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Pragas quarentenárias em fruticultura
Praga quarentenária é caracterizada como qualquer patógeno (inseto, ácaro, fungo,
bactéria, nematoide ou vírus), mantido sob controle permanente, que presente em outros
países ou regiões possa constituir uma ameaça à agricultura. As pragas quarentenárias
representam um dos maiores desafios econômicos para a fruticultura brasileira desde que
começaram a ser contabilizadas, na década de 90, são registrados pelo menos 108 novas
espécies no Brasil. Uma nova praga no país causa impactos negativos para qualquer
cultura, aumenta o custo de produção, perde mercados interno e externo, e requer ainda,
fiscalização e certificação fitossanitária.
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Para evitar a disseminação de pragas quarentenárias, a Convenção Internacional para
Proteção dos Vegetais - CIPV tornou obrigatório o controle de trânsito de plantas e a
fiscalização de cargas de produtos vegetais, portadores ou não de pragas, e ainda, criou
barreiras fitossanitárias nas divisas estaduais. O transporte de vegetais com restrição
fitossanitária necessita de documentação de trânsito em conformidade com a legislação,
com identificação da origem e destino da planta ou produção.
Atualmente no Brasil existem 11 barreiras fitossanitárias fixas, funcionando 24 horas por dia
nas fronteiras dos estados. Para que a prevenção seja eficaz é necessária à adoção de
medidas simples, como aquisição de plantas de locais idôneos e registrados pelo Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA e evitar o transporte interestadual de
mudas, sementes e frutos. O transporte de materiais vegetaisdeve seguir as orientaçõesdo
Serviço de Defesa Sanitária e Vegetalde cada região.De acordo com o artigo 259 do Código
Penal, difundir doença ou praga que possa causar danos às florestas,plantaçõesou animais
de utilidade econômica, tem como pena reclusão de dois a cinco anos e multa.
As pragas quarentenárias são divididas em categorias A1 e A2. As A1 são aquelas não
existentes no país e que poderiam ocasionar enormes prejuízos econômicos na cultura
atacada. Na fruticultura brasileira as pragas quarentenárias A1 são Brevipalpus chilensis;
mosca branca dos citros (Dialeurodes citri); traça da uva (Lobesia botrana); monilíase do
cacaueiro (Moniliophthora roreri); Prodiplosis longifila e Scirtothrips dorsalis. Pragas
quarentenárias A2 apesar de estarem introduzidas no país, sua disseminação é restrita em
algumas regiões e possuem programas oficiais de controle do MAPA.
A principal praga quarentenária A2 é a mosca-das-frutas (Ceratitis capitata; Bactrocera
carambolae e as do gênero Anastrepha),seguida da mosca negra dos citros (Aleurocanthus
woglumi); da bactéria causadora do greening dos citros (Candidatus Liberibacter spp.) e do
moko da bananeira (Ralstonia solanacearum).
A mosca-das-frutas (Ceratitis capitata; Bactrocera carambolae e gênero Anastrepha) é
responsável por grandes perdas nos pomares brasileiros,por isso é considerada um grande
desafio em relação à exportação. A Ceratitis capitata e a Anastrepha especificamente
impedem a comercialização aos Estados Unidos e ao Japão. ABactrocera carambolae,
nativa da Ásia, está presente no Brasil desde 1996, porém restrita ao estado do Amapá,
sendo controlada oficialmente pelo MAPA.
As larvas das moscas infestam a maioria das culturas com frutos de polpas carnosas,
destacando a manga, goiaba, laranja, tangerina, cajá, jabuticaba e jambo. Formam galerias,
provocando amadurecimento precoce e queda dos frutos. As perfurações são uma porta de
entrada para outros patógenos, como fungos e bactérias, que podem causar uma podridão
generalizada. Dessa forma, a produção e qualidade dos frutos são reduzidas, tornando-os
impróprios para o consumo tanto “in natura” como para a indústria.
Figura 1. Adultos de C. capitata (A); A. fraterculus (B) e B. carambolae (C). Fonte:
EMBRAPA.
O ciclo de vida das espécies tem duração de 30 dias, compreendendo as fasesadulta, larval
e pupa. O inseto adulto vive na vegetação das árvores; quando larval está presente nos
frutose quando no estádio de pupa se instala no solo. O desenvolvimento ocorre em regiões
com temperaturas médias em torno de 27ºC e umidade relativa de 70%, porém se adaptam
facilmente a outras condições e regiões.
