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ÍNDICE

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Como a trilogia foi escrita . .....
Mais do que conseguir
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autor e que mais importante do que a correção e exatidão do texto
estava a edição do livro sob qualquer circunstância.  E ...
E Mário Garnero,  o terceiro da lista dos grandes impunes e dignos
representantes do que se conhece como símbolo da corrup...
Mathias Machiline,  da Sharp,  um dos últimos pretendentes à compra da
NEC,  desiste da compra e fica-se sabendo,  então, ...
Marinho foram adorados e endeusados em um breve momento de suas
vidas,  chegando mesmo a ter biografias maravilhosas encom...
Roméro, 
News from Brazil,  here,  is terrible. 
I am so sad for your country,  but l Know, 
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Como a Trilogia foi escrita

Escrever um livro técnico sempre foi um sonho,  não só meu,  mas de
vários colegas de trabalh...
diretor,  um gerente,  um sênior. .. cada quai tem seu nível de acesso e
informação.  E isso varia,  diametralmente,  da á...
documento era seguido da observação:  É para o "inside Globo".  (Na
realidade,  ninguém em sã consciência pretendia escrev...
consciência disso.  A ponto de me apaixonar pela idéia. )

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Não era difícil imaginar a Globo segurando todos os meios de
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tinha e não tenho tanto tempo assim para esperar.  Afinal,  só me resta
mais uma vida. ..
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o "Atrás do Espelho",  como se já estivesse com o dinheiro no bolso,  e
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criava a expectativa,  mas tudo não passava de u...
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Nem tão estúpido para ser ateu, 
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Reflexos de um baile de Afundação

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eventualmente cumprindo a tarefa de office boy de Roberto Marinho, 
como no caso NEC -Garnero- Machiline,  baixou dois dec...
arquivamento escandaloso da CPI da Corrupção que envolvia direta-
mente Sarney e Saulo Ramos;  um mandato de cinco anos e ...
Pág.  46 - "Afundação l" - Boni alega que não iria interessar-se
pela criação de um "Museu da Televisão" porque isso inter...
Justiça como uma extensão de seus departamentos,  e jamais imaginou
que tudo isso poderia,  um dia,  ser compilado em livr...
Paulo Branco

A demissão de Guilherme Falcão de uma das empresas do Sistema
Globo motivou o rompimento de relações entre o...
Não cometeu nenhuma falta,  nenhum deslize.  Tem a ficha virgem de
qualquer nota desabonadora.  Então,  por que foi alvo d...
Honoris causa

Faminto de fama e de honrarias encomendadas,  virou caçador
insaciável de títulos honoríficos,  tipo 'douto...
delírios do poderio exagerado,  do qual passou a fazer tão mau uso,  e
lhe devolva o antigo bom senso,  como sinal de reco...
imagem da vitória.  Mas,  bastou um único livro,  'autobiográfico' (? ), para
o mito abrir mão da grandeza e mostrar-se co...
CPl).  .João Calmon é acusado,  no livro,  de haver montado a CPI do
escândalo Globo-Time-Life por puro ressentimento,  ve...
afirma,  categórico,  que qualquer um pode subornar o Ibope.  E que ele
mesmo,  Imperial,  havia subornado o Ibope várias ...
inventada para atingir Mário Gomes quando esteve de caso com a Beth
Faria,  gerando uma dor de cotovelo imperdoável em Dan...
os amigos do Priolli - leia-se:  cúpula da Globo - encabeçada por
Magaldi - segundo o próprio Simonal - jogaram no mundo q...
Deus odeia os pobres.
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Cronologia da corrupção

Em O4 de agosto de 1988 aTribuna da Imprensa,  de Hélio Fernandes, 
finalmente pôde romper o long...
não se faz inventário de escândalos.  I/ las,  em relação ao escândalo do
"Afundação l" a situação modificou-se um pouco, ...
detidamente,  o livro “Afundação l",  capitulando cada crime cometido, 
pelas denúncias contidas,  chegou a uma pena previ...
escola onde meus filhos estudavam,  ameaçando de seqüestro,  e outros
terrorismos.  Ligações para pais de amigos de meus f...
omissão.  Mas,  no entanto a polícia não faz outra coisa a não ser omitir-se. 

Indo quase diariamente à Polícia Federal, ...
A verdade?  Fica por conta de cada um.  Mas que sobrou para mim. ..
isso sobrou. .. E foi no meu lombo,  cidadão,  que iss...
18/08/88 - "Polícia Federal já deveria ter

apurado os crimes da Globo. "

Com a Polícia Federal em pânico com as denúncia...
Paulo Sérgio S.  Barros,  chefe de Redação da Tribuna da Imprensa, 
envergonhado e irritado deu a ordem:  É verdade?  É no...
Até que o curador de fundações,  procurado pelos repórteres,  resolve
criar uma nuvem de desconfiança,  dizendo que não sa...
de de assinaturas suficientes para a formação da CPI da Fundação. 
Mas,  ainda estava longe de imaginar que Roberto Marinh...
um helicóptero o dia inteiro sobrevoando a minha casa e dois ultraleves
passando por cima da minha cabeça era o cúmulo do ...
bandidos de rua (só os de rua),  desses que matam,  intimidam,  dão
recado.  Dos escroques que celebram pacto com os de su...
percebesse o que estava acontecendo. 

Após o churrasco,  delicioso, por sinal,  levantei-me:  peguei um filho
meu em cada...
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Afundação ii uma biografia de corrupção

  1. 1. I. | l E a “n . e - i' t* .7 IQ '5 J, E u Õ 'E n › Í É) 1 ' r E c: a l _E u UI ' u u _ a E s " u n "a _ »ea v» l: Q m IL Q t? JAH n 'E a¡ r : B W F , i ' __ _ y n¡ " r 1 : - u u a iE IU '° au R, “ z l- ” É¡ "É ! E 'É _g l¡ JJJL LM c ; oe; rzfñãÍ”iÍ affnéro da. Costa | /ÍElCÍI2l¡5s°üÀ g p -r r --'. " r , _.3¡›~_-" 3:; . u, _ . _ r u** 7 lx 5 li' Tei- Í. w| a v¡ J I! U H 1.5 u t! É ! a n* ' nã. I_- n" 1 _p 'u 4¡ _ c CÍFLJQQÍFÇÍQTÊ
  2. 2. V. aoorrupjzlc *Jméroaíat C03'tal/ lací121r a 75624 A 77km 64m Ámdçaa
  3. 3. Edição e distribuição: Meus Caros Amigos Editora 'e Distribuidor Estrada dos Três Rios 117 sala 102 Freguesia - Jacarepaguá - Rio de Janeiro 22750 Roméroda Costa Machado Todos os direitos desta edição estão reservados a Meus Caros Amigos Editora e Distribuidora Ltda e Romero da Costa Machado Impresso em maio de 1992
  4. 4. ÍNDICE Esclarecimentos necessários . ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . Pág. O7 Como a trilogia foi escrita . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . .Pág. 15 A participação da Tchê . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . Pág. 23 Reflexos de um baile de Afundação . ... ... ... ... ... ... . . . Pág. 31 Cronologia da corrupção . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. Pág. 47 As CPIs da NEC e da Afundação . ... ... ... ... ... ... ... .. . . Pág. 69 A Globo e a imprensa . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . Pág. 77 Imprensa marrom . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. Pág. 97 Central Globo de . Justiça . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . Pág. 117 Processo Self-Service . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. Pag. 131 Meus Caros Amigos . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. Pág. 145 Dedicado a você . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . Pág. 151
  5. 5. Mais do que conseguir é a esperança do possível
  6. 6. Esclarecimentos Necessários A Trilogia Global é composta dos seguintes livros: Afundação Roberto Marinho, Inside Globo e Atrás do Espelho. Entretanto, por uma questão absolutamente mercadológica, optou-se por subdividir cada um dos livros da Trilogia em partes (l, Il, etc) para que os livros não ficassem caros, grossos, ou intimidassem o leitor pela aparência ou custo. O primeiro dos livros, Afundação Roberto Marinho ou "Afundação I" originalmente lançado pela Editora Tchê, está sendo lançado, nova- mente, para atender a uma grande procura por parte do público leitor, frustrado por não mais encontrar o livro nas livrarias. Entretanto, esse relançamento dar-se-á pela Meus Caros Amigos Editora e Distribuidora e não mais pela Editora Tchê, lançadora inicial do livro, por descumprimento contratual da editora gaúcha, Tch. ê, para com o autor, a ponto de perder, por opção, os direitos de publicação, que detinha. (Em capítulo próprio, nesse livro, Afundação = II - 'Uma biografia de corrupção - o assunto é enfocado em detalhes. ) De certa maneira é até interessante este relançamento, uma vez que só assim o livro Afundação Roberto Marinho poderá' chegar ao público exatamente como foi escrito e planejado, sem trocas de texto, expressões ou ordem em que foi concebido, uma vez que a Tchê mesmo envidando seus melhores esforços para a edição, guardando todo o sigilo e cuidado que demandaram a edição do livro, não submeteu o texto a uma revisão pelo autor, gerando verdadeira co-autoria e parceria com terceiros, além de erros colossais e grosseiros. , Vale ressaltar, não cabe à Tchê maiores responsabilidades em relação aos erros de edição, uma vez que foi dado carta branca pelo 7
  7. 7. autor e que mais importante do que a correção e exatidão do texto estava a edição do livro sob qualquer circunstância. E que viagens do autor, do Rio de_ Janeiro a Porto Alegre, poderiam despertar a curiosi- dade da Rede Globo sobre o assunto, quebrando o desejado impacto ocasionado pelo lançamento, nacional, do livro e das denúncias. (O êxito do lançamento era, no caso, mais importante do que o sucesso como obra literária e que jamais foi este o objetivo do livro. ) O objetivo "lançamento" foi alcançado, plenamente, ainda que o ônus por erros de edição tenha sido elevado e desgastante. A primeira edição, com uma tiragem de 12 mil livros, foi incrivelmente pequena para a grande procura. Em uma senama estavam esgotadas quatro edições. O que no Brasil representa um “best seller" de primeira grandeza. Tanto que não havia tempo, sequer, para alterações de conteúdo, revisão ou o que fosse. Usava-se o mesmo miolo do livro, a mesma capa, e inseria-se na capa, somente, o número da edição. O livro Afundação Roberto Marinho logo alcançou a sétima edição, época em que aTchê passou a sofrerterríveis pressões, até a capitulação final. E a velocidade com que os fatos se sucediam acabou impedindo não só a revisão de texto como promoveu uma grande injustiça perenizada em todas as edições. Ou seja, ao final do livro (pag. 181) há uma citação envolvendo três personagens: Ronald Levinghson, Mário Garnero e Delfim Netto, como sendo "farinha do mesmo saco", ainda que os três fossem figuras heterogêneas. Ronald Levinghson, amigo e ex-sócio do Boni, citado como um grande "colarinho branco", capitaneou o famoso escândalo da Delfin, com direito a ser um dos principais personagens da que se convencionou chamar de indústria da falência, onde o passivo fica congelado, ou não atualizado a valores reais, enquanto o ativo vai valorizando ao longo do tempo, até que isso represente um fabuloso saldo em favor do falido, enriquecendo-o, irremediavelmente, à custa de pequenos "sócios", depositantes, poupadores, ou o que seja. Delfim Netto mereceu a citação pela presença em diversos escândalos, principalmente o referente ao "Relatório Saraiva, " conforme citado pelo coronel Dickson Grael em seu livro sobre os maiores escândalos brasileiros envolvendo destacadas figuras como o axa-ministro e ex- embaixador Delfim Netto, que pela desfaçatez e impunidade com que fazia "negócios" chegou a ostentar o título de senhor dez por cento (em francês, obviamente) pelas comissões que recebia em negócios de Estado.
