Não há tristeza

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Ricardo Reis

Publicada em: Espiritual, Negócios
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Não há tristeza

  1. 1. Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos. Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De Natureza... À beira-rio, À beira-estrada, Conforme calha, Sempre no mesmo Leve descanso De estar vivendo. O tempo passa, Não nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quase Maliciosos, Sentir-nos ir. Não vale a pena Fazer um gesto. Não se resiste Ao deus atroz Que os próprios filhos Devora sempre. Colhamos flores. Molhemos leves As nossas mãos Nos rios calmos, Para aprendermos Calma também. Girassóis sempre Fitando o Sol, Da vida iremos Tranquilos, tendo Nem o remorso De ter vivido. Ricardo Reis
  2. 2. Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos. Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Ricardo Reis dirige-se àquele que considera seu Mestre, Alberto Caeiro. Afirma que a passagem do tempo é tranquila, embora inexorável. Compara a brevidade da existência humana ao curto período de existência das flores que são cortadas para pôr numa jarra.
  3. 3. <ul><li>Para Ricardo Reis, a vida não é triste nem alegre, é uma curta passagem. Aconselha a viver em ataraxia, tal como se fossemos crianças inocentes, usufruindo da Natureza, através da visão. </li></ul><ul><li>É uma atitude cerebral, calculada, não tendo nada de inocente, é adquirida através de um processo mental de autodisciplina. </li></ul><ul><li>A vida deve ser vivida despreocupadamente, sem esforço ou agitação «Conforme calha (v.21), usufruindo dela enquanto dura «Sempre o mesmo / leve descanso» (vs. 22 e 23) e agindo de modo a que ela se prolongue - «estar vivendo» (estrofe 4). </li></ul><ul><li>Desvalorização da passagem do tempo visto que é esta que o angustia. Perante a consciência de que há envelhecimento e de que este conduz à morte, o poeta sujeita-se a um processo de aceitação e de abandono (estrofe 5), porque não vale a pena combater o inevitável, a morte – perífrase «deus atroz / que os próprios filhos / Devora sempre (vs. 34 a 36 – CRONOS – deus que devora os filhos – estrofe 6) </li></ul>
  4. 4. <ul><li>Vivência de acordo com o epicurismo, o estoicismo, o carpe diem horaciano: aproveitar a vida enquanto dura, abdicando de sentimentos ou emoções que nos criam uma ligação mais forte com o mundo. </li></ul><ul><li>O poeta usa o sujeito plural «nós» e verbos no Presente do Conjuntivo «Saibamos» (vs. 10 e 28), «Colhamos» (v. 37), «Molhemos» (v. 38) com valor exortativo, formulando ensinamentos. Assim o poema ganha o estatuto de proposta de filosofia ideal de vida. </li></ul><ul><li>As flores (v. 37) e os rios (v. 40) são elementos da Natureza que simbolizam, respectivamente, a fragilidade e a efemeridade da vida humana. </li></ul>– CARPE DIEM – Viram o filme O Clube dos Poetas Mortos de Peter Weir, com Robin Williams ?
  5. 5. Girassóis sempre Fitando o Sol, Da vida iremos Tranquilos, tendo Nem o remorso De ter vivido. <ul><li>A arte de saber viver </li></ul><ul><li>«Girassóis» (estrofe 8) é uma metáfora de Homens que disfrutam da vida – do calor do sol – enquanto esta dura, conscientes de que no futuro teremos de aceitar a morte [«iremos» (v.45)], não podendo resistir-lhe. </li></ul>Com adap . in Página Seguinte , Texto editores

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