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E D U C A Ç Ã O N Ã O - F O R M A L /A R T I G O S

O DIÁLOGO ENTRE                                                                     A idéia, então, foi trazer o artista para perto do fazer científico, para
CIÊNCIA E ARTE                                                                      d e n t rodo laboratório, fazendo desse espaço tão distante do faze r
                                                                                    artístico mais uma fonte de inspiração. Assim, quem sabe, podería-
                                                                                    mos utilizar a mesma linguagem que a obscureceu para mostrar a
                                                                                    ciência como mais uma das atividades do homem, tão bela ou apa-
Diucênio Rangel                                                                     vorante quanto qualquer outra, e sem a qual nossa sobrevivência se




V
                                                                                    tornaria bem mais difícil.
                    ários autores, revistos por Turney (1), acreditam que           O artista precisa conhecer o tema sobre o qual vai executar sua obra.
                    o romance Frankenstein, de Mary Shelley, foi funda-             Poucas são, porém, as manifestações artísticas que se dedicam, por
                    mental no estabelecimento de uma visão negativa da              exemplo, a interpretar as formas dos transportadores de membrana
                    ciência, mostrando pela primeira vez a imagem do                mitocondrial ou o “canto do cisne na apoptose celular”. Mas... e se
                    cientista tomado pela paixão e pela loucura, “crian-            o artista convivesse com o cientista no laboratório, se visse os expe-
do” um monstro que foge ao seu controle e ameaça a sociedade.                       rimentos e a carga emocional que despertam no pesquisador, se con-
Su rgia o “cientista louco” e a ciência como um instrumento perigoso                versassem diariamente sobre seus trabalhos, sobre bobagens... como
e incontrolável.                                                                    cinema, proteínas e a novela? Será que a ciência seria interpretada e
Segundo Wolpert, “foi Mary Shelley quem criou o monstro de                          mostrada de outra forma? Pois bem, desde então, esse convívio tem
Frankenstein, não foi a ciência; mas sua imagem é tão poderosa que                  sido pro d u t i vo. Publicamos dois livros em quadrinhos: O método
alimentou medos sobre a engenharia genética que dificilmente se-                    científico, atualmente na terceira edição, e A respiração e a Primeira
rão re m ov i d o s”(2).                                                            Lei da Termodinâmica ou... A alma da matéria, já na segunda edição
Particularmente sempre gostei da imagem de Frankenstein. Não                        (4). A abordagem do primeiro álbum, utilizando o método cientí-
poderia imaginar, acredito que igual a muitas pessoas, que para os                  fico como tema e enfatizando a sua importância para o avanço do
cientistas aquela alegoria seria tão nefasta. Hoje entendo o porquê.                conhecimento, derivou da constatação de que alunos de iniciação
Desde 1988, o Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ vem desen-                     científica e pós-graduandos não sabiam o que era o método cientí-
vo l vendo diversas iniciativas educacionais dirigidas a pro f e s s o res e        fico, num levantamento realizado com 50 estudantes. Baseado nesse
alunos do ensino fundamental e médio. Essas atividades e os proje-                  levantamento, o primeiro álbum foi planejado com a pretensão não
tos de pesquisa em educação a elas associados deram origem ao                       só de contar a história da evolução do conhecimento até os experi-
Núcleo de Educação em Ciência e, posteriormente, ao Programa de                     mentalistas e a descrição do método por Descartes mas, também, a
Educação, Difusão e Gestão em Biociências da pós-graduação em                       de enfatizar o impacto que a nova filosofia causou na sociedade. O
química biológica. Em 1995 fui apresentado ao professor Leopoldo                    objetivo principal foi contar esta história de forma agradável e
de Meis. Acabara de me formar em gravura pela Escola de Belas Artes                 atraente, evitando entediar o leitor.