  8. 8. E Mário Garnero, o terceiro da lista dos grandes impunes e dignos representantes do que se conhece como símbolo da corrupção que se institucionalizou no País ao longo dos vinte e poucos anos de ditadura militar. Era o que se podia considerar como uma unanimidade nacional, tal a freqüência com que os meios de comunicação enfocavam-no como o maior colarinho branco do Pais. Entretanto, após a publicação do “Afundação l", logo nas primeiras edições, Mário Garnero procurou o autor do livro, até de maneira bastante gentil e elegante, e instigou o autor a pesquisar, com detalhes, "como", "por que" e "quem" havia transformado o empresário Mário Garnero em grande vilão. E, principalmente, com que finalidade. Não foi difícil chegar aos mais altos escalões do governo, aos homens públicos manipulâveis e à sempre Rede Globo interessada em fabricar suas próprias verdades, e mais ainda quando isso resulta em benefício próprio. Muito diferente das outras duas figuras, Mário Garnero era tão- somente mais uma das tantas e tantas campanhas empreendidas pela Rede Globo contra quem se lhe põe à frente. Não houve tempo hábil para fazer essa retificação no "Afundação l", pois mesmo antes de o autor pretender o esclarecimento, a editora gaúcha Tchê capitulava ante as poderosas pressões da Globo. Razão de só agora, no "Afundação Il", estar sendo feita a devida retificação. Nesse meio tempo Mário Garnero, de maneira bastante cabal, editou o livro "Jogo Duro" (Editora Best Seller), que poderia chamar-se, perfeitamente, “Jogo Sujo", espelhando, com muito mais propriedade, tudo que pudesse ser dito, por terceiros, em sua defesa. "Jogo Duro" tece a trama de um dos maiores golpes empresariais de todos os tempos. Ou seja, Roberto Marinho ataca Garnero pela Rede Globo, criando, para Garnero, a imagem de "colarinho branco". Antônio Carlos Magalhães, então ministro das Comunicações e eterno parceiro de Roberto Marinho, usa como pretexto as "notícias" da Rede Globo para não pagar as contas que o governo devia para a NEC de Garnero, inviabilizando-a, estrangulando-a de tal forma que Garnero acaba sem opção: tem que vendê-Ia para não perder tudo. Mas, até na venda as dificuldades continuam, pois, como que por encanto, toda vez que o cheque de transação ia ser assinado, misteriosamente, às vésperas da concretização do negócio, o comprador desistia. Até que 9
  9. 9. Mathias Machiline, da Sharp, um dos últimos pretendentes à compra da NEC, desiste da compra e fica-se sabendo, então, sobre como as coincidências aconteciam. Era José Sarney, então presidente da Re- pública, e que era, ao mesmo tempo, amigo de Machiline e de Roberto Marinho. Numa trama de envergonhar Al Capone, estavam juntos: o presidente da República , o . ministro das Comunicações, o ministro da Fazenda, secretários de Estado e altas figuras dos mais elevados escalações. E terminaram por rapinar Garnero de tal forma que ele acabou num beco sem saída a ponto de ter que passar a NEC para Roberto Marinho sem que ele desembolsasse um tostão na compra. Como que por encanto, cada qual passa a ter sua forma de compensação pela participação no "decente" jogo empresarial en- gendrado por Roberto Marinho. Sarney) recebeutotal apoio para um mandato de cinco anos e uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Antônio Carlos Magalhães recebeu a exclusividade da transmissão da Rede Globo para a Bahia (a Rede Globo cancelou a transmissão que fazia há 18 anos pela TV Aratu e passou a transmissão de sua programação por . uma televisão controlada por Antônio Carlos Maga- lhães). Todos enriqueceram e foram felizes para sempre. Talvez receoso do fu_turo e como uma forma de amenizar sua participação no episódio, Mathias Machiline ainda encontrou forças para advertir Sarney e fazer uma das maiores profecias de sua vida: “Vocês *vão ter o cadáver de Mário Garnero brigando com vocês o resto da vida". V v Ainda que Mário Garnero tenha escrito tudo isso no seu livro "Jogo Duro", não seriacorreto que, uma vez citado injustamente no "Afundação I" como um grande "colarinho branco", ele permanecesse debaixo dessa acusação, sem uma cabal' retificação, no mesmo livro onde uma vez ele fez o papel de vilão. Razão pela qual a retificação e o esclarecimento que ora são feitos são mais do que oportunos e fundamentais: são justos. - Se é certo que a história é a crônica dos vencedores, também é certo que a história está em permanente processo de revisão, graças. a livros, documentos e provas-que acabam surgindo mesmo após a perseguição imposta pelos vencedores. E a cada dia surgem novos e novos livros alterando a aura beatificada imposta pelos vencedores às suas próprias biografias. E se Hitler, Mussolini, Stálin, John Kennedy ou Roberto 10
  10. 10. Marinho foram adorados e endeusados em um breve momento de suas vidas, chegando mesmo a ter biografias maravilhosas encomendadas a aduladores do poder, logo surgiram livros, fatos e documentos mostrando a verdadeira face de cada um. E não foi com outro propósito que a Trilogia Global foi concebida e escrita. Contra todas as comendas, encomendas e medalhas oficiais do Sr. Roberto Marinho subsistirá, sempre, a história não oficial. E como cadáveres lnsepultos às vilanias estarão: Afundação Roberto Marinho, inside Globo, Atrás do Espelho, A história secreta da Rede Globo, Jogo Duro, e as CPls dos escândalos: Time-Life, Fundação Roberto Marinho, NEC, e a CPl da Corrupção, conferindo-lhe a merecida biografia.
  11. 11. Roméro, News from Brazil, here, is terrible. I am so sad for your country, but l Know, in your own way you are doing things to make it better. l think your book is an important contribution. l truly believe that books and writing - even one that is banned like yours or the Gulag Archipelago, do eventually influence the course of history. MB - (Uma cara amiga) 13
  12. 12. m);
  13. 13. Como a Trilogia foi escrita Escrever um livro técnico sempre foi um sonho, não só meu, mas de vários colegas de trabalho, auditores, uma vez que o que existe de bibliografia a respeito de auditoria é muito superficial, inconsistente e distante da realidade do dia-a-dia do auditor. Quem viveu o dia-a-dia de viagens, hotéis, aeroportos e cada dia num lugar ou numa empresa sabe que existem diferenças brutais entre o que está escrito e o que acontece, na realidade. E o convívio de quase cumplicidade entre os parceiros _de viagem ensejava, com muita freqüência, a troca de experiência e todo tipo de história envolvendo auditoria. Desde casos hiiariantes de comportamento em hotel, que são infindáveis, até casos de teor rigorosamente técnico-profissional. Um dia alguém ainda irá escrever um livro de histórias de viagens de auditores, tanto quanto serão escritos livros sobre casos reais de* golpes, trapaças, falcatruas encontrados pela auditoria. Pois não há auditor «que não tenha história de viagem para contar (auditor em viagem é igual colegial em férias), assim como não há auditor que não tenha se documentado, particularmente, de caso considerado grave ou que transcenda os limites da contabilidade e da área fiscal, caindo, simplesmente, na área criminal. É mais do que normal o auditor ter cópia de documento falso, adulterado ou de casos graves que se tranformaram em casos policiais ou que, por conveniência da empresa, o caso acabou abafado. Mas que qualquer auditor tem seu arquivo particular, quanto a isso não resta a menor dúvida. (Logicamente, dependendo do nível de informação do auditor e da sua categoria hierárquica. Um "principal" tem um tipo de informação e acesso. Um "sócio" tem outro tipo de informação. Um 15
  14. 14. diretor, um gerente, um sênior. .. cada quai tem seu nível de acesso e informação. E isso varia, diametralmente, da água para o vinho, em função da auditoria ser interna ou externa. ) internamente, especificamente em relação à Rede Glogo, cada auditor dispunha de suas "fontes" de informação, seus arquivos e seus acessos. (Logicamente em função do nível de cada um). E não era incomum que cada auditor tivesse, como em qualquer empresa do mundo, suas cópias de casos considerados escabrosos. Até porque, na Globo, o roubo é quase institucionaiizado, em quase todos os níveis. De certa maneira isso gerava ate uma certa disputa nos niveis mais elevados. Algo como: fulano tem tal documento. Cicrano tem cópia dos bilhetes falsos de tal evento. Não sei quem tem cópias das guias falsas, etc. E, na intimidade do . relacionamento não era difícil a troca de informações e Confidências. Foi exatamente numa dessas trocas de Confidências que surgiu, pela primeira vez, o comentário a respeito de um livro, e que logo se desdobrou em vários livros: um contando histórias de viagens, trotes, e uma espécie de quem comeu, quem, onde e como; outro, sério, a respeito de casos concretos - de rigor absolutamente técnico - sem a divulgação de documentos e de nomes de empresas e envolvidos diretamente nos casos; até que alguém sugeriu 'um terceiro livro que seria, de -brindadeira, a mistura de tudo isso. Uma espécie de raio X de uma empresa. Uma visão interna das vísceras empresariais. (Que até então não era a Globo. ) O assunto, sobre um livro que revelasse as vísceras de uma empresa, passou a ser, num primeiro momento, objeto de posicionamentos dos mais variados tipos. Até em razão da experiência de cada um. Mas, logo a seguir passou a ser debatido, sob hipótese, como seria tal livro se ele fosse escrito arespeito da Rede Globo. (Que é um manancial considerável. ) O assunto foi evoluindo de tal forma que a ideia do livro já parecia real. Até havia sido batizado por mim de. “lnside Globo". Mas, com o passar do tempo e com os debates sobre como a Rede Globo reagiria, . ficou claro, patente, que o livro não teria qualquer chance de sucesso, pois a Globo abafaria de tal forma o caso que o livro morreria no nascedouro. Morreu o "Inside Globo" antes mesmo de haver nascido, mas ficou o "código". Ou seja, toda vez que alguém guardava ou copiava um 16
  15. 15. documento era seguido da observação: É para o "inside Globo". (Na realidade, ninguém em sã consciência pretendia escrever livro algum sobre a Rede Globo. Era uma fantasia que habitava o dia-a-dia de cada um e era alimentada, até, pela certeza absoluta de que jamais seria concretizada. ) O "inside Globo", que até então não passava de uma fantasia, e que tinha tudo para jamais ser realizado, ficou arquivado até que uma situação estúpida, desnecessária, rigorosamente de confronto, fez com que tranformasse a fantasia em realidade. Se as situações acontecidas na Fundação Roberto Marinho surgi- ram por uma medição de força, um confronto (basicamente pelo confronto que Jair Lento propunha a mim), pode-se dizer que todas as questões seguintes surgiram por sucessivos confrontos sugeridos e aos quais eu topei todos, independentemente de querer saber o tamanho da briga ou a disposição do adversário. Conforme relatado no "Afundação I", pags. 158 e 159, o resultado do confronto com o Jair Lento tinha sido a demissão de toda a diretoria da Fundação (Jair Lento, José Carlos Barbosa, Mário de Almeida, Nelson Mello e Souza, Jorge Matsumi, e mais tarde até o Magaldi). -E isso, se fosse só uma situação de confronto, deveria bastar-me. Afinal, todos haviam sido demitidos. Mas acontece que o confronto é uma situação tão terrivel, que a cada ação provocava uma reação. E assim sucessi- vamente. Ao mesmo tempo em que eu ia cada vez aprofundando mais e mais os exames e auditorias. Até descobrir que estava nas mãos com algo tão fabuloso que mexia com a própria estrutura do País. As coisas haviam chegado a um nivel tal que eu já não queria mais a cabeça de um simples diretor. Queria o que eu sabia impossível. Queria a raiz do problema e a origem de tudo. Queria o afastamento do Calazans da Fundação e o afastamento do Boni (ou pelo menos um esvaziamento de suas funções) na Rede Globo. A situação era: ou calça de veludo ou tudo de fora. Ou higienizava-se a Globo, de uma vez, ou eu puiaria fora. (isso representava, mais ou menos, fazer a Globo parar de manipular homens públicos; parar de garimpar verbas públicas; deixar de ser um centro referencial de tóxico, contrabando e de remessas ilegais para o exterior. Qu seja, eu estava exigindo, só e tão- somente, tudo. ) Propus tudo isso verbalmente e depois por escrito. E a reação era sempre a mesma: você está louco. (Claro. Eu era um louco e tinha plena 17
  16. 16. consciência disso. A ponto de me apaixonar pela idéia. ) Num misto de ironia e provocação, apresentei, formalmente, a proposta a todos que poderiam, de verdade, tomar a decisão de afastar Calazans e Boni, dando até à Rio Gráfica (Editora Globo) o direito de publicação sobre os livros cuja sinopses foram apresentadas. (Obvia- mente era uma maneira higiênica, asséptica, de tratar o caso, mostrando que a Rede Globo, de modo muito próprio e particular, havia tomado todas as providências apontadas pela auditoria e que não iria tornar-se conivente em razão de basicamente duas pessoas. Ou seja, se havia tido coragem para afastar funcionários subalternos, gerentes, diretores, superintendentes; por que não Calazans e Boni? ) O emissário de paz escolhido pela Globo para me acalmar foi João Carlos Magaldi (que , até então não havia sido afastado da Fundação, mas sabia que estava prestes de um afastamento, pois, de fato, já havia gente exercendo, na prática, as suas funções, que só continuavam no papel), pois de minha parte eu já havia dado o caso por encerrado e a publicação do que eu chamei de Trilogia Global era uma realidade inexorável. Por mim o relacionamento com a Globo havia terminado. Lá eu não voltaria mais, enquanto o Boni fosse o elo da Globo com o submundo. Magaldi enviou um recado escrito pelo motorista solicitando um encontro para conversarmos. E é marcado, por ele, um encontro num "campo neutro", o restaurante Pantagruel, perto da rua Jardim Botânico. Embora soubesse que Magaldi fosse hierarquicamente subordina- do ao Boni (Boni é vice-presidente e o Magaldi é diretor da Central Globo de Comunicações), eu sabia que intelectualmente não havia essa hierarquia (na verdade ela é até inversa) e que Magaldi poderia conseguir junto aos filhos de Roberto Marinho ou com Miguel Pires Gonçalves (que é superintendente e vive em confronto permanente com o Boni) o desejado afastamento de Calazans e Boni, tornando todo o mais possível. (Eles já estavam de posse da sinopse da Trilogia. ) Hora e local agendados. Tudo certo e combinado. Eeis que somos só os dois para conversar, num restaurante vazio. .. e grampeado. isso irritou-me de tal forma que eu mal tive como conversar com o Magaldi. O que me vinha na cabeça era tão-somente a idéia de que eles apostavam num confronto onde só eles mexiam as peças, só eles ditavam as regras e só havia um vencedor: eles. E a evidência mais clara disso era o grampo que eles estavam fazendo da nossa conversa. 18
