Dacostureira

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Dacostureira

  1. 1. O filho da costureiraMonólogo experimental e terapêutico Para Willian 1
  2. 2. Cenário em penumbra e gélido com vários manequins sem cabeça ebem vestidos, como noivas de luto, as mãos arrumadas para abraçar,inclinadas, de frente para a platéia, para acolher um corpo - nem donoivo, nem do filho. Caem rendas no palco. Alguém sentado atrás dosmanequins, em uma cadeira de balanço. De início, apenas o ranger dacadeira. Após, uma risada que continua sonoramente tomando conta doespaço até que o ruído de um corpo que cai se faz ouvir. Som surdo eforte. Silêncio. 2
  3. 3. (com voz rouca, forçada) Todos sabem, garoto, todos aqui sabem, não émesmo ? Não adianta mais se esconder ou fingir de morto. Saia já daí,meu filho, o filho da mamãe. Sai de perto dela, dessa que nunca maisvai voltar (Ergue-se e fica atrás da cadeira, segurando-a,movimentando-a. Voz adocicada e familiar). Você está aí, eu sei , nãoestá ? o queridinho ... vem prá cá, pertinho, tenho umas roupinhas právocê, roupinhas prá provar, que não são suas, uns vestidos de festaque você não vai usar, umas blusas para o próximo inverno, um calorpara outro corpo, um inverno que você não vai ver, aqui, sozinho e comfrio, trancado dentro de casa até mamãe voltar (Sai de trás da cadeira ecaminha entre os manequins. Voz irritada com desejo fazer mal aalguém). Você está aí, não é mesmo? Em alguma das roupas que acostureira fez para todos nós e não entregou... No fim do ano, há tanto 3
  4. 4. tempo, éramos jovens e queríamos casar. A cidade era menor quenossos sonhos, moços e moças escondendo seus rostos para que a dore o choro os matassem mais rápido. Maldita a mulher, maldita acostureira, que se vingou de todos nós na grande festa! (Voz outra,como elogiando a qualidade de alguém). Dona Juraci tem bom gosto,vestiu a cidade inteira, desde quando não sei! Encobriu os corpos detodos desde sempre e continuará a cobri-los até o fim! (A voz de ira,novamente).Dona Juraci, Dona Juraci, sabemos que está em casa. Omedo do filho escutamos, o menino seu, sem pai e sem amor. Nóssabemos que dormiu com os homens de nossas mães, sabemos os quedormiram com Dona Juraci, sabemos de tudo há muito tempo atrás.Queremos que faça as nossas roupas. Depois disso, vamos embora. Asroupas para a festa queremos, o último pedido, as roupas mais lindas,doze vestidos para os jovens que querem casar no próximo ano. 4
  5. 5. Maldita, maldita mulher, a única costureira dessa cidade, dona Juraci, aamante de nossos pais, Dona Juraci, que mediu e apalpou todos corposde homens e mulheres, moços e velhos. Todos os que respiram forampor ela vestidos e tocados, e somente ela nos viu nus. Dona Juraci,maldita, abre essa porta, esconde teu filho, costura nossas vestes, parede dormir (Ruído de um corpo que cai, forte e surdo). Você está aí,garoto, não é mesmo ? Menino mau, malvado, que espiava os que iampara o quarto de sua mãe, os que iam pelas roupas ou não (Começa aandar por entre os manequins e sacudi-los). Menino mau, bisbilhoteiro,aos sábados à tarde, em dia sem sol, andado pelos corredores da casa,os gritos da mãe... “mãe, mãe, abre a porta, abre a porta, mãe. Mãe.Estão matando minha mãe. Não me deixe aqui, no escuro, eu não tenhoirmãos. Abre a porta, você não pode morrer” (Sonora gargalhada comoantes). Menino mau e burro, sua mãe estava costurando, fazendo roupa 5
  6. 6. para fora, mexendo as cadeiras, a enorme anca, a cama rasgando ochão, o teto girando de prazer também, fazendo um filho, mais ummenino mau e burro (Gargalhada). E nós, maldita, em nossas tardes deespera, o grande dia se aproximando e ainda nus. De todas as cores osolhos te deram a luz, de todas os panos as mãos te deram o dom. Dozealmas esperam a noite fatal na qual brilharão mais que as lâmpadas dasbodas, doze almas esperam o assombro do mundo parando de dançarpara nos ver acima do jantar e da orquestra. As mães com seus maridoslargarão os passos das danças batendo palmas em seus sorrisos. Osolhos nunca mais se fecharão - engastados em nós, serão as bijuterias,os diamantes, colares e brincos para nossas almas vestidas que nãogemem mais. As doze almas aguardam, dona Juraci, que deixe demorrer na cama para cumprir outra a sua obrigação (Arranca e rasga aroupa de um manequim). Essa roupa não, é de mulher, mãe, essa eu 6
