava totalmente noite. O movimento no terminal continuava intenso. O som dos ônibus era ensurdecedor. As pessoas que estavam na fila e queriam manter um diálogo tinham que praticamente gritar. Uma mulher (mais ou menos 40 anos) loira, de cabelos curtos, maquiada e bem vestida, cheia de sacolas começou a gritar: “Fiscal! Fiscal!” para um rapaz negro, que passava ao seu lado, usando o uniforme da SOUL e que carregava uma prancheta. Prontamente o fiscal perguntou para a mulher o que ela queria. Rapidamente ela perguntou para ele que horas havia um Taimbé. O fiscal sem muitos rodeios respondeu: “É para ter um às 18h15min... Mas ele sempre atrasa, pois ele saí da Salomé 17h15min, pra tá aqui às 18h15min... Nunca que isso vai acontecer... Não tem como... Mas eles não querem nem saber”. A mulher loira quase que sem reação diante da sinceridade do fiscal apenas se limitou a perguntar: “Será que vai demorar muito?”. Um pouco mais otimista, o fiscal respondeu: “Acho que não! Deve tá chagando em 5 ou 10 minutos!”. Neste relato etnográfico percebe-se que os pretextos para diálogo e para asconversações além de se fazerem presentes no decorrer de uma viagem de ônibus sãocomuns também nas situações de espera. Na maioria das vezes consistem em perguntarse determinado ônibus já passou ou simplesmente comentários a respeito do tempo. Assituações de espera em paradas de ônibus também propiciam o encontro entreconhecidos e vizinhos, como é possível observar neste segundo relato etnográficoreferente à pesquisa de campo realizada no dia 24 de novembro de 2009 que retrata,além das formas de sociabilidade, os laços de vizinhança que se atualizam em conversasfugidias e interações rápidas.
  29. 29. 29 Eu e Vera Tubello saímos de casa (Rua Hermes da Fonseca, Alvorada, Bairro Formosa) às 7h45min. Era uma manhã quente, o sol brilhava no céu. Fizemos o nosso trajeto costumeiro de ida até a parada de ônibus – Rua Hermes da Fonseca, dobrando a esquerda na Péricles Simões Ferreira até a Av. Presidente Getúlio Vargas. Durante o percurso fomos falando amenidades, assuntos cotidianos. Chegando na parada, observei que a mesma se encontrava com muitas pessoas dispersas, não estavam aglomeradas entorno do abrigo. Aproximamo-nos do abrigo, abri a minha mochila e peguei o dinheiro da passagem: R$ 2,85. Vera perguntou-me que horas eram, peguei o celular e disse: 7h55min. Vera disse que o ônibus estava atrasado. Nesse momento se aproximou de nós uma vizinha, a Beth – que sentou-se no banco que fica embaixo do abrigo, que estava em nossa frente – Vera comentou que fazia bastante tempo que não a via. Beth respondeu: “É... Um dia eu venho mais tarde, no outro eu vou mais cedo... Ontem eu nem vim, ah... Já vou me aposentar mesmo”. Vera e eu começamos a ficar apreensivas, já eram 8hs e nem sinal do ônibus, nesse momento se aproximava um ônibus da linha Alvorada/Assis Brasil, Beth levantou-se do banco e se dirigiu para embarcar, despedindo-se de nós. Este contexto de tensão por um ônibus que demora a chegar pode ser mediado poresta situação de conversa rápida, ao mesmo tempo em que atualiza um laço devizinhança é um pretexto para diálogo no sentido de facilitar a passagem desse tempode espera. A segunda situação etnográfica que será tratada pode ser intitulada de o homemordinário que se torna narrador, em clara referência a Michel de Certeau em “Ainvenção do Cotidiano”. O homem ordinário a quem me refiro chama-se Júlio, umantigo morador de Alvorada e usuário do transporte coletivo da cidade que conheci emuma saída de campo no dia 9 de fevereiro de 2010, cujo objetivo era o de se aventurarem situações de espera em paradas de ônibus visando aplicar um pequeno roteiro