  17. 17. Não era difícil imaginar a Globo segurando todos os meios de comunicação para que eu não tivesse acesso a dizer o que realmente estava acontecendo, enquanto eles editavam imagens, gravações ou até procediam a montagens que dessem, pela televisão, a ima- gem que eles desejassem. (Isso até um diretor de televisão de quinta categoria é capaz de fazer. ) Entre levantar a sair, simplesmente, restava a opção: jogar com as mesmas armas e passar a gravar a gravação deles, desmoralizando as montagens que estavam sendo feitas. Magaldi ainda insistia na cantilena de que não adiantava lutar contra a Globo. Era mais do que uma briga entre David e Golias. Era um massacre onde eu não teria a menor chance de ter um resultado contrário ao esperado por eles. Eu deveria, segundo o Magaldi, deixar ao menos uma saida para a negociação, e não tacar fogo na paliçada, queimando todo mundo, uma vez que o que eu queria era impossível. (Foi a última vez que conversamos, e ficou no ar um sentimento de pré- apocalipse onde eu iria me danar todo, nada teria repercussão fora da Globo, tudo teria sido inútil, a não ser a fragilização de algumas pessoas que pagariam muito caro pelo fato de Roberto Marinho ter que se desgastar para abafar um grande escândalo. ) Ainda tive um último encontro com Francisco Eduardo, no 266, onde, por pouco, eu não agredi Marcos Bordini (secretário pessoal do Boni) que quis provocar-me numa situação absolutamente encomendada, e insólita. Após enviar um último telegrama para Magaldi, Miguel Pires Gon- çalves e para a direção da Editora Globo (quem deveria deter o controle sobre a edição dos livros após o saneamento interno) dei o assunto interno da Globo como encerrado. O "Inside Globo", que antes era só uma fantasia e uma brincadeira sigilosa entre amigos da auditoria, passou a ser a realidade com a qual eu tinha que trabalhar, porque só eu não havia visto, até então, que a Globo abria mão de tudo, menos do contato com o submundo. E por essa razão o Boni desempenhava papel fundamental de "irmãozinho" do Castor, entre outras coisas, e (a Globo) precisava de catadores de dinheiro público para manter o "império". Razão maior de tais pessoas serem imprescindíveis à atual estrutura das "organizações Globo". Um dia. .. quem sabe? Pode até ser que a Globo tenhatanto dinheiro que dê até para começar a fazer as coisas corretamente. Mas, eu não 19
  18. 18. tinha e não tenho tanto tempo assim para esperar. Afinal, só me resta mais uma vida. ..
  19. 19. Que saudade que eu tenho das pessoas quando elas ainda não eram o que são.
  20. 20. .a t;
  21. 21. A participação da Tchê. A situação era trágica, mas mais ou menos simples: eu trataria de cumprir com o que eu havia dito e a Globo trabalharia para abafar o escândalo que seria uma possivel publicação da Trilogia. O primeiro grande erro de avaliação por parte da Globo foi supor que o primeiro dos livros seria, conforme sinopse, o “inside Globo", e começou toda sua avaliação por aí, preparando-se para possiveis efeitos sobre esse livro especificamente. A inversão da ordem de publicação dos livros acabou sendo mortal, pois o "Afundação l" mexeria exatamente na vidraça de Roberto Marinho. Colocaria a nu a imagem de filantropia, de benemerência e das medalhas e comendas recebidas em nome de ser um grande mecenas. Atingirla Roberto Marinho em cheio. Exatamente no relacio- namento da Globo com o poder público, dando-lhe contornos de imagem jamais imaginado ao longo de toda sua vida. Estrategicamente isso foi fundamental. Desnorteou de maneira irremediável atodos aqueles que estavam, antes, rigorosamente seguros de si, montados numa prepotência e arrogância própria dos ignorantes orgulhosos dos próprios umbigos. (Tudo isso é analisado, em detalhes, em capítulos seguintes. ) Não foi uma tarefa tão dificil assim conseguir uma editora que pudesse interessar-se pela publicação da Trilogia. Tanto que a primeira opção disponível, que era a Tchê, por já ter editado a História Secreta da Rede Globo, respondeu imediatamente mostrando interesse na edição, tão logo recebeu a sinopse da Trilogia. Dai, para ultimar e consumar a publicação não foi muito difícil. O editor Airton Ortiz veio ao Rio de . Janeiro para uma conversa particular 23
  22. 22. e para checar alguns documentoslque pudessem ser exigidos num caso de processo por parte da Globo. E uma vez constatada a fartura documental ele mesmo sugeriu que se incluisse alguns documentos considerados importantes, como parte integrante do livro. Estranhamente, depois disso Ortiz desapareceu como por encanto. Simplesmente não era encontrado. E, devido ao sigilo, eu não poderia sair procurando o Ortiz abertamente, sob pena e risco de a Globo detectar como e onde o livro seria editado, sabotando, invariavelmente, o lançamento, matando o livro no nascedouro. Nesse meio tempo, supondo que a Tchê desistira da publicação, procuro a radialista Cidinha Campos, apresentando a questão Trilogia e entabulamos o que seria a possibilidade de uma edição. (Ela teria conhecimento junto a alguns editores que poderiam ultimar o lança- mento. ) E num jantar na casa dela (eu, Cidinha, o marido Ricardo Straus, Brizola e Brandão Monteiro), fica acertada a publicação por uma editora de São Paulo (Editora Global). Novamente, um estranho desaparecimento por parte dos editores da Editora Global. Era o segundo desaparecimento num curtíssimo espaço de tempo, por duas editoras diferentes. Tamanha coincidência merecia, no mínimo, ser investigada. Abandono a hipótese Editora Global, até por sugestão e advertência de Hélio Fernandes, que a essa altura estava numa situação dificílima: sabia de tudo, a Tribuna da imprensa não tinha máquinas de alcear capazes de produzir um livro, e mesmo tendo sido o primeiro a saber de tudo não podia divulgar uma só linha sobre um furo monumental que tinha em mãos. Era uma tarefa muito difícil para um jornalista, ou repórter, como ele mesmo gosta de se chamar, saber do fato, ter prova documental, e não poder divulgar. (Hélio, além de submeter-se a uma tentação terrível, mostrou uma retidão de caráter muito grande em não violar um segredo onde ele só estava empenhado pela palavra. ) Procuro a Tchê novamente e como por encanto acertamos tudo. Publicamos o livro "Afundação l" num tempo recorde, mas com todas as impropriedades comuns a um lançamento onde o sigilo e a surpresa eram fatores mais do que fundamentais ao sucesso da publicação. O fator surpresa foi determinante para o sucesso do lançamento. E antes mesmo que a Globo tivesse se recuperado do impacto do esquema lançamento-distribuição-divulgação, o livro estourou na praça e ganhou manchetes de jornais, mesmo contra todo o esquema montado pela Globo. 24
  23. 23. Ortiz havia sido de uma coragem louvável e de um planejamento primoroso. Por mais que a Globo segurasse a imprensa a coisa vazava e fugia ao controle. E todo dia, em algum lugar, algo saía diferente do que a Globo planejara. E eu sabia que aquilo não iria durar muito tempo. Cedo ou tarde o Ortiz não iria agüentar a pressão. Quando nós fomos para a Bienal do Livro, em São Paulo, a tempe- ratura já se mostrava insuportável para o Ortiz. Nós tínhamos um stand com cartazes dizendo: "A Rede Globo que nem Roberto Marinho conhece". E panfletávamos dentro, fora da Bienal, em qualquer lugar. As pessoas comuns, por curiosidade, logicamente, iam ver o stand. Outros, que eram encarregados de cercar-nos 24 horas por dia, quando recebiam o panfleto, cara a cara, amassavam e rosnavam na lata. (Era perigoso, mas cômico. ) Os jornais que abordavam o assunto Bienal nem tocavam no tema "Afundação", e até o Estadão e a Folha que fizeram suplementos a respeito da Bienal cumpriam, certinho, as "ordens do Dr. Roberto": nenhuma linha sobre o assunto. O livro mais vendido, segundo a Folha, a "incorruptível Folha", era algo como 400 exemplares. O que não era 10% da venda do "Afundação l". (Nem a Folha sabia que um dia isso ia ser assunto de livro. ) Mas, logo após a Bienal, Ortiz viria a dar mostras de que ele era um editor, não um ideólogo. E vieram os primeiros sinais e sintomas da proximidade da Globo, a começar por alguns telefonemas que ele dizia haver recebido sob a forma de ameaça. Depois foram ameaças de processo (que no caso eu avoquei a mim a responsabilidade de ser processado, já sabendo, de antemão, que a Globo não processaria nem a mim, nem a Ortiz, nem a ninguém. Era só uma forma de Ortiz mostrar que estava sofrendo pressão e não tinha como trabalhar com suas dúvidas). A seguirvieram os descumprimentos contratuais e o que eu chamaria, na época, de "Plano Globo para matar o autor de fome", ou seja, a Tchê não vinha cumprindo o contrato. Pagava os direitos autorais religiosa- mente atrasados. Até que Ortiz resolve me chamar a Porto Alegre e abrir o jogo: havia sido procurado por Nelson Sirotsky e pelo advogado contratado pela Globo para "segurar" o caso da Fundação: Wilson Mirza, e não estava em condições de recusar as ofertas que recebera. E num gesto que mais parecia desvario, Ortiz me propõe pagar todos os atrasados, comprar os direitos sobre o "Inside Globo" e sobre 25
  24. 24. o "Atrás do Espelho", como se já estivesse com o dinheiro no bolso, e dizendo que não podia colocar mais nenhuma edição do "Afundação" na rua se não fosse o dono dos títulos dos livros seguintes. (O que até fazia algum sentido. ) Avise¡ que aquilo era uma estupidez de quem tem pressa, pois mesmo que eu vendesse os titulos, nada impediria que eu escrevesse os mesmos livros sob títulos diferentes. Mas, ainda assim Ortiz teimava em comprar os títulos dos livros e queria, desesperadamente, os direitos sobre possíveis filmes a respeito dos livros. (Ele estava em pânico. Agitadíssimo. Queria comprar os direitos sobre todos os títulos e direitos sobre filmes de qualquer maneira. ) Assinamos o contrato, mesmo eu estando a contragosto, e foram estipuladas datas precisas para pagamento. Para variar, Ortiz não pagou nem honrou o avençado contratualmente. (Era só uma armadilha juridica babaca imaginada por um asno, para uma "montagem judicial") Em 19 de fevereiro de 1989, um dia após a última das datas para pagamento, expedi o seguinte telegrama: 18841 Z RSTT 21104 Z RJAS 01/1607 ASNOOOO? 0102 1600 RIO DE . JANEIRO/ RJ TELEGRAMA EDITORA TCHÊ LTDA RUA CAPIVARI 1141. CRISTAL PORTO ALEGRE/ RS CARO ORTIZ, NÃO TENDO SIDO CORRESPONDIDOS E CUMPRI- DOS OS COMPROMISSOS REFERENTES AOS DIREITOS AUTORAIS DO INSIDE E DO ATRÁS DO ESPELHO, NAS DATAS DE 05 DE . JANEIRO E 31 DE . JANEIRO, COMUNICO QUE NÃO RECEBENDO TAIS VALO- RES EM 24 HORAS, CONSIDERO RESCINDIDO TAIS CONTRATOS POR DESCUMPRIMENTO DE CLÁUSULA PRINCIPAL. LAMENTAVEL- MENTE, CORDIAIS SAUDAÇOES. ROMERO DA COSTA MACHADO. Ortiz ainda tentou empurrar com a barriga os pagamentos dos direitos autorais, mas tudo não passava de mera brincadeira do "Plano 26
  25. 25. Globo para matar o autor de fome. " Ele dizia que ia fazer, ia cumprir, criava a expectativa, mas tudo não passava de uma repetição de algo que eu conheço bem em relação à Globo. Tão primário quanto a cabeça de um traficante leitor de pesquisa. Em 22 de março de 1989, num novo, duro e muito áspero telegrama, coloquei fim às brincadeiras do Ortiz e do moleque que achava divertido não pagar direitos autorais, pois, na imaginação elementar deles eu jamais escreveria outro livro, principalmente se eu não tivesse dinheiro. (Para bancar, pessoalmente, a obra. ) A Editora Tchê foi sendo gradualmente desarticulada, até para se prevenir contra possíveis represálias minhas (deixaram-na moribunda) e inauguraram, com pompa e circunstância a Editora Ortiz, uma livraria em Porto Alegre, ampliaram escritórios (antes no Cristal, agora no Centro), abriram filiais em São Paulo e até_uma nova "Divisão Comercial" especializada em importações e exportações, atendendo, até (suspense), o governo. .. (a parceria deles rendia a olhos vistos). Nossa sociedade, no entanto (entre autor e editor), terminou dessa forma: ele com o dinheiro e os favores da Globo e eu com o direito de contar isso num livro que ele jamais supôs seria escrito. Aliás. .. supor que eu não escreveria o segundo livro e que não contasse todas as falcatruas e safadezas feitas nesse meio tempo foi um erro mais colossal do que o do primeiro livro. Primeiro, eles imaginaram que eu não escreveria livro algum. Depois, apostaram que eu não teria fôlego e condições financeiras para escrever o segundo livro. Erraram tanto, tanto, que merecem um lugar de destaque na biografia do patrão, como grandes coadjuvantes especializados em asneiras.
