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O porquê dos nossos sentimentos: por que eles existem?
Argos Arruda Pinto
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Resumo
Sentimentos e emoções existem apenas para o nosso deleite em termos de paixões,
grandes amores, amizades, etc., excluindo os sentimentos negativos? Não! Há uma
razão profunda, complexa, envolvendo todo o funcionamento do nosso cérebro que
evoluiu, tornando a nossa vida plena de comportamentos a nos ajustarmos a qualquer
ambiente natural, ou não, e nas relações sociais.
Palavras-chave: evolução, sentimentos, emoções, Darwin, mamíferos, consciência,
cérebro, sobrevivência, fé, acreditar, relativismo, religião, absolutismo, neurociência.
________________________________________________________
Abstract
"Feelings and emotions exist only for our own enjoyment in terms of passion, love,
friendship, etc. Would that exclude any negative feelings? No! There is a deep and
complex reason involving all the functions of our brain that has been evolved, turning
our lives full of behaviours to either be adjusted to any natural environment, or not, and
to the social relations."
Wordkeys:
evolution, feelings, emotions, Darwin, mammals, consciousnes, brain, survival, faith,
believe, relativism, religion, absolutism, neuroscience.
________________________________________________________
Parte I
Por que existem os nossos sentmentos? Nossas emoções? Por que somos seres
racionais e emocionais e não apenas racionais?
A resposta a estas perguntas poderá - inicialmente - soar estranha e aparentemente
sem sentido ao leitor, mas está relacionada com um dos mais poderosos instintos
inerentes ao ser humano: a sobrevivência de sua espécie.
O conceito de "sobrevivência", entretanto, deve ser mais amplo do que se supõe
quando se refere a nós, humanos, pois comer, beber, dormir e procriar não basta. É
como se extrapolássemos estes quatro requisitos básicos para sobrevivermos.
Precisamos de mais... E este mais está ligado ao nosso bem-estar físico, mental,
felicidade e satisfação.
Sentimentos e emoções são em grande número em nossas mentes; eles afetam
nossos corpos, nossos comportamentos, as nossas vidas. Não há espaço aqui para
explicar um a um com base na sobrevivência de nossa espécie como animal. Darei
exemplos de alguns. Importante realçar também o caráter "estatístico" deste artigo, no
sentido em que estarei falando de características de populações. As características de
um indivíduo pode representar uma tendência em toda uma população, uma maioria,
onde as exceções não importam. Quando eu falar de algum sentimento ou emoção, o
leitor deverá pensar em termos amplos, gerais. Por exemplo: se digo que o amor é uma
força de ligação, a mais importante entre pais e filhos e que sem ele a raça humana já
estaria extinta, excluo os poucos casos onde os filhos foram abandonados ao nascer
ou quando criança.
A Teoria da Evolução de Darwin sempre fora mal explicada e mal vista por muita gente.
No começo do século XX, aqui no Brasil, era proibido falar nela nas escolas; havia
preconceito em todos os países, mas, entre os cientistas ela simplesmente só evoluiu
desde a sua concepção no século XIX. Isto criou um abismo entre os conhecimentos
da Ciência nesta área e tudo aquilo que as pessoas comuns pensam e imaginam sobre
como os seres vivos se modificam, se adaptam, sobrevivem, etc. E tudo isto se
relaciona apenas com os corpos desses seres; imagine quanta ignorância existe
quando se entra na correspondência entre evolução e mente.
Os seres vivos mais complexos do planeta, aves e principalmente mamíferos, possuem
cérebros altamente complexos e adaptados para conseguirem sobreviver aos
estímulos negativos, destrutivos do meio ambiente. Insetos, peixes e répteis nascem
em um estágio de maturidade o suficiente para se locomoverem e explorarem o mundo
exterior; fora isto, o número de filhotes é grande o bastante para nem todos serem
devorados pelos predadores. O fato é diferente com os mamíferos: poucos filhotes e
frágeis, necessitando-se de uma longa jornada de aprendizagem sobre seu ambiente,
para um dia enfrentarem sozinhos os perigos deste mesmo ambiente e procriarem. Aí
que entram as emoções. Algumas são básicas e compartilhamos com seres menos
complexos: o medo e a agressividade. O medo é importante porque é um sinal de
alerta, de algum perigo no meio; quem sobreviveria se não tivesse medo de nada?
Seria suicídio em muitas situações perigosas! É necessária a existência de
agressividade porque nada pode ser só passivo; enfrentar algum perigo, uma ameaça,
requer também respostas passando, às vezes, pela agressividade. Em especial nos
seres humanos, a natureza foi "caprichosa" no aspecto emocional: sentimos alegria,
tristeza, ódio, paixão, raiva, satisfação, amor, afeto, fé, esperança, etc.
Temos a capacidade de procurar sexo mesmo sem a intenção de procriar. Procuramos
porque gostamos, porque faz bem, porque nos satisfaz. Chegamos ao ponto de nos
deliciar com um prato só para nos satisfazer mesmo sem estar com fome, ou seja, sem
a necessidade momentânea de sobrevivência; por puro prazer. Procuramos coisas
como viajar, sair, encontrar alguém para gostarmos, nos divertir, porque faz parte do
nosso lazer, do nosso bem-estar. A palavra gostar está sempre presente; os
sentimentos estão sempre presentes.
