A história de israel a partir dos pobres jorge pixley

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A história de israel a partir dos pobres jorge pixley

  1. 1. AHISIÜRIA DE ISRAEL MÁRTIR DOS POBRES
  2. 2. A HISTORIA DE ISRAEL A PARTIR DOS POBRES Esta coleção recolhe estudos bíblicos que têm como preocupação fornecer subsídios para os agentes de pastoral bíblica popular. Os textos que dela fazem parte nasceram da experiência de leitura da Bíblia com o povo. Preocupam-se em fazer a ligação entre o texto da Bíblia e a vida de hoje. Relendo as experiências de vida comu­nitária do povo que escreveu a Bíblia, querem animar as lutas do povo que hoje se sente chamado por Deus a viver em comunidade. Da mesma série: Projetos de esperança. Meditações sobre Gênesis 1-11 - Milton Schwantes (no prelo) Capa: André Esch
  3. 3. Coleção DEUS CONOSCO 1990 Ano Internacional da Alfabetização
  4. 4. Jorge Pixley A HISTÓRIA DE ISRAEL A PARTIR DOS POBRES TRADUÇÃO Ramiro Mincato 2- Edição / A lMDZES, Petrópolis 1990
  5. 5. <c) do autor Direitos de tradução cedidos à Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 25689 Petrópolis, RJ Brasil Título do original espanhol: Historia de Israel desde la perspectiva de los pobres Diagramação Valderes Barboza ISBN 85.326.0282-7 Este livro foi composto e impresso nas oficinas gráficas da Editora Vozes Limitada — Rua Frei Luís, 100. Petrópolis, RJ — Brasil — CEP 25689 — Tel.: (0242) 43-5112 — Caixa Postal 90023 — End. Telegráfico: VOZES — CGC 31.127.301/0001-04 — Inscr. Est. 80.647.050.
  6. 6. SUMÁRIO AFRESENTAÇAO.................................................................. 7 I. Chaves de leitura ...................................................... 9 I I . As origens de Israel como nação de tribos . . . 13 III. Surgem os reis sobre as tribos de Israel ........ 22 IV. Revolta das tribos contra a dinastia davídica .. 37 V. A dinastia de Amri (884-841 a.C.) ...................... 44 VI. A dinastia de Jeú (841-752 a.C.). Ortodoxia e exploração .................................................................... 48 VII. Enquanto isto, o reduto davídico, Judá ............ 54 VIII. Os profetas no final do século VIII em Judá .. 59 IX. A Palestina sob a hegemonia assíria (738-630 a.C.) ................................................................................ 63 X. O projeto de um novo Israel (640-609 a.C.) . . . 73 XI. O período da hegemonia babilônica (605-539 a.C.) 80 XII. O período da hegemonia persa (539-332 a.C.) . . . 91 XIII. O período da dominação helenística (332-167 a.C.) 102 XIV. A insurreição macabéia e o governo hasmoneu (167-63 a.C.) ................................................................ 110 XV. O período da dominação romana sobre Israel (63 a.C. a 135 d.C.) .................................................. 119 APÊNDICES.......................................................... ................... 135
  7. 7. APRESENTAÇÃO Esta é uma breve apresentação da história do período bíblico de Israel. Israel, o objeto deste estudo, se define por três coordenadas: 1 — Cronologicamente, pelo período que vai de Moisés até Simão Bar Kokba (aproximada­mente do ano 1220 a.C. até 135 d.C.). Isto exclui, por um lado, os antecedentes patriarcais, e, por outro, a derivação desta história no povo e na igreja cristã. 2 — Geografica­mente, esta história redus-se aos limites do território da Palestina. Exclui, portanto, as histórias dos antigos grupos judaicos que viveram fora deste território, na Babilônia, Pérsia, Egito e outros lugares. 3 — Sociologicamente, enten­demos que Israel durante estes mil e trezentos anos foi um projeto da nação camponesa que lutava para sobre­viver e para conseguir as estruturas indispensáveis à sua sobrevivência. » Esta definição de Israel não é evidente. O próprio desenvolvimento do estudo deverá justificá-la. O autor desta obra é professor de Bíblia em um se­minário teológico, e esta história foi escrita com fins pe­dagógicos. Seus destinatários privilegiados são pastores, pro­fessores de escolas bíblicas, ministros da palavra e semina­ristas. Quer oferecer às pessoas que possuem um conheci­mento mínimo dos livros bíblicos e fé no Deus da Bíblia balizas históricas para ler com maior inteligência estes
  8. 8. livros que lhes são sagrados. Por esta razão dedicaremos certo espaço para situar historicamente os livros bíblicos, espaço além daquilo que seria necessário em uma história de Israel religiosamente desinteressada. Estamos, porém, convencidos de que a história de Israel é útil e valiosa também para aqueles que não têm fé. O autor crê ter escri­to um livro que poderá ser lido com proveito e sem pre­juízo por aqueles que não acreditam na providência de Deus. A intenção pedagógica deste livro impõe critérios de simplificação e brevidade. Os critérios científicos questio­nam alguns temas aqui apresentados sem a justificativa necessária em uma obra dirigida a pesquisadores da histó­ria bíblica. Para facilitar o processamento destes assuntos em ambientes acadêmicos, acrescentamos um apêndice onde constam as dívidas mais importantes do autor com relação aos historiadores científicos.
  9. 9. — I — Chaves de leitura Queremos entender o sentido dos fatos da história de Israel. O sentido da história não é evidente na sua superfície. Para descobrir seu sentido é necessário explo­rar a profundidade dos eventos. Nos documentos deixados por qualquer história sempre existem interesses que ocul­tam o sentido dos acontecimentos. Nestas circunstâncias a busca do sentido toma, às vezes, características “detetives-cas”. A história de Israel não está isenta destes problemas. Os livros da Bíblia, que são os principais documentos para a história de Israel, também refletem o trabalho de ocul-tamento a que nos referíamos. Assim sendo, necessitamos de chaves de leitura para interpretar os textos, como a chave que serve para decifrar uma mensagem escrita em forma enigmática, ou como a chave que pode abrir um espaço fechado por uma porta. Propomos duas chaves, uma teológica e outra sociológica: a) Uma chave de leitura teológica, o êxodo: A “saída” ou “êxodo” da escravidão do Egito não é na história de Israel um evento qualquer. É o evento originário do povo de Israel. Isto significa que Israel contava sua história a partir do êxodo (lRs 6,1; Dt 9,7; Jz 19,30; Jr 7,25;
  10. 10. etc.). Porém, significa mais do que is t o .^ H H B M M ^ g êxodo é paraaterael um fato revelador. A partir do êxodoj Israel conhecerá a Deus como Javé, o Deus que os liber­tou da escravidão. “Eu, Javé, sou teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2; ver também Os 11,1; 12,10; 13,4; Dt 6,12; 13,6; Jz 2,1; lRs 12,28; etc.). Pois bem, Deus é uma palavra sumamente perigosa, que se tem usado e se continua usando de forma enga­nosa para fazer referência ao “mesmo” criador e ser su-premo concebido muito d i v e r s a m e n t e . r e ­ferência correta sempre foi o Deus que redimiu Israel d a^ escravidão do Egito. Todo deus que não fosse um salvador dos pobres não era o Deus verdadeiro de Israel. | Usaremos esta chave de leitura para desvendar a lin­guagem ideológica nos textos bíblicos. Um deus que legiti­ma a opressão dos camponeses, por mais solene que se apresente seu culto, não é o Deus verdadeiro. Pois o Deus verdadeiro é unicamente aquele que ouve o clamor dos oprimidos e os liberta de sua opressão. b) Uma chave de leitura sociológica, o modo de pro­dução asiático ou tributário: Na confissão formal do israelita que oferecia a Javé os primeiros frutos da sua colheita, ele reconhece que Israel era um povo que fora libertado da escravidão e da opressão por Javé (Dt 26,6-9). A consciência de ser um povo pobre e oprimido que, junto com Javé, luta por sua vida é fundamental. Javé é o Deus verdadeiro que ouve o clamor dos oprimi­dos e Israel é o povo de Javé e que depende de Javé para o êxito de suas lutas pela sua libertação. Para identificar os oprimidos dentro das sociedades da antiga Palestina é preciso conhecer a dinâmica que sus­tentava estas sociedades. Existiram ao longo dos séculos da história de Israel muitas variantes sociais, porém todas de um mesmo tipo de sociedade cuja estrutura é preciso compreender logo. Encontramos uma descrição sumária do tipo de so­ciedade que prevaleceu em todo o antigo Oriente Próximo em Gn 47,13-25, referida ao Egito. Representaremos gra­ficamente as relações sociais no Egito em um esquema sumário:
  11. 11. soberano aparelhos de Estado aldeias É freqüente no livro do Êxodo apresentar-se a so­ciedade egípcia com uma lista de três elementos: o rei, os servos do rei e o povo (por exemplo, Ex 9,14). Vejamos estes elementos comuns a todas as sociedades do antigo Oriente Próximo. O povo era a massa camponesa que compunha a grande maioria da população. Vivia em pequenas aldeias, representadas no diagrama com os círculos na base. As aldeias eram as unidades produtivas da sociedade (e não fazendas, famílias ou fábricas, para mencionar outras for­mas de organizar a produção básica de uma sociedade). Cada aldeia era mais ou menos autônoma, produzindo o que era necessário para satisfazer suas próprias necessi­dades. Tinha pouco relacionamento com as outras aldeias. Cada uma cultivava seus cereais básicos e criava os ani­mais para o leite e a lã. A aldeia expressava sua unidade como conseqüência de uma linhagem comum. Era gover­nada internamente pelos conselhos de “anciãos”, os chefes de família. O comum nelas era a propriedade coletiva das terras da aldeia. Estas eram distribuídas pelos anciãos de acordo com a capacidade de trabalho de cada família. O rei do Egito era o proprietário de todas as terras, de todos os animais e de todas as pessoas do país. É evidente, porém, que não podia exercer efetivamente a posse sobre as terras, animais ou pessoas. O título de propriedade se expressava concretamente no tributo que exigia de cada aldeia (flechas “a” do diagrama), um tri­buto que no caso das terras era a quinta parte da colhei­ta da aldeia. No caso das pessoas, o tributo se cobrava em trabalho nos projetos de construção do rei. Durante o governo de um rei sábio o sistema oferecia uma certa reciprocidade. Em troca dos tributos que as aldeias pa­gavam, recebiam a proteção do exército, o benefício das “rei servos do rei" “povo do Egito’
  12. 12. obras para o controle das inundações e estradas, e a sun­tuosa celebração das festas religiosas. Mas todo o poder estava nas mãos do rei, de modo que um rei insensato podia tornar-se tiranicamente opressor. Os servos do rei eram os empregados da coroa e como tais faziam a vontade do rei. Serviam à vontade ou ao capricho do rei e em troca recebiam suas provisões do tesouro real (flechas “b” do diagrama). Para manter a estabilidade do reino, era necessário um forte exército para defender o Estado contra os perigos externos e inter­nos da nação. Os oficiais do exército eram subservientes ao rei, eram literalmente seus servos. Para cobrar e dis­tribuir os tributos era indispensável todo um aparelho de administração civil. Também os administradores (minis­tros de Estado, contadores, escribas, etc.) eram servos do rei. Convém considerar com cuidado a absoluta necessi­dade de um aparelho religioso neste sistema (os “sacer­dotes” do diagrama). De algum modo, à exceção do rei, todos eram escravos nesta sociedade. A própria família do rei estava sujeita à sua vontade absoluta. Portanto, o rei ocupava um lugar único dentro da sociedade. A experiência dos súditos era de que seu rei era um deus mortal. Porém esta limitação, a sua mortalidade, revelava a fragilidade de sua posição divina e exigia um aparelho religioso que celebrasse a grandeza da nação, e dentro dela o lugar único e indispensável do rei-deus. O aparelho religioso dentro de uma sociedade “asiática” ou tributária está diretamente vinculado à pessoa do rei. Assim como o rei é o general do exército, é também o Sumo Sacerdote que ordena e controla toda atividade re­ligiosa. Necessita de profetas e teólogos para elaborar uma teologia que justifique seu domínio absoluto. Exige sacerdotes e templos suntuosos para celebrar com grande aparato as festas que confirmam o êxito do sistema. Pode-se entender todas as sociedades que fazem parte da historia bíblica de Israel como derivadas deste sistema. Este esquema e o pequeno diagrama com o qual o representamos serão a chave sociológica para ler a Bíblia.
