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O MITO

   Naquela época a molecada já começava a se inteirar dos acordes de um novo som
que tocava com muita freqüência nas rádios e bailinhos caseiros como Help e Yellow
Submarine.
   Cerca de cinco mil munícipes formavam aquela pequena e sem graça cidade há
muito cercada por rumores eqüidistantes de um passado nebuloso pelas histórias que o
povo contava e que não morrem jamais. Muitas casas ainda ornavam suas paredes
com uma venerada foto de Getúlio Vargas. Lampião, para os mais antigos, era assunto
na roda de prosa em frente humildes casas. Nesse meio, religião e assombração
caminhavam de mãos dadas. Passar em frente ao cemitério à noite nem pensar, nem
bêbado.

   - Ih cumpadi, di noiti, nem beudo eu passo na frente do cemitéro. Era o que se
ouvia.

    A única diversão eram os bailinhos para os marmanjos, a molecada só assistia, e o
futebol num campinho estreito que no seu espaço mais largo ficavam o jogo de traves.
Uma próxima do Rio do Susto e a outra quase encostada num muro alto quase sem
reboque, úmido e musgoso que cercava um antigo cemitério abandonado conhecido
como Muro das Sombras e o muro atrás do gol também era conhecido por esse nome.
    Muitas estórias sombrias e estranhas eram contadas pelos mais antigos e todos
tinham medo daquele lugar.
    O fato é que com medo ou sem todo final de semana havia jogos de futebol entre
os marmanjos, a molecada só assistia e corria pegar a bola quando fora de jogo, que
nunca terminavam após as 17;30 seja no verão ou no inverno. Na hora do Ângelo
quando os sinos das igrejas anunciavam as aves Maria o lugar era uma extensão
silenciosa do Muro das Sombras.
Nos dias de semana era a diversão para a molecada após o período escolar, mas quase
sempre não havia meninos o suficiente para formar dois times para jogar entre si.
Dessa forma a opção era a brincadeira da disputa de pênaltis em jogo de duplas.
Enquanto uma dupla ficava no gol, um da outra dupla chutava três pênaltis e o outro
ficava a espera do rebote. Gol de rebote valia dois gols.
    Quando não havia muitas duplas, optava-se pelo gol do Rio do Susto que ficou com
esse apelido após um dia que o rebote da bola foi por cima da trave e caiu no rio.
    Num pequeno banco de areia havia um homem que morava em São Paulo, tio de
um moleque que morava no bairro e fazia uma visita aos familiares. Sob os olhares e
sorrisos marotos da molecada ele tirou os sapatos, rapidamente levantou as barras das
calças até o joelho e pulou no rio. A água chegou até seu pescoço. A gargalhada entre
a molecada foi sarcástica. Após sair do rio ele disse:

   - Que susto!

   Aí ficou: Rio do Susto. E essa parecia ser a parte mais divertida da brincadeira.
Pular nas águas límpidas do rio para apanhar a bola.

    - Prrrriiii! Apitou um menino sem fazer uso do instrumento, apenas dobrando a
língua no céu a boca e assoprando.
    Zinho correu chutou... Pra fora!!
    - Ô Zinho! Perna de pau!
    - Deixa que eu pego a bola.
    - Eu vou!
- Não, eu vou.
    - Tchibum!
    Dois, três, às vezes quatro mergulhavam para apanhar a bola.
    Mas no mês que abria o outono, quando o vexame da seleção brasileira na
Inglaterra no ano anterior já era um longo passado, junto a uma música com uma
letra estranha que começava a tocar nas rádios, Lucy in the Sky with Diamond, e as
amarguras da ditadura e as notícias dos
esquadrões da morte que agiam na capital começava a perturbar a mente das cidades
do interior um fato estranho aconteceu no campinho que deixou uma marca para a
eternidade na vida daquela cidade do interior de São Paulo.
    Como de costume a molecada estava brincando de disputa de pênaltis. Havia
chovido à noite e o rio estava um pouco cheio, então a disputa acontecia no gol do
Muro das Sombras.

