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São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio.As condições
políticas e sociais do país, má distribuição de renda, impunidade, corrupção e a fragilidade das
estruturas familiares são exemplos de problemas sociais que refletem na escola. Infelizmente,
os primeiros afetados pela “doença social” são nossas crianças: inocentes vítimas do mundo
globalizado. Como consequência, vemos cada vez mais o desinteresse dos alunos pelos
estudos, aumento dos casos de indisciplina queaumentam cada vez mais a preocupação dos
professores. Enfim, o conjunto de situações apresentadas exerce grande influência na
qualidade de vida e no trabalho do docente.
A educação básica na escola pública vai mal. As universidades reclamam, dizem que os alunos
que chegam as universidades tem informação, mas são incapazes de compreendê-las. De
quem será a culpa? Da escola? Dos educadores? Do Estado? Dos Jovens? O pensamento
racional pode concluir que a culpa não é dos jovens. Eles não nasceram prontos, se
desenvolvem à partir da configuração política e social do grupo em que vivem.
A indisciplina e a violência na escola é a reprodução da violência e da exclusão que ocorre na
sociedade. Além disso, as mudanças sociais e estruturais ocorridas no modelo familiarse
refletem na formação dos jovens. Atualmente os pais necessitam trabalhar, as crianças e
adolescentes tem ficado cada vez mais aos cuidados de terceiros ou sós, numa fase da vida tão
importante para a formação de valores pessoais e indispensáveis à boa convivência humana.
Sendo assim, muitas vezes a família perde sua função referencial.
Falta de interesse, brigas, xingamentos, depredação do patrimônio público, bullingsão
exemplos de ocorrências diárias no cotidiano das escolas. O professor, que antes tinha a
função de professar e mediar o conhecimento, hoje tem que arcar com responsabilidadesque
são alheias à sua profissão : tem que mediar conflitos, estar a par de problemas familiares que
impactam no rendimento dos alunos, resistir à tripudios e outras provocações que os afetam
(afinal, o professor é acima de tudo um ser humano, com sentimentos e opiniões) enfim,
perde parte do tempo tentando manter a ordem para que a sala de aula seja um ambiente
favorável à aprendizagem. E manter a ordem está cada vez mais difícil; os professores nem
sempre obtém êxito. Essas e outras situações são as principais causas geradoras de angústia,
insatisfação e medo. Aliadas à falta de reconhecimento da profissão, vemos cada vez mais
professores desestimulados ao exercício da profissão. Frases como: “os jovens de hoje não
tem limites”, “não querem saber de nada”, “não estudam”, “são apáticos”, “foi pra isso que
estudei tanto?” tornaram-se comuns. E hoje, as escolas públicas são muito mais vulneráveis a
esses problemas pelas suas características: plural, universalizada e composta por uma clientela
heterogênea quanto à condição econômica, social e cultural.
Os educadores trabalham em situações extremas de nervosismo, medo e angústia. Preparam
aulas maravilhosas e não conseguem colocar em prática. Não é possível produzir se o
ambiente e as condições não são favoráveis; o resultado é a baixa qualidade do ensino. A
maioria dos professores são conscientes de suas responsabilidades: transformar vidas, ajudar a
modificar a realidade caótica de muitas crianças e adolescentes, prepara-los para serem
cidadãos críticos, conscientes, ativos e com uma boa formação moral e ética . O paradoxo é
que eles são responsabilizados pelo fracasso escolar.
Jovens, educadores e pais são vitimas do modelo educacional político social e histórico.
“Computadores aos milhares sem professores prezados e estimulados são sucata virtual. Livros
didáticos sem mestres que os leiam e os interpretem com garra e entusiasmo são pilhas de
papéis destinados ao lixo do esquecimento.
As pessoas, quando respeitadas no seu ofício, produzem sentido e valor. Com ou sem as
coisas. Mas as coisas sem as pessoas são letra morta. Preferir coisas a pessoas não é realismo.
É apenas conforrnismo" (Alfredo Bosi)
O ser humano é social por natureza. Desde muito jovens vivemos em sociedade, fazemos
parte e formamos grupos com pessoas das mais diversificadas crenças, origens e
personalidades. Graças a esse convívio no decorrer de nossas vidas, vivemos situações
que nos constrangem ou enaltecem, sofremos desilusões, aprendemos com nossos erros
e acertos e, através de comparações, conseguimos construir a nossa personalidade e
interagir com o universo.
ELIAS destaca:
“É por intermédio das modificações comportamentais da área afetiva que a escola pode
contribuir para a fixação dos valores e dos ideais que a justificam como instituição social.”
(1996, p.99)
ELIAS, M. D. C. Pedagogia Freinet – Teoria e prática. São Paulo: Papirus, 2000.
Nesse sentido, a participação de professores, educadores, alunos, especialistas, pais e demais
pessoas envolvidas no processo educativo, seria o ponto de convergência das ações direcionadas
para a produção do conhecimento, tendo como referencial a realidade histórica, considerando
que as obras científicas e culturais desenvolvidas pelo homem ultrapassam os limites da
pedagogia, abrangendo o campo da economia, da política e das ciências sociais.
A questão da educação não poderá ser compreendida de maneira mecânica, desvinculada das
relações entre escola e realidade histórica, pois essa relação dialética será a busca e a aplicação
dos conhecimentos apreendidos sobre a realidade no sentido de transformá-la.
Diversas teorias sobre aprendizagem parecem concordar com a idéia de que a aprendizagem é
um processo de construção de relações, em que o aprendiz é um ser ativo na interação com o
mundo. Nesse caso, o processo de aprendizagem se daria em virtude do fazer e do refletir sobre
o fazer, sendo fundamental no professor o "saber" e o "saber fazer". Nesta perspectiva, o ensino
perde seu sentido tradicional, dando lugar à construção de idéias. Além disso, a função de um
professor que se propõe ser facilitador seria liberar a curiosidade, permitindo que os indivíduos
construam um campo de conhecimento que direcione seus próprios interesses, tirando o freio da
indagação para permitir o questionamento e a exploração, não sendo apenas um repassador do
conhecimento.
