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Convidado
                              Cenas do espetáculo "Caminhada", que será                                                    Competições
16º Festival de Dança de      apresentado pelo Ballet Teatro Guaíra neste 
Joinville ­ 1998                                                domingo                                               Domingo de bambas
                                  Fotos divulgação/Karen Van der Brooche
­ Noticiário                                                                                                   Dream team de coreógrafos marca 
­ Programação                                                                                                           competições
­ Bares,boates, 
restaurantes de Joinville                                                                                                   Paulo César Ruiz
­ Espetáculo para todos                                                                                             Editor­assistente do ANFestival 
­ Entrevista com 
Pollyana Ribeiro                                                                                          Prosseguem neste domingo as competições de 
­ Entrevista com Vasco                                                                                    moderno/contemporâneo, solos livres e dança de rua, 
Wellenkamps                                                                                               até aqui a modalidade que mais chama público ao 
­ Um passo de ponta              Jardim dos caminhos que se                                               palco do Centreventos. Para se ter uma idéia, os 
                                                                                                          ingressos já estão esgotados desde a semana 
                                         bifurcam                                                         passada. Ainda de quebra, a noite tem uma atração à 
                                                                                                          parte: um dream team de coreógrafos como Chico 
                                                                                                          Neller, Ricardo Risuenho, Luis Arrieta, João Roberto 
Veja também:                                                 Joel Gehlen                                  de Sousa, Jussara Miranda, entre outros.
                                                        Editor do ANFestival
Especial com a vida e                                                                                     O primeiro grupo a se apresentar nesta noite é o 
obra do poeta Cruz e  Em julho de 1991 a bailarina Pollyana Ribeiro ­ que o público do 16º                Dorcinha, de Uberaba, o filhote do Beth Dorça, 
                                                                                                          sempre um concorrente de qualidade. O grupo 
Sousa.                 Festival de Dança teve oportunidade de assistir dançar ­ ganhou medalha            Mineiro disputa prêmios com mais dois competidores. 
Cruz e Sousa  
                       de ouro no conceituado concurso internacional de Helsinque, na Finlândia,          O Juvenil da Escola Municipal de Ballet, vem com a 
                                                                                                          coreografia "Transição", de Marcos Sage, um 
Uma conversa com       dançando o solo "Hymne a la Femme". Neste domingo, a platéia do FDJ 
                                                                                                          coreógrafo formado em Joinville e vem 
personalidades de      pode embevecer­se com esta mesma peça, interpretada por Regina                     desenvolvendo um trabalho sério, que ainda vai 
destaque em SC.        Kotaka, primeira bailarina do Ballet Teatro Guaíra. O solo faz parte do            chegar lá. "Transição" versa sobre mudanças, 
Grandes Entrevistas    espetáculo "Caminhada" que o grupo curitibano apresenta na abertura de             deslocamentos, alterações de comportamentos e 
                                                                                                          físicos. Ano passado o grupo levou o primeiro lugar 
                       mais uma noite competitiva nas modalidades Moderno e Contemporâneo e               na modalidade. O terceiro grupo na disputa é o Dança 
                       Dança de Rua.                                                                      & Cia, de Jaraguá do Sul (SC), que apresenta a 
                                                                                                          coreografia "Marionetes", inspirada no imaginário 
                            O Guaíra é uma espécie de padrinho do Festival de Dança de Joinville. A       infantil.
                            companhia oficial paranaense participa desde sua segunda edição. Nos 
                                                                                                          Agora, a noite vai pegar fogo mesmo, é na disputa do 
                            seus primeiros anos deu uma espécie de sustentação qualitativa ao evento      profissional. É difícil apontar um afavorito quanto no 
                            com uma presença constante, tendo em seu ex­diretor, o coreógrafo             embate estão grupos como o Ginga, de Mato Grosso 
                            português Carlos Trincheiras, um incentivador e orientador.                   do Sul, o Farrabamba, de Belém do Pará, o 
                                                                                                          Mahabhutas, de Florianópolis, além de outros três 
                                                                                                          correndo por fora como o Azzo Dança, Brasília, o B.G. 
                            "Caminhada" é assinada por Rodrigo Moreira, um coreógrafo da nova             Cia de Dança, do Rio de Janeiro, e o Corpo Vivo 
                            geração, ex­bailarino do Teatro Municipal do Rio e fundador do grupo          Academia de Dança, de Bauru (SP).
                            DC, com dissidentes do Municipal carioca. Atualmente coreografa para a 
                            companhia de Niterói e para o próprio TM­Rio. Rodrigo Moreira já é            O Ginga Cia de Dança ­ UFMS apresenta a 
                                                                                                          coreografia "Breve", de Chico Neller, um dos grandes 
                            conhecido do público que freqüenta o festival: ano passado teve o solo 
                                                                                                          coreógrafos que evoluiu durante a história do 
                            "Samsâra" apresentado em Joinville, numa interpretação magistral de           Festival de Joinville. Se inspirando no universo 
                            Áurea Hämmerli.                                                               feminino ­ mulheres que procuram por sua vida, em 
                                                                                                          momentos breves e intensos, o grupo do Mato 
                                                                                                          Grosso coloca no palco 11 bailarinas e um bailarino. 
                            Remontada por Rodrigo para o Guaíra, "Caminhada" foi criada                   Como no poema­ícone de Vinícius de Moraes, o 
                            originalmente para o teatro Municipal de Niterói. Desde o início do ano, o    momento, mesmo longe e distante, é infinito, se 
                            espetáculo tem viajado com a companhia paranaense obtendo ótima               intenso. O Ginga já ganhou todos os prêmios no 
                            recepção do público. A montagem marca uma nova etapa no grupo de              festival de Joinville e é sério candidato ao pódio 
                                                                                                          novamente.
                            Curitiba, que desde janeiro passou a ser dirigido por Cristina Purri. A 
                            coreografia é baseada no oráculo chinês do I­Ching e propõe uma               Já o Farrabamba traz a coreografia "Cânticos", de 
                            reflexão a respeito do destino das pessoas. Uma temática de conteúdo          Ricardo Risuenho, um dos bambas da nova safra de 
                            fantástico como soer à cultura Oriental sempre que interpretada por olhos     coreógrafos brasileiros que, inclusive, beliscou um 
                            ocidentais como poder ser percebido nas releituras de Borges.                 troféu Mambembe como revelação, ano passado. 
                                                                                                          Ricardo não é nenhum desconhecido do festival de 
                            "Caminhada" põe em cena 24 bailarinos num balé que permite visualizar         Joinville. Já foi premiado e causou uma das maiores 
                            bem os diferentes momentos e climas de que é formado, com quarteto, trio      celeumas do evento. Criado sobre o tema "Ihu", da 
                            e solo. "O termo caminhada é como se fosse o destino ilustrado do             cearense Marlui Miranda, a peça questiona as 
                                                                                                          inquietudes do ser humano, seus instintos, 
                            homem, a procura", conceitua a diretora Cristina Purri.
                                                                                                          independente de cor da pele, raça, etc. "A base 
                                                                                                          coreográfica do trabalho reflete a necessidade do 
                            O solo "Hymne a la Femme" é uma espécie de ápice da coreografia.              homem amazônico inserido num contexto indígena, 
                            Permite à bailarina personalizar a movimentação e utilizar elementos          adaptado a uma linguagem contemporânea, com 
                                                                                                          movimentos fundamentados na força, na velocidade e 
                            próprios. Cristina define o trecho como muito técnico e que requer uma        no equilíbrio". Segunda apresentação do 