Existe o trabalho... Ele deve ser entendido como uma atividade inerente ao ser
humano, mesmo qual for o seu modo ou finalidade: do homem de duzentos mil anos
atrás ao perseguir uma presa durante horas, ao homem de hoje em um escritório
repleto de aparelhos eletrônicos a ajudá-lo em seu dia a dia, tudo é trabalho. Tudo o
que for uma atividade a implicar em geração de bens ou realização de uma tarefa
imprescindível à nossa sobrevivência, mesmo que indiretamente. É o caso das
sociedades, quase todas no mundo de hoje, que se modernizaram e o fruto do trabalho
passou a ser algo "simbólico", o dinheiro, onde através dele conseguimos o que
precisamos. Existiria o trabalho para nós se não gostássemos? Se não gostássemos
ou se não sentíssemos nada com os seus frutos? Não existe somente o ato de
trabalhar; sentimentos e emoções, conquistas que nos levam a satisfações
extremamente benéficas a nós estão em jogo.
Quero dizer que vivemos procurando atividades, conquistas, coisas que nos fazem
bem, para a nossa felicidade e bem-estar. Se ora não conseguimos temos outras
chances, temos nosso amor próprio e continuamos a viver, a procurar. Temos fé,
esperança, sonhamos.
E os sentimentos negativos, as emoções violentas e negativas? Veja, nenhum sistema
adaptativo como o cérebro, que visa o comando de um corpo para se perpetuar junto a
ele, irá responder somente de modo positivo, no sentido de sentimentos positivos, em
um meio ambiente onde os estímulos exteriores são positivos e negativos também.
Ninguém gostará de um inimigo!
Para se capturar um animal faz-se necessário uma boa dose de agressividade e nós
utilizamos recursos muitas vezes cruéis onde, se fôssemos parar para pensar, não
comeríamos sequer um pequeno peixe do mar! Pode-se imaginar o quanto as nossas
sociedades cresceram e se desenvolveram a custa de muitas mortes ou exploração,
onde nossos ancestrais utilizaram e muito da capacidade humana de destruição para
com os inimigos. E destruir envolve muita coisa de negativo.
Este é o universo da mente. Interessante salientar o papel da consciência em todos
esses processos. Por exemplo: temos consciência de que o sexo é bom; o procuramos
como disse anteriormente, sem a intenção de procriar. E também procuramos de forma
consciente para deixarmos descendentes... A consciência é que talvez nos leve a
transpor àquilo que eu disse a respeito de comer, beber, dormir e procriar: seres
conscientes buscam estas coisas de maneira automática, intuitiva, mas procuram
também para usá-las como fonte de prazer e satisfação; procriar seria exceção, mas o
sexo em si não; e procuram outras, como em um nível mais alto de atividade sistêmica,
como o lazer, etc., para se sentirem bem. O sexo sem interesse de gerar filhos é talvez
o ponto mais alto nessa "escala".
A consciência, indo mais longe, precisa necessariamente de, no mínimo, dois suportes
emocionais para se perpetuar; duas forças poderosíssimas: a fé (1) e o amor-próprio.
Que espécie de seres conscientes conseguiria a perpetuação se não acreditassem em
si mesmos? No seu trabalho, na sua luta diária? Ou, como na maioria dos habitantes
do planeta, em algo divino para se apoiarem? Nem levantariam da cama! E que
sistema poderia também sobreviver se não gostasse de si próprio? O que adianta um
corpo forte em uma mente fraca? Chegamos então, talvez, a um fato universal:
qualquer ser consciente no cosmos terá este tipo de característica. Talvez não exista
nada somente racional.
Este artigo pode dar a impressão de que refere à nossa civilização ocidental,
consumista, desejosa de prazeres, poder e dinheiro; não é isso. Ele se refere àquilo
que os seres humanos possuem em sua natureza íntima, de básico em suas mentes
onde se criou todas as culturas e civilizações até hoje. Umas foram mais pacíficas que
outras; algumas foram mais mercantilistas, enquanto outras se preocuparam com a
tecnologia e produção industrial. Mas a sobrevivência do homem se deu até hoje com a
combinação de um lado racional com outro emocional. E sobrevivência para o ser
humano engloba, além de sua natureza racional, tudo o que proporciona satisfação,
felicidade, prazer, conquistas, etc. Estados correlacionados com nossas emoções e
sentimentos. Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer.
Parte II
Existe uma ordem aparente na evolução animal, uma escala crescente em
complexidade nos seres vivos do nosso planeta. De seres unicelulares povoando
diversos habitats terrestres, até nós humanos, passamos pelos insetos, répteis, peixes,
aves e todos os mamíferos, estes últimos menos complexos que nós. A diferença entre
nós e os outros mamíferos se refere àquilo que é o sistema mais complexo conhecido:
o nosso cérebro. Em termos somáticos, e até certo ponto no sistema nervoso, somos
muito parecidos com eles, do ponto de vista da morfologia, da genética e da
bioquímica. É importante lembrar que esta escala não representa necessariamente
uma ordem crescente em complexidade na história evolutiva de cada grupo em relação
aos outros. Por exemplo, uma ave é mais complexa que um inseto, mas este pode ser
mais novo como espécie. Pode até ocorrer uma diminuição da complexidade ao longo
da evolução de uma espécie.