  13. 13. — II — As origens de Israel como naçao de tribos Canaã pré-israelítica. A data que colocamos para o começo da história de Israel foi o ano 1220 a.C., a data estimada do êxodo. Porém, de acordo com qualquer das três principais teorias sobre a origem das tribos de Israel, o que veremos a seguir, os antepassados das tribos, ou pelo menos uma boa parte, já viviam em Canaã. Convém, pois, examinar a população da Palestina antes da formação de Israel, no século XIV (de 1400 a 1300 a.C.). Existem dois meios para se conhecer a Palestina desta época. De um lado, pelas escavações das colinas das antigas cidades das quais é possível avaliar quantas eram habitadas e o número de habitantes. A outra fonte é uma coleção de cartas da chancelaria egípcia, descobertas numa localidade do Egito chamada Tell-el-amarna. Parte desta correspondência diplomática é decorrente do intercâmbio entre os reis das cidades-estados da Palestina, que, neste período, era dominada pelo império egípcio. A revelação mais importante destas fontes é a con­centração dos habitantes da Palestina nas áreas baixas do país, na planície que acompanha o Grande Mar ou mar Mediterrâneo e no vale de Jezrael que corta a cordilheira
  14. 14. central nas alturas do monte Carmelo e do mar da Ga-liléia. Estas eram as regiões mais férteis do país, e eram, além do mais, o lugar por onde cruzavam os caminhos percorridos pelas caravanas de comerciantes. A cordilhei­ra central, conhecida do Norte ao Sul como montes da Galiléia, Efraim e Judá, era neste período uma região de bosques e matagais, povoados por animais selvagens inclu­sive leões. Havia raras cidades nas montanhas, entre as quais as mais importantes eram (de norte a sul) Hasor, Siquém e Jerusalém. O mapa ao lado tenta apresentar esta situação. As cartas de Tell-el-amarna dão uma idéia da situa­ção política do séc. XIV ha Palestina. O território era di­vidido em numerosos e pequenos reinos. A maioria deles apresentava uma única cidade (como Dor ou Tanac) que controlava as aldeias vizinhas das quais recolhia os tri­butos. Outra fonte de receita eram os direitos de alfândega ou passagem cobrados aos comerciantes que transitavam pelas estradas que cortavam o território. Todos os reis eram súditos do Egito, ao qual pagavam tributos. Existia, porém, entre eles um estado de conflito quase permanen­te. Além do mais, todos estavam ameaçados por levantes de hapirus, rebeldes que refletiam o descontentamento & ^K t/**eien tttieas da emergência de Israel tribal. Os exegetas ou estudiosos da Bíblia propõem basicamente três teorias científicas para explicar o surgimento de Israel como uma aliança de tribos até o final do séc. XIII a.C. Antes de analisá-las, convém assinalar que todos reconhe­cem uma diversidade de elementos na formação da nação de Israel e que, portanto, todas as teorias têm uma par­cela de verdade. O que está em jogo ao optar por uma delas é saber qual o elemento que contribuiu na forma­ção da unidade da nação tribal de Israel. Isto quer dizer que é óbvia a diversidade das várias tribos. Porém, como sua organização tribal carecia de um Estado que pudesse consolidar uma unidade nacional, de onde surgia esta cons­ciência da unidade que sem dúvida era um fato?
  15. 15. primitiva. Alguns exegetas, entre os quais se destacam Yehezkel Kauf-mann de Israel e John Bright dos EUA, consideram que havia suficientes vínculos familiares entre as tribos para explicar a união das mesmas. As histórias dos patriar­cas Abraão, Isaac e Jacó já supõem uma consciência de família entre as tribos, que se dizem descender dos doze filhos de Jacó (Gn 30). Ao examinarem relatos sobre a incorporação de Gabaon (Js 9), Siquém (Gn 34), e Jeru­salém (2Sm 5), os exegetas verificam logo que importan­tes elementos das tribos não descendiam do tronco fami­liar comum representado por Abraão. Com tudo isto, estes exegetas crêem que ainda é possível explicar a uni­dade nacional por um parentesco comum dos grandes ele­mentos das tribos. Partindo da perspectiva dos pobres, deve-se suspei­tar da aparência apolítica desta teoria. O povo de Deus teria tido uma origem “natural”, não derivada de ações humanas. Humanamente falando, dever-se-ia explicar a hos­tilidade entre Israel e Canaã como um conflito racial. Excluindo o fato de que tanto Israel como os cananeus falavam o mesmo idioma, “a língua de Canaã” (Is 19,18), isto torna o privilégio de Israel como povo de Deus uma decisão arbitrária de Deus. 2. Teoria que encontra a unidade de israel em sua prática do pastoreio de animaigc Esta teoria socio­lógica da unidade primitiva de Israel foi desenvol­vida na Alemanha por Albrecht Alt, seguido de imediato por Martin Noth. Postula a oposição Canaã e Israel como conflito entre os que cultivavam a terra e os que se dedi­cavam ao pastoreio. As tribos de pastores se uniram com o tempo por um comum estilo de vida para poderem enfrentar os camponeses que usavam a terra para culti­var vegetais. As histórias patriarcais revelam uma coexistência em Canaã de criadores de gado como Abraão com reis de populações camponesas, como o rei de Gerara (Gn 20). A história sobre conflitos e entendimentos em tomo de poços de água entre Isaac e os habitantes de Bersabéia seria um reflexo desta coexistência normalmente pacífica
  16. 16. (Gn 26,15-25). No início bastavam acordos para que du­rante o verão (tempo de seca) os pastores usassem os campos depois da colheita, enquanto que durante o inver­no, quando os campos são semeados, eles se retirariam para as zonas desertas do país. Podiam usar também os morros sem cultivo para o pastoreio de seus rebanhos. Com o passar do tempo e o aumento da população, surge o conflito com a disputa pelo controle das melhores terras do país. Estes conflitos são os descritos em Josué 1—11 e ao longo do livro dos Juizes. Esta teoria tem seu atrativo pois explica a base social do conflito entre israelitas e cananeus. As críticas feitas a esta teoria se baseiam na observação de que, pra- MBBMHHMpaMaceio, tarefa que geralmente combina com o cultivo da terra. Também é problema para esta teoria explicar por que estes pastores da Palestina aco­lheram os hebreus que chegavam do Egito depois do êxodo da escravidão. ^■ttMMBilRO camponesa. Recentemente se elaborou com base científica uma teoria que^propõe a uni-comum contra os reis da Palestina. A teoria está asso­ciada ao nome do exegeta norte-americano Norman K. Gottwald. Para entender esta teoria convém voltar ao nosso modelo do modo de produção tributário. As aldeias que formavam a base da sociedade podiam perfeitamente sub­sistir sem o rei e seus aparelhos de Estado. A insurreição camponesa que se postula como a 4SSBaíela.tunidade tribal teria sido a reação contra a domitoação dos de uma sociedade camponesa igualitária. As condições que provocaram a rebelião em diferentes partes do território da Palestina foram os conflitos perpétuos. Os reis não podiam garantir a segurança das aldeias. A possibilidade de rebeliões existia pelo fato de haver zonas despovoadas nas montanhas da Palestina. Uma pequena migração podia estabelecer uma aldeia em zona despovoada que podia ser preparada e cultivada. Além do
  17. 17. mais, o séc. XIV viu a introdução d© dois avanços tecno­lógicos que facilitaram estas migrações. Por um lado, a descoberta da cal comolmaterial adequado para forrarias gr cisternas usadas para armazenar água. E por outro lado o uso do ferro como instrumento de trabalho, suplantan­do o uso do bronze. Temos nos textos bíblicos uma história de migrações da planície para a montanha da tribo de Dá em Jz 17—18. Esta teoria postula que vários relatos de “conquista” nos livros de Josué e Juizes seriam incidentes surgidos de mi­grações similares. A grande vantagem desta teoria do ponto de vista do historiador é que ela explica como o grupo que saiu do Egito trouxe a sua história da libertação da servidão aos reis como a história oficial para toda a nação. T o fo f teriam vivido experiências similares no passado. Ela tam­bém dá uma base material à fé de Israel em um Deus tiue liberta os oprimidos através de movimentos sociais. Explicar-se-ia, deste modo, o mandamento de não ter outros deuses fora de Javé, pois outros deuses podiam le­gitimar uma volta à servidão aos reis humanos. A dificuldade desta teoria é a ausência de textos que falem de insurreições em Canaã, ficando nos textos ser explicado pelo trabalho intencional de apagar a memó­ria subversiva, uma vez que Israel deixara de ser uma nação tribal para aceitar reis (depois de Davi). O Êxodo como evento histórico. O livro do Êxodo narra como um grupo misto de gente que servia o rei do Egito, guiado por Moisés, o profeta de Javé, saiu em busca de uma terra onde corresse leite e mel. A primeira pergunta a ser feita ao texto é: quem se libertou da escra­vidão? Alguns textos, como Ex 1,9, falam dos “filhos de Israel”. Porém Ex 1,15 e outros falam dos “hebreus”. Sa­bemos que “hebreus” não é outra coisa que os “hapiru”, grupos de rebeldes, conhecidos em Canaã, que não se submetiam às leis dos reis. Se acrescentarmos a isto o texto de Ex 12,38, “subiu também com eles gente de todas as classes”, podemos entender que no evento histórico os que saíram da escravidão não eram uma grande família,
  18. 18. mas um setor da classe social que formava a base da so­ciedade egípcia, os camponeses. Eram “hebreus” que se rebelaram contra os trabalhos de construção que lhes im-pusera o rei Ramsés II. Sua saída da servidão realizou-se sob a direção de Moisés, profeta de Javé, o Deus que tomava partido com os oprimidos em vista da sua libertação. Provavelmente estes camponeses não teriam tido a coragem de enfrentar uma migração revolucionária sem uma religião deste tipo. A revolução converteu-se num ato religioso. A luta contra o rei transformou-se numa luta entre deuses: de um lado, o Faraó com direitos sobre a vida de todos os egípcios; e do outro, Javé que escutava o clamor dos opri­midos. A fidelidade ao movimento revolucionário exigia lealdade exclusiva a Javé. Qualquer outro deus podia re­presentar um retrocesso à escravidão enquanto que Javé era o Deus que os libertava. Quando chegaram à Palestina, os “levitas” — assim eram chamados os seguidores de Javé e Moisés — encon­traram uma multiplicidade de movimentos camponeses que se refugiavam nas montanhas para escapar da dominação exercida pelos reis nas planícies e vales. O resultado deste encontro foi proveitoso para a criação de Israel como nação de tribos com consciência de ser o povo de Javé, o Deus que libertara “seus pais” da escravidão do Egito. A organização da nação. A resistência aos reis foi uma característica comum de todos os movimentos de insurreição e migração que formaram a nação de Israel (cf. Jz 8,22-23; 9,7-15). A monarquia era na época a única forma de estado conhecida. Rechaçar o rei significava então rechaçar o próprio Estado. Para os cananeus isto fazia dos israelitas “servos fugidos dos seus senhores” (ISm 25,10). A vida dos israelitas, porém, já era organi­zada. As leis populares que garantiam a ordem eram atri­buídas a Javé que se revelara a Moisés no Monte Sinai. Chamamos de populares as leis de Israel porque na falta de autoridades estatais eram os anciãos dos povoa­dos que as administravam. Chamamos de populares tam­bém porque não se conservavam através da forma escrita
  19. 19. mas pela tradição oral. O caso de Booz e a herança de Elimelec de Belém é um magnífico exemplo (Rt 4,1-12). A lei popular de Israel proibia a venda de terras de um israelita a uma outra pessoa (isto foi codificado em Lv 25,23-31). Também tomava medidas especiais para que a propriedade de alguém que morresse sem filhos não pas­sasse para outra família (Dt 25,5-10). Este é o caso de Elimelec que morrera sem deixar filhos. Seu parente Booz assumiu o direito e a responsabilidade de perpetuar a fa­mília. Mas para isto teve que comparecer diante de um tribunal de anciãos para comprovar seu direito e demons­trar suas intenções. A inter-relação entre os israelitas e a organização interna das aldeias em todas as sociedades daquela época se dava de um mesmo modo, por parentesco. As tribos não eram senão enormes famílias. Além do mais, ao menos em teoria, as tribos se entrelaçavam pela descen­dência comum de Jacó. A unidade familiar, portanto, era real. Mas, ao contrário do que afirma o Professor Kauf-mann, a unidade tribal é o resultado de uma unidade re­volucionária prévia e não a sua causa. Para defender-se das ameaças exteriores, as tribos convocavam um exército de guerreiros voluntários. O caso mais típico é o das milícias convocadas por Débora para lutar contra os cananeus comandados por Sísara (Jz 5). Porém, as guerras lideradas por Gedeão (Jz 6—8) e Jefté (Jz 10—11) são do mesmo tipo. Isto contrastava, no plano da organização, com os exércitos profissionais dos reis cananeus e estabelecia uma desvantagem militar para os israelitas que não contavam com cavalos e carros de com­bate, impossíveis de serem sustentados por um exército de voluntários como o das tribos. O Deus Javé era o rei das tribos de Israel (Jz 8,22-23; ISm 8,7; Nm 23,22; Dt 33,4-5). Em termos práti­cos isto significava que os camponeses israelitas não pa­gavam tributos a ninguém. O único tributo era a oferta a Javé dos primogênitos dos rebanhos e as primícias do campo. Nos sacrifícios mais comuns, os Zebahim e os Shelamim, o animal sacrificado era dividido entre o sacer­dote, o ofertante e seus convidados, e Deus (a parte con­
  20. 20. sumida no fogo). Uma descrição mais detalhada dos sacri­fícios em Israel se encontra em Lv 1—7. Os tributos, por­tanto, não eram pagos para benefício de outros, mas parti­lhados em uma grande celebração na qual Deus também tomava parte. Em resumo, podemos apresentar graficamente da se­guinte maneira a organização social de Israel no seu está­gio tribal: JAVÉ Aldeias oooooo oo - - Tribo A Tribo B Tribo C Tribo Ü Os patriarcas pré-israelíticos. Quando as tribos israe-líticas em Canaã aceitaram como própria a história da libertação da escravidão (o êxodo), não rechaçaram sua própria pré-história. As tradições patriarcais de Abraão, Isaac e Jacó conservam a memória dos líderes, anterior à formação da aliança tribal, que deu origem a Israel. É muito pouco o que se pode deduzir dos relatos em torno da pré-história das tribos. Observamos que Isaac está vinculado com a região semidesértica do sul da Pa­lestina. Como na distribuição tradicional das terras em Jz 13—19 este território é dado à tribo de Simeão, é provável que estas tradições sejam dela. Seguindo a mesma argumentação, Jacó pertence às tradições centrais de Israel, Efraim e Manassés. Abraão pertencia à tribo de Judá. O vínculo genealógico que fez de Abraão pai de Isaac e avô de Jacó foi uma forma de reafirmar a unidade das tribos.