Monitorar a área é o ponto inicial para determinar o grau de infestação da praga no campo,
sendo recomendados tipos específicos de armadilhas para cada espécie, com o objetivo de
atrair os machos das moscas, que ficam grudados em sua base. A armadilha Jackson
contendo pastilhas de feromônio de trimedlure são as mais indicadas para o monitoramento
de C. capitata, podendo também ser utilizada para a B. carambolae, contendo neste caso o
paraferomônio metil-eugenol. É necessária a troca dos feromônios a cada 40 dias. Para
monitorar Anastrepha é utilizada armadilhas McPhail com um atrativo alimentar, que
consiste em uma solução de proteína hidrolisada de milho, água e bórax (conservante). Ao
entrar na armadilha, a mosca não consegue sair e morre dentro da solução, que deve ser
trocada semanalmente. Para melhorar a eficiência de grandes áreas, essa armadilha é
colocada a cada 10 ha e uma Jackson a cada 5 ha.
Para identificar o nível de infestação das moscas na área é feito o cálculo do índice de
Mosca/Armadilha/Dia (MAD), dividindo o número de moscas pelo de armadilhas e dias no
campo. Quando o MAD obtido for igual a 0,5 é iniciado o controle químico, se for menor que
1,0 é realizado o registro do pomar e caso ultrapasse esse valor, é feita a intervenção dos
produtos para exportação. A coleta e contagem dos insetos são realizadas a cada 7 dias
para as armadilhas McPhail e quinzenais para a Jackson.
Figura 2. Armadilha Jackson usada para C. capitata e B. carambolae (A) e armadilha
McPhail usada paraAnastrepha. Fonte: EMBRAPA.
O controle da mosca-das-frutas deve ser feito principalmente na época de frutificação,
utilizando métodos como, o cultural, químico, biológico e tratamento hidrotérmico dos frutos,
que interfiram na diversidade de moscas.
O controle cultural é baseado no ensacamento dos frutosno início da frutificação,impedindo
o contato do adulto da mosca. A técnica é eficaz, mas exige mão de obra, aumentando o
custo de produção. Além disso, é restrito a algumas regiões quentes e secas, devido ao fato
da alta umidade favorecer um microclima adequado ao desenvolvimento de doenças. Após
a colheita é realizada a coleta e destruição dos frutos maduros restantes nas árvores e no
chão, enterrando-os entre 50 e 70 cm de profundidade, evitando o retorno dos insetos
adultos à superfície.
O controle químico é indicado para a eliminação das pupas das moscas através de iscas
tóxicas caseiras. As iscas são constituídas de 1 litro de hidrolisado de proteína, melaço de
cana ou suco de frutas e inseticidas recomendados para cada cultura, nas doses
referenciadasnas bulaspara cada 100 litrosde água.Pulverizar de 100 a 200 ml de calda/m²
de copa das plantas, a cada 15 ou 30 dias antes da colheita, em ruas alternadas.
No controle biológico é utilizada a vespa Diachasmimorpha longicaudata que oviposita no
interior dos frutos com a presença da mosca. Após a eclosão dos ovos, a vespa se alimenta
das larvas da mosca, emergindo no final do ciclo. Esse método é utilizado em vários
pomares de citros e apresenta alta eficiência de controle.Outra forma é a utilização do inseto
estéril, que consiste na criação massal do macho da mosca-das-frutas, que passa por um
processo de esterilização pela radiação gama e ao ser liberado no campo, copula com a
fêmea, não gerando descendentes.
O tratamento hidrotérmico também utilizado em frutos destinados à exportação elimina as
possíveis larvas ou pupas presentes no interior dos frutos. É mais frequente em mangas
exportadas para os Estados Unidos e Japão. Os frutos de peso inferior a 425 gramas são
submersos em água quente a 46ºC, por 75 ou 90 minutos, se o peso for superior a 425 g.
Após o procedimento, os frutos devem ser imersos imediatamente em água fria (21°C) e
depois levados para um local limpo, revestido com telas de 25 mesh e protegidos do ataque
de outros insetos.
No controle da mosca-da-carambola recomenda-se, além dos métodos descritos, a
prevenção e destruição de plantas hospedeiras. A prevenção é o método mais viável
economicamente, pois impede o transporte dos frutos de locais infectados para regiões
ausentes. A destruição das plantas hospedeiras evita o estabelecimento da praga em áreas
recém-infestadas, erradicando principalmente a caramboleira, principal hospedeira da
espécie.
A mosca negra dos citros é encontrada especificamente nos estados do Pará, Amazonas,
Maranhão, Amapá, Tocantinse Goiás. O adulto mede entre 0,99 e 1,24 mm de comprimento,
tem coloração cinza-escura com faixas avermelhadas no tórax e abdome e realiza posturas
em forma de espiral. Os citros são seus hospedeiros primários, atacando também cultivos
de abacate, caju, café, uva, lichia, goiaba, mamão, pera e roseiras. A praga se alimenta dos
nutrientesdas plantase secreta um exsudato que favorece o aparecimento de fumagina nas
folhas, dificultando a respiração e a fotossíntese.