                            interpretação muito amadurecida. A julgar pelos trabalhos anteriores de       Mahabhutas, de Florianópolis, no festival, "Terra 
       NOTICIÁRIO           Rodrigo Moreira, o público pode esperar um espetáculo denso e                 Urbana", de Telmo Gomes, sublinha a chegada do 
Capa                        emocionante, com uma linguagem coreográfica legível capaz de desatar os       homem ao segundo milênio, em que a cultura atingiu 
Opinião                                                                                                   um nível que extrapola as necessidades médias de 
Economia  
                            mais difíceis nós de sensibilidade. Musicalmente, "Caminhada" tem de tudo     consumo. Vale o registro: o figurino, como não 
Política                    nos seus 28 minutos de duração, como Vangelis, Duperé e John Zorn,            poderia deixar de ser, é criado todo em material 
País  
Mundo  
                        passando por climas intimistas, e termina com Ennio Morricone com o              reciclável.
Polícia                 tema de "A Missão", que é extremamente para cima.
Geral                                                                                                    De Brasília, vem o Azzo Dança para apresentar a 
Esporte                                                                                                  coreografia "Liber", de Jana Marques, que, através 
Fórmula 1               Quando entrar setembro, o Ballet Teatro Guaíra terá mais dois espetáculos        do corpo e da alma, buscam uma liberdade de idéias, 
Fórmula Indy            montados e em turnê, ambos coreografados por Rodrigo Pederneiras, do             ação, culminando na essência da expressão humana, 
        COLUNAS                                                                                          que se costuma chamar arte. "Vidas Cruzadas", de 
                        grupo Corpo. A remontagem de "Prelúdios" e "Variações a Golderg", 
Alça de Mira                                                                                             Rubén Terranova, é a coreografia que vem de Bauru, 
Informal                criado especialmente para a companhia paranaense.
                                                                                                         interior de São Paulo, para tentar surpreender os 
Moacir Pereira  
                                                                                                         favoritos. Apostando no coreógrafo do Grupo Rama, 
Espaço Virtual  
Por Dentro da Rede                                                                                       de Pirassununga, a trupe da cidade sem limites se 
AN Brasília                                                                                              inspira em situações limítrofes, em que trajetórias se 
Raul Sartóri                                                                                             entrecruzam e a solidão é o saldo que sobra a cada 
       CADERNOS                      Na favela não tem só bandido                                        um neste latifúndio­urbano. Já o grupo carioca B.G. 
Anexo                                                                                                    Cia de Dança interpreta "Ao Max", de Betina 
Crônicas                    Com esse tema, a Cia de Dança Balé de Rua, de                                Guelmann, em que os bailarinos, como no hai­kai, 
Cinema                                                                                                   dançam (voam?) harmoniosamente a melodia do 
AN Cidade                Uberlândia, dá um "banho" de genuíno street no festival                         vento, feito as folhas de outono.
AN Informática  
AN Veículos  
AN Economia                                          Fátima Chuecco                                                              Solos
AN Tevê                                           Repórter do ANFestival
       ESPECIAIS
                                                                                                         A noite ainda promete algumas surpresas agradáveis. 
Copa 98                                                                                                  Nos solos femininos, o Compasso Cia de Dança, de 
Grandes Entrevistas     Quem espera conhecer uma proposta diferente de street dance não pode 
                                                                                                         Dom Pedrito (lembram?), vem uma coreografia de 
Cruz e Sousa            perder a apresentação da Cia de Dança Balé de Rua neste Domingo, 
Joinville 147 anos                                                                                       Jussara Miranda, "Depois da Pressa", sobre um tema 
Festival de Dança       concorrendo na categoria profissional. O grupo que vem de Uberlândia             de John Lurie. Depois da pressa virá a preguiça? O 
       SERVIÇOS         traz um espetáculo completo: trilha (que envolve desde a música erudita          Cia Cylene Penhavel aposta na sensibilidade zen de 
                                                                                                         João Roberto de Souza, que criou a coreografia "La 
AN Pergunta             até o que há de mais recente no estilo techno), figurino, iluminação, texto e 
AN Pesquisa                                                                                              Belle Du Bouq Dourment" baseada nos fundamentos 
Como anunciar  
                        é claro, coreografia. Trabalhando um tema forte como favela, os                  da dança Butoh, do Japonês Kasuo Ohno. Já o 
Classificados           integrantes pretendem mostrar que nem tudo é pesadelo. "Favela não é só          Centro de Dança e Pesquisa Flávia Vargas apresenta 
Assinatura              violência e tráfico de drogas. Não tem só bandido. Tem muitos artistas em        a coreografia "Ke Noite" (porquecomK?), de Ricardo 
Mensagem                                                                                                 Scheir sobre um tema do Tom "out" Waits, que conta 
Calendário 1998         busca de um palco. É tempo de parar de subestimar a inteligência e a             uma pequena brincadeira com a chegada em casa 
Calendário 1997         capacidade das pessoas que resistem, como heróis, nas encostas dos 
Chat                                                                                                     depois de uma noitada. Nos solos masculino, um 
Loterias                morros e na periferia das cidades. Só sendo herói para sobreviver a              peso­pesado: O Grupo Beth Dorça faz uma 
          INFO          condições tão precárias. Nós somos uma prova disso", diz Fernando                dobradinha com Luis Arrieta, coreógrafo argentino 
Índice  
                                                                                                         radicado no Brasil há mais de duas décadas, que 
                        Narduchi, diretor do grupo.                                                      criou "Tonada de Luna Llena" especialmente para o 
Expediente  
Institucional                                                                                            bailarino Fernando Martins de Paiva.
                        Sua afirmação deve­se ao fato de que 90% dos integrantes da companhia 
                        vive na periferia. Os bailarinos são também office­boys, lavadores de            A disputa vai ficar entre as duas vertentes da dança 
                        carro, marceneiros e padeiros. Por causa disso, o grupo se orgulha de            de rua brasileira. O Dança de Rua do Brasil, de 
                                                                                                         Santos, que apresenta a coreografia "Homens de 
                        estar genuinamente ligado à origem do street dance, surgido nos guetos           Preto", de Marcelo Cirino, um dos grandes campeões 
                        novaiorquinos e onde os negros foram sempre muito perseguidos pelo               em Joinville, e o Cia de Dança Balé de Rua, de 
                        racismo. O figurino é de impacto. Perucas pontiagudas, máscara contra            Uberlândia, que leva ao palco "Favela", de Marco 
                                                                                                         Antônio Garcia.
                        poluição, óculos de proteção usados nas siderúrgicas e coturnos são 
                        alguns dos ingredientes para, à primeira vista, impressionar o público. "É 
                        intencional. O visual espanta tanto quanto um favelado sujo e rasgado. As 
                        perucas dão a noção do cabelo duro e despenteado. As máscaras 
                                                                                                                 Dor no pé e amor à dança
                        representam a vontade que a classe baixa tem de se expressar e que, no 
                        entanto, é contida. Os óculos são uma espécie de visão do futuro, pois, no                         Andressa Scheller
                        fundo, o favelado guarda uma ânsia de enxergar e desfrutar da vida",                           Especial para o ANFestival
                        explica Marco Antônio Garcia, figurinista e coreógrafo.
                                                                                                         Só mesmo o amor à dança para fazer com que o 
                        Com cinco anos de estrada, o grupo luta por uma identidade própria.              bailarino supere seus próprios limites. E foi 
                                                                                                         justamente a dedicação à arte a razão principal para 
                        "Sabemos que a street dance passa por uma pasteurização. Nós, no                 fazer com que a adolescente Francine do Amaral, 14 
                        entanto, nunca seguimos a tendência da moda. Aliás, nadamos justamente           anos, do Teatro Guaíra, de Curitiba, terminasse sua 
                        contra a maré, desenvolvendo um estilo inédito, pesquisando novos                apresentação, no Centreventos Cau Hansen, apesar 
                                                                                                         de estar com o pé destroncado. A compensação? Um 
                        gêneros musicais e criando uma técnica própria", diz Garcia.
                                                                                                         honrado terceiro lugar.