da UFRJ e fui indicado por uma professora de pintura chamada Lur-                   A experiência com o primeiro álbum serviu de estímulo e mostrou
des Barreto, amiga em comum. O Núcleo de Educação em Ciência                        que era possível tratar um tema acadêmico com a linguagem das gra-
iniciava uma nova linha de trabalho que visava à confecção de livros                phic nove l s. Decidiu-se, então, iniciar um segundo álbum, com o
ilustrados contando episódios da ciência, unindo artistas e cientis-                apoio da Academia Brasileira de Ciências. Dessa vez, escolhemos
tas. Aceitei a proposta e sugeri que fizéssemos quadrinhos, área que                um tema bastante amplo, a Primeira Lei da Termodinâmica. Esse
domino, o que tornaria mais fácil desenvolver o projeto.                            álbum contém capítulos que abordam diversos tópicos de destaque
O livro de Ma ry Shelley é considerado o primeiro livro de ficção                   na história da bioquímica, desde as primeiras noções sobre a compo-
científica, mas o tratamento dado à figura dos cientistas nas obras de              sição da matéria viva até a descoberta da interconversão da energia,
ficção científica que o sucederam, não melhora a imagem do cien-                    passando pela alquimia e sua associação com o empirismo e o
tista. Quando foi feito um estudo em que se pediu que crianças, ado-                mágico, e o surgimento e queda da teoria do flogístico. Tal como no
lescentes e adultos definissem um cientista, utilizando a linguagem                 caso de O método científico, ele inicia e termina com imagens enfo-
não-verbal do desenho, a imagem que apareceu com enorme fre-                        cando o lado não materialista da ciência. São imagens oníricas que
qüência, foi negativa. Lá estava o cientista com olhos esbugalhados                 buscam seduzir o leitor para a ciência. O objetivo do álbum foi bem
e cara de louco, cabelos desgrenhados, raios e trovões em seus tubos                caracterizado pelo artista plástico Marcos Varela, professor da escola
de ensaio. De maneira semelhante, em outro estudo, uma propor-                      de Belas Artes, mestre em antropologia da arte:
ção considerável de estudantes universitários manifestou-se negati-                 “As imagens, ora oníricas na abertura de capítulos, ora objetivas quando
vamente com relação à ciência e aos cientistas (3). Essa visão estereo-             ilustram experimentos, facilitam a compreensão destas noções científi-
tipada do cientista é difundida em diversos meios de comunicação                    cas surgidas ao longo da história humana”.
muito poderosos (cinema, quadrinhos, desenhos animados, televi-                      Nenhum dos álbuns publicados foi comercializado por livrarias ou
são) e contribui para dificultar o entendimento do que seja ciência e               bancas de jornal. A metade da primeira edição de O método cientí-
qual a sua importância na vida da sociedade. Sob o ponto de vista da                fico foi transferida à Fapesp pela Academia Brasileira de Ciências
política, torna-se difícil esperar um suporte à ciência por parte da                que, por sua vez, os distribuiu para escolas e centros universitários.
sociedade se esta tem uma visão distorcida da profissão.                            Freqüentemente, os livros são enviados, a preço de custo, para pro-

                                                                               36
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fessores de diversas regiões do país, que os solicitam via correio ele- p a rte por uma platéia das mais diversas idades, cuja formação não
trônico. A maior parte dos exemplares dos álbuns publicados foi dis-    temos a mínima idéia.
tribuída gratuitamente a:                                               Foram, também, produzidos dois vídeos: A mitocôndria em três atos,
   Alunos e pro f e s s o res de escolas que freqüentaram os cursos de  que mostra o funcionamento dessa organela celular, e A explosão do
férias do programa de educação em ciências do De p a rtamento de        saber, que fala sobre as dificuldades advindas do aumento do conhe-
Bioquímica Médica, ICB/UFRJ, hoje, IBqM.                                cimento nos últimos duzentos anos. Estamos finalizando um ter-
   Salas de leitura de escolas públicas de São Paulo (Campinas, Soro-   ceiro vídeo, A contração muscular, e um terceiro livro em quadrinhos
caba, Piracicaba), Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Pelotas, Caxias     contando a história das vacinas. Nos vídeos buscamos utilizar as
do Sul, Santa Maria), Minas Gerais (Belo Horizonte) e Bahia (Sal-       imagens e os sons para cativar o espectador e emocioná-lo, tornando
vador). Nestes casos, os livros foram solicitados por pró-reitores de   os temas abordados mais divertidos e de fácil assimilação. São utili-
universidades federais que, por sua vez, os distribuíam entre as esco-  zados programas de animação 3D, modelagem e edição de som e
las públicas da região.                                                 imagem. Cada vídeo tem uma duração aproximada de 25 minutos,
   C o o rdenadorias regionais de ensino do município do Rio de         tendo sido planejados e confeccionados em nosso laboratório. A
Ja n e i ro, que se encarregaram de distribuir nas salas de leitura das criação das imagens foi sempre acompanhada de perto por especia-
escolas públicas.                                                       listas dos assuntos tratados, visando sempre ter como produto final
Montamos, também, uma peça teatral baseada em livros e artigos de       a informação correta transmitida de forma lúdica.
