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SCENA
JULHO-SETEMBRO 2023
Nº 02
ANO 1
F I L O S O F I A | L I T E R A T U R A | A R T E S | C U L T U R A
C R Í T I C A
"Nous aimons la verité, nous aimons Dieu,
nous aimons tous les hommes." - Jacques Maritain
Biblioteca
Mons.
Maurílio
Penido
Editorial
A segunda edição de Scena Critica surge como um memorial, já que neste mês
de agosto se faz memória dos 40 anos da páscoa de Alceu Amoroso Lima, um de
nossos egrégios patronos.
Amoroso Lima foi um homem de muitas frentes: crítico literário, literato,
acadêmico, líder do laicato nacional. No entanto, o mais notável de seus
predicados é certamente o de católico, e é isto que o garante no panteão dos
nossos inspiradores.
Tristão de Athayde, no campo da literatura, manteve intensa correspondência
com os grandes intelectuais de seu tempo, de modo a estabelecer, numa época
em que isto ainda não estava institucionalizado, o diálogo com personalidades
dos mais variados espectros ideológicos.
Como colaborador de Dom Leme no projeto de resgatar a hegemonia do
catolicismo nacional, consagrou-se como o grande líder do laicato católico, com
especial ênfase na liderança da Ação Católica. No Concílio Vaticano II,
representou o Brasil como emissário leigo, sendo, ao retornar, um dos maiores
entusiastas das reformas propostas, seja no que tange o culto, como também na
dinâmica da pastoral pós-conciliar.
No cenário nacional foi um homem de profunda participação na idealização do
espaço político brasileiro e, apesar de nunca ter se filiado a uma agremiação
partidária, foi entusiasta da formação do partido democrata cristão. Muito
influenciado pelo pensamento de Jacques Maritain, impulsionou o humanismo
cristão de modo a consagrá-lo como uma das correntes que protagonizaram o
pensamento social brasileiro.
Além da ode a Alceu Amoroso Lima, nesta edição damos continuidade às colunas
temáticas, algumas pela pena dos mesmos autores, outras pela de novos
colaboradores de mesmo rigor e qualidade literária.
Neste momento de inquietação na sociedade civil e eclesiástica é de nosso maior
interesse proporcionar uma leitura sobre as questões hodiernas e pretéritas à luz
da sã doutrina, reprisando e contextualizando o pensamento católico às mais
diversas facetas da cultura humana.
Filipe F. Machado
Eduardo D. S. Silva
Editores
Scena Crítica é uma publicação
trimestral, sem fins lucrativos
scenacritica@gmail.com
scenacritica.wixsite.com
instagram.com/scenacritica
Editor
Filipe Machado
Colaboradores desta edição
André Marcelo Soares
Alessandro di Borgia
Eduardo Silva
Jeremy Boot
Jessiandro Pessoa
Josué Matos
Marcos Paulo Galvão
Natananel de Abreu
Pedro Henrique Abreu
Pedro Ribeiro
Rafael Santos
Yasmin Ramos
Scena Crítica
Filosofia, literatura, artes, cultura
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 2
SCENA
S
Prosseguindo
Vem a lume o segundo número de Scena Crítica, que
avança qual peregrino, de bordão à mão, pelos caminhos
um tanto tortuosos e pedregosos do nosso tempo.
Mantendo a variedade temática dentro de um ideal
comum, a presente edição traz também a memória dos
40 anos da morte de Alceu Amoroso Lima. Além da capa
que o homenageia, a coluna Vox Patroni traz o belíssimo
elogio fúnebre proferido pelo monge beneditino e imortal
da Academia Brasileira de Letras, D. Marcos Barbosa, na
ocasião do sepultamento de Tristão de Athayde.
Alceu também se faz presente no Dossiê, uma entrevista
com o Prof. Leandro Garcia (UFMG), especialista na obra
de Amoroso Lima, tendo publicado há pouco as cartas
trocadas entre Alceu e o poeta Jorge de Lima.
Nas Crônicas de um tempo peculiar, Eduardo Silva
reflete sobre o "adeus à disponibilidade", convidando a
geração atual a imitar a coragem de Alceu Amoroso Lima
em sua conversão e radical tomada de posição diante da
realidade.
Nesta edição, no artigo A cafeicultura e o Brasil, Pedro
Henrique Abreu traz uma análise histórico-social da
bebida que não falta à mesa dos brasileiros. Pedro Ribeiro,
o jovem fundador e presidente do crescente movimento
Comunhão Popular, por sua vez, enriquece-nos com a
abordagem de uma tema de importância capital: a
preocupação de que deve estar munida a política social
em estar sempre À procura do salário justo.
Do latim ao anglo-saxão, nosso correspondente britânico
Jeremy Boot nos guia entre as Línguas mortas e vivas,
uma instigante análise da história de nossos idiomas.
Seguindo para a filosofia, o prof. Marcos Paulo Galvão traz
ao debate a tematica Conhecimento e poder segundo
Michel Foucalt, e Josué Matos, aproveitando a
oportunidade da publicação da carta do Papa Francisco
por ocasião dos quatro séculos do nascimento de Blaise
Pascal, convida-nos a perceber as nuances e
particularidades na ocasião peculiar em que Um Papa
jesuíta analisa Pascal
No Caderno de Cinema quem marca presença nesta
edição é o diretor Frederico Fellini, recordado por Filipe
Machado na efeméride dos 30 anos de sua morte. E Rafael
Santos, em mais um de seus Ensaios do cotidiano,
analisa a tão atual relação entre sexo, liberdade e
consumo.
Na coluna Livro Aberto, Jeciandro Pessoa lança um olhar
sobre Anchieta, o apóstolo do Brasil, resenha da biografia
do grande jesuíta missionário. E o prof. André Marcelo
Soares em seu artigo chama atenção para a necessidade
em se Eduacar para a vida ética e para a democracia.
E não poderia faltar nesta edição a nossa praça de
divulgação literária, a Ágora, onde a poesia marca
presença mais uma vez, com os talentosos Natanael de
Abreu, Alessandro di Borgia e Yasmin Ramos.
Que os todos possam aproveitar a qualidade dos trabalhos
apresentados. Boa leitura!
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Abril-junho 2023 | Scena Crítica 3
Í N D I C E
Crônicas de um tempo peculiar, pág. 6
Disponibilidade para o adeus
Caderno de cinema, pág. 23
Sonhos em evidência
Ágora, pág. 19
Praça de divulgação literária
Dossiê, pág. 15
Um ano jubilar
Linguas mortas e vivas, pág. 13
A cafeicultura e o Brasil, pág. 7
Vox patroni, pág. 9
Alceu, ao Céu
À procura do salário justo, pág. 11
Conhecimento e poder, pág. 17
segundo Michel Foucalt
Livro aberto, pág. 18
Anchieta, o apóstolo do Brasil, Joaquim Tomás
Ensaios do cotidiano, pág. 25
Sexo, liberdade e consumo
In Scena, pág. 27
Educar para a vida ética e para a democracia,
pág. 26
Um Papa jesuíta analisa Pascal, pág. 20
"O homem precisa mais de assunto do que de pão. E como as mais
irrespiráveis abstrações têm sempre raiz no que se vê e no que se
ouve, é preciso de tempos em tempos ir esfregar o eu-dormente nas
coisas boas que acontecem, para evitar as câimbras da alma."
G U S T A V O C O R Ç Ã O
gosto deste ano marca não apenas os 40 anos da
morte de Alceu Amoroso Lima (1893-1983), mas
também os 95 anos de sua conversão. De forma
muito poética, pois poética foi toda sua vida, quis Deus,
que é mais poético ainda, que Alceu fosse ao seu encontro
em 14 de agosto de 1983, véspera do dia em que, diante do
Pe. Leonel Franca, expôs sua alma no tribunal da
misericórdia e se aproximou da mesa da ceia sacrifical de
Cristo.
A morte de Alceu, disso me convenço cada vez mais,
deixou uma lacuna em diversos âmbitos da vida nacional.
Onde hoje o crítico literário de presença marcante como
aquele que em 1919 deu vida a Tristão de Athayde, o
pseudônimo mais célebre da história brasileira, no rodapé
d’O Jornal? Onde a figura pública a levar a voz da Igreja,
de sua doutrina social, de seu contributo às artes e às
letras, para o debate social, cultural e acadêmico? Onde o
defensor apaixonado da liberdade e dos valores mais caros
de um humanismo integral e fecundo, trabalhando por
um projeto real de Brasil? Todas essas perguntas têm
como resposta um triste e sonoro “não há”.
Logicamente, muito da obra de Alceu é fruto de sua
personalidade, de sua dedicação, de seu empenho pessoal
com seus ideais. Ao dar em 1928 adeus à disponibilidade –
título dado à carta em que expôs as razões de sua
conversão a Sérgio Buarque de Holanda –, Alceu
abandonou o princípio gideano para abraçar um ideal
mais amplo, mais universal, embora aos olhos da maioria
parecesse antes um estreitamento, um “adeus” de fato.
“Tristão é um dos nossos que agora acredita em anjo...”, vai
dizer acidamente Oswaldo de Andrade. Porém, não deixa
de ser surpreendente o fato de que tal personalidade não
tenha hoje uma eficaz presença de seu pensamento, nem
continuadores empenhados em seu legado a trilhar seu
exemplo.
CRÔNICAS DE UM
TEMPO PECULIAR
DISPONIBILIDADE
PARA O ADEUS
Eduardo Silva, graduado em
História pela UFRRJ e em Filosofia
pela PUC-Rio, encaminha os
estudos também para a literatura e
a teologia, sempre a partir de um
diálogo entre o pensamento
tomista e as diversas correntes
contemporâneas.
Abril/junho 2023 | Scena Crítica 6
A
Em diversas ocasiões, Tristão de Athayde destacou a falta
de um ideal profundo em sua geração, marcada por um
juventude sob as luzes da belle époque, a qual viu
escurecer com o início da primeira guerra em 1914.
Passado um século, a geração de hoje parece sofrer de
algo semelhante. Há uma clara apatia diante das
realidades metafísicas e existenciais sérias. Uma geração
que nasceu sob a égide do avanço tecnológico e que se
deslumbra com o mundo das redes sociais, mas que ao
mesmo tempo enfrenta as frustrações de um país e de um
mundo imerso na desordem política e social, vivendo as
consequências de uma pandemia mundial e com focos de
guerra a recordar que a humanidade continua apostando
em métodos já provados pela história como infrutíferos, ou
antes, estéreis e destruidores.
A geração de Alceu, nascida no final do séc. XIX, reagiu na
década de 1920. No âmbito artístico e literário, surge o
modernismo da Semana de 22 que deu para o Brasil
nomes memoráveis como Mário de Andrade, Tarcila do
Amaral e Heitor Villa-Lobos. Também houve a reação
metafísica: o movimento intelectual católico, onde se
insere Tristão. Junto a seu nome pode-se acrescentar o de
Jackson de Figueiredo (1891-1928), responsável por fundar
em 1922 o lugar de agremiação desses intelectuais, o
Centro Dom Vital; Sobral Pinto (1893-1991), o célebre jurista
a quem coube a alcunha de “Sr. Justiça”; o Padre Leonel
Franca (1893-1948), que deu à sua geração, nas palavras de
Alceu, “o sentido profundo da Ordem sobrenatural”; o
grande poeta Jorge de Lima (1893-1953); Gustavo Corção
(1896-1978), o converso, quase um cruzado, cuja escrita e
luta marcou época. Enfim, toda uma brilhante constelação
que reagiu, que superou a apatia pelo compromisso, que
deixando de estar disponível para tudo, dispôs-se a
abraçar um ideal sólido, firme e eivado de esperança.
Diante da geração atual, que temos nas mãos a
possibilidade de superar a apatia reinante, de dizer adeus
à disponibilidade para tudo, que se torna, se me permitem
o paradoxo, disponibilidade para o nada, só posso evocar
as palavras de Alceu na já citada carta a Sérgio Buarque: “o
erro é pensar que a realidade se prende em qualquer
sistema humano apenas, ou em qualquer ausência
sistemática de um sistema qualquer”. É a tentação da
imanência, de querer, tal e qual o velho Barão de
Münchausem, puxar-se pela trança para não cair no fosso.
Ou a da alienação, fugindo de todo e qualquer
compromisso sério com a realidade, consigo mesmo e
com o mundo, refugiando-se num ideal fantasioso. É o que
diz Alceu em seguida: “Pois o amor da evasão pela evasão
é a pior das servidões. Nunca nos sentimos tão presos
como ao pretendermos forçar todas as portas. Nunca
somos tão limitados como quando nos limitamos à
extralimitação.”
Ainda há tempo, embora ele seja curto. É necessário
coragem e espírito de renúncia para estar disponível a
dizer adeus ao espírito descompromissado. Apesar do
cenário crítico, há esperança. Como, aliás, era lema do
próprio Alceu: contra spem spes. Ter fundada esperança,
mesmo diante da desesperança reinante.
s meses de maio a agosto costumam ser agitados
nas regiões cafeeiras do Brasil. Durante este perí-
odo acontece a colheita do fruto que por décadas
fora o principal produto de exportação do país. Se hoje o
café ainda abunda nas montanhas do sul de Minas Gerais,
no cerrado mineiro, no norte de São Paulo, só para citar
algumas regiões produtoras, o arbusto da família
rubiaceae, já fora cultivado em uma vasta extensão de
terra que compreendia do Estado do Paraná até o Espírito
Santo. Apelidado de “ouro negro” na segunda metade do
século XIX, o café iria moldar a economia e a sociedade
brasileira nos anos finais do Segundo Reinado (um ramo
de café fora posto na bandeira imperial) e nos anos da
chamada República Velha (1889-1930), sendo que o
sistema de alternância do poder entre políticos da elite
paulista e mineira, durante o período, passaria para a
história como a política do “café com leite”.
Se a relevância econômica do produto só seria sentida
após a década de 1850, a planta do café chegaria ao Brasil
ainda durante o ciclo do ouro no século XVIII. Seria o
militar luso-brasileiro Francisco de Melo Palheta que em
1727 traria para o país as primeiras sementes e mudas do
cafeeiro. Palheta teria sido encarregado pelo governador
do Maranhão e do Grão-Pará, João de Maia Gama, de
chefiar uma missão até a Guiana Francesa com um intuito
de resolver um litígio territorial. Durante esta missão, o
sargento-mor lograria cerca de mil sementes da planta e
quatro mudas, que seriam cultivadas pela primeira vez em
solo brasileiro na cidade de Belém do Pará. A forma como
estas sementes e mudas foram conseguidas permanecem
um mistério, visto que numa carta do próprio Palheta
datada de 1733, não há menção de como este material fora
adquirido. Apesar de as especulações terem sido
abundantes no decorrer da história, o mistério permanece.
O ciclo do ouro declinaria a partir de 1760, quando as
jazidas começaram a exaurir-se, principalmente na então
província das Minas Gerais, principal local de exploração
do minério. Já após os eventos da inconfidência mineira
(1789), a economia brasileira voltara-se outra vez para a
agricultura de exportação, sendo que os principais
produtos seriam a cana-de-açúcar e o algodão, este último
produzido principalmente na região do Maranhão. No
entanto, as reviravoltas políticas na Europa acontecidas
por decorrência das guerras napoleônicas, a técnica de
produção do açúcar a partir da beterraba e a
superprodução em outros países produtores, fizeram com
que a produção brasileira perdesse espaço no mercado
internacional. Além do mais, o preço destes produtos
diminuiu consideravelmente, fazendo com que o lucro de
produtores brasileiros fosse reduzido. Já outros artigos
brasileiros como o fumo, o couro e o arroz não
encontravam espaço no mercado externo, sendo estes
destinados ao consumo interno. Nesta situação o
desenvolvimento da atividade cafeeira viria como possível
solução para que o Brasil voltasse a ganhar mercados
estrangeiros.
A planta do café se adaptara facilmente as condições
edafoclimáticas do sudeste brasileiro. A grande
quantidade de latossolos vermelhos, popularmente
conhecidos por “terra roxa”, favoreceram a expansão do
cultivo, bem como o clima ameno e a regularidade
pluviométrica da região. O exploração brasileira do café
também seria favorecida pela conjuntura internacional,
uma vez que o grande produtor da época, o Haiti, ex-
colônia francesa que lograra sua independência em 1791,
estava com a produção desorganizada e drasticamente
diminuída em decorrência do turbulento processo de
independência. O Brasil viria substituir a produção haitia-
na, sendo que já na década de 1850, o café passara a ser o
principal produto de exportação do país, uma vez que até
em tão, representava somente 18% das exportações
brasileiras.
A expansão da área cultivada conheceria quatro
momentos importantes. De 1850 a 1880, a maior
concentração das lavouras encontrava-se próxima à capital
Rio de Janeiro e no Vale do Paraíba, sendo esta última a
principal região produtora na época. Tratava-se de uma
exploração muito dependente da mão-de-obra escrava e
das condições do solo da região, que não eram corrigidos
e fertilizados, sendo que as lavouras eram simplesmente
abandonadas quando a produtividade começava a
diminuir. Além do mais, os produtores fluminenses e vale-
paraibanos formavam uma base política importante de
apoio a monarquia brasileira, que a partir dos anos 1870
passava a ser contestada, principalmente em meios
militares. Desta maneira, após ter atingido o pico de
produção na década de 1880, a cafeicultura nestas regiões
começara a declinar, também em razão da abolição da
escravatura em 1888 e a queda do império em 1889.
Seria, no entanto, a segunda fase de expansão da
cafeicultura que mais representaria o chamado “ciclo do
café”. Esta fase iniciara-se ainda na década de 1880 e
duraria até 1930, sendo o oeste paulista e o sul mineiro as
regiões que se destacariam como principais produtores.
Este momento histórico conheceria os chamados barões
do café, que além de grandes produtores, foram
personagens centrais de toda política brasileira durante a
República Velha. De certa forma, as principais decisões
econômicas e políticas adotadas durante este período
buscavam favorece e defender a cafeicultura. Um exemplo,
seria o convênio de Taubaté de 1906, no qual o governo
republicano viu-se forçado a comprar sacas do produto e
jogá-las no mar ou queimá-las, como forma de combater a
queda dos preços, devido a superprodução das safras
anteriores. Tal política ainda seria adotada na década de
20, quando uma nova onda de baixa de preços, motivada
A cafeicultura
e o Brasil
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 7
O
É mister reconhecer que o café, apesar de não possui a
influência dos anos anteriores, ainda permaneceria como
um dos principais produtos de exportação do Brasil, além
de ter continuado com relevante poder de barganha na
política nacional. Em 1952 seria criado o Instituto Brasileiro
do Café (IBC) que tinha por objetivo buscar políticas que
favorecessem a atividade, em substituição ao antigo
Departamento Nacional do Café do Ministério da Fazenda.
O IBC teria grande influência na política nacional
principalmente nos anos do governo militar quando a
cafeicultura conheceria um novo apogeu de lucros, de
forma especial no governo Figueredo. O IBC ainda
participaria da vida nacional, tendo sido o patrocinador da
lendária seleção brasileira que jogaria a copa do mundo
de 1982. Este instituto seria suprimido pelo governo Collor
e substituído Conselho Deliberativo de Política do Café em
1996.
A quarta fase da expansão da cafeicultura nacional inicia-
se durante o governo militar, principalmente na era Geisel.
Este período ficou conhecido pelo anseio de expandir a
agricultura nacional para regiões ainda não exploradas
como, por exemplo, o cerrado. Durante a gestão de
Alysson Paulinelli frente ao Ministério da Agricultura (1974-
1979) seria feitas as primeiras análises de solo no cerrado
brasileiro, chegando-se à conclusão de que a região era
agricultável, deste que feito as necessárias correções do
solo através de calagem e fertilização. O café passaria a
cultivado no cerrado mineiro, com enorme sucesso, visto a
facilidade de mecanização das lavouras devido ao relevo
plano da região. O cerrado passaria a ser o segundo maior
produtor nacional, atrás apenas da montanhosa região do
sul de Minas que, atualmente, produz cerca de 50% do
café brasileiro.
Atualmente a cafeicultura subsiste alternado momentos
de alto e baixo, uma vez que, sendo o produto considerado
uma commodity, tem seu preço cotado em bolsas de
valores, o que gera enorme instabilidade de mercado.
Além do mais, dificuldades com o êxodo rural em regiões
produtoras, mudanças climáticas e o considerável
aumento do preço de insumos agrícolas fazem com que a
atividade agonize em certas regiões. No entanto, o olhar
histórico mostra que a cafeicultura tem enorme
capacidade de regeneração, sendo que é difícil prever
como será o futuro da atividade no país. Certamente este
dependerá a capacidade de mecanização das lavouras
reduzindo a dependência de mão-de-obra e a adoção de
novas formas de comercialização que garantam aos
produtores mais autonomia de preços. O futuro dirá.
.
pela superprodução e o desarranjo político do pós-guerra,
ameaçava os lucros do setor.
Durante os anos da República Velha o café seria elemento
essencial do desenvolvimento do país, que ainda
engatinhava no processo de industrialização. A melhoria
do projeto urbano de cidades como o Rio de Janeiro e São
Paulo entre os anos 1900 e 1920 seria feito, em grande
parte, com o dinheiro dos barões do café e com
empréstimos internacionais. Se a então capital do país
conhecera um audacioso projeto de urbanização durante
o governo de Rodrigues Alves (1902-1906), seria a cidade
de São Paulo que mais se beneficiaria com a cafeicultura.
Muitos dos ricos produtores do oeste paulista e sul de
Minas passaram a morar na cidade, como forma de
facilitar a comercialização do produto que era feito
principalmente no porto de Santos. Os barões do café
levaram enormes quantias para a cidade, favorecendo a
construção de ferrovias, praças, casarões e muitos outros
elementos que viriam caracterizar a cidade. Além do mais,
com a cafeicultura paulista chegariam muitos imigrantes
para o trabalho nas lavouras o que não foi sem
importância para que a cidade tivesse os traços que possui
ainda nos dias de hoje.
O fim da antiga república e a ascensão de Getúlio Vargas
ao poder em 1930 colocaria um fim ao domínio dos
cafeicultores na política nacional. O café também perderia
importância econômica, sendo que, com o Estado novo,
forma como ficaria conhecido o governo Vargas a partir da
Constituição de 1937, o acento econômico seria posto na
industrialização. No entanto, a cafeicultura persistiria,
entrando em uma terceira fase da expansão das lavouras
desta vez no norte do Estado do Paraná, onde a produção
seria feita em pequenas propriedades. A cafeicultura no
Paraná, apesar de ter conhecido relativo sucesso na
década de 1960, seria desmotivada pelas geadas que
devastariam as plantações.
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 8
Mineiro de Muzambinho, Pedro
Henrique Abreu é formado em
agronomia pela UFLA, com
desenvolvimento de pesquisa na
Nottingham University, Inglaterra, e
especialização em Relações
Internacionais e direito
internacional. Transita entre História,
relações internacionais, teologia e
filosofia.
que ainda jaz entre nós, não
proclamaremos os nomes das
famílias a que pertenceu, nem o
pseudônimo literário que ele
cobriu de honra, nem os seus
pontos altos de pensador e líder
católico. Queremos recordar
simplesmente Alceu, que se nutriu
aqui na tera com o pão da Vida
Eterna.
O menino, cujos cabelos Machado
de Assis acariciava entre as grades
do jardim ao passar pela Casa Azul
da rua das Laranjeiras.
Tinha tudo para ser feliz: pais
abastados e extremosos, um
jardim na frente eum pomar atrás,
um regato, uma galinha de
pintos...
A esse cromo veio juntar-se a
Primeira Comunhão um pouco
folclórica em Sião de Petrópolis,
Mas na qual Jesus deve ter
acariciado, como o insigne
romancista ao passar, os cabelos
do menino triste.
Pois era um menino triste, que
dizia consigo mesmo, que
prometia a si mesmo: "Quando
ficar grande vou protestar contra
essa balela de que as crianças é
que são felizes!"
Ah, como sofrem as crianças!
Confidenciava-nos mais tarde
Alceu Amoroso Lima, em Primeiros
Estudos e Idade, Sexo e Tempo,
Vox patroni
dando voz aos que nos precederam
ALCEU, AO CÉU
D. Marcos Barbosa OSB, 1983
ão celebramos a Eucaristia
em honra dos mortos, mas
de Jesus Cristo, que disse
expressamente: "Fazei isto em
minha memória...". Mas a
celebramos, isto sim, em sufrágio,
em auxílio dos que morrem; para
que se vejam o quanto antes
purificados das impurezas que
ainda levam da terra, e que os
impedem, como a ganga ao
diamante, de serem logo invadidos
pela plenitude da luz divina. Mas a
Eucaristia - que significa ação de
graças, e que é antes de tudo
Memorial do Sernhor, se não
sugere o elogio dos mortos, pode
dar lugar aos nossos louvores
agradecidos, pelas grandezas que
Deus tenha operado na humildade
dos seus servos. Sobretudo quando
a vida de um deles realizou uma
parábola perfeita, que pode
transformar-se, quase, numa
parábola evangélica.
