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O Romantismo
A liberdade guindo o povo (Delacroix, 1830)
Introdução
O Romantismo foi um movimento da classe
artística, que apareceu na Europa no século
XVIII e se estendeu até meados do século XIX.
Influenciou a literatura, a pintura e a música.
Caracterizou-se por forte oposição aos
princípios do Classicismo, mudando o foco dos
temas. Os escritores do Romantismo alteraram
até o tamanho e formato dos textos em prosa.
Contexto histórico
 Línguas faladas pelos povos que dominaram. Tratava-se na verdade de
uma forma vulgar do latim. Tudo que era escrito naquele latim,
portanto, era chamado de romance.
 Foi no livro Os Sentimentos do Jovem Werther (Johann Goethe),
publicado na Alemanha em 1774, que o Romantismo se baseou. Ali
surgiu o chamado sentimentalismo romântico, assim como o escapismo
pelo suicídio. Foi a maior quantidade de suicídios ligados à literatura em
todos os tempos.
 Na Grã-Bretanha, o Romantismo só apareceu no início do século XIX.
Destacaram-se nesse período os versos de Lord Byron, bem como o
romance histórico “Ivanhoé”, de Walter Scott.
 Merecem igualmente destaque “Manon Lescut”, do árabe Prévost
(1731), assim como “História de Tom Joses”, de Henry Fielding (1749).
Desespero ou Autorretrato – Gustave
Coubert (1850)
Principais características do romantismo
 Na literatura, algumas características merecem ser ressaltadas, como a
aversão ao modelo clássico. Os textos em prosa eram mais longos, assim
como o enredo se desdobrava ao redor de um núcleo central.
 Ao contrário dos classicistas, que exaltavam a paisagem, os romancistas
davam ênfase aos protagonistas. Exaltavam-se a sociedade, a mulher, o
amor, além de haver a fuga para a infância.
 Havia também a ênfase aos temas da nacionalidade, como a
Independência do Brasil.
 Nos poemas, tinha o emprego de versos brancos e livres. Havia também a
sublimação ao nacionalismo, à natureza e aos símbolos pátrios.
Oposição ao estilo clássico
 Na Antiguidade Clássica, eram os nobres que pagavam pela arte, com
isso impondo suas vontades. Só que, como o surgimento da burguesia,
a arte deixa os palácios, ganhando assim um outro público. Deixa
também de ser erudita, posto que começou a valorizar o “folclore” e o
nacionalismo.
 No Brasil, por exemplo, o “leitor” se tornou consumidor, já que comprava
os chamados folhetins, que eram mais baratos.
 Mudando o público leitor, o estilo formal do classicismo é abandonado
em definitivo. Até na poesia ocorreram mudanças, já que surgiram os
chamados versos livres, sem métrica ou estrofação. Também passaram
a ser empregados os versos brancos, ou seja, sem rima, algo que a
nobreza jamais admitiria.
O romantismo no Brasil
 O Romantismo foi um dos principais movimentos de arte do século XIX e,
no Brasil, teve como marco inicial a publicação da obra Suspiros Poéticos
e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836. Possuindo
manifestações tanto em prosa quanto em verso, o Romantismo brasileiro é
considerado um dos principais marcos da Literatura em nosso país.
 Uma das razões para isso é a importância da estética romântica para o
momento histórico em que essa arte está inserida no Brasil: a chegada da
Família Real e a reclassificação do território nacional, deixando de ser uma
colônia de exploração e, doravante, passando a intitular-se Reino Unido a
Portugal. Alguns principais autores do Romantismo brasileiro são José de
Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Castro
Alves.