Figura 3.Adulto da mosca negra doscitros(A) e ovosde postura em forma espiral(B). Fonte:
Instituto Biológico.
Na prevenção da mosca algumas medidas devem ser tomadas, como evitar o transporte de
vegetais infestados para áreas de não ocorrência; produzir e transportar mudas de plantas
hospedeiras em ambientes telados; realizar a lavagem e desinfecção de tratores,
implementos e materiais de colheita; lavar frutos colhidos para comercialização e aqueles
oriundos de pomares infestados. Para a produção de citros, a legislação brasileira
estabelece a padronização de levantamentos fitossanitários para detecção da mosca negra
dos citros de cada região. Os Órgãos Estaduais de Defesa Sanitária Vegetal – OEDSV são
responsáveis por controlar focos iniciais, orientar a inspeção de viveiros de mudas de
espécies hospedeiras e cadastrar as áreas produtoras, garantindo a comercialização de
produto de qualidade.
O controle da mosca negra dos citros é realizado de forma química e biológica. O químico
consiste na pulverização das plantas com produtos registrados a base de imidacloprido,
conforme recomendação do fabricante. Os produtos possuem período de carência de 21
dias e atingem as ninfas que são mais susceptíveis que os adultos. Para a remoção da
fumagina é pulverizado óleo mineral, misturado com inseticidas ao imidacloprido para
otimizar a aplicação.
O controle biológico, o mais indicado a essa praga, é feito com a liberação das
vespas Encarsia opulenta eAmitus hesperidumSilvestri, que não provoca efeitos nocivos ao
ambiente. A E. opulenta se alimenta dos ovos da mosca, porém não a elimina totalmente,
mas mantém baixa a população. O A. hesperidum oviposita nas ninfas da praga, que serve
de alimento para o parasitoide e promove o controle efetivo de mais de 98% em pomares
de citros.
O greening ou huanglongbing (HBL) se tornou uma ameaça potencial à fruticultura, pela
restrição da comercialização dos frutos destinados à exportação para países livres da
doença. A medida quarentenária para o HBL é a prática da exclusão, que impede a entrada
do patógeno em uma área não infestada, através de restrições legislativas de importação.
Algumas estratégias foram criadas pela Secretaria de Defesa Agropecuária – SDA para
evitar a disseminação da bactéria, como a obrigação de inspeção do pomar pelo produtor,
a eliminação de plantas contaminadas e a fiscalização e apresentação de relatórios feitos
pelos OEDSV.
A doença é causada pela bactéria Candidatus Liberibacter spp. transmitida pelo
psilídeo Diaphorina citri ou Trioza erutreae que ainda não foi encontrado no Brasil. Os
sintomas são caracterizados por manchas mosqueadas nas partes jovens da planta e
clorose nas nervuras, semelhantes às deficiências de zinco ou ferro, sendo agravados
quando associados a infecção pelo vírus da Tristeza. A folha reduz de tamanho e pode
ocorrer uma desfolha drástica seguida de brotação irregular e florescimento fora de época,
causando em casos severos a morte de descendentes da planta. Os frutos ficam
deformados, assimétricos e com maturação desuniforme, e ainda com sementes abortadas,
escuras, pequenas e com má formação.
O psilídeo é um vetor eficiente na disseminação do greening devido à rápida reprodução. O
adulto pode estar presente durante todo o ano no pomar, com mais frequência no início do
verão que coincide com o periodo de novasbrotaçõesdas plantas de citros.O controle deve
começar logo após a primeira infestação do psilídeo, evitando altas populações no período
de maior brotação das plantas. O controle em plantas novas deve ser mais rigoroso por
vegetarem mais, aumentando a chance de ataque do psilideo. O monitoramento é feito com
armadilhas amarelas com cola entomológica, implantadas em todo pomar.
As práticasde manejo dos locais infectadosse baseiam na erradicação das plantasdoentes
ou na eliminação das partes infectadas, pois atraem o vetor pelo amarelecimento das folhas
e liberação de compostos voláteis exalados pela planta. Além disso, outras práticas devem
ser realizadas como a aquisição de mudas sadias; cultivo de apenas uma variedade no
pomar; redução de insetos vetores por controle químico ou biológico e eliminação de outras
plantas hospedeiras dos psilídeos.