Ontem, no Dia dos Pais, Alceu
Amoroso Lima, que o foi para
tantos, segundo a carne e segundo
o espírito, entregava ao Pai Nosso
a sua vida. Em Petrópolis, sua
bem-amada cidade, num hospital
com um nome duas vezes querido,
à hora, justamente à hora do
Angelus, que já era liturgicamente
Festa da Assunção de Maria,
quinquagésimo quinto aniversário
9 Scena Crítica | Abril-junho 2023
N
de sua conversão, selada pela sua segunda Primeira
Comunhão, que ele considerava a verdadeira. A essa hora
do Angelus, ao anoitecer no Dia do Senhor, nos braços de
sua filha Abadessa, transpôs Alceu Amoroso Lima o que a
mulher de Léon Bloy chamou "La Porte des Humbles", a
Porta dos Humildes, que coincidiu, para ele, com a
Assunção de Maria, Janua Coeli, Porta Azul do Céu, que
nos abre o caminho.
Porta dos Humildes. Ouvi certa vez que um grande de
Espanha, quando pretendia transpô-la após a morte, ouviu
de dentro a voz que perguntava: "Quem bate?" Declinou
ele todos os seus nomes e títulos de nobreza e seus
esplêndidos feitos, e teve apenas como resposta: "Não te
conheço!" Confuso e perplexo, bate de novo e ouve de
novo: "Não te conheço!" Pela terceira vez, cheio de aflição
ousa bater ainda; e, à voz que Ihe pergunta quem é,
responde apenas, tremendo, o seu nome de batismo, o seu
singelo nome de cristāo e filho de Deus. E o seu nome de
cristão e filho de Deus sabre-lhe a Porta do Céu, a Porta do
Pai. Também nós agora, encomendando a Deus aquele
quando o menino triste já se tornara Tristão de Athayde...
Sofrem as crianças por motivos que só a nós, adultos,
parecem ridículos,
e sofrem então de um modo absoluto, ainda que por
breves instantes,
porque não sabem, como a gente grande, que o
sofrimento passa...
Mas será necessariamente feliz a mocidade?
O moço rico, que já atravessara o Equador como menino
e julgara ler o nome da distante Babá num dos letreiros de
Paris,
está agora sentado à mesa de um hotel da portentosa
Veneza.
E Jesus, que já o acariciara em criança, o viu e o amou
como ao moço rico do Evangelho...
E acendeu-lhe no coração aquela mesma pergunta
que se fizeram Jacques e Raissa Maritain no Jardim das
Plantas de Paris;
ou o jovem Inácio, ferido como Jacó, ao lutar com o Anjo,
num Castelo de Espanha;
D. Marcos Barbosa (1915-
1997), monge beneditino,
poeta, dramaturgo e
imortal da Academia
Brasileira de Letras,
proferiu essas palavras na
missa exequial de Alceu
Amoroso Lima em agosto
de 1983.
ou o jovem Bento na corrupta Roma, antes de partir para
Subiaco; ou o moço rico de Assis antes de beijar o leproso:
"De que vale o homem ganhar o mundo inteiro, se perde a
sua alma?"
A pergunda, é verdade, não assumia ainda esta forma, mas
a do Eclesiastes, tão presente em Machado de Assis:
"Vanitas vanitatum!" Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
E o jovem brasileiro faz, como Jacques e Raissa Maritain,
que ainda não conhece, não um pacto, mas um voto de
suicídio caso não encontre também um sentido para a
vida e o segredo da felicidade absoluta e eterna.
Devorará a Esfinge o jovem peregrino? Não: é ele que vai
devorar o Mistério...
O jovem rico continua a viver quand même, embalado
pela belle époque.
Mas o conforta, em seu Paraíso Perdido, o não estar mais
sozinho: caminha a seu lado frágil Mulher Forte, que ele
afirmava aos quarenta anos de casamento, ter sido quem o
chamava à realidade, quem fazia o já famoso crítico
literário, sempre de pena na mão, colocar os pés na terra.
pois é antes na humildade da terra ("ganharás o pão com o
suor do teu rosto!") que se encontra Aquele que o criou.
E veio então o encontro com o amigo, por enquanto com a
minúsculo.
Que em breve desapareceria para sempre nas águas do
oceano.
Jackson de Figueiredo tornara-se um pescador de homens.
E aquele que já ouvira a palavra de Léon Bloy: "Só há uma
tristeza: não ser santo!"
Se convence também do pensamento que Pascal pôs nos
lábios de Cristo: "Tu não me procurarias, se já não me
houvesse encontrado!"
E na glória de um quinze de agosto, na Capela de Nossa
Senhora das Vitórias, em Santo Inácio, dá-se o encontro
corpo a Corpo do homem com seu Deus, que se tornam
uma só carne, e um só coração, e uma só alma.
Recebe das mãos do Padre Leonel Franca sua segunda
Primeira Comunhão.
"E preciso que eu diminua e que ele cresça!'" sugere-lhe
João Batista, seu nome como oblato beneditino.
"Já não vivo eu, mas vive o Cristo em mim!" sopra-lhe o
Doutor das Nações, cujo nome quis colocar num de seus
filhos...
Como antes, em companhia da mulher, já oferecera a
Deus, na Igreja da Glória, a Lia, que se tornaria Raquel,
esposa de Cristo sob o nome de Teresa, e que, ao contrário
da filha de Jefté, não foi chorar com as amigas a sua
virgindade, mas celebrá-la cantando com as monjas de
Escolástica.
Cessaram para o Peregrino do Absoluto ("é andando que
se faz o caminho") as tentativas de itinerário. Estava
descoberto não só o Caminho, mas a Verdade e a Vida.
E o Pão da Vida, que o fazia ir e vir cada manhā,
surpreendendo o poeta Augusto Frederico Schmidt.
Descobrira o pāo quotidiano, dado pelo Pai, que sacia a
fome de cada dia, abrindo mais ainda, agora em
esperança, a fome do Absoluto.
O moço rico e o menino triste haviam descoberto, com
Tristão de Athayde, que ldade, Sexo e Tempo encontram
resposta não no Homem Moderno, mas no Eterno,
de que tanto lhe falaram Chesterton e Newman.
O homem, agora de parcos cabelos cingidos pelo louro das
Letras,
caminha os passos seguros da plena maturidade em
Cristo.
A velhice não o aflige e o torna para sempre jovem e
menino.
Nem a morte da metade de sua alma, que o fere
profundamente, consegue derrubá-lo, pois descobre "a
presença na ausência" no mistério da saudade e da fé; Ele,
que afirmara que não há idade ideal, descobre que a
velhice é a vida em ascensão, pois a vida humana não é
montanha terminando em descida e abismo, nem as
quatro estações do ano terminando em inverno, mas a
quarta vigília da noite bíblica que precede o amanhecer,
quando o Mestre vem caminhando ao nosso encontro:
"Não tenhais medo; sou Eu!"
E assim pôde realizar a velhice generosa, de que fala Olavo
Bilac em célebre soneto:
"Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo, envelheçamos
como as árvores fortes envelhecem,
na glória da alegria e da bondade
agasalhando os pássaros nos ramos
dando sombra e consolo aos que padecem!"
Dir-se-ia que ele cumpriu também
um pequeno poema que traduzi
do inglês e cujo autor ignoro:
"Conta no teu jardim flores e frutos,
mas não conte as folhas que
tombaram.]
Conta os teus dias pelas horas de
ouro,]
não pelas que falharam.
Pelas estrelas conta a noite. E
a vida,]
pelos triunfos, não pelos perigos,
não contes tua idade pelos anos,
mas sim pelos amigos."
Entre estes se encontravam o grande
Georges Bernanos, um instante pou-
sado em Itaipava, e que foi visitar um
dia. com seu jovem secretário, levando
doce e manteiga.
Georges Bernanos escreveria mais tar-
de que, ao morrer, o menino que ele
fora é que tomaria o comando
de todos os anos que
vivesse, para entrar à
frente deles, como
um jovem capitão,
no Reino dos Céus...
Também Tristão de
Athayde traz nos
braços, velho
Simeão, o menino
Alceu, comos os
baixos-relevos das
catedrais góticas,
onde Maria, morta
ou adormecida, oferece a Deus uma miniatura de si
mesma.
O menino outrora triste, que começou a devorar a Esfinge
ao receber pela segunda vez o Corpo de Cristo na festa da
Assunção da Virgem, na Capela de Nossa Senhora das
Vitórias, se oferece e é oferecido por nós.
Chegou para ele o momento de entrar num Templo não
feito pela mão dos homens, mas na Casa Azul que o
Apocalipse em vão procura descrever.
É a terceira grande Comunhão de sua vida, agora eterna.
Alceu disse adeus em artigos a muitos que ele chamou
Companheiros de viagem, seis dos quais nascidos no
mesmo ano que ele.
Hoje nós, que ficamos no vale de lágrimas, é que nos
despedimos dele, dizendo-lhe, no seu sentido mais forte, o
adeus em duas palavras: A Deus!
E dizemos ao menino que encontrou o segredo da
felicidade: Ao Céu, Alceu!
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 10
.
Ocapitalismo é acima de tudo um sistema econômi-
co salarial. Nele, o mundo do trabalho se organiza,
grosso modo, da seguinte maneira: de um lado, há
os patrões, donos das empresas; de outro, há os empregados,
que vendem aos patrões a sua força de trabalho - e em troca
recebem salário.
O assalariamento, é verdade, não surgiu com o capitalismo.
Antes dele, porém, esta jamais foi a relação social
dominante. Na Grécia e na Roma antigas, a grande maioria
dos trabalhadores eram escravos. Na Idade Média, quase
todos eram servos. Assim, também no regime capitalista,
nem todas as pessoas se enquadram na divisão patrão-
empregado. Basta pensar no trabalhador autônomo, que
trabalha sozinho, ou nos sócios de uma cooperativa. A lógica
salarial, porém, é aquela que, de longe, domina o atual
modelo econômico.
Levanta-se, então, uma questão moral bem concreta: existe
salário justo? É possível uma relação patrão-empregado que
seja digna? Ou será que esta relação, como dizem os
marxistas, é necessariamente exploratória, um roubo da
riqueza produzida pela classe trabalhadora? Eis o que
abordaremos neste artigo, sempre sob o prisma da Doutrina
Social da Igreja.
***
Para os liberais econômicos, a relação salarial é algo
maravilhoso. Os escravos e servos eram obrigados a trabalhar.
Já o trabalhador moderno ingressa livremente na firma na
qual está empregado e, tão logo fique insatisfeito, pode
pedir demissão. A única condição, portanto, para que o
salário seja justo é que ele seja livre: acordado sem coação
entre patrão e empregado.
Os socialistas têm uma visão oposta. Para eles, a toda riqueza
produzida vem do esforço e do suor da classe trabalhadora.
Logo, todo o lucro obtido pelas empresas deveria pertencer
aos trabalhadores. Aquela parte do lucro que o patrão toma
para si – o que Marx chamava de mais-valia – é, na verdade
um roubo, e o salário, portanto, é sempre injusto, pois não faz
jus ao esforço do trabalhador.
A Doutrina Social da Igreja possui uma visão superior, nem
liberal nem socialista.
Para a DSI, é perfeitamente justo que o patrão ganhe parte
do lucro de sua empresa. Afinal, ele investiu seu dinheiro no
negócio e assumiu os ricos da competição no mercado. Além
do mais, nas pequenas e médias empresas, o empresário é
ele próprio um trabalhador. Por outro lado, ensina também a
Igreja, é absurdo julgar que basta um contrato de salário ser
feito sem coação para que ele seja justo, como se não
houvesse outras questões a considerar.
“Façam o patrão e o operário todas as convenções que lhes
aprouver, cheguem, inclusive, a combinar a cifra do salário” –
adverte Leão XIII na carta encíclica Rerum Novarum – “Acima
da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais
elevada e mais antiga: que o salário não deve ser insuficiente
para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado”.
Mais: “Se, constrangido pela necessidade ou forçado pelo
receio dum mal maior, o funcionário aceita condições duras
que por outro lado lhe não seria permitido recusar, porque
lhe são impostas pelo pelo patrão ou por quem faz oferta do
trabalho, então é isto sofrer uma violência contra a qual a
justiça protesta!"
“Entre os principais deveres do patrão, é necessário colocar,
em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que
convém”, diz também a Rerum Novarum, e observa:
“Certamente, para fixar a justa medida do salário, há
numerosos pontos de vista a considerar.” Estes diferentes
pontos de vista para o salário justo são detalhados pela Papa
Pio XI em Quadragesimo Anno. Trata-se de três fatores: o
sustento do trabalhador e de sua família, a situação da
empresa e as exigências do bem comum.
À procura do salário justo
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 11
O primeiro critério é o mais importante. O trabalho
humano não é uma simples mercadoria, cujo preço pode
ser definido apenas pela lei da oferta e da procura.
Diferente de um produto qualquer, o trabalhador é uma
pessoa e o seu salário é a garantia da sua sobrevivência. Os
pagamentos aos empregados, portanto, podem e devem
variar, conforme a função e a aptidão de cada um, mas um
mínimo tem de ser garantido a todos, sem distinção: o
chamado salário vital, isto é, um valor que garanta o
básico de qualidade de vida para o funcionário e todos os
seus dependentes.
“Deve-se procurar-se com toda força” – diz Pio XI - que os
pais de família recebam uma paga suficiente para cobrir
as despesas ordinárias da casa. E se as atuais condições
não permitem que isto se possa sempre efetuar, exige,
contudo, a justiça social que se introduzam o quanto
antes as necessárias reformas, para que possa assegurar-se
tal salário a todo o operário adulto.” Obviamente, essas
reformas devem ser feitas com bom senso. E é aí que
entram os outros fatores elencados pela DSI.
Não adianta, por exemplo, aumentar os pagamentos sem
.
levar em conta o seu impacto na vida das empresas.
Muitos negócios simplesmente iriam à falência. Da mesma
forma, é preciso ter em conta o bem comum do país. Não
se pode aumentar os pagamentos de improviso, sob pena
de se elevar o desemprego ou arruinar a produção
nacional. O salário vital para o trabalhador e sua família há
de ser, porém, sempre a regra máxima e o ideal a ser
perseguido:
“A justiça social exige que, quanto seja possível, se
regulem os salários de tal modo que o maior número de
operários possa encontrar trabalho e ganhar o necessário
para o sustento da vida" [Quadragesimo Anno]. Nesse
sentido, a Doutrina Social da Igreja apoia todas aquelas
medidas que promovem o salário vital, como os acordos
coletivos de trabalho feitos entre sindicatos e patrões, ou a
política de valorização do salário-mínimo, em que o
Estado estabelece um piso salarial – piso que pode ser
nacional, unificado, ou segmentado, conforme a profissão
e a região do país. Outra medida importante é o salário-
família, que garante um pequeno bônus no pagamento
para cada filho que o funcionário tem.
Infelizmente, porém, mesmo com essas medidas, continua
bastante difícil, na prática, garantir o salário justo. Isto
porque a relação entre patrão e empregado é por natureza
bastante desigual: é muito mais fácil o empresário achar
outro funcionário do que o trabalhar conseguir outro
emprego. Assim, sempre haverá uma boa margem de
manobra para patrões inescrupulosos.
Em suma, o regime salarial, ainda que não seja em si
mesmo injusto, frequentemente dá espaço para a
injustiça. Por isso, diz Pio XI em Quadragesimo Anno, “nas
presentes condições sociais, é preferível, onde se possa,
mitigar os contratos de trabalho, combinando-os com os
de sociedade, como já se começou a fazer de diversos
modos, com não pequena vantagem dos operários e dos
patrões. Desse modo, operários e empregados são
considerados sócios na propriedade ou na gerência, ou
compartilham os lucros”.
Contra as limitações do capitalismo e do regime de
salários, mas sem cair na direção de uma economia
socialista, controlada pelo Estado, a Doutrina Social da
Igreja sempre defendeu o valor das empresas
comunitárias, nas quais os trabalhadores, mais do que
simples assalariados, recebem percentuais dos lucros e
participam da direção dos negócios. “Deve-se tender
sempre para que a empresa se torne uma comunidade de
pessoas, nas relações, nas funções e na situação de todo o
seu pessoal” [Mater et Magistra].
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 12
Graduado e mestre em Filosofia
pela UERJ, Pedro Ribeiro é fundador
e presidente da Comunhão
Popular.
ode ser uma surpresa para as pessoas - ou, muito
provavelmente, não é algo que tenham pensado -
que, tal como temos pais e herdamos as suas
características, o mesmo acontece com as palavras que
usamos diariamente, e não apenas com as palavras, mas
também com as línguas de que fazem parte.
“E daí?”, você poderia se perguntar, “isso não tem nada a
ver comigo”. Bem, talvez sim, mas logo que surge a
necessidade de aprender outra língua – necessidade talvez
causada por uma mudança para o exterior ou uma
mudança de emprego, ou mesmo pela necessidade de
interagir com colegas ou amigos de outros países, a
necessidade de interpretar tanto a sua língua quanto a
deles se torna urgente.
Na Grã-Bretanha, tenho de admitir, não há grandes
incentivos para se aprender línguas estrangeiras, dado ser
o inglês falado amplamente no mundo – por mais
imprudente que isso seja, por vezes. O mesmo se dizia
do francês, porque era a língua diplomática – mas,
exceto nas suas antigas colônias, o inglês (muitas
vezes, infelizmente, na sua forma americana) ul-
trapassou-o em uso em todo o mundo, pelo
menos como uma espécie de língua fran-
ca. No entanto, na escola, os alunos
aprendem francês, às vezes
alemão e, muitas ve-
zes, espanhol. Nos
meus dias de es-
cola, que se de-
ram há algum tempo,
também nos ensinavam latim e, por vezes, grego
antigo. Eu amava o primeiro e detestava o segundo.
Dos dois o latim foi de longe o mais útil para mim.
Todas essas línguas românicas, termo dado às lín-
guas que se desenvolveram em grande parte a
partir do latim vulgar: francês, espanhol, italiano,
português e romeno e todos os seus vários dialetos
e derivados, são bastante semelhantes em compo-
sição e gramática, algumas com uma alta inteligi-
bilidade entre os falantes, outras nem tanto. O
espanhol e o português são próximos e mutuamen-
te inteligíveis, provavelmente mais na América do Sul
do que na Europa, mas o francês e o português, por
exemplo, não são, embora uma grande parte do seu
vocabulário seja semelhante. A pronúncia, a gramática,
a ortografia e as influências de outras línguas ao longo
do tempo aumentam consideravelmente as diferenças e
só uma vez “decodificadas” pelo uso e familiaridade, se
pode perceber que estão realmente ligadas.
O inglês não é derivado do latim vulgar, a língua que os
soldados romanos falavam e deixavam por onde pas-
savam. E o latim de Cícero e César variava enormemen-
te da língua vulgar da plebe. Cícero, de fato, reclamou
que às vezes tinha muita dificuldade em entender as
pessoas comuns, mas não imagino que ele passasse mui-
to tempo tentando. O inglês deriva de raízes germânicas
e, antes disso, de línguas celtas (algumas ainda faladas
na Irlanda, Escócia e País de Gales – não mutuamente
inteligíveis, mas com uma raiz comum).
A Inglaterra foi invadida pelos romanos em 43 d.C. e
ficaram conosco por três séculos e meio, saindo no século
V. Mas os nativos geralmente não falavam latim. Com o
casamento misto, eles ainda teriam uma variedade das
primeiras línguas, mas é um erro associar uma nação
insular ao isolamento: o comércio continuou com nossos
vizinhos próximos no continente, na Escandinávia, no
Mediterrâneo, na África e ainda mais longe. Havia a
necessidade de comunicar. Se não tivessem conseguido,
não teriam sobrevivido.
A invasão seguinte veio dos saxões, jutas e outros (tribos
germânicas da Alemanha, Holanda, Dinamarca e
Escandinávia) em um enorme movimento de pessoas, por
volta de 450 d.C. Muitos dos nossos celtas retiraram-se
para o País de Gales e para outros pontos da Grã-Bretanha
e levaram consigo as suas línguas. Assim se desenvolveu o
que hoje chamamos de anglo-saxão ou inglês antigo – não
da noite para o dia, mas quando passamos para as
invasões vikings (a partir de 800 d.C.), a mistura de línguas
se estabeleceu solidamente: temos literatura dos
mosteiros e obras como Beowulf (séculos VIII a XI)
nos dialetos saxões ocidentais.
Conjectura-se que, se o inglês antigo não
tivesse passado pelo que estava prestes a
acontecer, o inglês e o holandês poderiam
ter acabado por ser bastante próximos.
Mas isso não aconteceu por causa da
Invasão Normanda em 1066 – a Batalha
de Hastings. O detalhe histórico pode
esperar por outro tempo, mas efetiva-
mente o antigo domínio anglo-saxão
com seu reino terminou e nos
mudamos de Haroldo para
Guilherme, o Conquistador. Os
normandos eram, na verdade,
guerreiros de origem viking. Eram
um grupo poderoso, que viajava,
conquistava e assimilava-se nas suas
novas terras. Normandia e Inglaterra eram
duas faces da mesma moeda até que o rei
João “perdeu” a Normandia no século XIII e
a Inglaterra se tornou autônoma de uma for-
ma que não tinha sido até então.
A língua oficial imposta pelos normandos era
o francês normando. Essa era a língua do
conquistador. O anglo-saxão era para os
conquistados, e quem desejava uma vida fácil
aprendia esta nova língua rapidamente. Os
mosteiros e a Igreja (católica na época, claro:
não havia outras Igrejas) foram tomadas, mas
ao mesmo tempo, após a destruição viking
dos séculos anteriores, havia muito a
reconstruir e Guilherme (que estava longe de
ser um pagão sem Deus) ficou chocado com
o estado da Igreja e da nação.
Mas isto não é uma aula de história, estávamos
a falar de línguas. Não demorou para que o inglês
(agora inglês médio) no século XIV se estabele-
cesse na literatura. O autor mais famoso desta
época é Geoffrey Chaucer (1343-1400), famoso,
entre outras obras, por The Canterbury Tales,
uma animada e divertida coletânea de contos de
peregrinos e suas vidas e aventuras. Para o falante do
inglês moderno é preciso algum esforço para ler a obra no
original, que ainda assim é consistente em sua gramática
LÍNGUAS MORTAS E VIVAS
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 13
P
óbvio que a maioria das línguas europeias e indianas, do
extremo oriente e algumas outras, tinham palavras com
origem comum, embora agora tão variadas que são, pelo
menos em suas extremidades, totalmente ininteligíveis. As
minhas competências linguísticas são o inglês, o latim e as
línguas de base latina, pelo que, como linguista, sou um
pouco uma fraude. Se tivesse tempo, viveria para me
familiarizar com o lituano – considerado o mais próximo
do PIE –, com a gramática mais obstruída e casos há muito
esquecidos, herdados do proto-balto-eslavo. Quanto às
línguas indianas, isso é outra história, mas todas elas têm
esse parente distante. Mas não todas. Mesmo na Europa
existem línguas “isoladas” que parecem não ter origem
comum. Tal seria o basco, que antecede o latim. Vá para
as Américas, Indonésia e o Novo Mundo e há muitas mais.
Como não é prático traduzir um artigo do inglês para o
português, vou parar por aqui, pois exemplos não “viajam”,
neste caso. Mas uma das formas mais simples de
comparar as ligações entre línguas é contar de uma a dez.
Russo, latim, línguas PIE. Você tem que muitas vezes
ultrapassar a ortografia e olhar para as raízes. Como
pensamento final, no norte e em algumas outras áreas
remotas da Inglaterra, alguns agricultores ainda usam um
antigo sistema de rimas (“Yan, tan, tethera”) para contar
ovelhas. É muito parecido com o galês (que não é falado
na Inglaterra), mas acontece que é muito próximo do
britônico. Tais oradores remontam à idade do ferro.
Não posso falar em nome das ovelhas, mas elas não
podem queixar-se de falta de coerência. As línguas têm
raízes muito profundas e longas.
simplificada e com vocabulário fortemente influenciado
pelo francês (O inglês moderno atribui cerca de 45% do
seu vocabulário ao francês).
Por esta altura, já se tinham passado três séculos e meio
desde Hastings. O suficiente para estabelecer um governo
estável e uma dinastia, para que as classes se
estabelecessem e o conceito de conquista por estrangeiros
tivesse recuado. A sociedade tinha mudado e a linguagem
também. As invasões haviam cessado. Este foi também o
início da imprensa e o efeito disso em todos os países foi
considerável. A Igreja, como sempre antes da Reforma, foi
poderosa, universal e influente.
