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João Daniel Rico
Licenciado em Desporto
Mestre em Alto Rendimento em Desportos
Colectivos - INEF Barcelona
UEFA B Coach
Perspectiva sistémica aplicada ao treino de futebol
Não preciso mais julgar, avaliar, diagnosticar, encontrar o errado, o
disfuncional, o doente.
Neste aspecto, o pensamento sistémico como novo paradigma da ciência
deixa-me muito mais livre” (1)
Uma panela com água é composta por uma quantidade
enorme de atómos de hidrogénio e de oxigénio que formam as
moléculas de h20. Se não mexermos na panela ela vai conservar a
água no estado líquido. Agora se aquecermos a água tudo se
transforma, as partículas entram em choque umas com as outras
sem uma ordem natural e o sistema não é mais o mesmo. É isto
que acontece num jogo de futebol e pelo qual treino e jogo são duas
realidades tão diferentes. Ao contrário do treino, onde quase tudo é
passível de ser controlado, o jogo é como a panela de água que é
aquecida pelo comportamento do adversário, pelo público, pelo
árbitro, pelo resultado, etc...coisas impossíveis de controlar. Não
pretendo com isto atribuir ao processo de treino um papel menor,
muito pelo contrário, apenas evidenciar que algo tão complexo
como um jogo de futebol não pode estar alicerçado em bases ocas
de significado e relevância. O que é mais importante, a equipa
correr muito para recuperar a bola ou a equipa correr bem e estar
bem posicionada para não ter de correr muito para recuperar a
bola? O estigma do físico ainda existe. A inteligência de jogo ainda
é negligenciada. Ainda se promove a manifestação das
componentes (factores de rendimento) de forma isolada como se,
no jogo, estas se manifestassem à vez. Ainda se propõem formas
de exercitação como o objectivo de desenvolver as competências
da equipa a nível ofensivo como se os momentos do jogo não
estivessem relacionados e não fossem consequência natural uns
dos outros. Ainda se procura perceber a intensidade pela variação
da frequência cardíaca, como se daí pudesse advir informação de
relevante importância com transferência directa para a melhoria dos
desempenhos colectivos. Esta procura está directamente
relacionada com a necessidade de obter dados quantitativos porque
“os números tranquilizam a consciência do treinador” (2). É o
pensamento reducionista a evidenciar-se. É a crítica de Capra a
Descartes em Ponto de Mutação: “Um cartesiano olharia para uma
árvore e a dissecaria, mas aí ele jamais entenderia a natureza da
árvore”.
Contexto é a palavra-chave
Os que o fazem esquecem-se que o futebol se joga com os pés
mas se pensa com a cabeça. Esquecem-se que existe uma lógica
de interdependências e que tudo o que se promove está
intrinsecamente relacionado com o contexto onde ocorre.
Esquecem-se, portanto, que no futebol não existe 1+1=2 porque as
tomadas de decisão se evidenciam em conjunturas abertas de
impossível previsão. Com isto fazem prevalecer o racionalismo
clássico ao invés de invocarem o conceito sistémico, ou seja, o
conjunto organizado de partes diferentes, produtor de qualidades
que não existiriam se as partes estivessem isoladas umas das
outras.
A complexidade obriga o treinador desportivo a unir e não a
separar, dado que “um todo organizado dispõe de propriedades, até
mesmo ao nível das partes, que não existem nas partes isoladas do
todo (3).