  21. 21. -------I I I ----- Surgem os reis sobre as tribos de Israel Saul organiza um exército profissional. Reação profé­tica. Na segunda metade do século XI surgiram chefes militares que tomaram o título de rei (melek). Segundo os textos bíblicos, esta mudança foi uma resposta a pressões internas e externas. A corrupção dos juizes na administração da justiça foi um dos problemas internos (ISm 8,5). Investigações recentes sobre a agricultura pra­ticada na época nas montanhas de Efraim e Judá (David C. Hopklns, Frank S. Frick) sugerem porém outra causa que nossos textos não mencionam. A intensa agricultura praticada nas montanhas da Palestina exigia a difícil cons­trução e manutenção de patamares nas encostas. O pro­blema da falta de chuvas que nesta região não apresenta suficiente regularidade para garantir a colheita anual são características de sua precariedade. Além disto, há o pro­blema da mediana qualidade do solo que exigia depois de cada ano um período de repouso. Esta situação obrigava as aldeias a diversificar seus cultivos, combinando plantas perenes, principalmente a oliveira e videira, com os cereais básicos como trigo e cevada de cultivo anual. Somente depois dos árduos e lentos trabalhos da construção dos patamares e a escavação de cisternas na rocha se teria
  22. 22. uma produção mais ou menos estável. Obtidas estas con­dições, a produção da agricultura começa a originar o acúmulo de excedentes que ocorrem de modo desigual. O acúmulo seria maior em microzonas de maior fertilidade com o solo em declive para o ocidente de onde vinham as chuvas. Este é o contexto no qual surgem como chefes militares os chefes das principais famílias destes povoa­dos. Por razões de ordem econômica (a distribuição dos excedentes), políticas (a coesão familiar em torno do “pai’’) e militares (defesa contra ataques de populações menos favorecidas), esta situação favorece o surgimento de estru­turas proto-estatais. Processos análogos foram observados por antropólogos também na África. A razão principal apresentada pelos textos bíblicos para explicar o surgimento da monarquia foi a pressão externa causada pelos filisteus desde meados do séc. XI. Os filisteus vinham do mar para implantar-se na planície situada entre as montanhas e o mar, especialmente nas cinco cidades de Gat, Gaza, Ascalon, Acaron e Azoto. Uma vez nas cidades, organizaram exércitos fortes com carros e cavalos e estabeleceram guarnições militares nas monta­nhas para recolher tributos dos israelitas. A defesa dos israelitas com exército de voluntários teve dificuldades em fazer frente à força dos filisteus. Esta pressão externa juntou-se às forças internas para criar um clima favorável à centralização política. Foi o benjaminita Saul quem soube ganhar com esta situação. Saiu do anonimato quando comandou os volun­tários das tribos na defesa contra os amonitas (ISm 11), atuando, assim, como os “juizes” militares em tempos anteriores, como Débora e Gedeão. Nesta ocasião, porém, houve um forte movimento para convertê-lo em rei sobre Israel. Assim se obteria um exército permanente para a defesa da nação. Tudo culminou, segundo ISm 11, com a sua coroação feita pelos representantes de todo o povo em Guilgal. Inicialmente Saul organizou um exército de três mil homens. Desafiou os filisteus matando seu governador mi­litar, mantido nas montanhas de Efraim (ISm 13,2-3). Como se pode constatar pelo texto de ISm 14,47-52, um
  23. 23. resumo da sua gestão, Saul incorporou a seu exército todos 03 bravos e valentes que conhecia. Com eles, durante todo o seu reinado, dedicou-se à guerra. Segundo nossos textos, Saul foi declarado rei pelas tribos-. No entanto é importante notar os limites do seu poder. Não tinha, como era comum aos reis daquela época, nem um sacerdócio oficial nem um aparelho civil desen­volvido para cobrar impostos. A falta de uma capital do reino manifesta esta carência. Saul continuou vivendo em Gabaá de Benjamim, seu povoado, que nem sequer possuía muralhas. A falta de uma capital segura impediria o de­senvolvimento de um aparelho completo de estado. A interpretação comum de ISm 22,7 diz que Saul começo» a acumular as terras reais, o que vem ao encontro do que foi dito anteriormente quanto às condições para o surgi­mento dos chefes militares nas montanhas. É provável que seu exército pôde manter-se, em boa parte, com o resultado das guerras de conquista. Isto produziu um esta­do incipiente que podemos diagramar da seguinte maneira: As flechas “b” representam linhas de autoridade. Saul deve submeter-se às leis de Javé, que continua sendo o Rei supremo, e ao profeta Samuel, seu mensageiro. As flechas'“a” representam os tributos pagos mais ao exér­cito em forma de valentes jovens para a guerra, que ao próprio rei. Não é evidente ainda a existência de classes sociais. Havia porém uma diferença na divisão do traba­lho entre aqueles que produziam (as aldeias) e aqueles que se dedicavam à defesa (o rei e o exército); uma classe ociosa não aparece.
  24. 24. A reorganização das tribos para obter um exército profissional representava, aos olhos de quem mantinha viva a memória da revolução encabeçada por Javé e por seu profeta Moisés, um perigoso passo de retrocesso na direção da escravidão egípcia. Nossos textos bíblicos, que não são documentos contemporâneos aos acontecimentos, mas frutos de muitos anos de reflexão, apresentam o pro­feta Samuel como a voz dos que anunciaram este perigo. Vale a pena estudar ISm 8 e ISm 12 para conhecer estas advertências. Em ISm 8 Samuel inicialmente rejeita o pedido dos anciãos que lhe pediam um rei. Repetiu o argumento de Gedeão, pois nomear um rei “como todas as nações” era repudiar a monarquia de Javé (ISm 8,4-7). No entan­to, atuando como profeta em nome de Javé, autorizou a nomeação de um rei, depois de advertir dos perigos de tal empreendimento que podia levá-los de volta à escra­vidão (ISm 8,10-17). ISm 12 apresenta-nos o discurso de despedida de Samuel antes de sua morte (apesar de ter vivido mais alguns anos). Neste texto Samuel e o povo reconhecem que pedir um rei foi um grave pecado. Aceita, porém, que tudo poderia prosseguir bem diante de Javé, se tanto o rei como o povo “temerdes a Javé e o servirdes, se lhe obedecerdes e não vos opuserdes ao que ele disser” (ISm 12,14). Saul, no entanto, o rei escolhido pelas tribos e aben­çoado por Samuel, será rejeitado mais tarde pelo mesmo profeta Samuel, por ordem de Javé (ISm 15,28.34-35). O esquema tenta demonstrar, conforme estes textos, que Javé continua sendo o rei supremo de Israel. O rei não é, ao contrário dos reis cananeus, um soberano abso­luto. Está sujeito às leis de Javé, reveladas ao seu servo Moisés no Sinai, e à Palavra vivente que Javé lhe dirige por seu servo Samuel. Uma nação-Estado substitui a nação de tribos. Davi, seu governo e sua nova teologia. Pouco antes do ano 1000 a.C. Davi de Judá surge como rei de Israel. Além de mi­litar foi um líder político que mudou profundamente a índole da nação. É necessário estudá-lo com atenção.
