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KÁTIA BERALDI
TDAH EM ADOLESCENTES RESIDENTES EM
COMUNIDADES TERAPÊUTICAS POR ABUSO DE
SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS
SANTO ANDRÉ
2012
KÁTIA BERALDI
TDAH EM ADOLESCENTES RESIDENTES EM
COMUNIDADES TERAPÊUTICAS POR ABUSO DE
SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS
Trabalho de conclusão de Curso
apresentado ao Centro Universitário
Fundação Santo André para obtenção
do título de Especialização em:
Psicopedagogia Clínica e
Institucional.
Orientador(a): Profª Ivete Pellegrino
Rosa.
SANTO ANDRÉ
2012
KÁTIA BERALDI
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Fundação
Santo André para obtenção do título de Especialista em Psicopedagogia Clínica e
Institucional.
Orientador (a): Prof. Dra. Ivete Pellegrino Rosa.
TDAH EM ADOLESCENTES RESIDENTES EM
COMUNIDADES TERAPÊUTICAS POR ABUSO DE
SUBTÂNCIAS PSICOATIVAS.
Orientador: Ivete Pellegrino Rosa
Examinador: Eliana Marta Monaci
Santo André, 27 de março de 2012.
AGRADECIMENTOS
Neste trabalho de atendimento socioeducativo junto a adolescentes em tratamento
por uso abusivo de SPA, estabeleceu uma extensa teia de (re)significações e vínculos. Houve
momentos de angustia e alegria tão peculiar, em uma área de atuação do pedagogo tão pouco
explorada.
Agradeço primeiramente a Deus pela oportunidade de trabalha com cada um dos
adolescentes que convivi nestes anos, principalmente aos que compartilharam com os suas
experiências para esta pesquisa: ESV, 14 anos; FHS, 17 anos e FCO, 18 anos.
Agradeço a minha filha Júlia e a sobrinha Giovana pelo apoio desta produção. Ao
amigo e ex-companheiro de trabalho Rogério Gusmão que me acompanhou nesta travessia,
apurando olhares e transformando escutas.
E finalmente, especialmente pela minha orientadora Ivete Rosa que desde a
graduação não desistiu de mim, e nesta nova trajetória acreditou que seria possível continuar essa
temática no campo da psicopedagogia.
Procurou o homem, desde a mais remota antiguidade, encontrar um remédio que tivesse a
propriedade de aliviar suas dores, serenar suas paixões, trazer-lhe alegria, livrá-lo de angústias, do
medo ou que lhe desse o privilégio de prever o futuro, que lhe proporcionasse coragem, ânimo
para enfrentar as tristezas e o vazio da vida.
Lauro Sollero.
RESUMO
Os aspectos do consumo de substâncias psicoativas na população de adolescentes,
com histórico de comportamento de Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade - TDAH
foi um estudo de uma realidade empírica, com o objetivo de verificar a associação entre duas
variáveis nas dificuldades de aprendizagem ao uso de substâncias psicoativas: avaliar
especificamente em relação ao TDAH em adolescentes que fazem uso de substâncias psicoativas
e identificar possíveis intervenções Psicopedagógicas no tratamento. O método é composto por
três adolescentes do sexo masculino em situação de residência em Comunidade Terapêutica -
CT. Os dados foram coletados através de entrevista e de questionário denominado SNAP – IV e
foi construído a partir dos sintomas do Manual de Diagnóstico e Estatística - IV - (DSM-IV) da
Associação Americana de Psiquiatria. Há sugestão que o abuso de SPA seja associado dos
transtornos considerados como co-morbidade do TDAH, sendo necessárias intervenções
multidisciplinares.
Palavras-chave: TDAH. Substâncias Psicoativas. Adolescentes. Comunidade Terapêutica.
Psicopedagogia.
ABSTRACT
The aspects of the consume of psychoactive-substance in adolescent population, with
a history of behavior disorder, attention deficit / hyperactivity disorder – ADHD, was a study of
an empirical reality, in order to verify the association between two variables in the difficulties of
learning and the substance abuse: the assessment specifically in relation to Attention Deficit
Disorder / Hyperactivity Disorder - ADHD in adolescents who use psychoactive substances and
to identify possible interventions in the treatment psycho-pedagogical. The method consists of
three adolescent boys who find themselves living in a therapeutic community. The informations
were collected through interviews and a questionnaire called SNAP - IV and was made from the
symptoms of the Diagnostic and Statistical Manual - IV (DSM-IV) of the American Psychiatric
Association. There are suggestions that the abuse of SPA is associated with disorders considered
as co-morbidity of ADHD, requiring multidisciplinary interventions.
Keywords: ADHD. Psychoactive Substances. Adolescents. Therapeutic Community. Psycho-
pedagogy.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO........................................................................................................... 7
1.1 CARACTERIZANDO OS PARTICIPANTES DO ESTUDO................................. 9
1.2. RELAÇÃO FAMILIAR.......................................................................................... 10
2 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM............................................................... 12
3 USO INDEVIDO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS......................................... 16
4 INTERVENÇÕES PSICOPEDAGÓGICAS........................................................... 19
5 CONCLUSÃO............................................................................................................. 23
REFERÊNCIAS............................................................................................................. 25
7
1. INTRODUÇÃO
Nos últimos de cinco anos, tenho desenvolvido um trabalho de atendimento
socioeducativo1
a adolescente com uma trajetória pessoal que se inscreve em um contexto social
de extrema escassez econômica, social, cultural e educacional, predestinados a lutar contra todas
as adversidades apresentadas a ele, acabam se subterfugiando naquilo que lhes está às mãos,
cedendo ao aliciamento do ilusório mundo das conquistas fáceis, alimentadas pela alienação
consumista da mídia.
As consequências não diferem daquilo que deparamos cotidianamente pelas
emissoras de comunicação sobre a dura realidade de adolescentes usuários de substâncias
psicoativas e, consequentemente, em conflito com a Lei. No inventário das histórias de vida
desses, observa-se que com o levantamento das vivências, transcorre uma série de sequência de
eventos desencontrados que impedem o desenvolvimento biopsicossocial saudável. Sem fazer
generalizações, a maioria apresenta conflitos familiares, considerando que nesta fase é uma
característica do próprio processo do adolescer.
No entanto, um dado que chama bastante atenção no convívio com esses
adolescentes que apresentam um histórico de uso de SPA, é o número significativo de evasão
escolar. Ao serem questionados sobre o porquê desta evasão, a maioria foi expulsa ou é repetente
e reage com respostas dizendo: “não gosto de estudar!”; “não consigo aprender!”; “tive
problemas na escola: não conseguia ficar quieto!”; “não conseguia decorar o que a professora
ensinava!”; “os professores não gostam de mim!”; “dei muito trabalho na escola!”. Tais
justificativas retratam as dificuldades que esses adolescentes encontram para adequação escolar e
comumente encontramos esses tipos de manifestações presentes em alunos que sofrem de
TDAH.
Conforme as ideias de Mattos (2003) e Cypel (2000), as crianças que sofrem com o
TDAH apresentam baixa tolerância à frustração, teimosia, instabilidade de humor e tendem a
apresentar tendências para o isolamento e a falta de autoestima, relacionada à falta de aceitação
por parte dos pais e professores que interpretam os comportamentos como voluntários, e
1
Um sistema de atendimento ao adolescente estruturado, organizado, descentralizado e qualificado; centrado na
ação socioeducativa de formação e emancipação humana, capaz de suscitar um novo projeto de vida para os
adolescentes; articulado com os serviços públicos das políticas sociais básicas; desenvolvido em rede e em
consonância com a legislação e a normatização vigentes como: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), recomendações do Conselho Nacional dos Direitos da
Criança e do Adolescente (CONANDA); gerido a partir de um modelo de gestão democrática, planejada e
monitorada permanentemente, através da definição de indicadores de eficiência e eficácia.
8
frequentemente as crianças são submetidas à desaprovação, rejeição, castigos e punições cujos
resultados não surtem o efeito esperado.
Considerando tais elementos teóricos iniciamos o estudo da relação dessas
dificuldades escolares entre os adolescentes que fazem uso de SPA. A maioria dos trabalhos
realizados sobre esta temática é voltada para a área da saúde mental, enquanto que estudos
mostrando a articulação entre Educação e Saúde não recebem a mesma atenção de estudiosos.
O campo das aprendizagens humanas é vasto, mas a alfabetização é, sem dúvida, o
momento mais importante da formação escolar de uma pessoa; contudo quando uma criança
ingressa neste ambiente e “é”, por outros fatores psicossociais e/ou ambientais, uma pessoa que
não corresponde com o nível “preestabelecido” de exigência para um desenvolvimento cognitivo
“normal”, inicia-se uma dinâmica subjetiva de exclusão deste do ambiente escolar.
A aprendizagem é um processo de aquisição de habilidades que vem desde a
infância. O comportamento vai se modificar em consequência das experiências e é um processo
através do qual a criança se apropria ativamente do conteúdo da experiência humana e daquilo
que seu grupo social conhece, portanto é uma ação interno e pessoal, que ocorre dentro do
sujeito (PANTOJA, 2009).
Ciasca (2003) ao estudar o tema, cita as ideias de Azcoaga de 1972 e diz que o
processo de aprendizagem implica em três integridades básicas, que devem estar presentes
quando as oportunidades são oferecidas para sua realização da aprendizagem:
1. Função Psicodinâmica: à medida que o organismo internaliza o que foi observado
ou experienciado, começa a assimilação do que já sabe com o que esta sendo
aprendido;
2. Função do Sistema Nervoso Periférico: responsável pelos receptores sensoriais, que
constituem canais para a aprendizagem;
3. Função do Sistema Nervoso Central: responsável pelo armazenamento, elaboração
e processamento da informação.
Assim, podemos dizer que a criança está pronta para aprender quando ela apresenta
um conjunto de condições, capacidades, habilidades e aptidões consideradas como pré-requisitos
para o inicio de qualquer aprendizagem.
A aprendizagem ocorre em função do equilíbrio do meio interno da pessoa e do meio
externo a ela. Isto também significa que a harmonia entre tais fatores oferece a oportunidade para
um desenvolvimento humano ajustado.
9
Diante de tais considerações pretendemos neste estudo avaliar as possíveis
associações das dificuldades de aprendizagem dos adolescentes usuários de SPA residentes na
C.T. Também pretendemos identificar o tipo de intervenção psicopedagógica possível durante o
tratamento terapêutico desses adolescentes em C.T.
1.1 CARACTERIZANDO OS PARTICIPANTES DO ESTUDO
Por uso abusivo de SPA os adolescentes pesquisados encontram-se em regime de
internação em CT, localizada em região rural, há 30 km de distância do centro do município de
residência da família. Tal indicação foi tomada, como medida de proteção2
pela situação de rua e
uso abusivo de SPA que esses adolescentes encontravam-se e/ou pelos riscos de ameaça de
morte pelas diversas circunstâncias que esses se colocavam em função da obtenção da droga. A
população estudada nesse trabalho é exclusivamente masculina e o período de permanência foi
de seis meses, ou de acordo com a permanência voluntária desses na CT. Esses adolescentes
passaram por uma avaliação breve da equipe do Centro de Atenção Psicossocial Infanto/Juvenil -
Álcool e Drogas III – CAPSi AD III, e diante das situação de risco de vida e por envolvimento
ao uso de SPA a melhor opção adotada foi o encaminhamento para a CT.
O nível escolar é o mais baixo: encontra-se como último ano estudado entre o 1ª e 4ª
ano do ensino fundamental I, e o inicio da experiência com o uso de drogas entre os 9 e 11 anos
para os adolescentes com características comportamentais hiperativas. Contudo, os adolescentes
com Déficit de Atenção, verbalizaram o início de uso de drogas a partir do 5ª ano do ensino
fundamental e concomitantemente, sua ausência escolar.
Quanto à escolaridade desses, foi observado durante as entrevistas com os familiares
e com os próprios adolescentes, uma sobreposição na linha do tempo: ocorrida a evasão escolar,
inicia-se também maior permanência deste na rua de casa; depois pelas ruas do bairro e,
finalmente pelas ruas do centro da cidade. Neste interim surgem os primeiros experimentos das
SPA.
