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Vítimas de violência doméstica: 
A Casa de Abrigo “Nova Esperança” enquanto resposta institucional 
Mauro Paulino1, Andreia Baptista2, Carina Pinto3 & Manuel Matias4 
Introdução 
A violência doméstica constitui atualmente um crime de natureza pública 
(artigo 152º Código Penal). Em função das necessidades e da gravidade da 
situação, existem dois tipos de respostas sociais que apoiam, encaminham 
e acolhem as pessoas adultas vítimas de violência doméstica, tendo em 
vista a sua proteção: 
 Centros de atendimento; 
 Casas de abrigo. 
Evolução de Acolhimentos 
Ano Mães Filhos Total 
2002 
(inaugurada em Novembro) 
2 2 4 
2003 20 26 46 
2004 14 17 31 
2005 16 25 41 
2006 17 24 41 
2007 22 26 48 
2008 16 15 31 
2009 39 47 86 
2010 45 53 98 
2011 23 28 51 
2012 26 28 54 
2013 22 29 51 
2014 11 27 38 
Total 273 347 620 
1 Psicólogo Forense no Gabinete Médico-Legal e Forense da Península de Setúbal. Diretor da 
Intervenção na Área da Violência Doméstica na Cooperativa Pelo Sonho É Que Vamos. 
2, 3 Psicólogas clínicas na Casa de Abrigo “Nova Esperança” – Estágio Profissional OPP. 
4 Presidente da Direção da Cooperativa Pelo Sonho É Que Vamos. 
Cooperativa Pelo Sonho É Que Vamos | www.cooperativapelosonho.pt 
Email de contato: mpaulino_psic@yahoo.com 
Metodologia 
Procedemos a uma análise retrospetiva dos relatórios de acolhimento, 
nomeadamente, ao levantamento da informação disponível referente 
aos acolhimentos realizados na Casa de Abrigo “Nova Esperança” nos 
anos 2012, 2013 e no primeiro semestre de 2014. 
Recorremos ao tratamento estatístico descritivo mediante a utilização 
do SPSS – Statistical Package for the Social Scientes, versão 19 para 
Windows. 
n=54 correspondendo a um total de 120 pessoas (54 adultas e 66 
menores). 
Resultados 
Acolhimentos: Em 2012 foram acolhidas 26 famílias, 22 famílias no ano 
de 2013 e 11 famílias no primeiro semestre de 2014. Em 2013, Janeiro e 
Março destacam-se como os meses em que ocorreram mais 
acolhimentos (18%, n=4). 
Idade da utilizadora: O intervalo de idades com maior 
representatividade é o dos 34 aos 38 anos (26%, n= 14), seguindo-se o 
intervalo dos 29 aos 33 anos (19%, n=10). A média de idades é 34,7 
anos. 
Nacionalidade da utilizadora: A maioria das utilizadoras é de 
nacionalidade portuguesa (78%, n=42). 
Estado civil da utilizadora: Aquando do acolhimento, 43% (n=23) das 
utilizadoras eram solteiras e 33% (n=18) mantinham um vínculo 
matrimonial com o agressor. 
Escolaridade da utilizadora: Têm, sobretudo, escolaridade ao nível do 
3º ciclo (7º ao 9º ano) (39%, n=21). 
Situação laboral da utilizadora: 80% (n=43) das utilizadoras estavam 
desempregadas no momento do acolhimento. 
Apresentação de Queixa: 80% (n=43) das utilizadoras apresentaram 
queixa do agressor, sendo o local predominante a Polícia de Segurança 
Pública (PSP) (50%, n=27). 
Entidade encaminhadora: A maioria (28%, n=15) das utilizadoras foi 
encaminhada pela Linha Nacional de Emergência Social (144) e pela 
APAV (17%, n=9). 
Tipologia da violência: Sobretudo, violência continuada (80%, n=43). A 
violência física foi referida em 82% (n=44) dos casos, a psicológica em 
94% (n=51) dos casos e a sexual em 15% (n=8) dos casos. 
Fatores de risco: 35% (n=19) dos agressores tinham acesso a armas, 
sendo que desses, 26% (n=14) tinham acesso a armas de fogo. 
Número de filhos acolhidos: Em média, o número de filhos de cada 
utilizadora é 2, sendo que o número máximo de filhos acolhido com a 
progenitora foi de 4. Em 57% (n=31) dos casos os menores 
presenciaram a violência, havendo registo de violência direta sobre os 
filhos em 33% (n=18) dos casos. 
Tempo de relação: 17% (n=9) das utilizadoras tinham uma relação com 
o agressor há menos de 2 anos. Em 13% (n=8) dos casos a relação 
mantinha-se há mais de 12 anos. 
Duração da violência: O intervalo com maior representatividade é 
aquele que se situa entre 1 e 4 anos de relação (24%, n=13). 
Historial de casa de abrigo: 22% (n=12) das utilizadoras já tinham 
registo de terem estado em casa de abrigo. 
Tempo de permanência na casa de abrigo “Nova Esperança”: 61% 
(n=33) das utilizadoras estiveram acolhidas por um período de tempo 
inferior a um mês. Em 22% (n=12) dos casos o acolhimento durou entre 
um e três meses. 
Motivo de saída: 33% (n=18) das utilizadoras saíram para casa de 
familiares ou amigos, 15% (n=8) conseguiram autonomizar-se. O 
regresso ao agressor verificou-se em 19% (n=10) dos casos. 
Conclusão 
As casas de abrigo constituem uma importante resposta social à 
problemática da violência doméstica, sendo que os menores 
representam a maioria das vítimas deste fenómeno. 
A investigação tem-lhes dedicado, ultimamente, uma maior atenção, 
surgindo mesmo a noção de vítimas silenciosas. 