deentrevista especifico para essa situação. Essa situação etnográfica, mais do que tratar deinterações possíveis em paradas de ônibus, dimensiona um tempo de espera queproporcionou a construção de uma narrativa, fazendo com que Júlio – o homemordinário – deixasse de ser um usuário do transporte coletivo para tornar-se narrador desua condição. O encontro com Júlio ocorreu na parada 53 de Alvorada, localizada naAvenida Presidente Getúlio Vargas, principal avenida da cidade e com um grande fluxode veículos. Era uma manhã quente e ensolarada, há alguns metros de distância avistei aparada de ônibus, apenas duas pessoas esperavam o ônibus: uma senhora baixinha, decabelos curtos e que aparentava ter mais ou menos de 60 anos e um senhor negroaparentando mais de 70 anos (Júlio). Ambos vestiam roupas simples e confortáveis(bermuda e camiseta). As condições da parada não eram as melhores. Avaliei que
  30. 30. 30estavam reformando a calçada, muitas pedras estavam reviradas pelo chão, no entornoda parada, o que dificultava a locomoção e limitava ainda mais o espaço de espera doônibus. Desviando-me das pedras soltas da calçada me aproximei do senhor que aliesperava o ônibus – Júlio – desejando-lhe bom dia. Falei da pesquisa e lhe perguntei seeu poderia conversar com ele a respeito da condição de espera e de transporte emAlvorada. Prontamente ele respondeu que sim. Tirei o MP3 da bolsa e comecei a gravar,direcionando o gravador próximo aos seus lábios, pois tinha o receio de que o som dotrânsito “abafasse” a voz do entrevistado, que com tranquilidade e semconstrangimentos diante do aparelho que eu lhe apontava iniciou a sua fala, ou melhor,“o homem ordinário se tornava narrador”9. Júlio narra sobre a formação de Alvorada – um município que nasceu sob oestigma de ser uma cidade dormitório – sob a perspectiva da fundação da empresaSOUL. Seguindo a premissa da descontinuidade bachelardiana pode-se inferir que Júliotece a memória a partir da própria situação cotidiana de deslocamento. Júlio começa suanarrativa falando da antiga Alvorada, no tempo que a empresa SOUL tinha apenas 90carros, segue falando de Carlos – um dos fundadores da empresa – fazendo menção aomonopólio da empresa e a interferência que isso tem na vida dos moradores usuários dotransporte coletivo. O narrar de seu Júlio vem carregado de suas lembranças, não apenascomo um morador antigo de Alvorada, mas também como usuário da já referidaempresa de transporte e das suas percepções acerca do deslocamento cotidiano: Luciana: Ahhhh... E como é essa espera? Júlio: Ah, é isso que a senhora tá vendo aí, né? Agora... Ficar aí meia hora, 40 minutos é... Não dá pra admirar, né? Uma hora ou mais é de costume. Isso que na minha época que eu vim pra cá mudou, né? Quando eu vim pra cá, essa empresa tinha 90 carros só... Tudo era barro aqui. Ela já vendeu umas três ou quatro frota e é uma das maiores empresa de ônibus que tem por aí... Apesar de que Alvorada, aqui é só ela... Era uma sociedade... Tinha, quando eu vim pra cá, diz... Tinha... Cinco ou sete dono... É o que me contaram quem já morava aqui. Hoje, os donos são um só, daí fazem o que querem. Tem que ser sardinha sempre. Luciana: Como é ser sardinha? Júlio: Sardinha se ela não tá cheia é porque já mexeram nela. Prolonga os horário... Os horário eles controlam pelo movimento. Sábado, feriados e domingo... Se precisa de pegar o ônibus 10 horas então saí ali pelas 9 pelo menos pra vê se pega até as 10... Domingo pior... Passou das 8 horas da noite é uma tristeza.9 Este encontro etnográfico resultou em uma crônica etnográfica intitulada “Do barro ao asfalto” quepode ser assistida em: http://www.youtube.com/user/tubellocaldas/videos .