Em relação ao desempenho escolar foi levantado por parte dos adolescentes e
familiares entrevistados que a responsabilidade por não estarem na escola é exclusivamente deles
e não por não se adaptarem aos moldes da escola ofertada pelo sistema educacional; não
2
O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Artigo 98, estabelece as medidas de proteção à criança e ao
adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados: I - por ação
ou omissão da sociedade ou do Estado; II - por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; III - em razão de
sua conduta.
10
considerando suas dificuldades de aprendizagem a um ensino falho e sem atrativos que
contribuem para fatores de vulnerabilidade para o consumo de drogas nesta faixa etária.
Apenas um adolescente apresentou laudo médico de TDAH com predominância em
impulsividade e que, até os nove anos, foi acompanhado por uma equipe multiprofissional de
uma instituição especializada em Educação Especial.
1.2 RELAÇÃO FAMILIAR
As relações intrafamiliares mostraram-se estressadas e os vínculos até rompidos por
toda uma problemática apresentada pelo histórico com problemas de “indisciplina” na escola,
posteriormente agravado pelo envolvimento com drogas que consequentemente gera furtos de
objetos pessoais para o sustendo do vicio. Depois, com furtos na comunidade onde residem,
ocasionam-se as primeiras ameaças de morte e, por fim, a constante presença da polícia trazendo
o adolescente para a casa.
Nas entrevistas foi levantado um número significativo de adolescentes que residem
apenas com as mães e irmãos. A figura do pai é apresentada em outras situações como
desconhecidos, falecidos ou separados. As mães, por sua vez, apresentaram fazer uso de
medicação psicotrópica por problemas de depressão, doenças psiquiátricas, envolvimentos com
álcool ou drogas. Em um único caso de pais que vivem juntos, ambos fazem uso abusivo de
álcool.
Foi levantada uma particularidade na relação entre os pais desses adolescentes.
Ainda nesta dinâmica há irmãos que também faziam uso de SPA; no entanto, os adolescentes
com histórico de TDAH e uso de SPA, eram tratados com mais severidade que com os outros
irmãos que somente faziam uso de SPA e não sofriam de TDAH. Os pais tendiam a focar a
atenção dos problemas familiares e até justificando o uso de SPA pelos de TDAH, aumentando
assim toda a cobrança que já sofriam pelo uso de drogas.
As mães entrevistadas trabalhavam fora para o sustento da casa em empregos
informais como empregadas domésticas. A apenas uma mãe que trabalhava com vinculo
empregatício em empresa privada na função de auxiliar de serviços gerais. Elas apresentavam
dificuldades em acompanhar os adolescentes usuários nos tratamentos ambulatoriais e somente
quando eram procuradas por terceiros que ameaçam seus filhos de morte, buscavam ajuda para
remediar a situação; porém, o envolvimento do filho com o uso de drogas já estava bastante
comprometido.
11
Como foi observado, a opção pela internação do adolescente parte dos pais e não da
equipe da saúde, uma vez que esses pais alegam que já fizeram de tudo, mas não conseguiram
obter sucesso em ajuda-los, e que, em razão de ameaça de morte, não podiam mais voltar para a
casa. Por não haver uma politica de atendimento para esses casos, a CT vem sendo a opção mais
viável.
Após a internação desses adolescentes inicia-se um grande desafio de convencer a se
inserir em programas de apoio para co-dependentes e até mesmo de visitar os filhos nas CTs,
alegam que não precisam de tratamento e, quanto às visitas, usam suas ausências como sansão
por tudo que passaram com os filhos adolescentes.
Em algumas situações é necessário usar o argumento da exigência do Poder
Judiciário para que estas famílias iniciem as visitas. Muitas também começam as visitas somente
após o programa de atendimento que realizou a internação do adolescente fornecer o transporte
para levar e traze-los da CT, pois alegam não terem condições financeiras para pagar o transporte
coletivo até a cidade onde está localizado a CT.
Todos os adolescentes quando foram encaminhados para a internação já faziam uso
de SPA há pelo menos três anos, embora em um dos casos estudados o grau de dependência era
de um ano de uso abusivo de drogas. E, neste período, as principais SPA utilizadas foram tabaco,
maconha, álcool e crack. Em razão desse multiuso de SPA, todos os diagnósticos realizados pela
equipe de saúde caracterizaram-os como usuários de múltiplas drogas (CID 10 – F:19),
incontinência familiar e ameaça de morte.
Dos adolescentes estudados, todos haviam envolvimento com o ato infracional e
passagem por delegacias ou Unidades de Internação Provisória – UIP da Fundação Casa, por
roubos dentro da própria casa, furtos de celular e bolsas de transeuntes, tráfico, roubos em
supermercados, entre outros.
Quando esses adolescentes chegaram à internação, o seu estado psicoemocional
estava confuso, perturbado e com instabilidade emocional extrema. Para estabelecer uma relação
de vínculo de atendimento socioeducativo foi necessário de um a dois meses e, após um vínculo
pré-estabelecido, é que realmente iniciam-se as abordagens de intervenções. Porém, isso não
significa obtenção de sucesso no tratamento, apenas uma figura de confiança que o adolescente
sabe que pode contar e não vai prejudicá-lo.
No trabalho com esses adolescentes há indicativos de que o TDAH e o uso de SPA
apresentam estreita relação. O adolescente que apresentou estes dois transtornos com laudo
médico era o com menos idade e iniciou o uso de drogas por volta dos 11 anos e foi o que
12
apresentou maior comprometimento com o uso de drogas, e foi o mais resistente à intervenção
terapêutica. E só teve maior aderência na frequência ao tratamento quando submetidos ao
cumprimento de medida sócioeducativa em privação de liberdade3
, porém, o trabalho junto ao
adolescente era especifico a dependência química e não ao TDAH que permaneciam sem ser
observada.
A maioria desses adolescentes não têm diagnósticos médico de TDAH, mesmo sendo
encaminhados ao respectivo setor da rede publica.
Na primeira entrevista realizada, houve comprometimento nos dados coletados pelo
motivo de que os adolescentes ainda estavam intoxicados pelo uso das SPA. Por não possuírem
vinculo com o entrevistador, polo fato de já terem passado por vários programas de atendimento
e entrevista, observou-se certas frases chaves que repetiam-se e não possuíam coerência com sua
realidade. Somente após alguns meses quando o adolescente já se encontrava desintoxicado e
seguro, foi possível que ele se colocasse como um sujeito com possibilidades sociais de trabalho,
estudo e mudança de vida, no entanto, dos três adolescentes estudados, nenhum obteve esse
resultado, até o momento.
Os três adolescentes se evadiram da CT. Um encontra-se novamente nas ruas do
centro da cidade onde mora, passou por diversas internações no CAPSi AD III, contido
quimicamente; o segundo encontra-se em cumprimento de medida socioeducativa em privação
de liberdade e o terceiro encontra-se novamente internado em CT, agora para adultos.
2. DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
Crianças que mostram um atraso na aprendizagem da fala, não desenvolvem
percepção visual ou auditiva normal ou apresentam dificuldades para aprender a ler, soletrar,
escrever ou calcular. Essas dificuldades não caracterizam deficiência mental, mas apresentam
uma diferença entre a capacidade e, por isso, são crianças que requerem uma educação específica
para o seu desenvolvimento (KIRK E GALLAGHER, 1996).
Uma comissão conjunta da American Speech - Language Hearing Association
(Associação Americana da Fala, Linguagem e Audição), apresenta uma definição sobre o
3
O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Artigo 121, condiciona três princípios básicos para a aplicação da
medida de privação de liberdade: o da brevidade, isto é, a medida deve perdurar somente o tempo necessário para a
readequação do adolescente; o da excepcionalidade que contém em seu bojo a premissa de que deve ser a última
medida aplicada (quando houve ineficácia das outras); e o do respeito à condição peculiar da pessoa em
desenvolvimento, ou seja, deve garantir condições gerais para o desenvolvimento.
13
Distúrbio de Aprendizagem, que implica em um termo genérico, referente a um grupo
heterogêneo de distúrbios, que se manifestam por dificuldades significativas na aquisição e no
emprego das capacidades para ouvir, falar, ler, escrever, racionalizar ou calcular. Esses
distúrbios são inerentes ao indivíduo e presumivelmente se devem a disfunção do sistema
nervoso central. Embora um distúrbio de aprendizagem possa ocorrer concomitantemente a
outras condições deficientes como: deficiência sensorial e menta, distúrbio social e emocional,
influências ambientais, diferenças culturais: instruções insuficiente/inadequada e fatores
psicogenéticos, ele não resulta, diretamente dessas condições ou influências (KIRK E
GALLAGHER, 1996).
Podemos perceber que as dificuldades de aprendizagem podem estar ligadas as
questões orgânicas, como, por exemplo, disfunção neurológica, ou mesmo herança genética.
Uma das dificuldades de aprendizagem é manifestada pela TDAH, pois, antes de tudo, é um
transtorno que afeta o comportamento (GUARDIOLA, 2006).
Rohde e Halpern (2004) colocam que o TDAH na infância em geral se associa às
dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. São as
crianças habitualmente rotuladas como: “avoadas”; “vivendo no mundo da lua”, estabanadas,
“bicho carpinteiro” ou, como atualmente chamamos: “ligado nos 220”. Observa-se que os
meninos tendem a apresentar mais sintomas de hiperatividade ou impulsividade e quando não
tratado de forma adequada, há uma tendência a apresentar outras co-morbidades como de
Conduta ou de Opositor Desafiante. As meninas, por sua vez, apresentam mais déficit de
desatenção, portanto, não demonstram incômodos na escola, na família e nem socialmente, como
os meninos.
A atenção é uma atividade mental complexa que pode ser definida como a
capacidade de o indivíduo manter uma focalização em uma parte do estímulo do ambiente, em
detrimento das outras fontes de estimulação. As crianças apresentam dificuldades em manter
atentas em atividades consideradas enfadonhas, repetitivas ou que exigem elevados níveis de
atenção (Lopes, 2004). A criança que tem dificuldade de prestar atenção aos detalhes é pouco
meticulosa e comete frequentemente erros durante a realização de trabalhos escolares ou outras
atividades e facilmente interrompem as tarefas que estão fazendo para dar atenção a outros
estímulos. As tarefas escolares são consideradas muito desagradáveis para estas crianças, não
conseguindo terminá-las. Os materiais escolares, como lápis, borracha, caneta, são
frequentemente espalhados, danificados ou perdidos. As crianças esquecem-se frequentemente
de assuntos importantes, como os deveres da escola ou encontros marcados (APA, 1994).
14
Chiolas (2010) citando ideias de Barkley de 2002, explica que o Déficit de Atenção
pode afetar, de forma diferente entre outros fatores, os diversos aspectos envolvidos no
funcionamento da atenção e nas tarefas nas quais ela é necessária, como no planejamento, na
organização e no controle dos estímulos. Por exemplo: uma pessoa começa a ler um livro e na
metade da página não consegue lembrar o que acabou de ler; numa conversa é capaz de perder o
foco da narrativa; o aluno comete erros tolos nas provas em matérias que ele domina porque no
momento da prova sua atenção cai. O portador de DDA tem dificuldades em se concentrar e
prestar atenção de forma consistente. Apesar de existir controvérsias em relação aos fatores de
influência da manutenção da atenção, a maior parte dos autores consideram que a diminuição da
atenção está relacionada ao fato da atividade não ser suficientemente atraente ou não possuir
uma recompensa imediata.
A criança portadora de Hiperatividade apresenta, ainda, uma superexcitação e
atividade excessiva, tende a ser agitada, ativa e é facilmente levada a uma emoção excessiva. Sua
reação emocional é mais intensa e mais frequente, e isso ocorre independentemente do tipo de
emoção que esteja sendo expressa: raiva, frustração, felicidade ou tristeza. Ela tem dificuldade
de controlar o corpo em situação de postura sentada e em silêncio por um longo período de
tempo. Still (1992, cit. por Lopes, 2004; Toro, 1998) descreveu um conjunto de crianças que
apresentavam um excesso de atividade motora e um escasso controle de impulsos. Still defendeu
que a doença tinha uma origem orgânica e identificou características comuns entre crianças
hiperativas: cabeça demasiado grande, malformação no palato e vulnerabilidade as infecções.
