SlideShare uma empresa Scribd logo
ARTE TEORIA · Sara Navarro




   O Arqueologismo na Escultura
   de Jorge Vieira




    Os objetos criados por Jorge Vieira transmitem algo de primitivo, arcaico ou arqueológico.
Algo que evoca a arte e a cultura de outros lugares e de outros tempos, algo que nos desperta ecos
de uma “terra antiga”.

        “Tem sido dito: nesta escultura perpassa a atração, a captação de algo que nos surge como
       primitivo, quase arcaico (ou “arqueológico” como disse Rocha de Sousa) e entretanto,
       transhistoricamente presente, no ser histórico e contemporâneo que nós somos.” (Gusmão,
       1998, p.28)

       “Rocha de Sousa, em 1971, dizia: ‘Uma linguagem que é ao mesmo tempo arrancada
       à memória de civilizações mortas, à visão popular e ao mito, ao percurso e ao poder da
       imaginação.’ (…) algumas constantes, elementos ou valores que permanecem de civilização
       para civilização, o espírito da formas que correspondem a uma experiência profunda de
       muitas gerações…” (Gusmão, 1998, p.28)

    Num salto entre milénios, que parte de uma atração pelas origens, pela arte antes da arte, a
obra de Jorge Vieira faz uma conexão entre os processos criativos dos objetos mais arcaicos ou re-
motos e a criação mais atual. Situada num “tempo fora do tempo”, responde a um fascínio pelos
artefactos vindos de mundos extintos e enigmáticos.
    O próprio Jorge Vieira fala da sua admiração pelos tempos antigos, do Mediterrâneo, da cul-
tura ibérica, das artes primitivas, da escultura africana, grega, etrusca, micénica.
    Estas referências mais antigas fundem-se, na sua obra, usando certa liberdade de imaginação,
com outras mais recentes, como a obra de Picasso, Marino Marini e Henry Moore.
    É pois uma dualidade de referências, de um passado remoto (primitivo, arcaico ou arqueoló-
                                               ��������������������������������������������������
gico) e de uma modernidade (com influências abstractas e surrealistas), que transforma a obra
de Jorge Vieira num fértil campo de experimentações formais e simbólicas, num trabalho de
hibridização e síntese.
    O antigo e primordial, com a sua sugestão de magia de um fabuloso tempo ancestral, estão na
base da criação, em “estilo adaptado” ou “à maneira antiga”, de esculturas arqueologizantes,  gér-
menes da época atual.




                                               171
ARTE TEORIA · Sara Navarro




FIG. 1 · Jorge Vieira, Sem Título, 1957, bronze.         FIG. 2 · Jorge Vieira, Monumento ao Prisioneiro Político,
MNAC – Museu do Chiado                                   (maquete) 1952, bronze. MNAC – Museu do Chiado



          “A sua escultura inscreve na modernidade radical, que consubstancia a metáfora de uma
         dimensão arqueológica do inconsciente na deriva de um fundo mítico imemorial ao encon-
         tro de uma corporalidade modernista.” (Lapa, 1995, p.17)

    A obra de Jorge Vieira funciona como uma metáfora que opera no deslocamento entre o
sentido histórico das suas referências e o imaginário do artista, que possibilita novas relações for-
mais e simbólicas. O seu olhar entrou nos gestos dos produtores ancestrais, procurou reproduzi-
-los e senti-los como seus.
    O material de trabalho eleito por Jorge Vieira foi o barro, “mais quente e mais sensual, vivo e
agradável”, como ele próprio refere. Este material, pela sua maleabilidade, permitiu-lhe explorar
o gesto, ligando-o a um valor simbólico associado a uma substancialidade terrestre, que coloca o
acento no primitivismo/arqueologismo como referência essencial da sua obra.
    Com o primitivismo ou, melhor dizendo, o arqueologismo como caminho para a criação, Jor-
ge Vieira busca uma essência de formas em que procura desenterrar um ideal de autenticidade
e pureza criativa.
    Jorge Vieira anuncia um retorno da escultura à produção artesanal. A sua obra invoca as
práticas primitivas da produção de objetos e conota a prática da escultura com um valor cultural
arcaico, quase arquetípico. Explora a relação entre a mão e a matéria, no sentido do “saber fazer”
artesanal, como forma geradora da obra.