A pedagogia construtivista enfatiza que a realidade concreta das salas de aula permite perceber
como o trabalho do professor, no contexto social, determina qual o tipo de conhecimento vale
mais, para qual direção deveríamos voltar nossos desejos, o que significa saber alguma coisa e,
finalmente, como poderíamos formular representações de nós mesmos, dos outros e de nosso
ambiente social e cultural. É preciso, a um só tempo vivenciar essa interação em que alunos e
professores podem desvendar a política cultural que está por trás dessa pedagogia. É nesse
sentido que propor uma pedagogia construtivista é formular uma visão política que faça uma
reflexão da realidade do educando e da educação, ou seja, uma educação perfeita conforme as
palavras de Rubem Alves:
(ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar, 27 º ed. São Paulo: Cortez, 1993.)
“Educação perfeita, sem mestres e sem consciência”. Na verdade, educação alguma, porque o
conhecimento já nasce solidário com o corpo e faz com que o corpo faça o que tem de fazer.
Educação é o processo pelo qual aprendemos uma forma de humanidade. E ele é mediado pela
linguagem. “Aprender o mundo humano é aprender uma linguagem, porque os limites da minha
linguagem denotaram limites do meu mundo.” (ALVES, Rubem-conversas com quem gosta de
ensinar, 1993 p. 90).
Segundo a visão de Paulo Freire, a educação é uma forma de intervenção no mundo, onde
aprendemos ou reproduzimos o saber escolar ou cotidiano, além do conhecimento dos
conteúdos bem ou mal ensinados ou aprendidos, isso implica tanto o esforço de reprodução da
ideologia dominante quanto o seu desmascaramento.
Nesse sentido, a filosofia da educação contribui, para a reflexão educacional, sendo
imprescindível na formação docente, procurando mostrar que saber ensinar não é transferir
conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.
Uma das características fundamentais no processo pedagógico é o diálogo, pois a linguagem faz
parte dessa interação nas relações humanas. O que podemos problematizar é a qualidade deste
diálogo, sua função e a consciência que se tem de seu papel no cotidiano escolar, um espaço
inegavelmente interativo.
Essa relação nos permite concluir novos conceitos, ampliando de forma significativa nosso
conhecimento, através da relação entre os homens na construção do mundo.
Os diversos grupos e sociedades criam formas peculiares de viver e elaboram princípios e regras
que regulam seu comportamento. Esses princípios e regras específicos, em seu conjunto,
indicam direitos, obrigações e deveres. Não há valores em si, mas propriedades atribuídas à
realidade pelos seres humanos que a transforma continuamente. São atribuídos a esses valores
éticos significados que variam de acordo com necessidades, desejos, condições e circunstâncias
de vida.
Muitas são as instituições responsáveis pela educação moral dos indivíduos, a igreja, a família, a
política e o Estado. É preciso deixar claro que a escola não deve ser considerada onipotente,
única instituição social capaz de educar moralmente as novas gerações. Também não se pode
pensar que a escola garanta total sucesso em seu trabalho de formação. Valores e regras são
transmitidos pelos professores, pelos livros didáticos, pela organização institucional, pela forma
de avaliação, pelos comportamentos dos próprios alunos. Assim, em vez de deixá-las ocultas, é
melhor que tais questões recebam tratamento explícito, que sejam assuntos de reflexão da escola
como um todo, e não apenas de cada professor.
“Para o professor, a escola (...) é, também, lugar de construção de relações de autonomia, de
criação e recriação de seu próprio trabalho, de reconhecimento de si, que possibilita redefinir
sua relação com a instituição, com o Estado, com os alunos, suas famílias e comunidades.”
(BRASIL. MEC, 1998, p. 32).
Entretanto, os indivíduos se constituem como sujeitos convivendo simultaneamente com
sistemas de valores que podem ser convergentes, complementares ou conflitantes, dentro da
realidade social ao qual estão inseridos.
As influências que as instituições e os meios sociais exercem são fortes, mas não assumem o
caráter de uma predeterminação. A constituição de identidades, a construção da singularidade de
cada um, se dá na história pessoal, na relação com determinados meios sociais; configurando-se
como uma interação entre as pressões sociais e os desejos, necessidades e possibilidades
afetivo-cognitivas do sujeito vividas nos contextos socioeconômicos, culturais e políticos.
Portanto, todo conhecimento começa na busca incessante do desconhecido ou na curiosidade do
ser, é aí que evoluímos como seres pensantes, permeando esse conhecimento com a cultura e os
valores éticos, que são elementos imprescindíveis na escola e na ação educativa como um todo.
A primeira tarefa da educação é ensinar a ver…(rubem Alves -
É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo…
Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente.As palavras só têm sentido se nos
ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.
Exigimos sempre dos nossos alunos aquilo que nem sempre temos a capacidade de exigir de nós
mesmos, porque esquecemos que a mente inteligente aprende a esquecer aquilo que aprendeu;
ela guarda a vivência, a essência, a experiência. O aprendizado não colocado nos livros não se
escreve, mas é o que fica guardado para sempre. O que é importante reter na vida são as trocas e
as relações que estabelecemos entre as coisas, os fenômenos e as pessoas (BRANDÃO, 1997).
A criança e a sensibilidade
Os educadores da atualidade se deparam com uma nova geração de crianças que não se
contentamapenas com o conteúdo aplicado em sala de aula, são crianças que buscam algo mais,
algo que transcenda.
Atualmente, ouve-se falar muito sobre as práticas interdisciplinares na educação, trabalhando
todas as disciplinas englobadas num contexto a que se quer chegar. A transdisciplinaridade é
algo que vai além destas disciplinas, que ultrapassa a interdisciplinaridade, que requer algo mais
complexo, que é trabalhar a sensibilidade das crianças em torno da realidade em que se
encontram, para então alcançar o equilíbrio físico, emocional sobre o corpo, a mente. A
educação Transdisciplinar vem para preencher um vazio que existencial, acessando um mundo
interior nos indivíduos, como aborda Peres... et. al. (2007). Com esta educação, é possível
preparar as crianças não só para o conhecimento, mas também para um mundo novo, de
contextos sociais dos mais diversos. O novo olhar para a educação, a transdisciplinaridade,
requer a liberdade de espírito para transitar em todas as áreas da diversidade nas disciplinas da
vida.
