Dicionário de Psicanálise

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Completo, toda a história da Psicanálise

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Dicionário de Psicanálise

  1. 1. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  2. 2. Elisabeth Roudinesco Michel Plon DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE TRADUÇÃO: Vera Ribeiro psicanalista Lucy Magalhães letras neolatinas SUPERVISÃO DA EDIÇÃO BRASILEIRA: Marco Antonio Coutinho Jorge psiquiatra e psicanalista Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  3. 3. Tïtulo original: Dictionnaire de la psychanalyse Tradução autorizada da primeira edição francesa publicada em 1997 por Librairie Arthème Fayard, de Paris, França Copyright © 1997, Libraire Arthème Fayard Copyright da edição em língua portuguesa © 1998: Jorge Zahar Editor Ltda. rua México 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro, RJ tel.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800 editora@zahar.com.br www.zahar.com.br Não pode circular em Portugal. Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais (Lei 9.610/98) Este livro, publicado no âmbito do programa de auxílio à publicação, contou com o apoio do Ministério francês das Relações Exteriores, da Embaixada da França no Brasil e da Maison française do Rio de Janeiro. Revisão de texto: André Telles Revisão tipográfica: Lincoln Natal Jr. Preparação de bibliografia: Marcela Boechat Preparação de índice: Nelly Telles Capa: Carol Sá Roudinesco, Elisabeth, 1944 — R765d Dicionário de psicanálise/Elisabeth Roudinesco, Michel Plon; tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da edição brasileira Marco Antonio Couti- nho Jorge. — Rio de Janeiro: Zahar, 1998. Tradução de: Dictionnaire de la psychanalyse Inclui bibliografia ISBN 978-85-7110-444-0 1. Psicanálise — Dicionários. I. Plon, Michel. II. Título. CDD: 150.19503 )830(2.469.951:UDC8061-89 CIP-Brasil. Catalogação-na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  4. 4. SUMÁRIO Prefácio vii Sobre os autores x Agradecimentos xi Nota à edição brasileira xiii Abreviaturas bibliográficas xiii VERBETES — A-Z 1 Cronologia 795 Índice onomástico 831 Índice dos verbetes 865 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  5. 5. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  6. 6. PREFÁCIO O primeiro dicionário de psicanálise, intitulado Handwörterbuch der Psychoana- lyse, foi elaborado por Richard Sterba, entre 1931 e 1938. Foram publicados cinco fascículos, até o momento em que a ocupação da Áustria pelos nazistas pôs fim ao empreendimento. A intenção era compor um léxico geral dos termos freudianos, um vocabulário mais do que um recenseamento dos conceitos: “Não desconheço, escreveu Freud em uma carta a seu discípulo, que o caminho que parte da letra A e passa por todo o alfabeto é muito longo, e que percorrê-lo significaria para você uma enorme carga de trabalho. Assim, não o faça, a menos que se sinta interna- mente levado a isso. Apenas sob o efeito desse impulso, mas certamente não a partir de uma incitação externa!”1 Sem dúvida, Freud sabia melhor que ninguém que um dicionário pode respon- der a um impulso interno, a um desejo, a uma pulsão. Em sua famosa análise do caso Dora (Ida Bauer), ele frisava que um dicionário é sempre objeto de um prazer solitário e proibido, no qual a criança descobre, à revelia dos adultos, a verdade das palavras, a história do mundo ou a geografia do sexo.2 Obrigado a se exilar nos Estados Unidos, como a quase totalidade dos psicana- listas europeus de língua alemã, Sterba interrompeu a redação do seu Handwör- terbuch na letra L, e a impressão do último volume na palavra Grössenwahn: “Não sei, declarou vinte anos depois em uma carta a Daniel Lagache, se esse termo se refere à minha megalomania ou à de Hitler.” De qualquer forma, o Handwörterbuch inacabado serviu de modelo para as obras do gênero, todas publicadas na mesma data (1967-1968), em uma época em que o movimento psicanalítico internacional, envolvido em rupturas e dúvidas, experimentava a necessidade de fazer um balanço e recompor, através de um saber comum,asuaunidade perdida.Diversasdenominaçõesforamutilizadas:glossário, dicionário, enciclopédia, vocabulário. O Glossary of Psychoanalytic Terms and Concepts (180 verbetes, 70 colabora- dores), obra coletiva publicada sob a égide da poderosa American Psychoanalytic Association (APsaA), expressava a ortodoxia de um freudismo pragmático e medicalizado. Na mesma perspectiva, a Encyclopedia of Psychoanalysis — rea- lizada sob a direção de Ludwig Eidelberg (1898-1970), psicanalista americano nascido na parte polonesa do antigo Império Austro-Húngaro e radicado em Nova York depois de escapar do nazismo — se mostrava mais ambiciosa, ampliando a Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar vii 1. Sigmund Freud, ”Prefácio ao Dicionário de psicanálise, de Richard Sterba“ (1936), ESB, XXIII, 309; OC, XIX, 287-9; GW, Nachtragsband, 761; SE, XXII, 253. Richard Sterba, Han- dwörterbuch der Psychoanalyse, 5 vols., Viena, Intern. Psychoanalytischer Verlag, 1936-1938. 2. Sigmund Freud, “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), ESB, VII, 5-128.
  7. 7. lista dos verbetes e eliminando a noção de colaborador, em proveito de um organograma de realizadores (640 verbetes e 40 editors assistentes ou associados). Em contrapartida, o Critical Dictionary of Psychoanalysis (600 verbetes) do psicanalista inglês Charles Rycroft, claro, conciso e racional, tinha a vantagem de não ser uma obra coletiva. Daí a sua coerência e legibilidade. Rycroft foi também o primeiro a pensar o freudismo sem com isso deixar de considerar a terminologia pós-freudiana (especialmente a de Melanie Klein e de Donald Woods Winnicott). Àmedida que revia o trabalho, incluiu de modo sucinto as correntes da psicanálise moderna (Heinz Kohut, Jacques Lacan, Self Psychology), com um espírito de abertura distante de qualquer dogmatismo. A obra de Rycroft serviria de modelo para alguns empreendimentos do mesmo gênero, na França e em outros países. Quantoaocélebre Vocabuláriodapsicanálise (417verbetes)de JeanLaplanche e Jean-Bertrand Pontalis, foi o primeiro e único a estabelecer os conceitos da psicanálise encontrando as “palavras” para traduzi-los, segundo uma perspectiva estrutural aplicada à obra de Freud. Composto de verdadeiros artigos (de 20 linhas a 15 páginas), e não de curtas notas técnicas, como os precedentes, inaugurou um novo estilo, optando por analisar “o aparelho nocional da psicanálise”, isto é, os con- ceitoselaboradosporesta para“explicarsuasdescobertasespecíficas”.Marcadospelo ensino de Lacan e pela tradição francesa da história das ciências, os autores conse- guiram a proeza de realizar uma escrita a duas vozes, impulsionada por um vigor teórico ausente nas outras obras. É a essas qualidades que ela deve seu sucesso.3 Os insucessos terapêuticos, a invasão dos jargões e das lendas hagiográficas levaramaumafragmentaçãogeneralizadadomovimentofreudiano,deixandolivre curso à ofensiva fin de siècle das técnicas corporais. Relegada entre a magia e o cientificismo, entre o irracionalismo e a farmacologia, a psicanálise logo tomou o aspecto de uma respeitável velha senhora perdida em seus devaneios acadêmicos. O universalismo freudiano teve então o seu crepúsculo, mergulhando seus adeptos na nostalgia das origens heróicas. Foi nesse contexto dos anos 1985-1990 que surgiu uma segunda geração de dicionários, muito diferente da dos anos 60. Por um lado, surgiram obras de escola, nas quais os conceitos eram recenseados em função de um dogma, e portanto recortados uns dos outros. Por outro lado, apareceram monstros polimorfos, com entradas anárquicas e profusas, nas quais a lista dos verbetes, artigos e autores estendia-se infinitamente, pretendendo esgotar o saber do mundo, sob o risco de mergulhar as boas contribuições em um terrível caos. Em resumo, de um lado, o breviário; de outro, Bouvard et Pécuchet.4 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar viii 3. Jean Laplanche eJean-BertrandPontalis, Vocabuláriodapsicanálise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed. Charles Rycroft, A Critical Dictionary of Psychoanalysis, N. York, Basic Books, 1968. E. Burness, M.D. Moore e D. Bernard Fine, A Glossary of Psychoanalytic Terms and Concepts (APsaA), Library of Congress, 1968. Encyclopedia of Psychoanalysis, Ludwig Eidelberg (org.), N. York, Free Press, e Londres, Macmillan, 1968. 4. É uma exceção o notável léxico biográfico realizado por Elke Mühlleitner para o período de 1902 a 1938 sobre os pioneiros da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras e da Sociedade Psicanalítica Vienense (WPV). Ver Elke Mühlleitner, Biographisches Lexikon der Psychoana- lyse. Die Mitglieder der psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener psychoanalyti- schen Vereinigung von 1902-1938, Tübingen, Diskord, 1992.