Vista do Rio de Janeiro – Thomas Ender
(pintor austríaco) - 1817
Cena com índios – Jean-Baptiste
Debret
Contexto histórico
 O principal fato histórico que permeia o Romantismo no Brasil é
a chegada da Família Real portuguesa, em 1808. Nesse período, o país
deixou oficialmente de ser uma colônia de exploração e passou a ser a
sede do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Com isso, uma série
de modernizações começou a ocorrer no país. Algumas das principais
delas são:
 criação da imprensa brasileira;
 construção do Museu Nacional (incendiado em 2018);
 fundação do Banco do Brasil;
 decreto de abertura dos portos às nações amigas;
 criação do Ministério da Marinha, das Relações Exteriores e do Tesouro
Nacional, assim como a fundação da Casa de Suplicação do Brasil (atual
Supremo Tribunal da Justiça);
 independência do Brasil em 1822.
Características
 O Romantismo é o movimento artístico que representa a burguesia do século
XVIII e XIX, ou seja, o movimento é o de uma produção da nova elite da
sociedade, que havia superado os regimes absolutistas em diversos países. Por
conta disso, os ideais dessa burguesia são aqueles presentes nas obras
românticas. Alguns deles são:
 egocentrismo (culto ao “eu”; o indivíduo como centro da existência);
 nacionalismo;
 exaltação da natureza enquanto cúmplice do sujeito;
 idealização do herói, do amor e da mulher;
 fuga da realidade por meio da morte, do sonho, da loucura ou da arte.
 Para além dessas características gerais, vale ressaltar que as manifestações
da poesia e da prosa, dentro do Romantismo, tiveram, cada uma,
suas particularidades.
 A poesia romântica brasileira, para ser mais bem compreendida, pode ser
dividida dentro dos três grupos ou gerações que a abarcam:
os indianistas, os ultrarromânticos e os condoreiros.
O indianismo
 Indianistas (Primeira Geração Romântica): tiveram como principal expoente o
poeta Gonçalves Dias. Os poetas indianistas foram os mais nacionalistas entre os
românticos. Em seus poemas, como o célebre I-Juca Pirama, nota-se a exaltação da
natureza nacional e a construção do índio como herói brasileiro:
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.
Da tribo pujante [forte, poderosa],
Que agora anda errante [perdida, vagabunda]
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.
(I-Juca Pirama, Gonçalves Dias)
Ultrarromantismo
 Ultrarromânticos (Segunda Geração Romântica): também conhecida
como byroniana ou spleen, é marcada pelo sentimentalismo acentuado, pessimismo
e fuga da realidade — pela morte, pelo sonho, pela loucura ou pela arte. Os
principais representantes desse grupo foram Álvares de Azevedo e Casimiro de
Abreu.
Eu deixo a vida como quem deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro [...].
(Lembrança de Morrer, Álvares de Azevedo).
Condoreiros
 Condoreiros (Terceira Geração Romântica): chamada também
de social ou hugoana (em homenagem ao escritor francês Victor Hugo,
uma espécie de pai dessa geração), é notadamente marcada
pela denúncia social. O principal escritor dessa vertente romântica, no
Brasil, foi Castro Alves, e, em seus versos, percebe-se claramente um
discurso combatente à escravidão vigente no país.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer...
(Navio Negreiro, Castro Alves).
Outras questões
 O Romantismo no Brasil coincide com a chegada, no país, da imprensa.
Isso significa que, a partir de então, foi possível publicar jornais e livros no
Brasil, tornando a produção cultural mais barata e, consequentemente,
mais viável. Uma das principais formas de publicação utilizadas na época
era o folhetim, uma técnica de escrita e divulgação de textos literários
(em geral, romances e novelas) por meio dos jornais e em partes. Dessa
forma, a cada edição do jornal, havia a publicação de um capítulo da
obra, tal qual observamos nas telenovelas ou séries contemporâneas.
 O principal prosador do romantismo brasileiro foi José de Alencar, e sua
obra contém romances indianistas (Iracema e O Guarani, por exemplo),
prosas urbanas (tais como Senhora) e narrativas rurais (o romance Til é um
exemplar desse tipo).