         “A sua mão não esculpia, acariciava o barro como se acaricia o corpo de uma mulher, tudo
         o que ele fez está ligado à terra, pés fincados no chão (geralmente três), o resto virado para
         o céu, para a esperança, para a liberdade.” (Castello Lopes, 1998, p.70)




                                                   172
O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira




FIG. 3 · Jorge Vieira, Sem Título, 1956, bronze.
MNAC – Museu do Chiado



    Há no trabalho de Jorge Vieira uma série de personagens ou figuras a que o autor ciclicamente
retorna: os casais de amantes, as ilustrações alegóricas, os nus eróticos, as personagens dos mitos
pagãos mediterrânicos, o touro, o cavalo. Em termos formais, sobressaem as peças assentes em
tripés, os jogos de cheios e vazios, a associação livre e automática de formas e o absurdo de algu-
mas associações anatómicas: “os corpos fundem-se, derivam uns dos outros, geram uma nova
anatomia” (Pinharanda, 1998, p.17).

        “A fantasia é posta ao serviço de um propósito escultórico, diretamente relacionado com
        o tratamento da forma e a sua intervenção no espaço. Os volumes são pesados, permane-
        cem firmes sobre a terra e as formas sujeitas a um processo esquematizador, de acordo
        com a essencialidade que o artista teve sempre presente como objectivo, mas agora refor-
        muladas de pressupostos figurativos, deixando de lado conceitos abstractos e adoptando
        um novo sentido de modernidade, baseado na construção, ruptura, deformação e adição
        de anatomias. Ou seja, de volumes escultóricos e de sentidos semânticos subversivos do
        orgânico onde a modernidade constrói uma desregulada retórica da essencialidade e da
        recriação, da depuração e da sensualidade, do poético e do popular.” (Lapa, 1995, p.96)

    Partindo de realidades perdidas, as formas criadas pelas mãos do escultor põem o tempo
presente em comunicação com passados remotíssimos. Pela transfiguração, surgem figuras ar-
quetípicas, reconhecíveis, ainda que com novas simbologias. Figuras com significados sempre
múltiplos, com sentidos construídos e reconstruídos…
    Jorge Vieira coloca-se, de forma mais ou menos consciente, numa “cadeia de sequências
formais”, numa história milenar onde não existe nada que não possa voltar a ser atual (Ku-
bler, 1962). A atenção do artista dirige-se, muitas vezes, não para o original, mas para a cópia,




                                                   173
Sara Navarro · O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira




reprodução ou repetição, que conferem sentido às suas criações artísticas ao mesmo tempo que
as tornam reconhecíveis. Jorge Vieira vê a essência da prática artística não na originalidade, que
cria a partir do nada, mas na pequena variação�������������������������������������������
                                               ; entende o comportamento humano como mani-
festação essencialmente ritual.

         “As coisas possuem uma ‘idade sistémica’ que pouca relação tem com a idade cronológica:
         as obras humanas são como as estrelas cuja luz partiu em direção ao observador muito
         antes de lhe aparecer.” (Perniola, 2003)

    Esta procura das raízes da arte leva à percepção da grande diversidade estética e cultural da
humanidade, assim como à relativização das concepções homogéneas e lineares da história; em
última análise, leva a aprender a ver. Permite ampliar as fronteiras da compreensão das formas
artísticas e a multiplicidade de normas ou critérios de representação existentes (Jiménez, 1996).

         “A arte que desempenha o seu papel tradicional de antecipação tem também a capacid-
         ade de se relacionar com modos de agir e de pensar que ressoam muito profundamente
         no imaginário dos homens e os enviam às raízes mesmas da sua civilização” (Tiberghien,
         2009)

    Nesta mimese de uma simbólica situada entre o imaginário e o histórico, há algo que man-
tém a obra de Jorge Vieira no território do sagrado, algo que garante o seu valor de substituição.
Os seus objetos, ou esculturas, funcionam como arquétipos que, modernamente, sugerem os
ídolos das antigas civilizações.

         “Nunca, nunca, a obra de arte se destina às novas gerações. Ela é oferenda ao inúmero
         povo dos mortos.” (Genet, 1999, p.19)