No controle químico do inseto são utilizados produtos sistêmicos com ingredientes ativos
como, thiamethoxam, imidacloprid ou fosmete de acordo com a dosagem recomendada na
bula. O controle biológico pode ser realizado através dos fungos Beauveria
bassiana, Metarhizium anisopliae e Isaria fumosorosea; dos insetos predadores como
joaninhas, crisopídeos ou “bicho lixeiro” (Neuroptera, Chrysopidae) e sírfideos (Diptera,
Syrphidae), e pelo parasitoide Tamarixia radiata.
O moko ou murcha bacteriana da bananeira é encontrado em Sergipe, Alagoas e na região
Norte, com exceção do Acre. É considerada uma dasprincipais doençasda cultura,causada
pela bactéria Ralstonia solanacearum Smith raça 2, transmitida através de ferramentas
infectadas, material de propagação e solo contaminado, insetos (abelhas e vespas), restos
culturais e água. Os sintomas são o amarelecimento, a murcha e a quebra do pecíolo das
folhas, principalmente nas mais novas; aparecimento de frutos amarelos em cachos verdes;
amadurecimento desuniforme dos cachos; apodrecimento das raízes e exsudação de pus
bacteriano.
Figura 4. Plantas com amarelecimento progressivo (A) e sintomas de pus no pseudocaule
(B). Fonte: EMBRAPA.
Algumas medidas legislativas devem ser tomadas quando a bactéria está presente no pomar
como, cadastrar a propriedade na agência de defesa agropecuária da região;transportar as
mudas e frutos sempre com autorização para o trânsito dentro ou fora do estado e destruir
o bananal abandonado e sem controle da praga. É proibido transportar as bananas em
cacho ou as folhas de bananeira para outras regiões.
No controle evita-se a entrada da bactéria no pomar utilizando mudas sadias e ferramentas
desinfestadas nos tratos culturais. Caso a bactéria se instale, as plantas devem ser
erradicadas imediatamente, injetando no pseudocaule produtos com o ingrediente ativo
glifosato ou 2,4-D, deixando a área livre por 12 meses. Não há produto comercial registrado
para prevenir a entrada desse patógeno ou curar as plantas doentes.
Existem ainda outras pragas quarentenárias A2 na fruticultura brasileira, como a mancha
negra dos citros (Guignardia citricarpa); ácaro vermelho das palmeiras (Raoiella indica);
sigatoka-negra da bananeira (Mycosphaerella fijiensis); cancro cítrico (Xanthomonas
axonopodis pv. Citri); mosca-das-cerejas (Drosophila suzukii), gorgulho da manga
(Sternochetusmangiferae) e cochonilha rosada no cacaueiro (Maconellicoccushirsutus). As
medidas de controle e prevenção dessas pragas têm especificações para cada uma dessas
espécies.
Caso seja encontrada no pomar uma praga ou doença desconhecida e ausente no Brasil ou
na região, o Sistema de Defesa Agropecuário deve ser acionado imediatamente para
identificar e relatar o ataque, além de eliminar as plantas ou material vegetal, para evitar a
disseminação e futuros prejuízos econômicos ao país.
Fontes consultadas
BARBOSA, F. R.; PARANHOS, B, A, J. Pragas Quarentenárias. Disponível em:
<http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Agencia22/AG01/arvore/AG01_116_24112005115
225.html>. Acesso em: 20 nov. 2015.
BRASIL. Código Penal. Decreto-Lei N. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Dispõe de Crimes
de perigo comum. Disponível em: <http://www.soleis.com.br/ebooks/1-criminal1.htm>.
Acesso em: 16 dez. 2015.
COELHO, M. V. S.; MARQUES, A, S, A. “Citrus greening”: uma bacteriose quarentenária
que representa ameaça potencial à citricultura brasileira. Comunicado Técnica 58; ISSN
0102 0099. Versão Eletrônica, Jul/2002. Disponível em:
<https://www.embrapa.br/documents/1355163/2019329/cot058.pdf/09953a23-9b1d-4a28-
af39-8eab1582dede>. Acesso em: 20 nov. 2015.
COSTA, V. A.; RAGA, A. Mosca Negra dos Citros. Documento Técnico 001; ISSN 1983-
134X. Versão Eletrônica, Abr/2008. Disponível em:
<http://www.biologico.sp.gov.br/docs/dt/mosca_negra.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2015.
GOMES, D. A. E. Programa de Banana. Disponível em:
<http://www.agrodefesa.go.gov.br/programas-sanidade-vegetal/2-noticias/64-programa-
banana>. Acesso em: 26 nov. 2015.
KOVALESKI, A. Pragas. Frutas do Brasil, 38. Disponível em:
<http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/2PragasFitossanidade_000fid2fnni02w
yiv80z4s473wwg47hf.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2015.