  7. 7. não visto, é de mulher morta, de mulher sem filhos e sem marido. Assolteiras deviam morrer, elas sempre ficaram sem ninguém, os enormesolhos rodopiando entre os cômodos de uma casa vazia, os corredores eas paredes sendo engolidos pelo chão, tudo, enfim, deixando de ser ,para virar sepultura sem jardim, para a mulher que não teve filhos e, seos teve, perdeu enquanto tudo caia, enquanto eles não vinham, quandoas carnes se escondiam nas velhas roupas das sombras da noite, doisolhos enormes vendo as coisas em volta terem peso e suor. Não mãe,não vou provar a roupa dos mortos, as que vestem os nus para sempre,com cheiro de terra quando chove, um medo dos raios, de não ver maiso sol e o dia que nasce. Não me bata mais, mãe, traga seus homensque eu deixo, mas não me dê o luto, o luto que não é meu (Gargalhada. Ergue-se, tonto, tropeçando entre os manequins quecaem, em cólera, os olhos saltando da face, gritando). Ela, a louca - de 7
  8. 8. ferro e náusea o seu rosto, a que nos levou e trouxe primeiro, longedaqui para que viéssemos. Um altar em cada casa, um espelho emcada penteadeira. Não a louca, a que não ama e nos quis - louca, muitolouca na noite em que acusava nos chamando pelo nome. Se o ar umdeus nos roubasse, mesmo assim tudo seria inútil, inútil fugir dela, paraonde... Louca, louca, louca e tão nossa, os dedos já sem carnes, asunhas com os restos das peles dos corpos que devorou. Bebe de tuaboca o teu retiro imediato, a prisão que te faz retornar - ela, a louca, aque odeia as crianças correndo pelas ruas, a que nunca mais vai dormira não ser por cansaço, de tamanha dor, da dor maior que existe, entreas loucas a maior, a maior loucura, e ela, a louca, sabe disso melhor (Muda a voz, como “cansada”, chorando) que eu, em busca de seu filho,o que não pôde ter, os que morreram antes do parto, em seu ventre ,sob as águas, lavando-se as mãos apalpando seu sexo esquecido, no 8
  9. 9. banheiro, as portas fechadas, frias e fortes as águas, na cabeça de umcorpo que cai em sua tontura, na fria e dura pedra do chão. Cabeçapartida num sonho bom, que cego ficou para o resto da vida maldita,Dona Juraci morta para sempre ainda menina, nua entre o úmido docorpo e o úmido do banho. Frio e calor. Demais até para ela, a louca,para o menino sem mãe, para o filho da costureira (Levanta-se e puxaum manequim que sai arrastando. Voz de procura com ira). Você estáaí, não é mesmo ? Onde estão as roupas, menino, as que eram paranos vestir, as que sua mãe fez para nós, as doze almas? Somos maisde uma para cada dia, sem descanso e moramos perto. Menino mau esem ninguém, escondido entre os soluços de uma infância que teroubaram. Lá fora, não, brincar com os que eram mais fortes que tumesmo e sabiam falar. Não tinham as mãos furadas das agulhas quetua mãe te obrigava segurar, nem tinham roupas feitas de sobras de 9
  10. 10. outras roupas. Eles poderiam dormir e ter filhos e comer e se lavar semmedo, sem ouvir a casa rangendo a noite inteira na costura e no amorque é segredo e mentira. Um mais forte que tu, lá na rua, tiraria tuascalças mostrando o resto do corpo cheio de manchas e rasuras, ummenino sem serventia, mau, nem menino, nem menina, carregando deum lado para o outro o que de manhã virão buscar. Não toque nisso, tireas mãos do tecido, não chore, tome essa agulhada, não respire, nãoexista, não me olhe, não tenha a própria raiva, menino mau e burro(Gargalhada). Um dia, ela achou teus escritos, debaixo da mesmacama, a cama das visitas que não pagam, o cheiro dos que não vãonascer nas cobertas e nos móveis. Um papel, com a letra do filho dacostureira, confessando seu ódio por Juraci, sua mãe, debaixo da cama,um “eu te odeio” escrito de várias maneiras, com restos de panos queem sua curta vidinha sem porquê recolhia do chão e do lixo. “Eu te 10