    - Prrrriiiii!
     Zinho correu e chutou forte.
    - Gooooolllll! Gritou seu parceiro.
    - Prrrriiii!
     Zinho apanhou com carinho a bola esverdeada de tanto bater no muro e pos numa
pequena marca de terra batida que simbolizava a marca de cal. Correu e chutou mais
forte.
    - Tummm! A bola foi fora e bateu no muro.
    - Prr... cofff, cofff, rrriiii! Apitou um menino quase se engasgando.
     Zinho correu e chutou mais forte ainda.
    - Zummm!
     Por cima da trave e por cima do muro das sombras. O som elástico da bola
batendo nas tumbas abandonadas e o som de um vidro estilhaçando gelou as almas
dos meninos. Após alguns longos segundos de aflição e melancolia...
    - Ô Zinhô! Você é perna de pau mesmo, heim!?!?!
    - E agora? Indagou um moleque.
    - O Zinho vai busca, ué. Foi ele que chutô! Disse outro.
     Sempre que isso acontecia com os marmanjos um deles pulava o muro e apanhava
a bola e sempre fazia alguma gracinha.
    - Vai lá perna de pau.
    E Zinho foi. Contornou o Muro das Sombras até chegar à frente onde o muro era
mais baixo e com a ajuda de uma árvore próxima subiu e pulou.
    A molecada ficou no campinho esperando.
E de tempos em tempos gritavam:
   - Já pegou?
    - Chuta aqui...
    - Vai logo Zinho.

   Após 5 minutos.
   - E aí perna de pau. Uma assombração pegou você?

   10 minutos.
   Impacientes um misto de medo e desconfiança envolveu a molecada.

   -   Eu acho que ele não pulou o muro.
   -   É! Também acho. Aposto que o medroso, perna de pau, foi pra sua casa.
   -   Mas eu ouvi ele gritar lá de dentro. “Já vai!”
   -   Eu não ouvi nada. Disse um.
- Eu ouvi. Disse outro.

    Um olhou para a cara do outro. O outro olhou para a cara de um. Todos se
entreolharam. De repente correram.
    Foram à casa de Zinho. Lá ele não estava. Sua mãe, preocupada, junto a duas
vizinhas e alguns moleques foram até a frente do portão do cemitério e gritaram.
Nenhuma voz, nenhum som foi ouvido. Chamaram os adultos da vizinhança e
resolveram entrar no cemitério. A bola expoente máximo da diversão daquela
molecada foi encontrada. O Zinho, não. Chamaram a polícia e mais um mito estranho
incorporou na alma da pequena cidade.
    Por um longo período, muitas rezas e romarias aconteceram. A bola da brincadeira
foi queimada como se exorcizada por um clérigo medieval. O campinho conhecido
depois do evento como campinho do diabo foi esburacado e cercado.
    Jogando na simbiose entre a esperteza do oportunismo e a ignorância o prefeito
logo construiu uma pracinha à direita da ponte de pau de eucalipto sobre o rio do susto
numa pequena rotatória onde passavam carroças, tratores e raramente um carro ou
caminhão. No centro da pracinha foi erguida a estátua de um anjo com mais ou menos
1,5 ms de altura com um detalhe significante. À direita de seu pé havia uma bola com
uma pequena base redonda ao lado. Mais que depressa a base serviu para a queima de
velas nas peregrinações que lá se faziam. Comentários, rezas e pedidos aconteciam
quase que diariamente.

   -   Cumpadi! Aquele muleque ia sê bão de bola.
   -   É!
   -   Se viu como ele chutava co’ asquelas perninha torta? Parecia Garrincha.
   -   Parecia memo.
   -   Eu acho qui ele pudia joga inté no Santos ou no Parmera quando grande.
   -   É pudia.

    Anos de medo se passaram na mente daquela gente simples como de fosse anos de
chumbo das grandes cidades naquele período. E até hoje não esqueço daquele dia em
que tremendo de medo pulei o muro e fui até o fundo do cemitério. Dei de cara com
meu pai. Levei um grande susto, pois papai era separado de mamãe e vivia em São
Paulo. Ele me pegou pelas mãos, saímos do cemitério e entramos em sua DKV.
    Papai me trouxe para São Paulo, mais precisamente na Casa Verde, perto de uma
avenida onde também havia um rio e um campinho. Ele morava com outra mulher e
disse que eu iria viver com ele. Ganhei muitos presente e roupas novas. Fiquei. E,
jamais me perdoei. Minha mãe morreu quatro meses depois do episódio, talvez de
desgosto. Eu nunca voltei para aquele lugar e jamais joguei futebol novamente. O mito
do Zinho perna de pau continua.