PARANHOS, B. J. Moscas-das-frutas que oferecem riscos à fruticultura brasileira.
Disponível em: <http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CPATSA-2009-
09/39789/1/OPB2070.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2015.

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Pragas quarentenárias em fruticultura

  • 1. Pragas quarentenárias em fruticultura Praga quarentenária é caracterizada como qualquer patógeno (inseto, ácaro, fungo, bactéria, nematoide ou vírus), mantido sob controle permanente, que presente em outros países ou regiões possa constituir uma ameaça à agricultura. As pragas quarentenárias representam um dos maiores desafios econômicos para a fruticultura brasileira desde que começaram a ser contabilizadas, na década de 90, são registrados pelo menos 108 novas espécies no Brasil. Uma nova praga no país causa impactos negativos para qualquer cultura, aumenta o custo de produção, perde mercados interno e externo, e requer ainda, fiscalização e certificação fitossanitária. inShare Para evitar a disseminação de pragas quarentenárias, a Convenção Internacional para Proteção dos Vegetais - CIPV tornou obrigatório o controle de trânsito de plantas e a fiscalização de cargas de produtos vegetais, portadores ou não de pragas, e ainda, criou barreiras fitossanitárias nas divisas estaduais. O transporte de vegetais com restrição fitossanitária necessita de documentação de trânsito em conformidade com a legislação, com identificação da origem e destino da planta ou produção. Atualmente no Brasil existem 11 barreiras fitossanitárias fixas, funcionando 24 horas por dia nas fronteiras dos estados. Para que a prevenção seja eficaz é necessária à adoção de
  • 2. medidas simples, como aquisição de plantas de locais idôneos e registrados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA e evitar o transporte interestadual de mudas, sementes e frutos. O transporte de materiais vegetaisdeve seguir as orientaçõesdo Serviço de Defesa Sanitária e Vegetalde cada região.De acordo com o artigo 259 do Código Penal, difundir doença ou praga que possa causar danos às florestas,plantaçõesou animais de utilidade econômica, tem como pena reclusão de dois a cinco anos e multa. As pragas quarentenárias são divididas em categorias A1 e A2. As A1 são aquelas não existentes no país e que poderiam ocasionar enormes prejuízos econômicos na cultura atacada. Na fruticultura brasileira as pragas quarentenárias A1 são Brevipalpus chilensis; mosca branca dos citros (Dialeurodes citri); traça da uva (Lobesia botrana); monilíase do cacaueiro (Moniliophthora roreri); Prodiplosis longifila e Scirtothrips dorsalis. Pragas quarentenárias A2 apesar de estarem introduzidas no país, sua disseminação é restrita em algumas regiões e possuem programas oficiais de controle do MAPA. A principal praga quarentenária A2 é a mosca-das-frutas (Ceratitis capitata; Bactrocera carambolae e as do gênero Anastrepha),seguida da mosca negra dos citros (Aleurocanthus woglumi); da bactéria causadora do greening dos citros (Candidatus Liberibacter spp.) e do moko da bananeira (Ralstonia solanacearum). A mosca-das-frutas (Ceratitis capitata; Bactrocera carambolae e gênero Anastrepha) é responsável por grandes perdas nos pomares brasileiros,por isso é considerada um grande desafio em relação à exportação. A Ceratitis capitata e a Anastrepha especificamente impedem a comercialização aos Estados Unidos e ao Japão. ABactrocera carambolae, nativa da Ásia, está presente no Brasil desde 1996, porém restrita ao estado do Amapá, sendo controlada oficialmente pelo MAPA. As larvas das moscas infestam a maioria das culturas com frutos de polpas carnosas, destacando a manga, goiaba, laranja, tangerina, cajá, jabuticaba e jambo. Formam galerias, provocando amadurecimento precoce e queda dos frutos. As perfurações são uma porta de entrada para outros patógenos, como fungos e bactérias, que podem causar uma podridão generalizada. Dessa forma, a produção e qualidade dos frutos são reduzidas, tornando-os impróprios para o consumo tanto “in natura” como para a indústria. Figura 1. Adultos de C. capitata (A); A. fraterculus (B) e B. carambolae (C). Fonte:
  • 3. EMBRAPA. O ciclo de vida das espécies tem duração de 30 dias, compreendendo as fasesadulta, larval e pupa. O inseto adulto vive na vegetação das árvores; quando larval está presente nos frutose quando no estádio de pupa se instala no solo. O desenvolvimento ocorre em regiões com temperaturas médias em torno de 27ºC e umidade relativa de 70%, porém se adaptam facilmente a outras condições e regiões. Monitorar a área é o ponto inicial para determinar o grau de infestação da praga no campo, sendo recomendados tipos específicos de armadilhas para cada espécie, com o objetivo de atrair os machos das moscas, que ficam grudados em sua base. A armadilha Jackson contendo pastilhas de feromônio de trimedlure são as mais indicadas para o monitoramento de C. capitata, podendo também ser utilizada para a B. carambolae, contendo neste caso o paraferomônio metil-eugenol. É necessária a troca dos feromônios a cada 40 dias. Para monitorar Anastrepha é utilizada armadilhas McPhail com um atrativo alimentar, que consiste em uma solução de proteína hidrolisada de milho, água e bórax (conservante). Ao entrar na armadilha, a mosca não consegue sair e morre dentro da solução, que deve ser trocada semanalmente. Para melhorar a eficiência de grandes áreas, essa armadilha é colocada a cada 10 ha e uma Jackson a cada 5 ha. Para identificar o nível de infestação das moscas na área é feito o cálculo do índice de Mosca/Armadilha/Dia (MAD), dividindo o número de moscas pelo de armadilhas e dias no campo. Quando o MAD obtido for igual a 0,5 é iniciado o controle químico, se for menor que 1,0 é realizado o registro do pomar e caso ultrapasse esse valor, é feita a intervenção dos produtos para exportação. A coleta e contagem dos insetos são realizadas a cada 7 dias para as armadilhas McPhail e quinzenais para a Jackson. Figura 2. Armadilha Jackson usada para C. capitata e B. carambolae (A) e armadilha McPhail usada paraAnastrepha. Fonte: EMBRAPA. O controle da mosca-das-frutas deve ser feito principalmente na época de frutificação, utilizando métodos como, o cultural, químico, biológico e tratamento hidrotérmico dos frutos, que interfiram na diversidade de moscas.
  • 4. O controle cultural é baseado no ensacamento dos frutosno início da frutificação,impedindo o contato do adulto da mosca. A técnica é eficaz, mas exige mão de obra, aumentando o custo de produção. Além disso, é restrito a algumas regiões quentes e secas, devido ao fato da alta umidade favorecer um microclima adequado ao desenvolvimento de doenças. Após a colheita é realizada a coleta e destruição dos frutos maduros restantes nas árvores e no chão, enterrando-os entre 50 e 70 cm de profundidade, evitando o retorno dos insetos adultos à superfície. O controle químico é indicado para a eliminação das pupas das moscas através de iscas tóxicas caseiras. As iscas são constituídas de 1 litro de hidrolisado de proteína, melaço de cana ou suco de frutas e inseticidas recomendados para cada cultura, nas doses referenciadasnas bulaspara cada 100 litrosde água.Pulverizar de 100 a 200 ml de calda/m² de copa das plantas, a cada 15 ou 30 dias antes da colheita, em ruas alternadas. No controle biológico é utilizada a vespa Diachasmimorpha longicaudata que oviposita no interior dos frutos com a presença da mosca. Após a eclosão dos ovos, a vespa se alimenta das larvas da mosca, emergindo no final do ciclo. Esse método é utilizado em vários pomares de citros e apresenta alta eficiência de controle.Outra forma é a utilização do inseto estéril, que consiste na criação massal do macho da mosca-das-frutas, que passa por um processo de esterilização pela radiação gama e ao ser liberado no campo, copula com a fêmea, não gerando descendentes. O tratamento hidrotérmico também utilizado em frutos destinados à exportação elimina as possíveis larvas ou pupas presentes no interior dos frutos. É mais frequente em mangas exportadas para os Estados Unidos e Japão. Os frutos de peso inferior a 425 gramas são submersos em água quente a 46ºC, por 75 ou 90 minutos, se o peso for superior a 425 g. Após o procedimento, os frutos devem ser imersos imediatamente em água fria (21°C) e depois levados para um local limpo, revestido com telas de 25 mesh e protegidos do ataque de outros insetos. No controle da mosca-da-carambola recomenda-se, além dos métodos descritos, a prevenção e destruição de plantas hospedeiras. A prevenção é o método mais viável economicamente, pois impede o transporte dos frutos de locais infectados para regiões ausentes. A destruição das plantas hospedeiras evita o estabelecimento da praga em áreas recém-infestadas, erradicando principalmente a caramboleira, principal hospedeira da espécie. A mosca negra dos citros é encontrada especificamente nos estados do Pará, Amazonas, Maranhão, Amapá, Tocantinse Goiás. O adulto mede entre 0,99 e 1,24 mm de comprimento, tem coloração cinza-escura com faixas avermelhadas no tórax e abdome e realiza posturas em forma de espiral. Os citros são seus hospedeiros primários, atacando também cultivos de abacate, caju, café, uva, lichia, goiaba, mamão, pera e roseiras. A praga se alimenta dos nutrientesdas plantase secreta um exsudato que favorece o aparecimento de fumagina nas folhas, dificultando a respiração e a fotossíntese.