Para os professores, uma criança com hiperatividade na escola, é descrita como: ela
provoca os colegas, fala muito, levanta da carteira a todo instante, bate com os pés, mexe as
mãos, revira-se todo o tempo: parece elétrica ou movida a motor. Nos adolescentes e adultos
hiperativos, muitas vezes o que predomina é uma sensação interna de inquietação: ou estão
sempre se ocupando com alguma atividade ou com várias ao mesmo tempo e as vezes não
conseguem completá-las.
O portador de Impulsividade ou fracasso na inibição de comportamentos (Lopes,
2004), tem dificuldade de pensar antes de agir e de seguir regras. Na maioria das vezes, ele
conhece e entende as regras, mas sua necessidade de agir rapidamente contém sua reduzida
capacidade de autocontrole. Isso resulta em um comportamento inadequado e irrefletido. No
TDAH, as reações tendem a ser imediatas e sem reflexão: costuma-se dar uma resposta sem
escutar a pergunta por inteiro; é impaciente e tem dificuldade de esperar. Em consequência da
impulsividade, o portador tende a ser impopular por romper regras que não foram bem
assimiladas ou por não conseguir mantê-las. As manifestações comportamentais geralmente
15
aparecem em múltiplos contextos: em casa, na escola ou em situações sociais. A impulsividade
pode também levar a acidentes, por exemplo, não olhar por onde anda, tropeças em objetos,
colidir com pessoas, e pode, inclusive, envolver-se em atividades perigosas sem consideração
quanto às possíveis consequências, por não pensar antes de agir. A impressão que estas crianças
deixam é que são irresponsáveis, mal-educadas, imaturas e difíceis de aturar (LOPES, 2004).
Para Toro (2008), todos esses distúrbios acima de certa forma vão contribuir para o
fracasso escolar, social e familiar.
A prevalência do TDAH é alta e corresponde às manifestações comportamentais
diversas. Riesgo (2006) estudou as principais co-morbidades psiquiátricas das crianças TDAH
que são:
 Abuso de Substâncias
 Enurese Noturna
 Epilepsia
 Tiques
 Transtorno de Ansiedade
 Transtorno de Aprendizagem
 Transtorno de Conduta – TC
 Transtorno de Humor
 Transtorno de Linguagem
 Transtorno de Oposição e Desafiante - TOD
Segundo o referido autor tais co-morbidades ocorrem em um contexto no qual a
criança tem dificuldades de aprendizagem enfatizando a necessidade de tratamento com
psicofármacos e psicológico, após avaliação realizada por multiprofissionais.
Crianças com TDAH podem apresentar dificuldades de aprendizagem em 19 a 26%
dos casos. Entre estas observam-se transtornos específicos, como dislexia, disgrafia e discalculia,
sendo a dislexia a co-morbidade mais frequente.
Em muitos casos, os transtornos da linguagem estão presentes, seja por distúrbios da
fala (como dificuldades articulatórias, alterações do ritmo da fala e da qualidade da vocalização),
mas também por distúrbio da linguagem tanto na percepção como na elaboração (como falhas no
acesso lexical, dificuldades de estruturação sintático-semânticas e falhas no processamento da
informação).
Sabe-se que, com o tempo, outras co-morbidades costumam se associar ao TDAH,
aumentando assim a ocorrência de co-morbidades psiquiátricas. Segundo Searight et al (2000),
16
as co-morbidades mais frequentes são: transtorno de humor (19 a 37%), transtorno de ansiedade
(25 a 50%), abuso de álcool (32 a 53%), outros abusos de substâncias – maconha e cocaína (8 a
32%) e transtorno de personalidade (10 a 20%). Estas pesquisas mostram uma alta prevalência
de co-morbidades entre TADH e os transtornos disruptivos de conduta e de oposição desafiante
em torno de 30 a 50%.
Bierderman et al (1995), em um estudo realizado com adultos com TDAH
diagnosticados na infância, verificaram que aproximadamente 40% dos pacientes apresentaram,
abuso ou dependência por SPA durante a vida. Conclui-se que independente das outras co-
morbidades psiquiátricas, o risco de abuso de SPA ainda é maior em pacientes TDAH.
O transtorno de atenção ocorrendo no cérebro apresenta várias interfaces de estudo
como a neurociência, a saúde mental e a educação.
3. USO INDEVIDO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS
As questões relativas ao abuso de álcool e outras drogas são consideradas,
atualmente, um grave problema de saúde pública. O tratamento de adolescente destaca-se como
um dos grandes desafios, dada à alta prevalência de uso, que vem ocorrendo cada vez mais
precocemente (Guimarães, Godinho, Cruz, Kappann, & Tosta Junior, 2004; Prata e Santos,
2007; Toscano, 2001), associado a altos índices de abandono e baixo sucesso terapêutico
(Kaminer & Szobot, 2004).
A presença de TDAH dobra o risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de
substâncias ao longo da vida, e ambos os transtornos influenciam-se mutuamente, o que traz
implicações para o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento de ambos os transtorno. A maconha
é a droga ilícita com maior frequência de abuso entre portadores de TDAH. Adultos jovens
portadores de TDAH relatam um efeito calmante proporcionado pela maconha, reduzindo sua
inquietação interna. Este efeito reforça a hipótese da automedicação dos sintomas de TDAH
como um fator de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de drogas (Romano,
2005).
Outro contraponto referido é a realidade no âmbito escolar desses adolescentes: o
fracasso e a falta de vínculos no ambiente escolar (uns dos fatores de risco externo) e a própria
predisposição biológica (um dos fatores de risco interno) ao uso de SPA, incita o experimento de
novas sensações e prazeres.
17
O efeito do uso abusivo de SPA no cérebro é o Prazer, o que os cientistas chamam,
de força biológica poderosa para a nossa sobrevivência. Se fizermos algo prazeroso, isso é
registrado de tal modo que se tende a ser feito novamente. As áreas de recompensa do cérebro
correspondem às áreas relacionadas à fome, à sede e ao sexo.
Para a OMS – Organização Mundial de Saúde – droga é qualquer substância que, não
sendo produzida pelo organismo, tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas,
produzindo alterações em seu funcionamento. A terminologia Droga refere-se para substâncias
psicotrópicas ou psicoativas, que afetam os processos mentais (pensamento, memória e
percepção).
Existem as substâncias psicoativas lícitas, que são aquelas comercializadas de forma
legal, podendo ou não estar submetidos a algum tipo de restrição. Como por exemplo: o álcool
(venda proibida para menores de 18 anos) e alguns medicamentos que só podem ser adquiridos
por meio de prescrição médica especial. As substâncias ilícitas são aquelas que são consideradas,
pela nossa legislação, como de venda ou uso ilegais. (SENAD, 2006).
As necessidades fisiológicas, como comer, ativam um circuito de células nervosas
especializadas dedicadas a produzir e regular o prazer. Um aspecto importante destas células
nervosas é o fato de usarem um neurotransmissor químico chamado dopamina, situado no topo
do tronco cerebral na área de tegmental ventral. Esses neurônios contêm dopamina e
retransmitem mensagem de prazer através de suas fibras nervosas para células nervosas numa
estrutura do sistema límbico chamado de núcleo achumbes, enquanto que outras fibras alcançam
uma parte relacionada da região frontal do córtex cerebral. Assim, o circuito do prazer, que é
conhecido como o sistema mesolímbico, espalma a sobrevivência orientada do tronco cerebral,
do sistema límbico emocional e do córtex cerebral fronteiriço.
Portanto, todas as drogas aditivas são ativadas no cérebro no circuito do prazer. A
adição de drogas é um processo biológico e patológico que altera o funcionamento do centro do
prazer, como também outras partes das funções do cérebro. Quase todas as drogas que alteram o
modo de trabalho do cérebro afetam a química da neurotransmissão. Por exemplo:
 Heroína, Álcool, Barbitúricos, Benzodiazepínicos, Solventes ou Inalantes:
imitam os efeitos de um neurotransmissor natural. É uma droga considerada depressora, pois
causa diminuição da atividade global ou de certos sistemas específicos do sistema nervoso
central, que tende a causar uma diminuição da atividade motora, reatividade à dor e à ansiedade
e é comum um efeito euforizante inicial e, posteriormente, aumento de sonolência;
18
 Maconha, LSD, Alucinógenos, Anticolinérgicos, PCP e Ecstasy – bloqueiam
os receptores e assim impedem o término das mensagens dos neurônios. É uma droga
considerada perturbadora, pois provoca alterações no funcionamento cerebral, que resultam em
vários fenômenos psíquicos anormais, entre os quais os delírios e as alucinações;
 Cocaína, Anfetaminas, Metanfetaminas: interferem nas moléculas que são
responsáveis para transportar neurotransmissores que liberam os neurônios. É uma droga
considerada estimulante, pois aumenta a atividade de determinados sistemas neuronais, o que
traz como consequências um estado de alerta exagerado, insônia e aceleração dos processos
psíquicos;
 Outras Drogas: Tabaco, Cafeína e Esteróides anabolizantes: Essas drogas não
possibilitam uma classificação em uma única categoria (depressoras, estimulantes ou
perturbadoras do SNC – Sistema Nervoso Central). Além de causarem dependência física aguda
ou crônica, caracterizada por ansiedade, psicomotora, distúrbio do sono e alterações do humor.
Mesmo assim, são consideradas drogas lícitas, ou seja, comercializadas legalmente.
A lista de substâncias psicoativas consideradas pela CID-10, no capítulo V –
Transtornos Mentais e de Comportamento, inclui:
Álcool; opióides (morfina, heroína, codeína, diversas substâncias sintéticas);
canabinóides (maconha); sedativos ou hipnóticos (barbitúricos e benzodiazepínicos); cocaína;
alucinógenos; tabaco; solventes voláteis; e outros estimulantes (como anfetaminas e substâncias
relacionadas à cafeína).
O uso de SPA altera o estado mental, afeta diretamente a cognição, a capacidade de
julgamento, o humor e as relações interpessoais; áreas que, frequentemente, já estão
comprometidas, mesmo na adolescência normal (MILLER et. al, 1992).
O uso de SPA altera as percepções, os sentimentos ou o comportamento e é comum
na fase inicial da adolescência: estudos desenvolvidos em todo o mundo indicam que 50% a 80%
das crianças em idade escolar usam drogas licitas ou ilícitas com propósitos recreacionais
(SCIVOLETTO E GIUSTI 2005).
Segundo Macedo (2008), o portador de TDAH sofre repercussão muito séria em sua
vida caso não tenha seu transtorno diagnosticado e tratado, porque, desde a infância, o portador
enfrenta rótulos negativos que atingem até sua desqualificação pessoal. O portador poderá ainda
ter reflexos negativos na convivência familiar e conjugal, na vida afetiva, na escolha da profissão
e no trabalho. E há casos, por envolvimento em situação de risco, como a dependência química
19
que apresentam práticas de violência física, transtornos de humor, ansiedade e transtorno de
personalidade antissocial.
Diante dos estudos dos diversos autores, constatou-se haver uma relação entre
aqueles que apresentam elevado uso de SPA com os TDAH, conforme dados relatados nas
entrevistas. Os adolescentes usuários, além de tratamento medicamentoso, se beneficiam de
intervenções de natureza sócioeducativa.
Pela escala de uso de SPA, os adolescentes verbalizam como sendo a maconha a
primeira substância utilizada, depois o tabaco, posteriormente experimenta o álcool, cola de
sapateiro e cocaína, porém, não se fixaram a estas substâncias, mas sim ao uso do crack, por ser
uma droga de valor acessível e efeito instantâneo após o uso. No entanto, como a duração de
efeito dura por volta de cinco minutos, o usuário passa a consumi-la com maior frequência,
levando-o à dependência química mais rapidamente que as outras SPA.
4. INTERVENÇÕES PSICOPEDAGÓGICAS
Quando esses adolescentes entraram em contato com a aprendizagem e perceberam
que não havia sintonia neste processo, não conseguiram suportar e desencadearam níveis
elevados de estresse de ordem biopsicossocial.
Muitas vezes esses sintomas foram negligenciados, tanto pelos pais como pelos
professores, que banalizaram como falta de interesse, indisciplina, desajustamento, entre outros.