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O mito

  • 1. O MITO Naquela época a molecada já começava a se inteirar dos acordes de um novo som que tocava com muita freqüência nas rádios e bailinhos caseiros como Help e Yellow Submarine. Cerca de cinco mil munícipes formavam aquela pequena e sem graça cidade há muito cercada por rumores eqüidistantes de um passado nebuloso pelas histórias que o povo contava e que não morrem jamais. Muitas casas ainda ornavam suas paredes com uma venerada foto de Getúlio Vargas. Lampião, para os mais antigos, era assunto na roda de prosa em frente humildes casas. Nesse meio, religião e assombração caminhavam de mãos dadas. Passar em frente ao cemitério à noite nem pensar, nem bêbado. - Ih cumpadi, di noiti, nem beudo eu passo na frente do cemitéro. Era o que se ouvia. A única diversão eram os bailinhos para os marmanjos, a molecada só assistia, e o futebol num campinho estreito que no seu espaço mais largo ficavam o jogo de traves. Uma próxima do Rio do Susto e a outra quase encostada num muro alto quase sem reboque, úmido e musgoso que cercava um antigo cemitério abandonado conhecido como Muro das Sombras e o muro atrás do gol também era conhecido por esse nome. Muitas estórias sombrias e estranhas eram contadas pelos mais antigos e todos tinham medo daquele lugar. O fato é que com medo ou sem todo final de semana havia jogos de futebol entre os marmanjos, a molecada só assistia e corria pegar a bola quando fora de jogo, que nunca terminavam após as 17;30 seja no verão ou no inverno. Na hora do Ângelo quando os sinos das igrejas anunciavam as aves Maria o lugar era uma extensão silenciosa do Muro das Sombras. Nos dias de semana era a diversão para a molecada após o período escolar, mas quase sempre não havia meninos o suficiente para formar dois times para jogar entre si. Dessa forma a opção era a brincadeira da disputa de pênaltis em jogo de duplas. Enquanto uma dupla ficava no gol, um da outra dupla chutava três pênaltis e o outro ficava a espera do rebote. Gol de rebote valia dois gols. Quando não havia muitas duplas, optava-se pelo gol do Rio do Susto que ficou com esse apelido após um dia que o rebote da bola foi por cima da trave e caiu no rio. Num pequeno banco de areia havia um homem que morava em São Paulo, tio de um moleque que morava no bairro e fazia uma visita aos familiares. Sob os olhares e sorrisos marotos da molecada ele tirou os sapatos, rapidamente levantou as barras das calças até o joelho e pulou no rio. A água chegou até seu pescoço. A gargalhada entre a molecada foi sarcástica. Após sair do rio ele disse: - Que susto! Aí ficou: Rio do Susto. E essa parecia ser a parte mais divertida da brincadeira. Pular nas águas límpidas do rio para apanhar a bola. - Prrrriiii! Apitou um menino sem fazer uso do instrumento, apenas dobrando a língua no céu a boca e assoprando. Zinho correu chutou... Pra fora!! - Ô Zinho! Perna de pau! - Deixa que eu pego a bola. - Eu vou!
  • 2. - Não, eu vou. - Tchibum! Dois, três, às vezes quatro mergulhavam para apanhar a bola. Mas no mês que abria o outono, quando o vexame da seleção brasileira na Inglaterra no ano anterior já era um longo passado, junto a uma música com uma letra estranha que começava a tocar nas rádios, Lucy in the Sky with Diamond, e as amarguras da ditadura e as notícias dos esquadrões da morte que agiam na capital começava a perturbar a mente das cidades do interior um fato estranho aconteceu no campinho que deixou uma marca para a eternidade na vida daquela cidade do interior de São Paulo. Como de costume a molecada estava brincando de disputa de pênaltis. Havia chovido à noite e o rio estava um pouco cheio, então a disputa acontecia no gol do Muro das Sombras. - Prrrriiiii! Zinho correu e chutou forte. - Gooooolllll! Gritou seu parceiro. - Prrrriiii! Zinho apanhou