[POESIAS]
Meu tempo
MARCO A. ROSSI
2015
MARCO A. ROSSI
[POESIAS]
Meu tempo
SUMÁRIO
4	 O tempo da poesia
5	Marighellianas
6	 As estrelas do mar
7	 Sob a chuva
8	 Na ponte, a flor
9	 Sexto round
10	E...
O tempo da poesia
	 Tentei desistir de fazer poesia, depois que lancei meu livro “Nas ruas do mundo”, em 2012, com os
vers...
5
Marighellianas
Livre iniciativa,
fluxos do grande capital,
ficção,
o dinheiro como centro do mundo,
o mundo como refém d...
6
As estrelas do mar
A insistência vem
da crença intensa
no ser que
está no mundo e faz
o chão que
pisa e
fortifica.
Os ol...
7
Sob a chuva
Em meio aos mundos
d’água, dou passos
leves e evito
molhar os sonhos.
Andar sob a chuva é
um itinerário entr...
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Na ponte, a flor
Uma flor de amor existe
dentro e fora dos
jardins.
Nas ruas e nos
caminhos
vividos,
flores perfumam
os ...
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Sexto round
Em meus braços
a lua sorria,
o mais brilhante e
encantador sorriso
do universo.
Enquanto o beijo
nos ensinav...
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Ela
O que mais penso
é se ela pensa em mim.
O que mais quero
é saber se ela apanha
os sinais que
envio,
nos quais insis...
11
Esquerda
Um pra cá
Dois pra lá
“Pra lá”, que são dois
pra mim
sempre foi à esquerda
Nunca mudei o ritmo
sempre na mesma...
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Coração do mundo
Eu sonho sobrevoar o mar,
o mar que há em mim,
avistá-lo, tentar decifrá-lo,
anunciá-lo ao porvir.
No ...
13
Coração do mundo II
Era só um pedaço de mim
que se perdeu,
do todo, de tudo,
daquela longa
caminhada.
Por anos,
um temp...
14
A gente
Rindo, a gente aprendeu
que o amor é feito
de gargalhadas.
Amando, a gente descobriu
que só faz sentido
a vida ...
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Sartreana
Meu versos são
meus tantos
inversos,
um espesso avesso,
travesso,
que me cutuca,
incomoda,
tira do sério.
Eu ...
16
Novas últimas
Estavam lá
sobre o criado-mudo
as últimas quatro palavras:
te amei,
agora cansei.
No dia seguinte,
no fim...
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Orgulho do vagabundo
Independentemente,
os rios encheram meus olhos,
com sonhos
e muita, muita
esperança.
Flanei,
vagab...
18
Sétimo (e melhor) round
A noite alternava
calor e frio,
chuva e lua cheia -
uma magia esplendorosa
rasgava o céu,
enchi...
19
Coração vermelho
(para Salvador Allende)
Descobri
que meu coração
e frágil
quando percebi
que ele atropela
meus passos....
20
Visita íntima
O amor que nunca fizemos
(que nunca fugiu à pura imaginação)
aqueceu o sonho desta noite
(tudo que ainda ...
21
Últimos versos
Já fiz versos errados
múltiplos e até infelizes
apressados, impensados
imperdoáveis deslizes
Musas falsa...
22
Milagre
Não sei se há um poema
sobre as estrelas por aí.
Desconfio que o brilho delas
seja o verso em si.
Em nome delas...
23
Tão minha quanto as estrelas
Ela é síntese de todas as belezas
amor imaginário
uma paixão de épicas realezas
viva, puls...
24
Liberdade
Não há nada
mais intenso
que a liberdade.
Ela arrebata,
encanta,
torna tudo
diferente.
A sensação
de ser (est...
25
Depois do abismo
(para a UEL, com um amor maior que eu)
Existem reticências
à beira do abismo,
um medo das coisas,
uma ...
26
Matei minhas musas
Não tenho mais musas.
Matei-as de uma só vez.
Nem de papel, nem de telas virtuais:
sou agora das cri...
27
Todas
Todas povoam
minha imaginação;
é um arco-íris
de tons, uma geometria
infinita
de curvas sempre
sedutoras.
Não me ...
28
Fim da linha
Não irei mais achar
Houve um desencontro
Que agora é destino
Da solidão terei de tirar lições
Só não me cu...