    Referências                                                  LAPA, P. (1995). O Immemorial e o Corpo na Escultura
CASTELLO LOPES, G. (1998). Jorge Vieira, Homem-                      de Jorge Vieira. In Jorge Vieira. Museu do Chiado.
    Sol. Lisboa: Parque Expo98.                                      Lisboa: Instituto Português de Museus, 17-26.
GUSMÃO, M. (1998). Cinco Pontos Sobre a Escultura de             LAPA, P. (1995). O Corpo no Corpo. In Jorge Vieira.
    Jorge Vieira. In Museu Jorge Vieira. Casa das Artes.             Museu do Chiado. Lisboa: Instituto Português de
    Beja: Câmara Municipal de Beja, 27-31.                           Museus, 96.
GENET, J. (1999). O Estúdio de Alberto Giacometti.               PINHARANDA, J. (1998). Corpos de Dentro de Corpos.
    Lisboa: Assírio & Alvim.                                         In Museu Jorge Vieira. Casa das Artes. Beja: C.
JIMÉNEZ, J. (1996). Las raíces del arte: El arte                     Municipal de Beja, 17-22.
    etnológico. In História del Arte. 1: El mundo                TIBERGHIEN, G. (2009) “Natureza, arte e formas
    antiguo. Alianza Editorial, 41-83.                               arcaicas.” In Resumo das conferências A Arte antes e
KUBLER, G. (1962). The Shape of Time: Remarks on the                 depois da Arte. No ano da inauguração do Museu do
    History of Things. New Haven (CT) Yale Univ. Press.              Côa. Lisboa: Culturgest.




                                                           174

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Marcio noronha
Marcio noronhaMarcio noronha
Marcio noronha
grupointerartes
 
ARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAIS
ARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAISARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAIS
ARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAIS
VIVIAN TROMBINI
 
Aula de apresentação ensino médio 01-02-13
Aula de apresentação ensino médio   01-02-13Aula de apresentação ensino médio   01-02-13
Aula de apresentação ensino médio 01-02-13
Andrea Prado
 
Exposição con(s)equência
Exposição con(s)equênciaExposição con(s)equência
Exposição con(s)equência
Claudio Silva
 
Introdução teoria arte_arq
Introdução teoria arte_arqIntrodução teoria arte_arq
Introdução teoria arte_arq
Wívian Diniz
 
Arte e água
Arte e águaArte e água
Arte e água
LelaUdesc
 
Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"
Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"
Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"
Evany Nascimento
 
Arte o que é
Arte   o que éArte   o que é
Arte o que é
Darli Corrêa Marinho
 
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
grupointerartes
 
Etnografia da duração, estudos de memoria coletiva
Etnografia da duração, estudos de memoria coletivaEtnografia da duração, estudos de memoria coletiva
Etnografia da duração, estudos de memoria coletiva
Ana Rocha
 
A arte na história
A arte na históriaA arte na história
A arte na história
Artedoiscmb Cmb
 
O que é arte?
O que é arte?O que é arte?
O que é arte?
Rafael Lucas da Silva
 
O que é arte?
O que é arte?O que é arte?
O que é arte?
IF - Baiano
 
Arte 1 médio slide
Arte 1 médio slideArte 1 médio slide
Arte 1 médio slide
Eponina Alencar
 
Entendendo a Arte. Prof. Garcia Junior
Entendendo a Arte. Prof. Garcia JuniorEntendendo a Arte. Prof. Garcia Junior
Lacerda; thamyres jaques mulheres o dinamismo dos corpos
Lacerda; thamyres jaques   mulheres o dinamismo dos corposLacerda; thamyres jaques   mulheres o dinamismo dos corpos
Lacerda; thamyres jaques mulheres o dinamismo dos corpos
Acervo_DAC
 
Aula 3 arte - 2º ano
Aula 3   arte - 2º anoAula 3   arte - 2º ano
Aula 3 arte - 2º ano
VIVIAN TROMBINI
 
A historia da_arte
A historia da_arteA historia da_arte
A historia da_arte
Ana Barreiros
 
Arte Educao
Arte EducaoArte Educao
Arte Educao
ednacaroni
 
O que é a arte
O que é a arteO que é a arte
O que é a arte
Ana Barreiros
 

Mais procurados (20)

Marcio noronha
Marcio noronhaMarcio noronha
Marcio noronha
 
ARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAIS
ARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAISARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAIS
ARTE - UEM - CONHECIMENTOS GERAIS
 
Aula de apresentação ensino médio 01-02-13
Aula de apresentação ensino médio   01-02-13Aula de apresentação ensino médio   01-02-13
Aula de apresentação ensino médio 01-02-13
 
Exposição con(s)equência
Exposição con(s)equênciaExposição con(s)equência
Exposição con(s)equência
 
Introdução teoria arte_arq
Introdução teoria arte_arqIntrodução teoria arte_arq
Introdução teoria arte_arq
 
Arte e água
Arte e águaArte e água
Arte e água
 
Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"
Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"
Leitura Semiótica da "Donzela Desnuda"
 
Arte o que é
Arte   o que éArte   o que é
Arte o que é
 
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
 
Etnografia da duração, estudos de memoria coletiva
Etnografia da duração, estudos de memoria coletivaEtnografia da duração, estudos de memoria coletiva
Etnografia da duração, estudos de memoria coletiva
 
A arte na história
A arte na históriaA arte na história
A arte na história
 
O que é arte?
O que é arte?O que é arte?
O que é arte?
 