                        Sem patrocínio, o investimento em pesquisa musical e técnicas novas é            Francine, que dança desde os cinco anos, participava 
                        feito graças aos cachês por apresentações por Minas Gerais e em outros           de apresentação na modalidade clássico conjunto, 
                        Estados. No Festival de Dança de Joinville do ano passado conquistaram           categoria amador II, na noite do dia 20. Antes de o 
                                                                                                         grupo entrar, a ansiedade natural. Mas a 
                        o primeiro lugar. Este ano abriram o 11º Festival de Dança de Uberlândia,        possibilidade de acontecer um acidente passava 
                        causando um estouro de bilheteria. A crítica especializada também tem            longe de sua imaginação. Então, era hora de superar o 
                        apontado o grupo como um precursor de novos caminhos para a dança de             medo e entrar no palco, até que no início da primeira 
                        rua.                                                                             parte de sua apresentação pisou inadequadamente no 
                                                                                                         palco e sofreu a torção.

                        Quanto ao rumo que essa modalidade deve tomar, Narduchi diz que é                No momento, a hesitação. Parar e acabar 
                        uma incógnita: "A dança de rua é urbana, supercontemporânea e se                 prejudicando todo o grupo ou superar a dor e dançar 
                        encontra em constante evolução e transformação. Ninguém sabe onde vai            até o final? O amor à dança e a força de vontade 
                        parar". Diz também que, apesar do modismo, os grupos presos às                   foram maiores. Faltavam sete minutos para tudo 
                                                                                                         terminar. Naquele instante, o tempo tornou­se 
                        questões sociais devem sobreviver.                                               infinito, mas isso não foi suficiente para fazer a 
                                                                                                         uritibana Francine do Amaral desistir. Em horas como 
                        No caso da Cia de Dança Balé de Rua, grande parte dos 23 integrantes é           essas, o senso de companheirismo e o apoio dos 
                                                                                                         demais bailarinos funciona e muito. "O fato de ver um 
                        do sexo masculino e segue um ritmo pesado de ensaios. "A dança exige 
                                                                                                         monte de gente dando força foi fundamental para 
                        especial preparo físico e aptidão para saltos. Também fazemos muito              superar o medo e a dor", assinalou Francine olhando 
                        alongamento", conta Garcia, que assina ainda a iluminação do espetáculo e        para o pé ainda enfaixado. Para ela, o terceiro lugar 
faz parceria com Narduchi para compor os textos. José Marciel Silva           teve um gosto muito especial. Sabor de vitória.
     também coreografa. O cenário é de Chao Lin. Para o festival, de 30 
                                                                                   Transcorridos os intermináveis momentos, Francine 
     minutos a apresentação foi reduzida para apenas 10. Mas tudo bem. Será        recebeu os primeiros socorros no próprio 
     o suficiente para mostrar que esses mineiros sabem o que estão fazendo.       Centreventos Cau Hansen e foi levada em seguida 
                                                                                   para o Hospital Dona Helena, onde teve o 
                                                                                   péenfaixado. Teria de dançar no dia 22, não pôde. 
                                                                                   Ficou triste por não participar da apresentação, mas 
                                                                                   jamais esquecerá aquele terceiro lugar com gosto de 
                  Alargar os horizontes para                                       primeiro.

                evitar a trilha dos estereótipos
                               Ana Francisca Ponzio
                                 Crítica de Dança

     Quando se vê um grupo reproduzindo no palco os clichês mais rasos do 
..                                                                                                                                         ..
     futebol, como ocorreu na programação de sexta­feira no 16º Festival de 
     Dança de Joinville, surgem não só reflexões, mas também preocupações 
     sobre a mentalidade que cerca a chamada dança moderna (ou jazz) nos 
     domínios das escolas.

     Tudo indica, as referências ainda são muito pobres. Não se vai além dos 
     esquetes difundidos pela televisão ­ como danças do Tchan ou de 
     aberturas de "Fantástico", shows de Madonna e Michael Jackson ou clips 
     de MTV. Também na música, nos figurinos e na ambientação cênica a 
     tendência é seguir a trilha dos estereótipos.