  26. 26. m .
  27. 27. Nem tão estúpido para ser ateu, nem tão medroso para acreditar em Deus. 29
  28. 28. .if
  29. 29. Reflexos de um baile de Afundação Não se tratava de uma euforia de sucesso, mas a impressão exata era de que a Globo não soubera assimilar o golpe do lançamendo do "Afundação I", ao invés do esperado "Inside Globo" (tanto quanto agora eles esperam tudo, menos uma continuação do Afundação). Eles não sabiam como lidar com o inesperado, ainda que devessem esperar, pois foram avisados. Todo dia, a cada dia, a Globo passava um recibo enorme, de- monstrando o quanto havia sentido o golpe do lançamento. E até o desespero em reparar os erros acabou provocando uma nova avalanche de outros erros e rabos de fora, que iremos acompanhar no desenrolar desse livro, num delicioso reflexo de baile: Pag. 178 - "Afundação l" - Bráulio Cafe', então delegado da Receita Federal, é acusado de receber dinheiro, em cheque, para abonar notas frias do Boni e autenticações frias em guias de pagamento de imposto, com máquinas roubadas. (Documentos anexos no próprio "Afundação I", páginas 191 e seguintes. Editora Tchê. ) Reflexos do baile - Bráulio foi defenestrado, mas candidatou-se a deputado para ver se conseguia impunidades parlamentares (apoiado pelo Boni, obviamente). Hoje, ao que se saiba, continua vendendo seu "prestígio" no Monte Carlo. (Um restaurante do Rio, muito na moda para celebrar "transações comerciais") Págs. 261 e 262 - "Afundação l" - Em cenas dos próximos livros enfoca-se, entre outras coisas, o contrabando, o dinheiro frio e sujo, as remessas para o Exterior que são feitas por pessoas da mais alta direção da Globo. Reflexos do baile - José Sarney, presidente da República e 31
  30. 30. eventualmente cumprindo a tarefa de office boy de Roberto Marinho, como no caso NEC -Garnero- Machiline, baixou dois decretos em favor da Globo, dos doleiros, dos contrabandistas e dos donos do dinheiro sujo, dizendo, nada mais nada menos do que o seguinte: quem tiver contrabando dentro de casa e quiser regularizar antes que seja escrito o "inside Globo" é só regularizar que o governo garante. E quem tiver dinheiro frio de tóxico, jogo, contrabando, sonegação de toda e qual- quer natureza e que eventualmente possa ser denunciado no livro "Inside Globo", pode esquentar o seu dinheiro frio pagando apenas 3% (três por cento), e estamos conversados. Os decretos do "presidente" (o termo é esse? ) foram publicados juntamente com o lançamento do "Afundação l", julho de 1988, coin- cidindo (coisa que só acontece com a Globo e com as melhores famílias brasileiras) com as sinopses das páginas 261 e 262 - Cenas dos próximos livros. Nota - É fundamental que se determine o real alcance do caso. Em fins de 1987 enviei sinopse da Trilogia Global à Rede Globo. E no início de 1988 o livro começou a ser composto pela Tchê. Nesse meio tempo a' Globo, sentindo a gravidade das denúncias, encomendou ao seu "presidente" de algibelra, que por "coincidência" era só e tão-somente o "presidente" da república Sr. .José Ribamar, também conhecido como . José Sarney, que livrasse a Globo de todo o dinheiro frio de trambiques, caixa dois, dólares ilegais e etc. E nesse sentido o "presidente" do Brasil, em sua subserviência de serviçal obediente, decretou que tudo que era frio poderia ser esquentado ao custo de 3% (três por cento), que é muito mais barato do que os 10% da corrupção institucionalizada e dos mais de 15% que a classe média paga de imposto de renda. igualmente, em relação aos contrabandos da Globo, que iriam ser denunciados em livro, o "presidente" José Sarney cuidou para que a Globo saísse ilesa dessa acusação comprovada. Pois esse "presidente" democrata decretou que quem tivesse contrabando em casa (e era caso específico da Globo) poderia legalizá-lo sem passar constrangi- mento de ser denunciado por isso. E dessa forma, de duas penadas o "presidente" da república "legalizou" dois crimes da Globo: dinheiro frio de origem escandalosa e criminosa; e contrabando. Em contrapartida o tal "presidente" do Brasil recebeu como prêmio: uma vaga na Academia Brasileira de Letras como "inte| ectual"; o 32
  31. 31. arquivamento escandaloso da CPI da Corrupção que envolvia direta- mente Sarney e Saulo Ramos; um mandato de cinco anos e mais benesses maranhenses em Pinheiros e em sua ilha de tranqüilidade, e um festival de corrupção com a maior distribuição de estações de rádio e de televisão que o País já havia visto. O leitor deve consultar, de imediato, ao fim deste livro as "Cenas dos próximos livros", que são iguais às do "Afundação I" e verificar que grande parte dos crimes da Globo passaram a ficar Iegalizados por um "presidente" (mais um) usado e manipulado pela Globo, como tantos outros que se prestaram a ser atores coadjuvantes de script Global. Não será difícil entender, a partir daí, como se manipula homens públicos, como se subjuga "autoridades", como se pratica escroqueria e como está montado o maior esquema de corrupção do País que vem do mais alto cargo do País ao mais rastaqüera dos funcionários num exemplo vivíssimo e atual de tudo que estava para ser denunciado em livros futuros e que, agora, mediante esses exemplos, ficam mais robustecidos do que nunca. Pág. 148 - "Afundação l" -Wilson Simonal tem, pela primeira vez, seu caso contado, mostrando como a intelectualidade de beira de bar, manipulada pela Central Globo de Boatos, havia criado (para ele) a fama de "dedo-duro" e alcagüete. Reflexos do baile -Simonal reaparece na Globo, e após longo e tenebroso inverno a Globo exibe um anúncio de show do Simonal (que havia tido sua carreira destruída, literalmente, por diretores da Globo), e que tinha a imagem proibida de aparecer na TV Globo, num dos piores macartismos da comunicação brasileira. Um jornal alternativo entrevista Simonal, que confirma tudo que estava na pág. 148 do "Afundação I". Concomitantemente, a revista Amiga dá destaque a Wilson Simonal, que até então estava, por conta e ordem da Globo, morto e enterrado. Pág. 262 - "Afundação l " -Cenas dos próximos livros antecipa o caso Daniel Filho X Mario Gomes = Beth Faria. Reflexos do baile -A revista Amiga entrevista Mário Gomes, que, literalmente, frita, abertamente, Daniel Filho. E o . Jornal do Brasil, numa dubiedade de fazer inveja, estampa uma foto (desenho) do Daniel Filho na capa da Revista de Domingo e sapeca a manchete: "A cocaína do Daniel. " (Não precisava tanto. ..)
  32. 32. Pág. 46 - "Afundação l" - Boni alega que não iria interessar-se pela criação de um "Museu da Televisão" porque isso interessaria de perto à Globovídeo, e como ele não tinha participação nos lucros da Globovídeo, ela e o "Dr". Roberto que se danassem. Reflexos do baile -A revista Veja anuncia que a Globovídeo iria ser esvaziada, pois não estava atendendo aos interesses da Globo, da maneira como vinha funcionando, e estranhamente anuncia que os diretores da Globovídeo passariam a participar nos lucros da empresa (o que não acontecia antes), a fim de evitar que esses diretores obstruíssem o desenvolvimento da empresa. Pág. 262- "Afundação l"-Em cenas dos próximos livros há uma menção a Castor "Cordeiro de Deus" de Andrade. (Onde só os íntimos sabem o significado. ) Reflexos do baile - Prenderam Castor de Andrade na inaugu- ração do cassino de um milhão de dólares. (Prenderam mas não prenderam muito. Havia 300 pessoas no cassino e só apreenderam menos de um dólar por cabeça. Pode? As fichas tinham um castor esculpido. Houve o flagrante, mas os advogados provaram que o tal castor tratava-se de um ornitorrinco mutante, e que o cassino era de um português que não se chama Manuel, não mora em Niterói, mas vive com os olhos perdidos na praça Quinze. ) Prenderam novamente o Castor de Andrade, por quebra de condi- cional. Foi solto. Era primário, pela segunda vez. Prenderam o Castor de Andrade, novamente, por contrabando de peças de videopôquer. Foi solto. Era primário. Primário e repetente. Prenderam, novamente, o Castor de Andrade. Aí, apesar de ser primário, ele começou a desconfiar que o negócio era comigo, daí ele desandou a colocar capanga atrás de mim, cujos detalhes são anali- sados em outro capítulo desse livro. Foram tantos e tantos os casos de assuntos citados no "Afundação com reflexos posteriores que seria extremamente cansativo e desgastante citar caso a caso. Mas, o grotesco da questão não era o fato da coincidência, e sim o fato de mesmo após meses e meses do lançamento do "Afundação l" a Globo ainda não havia assimilado o golpe e passava recibo quase que diariamente. E o pior de tudo é que a soma desses recibos todos é exatamente esse livro, "Afundação ll" - Uma biografia de corrupção, que mostra toda a extensão de como a Globo usa presidentes, ministros, homens públicos em geral, e até a | H 34
  33. 33. Justiça como uma extensão de seus departamentos, e jamais imaginou que tudo isso poderia, um dia, ser compilado em livro. De todas as "coincidências" havidas entre algo citado no livro e um evento subseqüente relacionado com a citação, nenhuma foi mais dispendiosa do que a separação de Roberto Marinho e subseqüente casamento. Pág. 58 - "Afundação l" - Levanta uma polêmica sobre uma possível e propalada homossexualidade de Roberto Marinho. Reflexos do baile -Roberto Marinho separa-se de D. Ruth, como se a separação pudesse ser algo simples, barato e sem problemas. E aos quase 90 anos Roberto Marinho casa-se com Lily de Carvalho, antiga paixão perdida um dia na juventude, e que se casara com um então empresário de sucesso. Essa separação e casamento subseqüente acabou se transformando num dos maiores problemas da vida de Roberto Marinho, com um desgaste incalculável e com prejuízos financeiros jamais imaginados. isto porque, segundo voz corrente dentro da própria Globo, Roberto Marinho iria separar-se de D. Ruth Albuquerque Marinho, dar-lhe um "tombo" no tribunal, contando com a ajuda do advogado de D. Ruth, Dr. Jose' Armando Falcão, filho do ex-ministro Armando Falcão. Pagaria uma pensão minima, ridícula, e ainda faria, com Lily de Carvalho, o casamento do seculo, passando para a posteridade como um nonagentário casamenteiro, apaixonado e coroado pelo sucesso. Só esqueceram de combinar com todo mundo que seria assim. Pois logo encheram a cabeça de D. Ruth que se Roberto Marinho tinha uma fortuna calculada em um bilhão de dólares, segundoa revista "Forbes", logo a D. Ruth teria direito a 500 milhões de dólares (metade da fortuna). O que era um valor impensável por Roberto Marinho ter que pagar a alguem. E o pior de tudo: o advogado de D. Ruth, Dr. .Jose Armando Falcão, não topou trair ou abandonar D. Ruth sob circunstância alguma. Resultado: por vingança, Roberto Marinho demite, por pura vingança, o irmão do advogado de D. Ruth, Guilherme Falcão, que era seu assessor particular, e acaba atraindo a ira do pai dos dois, o ex-ministro Armando Falcão, que vai à imprensa e desanca com Roberto Marinho, acusando-o de desvario senil, de ser um falso doutor (sem jamais ter sentado em um banco de faculdade), de assinar artigos escritos por terceiros, e de ser um sujeito pequeno, di- minuto, minúsculo, ínfimo. Tudo isso numa carta aberta publicada na Tribuna da Imprensa, em 21 de julho de 1989, cujo teor completo é o seguinte: 35