  8. 8. O presente Dicionário se opõe a essas duas tendências sem retomar a idéia do Vocabulário, o que equivaleria a uma paráfrase inútil. Portanto, ele não é nem um léxico nem um glossário, e tampouco é centrado exclusivamente na descoberta freudiana. Propõe um recenseamento e uma classificação de todos os elementos do sistema de pensamento da psicanálise e apresenta a maneira pela qual esta construiu, ao longo do último século, um saber singular através de uma conceitua- lidade, uma história, uma doutrina original (a obra de Freud) permanentemente reinterpretada, uma genealogia de mestres e discípulos e uma política. Nessa perspectiva, é também o primeiro e único a levar em conta ao mesmo tempo: os conceitos; os países de implantação (23); a biografia dos atores (do nas- cimento à morte); as entidades psicopatológicas que a psicanálise criou ou trans- formou; as disciplinas para que contribuiu ou em que se inspirou (psiquiatria, an- tropologia etc.); os casos princeps (ou tratamentos protótipos) sobre os quais construiu o seu método clínico; as técnicas de cura e os fenômenos psíquicos sobre os quais se apoiou, inventou ou que nela se inspiraram; os discursos e comporta- mentos que modificou em relação ao nascimento, à família, à morte, ao sexo e à loucura, ou que se construíram a partir dela; as instituições fundadoras; o próprio freudismo, suas diferentes escolas e sua historiografia; assim como a incidência contraditória de suas descobertas sobre outros movimentos intelectuais, políticos ou religiosos. Foramincluídos,enfim,osmembrosdafamíliadeSigmundFreud,seusmestres diretos, os escritores e artistas com os quais ele manteve correspondência impor- tante ou contato pessoal determinante, e os 23 livros por ele publicados entre 1891 e 1938, inclusive o segundo, escrito com Josef Breuer (Estudos sobre a histeria), e o último, inacabado e publicado a título póstumo (Esboço de psicanálise). Foi acrescentada uma outra obra póstuma, O presidente Thomas Woodrow Wilson, da qual Freud redigiu apenas o prefácio, mas à qual deu contribuição essencial como co-autor ao lado de William Bullitt. Para esclarecer cada conceito ou entidade clínica e certas disciplinas, mé- todos, objetos de estudo ou comportamentos, cujas denominações foram criadas por um autor preciso ou em circunstâncias particulares, há no início desses verbetes uma definição com caracteres em negrito. Quando estritamente necessá- rio, conservamos o termo em sua língua original, fornecendo sempre uma expli- cação adequada. Cada verbete comporta seja uma bibliografia dos melhores títulos, documentos ou arquivos que permitiram a redação do artigo, seja uma ou várias remissões a outros verbetes, onde essas fontes são indicadas, ou ambos. No que se refere às 24 obras de Freud, indicamos a data e o local da primeira publicação em língua alemã, assim como as diversas traduções inglesas e france- sas, indicando os nomes dos tradutores. Uma cronologia foi acrescentada ao final da obra. Encontram-se nela os fatos marcantes da história da psicanálise no mundo, desde suas origens. E.R. e M.P. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar ix
  9. 9. SOBRE OS AUTORES ELISABETH ROUDINESCO é historiadora, doutora em letras, directeur de recherches na Universidade de Paris-VII, vice-presidente da Sociedade Internacional de História da Psiquiatria e da Psicanálise, e psicanalista. De sua autoria destacam-se História da psicanálise na França (2 vols.), Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento, e Genealogias — todos com traduções publicadas no Brasil. MICHEL PLON é directeur de recherches no Centre National de Recherches Scientifiques (CNRS), membro do Centre de Recherche Universitaire Psychana- lyse et Pratiques Sociales de la Santé (CNRS/Universidade da Picardia), e psica- nalista. É autor de La Théorie des jeux: une politique imaginaire. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar x
  10. 10. AGRADECIMENTOS Este dicionário não teria se realizado sem a colaboração de diversos pesquisadores franceses e estrangeiros, que nos ajudaram ou nos deram acesso a seus trabalhos, muitas vezes inéditos. Agradecemos a Yann Diener, que consultou revistas e obras em língua inglesa e preparou fichas que possibilitaram a redação de vinte verbetes consagrados aos psicanalistas americanos. Expressamos nossa gratidão a Per Magnus Johansson, que nos apresentou seus trabalhos, em preparação, sobre a história da psicanálise nos países escandinavos e redigiu especialmente para este dicionário textos, comentários e indicações sobre os quais nos baseamos, referentes aos psicanalistas nórdicos (Dinamarca, Finlân- dia, Noruega, Suécia). Além disso, também contribuiu para o verbete “Chistes e sua relação com o inconsciente, Os”. Agradecemos a Julia Borossa, que nos esclareceu constantemente sobre a história da psicanálise na Grã-Bretanha e sobre os problemas do colonialismo britânico. Também redigiu cinco textos que nos foram preciosos: Girîndrashekhar Bose, Masud Khan, Índia, Wulf Sachs, Donald Woods Winnicott. Nossa gratidão a Françoise Vergès, que nos confiou seus artigos inéditos sobre Frantz Fanon e a psiquiatria colonialista. Somos gratos a todos os que deram sua contribuição à história da psicanálise no Canadá: Élisabeth Bigras, Hervé Bouchereau, Jean-Baptiste Boulanger, Mona Gauthier, Mireille Lafortune, e também a Monique Landry e Doug Robinson, que nos permitiram consultar os impressos da Biblioteca Nacional de Ottawa. Agradecemos a DidierCromphout, que redigiupara este dicionáriotextossobre a psicanálise na Bélgica e nos Países Baixos. Nossa gratidão a Mireille Cifali, que nos confiou muitas notas inéditas sobre a psicanálise na Suíça, e a Mario Cifali, que nos esclareceu com seus arquivos, seus comentários e sua documentação. Nossa profunda gratidão a Gheorghe Bratescu, que redigiu para este dicionário três textos, extraídos de seus trabalhos publicados em língua romena, sobre a psicanálise na Romênia. Agradecemos também a Teodoro Lecman que, durante um ano, fez numerosas pesquisas bibliográficas sobre a história da psicanálise na Argentina, além de trabalhosde campo.Agradecemos a Raul Giordano,que nos confiou sua tese sobre o mesmo tema. Agradecemos ainda a Hugo Vezzetti, cujos trabalhos sobre a psicanálise na Argentina, já publicados ou em preparação, nos foram indispensáveis. Agradecemos também a todos aqueles que nos forneceram informações ou documentos para a redação dos artigos sobre a psicanálise no Brasil: Durval Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar xi
  11. 11. Checchinato, Cláudia Fernandes, Ana Maria Gageiro, Catarina Koltaï, Leopold Nosek, Manoel Tosta Berlinck, Walter Evangelista e Lúcia Valladares. Nossa gratidão a Chaim Samuel Katz, que redigiu dois textos, um sobre Ana Katrin Kemper e outro sobre Hélio Pellegrino, e também a Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, que nos ajudou a redigir o verbete sobre Iracy Doyle. Agradecemos a Kao Jung-Hsi e a Oscar Zambrano, que pesquisaram obras em língua inglesa sobre a psicanálise no Japão. Nossa gratidão a Tanja Sattler-Rommel por suas traduções do alemão e sua participação na redação do verbete sobre Alexander Mitscherlich. Somos gratos a Vincent Kaufmann, que nos permitiu trabalhar na biblioteca da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Agradecemos a Olivier Bétourné e a Céline Geoffroy por seu trabalho com o manuscrito. Expressamos enfim nossa gratidão a todos aqueles que, de perto ou de longe, nos ajudaram respondendo às nossas perguntas ou confiando-nos generosamente artigos, obras, fontes inéditas e teses de difícil obtenção: Anna Maria Accerboni, Eleni Atzina, Franco Baldini, Raphael Brossart, Michel Coddens, Marco Conci, Raffaello Cortina, Alain Delrieu, Horacio Etchegoyen, Ernst Falzeder, Ignacio Garate Martinez, Toby Gelfand, Nadine Gleyen, Ilse Grubrich-Simitis, Claude Halmos, André Haynal, Albrecht Hirschmüller, Norton Godinho Leão, Jacques Le Rider, Patrick Mahony, René Major, Michael Molnar, Juan-David Nasio, Angéli- que Pêcheux, Antonello Picciau, August Rhus, Régine Robin, Emilio Rodrigué, Peter Schöttler, Harry Stroeken, Pablo Troïanovski, Fernando O. Ulloa, Fernando Uribarri. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar xii
  12. 12. NOTA À EDIÇÃO BRASILEIRA Para estabelecer a versão em português deste Dicionário, foram levados em conta — além de dicionários, vocabulários e glossários já publicados anteriormente (muitos deles por esta mesma editora) — o estudo cada vez mais aprofundado da terminologia psicanalítica no Brasil e a própria sedimentação e evolução do uso dessa terminologia pela comunidade psicanalítica. Assim, ao termo em português adotado para traduzir determinados verbetes conceituais, acrescentamos versões alternativas de uso corrente. Por exemplo, no esclarecimento introdutório, com caracteres em negrito, do histórico do termo “fantasia” (Phantasie em alemão, fantasme em francês), encontra-se o registro da versão “fantasma”, também muito difundida no Brasil. Agradecemosa colaboraçãodopsicanalistaEduardoVidalque,paraosverbetes conceituais, nos forneceu a versão em espanhol que fizemos constar ao lado das correspondentes em alemão, francês e inglês, já presentes na edição original. Agradecemos também às editoras brasileiras que enviaram os dados biblio- gráficos solicitados, para que o leitor deste Dicionário pudesse ter acesso — nas bibliografias ao final de cada verbete — às edições e traduções publicadas no Brasil. O uso de um asterisco (*) após um nome, termo ou expressão, ou sua grafia em caracteres maiúsculos (VERSALETES), indica remissão a esses verbetes. ABREVIATURAS BIBLIOGRÁFICAS ESB Sigmund Freud, Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 24 vols., Rio de Janeiro, Imago, 1977 GW Sigmund Freud, Gesammelte Werke, 17 vols., Frankfurt, Fischer, 1960-1988 IZP Internationale ärztlische Zeitschrift für Psychoanalyse IJP International Journal of Psycho-Analysis OC Sigmund Freud, Oeuvres complètes, 21 vols., Paris, PUF, em preparação desde 1989 SE The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, org. James Strachey, 24 vols., Londres, Hogarth Press, 1953-1974 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar xiii