CONCLUSÃO
Durante esta construção foi possível perceber e analisar a educação de vários pontos de vista,
compreendendo a prática transdisciplinar como necessária dentro do ambiente pedagógico, onde
o educando não apenas adquire os conhecimentos sobre determinada temática, mas também
incorpora este conhecimento em sua realidade. Esta ciência ultrapassa as barreiras existentes
entre as disciplinas, desfragmentando conceitos, tornando-os intrinsecamente ligados, na
formação do educando como sujeito. A prática transdisciplinar é a metodologia da
transformação, sendo preciso implantá-la nas escolas, como uma nova forma de ensinar os
valores humanos e científicos às crianças, criando nesses pequenos seres, uma consciência
acerca dos conhecimentos imprescindíveis para a formação do sujeito. Com estratégias de apoio
à prática transdisciplinar,conseguiram potencializar o que as crianças têm de mais legítimo e
específico: a sua imaginação criativa e o seu lado interior. As crianças pesquisadas relataram o
bem-estar que a prática trouxe a elas, ajudando a tranqüilizá-las para assim equilibrar suas
emoções e seus sentimentos, com isso auxiliando na busca da atenção, para a retomada dos
conteúdos em sala de aula. Desta forma, esta pesquisa de campo, com caráter participativo,
deixou clara a efetivação da prática realizada e a sua real contribuição. Assim, considera-se que
é interessante estimular os novos educadores a se apropriarem da mesma, para lidarem com seus
alunos.
(PERES, Annabel C. F. et. al. Trilhando caminhos da transdisciplinaridade: uma experiência de
ser-sendo. São Paulo: Laborciência, 2007.)
A evolução dos tempos e a necessidade da transformação do ser
Transdisciplinaridade: é preciso uma nova postura ante a realidade
Somos parte de uma sociedade que cada vez mais compartilha sua vida com coisas e máquinas,
que é refém de um consumismo desenfreado e visivelmente exposta à perda de valores éticos e
humanísticos. Nos dias de hoje, o exercício da cidadania acaba se reduzindo apenas à realização
de um trabalho profissional com o objetivo de “ganhar a vida”. Priorizando esse propósito,
segundo a economista Hazel Henderson (apud Capra, 1995, p. 193), “estamos glorificando
algumas de nossas predisposições humanas menos louváveis: cobiça material, competitividade,
orgulho, egoísmo e ganância pura e simples”.
Na atual sociedade midiática, a internet e os recursos tecnológicos possibilitam o acesso, a
produção e a veiculação das informações com velocidade espantosa, sem limites temporais ou
espaciais. Mais significativamente, do século XIX em diante, com o desenvolvimento dos
motores de combustão, a velocidade assumiu importância social e histórica no legado das
invenções humanas. O historiador Eric Hobsbawm (1995), analisando o século XX, declarou
que nos últimos cinquenta anos a humanidade viu inserir em seu convívio mais inovações do
que em todo o resto de sua história. Essa afirmação é assustadora.
Os processos de ensino com uso de computadores e ambientes virtuais de aprendizagem
sugerem transformações prementes no redimensionamento do papel da escola e do professor.
Com clareza, Drucker (1999) chama nossa atenção quando afirma que “a tecnologia será
importante, mas principalmente porque nos força a fazer coisas novas, e não porque irá permitir
que façamos melhor as coisas velhas” (p. 189).
As transformações em nossas vidas decorrentes do desenvolvimento tecnológico são
perceptíveis a cada dia, a todo momento. Mas não paramos muito para pensar que, enquanto
milhões de pessoas têm acesso à aquisição de um novo celular em substituição ao “velho”
porque este não toca MP3, milhões de pessoas sequer têm acesso a um pedaço de pão e morrem
por conta disso.
Um aspecto relevante e consequente da universalização do crescente desenvolvimento
tecnológico é o inevitável controle informacional das culturas dominantes sobre as nações
periféricas. A socialização das novas descobertas que contribuem para uma melhor qualidade de
vida vem acompanhada de uma inserção sociopolítica coerciva e impositiva para as populações
que lutam pela sua autonomia (Gouvêa, Oliveira, 2006).
Essa realidade se configura nos processos de exclusão que são de longa data. Mais de dois
bilhões de pessoas em nosso planeta não têm acesso ao conhecimento impresso, e só no nosso
país são mais de cinquenta milhões de analfabetos. Não ter acesso à educação básica é o cerne
da exclusão social porque limita a oportunidade emancipatória do indivíduo. Cabe à educação
fazer uso das tecnologias de comunicação e informação para dinamizar os processos
educacionais, encarando, segundo o Relatório Delors (1998), “os desafios das sociedades da
informaçãona perspectiva de um enriquecimento contínuo dos saberes e do exercício de uma
cidadania adaptada às exigências do nosso tempo” (p.68).
Considerar a evolução das tecnologias de informação e comunicação em uma dimensão
comunicacional merece uma conjunção com a dimensão psíquico-afetiva do indivíduo. O
professor José Manuel Moran (2005) aponta que quanto mais tecnologias avançadas mais a
educação precisa de pessoas humanas, competentes, evoluídas e éticas. Pierre Lévy (2000)
chama a atenção para a valorização das transformações de natureza qualitativa nos processos de
aprendizagem face às novas tecnologias de informação e comunicação, colocando-nos diante de
novos paradigmas para a aquisição de conhecimentos, constituição de saberes e formação de
competências básicas.
Segundo Carvalho (apud Morin, 2003, contracapa),
a educação do século XXI nos desafia a repensar os rumos que as instituições educacionais
terão que assumir se não quisermos sucumbir na inércia da fragmentação e da excessiva
disciplinarização, características dessas últimas décadas de mundialização neoliberal.
É preciso muito cuidado para não nos deparamos com a necessidade de inovações e vermos na
superação dos modelos vigentes a solução para todos os problemas. Severino Antônio (2002),
com propriedade, esclarece que
um pensamento mecanicista não pode ser superado de modo mecanicista. A complexidade da
passagem para um paradigma holístico e transdisciplinar é, ao mesmo tempo, muito profunda e
muito sutil. Algumas dimensões do mundo podem ser descritas e explicadas pela Física de
Galileu e Newton e pela análise cartesiana. Outras dimensões, especialmente do macro e do
microcosmos, que se abrem ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno, precisam de
outros princípios, outros conceitos. Há dimensões deterministas e há dimensões probabilistas na
natureza. Elas se interpenetram complexamente. Não se trata de abandonar completamente a
mecânica clássica nem o procedimento analítico. Trata-se de reconhecer seus limites, seu campo
de validade. Trata-se, principalmente, de superar o mecanicismo que dominou a mentalidade
científica dos séculos XVIII e XIX (p. 58).