Atualmente é aceito sem dúvidas que a origem das espécies novas está baseada no
fato de que os seres evoluem, ou seja, se modificam, se adaptam à mudanças no
ambiente etc. Assim, o chamado "modelo padrão" da biologia se consolidou através do
casamento entre as descobertas da biologia molecular, da genética e da teoria da
evolução. Pode ser argumentado, portanto, que isso se aplica a todos os aspectos da
nossa biologia, inclusive as bases para os nossos mais complexos comportamentos e
emoções.
A evolução biológica se manifesta através de mudanças permanentes (codificadas
geneticamente) na forma e função das células, tecidos e órgãos dos seres vivos. O
comportamento "surgiu" na Terra há muito tempo. Por exemplo, um ser unicelular,
como uma ameba reage se afastando de um estímulo negativo ou se aproximando de
um estímulo positivo para sobreviver. Comportamentos simples, como tropismos deste
tipo, existem provavelmente há centenas de milhões de anos, ou bilhões de anos, e
podem ser encontrados até mesmo em organismos que não têm sistemas nervosos,
como as plantas. Entretanto, a seleção natural pressionou pelo surgimento de
comportamentos cada vez mais complexos e avançados, levando à evolução dos
órgãos sensoriais, músculos e redes neurais especializadas. Para o comportamento
aplica-se a mesma coisa que para outros traços dos organismos: quanto maior for a
gama de comportamentos exibidos por um determinado organismo reagir, sobreviver,
maior será a sua chance de se adaptar adequadamente ao ambiente mutante.
Diversidade é a palavra-chave aqui. Muitos autores sugerem, portanto, que a
complexidade cerebral é essencialmente relacionada à complexidade das estratégias
comportamentais desenvolvidas para a sobrevivência da espécie e os rigores da
competição. Por isso não é difícil de imaginar que, como os organismos precisam
adquirir e processar uma maior quantidade de informações a respeito do meio
ambiente, isso exige um sistema nervoso mais complexo.
Eventualmente (e esse era um dos maiores medos de Darwin, como humanista e
religioso), todas as características do cérebro humano, mesmo aquelas consideradas
superiores e complexas, como linguagem, pensamento, lógica, sentimentos etc.,
podem ser inteiramente explicadas pelos efeitos da seleção natural na evolução.
Na Parte I deste artigo citei o exemplo da força de ligação que aparece entre pais e
filhos, através de sentimentos como o afeto, o amor etc., sem os quais ninguém
sobreviveria neste planeta logo após o nascimento. Entretanto, em muitas situações, o
instinto de proteger os filhotes entra em conflito com os instintos de sobrevivência.
Primeiro, um genitor precisa, entre outras coisas, saber quem são seus filhos, saber o
que fazer para protegê-los e a si próprios. Neste ponto o cérebro, com o lado racional,
é importante quanto o lado emocional. Além disso: reações como a agressividade
contra predadores e comportamentos e sentimentos de defesa em relação ao bem
estar do grupo social como um todo, podem tomar uma precedência em relação aos
próprios cuidados com a prole, devido à necessidade de perpetuar a espécie. Podemos
observar isto em primatas não humanos, tais como chimpanzés, em que o infanticídio é
muito comum e é relacionado às bases instintivas desses tipos de defesas.
Isso não acontece com os seres humanos, entretanto. Devido à evolução cultural, a
base emocional e instintiva pode ser inteiramente modificada através da razão. Por
exemplo, uma mãe pode preferir sacrificar a própria vida para salvar a do seu bebê. Ou
a sobrevivência do grupo social pode ser ameaçada com base em razões puramente
racionais (como na guerra). "Saber" é racional; "sentir" é emocional e aí estão os dois
pilares cerebrais de que falei na primeira parte: somos seres racionais e emocionais e
não só racionais. Essas duas esferas estão unificadas e não podem ser separadas,
como foi explicado de forma muito bonita pelo neurologista António Damásio, em seu
livro "O Erro de Descartes". (DAMÁSIO, O erro de Descartes, 1996). (2). Citando a falta
completa de emoções em personalidades sociopatas e as alterações de personalidade
em pacientes lesados em certas áreas frontais do cérebro, tal como no caso histórico
de Phineas Gage, Damásio explica que o erro de René Descartes foi supor que há uma
separação entre o racional e o irracional (emoções, sentimentos), e que ser
supremamente racional seria a melhor coisa para a humanidade. Não é verdade: sem
emoção, a racionalidade perde um componente importante e se torna patológica!
Podemos dizer que a natureza encontrou um caminho para resolver o problema dos
seres vivos que possuem uma prole dependente dos pais durante o período de
amadurecimento. As estratégias comportamentais que surgiram após milhões de anos
da evolução dos hominídeos e de seleção sexual envolvem uma complexa mistura de
razão e emoções. Esta provavelmente é base da nossa singularidade entre todas as
espécies.
▪ ▪ ▪ ▪
Antes de prosseguir gostaria de dizer algumas palavras sobre a consciência.
Ela está presente em muitos momentos e atividades do nosso dia a dia. Veja, por
exemplo, em um jogo de xadrez: você pensa: “(Eu) vou posicionar o meu (de “Eu”)
bispo da casa branca de maneira a bloquear o xeque do meu (de “Eu” novamente)
adversário”. Uma simples frase representando um pensamento estratégico onde a
consciência “atua três vezes” representada pela palavra “Eu”.