  13. 13. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  14. 14. A Aberastury, Arminda (1910-1972) psicanalista argentina Pioneira do movimento psicanalítico argen- tino, Arminda Aberastury nasceu em Buenos Aires, em uma família de comerciantes pelo la- do paterno, e de intelectuais pelo lado materno. Seu tio, Maximiliano Aberastury, era um médi- co de renome e seu irmão, Frederico, estudou psiquiatria com Enrique Pichon-Rivière*, cujos pais se radicaram na Argentina* em 1911 e que se tornou o seu amigo mais próximo. Frederico sofriadepsicose* eteve,porváriasvezes,surtos delirantes. Sofrendo de melancolia desde a ju- ventude, sua irmã Arminda era uma mulher de grande beleza. Através de Frederico, ficou co- nhecendo Pichon-Rivière, com quem se casou em 1937. Como este, desejava oferecer à psica- nálise uma nova terra prometida, a fim de sal- vá-la do fascismo que assolava a Europa. Assim, integrou-se ao grupo formado em Buenos Aires por Arnaldo Rascovsky*, Angel Garma*, Marie Langer* e CelesCárcamo*. Cin- co anos depois, fez sua formação didática com Garma e tornou-se uma das principais figuras da Asociación Psicoanalitica Argentina (APA). Na linha do ensino de Melanie Klein* (de quem foi a primeira tradutora em língua espanhola) e inspirando-se nos métodos de Sophie Morgen- stern*, desenvolveu a psicanálise de crianças*. Entre 1948 e 1952, dirigiu, no quadro do Ins- tituto de Psicanálise da APA, um seminário sobre esse tema. Formaria uma geração* de analistas de crianças. No congresso de 1957 da International Psychoanalytical Association* (IPA), em Paris, apresentou uma comunicação notável sobre a sucessão dos “estádios” durante os primeiros anos de vida, definindo uma “fase genitalprimitiva”anterior, no desenvolvimento libidinal, à fase anal. Com a idade de 62 anos, atingida por uma doença de pele que a desfigurou, Arminda Abe- rastury decidiu dar fim aos seus dias. Seu suicí- dio*,comováriosoutrosnahistóriadapsicanálise*, suscitou relatos contraditórios e foi considerado uma “morte trágica” pela historiografia* oficial. • Arminda Aberastury, Psicanálise da criança — teoria e técnica (B. Aires, 1962), P. Alegre, Artes Médicas, 1992 • Antonio Cucurullo, Haydée Faimberg e Leonar- do Wender, “La Psychanalyse enArgentine”, in Roland Jaccard (org.), Histoire de la psychanalyse, vol.2, Pa- ris, Hachette, 1982, 395-444 • Elfriede S.L. de Ferrer, “ProfesoraArminda Aberastury”, Revista de Psicoaná- lisis, 4, t.XXIX, outubro-dezembro de 1972, 679-82 • JorgeBalán, Cuéntame tu vida. Una biografía colectiva del psicoanálisis argentino, B. Aires, Planeta, 1991 • ÉlisabethRoudinesco,entrevistacomEmilioRodrigué, 12 de outubro de 1995, e com Cláudia Fernandes, 27 de março de 1996. ➢ ESTÁDIO; KLEINISMO; MELANCOLIA. Abraham, Karl (1877-1925) psiquiatra e psicanalista alemão O nome de Karl Abraham é indissociável da história da grande saga freudiana. Membro da geração* dos discípulos do fundador, desempe- nhou um papel pioneiro no desenvolvimento da psicanálise* em Berlim. Implantou a clínica freudiana no campo do saber psiquiátrico, transformando assim o tratamento das psi- coses*: esquizofrenia* e psicose maníaco-de- pressiva* (melancolia*). Elaborou também uma teoria dos estádios* da organização sexual, na qual se inspirou Melanie Klein*, que foi sua aluna. Formou muitos analistas, entre os quais Helene Deutsch*, Edward Glover*, Karen Hor- ney* Sandor Rado*, Ernst Simmel*. Nascido em Bremen, a 3 de maio de 1877, em uma família de comerciantes judeus es- 1 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  15. 15. tabelecidos no norte da Alemanha desde o sé- culo XVIII, Abraham era um homem afável, caloroso, inventivo, eloqüente e poliglota. Fa- lava oito línguas. Durante toda a vida, foi um ortodoxo da doutrina psicanalítica, uma “rocha de bronze”, nas palavras de Sigmund Freud*. Foi na Clínica do Hospital Burghölzli, onde foi assistente de Eugen Bleuler* com Carl Gustav Jung*, que começou a familiarizar-se com os textos vienenses. Em 1906, casou-se com Hed- wig Bürgner. Tiveram dois filhos. Abraham analisou sua filha Hilda (1906-1971), descre- vendo o caso em um artigo de 1913, intitulado “A pequena Hilda, devaneios e sintomas em uma menina de 7 anos”. Hilda Abraham se tornaria psicanalista e redigiria uma biografia inacabada do pai. Não tendo nenhuma possibilidade de fazer carreira na Suíça*, Abraham instalou-se em Berlim em 1907. No dia 15 de dezembro, foi a Viena* para fazer a sua primeira visita a Freud. Foi oinício deuma belaamizadeedeumalonga correspondência — 500 cartas entre 1907 e 1925 — da qual só se conhece uma parte. Publicada em 1965 por Ernst Freud* e por Hil- da, infelizmente essa correspondência foi am- putada de muitas peças, sobretudo dos comen- tários sobre os sonhos de Hilda, sobre os confli- tos com Otto Rank* no Comitê Secreto* e sobre as discordâncias entre ambos. Em 1908, Abraham criou com Magnus Hir- schfeld*, Ivan Bloch (1872-1922), Heinrich Körber e Otto Juliusburger* um primeiro círcu- lo, que se tornaria, em março de 1910, a Socie- dade Psicanalítica de Berlim. Seria seu presi- dente até a morte. Em 1909, Max Eitingon* reuniu-se a ele e foi assim que se iniciou, com a criação do Berliner Psychoanalytisches Ins- titut*, a história do movimento psicanalítico alemão, que, como se sabe, foi dizimado pelo nazismo* a partir de 1933. Durante a Primeira Guerra Mundial, depois de ter sido membro do Comitê Secreto, Abra- ham dirigiu a International Psychoanalytical Association* (IPA), da qual foi secretário em 1922 e presidente em 1924. Assim, foi um dos grandes militantes do movimento, tanto como clínico quanto como organizador e professor. Aobra desse fiel discípulo de Freud se cons- truiu em função dos progressos da obra do mes- tre. Maisclínicodoqueteórico,Abrahamescre- veu artigos claros e breves, nos quais domina a observação concreta. Devem-se distinguir três épocas. Entre 1907 e 1910, dedicou-se a uma comparação entre a histeria* e a demência pre- coce(queainda nãoerachamadaesquizofrenia) e à significação do trauma sexual na infância. Durante os dez anos seguintes, estudou a psico- se maníaco-depressiva, o complexo de castra- ção* na mulher e as relações do sonho* com os mitos. Em 1911, publicou um importante estu- do sobre o pintor Giovanni Segantini (1859- 1899), atingido por distúrbios melancólicos. Em 1912, redigiu um artigo sobre o culto mo- noteísta de Aton, do qual Freud se serviria em Moisése o monoteísmo*, esquecendo de citá-lo. Enfim, durante o terceiro período, descreveu os três estádios* da libido*: anal, oral, genital. Doente de enfisema, Karl Abraham morreu aos 48 anos, em 25 de dezembro de 1925, de uma septicemia consecutiva a um abscesso pul- monar provavelmente causado por um câncer. Essa morte prematura foi sentida como um verdadeiro desastre para o movimento freudia- no, e principalmente por Freud, que assistiu impotente à evolução da infecção, não hesitan- do em escrever-lhe: “Sachs me informou com surpresa e pesar que a sua doença ainda não terminou. Isso não concorda com a imagem que tenho de você. Quero imaginá-lo trabalhando sempre, infalivelmente. Sinto sua doença como umaespécie deconcorrência desleal,e peço-lhe que pare logo com isso. Espero notícias suas através de seus amigos.” • Karl Abraham, Oeuvres complètes, 2 vols. (1965), Paris, Payot, 1989 • Sigmund Freud e Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969 • Hilda Abraham, Karl Abraham, bio- graphie inachevée, Paris, PUF, 1976 • Guy Rosolato e Daniel Widlöcher, “Karl Abraham: lecture de son oeu- vre”, La Psychanalyse, 4, Paris, PUF, 1958, 153-78 • Ernst Falzeder, “Whose Freud is it? Some reflections on editing Freud’s correspondance”, International Fo- rum of Psychoanalysis, em preparação. Abraham, Nicolas (1919-1977) psicanalista francês Deorigemjudeu-húngara,NicolasAbraham nasceu em Kecskemet e emigrou para Paris em 1938. Teve uma formação filosófica marcada Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 2 Abraham, Nicolas
  16. 16. pela fenomenologia de Husserl. Falava várias línguas. Depois do primeiro casamento em 1946, do qual teve dois filhos, tomou como companheira Maria Torok, também de origem húngara. Analisado, como ela, por Bela Grun- berger, no seio da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), logo revelou-se como dissidente e seu tratamento didático não foi homologado. Nunca se tornou membro da SPP, limitando-se a ser filiado. Em 1959, iniciou com o filósofo Jacques Derrida uma sólida amizade, fundada na paixão pela filosofia e em uma certa maneira de analisar os textos freudianos. Foi com a publicação, em 1976, do Verbier de l’Homme aux loups, redigido com Maria Torok e prefaciado por Derrida, que se tornou célebre. Depois de Muriel Gardiner*, comentou o caso do Homem dos Lobos, mostrando o poliglotismo inerente a toda essa história. Ao russo, ou língua materna, ao alemão, ou língua do tratamento, e ao inglês, ou língua da ama do paciente, os autores acrescentaram uma quarta língua, o francês, que lhes permitia sublinhar que o eu* clivado do paciente comportava uma “cripta”, lugar de todos os seus segredos in- conscientes. Essa teoria da cripta enfatizava o delírio do Homem dos Lobos e o caráter neces- sariamente delirante e polissêmico da própria teoria clínica. • Nicolas Abraham e Maria Torok, Cryptonymie. Le Verbier de l’Homme aux loups, precedido de Fors, por Jacques Derrida, Paris, Aubier-Flammarion, 1976 • RenéMajor,L’Agonie dujour,Paris,Aubier-Montaigne, 1979 • Élisabeth Roudinesco, História da psicanálise na França, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988. ➢ FRANÇA; PANKEJEFF, SERGUEI CONSTANTINO- VITCH. ab-reação al. Abreagieren; esp. abreacción; fr. abréaction; ing. abreaction Termo introduzido por Sigmund Freud* e Josef Breuer* em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos. Otermoab-reação aparecepelaprimeiravez na “Comunicação preliminar” de Josef Breuer e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do meca- nismo psíquico atuante nos fenômenos histé- ricos. Nesse texto pioneiro, os autores anunciam desde logo o sentido de seu procedimento: con- seguir, tomando como ponto de partida as for- mas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a princípio e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno his- térico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de resistências*, e que somente o recurso à hipno- se* permite superar. Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao acontecimento é evacuado, por menos que essa reação seja suficientemente intensa. Nos casos em que a reação não ocorre ou não é forte o bastante, o afeto permanece ligado à lembran- ça do acontecimento traumático, e é essa lem- brança —e não o evento em si —que éo agente dos distúrbios histéricos. Breuer e Freud são muito precisos a esse respeito: “... é sobretudo de reminiscências que sofre o histérico.” En- contramos a mesma precisão no que concerne à adequação da reação do sujeito: quer ela seja imediata, voluntária ou não, quer seja adiada e provocada no âmbito de uma psicoterapia, sob a forma de rememorações e associações, ela tem que manter uma relação de intensidade ou proporção com o acontecimento incitador para surtir um efeito catártico*, isto é, liberador. É o caso da vingança como resposta a uma ofensa, a qual, não sendo proporcional ou ajustada à ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada por esta. Desdeessaépoca, BreuereFreudsublinham como é importante que o ato possa ser subs- tituído pela linguagem, “graças à qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”. Eles acrescentam que, em alguns casos de quei- xa ou confissão, somente as palavras cons- tituem “o reflexo adequado”. Se o termo ab-reação permanece ligado ao trabalho com Breuer e à utilização do método catártico, nem por isso a instauração do método psicanalítico e o emprego, em 1896, do termo “psico-análise” significam o desaparecimento Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar ab-reação 3