  34. 34. Paulo Branco A demissão de Guilherme Falcão de uma das empresas do Sistema Globo motivou o rompimento de relações entre o pai do demitido Armando Falcão e o jornalista Roberto Marinho, depois de mais de 30 anos de uma estreita amizade. O ex-ministro da . Justiça enviou no último dia 13 uma dura carta ao jornalista-empresário, acusando-o "de estar com a consciência embotada e de ser hoje um homem massacrante, desumano, mesquinho, irreconhecível". Ao denunciar as mudanças de comportamento de Roberto Marinho, o ex-ministro constata que "o cidadão comedido, retraído e modesto, se foi transformando, por mutação vertiginosa e simultânea, no camelô de si mesmo, no exibicionista global máximo, no campeão da vaidade vã". Falcão lembra que o demitido é afilhado de casamento de Roberto Marinho, enfermeiro ad hoc e intérprete do jornalista que é "analfabeto em inglês". Por ser um dos documentos mais duros que se tem notícia de rompimento de relações entre dois homens públicos, esta coluna transcreve-o em sua íntegra a partir de uma epígrafe do Evangelho de São Lucas, citado por Falcão: "Pai, perdoa-lhe: não sabe o que faz". Falsa autoria "Eu estava ausente, no Ceará -terra que você gratuitamente tanto vilipendia, apesar de ser um cearense, o Jorge Serpa, quem escreve, para você assinar, sob falsa autoria intelectual, os artigos do 'Globo'. Chegou-me lá a informação de que você, enfurecido, estava ordenando a sumária demissão do Guilherme, empregado de uma das empresas de sua propriedade. Não quis acreditar na notícia, tal o descabimento e a mesquinhez que encerrava. Entretanto, retornando ao Rio, vem-me a confirmação da sua iníqua vingança, centrada na pessoa de um dos meus filhos, totalmente desvinculado de qualquer responsabilidade no problema que, no fundo, lhe aguilhoa e atormenta a consciência, conquanto esteja ela embotada: o conflito judicial pendente de decisão numa vara de família. Ficha virgem Com efeito, por que foi estupidamente punido o Guilherme? Ele é colaboradorexemplar, impecável no procedimento funcional e pessoal. 36
  35. 35. Não cometeu nenhuma falta, nenhum deslize. Tem a ficha virgem de qualquer nota desabonadora. Então, por que foi alvo da estúpida pedrada? Por que e irmão do Dr. José Armando Falcão, que há cerca de cinco anos administra o pequeno patrimônio da excelentíssima senhora Dona Ruth Albuquerque Marinho e, sendo advogado militante, aceitou, por irrecusável, o encargo profissional de defendê-Ia na lide judicial que você tomou a iniciativa de desfechar. Momento de infeliz inspiração levou ao erro o Guilherme, quando, anos atrás, escolheu as 'Organizações Globo', sujeitas ao tacão do seu despotismo, para treinamento do idealismo de jovem sonhador, correto e competente. Ora, meses passados, quando ainda era possível tentar alertá-lo para a inadequação de posições pessoais por você assumidas, ouvia eu de sua própria boca esta afirmação estarrecedora: 'Não te mete. Deixa comigo. Sempre ganho as minhas guerras. Hoje, sou tão poderoso, que me sinto um homem colocado acima do bem e do mal. ' Engoli o meu espanto, na esperança de que um milagre pudesse acontecer. Quem sabe você voltaria à simplicidade que, afinal, era marca no seu procedimento pretérito? Equivoquei-me, no entanto. Nova roupagem l Você mudou. Mudou radicalmente. E outro homem. Massacrante, desumano, mesquinho, irreconhecível. Pode-se nesta altura, vendo a sua nova roupagem, proclamar, sem medo de errar. 'Este é o ex- Roberto Marinho. Desfigurado, deformado. Não é o que foi. Não é mais o mesmo. Aquele em quem identificávamos um perfil humano superior e nobre. Deixou de ser a pessoa que admirávamos e defendíamos. ' Esta opinião não é só minha. Fique sabendo que é de todo mundo. inclusive dos auxiliares mais próximos, que têm pavor da sua rotina mal- humorada e dos estilos de agressividade e grosseria do seu novo temperamento de chefe. De fato, o cidadão comedido, retraído e modesto, se foi transformando, por mutação vertiginosa e simultânea, no camelô de si mesmo, no exibicionista global máximo, no campeão da vaidade vã. Criticava o senador João Calmon, acusando-o de fazer dos órgãos associados catapultas de projeção pessoal, e foi muito além daquele valoroso companheiro de Assis Chateaubriand. 37
  36. 36. Honoris causa Faminto de fama e de honrarias encomendadas, virou caçador insaciável de títulos honoríficos, tipo 'doutor honoris causa', talvez porque, nunca tenha cursado uma faculdade, não sendo formado em coisa alguma, nem mesmo em jornalismo, soa falso a seus próprios ouvidos o apelido de 'doutor Roberto' que só o é entre aspas. Como se diz agora, Freud explica. O Guilherme está casado há menos de um ano. Foi você o padrinho do casamento. Subitamente, passou a algoz dele, sem que nenhum mal o afilhado lhe tivesse feito. Ao contrário - só o ajudou, só lhe deu demonstrações de amizade, apreço e dedicação. Trabalhou a seu lado, no gabinete da 'Rede Globo de Televisão', durante mais de quatro anos. Foi leal, discreto, disciplinado e devotado. Até na sua doença o acompanhou, como enfermeiro ad hoc, quando foi operar-se nos Esta- dos Unidos. Você, analfabeto em inglês, era o Guilherme o seu porta- voz, o seu intérprete, o seu companheiro fiel, dia e noite. Tao pequenino Você esqueceu tudo e, na sanha do ódio extensivo e comunicante, derrubou o Guilherme, porque não lhe pode derrubar o irmão advoga- do, nem o pai, felizmente distanciado das suas garras. Em suma: verifico, consternado, que você está flagrantemente submetido a um processo de profunda mudança de personalidade. Mudança para pior, trocando a badalada aparência de equanimidade pela prática chocante da iniquidade. Sou integralmente solidário com o meu filho diante da agressão gratuita, injusta e perversa. Francamente, não sei se valeu a pena você envelhecer tanto para, chegando ao topo da montanha, mostrar-se tão diminuto, tão pequenino, tão minúsculo, tão ínfimo. Foi imensa e decepcionante a minha surpresa, face à sua melancó- lica involução. Desvario senil Por caridade cristã, debito-a ao desvario senil em que você submer- ge, nos últimos tempos. Elevo votos a Deus, sempre tão misericordioso, para que lhe cure os 38
  37. 37. delírios do poderio exagerado, do qual passou a fazer tão mau uso, e lhe devolva o antigo bom senso, como sinal de reconquista da sua debilitada saúde mental. " Rio de Janeiro, em 13 de julho de 1989. Armando Falcão. Reflexo pior é impossível. O casamento com Lily de Carvalho acaba repercutindo menos do que o escândalo da separação. A separação de D. Ruth acaba custando uma fábula jamais imaginada por Roberto Marinho. Sem contar os desgastes pela carta pública de Armando Falcão e tudo mais que nela é contido. (Além, obviamente, da perda de um amigo de mais de 30 anos. ) Um desastre completo. A solução, então parece ser procurar um machão, conhecido, assumido, tido como um inveterado garanhão, para que desse o testemunho público de que Roberto Marinho era ou tinha sido um tremendo garanhão e melhorar a "biografia". E sob a batuta de Walter Clark, que tinha sido tudo na Rede Globo, mas que após sucessivos fracassos chegara ao fundo do poço, eis que Roberto Marinho ressurge como um grande garanhão, avalizado pelo garanhão Walter Clark, numa "biografia" de evidente suspeição, cujo prêmio de consolação é a indicação de Walter Clark para o cargo máximo da TVE. Outro tiro n'água, pois tão logo a "biografia" de Walter Clark chegou ao mercado sob a forma de livro, "O campeão de audiência", mereceu uma feroz crítica intitulada: Walter Clark, quem diria. .. acabou no Irajá, publicada em novembro de 1991, junto com o lançamento do livro. Walter Clark, quem diria. .. acabou no lraj "Ele foi o que se pode considerar como o 'Lee lacoca brasileiro'. Um homem de visão muito além de seu tempo, capaz de criar um império que resistisse mais do que o seu criador e seu dono. Criador da Hollywood brasileira, da 'Venus Platinada', do faturamento de quase um bilhão de dólares por ano, amante de todas as mulheres, a própria 39
  38. 38. imagem da vitória. Mas, bastou um único livro, 'autobiográfico' (? ), para o mito abrir mão da grandeza e mostrar-se comum, banal, descendo ladeira abaixo pela vulgaridade de não saber separar o importante do menos importante. Em princípio, a mesma história poderia ter sido escrita mais apoteótica, com mais brilho, mais interessante, mais imaginativa, ao invés de uma 'biografia' (? ) que traça os rumos donada ao nada, cheia de lamúria de perdedor, com explícitos ressentimentos de fracassos após um sucesso inicial estrondoso. É patética a forma como Walter Clark lamenta sua saída da Globo e fracassos posteriores: um filme que custou tudo e não rendeu o que deveria (nem o crédito merecido); uma peça de teatro cujo fracasso empobreceu-o irremediavelmente; um retorno a uma rede de televisão sem a menor vocação para o sucesso; sua ligação com o nome TV Rio que o fez ligar-se a evangélicos no Maracanã, com gente histérica - religiosos - berrando a pleno pulmão: 'Walter Clark já é nosso. Walter Clark já é nosso'. Patético. Patético. Patético O livro é muito ruim. Desnecessário. Cheio de omissões - a maioria não por esquecimento. Provido de muita maldade. E o mais degradante é a clara intenção do livro: atingir a todos os desafetos de Roberto Marinho, e colocar uma dose de 'biografia' que o próprio Roberto Marinho não teria coragem de escrever; para levar como prêmio de consolação um emprego como 'todo-poderoso' na escandalosa Tevê Educativa. É só ler a síntese do livro para perceber a quem interessa: os maiores desafetos de Roberto Marinho foram: Carlos Lacerda (que ridicularizava Roberto Marinho, chamando-o de Roberto-Azul-Marinho-quase-preto, e foi quem denunciou que Roberto Marinho recebia devolução de imposo de renda; quem denunciou o escândalo do Parque Lage; quem fez a maior pressão sobre o escândalo Globo-Time-Life); Armando Falcão (que, a vida toda foi seu amigo íntimo, até ter um filho demitido da Globo e virar as baterias contra Roberto Marinho, chamando-o de mesquinho, vil, vingativo, submisso para com os poderosos, e uma fraude e farsa que se faz chamar de doutor sem jamais haver sentado em um banco de faculdade). E justamente esses personagens aparecem clara e indelevelmente no livro como 'bandidos', no estrito interesse de Roberto Marinho. Carlos Lacerda é tido, no livro, como o homem que fez a intermediação entre a Globo e o Time-Life (para depois combater a união a montar uma 40