O autor remete à reflexão e nos traz à memória fatos que exemplificam essa realidade. A
metáfora do “conhecimento como rede”, a “vida como teia” são modelos de que hoje dispomos
para valorizar e resgatar princípios humanos essenciais. De algum modo nós os perdemos, e a
certeza disso fica clara, por exemplo, no pequeno trecho da carta escrita, em 1854, há mais de
um século e meio, pelo chefe Seattle ao presidente Franklin Pierce, após o governo americano
ter dado a entender que desejava adquirir o território da tribo:
Nas palavras de Nicolescu, a concepção transdisciplinar tem como fundamentos a
complexidade, a lógica ternária e a multidimensionalidade do mundo.
A complexidade: por não reduzir o conhecimento ao método cartesiano, ao princípio analítico,
de dividir e dissociar, em busca do elemento e da relação mais simples. É preciso também
religar, contextualizar e recontextualizar. É preciso considerar as relações recíprocas entre as
partes e o todo. Assim, é preciso também transcender o esfacelamento dos saberes,
enclausurados em disciplinas isoladas.
Lógica ternária: porque transcende a lógica binária do isso ou aquilo, reconhecendo o isso e
aquilo, ou seja, o terceiro incluído.
Nesse ponto encontra-se com a lógica dialética, que reconhece que a árvore é e não é a semente
de que se originou, e que a semente é e não é a árvore em que se tornou.
Multidimensionalidade do mundo: a realidade tem muitas dimensões, diferentes níveis,
diferentes campos, com lógicas específicas. À realidade multidimensional corresponde o sujeito
multirreferencial, de diferentes intencionalidades (Antônio, 2002, p. 61-62).
É preciso cada vez mais olhar e viver o mundo em sua plenitude e sentir-se parte integrante de
um todo enredado com os seus múltiplos componentes.
Uma das maiores dificuldades que nós, professores, encontramos na concretização de um
projeto pedagógico é o momento de sair do plano da intenção (proposta) e colocá-lo no plano da
ação (prática). É comum vermos como justificativa para as dificuldades encontradas aquela que
faz referência apenas às questões estruturais e organizacionais. Mas o ser humano é, para além
de seu corpo/razão/sentimento, também espiritualidade, e todas essas dimensões integradas
passam pela subjetividade da relação professor/aluno constituída. Mais explicitamente, são
desconsideradas várias dificuldades: dificuldades em trabalhar com as diferenças pessoais,
dificuldades para implementar novas práticas, dificuldades com a falta de esperança,
dificuldades com o descaso dos alunos, dificuldades com a ruptura dos modelos vigentes,
dificuldades para lidar com o medo do fracasso etc. Além do mais, parafraseando Albert
Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.
Com a globalização, os nossos olhos, perplexos diante da possibilidade de ver cada vez mais
longe, estão deixando de olhar para dentro de nós mesmos, para o nosso interior, e o que
distingue o homem do animal é a consciência de si mesmo. Sob uma visão transdisciplinar, essa
“consciência de si mesmo” integra o espírito, o sagrado, o subjetivo, tudo o que mais nos
caracteriza como seres humanos.
Apesar de ainda trabalharmos com a especificidade disciplinar, todos os temas devem e podem
ser tratados em conformidade com as condições e interesses do momento, de forma gradativa e
permanente, por todas as disciplinas, em favor dos valores e das virtudes que apoiam os
princípios da dignidade, da justiça, da paz, enfim, da autonomia humana.
Hoje, é cada vez mais indissociável, no nosso planeta, o binômio condição humana/miséria
humana. Mais de 900 milhões de pessoas passam fome. Embora a educação sofra com os
limites impostos pelas condições políticas e sociais, ela ainda ocupa um espaço privilegiado na
vida das crianças, jovens e adultos que enfrentam toda a sorte de dificuldades para concluir seus
estudos. Embora saibamos que o diploma não mais garante um lugar no mercado de trabalho,
por causa de uma extremada competitividade, temos certeza de que sem ele não haverá luz no
final do túnel.
Para Fichmann (2003), o grande desafio está em desenvolver as ações, mantendo a visão, a
atitude e a prática transdisciplinar, criando pontes entre a teoria e a prática, a fim de que os
participantes do processo passem por transformações e rupturas cognitivas, perceptivas e
atitudinais.
Sob uma visão pragmática, a origem do saber é indubitavelmente transdisciplinar. E se
atentarmos para nós, pessoas humanas, não é difícil reconhecer a dimensão complementar – por
que não dizer transdisciplinar – existente na interação dinâmica dos dois hemisférios de nosso
cérebro.
Como aponta a socióloga Marilyn Ferguson, precisamos aprender a usar o nosso cérebro de
forma holística, inteira:
À medida que a cultura se torna mais complexa, a ciência mais abrangente, as opções mais
diversas, necessitamos de uma compreensão com todo o cérebro como nunca antes: o
hemisfério direito para inovar, sentir, imaginar, sonhar; o esquerdo para analisar, verificar,
elaborar e apoiar a nova ordem. Juntos, eles inventam o futuro (apud Tavares, 1993, p. 129).
Quando começamos a discutir teorias e assuntos do interesse de todos no mundo atual, a
analisar áreas do conhecimento nas quais focalizamos as nossas preocupações, sempre falamos
na educação.
É na escola que experimentamos a diversidade e aprendemos a contextualizar o conhecimento,
desenvolvendo competências que irão tornar-nos capazes de intervir na realidade para
transformá-la. É nesse microcosmo social que aprendemos que o exercício da cidadania é um
ato diário e que cabe ao homem tomar decisões diante das situações que comprometem a sua
sobrevivência e a sua qualidade de vida.
Uma educação transdisciplinar visa à inteireza do ser humano, amplia o ato cognitivo, promove
uma sabedoria que esclarece o indivíduo, tornando-o ciente de sua autonomia e sensibilidade
pela autoconsciência.