O neurocientista António Damásio, no livro “E o cérebro criou o homem” (Damásio,
2011, p. 310), apresenta o problema dos qualia, onde um deles, que nos interessa
aqui, foi exposto do seguinte modo: “”Nenhum conjunto de imagens conscientes,
independentemente do tipo e do assunto, jamais deixa de ser acompanhado por um
obediente coro de emoções e consequentes sentimentos””. (3)
Estamos acostumados a isto que nem nos damos conta. Pelo exemplo acima: “ficarei
aliviado pois o xeque do adversário seria seguido de um mate”. Aliviado de quê? Do
medo, da expectativa de perder o jogo, que são emoções, sentimentos.
A consciência é um poderoso suporte ou auxílio da inteligência. Sempre a utilizamos
quando estamos acordados a realizar tarefas das mais diversas ou divagar em
pensamentos sem fim sobre qualquer assunto.
Parte III
Imagine quantos milhões ou dezenas de milhões de artigos, livros, poemas, foram
publicados sobre e em nome do amor. E tudo aquilo escrito em cartas, pergaminhos e
publicações outras? Esta pequena palavra de quatro letras povoou a imaginação,
encheu de alegrias e tristezas, arrebatou corações das pessoas em todo o mundo e em
todas as épocas.
Na verdade se trata de números impossíveis de calcular, ainda mais se ousarmos
pensar em quantas vezes o amor fora declamado em épocas antes da escrita…
Realmente é tentador para as pessoas pensar, nesse sentimento tão sublime, causas
também sublimes, como uma alma, um espírito, além da matéria comum, dentro de nós
e criados por um Deus. Ou deuses para os politeístas. Mas não: a Neurociência avança
dia a dia elucidando fenômenos até então atribuídos a entes relacionados ao divino,
como manifestações de áreas cerebrais, com neurônios mais ativados que o normal, a
liberar substâncias químicas pelo cérebro e pelo corpo, fazendo-nos sentir bem.
Somos animais dotados de inteligência e consciência e, por isto, literalmente usamos
estas duas capacidades para o nosso bem-estar, “procurando” paixões,
relacionamentos amorosos, pessoas especias, etc., para vivermos um grande amor.
Conforme a multiplicidade de sentimentos e emoções, tais como a amizade, o carinho,
a ternura, a atração, etc., vivemos em um mundo com as nossas mentes funcionando
todos os dias em função deles. Nunca paramos. Se você não quer arranjar um (a)
namorado (a), você se prende às amizades, só ao sexo, às atrações e aventuras onde
as emoções fortes tomam conta da sua vida.
Não conseguimos viver sem a turbulência de emoções e sentimentos pelos quais o
nosso cérebro é o comandante geral.
Pensávamos que algo imaterial regia os nossos comportamentos e que para a
sobrevivência bastava dormir, comer e fazer filhos. Engano. Aproveitamos nossas
habilidades naturais para o que já há décadas se chama “aproveitar a vida”, o antigo
carpe diem, (4) do também antigo filósofo latino Horácio (65 a.C. - 08 a.C.) fazendo
parte do nosso bem-estar.
Esta Parte III enfatiza o quanto precisamos “usar” os nossos sentimentos e emoções
para o bem-estar que também faz parte da nossa sobrevivência como eu disse
brevemente no último parágrafo da Parte I.
A última frase “Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer” é
poderosa porque não podemos e não somos “programados” para vivermos como
autômatos, robôs, executando apenas tarefas repetitivas diariamente. Temos
criatividade, inteligência e consciência para fazermos coisas e mais coisas para
sentirmos bem, vivermos felizes.
Talvez seja por isto que em qualquer definição do que é a vida para nós, tem que
passar necessariamente pelo bem-estar, pela felicidade.
Sentimentos e emoções serviram à Evolução para os mamíferos (também aves e
menos nos répteis e peixes), sobreviverem no planeta. Mas como temos inteligência e
consciência, usamos essas duas maravilhas para o nosso bem-estar e felicidade sem
os quais poderíamos também perecer. Isto também é sobrevivência mas em um plano
mais elevado de “estados mentais”.
Acontece algo curioso conosco. Emoções e sentimentos ao encontrarem a consciência
e uma inteligência avançada dão um verdadeiro salto em termos de como o
personagem que as possuem pode se valer delas.
É uma volta parecida ou igual (?) a um feedback onde podemos alcançar momentos
de êxtases inesquecíveis a perdurarem em nossas memórias para o resto de nossas
vidas, mas sem a qual não seríamos o que somos.
Retornando ao resumo deste texto, o deleite de que falei é também, e principalmente,
para a sobrevivência da espécie humana na Terra. Sentimentos e emoções como o
amor pelos filhos, o carinho, o afeto, que geram respeito, cuidados, etc., também
existem para a sobrevivência, inclusive nos outros mamíferos, de modo “simplificado”
mas não menos importante.
Referências bibliográficas:
1 - “Esclarecimento sobre a fé para os meus artigos” - Disponível em:
<http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2014/04/esclarecimento-sobre-fe-para-
os-meus.html> Acesso em 08/06/2014.
2 - DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras,
1996.
3 - DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das
Letras, 2011. p. 310.
4 - Disponível em: <http://www.significados.com.br/carpe-diem/> Acesso em
08/06/2014.
Argos Arruda Pinto (argos_arruda_pinto@yahoo.com.br) é formado em Licenciatura em
Física pela Universidade Estadual de São Paulo - UNESP.
