Modulo 4 avulso

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Modulo 4 avulso

  1. 1. UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBAPRO-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃOPROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSAS DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIAPIBID LETRASPROJETO:CliCCUlTURA, liTERATURA E CRiATiViDADE: DOERUDiTO AO POPUlARPROFESSORES:FLÁVIA KELLYANE MEDEIROS DA SILVAFLÁVIA OLIVEIRA LOPESGABRIELA SANTANA DE OLIVEIRAPRISCILA DA SILVA SANTANA RODRIGUESMÓDULO 04: AVUlsO: CRôniCAALUNO:___________________________________________________
  2. 2. wwwprojetoclicraul.blogspot.comPara ler e refletir:A Última CrônicaA caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um caféjunto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito maisum ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendiaapenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto daconvivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico.Nesta perseguição do acidental, quer numflagrante de esquina, quer nas palavras de umacriança ou num acidente doméstico, torno-mesimples espectador e perco a noção doessencial. Sem mais nada para contar, curvo acabeça e tomo meu café, enquanto overso do poeta se repete na lembrança: "assim euquereria o meu último poema". Não sou poeta eestou sem assunto. Lanço então um último olharfora de mim, onde vivem os assuntos quemerecem uma crônica. Ao fundo do botequimum casal de pretos acaba de sentar-se, numa dasúltimas mesas de mármore ao longo da parede deespelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-seacrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, todaarrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar asperninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivosque compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade.Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retiroudo bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão umpedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamenteansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedidodo homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, areassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha aordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatiaA negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinhoque o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai,mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa deplástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos,e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais oobserva além de mim.São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatiado bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Comoa um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força,
  3. 3. apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada,cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabénspra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo,limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim satisfeito,como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, aobservá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido -- vacila, ameaçaabaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim euquereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.Fernando SabinoDisponível em: http://intervox.nce.ufrj.br/~jobis/s-ult.html. Acesso em: 18 deMaio de 2012.Fernando Sabino - Vida e obraFernando Tavares Sabino nasceu em Belo Horizonte em1923. Tradutor de Flaubert e Henry James, entre outros,Fernando Sabino, desde sua estréia em 1941, vem escrevendocontos, novelas, crônicas, romances e biografias. Trabalhoucomo jornalista e, durante o período em que teve umaimportante editora, publicou livros de escritores brasileiros doporte de Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade,Vinícius de Moraes, Rachel de Queiroz e Autran Dourado,além da obra de Gabriel García Márquez e Mario VargasLlosa. Através de um estilo ágil e direto, que confere a seusescritos um tom quase que de confidência oral, várias situações do cotidiano vão surgindorepletas de vibração e absurdo. A ausência de sentido das coisas, entretanto, aparece eminúmeras variações entre dois extremos: do aspecto noturno da inutilidade, que leva àfragilidade e à solidão humanas, ao diurno, no qual o cotidiano é visto como propiciadordo cômico. Dele, já foi dito ser um "Kafka de eletricidade positiva", ou seja, um escritorpara o qual o mundo só é suportável, e até mesmo divertido, justamente pelo absurdoque lhe é inerente.Obras:Os Grilos não Cantam Mais (1941)A Marca (1944)A Cidade Vazia, Medo em Nova York (1950)A Vida Real (1952)O Encontro Marcado (1956)
  4. 4. O Homem Nu (1960)A Mulher do Vizinho (1962)O Grande Mentecapto (1979)O Menino no Espelho (1982)A Faca de Dois Gumes (1985)A Volta por Cima (1990)Com a Graça de Deus (199

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