A horta do sr lobo[1]

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A horta do sr lobo[1]

  1. 1. A horta do Senhor Lobo
  2. 2. Há muitos e muitos dias que o Senhor Lobo percorre a floresta, duma pontaà outra, em busca de um pedacinho de comida, mas sem resultado. Nem omais inocente e desprevenido passarito pôs o bico de fora do seu ninho, aofrio. Nem o mais simples e tolo bichinho se atreveu a mostrar a ponta do seufocinho.
  3. 3. “Estou esfomeado!”,queixa-se ele,enquanto caminhapor entre asárvores. A fomeobrigara-o a trincarumas tristesbolotas, duras comoo gelo. “Chega!
  4. 4. Estou farto”, exclama para sipróprio, enquanto engole umamiserável avelã. “Tenho de me OR-GA-NI-ZAR! Vou armazenar comida, em latas de conserva, no meu armário. De certeza que não serei o primeiro animal a fazer isso!”
  5. 5. O Senhor Lobo põe a cabeça afuncionar. E prepara-se para aobra. Para construir uma horta,são precisas ferramentas esementes. Ele encontra tudo issono armazém do agricultor. Atédescobre um velho chapéu dehortelão que lhe assenta nacabeça como uma luva. Depois, começa a ler e reler o Livro do Perfeito Hortelão, que o deixa a sonhar: a sua horta há-de ser a melhor de todas as hortas do mundo inteiro.
  6. 6. Todos os animais da floresta põem-se a espreitá-lo, cheios de curiosidade. O SenhorLobo revolve terra e mais terra. Depois, cava, semeia, rega, trata e monda. É umtrabalho muito duro, e ele sua como um porquinho. Além disso, nem sequer tem tempo deir à caça. Felizmente os rabanetes cor-de-rosa crescem muito depressa.
  7. 7. O Senhor Lobo fica maravilhadoquando os tomates e os pimentoscomeçam a amadurecer, quandoas ervilhas e os feijões crescemao longo das estacas e as gordasabóboras amarelecem, comobolas douradas.
  8. 8. O seu armário ficaa abarrotar decomida.De certeza que aoSenhor Lobo nadafaltará, no próximoInverno!E enquanto ele estáocupado a arrumare a cozinhar, ameter em latas deconserva ostomates e osvegetais para asopa, os habitantesda florestapasseiam por todoo lado, sem medonenhum.
  9. 9. Os animais nuncasentiram tanta paz nassuas vidas!É verdade: o lobo agorasó come vegetais.
  10. 10. Mas, de repente, numa certa manhã,tudo se altera. Um grito pavorosoressoa por todos os cantos da floresta,acordando-a: é o Senhor Lobo.
  11. 11. “Isto é demais!”, rosna oanimal, ferozmente. “Não voudeixar que me vençam!”Os seus olhos ficaram outravez negros e brilhantes. Ei, Senhor Mocho, venha cá! Olhe para esta porcaria! Alguém destruiu a minha horta durante a noite. Viu quem foi o bandido? Ai se o apanho!...”
  12. 12. “Deixe-me pensar!”, pia o mocho.“Não, não reparei em nada deestranho… vamos usar a cabeça. Devehaver uma solução inteligente para esteproblema.” A ave fecha os olhos por uns momentos e, depois, murmura algumas palavras junto das orelhas grandes do lobo.
  13. 13. O Senhor Lobo desaparece paradentro da sua oficina e, poucotempo depois, todos podemouvi-lo a serrar e a martelar. E,felizmente, ao entardecer, eleespeta na terra uma lindatabuleta de madeira, mesmo emfrente do portão da horta. Satisfeito com o seu trabalho, o lobo entra em casa, para comer uma saborosa malga de sopa de brócolos e, depois, reler um livro de aventuras.