Referências
ALVES, Nilda; GARCIA, Regina Leite; GALLO, Sílvio; MORIN, Edgar e FERRAÇO, Carlos
Eduardo (orgs.). O sentido da escola. 3ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
ALVES, Rubem. Entre a ciência e a sapiência. O dilema da educação. 18ª ed. São Paulo:
Loyola, 2007.

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São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio

  • 1. São vários os problemas que se perpetuam e se intensificam nesse novo milênio.As condições políticas e sociais do país, má distribuição de renda, impunidade, corrupção e a fragilidade das estruturas familiares são exemplos de problemas sociais que refletem na escola. Infelizmente, os primeiros afetados pela “doença social” são nossas crianças: inocentes vítimas do mundo globalizado. Como consequência, vemos cada vez mais o desinteresse dos alunos pelos estudos, aumento dos casos de indisciplina queaumentam cada vez mais a preocupação dos professores. Enfim, o conjunto de situações apresentadas exerce grande influência na qualidade de vida e no trabalho do docente. A educação básica na escola pública vai mal. As universidades reclamam, dizem que os alunos que chegam as universidades tem informação, mas são incapazes de compreendê-las. De quem será a culpa? Da escola? Dos educadores? Do Estado? Dos Jovens? O pensamento racional pode concluir que a culpa não é dos jovens. Eles não nasceram prontos, se desenvolvem à partir da configuração política e social do grupo em que vivem. A indisciplina e a violência na escola é a reprodução da violência e da exclusão que ocorre na sociedade. Além disso, as mudanças sociais e estruturais ocorridas no modelo familiarse refletem na formação dos jovens. Atualmente os pais necessitam trabalhar, as crianças e adolescentes tem ficado cada vez mais aos cuidados de terceiros ou sós, numa fase da vida tão importante para a formação de valores pessoais e indispensáveis à boa convivência humana. Sendo assim, muitas vezes a família perde sua função referencial. Falta de interesse, brigas, xingamentos, depredação do patrimônio público, bullingsão exemplos de ocorrências diárias no cotidiano das escolas. O professor, que antes tinha a função de professar e mediar o conhecimento, hoje tem que arcar com responsabilidadesque são alheias à sua profissão : tem que mediar conflitos, estar a par de problemas familiares que impactam no rendimento dos alunos, resistir à tripudios e outras provocações que os afetam (afinal, o professor é acima de tudo um ser humano, com sentimentos e opiniões) enfim, perde parte do tempo tentando manter a ordem para que a sala de aula seja um ambiente favorável à aprendizagem. E manter a ordem está cada vez mais difícil; os professores nem sempre obtém êxito. Essas e outras situações são as principais causas geradoras de angústia, insatisfação e medo. Aliadas à falta de reconhecimento da profissão, vemos cada vez mais professores desestimulados ao exercício da profissão. Frases como: “os jovens de hoje não tem limites”, “não querem saber de nada”, “não estudam”, “são apáticos”, “foi pra isso que estudei tanto?” tornaram-se comuns. E hoje, as escolas públicas são muito mais vulneráveis a esses problemas pelas suas características: plural, universalizada e composta por uma clientela heterogênea quanto à condição econômica, social e cultural. Os educadores trabalham em situações extremas de nervosismo, medo e angústia. Preparam aulas maravilhosas e não conseguem colocar em prática. Não é possível produzir se o ambiente e as condições não são favoráveis; o resultado é a baixa qualidade do ensino. A maioria dos professores são conscientes de suas responsabilidades: transformar vidas, ajudar a modificar a realidade caótica de muitas crianças e adolescentes, prepara-los para serem cidadãos críticos, conscientes, ativos e com uma boa formação moral e ética . O paradoxo é que eles são responsabilizados pelo fracasso escolar. Jovens, educadores e pais são vitimas do modelo educacional político social e histórico. “Computadores aos milhares sem professores prezados e estimulados são sucata virtual. Livros didáticos sem mestres que os leiam e os interpretem com garra e entusiasmo são pilhas de papéis destinados ao lixo do esquecimento.
  • 2. As pessoas, quando respeitadas no seu ofício, produzem sentido e valor. Com ou sem as coisas. Mas as coisas sem as pessoas são letra morta. Preferir coisas a pessoas não é realismo. É apenas conforrnismo" (Alfredo Bosi) O ser humano é social por natureza. Desde muito jovens vivemos em sociedade, fazemos parte e formamos grupos com pessoas das mais diversificadas crenças, origens e personalidades. Graças a esse convívio no decorrer de nossas vidas, vivemos situações que nos constrangem ou enaltecem, sofremos desilusões, aprendemos com nossos erros e acertos e, através de comparações, conseguimos construir a nossa personalidade e interagir com o universo. ELIAS destaca: “É por intermédio das modificações comportamentais da área afetiva que a escola pode contribuir para a fixação dos valores e dos ideais que a justificam como instituição social.” (1996, p.99) ELIAS, M. D. C. Pedagogia Freinet – Teoria e prática. São Paulo: Papirus, 2000. Nesse sentido, a participação de professores, educadores, alunos, especialistas, pais e demais pessoas envolvidas no processo educativo, seria o ponto de convergência das ações direcionadas para a produção do conhecimento, tendo como referencial a realidade histórica, considerando que as obras científicas e culturais desenvolvidas pelo homem ultrapassam os limites da pedagogia, abrangendo o campo da economia, da política e das ciências sociais. A questão da educação não poderá ser compreendida de maneira mecânica, desvinculada das relações entre escola e realidade histórica, pois essa relação dialética será a busca e a aplicação dos conhecimentos apreendidos sobre a realidade no sentido de transformá-la. Diversas teorias sobre aprendizagem parecem concordar com a idéia de que a aprendizagem é um processo de construção de relações, em que o aprendiz é um ser ativo na interação com o mundo. Nesse caso, o processo de aprendizagem se daria em virtude do fazer e do refletir sobre o fazer, sendo fundamental no professor o "saber" e o "saber fazer". Nesta perspectiva, o ensino perde seu sentido tradicional, dando lugar à construção de idéias. Além