Afirma Macedo (2008) que o TDAH é uma questão séria. Se não tratado de maneira
adequada, pode ter efeitos duradouros na vida do paciente com várias repercussões [...]. Sem
tratamento, os sintomas de TDAH podem afetar o desempenho escolar, limitar a qualificação
ocupacional e aumentar o risco de abusos e dependência de drogas e de álcool.
Pela vicissitude da organização familiar e do próprio adolescente em lidar com esta
realidade, sua resistência às tensões da vida são minimizadas, impondo um compasso em
experiências estressantes no inicio do seu desenvolvimento psicossocial e ocorrências de
problemas emocionais e comportamentais no transcorrer da sua vida, desencadeando uma vida
social desorganizada.
Estudos realizados por Souza e Oliveira (2005), quanto à escolaridade e repetência
de um grupo de adolescentes usuários e não usuários, constatou-se um prejuízo acadêmico
significativo entre estes dois grupos - no primeiro, registrou-se um percentual de 93,3% contra
20
73,3% de repetência do segundo grupo - desenhando um cenário social e econômico que permite
poucas condições de educação em classes menos favorecidas, ou ainda, em que as práticas
pedagógicas costumam ser pouco adaptadas às necessidades individuais do sujeito.
Ainda os mesmos autores apontam um dado importante em um estudo realizado
sobre Simkin (2002), que tratou sobre os fatores de proteção contra o uso de drogas e relatou que
o tratamento precoce do TDAH reduz em 85% o envolvimento com drogas.
Quando o adolescente é encaminhado para tratamento em CT por uso abusivo de
SPA, é necessário um olhar sensível e uma escuta polida para um atendimento multiprofissional.
O psicopedagogo contribuirá com abordagens de ressignificações de valores do adolescente, na
compreensão e no enfrentamento da dependência química, bem como nas consequências da
mesma. Posteriormente, na intervenção na área da autovalorização e elevação da autoestima, do
estabelecimento de um projeto de vida e encaminhamento para (re)iniciação acadêmica,
profissional e estímulo à autonomia e independência, incentivando o resgate de sua identidade e
proporcionando uma vida com qualidade.
Para um trabalho efetivo com adolescentes é necessária uma gama de atividades
diferenciadas e atrativas, principalmente para os adolescentes com históricos de TDAH. De
acordo com as dificuldades, é fundamental a adaptação de algumas atividades, o que envolve a
observação do comportamento do adolescente antes da aplicação de qualquer atividade ou
técnica. Além da anamnese, continuamente são feitas entrevistas avaliativas da evolução do
tratamento, observações e aplicações de técnicas psicopedagógicas, como provas projetivas,
sessões lúdicas, diagnósticos operatórios e dinâmicos.
Por se tratar de um adolescente com queixa de uso abusivo de SPA e com uma
hipótese de dificuldades de aprendizagem, nos deparamos com um indivíduo em grande
sofrimento. Pelo fato de suas dificuldades de aprendizagem não terem sido sanadas
anteriormente, elas se arrastam até o momento em que o adolescente foi encaminhado para
tratamento terapêutico por uso de SPA e, que de certa forma, são manifestadas em sua rotina na
CT.
As intervenções psicopedagógicas terão que abrir um leque de possibilidades aquém
das suas funções, pois surtirão intervenções que abrangerá duas áreas do conhecimento: tanto da
saúde como da educação. As intervenções devem ser trabalhadas paralelamente com os pais e o
conhecimento do adolescente, para que ele se sinta confiante e seguro nas orientações e
encaminhamentos.
21
Os encontros devem ser agendados com regularidade, de modo a acompanhar a
participação dos pais nas orientações dadas, e corrigir suas possíveis falhas; ainda é possível nos
contínuos acompanhamentos dar novos redirecionamentos de acordo com a rotina e as respostas
do adolescente às intervenções. Faz parte dos encontros esclarecer dúvidas e lidar com as
angustias e medos, tanto da família como do adolescente. Para alcançar os objetivos das
intervenções é primordial uma articulação tripartite: adolescente, família e as intervenções
psicopedagogia; pois se não houver o completo envolvimento destas três partes, o sucesso do
tratamento estará comprometido.
Quando um adolescente apresenta um histórico de uso abusivo de SPA, os pais, no
momento da internação, encontram-se no cume da exaustão e estão impotentes perante o filho e
seus sentimentos de amor e ódio são ambivalentes. Nesta hora, é importante uma atenção
especial aos pais para que exteriorizem seus sentimentos e sintam que estão diante de um novo
ponto de partida com o filho. A intervenção psicopedagógica, portanto, deve direcionar os
atendimentos para as possibilidades possíveis e reais dos ideais da família.
Após a alta terapêutica e sua saída do CT, o tratamento continua ambulatoriamente e
em conjunto da família e posteriormente com a escola. As intervenções psicopedagógicas devem
alcançar e sensibilizar esses corresponsáveis pelo atendimento, para juntos contribuírem para o
não agravamento da queixa apresentada e estabelecer medidas de manutenção no tratamento,
visando o não aparecimento de outras co-morbidades psiquiátricas.
O trabalho psicopedagógico deve estar acompanhado de outros tratamentos, como
avaliação neuropsicológica, reabilitação cognitiva, medicamentoso, terapia ocupacional,
atendimento psicoterapêutico individual e grupal, psiquiátrico, atendimento familiar individual e
grupal, acompanhante terapêutico e de ressocialização4
de tal sorte que as abordagens
terapêuticas se completem. Segundo Rotta (2006) é preciso que sejam considerados os seguintes
itens:
a) modificações de comportamentos;
b) ajustamento acadêmico;
c) psicoterapia e
d) terapia farmacológica.
4
A ressocialização implica, depois de três meses de internação, a saída do interno para a casa da família em um final
de semana por mês, para que seja observado seu comportamento frente a sua realidade fora da CT.
22
No que tange ao ajustamento acadêmico, dadas as diferentes dificuldades, a
intervenção psicopedagógica precisa ser especificamente planejada para cada adolescente ou
criança.
23
5. CONCLUSÃO
O atendimento psicopedagógico implica em uma mobilização na criação de
condições para a aprendizagem bem sucedida das crianças5
e adolescentes internos na CT.
Conclui-se que o abuso de SPA de parte dos adolescentes internos na CT esteja
associado ao TDAH, que reforça a busca pelas drogas. Os adolescentes sob o efeito de tais
substâncias podem estar se refugiando ou fugindo de uma realidade de vida de difícil adequação.
Os transtornos associados ao TDAH, como as co-morbidades que foram mencionadas
anteriormente, podem ser razões e não causas do abuso de SPA.
Portanto, é importante a realização do diagnóstico multiprofissional do TDAH dos
casos encaminhados às CTs para que os adolescentes possam ser assistidos diretamente em suas
dificuldades, o que o auxiliaria em sua recuperação primeiramente, para que em segundo lugar as
intervenções do tratamento sejam direcionadas às perdas cognitivas pelo uso SPA. Essa situação,
no entanto, é um ideal, pois verificou-se na CT pesquisada, que o foco no tratamento dos
adolescentes observados era somente o uso de SPA, negligenciando, assim a doença de base, que
é o TDAH, o que torna o tratamento incompleto e ineficaz.
O TDAH e o uso de SPA são duas variáveis que ao mesmo tempo é a produção de
uma história social. Imaginando um cenário, visualiza-se o autor dessa história social que, no
primeiro ato é uma criança com TDAH e depois um adolescente usuário de SPA, que precisa
internalizar responsabilidades que garantem sua participação produtiva na coletividade. Por isso,
considerando uma educação deficiente na fase infantil destes adolescentes, é preciso um trabalho
de prevenção através do desenvolvimento de projetos para o futuro destas novas gerações, já na
fase da pré-adolescência, evitando assim desperdícios de vidas.
A escola, os professores, a família, o casal e todo o ambiente social devem ser
orientados e direcionados para se adequarem ao apoio do tratamento do adolescente para a
obtenção dos resultados esperados. Ou seja, é necessária a integração de todos estes elementos
para a eficacidade da recuperação do adolescente que precisa enfrentar grandes desafios para sua
reintegração psicossocial.
Os portadores de TDAH necessitam de tratamento multidisciplinar para obter
melhores resultados (neurológico, psicológico e educacional). Como mencionado, é preciso ter
um olhar sistêmico para estas crianças e familiares, que devem ser fortalecidos nesses cuidados
5
Em algumas CTs, são aceitos internos com histórico de uso de SPA a partir de 11 anos de idade, o que é
considerado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, criança; mas isso não é o padrão em todas as CT.
24
específicos e estimulados ao conhecimento cientifico sobre o transtorno que seus filhos sofrem,
através de divulgação de palestras, literaturas e grupos de apoio. Também é preciso ajudá-los na
administração da manutenção dos cuidados pessoal e educacional do filho portador.
A psicopedagogia clínica e institucional precisam estar preparadas para uma
abordagem que propicie condições para o desenvolvimento da autoestima e do senso critico e da
responsabilidade do educando sobre sua realidade e necessidades psicossociais, promovendo a
redução do abuso de SPA e qualidade de vida.
Rosa (2009) afirma que a ação do psicopedagogo se estende da criança ao mundo
que a entorna, e as contribuições teóricas devem se somar para se possa melhor visualizar sua
realidade. Ele precisa contar com diferentes modelos teóricos como base; a interação desses
modelos permitirá uma dinâmica de trabalho que oferecerá o suporte e o parâmetro para uma
práxis efetiva.
Contudo esta pesquisa incite novos estudos, não só, para orientação das famílias
sobre os cuidados necessários a uma criança que sofre de TDAH, mas também as politicas
públicas quanto às ações para o sistema educacional, saúde mental e as CTs, que despreparadas
aos cuidados destas crianças, as abdicam por ausência de estratégias, instrumentalização,
conhecimento em lidar com este público. Assim, sem continência familiar e educacional, acabam
ficando a própria sorte se refugiando nas ruas e no consequente uso e abuso de SPA e suas
repercussões. Visualiza-se assim um quadro real que não tem tido a atenção devida do sistema de
garantia de direitos da criança e do adolescente, causando uma demanda de dependentes
químicos que poderia ser prevenida ainda na infância se o diagnóstico de TDAH fosse realizado
prematuramente.
25
REFERÊNCIAS
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http://www.scielo.br
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (2002). DSM-IV, Diagnostic and statistical
manual of mental disorders (4ª ed. texto revisado). Washingon, DC: APA.
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BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília: Ministério da Justiça, Secretaria de
Estado dos Direitos Humanos, 2000.
CONSELHO REGINAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO/ASSOCIAÇÃO
MEDICA BRASILEIRA. Usuários de substâncias psicoativas: abordagem, diagnósticos e
tratamento. Coord. Ronaldo Laranjeira et al. 2. Ed. São Paulo. 2003.
CYPEL, Saul. Criança com Déficit de Atenção e Hiperatividade: Atualização para pais,
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KIRK, Samuel A.; GALLAGHER James J. Educação da Criança Excepcional. 3ª Ed. São
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26
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NEWRA T., OHLWEILER, LYGIA E RIESGO, RUDIMAR DOS S., Transtornos de
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SOUZA, Cristiane Cauduro; OLIVEIRA, Margareth da Silva. Transtorno de Déficit de
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WAJNSZTEJN, Alessandra B. C.; WAJNSZTEJN, Rubens. Dificuldades Escolares: um
desafio superável – medicina/psicologia. 2ª Ed. São Paulo: Ártemis Editorial, 2009.

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TDAH em adolescentes residentes em comunidades terapêuticas

  • 1. KÁTIA BERALDI TDAH EM ADOLESCENTES RESIDENTES EM COMUNIDADES TERAPÊUTICAS POR ABUSO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS SANTO ANDRÉ 2012
  • 2. KÁTIA BERALDI TDAH EM ADOLESCENTES RESIDENTES EM COMUNIDADES TERAPÊUTICAS POR ABUSO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS Trabalho de conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Fundação Santo André para obtenção do título de Especialização em: Psicopedagogia Clínica e Institucional. Orientador(a): Profª Ivete Pellegrino Rosa. SANTO ANDRÉ 2012
  • 3. KÁTIA BERALDI Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Fundação Santo André para obtenção do título de Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Orientador (a): Prof. Dra. Ivete Pellegrino Rosa. TDAH EM ADOLESCENTES RESIDENTES EM COMUNIDADES TERAPÊUTICAS POR ABUSO DE SUBTÂNCIAS PSICOATIVAS. Orientador: Ivete Pellegrino Rosa Examinador: Eliana Marta Monaci Santo André, 27 de março de 2012.