  14. 14. Um coelhinho, bem pequenino, quase cai na vala ao tentarler aquilo que o lobo pintou tão cuidadosamente natabuleta. E imediatamente informa os outros animais queestão a discutir o assunto, na clareira.Ninguém repara no mocho que do alto dum pinheiro osobserva atentamente. “Não posso acreditar!”, grunhe orato.“Trazer sementes? Muito bem, tive uma ideia! O filho doagricultor vai regar o milho todas as tardes. Há espigas detodas as cores… vermelhas… roxas. Volto já!”. E, dizendoisto, desaparece.
  15. 15. “Que grandeideia!”, exclamou oAvô Caracol,acenando com asantenas.“Vamos levar-lhealgumas alfacesque logo voltaram acrescer mal secortam! Ah! Ah! Umcaracol asurpreender umlobo! Quem haviade dizer?!”. E,dizendo isto, ocaracol desapareceatrás da parede.
  16. 16. A luz suave da aurora toca levemente na horta. Primeiro, aparece uma espécie de ténue toalha de luzrosada que se deita mansamente sobre a relva e folhas e, pouco a pouco, os raios de sol pintam as florescom uma luz dourada. As pétalas, fechadas durante a noite, abrem-se suavemente e os girassóis viram-se lentamente para o céu.O Senhor Lobo abre as persianas da cozinha… e estremece de alegria.
  17. 17. Depois de dar umapenteadela ao seu pêlo,ele sai para a sua horta.Dirige-se, então, para aDona Coelha, que tremecomo uma folha aovento. Ela segura nasmãos um saquinho feitode papel de jornal.
  18. 18. O lobo cumprimenta-a com a sua delicada voz.“Bo-boomm-bom dia”, balbucia ela.“Trouxe-lhe estas sementes de rabanete preto.Está interessado?”“Claro que estou interessado! Os rabanetespretos são saborosos? O que hei-de oferecer-lhes em troca?”
  19. 19. “Nada. Ainda ontem tivemos de castigar o nosso filho por ter estragado a sua horta e mordiscado as suas alcachofras”.“Oh! Não era razãopara tal! Olhe, aqui temesta alface e estesrabanetes. Aquilo quecolhi chega para mim esobra! Além disso,acabam por se estragarse não se comeremlogo. E diga ao seu filhoque pode vir quandoquiser e até ajudar-mea arrancar as ervas.Negócio feito?”
  20. 20. Então, apareceram osoutros animais, cadaum trazendo tambémcoisas bem originais.“Se quiser, podemosvir todos ajudá-lo”,exclamam.
  21. 21. Durante o trabalho, cada um vai contando sobre o local emque cada um provou certa hortaliça pela primeira vez, ouonde colheu determinada flor, ou o melhor modo de asplantar, de as colher ou de as cozinhar.
  22. 22. A manhã voa tão depressa, tão depressa queeles ficam surpreendidos quando os sinos tocam,a anunciar o meio-dia. Apenas o mocho dorme abom dormir, no meio de doces sonhos.
  23. 23. “Quem quer almoçar Apenas dito, logo feito.comigo?”, sugere o lobo. O Senhor Lobo senta-se“Acabei agora mesmo de à mesa, acompanhadofazer salada e de pôr a pelos seus convidados,mesa. Almoçamos cá fora, para apreciarem umpois está um dia delicioso almoço.esplêndido!”
  24. 24. A tarde passou,veloz como umsonho. Logo, chega ahora de dizeradeus. Carregadosde ofertas, osamigos do SenhorLobo despedem-see vão-se embora.“Até qualquer dia,Senhor Lobo, eobrigada por tudo!”Atrás do portão, o Senhor Loboacena um adeus. Tudo lhe parecefácil de acontecer, nesta tarde.Todos os seus problemas, a sua máreputação, as suas caçadassolitárias, mesmo as suas mágoasquando as coisas não corriam bem- tudo isso pertence ao passado.
  25. 25. Ao fechar o portão, oSenhor Lobo olha para ocimo do enorme pinheiro: alua redonda parece umqueijo a sorrir para ele,enquanto se ouve o velhomocho a piar uma suavecanção.

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