Lecionou física para o segundo e terceiro ano do colegial (hoje ensino médio) na
E.E.P.S.G. "Djalma Forjaz", de Porto Ferreira - SP.
Atualmente ministra aulas particulares de Física e Matemática em São Paulo - SP.

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O porquê dos nossos sentimentos: por que eles existem?

  • 1. O porquê dos nossos sentimentos: por que eles existem? Argos Arruda Pinto ________________________________________________________ Resumo Sentimentos e emoções existem apenas para o nosso deleite em termos de paixões, grandes amores, amizades, etc., excluindo os sentimentos negativos? Não! Há uma razão profunda, complexa, envolvendo todo o funcionamento do nosso cérebro que evoluiu, tornando a nossa vida plena de comportamentos a nos ajustarmos a qualquer ambiente natural, ou não, e nas relações sociais. Palavras-chave: evolução, sentimentos, emoções, Darwin, mamíferos, consciência, cérebro, sobrevivência, fé, acreditar, relativismo, religião, absolutismo, neurociência. ________________________________________________________ Abstract "Feelings and emotions exist only for our own enjoyment in terms of passion, love, friendship, etc. Would that exclude any negative feelings? No! There is a deep and complex reason involving all the functions of our brain that has been evolved, turning our lives full of behaviours to either be adjusted to any natural environment, or not, and to the social relations." Wordkeys: evolution, feelings, emotions, Darwin, mammals, consciousnes, brain, survival, faith, believe, relativism, religion, absolutism, neuroscience. ________________________________________________________ Parte I Por que existem os nossos sentmentos? Nossas emoções? Por que somos seres racionais e emocionais e não apenas racionais?
  • 2. A resposta a estas perguntas poderá - inicialmente - soar estranha e aparentemente sem sentido ao leitor, mas está relacionada com um dos mais poderosos instintos inerentes ao ser humano: a sobrevivência de sua espécie. O conceito de "sobrevivência", entretanto, deve ser mais amplo do que se supõe quando se refere a nós, humanos, pois comer, beber, dormir e procriar não basta. É como se extrapolássemos estes quatro requisitos básicos para sobrevivermos. Precisamos de mais... E este mais está ligado ao nosso bem-estar físico, mental, felicidade e satisfação. Sentimentos e emoções são em grande número em nossas mentes; eles afetam nossos corpos, nossos comportamentos, as nossas vidas. Não há espaço aqui para explicar um a um com base na sobrevivência de nossa espécie como animal. Darei exemplos de alguns. Importante realçar também o caráter "estatístico" deste artigo, no sentido em que estarei falando de características de populações. As características de um indivíduo pode representar uma tendência em toda uma população, uma maioria, onde as exceções não importam. Quando eu falar de algum sentimento ou emoção, o leitor deverá pensar em termos amplos, gerais. Por exemplo: se digo que o amor é uma força de ligação, a mais importante entre pais e filhos e que sem ele a raça humana já estaria extinta, excluo os poucos casos onde os filhos foram abandonados ao nascer ou quando criança. A Teoria da Evolução de Darwin sempre fora mal explicada e mal vista por muita gente. No começo do século XX, aqui no Brasil, era proibido falar nela nas escolas; havia preconceito em todos os países, mas, entre os cientistas ela simplesmente só evoluiu desde a sua concepção no século XIX. Isto criou um abismo entre os conhecimentos da Ciência nesta área e tudo aquilo que as pessoas comuns pensam e imaginam sobre como os seres vivos se modificam, se adaptam, sobrevivem, etc. E tudo isto se relaciona apenas com os corpos desses seres; imagine quanta ignorância existe quando se entra na correspondência entre evolução e mente. Os seres vivos mais complexos do planeta, aves e principalmente mamíferos, possuem cérebros altamente complexos e adaptados para conseguirem sobreviver aos estímulos negativos, destrutivos do meio ambiente. Insetos, peixes e répteis nascem em um estágio de maturidade o suficiente para se locomoverem e explorarem o mundo exterior; fora isto, o número de filhotes é grande o bastante para nem todos serem devorados pelos predadores. O fato é diferente com os mamíferos: poucos filhotes e frágeis, necessitando-se de uma longa jornada de aprendizagem sobre seu ambiente, para um dia enfrentarem sozinhos os perigos deste mesmo ambiente e procriarem. Aí que entram as emoções. Algumas são básicas e compartilhamos com seres menos