  • 5. Figura 3.Adulto da mosca negra doscitros(A) e ovosde postura em forma espiral(B). Fonte: Instituto Biológico. Na prevenção da mosca algumas medidas devem ser tomadas, como evitar o transporte de vegetais infestados para áreas de não ocorrência; produzir e transportar mudas de plantas hospedeiras em ambientes telados; realizar a lavagem e desinfecção de tratores, implementos e materiais de colheita; lavar frutos colhidos para comercialização e aqueles oriundos de pomares infestados. Para a produção de citros, a legislação brasileira estabelece a padronização de levantamentos fitossanitários para detecção da mosca negra dos citros de cada região. Os Órgãos Estaduais de Defesa Sanitária Vegetal – OEDSV são responsáveis por controlar focos iniciais, orientar a inspeção de viveiros de mudas de espécies hospedeiras e cadastrar as áreas produtoras, garantindo a comercialização de produto de qualidade. O controle da mosca negra dos citros é realizado de forma química e biológica. O químico consiste na pulverização das plantas com produtos registrados a base de imidacloprido, conforme recomendação do fabricante. Os produtos possuem período de carência de 21 dias e atingem as ninfas que são mais susceptíveis que os adultos. Para a remoção da fumagina é pulverizado óleo mineral, misturado com inseticidas ao imidacloprido para otimizar a aplicação. O controle biológico, o mais indicado a essa praga, é feito com a liberação das vespas Encarsia opulenta eAmitus hesperidumSilvestri, que não provoca efeitos nocivos ao ambiente. A E. opulenta se alimenta dos ovos da mosca, porém não a elimina totalmente, mas mantém baixa a população. O A. hesperidum oviposita nas ninfas da praga, que serve de alimento para o parasitoide e promove o controle efetivo de mais de 98% em pomares de citros. O greening ou huanglongbing (HBL) se tornou uma ameaça potencial à fruticultura, pela restrição da comercialização dos frutos destinados à exportação para países livres da doença. A medida quarentenária para o HBL é a prática da exclusão, que impede a entrada do patógeno em uma área não infestada, através de restrições legislativas de importação. Algumas estratégias foram criadas pela Secretaria de Defesa Agropecuária – SDA para evitar a disseminação da bactéria, como a obrigação de inspeção do pomar pelo produtor,
  • 6. a eliminação de plantas contaminadas e a fiscalização e apresentação de relatórios feitos pelos OEDSV. A doença é causada pela bactéria Candidatus Liberibacter spp. transmitida pelo psilídeo Diaphorina citri ou Trioza erutreae que ainda não foi encontrado no Brasil. Os sintomas são caracterizados por manchas mosqueadas nas partes jovens da planta e clorose nas nervuras, semelhantes às deficiências de zinco ou ferro, sendo agravados quando associados a infecção pelo vírus da Tristeza. A folha reduz de tamanho e pode ocorrer uma desfolha drástica seguida de brotação irregular e florescimento fora de época, causando em casos severos a morte de descendentes da planta. Os frutos ficam deformados, assimétricos e com maturação desuniforme, e ainda com sementes abortadas, escuras, pequenas e com má formação. O psilídeo é um vetor eficiente na disseminação do greening devido à rápida reprodução. O adulto pode estar presente durante todo o ano no pomar, com mais frequência no início do verão que coincide com o periodo de novasbrotaçõesdas plantas de citros.O controle deve começar logo após a primeira infestação do psilídeo, evitando altas populações no período de maior brotação das plantas. O controle em plantas novas deve ser mais rigoroso por vegetarem mais, aumentando a chance de ataque do psilideo. O monitoramento é feito com armadilhas amarelas com cola entomológica, implantadas em todo pomar. As práticasde manejo dos locais infectadosse baseiam na erradicação das plantasdoentes ou na eliminação das partes infectadas, pois atraem o vetor pelo amarelecimento das folhas e liberação de compostos voláteis exalados pela planta. Além disso, outras práticas devem ser realizadas como a aquisição de mudas sadias; cultivo de apenas uma variedade no pomar; redução de insetos vetores por controle químico ou biológico e eliminação de outras plantas hospedeiras dos psilídeos. No controle químico do inseto são utilizados produtos sistêmicos com ingredientes ativos como, thiamethoxam, imidacloprid ou fosmete de acordo com a dosagem recomendada na bula. O controle biológico pode ser realizado através dos fungos Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e Isaria fumosorosea; dos insetos predadores como joaninhas, crisopídeos ou “bicho lixeiro” (Neuroptera, Chrysopidae) e sírfideos (Diptera, Syrphidae), e pelo parasitoide Tamarixia radiata. O moko ou murcha bacteriana da bananeira é encontrado em Sergipe, Alagoas e na região Norte, com exceção do Acre. É considerada uma dasprincipais doençasda cultura,causada pela bactéria Ralstonia solanacearum Smith raça 2, transmitida através de ferramentas infectadas, material de propagação e solo contaminado, insetos (abelhas e vespas), restos culturais e água. Os sintomas são o amarelecimento, a murcha e a quebra do pecíolo das folhas, principalmente nas mais novas; aparecimento de frutos amarelos em cachos verdes; amadurecimento desuniforme dos cachos; apodrecimento das raízes e exsudação de pus bacteriano.