disso, a função de um professor que se propõe ser facilitador seria liberar a curiosidade, permitindo que os indivíduos construam um campo de conhecimento que direcione seus próprios interesses, tirando o freio da indagação para permitir o questionamento e a exploração, não sendo apenas um repassador do conhecimento. A pedagogia construtivista enfatiza que a realidade concreta das salas de aula permite perceber como o trabalho do professor, no contexto social, determina qual o tipo de conhecimento vale mais, para qual direção deveríamos voltar nossos desejos, o que significa saber alguma coisa e, finalmente, como poderíamos formular representações de nós mesmos, dos outros e de nosso ambiente social e cultural. É preciso, a um só tempo vivenciar essa interação em que alunos e professores podem desvendar a política cultural que está por trás dessa pedagogia. É nesse sentido que propor uma pedagogia construtivista é formular uma visão política que faça uma reflexão da realidade do educando e da educação, ou seja, uma educação perfeita conforme as palavras de Rubem Alves: (ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar, 27 º ed. São Paulo: Cortez, 1993.) “Educação perfeita, sem mestres e sem consciência”. Na verdade, educação alguma, porque o conhecimento já nasce solidário com o corpo e faz com que o corpo faça o que tem de fazer. Educação é o processo pelo qual aprendemos uma forma de humanidade. E ele é mediado pela linguagem. “Aprender o mundo humano é aprender uma linguagem, porque os limites da minha
  • 3. linguagem denotaram limites do meu mundo.” (ALVES, Rubem-conversas com quem gosta de ensinar, 1993 p. 90). Segundo a visão de Paulo Freire, a educação é uma forma de intervenção no mundo, onde aprendemos ou reproduzimos o saber escolar ou cotidiano, além do conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados ou aprendidos, isso implica tanto o esforço de reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento. Nesse sentido, a filosofia da educação contribui, para a reflexão educacional, sendo imprescindível na formação docente, procurando mostrar que saber ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Uma das características fundamentais no processo pedagógico é o diálogo, pois a linguagem faz parte dessa interação nas relações humanas. O que podemos problematizar é a qualidade deste diálogo, sua função e a consciência que se tem de seu papel no cotidiano escolar, um espaço inegavelmente interativo. Essa relação nos permite concluir novos conceitos, ampliando de forma significativa nosso conhecimento, através da relação entre os homens na construção do mundo. Os diversos grupos e sociedades criam formas peculiares de viver e elaboram princípios e regras que regulam seu comportamento. Esses princípios e regras específicos, em seu conjunto, indicam direitos, obrigações e deveres. Não há valores em si, mas propriedades atribuídas à realidade pelos seres humanos que a transforma continuamente. São atribuídos a esses valores éticos significados que variam de acordo com necessidades, desejos, condições e circunstâncias de vida. Muitas são as instituições responsáveis pela educação moral dos indivíduos, a igreja, a família, a política e o Estado. É preciso deixar claro que a escola não deve ser considerada onipotente, única instituição social capaz de educar moralmente as novas gerações. Também não se pode pensar que a escola garanta total sucesso em seu trabalho de formação. Valores e regras são transmitidos pelos professores, pelos livros didáticos, pela organização institucional, pela forma de avaliação, pelos comportamentos dos próprios alunos. Assim, em vez de deixá-las ocultas, é melhor que tais questões recebam tratamento explícito, que sejam assuntos de reflexão da escola como um todo, e não apenas de cada professor. “Para o professor, a escola (...) é, também, lugar de construção de relações de autonomia, de criação e recriação de seu próprio trabalho, de reconhecimento de si, que possibilita redefinir sua relação com a instituição, com o Estado, com os alunos, suas famílias e comunidades.” (BRASIL. MEC, 1998, p. 32). Entretanto, os indivíduos se constituem como sujeitos convivendo simultaneamente com sistemas de valores que podem ser convergentes, complementares ou conflitantes, dentro da realidade social ao qual estão inseridos. As influências que as instituições e os meios sociais exercem são fortes, mas não assumem o caráter de uma predeterminação. A constituição de identidades, a construção da singularidade de cada um, se dá na história pessoal, na relação com determinados meios sociais; configurando-se como uma interação entre as pressões sociais e os desejos, necessidades e possibilidades afetivo-cognitivas do sujeito vividas nos contextos socioeconômicos, culturais e políticos. Portanto, todo conhecimento começa na busca incessante do desconhecido ou na curiosidade do ser, é aí que evoluímos como seres pensantes, permeando esse conhecimento com a cultura e os valores éticos, que são elementos imprescindíveis na escola e na ação educativa como um todo. A primeira tarefa da educação é ensinar a ver…(rubem Alves -
  • 4. É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo… Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente.As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos. Exigimos sempre dos nossos alunos aquilo que nem sempre temos a capacidade de exigir de nós mesmos, porque esquecemos que a mente inteligente aprende a esquecer aquilo que aprendeu; ela guarda a vivência, a essência, a experiência. O aprendizado não colocado nos livros não se escreve, mas é o que fica guardado para sempre. O que é importante reter na vida são as trocas e as relações que estabelecemos entre as coisas, os fenômenos e as pessoas (BRANDÃO, 1997). A criança e a sensibilidade Os educadores da atualidade se deparam com uma nova geração de crianças que não se contentamapenas com o conteúdo aplicado em sala de aula, são crianças que buscam algo mais, algo que transcenda. Atualmente, ouve-se falar muito sobre as práticas interdisciplinares na educação, trabalhando todas as disciplinas englobadas num contexto a que se quer chegar. A transdisciplinaridade é algo que vai além destas disciplinas, que ultrapassa a interdisciplinaridade, que requer algo mais complexo, que é trabalhar a sensibilidade das