  • 4. AGRADECIMENTOS Neste trabalho de atendimento socioeducativo junto a adolescentes em tratamento por uso abusivo de SPA, estabeleceu uma extensa teia de (re)significações e vínculos. Houve momentos de angustia e alegria tão peculiar, em uma área de atuação do pedagogo tão pouco explorada. Agradeço primeiramente a Deus pela oportunidade de trabalha com cada um dos adolescentes que convivi nestes anos, principalmente aos que compartilharam com os suas experiências para esta pesquisa: ESV, 14 anos; FHS, 17 anos e FCO, 18 anos. Agradeço a minha filha Júlia e a sobrinha Giovana pelo apoio desta produção. Ao amigo e ex-companheiro de trabalho Rogério Gusmão que me acompanhou nesta travessia, apurando olhares e transformando escutas. E finalmente, especialmente pela minha orientadora Ivete Rosa que desde a graduação não desistiu de mim, e nesta nova trajetória acreditou que seria possível continuar essa temática no campo da psicopedagogia.
  • 5. Procurou o homem, desde a mais remota antiguidade, encontrar um remédio que tivesse a propriedade de aliviar suas dores, serenar suas paixões, trazer-lhe alegria, livrá-lo de angústias, do medo ou que lhe desse o privilégio de prever o futuro, que lhe proporcionasse coragem, ânimo para enfrentar as tristezas e o vazio da vida. Lauro Sollero.
  • 6. RESUMO Os aspectos do consumo de substâncias psicoativas na população de adolescentes, com histórico de comportamento de Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade - TDAH foi um estudo de uma realidade empírica, com o objetivo de verificar a associação entre duas variáveis nas dificuldades de aprendizagem ao uso de substâncias psicoativas: avaliar especificamente em relação ao TDAH em adolescentes que fazem uso de substâncias psicoativas e identificar possíveis intervenções Psicopedagógicas no tratamento. O método é composto por três adolescentes do sexo masculino em situação de residência em Comunidade Terapêutica - CT. Os dados foram coletados através de entrevista e de questionário denominado SNAP – IV e foi construído a partir dos sintomas do Manual de Diagnóstico e Estatística - IV - (DSM-IV) da Associação Americana de Psiquiatria. Há sugestão que o abuso de SPA seja associado dos transtornos considerados como co-morbidade do TDAH, sendo necessárias intervenções multidisciplinares. Palavras-chave: TDAH. Substâncias Psicoativas. Adolescentes. Comunidade Terapêutica. Psicopedagogia. ABSTRACT The aspects of the consume of psychoactive-substance in adolescent population, with a history of behavior disorder, attention deficit / hyperactivity disorder – ADHD, was a study of an empirical reality, in order to verify the association between two variables in the difficulties of learning and the substance abuse: the assessment specifically in relation to Attention Deficit Disorder / Hyperactivity Disorder - ADHD in adolescents who use psychoactive substances and to identify possible interventions in the treatment psycho-pedagogical. The method consists of three adolescent boys who find themselves living in a therapeutic community. The informations were collected through interviews and a questionnaire called SNAP - IV and was made from the symptoms of the Diagnostic and Statistical Manual - IV (DSM-IV) of the American Psychiatric Association. There are suggestions that the abuse of SPA is associated with disorders considered as co-morbidity of ADHD, requiring multidisciplinary interventions. Keywords: ADHD. Psychoactive Substances. Adolescents. Therapeutic Community. Psycho- pedagogy.
  • 7. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................... 7 1.1 CARACTERIZANDO OS PARTICIPANTES DO ESTUDO................................. 9 1.2. RELAÇÃO FAMILIAR.......................................................................................... 10 2 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM............................................................... 12 3 USO INDEVIDO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS......................................... 16 4 INTERVENÇÕES PSICOPEDAGÓGICAS........................................................... 19 5 CONCLUSÃO............................................................................................................. 23 REFERÊNCIAS............................................................................................................. 25
  • 8. 7 1. INTRODUÇÃO Nos últimos de cinco anos, tenho desenvolvido um trabalho de atendimento socioeducativo1 a adolescente com uma trajetória pessoal que se inscreve em um contexto social de extrema escassez econômica, social, cultural e educacional, predestinados a lutar contra todas as adversidades apresentadas a ele, acabam se subterfugiando naquilo que lhes está às mãos, cedendo ao aliciamento do ilusório mundo das conquistas fáceis, alimentadas pela alienação consumista da mídia. As consequências não diferem daquilo que deparamos cotidianamente pelas emissoras de comunicação sobre a dura realidade de adolescentes usuários de substâncias psicoativas e, consequentemente, em conflito com a Lei. No inventário das histórias de vida desses, observa-se que com o levantamento das vivências, transcorre uma série de sequência de eventos desencontrados que impedem o desenvolvimento biopsicossocial saudável. Sem fazer generalizações, a maioria apresenta conflitos familiares, considerando que nesta fase é uma característica do próprio processo do adolescer. No entanto, um dado que chama bastante atenção no convívio com esses adolescentes que apresentam um histórico de uso de SPA, é o número significativo de evasão escolar. Ao serem questionados sobre o porquê desta evasão, a maioria foi expulsa ou é repetente e reage com respostas dizendo: “não gosto de estudar!”; “não consigo aprender!”; “tive problemas na escola: não conseguia ficar quieto!”; “não conseguia decorar o que a professora ensinava!”; “os professores não gostam de mim!”; “dei muito trabalho na escola!”. Tais justificativas retratam as dificuldades que esses adolescentes encontram para adequação escolar e comumente encontramos esses tipos de manifestações presentes em alunos que sofrem de TDAH. Conforme as ideias de Mattos (2003) e Cypel (2000), as crianças que sofrem com o TDAH apresentam baixa tolerância à frustração, teimosia, instabilidade de humor e tendem a apresentar tendências para o isolamento e a falta de autoestima, relacionada à falta de aceitação por parte dos pais e professores que interpretam os comportamentos como voluntários, e 1 Um sistema de atendimento ao adolescente estruturado, organizado, descentralizado e qualificado; centrado na ação socioeducativa de formação e emancipação humana, capaz de suscitar um novo projeto de vida para os adolescentes; articulado com os serviços públicos das políticas sociais básicas; desenvolvido em rede e em consonância com a legislação e a normatização vigentes como: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), recomendações do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA); gerido a partir de um modelo de gestão democrática, planejada e monitorada permanentemente, através da definição de indicadores de eficiência e eficácia.
  • 9. 8 frequentemente as crianças são submetidas à desaprovação, rejeição, castigos e punições cujos resultados não surtem o efeito esperado. Considerando tais elementos teóricos iniciamos o estudo da relação dessas dificuldades escolares entre os adolescentes que fazem uso de SPA. A maioria dos trabalhos realizados sobre esta temática é voltada para a área da saúde mental, enquanto que estudos mostrando a articulação entre Educação e Saúde não recebem a mesma atenção de estudiosos. O campo das aprendizagens humanas é vasto, mas a alfabetização é, sem dúvida, o momento mais importante da formação escolar de uma pessoa; contudo quando uma criança ingressa neste ambiente e “é”, por outros fatores psicossociais e/ou ambientais, uma pessoa que não corresponde com o nível “preestabelecido” de exigência para um desenvolvimento cognitivo “normal”, inicia-se uma dinâmica subjetiva de exclusão deste do ambiente escolar. A aprendizagem é um processo de aquisição de habilidades que vem desde a infância. O comportamento vai se modificar em consequência das experiências e é um processo através do qual a criança se apropria ativamente do conteúdo da experiência humana e daquilo que seu grupo social conhece, portanto é uma ação interno e pessoal, que ocorre dentro do sujeito (PANTOJA, 2009). Ciasca (2003) ao estudar o tema, cita as ideias de Azcoaga de 1972 e diz que o processo de aprendizagem implica em três integridades básicas, que devem estar presentes quando as oportunidades são oferecidas para sua realização da aprendizagem: 1. Função Psicodinâmica: à medida que o organismo internaliza o que foi observado ou experienciado, começa a assimilação do que já sabe com o que esta sendo aprendido; 2. Função do Sistema Nervoso Periférico: responsável pelos receptores sensoriais, que constituem canais para a aprendizagem; 3. Função do Sistema Nervoso Central: responsável pelo armazenamento, elaboração e processamento da informação. Assim, podemos dizer que a criança está pronta para aprender quando ela apresenta um conjunto de condições, capacidades, habilidades e aptidões consideradas como pré-requisitos para o inicio de qualquer aprendizagem. A aprendizagem ocorre em função do equilíbrio do meio interno da pessoa e do meio externo a ela. Isto também significa que a harmonia entre tais fatores oferece a oportunidade para um desenvolvimento humano ajustado.
  • 10. 9 Diante de tais considerações pretendemos neste estudo avaliar as possíveis associações das dificuldades de aprendizagem dos adolescentes usuários de SPA residentes na C.T. Também pretendemos identificar o tipo de intervenção psicopedagógica possível durante o tratamento terapêutico desses adolescentes em C.T. 1.1 CARACTERIZANDO OS PARTICIPANTES DO ESTUDO Por uso abusivo de SPA os adolescentes pesquisados encontram-se em regime de internação em CT, localizada em região rural, há 30 km de distância do centro do município de residência da família. Tal indicação foi tomada, como medida de proteção2 pela situação de rua e uso abusivo de SPA que esses adolescentes encontravam-se e/ou pelos riscos de ameaça de morte pelas diversas circunstâncias que esses se colocavam em função da obtenção da droga. A população estudada nesse trabalho é exclusivamente masculina e o período de permanência foi de seis meses, ou de acordo com a permanência voluntária desses na CT. Esses adolescentes passaram por uma avaliação breve da equipe do Centro de Atenção Psicossocial Infanto/Juvenil - Álcool e Drogas III – CAPSi AD III, e diante das situação de risco de vida e por envolvimento ao uso de SPA a melhor opção adotada foi o encaminhamento para a CT. O nível escolar é o mais baixo: encontra-se como último ano estudado entre o 1ª e 4ª ano do ensino fundamental I, e o inicio da experiência com o uso de drogas entre os 9 e 11 anos para os adolescentes com características comportamentais hiperativas. Contudo, os adolescentes com Déficit de Atenção, verbalizaram o início de uso de drogas a partir do 5ª ano do ensino fundamental e concomitantemente, sua ausência escolar. Quanto à escolaridade desses, foi observado durante as entrevistas com os familiares e com os próprios adolescentes, uma sobreposição na linha do tempo: ocorrida a evasão escolar, inicia-se também maior permanência deste na rua de casa; depois pelas ruas do bairro e, finalmente pelas ruas do centro da cidade. Neste interim surgem os primeiros experimentos das SPA. Em relação ao desempenho escolar foi levantado por parte dos adolescentes e familiares entrevistados que a responsabilidade por não estarem na escola é exclusivamente deles e não por não se adaptarem aos moldes da escola ofertada pelo sistema educacional; não 2 O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Artigo 98, estabelece as medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados: I - por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; II - por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; III - em razão de sua conduta.