  39. 39. CPl). .João Calmon é acusado, no livro, de haver montado a CPI do escândalo Globo-Time-Life por puro ressentimento, vez que não con- seguiu fazer com os americanos da revista Look o mesmo acordo que Roberto l/ larinho havia feito com Time-Life. E Armando Falcão é tido como a mais repulsiva figura da ditadura. (Aliás, ditadura é coisa que nem aparece no livro. ) No mais, o livro - na parte que interessa a Roberto Marinho - é uma espécie de 'Papai Noel - Eu acredito': sugere que a Globo sempre foi independente. Roberto Marinho nunca bajulou o poder e nunca foi um lambebotas dos militares. Time-Life não foi um escândalo tão grande assim. Os comunistas (aí para ridicularizar bem) ajudaram mais Roberto l/ larinho do que todos os americanos juntos. A Globo sempre deu guarida a comunistas e terroristas e cita como 'perigosos comunistas: Evandro Carlos de Andrade e Henrique Caban (da chefia da redação de 'O Globo' - e conhecidos como extrema-direita, mais à direita do que o próprio patrão). 1968 foi um ano ótimo para a Globo. Não havia censura, tudo corria às mil maravilhas. Só Lacerda (coitado do morto indefeso) é quem censurava a Globo. E para encerrar com chave de ouro, o garanhão Walter Clark confessa, constrangido e consternado, que havia perdido uma das melhores mulheres de sua vida para o 'garanhão' Roberto Marinho. (Pelo visto a 'sociedade' com Lily de Carvalho não rendeu a credibilidade necessária e continua valendo a história do 'Afundação Roberto Marinho' sobre suas preferências se- xuais. ) Nos casos de omissões-não vale nem a pena falar, pois são tantas, tantas, que daria mais de um volume sórde citações. Não entra em detalhe dos torturados que eram apresentados na Globo como 'terro- ristas-comunistas-arrependidos'. Não fala em contrabando de equipa- mentos (quando cita, levemente, automaticamente defende o contra- bando dizendo que todo mundo faz e não há por que a Globo não fazer também. ..) Não fala em custo subsidiado da hora de satélite - via Embratel- para viabilizar a Globo em rede nacional. Não fala do roubo do Banerj de milhões de dólares que garantiu, à época, o título a Roberto Marinho de 'o maior assaltante de bancos', conferido pelo Pasquim. Não fala, nem de leve, na acusação reiterada de Carlos Imperial de que ele, Walter Clark, só iria para a Globo caso Roberto Marinho comprasse o lbope (e só foi para lá depois que isso aconteceu. E olha que o lmperial repete isso até hojel Tanto que na revista Semanário, recente, Imperial 41
  40. 40. afirma, categórico, que qualquer um pode subornar o Ibope. E que ele mesmo, Imperial, havia subornado o Ibope várias vezes). Ou seja, são histórias e mais histórias que não caberiam nem em um só livro, por mais volumoso que fosse. Nos casos de pessoas citadas ou omitidas de sua 'biografia', Walter Clark comete injustiças, barbaridades e muita maldade. Simplesmente tira de sua biografia Daniel Filho, Carlos Imperial entre outros. Até o Magaldi, no livro, vira menino de recado e fica muito mal no episódio em que Walter Clark manda contratar Hans Donner e Magaldi recusa-se para proteger o amigo Ciro Del Nero. Maldade. Pura maldade. Tão desnecessária quanto gratuita. Semelhante à que acusa a Laís Simões (ex-mulher do Boni) de fútil, novo-riquismo e egressa de má origem. (Estupidamente desnecessário. ) Ao mostrar o grotesco de cada um, é com um invulgar prazer que expõe algumas pessoas, como os Barretos - Embrafilme, ou com o Ipojuca Pontes, de quem vangIoria-se de haver quebrado a cara e a cabeça, dando-lhe uma merecida surra. E parte para ataques pessoais absolutamente gratuitos contra uma série de pessoas, numa catarse tão estúpida quanto desnecessária. Se o livro tem o mérito de mostrar o grande afeto que unia Walter Clark ao velho Arce - num dos raros momentos de grandiosidade pessoal - e de inspirar bastante emoção e sentimento profundo no trágico acidente que vitimou sua filha Flávia (talvez o momento de mais profunda emoção verdadeira do livro), alterna na maior parte com a mediocridade dos relatos de uma 'biografia' chinfrim. Com fartura de tema e personagem, o livro se perde na vulgaridade. Até o relato é ruim. Desperdiça histórias hilariantes sobre o amigo Roniquito, folclórica figura da República Independente de Ipanema, para enquadrá-lo mal na história. Até ao descrevê-Io de terno preto e guarda-chuva sob um sol obsceno e escaldante de Angra, Walter Clark compara-o a uma figura de Antonioni, querendo dizer Visconti ou Pasolini. (Do monocórdio 'l/ lorte em Veneza' ou do blefe 'Teorema'. ) Por rematada maldade, a título de fazer graça, conta o episódio em que, indo para Angra, Walter Clark, Roniquito e Beth Faria, essa, em conversa no interior do carro, diz estar novamente às boas com Daniel Filho. Tanto que até iriam trabalhar juntos num evento próximo. Ao que Roniquito, com seu mau humor característico, arremata: 'E quem vai fazer o papel de cenoura, Beth? (Numa clara alusão à história que foi 42
  41. 41. inventada para atingir Mário Gomes quando esteve de caso com a Beth Faria, gerando uma dor de cotovelo imperdoável em Daniel Filho. ) Da maneira como está dito na 'biografia' de Walter Clark até parece que a história é verdadeira e de certa maneira endossa a mentira. Quando ele, melhor do que qualquer outro, sabia da história real. Ou seja, Mário Gomes era tido como machão, garanhão, e traçava todo mundo dentro e fora da televisão, mas atingiu duas pessoas ao mesmo tempo: Daniel Filho (ao estabelecer um caso com a Beth Faria) e Carlos Imperial (ao fazer um filme e em cima da hora não concordar com o cartaz de publicidade, onde ele aparecia travestido, embargando, judicialmente, o filme, dando prejuízo incalculável ao Imperial, que 'jurou-o' de vingança). Daí, com a genialidade e conhecimento do marketing do Imperial, não custou para que surgisse o boato de que Mário Gomes havia sido internado num hospital entalado com uma cenoura no traseiro. Logo a seguir a Central Globo de Boatos, com o bloco na rua, começa a ligar para o hospital perguntando sobre o caso Mário Gomes e cenoura. E são tantos os questionamentos que logo surge o boato de que ele estava escondido num andar tal e ala tal. A pressão aumenta. Começam os desmentidos que só aumentam a desconfiança, e daí o caso passa a ser 'verdade'. (Logo aparecem aqueles que 'viram', os que são amigos de uma enfermeira que cuidou dele, os que têm uma empregada que é amiga de uma amiga que conhece uma pessoa que cuidou do Mário Gomes e da cenoura. .. Aí, ferrou. .. O boato vira verdade até com 'testemunhas'. ) Sacanagem, da grossa, Walter Clark endossar esta história sabendo que era pura armação para sacanear e desmo- ralizar o Mário Gomes. Também faltou coragem para contar a verdadeira história do Festival da Canção quando 'Sabiá' ganhou (cheia de aspas) de 'Caminhando' do Geraldo Vandré, por imposição dos militares, e coragem para redimir a cúpula da Rede Globo pela sacanagem de destruir a vida do Simonal por equívoco - e que ninguém até hoje o reabilitou da invenção de considerá-Io um 'perigoso' agente do Dops e dedo-duro da ditadura. (Simonal havia tomado uma 'volta' do contador e empresário. Estava atrás do prejuízo, quando soube que o trambiqueiro foi esconder-se na casa do Priolli. (Que era, ao mesmo tempo, um 'aparelho' comunista. ) Quando o Simonal chegou lá, com a polícia, para reaver sua grana, 'estourou', sem querer, o tal 'aparelho comunista' da casa de Priolli. Daí, 43
  42. 42. os amigos do Priolli - leia-se: cúpula da Globo - encabeçada por Magaldi - segundo o próprio Simonal - jogaram no mundo que o Simonal era agente do Dops, 'cagüete', dedo-duro, o diabo a quatro. E o boato da Central Globo de Boatos foi tão forte, que o macartismo branco destruiu a vida do Simonal, boicotando-o em todos os veículos de comunicação existentes: rádio, jornal, televisão, revista, etc. E, tempos mais tarde, quando descobriram a verdade e o engano, não tiveram a dignidade de reabilitar a vida e a honra do Simonal, que carrega até hoje o estigma de dedo-duro e de agente do Dops. Essa sacanagem a cúpula da Globo carregará para o túmulo como uma das maiores covardias dos meios de comunicações contra um artista. E como a classe é canalha e calhorda, faz de contas que não sabe e ignora o fato. (Contanto que tenha acesso ao brilho da TV Globo. ) Walter Clark perdeu uma bela oportunidade de ficar calado. E, o mais deprimente, ter escrito uma 'biografia' absolutamente injusta - até para com ele mesmo - e candidatar-se ao prêmio de consolação do Roberto Marinho com um cargo na Tevê Educativa. Quem diria. .. Walter Clark. .. acabou no Irajá. " Os reflexos do baile de um livro chamado "Afundação Roberto Marinho" foram terríveis. Custaram o desgaste pessoal, o acumpliciamento com figuras indesejáveis, perdas de amizades decenais, perdas financeiras para acertar situações, e o pior de tudo, deixaram um rastro de corrupção tão vasto, tão imenso, que até deu ensejo a que o "Afundação" tivesse uma continuidade, mostrando a maior rede de corrupção existente no Brasil, em todos os tempos, conforme é enfocado ao longo desse livro.
  43. 43. Deus odeia os pobres.
