Soldado Joao

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Soldado Joao

  1. 2. Era uma vez um soldado chamado João. Vinha de sachar milhos, de regar cravos, de semear couves e manjericos.
  2. 3. Agora, toca a marchar, de espingarda ao ombro, mochila à cinta, botas de cano, farda a rigor.
  3. 4. Pelos campos fora, o soldado João era a vergonha dos batalhões. Trazia uma flor ao peito, punha as mãos nas algibeiras, coçava o nariz, não acertava o passo. E, para cúmulo, assobiava ou cantava modinhas da sua aldeia.
  4. 5. O soldado João continuava a marchar, feliz e desengonçado como se fosse à feira comprar gado ou ao mercado vender feijão . Bem lhe ralhava o sargento, o ameaçava o capitão, o castigava o general.
  5. 6. Mas tanto marchou o soldado João que chegou à terra da guerra. Todos os soldados carregaram as espingardas e fizeram pontaria...
  6. 7. Mas o soldado João achou indelicado não ir cumprimentar os colegas da outra banda. Pousou a arma, saltou a trincheira, avançou estendendo a mão.
  7. 8. Então os outros soldados, espantados, estenderam também a mão.
  8. 9. <ul><li>Ao fogo! – gritava o sargento. </li></ul><ul><li>Disparem! – mandava o capitão. </li></ul><ul><li>Atirem! – ordenava o general. </li></ul>Mas os soldados eram tantos que demoravam tempo a cumprimentar.
  9. 10. <ul><li>Foi o sargento buscar o soldado João, dizendo: </li></ul><ul><li>Rapaz, não te lembras que a guerra é para matar? Vou-te pôr em corneteiro, já que não tens jeito para atirador. </li></ul>
  10. 11. O soldado João pegou na corneta, ei-lo a soprar, e logo o fandango ecoou pelos campos fora, convidando à dança.
  11. 12. Sapateava a tropa, rodopiava, batia palmas.
  12. 13. <ul><li>Alto! – gritava o sargento. </li></ul><ul><li>Basta! – mandava o capitão. </li></ul><ul><li>Parem! – ordenava o general. </li></ul>
  13. 14. Arrancou o sargento a corneta ao soldado João e, zangado, propôs: - Vais para cozinheiro do exército. Ao menos aí não empatarás a guerra. Mal chegou à cozinha, foi buscar café. Arrastava pelas fileiras, fumegando , o enorme panelão, apetitoso, perfumado.
  14. 15. Aproximava-se de cada soldado, tirava-lhe o capacete, a fazer de malga, despejava-lhe uma concha de café. Amigos e inimigos, todos se deliciavam com tão inesperado pequeno-almoço. <ul><li>Ao vosso lugar! – gritava o sargento. </li></ul><ul><li>A postos! – mandava o capitão. </li></ul><ul><li>Perfilar! – ordenava o general. </li></ul>Tiraram a panela ao soldado João, enrolaram-no numa bandeira da cruz vermelha dizendo: - Já não és atirador, nem corneteiro, nem cozinheiro. Daqui por diante és enfermeiro militar.
  15. 16. Mal se viu na sua nova função, ei-lo a correr à procura de feridos. Viu um inimigo com um olho ferido e foi-o tratar. Viu um furriel com uma picada de abelha e num instante lhe arrancou o ferrão.
  16. 17. Notou que os dois generais coxeavam ligeiramente, descalçou-lhes as botas e pôs-se a rapar-lhes os calos.
  17. 18. Então o incrível aconteceu. Os dois generais rivais levantaram-se ao mesmo tempo e condecoraram-no com duas luzentes medalhas de ouro.
  18. 19. Como era noite, acharam que já passara o tempo da guerra, apertaram as mãos, partiram em paz.
  19. 20. O soldado João sete dias andou até chegar à sua aldeola, onde de novo sacha milho, rega cravos, semeia couves e manjericos.
  20. 21. FIM

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