  • 11. 10 considerando suas dificuldades de aprendizagem a um ensino falho e sem atrativos que contribuem para fatores de vulnerabilidade para o consumo de drogas nesta faixa etária. Apenas um adolescente apresentou laudo médico de TDAH com predominância em impulsividade e que, até os nove anos, foi acompanhado por uma equipe multiprofissional de uma instituição especializada em Educação Especial. 1.2 RELAÇÃO FAMILIAR As relações intrafamiliares mostraram-se estressadas e os vínculos até rompidos por toda uma problemática apresentada pelo histórico com problemas de “indisciplina” na escola, posteriormente agravado pelo envolvimento com drogas que consequentemente gera furtos de objetos pessoais para o sustendo do vicio. Depois, com furtos na comunidade onde residem, ocasionam-se as primeiras ameaças de morte e, por fim, a constante presença da polícia trazendo o adolescente para a casa. Nas entrevistas foi levantado um número significativo de adolescentes que residem apenas com as mães e irmãos. A figura do pai é apresentada em outras situações como desconhecidos, falecidos ou separados. As mães, por sua vez, apresentaram fazer uso de medicação psicotrópica por problemas de depressão, doenças psiquiátricas, envolvimentos com álcool ou drogas. Em um único caso de pais que vivem juntos, ambos fazem uso abusivo de álcool. Foi levantada uma particularidade na relação entre os pais desses adolescentes. Ainda nesta dinâmica há irmãos que também faziam uso de SPA; no entanto, os adolescentes com histórico de TDAH e uso de SPA, eram tratados com mais severidade que com os outros irmãos que somente faziam uso de SPA e não sofriam de TDAH. Os pais tendiam a focar a atenção dos problemas familiares e até justificando o uso de SPA pelos de TDAH, aumentando assim toda a cobrança que já sofriam pelo uso de drogas. As mães entrevistadas trabalhavam fora para o sustento da casa em empregos informais como empregadas domésticas. A apenas uma mãe que trabalhava com vinculo empregatício em empresa privada na função de auxiliar de serviços gerais. Elas apresentavam dificuldades em acompanhar os adolescentes usuários nos tratamentos ambulatoriais e somente quando eram procuradas por terceiros que ameaçam seus filhos de morte, buscavam ajuda para remediar a situação; porém, o envolvimento do filho com o uso de drogas já estava bastante comprometido.
  • 12. 11 Como foi observado, a opção pela internação do adolescente parte dos pais e não da equipe da saúde, uma vez que esses pais alegam que já fizeram de tudo, mas não conseguiram obter sucesso em ajuda-los, e que, em razão de ameaça de morte, não podiam mais voltar para a casa. Por não haver uma politica de atendimento para esses casos, a CT vem sendo a opção mais viável. Após a internação desses adolescentes inicia-se um grande desafio de convencer a se inserir em programas de apoio para co-dependentes e até mesmo de visitar os filhos nas CTs, alegam que não precisam de tratamento e, quanto às visitas, usam suas ausências como sansão por tudo que passaram com os filhos adolescentes. Em algumas situações é necessário usar o argumento da exigência do Poder Judiciário para que estas famílias iniciem as visitas. Muitas também começam as visitas somente após o programa de atendimento que realizou a internação do adolescente fornecer o transporte para levar e traze-los da CT, pois alegam não terem condições financeiras para pagar o transporte coletivo até a cidade onde está localizado a CT. Todos os adolescentes quando foram encaminhados para a internação já faziam uso de SPA há pelo menos três anos, embora em um dos casos estudados o grau de dependência era de um ano de uso abusivo de drogas. E, neste período, as principais SPA utilizadas foram tabaco, maconha, álcool e crack. Em razão desse multiuso de SPA, todos os diagnósticos realizados pela equipe de saúde caracterizaram-os como usuários de múltiplas drogas (CID 10 – F:19), incontinência familiar e ameaça de morte. Dos adolescentes estudados, todos haviam envolvimento com o ato infracional e passagem por delegacias ou Unidades de Internação Provisória – UIP da Fundação Casa, por roubos dentro da própria casa, furtos de celular e bolsas de transeuntes, tráfico, roubos em supermercados, entre outros. Quando esses adolescentes chegaram à internação, o seu estado psicoemocional estava confuso, perturbado e com instabilidade emocional extrema. Para estabelecer uma relação de vínculo de atendimento socioeducativo foi necessário de um a dois meses e, após um vínculo pré-estabelecido, é que realmente iniciam-se as abordagens de intervenções. Porém, isso não significa obtenção de sucesso no tratamento, apenas uma figura de confiança que o adolescente sabe que pode contar e não vai prejudicá-lo. No trabalho com esses adolescentes há indicativos de que o TDAH e o uso de SPA apresentam estreita relação. O adolescente que apresentou estes dois transtornos com laudo médico era o com menos idade e iniciou o uso de drogas por volta dos 11 anos e foi o que
  • 13. 12 apresentou maior comprometimento com o uso de drogas, e foi o mais resistente à intervenção terapêutica. E só teve maior aderência na frequência ao tratamento quando submetidos ao cumprimento de medida sócioeducativa em privação de liberdade3 , porém, o trabalho junto ao adolescente era especifico a dependência química e não ao TDAH que permaneciam sem ser observada. A maioria desses adolescentes não têm diagnósticos médico de TDAH, mesmo sendo encaminhados ao respectivo setor da rede publica. Na primeira entrevista realizada, houve comprometimento nos dados coletados pelo motivo de que os adolescentes ainda estavam intoxicados pelo uso das SPA. Por não possuírem vinculo com o entrevistador, polo fato de já terem passado por vários programas de atendimento e entrevista, observou-se certas frases chaves que repetiam-se e não possuíam coerência com sua realidade. Somente após alguns meses quando o adolescente já se encontrava desintoxicado e seguro, foi possível que ele se colocasse como um sujeito com possibilidades sociais de trabalho, estudo e mudança de vida, no entanto, dos três adolescentes estudados, nenhum obteve esse resultado, até o momento. Os três adolescentes se evadiram da CT. Um encontra-se novamente nas ruas do centro da cidade onde mora, passou por diversas internações no CAPSi AD III, contido quimicamente; o segundo encontra-se em cumprimento de medida socioeducativa em privação de liberdade e o terceiro encontra-se novamente internado em CT, agora para adultos. 2. DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM Crianças que mostram um atraso na aprendizagem da fala, não desenvolvem percepção visual ou auditiva normal ou apresentam dificuldades para aprender a ler, soletrar, escrever ou calcular. Essas dificuldades não caracterizam deficiência mental, mas apresentam uma diferença entre a capacidade e, por isso, são crianças que requerem uma educação específica para o seu desenvolvimento (KIRK E GALLAGHER, 1996). Uma comissão conjunta da American Speech - Language Hearing Association (Associação Americana da Fala, Linguagem e Audição), apresenta uma definição sobre o 3 O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Artigo 121, condiciona três princípios básicos para a aplicação da medida de privação de liberdade: o da brevidade, isto é, a medida deve perdurar somente o tempo necessário para a readequação do adolescente; o da excepcionalidade que contém em seu bojo a premissa de que deve ser a última medida aplicada (quando houve ineficácia das outras); e o do respeito à condição peculiar da pessoa em desenvolvimento, ou seja, deve garantir condições gerais para o desenvolvimento.
  • 14. 13 Distúrbio de Aprendizagem, que implica em um termo genérico, referente a um grupo heterogêneo de distúrbios, que se manifestam por dificuldades significativas na aquisição e no emprego das capacidades para ouvir, falar, ler, escrever, racionalizar ou calcular. Esses distúrbios são inerentes ao indivíduo e presumivelmente se devem a disfunção do sistema nervoso central. Embora um distúrbio de aprendizagem possa ocorrer concomitantemente a outras condições deficientes como: deficiência sensorial e menta, distúrbio social e emocional, influências ambientais, diferenças culturais: instruções insuficiente/inadequada e fatores psicogenéticos, ele não resulta, diretamente dessas condições ou influências (KIRK E GALLAGHER, 1996). Podemos perceber que as dificuldades de aprendizagem podem estar ligadas as questões orgânicas, como, por exemplo, disfunção neurológica, ou mesmo herança genética. Uma das dificuldades de aprendizagem é manifestada pela TDAH, pois, antes de tudo, é um transtorno que afeta o comportamento (GUARDIOLA, 2006). Rohde e Halpern (2004) colocam que o TDAH na infância em geral se associa às dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. São as crianças habitualmente rotuladas como: “avoadas”; “vivendo no mundo da lua”, estabanadas, “bicho carpinteiro” ou, como atualmente chamamos: “ligado nos 220”. Observa-se que os meninos tendem a apresentar mais sintomas de hiperatividade ou impulsividade e quando não tratado de forma adequada, há uma tendência a apresentar outras co-morbidades como de Conduta ou de Opositor Desafiante. As meninas, por sua vez, apresentam mais déficit de desatenção, portanto, não demonstram incômodos na escola, na família e nem socialmente, como os meninos. A atenção é uma atividade mental complexa que pode ser definida como a capacidade de o indivíduo manter uma focalização em uma parte do estímulo do ambiente, em detrimento das outras fontes de estimulação. As crianças apresentam dificuldades em manter atentas em atividades consideradas enfadonhas, repetitivas ou que exigem elevados níveis de atenção (Lopes, 2004). A criança que tem dificuldade de prestar atenção aos detalhes é pouco meticulosa e comete frequentemente erros durante a realização de trabalhos escolares ou outras atividades e facilmente interrompem as tarefas que estão fazendo para dar atenção a outros estímulos. As tarefas escolares são consideradas muito desagradáveis para estas crianças, não conseguindo terminá-las. Os materiais escolares, como lápis, borracha, caneta, são frequentemente espalhados, danificados ou perdidos. As crianças esquecem-se frequentemente de assuntos importantes, como os deveres da escola ou encontros marcados (APA, 1994).