29
Pedaço de beijo
Houve um pedação
de um beijo
que se perdeu
Vivi acreditando
em beijos roubados
e no prazer
indescritíve...
30
A moça que sorri
Sorrisos derrubam
muros e controem
pontes
De um sorriso
espera-se leveza
e todo o peso
suave de
uma gr...
31
Sol e Lua
Havia uma
palavra simples
na voz rouca
e tranquila
do grande
e inusitado
amor
Uma onda
de paixões
múltiplas
l...
32
Um Cafajeste Latino
Vivo tentando
beijar as bocas
que não me veem
e fitar os olhos
que não me beijam.
Vivo desejando se...
33
Quatro letras
É preciso
que seja sempre
mágico.
Não há como ser
só por ser.
Senão, não é,
não se faz,
a ninguém realiza...
34
Meus versos de adeus
Chama-me o mundo,
gritam-me as gentes
de alma e carne,
carne viva e quente,
alma leve e atrevida.
...
35
Meus erros
Errei tanto por aí
e por aqui também.
Cansei de tanto erro,
de tanto tentar não errar,
de tanto errar tentan...
36
Havia
Havia um pouco
de menino naquilo tudo,
naquela vontade
de encontrar um pouco
mais de si
em braços quentes,
aberto...
37
Pugilista invisível
Acima do que sinto
existem nuvens
que encobrem
um ímpeto incontrolável
pelo sonho bom.
Na busca do ...
38
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Diagramação e ilu...
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  1. 1. [POESIAS] Meu tempo MARCO A. ROSSI
  2. 2. 2015 MARCO A. ROSSI [POESIAS] Meu tempo
  3. 3. SUMÁRIO 4 O tempo da poesia 5 Marighellianas 6 As estrelas do mar 7 Sob a chuva 8 Na ponte, a flor 9 Sexto round 10 Ela 11 Esquerda 12 Coração do mundo 13 Coração do mundo II 14 A gente 15 Sartreana 16 Novas últimas 17 Orgulho do vagabundo 18 Sétimo (e melhor) round 19 Coração vermelho 20 Visita íntima 21 Últimos versos 22 Milagre 23 Tão minha quanto as estrelas 24 Liberdade 25 Depois do abismo 26 Matei minhas musas 27 Todas 28 Fim da linha 29 Pedaço de beijo 30 A moça que sorri 31 Sol e Lua 32 Um Cafajeste Latino 33 Quatro letras 34 Meus versos de adeus 35 Meus erros 36 Havia 37 Pugilista invisível
  4. 4. O tempo da poesia Tentei desistir de fazer poesia, depois que lancei meu livro “Nas ruas do mundo”, em 2012, com os versos que reuni nos dez anos que antecederam sua publicação. Desistência inútil. O poeta é uma vítima dos versos. As palavras o aprisionam e sufocam. Ao esboçar um poema, liber- ta-se, para, em seguida, tornar-se mais uma vez refém de uma expressão poética sempre exigente e, ao que parece, imortal. Este e-book, cujo nome se refere à principal de nossas intransponibilidades, Meu tempo, é o fracas- so de minha desistência de ser poeta. Quanto mais me dedico a outras formas da escrita (e tenho praticado bastante esse exercício), mais estrofes me surgem, intrigam, induzem a revelá-las. Desisti, então, de desistir. Vou permanecer poeta para que o tempo não desista de mim. Marco A. Rossi
  5. 5. 5 Marighellianas Livre iniciativa, fluxos do grande capital, ficção, o dinheiro como centro do mundo, o mundo como refém do dinheiro (de alguns). Propriedade privada, todo poder aos mercados e bolsas, aos epígonos e odes de gestão, foco, clientes... As tabelas e os números, as frequências e os dados. Nada humano, nenhum ser. A orquestra toca uma só canção: a da acumulação, fácil e sem obstáculos, pueril, uma estratégia de gente infante, infame: maldita ostentação. Além do horizonte (já se cantou tanto), dentro do peito e no sonho que não se cansa, há vida, há muito mais. Marighella corre em nossa direção: não tenhamos nunca tempo para ter medo. Nunca (Sempre ao nunca!).