  11. 11. odeio” com letras recortadas do tergal, do linho e da lã. “Eu te odeio”colorido, com letras dos mais variados tipos e tamanhos. “Eu te odeio”colado no papel rasgado que embalaria nossas encomendas (Pára dearrastar o manequim, ajoelha-se como se falasse com ele, espancando-o). Ah... na cama de ferro com grades te fizeram mulher e mãe, na casados loucos acima e abaixo, antes e atrás. Mulher miúda e arqueada,como se quisesse cair sem poder, deixando as bonecas vestidinhasjunto com a criança que se foi, que ficou brincando com os insetos nojardim. Tome, mulher, tome o que a vida pode te dar - um momentointenso e único com gosto de sangue e vício, a redenção na carne pelador, essa mão espalmada que descobre as entranhas de tua almadebaixo do que os pêlos puxam prá si. Roda o mundo em teu altar, umfilho virá da quem não teve homem, só os loucos , as doze almasquerendo os frutos da promessa antes que a comida do jantar esfrie e 11
  12. 12. os convidados voltem para os armários. Um filho virá relembrar que nãohá lugar algum como este, uma cidade que se diz nova ano após ano,novos casais para que hajam novos casais, nova a vida em cada olharque se despede ao fim do baile, da consagração de nossos favores, afesta da raça que não pede perdão. Roda o mundo e caem as vestes,os homens sentem que são manequins vestidos pelas mãos de outrem,as mulheres encontram sua nudez no plástico de loja de sua cara-corpo-vitrine. Aí estala a dança de verdade , tudo caindo brutalmente nochão frio dos que apagam a memória das coisas e sabem que nãoexistem mais (Levanta-se e anda por entre os manequins caídos. vozde procura ). Por isso, é preciso encontrar o filho da costureira em cadacanto dessa sala, o menino curioso e burro que viu sem saber o que via,que viu a mãe perder-se em seu eterno trabalho, os espososencontrarem seu prazer espúrio, os jovens da cidade trancados no 12
  13. 13. ímpeto de sua investida. Ah, a louca, em ferro e panos costurada,menor que o menino que te odeia. Ele, o louco, que esperou teu sangueescorrer em suas próprias mãos de filho, que rasgou os panos e o medoe te fez breve o banho último. O celerado, o que não pode com asgentes, menino mau que não gosta dos bichos, que come a terra que osoutros pisaram (Como se fugisse de algo por entre os manequins,escondendo-se, alternando as falas e os sentimentos de perseguidor eperseguido).Você está aí, eu sei, não é mesmo ? As doze almas, osdoze vestidos, os doze casamentos... eles chegaram, nos viemos, euvejo, eu vejo... Acorde, mamãe, pare de moer seu triunfo, asencomendas, a grande festa... Diz, prá mim, fala comigo, garoto, vocêacreditava que não entraríamos em sua casa, revirando os quartos, oshomens de nossas mães surpreendidos (Gargalhada. Procurando juntare erguer os manequins). Me ajudem, me ajudem... Mãe, eles vieram, 13
  14. 14. não fui eu quem fiz isso, não os trouxe, não te matei, não levei todospara meu quarto sozinho e vazio (Choro miúdo. Ele veste-se com umadas roupas dos manequins, largando-os e se dirigindo para a cadeira debalanço. Silêncio. Ruído de um corpo que cai, surdo e pesado. É maisfrio que antes. Vestido com as roupas rasgadas, ele se balança nacadeira, fazendo ninar um dos manequins sem braço, o que lhe caiudurante os movimentos anteriores. sussurra entre os lábios fechadosuma canção de ninar sem palavras e desconhecida mas infantil).Dorme, querido, dorme filho que nunca quis ter. Esquece que estamosaqui para nunca mais sair, presos a esta fantástica visão que nos tomae leva. Triste é ouvir canções e não saber cantá-las... E eu nunca quisser mãe. Eu poderia beijar teu corpo se ele não estivesse tão frio, medoem os lábios, dói o corpo inteiro ainda, é o que lembro, é o que chegaem meus olhos, o último momento, as tuas mãos a tesoura, alguém não 14