O que é arte?
O que é arte?O que é arte?
O que é arte?
 
Arte 1 médio slide
Arte 1 médio slideArte 1 médio slide
Arte 1 médio slide
 
Entendendo a Arte. Prof. Garcia Junior
Entendendo a Arte. Prof. Garcia JuniorEntendendo a Arte. Prof. Garcia Junior
Entendendo a Arte. Prof. Garcia Junior
 
Lacerda; thamyres jaques mulheres o dinamismo dos corpos
Lacerda; thamyres jaques   mulheres o dinamismo dos corposLacerda; thamyres jaques   mulheres o dinamismo dos corpos
Lacerda; thamyres jaques mulheres o dinamismo dos corpos
 
Aula 3 arte - 2º ano
Aula 3   arte - 2º anoAula 3   arte - 2º ano
Aula 3 arte - 2º ano
 
A historia da_arte
A historia da_arteA historia da_arte
A historia da_arte
 
Arte Educao
Arte EducaoArte Educao
Arte Educao
 
O que é a arte
O que é a arteO que é a arte
O que é a arte
 

Semelhante a O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira - Sara Navarro

ApresentaçãOarte
ApresentaçãOarteApresentaçãOarte
ApresentaçãOarte
gicacanjica
 
Arte Africana
Arte AfricanaArte Africana
Arte Africana
Jucileide
 
Práticas artísticas contemporâneas algumas questões
Práticas artísticas contemporâneas algumas questõesPráticas artísticas contemporâneas algumas questões
Práticas artísticas contemporâneas algumas questões
Armando Oliveira
 
ARTES e LINGUAGENS NAS CIÊNCIAS HUMANAS
ARTES e LINGUAGENS  NAS CIÊNCIAS HUMANASARTES e LINGUAGENS  NAS CIÊNCIAS HUMANAS
ARTES e LINGUAGENS NAS CIÊNCIAS HUMANAS
HisrelBlog
 
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
grupointerartes
 
As vanguardasno inicio do século XX
As vanguardasno inicio do século XXAs vanguardasno inicio do século XX
As vanguardasno inicio do século XX
Miguel Duarte
 
Movimento neoconcreto
Movimento neoconcretoMovimento neoconcreto
Movimento neoconcreto
Junior Onildo
 
Artes 01 gênesis 1º ano diretrizes e pré-história
Artes 01 gênesis 1º ano  diretrizes e  pré-históriaArtes 01 gênesis 1º ano  diretrizes e  pré-história
Artes 01 gênesis 1º ano diretrizes e pré-história
hbilinha
 
Filosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidadeFilosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidade
Colégio Nova Geração COC
 
Filosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidadeFilosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidade
Colégio Nova Geração COC
 
Resumo da história das artes visuais.pptx
Resumo da história das artes visuais.pptxResumo da história das artes visuais.pptx
Resumo da história das artes visuais.pptx
SabrinaMarinho8
 
História da arte
História da arteHistória da arte
História da arte
IsabelaCristina419992
 
Criação do humano maquina
Criação do humano maquinaCriação do humano maquina
Criação do humano maquinaVenise Melo
 
Arte 1o2o ano 11.02.2014
Arte 1o2o ano 11.02.2014Arte 1o2o ano 11.02.2014
Arte 1o2o ano 11.02.2014
Júlio César Anjos
 
História da Arte
História da ArteHistória da Arte
História da Arte
Cátia Santos da Silva
 
Nery; maria edilze falbot nômades
Nery; maria edilze falbot   nômadesNery; maria edilze falbot   nômades
Nery; maria edilze falbot nômades
Acervo_DAC
 
Estética e poética
Estética e poéticaEstética e poética
Estética e poética
Fabiola Picanço
 
Panorama Momentos Artísticos da História
Panorama Momentos Artísticos da HistóriaPanorama Momentos Artísticos da História
Panorama Momentos Artísticos da História
Antonio Abreu
 
Performance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. Garoian
Performance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. GaroianPerformance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. Garoian
Performance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. Garoian
PIBID_Teatro2014
 