  • 3. complexos: o medo e a agressividade. O medo é importante porque é um sinal de alerta, de algum perigo no meio; quem sobreviveria se não tivesse medo de nada? Seria suicídio em muitas situações perigosas! É necessária a existência de agressividade porque nada pode ser só passivo; enfrentar algum perigo, uma ameaça, requer também respostas passando, às vezes, pela agressividade. Em especial nos seres humanos, a natureza foi "caprichosa" no aspecto emocional: sentimos alegria, tristeza, ódio, paixão, raiva, satisfação, amor, afeto, fé, esperança, etc. Temos a capacidade de procurar sexo mesmo sem a intenção de procriar. Procuramos porque gostamos, porque faz bem, porque nos satisfaz. Chegamos ao ponto de nos deliciar com um prato só para nos satisfazer mesmo sem estar com fome, ou seja, sem a necessidade momentânea de sobrevivência; por puro prazer. Procuramos coisas como viajar, sair, encontrar alguém para gostarmos, nos divertir, porque faz parte do nosso lazer, do nosso bem-estar. A palavra gostar está sempre presente; os sentimentos estão sempre presentes. Existe o trabalho... Ele deve ser entendido como uma atividade inerente ao ser humano, mesmo qual for o seu modo ou finalidade: do homem de duzentos mil anos atrás ao perseguir uma presa durante horas, ao homem de hoje em um escritório repleto de aparelhos eletrônicos a ajudá-lo em seu dia a dia, tudo é trabalho. Tudo o que for uma atividade a implicar em geração de bens ou realização de uma tarefa imprescindível à nossa sobrevivência, mesmo que indiretamente. É o caso das sociedades, quase todas no mundo de hoje, que se modernizaram e o fruto do trabalho passou a ser algo "simbólico", o dinheiro, onde através dele conseguimos o que precisamos. Existiria o trabalho para nós se não gostássemos? Se não gostássemos ou se não sentíssemos nada com os seus frutos? Não existe somente o ato de trabalhar; sentimentos e emoções, conquistas que nos levam a satisfações extremamente benéficas a nós estão em jogo. Quero dizer que vivemos procurando atividades, conquistas, coisas que nos fazem bem, para a nossa felicidade e bem-estar. Se ora não conseguimos temos outras chances, temos nosso amor próprio e continuamos a viver, a procurar. Temos fé, esperança, sonhamos. E os sentimentos negativos, as emoções violentas e negativas? Veja, nenhum sistema adaptativo como o cérebro, que visa o comando de um corpo para se perpetuar junto a ele, irá responder somente de modo positivo, no sentido de sentimentos positivos, em um meio ambiente onde os estímulos exteriores são positivos e negativos também. Ninguém gostará de um inimigo!
  • 4. Para se capturar um animal faz-se necessário uma boa dose de agressividade e nós utilizamos recursos muitas vezes cruéis onde, se fôssemos parar para pensar, não comeríamos sequer um pequeno peixe do mar! Pode-se imaginar o quanto as nossas sociedades cresceram e se desenvolveram a custa de muitas mortes ou exploração, onde nossos ancestrais utilizaram e muito da capacidade humana de destruição para com os inimigos. E destruir envolve muita coisa de negativo. Este é o universo da mente. Interessante salientar o papel da consciência em todos esses processos. Por exemplo: temos consciência de que o sexo é bom; o procuramos como disse anteriormente, sem a intenção de procriar. E também procuramos de forma consciente para deixarmos descendentes... A consciência é que talvez nos leve a transpor àquilo que eu disse a respeito de comer, beber, dormir e procriar: seres conscientes buscam estas coisas de maneira automática, intuitiva, mas procuram também para usá-las como fonte de prazer e satisfação; procriar seria exceção, mas o sexo em si não; e procuram outras, como em um nível mais alto de atividade sistêmica, como o lazer, etc., para se sentirem bem. O sexo sem interesse de gerar filhos é talvez o ponto mais alto nessa "escala". A consciência, indo mais longe, precisa necessariamente de, no mínimo, dois suportes emocionais para se perpetuar; duas forças poderosíssimas: a fé (1) e o amor-próprio. Que espécie de seres conscientes conseguiria a perpetuação se não acreditassem em si mesmos? No seu trabalho, na sua luta diária? Ou, como na maioria dos habitantes do planeta, em algo divino para se apoiarem? Nem levantariam da cama! E que sistema poderia também sobreviver se não gostasse de si próprio? O que adianta um corpo forte em uma mente fraca? Chegamos então, talvez, a um fato universal: qualquer ser consciente no cosmos terá este tipo de característica. Talvez não exista nada somente racional. Este artigo pode dar a impressão de que refere à nossa civilização ocidental, consumista, desejosa de prazeres, poder e dinheiro; não é isso. Ele se refere àquilo que os seres humanos possuem em sua natureza íntima, de básico em suas mentes onde se criou todas as culturas e civilizações até hoje. Umas foram mais pacíficas que outras; algumas foram mais mercantilistas, enquanto outras se preocuparam com a tecnologia e produção industrial. Mas a sobrevivência do homem se deu até hoje com a combinação de um lado racional com outro emocional. E sobrevivência para o ser humano engloba, além de sua natureza racional, tudo o que proporciona satisfação, felicidade, prazer, conquistas, etc. Estados correlacionados com nossas emoções e sentimentos. Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer. Parte II