  44. 44. a
  45. 45. Cronologia da corrupção Em O4 de agosto de 1988 aTribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes, finalmente pôde romper o longo silêncio que guardara desde que soubera do "Afundação I", e finalmente estampar, na primeira página, o anúncio - em primeira mão - do lançamento do livro: "Segunda-feira em . todas as livrarias: um livro bomba sobre as falcatruas e irregulari- dades da TV Globo e de Roberto Marinho. " (Era o início de tudo e o mais longo histórico de corrupção que o país tinha ciência, envolvendo as mais altas autoridades. Presidente da República, Ministro da Justiça, Ministro da Fazenda, Superintendente da Polícia Federal, Secretário de Polícia, Procuradores (estadual e federal), Curador de Fundações, Consultor da República, e o . Judiciário como um todo. Levando, de roldão, algumas instituições até então tidas como inatacáveis, como: OAB, ABI. ) Nesse mesmo dia, uma quinta-feira, a radialista Cidinha Campos, que também sabia, de antemão, a respeito do livro, deu a notícia pelo seu programa de rádio, e imediatamente os meios de comunicação, entraram em polvorosa diante do dilema de uma notícia quentíssima de um fabuloso escândalo e a possibilidade de se poder veicular ou não essa notícia. (Isso é um outro assunto abordado em capítulos seguin- tes. ) Começava aqui a mais longa provação imposta ao empresário que se julga dono do Pais, que para safar-se de um flagrante delito subjugou as maiores autoridades, manietou as polícias Civil e Federal, e colocou o Judiciário literalmente de quatro. A história da corrupção do País poderia ficar sem memória, pois quase todo dia há um escândalo no País, e quase sempre o último escândalo é maior e pior do que o penúltimo. Os jornais noticiam, e como palavras ao vento ficam no passado até o esquecimento. Em geral 47
  46. 46. não se faz inventário de escândalos. I/ las, em relação ao escândalo do "Afundação l" a situação modificou-se um pouco, ate' pela submissão e subserviência da imprensa, que porter sido quasetoda chantageada, não pôde dar dimensão ao escândalo envolvendo a Fundação Roberto Marinho, a Rede Globo como um todo, gerando um escândalo de corrupção maior ainda. E bastou que um só jornal desse repercussão ao escândalo, para que tudo mais que havia sido montado para abafar o escândalo se transformasse em esforço inútil. E foi exatamente o que aconteceu com a Tribuna da Imprensa, que desde sua fundação, há 40 anos, jamais se submeteu aos caprichos, mandos e desmandos do sr. Roberto Marinho. (É um histórico que vem desde Carlos Lacerda, passando por Sobral Pinto, até Hélio Fernandes. ) E que por sua renitência e persistênciafora do comum, aTribuna da Imprensa acabou registrando, dia a dia, cada passo do escândalo, ao checar cada informação, indo atrás de cada autoridade citada, fazendo a todos correr. Viu as maiores autoridades do Pais ficarem ínfimas, diminutas. E o registro de todos esses passos é a mais vergonhosa história de corrupção do País, aqui identificado cronologicamente. 05/08/88 - "Fundação Roberto Marinho, umantro de falcatruas. " Com esta manchete de primeira página a Tribuna incendeia a Rede Globo e provoca um dos maiores pânicos de toda a sua história. Até porque, internamente, página inteira (pág. 8), vinha a manchete jamais imaginada por Roberto l/ Iarinho: "Cai o pano das Organizações Globo". E, resumidamente faz um apanhado geral do livro, e dos escândalos. Mas, isso não era nada em relação as manchetes que ainda viriam e que iriam fazer muito "xerife" federal sair correndo do país com as calças na mao. 08/08/88 - "Roberto Marinho pode pegar, no mínimo, 20 anos de prisão" Decididamente o número oito não é um número de sorte para Roberto l/ Iarinho. Oito do oito de oitenta e oito. Neste dia Roberto I/ larinho viu o que parecia impossível: ser condenado a mais de 20 anos de prisão, e pior: noticiado em primeira página de um jornal de "seu" País. Um dos maiores criminalistas do país, Paulo Goldrajch, analisando, 48
  47. 47. detidamente, o livro “Afundação l", capitulando cada crime cometido, pelas denúncias contidas, chegou a uma pena prevista para Roberto I/ larinho (sem contar com os demais diretores) de mais de 20 anos de pnsão. Com uma realidade dessas, não havia outra alternativa para Roberto Marinho que não fosse montar o maior esquema de corrupção que o país já viu, para livrar-se, não só da prisão prevista, como da possibi- lidade de ficar na mão dos meios de comunicação que, por "solidari- edade" não fizeram eco às denúncias do livro. 09/08/88 - Polícia Federal tem obrigação de investigar Roberto Marinho" Aqui começa o terror da Policia Federal, que até então, para todo país, era uma instituição corretissima, incorruptível, e que seu delegado (o "Xerife") e superintendente Romeu Tuma era um cidadão acima de qualquer suspeita. A bem da verdade Romeu Tuma estava apavorado. Passou a fugir dos repórteres e das manchetes como o diabo foge da cruz. Inicialmente tentou empurrar o caso com a barriga dizendo que não podiafazer nada sem autorização do ministro da Justiça (Paulo Brossard). Mais tarde colocou o delegado da Polícia Federal Geovani Azevedo como porta- voz, limitando-se ao clássico: "nada a declarar". 1 0/08/88 - "Tuma se omite e pode ser processado" A Polícia Federal que sempre agiu até por denúncia inominada, apócrifa, anônima, agora fugiae recusava uma denúncia clara, precisa, identificada, nominada, com acusador e acusado conhecidos. O pânico que havia tomado conta da alta cúpula da Rede Globo, a começar por Roberto I/ Iarinho, agora se alastrava pelos ministérios (da justiça e da fazenda), pela Polícia Federal, pelas procuradorias, curadorias. Formava-se uma rede de corrupção incalculável, jamais vista ou imaginada. E não havia como esconder um dinossauro debaixo de um guardanapo. A solução, inspirada no pânico (pois não há outra explicação para isso que não seja o pânico) passou a ser a da intimidação: - Passo a ser vigiado 24 horas por dia, por bandidos e policiais (a bem da verdade a diferença, no caso, era nenhuma). ~ Começa o terrorismo contra minha família, com ligações para a 49
  48. 48. escola onde meus filhos estudavam, ameaçando de seqüestro, e outros terrorismos. Ligações para pais de amigos de meus filhos aconselhando- os a não deixarem os filhos deles andarem com meus filhos. Vigia ostensiva, aberta e declarada. - Minha mulher é atropelada, na calçada, na Barra da Tijuca, por uma motocicleta, na tentativa de arrancar de suas mãos (um pacote com) documentos e informações que iam ser entregues pessoalmente ao Hélio Fernandes, para consubstanciar notícias que seriam veiculadas pela Tribuna da Imprensa. 1 1/08/88 - “Rede Globo é um caso de polícia Procurado pela reportagem da Tribuna, o Procurador da República no Rio de Janeiro, Celso Passos, não quis comentar as declarações de Romeu Tuma, nem justificou sua fuga ao caso. Alguns conhecidos advogados crimin_alistas foram contactados pela Tribuna para que dessem suas opiniões a respeito dessa fabulosa rede de corrupção que se formava, envolvendo as maiores autoridades do País. George Tavares não quis comentar alegando não ter por hábito comentar sobre casos em que não esteja atuando. Evandro Lins e Silva disse que não poderia dar entrevista por estar com o carro estacionado em local irregular. Evaristo de Moraes e Técio Lins e Silva "não foram encontrados". Nilo Batista, ex-Presidente da OAB, ex-Secretário de Polícia Civil, com desassombro e sem qualquer dúvida falou: O caso é cristalino: tem que ser apurado. É crime. É uma questão policial. Não há por que fugir disso. O grotesco da situação: Romeu Tuma foi à Globo (segundo informações, para pedir orientação de como proceder) e falou com Boni e Roberto Marinho. Porém, antes disso, havia almoçado, no "Mosteiro", com ninguém menos do que o contraventor-doutor-Castor de Andrade, conforme notícia em 11/08/88, pág. 9. E dessa Associação de Bandi- dos-Traficantes-Bicheiros-Polícia Federal- Rede Globo, sobrou foi para mim, sob a forma de pressão, ameaça, chantagem e canalhice. 1 3/08/88 - “Fraudes na 'Afundação' não são apuradas. " "Organizações Globo: impunidade continua. " Os criminalistas Nilo Batista e Paulo Goldrajch voltam a repetir que o caso da Globo é pura e simplesmente de polícia. Nada justifica a 50
  49. 49. omissão. Mas, no entanto a polícia não faz outra coisa a não ser omitir-se. Indo quase diariamente à Polícia Federal, os repórteres da Tribuna não dão descanso. Cercam o porta-voz Geovani Azevedo de todas as maneiras, que uma hora manda dizer que está no "toilete", outra que está em reunião fora, e subitamente os repórteres ficam sabendo que ele havia saído pelos fundos da sede da Polícia Federal na praça Mauá. (Um delegado fugindo pelos fundos. .. Só mesmo Roberto Marinho é capaz de urdir um acumpliciamento desses. ..) O pânico passa a ser o trivial simples. Praticamente as mais altas autoridades do País estão subjugadas, inertes, impotentes, e a renitência com que a Tribuna tratava o caso, não retirando-o das manchetes, levava "honrados senhores de bem" à loucura. Até que surge uma versão fantástica sobre como "eles" pretendiam intimidar-me, já que o caso não iria terminar por bem: iriam jogar os bandidos que o Castor de Andrade controla através do jogo do bicho (e narcotráfico) para intimidar- me ou até eliminar-me, se tivessem oportunidade e competência para isso. E o mais louco e surrealista de tudo é que o maior amigo (irmãozinho) do Castor é quem o havia traído (denunciando-o a Polícia Federal) para que ele ficasse com ódio, pensando que havia sido eu, e partisse para cima de mim como um celerado. Loucura? Surrealismo? Não sei. A história é fantástica demais para ser verdade. Mas sobrou para mim e eu não morri nas mãos dos bandidos contratados por eles por pura sorte, aliado à ajuda de uns "caros amigos" que vigiavam os que me vigiavam. Se a história é delirante, fantasiosa, que jamais o Boni iria trair o Castor e que isso era uma história só para ele me pegar, tudo bem. Mas que é inexplicável que tenha acontecido o que se segue, isso é. .. Quarta-feira, dia 10/08/88 - Romeu Tuma almoça com Castor de Andrade no Mosteiro. À tarde Romeu Tuma vai à Globo e conversa com o Boni. Quinta-feira, dia 11/08/88 - Hélio Fernandes publica o encontro da contravenção com a Polícia Federal. (Castor x Romeu Tuma). Sexta-feira, 12/08/88 - A Polícia Federal estoura o Cassino Barão de Drumond no km 93 da Rio-Petrópolis e prende Castor de Andrade. (Prejuízo = um milhão de dólares). Sábado, dia 13/08/88 -Todos os jornais noticiam a prisão do Castor. E em seguida o Boni vai à Polícia Federal levar pêsames e flores ao Castor. ..
  50. 50. A verdade? Fica por conta de cada um. Mas que sobrou para mim. .. isso sobrou. .. E foi no meu lombo, cidadão, que isso arrebentou. 15/08/88- “O procurador-geral da república; o ministro da justiça; o superintendente da polícia federal; o procurador da república no Rio; o secretário de polícia civil do Rio; todos responderão a ação popular por terem encoberto Roberto Marinho. " Com essa manchete a Tribuna da Imprensa nomina um a um os envolvidos, por omissão, com as falcatruas da Rede Globo. É o escândalo dos escândalos. Nunca um escândalo envolveu, de uma só vez, tantas altas autoridades. 16/08/88 - "Polícia Federal nada fala sobre as fraudes na "Afundação". O superintenente da Polícia Federal, Romeu Tuma, o "xerife" do Brasil, cantado e decantado em prosa e verso como um homem de ouro, com direito até a programa especial na Rede Globo, enaltecendo suas qualidades, é colocado contra a parede num xeque-mate mortal. Questionado publicamente, a ele não resta outra saída a não ser fugir dos repórteres da Tribuna da Imprensa e buscar abrigo seguro na Amazônia, apagando fogo; pulando a fronteira atrás de bebê foragido, ou indo até Israel para ver se via alguma criança brasileira que eventualmente tenha sido adotada de maneira irregular. (A maneira mais eficiente de sair do País: "a serviço". quando não estava almoçando com o Boni ou com Castor de Andrade. ) 1 7/08/88 - “Deputado pede CPI para apurar os crimes da Globo" O deputado federal Paulo Ramos articula a coleta de assinaturas necessárias para a formação de uma CPI para apurar os crimes denunciados no "Afundação I", e de imediato conta com a simpatia e apoio de Dirce "Tutu" Quadros, Vladimir Palmeira, Luiz Alfredo Salomão, Jamil Haddad e Carlos Alberto Caó, entre outros. 52
  51. 51. 18/08/88 - "Polícia Federal já deveria ter apurado os crimes da Globo. " Com a Polícia Federal em pânico com as denúncias e com as cobranças quase que diárias feitas pelos repóreres da Tribuna da Imprensa, que não largam do pé da polícia e cobram providências (a prevaricação é explícita), a tensão aumenta a cada dia. Agora os bandidos não se contentam mais em esperar-me na rua para me seguir. Atrevem-se a entrar no condomíno onde moro, burlando a segurança (que não serve para nada mesmo), e passam a rondar, abertamente, a minha casa. O pânico dos bandidos era tão grande que eles estavam me vigiando e nem imaginavam que estavam sendo vigiados também, por vários "caros amigos" que identificavam um a um os bandidos (mais a seguir existe a relação de alguns dos bandidos e dos aprendizes de feiticeiros que foram incumbidos de fazer um serviço para o qual não tinham a menor capacidade). 19/08/88 - "Quase pronta a GP¡ para apurar os crimes da Globo". O deputado Paulo Ramos consegue, finalmente, as assinaturas para a formação da CPI, mas Roberto Marinho começa a manobrar (a palavra certa é essa? ) para que parlamentares que haviam colocado o nome subscrevendo a CPI, retirassem seus nomes. Vira brincadeira de ioiô. Um dia Paulo Ramos tem as assinaturas. No outro, alguns parlamentares pedem para retirar suas assinaturas. É um trabalho de paciência. (Ter que superar a corrupção. ) 20/08/88 - “ABl - Associação Brasileira de Imprensa - também evite falar da Afundação. " Incrível. Um órgão como a ABI, que não teve medo de lutar contra a ditadura, curva-se diante da corrupção que envolve a Rede Globo. É a página mais negra da história do jornalismo no Brasil. Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABI, declinou explicitamente: "Não posso falar de denúncias contra um companheiro e sócio, como é o caso do Sr. Roberto Marinho". Companheiro e sócio? É isso que é o jornalismo no Brasil? Um clubinho de "companheiros" e "sócios"? 53