     Deparar­se com esse padrão generalizado é lamentável, principalmente se 
     considerarmos o quanto a cultura brasileira está sendo desprezada e 
     desperdiçada por aqueles que pretendem fazer dança fora do circuito 
     clássico. Num país rico em manifetações populares, é fundamental recusar 
     o comodismo das imagens fabricadas pela mídia de massa, para descobrir 
     os universos pouco explorados que nos cercam.

     Perante o padrão que uniformiza hoje os grupos das modalidades de 
     dança moderna ou jazz (se é que se pode definir como tal o que vem 
     sendo apresentado), cabe ao Festival de Joinville tentar alargar os 
     horizontes. Se há pessoas preocupadas com a evolução do evento há, 
     desde já, um ponto que merece ser repensado.

     Está evidente que tais grupos não têm acesso a informações sobre o amplo 
     universo da dança contemporânea, uma vez que os clichês são comuns à 
     maioria. Transformar esse status quo, portanto, poderia ser o ponto de 
     partida para o festival extrapolar seu papel de apenas estimular escolas e 
     alunos de balé clássico.

     Incluir nas programações profissionais de abertura grupos como o Quasar 
     já representa um pequeno avanço. Mas, a maneira como são apresentados 
     grupos como esse (que obviamente representam informação nova) 
     também merece cuidado específico.

     Agora que o festival possui infra­estrutura e um espaço como o 
     Centreventos, não é mais possível continuar reproduzindo o que vem 
     sendo feito até então. Se o evento cresceu na quantidade e no nível 
     técnico, é preciso também se expandir no conteúdo.

     Deslumbrar­se com o gigantesco, ou seja, números singulares de alunos ou 
     o palco profissional que eles merecidamente podem ocupar agora, é 
     satisfação que não deve ser recusada. Mas, isso não basta se a proposta é 
     caminhar para frente.

     Sem deixar de cuidar das conquistas positivas do festival, é saudável 
     também apostar em ousadias e ocupar salas menores para experiências 
     capazes de depurar o gosto inclusive do público. As condições para tanto 
     estão plenamente favoráveis. Além da enorme arena do Centreventos, 
     sabe­se que em breve será inaugurado um teatro menor, de 600 lugares. 

     Poderia ser este o palco de inauguração de novas experiências, abertas 
     para uma produção que ainda não circula em Joinville. Mostras paralelas, 
     laboratórios de criatividade e mesmo apoio para o surgimento ou 
     fortalecimento de grupos que já vem atuando pelo Brasil, são algumas das 
     apostas possíveis, além de outras a serem descobertas. Investindo em 
novas possibilidades, o Festival de Joinville poderá, então, tomar para si 
uma tarefa que não é gigantesca na aparência mas sim na sua demanda. 
Ao mesmo tempo, estaria abrindo­se para o fomento à criação, 
escapando ao rótulo de mera vitrine de exibicionismo técnico.



                                       Convidado
 Marcelo Misailidis e Isa Kokai em "Os Últimos 
                               dias de Nijinsky"
                          Foto: Marcelo Caetano




         Mais orientação e menos prêmios
                                Suzana Braga
                               Crítica de dança

A coisa complicou. Um grupo de adolescentes resolve vestir a camisa do 
Flamengo, que não anda lá essas coisas, e dançar ao som do Hino 
Nacional Brasileiro, numa jogada do tipo "vale tudo" para conseguir os 
aplausos e o prêmio. Por sorte não levou nem um, nem o outro. O grupo 
em questão é o Vera Passos, de Fortaleza, o número "Torcida Brasileira" 
do já famoso compositor dos festivais "colagem musical", colada com 
durex e sem anestesia para a otite que provoca.

Noutra situação, da mesma noite reservada a duos e grupos de jazz, duas 
outras adolescentes do Studio de Ginástica e Dança do I.E.E., orientadas 
sabe­se lá por quem, adentram no palco com propostas e movimentos 
absolutamente não identificáveis, dentre eles um inusitado "Passo do 
ganso" numa peça intitulada "Clonagem". Esta situação é ainda pior porque 
a "Clonagem" foi premiada, terceiro lugar numa modalidade que ficou sem 
o primeiro. O que é mais grave? A bisonhice das meninas da "Torcida 
Brasileira", a má orientação dada às jovens "clonadas" ou pessoas 
competentes e veteranas na dança, da pré­seleção e que do corpo de 
jurados, selecionarem esses trabalhos para participar do festival e 
chegarem ao cúmulo de premiarem um deles? É preciso ficar mais alerta, 
vacilos acontecem, coisas passam despercebidas, mesmo assim é mau. 
Esses jovens equivocados precisam de orientação, não de prêmios.

Vários desses acidentes de percurso aconteceram na noite de sexta­feira. 
Os exemplos acima foram os mais gritantes mas houve também bis de 
premiação para coreografias que já foram vistas e premiadas em Joinville 
afinal todas são tão parecidas. Até mesmo "Abstract", peça assinada pela 
ótima Roseli Rodrigues e muito bem apresentada pelo Núcleo Artístico de 
Belo Horizonte, tinha cara de filme já visto. Mas teve ainda os clones do 
ano passado que esse ano foram reeditados como "A Outra face", pelo 
Dança de Rua do Brasil. A boa escola de Goiás, Dançarte, que sempre 
fez trabalhos sérios, esse ano deu uma escorregada feia. Superproduziu os 
mais cintilantes robôs que Joinville já viu, na coreografia " Andróides".

No mais, houve um equilíbrio dos concorrentes, nada muito bom, nada 
escandalosamente ruim e uma premiação excessiva. A destacar com 
honras, poucos trabalhos. O grupo carioca VD Mascotte com "Livre, 
Levemente", coreografado por Carlota Portela, pareceu a peça mais 
lúcida, mais musical e simples da noite. Em suma, a melhor. Ficou em 
terceiro lugar no Amador II. Também boas apresentações das duas 
coreografias de Roseli Rodrigues. " Abstract", que já foi falada e 
"Volúpia", a melhor delas, apresentada pelo Galpão 1 Grupo de Dança, de 
Indaiatuba (SP).

Como convidado especial, mais uma vez Marcelo Misailidis subiu ao 
palco , dessa feita para reencarnar Nijinsky. O fez muito bem. Aliás o 
trabalho de Fábio de Mello que conta com a produção de Fernando 
Bicudo é muito interessante e denso, reproduzindo o tormento da loucura 
de Nijinsky num ambiente cênico claustrofóbico e fiel à dramaticidade dos 
fatos. Misailidis, Isa Kokai, Antonio Bento e Gilberto Torres foram fieis 
aos seus personagens.