  6. 6. 6 As estrelas do mar A insistência vem da crença intensa no ser que está no mundo e faz o chão que pisa e fortifica. Os olhos limpos nascem como a fruta que se vê bela, desejada e deslumbrante, o doce enigma da vida. Entre lágrimas surge a pergunta inquietante e muitas vezes paralisante, aquela que interpela o mundo de ontem, fracassado como lugar do humano. Imagens são pré-conceitos, ilusões que se disfarçam na nossa pressa, no pouco afinco de rejeitar o profundo. Minha luta é por conceitos robustos que ampliem e somem, costurem convergências, aceitem e desejem mudar, mudarem-se, conjugar, conjugarem-se. A estrada é a das estrelas, iluminada pela diversidade, o mundo inteiro por que passa a esperança e o sorriso da vida - as estrelas que guiam nosso olhar pelo amanhã, sinônimo do mar.
  7. 7. 7 Sob a chuva Em meio aos mundos d’água, dou passos leves e evito molhar os sonhos. Andar sob a chuva é um itinerário entre o pensamento que quer e a reflexão sobre o que se quis um dia, todo dia, pelos dias... A boca seca é o paradoxo das sensações e a negação do alívio. Engulo sem querer tido tipo de profanação, da recusa da mulher mais bonita do mundo aos desejos que insistem em me castigar. Andar sob a chuva é não esquecer que um amor novo explode todo dia no meu peito - um amor que só vê, sente e quer a Lua.
  8. 8. 8 Na ponte, a flor Uma flor de amor existe dentro e fora dos jardins. Nas ruas e nos caminhos vividos, flores perfumam os sonhos e adoçam os dias. Lembrei, então, que vi na lua uma linda flor, uma inesquecível ponte. Ao desenhar em minhas ideias o sorriso daquela flor (sim, flores sorriem), permiti que um imenso jardim ilustrasse meu dia, colorisse minhas horas, reinventasse meu tempo. Uma flor na lua, uma ponte linda, florida, deslumbrante.
  9. 9. 9 Sexto round Em meus braços a lua sorria, o mais brilhante e encantador sorriso do universo. Enquanto o beijo nos ensinava seus caminhos, nós, jovens aprendizes de um amor intenso, pretenso, escandaloso consenso, fitávamos a alma um do outro - ela, olhos da lua, jurava ser ali seu lugar, em braços meus; eu, coração menino, apenas concordava e ampliava o aconchego. A boca da lua, ilustrada pelo olhar, profundo, livre, feminino, injetava ânimo: um, dois, três, quatro, cinco, seis rounds - tarde, noite, manhã seguinte, só houve tempo para o exercício do amor. Aos quarenta descobri amar na lua de vinte anos, tão menina, tão viva. O mistério, a fonte de uma juventude que ainda está em mim, no peito, na raça, na ponte em que a vi, logo amei, a lua devolveu a mim a poesia perdida. Ah, a boca da lua, o sorriso de tanto brilho, júbilo, pureza... O cheiro, o gosto da lua, a suave camada de pele que fez tremer meu corpo, fluir o desejo por minhas mãos, de um sujeito, de vida, só êxtase... Na ponte, sonhei amar a lua. Agora, vivo acordado, à espera, confiante, a fitar a boca do céu - horizonte.
  10. 10. 10 Ela O que mais penso é se ela pensa em mim. O que mais quero é saber se ela apanha os sinais que envio, nos quais insisto, que se tornaram o ar que, já faz algum tempo, todo o tempo, eu respiro. Ela é jovem demais, uma menina-mãe, aura de anjo; corpo inteiro, mulher dos pés à cabeça... Aliás, que pés! Os mais lindos, com os quais desejo, lado a lado, caminhar, até o fim, com um fim, nosso, inteiramente nosso. Já versei sobre seus olhos, sua boca, o olhar penetrante, o sorriso mágico. Menina, tão menina, uma mulher de paradoxos, histórias insolúveis, atraentes, sedutoras até perder de vista, as vistas, todo o juízo. Ela é o doce que me dá água na boca, no tempo, na paixão platônica da minha vida.