  15. 15. vive mais. Só não sei se foi antes ou de depois de você nascer, da noitede amor, antes de mim. Eu não era para ser ela, a que veste oshomens, a que tem uma casa com pouca luz. Eu queria ser uma estrela,famosa, com dentes brancos, brancos e morrer mais jovem do quenasci e sem dor e filhos. Eu queria ser a que chega tarde e está emtodos os lugares. Clara, Clara, Clara demais. Aí veio o corpo, e a vida ea tesoura (Silêncio). Clara ainda está chamando, não meu nome, elasomente, a que nunca voltará. Quando Clara não voltou, os galospassaram a gritar nas madrugadas sem pessoa. Na grande cidade, semfestas e canções, galos em soluço de condenados, eles existem,escondidos entre os que pedem pão, menos Clara, a que queríamosescutar. Os galos, loucos, marcam o fim da noite novamente outra, eClara não chega, eles sabem. Não posso dormir, Clara virá, eu sei maisque todos, o dia nascendo entre os gritos das aves e o silêncio de 15
  16. 16. Clara. Clara chamando, ela, viva, com palavras, mulher de se ver epegar jamais. Quem escuta o coro da aves não sabe que voltei, quenunca saí daqui, que Clara sou eu, no fim das coisas, sujas as razões eo golpe para que eu caia. Não, eu não quero ser mãe, ser Juraci dasroupas e filhos do suor dos filhos, da dor dos filhos, dos homens-filhosque vão embora, que correm pelas ruas longe de mim. Por isso eu tematei, mamãe querida, a dos lábios das outras, a que beijava mulheres,em sua loucura. Tudo, mãe, tudo prá ser feito, menos as mulheres,beijá-las, medir seus corpos , ver o que não se pode ver , a visãofantástica erguendo-se por entre o cansaço dos olhos que não dormem,os meus, os teus, eu, o filho da costureira (Nova voz, agora de falar desi, o que sabe de si mesmo, o que se afirma de si, para se despedir).Um homem pode, mãe, pode muito, pode até deixar de viver, pode, simsenhor, um homem pode escutar os passos, conhecer o rosto de quem 16
  17. 17. geme, a boca de quem foge, o cheiro de quem não chegou ( Joga omanequim no chão e tira uma tesoura golpeando-o violentamente). Nãovai haver mais festa nenhuma, senão a distribuição de nossas culpas,não vai mais haver filho ou mãe, tudo acabou. Leve contigo essasmarcas, essas agulhadas, as mesmas, as que sabes fazer muito bem,as que entram dentro da gente e não saem , mãe, só as doze almasindo uma após outra, caindo, loucas pelo chão da casa, pelas ruas ,pelas estradas, tropeçando em si mesmas, em uma corrida para verquem chega antes do sol nascer, a algum lugar. Todos nus, comonossos ossos, com nossos ossos frios e pesados de um corpo que caijá não sei desde quando, desde mim, desde ontem, agora mesmocaindo, no imenso azul sem margens de um olhar que se fecha. Toma,mãe, leve contigo a mulher que nunca me quis, a única, a amada, asolidão sem pele e gosto. Montada em seu cavalo branco em uma 17
  18. 18. praça, nua, correndo, os homens e as mulheres fechados em suasvidas vendo tudo e gritando “lá vai a louca sem filhos e sem razão, vaiembora pro mal das eras.” ( Em off, ruído da cadeira gemendo,contínuo, outro de um corpo que cai, surdo e pesado. Após, seguem ode uma madeira se partindo, o de um tronco caindo sobre um chão, ode uma pedra caindo n’água, de uma folha de papel que se rasga, deum tecido que se rasga, de farelos , de farelos, enquanto cai também oato, jogando fora as roupas que não são suas. Vozes em off pré-gravadas pelo mesmo ator, lamentam e comentam, em gargalhadas: )-Sabe quem morreu:- Não .Quem ?- Dona Juraci (mais gargalhadas) 18
  19. 19. - De novo ? ela já estava morta (risadas)- Deve ter sido obra do filho, aquele mesmo menino maluco e sem pai .- Ninguém ainda descobriu quem era o pai do filho da costureira?(risadas)- Nem vão. Acho que todos nós temos um remendo dela guardadinho...(risadas)- Menino burro e doente (alternar entre as falas, risadas, as vozessumindo pouco a pouco uma após si.)- Os holandeses têm brinquedos.- Sofrer por antecipação. 19
  20. 20. - O Garçom é jovem.- Oito dias, oito dias me escutem bem.- A loucura é a normalidade dos atos aberrantes.- A falibilidade é estranha para a platéia.- Um homem só.- Resta-nos muito pouco.- Leve é o berço para quem dorme … 20

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