Introdução à arte
Introdução à arteIntrodução à arte
Introdução à arte
Ellen_A
 

Semelhante a O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira - Sara Navarro (20)

ApresentaçãOarte
ApresentaçãOarteApresentaçãOarte
ApresentaçãOarte
 
Arte Africana
Arte AfricanaArte Africana
Arte Africana
 
Práticas artísticas contemporâneas algumas questões
Práticas artísticas contemporâneas algumas questõesPráticas artísticas contemporâneas algumas questões
Práticas artísticas contemporâneas algumas questões
 
ARTES e LINGUAGENS NAS CIÊNCIAS HUMANAS
ARTES e LINGUAGENS  NAS CIÊNCIAS HUMANASARTES e LINGUAGENS  NAS CIÊNCIAS HUMANAS
ARTES e LINGUAGENS NAS CIÊNCIAS HUMANAS
 
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
O lugar da arte contemporânea e seu processo de patrimonialização. a historic...
 
As vanguardasno inicio do século XX
As vanguardasno inicio do século XXAs vanguardasno inicio do século XX
As vanguardasno inicio do século XX
 
Movimento neoconcreto
Movimento neoconcretoMovimento neoconcreto
Movimento neoconcreto
 
Artes 01 gênesis 1º ano diretrizes e pré-história
Artes 01 gênesis 1º ano  diretrizes e  pré-históriaArtes 01 gênesis 1º ano  diretrizes e  pré-história
Artes 01 gênesis 1º ano diretrizes e pré-história
 
Filosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidadeFilosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidade
 
Filosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidadeFilosofia e arte na modernidade
Filosofia e arte na modernidade
 
Resumo da história das artes visuais.pptx
Resumo da história das artes visuais.pptxResumo da história das artes visuais.pptx
Resumo da história das artes visuais.pptx
 
História da arte
História da arteHistória da arte
História da arte
 
Criação do humano maquina
Criação do humano maquinaCriação do humano maquina
Criação do humano maquina
 
Arte 1o2o ano 11.02.2014
Arte 1o2o ano 11.02.2014Arte 1o2o ano 11.02.2014
Arte 1o2o ano 11.02.2014
 
História da Arte
História da ArteHistória da Arte
História da Arte
 
Nery; maria edilze falbot nômades
Nery; maria edilze falbot   nômadesNery; maria edilze falbot   nômades
Nery; maria edilze falbot nômades
 
Estética e poética
Estética e poéticaEstética e poética
Estética e poética
 
Panorama Momentos Artísticos da História
Panorama Momentos Artísticos da HistóriaPanorama Momentos Artísticos da História
Panorama Momentos Artísticos da História
 
Performance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. Garoian
Performance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. GaroianPerformance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. Garoian
Performance Artística como Pedagogia de Resistência - Charles R. Garoian
 
Introdução à arte
Introdução à arteIntrodução à arte
Introdução à arte
 

Mais de arqueomike

Algarve informativo #213
Algarve informativo #213Algarve informativo #213
Algarve informativo #213
arqueomike
 
Algarve informativo #211
Algarve informativo #211Algarve informativo #211
Algarve informativo #211
arqueomike
 
Trilho Ambiental do Castelejo
Trilho Ambiental do CastelejoTrilho Ambiental do Castelejo
Trilho Ambiental do Castelejo
arqueomike
 
Estação da Biodiversidade da Boca do Rio
Estação da Biodiversidade da Boca do RioEstação da Biodiversidade da Boca do Rio
Estação da Biodiversidade da Boca do Rio
arqueomike
 
Programa II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do Bispo
Programa II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do BispoPrograma II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do Bispo
Programa II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do Bispo
arqueomike
 
Programa
ProgramaPrograma
Programa
arqueomike
 
Fam trip omíada vila do bispo
Fam trip omíada vila do bispoFam trip omíada vila do bispo
Fam trip omíada vila do bispo
arqueomike
 
Folheto Rota Omíada
Folheto Rota OmíadaFolheto Rota Omíada
Folheto Rota Omíada
arqueomike
 
Rocha das Gaivotas, Sagres, Vila do Bispo
Rocha das Gaivotas, Sagres, Vila do BispoRocha das Gaivotas, Sagres, Vila do Bispo
Rocha das Gaivotas, Sagres, Vila do Bispo
arqueomike
 
Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...
Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...
Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...
arqueomike
 
Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...
Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...
Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...
arqueomike
 
Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)
Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)
Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)
arqueomike
 