  • 5. Existe uma ordem aparente na evolução animal, uma escala crescente em complexidade nos seres vivos do nosso planeta. De seres unicelulares povoando diversos habitats terrestres, até nós humanos, passamos pelos insetos, répteis, peixes, aves e todos os mamíferos, estes últimos menos complexos que nós. A diferença entre nós e os outros mamíferos se refere àquilo que é o sistema mais complexo conhecido: o nosso cérebro. Em termos somáticos, e até certo ponto no sistema nervoso, somos muito parecidos com eles, do ponto de vista da morfologia, da genética e da bioquímica. É importante lembrar que esta escala não representa necessariamente uma ordem crescente em complexidade na história evolutiva de cada grupo em relação aos outros. Por exemplo, uma ave é mais complexa que um inseto, mas este pode ser mais novo como espécie. Pode até ocorrer uma diminuição da complexidade ao longo da evolução de uma espécie. Atualmente é aceito sem dúvidas que a origem das espécies novas está baseada no fato de que os seres evoluem, ou seja, se modificam, se adaptam à mudanças no ambiente etc. Assim, o chamado "modelo padrão" da biologia se consolidou através do casamento entre as descobertas da biologia molecular, da genética e da teoria da evolução. Pode ser argumentado, portanto, que isso se aplica a todos os aspectos da nossa biologia, inclusive as bases para os nossos mais complexos comportamentos e emoções. A evolução biológica se manifesta através de mudanças permanentes (codificadas geneticamente) na forma e função das células, tecidos e órgãos dos seres vivos. O comportamento "surgiu" na Terra há muito tempo. Por exemplo, um ser unicelular, como uma ameba reage se afastando de um estímulo negativo ou se aproximando de um estímulo positivo para sobreviver. Comportamentos simples, como tropismos deste tipo, existem provavelmente há centenas de milhões de anos, ou bilhões de anos, e podem ser encontrados até mesmo em organismos que não têm sistemas nervosos, como as plantas. Entretanto, a seleção natural pressionou pelo surgimento de comportamentos cada vez mais complexos e avançados, levando à evolução dos órgãos sensoriais, músculos e redes neurais especializadas. Para o comportamento aplica-se a mesma coisa que para outros traços dos organismos: quanto maior for a gama de comportamentos exibidos por um determinado organismo reagir, sobreviver, maior será a sua chance de se adaptar adequadamente ao ambiente mutante. Diversidade é a palavra-chave aqui. Muitos autores sugerem, portanto, que a complexidade cerebral é essencialmente relacionada à complexidade das estratégias comportamentais desenvolvidas para a sobrevivência da espécie e os rigores da competição. Por isso não é difícil de imaginar que, como os organismos precisam adquirir e processar uma maior quantidade de informações a respeito do meio ambiente, isso exige um sistema nervoso mais complexo.
  • 6. Eventualmente (e esse era um dos maiores medos de Darwin, como humanista e religioso), todas as características do cérebro humano, mesmo aquelas consideradas superiores e complexas, como linguagem, pensamento, lógica, sentimentos etc., podem ser inteiramente explicadas pelos efeitos da seleção natural na evolução. Na Parte I deste artigo citei o exemplo da força de ligação que aparece entre pais e filhos, através de sentimentos como o afeto, o amor etc., sem os quais ninguém sobreviveria neste planeta logo após o nascimento. Entretanto, em muitas situações, o instinto de proteger os filhotes entra em conflito com os instintos de sobrevivência. Primeiro, um genitor precisa, entre outras coisas, saber quem são seus filhos, saber o que fazer para protegê-los e a si próprios. Neste ponto o cérebro, com o lado racional, é importante quanto o lado emocional. Além disso: reações como a agressividade contra predadores e comportamentos e sentimentos de defesa em relação ao bem estar do grupo social como um todo, podem tomar uma precedência em relação aos próprios cuidados com a prole, devido à necessidade de perpetuar a espécie. Podemos observar isto em primatas não humanos, tais como chimpanzés, em que o infanticídio é muito comum e é relacionado às bases instintivas desses tipos de defesas. Isso não acontece com os seres humanos, entretanto. Devido à evolução cultural, a base emocional e instintiva pode ser inteiramente modificada através da razão. Por exemplo, uma mãe pode preferir sacrificar a própria vida para salvar a do seu bebê. Ou a sobrevivência do grupo social pode ser ameaçada com base em razões puramente racionais (como na guerra). "Saber" é racional; "sentir" é emocional e aí estão os dois pilares cerebrais de que falei na primeira parte: somos seres racionais e emocionais e não só racionais. Essas duas esferas estão unificadas e não podem ser separadas, como foi explicado de forma muito bonita pelo neurologista António Damásio, em seu livro "O Erro de Descartes". (DAMÁSIO, O erro de Descartes, 1996). (2). Citando a falta completa de emoções em personalidades sociopatas e as alterações de personalidade em pacientes lesados em certas áreas frontais do cérebro, tal como no caso histórico de Phineas Gage, Damásio explica que o erro de René Descartes foi supor que há uma separação entre o racional e o irracional (emoções, sentimentos), e que ser supremamente racional seria a melhor coisa para a humanidade. Não é verdade: sem emoção, a racionalidade perde um componente importante e se torna patológica! Podemos dizer que a natureza encontrou um caminho para resolver o problema dos seres vivos que possuem uma prole dependente dos pais durante o período de amadurecimento. As estratégias comportamentais que surgiram após milhões de anos da evolução dos hominídeos e de seleção sexual envolvem uma complexa mistura de razão e emoções. Esta provavelmente é base da nossa singularidade entre todas as espécies.