Leopoldo de Meis (5): O método científico. A primeira iniciativa de     Quando convidado a ilustrar uma cena de livro ou uma história em
encenar a peça surgiu nos cursos de férias que, regularmente, o         quadrinhos, o ilustrador precisa conhecer o assunto a ser tratado, às
IBqM oferece para alunos e professores de ensino médio. Tradicio-       vezes com detalhes que normalmente escapariam a percepção de
nalmente, a última atividade do curso costuma ser uma palestra          quem só imagina a cena. Se for alguma imagem que retrate uma
apresentada por um cientista ou educador de                                                    época específica, ou um personagem histórico, o
renome nacional. Em 1999, não foi possível contar                                              ilustrador parte para a pesquisa em livros, fotos, fil-
com a presença do conferencista. Decidimos,                EM SUA ÉPOCA,                       mes que retratem a época, qualquer referência que
então, encerrar o curso com uma palestra, mas                                                  dê credibilidade a seu trabalho final. Nossos livros
                                                           MARY SHELLEY
substituindo a projeção de slides e transparências                                             exigiram esse tipo de pesquisa.
por cenas interpretadas pelos estudantes de pós-               CRIOU UMA                       Em sua época, Ma ry Shelley criou uma ótima his-
graduação e iniciação científica, monitores do ÓTIMA HISTÓRIA, tória, porém distante do que é a ciência. Ho j e ,
c u r s o. A proposta foi aceita por todos e coube a               PORÉM                       podemos usar a linguagem áudio visual para con-
mim a tarefa de montar cenários e planejar as cenas          DISTANTE DO                       quistar o público e mostrar a ciência desmistifi-
junto com Leopoldo de Meis, no curto prazo de
                                                           QUE É A CIÊNCIA cada, como uma atividade humana, portanto pas-
duas semanas. A partir do primeiro ensaio, estabe-                                             sível das paixões que toda atividade humana traz
leceu-se um clima que favo recia a interação entre                                             c o n s i g o.Ainda bem!
todos os membros do grupo, que participaram ati-
vamente, sugerindo e argumentando sobre a melhor forma de trans-        Diucênio Rangel é doutor em química biológica, área de concentração em educação, gestão e
mitir para o público os conceitos que se desejava dramatizar em cada    difusão em ciência, pelo Instituto de Bioquímica Médica, ICB/UFRJ.
cena. Os resultados da primeira apresentação foram encorajadores.
Com essa primeira experiência, formou-se um grupo de trabalho           NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
com a proposta de aprimorar aquela apresentação para que pudesse
ser apresentada em qualquer espaço com o objetivo de divulgar a         1. Turney, J. Frankenstein’s footsteps. Science, genetics and popular cul-
ciência. Sob o ponto de vista da didática, a peça apresenta uma breve        ture. New Haven and London: Yale University Press. 1998.
história da evolução do saber, desde o homem das cavernas até os        2. Wolpert, L. The unnatural nature of science. London: Farber and Far-
dias atuais. Em diversas cenas, procura-se desmitificar os estereóti-        ber. 1993.
pos populares de que “os cientistas são seres eminentemente lógicos     3. de Meis L. et al. “The stereotyped image of the scientist among stu-
e desumanos” (6).                                                            d e nts of diffe rent co u nt r i es. Evoking the alchemist?” Biochemical
A dramatização, com duração de pouco mais de uma hora, visa                  Education: 21, 75-81, 1993-b.
atingir um público eclético, de qualquer idade e nível educacional.     4. O método científi co, publicado em 1997 com apoio da Academia Bra s i-
Essa peça passou a integrar o programa dos cursos de férias e, graças        leira de Ciências e do Co n selho Nacional de Desenvolvimento Científico
à divulgação feita por pessoas da platéia, passamos a receber dive r-        e Tecnológico(CNPq); A respiração e a 1ª Lei da Termodinâmicaou... A
sos convites para apresentá-la, de início no próprio estado, e poste-        almada matéria,publicado com o apoioda Academia Brasileira de Ciên-
riormente em outros estados do Brasil, como São Paulo, Rio                   cias. Podem ser requisitados pelo e-mail demeis@bioqmed.ufrj.br
Grande do Sul, Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais. Em 28 apre-        5. de Meis, L. O perfil da ciência brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ. 1996.
sentações a peça foi vista por cerca de oito mil pessoas, num público   6. de Meis, L. Ciência e educação – O conflito humano-tecnológico. Rio
composto por estudantes de ensino médio, universitário e uma boa             de Janeiro: Graftex Editora, 1998.