Castro Alves
Biografia
 Castro Alves, ou Antônio Frederico Castro Alves, é um poeta romântico do
século XIX. Nasceu em Muritiba, no estado da Bahia, em 1847, e morreu
em Salvador, no ano de 1871. É conhecido como o “Poeta dos
Escravos”, em função de suas poesias de cunho abolicionista. O escritor
também escreveu poemas de amor, mas sua poesia de cunho social fez
dele o principal nome da terceira geração romântica.
 O poema O navio negreiro é o mais conhecido do escritor Castro Alves,
dada a sua importância histórica e política. No entanto, poemas como
“Mocidade e morte”, “Dedicatória” e “O laço de fita”, presentes em seu
livro Espumantes flutuantes, mostram a sua capacidade de fazer versos
sobre variados assuntos.
 O poeta brasileiro Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847. Seu interesse
pela poesia começou na infância, quando estudava na Escola do Barão de
Macaúbas. Sua vida literária solidificou-se quando ele ingressou na Faculdade
de Direito do Recife em 1864, onde passou a ser conhecido pelos seus versos.
 Em 1866, o poeta apaixonou-se pela atriz e poetisa portuguesa Eugênia
Câmara (1837-1874), que passou a exercer influência em sua vida e obra.
Apesar disso, a fama do Poeta dos Escravos não se deve a suas poesias de
amor, mas à sua poesia de cunho social. Em 1868, Castro Alves mudou-se para
São Paulo, em companhia de Eugênia Câmara, que acabou rompendo com o
poeta.
 A partir daí, a vida do poeta assumiu um caráter trágico. Em 1869, Castro
Alves, acidentalmente, durante uma caçada, deu um tiro no pé esquerdo,
que precisou ser amputado. Com a saúde frágil desde os 17 anos, devido à
tuberculose, não conseguiu vencer a doença e morreu em 6 de julho de 1871,
com 24 anos de idade, deixando inacabado o seu livro Os escravos.
Obras
 Espumas flutuantes (1870);
 Gonzaga, ou a revolução de Minas (1875);
 A cachoeira de Paulo Afonso (1876);
 O navio negreiro (1880);
 Os escravos (1883).
 Ver cenas do filme: Castro Alves: retrato falado do poeta (1999). Direção: Silvio
Tendler; Roteiro: André Luiz Oliveira, Silvio Tendler; Elenco: Bruno Garcia, Teresa Freire, Dira Paes.
 Sinopse: A curta, mas marcante, vida do poeta Castro Alves (Bruno Garcia), cheia de sucessos
e infortúnios. Cruzando o Brasil com suas poesias e ideais, o homem teve tanto um lado
mulherengo e apaixonado, chegando a ter um romance com a atriz portuguesa Eugênia
Camara (Teresa Freire), como uma forte presença política nas lutas pela proclamação da
república e pela abolição da escravatura.
A história que a história não conta
 O tráfico de escravos era essencial para atender a alta demanda por
escravizados no Brasil, e com a sua proibição, a tendência era que essa
população fosse reduzindo-se gradativamente até a abolição
acontecer, uma vez que não haveria a renovação dessa. Ainda assim, os
escravocratas fizeram de tudo para que essa transição fosse o mais lenta
possível.
 As leis abolicionistas, portanto, estão, em parte, dentro desses esforços de
impedir que a abolição acontecesse de maneira imediata e irrestrita e de
promover determinados avanços para conter a força do abolicionismo.
Negro e negra n’uma fazenda – (Johann Moritz
Rugendas – pintor alemão – pintura do século XIX)
Escrava recebendo punição – (Paul Harro-Harring
– pintor dinamarquês – 1832 – 1840)
 A proibição do tráfico, de toda forma, é um momento importante, pois o Brasil
finalmente atendeu às pressões da Inglaterra pelo seu fim. Isso aconteceu porque os
ingleses passaram a pressionar o Brasil a partir da lei Bill Aberdeen (1845). O clima
ruim entre as duas nações levantou discursos inflamados e, para evitar-se uma
guerra, foi decretada a Lei Eusébio de Queirós.