crianças em torno da realidade em que se encontram, para então alcançar o equilíbrio físico, emocional sobre o corpo, a mente. A educação Transdisciplinar vem para preencher um vazio que existencial, acessando um mundo interior nos indivíduos, como aborda Peres... et. al. (2007). Com esta educação, é possível preparar as crianças não só para o conhecimento, mas também para um mundo novo, de contextos sociais dos mais diversos. O novo olhar para a educação, a transdisciplinaridade, requer a liberdade de espírito para transitar em todas as áreas da diversidade nas disciplinas da vida. CONCLUSÃO Durante esta construção foi possível perceber e analisar a educação de vários pontos de vista, compreendendo a prática transdisciplinar como necessária dentro do ambiente pedagógico, onde o educando não apenas adquire os conhecimentos sobre determinada temática, mas também incorpora este conhecimento em sua realidade. Esta ciência ultrapassa as barreiras existentes entre as disciplinas, desfragmentando conceitos, tornando-os intrinsecamente ligados, na formação do educando como sujeito. A prática transdisciplinar é a metodologia da transformação, sendo preciso implantá-la nas escolas, como uma nova forma de ensinar os valores humanos e científicos às crianças, criando nesses pequenos seres, uma consciência acerca dos conhecimentos imprescindíveis para a formação do sujeito. Com estratégias de apoio à prática transdisciplinar,conseguiram potencializar o que as crianças têm de mais legítimo e específico: a sua imaginação criativa e o seu lado interior. As crianças pesquisadas relataram o bem-estar que a prática trouxe a elas, ajudando a tranqüilizá-las para assim equilibrar suas emoções e seus sentimentos, com isso auxiliando na busca da atenção, para a retomada dos conteúdos em sala de aula. Desta forma, esta pesquisa de campo, com caráter participativo, deixou clara a efetivação da prática realizada e a sua real contribuição. Assim, considera-se que é interessante estimular os novos educadores a se apropriarem da mesma, para lidarem com seus alunos. (PERES, Annabel C. F. et. al. Trilhando caminhos da transdisciplinaridade: uma experiência de ser-sendo. São Paulo: Laborciência, 2007.) A evolução dos tempos e a necessidade da transformação do ser Transdisciplinaridade: é preciso uma nova postura ante a realidade Somos parte de uma sociedade que cada vez mais compartilha sua vida com coisas e máquinas, que é refém de um consumismo desenfreado e visivelmente exposta à perda de valores éticos e
  • 5. humanísticos. Nos dias de hoje, o exercício da cidadania acaba se reduzindo apenas à realização de um trabalho profissional com o objetivo de “ganhar a vida”. Priorizando esse propósito, segundo a economista Hazel Henderson (apud Capra, 1995, p. 193), “estamos glorificando algumas de nossas predisposições humanas menos louváveis: cobiça material, competitividade, orgulho, egoísmo e ganância pura e simples”. Na atual sociedade midiática, a internet e os recursos tecnológicos possibilitam o acesso, a produção e a veiculação das informações com velocidade espantosa, sem limites temporais ou espaciais. Mais significativamente, do século XIX em diante, com o desenvolvimento dos motores de combustão, a velocidade assumiu importância social e histórica no legado das invenções humanas. O historiador Eric Hobsbawm (1995), analisando o século XX, declarou que nos últimos cinquenta anos a humanidade viu inserir em seu convívio mais inovações do que em todo o resto de sua história. Essa afirmação é assustadora. Os processos de ensino com uso de computadores e ambientes virtuais de aprendizagem sugerem transformações prementes no redimensionamento do papel da escola e do professor. Com clareza, Drucker (1999) chama nossa atenção quando afirma que “a tecnologia será importante, mas principalmente porque nos força a fazer coisas novas, e não porque irá permitir que façamos melhor as coisas velhas” (p. 189). As transformações em nossas vidas decorrentes do desenvolvimento tecnológico são perceptíveis a cada dia, a todo momento. Mas não paramos muito para pensar que, enquanto milhões de pessoas têm acesso à aquisição de um novo celular em substituição ao “velho” porque este não toca MP3, milhões de pessoas sequer têm acesso a um pedaço de pão e morrem por conta disso. Um aspecto relevante e consequente da universalização do crescente desenvolvimento tecnológico é o inevitável controle informacional das culturas dominantes sobre as nações periféricas. A socialização das novas descobertas que contribuem para uma melhor qualidade de vida vem acompanhada de uma inserção sociopolítica coerciva e impositiva para as populações que lutam pela sua autonomia (Gouvêa, Oliveira, 2006). Essa realidade se configura nos processos de exclusão que são de longa data. Mais de dois bilhões de pessoas em nosso planeta não têm acesso ao conhecimento impresso, e só no nosso país são mais de cinquenta milhões de analfabetos. Não ter acesso à educação básica é o cerne da exclusão social porque limita a oportunidade emancipatória do indivíduo. Cabe à educação fazer uso das tecnologias de comunicação e informação para dinamizar os processos educacionais, encarando, segundo o Relatório Delors (1998), “os desafios das sociedades da informaçãona perspectiva de um enriquecimento contínuo dos saberes e do exercício de uma cidadania adaptada às exigências do nosso tempo” (p.68). Considerar a evolução das tecnologias de informação e comunicação em uma dimensão comunicacional merece uma conjunção com a dimensão psíquico-afetiva do indivíduo. O professor José Manuel Moran (2005) aponta que quanto mais tecnologias avançadas mais a educação precisa de pessoas humanas, competentes, evoluídas e éticas. Pierre Lévy (2000) chama a atenção para a valorização das transformações de natureza qualitativa nos processos de aprendizagem face às novas tecnologias de informação e comunicação, colocando-nos diante de novos paradigmas para a aquisição de conhecimentos, constituição de saberes e formação de competências básicas. Segundo Carvalho (apud Morin, 2003, contracapa), a educação do século XXI nos desafia a repensar os rumos que as instituições educacionais terão que assumir se não quisermos sucumbir na inércia da fragmentação e da excessiva disciplinarização, características dessas últimas décadas de mundialização neoliberal.