  25. 25. Davi inicia sua vida pública como militar no exér­cito de Saul. A história da derrota do gigante filisteu Golias provavelmente é um caso de transferência, pois a mesma proeza é atribuída a Elcana em 2Sm 21,19. Sem dúvida, no entanto, foram façanhas em campo de batalha que levaram o povo a cantar: “Saul matou mil mas Davi matou dez mil” (ISm 18,7). Casou-se com Micol, uma das filhas de Saul, assunto que na memória popular está entra-nhadamente unido às suas proezas militares (ISm 18,17-30).' Chegou o momento em que Davi rompeu com Saul e o exército de Israel para voltar a Judá e organizar seu próprio exército (ISm 22,1-2). Enviou seus pais ao estran­geiro e empreendeu uma luta de guerrilhas nas montanhas de Judá (ISm 22,3-5). ISm 25 revela a tática que Davi usava para conseguir o sustento para seu exército: tribu­tos “voluntários”. Permite também perceber os limites desta tática, pois este tributo resultava em mais um peso para a população, retirando assim a base política de sus­tentação da sua causa. Por isto Davi se retira com seus homens para o território filisteu e ali serve ao rei Aquis de Gat que lhe dá, como feudo, a cidade de Siceleg (ISm 27,1-12). Com a morte de Saul, seu filho Isbaal (ou Isboset) passou a ser o rei de Israel, embora tivesse que retirar-se na Transjordânia e governar desde a cidade de Maanaim (2Sm 2,8-10). Davi aproveitou-se da morte de Saul e de seu filho Jônatas, bem como da debilidade de Isbaal para regressar abertamente a Judá, onde foi coroado rei de Judá pelos anciãos do povo (2Sm 2,1-4). Por um breve período teve Israel dois reis. Isbaal foi assassinado pelos seus próprios homens (2Sm 4,1-12) e Davi foi declarado rei por uma delegação de anciãos das tribos que tinham vindo visitá-lo em Hebron de Judá, onde mantinha sua capital (2Sm 5,1-5). Com sua astúcia política, Davi soube tirar proveito da si­tuação. Seu primeiro ato foi conquistar uma nova capital, e esse fato requer um momento de atenção de nossa parte. Jerusalém é uma antiga cidade, já citada nas cartas de Tell-el-amama no séc. XIV a.C. Seus habitantes eram jebuseus. Não aceitaram unir-se às tribos de Israel e
  26. 26. nem essas puderam submetê-los. No tempo de Davi era um enclave monárquico no interior das montanhas con­troladas pelas tribos de Israel, constituindo assim um obstáculo às comunicações entre Judá ao sul e as demais tribos do norte. Isto explica ao menos em parte a história separatista de Judá. Imediatamente após sua nomeação de rei de todo Israel, em tomo do ano 1000 a.C., Davi e seu exército conquistaram a cidade que foi chamada “cidade de Davi” (2Sm 5,6-12). Isto foi de transcendental impor­tância para o futuro de Israel. Algumas razões de importância são: 1) Sua locali­zação geográfica entre as duas divisões de Israel, separan­do Judá ao sul e as demais tribos ao norte. 2) Sua loca­lização estratégica para a defesa, pois estava sobre uma colina cujo único acesso fácil era pelo norte. Além disso, estava cercada por muralhas. 3) Davi a conquistou com seu próprio exército, fazendo-a a cidade de Davi. Isto quer dizer que não havia nela os anciãos a quem Davi deveria consultar; Davi foi o senhor absoluto de Jerusa­lém. 4) Os habitantes de Jerusalém, com a sua longa expe­riência monárquica, tornaram-se uma. fonte de oficiais de governo para o novo rei de Israel, uma nação sem expe­riência de administração pública. Isto explica por que Davi não tenha passado à espada seus habitantes, o que, segun­do algumas tradições, Javé ordenava para as cidades de • Canaã (Dt 20,16-18). Temos uma informação concisa sobre a cúpula admi­nistrativa estabelecida por Davi em 2Sm 8,15-18. Aqui se re­vela uma ansiosa dualidade, tanto no exército (com dois generais, Joab e Banaías) como na administração religiosa (Abiatar e Sadoc). Uma possível explicação, não totalmen­te segura, é que Joab e Abiatar representem forças tradi­cionais em Israel, enquanto que Banaías, comandando uma elite militar de quereteus e peleteus, e Sadoc repre­sentavam a nova força monárquica, sem compromissos com as tribos. Sadoc pode ter sido um sacerdote jebuseu tomado por Davi para dividir a direção religiosa do seu reino com Abiatar, um sobrevivente da família sacerdotal de Silo e Nobe no território de Efraim. As numerosas conquistas de Davi exigem uma refle­xão política (2Sm 8,1-14). Davi construiu um império. Por
  27. 27. quê? Uma suspeita que parece bem fundada é que desta forma Davi podia sustentar um significativo aparelho de Estado sem impor tributos às tribos de Israel. Estas tinham uma longa história de resistência a qualquer tipo de tributo, e impô-los teria sido, politicamente, explosivo. Mantendo sob seu domínio os edomitas, os moabitas, os filisteus, os amonitas e os arameus, e extorquindo-lhes tri­butos, Davi podia manter seus palácios, seu exército e sua capital, aliviando assim as tribos de Israel deste grande peso. Davi, não obstante isto, teve que enfrentar vários movimentos de rebeldia surgidos no meio das tribos. O mais importante foi encabeçado por Absalão, seu filho, que conseguiu coroar-se rei em Hebron, a antiga capital, judaica de Davi (2Sm 15,7-12) e tomar posse de Jerusalém por um certo tempo (2Sm 15—17). Outro levantamento importante foi encabeçado por Seba de Benjamim com um lema que teria importância posteriormente: “Não temos parte com Davi, nenhuma herança com o filho de Jessé! Cada qual para suas tendas, ó Israel!” (2Sm 20,1). Ben­jamim fora o berço de Saul e havia quem suspeitasse da inocência de Davi ante as mortes da descendência de Saul. Apesar das inconformidades enfrentadas por Davi, ele é recordado na Bíblia como um rei bom, provavelmente por causa dos êxitos militares e cuidados em não passar por cima das prerrogativas das tribos de Israel. Do ponto de vista da religião, Davi introduziu algu­mas novidades que mudaram a natureza da religião de Javé. A primeira foi trazer a arca da aliança, onde se guardavam as tábuas da lei dadas por Deus a Moisés, para sua nova capital. Organizou uma grande festa para cele­brar o traslado (2Sm 6). Comprou ademais um terreno para colocar a tenda da arca em uma propriedade da Coroa (2Sm 24). Isso e a nomeação do sacerdote-chefe como funcionário da Coroa indicam que Davi estava seguindo o caminho dos reis das nações, instituindo um culto contro­lado diretamente pelo rei: Nas sociedades tributárias, como as de Canaã, isto era decisivo. Era necessário justificar ao povo a dominação total que os reis exerciam. O rei devia ser reconhecido como deus ou como filho de deus
  28. 28. para poder legitimar seu controle absoluto sobre as terras, sobre os animais e sobre seu povo. É natural, portanto, que Davi queira construir um templo a Javé, o Deus de Israel (2Sm 7). É natural do ponto de vista do rei, porém o profeta Natã, provavel­mente reconhecendo o perigo em deixar ao rei o controle do culto a Javé, o Deus libertador dos pobres, se opôs falando da parte de Deus: “Durante todo o tempo que andei com os filhos de Israel, porventura disse a um só dos juizes de Israel instituídos por mim como pastores do meu povo Israel: ‘Por que não edificais para mim uma casa de Cedro?’ ” (2Sm 7,7). Davi não se sentiu em liber­dade para desconhecer as palavras do profeta de Javé e se absteve de tal empreendimento. Sua abstenção durou somente uma geração, pois Sa­lomão, seu sucessor, construiu o templo para Javé no terreno adquirido por seu pai em Jerusalém. Foi no tempo de Salomão, certamente, que se acrescentaram as palavras de 2Sm 7,13, modificando a proibição limitando-a unica­mente ao rei Davi e não aos seus sucessores. Podemos representar a sociedade israelita, organiza­da por Davi como nação-Estado, da seguinte maneira: JAVÉ Sob muitos aspectos o Estado davídico era similar aos estados cananeus rechaçados anteriormente pelas tri­bos. Existia, como entre os cananeus, um exército, um sacerdócio e uma administração civil que dependia direta­mente da vontade do rei e de seu apoio econômico. Estes aparelhos não eram representativos das tribos; a relação
  29. 29. r)a<; tribos era direta com o rei e somente através dele com os aparelhos de Estado. Ficaram, contudo, alguns freios à tirania. O primei­ro era sem dúvida a organização popular. As aldeias não enfrentavam individualmente o rei, como acontecia no Egi­to e em Canaã. As aldeias organizadas em tribos tinham mais força para enfrentar o rei. Outro limite à tirania foi o reconhecimento geral da autoridade suprema de Javé, exercida através da lei do Sinai, válida também para o rei (como no caso de Betsabéia cujo marido Davi eliminou com o propósito de possuí-la, 2Sm 11—12), e através do profeta de Javé, Natã, no tempo de Davi: Este segundo limite é de natureza estritamente espiritual. Natã não dis­punha de exércitos. Porém o apoio popular lhe deu força política considerável. A nação de Israel nascida como sociedade revolu­cionária voltou a ser, sob o reinado de Davi, uma socie­dade de classes. Seu governo, porém, não foi opressivo. Podia viver, em grande parte, com os tributos pagos pelos povos conquistados. Davi, além disso, respeitou as tradi­ções das tribos. Preparou, no entanto, as condições para Salomão, seu filho, oprimir o povo, após sua morte. Do ponto de vista teológico foi de grande relevo o surgimento, a partir do sacerdócio do rei, de uma nova teologia: a ideologia real ou teologia davídica. Essa nova teologia não foi, provavelmente, toda elaborada no tempo de Davi. Foi ele, porém, quem a iniciou. Os Salmos, por exemplo, expressão máxima desta teologia, até o dia de hoje são atribuídos majoritariamente à autoria de Davi. Para uma leitura a partir dos pobres a teologia davídica é muito ambígua, podendo servir, como aconteceu, para amparar e legitimar sua opressão. Não quer dizer que se deva rechaçar a teologia davídica como um todo. Ela contém elementos autênticos da fé em Javé, o Deus do êxodo, e pôde servir de fonte importante para o messianis­mo de Jesus. Desde o tempo de Davi a teologia em Israel teve dois focos: o Êxodo como libertação do povo de Deus e a eleição de Davi como filho de Javé e defensor de seu povo.
  30. 30. O campo ideológico em Israel (teologia bíblica) A teologia davídica foi elaborada pelos sacerdotes do rei na cidade de Jerusalém. Os Salmos compõem o livro de orações e celebrações do templo daquela cidade. Ex-plica- se assim a importância dos temas da teologia daví­dica nos Salmos. Eis alguns temas: • O estabelecimento de um pacto eterno entre Javé e Davi — é o coração desta teologia. Encontramos esta teologia no Salmo 89. Na teologia do Êxodo a aliança entre Javé e Israel foi feita no Sinai com a media­ção de Moisés. Javé seria Deus para o povo enquanto este observasse seus mandamentos (Ex 19,3-8). Na teologia da­vídica, ao invés, neste e noutros salmos, a aliança é esta­belecida entre Javé e Davi (SI 89,4-5). Ademais, esta alian­ça é eterna e inquebrantável porque fundada sobre um juramento de Javé (SI 89,35-36). Se o rei violar seus man­damentos será castigado, porém Javé jamais romperá sua aliança (SI 89,31-34). • Expressão da eleição de Davi é a declaração de que os reis de Jerusalém são filhos de Javé (por uma espécie de adoção). O Salmo 2 é uma liturgia de entronização de novos reis cujas palavras centrais são o decreto de Javé: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança” (SI 2,7-8). Este elemento da ideologia real das nações vizinhas sur­preendentemente entrou na teologia de Jerusalém. • Um corolário da eleição do rei era a eleição da cidade de Jerusalém por Javé para ser seu “repou­so” (SI 132,13-14). O Salmo 132 demonstra a dili­gência de Davi em buscar um lugar para a arca de Javé.