  • 15. 14 Chiolas (2010) citando ideias de Barkley de 2002, explica que o Déficit de Atenção pode afetar, de forma diferente entre outros fatores, os diversos aspectos envolvidos no funcionamento da atenção e nas tarefas nas quais ela é necessária, como no planejamento, na organização e no controle dos estímulos. Por exemplo: uma pessoa começa a ler um livro e na metade da página não consegue lembrar o que acabou de ler; numa conversa é capaz de perder o foco da narrativa; o aluno comete erros tolos nas provas em matérias que ele domina porque no momento da prova sua atenção cai. O portador de DDA tem dificuldades em se concentrar e prestar atenção de forma consistente. Apesar de existir controvérsias em relação aos fatores de influência da manutenção da atenção, a maior parte dos autores consideram que a diminuição da atenção está relacionada ao fato da atividade não ser suficientemente atraente ou não possuir uma recompensa imediata. A criança portadora de Hiperatividade apresenta, ainda, uma superexcitação e atividade excessiva, tende a ser agitada, ativa e é facilmente levada a uma emoção excessiva. Sua reação emocional é mais intensa e mais frequente, e isso ocorre independentemente do tipo de emoção que esteja sendo expressa: raiva, frustração, felicidade ou tristeza. Ela tem dificuldade de controlar o corpo em situação de postura sentada e em silêncio por um longo período de tempo. Still (1992, cit. por Lopes, 2004; Toro, 1998) descreveu um conjunto de crianças que apresentavam um excesso de atividade motora e um escasso controle de impulsos. Still defendeu que a doença tinha uma origem orgânica e identificou características comuns entre crianças hiperativas: cabeça demasiado grande, malformação no palato e vulnerabilidade as infecções. Para os professores, uma criança com hiperatividade na escola, é descrita como: ela provoca os colegas, fala muito, levanta da carteira a todo instante, bate com os pés, mexe as mãos, revira-se todo o tempo: parece elétrica ou movida a motor. Nos adolescentes e adultos hiperativos, muitas vezes o que predomina é uma sensação interna de inquietação: ou estão sempre se ocupando com alguma atividade ou com várias ao mesmo tempo e as vezes não conseguem completá-las. O portador de Impulsividade ou fracasso na inibição de comportamentos (Lopes, 2004), tem dificuldade de pensar antes de agir e de seguir regras. Na maioria das vezes, ele conhece e entende as regras, mas sua necessidade de agir rapidamente contém sua reduzida capacidade de autocontrole. Isso resulta em um comportamento inadequado e irrefletido. No TDAH, as reações tendem a ser imediatas e sem reflexão: costuma-se dar uma resposta sem escutar a pergunta por inteiro; é impaciente e tem dificuldade de esperar. Em consequência da impulsividade, o portador tende a ser impopular por romper regras que não foram bem assimiladas ou por não conseguir mantê-las. As manifestações comportamentais geralmente
  • 16. 15 aparecem em múltiplos contextos: em casa, na escola ou em situações sociais. A impulsividade pode também levar a acidentes, por exemplo, não olhar por onde anda, tropeças em objetos, colidir com pessoas, e pode, inclusive, envolver-se em atividades perigosas sem consideração quanto às possíveis consequências, por não pensar antes de agir. A impressão que estas crianças deixam é que são irresponsáveis, mal-educadas, imaturas e difíceis de aturar (LOPES, 2004). Para Toro (2008), todos esses distúrbios acima de certa forma vão contribuir para o fracasso escolar, social e familiar. A prevalência do TDAH é alta e corresponde às manifestações comportamentais diversas. Riesgo (2006) estudou as principais co-morbidades psiquiátricas das crianças TDAH que são:  Abuso de Substâncias  Enurese Noturna  Epilepsia  Tiques  Transtorno de Ansiedade  Transtorno de Aprendizagem  Transtorno de Conduta – TC  Transtorno de Humor  Transtorno de Linguagem  Transtorno de Oposição e Desafiante - TOD Segundo o referido autor tais co-morbidades ocorrem em um contexto no qual a criança tem dificuldades de aprendizagem enfatizando a necessidade de tratamento com psicofármacos e psicológico, após avaliação realizada por multiprofissionais. Crianças com TDAH podem apresentar dificuldades de aprendizagem em 19 a 26% dos casos. Entre estas observam-se transtornos específicos, como dislexia, disgrafia e discalculia, sendo a dislexia a co-morbidade mais frequente. Em muitos casos, os transtornos da linguagem estão presentes, seja por distúrbios da fala (como dificuldades articulatórias, alterações do ritmo da fala e da qualidade da vocalização), mas também por distúrbio da linguagem tanto na percepção como na elaboração (como falhas no acesso lexical, dificuldades de estruturação sintático-semânticas e falhas no processamento da informação). Sabe-se que, com o tempo, outras co-morbidades costumam se associar ao TDAH, aumentando assim a ocorrência de co-morbidades psiquiátricas. Segundo Searight et al (2000),
  • 17. 16 as co-morbidades mais frequentes são: transtorno de humor (19 a 37%), transtorno de ansiedade (25 a 50%), abuso de álcool (32 a 53%), outros abusos de substâncias – maconha e cocaína (8 a 32%) e transtorno de personalidade (10 a 20%). Estas pesquisas mostram uma alta prevalência de co-morbidades entre TADH e os transtornos disruptivos de conduta e de oposição desafiante em torno de 30 a 50%. Bierderman et al (1995), em um estudo realizado com adultos com TDAH diagnosticados na infância, verificaram que aproximadamente 40% dos pacientes apresentaram, abuso ou dependência por SPA durante a vida. Conclui-se que independente das outras co- morbidades psiquiátricas, o risco de abuso de SPA ainda é maior em pacientes TDAH. O transtorno de atenção ocorrendo no cérebro apresenta várias interfaces de estudo como a neurociência, a saúde mental e a educação. 3. USO INDEVIDO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS As questões relativas ao abuso de álcool e outras drogas são consideradas, atualmente, um grave problema de saúde pública. O tratamento de adolescente destaca-se como um dos grandes desafios, dada à alta prevalência de uso, que vem ocorrendo cada vez mais precocemente (Guimarães, Godinho, Cruz, Kappann, & Tosta Junior, 2004; Prata e Santos, 2007; Toscano, 2001), associado a altos índices de abandono e baixo sucesso terapêutico (Kaminer & Szobot, 2004). A presença de TDAH dobra o risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de substâncias ao longo da vida, e ambos os transtornos influenciam-se mutuamente, o que traz implicações para o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento de ambos os transtorno. A maconha é a droga ilícita com maior frequência de abuso entre portadores de TDAH. Adultos jovens portadores de TDAH relatam um efeito calmante proporcionado pela maconha, reduzindo sua inquietação interna. Este efeito reforça a hipótese da automedicação dos sintomas de TDAH como um fator de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de drogas (Romano, 2005). Outro contraponto referido é a realidade no âmbito escolar desses adolescentes: o fracasso e a falta de vínculos no ambiente escolar (uns dos fatores de risco externo) e a própria predisposição biológica (um dos fatores de risco interno) ao uso de SPA, incita o experimento de novas sensações e prazeres.
  • 18. 17 O efeito do uso abusivo de SPA no cérebro é o Prazer, o que os cientistas chamam, de força biológica poderosa para a nossa sobrevivência. Se fizermos algo prazeroso, isso é registrado de tal modo que se tende a ser feito novamente. As áreas de recompensa do cérebro correspondem às áreas relacionadas à fome, à sede e ao sexo. Para a OMS – Organização Mundial de Saúde – droga é qualquer substância que, não sendo produzida pelo organismo, tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas, produzindo alterações em seu funcionamento. A terminologia Droga refere-se para substâncias psicotrópicas ou psicoativas, que afetam os processos mentais (pensamento, memória e percepção). Existem as substâncias psicoativas lícitas, que são aquelas comercializadas de forma legal, podendo ou não estar submetidos a algum tipo de restrição. Como por exemplo: o álcool (venda proibida para menores de 18 anos) e alguns medicamentos que só podem ser adquiridos por meio de prescrição médica especial. As substâncias ilícitas são aquelas que são consideradas, pela nossa legislação, como de venda ou uso ilegais. (SENAD, 2006). As necessidades fisiológicas, como comer, ativam um circuito de células nervosas especializadas dedicadas a produzir e regular o prazer. Um aspecto importante destas células nervosas é o fato de usarem um neurotransmissor químico chamado dopamina, situado no topo do tronco cerebral na área de tegmental ventral. Esses neurônios contêm dopamina e retransmitem mensagem de prazer através de suas fibras nervosas para células nervosas numa estrutura do sistema límbico chamado de núcleo achumbes, enquanto que outras fibras alcançam uma parte relacionada da região frontal do córtex cerebral. Assim, o circuito do prazer, que é conhecido como o sistema mesolímbico, espalma a sobrevivência orientada do tronco cerebral, do sistema límbico emocional e do córtex cerebral fronteiriço. Portanto, todas as drogas aditivas são ativadas no cérebro no circuito do prazer. A adição de drogas é um processo biológico e patológico que altera o funcionamento do centro do prazer, como também outras partes das funções do cérebro. Quase todas as drogas que alteram o modo de trabalho do cérebro afetam a química da neurotransmissão. Por exemplo:  Heroína, Álcool, Barbitúricos, Benzodiazepínicos, Solventes ou Inalantes: imitam os efeitos de um neurotransmissor natural. É uma droga considerada depressora, pois causa diminuição da atividade global ou de certos sistemas específicos do sistema nervoso central, que tende a causar uma diminuição da atividade motora, reatividade à dor e à ansiedade e é comum um efeito euforizante inicial e, posteriormente, aumento de sonolência;
  • 19. 18  Maconha, LSD, Alucinógenos, Anticolinérgicos, PCP e Ecstasy – bloqueiam os receptores e assim impedem o término das mensagens dos neurônios. É uma droga considerada perturbadora, pois provoca alterações no funcionamento cerebral, que resultam em vários fenômenos psíquicos anormais, entre os quais os delírios e as alucinações;  Cocaína, Anfetaminas, Metanfetaminas: interferem nas moléculas que são responsáveis para transportar neurotransmissores que liberam os neurônios. É uma droga considerada estimulante, pois aumenta a atividade de determinados sistemas neuronais, o que traz como consequências um estado de alerta exagerado, insônia e aceleração dos processos psíquicos;  Outras Drogas: Tabaco, Cafeína e Esteróides anabolizantes: Essas drogas não possibilitam uma classificação em uma única categoria (depressoras, estimulantes ou perturbadoras do SNC – Sistema Nervoso Central). Além de causarem dependência física aguda ou crônica, caracterizada por ansiedade, psicomotora, distúrbio do sono e alterações do humor. Mesmo assim, são consideradas drogas lícitas, ou seja, comercializadas legalmente. A lista de substâncias psicoativas consideradas pela CID-10, no capítulo V – Transtornos Mentais e de Comportamento, inclui: Álcool; opióides (morfina, heroína, codeína, diversas substâncias sintéticas); canabinóides (maconha); sedativos ou hipnóticos (barbitúricos e benzodiazepínicos); cocaína; alucinógenos; tabaco; solventes voláteis; e outros estimulantes (como anfetaminas e substâncias relacionadas à cafeína). O uso de SPA altera o estado mental, afeta diretamente a cognição, a capacidade de julgamento, o humor e as relações interpessoais; áreas que, frequentemente, já estão comprometidas, mesmo na adolescência normal (MILLER et. al, 1992). O uso de SPA altera as percepções, os sentimentos ou o comportamento e é comum na fase inicial da adolescência: estudos desenvolvidos em todo o mundo indicam que 50% a 80% das crianças em idade escolar usam drogas licitas ou ilícitas com propósitos recreacionais (SCIVOLETTO E GIUSTI 2005). Segundo Macedo (2008), o portador de TDAH sofre repercussão muito séria em sua vida caso não tenha seu transtorno diagnosticado e tratado, porque, desde a infância, o portador enfrenta rótulos negativos que atingem até sua desqualificação pessoal. O portador poderá ainda ter reflexos negativos na convivência familiar e conjugal, na vida afetiva, na escolha da profissão e no trabalho. E há casos, por envolvimento em situação de risco, como a dependência química
  • 20. 19 que apresentam práticas de violência física, transtornos de humor, ansiedade e transtorno de personalidade antissocial. Diante dos estudos dos diversos autores, constatou-se haver uma relação entre aqueles que apresentam elevado uso de SPA com os TDAH, conforme dados relatados nas entrevistas. Os adolescentes usuários, além de tratamento medicamentoso, se beneficiam de intervenções de natureza sócioeducativa. Pela escala de uso de SPA, os adolescentes verbalizam como sendo a maconha a primeira substância utilizada, depois o tabaco, posteriormente experimenta o álcool, cola de sapateiro e cocaína, porém, não se fixaram a estas substâncias, mas sim ao uso do crack, por ser uma droga de valor acessível e efeito instantâneo após o uso. No entanto, como a duração de efeito dura por volta de cinco minutos, o usuário passa a consumi-la com maior frequência, levando-o à dependência química mais rapidamente que as outras SPA. 4. INTERVENÇÕES PSICOPEDAGÓGICAS Quando esses adolescentes entraram em contato com a aprendizagem e perceberam que não havia sintonia neste processo, não conseguiram suportar e desencadearam níveis elevados de estresse de ordem biopsicossocial. Muitas vezes esses sintomas foram negligenciados, tanto pelos pais como pelos professores, que banalizaram como falta de interesse, indisciplina, desajustamento, entre outros. Afirma Macedo (2008) que o TDAH é uma questão séria. Se não tratado de maneira adequada, pode ter efeitos duradouros na vida do paciente com várias repercussões [...]. Sem tratamento, os sintomas de TDAH podem afetar o desempenho escolar, limitar a qualificação ocupacional e aumentar o risco de abusos e dependência de drogas e de álcool. Pela vicissitude da organização familiar e do próprio adolescente em lidar com esta realidade, sua resistência às tensões da vida são minimizadas, impondo um compasso em experiências estressantes no inicio do seu desenvolvimento psicossocial e ocorrências de problemas emocionais e comportamentais no transcorrer da sua vida, desencadeando uma vida social desorganizada. Estudos realizados por Souza e Oliveira (2005), quanto à escolaridade e repetência de um grupo de adolescentes usuários e não usuários, constatou-se um prejuízo acadêmico significativo entre estes dois grupos - no primeiro, registrou-se um percentual de 93,3% contra
  • 21. 20 73,3% de repetência do segundo grupo - desenhando um cenário social e econômico que permite poucas condições de educação em classes menos favorecidas, ou ainda, em que as práticas pedagógicas costumam ser pouco adaptadas às necessidades individuais do sujeito. Ainda os mesmos autores apontam um dado importante em um estudo realizado sobre Simkin (2002), que tratou sobre os fatores de proteção contra o uso de drogas e relatou que o tratamento precoce do TDAH reduz em 85% o envolvimento com drogas. Quando o adolescente é encaminhado para tratamento em CT por uso abusivo de SPA, é necessário um olhar sensível e uma escuta polida para um atendimento multiprofissional. O psicopedagogo contribuirá com abordagens de ressignificações de valores do adolescente, na compreensão e no enfrentamento da dependência química, bem como nas consequências da mesma. Posteriormente, na intervenção na área da autovalorização e elevação da autoestima, do estabelecimento de um projeto de vida e encaminhamento para (re)iniciação acadêmica, profissional e estímulo à autonomia e independência, incentivando o resgate de sua identidade e proporcionando uma vida com qualidade. Para um trabalho efetivo com adolescentes é necessária uma gama de atividades diferenciadas e atrativas, principalmente para os adolescentes com históricos de TDAH. De acordo com as dificuldades, é fundamental a adaptação de algumas atividades, o que envolve a observação do comportamento do adolescente antes da aplicação de qualquer atividade ou técnica. Além da anamnese, continuamente são feitas entrevistas avaliativas da evolução do tratamento, observações e aplicações de técnicas psicopedagógicas, como provas projetivas, sessões lúdicas, diagnósticos operatórios e dinâmicos. Por se tratar de um adolescente com queixa de uso abusivo de SPA e com uma hipótese de dificuldades de aprendizagem, nos deparamos com um indivíduo em grande sofrimento. Pelo fato de suas dificuldades de aprendizagem não terem sido sanadas anteriormente, elas se arrastam até o momento em que o adolescente foi encaminhado para tratamento terapêutico por uso de SPA e, que de certa forma, são manifestadas em sua rotina na CT. As intervenções psicopedagógicas terão que abrir um leque de possibilidades aquém das suas funções, pois surtirão intervenções que abrangerá duas áreas do conhecimento: tanto da saúde como da educação. As intervenções devem ser trabalhadas paralelamente com os pais e o conhecimento do adolescente, para que ele se sinta confiante e seguro nas orientações e encaminhamentos.