O resto (para o inglês) é história, como se costuma dizer.
Com as explorações do século XVI em diante, as guerras e
o Império, o inglês moderno se espalhou rapidamente.
O título menciona línguas mortas: latim, grego antigo,
sânscrito e hebraico vêm à mente como exemplos. A pedra
de Roseta foi a chave para resolver os hieróglifos egípcios
antigos que intrigaram o homem por milhares de anos, até
que esta pedra foi encontrada no final do século XVIII e
então – porque tinha sido traduzida para o grego antigo na
época de Ptolomeu V (204-181 a.C.) – sua escrita demótica
(cotidiana) e os hieróglifos puderam ser finalmente
decodificados. Napoleão encontrou a pedra, que foi
decifrado graças ao trabalho de Thomas Young e Jean-
François Champollion no século XIX. Reside agora no
Museu Britânico, em Londres.
Tanto a língua copta como a grega estavam “mortas”.
Grande parte das escrituras sagradas está em línguas
mortas, mas podemos saber com certeza como se
escreviam e o que significaram. Hindus, budistas e outros
adeptos de textos antigos leem diariamente exatamente o
que seus autores pretendiam que fosse lido. Os judeus
ortodoxos usam o hebraico e seus estudiosos as línguas
mortas. A nossa erudição católica, bem como a liturgia,
durante séculos, teve igualmente os seus sacramentos, a
missa e os ofícios na língua latina até à década de 1970 e,
ao contrário da propaganda de que isso era inevitável, não
houve intenção por parte do Concílio Vaticano II de a
abolir: apenas de permitir uma maior abertura ao
vernáculo (Cf. Sacrosanctum Concilium). Toda esta questão
tornou-se muito controversa, mesmo nos dias de hoje.
Nós, na compreensão quotidiana das nossas línguas
modernas, não precisamos ir mais longe do que o latim
vulgar que mencionei acima. Mas há um tataravô das
línguas (não todas, mas de um número considerável) que é
o protoindo-europeu (PIE). Reunidas a partir de
fragmentos no século XVIII por estudiosos, tornou-se muito
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 14
Britânico, servidor público
aposentado, Jeremy Boot dedica-se
à consultoria privada a respeito das
leis do trabalho no meio rural.
Também organiza e canta em
missas celebradas em rito
tradicional, além de ser um
apreciador de histórias de detetive.
Ocasionalmente, escreve para
periodicos no Reino Unido e em
outros países.
Manuscrito do séc.
XI do poema épico
Beowulf, escrito em
língua anglo-saxã
por volta do séc. VIII
Jean-François Champollion, o decifrador dos hieroglifos
Dossiê
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 15
Um ano jubilar
este ano em que se recorda os 130
anos do nascimento e 40 de morte
de Alceu Amoroso Lima, Scena Crí-
tica foi em busca de um dos mais
autorizados especialistas na obra de
Tristão de Athayde na atualidade. Doutor
em Letras pela PUC-Rio, professor de
Teoria da Literatura e Literatura
Comparada da Faculdade de Letras da
UFMG e editor da centenária revista A
Ordem, o professor Leandro Garcia
Rodrigues publicou há pouco um denso
volume contendo a troca de
correspondências entre Alceu e o poeta
alagoano Jorge de Lima. Numa conversa
descontraída, ele nos insere em
importantes aspectos da presença de
Alceu em nossa história literária.
Scena Crítica: Como o senhor
compreende 2023 no contexto da
literatura nacional?
Leandro Garcia: O ano de 1893 na
literatura brasileira é singular, porque é o
ano em que nascem algumas figuras
importantíssimas, como, Alceu Amoroso
Lima, Jorge de Lima, Mário de Andrade,
padre Leonel Franca, fundador da PUC-Rio,
Ronald de Carvalho...
Percebe-se, assim, que 1893 é um ano em
que nascem cinco grandes nomes da
tradição literária brasileira.
Dessa forma, 2023 marca a comemoração
dos 130 de nascimento e 40 anos da
memória da Páscoa de Alceu Amoroso
Lima, falecido em 1983 e, no caso do Jorge
de Lima, os 130 de nascimento e 70 de
morte, pois ele faleceu em 1953.
Portanto, eu creio que, certamente, 2023 é
um ano jubilar no contexto da literatura
nacional.
SC: O senhor recentemente lançou as
correspondências inéditas entre Alceu e
Jorge de Lima. Como foi o processo de
pesquisa?
Leandro Garcia: Em 2017, participei das
comemorações dos 200 anos de Alagoas, e
nesta ocasião foram lançados uma série de
editais de fomento à cultura. Havia editais
para cinema, artes plásticas, teatro,
música, e também um edital para
literatura, ou seja, para produção literária.
Inicialmente fiquei um tanto receoso de
participar, porque era apenas uma vaga
para cada categoria, além de não ser resi-
dente em Alagoas, pois é comum que
nesses editais de celebrações de estado ou
de município que o candidato seja
obrigatoriamente domiciliado no
respectivo estado. No entanto, não havia
nenhuma cláusula no edital em questão.
Então, eu apliquei para o edital de
fomento à literatura com a proposta de
organizar a correspondência inédita entre
Alceu Amoroso Lima e Jorge de Lima.
Eu creio que o principal e maior nome da
poesia alagoana é Jorge de Lima, e foi com
quem o Dr. Alceu trocou a maior parcela
das suas correspondências em vida. Isso eu
já sabia por conhecer bem o arquivo dele
na casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro e
o arquivo do Dr. Alceu em Petrópolis.
A aprovação do projeto saiu no início de
2018, quando comecei a fazer a pesquisa.
Então 2018 e 2019 foram basicamente para
levantar a documentação. Eu precisava
saber o que havia nessas
correspondências, o quantitativo certo de
cartas, não só, mas também de outros
textos, como poemas inéditos, fotografias,
crônicas, textos de imprensa, pois a
correspondência não é apenas a troca
epistolar, ou seja, a troca de missivas. A
correspondência é uma troca de afetos.
E nessa linha de “troca de afetos” pode
haver várias outras tipologias textuais que
não apenas a carta.
No período de pesquisa tive que me
desdobrar em três lugares: em Petrópolis,
no arquivo do Dr. Alceu onde estão as
cartas do Jorge Lima para o Alceu; no Rio
de Janeiro, onde estão as cartas do Alceu
para o Jorge Lima, na Fundação Casa de
Rui Barbosa e também no arquivo do
Jorge Lima no Instituto Histórico de
Alagoas, do qual ele participou e foi
membro, além da Academia Alagoana de
Letras, da qual ele foi um dos fundadores.
O ano de 2018 foi para fazer o
levantamento. Em 2019 eu comecei, então,
a fazer a transcrição das cartas, ou seja, eu
deixei 2019 para transcrever tudo o que o
Jorge de Lima havia enviado para o Alceu
e que estava no arquivo dele em
Petrópolis. E quando eu falo transcrever, é
transcrever mesmo, pois esses
documentos estão todos manuscritos e
alguns datilografados. O trabalho consistia
realmente em tomar o documento original
na esquerda, o meu notebook no meio e
ficar encarando-o, digitando e
transcrevendo.
SC: Fale um pouco da figura de Alceu
Amoroso Lima como crítico literário.
Leandro Garcia: O Alceu começa com a
crítica literária em 1919. Note-se que é um
pouco anterior ao modernismo de 1922.
Ele fez um reconhecimento único na
literatura brasileira que foi o
reconhecimento de Lima Barreto, o autor
de O triste fim de Policarpo Quaresma.
Lima Barreto em vida reclamava ser vítima
do que se chamava “conspiração do
silêncio”. A conspiração do silêncio
consistia em não ser nem elogiado nem
criticado pela crítica literária, em síntese
não ser mencionado.
Ainda em 1919, o Alceu publica um texto
intitulado “Um discípulo de Machado”, que
finalmente irá valorizar, finalmente, o valor
literário de Lima Barreto alçando-o a
linhagem de Machado de Assis, isso ainda
N
Entrevista com o prof. Leandro Garcia Rodrigues
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 16
três anos antes do modernismo.
Em fevereiro de 1922 ocorre a Semana de
Arte Moderna de São Paulo, e o Alceu
toma ciência do acontecimento, ainda que
não tenha havido repercussão no Rio de
Janeiro, exceto por um release de 5 linhas
em uma pequena revista popularesca
chamada “Para todos”, que a chamou de
Semana Futurista.
O Alceu já reconhecia que o que havia
acontecido em São Paulo marcava um
divisor de águas na modernidade literária
brasileira. Então, a partir deste momento,
ele irá mapear o contexto literário
brasileiro, mantendo correspondências
com os maiores expoentes da literatura
naquele momento em todas as regiões do
país.
Nessa época o Alceu escrevia para três
revistas especializadas, além de jornais de
grande circulação no Rio de Janeiro,
recordando que tratava-se de um Rio de
Janeiro ainda capital federal, onde toda
efervescência cultural tinha lugar, onde
praticamente todas as instituições
relevantes para a cultura estavam
presentes.Por isso, me atrevo a dizer que o
Alceu é o crítico literário de maior
importância no período do modernismo,
pois ele mapeou o cenário literário
brasileiro de modo a divulgar mais
efetivamente esses novos nomes.
SC: Como o senhor enxerga o processo
de conversão dele?
Leandro Garcia: O correto a falar seria
“reconversão”, uma vez que o Alceu, como
qualquer outro brasileiro de seu tempo,
havia sido batizado, além de estar em um
SC: Por que um recém converso foi
considerado o nome ideal para o
Cardeal Leme elegê-lo com líder do
laicato após Jackson de Figueiredo?
Leandro Garcia: Parece que era natural.
Com a morte de Jackson de Figueiredo em
1928, o Alceu aparecia como o único com
as capacidades de articulação no campo
da cultura e da vida social para
desempenhar a árdua tarefa de conduzir o
laicato nacional. Isto ele fez no Centro
Dom Vital, que nesse período reunia filiais
por todo o Brasil, chegando mesmo a
reunir intelectuais que a priori eram
absolutamente hostis à religião, como foi o
caso de Mario de Andrade, por muitos
anos sócio e frequentador ativo das
reuniões no Centro Dom Vital, além de
colaborador esporádico da revista A
Ordem.
Creio que a função mais importante no
contexto do laicato era a liderança da
Ação Católica, e creio que a experiência do
Alceu no contexto da universidade
proporcionou uma dinâmica toda nova e
muito eficiente para o movimento. O
Alceu comandava as associações ligadas à
Ação Católica como se comanda uma
universidade, lembrando que neste
período ele era reitor da Universidade do
Distrito Federal. As associações eram para
ele como que os vários departamentos de
uma universidade com particularidades,
hierarquia e áreas afins no saber, o que
dinamizou muitíssimo o funcionamento
dessas muitas associações de leigos.
SC: Uma questão um pouco fora do
escopo. O senhor como docente em
uma grande universidade, como
enxerga os esforços e os desafios no
campo do apostolado para o público
universitário?
Leandro Garcia: O contexto das
universidades é certamente de muita
aridez no que diz respeito à religião, e não
raramente um ambiente de hostilidade a
ela. No entanto, me parece haver uma
ausência de lideranças intelectuais
advindas do clero, em um momento em
que os jovens têm acesso farto à
informação. É mais do que urgente que o
sacerdote possua a expertise para
responder às diversas demandas que
advém nesse contexto.
Me parece também que no campo da
estratégia, não é pertinente neste
momento e neste contexto que o discurso
inicie pela conversão. Na verdade, me
parece que se deva inicialmente pensar na
convivência como um meio mais efetivo
para se dar passos. Inclusive, creio que se
devam procurar pautas que possar criar
uma intercessão entre a religião e as
necessidades e questões objetivas do
ambiente da universidade. Eu creio que a
única postura possível é a do convívio.
contexto em que a cultura religiosa era
muito presente na formação dos
indivíduos.
O que ocorreu com o Alceu, que vindo de
uma família abastada, é que recebeu parte
de sua formação no Colégio Pedro II, onde
boa parte da elite frequentava, e neste
momento do início do século XX o colégio
era um grande centro de irradiação do
positivismo, pelo qual o Alceu foi muito
influenciado nesse período.
Já na década de 1920 ele inicia sua
correspondência com Jackson de
Figueiredo e, ainda que, curiosamente,
tenham se encontrado pouquíssimas
vezes, foi ele o tutor da reconversão do
Alceu que culminará em 1929.
É preciso distinguir pelo menos três fases
do pensamento religioso de Alceu
Amoroso Lima. O primeiro, que é uma fase
mais influenciada por Jackson de
Figueiredo, é o de uma catolicismo mais
ultramontano e apologética que se
estende desde a sua conversão até
meados dos anos de 1940, quando Alceu
começa a ter contato com o humanismo
de Jacques Maritain, que definitivamente
lhe será paradoxal, além da morte de Dom
Sebastião Leme em 1942 que concede
certa liberdade de consciência a ele para
especular mais no campo da consciência
religiosa na vida social.Outro nome que
pode ser citado neste período é o do
monge trapista Thomas Merton, com
quem Alceu manteve intensa
correspondência, e com quem ele teve os
primeiros contatos com a ideia do
ecumenismo e do diálogo inter-religioso.
A terceira e última fase brota nos anos
1960, quando Alceu foi emissário leigo no
Concílio Vaticano II e retorna de Roma
entusiasmado com as mudanças advindas
quer no campo da liturgia quer na
dinâmica da pastoral. Há a partir daí um
estreitamento das relações,
especialmente, com Dom Hélder Câmara,
e outros nomes da ala progressista da
Igreja no Brasil. Houve, sem dúvida uma
aproximação com a teologia da libertação
nesse período.
Então são três fases bem distintas de um
homem que ao referir-se à sua vida
costumava dizer que foi “de bombeiro a
incendiário”.
Conhecimento e poder
segundo Michel Foucault
presente artigo está voltado para a discussão encontrada na
produção filosófica de Michel Foucault identificada pelos
estudiosos do seu pensamento como a fase do "segundo
Foucault", na qual se destaca uma reflexão que pretende superar o
formalismo atestado pelas estruturas do a priori histórico próprias
da primeira fase do seu pensamento. De fato, no segundo Foucault
se evidencia as relações de poder como fomentadoras do
conhecimento, e sendo o poder uma realidade não substancial, ou
seja, algo que não existe em si, mas nas mais variadas relações
existentes, sendo elas instáveis, consequentemente o poder não
pode ter um caráter formal, e ao engendrar o conhecimento, por
conseguinte, faz com que este não esteja fundado em uma
estrutura estável de caráter formal, mas seja uma realidade dispersa
(DELEUZE, 1995, p. 35).
Para Foucault, a relação entre conhecimento científico e poder
político não pode ser entendida como uma relação externa incapaz
de afetar o conteúdo da própria ciência. Segundo essa concepção,
por mais que os contextos sociais e políticos apresentem as
questões sobre as quais o conhecimento irá se debruçar, a política
não é capaz de influenciar as respostas oferecidas pela ciência.
Neste caso, as respostas dadas pela ciência são tomadas como
objetivas e verdadeiras seja qual for o contexto envolvido.
Ao contrário, Foucault vai admitir que a relação entre conhecimento
científico e político é, sobretudo, uma relação interna:
O
presente na sociedade. Assim sendo, as ciências humanas,
como a psicologia, por exemplo, são instrumentos
desenvolvidos e controlados por uma intenção clara de
disciplinação.
Assim sendo, a grande novidade apresentada por Foucault
reside na análise das instituições como produtoras de uma
noção de homem que se afasta da tradição filosófica.
Nesse sentido, a filosofia é considerada por Foucault
como uma prática aberta que não se reduz aos
considerados signos filosóficos. A função da filosofia está
em acompanhar os ritmos da história, não tentando
enquadrá-la em um sistema, mas acompanhar o seu
movimento de tal forma que os acontecimentos acabam
por se apresentar como uma fonte inesgotável de
renovação para o nosso conhecimento e para moral.
(Pestaña 2011, 23-24)
Essa visão aberta sobre a história faz perceber que ela não
pode ser pensada como uma disciplina neutra, mas é
profundamente influenciada e ligada a uma concepção
jurídica de poder. A história enquanto disciplina que se
volta ao passado tem uma função de legitimação de um
conceito jurídico de poder. Assim sendo, o poder é o
substrato que permite contar a história. O poder
estabelece a episteme, ou seja, o saber da política.
A análise da conexão entre as relações de poder e o
conhecimento científico leva Foucault a uma reflexão
sobre o processo de governamentalização responsável pelo
nascimento de uma forma de cultura geral. A pergunta
sobre o que significa governar exige uma pergunta
anterior, que reside na questão de como não ser
governado. Dessa forma, podemos considerar a história da
governamentalidade como uma “análise que pretende
indicar o tipo específico de racionalidade política e
tecnologia do poder que foi implementado no exercício do
poder do Estado moderno”. (Oskala 2011, 104)
Foucault também indica o poder individualizante
característica da governamentalidade. Segundo Foucault,
a característica individualizante que se desenvolve no
Estado moderno é antagônica, e tem por objetivo manter
a centralização do poder não por meio do controle de um
objeto geral, como é o caso da população, mas se refere
“ao desenvolvimento de tecnologias de poder orientadas
para indivíduos numa tentativa de orientar-lhes a conduta
de maneira contínua e permanente”.(Oskala 2011, 104)
Em suma, verifica-se no segundo Foucault uma análise do
poder político por meio da racionalidade que se inscreve
em suas práticas. Aqui, deveremos considerar que a
relação saber e política é responsável por estabelecer a
política da verdade, isto é, organizar e controlar por meio
dos regimes políticos os indivíduos através de uma
representação da ordem das coisas que é apresentada
como sendo verdadeira.
Bibliografia
FOUCAULT, M. Les mots et les choses. Paris: Gallimard 1966.
DELEUZE, G. Foucault. Madrid 1995.
OKSALA, J. Como ler Foucault. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
PESTAÑA, J. L. M. Foucault y la política. Madrid: Tierradenadie, 2011.
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 17
A afirmação de Foucault sobre o entrelaçamento de poder e saber é
por vezes mais forte. A seu ver, a relação entre ambos é interna: o
contexto social e político do conhecimento científico também molda o
conteúdo do próprio conhecimento científico... Ele (Foucault) sustenta
com toda clareza que a ciência é uma prática social. Todas as
sociedades têm práticas e instituições para a produção do saber, e o
desenvolvimento da ciência é uma atividade necessariamente social,
não individual. Os elementos do saber têm de se conformar a um
conjunto de regras e limitações características de um dado tipo de
discurso científico num dado período (OSKALA, 2011, p. 64-65).
Posto isso, podemos verificar a posição de Foucault sobre o
indivíduo como uma realidade que não é princípio nem condição de
possibilidade, mas como conseqüência do complicado aparato que
define a modernidade. Daí entendermos a célebre frase cunhada
por Foucault em Les mots et les choses: o homem é uma invenção
recente na história de nosso pensamento, e talvez o seu fim esteja
próximo (FOUCAULT, 1966, p. 398).
Destacamos, assim, a reflexão feita por Foucault que se afasta de
uma perspectiva mais discursiva e epistemológica propriamente
dita para voltar-se a uma reflexão sobre a prática política. Nesse
caso, o tema da epistemologia está diluído na prática exercida pela
política, principalmente no que se refere à dimensão disciplinar
Marcos Paulo Galvão é doutor em
Filosofia pela Pontificia Università
Gregoriana, onde defendeu a tese A
política do saber e o saber da
política: a dialética de resistência e
liberdade segundo Michel
Foucault.
mas de autorizações dos
colonizadores portugueses.
São José de Anchieta
entendeu perfeitamente o
“ide” anunciado pelo seu
Senhor como narra o
Evangelista Marcos (cf. 16,15).
Seu desejo de dar a conhecer
a salvação e a civilidade
eram maiores que suas
limitações corporais. Foi
graças a este testemunho
cristão que logo ganhou a
confiança dos nativos e a
cooperação deles, como
assim narra o autor.
A obra apresenta desde suas
primeiras páginas, o agir da
Virgem Santíssima e da
providência de Deus. E tudo
Livro aberto
ANCHIETA, O APÓSTOLO DO BRASIL
Joaquim Tomás
assim fez José de Anchieta.
O Apóstolo do Brasil, levado pela audácia missionária,
percorre as terras selvagens levando ao povo a civilidade.
A obra narra, a partir de fontes primárias, os
comportamentos canibais das tribos, bem como os
inúmeros confrontos entre os indígenas. Anchieta vê
nestes comportamentos o lugar propício para o agir de
Deus que transforma “corações de pedra em coração de
carne” (cf. Ez 36,26).
Em suas explanações, o autor faz o leitor conhecer este
jovem missionário, mostrando que todo o mérito de sua
jornada heroica é, unicamente, fruto da intercessão da
Santíssima Virgem e da misericórdia de Deus. Anchieta
não é um jovem com potenciais físicos para grandes
missões. Por isso, dentre tantos outros pontos, a obra
apresenta essas duas dimensões importantíssimas: fé e
educação.
Na atual situação educacional e religiosa de nosso País,
faz-se necessário conhecer a essência desta “Terra de
Santa Cruz”. Anchieta não busca uma educação
libertadora. Mas uma educação que possa conjugar fé e
vida; entendendo que a partir do seu único mestre, Jesus
Cristo, é possível levar o homem a entender a si mesmo e
ao desejo de seu Criador, ou seja, as verdades imutáveis e
o Céu.
Joaquim Tomás apresenta os diferentes dons do “pai da
educação deste País”: José de Anchieta era um jovem
poeta, músico, escritor, dramaturgo, catequista, entre
tantas outras coisas. Todos estes dons foram instrumentos
para a educação dos nativos. Além disso, ele fez uso
daquilo que era próprio da cultura dos indígenas,
aprendendo, até mesmo a língua nativa e sendo o
primeiro a escrever a gramática da língua tupi.
Outros pontos importantes sobre este santo homem foram
seus esforços em construir escolas em São Paulo, Rio e
Vitória para a educação dos nativos. Sem contar tantos
outros grandes feitos realizados em favor dos índios.
Principalmente em tempos tão complexos onde suas
atitudes missionárias não dependiam só de seus esforços,
oaquim Tomás, na obra
Anchieta, o Apóstolo do
Brasil faz uma abordagem
clara e sucinta sobre “o
Brasil selvagem – ambiente
encontrado pelos jesuítas”.
As narrativas que
comumente nos são
apresentadas dentro das
escolas e universidades, não
condizem, de fato, com a
real situação deste país ou
os pormenores do início de
sua fundação. O autor, não
só apresenta o Brasil
colonial, mas um verdadeiro
convite a entregar-se a
providência de Deus, como
18
Abril-junho 2023 | Scena Crítica
TOMÁS, Joaquim. Anchieta, o apóstolo do Brasil. Dois
Irmãos, RS: Minha Biblioteca Católica, 2020.
Graduado em filosofia, com
formação em teologia e
especialidade em psicopedagogia,
Jeciandro Pessoa desenvolve nas
redes sociais o projeto Pensar
catequese.
J
que se refere ao personagem principal, ou seja, José de
Anchieta, indica que sua vida é tecida unicamente pela
ação misericordiosa do Pai. Sua partida para uma terra
desconhecida, sua aproximação dos nativos, a fraternidade
construída e seu jeito terno de educar e usar daquilo que
corria no sangue daquele povo (a arte); tudo isso é
expresso de maneira bela, mesmo nos espinhos de sua
jornada.
Hoje se faz necessário “não perder de vista o nosso ponto
de partida”. A educação atual precisa redescobrir aquela
busca mais genuína, a Verdade do homem, sua
constituição como pessoa, como portador de uma
dignidade inviolável. Toda educação deve girar em torno
disso: quem sou e para onde vou. Desvencilhando-se
daquilo que é efêmero e passageiro, mas recordando-se
aquilo que é Eterno.
A vida do “pai da educação deste País” é um verdadeiro
testemunho para os educadores e para aqueles que têm
desejo de conhecer a Verdade. Fazendo com que “tenha
em vossos corações o mesmo sentimento de Cristo” (cf. Fl
2,5). Pois só Ele é aquilo que buscamos: Caminho, Verdade
e Vida.
Ó eterna infâmia que nunca se apaga
Teria que ser eu mais uma de tuas vítimas?
Por que me humilhar, me jogar no chão
E me recordar que sou eu e minhas circunstânias?
