Aquele rapaz nasceu no meio de um jogo de
futebol. A mãe apanhou com uma bola na barriga
e ele nasceu ali mesmo, no estádio. Talvez por
isso ficasse um maluquinho da bola.
A sua gracinha em bebé,
era fazer bolinhas de
cuspo.
Mais tarde começou a comprar pastilhas elásticas de balão.
Com os cadernos
fazia bolas de
papel.
Com a roupa fazia bolas de trapos.
À mesa fazia bolas de pão.
Comia apenas ervilhas, almôndegas, laranjas, bolas de Berlim.
Na praia fazia bolas de areia.
Na serra fazia bolas de neve.
Nas aulas de desenho só desenhava circunferências. Dos sólidos só
conhecia a esfera. Só estudava geografia pelo globo terrestre.
O seu bicho de estimação era o bicho de conta.
Na banheira fazia bolas de sabão.
Dormia entre bolas, numa mesa de bilhar.
Quando se fez homem usava sempre casaco às
bolinhas, camisa às bolinhas, calças às bolinhas.
Ia às compras com um cesto de basquetebol.
As suas viagens eram todas de balão.
Visitava castelos só para ver as balas enormes dos canhões.
Na fábrica de vidro, onde era operário, fazia berlindes.
Se estava irritado
punha-se a gritar -
Só saía à noite quando havia lua cheia.
Casou com uma rapariga redonda.
O seu desejo agora é ter uma filha leve e branca como uma
bola de ping-pong e um filho forte e duro como uma bola de
futebol.
O Maluquinho da Bola,  Luísa Ducla Soares

O Maluquinho da Bola, Luísa Ducla Soares