Também como convidados especiais, Rosito di Carmini e Rebeca Jung 
apresentaram o duo "Sem título 1995", assinado pelo próprio Rosito e 
                                  pela ensaiadora Lena Maia.

                                                           16º Festival de Dança de Jonville
                                   Noticiário
                                   Programação
                                   Bares,boates, restaurantes de Joinville
                                   Espetáculo para todos
                                   Entrevista com Vasco Wellenkamps
                                   Um passo de ponta
                                   Entrevista com Pollyana Ribeiro


                                                                         Manchetes AN
                                                               Das últimas edições de AN Festival
                                   QUASAR, Esta onda vem de Goiás
                                   O palhaço de Deus
                                   Noite de estrelas
                                   Estrelas de mãos e pés cheios
                                   Cinco ases de ouro




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  • 1. Convidado Cenas do espetáculo "Caminhada", que será  Competições 16º Festival de Dança de  apresentado pelo Ballet Teatro Guaíra neste  Joinville ­ 1998  domingo Domingo de bambas Fotos divulgação/Karen Van der Brooche ­ Noticiário   Dream team de coreógrafos marca  ­ Programação   competições ­ Bares,boates,  restaurantes de Joinville Paulo César Ruiz ­ Espetáculo para todos Editor­assistente do ANFestival  ­ Entrevista com  Pollyana Ribeiro   Prosseguem neste domingo as competições de  ­ Entrevista com Vasco  moderno/contemporâneo, solos livres e dança de rua,  Wellenkamps   até aqui a modalidade que mais chama público ao  ­ Um passo de ponta   Jardim dos caminhos que se  palco do Centreventos. Para se ter uma idéia, os  ingressos já estão esgotados desde a semana  bifurcam passada. Ainda de quebra, a noite tem uma atração à  parte: um dream team de coreógrafos como Chico  Neller, Ricardo Risuenho, Luis Arrieta, João Roberto  Veja também: Joel Gehlen de Sousa, Jussara Miranda, entre outros. Editor do ANFestival Especial com a vida e  O primeiro grupo a se apresentar nesta noite é o  obra do poeta Cruz e  Em julho de 1991 a bailarina Pollyana Ribeiro ­ que o público do 16º  Dorcinha, de Uberaba, o filhote do Beth Dorça,  sempre um concorrente de qualidade. O grupo  Sousa. Festival de Dança teve oportunidade de assistir dançar ­ ganhou medalha  Mineiro disputa prêmios com mais dois competidores.  Cruz e Sousa   de ouro no conceituado concurso internacional de Helsinque, na Finlândia,  O Juvenil da Escola Municipal de Ballet, vem com a  coreografia "Transição", de Marcos Sage, um  Uma conversa com  dançando o solo "Hymne a la Femme". Neste domingo, a platéia do FDJ  coreógrafo formado em Joinville e vem  personalidades de  pode embevecer­se com esta mesma peça, interpretada por Regina  desenvolvendo um trabalho sério, que ainda vai  destaque em SC. Kotaka, primeira bailarina do Ballet Teatro Guaíra. O solo faz parte do  chegar lá. "Transição" versa sobre mudanças,  Grandes Entrevistas   espetáculo "Caminhada" que o grupo curitibano apresenta na abertura de  deslocamentos, alterações de comportamentos e  físicos. Ano passado o grupo levou o primeiro lugar  mais uma noite competitiva nas modalidades Moderno e Contemporâneo e  na modalidade. O terceiro grupo na disputa é o Dança  Dança de Rua. & Cia, de Jaraguá do Sul (SC), que apresenta a  coreografia "Marionetes", inspirada no imaginário  O Guaíra é uma espécie de padrinho do Festival de Dança de Joinville. A  infantil. companhia oficial paranaense participa desde sua segunda edição. Nos  Agora, a noite vai pegar fogo mesmo, é na disputa do  seus primeiros anos deu uma espécie de sustentação qualitativa ao evento  profissional. É difícil apontar um afavorito quanto no  com uma presença constante, tendo em seu ex­diretor, o coreógrafo  embate estão grupos como o Ginga, de Mato Grosso  português Carlos Trincheiras, um incentivador e orientador. do Sul, o Farrabamba, de Belém do Pará, o  Mahabhutas, de Florianópolis, além de outros três  correndo por fora como o Azzo Dança, Brasília, o B.G.  "Caminhada" é assinada por Rodrigo Moreira, um coreógrafo da nova  Cia de Dança, do Rio de Janeiro, e o Corpo Vivo  geração, ex­bailarino do Teatro Municipal do Rio e fundador do grupo  Academia de Dança, de Bauru (SP). DC, com dissidentes do Municipal carioca. Atualmente coreografa para a  companhia de Niterói e para o próprio TM­Rio. Rodrigo Moreira já é  O Ginga Cia de Dança ­ UFMS apresenta a  coreografia "Breve", de Chico Neller, um dos grandes  conhecido do público que freqüenta o festival: ano passado teve o solo  coreógrafos que evoluiu durante a história do  "Samsâra" apresentado em Joinville, numa interpretação magistral de  Festival de Joinville. Se inspirando no universo  Áurea Hämmerli. feminino ­ mulheres que procuram por sua vida, em  momentos breves e intensos, o grupo do Mato  Grosso coloca no palco 11 bailarinas e um bailarino.  Remontada por Rodrigo para o Guaíra, "Caminhada" foi criada  Como no poema­ícone de Vinícius de Moraes, o  originalmente para o teatro Municipal de Niterói. Desde o início do ano, o  momento, mesmo longe e distante, é infinito, se  espetáculo tem viajado com a companhia paranaense obtendo ótima  intenso. O Ginga já ganhou todos os prêmios no  recepção do público. A montagem marca uma nova etapa no grupo de  festival de Joinville e é sério candidato ao pódio  novamente. Curitiba, que desde janeiro passou a ser dirigido por Cristina Purri. A  coreografia é baseada no oráculo chinês do I­Ching e propõe uma  Já o Farrabamba traz a coreografia "Cânticos", de  reflexão a respeito do destino das pessoas. Uma temática de conteúdo  Ricardo Risuenho, um dos bambas da nova safra de  fantástico como soer à cultura Oriental sempre que interpretada por olhos  coreógrafos brasileiros que, inclusive, beliscou um  ocidentais como poder ser percebido nas releituras de Borges.  