  17. 17. do termo ab-reação, e isso por duas razões, como deixam claro os autores do Vocabulário da psicanálise: uma razão factual, de um lado, na medida em que, seja qual for o método, a análise continua sendo, sobretudo para alguns pacientes, um lugar de fortes reações emocio- nais; e uma teórica, de outro, uma vez que a conceituação da análise recorre à rememora- ção* e à repetição*, formas paralelas de ab-rea- ção. Por que Breuer e Freud empregaram essa palavra, queesteúltimo nãorenegariaaoevocar o método catártico em sua autobiografia? Como neologismo, o termo ab-reação compõe-se do prefixo alemão ab- e da palavra reação, constituída, por sua vez, do prefixo re- e da palavra ação. Aprimeira razão dessa dupli- cação parece ser o cuidado dos autores de repe- liro caráterexcessivamente genérico dapalavra reação. Além disso, porém, a palavra remete ao procedimento da fisiologia do século XIX, em cujo seio ela funciona como sinônima de re- flexo, termo pelo qual se designa o elemento de uma relação que tem a forma de um arco linear — o arco reflexo — que relaciona, termo a termo, um estímulo pontual e uma resposta muscular. EssareferênciaconstituíaparaFreud, nosanosde 1892-1895, umaespéciedegarantia de cientificidade, consoante com sua esperança de inscrever a abordagem dos fenômenos his- téricos numa continuidade com a fisiologia dos mecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean Starobinski em 1994, a referência ao modelo do arco reflexo sobreviveria à utilização dessa pa- lavra, jáque Freud serefereexplicitamenteaela em seu texto sobre o destino das pulsões*, onde distingue as excitações externas, que provocam respostas no estilo do arco reflexo, das exci- tações internas, cujos efeitos são da ordem de uma reação. Mais tarde, Freud utilizaria o termo reação num sentido radicalmente diferente: em vez de designar uma descarga liberadora, ele seria em- pregado para evocar um processo de bloqueio ou contenção, a formação reativa. • Sigmund Freud e Josef Breuer, “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: Comunicação pre- liminar”(1893),inEstudossobreahisteria(1895),ESB, II, 43-62; GW, I, 77-312; SE, II, 1-17; Paris, PUF, 1956, 1-13 • Sigmund Freud, Um estudo autobiográfico (1925), ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-96; SE, XX, 7-70; Paris,Gallimard,1984;“Aspulsõesesuas vicissitudes” (1915), ESB, XIV, 137-68; GW, X, 209-32; SE, XIV, 109-40; OC, XIII, 161-85; O eu e o isso (1923), ESB, XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 1-59; in Essais depsychanalyse, Paris,Payot, 1981,219-52•Georges Canguilhem, “Le Concept de réflexe au XIXe siècle”, in Études d’histoire et de philosophie des sciences, Paris, Vrin, 1968 • Marcel Gauchet, L’Inconscient cérebral, Paris, Seuil, 1992 • Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulário da psicanálise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed. • Jean Starobinski, “Sur le mot abréaction” (1994), in André Haynal (org.), La Psychanalyse: cent ans déjà, Genebra, Georg, 1996, 49-62. ➢ CATARSE; ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; HIPNO- SE; HISTERIA; PULSÃO; RESISTÊNCIA; SUGESTÃO. abstinência, regra de al. Grundsatz der Abstinenz; esp. regla de abs- tinencia; fr. règle d’abstinence; ing. rule of abs- tinence Corolário da regra fundamental*, a regra de abs- tinência designa o conjunto dos meios e atitudes empregados pelo analista para que o analisando fique impossibilitado de recorrer a formas de satis- fação substitutas, em condições de lhe poupar os sofrimentos que constituem o motor do trabalho analítico. É em 1915, ao se interrogar sobre qual deve ser a atitude do psicanalista confrontado com as manifestações da transferência amorosa, que Sigmund Freud* fala pela primeira vez da regra de abstinência. Esclarece que não pretendeevo- car apenas a abstinência física do analista em relação à demanda amorosa da paciente, mas o que deve ser a atitude do analista para que subsistam no analisando as necessidades e de- sejos insatisfeitos que constituem o motor da análise. Para ilustrar o caráter de tapeação de que se revestiria uma análise em que o analista aten- desse às demandas de seus pacientes, Freud evoca a anedota do padre que vai dar os últimos sacramentos a um corretor de seguros descren- te:ao finaldaconversanoquartodomoribundo, o ateu não parece haver se convertido, mas o padre contratou um seguro. Não apenas, escreve Freud, “é proibido ao analista ceder”, como também este deve levar o paciente a vencer o princípio de prazer* e a renunciar às satisfações imediatas em favor de Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 4 abstinência, regra de
  18. 18. uma outra, mais distante, e sobre a qual se esclarece, no entanto, que “também pode ser menos certeira”. É no âmbito do V Congresso de Psicanálise, realizado em Budapeste em 1918, que Freud volta a essa questão, após uma intervenção de Sandor Ferenczi*, centrada na atividade do analista e nosmeios a queele deve recorrerpara afugentare proibirtodasasformasdesatisfação substituta que o paciente possa buscar no âmbi- to do tratamento, bem como fora desse quadro. Em essência, Freud assinala sua concordância com Ferenczi. Sublinha que o tratamento psi- canalítico deve, “tanto quanto possível, efetuar- se num estado de frustração* e abstinência”. Mas deixa claro que não se trata de proibir tudo ao paciente e que a abstinência deve ser articu- lada com a dinâmica específica de cada análise. Este último esclarecimento foi progres- sivamente perdido de vista, assim como se es- queceu a ênfase depositadaporFreudnocaráter incerto da satisfação a longo prazo. O surgi- mento de uma concepção pedagógica e ortopé- dica do tratamento psicanalíticocontribuiu para a transformação da regra de abstinência em um conjunto de medidas ativas e repressivas, que visam fornecer uma imagem da posição do analista em termos de autoridade e poder. Em seu seminário de 1959-1960, dedicado à ética da psicanálise, assim como em textos anteriores que versavam sobre as possíveis va- riações do “tratamento-padrão” e da direção do tratamento, Jacques Lacan* voltou à noção de neutralidade analítica, que situou numa pers- pectiva ética. Se Freud se mostrava prudente quanto à possível obtenção de uma satisfação posterior pelo paciente, fruto de sua renúncia a um prazer imediato, Lacan pretendeu-se mais radical, questionando a fantasia de um “bem supremo” cuja realização marcaria o fim da análise. • Sigmund Freud, “Observações sobre o amor transfe- rencial” (1915), ESB, XII, 208-21; GW, X, 306-21; SE, XII, 157-71; Paris, PUF, 1953, 116-30; “Linhas de progresso na terapia psicanalítica” (1919), ESB, XVII, 201-16; GW, XII, 183-94; SE, XVII, 157-68; in La Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 131-41 • Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondance, 1914-1919, Paris, Calmann-Lévy, 1996 • Sandor Fe- renczi, “A técnica psicanalítica” (1919), in Psicanálise II, Obras completas, 1913-1919, S. Paulo, Martins Fontes, 1992, 357-68; “Prolongamentos da ‘técnica ativa’ em psicanálise” (1921), in Psicanálise III, Obras completas, 1919-1926, S. Paulo, Martins Fontes, 1993 • Jacques Lacan, Escritos, (Paris, 1966), Rio de Janei- ro, Jorge Zahar, 1998; O Seminário, livro 7, A ética da psicanálise (1959-1960) (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988 • Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulário da psicanálise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed. ➢ CONTRATRANSFERÊNCIA; REGRA FUNDAMEN- TAL; TÉCNICA PSICANALÍTICA; TRANSFERÊNCIA. acting out al. Agieren; esp. pasar al acto; fr. passage à l’acte; ing. acting out Noção criada pelos psicanalistas de língua inglesa e depois retomada tal e qual em francês, para traduzir o que Sigmund Freud* denomina de colo- cação em prática ou em ato, segundo o verbo alemão agieren. O termo remete à técnica psicana- lítica* e designa a maneira como um sujeito* passa inconscientemente ao ato, fora ou dentro do trata- mento psicanalítico, ao mesmo tempo para evitar a verbalização da lembrança recalcada e para se furtar à transferência*. No Brasil também se usa “atuação”. Foi em 1914 que Freud propôs a palavra Agieren (pouco corrente em alemão) para de- signar o mecanismo pelo qual um sujeito põe em prática pulsões*, fantasias* e desejos*. Aliás, convém relacionar essa noção com a de ab-reação* (Abreagieren). O mecanismo está associado à rememoração, à repetição* e à ela- boração* (ou perlaboração). O paciente “traduz em atos” aquilo que esqueceu: “É de se esperar, portanto”, diz Freud, “que ele ceda ao automa- tismo de repetição que substituiu a compulsão à lembrança, e não apenas em suas relações pessoais com o médico, mas também em todas as suas outras ocupações e relações atuais, bem como quando, por exemplo, lhe sucede apaixo- nar-se durante o tratamento.” Para responder a esse mecanismo, Freud preconiza duas soluções: (1) fazer o paciente prometer, enquanto se desenrola o tratamento, não tomar nenhuma decisão grave (casamento, escolha amorosa definitiva, profissão) antes de estar curado; (2) substituir a neurose* comum por uma neurose de transferência*, da qual o trabalho terapêutico o curará. Em 1938, no Esboço de psicanálise, Freud sublinha que é acting out 5 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  19. 19. desejável que o paciente manifeste suasreações dentro da transferência*. Os psicanalistas de língua inglesa distin- guem o acting in do acting out propriamente dito. O acting in designa a substituição da ver- balização por um agir no interior da sessão psicanalítica (mudança da posição do corpo ou surgimento de emoções), enquanto o acting out caracteriza o mesmo fenômeno fora da sessão. Os kleinianos insistem no aspecto transferen- cial do acting in e na necessidade de analisá-lo, sobretudo nos bordelines*. Por outro lado, em 1967, o psicanalista fran- cês Michel de M’Uzan propôs distinguir o ac- ting out direto (ato simples, sem relação com a transferência) do acting out indireto (ato ligado a uma organização simbólica relacionada com uma neurose de transferência). No vocabulário psiquiátrico francês, a ex- pressão “passagem ao ato” evidencia a violên- cia da conduta mediante a qual o sujeito se precipita numa açãoque o ultrapassa: suicídio*, delito, agressão. Foi partindo dessa definição que Jacques Lacan*, em 1962-1963, em seu seminário sobre A angústia, instaurou uma distinção entre ato, acting out e passagem ao ato. No contexto de sua concepção do outro* e da relação de obje- to*, e a partir de um comentário de duas obser- vações clínicas de Freud (o caso Dora* e “Psi- cogênese de um caso de homossexualidade nu- ma mulher”), Lacan estabeleceu, com efeito, umahierarquia em três patamares. Segundo ele, o ato é sempre um ato significante, que permite ao sujeito transformar-se a posteriori*. Oacting out, aocontrário, não éumato,masumademan- da de simbolização que se dirige a um outro. É um disparate destinado a evitar a angústia. No tratamento, o acting out é o sinal de que a análise se encontra num impasse em que se revela a incapacidade do psicanalista. Ele não pode ser interpretado, mas se modifica quando o analista o entende e muda de posição transfe- rencial. Quanto à passagem ao ato, trata-se, para Lacan,deum“agirinconsciente”,deumatonão simbolizável pelo qual o sujeito descamba para uma situação de ruptura integral, de alienação radical. Ele se identifica então com o objeto (pequeno) a*, isto é, com um objeto excluído ou rejeitado de qualquer quadro simbólico. O suicídio, para Lacan, situa-se na vertente da passagem ao ato, como atesta a própria maneira de morrer, saindo de cena por uma morte vio- lenta: salto no vazio, defenestração etc. • Sigmund Freud, “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), ESB, VII, 5-128; GW, V, 163-286; SE, VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1970; “Recordar, repetir e elaborar” (1914), ESB, XII, 193-207; GW, X, 126-36; SE, XII, 126-36; in La Techni- que psychanalytique, Paris, PUF, 1970; “A psicogê- nese de um caso de homossexualidade numa mulher” (1920), ESB, XVIII, 185-216; GW, XII, 271-302; SE XVIII, 145-72; in Névrose, psychose et perversion, Paris, PUF, 1973; Esboço de psicanálise (1938), ESB, XXIII, 168-223; GW, XVII, 67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 1967 • Jacques Lacan, Le Séminaire, livre X, L’Angoisse, (1962-1963), inédito • Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulário da psicanálise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed. • Ludwig Eidelberg (org.), Encyclopedia of Psychoana- lysis, N. York, The Free Press, e Londres, Collier Mac- millan Ltd., 1968 • Michel de M’Uzan, De l’art à la mort, Paris, Gallimard, 1977 • R.D. Hinshelwood, Dicionário do pensamento kleiniano, (Londres, 1991), P. Alegre, Artes Médicas, 1992. Adler, Alfred (1870-1937) médico austríaco, fundador da escola de psicologia individual Adler,primeirograndedissidente dahistória do movimento psicanalítico, nasceu em Ru- dolfsheim, subúrbio de Viena*, em 7 de feverei- ro de 1870. Na verdade, nunca aderiu às teses de Sigmund Freud,* de quem se afastou em 1911, sem tersido, comoCarl GustavJung*, seu discípulo privilegiado. Quatorze anos mais no- vo do que o mestre, não procurou reconhecê-lo como uma autoridade paterna. Atribuiu-lhe, an- tes, o lugar de um irmão mais velho e não manteve com ele relações epistolares íntimas. Ambos eram judeus e vienenses, ambos provi- nham de famílias de comerciantes que nunca conheceram realmente o sucesso social. Adler freqüentou o mesmo Gymnasium que Freud e fez estudos de medicina mais ou menos idênti- cos aos seus. Entretanto, originário de uma co- munidade de Burgenland, era húngaro, o que fazia dele cidadão de um país cuja língua não falava. Tornou-se austríaco em 1911 e nunca teve a impressão de pertencer a uma minoria ou de ser vítima do anti-semitismo. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 6 Adler, Alfred