Programa DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes Mediterrânicas
Programa DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes MediterrânicasPrograma DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes Mediterrânicas
Programa DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes Mediterrânicas
arqueomike
 
Ingrina - Sophia de Mello Breyner
Ingrina - Sophia de Mello BreynerIngrina - Sophia de Mello Breyner
Ingrina - Sophia de Mello Breyner
arqueomike
 
Rota al-Mutamid - Sagres
Rota al-Mutamid - SagresRota al-Mutamid - Sagres
Rota al-Mutamid - Sagres
arqueomike
 
Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...
Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...
Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...
arqueomike
 
BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...
BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...
BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...
arqueomike
 
Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...
Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...
Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...
arqueomike
 
BWF'2014 - Arqueologia
BWF'2014 - ArqueologiaBWF'2014 - Arqueologia
BWF'2014 - Arqueologia
arqueomike
 
Vila do Bispo Arqueológica
Vila do Bispo ArqueológicaVila do Bispo Arqueológica
Vila do Bispo Arqueológica
arqueomike
 

Mais de arqueomike (20)

Algarve informativo #213
Algarve informativo #213Algarve informativo #213
Algarve informativo #213
 
Algarve informativo #211
Algarve informativo #211Algarve informativo #211
Algarve informativo #211
 
Trilho Ambiental do Castelejo
Trilho Ambiental do CastelejoTrilho Ambiental do Castelejo
Trilho Ambiental do Castelejo
 
Estação da Biodiversidade da Boca do Rio
Estação da Biodiversidade da Boca do RioEstação da Biodiversidade da Boca do Rio
Estação da Biodiversidade da Boca do Rio
 
Programa II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do Bispo
Programa II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do BispoPrograma II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do Bispo
Programa II Seminário Potencialidades de um Concelho - o Mar de Vila do Bispo
 
Programa
ProgramaPrograma
Programa
 
Fam trip omíada vila do bispo
Fam trip omíada vila do bispoFam trip omíada vila do bispo
Fam trip omíada vila do bispo
 
Folheto Rota Omíada
Folheto Rota OmíadaFolheto Rota Omíada
Folheto Rota Omíada
 
Rocha das Gaivotas, Sagres, Vila do Bispo
Rocha das Gaivotas, Sagres, Vila do BispoRocha das Gaivotas, Sagres, Vila do Bispo
Rocha das Gaivotas, Sagres, Vila do Bispo
 
Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...
Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...
Percurso Pedestre 'Pelas Encostas da Raposeira' (Vila do Bispo) - folheto (Vi...
 
Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...
Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...
Recursos Patrimoniais versus Sustentabilidade: o caso de Vila do Bispo (Ricar...
 
Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)
Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)
Lapa do Monte Francês, Sagres (NEUA, Espeleo Divulgação 5, 1986)
 
Programa DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes Mediterrânicas
Programa DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes MediterrânicasPrograma DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes Mediterrânicas
Programa DiVam 2015 - Património Imaterial e Raízes Mediterrânicas
 
Ingrina - Sophia de Mello Breyner
Ingrina - Sophia de Mello BreynerIngrina - Sophia de Mello Breyner
Ingrina - Sophia de Mello Breyner
 
Rota al-Mutamid - Sagres
Rota al-Mutamid - SagresRota al-Mutamid - Sagres
Rota al-Mutamid - Sagres
 
Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...
Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...
Contribuição para o conhecimento das Indústrias Mirenses de Vila Nova de M...
 
BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...
BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...
BERNARDES, J. P.; MORAIS, R.; VAZ PINTO, I; GUERSCHMAN, J. (2014) - Colmeias ...
 
Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...
Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...
Sagres - o Promontorium Sacrum: uma petrificada paisagem sagrada (SOARES, R.,...
 
BWF'2014 - Arqueologia
BWF'2014 - ArqueologiaBWF'2014 - Arqueologia
BWF'2014 - Arqueologia
 
Vila do Bispo Arqueológica
Vila do Bispo ArqueológicaVila do Bispo Arqueológica
Vila do Bispo Arqueológica
 