  • 6. É preciso muito cuidado para não nos deparamos com a necessidade de inovações e vermos na superação dos modelos vigentes a solução para todos os problemas. Severino Antônio (2002), com propriedade, esclarece que um pensamento mecanicista não pode ser superado de modo mecanicista. A complexidade da passagem para um paradigma holístico e transdisciplinar é, ao mesmo tempo, muito profunda e muito sutil. Algumas dimensões do mundo podem ser descritas e explicadas pela Física de Galileu e Newton e pela análise cartesiana. Outras dimensões, especialmente do macro e do microcosmos, que se abrem ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno, precisam de outros princípios, outros conceitos. Há dimensões deterministas e há dimensões probabilistas na natureza. Elas se interpenetram complexamente. Não se trata de abandonar completamente a mecânica clássica nem o procedimento analítico. Trata-se de reconhecer seus limites, seu campo de validade. Trata-se, principalmente, de superar o mecanicismo que dominou a mentalidade científica dos séculos XVIII e XIX (p. 58). O autor remete à reflexão e nos traz à memória fatos que exemplificam essa realidade. A metáfora do “conhecimento como rede”, a “vida como teia” são modelos de que hoje dispomos para valorizar e resgatar princípios humanos essenciais. De algum modo nós os perdemos, e a certeza disso fica clara, por exemplo, no pequeno trecho da carta escrita, em 1854, há mais de um século e meio, pelo chefe Seattle ao presidente Franklin Pierce, após o governo americano ter dado a entender que desejava adquirir o território da tribo: Nas palavras de Nicolescu, a concepção transdisciplinar tem como fundamentos a complexidade, a lógica ternária e a multidimensionalidade do mundo. A complexidade: por não reduzir o conhecimento ao método cartesiano, ao princípio analítico, de dividir e dissociar, em busca do elemento e da relação mais simples. É preciso também religar, contextualizar e recontextualizar. É preciso considerar as relações recíprocas entre as partes e o todo. Assim, é preciso também transcender o esfacelamento dos saberes, enclausurados em disciplinas isoladas. Lógica ternária: porque transcende a lógica binária do isso ou aquilo, reconhecendo o isso e aquilo, ou seja, o terceiro incluído. Nesse ponto encontra-se com a lógica dialética, que reconhece que a árvore é e não é a semente de que se originou, e que a semente é e não é a árvore em que se tornou. Multidimensionalidade do mundo: a realidade tem muitas dimensões, diferentes níveis, diferentes campos, com lógicas específicas. À realidade multidimensional corresponde o sujeito multirreferencial, de diferentes intencionalidades (Antônio, 2002, p. 61-62). É preciso cada vez mais olhar e viver o mundo em sua plenitude e sentir-se parte integrante de um todo enredado com os seus múltiplos componentes. Uma das maiores dificuldades que nós, professores, encontramos na concretização de um projeto pedagógico é o momento de sair do plano da intenção (proposta) e colocá-lo no plano da ação (prática). É comum vermos como justificativa para as dificuldades encontradas aquela que faz referência apenas às questões estruturais e organizacionais. Mas o ser humano é, para além de seu corpo/razão/sentimento, também espiritualidade, e todas essas dimensões integradas passam pela subjetividade da relação professor/aluno constituída. Mais explicitamente, são desconsideradas várias dificuldades: dificuldades em trabalhar com as diferenças pessoais, dificuldades para implementar novas práticas, dificuldades com a falta de esperança, dificuldades com o descaso dos alunos, dificuldades com a ruptura dos modelos vigentes, dificuldades para lidar com o medo do fracasso etc. Além do mais, parafraseando Albert Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.
  • 7. Com a globalização, os nossos olhos, perplexos diante da possibilidade de ver cada vez mais longe, estão deixando de olhar para dentro de nós mesmos, para o nosso interior, e o que distingue o homem do animal é a consciência de si mesmo. Sob uma visão transdisciplinar, essa “consciência de si mesmo” integra o espírito, o sagrado, o subjetivo, tudo o que mais nos caracteriza como seres humanos. Apesar de ainda trabalharmos com a especificidade disciplinar, todos os temas devem e podem ser tratados em conformidade com as condições e interesses do momento, de forma gradativa e permanente, por todas as disciplinas, em favor dos valores e das virtudes que apoiam os princípios da dignidade, da justiça, da paz, enfim, da autonomia humana. Hoje, é cada vez mais indissociável, no nosso planeta, o binômio condição humana/miséria humana. Mais de 900 milhões de pessoas passam fome. Embora a educação sofra com os limites impostos pelas condições políticas e sociais, ela ainda ocupa um espaço privilegiado na vida das crianças, jovens e adultos que enfrentam toda a sorte de dificuldades para concluir seus estudos. Embora saibamos que o diploma não mais garante um lugar no mercado de trabalho, por causa de uma extremada competitividade, temos certeza de que sem ele não haverá luz no final do túnel. Para Fichmann (2003), o grande desafio está em desenvolver as ações, mantendo a visão, a atitude e a prática transdisciplinar, criando pontes entre a teoria e a prática, a fim de que os participantes do processo passem por transformações e rupturas cognitivas, perceptivas e atitudinais. Sob uma visão pragmática, a origem do saber é indubitavelmente transdisciplinar. E se atentarmos para nós, pessoas humanas, não é difícil reconhecer a dimensão complementar – por que não dizer transdisciplinar – existente na interação dinâmica dos dois hemisférios de nosso cérebro. Como aponta a socióloga Marilyn Ferguson, precisamos aprender a usar o nosso cérebro de forma holística, inteira: À medida que a cultura se torna mais complexa, a ciência mais abrangente, as opções mais diversas, necessitamos de uma compreensão com todo o cérebro como nunca antes: o hemisfério direito para inovar, sentir, imaginar, sonhar; o esquerdo para analisar, verificar, elaborar e apoiar a nova ordem. Juntos, eles inventam o futuro (apud Tavares, 1993, p. 129). Quando começamos a discutir teorias e assuntos do interesse de todos no mundo atual, a analisar áreas do conhecimento nas quais focalizamos as nossas preocupações, sempre falamos na educação. É na escola que experimentamos a diversidade e aprendemos a contextualizar o conhecimento, desenvolvendo competências que irão tornar-nos capazes de intervir na realidade para transformá-la. É nesse microcosmo social que aprendemos que o exercício da cidadania é um ato diário e que cabe ao homem tomar decisões diante das situações que comprometem a sua sobrevivência e a sua qualidade de vida. Uma educação transdisciplinar visa à inteireza do ser humano, amplia o ato cognitivo, promove uma sabedoria que esclarece o indivíduo, tornando-o ciente de sua autonomia e sensibilidade pela autoconsciência. Referências ALVES, Nilda; GARCIA, Regina Leite; GALLO, Sílvio; MORIN, Edgar e FERRAÇO, Carlos Eduardo (orgs.). O sentido da escola. 3ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
  • 8. ALVES, Rubem. Entre a ciência e a sapiência. O dilema da educação. 18ª ed. São Paulo: Loyola, 2007.