Não era suficiente alertar-me que minhas misérias
Eram demasiadas
E ainda mais me jogas na cara que não passo de
um átomo
Um nada
Onde a insignificancia do mundo encontrou seu
esplendor e sua glória
E tornando-me objeto do riso dos bêbados
Ao menos sinto ser útil para alguma coisa
E se pouca coisa sou
ao menos deixem-me causar momentos de
hilaridade
nos únicos que são capazes de dizer a verdade
que tantos hipocritamente querem esconder
E assim
É essa verdade o que mais doi
A candeia a obscurecer a claridade que eu
imaginava ter
O antisséptico a causar as piores inflamações nas
feridas
abertas pela espada afiada da paixão
que supostamente era a resposta dos males do
mundo
É na verdade o maior dos males inventado pelos
poetas
Algo que te consome sem te destruir
Um assassino frio e cruel que rejeita o tiro de
misericórdia
E zombas de ti quando por algum motivo bizarro
Encontra forças para continuar ainda que a
maldita circunstância
Venha fazer mais uma de suas insuportáveis
travessuras
Te afastando daquilo que amas
Te levando para os braços da rainha da morte
Ágοrα
Praça de divulgação literária
19
Abril-junho 2023 | Scena Crítica
Natanael Faria de Abreu, mineiro, escritor e
compositor. É autor dos romances Pintando o
7 em 22, O Sorriso de Eva e 49 dias e 40
anoites (inédito).
A neblina e o vento
A vida é uma estrada tomada
pela neblina e pelo vento.
Vi amores sumindo na névoa
da estrada da vida:
pessoas sumindo,
coisas sumindo .
Neblina profunda obscurecendo nossas
estimações.
Memórias perdidas nas madrugadas do
tempo...
Tempos do tudo.
Tempos do nada.
O sorriso infantil se perdeu.
O abraço fraternal se perdeu.
O estar junto se perdeu.
Os desamores se perderam.
Temos o vento que empurra velhas neblinas
até que novas neblinas venham a encobrir
nosvos esquecimentos,
novas lembranças...
Alessandro di Borgia
Ju
a
n
O
so
r
n
o
Que é a solidão que somente é conhecida
Daqueles que são rodeados por gente sóbria e
sã
Gente incapaz de entender que sua
sobriedade é pura ilusão
Pois ser sóbrio neste mundo louco é um luxo
demasiado caro
Uma fantasia, uma quimera de quem gosta de
ser enganado
A acreditar que tens o controle da situação
Mas não, as circunstancias não permitem
E se queres um pouco de paz
Somente aceite que não es dono de si
Mas escravo da circunstâcia funesta
Que te persegue com os capitães-do-mato de
tua própria condição humana
E deste embaraço só consegues escapar
Quando juntar-te aos bêbados
Para que um outro desgraçado seja motivo de
riso para ti.
E assim esse mundo gira até que a morte nos
separe.
Gostaria de ter seu texto divulgado na
Ágora? Confere lá no nosso site
(scenacritica.blogspot.com) as regras
para submissão. Poemas, cronicas,
contos, resenhas, todos tem espaço em
nossa praça de divulgação literária.
Uma vida reflexiva
Eu pensei seriamente na minha vida e na
minha existência.
Sei que foi um presente, desde que era
inconciente.
Difícil acreditar que existo
por simplesmente existir, e vivo por mim.
Se fosse assim, que sentido teria ela
de ser tão perfeita?
O fim é tão duro de pensar,
me dá medo só de imaginar.
Nem mesmo meus sonhos são capazes de
ilustrar.
A escuridão não é algo concreto, isso é fato,
porém, a conclusão é algo a ser velada.
Não sei qual será o meu fim
mas eu gostaria de ser perdoado.
Me pego pensando no tempo enquanto respiro
e até o último suspiro espero ter me
encontrado.
Num mundo além da minha cabeça, que
apenas morrendo entenderei do que falo.
Yasmin Ramos, nascida em Campina Grande
PB, porém, criada no Rio de Janeiro, em
Inhaúma. Estudante do Colégio Pedro II,
apaixonada por artes e uma escritora amadora.
Um Papa jesuíta analisa Pascal
o dia 19 de junho de 2023, o Papa Francisco
apresenta à Igreja a carta apostólica Sublimitas et
miseria hominis, sobre o filósofo francês Blaise
Pascal. É deveras curioso que seja justamente um
papa da Companhia de Jesus, os inimigos
históricos de Pascal, que tenha escrito um
documento com o intuito de prestar-lhe
“uma especial homenagem”, nas palavras
do Romano Pontífice. Francisco propõe
o filósofo como um fiel leigo que teste-
munhou a alegria do Cristo.
Antes de entrar no conteúdo da refe-
rida carta apostólica, é necessário
um pequeno resumo da sua vida.
Pascal nasceu em Clermont-
Ferrand na província de
Auvergne, em 19 de junho
de 1623, filho de Étienne
Pascal e Antoinette
Begon. Seu pai era
matemático e desde ce-
do ensinou-lhe as línguas
clássicas e a matemática.
O menino demonstrou
ser um prodígio, escre-
vendo em tenra idade
tratados sobre o som,
sobre as cônicas, fazendo
experimentos com o vácuo
e inventando antes dos 20
anos a primeira máquina
de calcular.
Em 1646 Pascal toma
contato com o
jansenismo, que iria
marcar profunda-
mente sua vida e
seu pensamento.
Entrou em polê-
mica com os
jesuítas em
questão de moral
e casuística,
legando à poste-
ridade as Cartas
provinciais,
verdadeiro mo-
numento da
língua francesa.
Mas a obra pela
qual ele é mais
conhecido é aquela que ele nunca terminou. Na tentativa
de defender a fé contra os racionalistas e libertinos, o
filósofo escreveu seus pensamentos em folhas avulsas no
intuito de reuni-los depois em uma única obra. Morreu em
Paris, no dia 19 de agosto de 1662 sem que pudesse
completar sua desejada obra. Sua irmã e seus amigos
juntaram os fragmentos e deram ao público em 1670 a
primeira edição dos Pensamentos, que até hoje são lidos
e discutidos.
O documento papal não é, entretanto, o primeiro pronun-
N
ciamento público do atual pontífice sobre Blaise Pascal.
Em entrevista publicada no jornal italiano La Reppublica,
em junho de 2017, Eugenio Scalfari perguntara ao papa o
que ele achava do filósofo francês, e a resposta
de Francisco surpreenderia o próprio Pascal:
“anch'io penso che [Pascal] meriti la beati-
ficazione”[1]. Como? Um jansenista, mere-
cer? Aqui se faz necessário também
explicar o que é o jansenismo.
É complexo categorizar o que seja a
heresia jansenista, pois seus adeptos
inauguraram um novo modo de ser
herege. Quando Nestório, patriarca de
Constantinopla, começou a negar, no
século V, que a Virgem Maria fosse mãe
de Deus, o bispo de Roma na época,
São Leão Magno, condenou sua tese
como heresia; Nestório, porém recu-
sou submeter-se à Santa Sé. O mesmo
se deu com os monofisistas, que negavam
que Jesus tivesse duas naturezas, e os
monotelistas, que negavam que Jesus
tivesse duas vontades. Uma vez condenados
por Roma, preferiram sair e fundar
suas próprias igrejas. Ao longo da
história foi o que aconteceu
com todos aqueles que foram
considerados hereges, até
surgir o Jansenismo. Os
adeptos da heresia
jansenista, por mais
que fossem conde-
nados por Roma,
recusavam-se a
sair da Igreja
Católica[2].
Apelando a
tantos subter-
fúgios, ora
negando, ora
afirmando,
ora negando
que houves-
sem negado
ou afirmado,
os sequazes da
tal doutrina
fizeram com
que a própria
heresia apre-
sentasse aspe-
ctos camaleônicos. O meio mais seguro para conhecer o
que foi o Jansenismo é através das cinco proposições
contidas no Augustinus, escrito pelo bispo Cornélio
Jansênio, e condenadas pelo papa Inocêncio X, na bula
Cum occasione, de 1658. Cinco foram as proposições
condenadas: que alguns mandamentos divinos nem pelos
justos podem ser cumpridos, por falta de necessária graça;
que o homem não pode resistir à graça interior; que para o
mérito, no estado de natureza decaída, basta a isenção da
violência física, ainda que sob a pressão da necessidade;
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 20
É difícil dizer algo definitivo, afinal, o autor nunca
conseguiu terminar sua Apologia. O fato é que ele admite
que o ser humano pode ter alguma participação na
obtenção da fé, e isso já soa bem estranho para um
adepto do jansenismo.
Sabe-se que o jansenismo era extremamente austero e
rigorista e que Pascal se interessou por essa moral; por
isso, alguns pensam, erroneamente, que o jansenismo
influenciou Pascal nos trechos em que este defendeu o
ódio por si mesmo: “o eu é odioso [...] odiá-lo-ei
sempre”[6]; “é preciso amar só a Deus e só odiar a si
mesmo”[7]; “devemos odiar-nos a nós mesmos, e a tudo
que nos excite a outro liame que não seja Deus
somente”[8]; “a verdadeira e única virtude consiste, pois,
em odiar a si mesmo”[9]; “quem não odeia em si o seu
amor-próprio, e esse instinto que o leva a fazer-se Deus, é
bem cego”[10].
No entanto, por incrível que pareça, a espiritualidade do
ódio a si não é algo próprio ao jansenismo, mas algo
prevalente nos autores espirituais daquele período. Por
exemplo, o maior pregador antijansenista do século XVIII,
Luís Maria Grignion de Montfort, canonizado em 1947,
escreveu numa de suas obras de polêmica antijansenista:
que é erro semipelagiano julgar que a vontade humana
pode seguir ou repelir a graça e que é semipelagiano dizer
que Jesus morreu por todos os homens. Segundo Jackson
de Figueiredo, todas essas proposições “se poderiam
resumir em uma só: A graça de Deus é predestinada e
eficaz – o que quer dizer: Deus tem eleitos e estes sempre
o foram de toda a Eternidade”[3]. Era, dessa forma, uma
espécie de “calvinismo católico”.
Porém, ainda há debates sobre até que ponto Pascal
aderiu aos aspectos dogmáticos do jansenismo, sobretudo
no que diz respeito à predestinação e à participação do
homem na obtenção da graça. Ele acredita que mesmo o
descrente pode obter a fé quando age como se possuísse
fé. Aqui surge uma discussão interessante. Se ele era
jansenista, como pode aceitar que haja alguma
participação do homem na obtenção da graça divina, da
graça da fé? Os comentadores do filósofo ainda debatem
quanto a isso. A questão da predestinação também é um
assunto espinhoso, alguns defendem que ele acreditava,
outros que não.
Souriau diz que:
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 21
Seus Pensamentos são sobretudo uma exposição do
jansenismo exasperado, um novo Augustinus, revisto e
consideravelmente agravado. Se tivesse tido tempo de
terminar seu livro, estamos no direito de afirmar que, na
parte dogmática, ele teria tentado mostrar nos jansenistas
os únicos verdadeiros discípulos de Jesus; [...] ele estaria
obstinado em convencer o público geral que os adversários
de Port-Royal não eram verdadeiros cristãos.[4]
Enquanto Stewart defende que Pascal permaneceu do
lado dos jansenistas mais por causa da moral que por
causa da doutrina:
Pascal não era, ao menos em doutrina, um completo
jansenista. No profundo drama que está sempre sendo
representado entre a alma e Deus, ele parece, enquanto
confessa ignorância do processo, permitir alguma parte da
vontade humana, enxergar uma centelha no seio humano,
que pode ser soprada até as chamas pela operação do
espírito divino. Ele se recusa a considerar o homem como
um mero fantoche, ele salvaguarda sua autonomia e
liberdade. Mesmo assim, na história, ele permanece com os
jansenistas. Ele não pode ser dissociado deles. Por quê?
Principalmente por causa da moralidade.[5]
Por que nos admirar de ter Nosso Senhor dito que quem
quisesse segui-lo devia renunciar a si mesmo e odiar a
própria alma; que aquele que amasse sua alma a perderia e
quem a odiasse se salvaria? (Jo 12, 25) A Sabedoria infinita,
que não dá ordens sem motivo, só ordena que nos odiemos
porque somos grandemente dignos de ódio: só Deus é
digno de amor, enquanto nada há mais digno de ódio do
que nós.[11]
Do mesmo modo, o livro espiritual mais lido da história, A
Imitação de Cristo, escrito no século XV, ensina que “o
amor de Jesus faz com que o homem se despreze a si
mesmo”[12] e que “aquele que se conhece bem despreza-
se e não se compraz em humanos louvores”[13] e também
que “não há melhor e mais útil estudo que conhecer-se
perfeitamente e desprezar-se a si mesmo”[14].
Claro que não se pode negar que o jansenismo foi uma
resposta austera contra o laxismo de alguns jesuítas, mas
não é a austeridade que faz o jansenismo ser o que ele é.
Também quem enxerga nesse sistema simplesmente a
corrupção total da natureza humana ainda não chegou ao
âmago do que é o jansenismo. Mais uma vez, um texto
que poderia ser repetido pela pena de qualquer jansenista
é, na verdade, um texto de um ardoroso antijansenista:
Para despojarmo-nos de nós mesmos, é preciso conhecer
primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso
fundo de maldade, nossa incapacidade para todo bem,
nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em
todo tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa
iniquidade em todo lugar. O pecado de nossos primeiros
pais nos estragou completamente, nos azedou, inchou e
corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a
massa em que é posto [...] toda nossa herança é orgulho e
cegueira no espírito, endurecimento no coração, fraqueza e
inconstância na alma, concupiscência, paixões revoltadas e
doenças no corpo [...] tudo que temos em nosso íntimo é
nada e pecado, e só merecemos a ira de Deus e o inferno
eterno.[15]
O ponto capital da doutrina cristã em geral e de Jansênio
em particular no qual Pascal irá basear sua visão da
humanidade é o “dogma da queda, base de toda a sua
filosofia, como que o centro da sua concepção da vida”.
Mas há outro ponto do jansenismo no qual Blaise irá
fundamentar sua antropologia, filosofia e teologia: o
cristocentrismo radical. Como se verá mais a frente, Pascal
vê em Jesus Cristo a única solução para o problema da
condição humana. Para os jansenistas de nada valiam a
devoção aos santos e à Virgem Maria. Para os sequazes de
Jansênio, como a graça de Deus é predeterminada e o
homem nada pode fazer para merecê-la, só Jesus Cristo e
Três pontos podem se destacar nesse parágrafo de
Francisco. Primeiro, ele reconhece a validade dos
argumentos jansenistas em favor da não condenação do
Augistinus de Jansênio, isto é, que as proposições
condenadas pela bula Cum occasione não se encontravam
no livro. Por muitos anos a controvérsia jansenista girou
não em torno da verdade ou falsidade das proposições
condenadas, mas se elas estavam realmente presentes no
livro escrito por Jansênio. Os jansenistas defendiam que
não estavam enquanto os seus adversários defendiam que
sim.
Em segundo lugar, Francisco parece reconhecer que a
interpretação de Jansênio sobre a doutrina agostiniana da
predestinação é legítima, um “aperfeiçoamento” do
pensamento agostiniano. É preciso frisar que isso não
significa que essas ideias estivessem corretas do ponto de
vista da ortodoxia católica, mas tão somente que o
Jansênio não era um falsificador da doutrina agostiniana
como alguns pensaram. O papa reconhece que tais
fórmulas, apesar de incorretas, seriam conclusões lógicas
das premissas agostinianas.
O último ponto é o reconhecimento da sinceridade de
Pascal. E aqui Francisco agiu como um casuísta do século
XVII: se não pôde desculpar a ação, ao menos desculpou a
intenção de Blaise Pascal. Sim, é possível ser jesuíta e
pascaliano afinal.
__________________________________
[1]https://www.repubblica.it/vaticano/2017/07/08/news/scalfari_inter
vista_francesco_il_mio_grido_al_g20_sui_migranti_-170253225/.
Consultado em 03/08/2023.
[2] O próprio Pascal, depois de ter escrito centenas de páginas
contra os jesuítas, contra os teólogos da Sorbonne, contra os
documentos condenatórios ao jansenismo, escreve na carta 17 das
provinciais: “Não tenho qualquer vínculo com comunidade alguma,
exceto com a Igreja, Católica, Apostólica, Romana, em cujo seio
desejo viver e morrer, em comunhão com o papa, o cabeça da
Igreja, e fora da qual estou persuadido de que não há salvação.”
Pascal. The provincial letters of Blaise Pascal. Tradução de
Thomas M’Crie. Cambridge: Riverside Press, 1880, p. 421.
[3] FIGUEIREDO, Jackson. Pascal e a inquietação moderna, Rio de
Janeiro: Centro Dom Vital, 1922, p. 95s.
[4] SOURIAU, Maurice. Pascal. Paris: Société Française d'Imprimerie
et de Librairie, 1898, p. 183.
[5] STEWART, Hugh Fraser. The Holiness of Pascal. Cambridge:
Cambridge University Press, 1915, p. 72.
[6] PASCAL. Pensamentos. São Paulo: Abril, 1973, fr. 455, p.155.
[7] Ibidem. fr. 476, p. 158.
[8] Ibid. fr. 479, p. 159.
[9] Ibid. fr. 485, p. 160.
[10] Ibid. fr. 492, p. 161.
[11] MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da verdadeira
devoção à Santíssima Virgem. 46 ed., Petrópolis: Vozes, 2015, p. 82.
[12] KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Petrópolis: Vozes, 2015,
p.84.
[13] Ibid. p. 23.
[14] Ibid. p. 24.
[15] MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da verdadeira
devoção à Santíssima Virgem. 46 ed., Petrópolis: Vozes, 2015, p. 81s.
nada nem ninguém mais importava, fosse santo ou
pecador, vivo ou morto.
Deixando à parte essas polêmicas da obra pascaliana,
Francisco se debruça sobre o legado do grande filósofo. É
justamente por colocar Jesus Cristo no centro da sua obra
filosófica que o romano pontífice pôde chamar Pascal de
“um enamorado de Cristo”. O papa vai traçando então os
principais pontos da vida e obra do gênio francês.
Na referida carta apostólica há algumas passagens que
chamam a atenção. Primeiro o fato de o papa reconhecer
que a análise que Pascal faz da condição humana é
correta. Já se disse que Pascal atacou a humanidade com
mais violência nos Pensamentos do que atacara os
jesuítas nas Provinciais. Aos olhos do atual líder da Igreja
Católica, porém, o quadro que o filósofo pintou da
humanidade não está carregado de um exagero jansenista,
como alguns no passado já o acusaram, mas corresponde
à realidade da condição dos filhos de Adão.
A escusa que o pontífice faz da decisão de Pascal de
defender os jansenistas também é digna de nota. Prestes a
concluir seu escrito, o Santo Padre escreve:
Graduado em Filosofia e Teologia
pela PUC-Rio, Josué Matos
desenvolve estudos acerca da
filosofia de Pascal e sua intercessão
com a teologia, bem como estudos
sobre a teologia dos fenômenos
espirituais.
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 22
Muitas propostas ditas «jansenistas» eram realmente
contrárias à fé, e Pascal reconhecia-o, mas contestava que
elas estivessem presentes no Augustinus e fossem seguidas
pelos membros de Port-Royal. Entretanto algumas das suas
próprias afirmações, relativas por exemplo à predestinação,
tiradas da teologia do último período de Santo Agostinho,
cujas fórmulas foram aperfeiçoadas por Jansénio, não soam
como verdadeiras. Todavia é preciso compreender que,
assim como Santo Agostinho quis combater no século V os
pelagianos, que afirmavam que o homem pode, por suas
próprias forças e sem a graça de Deus, fazer o bem e ser
salvo, assim também Pascal acreditava sinceramente que
então estava a atacar o pelagianismo ou o
semipelagianismo, que ele julgava identificar nas doutrinas
seguidas pelos jesuítas molinistas (do nome do teólogo Luís
de Molina, falecido em 1600, mas cuja influência ainda
estava viva a meados do século XVII). Demos crédito à
franqueza e sinceridade das suas intenções.
CADERNO
CINEMA
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 23
Sonhos em evidência
Uma retrospectiva do cinema de Federico Fellini nos 30 anos de sua morte
odas as civilizações do mundo desenvolveram lingua-
gens próprias para externalizar suas angústias e alegrias,
certezas e dúvidas, sonhos e realidade; através das mais
variadas modalidades artísticas, que de algum modo sempre
auxiliaram na missão de apaziguar essas questões.
No cristianismo esta relação não é diferente. Muito se fala da
relação da Igreja e a promoção das artes plásticas no
Renascimento, da arquitetura na Idade Média, mas pouco se
trata da relação entre Igreja e as formas de produção artística
contemporâneas, como é o caso do cinema.
Apesar de contar com menos tempo, a relação do mundo
católico com o cinema deixou grandes marcas na produção
dessa arte, seja na confecção de grandes obras, como o diretor
francês Robert Bresson, seja na crítica especializada, como é o
caso do também francês André Bazin um dos fundadores da
renomada revista francesa Cahiers du Cinéma e tantos outros
que se utilizaram do patrimônio cultural e filosófico católico
para ambientar suas obras.
Na década de 1920, já se falava institucionalmente do papel
do cinema para a Igreja Católica, em um movimento que se
iniciou na Europa, mas que gerou frutos, inclusive no Brasil,
dando origem a um movimento que ficou conhecido como
“cineclubismo”, que consistia basicamente na análise de filmes
em circulação a partir dos princípios doutrinários.
DE
Não iremos nos aventurar aqui a falar sobre a história
desta arte, que vai para muito além da invenção do
cinematógrafo, pois a ilusão cinematográfica trata-se de
uma das questões mais antigas da humanidade.
Percorreremos simplesmente uma proposta de revisão
através de algumas obras não tão conhecidas, mas que
talvez encarnem o melhor que a Sétima Arte pode
oferecer.
Neste ano de 2023, fazemos memória dos 30 anos de
morte do do diretor italiano Federico Fellini, um cineasta
com uma obra muito autoral, que não raramente tratava
de questões muito próprias da existência humana,
utilizando-se de uma estética muito particular.
A primeira, que inicia na década 1940, quando ainda
trabalhava como roteirista de grandes nomes do
neorrealismo, de modo especial Roberto Rossellini com
quem Fellini assinou o roteiro de Roma cidade aberta,
considerado o maior exemplar deste movimento. Em 1950,
Fellini estreou como diretor, ainda muito ligado com o
neorrealismo, mas já contando com uma estética própria,
ainda que muito mais tímida do que viria a ser
futuramente.
Do primeiro período de Fellini como diretor destacaria três
obras, que compõem a chamada “trilogia da graça” que é
composta por: A estrada da vida, de 1954 (foi
elogiadíassimo recentemente pelo Papa Francisco no La
Civilittà cattolica dos jesuítas), A trapaça, de 1955 e As
noites de Cabíria (1957), todos três filmes que se
apropriam de elementos da tradição cristã para
desenvolver personagens que são colocados através de
situações limites diante da questão da redenção pela
dinâmica da graça.
Ainda é interessante frisar a amizade de Fellini com o
jesuíta Virgilio Fantuzzi, grande colunista de cinema do
jornal oficial da Santa Sé, o L'Osservatore Romano, que
exerceu grande influência sobre o diretor, sendo seu
consultor para assuntos ligados ao catolicismo, mas não
só, como também estabeleceram um diálogo perene sobre
o modo de pensar o próprio cinema.
A segunda fase do cinema de Fellini se inicia, em 1960,
com o escandaloso A doce vida, que rompe com todos os
paradigmas do cinema até então. Fellini parece assinar
definitivamente o divórcio com o neorrealismo e abandona
as temáticas anteriores para aqui se ater, nesta que muitos
consideram como a crítica mais mordaz a sociedade pós-
moderna. Através de uma Roma cosmopolita e transviada,
Fellini irá nos afirmar e reafirmar ao longo de 173 minutos,
a falência de um modelo de sociedade que surgia.
Interessante notar que a recepção de A doce vida nos
meios católicos foi muito acirrada, recebendo inclusive na
época uma condenação severa do L’osservatore romano
em sua coluna de cinema. A condenação foi retirada em
2010, quando o jornal fez uma retrospectiva pelos 50 anos
da obra. Trata-se o filme de um endossamento à crítica da
Igreja ao modelo de sociedade pós-moderna.
Após o lançamento de A doce vida e de tantas premiações
que o seguiram, inclusive a indicação ao Oscar de melhor
filme estrangeiro, a crítica especializada e o público espe-
T
Abril-junho 2023 | Scena Crítica 24
ravam algo que sucedesse na mesma medida que “A doce
vida” havia surpreendido. Fellini se vê, então, diante da grande
responsabilidade que lhe pesava, contemplando o abismo que
todo autor teme experimentar, a crise criativa.