  11. 11. 11 Esquerda Um pra cá Dois pra lá “Pra lá”, que são dois pra mim sempre foi à esquerda Nunca mudei o ritmo sempre na mesma batida observando anotando criticando melhorando mas sempre dois e pra lá pra esquerda Nova, a festa troco a música outras são as personagens histórias inéditas então vêm O som, contudo corre solto pulso das ruas trilha da esquerda
  12. 12. 12 Coração do mundo Eu sonho sobrevoar o mar, o mar que há em mim, avistá-lo, tentar decifrá-lo, anunciá-lo ao porvir. No mar do mundo, com as mãos que para sempre serão tricolores, antecipo a viagem da esperança - ela vive em mim, num interminável itinerário, entre os meus sentidos e os gritos do povo. Atravessando nevoeiros, pressinto a força que me move, uma implacável disputa entre gigantes, siameses, que vivem no peito, na coragem que ousa, forja, partilha um olhar solidário, um coração do mundo. No geral e no particular, eu só sei ser assim, a fim, o velho menino de sonhos novos - e eternos, na vitalidade de seu longo tempo.
  13. 13. 13 Coração do mundo II Era só um pedaço de mim que se perdeu, do todo, de tudo, daquela longa caminhada. Por anos, um tempo maior que o necessário, o pedaço voou solitário, sem desconfiar que ele era mais do que o próprio tempo, menos do que um castigo, superior à dor do coração. Tricolor, um cavaleiro de paz, vigor e esperança, encontrou seu tudo, aquele todo, no sorriso gigantesco da lua, que viu na ponte, dançando, menina, a exalar paixão, contagiar o mundo de um coração-menino. Agora seu itinerário é a calmaria, cabelos mágicos, que se deliciam sobre o peito a amar, dão sombra de proteção ao olhar, que se fixa, abraça, faz um amor monumental. O coração do mundo tem seu sol e também sua lua, na passagem, no caminho inevitável da vida, por onde passam aqueles que souberam perder para mais tarde ganhar. E, esplendidamente, amar.
  14. 14. 14 A gente Rindo, a gente aprendeu que o amor é feito de gargalhadas. Amando, a gente descobriu que só faz sentido a vida que sorri, tira uma onda, de tudo, dos dias, dos casos, da gente, por que não? A gente faz do tempo uma toca de diversão. Tem um pouco do mundo no jeito de a gente brincar: tem bola, tem carta, tem desenho, tem figurinha... Mas o que não falta nunca, nunca jamais, é a certeza de que a gente não vai parar, nem que o mundo acabe. A gente está muito junto nisso, pelo sim, pelo sim também. “Não” não tem, não! Fazendo história e arte (muito mais arte, é claro), a gente segue firme, colorindo mapas, pingando os “is” e atrasando o tempo. Para a gente blecautes não existem: a única coisa que há é o amor, daquele tipo que é puro jeito de aprender, sorrir, brincar, até quando o assunto é sério.
  15. 15. 15 Sartreana Meu versos são meus tantos inversos, um espesso avesso, travesso, que me cutuca, incomoda, tira do sério. Eu deliro diante das palavras antes de escrevê-las. Elas são uma visão, a matéria-prima da imaginação. Elas existem antes de aparecer - são o tempo de Sartre que vive em mim. Meus versos quase sempre são meus reflexos; minha garantia de sobrevida, sobretudo, sobre absolutamente nada - um longo tempo de nada, uma náusea, outra de minhas vertigens sartreanas. Minhas palavras me condenam à liberdade. Elas são implacáveis: é amá-las ou morrer. Sigo, então, morrendo nelas (talvez), amando-as ilícita e desconjuradamente - e livre.
  16. 16. 16 Novas últimas Estavam lá sobre o criado-mudo as últimas quatro palavras: te amei, agora cansei. No dia seguinte, no fim de uma noite de longa tarde e insuportáveis horas, um bilhete passou por debaixo da porta. Novas últimas três palavras: morro sem ti.
  17. 17. 17 Orgulho do vagabundo Independentemente, os rios encheram meus olhos, com sonhos e muita, muita esperança. Flanei, vagabundo como nunca, orgulhoso de não ceder à tentação do fácil, do muito fácil e cômodo regresso.