troféu Mambembe como revelação, ano passado.  Ricardo não é nenhum desconhecido do festival de  "Caminhada" põe em cena 24 bailarinos num balé que permite visualizar  Joinville. Já foi premiado e causou uma das maiores  bem os diferentes momentos e climas de que é formado, com quarteto, trio  celeumas do evento. Criado sobre o tema "Ihu", da  e solo. "O termo caminhada é como se fosse o destino ilustrado do  cearense Marlui Miranda, a peça questiona as  inquietudes do ser humano, seus instintos,  homem, a procura", conceitua a diretora Cristina Purri. independente de cor da pele, raça, etc. "A base  coreográfica do trabalho reflete a necessidade do  O solo "Hymne a la Femme" é uma espécie de ápice da coreografia.  homem amazônico inserido num contexto indígena,  Permite à bailarina personalizar a movimentação e utilizar elementos  adaptado a uma linguagem contemporânea, com  movimentos fundamentados na força, na velocidade e  próprios. Cristina define o trecho como muito técnico e que requer uma  no equilíbrio". Segunda apresentação do  interpretação muito amadurecida. A julgar pelos trabalhos anteriores de  Mahabhutas, de Florianópolis, no festival, "Terra  NOTICIÁRIO Rodrigo Moreira, o público pode esperar um espetáculo denso e  Urbana", de Telmo Gomes, sublinha a chegada do  Capa   emocionante, com uma linguagem coreográfica legível capaz de desatar os  homem ao segundo milênio, em que a cultura atingiu  Opinião   um nível que extrapola as necessidades médias de  Economia   mais difíceis nós de sensibilidade. Musicalmente, "Caminhada" tem de tudo  consumo. Vale o registro: o figurino, como não  Política   nos seus 28 minutos de duração, como Vangelis, Duperé e John Zorn,  poderia deixar de ser, é criado todo em material  País  
  • 2. Mundo   passando por climas intimistas, e termina com Ennio Morricone com o  reciclável. Polícia   tema de "A Missão", que é extremamente para cima. Geral   De Brasília, vem o Azzo Dança para apresentar a  Esporte  coreografia "Liber", de Jana Marques, que, através  Fórmula 1  Quando entrar setembro, o Ballet Teatro Guaíra terá mais dois espetáculos  do corpo e da alma, buscam uma liberdade de idéias,  Fórmula Indy montados e em turnê, ambos coreografados por Rodrigo Pederneiras, do  ação, culminando na essência da expressão humana,  COLUNAS que se costuma chamar arte. "Vidas Cruzadas", de  grupo Corpo. A remontagem de "Prelúdios" e "Variações a Golderg",  Alça de Mira   Rubén Terranova, é a coreografia que vem de Bauru,  Informal   criado especialmente para a companhia paranaense. interior de São Paulo, para tentar surpreender os  Moacir Pereira   favoritos. Apostando no coreógrafo do Grupo Rama,  Espaço Virtual   Por Dentro da Rede   de Pirassununga, a trupe da cidade sem limites se  AN Brasília   inspira em situações limítrofes, em que trajetórias se  Raul Sartóri entrecruzam e a solidão é o saldo que sobra a cada  CADERNOS Na favela não tem só bandido um neste latifúndio­urbano. Já o grupo carioca B.G.  Anexo   Cia de Dança interpreta "Ao Max", de Betina  Crônicas   Com esse tema, a Cia de Dança Balé de Rua, de  Guelmann, em que os bailarinos, como no hai­kai,  Cinema   dançam (voam?) harmoniosamente a melodia do  AN Cidade   Uberlândia, dá um "banho" de genuíno street no festival vento, feito as folhas de outono. AN Informática   AN Veículos   AN Economia   Fátima Chuecco Solos AN Tevê Repórter do ANFestival ESPECIAIS A noite ainda promete algumas surpresas agradáveis.  Copa 98   Nos solos femininos, o Compasso Cia de Dança, de  Grandes Entrevistas   Quem espera conhecer uma proposta diferente de street dance não pode  Dom Pedrito (lembram?), vem uma coreografia de  Cruz e Sousa   perder a apresentação da Cia de Dança Balé de Rua neste Domingo,  Joinville 147 anos   Jussara Miranda, "Depois da Pressa", sobre um tema  Festival de Dança concorrendo na categoria profissional. O grupo que vem de Uberlândia  de John Lurie. Depois da pressa virá a preguiça? O  SERVIÇOS traz um espetáculo completo: trilha (que envolve desde a música erudita  Cia Cylene Penhavel aposta na sensibilidade zen de  João Roberto de Souza, que criou a coreografia "La  AN Pergunta  até o que há de mais recente no estilo techno), figurino, iluminação, texto e  AN Pesquisa   Belle Du Bouq Dourment" baseada nos fundamentos  Como anunciar   é claro, coreografia. Trabalhando um tema forte como favela, os  da dança Butoh, do Japonês Kasuo Ohno. Já o  Classificados   integrantes pretendem mostrar que nem tudo é pesadelo. "Favela não é só  Centro de Dança e Pesquisa Flávia Vargas apresenta  Assinatura  violência e tráfico de drogas. Não tem só bandido. Tem muitos artistas em  a coreografia "Ke Noite" (porquecomK?), de Ricardo  Mensagem   Scheir sobre um tema do Tom "out" Waits, que conta  Calendário 1998   busca de um palco. É tempo de parar de subestimar a inteligência e a  uma pequena brincadeira com a chegada em casa  Calendário 1997   capacidade das pessoas que resistem, como heróis, nas encostas dos  Chat   depois de uma noitada. Nos solos masculino, um  Loterias morros e na periferia das cidades. Só sendo herói para sobreviver a  peso­pesado: O Grupo Beth Dorça faz uma  INFO condições tão precárias. Nós somos uma prova disso", diz Fernando  dobradinha com Luis Arrieta, coreógrafo argentino  Índice   radicado no Brasil há mais de duas décadas, que  Narduchi, diretor do grupo. criou "Tonada de Luna Llena" especialmente para o  Expediente   Institucional bailarino Fernando Martins de Paiva. Sua afirmação deve­se ao fato de que 90% dos integrantes da companhia  vive na periferia. Os bailarinos são também office­boys, lavadores de  A disputa vai ficar entre as duas vertentes da dança  carro, marceneiros e padeiros. Por causa disso, o grupo se orgulha de  de rua brasileira. O Dança de Rua do Brasil, de  Santos, que apresenta a coreografia "Homens de  estar genuinamente ligado à origem do street dance, surgido nos guetos  Preto", de Marcelo Cirino, um dos grandes campeões  novaiorquinos e onde os negros foram sempre muito perseguidos pelo  em Joinville, e o Cia de Dança Balé de Rua, de  racismo. O figurino é de impacto. Perucas pontiagudas, máscara contra  Uberlândia, que leva ao palco "Favela", de Marco  Antônio Garcia. poluição, óculos de proteção usados nas siderúrgicas e coturnos são  alguns dos ingredientes para, à primeira vista, impressionar o público. "É  intencional. O visual espanta tanto quanto um favelado sujo e rasgado. As  perucas dão a noção do cabelo duro e despenteado. As máscaras  Dor no pé e amor à dança representam a vontade que a classe baixa tem de se expressar e que, no  entanto, é contida. Os óculos são uma espécie de visão do futuro, pois, no  Andressa Scheller fundo, o favelado guarda uma ânsia de enxergar e desfrutar da vida",  Especial para o ANFestival explica Marco Antônio Garcia, figurinista e coreógrafo. Só mesmo o amor à dança para fazer com que o  Com cinco anos de estrada, o grupo luta por uma identidade própria.  