  20. 20. Segundo de seis filhos, tinha saúde frágil, era raquítico e sujeito a crises de falta de ar. Além disso, tinha ciúme do irmão mais velho, que se chamava Sigmund, e com quem teve uma relação de rivalidade permanente, como a que teria mais tarde com Freud. Protegido pelo pai, rejeitado pela mãe e sofrendo por não ser o primogênito, sempre deu mais importância aos laçosdegrupoedefraternidadedoqueàrelação entre pais e filhos. Em sua opinião, a família era menos o lugar de expressão de uma situação edipiana do que um modelo de sociedade. Daí o interesse que dedicou à análise marxista. Em 1897, casou-se com Raissa Epstein, fi- lha de um comerciante judeu originário da Rús- sia*. A jovem pertencia aos círculos da intelli- gentsia e propalava opiniões de esquerda que a afastavam do modo de vida da burguesia vie- nense, em que a mulher devia ser antes de tudo mãe e esposa. Através dela, Adler freqüentou Léon Trotski (1879-1940) e depois, em 1908, foi terapeuta de Adolf Abramovitch Ioffe (1883-1927),futurocolaboradordestenojornal Pravda. Em 1898, publicou sua primeira obra, Ma- nual de higiene para a corporação dos al- faiates. Nela, traçava um quadro sombrio da situação social e econômica desse ofício no fim do século: condições de vida deploráveis, causando escolioses e doenças diversas ligadas ao uso de tinturas, salários miseráveis etc. ComoenfatizaoescritorManèsSperber,seu notável biógrafo e discípulo durante algum tempo, Adler não teve a mesma concepção que Freud da sua judeidade*. Ainda que não fosse movido, como Karl Kraus* e Otto Weininger*, por um sentimento de “ódio de si judeu”, pre- feriu escapar à sua condição. Em 1904, conver- teu-se ao protestantismo com as duas filhas. Essa passagem para o cristianismo não o impe- diu de continuar sendo, durante toda a vida, um livre-pensador, adepto do socialismo reformis- ta. Observe-se que ele não tinha nenhum laço de parentesco com Viktor Adler (1852-1918), fundador do Partido Social-Democrata Aus- tríaco. Em 1902,depoisde ficarconhecendoFreud, começou a freqüentar as reuniões da Sociedade Psicológica das Quarta-Feiras, fazendo ami- zade com Wilhelm Stekel*. Permaneceu no cír- culo freudiano durante nove anos e dedicou sua primeira comunicação, no dia 7 de novembro de 1906, ao seguinte tema: “As bases orgânicas da neurose”. No ano seguinte, apresentou um caso clínico, depois, em 1908 uma contribuição para a questão da paranóia*, e em 1909, ainda outra, “Aunidade das neuroses”. Foi nessa data que começaram a se manifestar divergências fundamentais entre suas posições e as de Freud e seus partidários. Elas constam das Minutas da Sociedade, transcritas por Otto Rank* e edita- das por Hermann Nunberg*. Em fevereiro de 1910, Adler fez uma confe- rência na Sociedade sobre o hermafroditismo psíquico. Afirmava queosneuróticosqualifica- vam de “feminino” o que era “inferior”, e situa- va a disposição da neurose* em um sentimento de inferioridade recalcado desde a primeira re- lação da criança com a sexualidade*. O surgi- mento da neurose era, segundo ele, a conse- qüência de um fracasso do “protesto masculi- no”. Do mesmo modo, as formações neuróticas derivariam da luta entre o feminino e o mascu- lino. Freud começou então a criticar o conjunto das posições de Adler, acusando-o de se apegar a um ponto de vista biológico, de utilizar a diferençados sexos* em um sentido estritamen- te social e, enfim, de valorizar excessivamente a noção de inferioridade. Hoje, encontra-se a concepção adleriana da diferença dos sexos entre os teóricos do gênero* (gender). No dia 1º de fevereiro de 1911, Adler voltou à carga, em uma comunicação sobre o protesto masculino, questionando as noções freudianas de recalque* e de libido*, julgadas pouco ade- quadas para explicar a “psique desviante e ir- ritada” do eu* nos primeiros anos da vida. Efe- tivamente, Adler estava edificando uma psico- logiadoeu, darelaçãosocial, daadaptação,sem inconsciente* nem determinação pela sexuali- dade. Assim, distanciava-se do sistema de pen- samento freudiano. Baseava-se nas concepções desenvolvidas em sua obra de 1907, Acompen- sação psíquica do estado de inferioridade dos órgãos. A noção de órgão inferior já existia na his- tória da medicina, em que muitos clínicos ob- servaram que um órgão de menor resistência sempre podia ser o centro de uma infecção. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar Adler, Alfred 7
  21. 21. Adler transpunha essa concepção para a psico- logia, fazendo da inferioridadedesteou daquele órgão em um indivíduo a causa de uma neurose transmissível por predisposição hereditária. Se- gundo ele, era assim que apareciam doenças do ouvido em famílias de músicos ou doenças dos olhos em famílias de pintores etc. A ruptura entre Freud e Adler foi de uma violência extrema, como mostram as críticas recíprocas que trocaram trinta e cinco anos de- pois. A um interlocutor americano que o ques- tionava sobre Freud, Adler afirmou, em 1937, que “aquele de quem nunca fora discípulo era um escroque astuto e intrigante”. Por sua vez, informado da morte de seu compatriota, Freud escreveu estas palavras terríveis em uma céle- bre carta a Arnold Zweig*: “Para um rapaz judeu de um subúrbio vienense, uma morte em Aberdeen éporsisó umacarreirapoucocomum e uma prova de seu progresso. Realmente, o mundo o recompensou com generosidade pelo serviço que ele lhe prestou ao opor-se à psica- nálise.” Em “A história do movimento psicana- lítico” (1914), Freud contou de maneira parcial a história dessa ruptura. Seus partidários humi- lharam os adlerianos, e estes arrasaram os freu- dianos. Foi preciso esperar pelos trabalhos da historiografia* erudita, principalmente os de Henri F. Ellenberger* e os de Paul E. Stepansky, para se formar uma idéia mais exata da reali- dade dessa dissidência. Em 1911, Adlerdemitiu-sedaSociedadedas Quarta-Feiras, da qual era presidente desde 1910, e deixou a Zentralblatt für Psychoana- lyse*, que dirigia com Stekel. Em 1912, publi- cou O temperamento nervoso, em que expôs o essencial da sua doutrina, e um ano depois fundou a Associação para uma Psicologia In- dividual, com ex-membros do círculo freudia- no, entre os quais Carl Furtmuller (1880-1951) e David Ernst Oppenheim (1881-1943). Depois de combater na Grande Guerra, Adler voltou a Viena, onde pôs suas idéias em prática, fundando instituições médico-psicoló- gicas. Reformista, condenou o bolchevismo, mas sem militar pela social-democracia. Em 1926, seu movimento adquiriu dimensão inter- nacional, notadamente nos Estados Unidos*, único país em que teve uma verdadeira implan- tação. Adler começou então a visitar esse país regularmente, para conferências e permanên- cias prolongadas. Em 1930, recebeu o título de cidadão de Viena, mas quatro anos depois, pressentindo que o nazismo* dominaria a Europa inteira, pensou em emigrar para os Estados Unidos. Foi duranteumaviagemdeconferênciasnaEuropa, quandoseencontravaemAberdeen,naEscócia, que caiu na rua, vítima de uma crise cardíaca. Morreu na ambulância que o conduzia ao hos- pital, a 28 de maio de 1937. Seu corpo foi cremado no cemitério de Warriston, em Edim- burgo, onde foi celebrada uma cerimônia reli- giosa. • Alfred Adler, La Compensation psychique de l’état d’infériorité des organes (1898), Paris, Payot, 1956; Le Tempérament nerveux: éléments d’une psychologie individuelle et applications à la thérapeutique (1907), Paris, Payot, 1970 • Les Premiers psychanalystes, Minutes de la Société Psychanalytique de Vienne, 1906-1918, 4 vols. (1962-1975), Paris, Gallimard, 1976-1983 • Manès Sperber, Alfred Adler et la psycho- logie individuelle (1970), Paris, Gallimard, 1972 • Henri F. Ellenberger, Histoire de la découverte de l’incons- cient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994 • Paul E. Stepansky, Adler dans l’ombre de Freud (1983), Paris, PUF, 1992. ➢ CISÃO; COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; HIS- TORIOGRAFIA; NEOFREUDISMO; PSICOTERAPIA; RÚSSIA. Adler, Ida ➢ BAUER, IDA (CASO DORA). afânise Termo derivado do grego (aphanisis: fazer desapa- recer), introduzido por Ernest Jones* em 1927 para designar o desaparecimento do desejo* e o medo desse desaparecimento, tanto no homem quanto na mulher. Foi em seu artigo de 1927 sobre a sexuali- dade feminina*, apresentado no congresso da International Psychoanalytical Association* (IPA) e intitulado “Afase precoce do desenvol- vimento da sexualidade feminina”, que Ernest Jones explicou que o medo da castração* no homem assumia, na mulher, a forma de um medo da separação ou do abandono. Chamou então de afânise ao que existe em comum em ambos os sexos quanto a esse medo fundamen- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 8 Adler, Ida
  22. 22. tal, que decorre, segundo ele, de uma angústia ligada à abolição do desejo ou da capacidade de desejar. Em 1963, Jacques Lacan* criticou essa no- ção, para situar a abolição na vertente de um esvaecimento (ou fading) do sujeito*. • Ernest Jones, Théorie etpratique dela psychanalyse, Paris, Payot, 1969 • Jacques Lacan, O Seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) (Paris, 1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979. ➢ CLIVAGEM (DOEU); OBJETO, RELAÇÃO DE; OBJE- TO (PEQUENO) a. África ➢ ANTROPOLOGIA; COLLOMB, HENRI;ETNOPSICA- NÁLISE; FANON, FRANTZ; HISTÓRIA DA PSICANÁ- LISE; LAFORGUE, RENÉ; MANNONI, OCTAVE; SACHS, WULF. Aichhorn, August (1878-1949) psicanalista austríaco Nascido em Viena*, August Aichhorn era filho de um banqueiro cristão e socialista. Es- tudou construção mecânica, queabandonou pa- ra ser professor primário e consagrar-se à peda- gogia e aos problemas da delinqüência infantil e juvenil. Em 1918, tornou-se diretor da ins- tituição de Ober-Hollabrunn, situada a noroeste de Viena, e em 1920 de outra, antes de trabalhar com a municipalidade da cidade. Analisado por Paul Federn*, aderiu à Wiener Psychoanaly- tische Vereinigung (WPV) em 1922 e formou um pequeno círculo de estudos sobre a delin- qüência com Siegfried Bernfeld* e Wilhelm (Willi) Hoffer (1897-1967). Personagem não-conformista, corpulento, sempre vestido de preto, uma piteira nos lábios, tinha tal respeito por Sigmund Freud* que nun- caousavatomarapalavranasreuniõesdaWPV. Durantelongosanos, ninguém suspeitou deque estava apaixonado por Anna Freud, filha do mestre. Só revelou a esta o seu segredo às vésperas de sua morte. De qualquer forma, foi graças a ele que, durante sua juventude em Viena, ela descobriu o mundo dos marginais e dos excluídos. Em 1925, publicou um livro pioneiro sobre adolescentes, Juventude abandonada, para o qual Freud redigiu um prefácio em que selê: “A criança se tornou o objeto principal da pesquisa psicanalítica. Tomou assim o lugar do neuróti- co, primeiro objeto dessa pesquisa.” Aichhorn mostrava que o comportamento anti-social era análogo aos sintomas neuróticos e situava suas causas primeiras em “laços libidinais anor- mais” da primeira infância. Militava pela utili- zação, por parte dos educadores, da técnica psicanalítica*, defendendo a idéia de que o pe- dagogo podia tornar-se, para a criança, um pai substituto, no seio de uma transferência* posi- tiva. Em 1932, aposentou-se para trabalhar par- ticularmente. Em 1938, não deixou Viena, co- mo a maioria dos colegas, porque seu filho fora preso pelos nazistas e deportado como prisio- neiro político para o campo de concentração de Dachau. Foi por essa razão que aceitou dirigir, entre 1938 e 1944, como “psicólogo clínico”, a for- maçãopsicanalíticadoInstitutoAlemãodePes- quisas Psicológicas e Psicoterapêuticas de Ber- lim, criado por Matthias Heinrich Göring*. De- pois da Segunda Guerra Mundial, participou, com a ajuda de Anna Freud, da reconstrução da WPV e foi nomeado diretor do International Journal of Psycho-Analysis* (IJP). • August Aichhorn, Jeunesse à l’abandon (Viena, 1925), Toulouse, Privat, 1973 • Sigmund Freud, “Pre- fácio a Juventude abandonada, de Aichhorn” (1925), ESB, XIX, 341-8; GW, XIV, 565-7; SE, XIX, 273-5; OC, XVII, 161-3 • Kurt Eissler, “August Aichhorn: a biogra- phical outline”, in Searchlights on Delinquency, New Psychoanalytic Studies, N. York, International Univer- sities Press, IX-XIII • Geoffrey Cocks, La Psychothéra- pie sous le IIIe Reich (1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987 • Élisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma bio- grafia (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992. ➢ ALEMANHA; ANNAFREUDISMO; NAZISMO; PSICA- NÁLISE DE CRIANÇAS; SOCIEDADE PSICOLÓGICA DAS QUARTAS-FEIRAS. Aimée, caso ➢ ANZIEU, MARGUERITE. Ajase, complexo de ➢ JAPÃO (KOSAWA HEISAKU). Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar Ajase, complexo de 9