  31. 31. 31 A narrativa de Júlio sobre uma antiga Alvorada e a situação cotidiana dedeslocamento de seus moradores em conjunto com o som do trânsito que se faz presentedurante toda a sua narrativa evoca imagens de uma cultura do trânsito relacionada aositinerários urbanos cotidianos de trabalhadores em perspectiva com a formação de ummunicípio que nasceu sob o estigma de ser uma cidade dormitório. Sendo esse o caráteretnográfico da narrativa de seu Júlio, infere-se que a história que pode ser contada édessa Alvorada antiga – sua formação a partir da empresa de ônibus SOUL –confrontada com problemas cotidianos ligados a política de sua empresa de transporteque acaba interferindo indiretamente no “campo de possibilidades” (VELHO, 1994) dosmoradores de Alvorada – a falta de emprego em sua cidade de morada que os obriga abuscar trabalho longe da cidade de morada ou o escasso rendimento do trabalho que osobriga a buscar moradia longe da cidade em que trabalham (capital metropolitana). Ouseja, conforme apontado por Katzman (2008): a distribuição espacial da população nasgrandes cidades é caracterizada por uma configuração onde os trabalhadores de baixaqualificação ocupam as áreas periféricas, ou seja, um desencaixe entre as estruturas deoferta de moradia e de emprego. Júlio: As empresas grandes compram os prefeitos, pra certas coisas... Porque o velho [refere-se ao patronato] molhava a mão dos prefeitos... Claro, ele vai deixar... Se não vai abri a mão para os prefeitos, entra outras empresas... Entra firma. Por que quase não tem firma na Alvorada? Porque o prefeito não deixa. O que entra uma porção de firma pra Alvorada... O que eles perdem de passageiro pra ir trabalhar? Por dia. Eu trabalhei quase sempre lá pra dentro de Porto Alegre, Novo Hamburgo, essas coisas, assim... São Leopoldo... Então já sabendo... Sempre saio adiantado, daí nos horário de serviço eu pegava os horário de ônibus, pra mim os horário de pico... Sempre larguei na frente pra não atrasar lá atrás... Mas agora, aí... Assim... Quem tiver um horário: “em tal hora tenho que tá em tal lugar”, se adiante porque não chega... Para ampliar essa questão do tempo de espera em uma parada de ônibus tragoelementos da crônica etnográfica – realizada no Terminal Conceição , Centro de PortoAlegre em 14 de janeiro de 2010 – “Cidade viajante”, disponível emhttp://bievufrgs.blogspot.com , que trata do cotidiano e da condição de espera dosmoradores de Alvorada que trabalham no Centro de Porto Alegre.
  32. 32. 32 Aline: Eu acho que eles como uma empresa grande tinha que botar ônibus em mais horários, entendeu? Não botar de 40 em 40... Luciana: É de 40 em 40? Aline: É! De 40 em 40, entendeu? Aí fica complicado... Como é que vai caber todo mundo? Toda uma população inteira? Não sei se tu já reparou nesse Jardim Aparecida? Olha, vêm uns três ônibus seguidos, um atrás do outro... Tudo lotado! Nesta terceira situação etnográfica, também se apresentaram homens ordináriosque tornam-se narradores de suas práticas e táticas implícitas no deslocamento diário.Foi possível perceber que o tempo de espera corresponde a uma atualização de táticas epráticas que se projetam na estratégia do outro, daquele que estabelece intervalos de 40minutos entre um ônibus e outro. Táticas que se coadunam com maneiras de fazer – dese locomover, de se deslocar – em um ônibus lotado por conta do longo intervalo de 40minutos. Falo de atualização de táticas e práticas valendo-se da afirmação que Michelde Certeau faz em “A invenção do Cotidiano”: [...] o caminhante transforma em outra coisa cada significante espacial. E se, de um lado, ele torna efetivas algumas somente das possibilidades fixadas pela ordem construída (vai somente por aqui, mas não por lá), do outro aumenta o número dos possíveis (por exemplo, criando atalhos ou desvios) e o dos interditos (por exemplo, ele se proíbe de ir por caminhos considerados lícitos ou obrigatórios). Seleciona, portanto. O usuário da cidade extrai fragmentos do enunciado para atualizá-los em segredo.” (DE CERTEAU, 1994, p. 178) Assim, percebe-se que o tempo de espera além de proporcionar a conversaçãoentre aqueles que esperam o ônibus, provoca atualização de suas táticas e práticas(pegar uma linha via Freeway na tentativa de escapar do congestionamento da AvenidaAssis Brasil é um bom exemplo de decisão que pode ser tomada durante a espera naparada de ônibus); mas não em segredo, esta atualização é verbalizada, compartilhada etrocada timidamente através de informações sobre que linha pegar para se chegar maisrápido ou exaltada diante das condições de transporte: Entrevistado: Às vezes a gente saí de manhã com o ônibus lotado e às vezes volta com o ônibus cheio... Luciana: Mas qual é a linha que tu usa? Entrevistado: SOUL, Jardim Aparecida ou Stella... Às vezes de manhã eu vou sentado no chão... Na escadaria para poder ir sentado... Tem dia que o ônibus solta gente pelo latrão.