com carinho a bola esverdeada de tanto bater no muro e pos numa pequena marca de terra batida que simbolizava a marca de cal. Correu e chutou mais forte. - Tummm! A bola foi fora e bateu no muro. - Prr... cofff, cofff, rrriiii! Apitou um menino quase se engasgando. Zinho correu e chutou mais forte ainda. - Zummm! Por cima da trave e por cima do muro das sombras. O som elástico da bola batendo nas tumbas abandonadas e o som de um vidro estilhaçando gelou as almas dos meninos. Após alguns longos segundos de aflição e melancolia... - Ô Zinhô! Você é perna de pau mesmo, heim!?!?! - E agora? Indagou um moleque. - O Zinho vai busca, ué. Foi ele que chutô! Disse outro. Sempre que isso acontecia com os marmanjos um deles pulava o muro e apanhava a bola e sempre fazia alguma gracinha. - Vai lá perna de pau. E Zinho foi. Contornou o Muro das Sombras até chegar à frente onde o muro era mais baixo e com a ajuda de uma árvore próxima subiu e pulou. A molecada ficou no campinho esperando. E de tempos em tempos gritavam: - Já pegou? - Chuta aqui... - Vai logo Zinho. Após 5 minutos. - E aí perna de pau. Uma assombração pegou você? 10 minutos. Impacientes um misto de medo e desconfiança envolveu a molecada. - Eu acho que ele não pulou o muro. - É! Também acho. Aposto que o medroso, perna de pau, foi pra sua casa. - Mas eu ouvi ele gritar lá de dentro. “Já vai!” - Eu não ouvi nada. Disse um.
  • 3. - Eu ouvi. Disse outro. Um olhou para a cara do outro. O outro olhou para a cara de um. Todos se entreolharam. De repente correram. Foram à casa de Zinho. Lá ele não estava. Sua mãe, preocupada, junto a duas vizinhas e alguns moleques foram até a frente do portão do cemitério e gritaram. Nenhuma voz, nenhum som foi ouvido. Chamaram os adultos da vizinhança e resolveram entrar no cemitério. A bola expoente máximo da diversão daquela molecada foi encontrada. O Zinho, não. Chamaram a polícia e mais um mito estranho incorporou na alma da pequena cidade. Por um longo período, muitas rezas e romarias aconteceram. A bola da brincadeira foi queimada como se exorcizada por um clérigo medieval. O campinho conhecido depois do evento como campinho do diabo foi esburacado e cercado. Jogando na simbiose entre a esperteza do oportunismo e a ignorância o prefeito logo construiu uma pracinha à direita da ponte de pau de eucalipto sobre o rio do susto numa pequena rotatória onde passavam carroças, tratores e raramente um carro ou caminhão. No centro da pracinha foi erguida a estátua de um anjo com mais ou menos 1,5 ms de altura com um detalhe significante. À direita de seu pé havia uma bola com uma pequena base redonda ao lado. Mais que depressa a base serviu para a queima de velas nas peregrinações que lá se faziam. Comentários, rezas e pedidos aconteciam quase que diariamente. - Cumpadi! Aquele muleque ia sê bão de bola. - É! - Se viu como ele chutava co’ asquelas perninha torta? Parecia Garrincha. - Parecia memo. - Eu acho qui ele pudia joga inté no Santos ou no Parmera quando grande. - É pudia. Anos de medo se passaram na mente daquela gente simples como de fosse anos de chumbo das grandes cidades naquele período. E até hoje não esqueço daquele dia em que tremendo de medo pulei o muro e fui até o fundo do cemitério. Dei de cara com meu pai. Levei um grande susto, pois papai era separado de mamãe e vivia em São Paulo. Ele me pegou pelas mãos, saímos do cemitério e entramos em sua DKV. Papai me trouxe para São Paulo, mais precisamente na Casa Verde, perto de uma avenida onde também havia um rio e um campinho. Ele morava com outra mulher e disse que eu iria viver com ele. Ganhei muitos presente e roupas novas. Fiquei. E, jamais me perdoei. Minha mãe morreu quatro meses depois do episódio, talvez de desgosto. Eu nunca voltei para aquele lugar e jamais joguei futebol novamente. O mito do Zinho perna de pau continua.