bailarino supere seus próprios limites. E foi  justamente a dedicação à arte a razão principal para  "Sabemos que a street dance passa por uma pasteurização. Nós, no  fazer com que a adolescente Francine do Amaral, 14  entanto, nunca seguimos a tendência da moda. Aliás, nadamos justamente  anos, do Teatro Guaíra, de Curitiba, terminasse sua  contra a maré, desenvolvendo um estilo inédito, pesquisando novos  apresentação, no Centreventos Cau Hansen, apesar  de estar com o pé destroncado. A compensação? Um  gêneros musicais e criando uma técnica própria", diz Garcia. honrado terceiro lugar. Sem patrocínio, o investimento em pesquisa musical e técnicas novas é  Francine, que dança desde os cinco anos, participava  feito graças aos cachês por apresentações por Minas Gerais e em outros  de apresentação na modalidade clássico conjunto,  Estados. No Festival de Dança de Joinville do ano passado conquistaram  categoria amador II, na noite do dia 20. Antes de o  grupo entrar, a ansiedade natural. Mas a  o primeiro lugar. Este ano abriram o 11º Festival de Dança de Uberlândia,  possibilidade de acontecer um acidente passava  causando um estouro de bilheteria. A crítica especializada também tem  longe de sua imaginação. Então, era hora de superar o  apontado o grupo como um precursor de novos caminhos para a dança de  medo e entrar no palco, até que no início da primeira  rua. parte de sua apresentação pisou inadequadamente no  palco e sofreu a torção. Quanto ao rumo que essa modalidade deve tomar, Narduchi diz que é  No momento, a hesitação. Parar e acabar  uma incógnita: "A dança de rua é urbana, supercontemporânea e se  prejudicando todo o grupo ou superar a dor e dançar  encontra em constante evolução e transformação. Ninguém sabe onde vai  até o final? O amor à dança e a força de vontade  parar". Diz também que, apesar do modismo, os grupos presos às  foram maiores. Faltavam sete minutos para tudo  terminar. Naquele instante, o tempo tornou­se  questões sociais devem sobreviver. infinito, mas isso não foi suficiente para fazer a  uritibana Francine do Amaral desistir. Em horas como  No caso da Cia de Dança Balé de Rua, grande parte dos 23 integrantes é  essas, o senso de companheirismo e o apoio dos  demais bailarinos funciona e muito. "O fato de ver um  do sexo masculino e segue um ritmo pesado de ensaios. "A dança exige  monte de gente dando força foi fundamental para  especial preparo físico e aptidão para saltos. Também fazemos muito  superar o medo e a dor", assinalou Francine olhando  alongamento", conta Garcia, que assina ainda a iluminação do espetáculo e  para o pé ainda enfaixado. Para ela, o terceiro lugar 
  • 3. faz parceria com Narduchi para compor os textos. José Marciel Silva  teve um gosto muito especial. Sabor de vitória. também coreografa. O cenário é de Chao Lin. Para o festival, de 30  Transcorridos os intermináveis momentos, Francine  minutos a apresentação foi reduzida para apenas 10. Mas tudo bem. Será  recebeu os primeiros socorros no próprio  o suficiente para mostrar que esses mineiros sabem o que estão fazendo. Centreventos Cau Hansen e foi levada em seguida  para o Hospital Dona Helena, onde teve o  péenfaixado. Teria de dançar no dia 22, não pôde.  Ficou triste por não participar da apresentação, mas  jamais esquecerá aquele terceiro lugar com gosto de  Alargar os horizontes para primeiro. evitar a trilha dos estereótipos Ana Francisca Ponzio Crítica de Dança Quando se vê um grupo reproduzindo no palco os clichês mais rasos do  .. .. futebol, como ocorreu na programação de sexta­feira no 16º Festival de  Dança de Joinville, surgem não só reflexões, mas também preocupações  sobre a mentalidade que cerca a chamada dança moderna (ou jazz) nos  domínios das escolas. Tudo indica, as referências ainda são muito pobres. Não se vai além dos  esquetes difundidos pela televisão ­ como danças do Tchan ou de  aberturas de "Fantástico", shows de Madonna e Michael Jackson ou clips  de MTV. Também na música, nos figurinos e na ambientação cênica a  tendência é seguir a trilha dos estereótipos. Deparar­se com esse padrão generalizado é lamentável, principalmente se  considerarmos o quanto a cultura brasileira está sendo desprezada e  desperdiçada por aqueles que pretendem fazer dança fora do circuito  clássico. Num país rico em manifetações populares, é fundamental recusar  o comodismo das imagens fabricadas pela mídia de massa, para descobrir  os universos pouco explorados que nos cercam. Perante o padrão que uniformiza hoje os grupos das modalidades de  dança moderna ou jazz (se é que se pode definir como tal o que vem  sendo apresentado), cabe ao Festival de Joinville tentar alargar os  horizontes. Se há pessoas preocupadas com a evolução do evento há,  desde já, um ponto que merece ser repensado. Está evidente que tais grupos não têm acesso a informações sobre o amplo  universo da dança contemporânea, uma vez que os clichês são comuns à  maioria. Transformar esse status quo, portanto, poderia ser o ponto de  partida para o festival extrapolar seu papel de apenas estimular escolas e  alunos de balé clássico. Incluir nas programações profissionais de abertura grupos como o Quasar  já representa um pequeno avanço. Mas, a maneira como são apresentados  grupos como esse (que obviamente representam informação nova)  também merece cuidado específico. Agora que o festival possui infra­estrutura e um espaço como o  Centreventos, não é mais possível continuar reproduzindo o que vem  sendo feito até então. Se o evento cresceu na quantidade e no nível  técnico, é preciso também se expandir no conteúdo. Deslumbrar­se com o gigantesco, ou seja, números singulares de alunos ou  o palco profissional que eles merecidamente podem ocupar agora, é  satisfação que não deve ser recusada. Mas, isso não basta se a proposta é  caminhar para frente. Sem deixar de cuidar das conquistas positivas do festival, é saudável  também apostar em ousadias e ocupar salas menores para experiências  capazes de depurar o gosto inclusive do público. As condições para tanto  estão plenamente favoráveis. Além da enorme arena do Centreventos,  sabe­se que em breve será inaugurado um teatro menor, de 600 lugares.  