  33. 33. 33 Atentando o olhar para essas falas, veremos que no pano de fundo desses relatospermeia a questão do trabalho. “Assim como a gente tem que ir a gente tem que vir dotrabalho”, dessa afirmação feita por Aline, desvenda-se que a condição do transporteenquanto cultura do trânsito é lhes é uma situação passiva ou alienada, ao contrário, asformas de deslocamentos estão repletas de múltiplas experiências e eivadas de formasplurais de sociabilidade e interações sociais. O estudo aqui se detém sobremaneira namobilidade dinamizada pela condição do trabalho (profissional ou empregatício) econfigura as determinações sociais as quais essa população residente na cognominada“cidade dormitório” de Alvorada, vivencia em suas rotinas diárias. O trajeto, ascondições de transporte, as sociabilidades no espaço do deslocamento são assimarranjos sociais que identificam uma condição de vida de trabalhadores. E como dizuma entrevistada Aline, “toda uma população” Alvoradense, tem que ir trabalhar emPorto Alegre.2.4 – Desembarque: Bairro Menino Deus O bairro Menino Deus se localiza na região centro-sul de Porto Alegre, pode serencarada como uma região de transição entre o Centro e a Zona Sul. O nome do bairrose deu por conta da devoção ao Menino Deus, introduzida pelos açorianos no séculoXIX. Ele é considerado um bairro de classe média. Conforme dados da AssociaçãoBrasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) de 2006 ele possuí o 17º melhorIDH dos bairros de Porto Alegre/RS – oficialmente Porto Alegre possuí 79 bairros. Arenda média fica no entorno de R$ 1600,00, R$ 2400,00 a menos que o bairro TrêsFigueiras que possuí a maior média. No século XIX, o bairro Menino Deus caracterizava-se pela presença de casasbem arranjadas e hortas, ligadas a uma camada da população de maior poder aquisitivo,que desfilava por suas ruas em finas carruagens. Destacava-se como o maismovimentado de Porto Alegre, em função de suas festas paroquiais e pela instalação, em1888, do hipódromo Rio-Grandense, que funcionava entre as ruas Botafogo e SaldanhaMarinho. Nos anos de 1940, o bairro sofreu sua primeira grande modificação urbana, emdecorrência da canalização do Arroio Dilúvio, que produzia graves enchentes. A
  34. 34. 34realização do aterro (onde hoje se situa o Parque Marinha do Brasil), no final dos anos50 e início dos anos 60, possibilitou o prolongamento da Av. Borges de Medeiros que,por sua vez, providenciou melhor acesso e consequente expansão do bairro. Uma novaconfiguração aconteceu com o “Projeto Renascença”, que abriu a Av. Erico Verissimo ecriou o Centro Municipal de Cultura, na área onde antigamente situava-se a Vilaconhecida como “Ilhota10”. A partir desta descrição do bairro Menino Deus e retomando os apontamentosfeitos no capítulo anterior acerca da cidade de Alvorada podemos pensar em termos deuma segregação urbana, ou como apontado por Guattari (1992), observar que as“engrenagens urbanas” modelam subjetividades e valores onde a questão da cidade demorada e a cidade de trabalho passam a ser entendidas como uma questão político-ideológica, que procura através da segregação, garantir a hegemonia burguesa noscentros da cidade, ou seja, os trabalhadores habitam as periferias e as regiõesmetropolitanas das grandes cidades com o propósito de priorizar a valorização dosespaços centrais da cidade, reafirmando o compromisso burguês com o progresso e amodernidade11. É neste tradicional bairro de Porto Alegre que o grupo formado por Vera,Neca, Marion e Heloísa desembarcam e trabalham, consequentemente, é neste mesmobairro que ocorre o embarque do grupo na linha Passo da Figueira via Ipiranga das14h45min. No dia 24 de novembro de 2011, após acompanhar o grupo na linha Passo daFigueira via Ipiranga das 07h40min, em seu trajeto de ida para o trabalho, combineicom Vera de lhe buscar na casa em que trabalha às 14h30min e de lá iríamos direto paraa parada de ônibus onde pegaríamos a Linha Passo da Figueira/Ipiranga das 14h45min.A parada de ônibus ficava na Avenida Padre Cacique, em frente a um prédio comercial,ali havia três mulheres: uma negra com os cabelos compridos e todo trançado que deviaem torno de 40 anos, uma jovem de cabelos lisos e claros que devia ter mais ou menos20 anos e uma senhora de cabelos curtos e loiros, baixinha e acima do peso, quetambém devia estar na casa dos 40 anos. Era um dia muito quente e todas elas trajavamroupas justas, decotadas e confortáveis, como calça no estilo legging e regata ou baby10 Cabe salientar que a maioria dos moradores desta vila eram negros e foram removidos e realocados naRestinga a 22 quilômetros do Centro de Porto Alegre. Para este assunto ver Pesavento (1999).11 Sobre esta questão ver Caldeira (2000), em que a autora analisa a questão da segregação social eespacial nas cidades, a partir da organização do espaço urbano.