  31. 31. A teologia davídica não esquece que Javé é o Deus dos pobres. Javé escolhe para Sião um rei benfeitor e defensor dos pobres. Para isto Javé o põe sobre o trono. Este aspecto essencial da teologia davídica é desenvolvido no Salmo 72. Desde os tempos antigos até hoje este Salmo pode ser usado contra tiranos exploradores dos pobres, como Somoza. Os Salmos de Ernesto Cardenal mostram este potencial popular da ideologia real. Na Igreja cristã estes Salmos foram lidos como anúncio da vinda do Messias, realizado na pessoa de Jesus. Esta leitura messiânica dos Salmos lhes dá uma perspectiva bem diferente. Esta leitura, no entanto, não apaga seu significado original de ideologia de Davi e sua descendência. Salomão: um templo de Javé legitima a opressão do povo. A narração da história do reinado de Salomão deve começar com a disputa pelo trono com seu irmão maior Adonias. Quando o rei Davi estava velho e incapaz de go­vernar, Adonias, com o apoio de Joab, chefe do exército, e de Abiatar, um dos sacerdotes principais, declarou-se rei (lRs 1,1-10). Ele parece representar o partido mais tradi­cionalista entre os membros da corte. O partido mais identificado com o novo projeto de monarquia conseguiu, através de uma intriga palaciana, que o ancião Davi declarasse seu apoio a Salomão (lRs 1,11-40). Juntos no partido de Salomão estavam Natã, cujo oráculo sobre a promessa de Javé a Davi foi decisivo para a con­solidação da teologia davídica (2Sm 7,8-16), Banaías, chefe dos quereteus e peleteus, e Sadoc, o sacerdote. Com a morte de Davi, o novo rei fez um expurgo dos seus rivais. Mandou matar Adonias e Joab. Exilou Abiatar em Anatot no território de Benjamim. Parece que eles conseguiram manter-se como família sacerdotal de oposição. Deles surgirá, mais tarde, o profeta Jeremias. Este expurgo de pessoas da corte permitiu a Salo­mão um governo mais eficiente que o de Davi. Não foi obrigado a respeitar as antigas estruturas tribais. lRs 4,7-19 nos dá uma lista dos “governadores” que adminis­travam um sistema de doze distritos criados por ele. Alguns distritos coincidem com os antigos territórios tri­
  32. 32. bais, porém outros são formados por territórios conquis­tados por Davi ou pela integração de várias tribos. A no­meação de governadores sobre os territórios tradicionais das tribos é uma novidade muito significativa. O rei deixa de lado as autoridades do povo e impõe suas próprias autoridades. O governo da nação tornou-se piramidal. Cada governador era responsável pelo levantamento de tributos suficientes para a manutenção do aparelho do Estado pelo período de um mês por ano. Deviam forne­cer víveres para a numerosa família do rei, para os “servos do rei” e para os cavalos de guerra (lR s 5,1-8). (Em algu­mas Bíblias a numeração destes versículos é 4,21-28). Além dos tributos em bens materiais Salomão intro­duziu o tributo em trabalhos forçados, a corvéia. É signi­ficativa a maneira de sua introdução. O oráculo de Natã proibira a construção de um templo. Este oráculo, agora emendado, serviu de apoio a Salomão para realizar o que o pai Davi não pudera concretizar: a construção de um templo suntuoso para Javé Deus de Israel. Para isso organizou a população por turnos de tra­balho. Trinta mil para transportar madeira desde o Líba­no, setenta mil carregadores e oitenta mil canteiros (lR s 5,15-32) (= 5,1-18). Sobre esta população que trabalhava um mês de cada três nas obras da construção, pôs três mil e trezentos capatazes dos servos do rei. O administra­dor geral de toda a corvéia do país era um certo Adoniram ou Adonisam filho de Abda (lRs 4,6). Terminada esta obra, Salomão empregou a corvéia na construção de melhores defesas para Jerusalém, de palá­cios para suas esposas, de cidades armazéns e guarnições como Gazer, Bet-Horon Baixa, Baalat e Tamar, e de está­bulos para seus cavalos de guerra (lRs 9,15-24). (A afir­mação de lRs 9,22 de que não empregou israelitas na corvéia não concorda com a evidência do capítulo 5 nem com lRs e deve ser uma tentativa para encobrir a realidade. A riqueza derivada da exploração da população de Israel Salomão acrescentou o lucro obtido do comércio por ele estimulado. Construiu uma frota para navegar o mar Vermelho (lR s 9,26-28). Servia de intermediário entre os exércitos daquele tempo: comprou cavalos da Cilícia
  33. 33. para vendê-los aos egípcios, e carros do Egito para vendê-los aos arameus (lRs 10,26-29). Aparelhou também seu próprio exército com numeroso contingente de carros. O templo de Javé, funcionando em Jerusalém na propriedade real, com sacerdotes pagos pela Coroa, cons­tituía- se uma peça importante da estrutura social da época. Assegurava, com a sua teologia e festas, a legitimidade de Salomão. Javé, o Deus libertador da escravidão egípcia, aben­çoava agora Salomão, e através dele o povo escolhido por Deus. Para podermos ler criticamente as afirmações elo­giosas da Sagrada Escritura sobre Salomão, é necessário recorrer à chave teológica de leitura a partir dos pobres: o êxodo. Esta chave de leitura evidencia que o Javé de Salomão não é o mesmo Deus que ouvira o clamor dos oprimidos no Egito. O Deus dos pobres fora capturado pelos seus dominadores para servir de legitimação da opressão infligida aos camponeses de Israel. A estrutura social do reino de Salomão assemelha-se às estruturas clássicas do modo de produção tributá­rio, com a única diferença que o rei, em Israel, estava formalmente submetido à lei de Javé. Nunca se afirma, porém, que um profeta lhe tenha imposto limites em nome da Palavra de Javé. / Classe opressora Camponeses oprimidos SACERDÓCIO Este esquema acaba com a organização popular das tribos, agora mudadas em distritos, que respondem à administração do rei e não à organização popular. As flechas com sentido ascendente indicam os tributos extraí-
  34. 34. dos das aldeias para o rei por meio dos governadores dos distritos. Estes tributos se compõem tanto de bens mate­riais como de trabalho. As flechas com sentido descenden­te representam a autoridade do rei que fazia o que queria com seus servos, cujos cargos dependiam do beneplácito do rei. Como havia dito Samuel: “Vós mesmos vos toma­reis seus escravos” (ISm 8,17). A produção literária desta época. Os primeiros do­cumentos israelitas que se podem reconstruir provêm desta primeira época monárquica. Tudo o que há de mais anti­go são poesias incrustadas em obras posteriores (os orá­culos de Balaão, o cântico de Débora, etc.). Durante esta época surgem os primeiros produtos da literatura de Israel, provavelmente sob o influxo da corte de Salomão, recordado posteriormente como sábio devido ao ambiente intelectual de sua corte. As obras literárias desta época estão inseridas em obras maiores de uma época posterior. Existe, contudo, um amplo acordo entre os investigadores de que o relato Javista (J) do Pentateuco e a História da Sucessão são deste período. Há mais de cem anos os investigadores concordam em identificar o relato do Pentateuco como resultado da combinação de três versões da história nacional das ori­gens de Israel com um discurso atribuído a Moisés (Deuteronômio). A partir do trabalho de Julius Wellhausen, de pouco mais de cem anos atrás, se reconhece a Javista como a mais antiga das três fontes e a de melhor forma e beleza narrativa. O conteúdo do relato javista é fruto da tradição oral da experiência do tempo da organização tribal. Compõe-se de quatro temas: 1) promessa de terra e descendência aos patriarcas; 2) êxodo da escravidão no Egito; 3) entrega da lei de Javé no monte Sinai; 4) e peregrinação no de­serto com dupla ênfase: na graça de Javé e nas rebeliões de Israel. Um quinto tema é o cumprimento da promessa de terra, pouco desenvolvido por se limitar às derrotas de Seon e Og na Transjordânia. Desde a brilhante análise
  35. 35. teológica de Gerhard Von Rad se reconhece que a criação e toda a proto-história não fazia parte da tradicional his­tória de Israel, mas foi posta antes dessa história para dar significado universal à história da nação. A perspectiva, o ponto de vista, sob o qual se narra a história de Israel, é judaíta, isto é, sulista. Na bênção de Jacó (Gn 49) e nos oráculos de Balaão (Nm 24), há indícios que apontam o reinado de Davi e Salomão como a culminação da história primitiva de Israel, segundo o Javista. Leonhard Rost, em 1926, fez um estudo sobre a outra grande obra literária deste período. É considerado um clássico. Compõe-se de 2Sm 9—20 e lRs 1—2. Trata-se do relato de uma testemunha ocular dos acontecimentos no interior da corte de Davi que culminaram com a surpreen­dente sucessão de Salomão ao trono, embora não fosse o filho maior e portanto o herdeiro. A obra é escrita num estilo admirável e com uma consciência histórica extraor­dinária para a época. A teologia, em particular, não atri­buindo intervenções milagrosas a Javé, constitui-se numa evidência da ilustração intelectual da corte salomônica. Apesar de tudo, é uma sofisticada obra apologética bus­cando justificar a sucessão de Salomão ao trono de seu pai Davi.
  36. 36. ---- IV ---- Revolta das tribos contra a dinastia davídica Antes da morte de Salomão, houve um Jevante das tribos encabeçado por Jeroboão de Efraim. Jeroboão era um alto funcionário encarregado do recrutamento da “casa de José”, provavelmente nos distritos de Efraim e Benja­mim (lRs 11,26-28). Com o fracasso da rebelião, Jeroboão refugiou-se no Egito junto ao rei Sesac de quem recebeu asilo (lRs 11,40). A morte de Salomão no ano 931 a.C. e o desconten­tamento das tribos ofereciam ótima oportunidade a Jero­boão. Este voltou e organizou uma assembléia das tribos em Siquém, antiga e importante cidade de Efraim. As tribos convocaram o jovem rei Roboão, filho de Salomão, “para proclamá-lo rei” (lR s 12,1). Antes, porém, de proclamá-lo rei ofereceram ao jovem algumas condições: “. . . agora, alivia a dura servidão de teu pai e o jugo pe­sado que ele nos impôs e nós te serviremos” (lRs 12,4). Existem duas versões da Assembléia de Siquém em 931 a.C.: uma no texto massorético (TM), a antiga Bíblia hebraica; a outra na versão dos Setenta (LXX), a antiga Bíblia grega. Embora esta fosse usada pelos primeiros cristãos, hoje, as Bíblias modernas preferem traduzir o
  37. 37. texto hebraico. Pois bem, parece que, depois de Jeroboão e seus seguidores haverem feito suas exigências, Roboão mandou consultar os anciãos das tribos que Salomão des­tituíra substituindo-os pelos governadores. Estes repetiram as exigências de Jeroboão (lRs 12,24 q LXX). Reunido depois com seus próprios conselheiros, “que comiam na mesa com ele”, concordaram em manter a linha dura, pen­sando que de outro modo os pedidos não acabariam nunca (lRs 12,24 r LXX). (A Bíblia hebraica reduz, de maneira pouco provável, esta discussão a um debate interno da corte, entre conselheiros anciãos e conselheiros jovens, lRs 12,6-15). Diante da recusa de Roboão em atender seus pedi­dos, o povo recusou-se a proclamá-lo rei retirando-se das negociações cantando em coro o antigo lema de Seba, o Benjaminita: “Que parte temos com Davi? Não temos herança com o filho de Jessé. Para as tuas tendas, ó Israel! E agora cuida da tua casa, Davi!” (lRs 12,16). Completa­ram sua rebelião apedrejando até a morte Adoram, chefe supremo dos trabalhos forçados (lRs 12,18). Roboão fugiu para Jerusalém onde toda burocracia lhe continuara fiel. Em torno a Jerusalém pôde agrupar toda a tribo de Judá e, parece, a maior parte de Benjamim (lR s 12,21). As tribos de Israel, enquanto isso, proclamaram rei Jeroboão que fez de Siquém sua capital provisória (lRs 12,20.25) . No entanto, Siquém não era sua cidade no mesmo sentido que Jerusalém era a cidade para os da linhagem de Davi. Siquém era uma antiga cidade com suas tradições próprias. Tinha, inclusive, a lembrança da grande assembléia convocada por Josué nos tempos herói­cos da revolução (Js 24). Mais tarde Jeroboão transferiu sua capital para Tersa, cidade localizada dentro da juris­dição dos anciãos de Manassés. A „ falta de uma capital própria reflete a natureza deste reinado surgido como reação de protesto contra a Jeroboão estava se transformando numa liderança militar do tipo de Saul. Era responsável pelo exército de Israel, porém não controlava um sistema., de arrecadação de tributos com sua respectiva burocracia civil. Tampou­