 Poucos anos depois, em 1856, o tráfico de escravos africanos no Brasil havia sido
zerado por meio da intensa repressão do governo contra essa atividade. Na
década de 1850, o debate político foi dominado pelas questões relativas à
implementação da proibição do tráfico ultramarino de escravos.
 Na década de 1860, os únicos locais da América que ainda permaneciam com a
utilização do trabalho escravo de africanos, além do Brasil, eram Cuba e Porto Rico.
A péssima repercussão internacional disso somada às revoltas de escravizados, que
se multiplicavam no país, fizeram com que surgissem algumas pessoas a defender
a criação de uma legislação em prol da abolição.
 A ideia era realizar a transição para a abolição por meio da lei e não por meio de
uma revolução. Essa legislação faria uma transição gradual para atender os
interesses da elite econômica brasileira, e, desse debate, surgiu a primeira lei
abolicionista: a Lei do Ventre Livre.
Lei do Ventre Livre
 A Lei do Ventre Livre foi oficialmente aprovada em 28 de setembro de
1871. Essa lei decretava que todos os filhos de escravos nascidos no
Brasil a partir de 1871 seriam considerados livres. O dono dos escravos
que tivessem filhos tinha, porém, a opção de escolher quando daria a
liberdade de fato a eles.
 A opção tratava que o senhor de escravos poderia permanecer como
tutor dos filhos de escravos até os 21 anos, e aí ele seria obrigado a
libertá-los, sem receber indenização. Havia a opção também do
senhor de escravos libertar os filhos de seus escravos com 8 anos de
idade, e, nesse caso, ele receberia uma indenização de 600 mil-réis.
Lei do sexagenário
 O crescimento do movimento abolicionista na década de 1880 foi notável, e a causa foi
abraçada por diferentes classes sociais do Brasil. O fortalecimento do abolicionismo fez
crescer as ações de resistência contra a escravidão, fossem essas legais ou ilegais (à luz
da legislação da época). O fortalecimento do movimento de libertação gerou
uma reação conservadora, e a Lei dos Sexagenários foi um reflexo disso.
 Depois que foi decretada a emancipação de escravos no Ceará e Amazonas, em 1884,
foram criados Clubes da Lavoura que defendiam os interesses dos escravocratas. O
objetivo era barrar o avanço do abolicionismo, e isso resultou na aprovação da Lei dos
Sexagenários, em 28 de setembro de 1885.
 Essa lei concedia a alforria para os escravos que tivessem mais de 60 anos, mas possuía
condições rígidas. Os escravos beneficiados com a libertação deveriam trabalhar por três
anos para seus senhores como forma de indenização. Além disso, tal lei proibia-os de
mudarem-se da cidade na qual haviam sido alforriados, durante um período de cinco
anos. Essa lei também estipulava o preço desses escravos como máximo no registro
nacional.
 Essa lei foi considerada um retrocesso pelos abolicionistas porque retardava o avanço da
causa. Não obstante, os esforços dos escravocratas não deram certo, pois a resistência à
escravidão continuou crescendo e resultou na Lei Áurea.
Lei Áurea
 A Lei Áurea foi decretada em 13 de maio de 1888, depois
ter sido aprovada no Senado e assinada pela princesa
Isabel. Essa lei decretou a abolição definitiva e imediata
da escravatura no Brasil e foi resultado da forte pressão
popular sobre o Império. Por meio dela, cerca de 700 mil
escravos conquistaram sua liberdade.
Luiz Gama
 Nascido em 21 de junho de 1830, Luiz Gonzaga Pinto da Gama era filho da
revolucionária ex-escravizada Luiza Mahin e de um fidalgo português. Sua mãe
participou da Revolta dos Malês em 1835 e da Sabinada em 1837, movimentos
importantes de insurreição contra a escravidão, na Bahia. Luiza Mahin “era
revolucionária natural, sempre com o objetivo de libertar sua raça dos grilhões
da escravidão”, acentua Câmara e complementa “foi um destacado elemento
de conspiração entre os negros oprimidos. Sua casa na Bahia tornou-se um dos
fortes redutos de chefes de chefes da revolta de 1835 (RUY, 2016).