  35. 35. 35look. Cinco minutos após a nossa chegada, Neca também chegou. Fazia muito calor,Neca estava pingando suor, segundo ela: Desci aquela lomba da Silvério a mil... Tava lavando o chão quando a “véia” disse para eu ir embora se não eu iria perder o ônibus das 14h30min, Não pensei duas vezes... Terminei de passar o pano no chão e me mandei! Aproveitei para perguntar como havia sido a faxina e se a patroa era “boa”. Necadisse que havia sido ótima, que ela não era daquelas patroas chatas que ficavam emcima, cheia de exigências. Neca comentou que a casa estava imunda, que a dona da casaera uma senhora bem velhinha, que já não tava dando conta do serviço, então, como elamesmo disse, “teve que pegar duro para limpar a casa”. Neca acrescentou que osarmários da cozinha, que eram de um verde claro, estavam marrons de tanta poeira.Entre risadas, comenta que esfregou tanto os armários que chegou até a descascar,acrescentou que para a sua sorte havia um vidro de lustra móveis, o que ajudou adisfarçar o descascado. Neca finaliza a sua fala dizendo que a velhinha havia adorado afaxina e nem havia reconhecido o seu armário, de tão limpo que havia ficado. Necaaproveitou para contar que aquele era o dia de fazer faxina em outra casa, mas que elaresolveu não ir e nem ligou para avisar que não iria, pois na semana passada a dona dacasa havia exigido que Neca limpasse o chão da casa de joelhos – nesse momento Necaergueu a sua calça para mostrar os seus joelhos que havia ficado roxo. Neca completou asua fala dizendo que havia achado isso um absurdo e que a mulher era louca. Nesse contexto de espera pelo ônibus fui me aproximando de um mundo que iapara além das passageiras, comecei a me deparar com mulheres trabalhadoras,empregadas domésticas. Ainda neste momento do campo o meu olhar não estivessevoltado para a questão do trabalho, mas sim, para a questão das formas de sociabilidadeexistentes no contexto dos itinerários urbanos. Porém, um dos pretextos para diálogoque eram recorrentes ao longo destes itinerários era o cotidiano de trabalho destasmulheres. Quanto mais me imergia nos deslocamentos diários destas trabalhadoras, maistomava conhecimento de suas práticas de trabalho.
  36. 36. 362.5 – “A gente já chega pra trabalhar cansada da viagem” No dia 10 de março de 2010 cruzei o território dos itinerários urbanos, seguindo acaminhada após o desembarque. Descemos na Avenida Padre Cacique, atravessamos arua, chegamos na José de Alencar. Heloisa comentou que estava com muita preguiça.Concordei com Heloisa dizendo que estava me sentindo cansada e Marion acrescentou:“É essa viagem de ônibus que deixa a gente assim!”. Heloisa respondeu ao comentáriodizendo: “É... A gente já chega pra trabalhar cansada da viagem”. Heloisa despediu-sedo grupo dizendo: “Até as 15hs!” – que é o horário do ônibus que elas pegam paravoltar para casa – dobrou a direita seguindo pela Rua Silvério. Demos mais algunspassos e também nos despedimos: Marion seguira em frente pela Rua José de Alencarenquanto Vera e eu atravessamos a rua e dobramos a esquerda – Rua Itororó,caminhamos mais uma quadra e dobramos a direita – Rua Costa, onde se localiza a casaem que Vera trabalha. Era uma casa antiga – acredito que da década de 50/60 – de doisandares. De cor bege e com grades e telhados da cor marrom. Entramos. Não havianinguém em casa. A casa era muito espaçosa, o chão era de parquet coberto por umgrande tapete. Entrando vemos disposto, do lado esquerdo da sala, um grande sofá, nocentro da sala há uma mesinha de mármore, no canto direito há uma mesa para TV e nolado direito, em perspectiva com o sofá uma estante de madeira escura coberta por portaretratos dos netos, bisnetos e filhos de Vicente (o tio e patrão de Vera). Vera dobrou adireita, em uma porta que ficava ao lado, mas um pouco mais afastada, da porta deentrada. Era a entrada para o corredor que dava para o banheiro e para os quartos. Naprimeira porta a esquerda ficava o banheiro, na primeira porta a direita ficava o quartode Vicente e na segunda porta a esquerda ficava uma espécie de quarto para hospedes,mas que também, acolhia diversos outros objetos e utensílios da casa. Foi para estequarto que Vera se dirigiu para despir-se de sua blusa e calça social e vestir uma calçacom um tecido mais leve e uma blusa mais folgada, para assim, poder dar início asatividades de limpeza da casa.