  23. 23. Alemanha Sem o advento do nazismo*, que a esvaziou da quase totalidade de seus intelectuais e erudi- tos, a Alemanha teria sido o mais poderoso país de implantação da psicanálise*. Se fosse neces- sário comprovar essa afirmação, bastariam os nomes de seus prestigiosos fundadores, que se naturalizaram americanos, quando não morre- ram antes de poder emigrar: Karl Abraham*, Max Eitingon*, Otto Fenichel*, Ernst Simmel*, Otto Gross*, Georg Groddeck*, Wilhelm Reich*, Erich Fromm*, Karen Horney*. Como em quase todos os países do mundo, as teses freudianas foram consideradas, na Ale- manha, como um pansexualismo*, uma “porca- ria sexual”, uma “epidemia psíquica”. Tratada de “psiquiatria de dona de casa” pelos meios da medicina acadêmica, a psicanálise foi mal acei- ta pelos grandes nomes do saber psiquiátrico, e principalmente por Emil Kraepelin*. Reprova- vam o seu estilo literário e a sua metapsicolo- gia*, embora Freud tivesse assimilado em seus trabalhos uma parte importante da nosologia kraepeliniana. Entretanto, foi mesmo no campo do saber psiquiátrico que ela acabou por ser reconhecida, graças à ação de alguns pioneiros. Na virada do século XX, eles começaram a descobrir a obra freudiana, praticando a hipno- se* ou interessando-se pela sexologia*; entre eles, Arthur Muthmann (1875-1957). Es- timulado por Sigmund Freud* e Carl Gustav Jung* a desenvolver atividades psicanalíticas, não se afastou do método catártico e rompeu com o freudismo* em 1909. Por sua vez, Her- mann Oppenheim (1858-1918), neurologista judeu berlinense, recebeu favoravelmente os trabalhos clínicos da psicanálise, antes de criti- cá-los duramente, como aliás Theodor Ziehen (1862-1950), inventor da noção de complexo* e titular da cátedra de psiquiatria de Berlim. No nível universitário, a resistência se ma- nifestou de modo mais determinado. Como su- blinha Jacques Le Rider, “a psicologia alemã construíra a sua reputação sobre a pesquisa em laboratório, sobre um método científico do qual a física e a química eram o modelo ideal, e cujo espírito positivo pretendia banir qualquer es- peculação, reconhecendo apenas um saber sin- tético: abiologia”. Aescola alemã de psicologia reagiu contra a Naturphilosophie do século XIX, essa ciência da alma que florescera na esteira do romantismo e de que se nutriam os trabalhos freudianos. Thomas Mann* seria um dospoucosa reconhecero valorcientífico desse freudismo julgado excessivamente literário pe- los psicólogos universitários. No campo da filosofia, a psicanálise passava por ser aquele “psicologismo” denunciado por Edmund Husserl desde seus primeiros traba- lhos. Assim, ela foi criticada em 1913 por Karl Jaspers (1883-1969)em umaobramonumental, Psicopatologiageral, queteveum grandepapel na gênese de uma psiquiatria fenomenológica, principalmente na França*, em torno de Eugène Minkowski*, de Daniel Lagache* e do jovem Jacques Lacan*. Em1937, AlexanderMitscher- lisch* tentou convencer Jaspers a modificar a sua opinião, mas chocou-se com a hostilidade do filósofo, que manteve-se surdo aos seus ar- gumentos. Segundo Ernest Jones*, o ano de 1907 mar- cou o início do progresso internacional da psi- canálise e o fim do “esplêndido isolamento” de Freud. Ora, nesseano,doisassistentesdeEugen Bleuler* na Clínica do Hospital Burghölzli se juntaram a ele: Max Eitingon e Karl Abraham, futuro organizador do movimento berlinense: “Tenho a intenção de deixar Zurique dentro de um mês, escreveu-lhe em 10 de outubro de 1907. Com isso, abandono a minha atividade anterior [...]. Na Alemanha como judeu, na Suí- ça como não-suíço, não consegui ir além de um posto de assistente. Agora, vou tentar trabalhar em Berlim como especialista em doenças ner- vosas e psíquicas.” Sempre à procura, desde o fim de sua amizade com Wilhelm Fliess*, de uma renovação do poder alemão, Freud lhe respondeu: “Não é mau para um jovem como você ser empurrado violentamente para a ‘vida ao ar livre’, e sua condição de judeu, aumentan- do as dificuldades, terá, como para todos nós, o efeito de manifestar plenamente as suas capaci- dades [...]. Se minha amizade com o doutor W. Fliess ainda subsistisse, o caminho estaria aber- to para você; infelizmente, esse caminho está agora totalmente fechado.” Depois da Suíça*, a Alemanha tornou-se assim a segunda “terra prometida” da psicaná- lise. No ano seguinte, foi a vez dos Estados Unidos*. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 10 Alemanha
  24. 24. Desde a sua chegada, Abraham começou a organizar o movimento. No dia 27 de agosto de 1908, fundou a Associação Psicanalítica de Berlim, com Otto Juliusburger*, Ivan Bloch, Magnus Hirschfeld*, Heinrich Körber. Esse grupo assumiuuma importânciacrescente.Três congressos se realizaram em cidades alemãs: Nuremberg em 1910, onde foi criada a Interna- tional Psychoanalytical Association* (IPA), Weimar em 1911, do qual participaram 116 congressistas, Munique em 1913, quando se consumou a partida de Jung e seus partidários. Um ano depois, Freud pediu a Abraham que sucedesse a Jung na direção da IPA. Aderrota dos impérios centrais modificou o destino da psicanálise. Se a Sociedade Psicana- lítica Vienense (WPV) continuou ativa, em ra- zão da presença de Freud e do afluxo dos ame- ricanos, perdeu toda a sua influência em bene- fício do grupo berlinense. Arruinados, os ana- listas austríacos emigraram para a Alemanha a fim de restabelecer suas finanças, seguidos pe- los húngaros, obrigados a fugir do regime dita- torial do almirante Horthy, depois do fracasso da Comuna de Budapeste. Vencida sem ser destruída,aAlemanhapodiaassimreconquistar um poder intelectual que o antigo reino dos Habsburgo perdera. Berlim tornou-se pois, se- gundo as palavras de Ernest Jones, o “coração de todo o movimento psicanalítico internacio- nal”, isto é, um pólo de divulgação das teses freudianas tão importante quanto fora Zurique no começo do século. Em 1918, Simmel reuniu-se a Abraham e a Eitingon, seguido dois anos depois por Hanns Sachs*. A Associação Berlinense se vinculara então à IPA, sob o nome de Deutsche Psychoa- nalytische Gesellschaft (DPG). Estava aberto o caminho para a criação de institutos que permi- tissem simultaneamenteformarterapeutas(“re- produzir a espécie analítica” como dizia Eitin- gon), e enraizar os tratamentos psicanalíticos em um terreno social. Desde o início da Socie- dade Psicológica das Quarta-Feiras*, já existia a idéia de uma psicanálise de massa, capaz de tratardospobresedespertarasconsciências.No Congresso de Budapeste em 1918, Freud esti- mulara esse projeto de transformar ao mesmo tempo o mundo e as almas. Pensava em criar clínicas dirigidas por médicos que tives- sem recebido uma formação psicanalítica e que acolhessem gratuitamente pacientes de baixa renda. Ativado por Simmel e Eitingon, sob a dire- çãodeAbraham,esseprogramarecebeuoapoio das autoridades governamentais e dos meios acadêmicos. Ernst Freud* preparou locais na Potsdamer Strasse, e a famosa Policlínica abriu suas portas a14defevereiro de 1920,ao mesmo tempo que o Berliner Psychoanalytisches Ins- titut* (BPI). Esse Instituto não só permitiria aperfeiçoar os princípios da análise didática* e formar a maioria dos grandes terapeutas do movimento freudiano, mas também serviria demodelo para todos os institutos criados pela IPA no mundo. Quanto à Policlínica, esta foi um verdadeiro laboratório para a elaboração de novas técnicas de tratamento. Em 1930, no seu “Relatório original sobre os dez anos de atividade do BPI”, Eitingon expôs um balanço detalhado da expe- riência: 94 terapeutas em atividade, 1.955 con- sultas, 721 tratamentos psicanalíticos, entre os quais 363 tratamentos terminados e 111 casos de cura, 205 de melhora e apenas 47 fracassos. Aesse sucesso, acrescentavam-se as atividades de Wilhelm Reich e Georg Groddeck, que con- tribuíram também para a difusão do freudismo na Alemanha. Centro da divulgação clínica, Berlim conti- nuava sendo pioneira de um certo conservado- rismo político e doutrinário. E foi Frankfurt que se tornou o lugar da reflexão intelectual, dando origem à corrente da “esquerda freudiana”, sob a influência de Otto Fenichel, e à instituição do Frankfurter Psychoanalytisches Institut. Criado em 1929 por Karl Landauer* e Hein- rich Meng*, esse instituto se distinguia do de Berlim por sua colaboração intensa com o Ins- titut für Sozialforschung, em cujos locais se instalara, e onde trabalharam notadamente Erich Fromm*, Herbert Marcuse*, Theodor Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895- 1973). Núcleo fundador da futura Escola de Frankfurt, esse instituto de pesquisas sociais fundado em 1923 originou a elaboração da teoria crítica, doutrina sociológica e filosófica que se apoiava simultaneamente na psicanálise, na fenomenologia e no marxismo, para refletir sobre as condições de produção da cultura no Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar Alemanha 11
  25. 25. seio de uma sociedade dominada pela raciona- lidade tecnológica. Em 1942, em uma carta iluminada a Leo Lowenthal, Horkheimer explicou claramente a dívida da Escola de Frankfurt para com a teoria freudiana: “Seu pensamento é uma das Bild- ungsmächte [pedras angulares] sem as quais a nossa própria filosofia não seria o que é. Nestas últimas semanas, mais uma vez, tenho cons- ciência da sua grandeza. Muito se disse, como sabemos, que o seu método original correspon- dia essencialmente à natureza da burguesia muito refinada de Viena, na época em que ele foi concebido. Claro que isso é totalmente falso em geral, mas mesmo que houvesse um grão de verdade, isso em nada invalidaria a obra de Freud. Quanto maior for uma obra, mais estará enraizada em uma situação histórica concreta.” Única instituição alemã a difundir cursos na universidade, oInstitutoPsicanalíticodeFrank- furt teria um belo futuro. Não formandodidatas, mostrou-se mais aberto aos debates teóricos do que seu análogo berlinense. Em 1930, graças à intervenção do escritor Alfons Paquet (1881-1944), a cidade concedeu a Freud o prêmio Goethe. Em seu discurso, lido por sua filha Anna, Freud prestou homenagem à Naturphilosophie, símbolo do laço espiritual que unia a Alemanha à Áustria, e à beleza da obra de Goethe, segundo ele próxima do eros platônico encerrado no âmago da psicanálise. Depois da ascensão de Hitler ao poder, Mat- thias Göring, primo do marechal, decidido a depurar a doutrina freudiana de seu “espírito judaico”, pôs em prática o programa de “ariani- zaçãodapsicanálise”,quepreviaa exclusão dos judeus e a transformação do vocabulário. Rapi- damente, conquistou as boas graças de alguns freudianos, dispostos a se lançarem nessa aven- tura, como Felix Boehm* e Carl Müller-Braun- schweig*, aos quais se reuniram depois Harald Schultz-Hencke* e Werner Kemper*. Nenhum deles estava engajado na causa do nazismo. Membros da DPG e do BPI, um freudiano ortodoxo, o segundo adleriano e o terceiro neu- tro,simplesmentetinhamciúmedeseuscolegas judeus. Assim, o advento do nacional-socialis- mo