 Como advogado, sem diploma, Gama libertou mais de 500 escravos,
gratuitamente. Também foi um “jornalista nato, de grandes recursos intelectuais,
pena vibrante, estilo combativo e satírico, destemido, sempre fiel ao fato e à
notícia como convém ao verdadeiro profissional de imprensa”, diz Câmara,
“mas sem deixar de ministrar sua opinião política e filosófica”, explica. O
advogado utilizava como expediente publicar anúncios em jornais de seu
trabalho para quem desejasse ser livre e não tivesse como pagar por isso (RUIZ,
2016).
O homem
 Quando quis ser bacharel pela Faculdade Direito, “a mocidade estudantil
recusou seu ingresso pela condição de negro em plena escravidão”, conta
Nelson Câmara. Mas isso não abateu o jovem ex-escravo, que conquistou o
direito de advogar, mesmo sem diploma. “Não possuía pergaminhos, porque
a inteligência repele os diplomas como Deus repele a escravidão”, escreveu
Gama no artigo intitulado Pela Última Vez, em 1869, após ter sido demitido
por motivação política de cargo público (RUY, 2016).
 O “advogado dos escravos” soube usar sua demissão para atrair a atenção
para a luta por igualdade racial. Gama “transformou-se na figura central da
luta contra a escravidão”, afirma Santos. “Amo o pobre, deixo o rico”, esse
verso dele ilustra bem eu pensamento a respeito da luta travada no império
contra a escravidão (RUY, 2016).
 Luiz Gama lutou em várias frentes, na legalidade ou fora dela. O combate à
escravidão não se deu somente pela via da legalidade. Existiram em toda nossa
história diversos movimentos de contraposição à opressão escravista. Nomes
importantes como o casal Zumbi e Dandara dos Palmares ficaram para a
história e transformaram-se em grandes heróis das lutas populares deste país.
Luiz Gama está entre eles (RUY, 2016).
 A luta desenvolvida por Luiz Gama foi muito importante para o propósito da
igualdade na sociedade brasileira. Proposta válida ainda hoje, pois o
preconceito racial ainda é forte em nosso contexto. “Luiz Gama lutava
simultaneamente em várias frentes, na legalidade ou fora dela”, “era a missão
de sua vida” (RUY, 2016).
 E, provavelmente por suas propostas avançadas e radicais, chegou a ser
taxado, em 1864, de agente da Primeira Internacional Socialista (a Associação
Internacional dos Trabalhadores, fundada e dirigida por Karl Marx),
acontecimentos que “respingaram na América escravocrata” (RUY, 2016).
A imortalidade
 Luiz Gama morreu em 24 de agosto de 1882, por causa de seu diabetes. Morreu pobre,
mas deixou como legado para as gerações futuras sua determinação e abnegação à
causa libertária e de construção da identidade nacional calcada na formação do
povo brasileiro (RUY, 2016).
 Deixou uma carta a seu único filho dizendo que “diz a tua mãe… que não se atemorize
da extrema pobreza que lhe lego, porque a miséria é o mais brilhante apanágio da
virtude. Tu evita a amizade e as relações dos grandes homens; eles são como o oceano
que se aproxima das costas para corroer os penedos…” Por isso para Luiz Carlos Santos
“retratar Luiz Gama é descobrir como a ousada presença negra no serviço público
ajudou a desmontar e a denunciar a quem a justiça do estado imperial efetivamente
servia” (RUY, 2016)
 Na parede da casa onde Gama nasceu em Salvador está afixado: “nasceu livre Luiz
Gonzaga Pinto da Gama. Filho de Luiza Mahin, nagô de nação. Escravizado aos 10 aos
pelo pai, seguiu para São Paulo. Ali se libertou analfabeto aos 17 anos, autor literato aos
29, encontrou na advocacia o caminho que o levaria às culminâncias da fama.
Considerado o maior orador de seu tempo… Sua vida exemplar tornou-o um símbolo
de cultura capaz de orgulhar país da mais alta civilização” (RUY, 2016).