  18. 18. 18 Sétimo (e melhor) round A noite alternava calor e frio, chuva e lua cheia - uma magia esplendorosa rasgava o céu, enchia os olhos, brindava corações. A menina que por mim passava dia depois de dia (e lançava aquele sorriso), esquentava o corpo trêmulo, esfriava o desejo fervilhante. Houve uma longa hora de beijo, só beijo, de olhos entreabertos, sempre perplexos - nenhum de nós acreditava naquele sonho - era real, porém. A doce vida nos enviou uma mensagem: a palavra certa, na hora mais improvável, precipitou tudo, aos montes. Uma avalanche de paixão nos tomou, inebriou, pulsou o peito, a têmpora, a poesia da menina que amou um homem e a prosa de um homem que se desnudou para a mais linda das meninas. Estávamos muito longe, próximos um do outro, escondidos do mundo. Fomos à sétima estrela (round?) das mais inacreditáveis sensações. Desvendamo-nos, demo-nos algo mais daquelas preciosidades que o infinito guarda somente a quem nunca desiste de amar.
  19. 19. 19 Coração vermelho (para Salvador Allende) Descobri que meu coração e frágil quando percebi que ele atropela meus passos. Há um enorme descompasso entre o ânimo das ideias e a batida dentro do peito, entre os planos da cabeça e a realidade na contramão. Com o tempo (numa luta sem aliados) os ponteiros se acertam - o do ritmo das coisas e o da vontade de viver, bela, transbordante de si. O velho coração vermelho, abatido e cansado, não quer parar: bate dizendo que ainda tem um mundo a sonhar.
  20. 20. 20 Visita íntima O amor que nunca fizemos (que nunca fugiu à pura imaginação) aqueceu o sonho desta noite (tudo que ainda tenho de real sobre você). Ainda demora para aceitar que não seremos, não poderemos, não ousaremos, não faremos. Nem mesmo um beijo nossos insinuantes olhares trocados se permitiram. Presos às armadilhas das convenções, agredimos nosso desejo, impedimos o melhor momento, aquele presente que se eterniza, faz do tempo um agora infinito. Esta madrugada você me visitou, morena mais bonita do mundo! Mais uma vez, você se fez real na ilimitada irrealidade em que sinto seu cheiro, num sonho profundamente excitante e perturbador.
  21. 21. 21 Últimos versos Já fiz versos errados múltiplos e até infelizes apressados, impensados imperdoáveis deslizes Musas falsas de última hora frêmitos tardios espírito em busca da desforra beco escuro, sentidos vazios Hoje sei que o poema certo no traço, no laço, eu faço nada de agruras no deserto somente do meu mundo um pedaço O amor maior é canto uma viagem pelo que ainda há em nós um humano encontro de pranto entre incontáveis contras e prós
  22. 22. 22 Milagre Não sei se há um poema sobre as estrelas por aí. Desconfio que o brilho delas seja o verso em si. Em nome delas - as estrelas - já amei, chorei, perdi, quase desisti. Agora, porque soube insistir, conheci um sorriso inexplicável, um amor imponderado, um sentimento que me põe ao vento, coração desmesurado. Como todo amor em minha vida, sempre tão benjaminiano, este será só meu, eu acho, sem ponte até o sorriso da paixão, o fogo insinuante do delírio na contramão. Adoro a ideia de amá-la, mulher de doce lábio, e faço isso em refúgio, em minha alma latina, à espera de um milagre, de uma loucura repentina - e eterna, por que não?
  23. 23. 23 Tão minha quanto as estrelas Ela é síntese de todas as belezas amor imaginário uma paixão de épicas realezas viva, pulsante, guardada em meu relicário Ora romance ora libido exaltante seu corpo é meu porto-seguro beijo, provocação, o exalar vibrante Em seus olhos repouso nos lábios encontro leveza meu espírito em seus detalhes se realiza diante da vida, ergo-me fortaleza Nada em mim existe longe dela embora ela não exista povoa meus sonhos apenas reitera o que sou, sugere que eu insista Sou, então, movido pelo vir-a-ser pela necessidade de não desistir tenho algum receio do amanhã condenado ao presente sem sentir Se ela vier, será vida que transborda amor louco em lances sem fim companheira de prazer e mundo pedaço quente do céu dado a mim
  24. 24. 24 Liberdade Não há nada mais intenso que a liberdade. Ela arrebata, encanta, torna tudo diferente. A sensação de ser (estar) livre (algo indescritível) é real, quando conquista, surreal, como justiça, humana, se bendita. É doce o sabor da liberdade. É suave o aroma da liberdade. É pleno o ser que (re)conhece a liberdade. O melhor tempo é o tempo da liberdade.