  37. 37. 372.6 – O “uso das mãos” no trabalho doméstico A saída de campo realizada no dia 10 de março de 2010 tinha como objetivoconstruir uma narrativa fotográfica acerca da rotina de trabalho de Vera, trazendo adimensão da prática cotidiana de limpeza e de cuidados com a casa. A primeira tarefa deVera era arrumar a cama de Vicente. Vera era ágil e enquanto eu batia as fotografias (emplano aberto) precisei pedir para que ela arrumasse a cama mais devagar, pois as fotosestavam saindo desfocadas. Com a cama arrumada Vera seguiu em direção a cozinha –localizada em uma porta a direita de quem sai do corredor. A cozinha era ampla como asala. Possuía uma grande mesa, próxima a porta, dois armários, uma geladeira e umfogão (em perspectiva com a porta de entrada da cozinha). No lado esquerdo de quementra na cozinha localizava-se a pia que estava com algumas louças sujas, como: xícara,faca, copo, prato, etc. E era essa a segunda tarefa cotidiano de Vera: lavar a louça docafé da manhã. Procurei captar essa tarefa doméstica utilizando dois enquadramentosdiferentes: um plano aberto abrangendo assim, a postura corporal de Vera exercendo atarefa doméstica e um plano fechado nas mãos de Vera (infelizmente esses planofechados ficaram muito escuros), enquadrando o gesto de limpeza de um copo. Após alouça ser lavada Vera começou a varrer a cozinha, novamente recorri ao enquadramentoem plano aberto. Vera, em todas as suas tarefas, era muito rápida, tanto, que enquantoela varria a cozinha eu precisava pedir para que ela fosse mais devagar, para que asfotos não saíssem tremidas. Novamente recorri ao plano aberto para capturar a limpezado banheiro e ao plano fechado nas mãos/gestos de Vera. Perguntei para Vera o que elaainda tinha para fazer. Vera respondeu que ainda teria que varrer a sala e o pátio. No dia 24 de agosto de 2010 realizei com Marion uma saída de campo com omesmo objetivo – de construir uma narrativa fotográfica acerca do trabalho doméstico.Marion iniciou suas atividades recolhendo o lixo da cozinha, procurei fotografa-la emseus gestos (plano fechado) e em seu contexto (plano aberto) sem sucesso, pois osmovimentos de Marion eram rápidos e as fotos em close acabaram ficando desfocadas eas em que deveriam ser em plano aberto acabaram ficando em plano médio por conta dopequeno espaço na cozinha. Após recolher o lixo, Marion seguiu para o quarto, paraarrumar a cama. Novamente a agilidade de Marion não permitiu que eu tirassefotografias com um bom foco. Para poder evocar a ideia de movimento e agilidade
  38. 38. 38presentes no cotidiano do trabalho doméstico foi preciso utilizar o dispositivo decaptação contínua em três quadros, tendo assim, um encadeamento de três planos, quejuntos evocam essa ideia do movimento e da agilidade do trabalho doméstico. Aindaque as fotos saíssem desfocadas, poderia explorar a ideia de movimento que aquele“desfoque” trazia tirando as fotos em sequencia. Do quarto seguimos para a área deserviço onde Marion pôs as roupas sujas de molho. Marion explicou que como ela vai àcasa de Ana as terças e quintas-feiras ela sempre procura lavar as roupas na terça-feira epassá-las na quinta-feira. Após colocar as roupas de molho Marion seguiu para obanheiro, onde iria iniciar a limpeza. No banheiro observei que Marion limpava o chãode joelhos com um pano. Perguntei se não era melhor utilizar um esfregão do tipobruxa. Marion respondeu que Ana havia comprado uma bruxa, mas que ela não gostavade usar, pois parecia que não deixa o chão limpo. Acrescentou que também não gostavade usar luvas, tinha a sensação de que atrapalhavam o movimento das mãos na hora delimpar. Terminada a limpeza no banheiro seguimos para a cozinha para lavar a louça!Em tom de confissão Marion disse: “Sabe, ela não faz nada! Se cair um papel no chão,fica! Fica tudo pro dia que eu venho!”. Destas descrições é possível inferir o quanto a câmera fotográfica participou comomediadora deste processo de interação, realizando um recorte do espaço em que se dá asituação etnográfica e um recorte da duração temporal deste “estar-lá” (GEERTZ,2002). A partir do encadeamento destas imagens realizadas no processo denominado depós-campo, processo este que se refere ao tratamento das imagens produzidas (escritado formulário de avaliação, análise, conceituação e nomeação das fotografias) e a partirdas discussões semanais realizadas no âmbito GT Fotografia, que me foi possível pensaros gestos, movimentos e as práticas que circunscrevem o trabalho doméstico.