  • 22. 21 Os encontros devem ser agendados com regularidade, de modo a acompanhar a participação dos pais nas orientações dadas, e corrigir suas possíveis falhas; ainda é possível nos contínuos acompanhamentos dar novos redirecionamentos de acordo com a rotina e as respostas do adolescente às intervenções. Faz parte dos encontros esclarecer dúvidas e lidar com as angustias e medos, tanto da família como do adolescente. Para alcançar os objetivos das intervenções é primordial uma articulação tripartite: adolescente, família e as intervenções psicopedagogia; pois se não houver o completo envolvimento destas três partes, o sucesso do tratamento estará comprometido. Quando um adolescente apresenta um histórico de uso abusivo de SPA, os pais, no momento da internação, encontram-se no cume da exaustão e estão impotentes perante o filho e seus sentimentos de amor e ódio são ambivalentes. Nesta hora, é importante uma atenção especial aos pais para que exteriorizem seus sentimentos e sintam que estão diante de um novo ponto de partida com o filho. A intervenção psicopedagógica, portanto, deve direcionar os atendimentos para as possibilidades possíveis e reais dos ideais da família. Após a alta terapêutica e sua saída do CT, o tratamento continua ambulatoriamente e em conjunto da família e posteriormente com a escola. As intervenções psicopedagógicas devem alcançar e sensibilizar esses corresponsáveis pelo atendimento, para juntos contribuírem para o não agravamento da queixa apresentada e estabelecer medidas de manutenção no tratamento, visando o não aparecimento de outras co-morbidades psiquiátricas. O trabalho psicopedagógico deve estar acompanhado de outros tratamentos, como avaliação neuropsicológica, reabilitação cognitiva, medicamentoso, terapia ocupacional, atendimento psicoterapêutico individual e grupal, psiquiátrico, atendimento familiar individual e grupal, acompanhante terapêutico e de ressocialização4 de tal sorte que as abordagens terapêuticas se completem. Segundo Rotta (2006) é preciso que sejam considerados os seguintes itens: a) modificações de comportamentos; b) ajustamento acadêmico; c) psicoterapia e d) terapia farmacológica. 4 A ressocialização implica, depois de três meses de internação, a saída do interno para a casa da família em um final de semana por mês, para que seja observado seu comportamento frente a sua realidade fora da CT.
  • 23. 22 No que tange ao ajustamento acadêmico, dadas as diferentes dificuldades, a intervenção psicopedagógica precisa ser especificamente planejada para cada adolescente ou criança.
  • 24. 23 5. CONCLUSÃO O atendimento psicopedagógico implica em uma mobilização na criação de condições para a aprendizagem bem sucedida das crianças5 e adolescentes internos na CT. Conclui-se que o abuso de SPA de parte dos adolescentes internos na CT esteja associado ao TDAH, que reforça a busca pelas drogas. Os adolescentes sob o efeito de tais substâncias podem estar se refugiando ou fugindo de uma realidade de vida de difícil adequação. Os transtornos associados ao TDAH, como as co-morbidades que foram mencionadas anteriormente, podem ser razões e não causas do abuso de SPA. Portanto, é importante a realização do diagnóstico multiprofissional do TDAH dos casos encaminhados às CTs para que os adolescentes possam ser assistidos diretamente em suas dificuldades, o que o auxiliaria em sua recuperação primeiramente, para que em segundo lugar as intervenções do tratamento sejam direcionadas às perdas cognitivas pelo uso SPA. Essa situação, no entanto, é um ideal, pois verificou-se na CT pesquisada, que o foco no tratamento dos adolescentes observados era somente o uso de SPA, negligenciando, assim a doença de base, que é o TDAH, o que torna o tratamento incompleto e ineficaz. O TDAH e o uso de SPA são duas variáveis que ao mesmo tempo é a produção de uma história social. Imaginando um cenário, visualiza-se o autor dessa história social que, no primeiro ato é uma criança com TDAH e depois um adolescente usuário de SPA, que precisa internalizar responsabilidades que garantem sua participação produtiva na coletividade. Por isso, considerando uma educação deficiente na fase infantil destes adolescentes, é preciso um trabalho de prevenção através do desenvolvimento de projetos para o futuro destas novas gerações, já na fase da pré-adolescência, evitando assim desperdícios de vidas. A escola, os professores, a família, o casal e todo o ambiente social devem ser orientados e direcionados para se adequarem ao apoio do tratamento do adolescente para a obtenção dos resultados esperados. Ou seja, é necessária a integração de todos estes elementos para a eficacidade da recuperação do adolescente que precisa enfrentar grandes desafios para sua reintegração psicossocial. Os portadores de TDAH necessitam de tratamento multidisciplinar para obter melhores resultados (neurológico, psicológico e educacional). Como mencionado, é preciso ter um olhar sistêmico para estas crianças e familiares, que devem ser fortalecidos nesses cuidados 5 Em algumas CTs, são aceitos internos com histórico de uso de SPA a partir de 11 anos de idade, o que é considerado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, criança; mas isso não é o padrão em todas as CT.
  • 25. 24 específicos e estimulados ao conhecimento cientifico sobre o transtorno que seus filhos sofrem, através de divulgação de palestras, literaturas e grupos de apoio. Também é preciso ajudá-los na administração da manutenção dos cuidados pessoal e educacional do filho portador. A psicopedagogia clínica e institucional precisam estar preparadas para uma abordagem que propicie condições para o desenvolvimento da autoestima e do senso critico e da responsabilidade do educando sobre sua realidade e necessidades psicossociais, promovendo a redução do abuso de SPA e qualidade de vida. Rosa (2009) afirma que a ação do psicopedagogo se estende da criança ao mundo que a entorna, e as contribuições teóricas devem se somar para se possa melhor visualizar sua realidade. Ele precisa contar com diferentes modelos teóricos como base; a interação desses modelos permitirá uma dinâmica de trabalho que oferecerá o suporte e o parâmetro para uma práxis efetiva. Contudo esta pesquisa incite novos estudos, não só, para orientação das famílias sobre os cuidados necessários a uma criança que sofre de TDAH, mas também as politicas públicas quanto às ações para o sistema educacional, saúde mental e as CTs, que despreparadas aos cuidados destas crianças, as abdicam por ausência de estratégias, instrumentalização, conhecimento em lidar com este público. Assim, sem continência familiar e educacional, acabam ficando a própria sorte se refugiando nas ruas e no consequente uso e abuso de SPA e suas repercussões. Visualiza-se assim um quadro real que não tem tido a atenção devida do sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente, causando uma demanda de dependentes químicos que poderia ser prevenida ainda na infância se o diagnóstico de TDAH fosse realizado prematuramente.
  • 26. 25 REFERÊNCIAS Pesquisa Scielo – Nov 2011. http://www.scielo.br AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (2002). DSM-IV, Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4ª ed. texto revisado). Washingon, DC: APA. BARKLEY, R.A. Transtorno de Déficit de Atenção-hiperatividade. TDHA. Porto Alegre: Artmed, 2002. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília: Ministério da Justiça, Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, 2000. CONSELHO REGINAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO/ASSOCIAÇÃO MEDICA BRASILEIRA. Usuários de substâncias psicoativas: abordagem, diagnósticos e tratamento. Coord. Ronaldo Laranjeira et al. 2. Ed. São Paulo. 2003. CYPEL, Saul. Criança com Déficit de Atenção e Hiperatividade: Atualização para pais, professores e profissionais da saúde. S.Paulo: Lemos, 2000. GIUSTI, J.S. Adolescentes usuários de drogas que buscam tratamento: as diferenças entre os gêneros. São Paulo, 2004, 204p. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo. GUARDIOLA, ANA., Transtornos da Atenção: Aspectos Neurobiológicos, in ROTTA, NEWRA T., OHLWEILER, LYGIA E RIESGO, RUDIMAR DOS S., Transtornos de Aprendizagem – Abordagem Neurobiológica e Multidisciplinar., Porto Alegre: Artmed, 2006. KIRK, Samuel A.; GALLAGHER James J. Educação da Criança Excepcional. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996; 319-403. MACEDO, Rosa Maria S. Terapia Familiar: no Brasil na última Década. (pp.333-339). 1ª Ed. São Paulo: Roca, 2008. MATTOS, P. (2003). No mundo da lua: Perguntas e respostas sobre transtorno do déficit de atenção com hiperatividade em crianças, adolescentes e adultos. São Paulo, SP: Lemos Editorial. OBID – Observatório Brasileira de Informação sobre Droga – Portal: www.obid.senad.gov.br. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrição clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. PSIC – Revista de Psicologia da Vetor Editora. Afetividade e Dificuldades de Aprendizagem: uma abordagem psicoeducacional. nº 8, nº 1 , p. 113-114, Jan./Jun. 2007.
  • 27. 26 RIESGO, RUDIMAR DOS SANTOS., Transtornos da Atenção: Co-morbidades., in ROTTA, NEWRA T., OHLWEILER, LYGIA E RIESGO, RUDIMAR DOS S., Transtornos de Aprendizagem – Abordagem Neurobiológica e Multidisciplinar., Porto Alegre: Artmed, 2006. ROSA, Ivete Pellegrino. Psicopedagogia Clínica: um modelo de diagnóstico das dificuldades de aprendizagem. São Paulo: Porto de Ideias, 2009. ROTTA, NEWRA T., Transtorno de Atenção: Aspectos Clínicos., in ROTTA, NEWRA T., OHLWEILER, LYGIA E RIESGO, RUDIMAR DOS S., Transtornos de Aprendizagem – Abordagem Neurobiológica e Multidisciplinar., Porto Alegre: Artmed, 2006. SCIVOLETTO, S. Tratamento Psiquiátrico Ambulatorial de Adolescentes Usuários de Drogas – característica sóciodemograficas, a progressão do consumo de substâncias psicoativas e fatores preditivos de aderência e evolução no tratamento. 127p. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, 1997. SENAD – Secretaria Nacional Antidrogas. Portal: <http://www.senad.gov.br> SOUZA, Cristiane Cauduro; OLIVEIRA, Margareth da Silva. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade em adolescentes usuários de drogas. Arquivos Brasileiros de Psquiatria, Neurologia e Medicina Legal. Vol. 99, nº 03; jul/ago/set 2005. SZOBOT, Claudia M.; ROMANO, Marcos. Co-ocorrências entre transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e uso de substâncias psicoativas. Artigo de Atualização. 2007. ________. Prevenção ao uso indevido de drogas: Curso de Capacitação para Conselheiros Municipais. Brasília: Presidência da Republica, Secretaria Nacional Antidrogas. Universidade Federal de Santa Catarina. 2008. WAJNSZTEJN, Alessandra B. C.; WAJNSZTEJN, Rubens. Dificuldades Escolares: um desafio superável – medicina/psicologia. 2ª Ed. São Paulo: Ártemis Editorial, 2009.