                                                                               37

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O diálogo entre ciência e arte

  • 1. E D U C A Ç Ã O N Ã O - F O R M A L /A R T I G O S O DIÁLOGO ENTRE A idéia, então, foi trazer o artista para perto do fazer científico, para CIÊNCIA E ARTE d e n t rodo laboratório, fazendo desse espaço tão distante do faze r artístico mais uma fonte de inspiração. Assim, quem sabe, podería- mos utilizar a mesma linguagem que a obscureceu para mostrar a ciência como mais uma das atividades do homem, tão bela ou apa- Diucênio Rangel vorante quanto qualquer outra, e sem a qual nossa sobrevivência se V tornaria bem mais difícil. ários autores, revistos por Turney (1), acreditam que O artista precisa conhecer o tema sobre o qual vai executar sua obra. o romance Frankenstein, de Mary Shelley, foi funda- Poucas são, porém, as manifestações artísticas que se dedicam, por mental no estabelecimento de uma visão negativa da exemplo, a interpretar as formas dos transportadores de membrana ciência, mostrando pela primeira vez a imagem do mitocondrial ou o “canto do cisne na apoptose celular”. Mas... e se cientista tomado pela paixão e pela loucura, “crian- o artista convivesse com o cientista no laboratório, se visse os expe- do” um monstro que foge ao seu controle e ameaça a sociedade. rimentos e a carga emocional que despertam no pesquisador, se con- Su rgia o “cientista louco” e a ciência como um instrumento perigoso versassem diariamente sobre seus trabalhos, sobre bobagens... como e incontrolável. cinema, proteínas e a novela? Será que a ciência seria interpretada e Segundo Wolpert, “foi Mary Shelley quem criou o monstro de mostrada de outra forma? Pois bem, desde então, esse convívio tem Frankenstein, não foi a ciência; mas sua imagem é tão poderosa que sido pro d u t i vo. Publicamos dois livros em quadrinhos: O método alimentou medos sobre a engenharia genética que dificilmente se- científico, atualmente na terceira edição, e A respiração e a Primeira rão re m ov i d o s”(2). Lei da Termodinâmica ou... A alma da matéria, já na segunda edição Particularmente sempre gostei da imagem de Frankenstein. Não (4). A abordagem do primeiro álbum, utilizando o método cientí- poderia imaginar, acredito que igual a muitas pessoas, que para os fico como tema e enfatizando a sua importância para o avanço do cientistas aquela alegoria seria tão nefasta. Hoje entendo o porquê. conhecimento, derivou da constatação de que alunos de iniciação Desde 1988, o Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ vem desen- científica e pós-graduandos não sabiam o que era o método cientí- vo l vendo diversas iniciativas educacionais dirigidas a pro f e s s o res e fico, num levantamento realizado com 50 estudantes. Baseado nesse alunos do ensino fundamental e médio. Essas atividades e os proje- levantamento, o primeiro álbum foi planejado com a pretensão não tos de pesquisa em educação a elas associados deram origem ao só de contar a história da evolução do conhecimento até os experi- Núcleo de Educação em Ciência e, posteriormente, ao Programa de mentalistas e a descrição do método por Descartes mas, também, a Educação, Difusão e Gestão em Biociências da pós-graduação em de enfatizar o impacto que a nova filosofia causou na sociedade. O química biológica. Em 1995 fui apresentado ao professor Leopoldo objetivo principal foi contar esta história de forma agradável e de Meis. Acabara de me formar em gravura pela Escola de Belas Artes atraente, evitando entediar o leitor. da UFRJ e fui indicado por uma professora de pintura chamada Lur- A experiência com o primeiro álbum serviu de estímulo e mostrou des Barreto, amiga em comum. O Núcleo de Educação em Ciência que era possível tratar um tema acadêmico com a linguagem das gra- iniciava uma nova linha de trabalho que visava à confecção de livros phic nove l s. Decidiu-se, então, iniciar um segundo álbum, com o ilustrados contando episódios da ciência, unindo artistas e cientis- apoio da Academia Brasileira de Ciências. Dessa vez, escolhemos tas. Aceitei a proposta e sugeri que fizéssemos quadrinhos, área que um tema bastante amplo, a Primeira Lei da Termodinâmica. Esse domino, o que tornaria mais fácil desenvolver o