E é a partir desse abismo, que Fellini irá tirar a inspiração um
de seus trabalhos mais ousados, um filme extremamente
autobiográfico e mais do que isso, metalinguístico. Em 1963,
Fellini brinda o mundo com 8 ½ . O estranhamento já inicia
pelo título da obra, que já demonstrava sua íntima relação
com a biografia do diretor, acontece que àquela altura Fellini
havia dirigido sete longas e um curta-metragem.
Fellini estava a volta com os produtores sem saber ao certo
que rumo tomar com seu projeto, até que encontrou na crise,
a receita para o bom andamento do filme. Criar um filme que
fala sobre o processo de criação de um filme, talvez seja o
maior e mais elegante uso da metalinguagem na história do
cinema.
Fellini retoma sua parceria com Marcello Mastroianni para
novamente interpretar seu alter ego, dessa vez ele interpreta
Guido, um diretor em meio a uma crise criativa que busca
refugiar-se em um hotel de fontes medicinais para escapar da
pressão dos produtores, contudo, sem sucesso.
A narrativa continua na mesma linha de A doce vida,
contando com episódios que não necessariamente possuem
uma conexão lógica e cronológica com as cenas subsequentes,
mas dessa vez com um agravante que são as cenas que
revelam o subconsciente do personagem, fator que
Com especialização em roteiro pela
Escola de Cinema Darcy Ribeiro,
Filipe Machado é bacharel em
filosofia pela PUC-Rio e licenciado
em História. Atualmente suas
pesquisas estão centradas nos
autores que compuseram a cena
intelectual católica do século XX
com especial ênfase em Gustavo
Corção.
nos leva a vislumbrar melhor suas crises e motivações.
O sonho é um dos grandes personagens do filme. O
expectador desde a primeira cena é imerso dentro desta
realidade, já que Fellini acreditava que o processo de
criação nascia justamente do sonho, da investigação do
subconsciente. Fellini era paciente de psicanálise desde
1960 quando ele começou a buscar inspiração para suas
obras através da investigação dos sonhos.
Fellini não se preocupava em dar um sentido concreto
para cada milímetro de sua obra, não, pelo contrário ele
esperava que a obra se completasse no próprio
espectador. Fellini não era rigorista nem mesmo com suas
memórias, em mais de uma ocasião ele afirmou o seu
descompromisso com o passado, por não saber distinguir
o que era recordação e o que era imaginação e criação.
É absolutamente ímpar na história do cinema moderno o
modus felliniano de se construir uma narrativa e
apresentá-la esteticamente através da tela, a consistência
da obra encontra seu êxito justamente ao não se prender
às amarras de pretender-se dentro de um movimento, mas
sendo genuinamente único.
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  • 1. SCENA JULHO-SETEMBRO 2023 Nº 02 ANO 1 F I L O S O F I A | L I T E R A T U R A | A R T E S | C U L T U R A C R Í T I C A "Nous aimons la verité, nous aimons Dieu, nous aimons tous les hommes." - Jacques Maritain Biblioteca Mons. Maurílio Penido
  • 2. Editorial A segunda edição de Scena Critica surge como um memorial, já que neste mês de agosto se faz memória dos 40 anos da páscoa de Alceu Amoroso Lima, um de nossos egrégios patronos. Amoroso Lima foi um homem de muitas frentes: crítico literário, literato, acadêmico, líder do laicato nacional. No entanto, o mais notável de seus predicados é certamente o de católico, e é isto que o garante no panteão dos nossos inspiradores. Tristão de Athayde, no campo da literatura, manteve intensa correspondência com os grandes intelectuais de seu tempo, de modo a estabelecer, numa época em que isto ainda não estava institucionalizado, o diálogo com personalidades dos mais variados espectros ideológicos. Como colaborador de Dom Leme no projeto de resgatar a hegemonia do catolicismo nacional, consagrou-se como o grande líder do laicato católico, com especial ênfase na liderança da Ação Católica. No Concílio Vaticano II, representou o Brasil como emissário leigo, sendo, ao retornar, um dos maiores entusiastas das reformas propostas, seja no que tange o culto, como também na dinâmica da pastoral pós-conciliar. No cenário nacional foi um homem de profunda participação na idealização do espaço político brasileiro e, apesar de nunca ter se filiado a uma agremiação partidária, foi entusiasta da formação do partido democrata cristão. Muito influenciado pelo pensamento de Jacques Maritain, impulsionou o humanismo cristão de modo a consagrá-lo como uma das correntes que protagonizaram o pensamento social brasileiro. Além da ode a Alceu Amoroso Lima, nesta edição damos continuidade às colunas temáticas, algumas pela pena dos mesmos autores, outras pela de novos colaboradores de mesmo rigor e qualidade literária. Neste momento de inquietação na sociedade civil e eclesiástica é de nosso maior interesse proporcionar uma leitura sobre as questões hodiernas e pretéritas à luz da sã doutrina, reprisando e contextualizando o pensamento católico às mais diversas facetas da cultura humana. Filipe F. Machado Eduardo D. S. Silva Editores Scena Crítica é uma publicação trimestral, sem fins lucrativos scenacritica@gmail.com scenacritica.wixsite.com instagram.com/scenacritica Editor Filipe Machado Colaboradores desta edição André Marcelo Soares Alessandro di Borgia Eduardo Silva Jeremy Boot Jessiandro Pessoa Josué Matos Marcos Paulo Galvão Natananel de Abreu Pedro Henrique Abreu Pedro Ribeiro Rafael Santos Yasmin Ramos Scena Crítica Filosofia, literatura, artes, cultura Abril-junho 2023 | Scena Crítica 2 SCENA S
  • 3. Prosseguindo Vem a lume o segundo número de Scena Crítica, que avança qual peregrino, de bordão à mão, pelos caminhos um tanto tortuosos e pedregosos do nosso tempo. Mantendo a variedade temática dentro de um ideal comum, a presente edição traz também a memória dos 40 anos da morte de Alceu Amoroso Lima. Além da capa que o homenageia, a coluna Vox Patroni traz o belíssimo elogio fúnebre proferido pelo monge beneditino e imortal da Academia Brasileira de Letras, D. Marcos Barbosa, na ocasião do sepultamento de Tristão de Athayde. Alceu também se faz presente no Dossiê, uma entrevista com o Prof. Leandro Garcia (UFMG), especialista na obra de Amoroso Lima, tendo publicado há pouco as cartas trocadas entre Alceu e o poeta Jorge de Lima. Nas Crônicas de um tempo peculiar, Eduardo Silva reflete sobre o "adeus à disponibilidade", convidando a geração atual a imitar a coragem de Alceu Amoroso Lima em sua conversão e radical tomada de posição diante da realidade. Nesta edição, no artigo A cafeicultura e o Brasil, Pedro Henrique Abreu traz uma análise histórico-social da bebida que não falta à mesa dos brasileiros. Pedro Ribeiro, o jovem fundador e presidente do crescente movimento Comunhão Popular, por sua vez, enriquece-nos com a abordagem de uma tema de importância capital: a preocupação de que deve estar munida a política social em estar sempre À procura do salário justo. Do latim ao anglo-saxão, nosso correspondente britânico Jeremy Boot nos guia entre as Línguas mortas e vivas, uma instigante análise da história de nossos idiomas. Seguindo para a filosofia, o prof. Marcos Paulo Galvão traz ao debate a tematica Conhecimento e poder segundo Michel Foucalt, e Josué Matos, aproveitando a oportunidade da publicação da carta do Papa Francisco por ocasião dos quatro séculos do nascimento de Blaise Pascal, convida-nos a perceber as nuances e particularidades na ocasião peculiar em que Um Papa jesuíta analisa Pascal No Caderno de Cinema quem marca presença nesta edição é o diretor Frederico Fellini, recordado por Filipe Machado na efeméride dos 30 anos de sua morte. E Rafael Santos, em mais um de seus Ensaios do cotidiano, analisa a tão atual relação entre sexo, liberdade e consumo. Na coluna Livro Aberto, Jeciandro Pessoa lança um olhar sobre Anchieta, o apóstolo do Brasil, resenha da biografia do grande jesuíta missionário. E o prof. André Marcelo Soares em seu artigo chama atenção para a necessidade em se Eduacar para a vida ética e para a democracia. E não poderia faltar nesta edição a nossa praça de divulgação literária, a Ágora, onde a poesia marca presença mais uma vez, com os talentosos Natanael de Abreu, Alessandro di Borgia e Yasmin Ramos. Que os todos possam aproveitar a qualidade dos trabalhos apresentados. Boa leitura! I T I N E R Á R I O I T I N E R Á R I O Abril-junho 2023 | Scena Crítica 3
  • 4. Í N D I C E Crônicas de um tempo peculiar, pág. 6 Disponibilidade para o adeus Caderno de cinema, pág. 23 Sonhos em evidência Ágora, pág. 19 Praça de divulgação literária Dossiê, pág. 15 Um ano jubilar Linguas mortas e vivas, pág. 13 A cafeicultura e o Brasil, pág. 7 Vox patroni, pág. 9 Alceu, ao Céu À procura do salário justo, pág. 11 Conhecimento e poder, pág. 17 segundo Michel Foucalt Livro aberto, pág. 18 Anchieta, o apóstolo do Brasil, Joaquim Tomás Ensaios do cotidiano, pág. 25 Sexo, liberdade e consumo In Scena, pág. 27 Educar para a vida ética e para a democracia, pág. 26 Um Papa jesuíta analisa Pascal, pág. 20
  • 5. "O homem precisa mais de assunto do que de pão. E como as mais irrespiráveis abstrações têm sempre raiz no que se vê e no que se ouve, é preciso de tempos em tempos ir esfregar o eu-dormente nas coisas boas que acontecem, para evitar as câimbras da alma." G U S T A V O C O R Ç Ã O
  • 6. gosto deste ano marca não apenas os 40 anos da morte de Alceu Amoroso Lima (1893-1983), mas também os 95 anos de sua conversão. De forma muito poética, pois poética foi toda sua vida, quis Deus, que é mais poético ainda, que Alceu fosse ao seu encontro em 14 de agosto de 1983, véspera do dia em que, diante do Pe. Leonel Franca, expôs sua alma no tribunal da misericórdia e se aproximou da mesa da ceia sacrifical de Cristo. A morte de Alceu, disso me convenço cada vez mais, deixou uma lacuna em diversos âmbitos da vida nacional. Onde hoje o crítico literário de presença marcante como aquele que em 1919 deu vida a Tristão de Athayde, o pseudônimo mais célebre da história brasileira, no rodapé d’O Jornal? Onde a figura pública a levar a voz da Igreja, de sua doutrina social, de seu contributo às artes e às letras, para o debate social, cultural e acadêmico? Onde o defensor apaixonado da liberdade e dos valores mais caros de um humanismo integral e fecundo, trabalhando por um projeto real de Brasil? Todas essas perguntas têm como resposta um triste e sonoro “não há”. Logicamente, muito da obra de Alceu é fruto de sua personalidade, de sua dedicação, de seu empenho pessoal com seus ideais. Ao dar em 1928 adeus à disponibilidade – título dado à carta em que expôs as razões de sua conversão a Sérgio Buarque de Holanda –, Alceu abandonou o princípio gideano para abraçar um ideal mais amplo, mais universal, embora aos olhos da maioria parecesse antes um estreitamento, um “adeus” de fato. “Tristão é um dos nossos que agora acredita em anjo...”, vai dizer acidamente Oswaldo de Andrade. Porém, não deixa de ser surpreendente o fato de que tal personalidade não tenha hoje uma eficaz presença de seu pensamento, nem continuadores empenhados em seu legado a trilhar seu exemplo. CRÔNICAS DE UM TEMPO PECULIAR DISPONIBILIDADE PARA O ADEUS Eduardo Silva, graduado em História pela UFRRJ e em Filosofia pela PUC-Rio, encaminha os estudos também para a literatura e a teologia, sempre a partir de um diálogo entre o pensamento tomista e as diversas correntes contemporâneas. Abril/junho 2023 | Scena Crítica 6 A Em diversas ocasiões, Tristão de Athayde destacou a falta de um ideal profundo em sua geração, marcada por um juventude sob as luzes da belle époque, a qual viu escurecer com o início da primeira guerra em 1914. Passado um século, a geração de hoje parece sofrer de algo semelhante. Há uma clara apatia diante das realidades metafísicas e existenciais sérias. Uma geração que nasceu sob a égide do avanço tecnológico e que se deslumbra com o mundo das redes sociais, mas que ao mesmo tempo enfrenta as frustrações de um país e de um mundo imerso na desordem política e social, vivendo as consequências de uma pandemia mundial e com focos de guerra a recordar que a humanidade continua apostando em métodos já provados pela história como infrutíferos, ou antes, estéreis e destruidores. A geração de Alceu, nascida no final do séc. XIX, reagiu na década de 1920. No âmbito artístico e literário, surge o modernismo da Semana de 22 que deu para o Brasil nomes memoráveis como Mário de Andrade, Tarcila do Amaral e Heitor Villa-Lobos. Também houve a reação metafísica: o movimento intelectual católico, onde se insere Tristão. Junto a seu nome pode-se acrescentar o de Jackson de Figueiredo (1891-1928), responsável por fundar em 1922 o lugar de agremiação desses intelectuais, o Centro Dom Vital; Sobral Pinto (1893-1991), o célebre jurista a quem coube a alcunha de “Sr. Justiça”; o Padre Leonel Franca (1893-1948), que deu à sua geração, nas palavras de Alceu, “o sentido profundo da Ordem sobrenatural”; o grande poeta Jorge de Lima (1893-1953); Gustavo Corção (1896-1978), o converso, quase um cruzado, cuja escrita e luta marcou época. Enfim, toda uma brilhante constelação que reagiu, que superou a apatia pelo compromisso, que deixando de estar disponível para tudo, dispôs-se a abraçar um ideal sólido, firme e eivado de esperança. Diante da geração atual, que temos nas mãos a possibilidade de superar a apatia reinante, de dizer adeus à disponibilidade para tudo, que se torna, se me permitem o paradoxo, disponibilidade para o nada, só posso evocar as palavras de Alceu na já citada carta a Sérgio Buarque: “o erro é pensar que a realidade se prende em qualquer sistema humano apenas, ou em qualquer ausência sistemática de um sistema qualquer”. É a tentação da imanência, de querer, tal e qual o velho Barão de Münchausem, puxar-se pela trança para não cair no fosso. Ou a da alienação, fugindo de todo e qualquer compromisso sério com a realidade, consigo mesmo e com o mundo, refugiando-se num ideal fantasioso. É o que diz Alceu em seguida: “Pois o amor da evasão pela evasão é a pior das servidões. Nunca nos sentimos tão presos como ao pretendermos forçar todas as portas. Nunca somos tão limitados como quando nos limitamos à extralimitação.” Ainda há tempo, embora ele seja curto. É necessário coragem e espírito de renúncia para estar disponível a dizer adeus ao espírito descompromissado. Apesar do cenário crítico, há esperança. Como, aliás, era lema do próprio Alceu: contra spem spes. Ter fundada esperança, mesmo diante da desesperança reinante.
  • 7. s meses de maio a agosto costumam ser agitados nas regiões cafeeiras do Brasil. Durante este perí- odo acontece a colheita do fruto que por décadas fora o principal produto de exportação do país. Se hoje o café ainda abunda nas montanhas do sul de Minas Gerais, no cerrado mineiro, no norte de São Paulo, só para citar algumas regiões produtoras, o arbusto da família rubiaceae, já fora cultivado em uma vasta extensão de terra que compreendia do Estado do Paraná até o Espírito Santo. Apelidado de “ouro negro” na segunda metade do século XIX, o café iria moldar a economia e a sociedade brasileira nos anos finais do Segundo Reinado (um ramo de café fora posto na bandeira imperial) e nos anos da chamada República Velha (1889-1930), sendo que o sistema de alternância do poder entre políticos da elite paulista e mineira, durante o período, passaria para a história como a política do “café com leite”. Se a relevância econômica do produto só seria sentida após a década de 1850, a planta do café chegaria ao Brasil ainda durante o ciclo do ouro no século XVIII. Seria o militar luso-brasileiro Francisco de Melo Palheta que em 1727 traria para o país as primeiras sementes e mudas do cafeeiro. Palheta teria sido encarregado pelo governador do Maranhão e do Grão-Pará, João de Maia Gama, de chefiar uma missão até a Guiana Francesa com um intuito de resolver um litígio territorial. Durante esta missão, o sargento-mor lograria cerca de mil sementes da planta e quatro mudas, que seriam cultivadas pela primeira vez em solo brasileiro na cidade de Belém do Pará. A forma como estas sementes e mudas foram conseguidas permanecem um mistério, visto que numa carta do próprio Palheta datada de 1733, não há menção de como este material fora adquirido. Apesar de as especulações terem sido abundantes no decorrer da história, o mistério permanece. O ciclo do ouro declinaria a partir de 1760, quando as jazidas começaram a exaurir-se, principalmente na então província das Minas Gerais, principal local de exploração do minério. Já após os eventos da inconfidência mineira (1789), a economia brasileira voltara-se outra vez para a agricultura de exportação, sendo que os principais produtos seriam a cana-de-açúcar e o algodão, este último produzido principalmente na região do Maranhão. No entanto, as reviravoltas políticas na Europa acontecidas por decorrência das guerras napoleônicas, a técnica de produção do açúcar a partir da beterraba e a superprodução em outros países produtores, fizeram com que a produção brasileira perdesse espaço no mercado internacional. Além do mais, o preço destes produtos diminuiu consideravelmente, fazendo com que o lucro de produtores brasileiros fosse reduzido. Já outros artigos brasileiros como o fumo, o couro e o arroz não encontravam espaço no mercado externo, sendo estes destinados ao consumo interno. Nesta situação o desenvolvimento da atividade cafeeira viria como possível solução para que o Brasil voltasse a ganhar mercados estrangeiros. A planta do café se adaptara facilmente as condições edafoclimáticas do sudeste brasileiro. A grande quantidade de latossolos vermelhos, popularmente conhecidos por “terra roxa”, favoreceram a expansão do cultivo, bem como o clima ameno e a regularidade pluviométrica da região. O exploração brasileira do café também seria favorecida pela conjuntura internacional, uma vez que o grande produtor da época, o Haiti, ex- colônia francesa que lograra sua independência em 1791, estava com a produção desorganizada e drasticamente diminuída em decorrência do turbulento processo de independência. O Brasil viria substituir a produção haitia- na, sendo que já na década de 1850, o café passara a ser o principal produto de exportação do país, uma vez que até em tão, representava somente 18% das exportações brasileiras. A expansão da área cultivada conheceria quatro momentos importantes. De 1850 a 1880, a maior concentração das lavouras encontrava-se próxima à capital Rio de Janeiro e no Vale do Paraíba, sendo esta última a principal região produtora na época. Tratava-se de uma exploração muito dependente da mão-de-obra escrava e das condições do solo da região, que não eram corrigidos e fertilizados, sendo que as lavouras eram simplesmente abandonadas quando a produtividade começava a diminuir. Além do mais, os produtores fluminenses e vale- paraibanos formavam uma base política importante de apoio a monarquia brasileira, que a partir dos anos 1870 passava a ser contestada, principalmente em meios militares. Desta maneira, após ter atingido o pico de produção na década de 1880, a cafeicultura nestas regiões começara a declinar, também em razão da abolição da escravatura em 1888 e a queda do império em 1889. Seria, no entanto, a segunda fase de expansão da cafeicultura que mais representaria o chamado “ciclo do café”. Esta fase iniciara-se ainda na década de 1880 e duraria até 1930, sendo o oeste paulista e o sul mineiro as regiões que se destacariam como principais produtores. Este momento histórico conheceria os chamados barões do café, que além de grandes produtores, foram personagens centrais de toda política brasileira durante a República Velha. De certa forma, as principais decisões econômicas e políticas adotadas durante este período buscavam favorece e defender a cafeicultura. Um exemplo, seria o convênio de Taubaté de 1906, no qual o governo republicano viu-se forçado a comprar sacas do produto e jogá-las no mar ou queimá-las, como forma de combater a queda dos preços, devido a superprodução das safras anteriores. Tal política ainda seria adotada na década de 20, quando uma nova onda de baixa de preços, motivada A cafeicultura e o Brasil Abril-junho 2023 | Scena Crítica 7 O
  • 8. É mister reconhecer que o café, apesar de não possui a influência dos anos anteriores, ainda permaneceria como um dos principais produtos de exportação do Brasil, além de ter continuado com relevante poder de barganha na política nacional. Em 1952 seria criado o Instituto Brasileiro do Café (IBC) que tinha por objetivo buscar políticas que favorecessem a atividade, em substituição ao antigo Departamento Nacional do Café do Ministério da Fazenda. O IBC teria grande influência na política nacional principalmente nos anos do governo militar quando a cafeicultura conheceria um novo apogeu de lucros, de forma especial no governo Figueredo. O IBC ainda participaria da vida nacional, tendo sido o patrocinador da lendária seleção brasileira que jogaria a copa do mundo de 1982. Este instituto seria suprimido pelo governo Collor e substituído Conselho Deliberativo de Política do Café em 1996. A quarta fase da expansão da cafeicultura nacional inicia- se durante o governo militar, principalmente na era Geisel. Este período ficou conhecido pelo anseio de expandir a agricultura nacional para regiões ainda não exploradas como, por exemplo, o cerrado. Durante a gestão de Alysson Paulinelli frente ao Ministério da Agricultura (1974- 1979) seria feitas as primeiras análises de solo no cerrado brasileiro, chegando-se à conclusão de que a região era agricultável, deste que feito as necessárias correções do solo através de calagem e fertilização. O café passaria a cultivado no cerrado mineiro, com enorme sucesso, visto a facilidade de mecanização das lavouras devido ao relevo plano da região. O cerrado passaria a ser o segundo maior produtor nacional, atrás apenas da montanhosa região do sul de Minas que, atualmente, produz cerca de 50% do café brasileiro. Atualmente a cafeicultura subsiste alternado momentos de alto e baixo, uma vez que, sendo o produto considerado uma commodity, tem seu preço cotado em bolsas de valores, o que gera enorme instabilidade de mercado. Além do mais, dificuldades com o êxodo rural em regiões produtoras, mudanças climáticas e o considerável aumento do preço de insumos agrícolas fazem com que a atividade agonize em certas regiões. No entanto, o olhar histórico mostra que a cafeicultura tem enorme capacidade de regeneração, sendo que é difícil prever como será o futuro da atividade no país. Certamente este dependerá a capacidade de mecanização das lavouras reduzindo a dependência de mão-de-obra e a adoção de novas formas de comercialização que garantam aos produtores mais autonomia de preços. O futuro dirá. . pela superprodução e o desarranjo político do pós-guerra, ameaçava os lucros do setor. Durante os anos da República Velha o café seria elemento essencial do desenvolvimento do país, que ainda engatinhava no processo de industrialização. A melhoria do projeto urbano de cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo entre os anos 1900 e 1920 seria feito, em grande parte, com o dinheiro dos barões do café e com empréstimos internacionais. Se a então capital do país conhecera um audacioso projeto de urbanização durante o governo de Rodrigues Alves (1902-1906), seria a cidade de São Paulo que mais se beneficiaria com a cafeicultura. Muitos dos ricos produtores do oeste paulista e sul de Minas passaram a morar na cidade, como forma de facilitar a comercialização do produto que era feito principalmente no porto de Santos. Os barões do café levaram enormes quantias para a cidade, favorecendo a construção de ferrovias, praças, casarões e muitos outros elementos que viriam caracterizar a cidade. Além do mais, com a cafeicultura paulista chegariam muitos imigrantes para o trabalho nas lavouras o que não foi sem importância para que a cidade tivesse os traços que possui ainda nos dias de hoje. O fim da antiga república e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder em 1930 colocaria um fim ao domínio dos cafeicultores na política nacional. O café também perderia importância econômica, sendo que, com o Estado novo, forma como ficaria conhecido o governo Vargas a partir da Constituição de 1937, o acento econômico seria posto na industrialização. No entanto, a cafeicultura persistiria, entrando em uma terceira fase da expansão das lavouras desta vez no norte do Estado do Paraná, onde a produção seria feita em pequenas propriedades. A cafeicultura no Paraná, apesar de ter conhecido relativo sucesso na década de 1960, seria desmotivada pelas geadas que devastariam as plantações. Abril-junho 2023 | Scena Crítica 8 Mineiro de Muzambinho, Pedro Henrique Abreu é formado em agronomia pela UFLA, com desenvolvimento de pesquisa na Nottingham University, Inglaterra, e especialização em Relações Internacionais e direito internacional. Transita entre História, relações internacionais, teologia e filosofia.