  39. 39. 39
  40. 40. 40 Algumas fotos foram tiradas valendo-se do plano aberto, para assim trazer a ideiade todo contexto em que aquela prática está inserida. Já a opção para a maioria das fotosfoi o do plano fechado nas mãos e gestos de Vera e Marion, enquanto realizam suastarefas domésticas. Conforme nos aponta François Soulages em Esthétique de laPhotographie (1998), para vários pontos de vistas, temos várias fotografias queengendram universos diferentes. Nesta análise estética da fotografia o autor concluiuque a fotografia não é somente material ou ferramenta, mas ela é o principal vetorestrutural da criação. Sensível a esta potência criadora da fotografia e privilegiando oponto de vista do plano fechado nos gestos e práticas destas trabalhadoras atento o meuolhar para o “uso das mãos” (FRANCO, 1997) o que nos faz perceber o quanto estetrabalho manual é significativo para a conformação simbólica do trabalho doméstico.Oriundo de um sistema econômico escravista, o trabalho doméstico, carrega os valoresnegativos que circunscreveram esse sistema, dentre eles a degradação do trabalhomanual. Logo, o menosprezo pelo “uso das mãos” – atrelado a escravidão – arraigou-seculturalmente no imaginário brasileiro, corroborando para a desvalorização ediscriminação do trabalho doméstico.2.7 – “Tenho a minha carteira assinada ali, assinada como empregada doméstica”:A trajetória de Marion No dia 24 de abril de 2010 às 15h30min da tarde saí de minha casa na RuaHermes da Fonseca rumo à casa de Marion. Dobrando a direita na Péricles SimõesFerreira, atravessando a Av. Presidente Getúlio Vargas, segui em frente na AvenidaWenceslau Fontoura. Era uma Avenida, com muitos prédios públicos: secretaria daeducação, secretaria da cultura, secretaria da habitação, entre outras. O movimento depedestres e de ciclistas era intenso, já que era uma tarde de sábado ensolarada, o queconvidava as pessoas a saírem à rua. Após uns cinco minutos de caminhada pelaAvenida Wenceslau Fontoura avistei a Rua Natal que conforme orientação da Marionera a rua que eu devia entrar. Dobrei a primeira à direita (Rua Natal). Esta, já não erauma rua asfaltada, era uma rua de chão batido. Na esquina ficava a Secretaria deEducação, ao longo de todo o lado esquerdo da rua havia um descampado terreno baldioe do lado direito algumas casas pequenas e de madeira se faziam presentes. Após alguns
  41. 41. 41minutos de caminhada dobrei à esquerda, esta era a Rua em que Marion morava (PpTrês). Era uma rua bem estreita, cheia de casinhas grudadas umas nas outras, algumasde madeira, mas a grande maioria era de material. Seguindo em frente fiquei atenta anumeração das casas, o fluxo de pessoas era intenso, algumas pessoas caminhavam,outras varriam suas calçadas ou simplesmente estavam sentados em frente as suas casasconversando e/ou tomando chimarrão. Olhei para a minha direita e havia uma casa dematerial sem reboco e com uma janela de cor verde. Olhei atentamente para a casa embusca do seu número. Rapidamente segui para frente da casa e bati palmas. Havia doiscães que estavam presos e começaram a latir assim que eu me aproximei. Algunssegundos depois Marion saiu de sua casa por uma porta localizada no lado esquerdo. Entramos, conversamos um pouco sobre sua família e sobre a sua rotina detrabalho aos sábados (temas que seriam retomados no momento da entrevista com acâmera ligada) enquanto ela preparava o café. Enquanto tomávamos o café Mariondemonstrava-se nervosa com a entrevista que seria registrada em vídeo, procureitranquiliza-la dizendo que não passaria de uma conversa. Terminado o café seguimosconversando sobre a sua rotina de trabalho, percebi que Marion estava mais relaxada emenos apreensiva. Marion seguiu falando até que determinado momento ela disse:“Sabe Luciana... Eu pego ônibus desde os meus 17 anos...”