No seguimento da nossa reflexão chegámos à conclusão que
existem três tipos de treinadores, cada um deles com diferentes
formas de entendimento/conhecimento do processo de treino e que
se podem encaixar nas várias realidades futebolísticas:
TREINADOR “ANALÍTICO”
O processo é orientado com pouca base de conhecimento
científico. Os exercícios dividem-se em analítico/situações jogadas
de pouca complexidade. Ideia de jogo pouco estruturada. Divisão
dos factores de rendimento (primeiro o físico, depois o táctico)
TREINADOR “INTEGRADO”
Maior rigor e conhecimento científico aplicado, utiliza exercícios
descontextualizados (normalmente de índole físico) e procura
perceber as implicações fisiológicas que os mesmos provocam nos
jogadores (frequência cardíaca, escala de esforço, etc.) a unidade
de treino é programada tendo em vista uma determinada
organização colectiva
TREINADOR “SISTÉMICO”
Percebe que no treino tudo deve estar interligado, evita aplicar no
jogo situações que não tenham sido treinadas, é metódico e
organizado na persecução das ideias que completam o modelo de
jogo (ideias que procura que os jogadores conheçam), compreende
a complexidade do fenómeno futebol e privilegia o fazer em
qualidade em detrimento do fazer em quantidade. Define
implicações fisiológicas que cada unidade de treino deve apresentar
e que estão em consonância com o tipo de esforço mais frequente
requisitado pelo modelo de jogo.
Queiramos ou não, cada vez que o jogador se move ao realizar um
exercício, mobiliza todas as suas estruturas (mesmo que o treinador
o tenha proposto como um exercício de velocidade, pois só avalia
esta capacidade que é a que lhe interessa e lhe dá a segurança do
bem fazer científico). Mas está enganado, pois até o mais analítico
dos exercícios de velocidade implica estruturas como: a
bioenergética que lhe aporta a energia para fazê-lo; a coordenativa
para realizar o movimento proposto; a cognitiva para identificar o
momento de saída, a distancia por correr e o espaço percorrido; a
sócio-afectiva, pois aceita com maior ou menor agrado as
indicações do treinador para o exercício; a emotivo-volitiva,
colocando o empenho e o desejo necessário para realizar o esforço
de completar a tarefa no mínimo tempo possível; a condicional, pois
reforçam-se os músculos implicados; etc...mas tudo isto passa
desapercebido ao treinador clássico, que com o seu cronómetro,
separa do contexto a velocidade com o objectivo de a avaliar. Por
sua vez, o treinador sistémico pode, modificando alguns parâmetros
neste mesmo exercício, utilizá-lo para potenciar um determinado
princípio enquadrado no referencial da organização colectiva pois
ele entende, de facto, o paradigma da complexidade.
Assumindo que não existe apenas uma forma de fazer as
coisas bem feitas e que “a perfeição no treino é uma utopia a que
todos aspiramos mas que é inalcançável” (4), estaremos mais perto
de um modelo perfeito se privilegiarmos a especificidade do futebol
e dentro desta especificidade do modelo de jogo e dos seus
princípios táctico-técnicos individuais e colectivos, os quais,
consequentemente, pressupõem exercícios específicos e
identificados (exercícios padrão) com os objectivos desse modelo
de jogo e desses princípios (5). Só assim estaremos a pôr em
prática a coerência que o processo nos exige, uma prática que é,
parafraseando um treinador da nossa praça, o critério da verdade!
Ainda assim, ser sistémico, ter um método e ideias bem definidas
não chega para ter sucesso enquanto treinador. A metodologia de
treino, que tanto em evoluído nos últimos anos, é apenas uma parte
do processo complexo de gerir e liderar uma equipa de futebol,
razão pela qual não poucas vezes treinadores com pouco de
cientifico no seu processo conseguem bons resultados desportivos.
Aqui entramos do domínio da liderança, das relações pessoais, da
motivação, das emoções...temáticas fantásticas mas que terão de
ficar para uma próxima reflexão!
Fontes consultadas:
(1) Vasconsellos, M. (2002) - Pensamento Sistémico - o novo paradigma da ciência. Editora:
Papirus. Campinas, São Paulo
(2) Lillo, J. (2008) em Cano, O. (2009) - El modelo de juego del F.C. Barcelona - Una red de
significado interpretada desde el paradigma de la complejidad. Moreno e Conde Sports
(3) Morin, E. 2005 em Sérgio, M. (2009) - Filosofia do Futebol. Editora: Prime Books.
(4) Seirul-lo, F. (2012) em Rico, J. (2012) - Entrevista realizada no âmbito da tese de mestrado
denominada “Periodização Táctica vs Entrenamiento Estructurado”. INEF Barcelona.
Documento não publicado.
