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O CAVALEIRO, ANDANTE...

                                       Coisas da minha terra.


Data e hora, como se houvesse uma obrigação a cumprir, ele saia
de casa. Lembro-me bem ainda daquela figura apressada, quase
sempre nos mesmos horários, como alguém que tendo uma tarefa
delegada pelos céus dela fazia o sacro ritual. E lá estava ele a
desfilar sua triste imagem alta e magra pelas ruas de Itabira. Ia a
passos largos como se estivesse medindo a distância a percorrer.

Ao sair pelos portais do seu castelo olhava à esquerda e para o
alto, mirando o palácio da rainha protetora da boa saúde. Ele se
benzia e fazia uma ligeira reverência tocando a máscara que havia
na imaginação. E se benzia dos pés à cabeça. Depois olhava para
direita e, esticando seu magro braço, apontava-o em riste como se
estivesse apontando uma lança e definia por onde seguiria
cavalgando. Só lhe faltava para completar sua indumentária,
armadura, espada, lança e escudo. Quem sabe, somente ele se
reconhecia, como se os estivesse trajando constantemente nas
suas andanças.

Nem mesmo o valoroso cavalo Rocinante e o gordo e inseparável
amigo Sancho caminhavam consigo. Ele os deixara de lado, pois,
viviam querendo demovê-lo da ideia de lutar contra os fantasmas
que povoavam sua mente. Onde ele via monstros que se ocultavam
sobre as mais distintas formas de moinhos de vento, quiçá, eram
escavadeiras/dragões que viviam comendo as montanhas de minas
e rodeadas por tratores/cupins gigantes e outras máquinas que
faziam o ritual satânico dos monstros comedores de paisagens. Os
devoradores das matas e das águas, ele precisava derrotar, antes
que a enorme serpente de ferro abastecida pelos celeiros reais
engolisse e transportasse morro abaixo, até o nível do mar, toda
matéria que havia no reino da sua Itabira do Mato-Dentro. A
serpente regurgitaria o ouro e outros produtos que comera dentro
dos monstros metálicos que navegariam para Além Mar.

Quem sabe ele, no afã de percorrer os tortuosos caminhos e
ladeiras da Rua Santana e Penha, buscava encontrar sua amada a
bela... Dulcinéia da Rua Santa Maria. Ninguém sabe ou se lembra
se o misterioso cavaleiro recebera seu título de “protetor” das mãos
do gordo Cardeal que nas suas vistosas e ricas vestimentas,
visitava estas terras. Naquelas horas o Cardeal batizava com água,
óleo e sal os súditos do reino que, dependendo das origens e
escudadas pelo brasão imperial, seriam reconhecidos dentro da
tradição, família e propriedade. E mais tarde quando tivessem altura
e porte real, tornar-se-iam menestréis, cavaleiros, ou bruxos que
subiriam ou não as colinas de ferro, para o embate do dia a dia nas
batalhas inglórias contra o dragão da maldade que seguia
devastando todo o reino.

Da sua infância nada sei até onde consigo lembra-me, parece que
já nascera homem feito, também não sei quando sumiu de Itabira.
Acho que ele virou paisagem.

Itabira-05/02/2010

CLAUDIONOR PINHEIRO

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O Cavaleiro

  • 1. O CAVALEIRO, ANDANTE... Coisas da minha terra. Data e hora, como se houvesse uma obrigação a cumprir, ele saia de casa. Lembro-me bem ainda daquela figura apressada, quase sempre nos mesmos horários, como alguém que tendo uma tarefa delegada pelos céus dela fazia o sacro ritual. E lá estava ele a desfilar sua triste imagem alta e magra pelas ruas de Itabira. Ia a passos largos como se estivesse medindo a distância a percorrer. Ao sair pelos portais do seu castelo olhava à esquerda e para o alto, mirando o palácio da rainha protetora da boa saúde. Ele se benzia e fazia uma ligeira reverência tocando a máscara que havia na imaginação. E se benzia dos pés à cabeça. Depois olhava para direita e, esticando seu magro braço, apontava-o em riste como se estivesse apontando uma lança e definia por onde seguiria cavalgando. Só lhe faltava para completar sua indumentária, armadura, espada, lança e escudo. Quem sabe, somente ele se reconhecia, como se os estivesse trajando constantemente nas suas andanças. Nem mesmo o valoroso cavalo Rocinante e o gordo e inseparável amigo Sancho caminhavam consigo. Ele os deixara de lado, pois, viviam querendo demovê-lo da ideia de lutar contra os fantasmas que povoavam sua mente. Onde ele via monstros que se ocultavam sobre as mais distintas formas de moinhos de vento, quiçá, eram escavadeiras/dragões que viviam comendo as montanhas de minas e rodeadas por tratores/cupins gigantes e outras máquinas que faziam o ritual satânico dos monstros comedores de paisagens. Os devoradores das matas e das águas, ele precisava derrotar, antes que a enorme serpente de ferro abastecida pelos celeiros reais engolisse e transportasse morro abaixo, até o nível do mar, toda matéria que havia no reino da sua Itabira do Mato-Dentro. A serpente regurgitaria o ouro e outros produtos que comera dentro dos monstros metálicos que navegariam para Além Mar. Quem sabe ele, no afã de percorrer os tortuosos caminhos e ladeiras da Rua Santana e Penha, buscava encontrar sua amada a bela... Dulcinéia da Rua Santa Maria. Ninguém sabe ou se lembra se o misterioso cavaleiro recebera seu título de “protetor” das mãos do gordo Cardeal que nas suas vistosas e ricas vestimentas,
  • 2. visitava estas terras. Naquelas horas o Cardeal batizava com água, óleo e sal os súditos do reino que, dependendo das origens e escudadas pelo brasão imperial, seriam reconhecidos dentro da tradição, família e propriedade. E mais tarde quando tivessem altura e porte real, tornar-se-iam menestréis, cavaleiros, ou bruxos que subiriam ou não as colinas de ferro, para o embate do dia a dia nas batalhas inglórias contra o dragão da maldade que seguia devastando todo o reino. Da sua infância nada sei até onde consigo lembra-me, parece que já nascera homem feito, também não sei quando sumiu de Itabira. Acho que ele virou paisagem. Itabira-05/02/2010 CLAUDIONOR PINHEIRO