. Rapidamente interrompiMarion e disse: “Ahhh, mas essa história eu vou ter que gravar...”. Comecei a tirar acâmera da bolsa e Marion comentou que estava nervosa. Liguei a câmera enquadrandoMarion, em plano fechado dizendo-lhe que não havia porque ela ficar nervosa, que elasó precisava continuar contando a história de quando ela pegava ônibus aos dezesseteanos: Marion: Então foi assim... É que eu me acostumei... Me criei assim, né? Trabalhando prá lá e prá cá... Andando de ônibus prá lá, prá cá... Eu sempre trabalhei fora. Marion nasceu em Porto Alegre e com um mês de vida veio morar em Alvoradacom sua família. Era o ano de 1953, tempo em que Alvorada ainda se chamava Passo doFeijó. Morou até os 11 anos de idade na Parada 45, depois se mudou para o Bairro Passoda Figueira, onde se criou e se casou. Em 1970, já com 17 anos, foi surpreendida com avisita de uma prima que acabara de dar a luz e que estava com a mãe acometida por umatrombose no braço. Essa prima foi até a sua casa para falar com o seu pai e perguntar se
  42. 42. 42ele conhecia alguém que tivesse o interesse em trabalhar como doméstica ajudando-a noserviço da casa, prontamente seu pai lhe indicou dizendo: “Tem a Marion aqui que quertrabalhar”. Buscando sua independência, aos 17 anos, ela começa a trabalhar comoempregada doméstica. Mais do que se ater ao serviço doméstico Marion acabouagregando a função de babá ao ajudar sua prima – agora patroa – na criação de AnaLúcia. Após, aproximadamente, 12 anos de trabalho, Marion casa-se e para de trabalhar,ficando aproximadamente nove anos afastada do trabalho junto à família de Ana Lúcia.Nesse período ela exerceu alguns trabalhos como auxiliar de serviços gerais em lojas ecomo diarista em “faxinas avulsas”, época de grande instabilidade, já que, nos finais deano, grande parte dos empregadores viajava de férias. Durante seu primeiro casamento Marion morou em Porto Alegre, no bairro Parquedos Maias, não se adaptando a nova morada ela retorna para Alvorada. Vai morar comseu irmão no bairro Passo da Figueira. Após determinado período de tempo, ele pede acasa em que ela estava morando. Assim, ela acaba comprando uma casa no BairroFormosa. Lá ela morou por 14 anos, até o dia em que a Prefeitura, devido aoplanejamento urbano pelo qual a cidade estava passando, solicitou o terreno em queMarion morava, pois ali seria construída a abertura de uma rua. Este terreno pertencia aprefeitura e Marion possuía um contrato comodato com a mesma, sendo realocada parao antigo Bairro “Mutirão”, hoje chamado de Bela Vista. O Bairro “Mutirão” começou a ser construído a partir de um programa daPrefeitura para realocar moradores da Vila “Beira do Valão”, composta, em sua maioria,por uma população que saiu do interior do Rio Grande do Sul em busca de emprego emPorto Alegre. Marion estava inscrita nesse programa, mas como na época ela não sabiacomo construir uma casa e nem o seu marido, decidiu permanecer no Bairro Formosa.Ainda morando no Bairro Formosa, Marion se separa. Seu filho do meio (Diego), frutodo primeiro casamento, já estava com nove meses de vida. Marion casa-se novamente,deste segundo casamento nasce Juliana. A prefeitura entra em contato com Marion,comunicando-a que ela tinha direito a quatro terrenos no “Mutirão” devido à realocaçãopor conta da abertura da Rua Almirante Barroso, no Bairro Formosa. Com a ajuda deseu pai iniciou a desconstrução de sua casa no Bairro Formosa com a intenção dereaproveitar o material para a construção de sua nova casa no Bairro “Mutirão” que,com dificuldades foi adquirida pelo valor de 10% sobre o salário mínimo ao longo de

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