  • 7. ▪ ▪ ▪ ▪ Antes de prosseguir gostaria de dizer algumas palavras sobre a consciência. Ela está presente em muitos momentos e atividades do nosso dia a dia. Veja, por exemplo, em um jogo de xadrez: você pensa: “(Eu) vou posicionar o meu (de “Eu”) bispo da casa branca de maneira a bloquear o xeque do meu (de “Eu” novamente) adversário”. Uma simples frase representando um pensamento estratégico onde a consciência “atua três vezes” representada pela palavra “Eu”. O neurocientista António Damásio, no livro “E o cérebro criou o homem” (Damásio, 2011, p. 310), apresenta o problema dos qualia, onde um deles, que nos interessa aqui, foi exposto do seguinte modo: “”Nenhum conjunto de imagens conscientes, independentemente do tipo e do assunto, jamais deixa de ser acompanhado por um obediente coro de emoções e consequentes sentimentos””. (3) Estamos acostumados a isto que nem nos damos conta. Pelo exemplo acima: “ficarei aliviado pois o xeque do adversário seria seguido de um mate”. Aliviado de quê? Do medo, da expectativa de perder o jogo, que são emoções, sentimentos. A consciência é um poderoso suporte ou auxílio da inteligência. Sempre a utilizamos quando estamos acordados a realizar tarefas das mais diversas ou divagar em pensamentos sem fim sobre qualquer assunto. Parte III Imagine quantos milhões ou dezenas de milhões de artigos, livros, poemas, foram publicados sobre e em nome do amor. E tudo aquilo escrito em cartas, pergaminhos e publicações outras? Esta pequena palavra de quatro letras povoou a imaginação, encheu de alegrias e tristezas, arrebatou corações das pessoas em todo o mundo e em todas as épocas. Na verdade se trata de números impossíveis de calcular, ainda mais se ousarmos pensar em quantas vezes o amor fora declamado em épocas antes da escrita… Realmente é tentador para as pessoas pensar, nesse sentimento tão sublime, causas também sublimes, como uma alma, um espírito, além da matéria comum, dentro de nós e criados por um Deus. Ou deuses para os politeístas. Mas não: a Neurociência avança dia a dia elucidando fenômenos até então atribuídos a entes relacionados ao divino,
  • 8. como manifestações de áreas cerebrais, com neurônios mais ativados que o normal, a liberar substâncias químicas pelo cérebro e pelo corpo, fazendo-nos sentir bem. Somos animais dotados de inteligência e consciência e, por isto, literalmente usamos estas duas capacidades para o nosso bem-estar, “procurando” paixões, relacionamentos amorosos, pessoas especias, etc., para vivermos um grande amor. Conforme a multiplicidade de sentimentos e emoções, tais como a amizade, o carinho, a ternura, a atração, etc., vivemos em um mundo com as nossas mentes funcionando todos os dias em função deles. Nunca paramos. Se você não quer arranjar um (a) namorado (a), você se prende às amizades, só ao sexo, às atrações e aventuras onde as emoções fortes tomam conta da sua vida. Não conseguimos viver sem a turbulência de emoções e sentimentos pelos quais o nosso cérebro é o comandante geral. Pensávamos que algo imaterial regia os nossos comportamentos e que para a sobrevivência bastava dormir, comer e fazer filhos. Engano. Aproveitamos nossas habilidades naturais para o que já há décadas se chama “aproveitar a vida”, o antigo carpe diem, (4) do também antigo filósofo latino Horácio (65 a.C. - 08 a.C.) fazendo parte do nosso bem-estar. Esta Parte III enfatiza o quanto precisamos “usar” os nossos sentimentos e emoções para o bem-estar que também faz parte da nossa sobrevivência como eu disse brevemente no último parágrafo da Parte I. A última frase “Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer” é poderosa porque não podemos e não somos “programados” para vivermos como autômatos, robôs, executando apenas tarefas repetitivas diariamente. Temos criatividade, inteligência e consciência para fazermos coisas e mais coisas para sentirmos bem, vivermos felizes. Talvez seja por isto que em qualquer definição do que é a vida para nós, tem que passar necessariamente pelo bem-estar, pela felicidade. Sentimentos e emoções serviram à Evolução para os mamíferos (também aves e menos nos répteis e peixes), sobreviverem no planeta. Mas como temos inteligência e consciência, usamos essas duas maravilhas para o nosso bem-estar e felicidade sem os quais poderíamos também perecer. Isto também é sobrevivência mas em um plano mais elevado de “estados mentais”.
  • 9. Acontece algo curioso conosco. Emoções e sentimentos ao encontrarem a consciência e uma inteligência avançada dão um verdadeiro salto em termos de como o personagem que as possuem pode se valer delas. É uma volta parecida ou igual (?) a um feedback onde podemos alcançar momentos de êxtases inesquecíveis a perdurarem em nossas memórias para o resto de nossas vidas, mas sem a qual não seríamos o que somos. Retornando ao resumo deste texto, o deleite de que falei é também, e principalmente, para a sobrevivência da espécie humana na Terra. Sentimentos e emoções como o amor pelos filhos, o carinho, o afeto, que geram respeito, cuidados, etc., também existem para a sobrevivência, inclusive nos outros mamíferos, de modo “simplificado” mas não menos importante. Referências bibliográficas: 1 - “Esclarecimento sobre a fé para os meus artigos” - Disponível em: <http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2014/04/esclarecimento-sobre-fe-para- os-meus.html> Acesso em 08/06/2014. 2 - DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 3 - DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 310. 4 - Disponível em: <http://www.significados.com.br/carpe-diem/> Acesso em 08/06/2014. Argos Arruda Pinto (argos_arruda_pinto@yahoo.com.br) é formado em Licenciatura em Física pela Universidade Estadual de São Paulo - UNESP. Lecionou física para o segundo e terceiro ano do colegial (hoje ensino médio) na E.E.P.S.G. "Djalma Forjaz", de Porto Ferreira - SP. Atualmente ministra aulas particulares de Física e Matemática em São Paulo - SP.