  25. 25. 25 Depois do abismo (para a UEL, com um amor maior que eu) Existem reticências à beira do abismo, um medo das coisas, uma crença quase insultuosa no pior. Melhor então é não se mover, correr da história, capturar o que há, conformar-se com o que não há, nunca houve, poderia até haver, não fossem os três pontinhos à beira do abismo... Por que o medo? (esta é a melhor palavra?) Defronte dos sonhos, a realidade precisa vencer? Volto no tempo, revejo minhas velhas certezas maximalistas, e indago: Que fazer? Preciso confessar que já chorei diante do abismo, que já tive medo de sentir medo. Ao contrário de meus heróis, tive tempo de sobra para ter medo... Mas pude aprender com o tempo, com as noites intermináveis à beira do abismo, fitando as profundezas, desafiando meus fantasmas, iludindo meus demônios. Um grande eco, com som de provérbio, sempre me repetiu que tudo viria aos quarenta – e do primeiro tempo. Que bom ter tido tempo, ter poupado um pouco de seus enigmas. Agora é hora de gastá-lo (ganhando-o ainda mais) longe do abismo, depois do seu final.
  26. 26. 26 Matei minhas musas Não tenho mais musas. Matei-as de uma só vez. Nem de papel, nem de telas virtuais: sou agora das criaturas de alma. Não farei mais homenagens àquelas que não têm voz, não se dão às paixões, não se permitem ousar. Mulheres sem carne, além de não ter vida, não têm cheiro, volúpia, olhar. Tudo é falso, artificial na artificialidade de suas palavras vazias, tristes, desamorosas. Não tenho mais musas. Matei e enterrei todas. Longe de mim.
  27. 27. 27 Todas Todas povoam minha imaginação; é um arco-íris de tons, uma geometria infinita de curvas sempre sedutoras. Não me abandonam um só instante; falam comigo sem nada dizer, apenas insinuação, existência, coração batendo insanamente. Gosto das que são belas de todas as formas – imprescindível é que digam à minha imaginação que irão me amar até o fim, até o início de tudo. Dedico minhas melhores energias a todas, uma de cada vez, várias ao mesmo tempo, uma homenagem que nunca cessa (precisarei parar um dia?) Seu veneno mata e alimenta meu corpo, meu espírito: desconcentra-me, impede-me aniquila-me – ao mesmo tempo, o prazer que sinto jamais poderá ser castigado. Há delírio no mundo inteiro de suor e paixão que faz girar o vício, a dança e o beijo inexistente.
  28. 28. 28 Fim da linha Não irei mais achar Houve um desencontro Que agora é destino Da solidão terei de tirar lições Só não me culpo Por não ter tentado Vasculhei fundos e mundos Recorri a todos os expedientes Poucas vezes De modo quase pueril Obtive alguma sorte O fracasso é uma desilusão necessária Escrevi poemas Inventei tudo que é cenário Contei todo tipo de história E nada, nada mesmo Agora vou encarar a desistência Como a vitória da sanidade Só de imaginação Vou viver perdido Quando eu fechar os olhos Lá estará você Sempre um mistério Pulsão e pecado Não há chances no acaso Só a dor do inevitável Sozinho neste planeta ao avesso Meu velho travesseiro me aproxima de você
  29. 29. 29 Pedaço de beijo Houve um pedação de um beijo que se perdeu Vivi acreditando em beijos roubados e no prazer indescritível do ato da paixão proibido Soube depois de viver um bom tanto que não existem paixões secretas nem beijos roubados que sobrevivam à falta de coragem O único e insubstituível ímpeto de amor é a coragem Se beijos não se roubam lábios não se sentem prazeres não se prolongam é da falta de coragem que se fala que se percebe que se tudo um pouco muito O pedaço do beijo que me ficou decidiu então navegar e foi buscar uma nova e só sua utopia
  30. 30. 30 A moça que sorri Sorrisos derrubam muros e controem pontes De um sorriso espera-se leveza e todo o peso suave de uma grande paixão Para sorrisos que inebriam e disparam o que há no peito dedicamos versos inquietos gestos olhos fechados mente bem aberta Se um sorriso parar à sua frente contemple-o toque-o conduza-o até seu coração - de lá permita-se um corpo explodir Pelos sorrisos que conferem sentido à escuridão vale a pena viver tranbordar em si trilhar até pelo incerto que é certo no desejo humano que move o mundo Enfim, cace sorrisos desvende fantasias