  • 7. Figura 4. Plantas com amarelecimento progressivo (A) e sintomas de pus no pseudocaule (B). Fonte: EMBRAPA. Algumas medidas legislativas devem ser tomadas quando a bactéria está presente no pomar como, cadastrar a propriedade na agência de defesa agropecuária da região;transportar as mudas e frutos sempre com autorização para o trânsito dentro ou fora do estado e destruir o bananal abandonado e sem controle da praga. É proibido transportar as bananas em cacho ou as folhas de bananeira para outras regiões. No controle evita-se a entrada da bactéria no pomar utilizando mudas sadias e ferramentas desinfestadas nos tratos culturais. Caso a bactéria se instale, as plantas devem ser erradicadas imediatamente, injetando no pseudocaule produtos com o ingrediente ativo glifosato ou 2,4-D, deixando a área livre por 12 meses. Não há produto comercial registrado para prevenir a entrada desse patógeno ou curar as plantas doentes. Existem ainda outras pragas quarentenárias A2 na fruticultura brasileira, como a mancha negra dos citros (Guignardia citricarpa); ácaro vermelho das palmeiras (Raoiella indica); sigatoka-negra da bananeira (Mycosphaerella fijiensis); cancro cítrico (Xanthomonas axonopodis pv. Citri); mosca-das-cerejas (Drosophila suzukii), gorgulho da manga (Sternochetusmangiferae) e cochonilha rosada no cacaueiro (Maconellicoccushirsutus). As medidas de controle e prevenção dessas pragas têm especificações para cada uma dessas espécies. Caso seja encontrada no pomar uma praga ou doença desconhecida e ausente no Brasil ou na região, o Sistema de Defesa Agropecuário deve ser acionado imediatamente para identificar e relatar o ataque, além de eliminar as plantas ou material vegetal, para evitar a disseminação e futuros prejuízos econômicos ao país. Fontes consultadas BARBOSA, F. R.; PARANHOS, B, A, J. Pragas Quarentenárias. Disponível em: <http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Agencia22/AG01/arvore/AG01_116_24112005115 225.html>. Acesso em: 20 nov. 2015.
  • 8. BRASIL. Código Penal. Decreto-Lei N. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Dispõe de Crimes de perigo comum. Disponível em: <http://www.soleis.com.br/ebooks/1-criminal1.htm>. Acesso em: 16 dez. 2015. COELHO, M. V. S.; MARQUES, A, S, A. “Citrus greening”: uma bacteriose quarentenária que representa ameaça potencial à citricultura brasileira. Comunicado Técnica 58; ISSN 0102 0099. Versão Eletrônica, Jul/2002. Disponível em: <https://www.embrapa.br/documents/1355163/2019329/cot058.pdf/09953a23-9b1d-4a28- af39-8eab1582dede>. Acesso em: 20 nov. 2015. COSTA, V. A.; RAGA, A. Mosca Negra dos Citros. Documento Técnico 001; ISSN 1983- 134X. Versão Eletrônica, Abr/2008. Disponível em: <http://www.biologico.sp.gov.br/docs/dt/mosca_negra.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2015. GOMES, D. A. E. Programa de Banana. Disponível em: <http://www.agrodefesa.go.gov.br/programas-sanidade-vegetal/2-noticias/64-programa- banana>. Acesso em: 26 nov. 2015. KOVALESKI, A. Pragas. Frutas do Brasil, 38. Disponível em: <http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/2PragasFitossanidade_000fid2fnni02w yiv80z4s473wwg47hf.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2015. PARANHOS, B. J. Moscas-das-frutas que oferecem riscos à fruticultura brasileira. Disponível em: <http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CPATSA-2009- 09/39789/1/OPB2070.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2015.