Desta forma, é necessária uma intervenção que, para além de abranger 
as mulheres adultas de violência doméstica, assegure uma plataforma 
de suporte aos menores que as acompanham.

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  • 1. Vítimas de violência doméstica: A Casa de Abrigo “Nova Esperança” enquanto resposta institucional Mauro Paulino1, Andreia Baptista2, Carina Pinto3 & Manuel Matias4 Introdução A violência doméstica constitui atualmente um crime de natureza pública (artigo 152º Código Penal). Em função das necessidades e da gravidade da situação, existem dois tipos de respostas sociais que apoiam, encaminham e acolhem as pessoas adultas vítimas de violência doméstica, tendo em vista a sua proteção:  Centros de atendimento;  Casas de abrigo. Evolução de Acolhimentos Ano Mães Filhos Total 2002 (inaugurada em Novembro) 2 2 4 2003 20 26 46 2004 14 17 31 2005 16 25 41 2006 17 24 41 2007 22 26 48 2008 16 15 31 2009 39 47 86 2010 45 53 98 2011 23 28 51 2012 26 28 54 2013 22 29 51 2014 11 27 38 Total 273 347 620 1 Psicólogo Forense no Gabinete Médico-Legal e Forense da Península de Setúbal. Diretor da Intervenção na Área da Violência Doméstica na Cooperativa Pelo Sonho É Que Vamos. 2, 3 Psicólogas clínicas na Casa de Abrigo “Nova Esperança” – Estágio Profissional OPP. 4 Presidente da Direção da Cooperativa Pelo Sonho É Que Vamos. Cooperativa Pelo Sonho É Que Vamos | www.cooperativapelosonho.pt Email de contato: mpaulino_psic@yahoo.com Metodologia Procedemos a uma análise retrospetiva dos relatórios de acolhimento, nomeadamente, ao levantamento da informação disponível referente aos acolhimentos realizados na Casa de Abrigo “Nova Esperança” nos anos 2012, 2013 e no primeiro semestre de 2014. Recorremos ao tratamento estatístico descritivo mediante a utilização do SPSS – Statistical Package for the Social Scientes, versão 19 para Windows. n=54 correspondendo a um total de 120 pessoas (54 adultas e 66 menores). Resultados Acolhimentos: Em 2012 foram acolhidas 26 famílias, 22 famílias no ano de 2013 e 11 famílias no primeiro semestre de 2014. Em 2013, Janeiro e Março destacam-se como os meses em que ocorreram mais acolhimentos (18%, n=4). Idade da utilizadora: O intervalo de idades com maior representatividade é o dos 34 aos 38 anos (26%, n= 14), seguindo-se o intervalo dos 29 aos 33 anos (19%, n=10). A média de idades é 34,7 anos. Nacionalidade da utilizadora: A maioria das utilizadoras é de nacionalidade portuguesa (78%, n=42). Estado civil da utilizadora: Aquando do acolhimento, 43% (n=23) das utilizadoras eram solteiras e 33% (n=18) mantinham um vínculo matrimonial com o agressor. Escolaridade da utilizadora: Têm, sobretudo, escolaridade ao nível do 3º ciclo (7º ao 9º ano) (39%, n=21). Situação laboral da utilizadora: 80% (n=43) das utilizadoras estavam desempregadas no momento do acolhimento. Apresentação de Queixa: 80% (n=43) das utilizadoras apresentaram queixa do agressor, sendo o local predominante a Polícia de Segurança Pública (PSP) (50%, n=27). Entidade encaminhadora: A maioria (28%, n=15) das utilizadoras foi encaminhada pela Linha Nacional de Emergência Social (144) e pela APAV (17%, n=9). Tipologia da violência: Sobretudo, violência continuada (80%, n=43). A violência física foi referida em 82% (n=44) dos casos, a psicológica em 94% (n=51) dos casos e a sexual em 15% (n=8) dos casos. Fatores de risco: 35% (n=19) dos agressores tinham acesso a armas, sendo que desses, 26% (n=14) tinham acesso a armas de fogo. Número de filhos acolhidos: Em média, o número de filhos de cada utilizadora é 2, sendo que o número máximo de filhos acolhido com a progenitora foi de 4. Em 57% (n=31) dos casos os menores presenciaram a violência, havendo registo de violência direta sobre os filhos em 33% (n=18) dos casos. Tempo de relação: 17% (n=9) das utilizadoras tinham uma relação com o agressor há menos de 2 anos. Em 13% (n=8) dos casos a relação mantinha-se há mais de 12 anos. Duração da violência: O intervalo com maior representatividade é aquele que se situa entre 1 e 4 anos de relação (24%, n=13). Historial de casa de abrigo: 22% (n=12) das utilizadoras já tinham registo de terem estado em casa de abrigo. Tempo de permanência na casa de abrigo “Nova Esperança”: 61% (n=33) das utilizadoras estiveram acolhidas por um período de tempo inferior a um mês. Em 22% (n=12) dos casos o acolhimento durou entre um e três meses. Motivo de saída: 33% (n=18) das utilizadoras saíram para casa de familiares ou amigos, 15% (n=8) conseguiram autonomizar-se. O regresso ao agressor verificou-se em 19% (n=10) dos casos. Conclusão As casas de abrigo constituem uma importante resposta social à problemática da violência doméstica, sendo que os menores representam a maioria das vítimas deste fenómeno. A investigação tem-lhes dedicado, ultimamente, uma maior atenção, surgindo mesmo a noção de vítimas silenciosas. Desta forma, é necessária uma intervenção que, para além de abranger as mulheres adultas de violência doméstica, assegure uma plataforma de suporte aos menores que as acompanham.