O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira - Sara Navarro

  • 1. ARTE TEORIA · Sara Navarro O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira Os objetos criados por Jorge Vieira transmitem algo de primitivo, arcaico ou arqueológico. Algo que evoca a arte e a cultura de outros lugares e de outros tempos, algo que nos desperta ecos de uma “terra antiga”. “Tem sido dito: nesta escultura perpassa a atração, a captação de algo que nos surge como primitivo, quase arcaico (ou “arqueológico” como disse Rocha de Sousa) e entretanto, transhistoricamente presente, no ser histórico e contemporâneo que nós somos.” (Gusmão, 1998, p.28) “Rocha de Sousa, em 1971, dizia: ‘Uma linguagem que é ao mesmo tempo arrancada à memória de civilizações mortas, à visão popular e ao mito, ao percurso e ao poder da imaginação.’ (…) algumas constantes, elementos ou valores que permanecem de civilização para civilização, o espírito da formas que correspondem a uma experiência profunda de muitas gerações…” (Gusmão, 1998, p.28) Num salto entre milénios, que parte de uma atração pelas origens, pela arte antes da arte, a obra de Jorge Vieira faz uma conexão entre os processos criativos dos objetos mais arcaicos ou re- motos e a criação mais atual. Situada num “tempo fora do tempo”, responde a um fascínio pelos artefactos vindos de mundos extintos e enigmáticos. O próprio Jorge Vieira fala da sua admiração pelos tempos antigos, do Mediterrâneo, da cul- tura ibérica, das artes primitivas, da escultura africana, grega, etrusca, micénica. Estas referências mais antigas fundem-se, na sua obra, usando certa liberdade de imaginação, com outras mais recentes, como a obra de Picasso, Marino Marini e Henry Moore. É pois uma dualidade de referências, de um passado remoto (primitivo, arcaico ou arqueoló- �������������������������������������������������� gico) e de uma modernidade (com influências abstractas e surrealistas), que transforma a obra de Jorge Vieira num fértil campo de experimentações formais e simbólicas, num trabalho de hibridização e síntese. O antigo e primordial, com a sua sugestão de magia de um fabuloso tempo ancestral, estão na base da criação, em “estilo adaptado” ou “à maneira antiga”, de esculturas arqueologizantes,  gér- menes da época atual. 171
  • 2. ARTE TEORIA · Sara Navarro FIG. 1 · Jorge Vieira, Sem Título, 1957, bronze. FIG. 2 · Jorge Vieira, Monumento ao Prisioneiro Político, MNAC – Museu do Chiado (maquete) 1952, bronze. MNAC – Museu do Chiado “A sua escultura inscreve na modernidade radical, que consubstancia a metáfora de uma dimensão arqueológica do inconsciente na deriva de um fundo mítico imemorial ao encon- tro de uma corporalidade modernista.” (Lapa, 1995, p.17) A obra de Jorge Vieira funciona como uma metáfora que opera no deslocamento entre o sentido histórico das suas referências e o imaginário do artista, que possibilita novas relações for- mais e simbólicas. O seu olhar entrou nos gestos dos produtores ancestrais, procurou reproduzi- -los e senti-los como seus. O material de trabalho eleito por Jorge Vieira foi o barro, “mais quente e mais sensual, vivo e agradável”, como ele próprio refere. Este material, pela sua maleabilidade, permitiu-lhe explorar o gesto, ligando-o a um valor simbólico associado a uma substancialidade terrestre, que coloca o acento no primitivismo/arqueologismo como referência essencial da sua obra. Com o primitivismo ou, melhor dizendo, o arqueologismo como caminho para a criação, Jor- ge Vieira busca uma essência de formas em que procura desenterrar um ideal de autenticidade e pureza criativa. Jorge Vieira anuncia um retorno da escultura à produção artesanal. A sua obra invoca as práticas primitivas da produção de objetos e conota a prática da escultura com um valor cultural arcaico, quase arquetípico. Explora a relação entre a mão e a matéria, no sentido do “saber fazer” artesanal, como forma geradora da obra. “A sua mão não esculpia, acariciava o barro como se acaricia o corpo de uma mulher, tudo o que ele fez está ligado à terra, pés fincados no chão (geralmente três), o resto virado para o céu, para a esperança, para a liberdade.” (Castello Lopes, 1998, p.70) 172