  52. 52. Paulo Sérgio S. Barros, chefe de Redação da Tribuna da Imprensa, envergonhado e irritado deu a ordem: É verdade? É notícia? Publi- quem. .. (E arranjou uma nódoa permanente na biografia de Barbosa Lima Sobrinho. ) 23/08/88 - "OAB-RJ pode intervir para processar Roberto Marinho". A "valorosa" Ordem dos Advogados do Brasil, RJ, que outrora desafiara militares, durante a ditadura, e até defendeu presos políticos, fez o que era de se esperar: dizer que todas as autoridades citadas poderiam responder criminalmente pela omissão e acumpliciamento em relação aos crimes que estavam sendo denunciados e acobertados publicamente. Até aí, tudo normal. Só que a postura da mesma OAB-RJ, mais tarde, viria a ser de acumpliciamento, também. Mostrando que honestidade tem limite. .. e preço. Quem diria. .. um dia alguém poder dizer, desassombradamente que quando implicou condenar Roberto Marinho, por crimes publica- mente denunciados em livro, com documentos anexos ao próprio livro, não restou uma só instituição capaz de manter a dignidade. Todos se acumpliciaram e silenciaram vergonhosamente. Honestos. .. até certo ponto. OAB-RJ, ABI. Quem diria. .. 25/08/88 - "Receita vai apurar os crimes da Globe. " A temível Receita Federal, ameaçadora na figura do "leão", que covardemente solapa e espolia a classe média, ameaça a Rede Globo com uma devassa. Mas como tudo se trata de crime claro, comprovado, documentado, a Receita é obrigada a se dobrar, recuar e se fingir de morta. E com isso vai se alinhavando o maior dos escândalos de todos os tempos. A maior ciranda de corrupção jamais vista em toda a história do Brasil. 31 /08/88 - "Romero diz que o curador sabia des crimes da Globo. " Não acreditando no que presenciavam, os repórteres da Tribuna da Imprensa checam cada informação, procuram ouvir cada autoridade citada ou denunciada, e assistem, bestificados, à fuga da Polícia Federal, da Receita Federal, da OAB, da ABI. .. enfim. .. todos fogem. 54
  53. 53. Até que o curador de fundações, procurado pelos repórteres, resolve criar uma nuvem de desconfiança, dizendo que não sabia de nada, que estava tomando ciência das denúncias naquele instante, etc. E quando os repórteres procuram-me para contestar ou não as declarações do curador, eu desminto, categoricamente, o curador, mostrando que mais do que mentiroso ele era participe, conivente e que sabia de tudo. Diante disso, não restou outra alternativa ao curador que não fosse a mesma dos demais: fugir. 01/09/88 - "Navega (procurador) fala hoje sobre crimes da Afundação. " Parece sério, não é. .. Fale a verdade, leitor: se você Iesse uma notícia dessas até acreditaria tratar-se de uma inquestionável verdade. Não é mesmo? Agora, adivinhe o que é que aconteceu no dia em que o procurador disse que iria tomar as providências? 02/09/88 - "Procurador também foge da Afundação. " Éo escândalo dos escândalos. Jamais a corrupção foi tão encadeada, tão deslavada, tão pública. Todos os homens tidos como sérios ajoe- lhavam-se diante de Roberto Marinho. É o maior mar de lama de toda a história do País. 06/09/88 - "Afundação usou o nome de Varese. " Irritados com a fabulosa rede de corrupção, os repórteres da Tribuna passam a conferir cada denúncia do livro. E como uma das denúncias dizia que diretores da Fundação Roberto Marinho pegavam cartões de apresentação em lojas comerciais e depois transformavam esses cartões em "papel timbrado" (através de cópia xerox), falsificando concorrências, os repórteres foram até uma das lojas citadas, a "Varese", e o presidente da empresa, Sr. Paulo Khalil, confirmou integralmente as denúncias, dizendo que a Varese tinha sido usada e que jamais havia participado de tais "concorrências". Estelionato. .. é o menor dos crimes da Afundação. 07/08/88 - "Pronta a CPI contra os crimes da Globo. " O deputado federal Paulo Ramos consegue, novamente, a quantida- 55
  54. 54. de de assinaturas suficientes para a formação da CPI da Fundação. Mas, ainda estava longe de imaginar que Roberto Marinho iria utilizar todo poder de corrupção para obstar a CPI que poderia condená-Io à cadeia. E, de fato, o deputado Paulo Ramos descobre, mais tarde, que ele podia fazer tudo ou quase tudo, menos colocar Roberto Marinho atrás das grades, conforme previra o criminalista Paulo Goldrajch (por mais de 20 anos). 08/09/88 - "Polícia Federal está na caixinha da Globo. " Tremi. Confesso que tremi. A notícia era uma espécie de anúncio do apocalipse. Quando saí de casa, como fazia habitualmente para comprar o jornal 'logo cedo, vi que havia algo estranho, muito estranho. Os bandidos que me vigiavam noite e dia, diae noite (Polícia Federal, bicheiros, traficantes, assassinos profissionais - só não identifiquei nenhum juiz. Afinal, eles costumam agir no fórum) estavam todos lá, mas de uma maneira muito esquisita. Caminhe¡ mais ou menos normal, embora estivesse tenso, pois o clima era de maior tensão do que os demais. Eu ainda não havia lido os jornais, e não sabiaa razão daquele aumento brutal de tensão. Era como se os bandidos fossem me matar naquele dia, às claras, enquanto me encaminhava para o ponto de ônibus. (Na época eu só andava de ônibus, deixando o carro em casa, pois sabia que se eu dirigisse um carro, um só que fosse, e os bandidos iriam me prender e plantar tóxico em mim para que um desses juízes de aluguel me condenasse imedi- atamente. ) Vi os bandidos e uma certa aflição (tipo entrar todo mundo correndo em seus carros - eram vários), a ponto de eles não perceberem que estavam, também, sendo vigiados por "caros amigos" meus. Apesar disso, a impressão que dava, nesse dia, é que eles haviam perdido todas as estribeiras e que iriam me matar de qualquer maneira. Só quando cheguei na banca de jornal e Ii a manchete é que pude entender o nervosismo deles e a tensão de toda a história. Nesse dia ganhei direito a um sofisticado aparato: parabólica, helicóptero e ultraleve. (O interessante é que os bandidos imaginaram intimidar-me ao criar um aparato logístico e acabaram me descontraindo e provocando boas risadas, como há muito eu não dava. Pois, colocar 56
  55. 55. um helicóptero o dia inteiro sobrevoando a minha casa e dois ultraleves passando por cima da minha cabeça era o cúmulo do ridículo. E só quem sabe como esses bandidos são vagabundos e chinfrins pode imaginar o ridículo daquela situação. ) E por tudo isso, eu ri. Ri como não ria há muito tempo. O Hélio Fernandes tinha ido ao extremo: colocará na primeira página que a Polícia Federal era corrupta (e é verdade), que estava na caixinha da Globo (e é verdade). Eu jamais havia imaginado que um dia isso pudesse acontecer publicamente, e pior: que a Polícia Federal se juntasse aos bandidos e ficasse quieta, engolindo isso a seco, em nome da proteção a Roberto Marinho. Em qualquer país do mundo alguém estaria preso. Eu, por denun- ciar, apesar de ser verdade. Hélio Fernandes, por constatar a realidade e mandar publicar na primeira página da Tribuna da Imprensa. Roberto Marinho e Boni, por corromperem tão altas autoridades. Romeu Tuma, por se acumpliciar atudo. Mas nada acontecia. A mais fabulosa rede de corrupção estava instalada, de vez, no Brasil. O resultado disso tudo. .. o leitor seria capaz de adivinhar? Não vale dizer que Romeu Tuma estava se escondendo e fugindo do País, que isso já foi dito anteriormente, e virou um costume na vida dele. (Tanto que quando ele foi convocado a depor na CPI da NEC, contra Roberto Marinho, "coincidentemente" ele se viu obrigado a ir aos Estados Unidos a trabalho e não pôde dizer, de viva voz, sobre o que ele sabia a respeito do contrabando da NEC que havia sido pego). Nem dizer que o delegado da Polícia Federal e porta-voz Geovani Azevedo se escondia em toilete, saía pela porta dos fundos da Polícia Federal, porque isso também já foi dito anteriormente. O que aconteceu, leitor, é que "coincidentemente" o delegado Geovani Azevedo foi agraciado com a medalha Pedro Ernesto, por iniciativa da vereadora Ludmila Mayrink, por relevantes serviços pres- tados (a quem? ). A vereadora Ludmila Mayrink, por "coincidência" era "jurada" do programa do Chacrinha, na Rede Globo, e por "coincidência" casada com o juiz Álvaro Mayrink que, por "coincidência" viria atuar contra Hélio Fernandes. (Mas isso é um outro capítulo. ) Por enquanto não é o caso e hora de analisar as coincidências envolvendo Hélio Fernandes, a mim, Roberto Marinho e o Judiciário (isso é um capítulo próprio do livro). Agora é hora de falar sobre 57
  56. 56. bandidos de rua (só os de rua), desses que matam, intimidam, dão recado. Dos escroques que celebram pacto com os de sua Iaia. O pacto do submundo com os “honrados homens de bem". Como se fosse um desfile de carnaval, onde os bicheiros, trafican- tes, assassinos e socialáites se confraternizam num baile de iguais, a porta da minha casa virou um festival. Faltavam somente os mandantes, porque os bandidos mais vagabundos estavam ali. A escória. E o maior perigo é que, hoje em dia, qualquer vagabundo tira a vida de uma pessoa por um tostão. A cotação da vida na bolsa de valores está terrível. Mata-se por qualquer coisa. E a minha, naquele instante, valia nada. Tranqüilizava-me ver policiais em carros roubados ou com chapa fria, pois sabia que com profissionais o caso seria diferente. Mas, quando o grosso era formado por vagabundos pés-de-chinelo, aí a coisa mudava de figura, pois retaliar em cima dos netinhos do doutor bicheiro não era bem o que eu imaginava como uma troca justa. E isso poderia ser precipitado por qualquer traficante serviçal do bicheiro com QI um pouco acima de ameba, que poderia achar muito simples acabar com uma vida e pronto, e, sem saber, desencadear uma "guerra" de proporções terríveis. Quando eu soube, por informantesjunto ao bicheiro-irmãozinho, que ele e família (eles têm familia. Só esquecem disso) iam almoçar numa churrascaria na Barra da Tijuca, mais precisamente no Casa Shopping, eu fui até lá, até como uma forma de mostrar, cara a cara, o quanto ele era vulnerável e não sabia, e que era estúpido o que os empregados dele estavam fazendo. De fato, como se fosse um "capo" desses de filme americano sobre máfia, lá estava ele, sentando em uma longa mesa, com a "familia" e a familia. Um alvo fácil demais, frágil demais, imaginando-se o super- homem, e subitamente me reconheceu quando eu já estava sentado em sua frente há mais de dez minutos. De nada adiantaram segurança, proteção, os cães de guarda armados na porta e dentro da churrascaria, porque, se tivesse que ser ia todo mundo junto de uma vez só. (Eles esquecem que mão dupla existe em tudo na vida. ) ironicamente levantei um copo de vinho, como numa sauda- ção, e almoçamos olhando um na cara do outro, sem que a maioria das pessoas que acompanhavam o bicheiro-"irmãozinho" 58
  57. 57. percebesse o que estava acontecendo. Após o churrasco, delicioso, por sinal, levantei-me: peguei um filho meu em cada mão, fiz um leve cumprimento com a cabeça, como que mostrando que o recado estava dado. Era eu e estava acompanhado, mas podia não estar. Era eu, mas podia não ser. (E mais tarde, pelos jornais, em artigos, eu deixei bem claro que tudo que eu fazia eu assinava embaixo. Jamais fiz o que fosse anonimamente. Portanto, se ele estava sendo preso a toda hora e se tinha passado carnavais em cana, eu não tinha nada a ver com a história. Quando eu o chamo de bandido, de bicheiro, traficante, eu digo e assino. Não havia por que fazer o que quer que fosse, anonimamente. ) E para mostrar como eram vagabundos e pés-de-chinelo os caras que foram enviados para me vigiar e o risco que era enviar uma corja para fazer o que eles nem bem sabiam direito, eu os identificquei e 'publiquei na Tribuna da Imprensa a placa de cada vagabundo que me vigiava e não sabia que estava sendo vigiado. - Chevette bege - Placa 1984 (Por motivo de força maior nenhuma letra precedente ao número da placa será citada) - Arthur, aprendiz de bandido, mora na travessa Teodomiro Pereira, em Jacarepaguá, foi o único escroque morador do local enviado para me vigiar. Os demais eram lá das terras do bicheiro-"irmãozinho”: Bangu (lembrando que a Mocidade Independente não é bairro, é só escola de samba), Santíssimo, Campo Grande, Sepetiba, S. J. Meriti, Irajá, Jacarezinho, e de localizações maravilhosas: favela da Cachoeira Grande, favela Nova Holanda, favela do Jacarezinho, etc. Fiquei emocionadíssimo ao saber que vinha gente de tão longe só para passear em Jacarepaguá, e mais precisamente na porta da minha casa. De lamentável, só o fato desse aprendiz de bandido, mal saído das fraldas, do Chevette 1984 (é a placa. Não e o ano de fabricação do carro não), que resolveu atrever-se mais do que os outros, subornando a segurança do condomínio onde moro (que é bem vagabunda, diga-se de passagem) e espantosamente, imprudentemente, passou a tentar vigiar-me o mais perto possível. Gesto esse que não foi muito bem interpretado e compreendido por “caros amigos" meus, que vigiavam os bandidos, e por pouco, por muito pouco, esse garoto bobo não teve uma estúpida morte "acidental", por “acidente de trabalho", não fosse uma intervenção rápida, impedindo que ele fosse premiado. 59

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