projeto. álbum contém capítulos que abordam diversos tópicos de destaque O livro de Ma ry Shelley é considerado o primeiro livro de ficção na história da bioquímica, desde as primeiras noções sobre a compo- científica, mas o tratamento dado à figura dos cientistas nas obras de sição da matéria viva até a descoberta da interconversão da energia, ficção científica que o sucederam, não melhora a imagem do cien- passando pela alquimia e sua associação com o empirismo e o tista. Quando foi feito um estudo em que se pediu que crianças, ado- mágico, e o surgimento e queda da teoria do flogístico. Tal como no lescentes e adultos definissem um cientista, utilizando a linguagem caso de O método científico, ele inicia e termina com imagens enfo- não-verbal do desenho, a imagem que apareceu com enorme fre- cando o lado não materialista da ciência. São imagens oníricas que qüência, foi negativa. Lá estava o cientista com olhos esbugalhados buscam seduzir o leitor para a ciência. O objetivo do álbum foi bem e cara de louco, cabelos desgrenhados, raios e trovões em seus tubos caracterizado pelo artista plástico Marcos Varela, professor da escola de ensaio. De maneira semelhante, em outro estudo, uma propor- de Belas Artes, mestre em antropologia da arte: ção considerável de estudantes universitários manifestou-se negati- “As imagens, ora oníricas na abertura de capítulos, ora objetivas quando vamente com relação à ciência e aos cientistas (3). Essa visão estereo- ilustram experimentos, facilitam a compreensão destas noções científi- tipada do cientista é difundida em diversos meios de comunicação cas surgidas ao longo da história humana”. muito poderosos (cinema, quadrinhos, desenhos animados, televi- Nenhum dos álbuns publicados foi comercializado por livrarias ou são) e contribui para dificultar o entendimento do que seja ciência e bancas de jornal. A metade da primeira edição de O método cientí- qual a sua importância na vida da sociedade. Sob o ponto de vista da fico foi transferida à Fapesp pela Academia Brasileira de Ciências política, torna-se difícil esperar um suporte à ciência por parte da que, por sua vez, os distribuiu para escolas e centros universitários. sociedade se esta tem uma visão distorcida da profissão. Freqüentemente, os livros são enviados, a preço de custo, para pro- 36
  • 2. E D U C A Ç Ã O N Ã O - F O R M A L /A R T I G O S fessores de diversas regiões do país, que os solicitam via correio ele- p a rte por uma platéia das mais diversas idades, cuja formação não trônico. A maior parte dos exemplares dos álbuns publicados foi dis- temos a mínima idéia. tribuída gratuitamente a: Foram, também, produzidos dois vídeos: A mitocôndria em três atos, Alunos e pro f e s s o res de escolas que freqüentaram os cursos de que mostra o funcionamento dessa organela celular, e A explosão do férias do programa de educação em ciências do De p a rtamento de saber, que fala sobre as dificuldades advindas do aumento do conhe- Bioquímica Médica, ICB/UFRJ, hoje, IBqM. cimento nos últimos duzentos anos. Estamos finalizando um ter- Salas de leitura de escolas públicas de São Paulo (Campinas, Soro- ceiro vídeo, A contração muscular, e um terceiro livro em quadrinhos caba, Piracicaba), Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Pelotas, Caxias contando a história das vacinas. Nos vídeos buscamos utilizar as do Sul, Santa Maria), Minas Gerais (Belo Horizonte) e Bahia (Sal- imagens e os sons para cativar o espectador e emocioná-lo, tornando vador). Nestes casos, os livros foram solicitados por pró-reitores de os temas abordados mais divertidos e de fácil assimilação. São utili- universidades federais que, por sua vez, os distribuíam entre as esco- zados programas de animação 3D, modelagem e edição de som e las públicas da região. imagem. Cada vídeo tem uma duração aproximada de 25 minutos, C o o rdenadorias regionais de ensino do município do Rio de tendo sido planejados e confeccionados em nosso laboratório. A Ja n e i ro, que se encarregaram de distribuir nas salas de leitura das criação das imagens foi sempre acompanhada de perto por especia- escolas públicas. listas dos assuntos tratados, visando sempre ter como produto final Montamos, também, uma peça teatral baseada em livros e artigos de a informação correta