  38. 38. co mantinha um templo e o sacerdócio dependentes da coroa. Voltemos, um momento, a um dado importante que é o apoio profético ao levantamento de Jeroboão. Tanto o TM como a LXX, as duas Bíblias antigas, concorriam com o apoio dos profetas à rebelião, ainda que difiram nos detalhes. No TM, Aías de Silo incitou Jeroboão à sua primeira rebelião que seria infrutuosa (lRs 11,26-40). Não dá como motivo a opressão de Salomão mas o fato de ele seguir os deuses estrangeiros, os deuses das suas espo­sas (lRs 11,33). Não é um motivo totalmente diferente da opressão. Como vimos, Javé era um Deus que não tole­rava a opressão, enquanto que para outros deuses isto não era um problema. Contudo, a LXX pode estar mais próxima dos verdadeiros motivos históricos. Afirma que foi o profeta Semeías de Elam a incitar Jeroboão, não para a sua primeira rebelião, mas para convocar a assem­bléia de Siquém depois da morte de Salomão (lRs 12,24 o LXX). De todos os modos é significativa a resposta dos profetas ao gemido das tribos de Israel frente à apostasia e à opressão. O levante das tribos contra a casa de Davi teve o apoio de Javé e seu(s) profeta(s). Examinar, com a chave de leitura teológica do êxodo, as medidas religiosas que tomou Jeroboão é fundamental para o entendimento dos livros dos reis (lRs 12,26-33). Este texto foi escrito do ponto de vista de Jerusalém. O templo de Jerusalém, como já vimos, é fruto de uma po­lítica de expropriação dos objetos sagrados do povo para pô-los sob o controle e ao serviço dos opressores. Isto levanta suspeitas com relação ao texto. Jeroboão estabeleceu em Betei e Dã lugares de culto, nos diz o texto. Se examinarmos as tradições das tribos veremos claramente que tanto Betei como Dã eram anti­gos .centros de culto a Javé. Em Betei Javé aparecera ao patriarca Jacó (Gn 28,10-22), e Dã é o lugar onde a tribo homônima estabelecera seu centro religioso depois da sua migração de Saraá e Estaol (Jz 18,28-31). O refrão litúrgico “Eis o teu Deus (ou ‘teus deuses’ — pois se pode traduzir no singular ou no plural), Israel,
  39. 39. que te fez sair da terra do Egito” (lRs 12,28) é uma alusão clara às tradições do êxodo. Não há nada de teologica­mente duvidoso nem no refrão, nem nos lugares de culto renovados por Jeroboão. Os bezerros podem ser entendidos como imagens de Javé ou, mais provavelmente, como sua cavalgadura. Aarão teria levado o povo a cometer um grave pecado quando aceitou fabricar uma imagem de Javé para conduzir o povo pelo deserto. Teria sido uma violação do mandamen­to do decálogo, “Não farás para ti imagens” (Ex 20,4). Os bezerros são, pois, questionáveis. No templo de Jeru­salém, porém, também havia imagens: os querubins com suas asas estendidas cobriam a arca da aliança (lRs 8,6-7). Se Jeroboão violara com suas imagens um mandamento da lei sinaítica, Davi e Salomão também o fizeram com as suas. É mais provável que nem Jeroboão nem Davi ti­veram consciência de estar violando um mandamento. Em resumo, o culto a Javé auspiciado por Jeroboão não parece ter violado as tradições populares. Ao contrá­rio, devemos entendê-lo como uma tentativa de devolver ao povo suas tradições agora usurpadas pelos reis em Je­rusalém. A freqüente condenação no Livro dos Reis aos que “fizeram o mal aos olhos de Javé e imitaram a conduta de Jeroboão e o pecado ao qual ele tinha arrastado Israel” (lRs 15,34; 16,26; 2Rs 13,2; etc.) deve ser entendida como um juízo de Jerusalém que não reflete a fé do povo em Javé, o Deus do êxodo. A política religiosa de Jeroboão não deve ser enten­dida como uma imitação da política de Davi e sua linha­gem. Nem Betei nem Dã se encontravam em cidades reais, nem seus santuários estavam sobre propriedades dos reis. Certamente os reis exerciam alguma influência mas não com o controle total como os reis tinham no templo de Jerusalém. Sendo assim, com Jeroboão o povo reconquis­tou algum controle da fé em Javé. Dois elementos da estrutura social de Israel servi­ram como limites aos reis. O mais importante foi o exér­cito, que, segundo parece, era recrutado por tribos. Pro­vavelmente os batalhões eram organizados por tribos man­tendo assim contato com suas origens. Do seio do exér­
  40. 40. cito saíram novos reis impossibilitando-lhes sua perpetua­ção através dos filhos. Assim Baasa de Issacar matou, no acampamento militar, a Nadab, filho de Jeroboão, tomando-lhe o trono (lRs 15,27), no ano 909 a.C. No ano 885 a.C. Zambri, chefe da metade dos carros, matou o rei Ela, filho de Baasa (lRs 16,9). Era uma forma violenta mas Q outro elemento de controle sobre os reis foi a par­ticipação eficaz, dos profetas de Javé na vida pública. Aí as de Silo condenou Jeroboão em nome de Javé, preparando assim o ambiente para o golpe de Baasa (lRs 14,1-18). O profeta Jeú, filho de Hanani, fez o mesmo contra Baasa, anos mais tarde (lRs 16,1-4). Desta forma em Israel (ao contrário de Judá) se manteve viva a tradição do papel público do profeta de Javé, papel que Samuel tinha ten­tado instituir. A sociedade israelita regressara, então, a um regime parecido com o de Saul e que podemos representar desta maneira: Aldeias organizadas por tribos JAVÉ 00 oo ooo ooo ünWB carecendo de um corpo de administração civil e mantendo pouca autoridade sobre os santuários religio­sos, era mais que outra coisa um chefe militar, o respofí- U Os tributos das tribos, expres-ü^ JwWpteerviaJW^HRcipalmente para a manutenção do exército. Não havia, pois, opressão. O ^ ■ ■ ■ ^ p o ssu ía lé§HHM^iHM£iosa como o É fácil entender que as tribos pagassem, com o preço de uma certa instabilidade política, o fato de manterem o controle sobre as estruturas do governo. Os reis de Israel
  41. 41. não organizaram trabalhos forçados para construção de obras públicas. Não fizeram nem palácios, nem templos para os reis e nem sequer para Javé, seu Deus. A versão do norte (eloísta) das tradições das origens. O surgimento de uma corte real com participação de inte­lectuais, como vimos, permitiu que se escrevesse a histó­ria das origens da nação a partir das tradições orais das tribos. Embora os escritos javistas no Pentateuco mostrem um grande respeito pelas tradições, não deixam de refletir um enfoque sulista. Era natural que quando as tribos de Israel se separaram de Judá seus intelectuais sentissem a necessidade de produzir, também eles, uma versão escrita das tradições das origens. A ciência bíblica reconhece a história nortista como a versão eloísta, porque essa mostra uma clara preferên­cia pelo termo “Eloim” para designar Deus em lugar do nome próprio Javé. Esta preferência facilitou muito o tra­balho de separação desta versão no Pentateuco, onde se encontra combinada com a versão javista e sacerdotal (“P”). A versãcnelSwfft das origens se caracteriza pela «■Wttência dada-aos profetas. Nela Abraão e Moisés sãò apresentados como profetas. O papel dos profetas na re­ligião das tribos do norte coincide com esta ênfase. Atra­vés deles a Palavra de Deus é dada a conhecer e não há outra resposta adequada por parte dos homens senão a obediência. A mediação dos profetas na história eloísta tem o efeito de retirar a presença direta de Deus nos assuntos terrenos, se se compara com a história javista. Embora a história^BBsta não tenha sido preservada toda no Pentateuco (é a mais fragmentária das três), evidencia-se o fato de limitar-se aos temas da tradição, quer dizer, patriarcas, êxodo, Sinai, peregrinações pelo deserto. Não tomou a liberdade da história i avista que acrescentou a^ ííffetófta da criação e do dilúvio;. Não há indícios na história eloísta, tal como se apre­senta no Pentateuco, que permitam precisar a data de sua redação. É necessário conformar-se em saber que foi re-copilada no norte, quiçá em Betei, no período do reinado (931-722 a.C.), provavelmente mais para o começo do que para o fim deste período.
  42. 42. QUADRO CRONOLÓGICO DA HISTÓRIA DE ISRAEL Aprox. 1220 1000 931 884-841 841-752 722 640-609 597 586 538 520-515 445-? 332 301-198 167-164 63 66-70 d.C. 132-135 d.C. Êxodo do Egito (Mernefta, 1224- 1204) Davi conquista Jerusalém Jeroboão com as tribos se revoltam contra Roboão A dinastia de Amri (Amri, Acab, Ocozias, Jorão) A dinastia de Jeú (Jeú, Joacaz, Joás, Jeroboão II, Zacarias) Destruição de Samaria pelos assírios Reinado de Josias (Reforma) Deportação de Joaquin à Babilônia Destruição de Jerusalém Retomo sob Sasabassar Reconstrução do templo de Jeru­salém Governo de Neemias Alexandre Magno conquista a Pa­lestina Domínio ptolomeu sobre a Palestina Insurreição dos Macabeus Pompeu conquista Jerusalém para os romanos Primeira guerra contra Roma: des­truição do templo Segunda guerra contra Forra; fun da história de Israel.
  43. 43. --- V --- A dinastia de Amri (884-841 a.C.) Este é um período negro da história de Israel. É um tempo em que os reis quiseram, por razões de estado, t f » os grandes profetas Elias e Eliseu para fazer frente à crise. O exército, como em outras vezes, pôs fim a esta experiência que do ponto de vista do povo foi triste. Amri era o chefe do exército quando Zambri matou o rei Ela (lRs 16,16). Teve o apoio imediato das suas tropas que queriam fazê-lo rei. Zambri se suicidou. Me­tade do povo seguiu Tebni, enquanto a outra metade apoiou Amri. Esta situação pôde durar vários anos mas ao final o partido de Amri prevaleceu. Israel, nesta época, enfrentava sérios problemas de defesa. Judá se aliara aos arameus de Damasco contra Israel. Com isso Israel perdeu o controle de grandes exten­sões do seu território nacional. No sul, Judá conquistara todo o território de Benjamim e parte de Efraim. A maior parte da Galiléia caíra sob o domínio dos arameus assim como toda a Transjordânia. Era prioritário, então, recupe­rar o território perdido.
  44. 44. Amri enfrentou a crise combinando uma política interna de reforço do Estado com uma política externa de alianças. A base da política interior foi a compra de um ter­reno para a construção da capital como propriedade da Coroa. A esta nova cidade deu o nome de Samaria (lRs 16,24). Povoou sua nova capital com pessoas que lhe eram diretamente fiéis, em essência, uma nova burocracia de governo. Fez construir um templo consagrado ao deus Baal (lRs 16,32). Isto é surpreendente, porém se pode entender pela “necessidade” de um sacerdócio que exalte a figura do rei para fortificá-lo politicamente. Era-lhe impossível domesticar a Javé que já rechaçara pretensões similares na família de Davi. A política exterior de Amri apoiou-se no reconheci­mento de Aram-Damasco. Para fortalecer-se estabeleceu uma aliança com Tiro e Sidônia, cidades comerciais muito ricas. Consolidou a aliança casando seu filho Acab com Jezabel, princesa de Sidônia. Jezabel trouxe consigo, pare­ce, sacerdotes de Baal. Este casamento “diplomático” serviu de apoio a sua política interior de fortalecer o Estado. O quadro completou-se com a outra aliança estabe­lecida com Judá. Acabou-se meio século de guerras fron­teiriças. Atalia, filha de Acab, foi dada em casamento a Jorão de Judá, filho de Josafá, para cimentar as novas e boas relações entre dois países que tiveram um mesmo passado na época tribal de Israel. Josafá e Acab comba­teram juntos contra Damasco para recuperar a Transjor-dânia. Ambos os países (Israel e Judá) tinham interesse neste território (lRs 22). Esta aliança antiaramaica con­tinuaria com Ocozias, filho de Jorão e Atalia, e Jorão de Israel, neto de Acab (2Rs 8,28-29). O conjunto das políticas de Amri teve muito êxito no fortalecimento de Israel. A coalizão antiassíria deteve o exér­cito inimigo em Carcar. Juntando-se ao rei de Damasco e de Emat, Acab levou ao combate uma tropa de dez mil soldados de infantaria e dois mil carros. Isto é atestado nos documentos de Salmanasar III da Assíria. Os principais problemas para os Amridas, porém, eram de caráter intemo. Javé não podia conviver pacifi-
  45. 45. camente com Baal. Javé é um Deus ciumento (Ex 34,14-17). Não tolera que seu povo tenha outros deuses. Esta ca­racterística de Javé se deve sem dúvida às lutas do perío­do revolucionário. Combateram as cidades cananéias pre­sididas por deuses legitimadores da dominação. A estra­tégia política de Amri e sua linhagem foi praticamente uma: estabelecer em Samaria, sua capital, um culto oficial a Baal, sem impedir que os santuários de Javé em Betei e Dã continuassem funcionando. Baal seria o deus da Sa­maria e Javé o Deus das tribos. Porém isto não podia funcionar. O profeta Elias re­preendeu todo o povo nestes termos: “Até quando claudica-reis das duas pernas? Se Javé é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o” (lRs 18,21). Houve conflitos sangrentos. Segundo lRs 18,4, Jezabel “exterminou” os profetas de Javé. E se­gundo lRs 18,40, Elias degolou os profetas de Baal. A ver­dade é que houve conflitos de morte. A história da vinha de Nabot (lRs 21) nos permite entender o que estava em jogo para o povo neste conflito apa­rentemente religioso. O rei Acab cobiçara a vinha, herança de Nabot, que confinava, por desgraça, com o palácio de Jezrael. Apelando à lei sinaítica que proibia a alienação de terras produtivas (Lv 25,23-31), Nabot recusou-se a vendê-la. Ao rei não coube outra alternativa senão aceitar a decisão amparada pela tradição legal de Israel. Jezabel, no entanto, pelas tradições políticas de seu país, sabia que não havia lei acima da vontade do rei e procedeu ao “con­fisco” da vinha de Nabot (lRs 21,4-16). Este era o fundo social de um conflito entre Javé e Baal. Estavam em jogo os interesses econômicos dos israelitas, suas próprias vidas que dependiam de suas terras.