foi para eles uma boa oportunidade de fazer carreira. Em 1930, a DPG tinha 90 membros, na maioria judeus. Já em 1933, estes tomaram o caminho do exílio. Em 1935, um terço dos membros da DPG ainda residia na Alemanha, entre os quais nove judeus. Tornando-se se- nhores desse grupo, alijado de seus melhores elementos, BoehmeMüller-Braunschweigfun- daram o seu colaboracionismo sobre a seguinte tese: para não dar aos nazistas um pretexto qualquer para proibir a psicanálise, bastava an- tecipar as suas ordens, excluindo os judeus da DPG, disfarçando essa exclusão de demissão voluntária. Deu-se a essa operação o nome de “salvamento da psicanálise”. Ernest Jones, presidenteda IPA, aceitou essa política, e em 1935, presidiu oficialmente a sessão da DPG durante a qual os nove membros judeus foram obrigados a se demitir. Um único não-judeu recusou essa política: chamava-se Bernhard Kamm e deixou a Sociedade em soli- dariedade aos excluídos. Originário de Praga, acabava de aderir à DPG. Tomando imediata- mente o caminho do exílio, instalou-se em To- peka, no Kansas, com Karl Menninger*. Como afirmou muito bem Regine Lockot em um artigo de 1995, Freud qualificou de “triste debate” todo esse caso. Mas, em uma carta a Eitingon, de 21 de março de 1933, mostrou-se mais preocupado com os “inimigos internos” da psicanálise, notadamente os adle- rianos e Wilhelm Reich. Assim, concentrou to- dos os seus ataques contra Harald Schultz- Hencke, julgado mais perigoso por suas po- sições adlerianas do que por seu engajamento pró-nazista. Esse erro de apreciação foi expres- so com toda a liberdade no relato que Boehm fez, em agosto de 1934, de uma visita a Freud: “Antes de nos separarmos, Freud expressou dois desejos relativamente à direção da Socie- dade [DPG]: primeiro, Schultz-Hencke nunca deveria ser eleito para o comitê diretor da nossa Sociedade. Eu lhe dei minha palavra no sentido de jamais participar de uma sessão com ele. Segundo: ‘Livrem-me de W. Reich.’” Em 1936, Göring realizou enfim o seu so- nho. Criou o Deutsche Institut für Psycholo- gische Forschung (Instituto Alemão de Pesqui- saPsicológica ePsicoterapia),logo chamado de Göring Institut, no qual se reuniram freudianos, junguianos e independentes. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 12 Alemanha
  26. 26. Longe de se contentar com essa forma de colaboração, Felix Boehm foi a Viena, em 1938, para convencer Freud da necessidade do “salvamento” da psicanálise na Alemanha. De- pois de escutá-lo durante um longo tempo, o mestre, furioso, levantou-se e saiu do recinto. Desaprovava a tese do pretenso “salvamento”, e desprezava a baixeza de seus partidários. To- davia, recusou-se a usar sua autoridade junto a Jones e não interveio para evitar que a IPA entrasse na engrenagem da colaboração. Era tarde demais, pensava ele. Jones aplicara a sua política a partir de uma posição, inicialmente compartilhada por Freud, que consistia em pri- vilegiar a defesa de um freudismo nu e cru (contra os “desvios” adleriano ou reichiano), em detrimento de uma recusa absoluta de qual- quer colaboração nas condições oferecidas por Boehm e Müller-Braunschweig. Ao longo de toda a guerra, cerca de 20 freudianos prosseguiram suas atividades tera- pêuticas sob a égide do Instituto Göring, con- tribuindo assim para destruir a psicanálise, da qual se tinham tornado donos. Trataram de pa- cientes comuns, provenientes de todas as clas- ses sociais e atingidos por simples neuroses* ou por doenças mentais: psicoses*, epilepsias, re- tardos — com a exceção dos judeus, excluídos de qualquer tratamento e enviados imediata- mente para campos de concentração. Boehm encarregou-se pessoalmente da “perícia” dos homossexuais e Kemper da “seleção” dos neu- róticos de guerra. Johannes Schultz* “experi- mentou” nesse quadro os princípios de seu trei- namento autógeno. Nas fileiras da extinta DPG, John Rittmeis- ter*, August Watermann*, Karl Landauer* e Sa- lomea Kempner* foram assassinados pelos na- zistas, como também vários outros terapeutas húngaros ou austríacos que não conseguiram exilar-se. Enquanto se desenrolavam os“tratamentos” do Instituto Göring, a direção do Ministério da Saúde do Reich se encarregava de aplicar aos doentes mentais “medidas de eutanásia”. Após oepisódio da substituiçãodeErnstKretschmer* por Carl Gustav Jung à frente do Allgemeine Ärtzliche Gesellschaft für Psychotherapie (AAGP), a psiquiatria alemã sofrera a mesma arianização que a psicanálise, sob a direção de Leonardo Conti (1900-1945), primeiro presi- dente dos médicos do Reich, depois de todas as organizações de saúde do partido e do Estado, das quais, aliás, dependia o Göring Institut. Em outubro de 1939, ocorreu o recenseamento dos hospícios e asilos, que foram classificados em três grupos. Alguns meses depois, em janeiro de 1940, em Berlim, na antiga prisão de Bran- denburg-Havel, os especialistas em “eutanásia” começaram a exterminar esses doentes usando um gás, o monóxido de carbono. Depois da vitória dos Aliados, o Instituto Göring e o BPI foram reduzidos a cinzas. Sem- pre presidente da IPA e gozando do apoio de John Rickman*, Jones ajudou os colaboracio- nistas a reintegrar-se à IPA. A Müller-Braun- schweig e a Boehm, confiou a reconstrução da antiga DPG, e a Kemper a missão de desenvol- ver o freudismo no Brasil*. Como em 1933, mostrou-se mais preocupado em restaurar a ortodoxia em matéria de análise didática do que em proceder à exclusão de antigos colaboracio- nistas. Assim, validou posteriormente a tese do suposto “salvamento”, oferecendo à geração* seguinte uma visão apologética do passado. Mas como a Alemanha devia ser punida pelos seus erros, foi posta em quarentena pela IPAaté 1985, data em que alguns historiadores come- çaram a publicar trabalhos críticos, mostrando as conseqüências desastrosas da política de Jo- nes e revelando o passado dos cinco principais responsáveis pela “arianização” da psicanálise. Em 1950, acreditando escapar ao opróbrio quepesava sobre aDPG,Müller-Braunschweig se separou de Boehm para criar uma nova so- ciedade, a Deutsche Psychoanalytische Verein- igung (DPV). Esta foi integrada à IPA no ano seguinte (a DPG nunca conseguiu isso), en- quanto Schultz-Hencke desenvolvia a sua pró- priadoutrina: a neopsicanálise. ADPG e aDPV continuaram a propagar a mesma idealização do passado, a fim de justificar a antiga política de colaboração. Apartir de 1947, só Alexander Mitscherlich conseguiu salvar a honra do freudismo alemão e da DPV, criando a revista Psyche, fundando em Frankfurt o Instituto Freud e obrigando as novas gerações a um imenso trabalho de reme- moração e lembrança. Desterrada de sua antiga capital, a psicanálise pôde renascer na Repúbli- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar Alemanha 13
  27. 27. caFederal,ao passoque, na AlemanhaOriental, era condenada como “ciência burguesa”. Assim, a cidade de Frankfurt esteve na van- guarda do movimento psicanalítico alemão du- rante a segunda metade do século. Voltando a dar vida à sua escola, Adorno e Horkheimer desempenharam um grande papel, com Mit- scherlich, nesse desenvolvimento, do qual emergiu uma nova reflexão clínica e política sobre a sociedade alemã do pós-nazismo, assim comotrabalhoseruditos: osdeIlseGrubrich-Si- mitis, por exemplo, a melhor especialista em manuscritos de Freud. Com doze institutos de formação, distribuídos pelas principais cidades (Hamburgo, Freiburg, Tübingen, Colônia etc.) e cerca de 800 membros, a DPV é hoje uma poderosa organização freudiana. Entretanto, desde 1970, como por toda a parte, o surgimento de múltiplas escolas de psicoterapia* contribuiu parafenderasposições da psicanálise. Além disso, asfixiada por um sistema médico que permitia às caixas de assis- tência médica reembolsarem os tratamentos, sob condiçãodeuma“perícia”préviadoscasos, ela se banalizou e tornou-se uma prática como as outras, pragmática, esclerosada, rotineira e limitada a um ideal técnico de cura rápida. Nessa data, Mitscherlich pensou que ela estava desaparecendo na Alemanha. Alguns anos depois, a obra de Lacan, im- pregnada de hegelianismo e de heideggerianis- mo, apareceu no cenário universitário alemão, essencialmente nos departamentos de filosofia. Noplanoclínico,olacanismo* nuncaconseguiu implantar-se, a não ser em pequenos grupos marginais, compostos de não-médicos e sem relação com os grandes institutos da IPA. • Sigmund Freud, “A história do movimento psicanalíti- co” (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV, 7-66; Paris, Gallimard, 1991 • Sigmund Freud e Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969 • Martin Jay, L’Imagina- tion dialectique. Histoire de l’École de Francfort, 1923- 1950 (Boston, 1973), Paris, Payot, 1977 • Hannah Decker, Sigmund Freud in Germany. Revolution and Reaction in Science, 1893-1907, N. York, New York International Universities Press, 1977 • Jacques Le Rider, “La Psychanalyse en Allemagne” in Roland Jac- card (org.), Histoire de la psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982, 107-43 • Eugen Kogon, Hermann Langbein,AdalbertRukerl,Les Chambresàgaz,secret d’État (Frankfurt, 1983), Paris, Minuit, 1984 • Les An- néesbrunes. LaPsychanalyse sousleIIIe Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc Evard, Paris, Confrontation, 1984 • On forme des psychanalystes. Rapport original sur les dix ans de l’Institut Psychana- lytique de Berlin, apresentação de Fanny Colonomos, Paris, Denoël, 1985 • Chaim S. Katz (org.), Psicanálise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus, 1985 • Geoffrey Cocks, La Psychothérapie sous le IIIe Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987 • Regine Lockot, Erinnern und Durcharbeiten, Frankfurt, Fischer, 1985; “Mésusage, disqualification et division au lieu d’expia- tion”, Topique, 57, 1995, 245-57 • Ici la vie continue de manière surprenante, seleção de textos traduzidos por Alain de Mijolla, Paris, AssociationInternationale d’His- toire de la Psychanalyse (AIHP), 1987. ➢ COMUNISMO; ESCANDINÁVIA; FREUDO-MARXIS- MO; HUNGRIA; ITÁLIA; JUDEIDADE; LAFORGUE, RE- NÉ; MAUCO, GEORGES. Alexander, Franz (1891-1964) médico e psicanalista americano De origem húngara, Franz Alexander emi- grou para Berlim em 1920, quando o regime do almirante Horthy obrigou a maioria dos psica- nalistas a deixar o país. Conhecia bem a Alema- nha*, onde se iniciara na filosofia, seguindo os ensinamentos de Husserl. Em Budapeste, es- tudou medicina e com Hanns Sachs*, vindo de Viena*, fez a sua análise didática*, tendo sido o primeiro aluno do prestigioso Instituto Psicana- lítico de Berlim (Berliner Psychoanalytisches Institut*). Tornando-se professor, formaria, co- mo didata ou supervisor, muitos representantes dahistóriadofreudismo*,entreosquaisCharles Odier*, Raymond de Saussure*, Marianne Kris*. Seria também, no início dos anos 30, o analista de Oliver Freud*, filho de Sigmund Freud*. Logo de saída, aceitou a segunda tópica*, assim como a noção de pulsão de morte* e sempre manifestou grande interesse pela crimi- nologia*. Tinha a habilidade de “encenar” os conceitos freudianos, como na sua comunica- ção de 1924, no congresso da International Psy- choanalytical Association* (IPA) de Salzburgo, na qual explicou o problema da neurose* em termos de “fronteira”. Comparou o recalque* da pulsão* proveniente do isso* a uma mercadoria proibida e barrada na fronteira de um Estado: o país do eu*. O supereu* era representado com os traços de um fiscal aduaneiro pouco inteli- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 14 Alexander, Franz