  • 9. que ainda jaz entre nós, não proclamaremos os nomes das famílias a que pertenceu, nem o pseudônimo literário que ele cobriu de honra, nem os seus pontos altos de pensador e líder católico. Queremos recordar simplesmente Alceu, que se nutriu aqui na tera com o pão da Vida Eterna. O menino, cujos cabelos Machado de Assis acariciava entre as grades do jardim ao passar pela Casa Azul da rua das Laranjeiras. Tinha tudo para ser feliz: pais abastados e extremosos, um jardim na frente eum pomar atrás, um regato, uma galinha de pintos... A esse cromo veio juntar-se a Primeira Comunhão um pouco folclórica em Sião de Petrópolis, Mas na qual Jesus deve ter acariciado, como o insigne romancista ao passar, os cabelos do menino triste. Pois era um menino triste, que dizia consigo mesmo, que prometia a si mesmo: "Quando ficar grande vou protestar contra essa balela de que as crianças é que são felizes!" Ah, como sofrem as crianças! Confidenciava-nos mais tarde Alceu Amoroso Lima, em Primeiros Estudos e Idade, Sexo e Tempo, Vox patroni dando voz aos que nos precederam ALCEU, AO CÉU D. Marcos Barbosa OSB, 1983 ão celebramos a Eucaristia em honra dos mortos, mas de Jesus Cristo, que disse expressamente: "Fazei isto em minha memória...". Mas a celebramos, isto sim, em sufrágio, em auxílio dos que morrem; para que se vejam o quanto antes purificados das impurezas que ainda levam da terra, e que os impedem, como a ganga ao diamante, de serem logo invadidos pela plenitude da luz divina. Mas a Eucaristia - que significa ação de graças, e que é antes de tudo Memorial do Sernhor, se não sugere o elogio dos mortos, pode dar lugar aos nossos louvores agradecidos, pelas grandezas que Deus tenha operado na humildade dos seus servos. Sobretudo quando a vida de um deles realizou uma parábola perfeita, que pode transformar-se, quase, numa parábola evangélica. Ontem, no Dia dos Pais, Alceu Amoroso Lima, que o foi para tantos, segundo a carne e segundo o espírito, entregava ao Pai Nosso a sua vida. Em Petrópolis, sua bem-amada cidade, num hospital com um nome duas vezes querido, à hora, justamente à hora do Angelus, que já era liturgicamente Festa da Assunção de Maria, quinquagésimo quinto aniversário 9 Scena Crítica | Abril-junho 2023 N de sua conversão, selada pela sua segunda Primeira Comunhão, que ele considerava a verdadeira. A essa hora do Angelus, ao anoitecer no Dia do Senhor, nos braços de sua filha Abadessa, transpôs Alceu Amoroso Lima o que a mulher de Léon Bloy chamou "La Porte des Humbles", a Porta dos Humildes, que coincidiu, para ele, com a Assunção de Maria, Janua Coeli, Porta Azul do Céu, que nos abre o caminho. Porta dos Humildes. Ouvi certa vez que um grande de Espanha, quando pretendia transpô-la após a morte, ouviu de dentro a voz que perguntava: "Quem bate?" Declinou ele todos os seus nomes e títulos de nobreza e seus esplêndidos feitos, e teve apenas como resposta: "Não te conheço!" Confuso e perplexo, bate de novo e ouve de novo: "Não te conheço!" Pela terceira vez, cheio de aflição ousa bater ainda; e, à voz que Ihe pergunta quem é, responde apenas, tremendo, o seu nome de batismo, o seu singelo nome de cristāo e filho de Deus. E o seu nome de cristão e filho de Deus sabre-lhe a Porta do Céu, a Porta do Pai. Também nós agora, encomendando a Deus aquele quando o menino triste já se tornara Tristão de Athayde... Sofrem as crianças por motivos que só a nós, adultos, parecem ridículos, e sofrem então de um modo absoluto, ainda que por breves instantes, porque não sabem, como a gente grande, que o sofrimento passa... Mas será necessariamente feliz a mocidade? O moço rico, que já atravessara o Equador como menino e julgara ler o nome da distante Babá num dos letreiros de Paris, está agora sentado à mesa de um hotel da portentosa Veneza. E Jesus, que já o acariciara em criança, o viu e o amou como ao moço rico do Evangelho... E acendeu-lhe no coração aquela mesma pergunta que se fizeram Jacques e Raissa Maritain no Jardim das Plantas de Paris; ou o jovem Inácio, ferido como Jacó, ao lutar com o Anjo, num Castelo de Espanha;
  • 10. D. Marcos Barbosa (1915- 1997), monge beneditino, poeta, dramaturgo e imortal da Academia Brasileira de Letras, proferiu essas palavras na missa exequial de Alceu Amoroso Lima em agosto de 1983. ou o jovem Bento na corrupta Roma, antes de partir para Subiaco; ou o moço rico de Assis antes de beijar o leproso: "De que vale o homem ganhar o mundo inteiro, se perde a sua alma?" A pergunda, é verdade, não assumia ainda esta forma, mas a do Eclesiastes, tão presente em Machado de Assis: "Vanitas vanitatum!" Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! E o jovem brasileiro faz, como Jacques e Raissa Maritain, que ainda não conhece, não um pacto, mas um voto de suicídio caso não encontre também um sentido para a vida e o segredo da felicidade absoluta e eterna. Devorará a Esfinge o jovem peregrino? Não: é ele que vai devorar o Mistério... O jovem rico continua a viver quand même, embalado pela belle époque. Mas o conforta, em seu Paraíso Perdido, o não estar mais sozinho: caminha a seu lado frágil Mulher Forte, que ele afirmava aos quarenta anos de casamento, ter sido quem o chamava à realidade, quem fazia o já famoso crítico literário, sempre de pena na mão, colocar os pés na terra. pois é antes na humildade da terra ("ganharás o pão com o suor do teu rosto!") que se encontra Aquele que o criou. E veio então o encontro com o amigo, por enquanto com a minúsculo. Que em breve desapareceria para sempre nas águas do oceano. Jackson de Figueiredo tornara-se um pescador de homens. E aquele que já ouvira a palavra de Léon Bloy: "Só há uma tristeza: não ser santo!" Se convence também do pensamento que Pascal pôs nos lábios de Cristo: "Tu não me procurarias, se já não me houvesse encontrado!" E na glória de um quinze de agosto, na Capela de Nossa Senhora das Vitórias, em Santo Inácio, dá-se o encontro corpo a Corpo do homem com seu Deus, que se tornam uma só carne, e um só coração, e uma só alma. Recebe das mãos do Padre Leonel Franca sua segunda Primeira Comunhão. "E preciso que eu diminua e que ele cresça!'" sugere-lhe João Batista, seu nome como oblato beneditino. "Já não vivo eu, mas vive o Cristo em mim!" sopra-lhe o Doutor das Nações, cujo nome quis colocar num de seus filhos... Como antes, em companhia da mulher, já oferecera a Deus, na Igreja da Glória, a Lia, que se tornaria Raquel, esposa de Cristo sob o nome de Teresa, e que, ao contrário da filha de Jefté, não foi chorar com as amigas a sua virgindade, mas celebrá-la cantando com as monjas de Escolástica. Cessaram para o Peregrino do Absoluto ("é andando que se faz o caminho") as tentativas de itinerário. Estava descoberto não só o Caminho, mas a Verdade e a Vida. E o Pão da Vida, que o fazia ir e vir cada manhā, surpreendendo o poeta Augusto Frederico Schmidt. Descobrira o pāo quotidiano, dado pelo Pai, que sacia a fome de cada dia, abrindo mais ainda, agora em esperança, a fome do Absoluto. O moço rico e o menino triste haviam descoberto, com Tristão de Athayde, que ldade, Sexo e Tempo encontram resposta não no Homem Moderno, mas no Eterno, de que tanto lhe falaram Chesterton e Newman. O homem, agora de parcos cabelos cingidos pelo louro das Letras, caminha os passos seguros da plena maturidade em Cristo. A velhice não o aflige e o torna para sempre jovem e menino. Nem a morte da metade de sua alma, que o fere profundamente, consegue derrubá-lo, pois descobre "a presença na ausência" no mistério da saudade e da fé; Ele, que afirmara que não há idade ideal, descobre que a velhice é a vida em ascensão, pois a vida humana não é montanha terminando em descida e abismo, nem as quatro estações do ano terminando em inverno, mas a quarta vigília da noite bíblica que precede o amanhecer, quando o Mestre vem caminhando ao nosso encontro: "Não tenhais medo; sou Eu!" E assim pôde realizar a velhice generosa, de que fala Olavo Bilac em célebre soneto: "Não choremos jamais a mocidade! Envelheçamos rindo, envelheçamos como as árvores fortes envelhecem, na glória da alegria e da bondade agasalhando os pássaros nos ramos dando sombra e consolo aos que padecem!" Dir-se-ia que ele cumpriu também um pequeno poema que traduzi do inglês e cujo autor ignoro: "Conta no teu jardim flores e frutos, mas não conte as folhas que tombaram.] Conta os teus dias pelas horas de ouro,] não pelas que falharam. Pelas estrelas conta a noite. E a vida,] pelos triunfos, não pelos perigos, não contes tua idade pelos anos, mas sim pelos amigos." Entre estes se encontravam o grande Georges Bernanos, um instante pou- sado em Itaipava, e que foi visitar um dia. com seu jovem secretário, levando doce e manteiga. Georges Bernanos escreveria mais tar- de que, ao morrer, o menino que ele fora é que tomaria o comando de todos os anos que vivesse, para entrar à frente deles, como um jovem capitão, no Reino dos Céus... Também Tristão de Athayde traz nos braços, velho Simeão, o menino Alceu, comos os baixos-relevos das catedrais góticas, onde Maria, morta ou adormecida, oferece a Deus uma miniatura de si mesma. O menino outrora triste, que começou a devorar a Esfinge ao receber pela segunda vez o Corpo de Cristo na festa da Assunção da Virgem, na Capela de Nossa Senhora das Vitórias, se oferece e é oferecido por nós. Chegou para ele o momento de entrar num Templo não feito pela mão dos homens, mas na Casa Azul que o Apocalipse em vão procura descrever. É a terceira grande Comunhão de sua vida, agora eterna. Alceu disse adeus em artigos a muitos que ele chamou Companheiros de viagem, seis dos quais nascidos no mesmo ano que ele. Hoje nós, que ficamos no vale de lágrimas, é que nos despedimos dele, dizendo-lhe, no seu sentido mais forte, o adeus em duas palavras: A Deus! E dizemos ao menino que encontrou o segredo da felicidade: Ao Céu, Alceu! Abril-junho 2023 | Scena Crítica 10
  • 11. . Ocapitalismo é acima de tudo um sistema econômi- co salarial. Nele, o mundo do trabalho se organiza, grosso modo, da seguinte maneira: de um lado, há os patrões, donos das empresas; de outro, há os empregados, que vendem aos patrões a sua força de trabalho - e em troca recebem salário. O assalariamento, é verdade, não surgiu com o capitalismo. Antes dele, porém, esta jamais foi a relação social dominante. Na Grécia e na Roma antigas, a grande maioria dos trabalhadores eram escravos. Na Idade Média, quase todos eram servos. Assim, também no regime capitalista, nem todas as pessoas se enquadram na divisão patrão- empregado. Basta pensar no trabalhador autônomo, que trabalha sozinho, ou nos sócios de uma cooperativa. A lógica salarial, porém, é aquela que, de longe, domina o atual modelo econômico. Levanta-se, então, uma questão moral bem concreta: existe salário justo? É possível uma relação patrão-empregado que seja digna? Ou será que esta relação, como dizem os marxistas, é necessariamente exploratória, um roubo da riqueza produzida pela classe trabalhadora? Eis o que abordaremos neste artigo, sempre sob o prisma da Doutrina Social da Igreja. *** Para os liberais econômicos, a relação salarial é algo maravilhoso. Os escravos e servos eram obrigados a trabalhar. Já o trabalhador moderno ingressa livremente na firma na qual está empregado e, tão logo fique insatisfeito, pode pedir demissão. A única condição, portanto, para que o salário seja justo é que ele seja livre: acordado sem coação entre patrão e empregado. Os socialistas têm uma visão oposta. Para eles, a toda riqueza produzida vem do esforço e do suor da classe trabalhadora. Logo, todo o lucro obtido pelas empresas deveria pertencer aos trabalhadores. Aquela parte do lucro que o patrão toma para si – o que Marx chamava de mais-valia – é, na verdade um roubo, e o salário, portanto, é sempre injusto, pois não faz jus ao esforço do trabalhador. A Doutrina Social da Igreja possui uma visão superior, nem liberal nem socialista. Para a DSI, é perfeitamente justo que o patrão ganhe parte do lucro de sua empresa. Afinal, ele investiu seu dinheiro no negócio e assumiu os ricos da competição no mercado. Além do mais, nas pequenas e médias empresas, o empresário é ele próprio um trabalhador. Por outro lado, ensina também a Igreja, é absurdo julgar que basta um contrato de salário ser feito sem coação para que ele seja justo, como se não houvesse outras questões a considerar. “Façam o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem, inclusive, a combinar a cifra do salário” – adverte Leão XIII na carta encíclica Rerum Novarum – “Acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga: que o salário não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado”. Mais: “Se, constrangido pela necessidade ou forçado pelo receio dum mal maior, o funcionário aceita condições duras que por outro lado lhe não seria permitido recusar, porque lhe são impostas pelo pelo patrão ou por quem faz oferta do trabalho, então é isto sofrer uma violência contra a qual a justiça protesta!" “Entre os principais deveres do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém”, diz também a Rerum Novarum, e observa: “Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a considerar.” Estes diferentes pontos de vista para o salário justo são detalhados pela Papa Pio XI em Quadragesimo Anno. Trata-se de três fatores: o sustento do trabalhador e de sua família, a situação da empresa e as exigências do bem comum. À procura do salário justo Abril-junho 2023 | Scena Crítica 11 O primeiro critério é o mais importante. O trabalho humano não é uma simples mercadoria, cujo preço pode ser definido apenas pela lei da oferta e da procura. Diferente de um produto qualquer, o trabalhador é uma pessoa e o seu salário é a garantia da sua sobrevivência. Os pagamentos aos empregados, portanto, podem e devem variar, conforme a função e a aptidão de cada um, mas um mínimo tem de ser garantido a todos, sem distinção: o chamado salário vital, isto é, um valor que garanta o básico de qualidade de vida para o funcionário e todos os seus dependentes. “Deve-se procurar-se com toda força” – diz Pio XI - que os pais de família recebam uma paga suficiente para cobrir as despesas ordinárias da casa. E se as atuais condições não permitem que isto se possa sempre efetuar, exige, contudo, a justiça social que se introduzam o quanto antes as necessárias reformas, para que possa assegurar-se tal salário a todo o operário adulto.” Obviamente, essas reformas devem ser feitas com bom senso. E é aí que entram os outros fatores elencados pela DSI. Não adianta, por exemplo, aumentar os pagamentos sem
  • 12. . levar em conta o seu impacto na vida das empresas. Muitos negócios simplesmente iriam à falência. Da mesma forma, é preciso ter em conta o bem comum do país. Não se pode aumentar os pagamentos de improviso, sob pena de se elevar o desemprego ou arruinar a produção nacional. O salário vital para o trabalhador e sua família há de ser, porém, sempre a regra máxima e o ideal a ser perseguido: “A justiça social exige que, quanto seja possível, se regulem os salários de tal modo que o maior número de operários possa encontrar trabalho e ganhar o necessário para o sustento da vida" [Quadragesimo Anno]. Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja apoia todas aquelas medidas que promovem o salário vital, como os acordos coletivos de trabalho feitos entre sindicatos e patrões, ou a política de valorização do salário-mínimo, em que o Estado estabelece um piso salarial – piso que pode ser nacional, unificado, ou segmentado, conforme a profissão e a região do país. Outra medida importante é o salário- família, que garante um pequeno bônus no pagamento para cada filho que o funcionário tem. Infelizmente, porém, mesmo com essas medidas, continua bastante difícil, na prática, garantir o salário justo. Isto porque a relação entre patrão e empregado é por natureza bastante desigual: é muito mais fácil o empresário achar outro funcionário do que o trabalhar conseguir outro emprego. Assim, sempre haverá uma boa margem de manobra para patrões inescrupulosos. Em suma, o regime salarial, ainda que não seja em si mesmo injusto, frequentemente dá espaço para a injustiça. Por isso, diz Pio XI em Quadragesimo Anno, “nas presentes condições sociais, é preferível, onde se possa, mitigar os contratos de trabalho, combinando-os com os de sociedade, como já se começou a fazer de diversos modos, com não pequena vantagem dos operários e dos patrões. Desse modo, operários e empregados são considerados sócios na propriedade ou na gerência, ou compartilham os lucros”. Contra as limitações do capitalismo e do regime de salários, mas sem cair na direção de uma economia socialista, controlada pelo Estado, a Doutrina Social da Igreja sempre defendeu o valor das empresas comunitárias, nas quais os trabalhadores, mais do que simples assalariados, recebem percentuais dos lucros e participam da direção dos negócios. “Deve-se tender sempre para que a empresa se torne uma comunidade de pessoas, nas relações, nas funções e na situação de todo o seu pessoal” [Mater et Magistra]. Abril-junho 2023 | Scena Crítica 12 Graduado e mestre em Filosofia pela UERJ, Pedro Ribeiro é fundador e presidente da Comunhão Popular.
  • 13. ode ser uma surpresa para as pessoas - ou, muito provavelmente, não é algo que tenham pensado - que, tal como temos pais e herdamos as suas características, o mesmo acontece com as palavras que usamos diariamente, e não apenas com as palavras, mas também com as línguas de que fazem parte. “E daí?”, você poderia se perguntar, “isso não tem nada a ver comigo”. Bem, talvez sim, mas logo que surge a necessidade de aprender outra língua – necessidade talvez causada por uma mudança para o exterior ou uma mudança de emprego, ou mesmo pela necessidade de interagir com colegas ou amigos de outros países, a necessidade de interpretar tanto a sua língua quanto a deles se torna urgente. Na Grã-Bretanha, tenho de admitir, não há grandes incentivos para se aprender línguas estrangeiras, dado ser o inglês falado amplamente no mundo – por mais imprudente que isso seja, por vezes. O mesmo se dizia do francês, porque era a língua diplomática – mas, exceto nas suas antigas colônias, o inglês (muitas vezes, infelizmente, na sua forma americana) ul- trapassou-o em uso em todo o mundo, pelo menos como uma espécie de língua fran- ca. No entanto, na escola, os alunos aprendem francês, às vezes alemão e, muitas ve- zes, espanhol. Nos meus dias de es- cola, que se de- ram há algum tempo, também nos ensinavam latim e, por vezes, grego antigo. Eu amava o primeiro e detestava o segundo. Dos dois o latim foi de longe o mais útil para mim. Todas essas línguas românicas, termo dado às lín- guas que se desenvolveram em grande parte a partir do latim vulgar: francês, espanhol, italiano, português e romeno e todos os seus vários dialetos e derivados, são bastante semelhantes em compo- sição e gramática, algumas com uma alta inteligi- bilidade entre os falantes, outras nem tanto. O espanhol e o português são próximos e mutuamen- te inteligíveis, provavelmente mais na América do Sul do que na Europa, mas o francês e o português, por exemplo, não são, embora uma grande parte do seu vocabulário seja semelhante. A pronúncia, a gramática, a ortografia e as influências de outras línguas ao longo do tempo aumentam consideravelmente as diferenças e só uma vez “decodificadas” pelo uso e familiaridade, se pode perceber que estão realmente ligadas. O inglês não é derivado do latim vulgar, a língua que os soldados romanos falavam e deixavam por onde pas- savam. E o latim de Cícero e César variava enormemen- te da língua vulgar da plebe. Cícero, de fato, reclamou que às vezes tinha muita dificuldade em entender as pessoas comuns, mas não imagino que ele passasse mui- to tempo tentando. O inglês deriva de raízes germânicas e, antes disso, de línguas celtas (algumas ainda faladas na Irlanda, Escócia e País de Gales – não mutuamente inteligíveis, mas com uma raiz comum). A Inglaterra foi invadida pelos romanos em 43 d.C. e ficaram conosco por três séculos e meio, saindo no século V. Mas os nativos geralmente não falavam latim. Com o casamento misto, eles ainda teriam uma variedade das primeiras línguas, mas é um erro associar uma nação insular ao isolamento: o comércio continuou com nossos vizinhos próximos no continente, na Escandinávia, no Mediterrâneo, na África e ainda mais longe. Havia a necessidade de comunicar. Se não tivessem conseguido, não teriam sobrevivido. A invasão seguinte veio dos saxões, jutas e outros (tribos germânicas da Alemanha, Holanda, Dinamarca e Escandinávia) em um enorme movimento de pessoas, por volta de 450 d.C. Muitos dos nossos celtas retiraram-se para o País de Gales e para outros pontos da Grã-Bretanha e levaram consigo as suas línguas. Assim se desenvolveu o que hoje chamamos de anglo-saxão ou inglês antigo – não da noite para o dia, mas quando passamos para as invasões vikings (a partir de 800 d.C.), a mistura de línguas se estabeleceu solidamente: temos literatura dos mosteiros e obras como Beowulf (séculos VIII a XI) nos dialetos saxões ocidentais. Conjectura-se que, se o inglês antigo não tivesse passado pelo que estava prestes a acontecer, o inglês e o holandês poderiam ter acabado por ser bastante próximos. Mas isso não aconteceu por causa da Invasão Normanda em 1066 – a Batalha de Hastings. O detalhe histórico pode esperar por outro tempo, mas efetiva- mente o antigo domínio anglo-saxão com seu reino terminou e nos mudamos de Haroldo para Guilherme, o Conquistador. Os normandos eram, na verdade, guerreiros de origem viking. Eram um grupo poderoso, que viajava, conquistava e assimilava-se nas suas novas terras. Normandia e Inglaterra eram duas faces da mesma moeda até que o rei João “perdeu” a Normandia no século XIII e a Inglaterra se tornou autônoma de uma for- ma que não tinha sido até então. A língua oficial imposta pelos normandos era o francês normando. Essa era a língua do conquistador. O anglo-saxão era para os conquistados, e quem desejava uma vida fácil aprendia esta nova língua rapidamente. Os mosteiros e a Igreja (católica na época, claro: não havia outras Igrejas) foram tomadas, mas ao mesmo tempo, após a destruição viking dos séculos anteriores, havia muito a reconstruir e Guilherme (que estava longe de ser um pagão sem Deus) ficou chocado com o estado da Igreja e da nação. Mas isto não é uma aula de história, estávamos a falar de línguas. Não demorou para que o inglês (agora inglês médio) no século XIV se estabele- cesse na literatura. O autor mais famoso desta época é Geoffrey Chaucer (1343-1400), famoso, entre outras obras, por The Canterbury Tales, uma animada e divertida coletânea de contos de peregrinos e suas vidas e aventuras. Para o falante do inglês moderno é preciso algum esforço para ler a obra no original, que ainda assim é consistente em sua gramática LÍNGUAS MORTAS E VIVAS Abril-junho 2023 | Scena Crítica 13 P