  46. 46. Elias e depois de sua morte Eliseu, profetas de Javé, foram os líderes da oposição. Prepararam a queda dos amridas em 841 a.C. O esquema da p. 46 representa mais a intenção política que a realidade do governo de Amri e sua descendência. Seu propósito era estabelecer em Israel uma nação segun­do o modelo cananeu. Este é o modelo de sociedade exis­tente no Egito contra o qual Moisés e seus seguidores se rebelaram. Não julgaram necessário eliminar de Israel o culto a Javé, mas deixá-lo como culto popular ao lado do culto oficial que na Samaria se tributava a Baal. Os pro­fetas não puderam aceitar este arranjo que permitia liber­dade de culto a Javé mas não afetava em nada as estru­turas de dominação. Os textos sugerem que foi Jezabel quem iniciou a perseguição religiosa; parece-nos mais pro­vável, porém, que foram os profetas de Javé os primeiros a rechaçar esta proposta. Baal não tinha razões para pe­lejar contra Javé; Javé tinha todos os motivos para pelejar contra Baal. Este servia como legitimação religiosa da do­minação do povo de Javé. Este círculo flutuante de pro­fetas não aceitou ser retirado do cenário político. Ao con­trário, entrou em conflito com a administração religiosa oficial. Temos pouca informação sobre a organização das aldeias, mas parece natural supor que estas continuaram existindo. Não puderam ser instalados perfeitamente, por­tanto, os canais para a coleta de tributos das aldeias para as funções da corte real.
  47. 47. ---- VI ---- A dinastia de Jeú (841 -752 a.C) Ortodoxia e exploração A dinastia de Amri teve seu ocaso no ano 841 a.C. provocado por uma rebelião do exército, como acontecera anteriormente com as dinastias de Jeroboão e Baasa. O setor do exército, protagonista do golpe de estado, como nos outros dois casos era sensível ao povo defraudado de Israel. Sua intenção era acabar com a tirania dos reis que não consideravam o bem-estar do povo, nem respeitavam as tradições legais populares que defendiam os direitos dos pobres. O golpe foi dirigido por um certo Jeú, oficial do exército, que combatia contra Aram na Transjordânia. Foi um golpe extraordinariamente sangrento. Jorão foi assas­sinado (2Rs 9,22-26), bem como sua mãe (2Rs 9,30-37) e seus setenta filhos (2Rs 10,1-11). Ocozias, rei de Judá, encontrando-se em Israel, possivelmente para participar na guerra contra Aram, também morreu (2Rs 9,27-29). Ele era filho de Atalia, a filha de Acab que se casara com o rei de Judá. Morreu também um grupo da família real de Judá (2Rs 10,12-14). A religião, da mesma maneira que exercera um papel importante no fortalecimento do Estado no tempo
  48. 48. de Amri e sua casa, desempenhou um papel não menos importante na sua derrocada. O texto bíblico sublinha que o levante de Jeú foi incitado pelo profeta Eliseu (2Rs 9,1-10) e é considerado a culminância das piofecias de Elias contra Acab (2Rs 9,25-26.36). Pelas razões estudadas podemos assegurar que a hostilidade dos profetas de Javé contía os amridas era muito profunda e sua participação na luta pela derrocada, entusiasta. O livro de 2Reis ressalta a importância das medi­das religiosas tomadas por Jeú para eliminar da Sama-ria o culto de Baal (2Rs 10,18-27). Não só matou seus sacerdotes e profetas, mas também expurgou aqueles que pôde identificar como adeptos de Baal. O historiador do Livro dos Reis, com sua conheci­da tendência pró-jerosolimitana, ou melhor, apesar desta tendência, disse: “Jeú extirpou de Israel o culto de Baal” (2Rs 10,28). Não se pode tomar ao pé da letra esta sur­preendente afirmação. Jeú eliminou o culto oficial de Baal na capital e dessacralizou o templo ali construído pelos reis. Baal, porém, devido1 a sua identificação com a tão desejada chuva, era também o Deus de muitos camponeses. Joás de Manassés, pai de Gedeão, em plena época tribal, tinha em sua propriedade um santuário de Baal (Jz 6,25), e nem por isso era considerado um não israe­lita. Podemos supor que o culto clandestino ou privado de Baal entre os camponeses era bastante comum. Isto teria facilitado a introdução de Baal na Samaria, porém ali a coisa era diferente. Jeú eliminou de Israel o culto oficial de Baal, mas não consta que tenha tratado de erra­dicar seu culto mais privado. Os historiadores, imediatamente depois de informar da eliminação de Baal, acrescentam seu comentário habi­tual: “Porém Jeú não se afastou dos pecados com os quais Jeroboão, filho de Nabot, tinha seduzido os israelitas, isto é, os bezerros de ouro em Betei e Dã” (2Rs 10,29). Isso vem confirmar nossa interpretação. Os atos religiosos de Jeroboão não intencionavam apartar Israel de Javé, mas do templo de Jerusalém. Os historiadores que escreveram os Livros dos Reis encontraram nisto a matéria suficiente para condená-lo. Na perspectiva dos pobres não é assim.
  49. 49. É preciso ter reserva quanto às apreciações dos historia­dores que não depositam nos pobres seu maior interesse. As mortes na família real de Judá causadas pelo golpe de estado de Israel provocaram o fim da aliança entre os dois países, como era de se esperar. Este pro­blema é complicado pelas lutas internas em Jerusalém, o que veremos no capítulo seguinte. A guerra só estourou cinqüenta anos mais tarde, quando o rei Amasias de Judá atacou o exército de Joás em Israel. Sofreu uma derrota completa e foi levado cativo à Samaria (2Rs 14,8-14). A vitória sobre Judá foi apenas um reflexo da força construída por Jeú em Israel. Depois dos reveses aconte­cidos durante o reinado mesmo de Jeú (2Rs 10,32-33) e continuados nos dias de Joacaz (2Rs 13,22), Joás pôde re­verter a situação e recuperar os territórios perdidos (2Rs 13,24-25). Jeroboão, filho de Joás, teve um longo reinado (762-752), próspero e de expressão territorial (2Rs 14,25). As escavações arqueológicas confirmam a prosperidade obtida nesta época de Jeroboão. Para entender a organização do Estado israelita sob Jeú e seus descendentes, a função da religião continua sendo determinante. Parecem ter devolvido a proeminência aos santuários tradicionais de Javé, entre os quais Betei era o mais importante. Dã provavelmente havia perdido muita importância por encontrar-se numa zona territorial onde o domínio israelita não foi estável. Jeú teve que decidir o que fazer com a capital de Amri. Samaria era uma cidade de estilo praticamente ca-naneu. Dessacralizando seu templo e matando os compro­metidos com a ordem política de Amri e com o culto a Baal, deixou-a sem dúvida despovoada. Embora os textos não nos informem sobre medidas para o seu repovoamen-to, Jeú tampouco a abandonou. Mesmo depois de Jeú e seus filhos, Samaria continuou sendo a capital de Israel. Com uma cidade real, os reis puderam estabelecer um estado muito mais forte que o do primeiro Jeroboão. A dinastia de Jeú não representa, portanto, somente a res­tauração do reinado anterior aos amridas. Como conse­qüência da política de Amri o estado de Israel ficou fortalecido.
  50. 50. Jeú, no entanto, parece não ter construído um tem­plo a Javé na Samaria. O grupo formado ao redor dos profetas Elias e Eliseu teve grande influência no seu mo­vimento. Isto talvez lhe tenha servido de freio. Eles bus­cavam a restauração de um reinado com autonomia dos profetas em relação aos reis. Os profetas podiam, de acor­do com a vontade de Javé, retirar seu apoio ao rei. Po­demos representar Israel deste período (841-752) da se­guinte maneira: JAVÉ Aldeias organizadas por tribos OOQl IÕÕ1IÕÕÕIIÕÕ A organização tribal continuou oferecendo uma certa defesa aos camponeses israelitas. O profeta Amós ainda fala, nesta época, da função judicial dos anciãos (Am 5,15: “a porta” é o lugar de reunião dos anciãos). O exército pode ter mantido seus vínculos com as tribos. Entre 752 e 722, ano da destruição de Samaria, houve mais dois golpes de estado. A administração civil cresceu com sua base de Samaria, provocando um aumento dos tributos para sua manutenção. Os comerciantes, de cujos abusos fala o profeta Amós, podem ter sido funcionários do Esta­do ou agentes livres (Am 8,4-8). O sacerdócio de Javé mais autorizado estava em Betei, principal santuário nacional. Amós (7,10-17) revela a vinculação do santuário à Coroa. Os sacerdotes sentiam-se endividados com o rei por causa da restauração feita depois da perseguição desencadeada pela dinastia de Amri. Não sobrou, porém, o menor traço de uma teologia real elaborada em Betei. Isto indica que os sacerdotes não eram simplesmente funcionários a serviço do rei. A reli­gião manteve uma certa medida de independência. Não
  51. 51. temos maiores informações. A ausência de profetas autô­nomos por mais de cem anos, ou pelo menos de informes sobre profetas, levanta a suspeita de que as coisas não iam tão bem do ponto de vista de uma vigorosa tradição do Javé libertador. A tradição teria sido apagada. Foi um profeta de Judá quem chegou a Betei, no final do reinado de Jeroboão II, para assumir o manto de Elias e de outros ilustres precursores. Amós profeti­zou em Betei. Fez uma análise profunda das injustiças que desmentiam a profissão de fé em Javé, Deus do êxodo. Na Samaria havia luxo e despreocupação com a mi­séria da maioria do povo (Am 6,1-7; 3,13-15; 4,1-3). Os co­merciantes vendiam mercadorias ruins e caras, traficando assim com a necessidade do povo (Am 8,4-8; 2,6). Os anciãos não julgavam segundo o direito (5,10-12.15). E tudo isto era acompanhado de um culto entusiasta e aparente­mente correto (Am 4,4-5; 5,21-24). Justamente por tê-los tirado da escravidão do Egito, Javé seria severo em pedir as contas pelas suas culpas (Am 3,1-2). Seu castigo não deixará nenhum sobrevivente (Am 9,1-4). Se pensavam que Javé não poderia destruir seu próprio povo, sabiam que Javé poderia igualmente ter tomado os filisteus ou os sírios para abençoá-los (Am 9,7). São palavras fortes. Contudo, Amós não tinha uma proposta para transformar a vida nacional. Não tentou afastar o rei Jeroboão nem propôs outro para seu lugar. Quiçá por ser estrangeiro, ainda que partilhasse das tra­dições religiosas de Israel. Simplesmente anunciou o juízo. Anos mais tarde, depois de Amós, surgia o último grande profeta do reino de Israel, Oséias. Para ele a exis­tência de um governo monárquico em Israel era simples­mente a manifestação de um problema cuja causa era mais profunda: a busca desenfreada de bens materiais. Javé, conhecido desde o êxodo como Deus Salvador, con­tinuava sendo o Deus nacional, mas transformado agora, pela ganância, em Baal, o deus da chuva e da fertilidade. O povo dizia conhecer Deus, porém a rejeição do bem demonstrava sua mentira (Os 8,1-3).