  31. 31. 31 Sol e Lua Havia uma palavra simples na voz rouca e tranquila do grande e inusitado amor Uma onda de paixões múltiplas levava meu coração e o deixava à beira-mar do outro lado do mundo Acordado percebi que o sol e a lua confabulavam à meia-luz abrindo mão do que podiam para inspirar vida no coração da Terra - e de mim um ser feito de esperança e muito amor
  32. 32. 32 Um Cafajeste Latino Vivo tentando beijar as bocas que não me veem e fitar os olhos que não me beijam. Vivo desejando ser o corpo latino que aquece e incendeia, em vez da mente iluminista que aplaudem (e já nem tanto) Quero aquelas que não me percebem para além de ideias e palavras. Não sou para o gozo, o delírio, a premeditada perda absoluta dos sentidos. Nem Galileu, nem Marx; nada de Bourdieu ou Foucault: sonho ser amante do festejo das curvas, da dança das línguas, do pulo da pele que sua, nua, despudoradamente, na rua. Topo fazer poesia com as mãos livres, percorrendo corpos inteiros, sem nenhum verso, nenhuma rima. Troco tudo por tesão, sem hesitação, tão somente um velho cafajeste.
  33. 33. 33 Quatro letras É preciso que seja sempre mágico. Não há como ser só por ser. Senão, não é, não se faz, a ninguém realiza. Talvez um dia eu faça outra vez. Ao fazê-lo, poderei, enfim, reviver um pouco do melhor que já pude sentir. Certo é que tem mesmo de ser forte, instintivo, implacável, um arrebate do corpo, um incêndio n’alma. O problema é que meu tempo parece ter findado, minhas oportunidades, todas perdidas. Ainda assim, irmão que é da esperança, ele só morre quando o olhar sobre a beleza perde graça, gracejo. Até lá, a memória mantém vivo o desejo de sonhar.
  34. 34. 34 Meus versos de adeus Chama-me o mundo, gritam-me as gentes de alma e carne, carne viva e quente, alma leve e atrevida. Vou lá e volto se der, pois preciso abraçar o outono da vida, o tempo bom, o sereno ar de amor e ideias livres. Enfim, assistirei ao florir de mim.
  35. 35. 35 Meus erros Errei tanto por aí e por aqui também. Cansei de tanto erro, de tanto tentar não errar, de tanto errar tentando. Descobri, então, que os erros ensinam muita coisa, prestam enorme serviço à imaginação, à paz de espírito. A cada erro - e hoje errei de novo - reaprendo a amar, a mim, a quem está próximo, aos sonhos que não morrem, apesar dos erros que os entristecem. Meus maiores erros são pessoas, indivíduos que partejo para depois me arrepender - são os erros que nada ensinam. Mas o erro de considerar um acerto quem nada pode nos dar é um acerto de contas, um alívio também - é um erro que frustra, mas não incrusta: a alma segue leve, limpa, sem vergonha de ser o que é e daquilo que ainda sonha ser.
  36. 36. 36 Havia Havia um pouco de menino naquilo tudo, naquela vontade de encontrar um pouco mais de si em braços quentes, abertos, generosos. Havia muito de homem, de sujeito maduro, naquela imaginação amorosa, sincera, rara - capaz de fazer a paixão lhe sorrir uma vez mais, definitivamente.
  37. 37. 37 Pugilista invisível Acima do que sinto existem nuvens que encobrem um ímpeto incontrolável pelo sonho bom. Na busca do sonho, trombo na chuva grossa que as nuvens não deixam ver. Espero, digo, planto uma semente de rebeldia e palavras, e a chuva desaba sobre mim, encharcando meus sonhos, zombando da minha imaginação. É como seu eu estivesse predestinado a lutar no escuro com um pugilista invencível, um Rocky Marciano, algo para sempre muito maior, melhor e mais real do que eu.
  38. 38. 38 In my work I’m using free vector silhouettes from all-silhouettes.com, vectorlady.com and freepik.com Diagramação e ilustrações: Kátia Midori Kimura

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