Balada da neve

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Balada da neve

  1. 1. Balada da Neve Augusto Gil
  2. 2. Augusto Gil Augusto César Ferreira Gil (1873-1929) nasceu em Lordelo do Ouro no Porto, e faleceu em Lisboa. Inicialmente estudou na Guarda, e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Começou a praticar advocacia em Lisboa, tornando-se mais tarde director-geral das Belas-Artes. Obras poéticas que se salientaram: Musa Cérula ,Versos ,Luar de Janeiro ,O Canto da Cigarra ,Sombra de Fumo ,O Craveiro da Janela, Avena Rústica e Rosas desta Manhã. Crónicas: Gente de Palmo e Meio.
  3. 3. Balada da neve de Augusto Gil
  4. 4. Batem leve, levemente
  5. 5. Como quem chama por mim
  6. 6. Será chuva ???
  7. 7. Será gente???
  8. 8. Gente não é, certamente
  9. 9. E a chuva não bate assim.
  10. 10. É talvez a ventania
  11. 11. mas há pouco, há poucochinho,
  12. 12. nem uma agulha bulia
  13. 13. Na quieta melancolia
  14. 14. Dos pinheiros do caminho…
  15. 15. Quem bate, assim, levemente,
  16. 16. Com tão estranha leveza
  17. 17. que mal se ouve, mal se sente? Mal se sente? mal se sente?
  18. 18. Não é chuva
  19. 19. Nem é gente
  20. 20. nem é vento com certeza.
  21. 21. Fui ver. A neve caía
  22. 22. do azul cinzento do céu,
  23. 23. branca e leve, branca e fria…
  24. 24. Há quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu! Olho-a através da vidraça.
  25. 25. Pôs tudo da cor do linho
  26. 26. Passa gente e, quando passa,
  27. 27. os passos imprime e traça na brancura do caminho...
  28. 28. Fico olhando esses sinais da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais,
  29. 29. os traços miniaturais duns pezitos de criança...
  30. 30. E descalcinhos,E descalcinhos, doridos...doridos... A neve deixa ainda vê-A neve deixa ainda vê-
  31. 31. primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!…
  32. 32. Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim!
  33. 33. Mas as crianças, Senhor,
  34. 34. porque lhes dais tanta dor?!...
  35. 35. Porque padecem assim?!...Porque padecem assim?!...Porque padecem assim?!... Porque padecem assim?!...
  36. 36. E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa.
  37. 37. Cai neve na Natureza
  38. 38. E cai no meu coração.

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