  28. 28. gente e corruptível, e o sintoma neurótico era assimilado a um contrabandista que subornava o fiscal para atravessar a fronteira. Essa evocação não deixava de ter uma rela- ção com o destino do próprio Alexander, ho- mem dinâmico, adepto das mudanças e das tra- vessias de territórios. Viajante incansável, logo pensou em emigrar para os Estados Unidos*. Depois de uma primeira permanência e de uma passagem por Boston, instalou-se definitiva- mente em Chicago, entre 1931 e 1932, enquan- to Freud, com quem manteve uma correspon- dência (ainda não publicada), procurava retê-lo na Europa, mesmo desconfiando dele: “Gosta- ria de ter uma confiança inabalável em Alexan- der, escreveu a Max Eitingon* em julho de 1932, mas não consigo. Sua simplicidade real ou si- mulada o afasta de mim, ou então não superei minha desconfiança em relação à América.” Em Chicago, Alexander criou um instituto de psicanálise (Chicago Institute for Psychoa- nalysis), tão dinâmico quanto o de Berlim, e animou-o até o fim de seus dias. Apsicanálise*, pela qual nutria verdadeira paixão, foi a princi- pal atividade de sua vida. Curioso a respeito de tudo, filosofia, física, teatro e literatura, foi assim o iniciador de uma das principais cor- rentes do freudismo americano, conhecida sob o nome de Escola de Chicago. Essa corrente, onde se encontrava a inspira- ção ferencziana da técnica ativa, visava trans- formar o tratamento clássico em uma terapêu- tica da personalidade global. Dedicando-se ao problemadaúlceragastro-duodenal,Alexander ficara impressionado com o seu freqüente apa- recimento nas pessoas ativas. Apartir daí, mos- trou que na origem da doença encontra-se uma necessidade de ternura nascida na infância, que se opõe ao eu e se traduz pela emergência de uma intensa agressividade. Em suma, quanto mais a atividade é importante, mais o sentimen- to infantil inconsciente se desenvolve. Este se traduz por uma demanda de alimento, que acar- reta uma secreção gástrica excessiva, seguida de úlcera. Diante desses sintomas, Alexander preconizou a associação de duas terapêuticas: uma ligava-se à exploração do inconsciente e privilegiava a palavra; outra, orgânica, tratava da úlcera. Essa posição o levou a inventar uma medicina psicossomática* de inspiração freu- diana e a questionar a duração canônica dos tratamentos e das sessões, o que lhe valeu conflitos com a American Psychoanalytic As- sociation (APsaA). Em 1956, participou, com Roy Grinker, da criação da American Academy of Psychoanalysis (AAP), mais aberta do que a APsaA a todas as novidades terapêuticas. Em 1950, no primeiro congresso da As- sociação Mundial de Psiquiatria, organizado por Henri Ey* em Paris, declarou: “A psicaná- lise pertence a um passado em que ela teve que lutar contra os preconceitos de um mundo pou- co preparado para recebê-la [...]. Hoje, pode- mos permitir-nos divergir entre nós, porque a pesquisa e o progresso só são possíveis em um clima de liberdade.” • Franz Alexander, The Scope of Psychoanalysis. Se- lectedPapers, 1921-1961, N. York, Basic Books,1961; Medicinapsicossomática(Paris,1967),P.Alegre,Artes Médicas, 1989 • Franz Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn (orgs.), A história da psicanálise através de seus pioneiros (N. York, 1956), Rio de Janeiro, Imago, 1981 • Léon J. Saul, “Franz Alexander, 1891-1964”, Psychoanalytic Quarterly, vol.XXXIII, 1964, 420-3. ➢ BETTELHEIM, BRUNO; CRIMINOLOGIA; KOHUT, HEINZ; LANGER, MARIE; MITSCHERLICH, ALEXAN- DER; PSICOSSOMÁTICA, MEDICINA; TÉCNICA PSICA- NALÍTICA. alfa, função ➢ BION, WILFRED RUPRECHT. Allendy, René (1889-1942) médico e psicanalista francês A obra escrita desse médico, que foi em 1926 um dos doze fundadores da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), é tão considerável quanto a sua personalidade é estranha e até esquecida. Assinou cerca de 200 artigos e 20 obrassobre temastão diversosquanto ainfluên- cia astral, os querubins e as esfinges, a teoria dos quatro temperamentos, a grande obra dos alquimistas, as modalidades atmosféricas, a tá- bua de esmeralda de Hermes Trismegisto, o tratamento da tuberculose pulmonar, a lycosa tarentula, o sonho* etc. Defendeu sua tese de medicina em novem- bro de 1912, oito dias antes de se casar com Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar Allendy, René 15
  29. 29. Yvonne Nel Dumouchel, de quem o poeta An- tonin Artaud faria, em sua correspondência, uma de suas “cinco mães adotivas”. Atingido porgasesde combate durante a Primeira Guerra Mundial, reconhecido depois como tuberculo- so, Allendy decidiu curar-se por conta própria. Em 1920, tornou-se membro titular da Socie- dade Francesa de Homeopatia e, três anos de- pois, ficou conhecendo René Laforgue*, com quemfezsuaanálisedidática*. Esteointroduziu no serviço do professor Henri Claude* no Hos- pital Sainte-Anne. Allendy praticamente não formou analistas no seio da SPP, mas seu consultório e seu pala- cete do XVI arrondissement de Paris foram freqüentados por escritores e artistas, em es- pecial René Crevel (1900-1935) e Anaïs Nin (1903-1977), de quem foi amante. Esta contou em seu Diário apenas alguns fragmentos desse incrível tratamento psicanalítico que durou um ano, em 1932-1933, em condições particular- mente transgressoras. E só em 1995 a verdade foi conhecida, graças a Deirdre Bair, sua bió- grafa,quereconstituiudetalhadamenteoquefoi essa relação. SeAllendyfoi seduzidoporessamulher,que exibia os seios durante as sessões, beijou-a le- vemente nas faces quando ela decidiu inter- romper o tratamento, provocando o seu furor. Assim, ela retornou e a análise se transformou então em sessões de masturbação comparti- lhada, antes que, em um hotel, Allendy se en- tregasse com ela a práticas sadomasoquistas. Foi depois dessa “análise” que Anaïs Nin deitou-se com o pai, Joaquin Nin, que excla- mou, no momento do ato sexual: “Tragam aqui Freud e todos os psicanalistas. O que diriam disto?” Quando ela contou a cena a Allendy, este ficou horrorizado e lhe relatou todo tipo de histórias de incesto* que terminaram em tragé- dia. Concluiu a sessão dizendo à sua “paciente” que ela era “um ser contra a natureza”. Ela respondeu orgulhosamente que o sentimento que tinha pelo pai era um amor “natural”. De- pois dessafarsa sinistra, Anaïs Nin foi consultar Otto Rank*. No fim da vida, Allendy contou sua própria agonia, de modo comovedor, no Diário de um médico doente, obra póstuma. • René Allendy, Journal d’un médecin malade, ou six mois de lutte contre la mort, Paris, Denoël e Steele, 1944 • Élisabeth Roudinesco, História da psicanálise na França, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989 • Deirdre Bair, Anaïs Nin. Biographie (N. York, 1995), Paris, Stock, 1996. ➢ FRANÇA. Ambulatorium ➢ HITSCHMANN, EDUARD. América ➢ AMERICAN PSYCHOANALYTIC ASSOCIATION; ANNAFREUDISMO; ARGENTINA; ASSOCIAÇÃO BRA- SILEIRADE PSICANÁLISE; ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE; BRASIL; CANADÁ; EGO PSY- CHOLOGY; ESTADOS UNIDOS; FEDERAÇÃO PSICA- NALÍTICA DA AMÉRICA LATINA; FREUDISMO; HIS- TÓRIA DA PSICANÁLISE; HISTORIOGRAFIA; IGREJA; KLEINISMO; LACANISMO; SELF PSYCHOLOGY. American Psychoanalytic Association (APsaA) (Associação Psicanalítica Americana) FundadaporErnest Jones* em 1911, a Ame- rican Psychoanalytic Association (APsaA) é a única associação regional (regional as- sociation) da International Psychoanalytical Association* (IPA). Reúne sociedades psicana- líticas ditas “filiadas” (affiliate societies), das quais dependem os institutos de formação (trai- ning institutes). Essas sociedades são reco- nhecidas pela IPA através de sua filiação à APsaA. Somam um total de quarenta, havendo entre elas cinco grupos de estudos (study groups). A elas se juntam 19 institutos dis- tribuídos pelas principais cidades dos Estados Unidos* e quatro sociedades norte-americanas provisórias, que não fazem parte da APsaAmas estão diretamente ligadas à IPA: o Institute for Psychoanalytic Training and Research, o Los Angeles Institute and Society for Psychoanaly- tic Studies, The New York Freudian Society e o Psychoanalytic Center of California. Decorridossetentaanosdesde sua fundação, a APsaA continua a ser a maior potência freu- diana da IPA, com cerca de 3.500 psicanalistas para 263 milhões de habitantes, isto é, pouco Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar 16 Ambulatorium
  30. 30. mais de um terço do efetivo global da IPA, ou uma densidade de 13 psicanalistas por milhão de habitantes. Aeles se somam os psicanalistas norte-americanos de todas as tendências que não fazem parte da IPA, e que são aproximada- mente oito a nove mil. Além da APsaA, existem outras duas gran- des organizações que não têm o estatuto de associações regionais: a Federação Européia de Psicanálise* (FEP), que vem progredindo gra- ças à reconstrução da psicanálise, depois de 1989, nos antigos países comunistas, e a Fede- ração Psicanalítica da América Latina (FE- PAL), ainda em expansão, cada qual composta por cerca de três mil membros. • Roster. The International Psychoanalytical As- sociation Trust, 1996-1997. ➢ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICANÁLISE; AS- SOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE; AUS- TRÁLIA; CANADÁ; FREUDISMO; HISTÓRIA DA PSICA- NÁLISE; ÍNDIA; JAPÃO; KLEINISMO. amor de transferência ➢ TRANSFERÊNCIA. anaclítica, depressão al. Anlehnungsdepression; esp. depressión anaclí- tica; fr. dépression anaclitique; ing. anaclitic de- pression Termo criado por René Spitz* em 1945, para desig- nar uma síndrome depressiva que afeta a criança privada da mãe depois de ter tido uma relação normal com ela durante os primeiros meses de vida. A depressão anaclítica distingue-se do hos- pitalismo*, outro termo cunhado por Spitz para designar, dessa vez, a separação duradoura en- tre a mãe e o filho, gerada por uma estada prolongada deste último no meio hospitalar, e que acarreta distúrbios profundos, às vezes ir- reversíveis ou de natureza psicótica. A depres- são anaclítica pode desaparecer quando a crian- ça se reencontra com a mãe. Na literatura psicanalítica inglesa e norte- americana, o adjetivo “anaclítico” é equiva- lente ao apoio*. ➢ APOIO. análise didática al. Lehranalyse ou didaktische Analyse; esp. aná- lisis didáctico; fr. analyse didactique; ing. training analysis Termo empregado a partir de 1922 e adotado, em 1925, pela International Psychoanalytical Associa- tion* (IPA), para designar a psicanálise* de quem se destina à profissão de psicanalista. Trata-se de uma formação obrigatória. Foi Carl Gustav Jung* quem primeiro teve a idéia, trabalhando com Eugen Bleuler* na Clínica do Burghölzli, de “tratar os alunos co- mo pacientes”,e foi tambémele,como sublinha Sigmund Freud* num artigo de 1912, quem “ressaltou a necessidade de que todapessoaque quisesse praticar a análise se submetesse antes a essa experiência, ela mesma, com um analista qualificado”. No começo do século, Freud adquiriu o hábito de tratar através da psicanálise alguns de seus discípulos que apresentavam distúrbios psíquicos, como Wilhelm Stekel*, por exem- plo. Jung fez o mesmo na clínica de Zurique, onde alguns internos que tinham ido tratar-se adotaram posteriormente o método de trata- mento que os havia “curado”, preocupados em ajudar seus semelhantes. Por outro lado, vários dos grandes pioneiros da psicanálise, de Poul Bjerre* a Victor Tausk*, passando porHermine vonHug-Hellmuth*eatéMélanieKlein*,eram afetados pelos mesmos males psíquicos que seus pacientes e, tal como Freud com sua auto- análise*, experimentaram os princípios da in- vestigação do inconsciente*. Nesse sentido, Henri F. Ellenberger* teve razão em observar que a análise didática derivou, simultaneamen- te, da “doença iniciática” que confere ao xamã seu poder de cura e da “neurose criadora”, tal como a vivenciaram e descreveram os grandes pioneiros da descoberta do inconsciente. O princípio da análise didática enraizou-se espontaneamente no cerne da Sociedade Psico- lógica das Quartas-Feiras*, e depois foi sendo elaborado conformeasreflexõesdomovimento sobre a contratransferência*. Não havendo ne- nhumaregraestabelecida, Freud eseusdiscípu- los não hesitavam em aceitar em análise as pessoas íntimas (amigos, amantes, concubinas) ou os membros de uma mesma família (mu- lheres, filhos, sobrinhos) e em misturar estrei- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar análise didática 17