Leitura de alguns poemas
Maria Firmina dos Reis
 Maria Firmina dos Reis nasceu em 11 de março de 1822, em São Luís
(MA), e faleceu em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães
(MA). Negra e bastarda, como ela mesma se definiu, foi professora de
primeiras letras na comarca de São José de Guimarães (MA) e procurou
a liberdade nas palavras ao produzir obra de forte combate ao período
escravista brasileiro.
 Aos 54 anos de idade e com 34 de magistério, Maria Firmina fundou, em
Maçaricó, a poucos quilômetros de Guimarães, uma escola gratuita e
mista para meninos e meninas pobres. Conduzia as aulas num barracão
em propriedade de um senhor de engenho, à qual se dirigia toda
manhã subindo num carro de boi
A mulher escritora
 O foco no tema da espoliação dos menos favorecidos
e a construção de uma linguagem detalhista e
imagética contribuem para a exposição de uma
sociedade fragmentada e repleta de preconceitos. Por
meio da descrição de detalhes das senzalas e da
problematização dos espaços de convivência entre
negros e brancos no século XIX, a autora cria um amplo
painel da formação da sociedade brasileira (PEREIRA,
2018).
 Na ficção de Maria Firmina dos Reis, as observações relacionadas ao lugar de mando
em uma sociedade sexista ganham contornos de barbárie e espoliação na trajetória
do negro e da mulher. A escrava, conto publicado em 1861, sintetiza a ironia diante
da opressão imposta à cultura do negro cativo (PEREIRA, 2018).
 Com a análise da obra de Firmina, é possível verificar sua contribuição para a
problematização irônica das relações e das peripécias da protagonista branca de
Úrsula na interface com a trajetória da escravidão metaforizada no percurso temático
de A escrava – conto que, como dito, sintetiza essas tensões identitárias. É na fusão
dessas trajetórias por vezes contraditórias do branco e do negro que o leitor de Maria
Firmina dos Reis encontra a amplitude de seu trabalho. Naturalmente, ela não foi a
única voz a tratar da escravidão, do sexismo e do racismo como temas literários no
país: o mesmo fizeram, entre tantos outros, Machado de Assis, Castro Alves e, na
transição para o século XX, Cruz e Souza e Lima Barreto. Foi, no entanto, uma voz
feminina de resistência, e, por isso, a leitura de sua obra contribui para que os leitores
encontrem fontes de tensão social na literatura nacional em meados do século XIX
(PEREIRA, 2018).
 O olhar crítico para a tradição do homem branco pela perspectiva da
senzala permite que a autora exponha a tensão entre a cultura do negro e
a do branco em uma sociedade que avança a passos lentos em direção
ao equilíbrio étnico e racial. Os inúmeros personagens que povoam a
ficção de Maria Firmina dos Reis explicitam a relação complexa entre
brancos e negros na construção etnográfica da sociedade brasileira. Ao
focalizar o negro e suas relações étnicas e sociais, a narrativa supera o tom
de resignação e apatia e assume uma ambientação sutil e irônica à
cultura do outro. A escritora ressalta, assim, o papel fundamental que o
sentimento de pertencimento à cultura do negro africano teve para o
lento desenvolvimento da identidade cultural do Brasil escravocrata
(PEREIRA, 2018).
Leitura de alguns poemas
Referências
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43ª ed. São Paulo: Cultrix,
2006.
REIS, Maria Firmina dos. Úrsula e outras obras. Brasília: Câmara dos Deputados,
Edições Câmara, 2018.
RUY, Marco Aurélio. “Luiz Gama: quanto vale um homem”. Portal Geledés, 2016.
Disponível em https://www.geledes.org.br/luiz-gama-quanto-vale-um-
homem/?gclid=EAIaIQobChMI_vymjuHN7AIVAwqRCh21twyWEAAYAiAAEgK0G_D_
BwE. Acesso em 24 de outubro de 2020.