  • 14. óbvio que a maioria das línguas europeias e indianas, do extremo oriente e algumas outras, tinham palavras com origem comum, embora agora tão variadas que são, pelo menos em suas extremidades, totalmente ininteligíveis. As minhas competências linguísticas são o inglês, o latim e as línguas de base latina, pelo que, como linguista, sou um pouco uma fraude. Se tivesse tempo, viveria para me familiarizar com o lituano – considerado o mais próximo do PIE –, com a gramática mais obstruída e casos há muito esquecidos, herdados do proto-balto-eslavo. Quanto às línguas indianas, isso é outra história, mas todas elas têm esse parente distante. Mas não todas. Mesmo na Europa existem línguas “isoladas” que parecem não ter origem comum. Tal seria o basco, que antecede o latim. Vá para as Américas, Indonésia e o Novo Mundo e há muitas mais. Como não é prático traduzir um artigo do inglês para o português, vou parar por aqui, pois exemplos não “viajam”, neste caso. Mas uma das formas mais simples de comparar as ligações entre línguas é contar de uma a dez. Russo, latim, línguas PIE. Você tem que muitas vezes ultrapassar a ortografia e olhar para as raízes. Como pensamento final, no norte e em algumas outras áreas remotas da Inglaterra, alguns agricultores ainda usam um antigo sistema de rimas (“Yan, tan, tethera”) para contar ovelhas. É muito parecido com o galês (que não é falado na Inglaterra), mas acontece que é muito próximo do britônico. Tais oradores remontam à idade do ferro. Não posso falar em nome das ovelhas, mas elas não podem queixar-se de falta de coerência. As línguas têm raízes muito profundas e longas. simplificada e com vocabulário fortemente influenciado pelo francês (O inglês moderno atribui cerca de 45% do seu vocabulário ao francês). Por esta altura, já se tinham passado três séculos e meio desde Hastings. O suficiente para estabelecer um governo estável e uma dinastia, para que as classes se estabelecessem e o conceito de conquista por estrangeiros tivesse recuado. A sociedade tinha mudado e a linguagem também. As invasões haviam cessado. Este foi também o início da imprensa e o efeito disso em todos os países foi considerável. A Igreja, como sempre antes da Reforma, foi poderosa, universal e influente. O resto (para o inglês) é história, como se costuma dizer. Com as explorações do século XVI em diante, as guerras e o Império, o inglês moderno se espalhou rapidamente. O título menciona línguas mortas: latim, grego antigo, sânscrito e hebraico vêm à mente como exemplos. A pedra de Roseta foi a chave para resolver os hieróglifos egípcios antigos que intrigaram o homem por milhares de anos, até que esta pedra foi encontrada no final do século XVIII e então – porque tinha sido traduzida para o grego antigo na época de Ptolomeu V (204-181 a.C.) – sua escrita demótica (cotidiana) e os hieróglifos puderam ser finalmente decodificados. Napoleão encontrou a pedra, que foi decifrado graças ao trabalho de Thomas Young e Jean- François Champollion no século XIX. Reside agora no Museu Britânico, em Londres. Tanto a língua copta como a grega estavam “mortas”. Grande parte das escrituras sagradas está em línguas mortas, mas podemos saber com certeza como se escreviam e o que significaram. Hindus, budistas e outros adeptos de textos antigos leem diariamente exatamente o que seus autores pretendiam que fosse lido. Os judeus ortodoxos usam o hebraico e seus estudiosos as línguas mortas. A nossa erudição católica, bem como a liturgia, durante séculos, teve igualmente os seus sacramentos, a missa e os ofícios na língua latina até à década de 1970 e, ao contrário da propaganda de que isso era inevitável, não houve intenção por parte do Concílio Vaticano II de a abolir: apenas de permitir uma maior abertura ao vernáculo (Cf. Sacrosanctum Concilium). Toda esta questão tornou-se muito controversa, mesmo nos dias de hoje. Nós, na compreensão quotidiana das nossas línguas modernas, não precisamos ir mais longe do que o latim vulgar que mencionei acima. Mas há um tataravô das línguas (não todas, mas de um número considerável) que é o protoindo-europeu (PIE). Reunidas a partir de fragmentos no século XVIII por estudiosos, tornou-se muito Abril-junho 2023 | Scena Crítica 14 Britânico, servidor público aposentado, Jeremy Boot dedica-se à consultoria privada a respeito das leis do trabalho no meio rural. Também organiza e canta em missas celebradas em rito tradicional, além de ser um apreciador de histórias de detetive. Ocasionalmente, escreve para periodicos no Reino Unido e em outros países. Manuscrito do séc. XI do poema épico Beowulf, escrito em língua anglo-saxã por volta do séc. VIII Jean-François Champollion, o decifrador dos hieroglifos
  • 15. Dossiê Abril-junho 2023 | Scena Crítica 15 Um ano jubilar este ano em que se recorda os 130 anos do nascimento e 40 de morte de Alceu Amoroso Lima, Scena Crí- tica foi em busca de um dos mais autorizados especialistas na obra de Tristão de Athayde na atualidade. Doutor em Letras pela PUC-Rio, professor de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da UFMG e editor da centenária revista A Ordem, o professor Leandro Garcia Rodrigues publicou há pouco um denso volume contendo a troca de correspondências entre Alceu e o poeta alagoano Jorge de Lima. Numa conversa descontraída, ele nos insere em importantes aspectos da presença de Alceu em nossa história literária. Scena Crítica: Como o senhor compreende 2023 no contexto da literatura nacional? Leandro Garcia: O ano de 1893 na literatura brasileira é singular, porque é o ano em que nascem algumas figuras importantíssimas, como, Alceu Amoroso Lima, Jorge de Lima, Mário de Andrade, padre Leonel Franca, fundador da PUC-Rio, Ronald de Carvalho... Percebe-se, assim, que 1893 é um ano em que nascem cinco grandes nomes da tradição literária brasileira. Dessa forma, 2023 marca a comemoração dos 130 de nascimento e 40 anos da memória da Páscoa de Alceu Amoroso Lima, falecido em 1983 e, no caso do Jorge de Lima, os 130 de nascimento e 70 de morte, pois ele faleceu em 1953. Portanto, eu creio que, certamente, 2023 é um ano jubilar no contexto da literatura nacional. SC: O senhor recentemente lançou as correspondências inéditas entre Alceu e Jorge de Lima. Como foi o processo de pesquisa? Leandro Garcia: Em 2017, participei das comemorações dos 200 anos de Alagoas, e nesta ocasião foram lançados uma série de editais de fomento à cultura. Havia editais para cinema, artes plásticas, teatro, música, e também um edital para literatura, ou seja, para produção literária. Inicialmente fiquei um tanto receoso de participar, porque era apenas uma vaga para cada categoria, além de não ser resi- dente em Alagoas, pois é comum que nesses editais de celebrações de estado ou de município que o candidato seja obrigatoriamente domiciliado no respectivo estado. No entanto, não havia nenhuma cláusula no edital em questão. Então, eu apliquei para o edital de fomento à literatura com a proposta de organizar a correspondência inédita entre Alceu Amoroso Lima e Jorge de Lima. Eu creio que o principal e maior nome da poesia alagoana é Jorge de Lima, e foi com quem o Dr. Alceu trocou a maior parcela das suas correspondências em vida. Isso eu já sabia por conhecer bem o arquivo dele na casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro e o arquivo do Dr. Alceu em Petrópolis. A aprovação do projeto saiu no início de 2018, quando comecei a fazer a pesquisa. Então 2018 e 2019 foram basicamente para levantar a documentação. Eu precisava saber o que havia nessas correspondências, o quantitativo certo de cartas, não só, mas também de outros textos, como poemas inéditos, fotografias, crônicas, textos de imprensa, pois a correspondência não é apenas a troca epistolar, ou seja, a troca de missivas. A correspondência é uma troca de afetos. E nessa linha de “troca de afetos” pode haver várias outras tipologias textuais que não apenas a carta. No período de pesquisa tive que me desdobrar em três lugares: em Petrópolis, no arquivo do Dr. Alceu onde estão as cartas do Jorge Lima para o Alceu; no Rio de Janeiro, onde estão as cartas do Alceu para o Jorge Lima, na Fundação Casa de Rui Barbosa e também no arquivo do Jorge Lima no Instituto Histórico de Alagoas, do qual ele participou e foi membro, além da Academia Alagoana de Letras, da qual ele foi um dos fundadores. O ano de 2018 foi para fazer o levantamento. Em 2019 eu comecei, então, a fazer a transcrição das cartas, ou seja, eu deixei 2019 para transcrever tudo o que o Jorge de Lima havia enviado para o Alceu e que estava no arquivo dele em Petrópolis. E quando eu falo transcrever, é transcrever mesmo, pois esses documentos estão todos manuscritos e alguns datilografados. O trabalho consistia realmente em tomar o documento original na esquerda, o meu notebook no meio e ficar encarando-o, digitando e transcrevendo. SC: Fale um pouco da figura de Alceu Amoroso Lima como crítico literário. Leandro Garcia: O Alceu começa com a crítica literária em 1919. Note-se que é um pouco anterior ao modernismo de 1922. Ele fez um reconhecimento único na literatura brasileira que foi o reconhecimento de Lima Barreto, o autor de O triste fim de Policarpo Quaresma. Lima Barreto em vida reclamava ser vítima do que se chamava “conspiração do silêncio”. A conspiração do silêncio consistia em não ser nem elogiado nem criticado pela crítica literária, em síntese não ser mencionado. Ainda em 1919, o Alceu publica um texto intitulado “Um discípulo de Machado”, que finalmente irá valorizar, finalmente, o valor literário de Lima Barreto alçando-o a linhagem de Machado de Assis, isso ainda N Entrevista com o prof. Leandro Garcia Rodrigues
  • 16. Abril-junho 2023 | Scena Crítica 16 três anos antes do modernismo. Em fevereiro de 1922 ocorre a Semana de Arte Moderna de São Paulo, e o Alceu toma ciência do acontecimento, ainda que não tenha havido repercussão no Rio de Janeiro, exceto por um release de 5 linhas em uma pequena revista popularesca chamada “Para todos”, que a chamou de Semana Futurista. O Alceu já reconhecia que o que havia acontecido em São Paulo marcava um divisor de águas na modernidade literária brasileira. Então, a partir deste momento, ele irá mapear o contexto literário brasileiro, mantendo correspondências com os maiores expoentes da literatura naquele momento em todas as regiões do país. Nessa época o Alceu escrevia para três revistas especializadas, além de jornais de grande circulação no Rio de Janeiro, recordando que tratava-se de um Rio de Janeiro ainda capital federal, onde toda efervescência cultural tinha lugar, onde praticamente todas as instituições relevantes para a cultura estavam presentes.Por isso, me atrevo a dizer que o Alceu é o crítico literário de maior importância no período do modernismo, pois ele mapeou o cenário literário brasileiro de modo a divulgar mais efetivamente esses novos nomes. SC: Como o senhor enxerga o processo de conversão dele? Leandro Garcia: O correto a falar seria “reconversão”, uma vez que o Alceu, como qualquer outro brasileiro de seu tempo, havia sido batizado, além de estar em um SC: Por que um recém converso foi considerado o nome ideal para o Cardeal Leme elegê-lo com líder do laicato após Jackson de Figueiredo? Leandro Garcia: Parece que era natural. Com a morte de Jackson de Figueiredo em 1928, o Alceu aparecia como o único com as capacidades de articulação no campo da cultura e da vida social para desempenhar a árdua tarefa de conduzir o laicato nacional. Isto ele fez no Centro Dom Vital, que nesse período reunia filiais por todo o Brasil, chegando mesmo a reunir intelectuais que a priori eram absolutamente hostis à religião, como foi o caso de Mario de Andrade, por muitos anos sócio e frequentador ativo das reuniões no Centro Dom Vital, além de colaborador esporádico da revista A Ordem. Creio que a função mais importante no contexto do laicato era a liderança da Ação Católica, e creio que a experiência do Alceu no contexto da universidade proporcionou uma dinâmica toda nova e muito eficiente para o movimento. O Alceu comandava as associações ligadas à Ação Católica como se comanda uma universidade, lembrando que neste período ele era reitor da Universidade do Distrito Federal. As associações eram para ele como que os vários departamentos de uma universidade com particularidades, hierarquia e áreas afins no saber, o que dinamizou muitíssimo o funcionamento dessas muitas associações de leigos. SC: Uma questão um pouco fora do escopo. O senhor como docente em uma grande universidade, como enxerga os esforços e os desafios no campo do apostolado para o público universitário? Leandro Garcia: O contexto das universidades é certamente de muita aridez no que diz respeito à religião, e não raramente um ambiente de hostilidade a ela. No entanto, me parece haver uma ausência de lideranças intelectuais advindas do clero, em um momento em que os jovens têm acesso farto à informação. É mais do que urgente que o sacerdote possua a expertise para responder às diversas demandas que advém nesse contexto. Me parece também que no campo da estratégia, não é pertinente neste momento e neste contexto que o discurso inicie pela conversão. Na verdade, me parece que se deva inicialmente pensar na convivência como um meio mais efetivo para se dar passos. Inclusive, creio que se devam procurar pautas que possar criar uma intercessão entre a religião e as necessidades e questões objetivas do ambiente da universidade. Eu creio que a única postura possível é a do convívio. contexto em que a cultura religiosa era muito presente na formação dos indivíduos. O que ocorreu com o Alceu, que vindo de uma família abastada, é que recebeu parte de sua formação no Colégio Pedro II, onde boa parte da elite frequentava, e neste momento do início do século XX o colégio era um grande centro de irradiação do positivismo, pelo qual o Alceu foi muito influenciado nesse período. Já na década de 1920 ele inicia sua correspondência com Jackson de Figueiredo e, ainda que, curiosamente, tenham se encontrado pouquíssimas vezes, foi ele o tutor da reconversão do Alceu que culminará em 1929. É preciso distinguir pelo menos três fases do pensamento religioso de Alceu Amoroso Lima. O primeiro, que é uma fase mais influenciada por Jackson de Figueiredo, é o de uma catolicismo mais ultramontano e apologética que se estende desde a sua conversão até meados dos anos de 1940, quando Alceu começa a ter contato com o humanismo de Jacques Maritain, que definitivamente lhe será paradoxal, além da morte de Dom Sebastião Leme em 1942 que concede certa liberdade de consciência a ele para especular mais no campo da consciência religiosa na vida social.Outro nome que pode ser citado neste período é o do monge trapista Thomas Merton, com quem Alceu manteve intensa correspondência, e com quem ele teve os primeiros contatos com a ideia do ecumenismo e do diálogo inter-religioso. A terceira e última fase brota nos anos 1960, quando Alceu foi emissário leigo no Concílio Vaticano II e retorna de Roma entusiasmado com as mudanças advindas quer no campo da liturgia quer na dinâmica da pastoral. Há a partir daí um estreitamento das relações, especialmente, com Dom Hélder Câmara, e outros nomes da ala progressista da Igreja no Brasil. Houve, sem dúvida uma aproximação com a teologia da libertação nesse período. Então são três fases bem distintas de um homem que ao referir-se à sua vida costumava dizer que foi “de bombeiro a incendiário”.
  • 17. Conhecimento e poder segundo Michel Foucault presente artigo está voltado para a discussão encontrada na produção filosófica de Michel Foucault identificada pelos estudiosos do seu pensamento como a fase do "segundo Foucault", na qual se destaca uma reflexão que pretende superar o formalismo atestado pelas estruturas do a priori histórico próprias da primeira fase do seu pensamento. De fato, no segundo Foucault se evidencia as relações de poder como fomentadoras do conhecimento, e sendo o poder uma realidade não substancial, ou seja, algo que não existe em si, mas nas mais variadas relações existentes, sendo elas instáveis, consequentemente o poder não pode ter um caráter formal, e ao engendrar o conhecimento, por conseguinte, faz com que este não esteja fundado em uma estrutura estável de caráter formal, mas seja uma realidade dispersa (DELEUZE, 1995, p. 35). Para Foucault, a relação entre conhecimento científico e poder político não pode ser entendida como uma relação externa incapaz de afetar o conteúdo da própria ciência. Segundo essa concepção, por mais que os contextos sociais e políticos apresentem as questões sobre as quais o conhecimento irá se debruçar, a política não é capaz de influenciar as respostas oferecidas pela ciência. Neste caso, as respostas dadas pela ciência são tomadas como objetivas e verdadeiras seja qual for o contexto envolvido. Ao contrário, Foucault vai admitir que a relação entre conhecimento científico e político é, sobretudo, uma relação interna: O presente na sociedade. Assim sendo, as ciências humanas, como a psicologia, por exemplo, são instrumentos desenvolvidos e controlados por uma intenção clara de disciplinação. Assim sendo, a grande novidade apresentada por Foucault reside na análise das instituições como produtoras de uma noção de homem que se afasta da tradição filosófica. Nesse sentido, a filosofia é considerada por Foucault como uma prática aberta que não se reduz aos considerados signos filosóficos. A função da filosofia está em acompanhar os ritmos da história, não tentando enquadrá-la em um sistema, mas acompanhar o seu movimento de tal forma que os acontecimentos acabam por se apresentar como uma fonte inesgotável de renovação para o nosso conhecimento e para moral. (Pestaña 2011, 23-24) Essa visão aberta sobre a história faz perceber que ela não pode ser pensada como uma disciplina neutra, mas é profundamente influenciada e ligada a uma concepção jurídica de poder. A história enquanto disciplina que se volta ao passado tem uma função de legitimação de um conceito jurídico de poder. Assim sendo, o poder é o substrato que permite contar a história. O poder estabelece a episteme, ou seja, o saber da política. A análise da conexão entre as relações de poder e o conhecimento científico leva Foucault a uma reflexão sobre o processo de governamentalização responsável pelo nascimento de uma forma de cultura geral. A pergunta sobre o que significa governar exige uma pergunta anterior, que reside na questão de como não ser governado. Dessa forma, podemos considerar a história da governamentalidade como uma “análise que pretende indicar o tipo específico de racionalidade política e tecnologia do poder que foi implementado no exercício do poder do Estado moderno”. (Oskala 2011, 104) Foucault também indica o poder individualizante característica da governamentalidade. Segundo Foucault, a característica individualizante que se desenvolve no Estado moderno é antagônica, e tem por objetivo manter a centralização do poder não por meio do controle de um objeto geral, como é o caso da população, mas se refere “ao desenvolvimento de tecnologias de poder orientadas para indivíduos numa tentativa de orientar-lhes a conduta de maneira contínua e permanente”.(Oskala 2011, 104) Em suma, verifica-se no segundo Foucault uma análise do poder político por meio da racionalidade que se inscreve em suas práticas. Aqui, deveremos considerar que a relação saber e política é responsável por estabelecer a política da verdade, isto é, organizar e controlar por meio dos regimes políticos os indivíduos através de uma representação da ordem das coisas que é apresentada como sendo verdadeira. Bibliografia FOUCAULT, M. Les mots et les choses. Paris: Gallimard 1966. DELEUZE, G. Foucault. Madrid 1995. OKSALA, J. Como ler Foucault. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. PESTAÑA, J. L. M. Foucault y la política. Madrid: Tierradenadie, 2011. Abril-junho 2023 | Scena Crítica 17 A afirmação de Foucault sobre o entrelaçamento de poder e saber é por vezes mais forte. A seu ver, a relação entre ambos é interna: o contexto social e político do conhecimento científico também molda o conteúdo do próprio conhecimento científico... Ele (Foucault) sustenta com toda clareza que a ciência é uma prática social. Todas as sociedades têm práticas e instituições para a produção do saber, e o desenvolvimento da ciência é uma atividade necessariamente social, não individual. Os elementos do saber têm de se conformar a um conjunto de regras e limitações características de um dado tipo de discurso científico num dado período (OSKALA, 2011, p. 64-65). Posto isso, podemos verificar a posição de Foucault sobre o indivíduo como uma realidade que não é princípio nem condição de possibilidade, mas como conseqüência do complicado aparato que define a modernidade. Daí entendermos a célebre frase cunhada por Foucault em Les mots et les choses: o homem é uma invenção recente na história de nosso pensamento, e talvez o seu fim esteja próximo (FOUCAULT, 1966, p. 398). Destacamos, assim, a reflexão feita por Foucault que se afasta de uma perspectiva mais discursiva e epistemológica propriamente dita para voltar-se a uma reflexão sobre a prática política. Nesse caso, o tema da epistemologia está diluído na prática exercida pela política, principalmente no que se refere à dimensão disciplinar Marcos Paulo Galvão é doutor em Filosofia pela Pontificia Università Gregoriana, onde defendeu a tese A política do saber e o saber da política: a dialética de resistência e liberdade segundo Michel Foucault.
  • 18. mas de autorizações dos colonizadores portugueses. São José de Anchieta entendeu perfeitamente o “ide” anunciado pelo seu Senhor como narra o Evangelista Marcos (cf. 16,15). Seu desejo de dar a conhecer a salvação e a civilidade eram maiores que suas limitações corporais. Foi graças a este testemunho cristão que logo ganhou a confiança dos nativos e a cooperação deles, como assim narra o autor. A obra apresenta desde suas primeiras páginas, o agir da Virgem Santíssima e da providência de Deus. E tudo Livro aberto ANCHIETA, O APÓSTOLO DO BRASIL Joaquim Tomás assim fez José de Anchieta. O Apóstolo do Brasil, levado pela audácia missionária, percorre as terras selvagens levando ao povo a civilidade. A obra narra, a partir de fontes primárias, os comportamentos canibais das tribos, bem como os inúmeros confrontos entre os indígenas. Anchieta vê nestes comportamentos o lugar propício para o agir de Deus que transforma “corações de pedra em coração de carne” (cf. Ez 36,26). Em suas explanações, o autor faz o leitor conhecer este jovem missionário, mostrando que todo o mérito de sua jornada heroica é, unicamente, fruto da intercessão da Santíssima Virgem e da misericórdia de Deus. Anchieta não é um jovem com potenciais físicos para grandes missões. Por isso, dentre tantos outros pontos, a obra apresenta essas duas dimensões importantíssimas: fé e educação. Na atual situação educacional e religiosa de nosso País, faz-se necessário conhecer a essência desta “Terra de Santa Cruz”. Anchieta não busca uma educação libertadora. Mas uma educação que possa conjugar fé e vida; entendendo que a partir do seu único mestre, Jesus Cristo, é possível levar o homem a entender a si mesmo e ao desejo de seu Criador, ou seja, as verdades imutáveis e o Céu. Joaquim Tomás apresenta os diferentes dons do “pai da educação deste País”: José de Anchieta era um jovem poeta, músico, escritor, dramaturgo, catequista, entre tantas outras coisas. Todos estes dons foram instrumentos para a educação dos nativos. Além disso, ele fez uso daquilo que era próprio da cultura dos indígenas, aprendendo, até mesmo a língua nativa e sendo o primeiro a escrever a gramática da língua tupi. Outros pontos importantes sobre este santo homem foram seus esforços em construir escolas em São Paulo, Rio e Vitória para a educação dos nativos. Sem contar tantos outros grandes feitos realizados em favor dos índios. Principalmente em tempos tão complexos onde suas atitudes missionárias não dependiam só de seus esforços, oaquim Tomás, na obra Anchieta, o Apóstolo do Brasil faz uma abordagem clara e sucinta sobre “o Brasil selvagem – ambiente encontrado pelos jesuítas”. As narrativas que comumente nos são apresentadas dentro das escolas e universidades, não condizem, de fato, com a real situação deste país ou os pormenores do início de sua fundação. O autor, não só apresenta o Brasil colonial, mas um verdadeiro convite a entregar-se a providência de Deus, como 18 Abril-junho 2023 | Scena Crítica TOMÁS, Joaquim. Anchieta, o apóstolo do Brasil. Dois Irmãos, RS: Minha Biblioteca Católica, 2020. Graduado em filosofia, com formação em teologia e especialidade em psicopedagogia, Jeciandro Pessoa desenvolve nas redes sociais o projeto Pensar catequese. J que se refere ao personagem principal, ou seja, José de Anchieta, indica que sua vida é tecida unicamente pela ação misericordiosa do Pai. Sua partida para uma terra desconhecida, sua aproximação dos nativos, a fraternidade construída e seu jeito terno de educar e usar daquilo que corria no sangue daquele povo (a arte); tudo isso é expresso de maneira bela, mesmo nos espinhos de sua jornada. Hoje se faz necessário “não perder de vista o nosso ponto de partida”. A educação atual precisa redescobrir aquela busca mais genuína, a Verdade do homem, sua constituição como pessoa, como portador de uma dignidade inviolável. Toda educação deve girar em torno disso: quem sou e para onde vou. Desvencilhando-se daquilo que é efêmero e passageiro, mas recordando-se aquilo que é Eterno. A vida do “pai da educação deste País” é um verdadeiro testemunho para os educadores e para aqueles que têm desejo de conhecer a Verdade. Fazendo com que “tenha em vossos corações o mesmo sentimento de Cristo” (cf. Fl 2,5). Pois só Ele é aquilo que buscamos: Caminho, Verdade e Vida.