(5) Frade, V. (1982) em Leal, M. e Quinta, R. (2001) - O treino no futebol - uma concepção
para a formação. Edições APPACDM. Braga

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Perspectiva Sistémica aplicada ao Futebol

  • 1. João Daniel Rico Licenciado em Desporto Mestre em Alto Rendimento em Desportos Colectivos - INEF Barcelona UEFA B Coach Perspectiva sistémica aplicada ao treino de futebol Não preciso mais julgar, avaliar, diagnosticar, encontrar o errado, o disfuncional, o doente. Neste aspecto, o pensamento sistémico como novo paradigma da ciência deixa-me muito mais livre” (1) Uma panela com água é composta por uma quantidade enorme de atómos de hidrogénio e de oxigénio que formam as moléculas de h20. Se não mexermos na panela ela vai conservar a água no estado líquido. Agora se aquecermos a água tudo se transforma, as partículas entram em choque umas com as outras sem uma ordem natural e o sistema não é mais o mesmo. É isto que acontece num jogo de futebol e pelo qual treino e jogo são duas realidades tão diferentes. Ao contrário do treino, onde quase tudo é passível de ser controlado, o jogo é como a panela de água que é aquecida pelo comportamento do adversário, pelo público, pelo árbitro, pelo resultado, etc...coisas impossíveis de controlar. Não pretendo com isto atribuir ao processo de treino um papel menor, muito pelo contrário, apenas evidenciar que algo tão complexo como um jogo de futebol não pode estar alicerçado em bases ocas de significado e relevância. O que é mais importante, a equipa correr muito para recuperar a bola ou a equipa correr bem e estar bem posicionada para não ter de correr muito para recuperar a bola? O estigma do físico ainda existe. A inteligência de jogo ainda é negligenciada. Ainda se promove a manifestação das componentes (factores de rendimento) de forma isolada como se,
  • 2. no jogo, estas se manifestassem à vez. Ainda se propõem formas de exercitação como o objectivo de desenvolver as competências da equipa a nível ofensivo como se os momentos do jogo não estivessem relacionados e não fossem consequência natural uns dos outros. Ainda se procura perceber a intensidade pela variação da frequência cardíaca, como se daí pudesse advir informação de relevante importância com transferência directa para a melhoria dos desempenhos colectivos. Esta procura está directamente relacionada com a necessidade de obter dados quantitativos porque “os números tranquilizam a consciência do treinador” (2). É o pensamento reducionista a evidenciar-se. É a crítica de Capra a Descartes em Ponto de Mutação: “Um cartesiano olharia para uma árvore e a dissecaria, mas aí ele jamais entenderia a natureza da árvore”. Contexto é a palavra-chave Os que o fazem esquecem-se que o futebol se joga com os pés mas se pensa com a cabeça. Esquecem-se que existe uma lógica de interdependências e que tudo o que se promove está intrinsecamente relacionado com o contexto onde ocorre. Esquecem-se, portanto, que no futebol não existe 1+1=2 porque as tomadas de decisão se evidenciam em conjunturas abertas de impossível previsão. Com isto fazem prevalecer o racionalismo clássico ao invés de invocarem o conceito sistémico, ou seja, o conjunto organizado de partes diferentes, produtor de qualidades que não existiriam se as partes estivessem isoladas umas das outras. A complexidade obriga o treinador desportivo a unir e não a separar, dado que “um todo organizado dispõe de propriedades, até mesmo ao nível das partes, que não existem nas partes isoladas do todo (3). No seguimento da nossa reflexão chegámos à conclusão que existem três tipos de treinadores, cada um deles com diferentes formas de entendimento/conhecimento do processo de treino e que se podem encaixar nas várias realidades futebolísticas:
  • 3. TREINADOR “ANALÍTICO” O processo é orientado com pouca base de conhecimento científico. Os exercícios dividem-se em analítico/situações jogadas de pouca complexidade. Ideia de jogo pouco estruturada. Divisão dos factores de rendimento (primeiro o físico, depois o táctico) TREINADOR “INTEGRADO” Maior rigor e conhecimento científico aplicado, utiliza exercícios descontextualizados (normalmente de índole físico) e procura perceber as implicações fisiológicas que os mesmos provocam nos jogadores (frequência cardíaca, escala de esforço, etc.) a unidade de treino é programada tendo em vista uma determinada organização colectiva TREINADOR “SISTÉMICO” Percebe que no treino tudo deve estar interligado, evita aplicar no jogo situações que não tenham sido treinadas, é metódico e organizado na persecução das ideias que completam o modelo de jogo (ideias que procura que os jogadores conheçam), compreende a complexidade do fenómeno futebol e privilegia o fazer em qualidade em detrimento do fazer em quantidade. Define implicações fisiológicas que cada unidade de treino deve apresentar e que estão em consonância com o tipo de esforço mais frequente requisitado pelo modelo de jogo. Queiramos ou não, cada vez que o jogador se move ao realizar um exercício, mobiliza todas as suas estruturas (mesmo que o treinador o tenha proposto como um exercício de velocidade, pois só avalia esta capacidade que é a que lhe interessa e lhe dá a segurança do bem fazer científico). Mas está enganado, pois até o mais analítico dos exercícios de velocidade implica estruturas como: a bioenergética que lhe aporta a energia para fazê-lo; a coordenativa para realizar o movimento proposto; a cognitiva para identificar o momento de saída, a distancia por correr e o espaço percorrido; a sócio-afectiva, pois aceita com maior ou menor agrado as indicações do treinador para o exercício; a emotivo-volitiva, colocando o empenho e o desejo necessário para realizar o esforço
  • 4. de completar a tarefa no mínimo tempo possível; a condicional, pois reforçam-se os músculos implicados; etc...mas tudo isto passa desapercebido ao treinador clássico, que com o seu cronómetro, separa do contexto a velocidade com o objectivo de a avaliar. Por sua vez, o treinador sistémico pode, modificando alguns parâmetros neste mesmo exercício, utilizá-lo para potenciar um determinado princípio enquadrado no referencial da organização colectiva pois ele entende, de facto, o paradigma da complexidade. Assumindo que não existe apenas uma forma de fazer as coisas bem feitas e que “a perfeição no treino é uma utopia a que todos aspiramos mas que é inalcançável” (4), estaremos mais perto de um modelo perfeito se privilegiarmos a especificidade do futebol e dentro desta especificidade do modelo de jogo e dos seus princípios táctico-técnicos individuais e colectivos, os quais, consequentemente, pressupõem exercícios específicos e identificados (exercícios padrão) com os objectivos desse modelo de jogo e desses princípios (5). Só assim estaremos a pôr em prática a coerência que o processo nos exige, uma prática que é, parafraseando um treinador da nossa praça, o critério da verdade! Ainda assim, ser sistémico, ter um método e ideias bem definidas não chega para ter sucesso enquanto treinador. A metodologia de treino, que tanto em evoluído nos últimos anos, é apenas uma parte do processo complexo de gerir e liderar uma equipa de futebol, razão pela qual não poucas vezes treinadores com pouco de cientifico no seu processo conseguem bons resultados desportivos. Aqui entramos do domínio da liderança, das relações pessoais, da motivação, das emoções...temáticas fantásticas mas que terão de ficar para uma próxima reflexão!
  • 5. Fontes consultadas: (1) Vasconsellos, M. (2002) - Pensamento Sistémico - o novo paradigma da ciência. Editora: Papirus. Campinas, São Paulo (2) Lillo, J. (2008) em Cano, O. (2009) - El modelo de juego del F.C. Barcelona - Una red de significado interpretada desde el paradigma de la complejidad. Moreno e Conde Sports (3) Morin, E. 2005 em Sérgio, M. (2009) - Filosofia do Futebol. Editora: Prime Books. (4) Seirul-lo, F. (2012) em Rico, J. (2012) - Entrevista realizada no âmbito da tese de mestrado denominada “Periodização Táctica vs Entrenamiento Estructurado”. INEF Barcelona. Documento não publicado. (5) Frade, V. (1982) em Leal, M. e Quinta, R. (2001) - O treino no futebol - uma concepção para a formação. Edições APPACDM. Braga