transmitida de forma lúdica. Leopoldo de Meis (5): O método científico. A primeira iniciativa de Quando convidado a ilustrar uma cena de livro ou uma história em encenar a peça surgiu nos cursos de férias que, regularmente, o quadrinhos, o ilustrador precisa conhecer o assunto a ser tratado, às IBqM oferece para alunos e professores de ensino médio. Tradicio- vezes com detalhes que normalmente escapariam a percepção de nalmente, a última atividade do curso costuma ser uma palestra quem só imagina a cena. Se for alguma imagem que retrate uma apresentada por um cientista ou educador de época específica, ou um personagem histórico, o renome nacional. Em 1999, não foi possível contar ilustrador parte para a pesquisa em livros, fotos, fil- com a presença do conferencista. Decidimos, EM SUA ÉPOCA, mes que retratem a época, qualquer referência que então, encerrar o curso com uma palestra, mas dê credibilidade a seu trabalho final. Nossos livros MARY SHELLEY substituindo a projeção de slides e transparências exigiram esse tipo de pesquisa. por cenas interpretadas pelos estudantes de pós- CRIOU UMA Em sua época, Ma ry Shelley criou uma ótima his- graduação e iniciação científica, monitores do ÓTIMA HISTÓRIA, tória, porém distante do que é a ciência. Ho j e , c u r s o. A proposta foi aceita por todos e coube a PORÉM podemos usar a linguagem áudio visual para con- mim a tarefa de montar cenários e planejar as cenas DISTANTE DO quistar o público e mostrar a ciência desmistifi- junto com Leopoldo de Meis, no curto prazo de QUE É A CIÊNCIA cada, como uma atividade humana, portanto pas- duas semanas. A partir do primeiro ensaio, estabe- sível das paixões que toda atividade humana traz leceu-se um clima que favo recia a interação entre c o n s i g o.Ainda bem! todos os membros do grupo, que participaram ati- vamente, sugerindo e argumentando sobre a melhor forma de trans- Diucênio Rangel é doutor em química biológica, área de concentração em educação, gestão e mitir para o público os conceitos que se desejava dramatizar em cada difusão em ciência, pelo Instituto de Bioquímica Médica, ICB/UFRJ. cena. Os resultados da primeira apresentação foram encorajadores. Com essa primeira experiência, formou-se um grupo de trabalho NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS com a proposta de aprimorar aquela apresentação para que pudesse ser apresentada em qualquer espaço com o objetivo de divulgar a 1. Turney, J. Frankenstein’s footsteps. Science, genetics and popular cul- ciência. Sob o ponto de vista da didática, a peça apresenta uma breve ture. New Haven and London: Yale University Press. 1998. história da evolução do saber, desde o homem das cavernas até os 2. Wolpert, L. The unnatural nature of science. London: Farber and Far- dias atuais. Em diversas cenas, procura-se desmitificar os estereóti- ber. 1993. pos populares de que “os cientistas são seres eminentemente lógicos 3. de Meis L. et al. “The stereotyped image of the scientist among stu- e desumanos” (6). d e nts of diffe rent co u nt r i es. Evoking the alchemist?” Biochemical A dramatização, com duração de pouco mais de uma hora, visa Education: 21, 75-81, 1993-b. atingir um público eclético, de qualquer idade e nível educacional. 4. O método científi co, publicado em 1997 com apoio da Academia Bra s i- Essa peça passou a integrar o programa dos cursos de férias e, graças leira de Ciências e do Co n selho Nacional de Desenvolvimento Científico à divulgação feita por pessoas da platéia, passamos a receber dive r- e Tecnológico(CNPq); A respiração e a 1ª Lei da Termodinâmicaou... A sos convites para apresentá-la, de início no próprio estado, e poste- almada matéria,publicado com o apoioda Academia Brasileira de Ciên- riormente em outros estados do Brasil, como São Paulo, Rio cias. Podem ser requisitados pelo e-mail demeis@bioqmed.ufrj.br Grande do Sul, Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais. Em 28 apre- 5. de Meis, L. O perfil da ciência brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ. 1996. sentações a peça foi vista por cerca de oito mil pessoas, num público 6. de Meis, L. Ciência e educação – O conflito humano-tecnológico. Rio composto por estudantes de ensino médio, universitário e uma boa de Janeiro: Graftex Editora, 1998. 37