  52. 52. A esposa de Oséias tinha sido prostituta (Os 1,2). A prostituição foi para ele a imagem que permitia enten­der a vida nacional. A vida de Israel reduzira-se a uma corrida ao trigo, mosto, azeite, prata, lã e linho, sem re­conhecer que a provisão estável para as necessidades da vida provinha da justiça e do culto a Javé, o justo (Os 2,10-11; em outras versões, 2,8-10). Para satisfazer seus ape­tites encheram a terra de mentiras, assassinatos e roubos demonstrando assim o desconhecimento de Deus (Os 4,1-3). Arrependimento e belas orações não bastavam a Javé que buscava amor e não sacrifícios (Os 5,15—6,6). Os reis eram a expressão deste mal profundo. Todo mal começou em Guilgal (onde Samuel ungira Saul, o pri­meiro rei — Os 9,15). As injustiças derivavam de Gabaá, o povoado de Saul (Os 10,9). No tempo da desgraça, os reis, que o povo quis em desconsideração a Javé, não os ajudarão (Os 8,4; 13,9-11). Em conseqüência da vida prostituída, para Oséias, Israel como Estado irá desaparecer. Javé chamá-lo-á ao deserto e fará uma nova aliança na justiça, no direito, no amor e na fidelidade (Os 2,16.21-22; em outras versões 2,14.19-20). Oséias vê neste futuro a unidade original de Israel e Judá (Os 2,1-3; em outras versões, 1,10—2,1).
  53. 53. ----V II----- Enquanto isto, o reduto davídico, Judá Ao longo destes dois séculos, desde a rebelião das tribos contra a casa de Davi (931) até a destruição da Samaria (722 a.C.), a antiga tribo de Judá manteve-se como um pequeno estado à parte. Jerusalém, a cidade de Davi, não se uniu à rebelião e pôde manter consigo Judá e parte de Benjamim. Com a incorporação dos territórios de Israel ao sistema de províncias da Assíria e a disper­são forçada de seus líderes com a tomada de Samaria, Judá permaneceu o único vínculo histórico com a expe­riência revolucionária das tribos de Israel. Daí decorre a importância dada a Judá e Jerusalém na Bíblia. Uma comparação dos Livros dos Reis com os das Crônicas ajuda a pôr esta história numa perspectiva. Ambos descrevem a história dos reis. Os livros dos reis, compostos nos últimos tempos do reino de Judá, em fins do século VII e início do VI, são parte de uma grande obra histórica; começa com Moisés e termina com a des­truição de Jerusalém. Os exegetas a chamam história deu-teronomística; começa com o livro do Deuteronômio, in­cluindo Josué, Juizes, os dois Livros de Samuel e os doi? Livros dos Reis. Para o período que nos interessa, 931 a.C.-722 a.C., os Livros dos Reis dão com acerto priori­
  54. 54. dade a Israel sobre Judá, refletindo a realidade de Israel que possuía a maior força política, e o fato de as origens tribais encontrarem maior continuidade ali. Esta história é escrita, no entanto, para preparar a destruição de Sa­maria e justificar a ação de Javé em acabar com Israel, deixando somente Judá. O pecado-chave, segundo os histo­riadores deuteronomísticos, é o de Jeroboão em separar Israel do templo de Javé. Já vimos que da perspectiva dos pobres este juízo não se pode sustentar. Os livros das Crônicas (ou Paralipômenos) narram a mesma história, com a diferença que começam com Davi para terminar, igualmente, com a destruição de Jerusalém. Uma extensa lista genealógica (árvore das famílias) que começa com Adão (lCr 1—9) prepara esta história. Quase tudo que diz respeito ao Reino de Israel é omitido. É a história do Reino de Judá como o verdadeiro Israel e de Jerusalém como Cidade Santa. O Reino de Israel é consi­derado apóstata desde o início por ter-se rebelado con­tra Davi, o eleito de Javé (ler o discurso de Abia, (2Cr 13,4-12). Esta é a perspectiva histórica feita a partir dos vencedores. Quando queremos ler a Bíblia a partir dos pobres devemos ler com muito cuidado este tipo de lite­ratura. Pode trazer informações valiosas, mas seu enfoque é teologicamente alheio aos pobres. No ano 931 a.C., quando as tribos se levantaram contra o jovem rei Roboão, ele pôde refugiar-se em Jeru­salém, cidade cercada de muros em que viviam majorita-riamente seus próprios “servos”, os administradores do reino. Desde Jerusalém ele e seus descendentes puderam implantar um reino diferente de Israel que continuasse as tradições políticas e religiosas de Davi. Como exército tinha as tropas de elite, compostas em boa parte de soldados mercenários, e os batalhões das tribos de Judá e de Ben­jamim. Como administradores civis tinha um contingente imenso composto pelos que haviam administrado as gran­des extensões conquistadas por Davi. Muitos dos adminis­tradores reais colocados por Davi e Salomão sobre as tribos de Israel, governadores de distritos e seus empre­gados, fugiram e se refugiaram em Jerusalém e Judá com Roboão. Havia pois uma superabundância de administra­dores qualificados. Quanto ao sacerdócio, o pessoal do
  55. 55. templo de Jerusalém foi dos mais leais seguidores. Para eles Javé tinha escolhido Davi e sua descendência para governar o povo de Israel. O levantamento das tribos so­mente podia ser entendido como uma desobediência a Javé. Instituiu-se pois em Jerusalém um governo tributário: Durante os reinados de Roboão (931-913 a.C.), Abiam (913-911 a.C.) e Asa (911-870), houve guerras com Israel, causadas, tudo indica, pelas pressões judaítas em alargar as fronteiras para o norte. Nos tempos do rei Josafá (873-848 a.C.) estabeleceu-se a paz em Israel. Esta ficou cimentada com o matrimônio de seu filho Jorão com Atalia, filha do rei Acab. Israel e Judá juntos guerrearam contra Aram para retomar toda a região da Transjordânia. A paz foi abruptamente quebrada com a morte da família real por Jeú durante o levantamento do ano 841 a.C. Ficou no trono de Judá Atalia, mãe do defunto rei Ocozias e membro da família real assassinada por Jeú em Israel. Atalia foi derrubada por uma coalizão dos sacer­dotes com o “povo da Terra”, os homens principais das cidades de província (2Rs 11), e a notável ausência do pessoal real de Jerusalém. Joás, filho de Ocozias e neto de Atalia, foi colocado no trono. Este foi assassinado por seus “servos” depois de um longo reinado de quarenta anos (2Rs 12,21). Seu filho Amasias empreendeu novamen­te a guerra contra Israel, com resultados desastrosos (2Rs 14,8-14). Depois disto houve paz durante o século VIII, até a destruição de Samaria. Para entender a dinâmica da vida política de Judá, é preciso examinar o pouco que nos dizem os livros dos
  56. 56. Reis acerca das muitas dificuldades políticas do século IX. Ocozias foi assassinado no ano 841, mais por problemas de Israel que do seu próprio país. O efeito foi lançar sua mãe no poder. Ela contava com o apoio do pessoal real mas os sacerdotes lhe faziam oposição, pois queria e de fato colocou um templo de Baal em concorrência com o templo oficial. Contra isto se levantou um movimento enca­beçado pelos sacerdotes e pelo povo da terra com o apoio de um setor do exército em 835. Atalia foi assassinada e seu neto Joás, com 7 anos de idade, coroado em seu lugar. Joás, durante seu longo reinado, entrou em conflito com os sacerdotes que, segundo parece, desconheceram as ordens reais de renovar o templo, preferindo gastar o di­nheiro (2Rs 12,5-17). Os servos do rei, desta vez com o apoio dos sacerdotes, o assassinaram em 797. Amasias, seu filho, governou poucos anos, porque no ano 792 caiu prisioneiro de Israel. Depois de libertado, em data desco­nhecida, foi assassinado por gente de Jerusalém, provavel­mente no ano 767 (2Rs 14,18-21). Esta informação permite descobrir a existência de tensões permanentes entre os reis e seu próprio pessoal em Jerusalém. Isto pode ser explicado pela burocracia de Estado superinflada e a base demasiado pobre de tributos para seu sustento. Eles teriam constituído a principal fonte de pressões expansionistas levando Judá a uma política exterior muito agressiva. O problema parece residir uni­camente no setor dos administradores. O exército com mais * facilidade podia reduzir-se a um tamanho mais conforme à realidade de um Judá pequeno. O sacerdócio interessava-se pela estabilidade da dinastia devido a sua própria teologia davídica. O povo da terra, os homens de maior poder e pres­tígio nas cidades de província, foram o principal apoio para a casa de Davi. Eles apoiaram, ao longo da história de Judá, reformas para reduzir o pessoal administrativo e concentrá-lo na cidade capital. O primeiro esforço neste sentido foi feito por Asa (911-870 a.C.): “Mandou eliminar de todas as cidades de Judá os lugares altos” (2Cr 14,4), que, além de centros religiosos, eram postos do governo.
  57. 57. Houve também as importantes reformas administra­tivas de Josafá (873-848 a.C.) (2Cr 17,6). Um século mais tarde, o mais importante de todos os reformadores, Eze-quias (716-687 a.C.), centralizou em Jerusalém muitas das funções políticas e religiosas exercidas antes em diferentes lugares (2Cr 29—31). Esta centralização deixava o campo livre para o “povo da terra”, que em troca desta política davam seu apoio decidido aos reis.
  58. 58. -------VIII------- Os profetas no final do século VIII em Judá No reino de Israel uma série importante de profe­tas se sucederam. Depois da sua queda, surgiram pela vez primeira profetas importantes em Judá. Nos tempos do rei Ezequias houve dois grandes profetas cujas tendências apresentavam grandes diferenças, um da capital e outro do campo. Ambos pretendiam analisar a situação de Judá, que na época era a única herdeira entre as tribos de Israel. Suas análises são diferentes. Permitem penetrar na com­plexidade da fé num mundo concreto, onde as coisas nem sempre são muito definidas. Isaías era de Jerusalém. Teve uma visão de Javé dentro do templo (Is 6). A partir desta visão assumiu o papel de profeta, crítico dos reis de seu tempo. Con­denou os latifundiários do país (Is 5,8), os governantes que não faziam justiça aos fracos (Is 10,1-4). Era-lhe par­ticularmente detestável o fato de as lideranças se apre­sentarem como gente muito religiosa, consagrada a Javé, enquanto viviam da exploração do povo (Is 1,10-17). A inovação encontrada em Isaías com relação aos profetas anteriores é que para ele o marco referencial de sua atividade era a teologia davídica e não tanto o êxodo.
  59. 59. Considerava Jerusalém uma cidade privilegiada, uma pro­teção para os pobres (Is 14,28-32). Isto apesar de no seu tempo Jerusalém ter-se convertido em um refúgio de assas­sinos; Javé, porém, a purificaria “através do fogo” e ela voltaria a ser uma cidade de justiça (Is 1,21-26). A esperança para o povo de Israel (Judá), segundo Isaías, é a vinda de um rei bom, o Messias. Isaías ditou pelo menos três textos messiânicos importantes (9,1-6; 11,1-9; 32,1-5.15-20). Neles se pode observar que, mesmo de dentro da teologia davídica, se pode denunciar as injus­tiças e proclamar a esperança. Para o culto em Jerusa­lém, o rei era o que trazia justiça para os pobres (SI 72). Os reis do seu tempo, porém, Acaz e Ezequias, não podiam controlar os desmandos dos oficiais que viviam à custa dos bens dos pobres. Isaías anuncia pois que serão como uma árvore desbastada (Is 6,13), mas do seu tronco sairá um rei bom que defenderá a causa dos humildes (Is 11,1-9). Isaías não chega à radicalidade de um Oséias. Este vê o pecado na instituição dos reis. Para aquele o mal não está na família de Davi nem na instituição monár­quica mas nos reis maus que Judá teria que suportar. Há de chegar um rei bom para salvar o povo. A partir dos pobres este ponto de vista produz uma análise curta. Isaías não percebe que é o povo mesmo que deve organizar-se para conseguir seus objetivos. Os interesses do povo serão atendidos, segundo ele, desde cima, por obra do rei messiânico. Miquéias foi um profeta camponês e popular. Segun­do seu modo de ver, os chefes se alimentavam da carne do povo (Mq 3,1-4). A cidade de Jerusalém fora construí­da com sangue e ali os chefes, sacerdotes e profetas eram igualmente ladrões (Mq 3,9-12). Pecado não eram as más obras dos governantes mas a própria existência da cidade de Jerusalém (Mq 1,5 segundo a versão LXX). A análise de Miquéias não podia ter esperança, como Isaías, na purificação da cidade. A solução para o povo seria a destruição da cidade, incluído seu templo (Mq 3,12). O campo sofria as conseqüências da exploração da cidade. Homens poderosos apropriavam-se das terras dos camponeses (Mq 2,1-3).

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