Poderia ser este o palco de inauguração de novas experiências, abertas  para uma produção que ainda não circula em Joinville. Mostras paralelas,  laboratórios de criatividade e mesmo apoio para o surgimento ou  fortalecimento de grupos que já vem atuando pelo Brasil, são algumas das  apostas possíveis, além de outras a serem descobertas. Investindo em 
  • 4. novas possibilidades, o Festival de Joinville poderá, então, tomar para si  uma tarefa que não é gigantesca na aparência mas sim na sua demanda.  Ao mesmo tempo, estaria abrindo­se para o fomento à criação,  escapando ao rótulo de mera vitrine de exibicionismo técnico. Convidado Marcelo Misailidis e Isa Kokai em "Os Últimos  dias de Nijinsky" Foto: Marcelo Caetano Mais orientação e menos prêmios Suzana Braga Crítica de dança A coisa complicou. Um grupo de adolescentes resolve vestir a camisa do  Flamengo, que não anda lá essas coisas, e dançar ao som do Hino  Nacional Brasileiro, numa jogada do tipo "vale tudo" para conseguir os  aplausos e o prêmio. Por sorte não levou nem um, nem o outro. O grupo  em questão é o Vera Passos, de Fortaleza, o número "Torcida Brasileira"  do já famoso compositor dos festivais "colagem musical", colada com  durex e sem anestesia para a otite que provoca. Noutra situação, da mesma noite reservada a duos e grupos de jazz, duas  outras adolescentes do Studio de Ginástica e Dança do I.E.E., orientadas  sabe­se lá por quem, adentram no palco com propostas e movimentos  absolutamente não identificáveis, dentre eles um inusitado "Passo do  ganso" numa peça intitulada "Clonagem". Esta situação é ainda pior porque  a "Clonagem" foi premiada, terceiro lugar numa modalidade que ficou sem  o primeiro. O que é mais grave? A bisonhice das meninas da "Torcida  Brasileira", a má orientação dada às jovens "clonadas" ou pessoas  competentes e veteranas na dança, da pré­seleção e que do corpo de  jurados, selecionarem esses trabalhos para participar do festival e  chegarem ao cúmulo de premiarem um deles? É preciso ficar mais alerta,  vacilos acontecem, coisas passam despercebidas, mesmo assim é mau.  Esses jovens equivocados precisam de orientação, não de prêmios. Vários desses acidentes de percurso aconteceram na noite de sexta­feira.  Os exemplos acima foram os mais gritantes mas houve também bis de  premiação para coreografias que já foram vistas e premiadas em Joinville  afinal todas são tão parecidas. Até mesmo "Abstract", peça assinada pela  ótima Roseli Rodrigues e muito bem apresentada pelo Núcleo Artístico de  Belo Horizonte, tinha cara de filme já visto. Mas teve ainda os clones do  ano passado que esse ano foram reeditados como "A Outra face", pelo  Dança de Rua do Brasil. A boa escola de Goiás, Dançarte, que sempre  fez trabalhos sérios, esse ano deu uma escorregada feia. Superproduziu os  mais cintilantes robôs que Joinville já viu, na coreografia " Andróides". No mais, houve um equilíbrio dos concorrentes, nada muito bom, nada  escandalosamente ruim e uma premiação excessiva. A destacar com  honras, poucos trabalhos. O grupo carioca VD Mascotte com "Livre,  Levemente", coreografado por Carlota Portela, pareceu a peça mais  lúcida, mais musical e simples da noite. Em suma, a melhor. Ficou em  terceiro lugar no Amador II. Também boas apresentações das duas  coreografias de Roseli Rodrigues. " Abstract", que já foi falada e  "Volúpia", a melhor delas, apresentada pelo Galpão 1 Grupo de Dança, de  Indaiatuba (SP). Como convidado especial, mais uma vez Marcelo Misailidis subiu ao  palco , dessa feita para reencarnar Nijinsky. O fez muito bem. Aliás o  trabalho de Fábio de Mello que conta com a produção de Fernando  Bicudo é muito interessante e denso, reproduzindo o tormento da loucura  de Nijinsky num ambiente cênico claustrofóbico e fiel à dramaticidade dos  fatos. Misailidis, Isa Kokai, Antonio Bento e Gilberto Torres foram fieis  aos seus personagens. Também como convidados especiais, Rosito di Carmini e Rebeca Jung 
  • 5. apresentaram o duo "Sem título 1995", assinado pelo próprio Rosito e  pela ensaiadora Lena Maia. 16º Festival de Dança de Jonville Noticiário Programação Bares,boates, restaurantes de Joinville Espetáculo para todos Entrevista com Vasco Wellenkamps Um passo de ponta Entrevista com Pollyana Ribeiro Manchetes AN Das últimas edições de AN Festival QUASAR, Esta onda vem de Goiás O palhaço de Deus Noite de estrelas Estrelas de mãos e pés cheios Cinco ases de ouro Capa  | Opinião  | Economia  | Política  | País  | Mundo  | Polícia  | Geral  | Esporte  | Fórmula 1  | Fórmula Indy  | Alça de Mira  | Informal  | Moacir Pereira  | Raul Sartóri  | Espaço  Virtual  | Por Dentro da Rede  | AN Brasília  | Anexo  | Crônicas  | Cinema  | AN Cidade  | AN Informática  | AN Veículos  | AN Economia  | AN Tevê  | Copa 98  | Grandes  Entrevistas  | Cruz e Sousa  | Joinville 147 anos  | Festival de Dança  | AN Pergunta  | AN Pesquisa  | Como anunciar  | Classificados  | Assinatura  | Mensagem  | Calendário  1998  | Calendário 1997  | Chat  | Loterias  | Índice  | Expediente  | Institucional Copyright © 1996   A Notícia ­ Todos os direitos reservados  ­ Telefone: 055­047 431 9000  ­ Fax: 055 ­047 431 9100   Rua Caçador, 112 ­ CEP 89203 ­610 ­ Caixa Postal: 2  ­ 89201­972 ­ Joinville  ­ Santa Catarina ­ BRASIL . Autoria:  Torque Comunicação e Internet  ­ Projeto:  Avelar Lívio dos Santos , jornalista, RP MTr/PR 890 .