  • 3. O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira FIG. 3 · Jorge Vieira, Sem Título, 1956, bronze. MNAC – Museu do Chiado Há no trabalho de Jorge Vieira uma série de personagens ou figuras a que o autor ciclicamente retorna: os casais de amantes, as ilustrações alegóricas, os nus eróticos, as personagens dos mitos pagãos mediterrânicos, o touro, o cavalo. Em termos formais, sobressaem as peças assentes em tripés, os jogos de cheios e vazios, a associação livre e automática de formas e o absurdo de algu- mas associações anatómicas: “os corpos fundem-se, derivam uns dos outros, geram uma nova anatomia” (Pinharanda, 1998, p.17). “A fantasia é posta ao serviço de um propósito escultórico, diretamente relacionado com o tratamento da forma e a sua intervenção no espaço. Os volumes são pesados, permane- cem firmes sobre a terra e as formas sujeitas a um processo esquematizador, de acordo com a essencialidade que o artista teve sempre presente como objectivo, mas agora refor- muladas de pressupostos figurativos, deixando de lado conceitos abstractos e adoptando um novo sentido de modernidade, baseado na construção, ruptura, deformação e adição de anatomias. Ou seja, de volumes escultóricos e de sentidos semânticos subversivos do orgânico onde a modernidade constrói uma desregulada retórica da essencialidade e da recriação, da depuração e da sensualidade, do poético e do popular.” (Lapa, 1995, p.96) Partindo de realidades perdidas, as formas criadas pelas mãos do escultor põem o tempo presente em comunicação com passados remotíssimos. Pela transfiguração, surgem figuras ar- quetípicas, reconhecíveis, ainda que com novas simbologias. Figuras com significados sempre múltiplos, com sentidos construídos e reconstruídos… Jorge Vieira coloca-se, de forma mais ou menos consciente, numa “cadeia de sequências formais”, numa história milenar onde não existe nada que não possa voltar a ser atual (Ku- bler, 1962). A atenção do artista dirige-se, muitas vezes, não para o original, mas para a cópia, 173
  • 4. Sara Navarro · O Arqueologismo na Escultura de Jorge Vieira reprodução ou repetição, que conferem sentido às suas criações artísticas ao mesmo tempo que as tornam reconhecíveis. Jorge Vieira vê a essência da prática artística não na originalidade, que cria a partir do nada, mas na pequena variação������������������������������������������� ; entende o comportamento humano como mani- festação essencialmente ritual. “As coisas possuem uma ‘idade sistémica’ que pouca relação tem com a idade cronológica: as obras humanas são como as estrelas cuja luz partiu em direção ao observador muito antes de lhe aparecer.” (Perniola, 2003) Esta procura das raízes da arte leva à percepção da grande diversidade estética e cultural da humanidade, assim como à relativização das concepções homogéneas e lineares da história; em última análise, leva a aprender a ver. Permite ampliar as fronteiras da compreensão das formas artísticas e a multiplicidade de normas ou critérios de representação existentes (Jiménez, 1996). “A arte que desempenha o seu papel tradicional de antecipação tem também a capacid- ade de se relacionar com modos de agir e de pensar que ressoam muito profundamente no imaginário dos homens e os enviam às raízes mesmas da sua civilização” (Tiberghien, 2009) Nesta mimese de uma simbólica situada entre o imaginário e o histórico, há algo que man- tém a obra de Jorge Vieira no território do sagrado, algo que garante o seu valor de substituição. Os seus objetos, ou esculturas, funcionam como arquétipos que, modernamente, sugerem os ídolos das antigas civilizações. “Nunca, nunca, a obra de arte se destina às novas gerações. Ela é oferenda ao inúmero povo dos mortos.” (Genet, 1999, p.19) Referências LAPA, P. (1995). O Immemorial e o Corpo na Escultura CASTELLO LOPES, G. (1998). Jorge Vieira, Homem- de Jorge Vieira. In Jorge Vieira. Museu do Chiado. Sol. Lisboa: Parque Expo98. Lisboa: Instituto Português de Museus, 17-26. GUSMÃO, M. (1998). Cinco Pontos Sobre a Escultura de LAPA, P. (1995). O Corpo no Corpo. In Jorge Vieira. Jorge Vieira. In Museu Jorge Vieira. Casa das Artes. Museu do Chiado. Lisboa: Instituto Português de Beja: Câmara Municipal de Beja, 27-31. Museus, 96. GENET, J. (1999). O Estúdio de Alberto Giacometti. PINHARANDA, J. (1998). Corpos de Dentro de Corpos. Lisboa: Assírio & Alvim. In Museu Jorge Vieira. Casa das Artes. Beja: C. JIMÉNEZ, J. (1996). Las raíces del arte: El arte Municipal de Beja, 17-22. etnológico. In História del Arte. 1: El mundo TIBERGHIEN, G. (2009) “Natureza, arte e formas antiguo. Alianza Editorial, 41-83. arcaicas.” In Resumo das conferências A Arte antes e KUBLER, G. (1962). The Shape of Time: Remarks on the depois da Arte. No ano da inauguração do Museu do History of Things. New Haven (CT) Yale Univ. Press. Côa. Lisboa: Culturgest. 174