  • 19. Ó eterna infâmia que nunca se apaga Teria que ser eu mais uma de tuas vítimas? Por que me humilhar, me jogar no chão E me recordar que sou eu e minhas circunstânias? Não era suficiente alertar-me que minhas misérias Eram demasiadas E ainda mais me jogas na cara que não passo de um átomo Um nada Onde a insignificancia do mundo encontrou seu esplendor e sua glória E tornando-me objeto do riso dos bêbados Ao menos sinto ser útil para alguma coisa E se pouca coisa sou ao menos deixem-me causar momentos de hilaridade nos únicos que são capazes de dizer a verdade que tantos hipocritamente querem esconder E assim É essa verdade o que mais doi A candeia a obscurecer a claridade que eu imaginava ter O antisséptico a causar as piores inflamações nas feridas abertas pela espada afiada da paixão que supostamente era a resposta dos males do mundo É na verdade o maior dos males inventado pelos poetas Algo que te consome sem te destruir Um assassino frio e cruel que rejeita o tiro de misericórdia E zombas de ti quando por algum motivo bizarro Encontra forças para continuar ainda que a maldita circunstância Venha fazer mais uma de suas insuportáveis travessuras Te afastando daquilo que amas Te levando para os braços da rainha da morte Ágοrα Praça de divulgação literária 19 Abril-junho 2023 | Scena Crítica Natanael Faria de Abreu, mineiro, escritor e compositor. É autor dos romances Pintando o 7 em 22, O Sorriso de Eva e 49 dias e 40 anoites (inédito). A neblina e o vento A vida é uma estrada tomada pela neblina e pelo vento. Vi amores sumindo na névoa da estrada da vida: pessoas sumindo, coisas sumindo . Neblina profunda obscurecendo nossas estimações. Memórias perdidas nas madrugadas do tempo... Tempos do tudo. Tempos do nada. O sorriso infantil se perdeu. O abraço fraternal se perdeu. O estar junto se perdeu. Os desamores se perderam. Temos o vento que empurra velhas neblinas até que novas neblinas venham a encobrir nosvos esquecimentos, novas lembranças... Alessandro di Borgia Ju a n O so r n o Que é a solidão que somente é conhecida Daqueles que são rodeados por gente sóbria e sã Gente incapaz de entender que sua sobriedade é pura ilusão Pois ser sóbrio neste mundo louco é um luxo demasiado caro Uma fantasia, uma quimera de quem gosta de ser enganado A acreditar que tens o controle da situação Mas não, as circunstancias não permitem E se queres um pouco de paz Somente aceite que não es dono de si Mas escravo da circunstâcia funesta Que te persegue com os capitães-do-mato de tua própria condição humana E deste embaraço só consegues escapar Quando juntar-te aos bêbados Para que um outro desgraçado seja motivo de riso para ti. E assim esse mundo gira até que a morte nos separe. Gostaria de ter seu texto divulgado na Ágora? Confere lá no nosso site (scenacritica.blogspot.com) as regras para submissão. Poemas, cronicas, contos, resenhas, todos tem espaço em nossa praça de divulgação literária. Uma vida reflexiva Eu pensei seriamente na minha vida e na minha existência. Sei que foi um presente, desde que era inconciente. Difícil acreditar que existo por simplesmente existir, e vivo por mim. Se fosse assim, que sentido teria ela de ser tão perfeita? O fim é tão duro de pensar, me dá medo só de imaginar. Nem mesmo meus sonhos são capazes de ilustrar. A escuridão não é algo concreto, isso é fato, porém, a conclusão é algo a ser velada. Não sei qual será o meu fim mas eu gostaria de ser perdoado. Me pego pensando no tempo enquanto respiro e até o último suspiro espero ter me encontrado. Num mundo além da minha cabeça, que apenas morrendo entenderei do que falo. Yasmin Ramos, nascida em Campina Grande PB, porém, criada no Rio de Janeiro, em Inhaúma. Estudante do Colégio Pedro II, apaixonada por artes e uma escritora amadora.
  • 20. Um Papa jesuíta analisa Pascal o dia 19 de junho de 2023, o Papa Francisco apresenta à Igreja a carta apostólica Sublimitas et miseria hominis, sobre o filósofo francês Blaise Pascal. É deveras curioso que seja justamente um papa da Companhia de Jesus, os inimigos históricos de Pascal, que tenha escrito um documento com o intuito de prestar-lhe “uma especial homenagem”, nas palavras do Romano Pontífice. Francisco propõe o filósofo como um fiel leigo que teste- munhou a alegria do Cristo. Antes de entrar no conteúdo da refe- rida carta apostólica, é necessário um pequeno resumo da sua vida. Pascal nasceu em Clermont- Ferrand na província de Auvergne, em 19 de junho de 1623, filho de Étienne Pascal e Antoinette Begon. Seu pai era matemático e desde ce- do ensinou-lhe as línguas clássicas e a matemática. O menino demonstrou ser um prodígio, escre- vendo em tenra idade tratados sobre o som, sobre as cônicas, fazendo experimentos com o vácuo e inventando antes dos 20 anos a primeira máquina de calcular. Em 1646 Pascal toma contato com o jansenismo, que iria marcar profunda- mente sua vida e seu pensamento. Entrou em polê- mica com os jesuítas em questão de moral e casuística, legando à poste- ridade as Cartas provinciais, verdadeiro mo- numento da língua francesa. Mas a obra pela qual ele é mais conhecido é aquela que ele nunca terminou. Na tentativa de defender a fé contra os racionalistas e libertinos, o filósofo escreveu seus pensamentos em folhas avulsas no intuito de reuni-los depois em uma única obra. Morreu em Paris, no dia 19 de agosto de 1662 sem que pudesse completar sua desejada obra. Sua irmã e seus amigos juntaram os fragmentos e deram ao público em 1670 a primeira edição dos Pensamentos, que até hoje são lidos e discutidos. O documento papal não é, entretanto, o primeiro pronun- N ciamento público do atual pontífice sobre Blaise Pascal. Em entrevista publicada no jornal italiano La Reppublica, em junho de 2017, Eugenio Scalfari perguntara ao papa o que ele achava do filósofo francês, e a resposta de Francisco surpreenderia o próprio Pascal: “anch'io penso che [Pascal] meriti la beati- ficazione”[1]. Como? Um jansenista, mere- cer? Aqui se faz necessário também explicar o que é o jansenismo. É complexo categorizar o que seja a heresia jansenista, pois seus adeptos inauguraram um novo modo de ser herege. Quando Nestório, patriarca de Constantinopla, começou a negar, no século V, que a Virgem Maria fosse mãe de Deus, o bispo de Roma na época, São Leão Magno, condenou sua tese como heresia; Nestório, porém recu- sou submeter-se à Santa Sé. O mesmo se deu com os monofisistas, que negavam que Jesus tivesse duas naturezas, e os monotelistas, que negavam que Jesus tivesse duas vontades. Uma vez condenados por Roma, preferiram sair e fundar suas próprias igrejas. Ao longo da história foi o que aconteceu com todos aqueles que foram considerados hereges, até surgir o Jansenismo. Os adeptos da heresia jansenista, por mais que fossem conde- nados por Roma, recusavam-se a sair da Igreja Católica[2]. Apelando a tantos subter- fúgios, ora negando, ora afirmando, ora negando que houves- sem negado ou afirmado, os sequazes da tal doutrina fizeram com que a própria heresia apre- sentasse aspe- ctos camaleônicos. O meio mais seguro para conhecer o que foi o Jansenismo é através das cinco proposições contidas no Augustinus, escrito pelo bispo Cornélio Jansênio, e condenadas pelo papa Inocêncio X, na bula Cum occasione, de 1658. Cinco foram as proposições condenadas: que alguns mandamentos divinos nem pelos justos podem ser cumpridos, por falta de necessária graça; que o homem não pode resistir à graça interior; que para o mérito, no estado de natureza decaída, basta a isenção da violência física, ainda que sob a pressão da necessidade; Abril-junho 2023 | Scena Crítica 20
  • 21. É difícil dizer algo definitivo, afinal, o autor nunca conseguiu terminar sua Apologia. O fato é que ele admite que o ser humano pode ter alguma participação na obtenção da fé, e isso já soa bem estranho para um adepto do jansenismo. Sabe-se que o jansenismo era extremamente austero e rigorista e que Pascal se interessou por essa moral; por isso, alguns pensam, erroneamente, que o jansenismo influenciou Pascal nos trechos em que este defendeu o ódio por si mesmo: “o eu é odioso [...] odiá-lo-ei sempre”[6]; “é preciso amar só a Deus e só odiar a si mesmo”[7]; “devemos odiar-nos a nós mesmos, e a tudo que nos excite a outro liame que não seja Deus somente”[8]; “a verdadeira e única virtude consiste, pois, em odiar a si mesmo”[9]; “quem não odeia em si o seu amor-próprio, e esse instinto que o leva a fazer-se Deus, é bem cego”[10]. No entanto, por incrível que pareça, a espiritualidade do ódio a si não é algo próprio ao jansenismo, mas algo prevalente nos autores espirituais daquele período. Por exemplo, o maior pregador antijansenista do século XVIII, Luís Maria Grignion de Montfort, canonizado em 1947, escreveu numa de suas obras de polêmica antijansenista: que é erro semipelagiano julgar que a vontade humana pode seguir ou repelir a graça e que é semipelagiano dizer que Jesus morreu por todos os homens. Segundo Jackson de Figueiredo, todas essas proposições “se poderiam resumir em uma só: A graça de Deus é predestinada e eficaz – o que quer dizer: Deus tem eleitos e estes sempre o foram de toda a Eternidade”[3]. Era, dessa forma, uma espécie de “calvinismo católico”. Porém, ainda há debates sobre até que ponto Pascal aderiu aos aspectos dogmáticos do jansenismo, sobretudo no que diz respeito à predestinação e à participação do homem na obtenção da graça. Ele acredita que mesmo o descrente pode obter a fé quando age como se possuísse fé. Aqui surge uma discussão interessante. Se ele era jansenista, como pode aceitar que haja alguma participação do homem na obtenção da graça divina, da graça da fé? Os comentadores do filósofo ainda debatem quanto a isso. A questão da predestinação também é um assunto espinhoso, alguns defendem que ele acreditava, outros que não. Souriau diz que: Abril-junho 2023 | Scena Crítica 21 Seus Pensamentos são sobretudo uma exposição do jansenismo exasperado, um novo Augustinus, revisto e consideravelmente agravado. Se tivesse tido tempo de terminar seu livro, estamos no direito de afirmar que, na parte dogmática, ele teria tentado mostrar nos jansenistas os únicos verdadeiros discípulos de Jesus; [...] ele estaria obstinado em convencer o público geral que os adversários de Port-Royal não eram verdadeiros cristãos.[4] Enquanto Stewart defende que Pascal permaneceu do lado dos jansenistas mais por causa da moral que por causa da doutrina: Pascal não era, ao menos em doutrina, um completo jansenista. No profundo drama que está sempre sendo representado entre a alma e Deus, ele parece, enquanto confessa ignorância do processo, permitir alguma parte da vontade humana, enxergar uma centelha no seio humano, que pode ser soprada até as chamas pela operação do espírito divino. Ele se recusa a considerar o homem como um mero fantoche, ele salvaguarda sua autonomia e liberdade. Mesmo assim, na história, ele permanece com os jansenistas. Ele não pode ser dissociado deles. Por quê? Principalmente por causa da moralidade.[5] Por que nos admirar de ter Nosso Senhor dito que quem quisesse segui-lo devia renunciar a si mesmo e odiar a própria alma; que aquele que amasse sua alma a perderia e quem a odiasse se salvaria? (Jo 12, 25) A Sabedoria infinita, que não dá ordens sem motivo, só ordena que nos odiemos porque somos grandemente dignos de ódio: só Deus é digno de amor, enquanto nada há mais digno de ódio do que nós.[11] Do mesmo modo, o livro espiritual mais lido da história, A Imitação de Cristo, escrito no século XV, ensina que “o amor de Jesus faz com que o homem se despreze a si mesmo”[12] e que “aquele que se conhece bem despreza- se e não se compraz em humanos louvores”[13] e também que “não há melhor e mais útil estudo que conhecer-se perfeitamente e desprezar-se a si mesmo”[14]. Claro que não se pode negar que o jansenismo foi uma resposta austera contra o laxismo de alguns jesuítas, mas não é a austeridade que faz o jansenismo ser o que ele é. Também quem enxerga nesse sistema simplesmente a corrupção total da natureza humana ainda não chegou ao âmago do que é o jansenismo. Mais uma vez, um texto que poderia ser repetido pela pena de qualquer jansenista é, na verdade, um texto de um ardoroso antijansenista: Para despojarmo-nos de nós mesmos, é preciso conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniquidade em todo lugar. O pecado de nossos primeiros pais nos estragou completamente, nos azedou, inchou e corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a massa em que é posto [...] toda nossa herança é orgulho e cegueira no espírito, endurecimento no coração, fraqueza e inconstância na alma, concupiscência, paixões revoltadas e doenças no corpo [...] tudo que temos em nosso íntimo é nada e pecado, e só merecemos a ira de Deus e o inferno eterno.[15] O ponto capital da doutrina cristã em geral e de Jansênio em particular no qual Pascal irá basear sua visão da humanidade é o “dogma da queda, base de toda a sua filosofia, como que o centro da sua concepção da vida”. Mas há outro ponto do jansenismo no qual Blaise irá fundamentar sua antropologia, filosofia e teologia: o cristocentrismo radical. Como se verá mais a frente, Pascal vê em Jesus Cristo a única solução para o problema da condição humana. Para os jansenistas de nada valiam a devoção aos santos e à Virgem Maria. Para os sequazes de Jansênio, como a graça de Deus é predeterminada e o homem nada pode fazer para merecê-la, só Jesus Cristo e
  • 22. Três pontos podem se destacar nesse parágrafo de Francisco. Primeiro, ele reconhece a validade dos argumentos jansenistas em favor da não condenação do Augistinus de Jansênio, isto é, que as proposições condenadas pela bula Cum occasione não se encontravam no livro. Por muitos anos a controvérsia jansenista girou não em torno da verdade ou falsidade das proposições condenadas, mas se elas estavam realmente presentes no livro escrito por Jansênio. Os jansenistas defendiam que não estavam enquanto os seus adversários defendiam que sim. Em segundo lugar, Francisco parece reconhecer que a interpretação de Jansênio sobre a doutrina agostiniana da predestinação é legítima, um “aperfeiçoamento” do pensamento agostiniano. É preciso frisar que isso não significa que essas ideias estivessem corretas do ponto de vista da ortodoxia católica, mas tão somente que o Jansênio não era um falsificador da doutrina agostiniana como alguns pensaram. O papa reconhece que tais fórmulas, apesar de incorretas, seriam conclusões lógicas das premissas agostinianas. O último ponto é o reconhecimento da sinceridade de Pascal. E aqui Francisco agiu como um casuísta do século XVII: se não pôde desculpar a ação, ao menos desculpou a intenção de Blaise Pascal. Sim, é possível ser jesuíta e pascaliano afinal. __________________________________ [1]https://www.repubblica.it/vaticano/2017/07/08/news/scalfari_inter vista_francesco_il_mio_grido_al_g20_sui_migranti_-170253225/. Consultado em 03/08/2023. [2] O próprio Pascal, depois de ter escrito centenas de páginas contra os jesuítas, contra os teólogos da Sorbonne, contra os documentos condenatórios ao jansenismo, escreve na carta 17 das provinciais: “Não tenho qualquer vínculo com comunidade alguma, exceto com a Igreja, Católica, Apostólica, Romana, em cujo seio desejo viver e morrer, em comunhão com o papa, o cabeça da Igreja, e fora da qual estou persuadido de que não há salvação.” Pascal. The provincial letters of Blaise Pascal. Tradução de Thomas M’Crie. Cambridge: Riverside Press, 1880, p. 421. [3] FIGUEIREDO, Jackson. Pascal e a inquietação moderna, Rio de Janeiro: Centro Dom Vital, 1922, p. 95s. [4] SOURIAU, Maurice. Pascal. Paris: Société Française d'Imprimerie et de Librairie, 1898, p. 183. [5] STEWART, Hugh Fraser. The Holiness of Pascal. Cambridge: Cambridge University Press, 1915, p. 72. [6] PASCAL. Pensamentos. São Paulo: Abril, 1973, fr. 455, p.155. [7] Ibidem. fr. 476, p. 158. [8] Ibid. fr. 479, p. 159. [9] Ibid. fr. 485, p. 160. [10] Ibid. fr. 492, p. 161. [11] MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 46 ed., Petrópolis: Vozes, 2015, p. 82. [12] KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Petrópolis: Vozes, 2015, p.84. [13] Ibid. p. 23. [14] Ibid. p. 24. [15] MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 46 ed., Petrópolis: Vozes, 2015, p. 81s. nada nem ninguém mais importava, fosse santo ou pecador, vivo ou morto. Deixando à parte essas polêmicas da obra pascaliana, Francisco se debruça sobre o legado do grande filósofo. É justamente por colocar Jesus Cristo no centro da sua obra filosófica que o romano pontífice pôde chamar Pascal de “um enamorado de Cristo”. O papa vai traçando então os principais pontos da vida e obra do gênio francês. Na referida carta apostólica há algumas passagens que chamam a atenção. Primeiro o fato de o papa reconhecer que a análise que Pascal faz da condição humana é correta. Já se disse que Pascal atacou a humanidade com mais violência nos Pensamentos do que atacara os jesuítas nas Provinciais. Aos olhos do atual líder da Igreja Católica, porém, o quadro que o filósofo pintou da humanidade não está carregado de um exagero jansenista, como alguns no passado já o acusaram, mas corresponde à realidade da condição dos filhos de Adão. A escusa que o pontífice faz da decisão de Pascal de defender os jansenistas também é digna de nota. Prestes a concluir seu escrito, o Santo Padre escreve: Graduado em Filosofia e Teologia pela PUC-Rio, Josué Matos desenvolve estudos acerca da filosofia de Pascal e sua intercessão com a teologia, bem como estudos sobre a teologia dos fenômenos espirituais. Abril-junho 2023 | Scena Crítica 22 Muitas propostas ditas «jansenistas» eram realmente contrárias à fé, e Pascal reconhecia-o, mas contestava que elas estivessem presentes no Augustinus e fossem seguidas pelos membros de Port-Royal. Entretanto algumas das suas próprias afirmações, relativas por exemplo à predestinação, tiradas da teologia do último período de Santo Agostinho, cujas fórmulas foram aperfeiçoadas por Jansénio, não soam como verdadeiras. Todavia é preciso compreender que, assim como Santo Agostinho quis combater no século V os pelagianos, que afirmavam que o homem pode, por suas próprias forças e sem a graça de Deus, fazer o bem e ser salvo, assim também Pascal acreditava sinceramente que então estava a atacar o pelagianismo ou o semipelagianismo, que ele julgava identificar nas doutrinas seguidas pelos jesuítas molinistas (do nome do teólogo Luís de Molina, falecido em 1600, mas cuja influência ainda estava viva a meados do século XVII). Demos crédito à franqueza e sinceridade das suas intenções.
  • 23. CADERNO CINEMA Abril-junho 2023 | Scena Crítica 23 Sonhos em evidência Uma retrospectiva do cinema de Federico Fellini nos 30 anos de sua morte odas as civilizações do mundo desenvolveram lingua- gens próprias para externalizar suas angústias e alegrias, certezas e dúvidas, sonhos e realidade; através das mais variadas modalidades artísticas, que de algum modo sempre auxiliaram na missão de apaziguar essas questões. No cristianismo esta relação não é diferente. Muito se fala da relação da Igreja e a promoção das artes plásticas no Renascimento, da arquitetura na Idade Média, mas pouco se trata da relação entre Igreja e as formas de produção artística contemporâneas, como é o caso do cinema. Apesar de contar com menos tempo, a relação do mundo católico com o cinema deixou grandes marcas na produção dessa arte, seja na confecção de grandes obras, como o diretor francês Robert Bresson, seja na crítica especializada, como é o caso do também francês André Bazin um dos fundadores da renomada revista francesa Cahiers du Cinéma e tantos outros que se utilizaram do patrimônio cultural e filosófico católico para ambientar suas obras. Na década de 1920, já se falava institucionalmente do papel do cinema para a Igreja Católica, em um movimento que se iniciou na Europa, mas que gerou frutos, inclusive no Brasil, dando origem a um movimento que ficou conhecido como “cineclubismo”, que consistia basicamente na análise de filmes em circulação a partir dos princípios doutrinários. DE Não iremos nos aventurar aqui a falar sobre a história desta arte, que vai para muito além da invenção do cinematógrafo, pois a ilusão cinematográfica trata-se de uma das questões mais antigas da humanidade. Percorreremos simplesmente uma proposta de revisão através de algumas obras não tão conhecidas, mas que talvez encarnem o melhor que a Sétima Arte pode oferecer. Neste ano de 2023, fazemos memória dos 30 anos de morte do do diretor italiano Federico Fellini, um cineasta com uma obra muito autoral, que não raramente tratava de questões muito próprias da existência humana, utilizando-se de uma estética muito particular. A primeira, que inicia na década 1940, quando ainda trabalhava como roteirista de grandes nomes do neorrealismo, de modo especial Roberto Rossellini com quem Fellini assinou o roteiro de Roma cidade aberta, considerado o maior exemplar deste movimento. Em 1950, Fellini estreou como diretor, ainda muito ligado com o neorrealismo, mas já contando com uma estética própria, ainda que muito mais tímida do que viria a ser futuramente. Do primeiro período de Fellini como diretor destacaria três obras, que compõem a chamada “trilogia da graça” que é composta por: A estrada da vida, de 1954 (foi elogiadíassimo recentemente pelo Papa Francisco no La Civilittà cattolica dos jesuítas), A trapaça, de 1955 e As noites de Cabíria (1957), todos três filmes que se apropriam de elementos da tradição cristã para desenvolver personagens que são colocados através de situações limites diante da questão da redenção pela dinâmica da graça. Ainda é interessante frisar a amizade de Fellini com o jesuíta Virgilio Fantuzzi, grande colunista de cinema do jornal oficial da Santa Sé, o L'Osservatore Romano, que exerceu grande influência sobre o diretor, sendo seu consultor para assuntos ligados ao catolicismo, mas não só, como também estabeleceram um diálogo perene sobre o modo de pensar o próprio cinema. A segunda fase do cinema de Fellini se inicia, em 1960, com o escandaloso A doce vida, que rompe com todos os paradigmas do cinema até então. Fellini parece assinar definitivamente o divórcio com o neorrealismo e abandona as temáticas anteriores para aqui se ater, nesta que muitos consideram como a crítica mais mordaz a sociedade pós- moderna. Através de uma Roma cosmopolita e transviada, Fellini irá nos afirmar e reafirmar ao longo de 173 minutos, a falência de um modelo de sociedade que surgia. Interessante notar que a recepção de A doce vida nos meios católicos foi muito acirrada, recebendo inclusive na época uma condenação severa do L’osservatore romano em sua coluna de cinema. A condenação foi retirada em 2010, quando o jornal fez uma retrospectiva pelos 50 anos da obra. Trata-se o filme de um endossamento à crítica da Igreja ao modelo de sociedade pós-moderna. Após o lançamento de A doce vida e de tantas premiações que o seguiram, inclusive a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, a crítica especializada e o público espe- T
  • 24. Abril-junho 2023 | Scena Crítica 24 ravam algo que sucedesse na mesma medida que “A doce vida” havia surpreendido. Fellini se vê, então, diante da grande responsabilidade que lhe pesava, contemplando o abismo que todo autor teme experimentar, a crise criativa. E é a partir desse abismo, que Fellini irá tirar a inspiração um de seus trabalhos mais ousados, um filme extremamente autobiográfico e mais do que isso, metalinguístico. Em 1963, Fellini brinda o mundo com 8 ½ . O estranhamento já inicia pelo título da obra, que já demonstrava sua íntima relação com a biografia do diretor, acontece que àquela altura Fellini havia dirigido sete longas e um curta-metragem. Fellini estava a volta com os produtores sem saber ao certo que rumo tomar com seu projeto, até que encontrou na crise, a receita para o bom andamento do filme. Criar um filme que fala sobre o processo de criação de um filme, talvez seja o maior e mais elegante uso da metalinguagem na história do cinema. Fellini retoma sua parceria com Marcello Mastroianni para novamente interpretar seu alter ego, dessa vez ele interpreta Guido, um diretor em meio a uma crise criativa que busca refugiar-se em um hotel de fontes medicinais para escapar da pressão dos produtores, contudo, sem sucesso. A narrativa continua na mesma linha de A doce vida, contando com episódios que não necessariamente possuem uma conexão lógica e cronológica com as cenas subsequentes, mas dessa vez com um agravante que são as cenas que revelam o subconsciente do personagem, fator que Com especialização em roteiro pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Filipe Machado é bacharel em filosofia pela PUC-Rio e licenciado em História. Atualmente suas pesquisas estão centradas nos autores que compuseram a cena intelectual católica do século XX com especial ênfase em Gustavo Corção. nos leva a vislumbrar melhor suas crises e motivações. O sonho é um dos grandes personagens do filme. O expectador desde a primeira cena é imerso dentro desta realidade, já que Fellini acreditava que o processo de criação nascia justamente do sonho, da investigação do subconsciente. Fellini era paciente de psicanálise desde 1960 quando ele começou a buscar inspiração para suas obras através da investigação dos sonhos. Fellini não se preocupava em dar um sentido concreto para cada milímetro de sua obra, não, pelo contrário ele esperava que a obra se completasse no próprio espectador. Fellini não era rigorista nem mesmo com suas memórias, em mais de uma ocasião ele afirmou o seu descompromisso com o passado, por não saber distinguir o que era recordação e o que era imaginação e criação. É absolutamente ímpar na história do cinema moderno o modus felliniano de se construir uma narrativa e apresentá-la esteticamente através da tela, a consistência da obra encontra seu êxito justamente ao não se prender às amarras de pretender-se dentro de um movimento, mas sendo genuinamente único.